quinta-feira, 11 de março de 2021

Tudo é permitido a quem tem poder

Não sei vocês, mas eu tinha mais de 30 anos quando consegui comprar o meu primeiro apartamento, e ainda me lembro da sensação de pânico de escrever um cheque tão grande sem errar, e de me comprometer com uma dívida tão séria. Passar a escritura foi um momento marcante na minha vida. Levei uma caneta tinteiro muito bonita para assinar a papelada, e saí do cartório me sentindo adulta e importante.

Quem já comprou um imóvel com certo sacrifício se lembra desses detalhes, da escritura sendo lida pelo escrivão, do frio na barriga, da felicidade da casa própria.

Não sei por quê estou falando nisso.

Mentira: sei sim.


Como qualquer brasileira que acompanha o noticiário, estou desde a semana passada com uma mansão de R$ 6 milhões atravessada na garganta. Mas quando digo que não sei por que estou falando nisso, o que quero dizer é que não adianta falar disso. No Brasil é normal que os filhos dos presidentes sejam extremamente talentosos, no Brasil é normal enriquecer no serviço público e, no Brasil, é mais normal ainda o eleitor passar pano para a sua família política de estimação.

Rouba mas faz; isso é coisa do filho; desde 1500 se rouba e só agora estão reclamando; rouba mas não é o PT; rouba mas é o PT; os tucanos o Centrão os neoliberais a sua mãe.

Eu não quero mais falar disso.

Eu não quero mais ter a minha pauta sequestrada pelos mesmos assuntos, ano após ano, entra governo sai governo. A gente grita grita grita escreve escreve escreve e nada acontece nunca, nada se resolve, nada muda.

Mentira: muda sim.

Muda para pior.

Tudo é permitido a quem tem poder, a quem tem os advogados certos, os votos necessários, os desembargadores e os juízes da causa. Dinheiro é secundário, porque, para quem tem poder, dinheiro não é nada, apenas mais um item na conta dos amigos. Vale para todos os lados, porque há bons amigos em todo o arco da sociedade.

Os mais velhos devem se lembrar dessa expressão, “arco da sociedade”. Era muito comum no século passado, mais ou menos como “estado democrático de direito” é hoje. Não se ouvia um Discurso Sério, feito por Pessoa Ilibada, que não tivesse um “arco da sociedade” embutido.

Eu não quero mais falar dessas coisas, mas há sempre um escândalo mais recente para encobrir o último escândalo, e aos poucos os escândalos passados vão caindo no esquecimento. Alguém tinha que fazer um placar gigantesco em praça pública listando os escândalos todos, um por um, rolando em neon, para que ninguém se esquecesse nunca.

E aí nós cronistas de variedades poderíamos voltar a escrever sobre livros, gatos e capivaras (sim, há uma família nova na Lagoa).

* * *

Ainda é cedo para prever o que vai acontecer em 2022, sobretudo num país sem vacinas e sem vergonha como o nosso, mas que desgraça não conseguir virar a página e ficar rodando em falso desse jeito, remoendo um passado ancorado em si mesmo, sem visão para o futuro.

Na construção da ordem global pós-coronavírus, o Brasil não está sentado à mesa

Cada geração vivencia momentos históricos que transformam a política global, fechando uma era ou abrindo um novo ciclo geopolítico. Eventos como o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, os atentados do 11 de setembro, a entrada da China na OMC e a crise financeira global de 2008 rearranjaram o tabuleiro global, tanto dando mais espaço a países que conseguiram, por inteligência estratégica ou mera sorte, se adaptar melhor à nova realidade, quanto reduzindo a influência daqueles que não souberam aproveitar o novo contexto. Em momentos nos quais o mundo está em transição, países com lideranças bem-preparadas podem aproveitar para galgar posições, enquanto outros correm o risco de perder relevância.

Com a pandemia do novo coronavírus não será diferente, e já se percebe que alguns países mostram-se mais ágeis e resilientes no combate à covid-19 do que outros. Enquanto Tailândia, Vietnã e Nova Zelândia conseguiram evitar elevadas taxas de infecção, outros, como China e Rússia, estão aumentando sua influência global por meio da “diplomacia da vacina”, oferecendo doses a países em desenvolvimento mesmo antes de completar a vacinação de suas próprias populações. 

O Brasil, pelo que tudo indica, é um dos grandes perdedores geopolíticos do momento atual: não apenas saiu da lista das 10 maiores economias do mundo durante a pandemia, mas também vive um colapso inédito de sua imagem diante da estratégia negacionista de seu presidente, abalando a confiabilidade que o país tinha entre seus tradicionais aliados. 

A reputação brasileira de país com um dos maiores e melhores sistemas públicos de saúde no mundo em desenvolvimento, arduamente construída ao longo de anos, se desfez, ofuscada por um presidente que ocupa regularmente manchetes dos maiores jornais do planeta por seus ataques contra a ciência. 


Ainda é cedo para se ter uma noção clara de todas as consequências geopolíticas da pandemia, mas algumas tendências já se destacam. Três questões merecem atenção. Em primeiro lugar, não há dúvidas de que a saúde global se consolidará como um tema-chave no âmbito multilateral, seja pelo fortalecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS), seja pela criação de uma estrutura nova para monitorar o surgimento de futuras pandemias e o desenvolvimento e a distribuição de outras vacinas. Além de se buscar prevenir e combater o surgimento de um novo vírus, cresce a preocupação com as chamadas superbactérias, que resistem a antibióticos e poderiam, segundo estudo encomendado há alguns anos pelo governo britânico, matar milhões de pessoas e “levar a medicina à era das trevas”, como disse Jim O’Neill, coordenador da pesquisa e criador do termo BRICS. Tanto os principais fornecedores de vacinas quanto países que responderam melhor a pandemia devem liderar esse debate. 

O Brasil, que é visto como uma ameaça global e um possível celeiro de variantes por não controlar a transmissão do vírus, dificilmente terá voz. Em segundo lugar, uma das tendências mais transformadoras da política global nos próximos anos será a influência do enfrentamento da mudança do clima na política externa das grandes potências —inclusive da China. 

O atual debate sobre o ecocídio ser ou não considerado um crime internacional, como é o caso do genocídio, é apenas o princípio de uma transformação que mudará a maneira como países pensam seus interesses nacionais e as principais ameaças que enfrentam. Enquanto lideranças políticas brasileiras e das Forças Armadas do Brasil se destacam pelo negacionismo, as Forças Armadas de outros países discutem o tema de maneira frequente há anos —inclusive porque o desmatamento pode aumentar o risco do surgimento de novas pandemias. 

Da mesma forma que no debate sobre saúde global, o Brasil corre o risco de ser visto como ameaça pela comunidade internacional, reduzindo a possibilidade de tornar-se interlocutor qualificado, consolidando, assim, seu papel de pária. A terceira grande tendência política no mundo pós-covid-19 será a chegada da chamada guerra tecnológica —a competição tecnológica global entre EUA e China, que se tornou mais visível no Brasil depois de o Governo Bolsonaro sofrer pressão dos EUA para excluir a empresa chinesa Huawei entre as opções de fornecedores na construção da rede 5G. 

A pressão norte-americana foi seguida de alertas de Pequim, para a qual tal posição seria interpretada como um ato hostil ao governo chinês. Gerenciada de maneira perspicaz, a crescente atuação chinesa na América Latina poderia ajudar o Brasil na gestão da relação com os EUA e vice-versa. Afinal, sempre convém ter alternativas. Porém, como as tensões entre Pequim e Washington no âmbito tecnológico podem levar à criação de duas esferas tecnológicas, uma liderada pelos EUA e outra pela China, manter relações amistosas demandará sofisticação diplomática por parte do Brasil. 

O Governo Bolsonaro, no entanto, escolheu o pior dos mundos: depois de Bolsonaro se posicionar publicamente a favor dos EUA, viu-se obrigado a permitir, de última hora, a participação da Huawei na corrida pela rede 5G quando aumentou a pressão pública por ganhar acesso a vacinas chinesas contra a covid-19. Tanto em Washington quanto em Pequim, observadores ficaram com a impressão de que a atuação externa do governo Bolsonaro não se baseia em um planejamento estratégico, mas é curto-prazista e imprevisível. O presidente conseguiu a proeza de ter saído do episódio com a relação abalada tanto com Washington quanto com Pequim. 

Em meio a essas transformações que moldarão os fundamentos da era pós-pandemia, está nascendo uma ordem global diferente, produto de decisões das principais lideranças da atualidade. Enquanto os EUA pagavam um preço desproporcional por ter uma liderança incapaz de gerenciar a pandemia até recentemente, a atual administração já está conseguindo conter os danos, implementando um dos melhores programas de vacinação do mundo. No caso brasileiro, a troca do atual presidente em 2022 seria o primeiro passo para começar a controlar o prejuízo e reverter o colapso inédito da reputação e influência brasileira no mundo. 

'Pensamento'' hambúrguer


Acho uma pena que essa imprensa mequetrefe que a gente tem aqui no Brasil fique dando conta de cobrir apenas a máscara. 'Ah, a máscara, está sem máscara, está com máscara'. Enfia no rabo gente, porra!
Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)

Bolsonaro, as vacinas e a covid: Entre a eugenia e a Israel imaginária

Muito já se falou sobre a posição reticente que o governo Bolsonaro tem em relação ao combate a pandemia. Inclusive nesta coluna já escrevi mais de uma vez sobre isso. Acredito, entretanto, que essa semana tivemos novos e importantes desdobramentos quando o presidente se referiu a um suposto remédio desenvolvido em Israel.

Importante lembrar, inicialmente Bolsonaro se esforçava por ignorar a gravidade da doença. Em determinados momentos ele chegou a trata-la de “gripezinha”, dizendo que quem tivesse preparo físico (“histórico de atleta”) não seria afetado. Depois disso, passava a lançar remédios milagrosos e sem nenhuma comprovação científica. Fazia isso no suposto intuito de combater a pandemia de “forma preventiva”. Logo, Bolsonaro iria estabelecer uma relação entre o espalhamento da Covid e supostos interesses geopolíticos do imperialismo chinês. Tendo chegado, inclusive, a enfrentar o diplomatas da china no Brasil.

Ultimamente, entretanto, é a posição do presidente em relação às vacinas que tem chamado mais atenção. Ela é fundamental para se entender a política do governo brasileiro no que diz respeito ao combate ao Novo Corona Vírus. É um erro crasso acreditar que a política bolsonarista em relação a pandemia não passa por questões ideológicas. Ao contrário, tudo ali está absolutamente crivado de ideologia e política.


Quando confrontado com as vitimas fatais da pandemia, o presidente do Brasil não demonstra interesse e as desqualifica. Ao dizer a frase “E eu com isso?” (respondendo ao número de mortos) ou a reagir a uma pergunta sobre as vítimas da pandemia afirmando que não é “coveiro”, o capitão não é apenas grosseiro, desumano e mal educado, ele segue um script estritamente ideológico. Nada ali era casual.

Acima percebemos reações típicas de alguém que investe na doença como um teste da seleção natural. Bolsonaro pode não saber, mas ele age como um darwinista social típico. Na sua perspectiva, os fortes sobrevivem, passam pela doença como se fosse ela apenas uma “gripezinha”. Enquanto que os fracos morrem, ou choram pelos mortos. Um discurso eugênico claro. Para o presidente, não se pode parar jamais, a hora é de avançar, não de chorar pelos mortos. Morram quantos morram. Aqui a falta de sensibilidade do capitão é ideológica e profundamente política.

A mesma questão surge quando Bolsonaro tira da cartola os já citados remédios milagrosos. Manter as pessoas a trabalhar e a tomar remédios são referências típicas de um capitalismo que desconsidera qualquer concessão ao social. Um ultraliberalsimo radical que se estabelece a partir do lucro exacerbado e da produção de desigualdades. Os que tem que sair para trabalhar não podem ser impedidos pela pandemia e pelo risco da morte. Claro, a letalidade e as internações aparecem reproduzindo as desigualdades do país. Mas, diria o presidente, é assim mesmo, “todo mundo morre um dia”.

Além da questão econômica, representada em um setor do governo, há outra referência ideológica na produção milagrosa de remédios para o tal “tratamento precoce” que de fato não existe. Bolsonaro atua como um santo milagreiro, o próprio messias. É ele que trará a cura. Seja a cloroquina ou um vermicida, o presidente se arvora em conhecer os segredos da doença. Aqui, há um flerte típico com o fundamentalismo religioso. Onde a cura surge através de fórmulas mágicas e emplastros milagrosos. Isso tudo é bem visto e estimulado por pastores e outros líderes religiosos.

Bolsonro não cria nada, ao contrário, ele aproveita o que já existe e produz politica.

A mesma linha pode se perceber na oposição perene as vacinas. O presidente chegou a dizer que não compraria nenhuma delas quando se iniciou a produção industrial dos imunizantes. A justificativa: ele não queria “que o povo fosse usado de cobaia”.

Ignorando o esforço científico e o desenvolvimento tecnológico, Bolsonaro tentava se mostrar preocupado com a saúde das pessoas. Afinal, elas podiam “virar jacarés”. É bobagem achar que isso era simples devaneio de um louco afetado pelos poder. Em tais falas do presidente também há fortes referências políticas ideológicas.

Vacinas são o símbolo mais acabado da democratização da saúde publica. A ideia de que a ciência poderia produzir distribuição igual a todos e todas para que pudessem se ver livres de vírus e doenças antigas assusta a qualquer darwinista social.

Bolsonaro faz parte de uma extrema direita homicida e suicida, que prefere a morte à luta pela vida. As vacinas representam a vida. O Presidente só pode ser contra, e, como vemos, ele e tenta boicotar quaisquer tentativas de imunização em massa, fazendo avançar uma agente higienista e eugênica que as vacinas ameaçam.

À espera de vacina, Brasil ganha disputa eleitoral

Num instante em que faltam ao Brasil vacinas, empregos e serenidade, o brasileiro foi brindado com três coisas de que não necessita na pandemia. Ganhou a teatralidade, o oportunismo e a mediocridade de uma campanha eleitoral extemporânea. Lula transformou numa espécie de comício a primeira manifestação pública depois da anulação de suas sentenças. Escolhido como alvo, Bolsonaro mordeu gostosamente a isca.

"Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República ou do ministro da Saúde", disse Lula, como que convidando Bolsonaro para o ringue. "Tome vacina porque a vacina é uma das coisas que pode livrar você do Covid." E Bolsonaro, depois de participar de solenidade em que, usando máscara, sancionou projetos que facilitam a compra de vacinas, declarou que as críticas de Lula não se justificam. Disse que seu rival "inicia uma campanha" que se resume à "crítica", "mentira" e "desinformação".

Lula fez pose de "vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história"— festejou uma hipotética inocência. Tratou como absolvição um despacho em que o relator da Lava Jato Edson Fachin transferiu as suas ações penais por corrupção e lavagem de dinheiro da 13ª Vara de Curitiba para a Justiça Federal de Brasília, que terá de refazer os julgamentos.

Bolsonaro, com a imagem já bem rachadinha, interrompe entrevista quando lhe perguntam sobre a mansão de R$ 6 milhões que o filho Zero Um acaba de comprar. Ameaça "quebrar a cara" de repórter que ousa indagar de onde vieram os R$ 89 mil que o amigo e operador Fabrício Queiroz e a mulher dele depositaram na conta da primeira-dama Michelle. Mas não deixa de cutucar rival.

"Imagina a pandemia com o Lula presidente da República", provocou Bolsonaro. "Se roubaram —e muito!— alguns governadores e alguns prefeitos com esse recurso, imagina se o PT estivesse no governo!"


Lula dividiu sua retórica em duas partes. Numa, tratou do seu futuro eleitoral. Noutra, cuidou do seu passado criminal. No pedaço do discurso reservado à política eleitoral, Lula ofereceu-se ao eleitorado como alternativa contra o desprezo de Bolsonaro pela ciência. Na parte em que festejou a anulação de suas sentenças, Lula falou do seu passado limpinho como se o mensalão e o petrolão não existissem.

Na cerimônia em que assinou os projetos que se destinam à aquisição de vacinas, Bolsonaro, um presidente sem comprovação científica, voltou a defender o tratamento precoce com remédios sem nenhuma serventia contra a Covid —entre eles a cloroquina e o vermífugo Anitta.

Se a Justiça não restabelecer suas condenações, Lula tem todo o direito de disputar um terceiro mandato. Bolsonaro também tem todo o direito de reivindicar a reeleição, se tiver desempenho para isso. Mas o brasileiro, às voltas com mais de duas mil mortes diárias por Covid, a caminho da marca de 300 mil cadáveres na pandemia, merece uma conjuntura política mais respeitosa e sofisticada.

Lula e Bolsonaro falam para suas bolhas. Mas fora desses nichos há um brasileiro de saco cheio, que talvez prefira se concentrar na pandemia em vez de dar atenção a candidatos que travam no meio dos cadáveres uma briga entre sujo e mal asseado, uma disputa entre o negacionismo científico e o negacionismo da imoralidade.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Pra frente, Brasil

 


Quem pariu Mateus que o embale

Atribui-se inúmeras origens ao ditado popular “quem pariu Mateus que o embale”. Há quem diga que se refere à má escolha, por parte de Jesus, do cobrador de impostos Mateus para seu time de apóstolos. Fala-se também que decorre do costume machista de que a mãe seja a única responsável pelo trabalho de cuidar dos filhos.

Outra versão defende que se trata de uma corruptela do dito “quem pariu, mantém e balança”.

No final das contas, todas as explicações levam a um mesmo significado. Quem criou determinado problema que administre suas consequências e se responsabilize pela sua solução.

É bem verdade que o ato de parir, por si só, já é uma tarefa das mais dolorosas e, algumas vezes, arriscada. Triste, por exemplo, era a vida da galinha dos ovos de ouro, das Fábulas de Esopo, que repetidamente paria fortunas das quais nunca teria a chance de usufruir.

Naturalmente, somos testemunhas de que isso não é o que ocorre quando alguém resolve dar à luz uma candidatura eleitoral, seja ao Executivo, seja ao Parlamento, nos níveis federal, estadual ou municipal. Nesse caso, quem concebe o filhote não pretende perdê-lo de vista.

Nenhum outro campo da experiência humana é tão apropriado para a aplicação do ditado de Mateus como o ambiente da política. Quando a coisa dá errado, ninguém se apresenta como mãe da ideia.

Contudo, é imprescindível que os diversos segmentos da sociedade, assim como suas instituições, mantenham vivas sua memória e sua lucidez acerca dos processos políticos que se desenvolvem em seu ventre.

Todo partido, todo candidato e toda ideologia nascem com o envolvimento de algum segmento social ou econômico, que em alguns casos atua como mãe, em outros como pai, e até mesmo como parteira ou anestesista.

Afinal, conforme comprovado pelo cientista Louis Pasteur ainda no século XIX, não existe abiogênese, ou geração espontânea. Se alguém foi eleito, alguém o fecundou e o gestou.

É compreensível e até desejável que a população reveja suas escolhas e suas opiniões sempre que se decepcionar com os resultados apresentados pelos seus escolhidos para cargos públicos, assim como acontece normalmente entre patrões e seus funcionários nas empresas.

Esquisito é quando um presidente da república é eleito com dezenas de milhões de votos e, ao colocar os pés pelas mãos em todos os assuntos sob sua responsabilidade, não aparece ninguém além da sua claque que assuma a paternidade ou maternidade política.

Seria vergonha de ter participado de uma gravidez tão enganosa? Ou de ter caído em um conto do messias? Ou seria um tipo de desfaçatez equivalente à que se utilizou ao se proceder a fertilização in vitro de uma vitória de momento, que nunca teve perspectiva real de dar crias sadias?

Todas as parcelas da cidadania brasileira que ofereceram seus fluídos e barrigas para a inseminação da realidade de que reclamam hoje precisam revisitar aquele momento mágico em 2018 no qual se deu a sedução e o enlace.

Desejava-se, mais que tudo, e cegamente, o sepultamento do adversário? Almejava-se privatizações a torto e a direito? Acreditava-se na infalibilidade da gestão militar? Que Deus tudo proveria? Que a Terra é plana? Que não haveria corrupção e clientelismo? Não haveria velha política nem centrão? Mais armas e menos florestas? Mais baladas e menos solidariedade?

A Lei de Murphy ataca

Você conhece o enunciado: "Se alguma coisa tem chance de dar errado, dará". É a Lei de Murphy, um sistema de pensamento sugerido sem querer, em 1948, pelo engenheiro Edward Murphy (1918-1990), num laboratório espacial quando testava um sistema de frenagem de foguetes. A frase foi ouvida pelo coronel J.P. Stapp, que a transformou em lei e criou um de seus primeiros corolários: "Se alguma coisa tem chance de dar errado, dará —e na pior hora". Em 1974, o escritor Arthur Bloch expandiu-a em dezenas de variações que, por sua vez, também ganharam adaptações em toda parte. Para sua reflexão nesses dias de tiroteio de decisões entre os ministros do STF, eis algumas.

"Nada é tão ruim que não possa piorar." "Toda solução cria novos problemas." "Se há possibilidade de várias coisas darem errado, dará errado a que causar mais problemas." "Problemas complexos têm soluções simples, de fácil compreensão e erradas." "O homem que consegue sorrir quando alguma coisa dá errada é porque pensou em alguém em quem botar a culpa." "Quem ri por último é porque não entendeu a piada."


"Se determinada medida não vale a pena, não vale a pena ser bem executada." "Na prática, funciona. Mas funcionará na teoria?" "Nenhuma experiência é um erro completo. Sempre pode servir de exemplo negativo." "Quando um erro é descoberto e corrigido, descobre-se depois que não estava errado." "Nunca discuta com um idiota. Os outros podem não saber quem é quem."

"Nunca atribua à esperteza o que é facilmente explicável pela burrice." "Se a situação parece ter melhorado, é porque você não está percebendo alguma coisa." "A situação ainda vai piorar antes de melhorar." "Quem disse que a situação vai melhorar?"

Um Murphy brasileiro diria: "O Brasil já tinha Bolsonaro e uma pandemia capaz de dizimar a população. Era preciso tomar uma providência. Tomou. Agora tem a pandemia, Bolsonaro e Lula".

Alimentando monstros e ressuscitando deuses

A barbearia fora fechada, por decreto, pelo governador. Cabisbaixos, os dois profissionais autônomos estavam sentados no passeio, do lado de fora, rodeados por alguns clientes. O fiscal passara por ali e cerrara as portas dos seus “ganha pão”. Cada um era pai de três crianças menores. Não podiam parar de trabalhar, um dia sequer. “Só dia 14!”, advertiu com ar superior o preposto do Estado.

O governador assinara um ato suspendendo as atividades econômicas, impondo, com ameaça de multa, o confinamento dos cidadãos por dez dias. Expunha-se a outra face do drama da pandemia. No dia seguinte, diante a repercussão negativa, o governador encenou sensibilidade, editando novos decretos, agora, contraditoriamente, permitindo a reabertura das portas das academias, dos bares e restaurantes.

Passado um dia mais, viria um terceiro ato, suspendendo novas atividades produtivas. Permitia, entretanto, reabrir coisas como bancas de jornal. Os ginásios estavam fechados para o vôlei; mas os estádios abertos, com ressalvas, para o futebol. Uma descoordenação total. Um vai e vem de ordens, uma desordem. Os atos oficiais pareciam surfar pelas madrugadas num copo de whisky.

Atemorizada pelo aumento do número de mortos, a população assistia boquiaberta aquele solitário jogo de damas do governador. Seria o lockdown uma necessidade, de fato, diante das ameaças pandêmicas, ou uma mera expressão do seu auto empoderamento? Uma brincadeira de mal gosto ou uma corajosa tomada de decisão? Impressionava perceber como o governante podia tudo – era o tal poder que emanava do povo - , estando bêbado ou não.

O Presidente da República não fazia por menos: atropelava e desatropelava; agredia e contemporizava. Em um momento, anunciava a compra de uma vacina contra a pandemia, gerando esperanças; em seguida, o cancelamento. Já era outra a que interessava. Ministros e secretários de saúde se sucediam. Todos eram a favor do confinamento hoje. Mas, instantes depois, já se sentiam incomodados.


Enfim, a incoerência tornava-se uma peça chave no xadrez que conduzia o poder de vida ou de morte do governante sobre os cidadãos. Espalhava-se pelos governos e governadores, alguns ameaçando ainda pular a cerca das próprias jurisdições regionais, com acusações aos pares: uma guerra santa. O barbeiro estava lá estirado sem saber como ia levar comida para casa no final do dia. O fiscal desaparecera: safara-se da responsabilidade, dizendo que cumprira seu dever.

A partir da instabilidade emocional dos governantes, a pandemia ganhava a volubilidade das ruas. Os índices de mortalidade vulgarizavam-se, e começavam a configurar uma anomia geral. Passou a servir de mote para exercícios nas artes, e até de motivos de chistes nas ruas. Tinha gente vendendo atestado de óbito. Ninguém parecia ter mais qualquer compromisso com a vida. Havia os que, mesmo amedrontados, estavam perdendo o pudor diante da morte.

O Presidente (e a família) iam-se tornando vagarosamente também incômodos. Ao invés de acalmar a população, ele gerava sistematicamente insegurança. Mentia, dizendo ou desdizendo. E não iria mudar. Ele era assim mesmo, diferente de 220 milhões de brasileiros.

Os governadores, quando cobrados pelos cidadãos, transferiam a irresponsabilidade no combate à pandemia para a União, de quem esperavam sempre ajuda financeira. “Se é para transformar o Brasil em uma Venezuela, eu saio”. Mas em assuntos de governo, não se perde por esperar. Em meio a esse cipoal de medidas e desmedidas, o próprio ministro da Fazenda anunciaria, logo depois, mais R$ 44 bilhões para a saúde, para ser dividido, em convescote, com os governadores; e uma retomada da ajuda emergencial, em dinheiro, para 40 milhões de pessoas. Até tu, Guedes!

Sem ninguém saber exatamente como gerir o coronavirus, a pandemia, como um tsunami, atravessa o espaço da saúde e sacraliza, no campo, a religiosidade da política. Os espertos a usam para passar “panos quentes” nos mal feitos. Ela empodera as vaidades e ressuscita deuses mortos, velhas práticas - jurídicas inclusive - e façanhas, criando e recriando monstrinhos.

É a herança dessa bela democracia, temperada com ficções ideológicas e vulgaridades populistas. A pandemia estimula governantes a tornar a verdade irrelevante.

Ao tirar Lula da fogueira, Supremo se carboniza

Um tribunal chamado Supremo tem o mesmo problema de uma mulher chamada Vitória. A qualquer momento, seu comportamento pode desmentir o seu nome. A supremacia do Supremo convive com a ameaça constante de uma notícia inusitada —como o despacho do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, que anulou as condenações impostas a Lula, reabilitando eleitoralmente o personagem. Depois dessa decisão, a supremacia do Supremo, já tão diminuta, passou a caber numa caixa de fósforos. Resta-lhe o papel de Ministério substituto da Saúde.

O brasileiro não gosta do que não entende. E a decisão de Fachin é 100% feita de contradição. O resgate de Lula grudou no Supremo a aparência de uma Corte autossuficiente. Ela mesma deu mão forte a Curitiba para julgar Lula, ela mesma autorizou a prisão de Lula, ela mesma revogou a regra que mantivera Lula em cana por um ano e sete meses... Agora, a mesma Suprema Corte retira o aval que concedera a Curitiba para virar Lula do avesso. Anula as sentenças. Entre elas a do tríplex do Guarujá, reafirmada em três instâncias do Judiciário.

Todo esse vaivém pode ser resumido em duas palavras: insegurança jurídica. Anuladas as sentenças, os processos contra Lula voltam à primeira instância, dessa vez na Justiça Federal de Brasília. Alega-se que as condenações de Curitiba podem ser reafirmadas. Lorota. Serão sepultadas. Se não morrerem a golpes de caneta de um juiz de primeiro grau, fenecerão pela prescrição dos crimes atribuídos a Lula: corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O mais inusitado é que coube justamente a Fachin, principal defensor da Lava Jato na Suprema Corte, jogar terra em cima do buraco em que operação se meteu. Alega-se nos subterrâneos que o ministro quis evitar o mal maior: a reabilitação eleitoral de Lula por meio de um veredicto em que a Segunda Turma do Supremo grudaria na testa de Sergio Moro a pecha de juiz parcial. Algo que, na visão de Fachin, empurraria para cima do telhado uma penca de sentenças da Lava Jato.


A manobra pode ter vida curta. Fachin anotou em seu despacho que a anulação da sentença sobre o tríplex do Guarujá torna desnecessário o julgamento do pedido de suspeição de Moro, escorado nas mensagens tóxicas que o ex-juiz trocou com procuradores. O problema é que Gilmar Mendes, responsável por levar a encrenca à pauta da Segunda Turma do Supremo, não parece disposto a abrir mão de esfolar a reputação do ex-juiz da Lava Jato.

Gilmar conta com os votos do lulista Ricardo Lewandowski e do bolsonarista Nunes Marques para formar uma maioria de 3 a 2 contra Moro. Além de reacender a polarização que deve resultar num embate de Lula com Bolsonaro em 2022, a decisão enfraqueceria a articulação para colocar a candidatura de Moro entre os dois.

Nessa hipótese, Fachin terá poupado o trabalho dos advogados de Lula. A defesa nem precisará pedir que a anulação referente ao tríplex seja estendida ao caso do sítio de Atibaia. A menos que o plenário do Supremo reveja a decisão de Fachin, o que parece improvável, Lula vai a 2022 com pose de inocente. Trata-se de uma inocência de fancaria, pois a anulação das sentenças não cancelou as provas.

Fachin rememorou os dados que demonstram que as empreiteiras OAS e Odebrecht financiaram os confortos de Lula em troca de contratos fraudulentos firmados com o Estado. Deve-se a anulação das sentenças à alegação de que tais contratos não foram firmados apenas com a Petrobras, o que retiraria de Curitiba a primazia para julgar os processos.

No alvorecer da Lava Jato, Sergio Moro arrastou para Curitiba a apuração de crimes praticados nos mais variados escaninhos do Estado, desde que tivessem um liame qualquer com a Petrobras. O Supremo avalizou esse entendimento, empurrando para o colo de Moro gente graúda como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e o próprio Lula. Os réus reclamavam da vala comum de Curitiba há pelo menos cinco anos.

Aos pouquinhos, o Supremo foi fatiando os processos, distribuindo-os por diferentes praças. Fachin acabou se transformando na Segunda Turma numa espécie voto vencido perpétuo.

Ironicamente, Fachin lembrou no despacho sobre Lula que Gilmar Mendes já esteve do seu lado. Reproduziu manifestação em que Gilmar votou contra o esvaziamento da Vara que Moro comandava. "No fundo, o que se espera é que processos saiam de Curitiba e não tenham a devida sequência em outros lugares. É essa a expectativa", escreveu esse Gilmar de outrora.

No processo autodestrutivo a que se dedica o Supremo, a reabilitação política de Lula é o penúltimo prego num caixão que vem sendo confeccionado há tempos. A decisão de Fachin chega nas pegadas do sepultamento das denúncias contra os quadrilhões do MDB de Renan Calheiros e Cia. e do PP de Arthur Lira e Cia.

"A Justiça, além de imparcial, precisa ser apartidária", escreveu Edson Fachin, como se desejasse realçar que já não fazia sentido manter apenas Lula na fogueira. Engano. Ao retirar das labaredas símbolo mais vistoso do esforço anticorrupção, Fachin apressou a conversão da manobra de reabilitação de Lula num processo de carbonização do Supremo Tribunal Federal.

segunda-feira, 8 de março de 2021

As palavras que Bolsonaro nunca pronunciará

O vocabulário do presidente Jair Bolsonaro é muito restrito, talvez porque ele nunca tenha lido. Em seu dicionário pessoal só existem insultos, palavras obscenas, ameaças, zombarias. E as pronuncia sempre gritando, irritado, insultando, ameaçando. Seu vocabulário é o das armas, da guerra, do ódio e da morte.

Em seus discursos e arroubos de loucura não existem palavras de vida, de esperança, de alento, de compaixão. Ou ele desconhece essas palavras com as quais se constrói o mundo, ou elas queimam a sua língua.

Suas palavras, sempre burlescas ou ameaçadoras, evocam mais a linguagem atemorizante das armas que a alegria da vida. Não são palavras que convidem a compartilhar com o próximo seu pedaço de pão, e sim a desprezar a dor e a fragilidade.

Para ele, a vida é um direito apenas dos fortes, dos impassíveis perante a dor alheia. Zomba dos que choram e têm medo da morte. Onde pisa, por onde passa, deixa os rastros da indiferença para com os fracos.Em seu vocabulário não cabem as palavras que constroem pontes de esperança, e sim as que buscam escavar trincheiras de guerra. Odeia falar de democracia e de respeito à natureza. A morte é o seu lema.


Não entende a política do diálogo e do respeito às diferenças, que são os ingredientes com os quais se constrói a paz. Quem, como ele, exalta a tortura e as armas e é incapaz de pronunciar palavras como diálogo, liberdade ou harmonia é porque nunca saboreou o pão quente do encontro, do convívio pacífico, da compaixão com a dor alheia e da alegria compartilhada.

Quem zomba da morte e aboliu do seu dicionário a empatia pelos que sofrem é porque renunciou a saborear o melhor da vida, que é a paz. Para isso, entretanto, é necessário ser um homem de verdade, que não teme a fraqueza e nem os limites impostos pela realidade da vida, e que acredita ser onipotente.

Bolsonaro me lembra aquele militar espanhol, Millán Astray, que em plena guerra civil gritou na Universidade de Salamanca, em 1936: “Morte à inteligência, viva a morte!”.

E, no entanto, as sociedades são construídas com o grito de “Viva a vida”. Um grito que surge das profundezas do amor e da esperança, e que por isso Bolsonaro nunca conseguirá entender. Ele se alimenta com as palavras de morte.

Por isso, a esperança para o Brasil que não renunciou às palavras que geram harmonia em vez de ódios é que Bolsonaro acabe apagado do dicionário para voltar ao esquecimento, e que um dia seja recordado apenas como um pesadelo que turvou nossos sonhos.

A esperança é que o parêntese de negacionismo do capitão e seu desprezo pela vida sejam, na expressão do Quixote, apenas “uma noite ruim passada em uma estalagem ruim”.

Depois das tempestades e dos trovões costuma aparecer o sorriso de um arco-íris, essa beleza que é incapaz de agradar ao capitão que, no dia em que o Brasil registrou o maior número de mortes da pandemia, um dia de luto nacional, foi saborear um banquete com direito a leitão, cerveja e gargalhadas.

Pelo amor que tenho a este país, prefiro pensar que os raios e ameaças do militar frustrado sejam apenas um sinal de sua fragilidade, que acabará se desmanchando como uma bolha de sabão. Só então o Brasil voltará a respirar o ar puro de sua natureza, hoje martirizada e desprezada por ele.

Quando cruzo com um brasileiro, prefiro ver no fundo de seus olhos as imagens de suas origens povoadas pelas belezas naturais de suas florestas e o reflexo de seus mares e rios cristalinos.

O Brasil leva o nome de uma árvore da selva, essa que hoje Bolsonaro tenta transformar em um deserto perante o espanto do mundo. Quem rege os destinos deste país parece, mais que um brasileiro, alguém chegado de um planeta de espinhos e pedras.
Juan Arias

Pensamento do Dia

 


Intervenção na vacinação é atestado de fracasso de Bolsonaro

O Plano Nacional de Imunização está sob intervenção do Congresso Nacional, que quer dividir a tutela com a iniciativa privada. A intervenção é o atestado final de fracasso do governo Jair Bolsonaro em promover a vacinação contra a covid-19. Sem saber o que fazer, o presidente jogou a toalha e aceita de bom grado que Rodrigo Pacheco diga o que deve ser feito e que empresas, se Deus quiser, comprem as vacinas que ele primeiro não quis, e agora não consegue comprar.

Claro que isso não viria na forma de um reconhecimento lúcido e de uma tentativa de reverter o imenso estrago. Bolsonaro ainda preferiu oferecer ao Brasil mais cenas vexaminosas de fracasso e inépcia com a excursão tabajara de seu exército Brancaleone a Israel para (não) conhecer a produção de um spray experimental que foi testado em poucas dezenas de pessoas e não é prioridade nem em Israel.

O problema com a intervenção no PNI é que ela não é garantia de que avançaremos na nossa precária e insuficiente cobertura vacinal contra a covid-19. Estamos apenas transferindo o bode da sala: tirando-o do Planalto e instalando-o no Congresso e nas empresas. Pode até ser um refresco para Bolsonaro e Eduardo Pazuello. 

Desde janeiro a conversa da compra de vacinas por empresas vem e vai, como forma de tentar tapar o buraco deixado por Bolsonaro. Nas primeiras especulações se esbarrou em alguns problemas: 1) as farmacêuticas só estavam fechando acordos com governos e coalizões internacionais como o consórcio Covax; 2) não havia doses disponíveis nem para atender a demanda de países, quanto mais para esquemas pouco transparentes com empresas que faziam lobby junto ao governo federal; 3) não estava claro na legislação brasileira se isso seria possível, e como; 4) empresas gostariam de ficar com uma parte dos lotes de vacinas que adquirissem para vacinar seus funcionários fora do PNI.

Na semana passada o Congresso entrou para fazer a coordenação na qual o governo Bolsonaro falhou completamente. Aprovou uma lei que estabelece as regras para que não só as empresas, mas também Estados e municípios possam comprar vacinas, como já havia permitido o STF. Todas as doses adquiridas por empresas têm de ser doadas ao SUS até que estejam vacinados os grupos prioritários. Mesmo depois de encerrada esta fase, metade precisará ser doada ao SUS, e a outra metade não pode ser comercializada.

Trata-se de uma capitulação inédita: nunca antes neste país um governo precisou de muleta da iniciativa privada numa campanha nacional de vacinação. Não há precedente de tamanho fracasso. Clínicas e empresas até vendem vacinas, mas aquelas do calendário regular de vacinas, não as de campanhas para erradicação de doenças, como é o caso da covid-19.

O problema com a entrada do Congresso e das empresas para cobrir a incompetência de Bolsonaro e Pazuello é que será mais uma situação em que o presidente brasileiro tentará se desvencilhar de sua responsabilidade. Daqui para a frente, poderá dizer que queria coordenar a vacinação, mas não deixaram e agora a responsabilidade não é dele.

Se, ao contrário, a cobertura vacinal acelerar para além dos menos de 4% hoje imunizados com ao menos uma dose (o ciclo completo de duas doses não atinge nem 2% dos brasileiros), ele tentará surfar na onda e capitalizar o sucesso dizendo que sempre defendeu a parceria com a iniciativa privada, mas o Congresso é que não o deixava agir antes.

Além da certeza de que vem aí mais narrativa mentirosa do presidente, na prática a intervenção no PNI não garante que mudemos de patamar: as farmacêuticas têm demonstrado pouca disposição a negociar com municípios ou empresas, graças à preocupação jurídica para que não sejam responsabilizadas mundo afora em caso de efeitos adversos das vacinas -- elas têm pressionado por compromissos feitos diretamente com governos nacionais.

A dispersão dos esforços para adquirir vacinas também ameaça a equidade da vacinação pelo território nacional e pode agravar a desigualdade entre Estados ricos e pobres. E como o governo federal jogou a toalha de vez, é meio inútil esperar que atue ao menos para mitigar mais esse efeito colateral de sua inoperância.

Os Estados Unidos precisam fazer uma intervenção sanitária no Brasil

Se a vacinação prosseguir no ritmo previsto, os americanos terão imunizado a inteira população dos Estados Unidos até maio. Na Europa, onde os governos ainda batem a cabeça com a falta de vacinas e planejamento, espera-se que tudo entre logo nos trilhos e que metade da população das diferentes nações da UE esteja imunizada até o final do verão no Hemisfério Norte.

Como o governo brasileiro não encomendou vacinas suficientes quando deveria tê-lo feito, ficamos para trás na fila das vacinas da Pfizer, Moderna e Janssen, as mais efetivas contra o vírus da Covid-19. É esperado que, diante da nossa esqualidez, uma vez que os Estados Unidos tenham atingido a imunidade de rebanho, eles deem atenção ao que ocorre no seu quintal, a América Latina. Seríamos salvos pela Sétima Cavalaria a partir de julho.

A cepa P.1, no entanto, que surgiu em Manaus e agora devasta o Brasil, precisa antecipar a entrada dos Estados Unidos em campo. Já é consenso que, se a propagação do vírus não for contida logo por aqui, cepas mais virulentas poderão se desenvolver, colocando em xeque a efetividade das vacinas já existentes.

O presidente e a reeleição

É inevitável a antecipação da campanha para as eleições presidenciais de 2022. O presidente Jair Bolsonaro lançou-se candidato à reeleição ao iniciar o governo. Renegou compromisso de campanha quando declarou que não tentaria reeleger-se. Seria honesto, mas tolo ou fracassado, se deixasse de fazê-lo. Ninguém abdica do poder, escreveu Maquiavel.

Ademais, promessa de candidato só compromete quem ouve. A frase, cujo autor ignoro, corresponde ao que há de mais mesquinho na política brasileira. Como os partidos não passam de legendas sem ideologia, promessas e programas de governo são redigidos para dar ao povo crédulo a sensação de que serão executados. Prometer algo que não se vai cumprir é estelionato eleitoral. Fosse punido, a maioria da classe política estaria na cadeia.

Jair Bolsonaro será candidato em 2022. Por qual partido ou coligação partidária não interessa. Será candidato graças ao instituto da reeleição, enxertado no Direito Constitucional brasileiro pela Emenda n.º 16, de 5 de junho de 1996, promulgada no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. Não subestimem o capitão. Apesar de autoritário e rústico é esperto. Em seus planos deve estar o de filiação a legenda inexpressiva. Precisará apenas da legenda. Recursos e adesões serão obtidos pelo exercício abusivo do poder. Terá o apoio da ultradireita conservadora. Em cada quartel, clube de tiro e loja de armas encontrará aguerrido comitê eleitoral.


Quem busca a reeleição disputa uma corrida de obstáculos, com larga vantagem sobre os demais competidores. Ao ser dada a partida, terá a favor parcela apática do eleitorado. O elevado número de candidatos provoca, entretanto, dispersão dos votos e torna inevitável a segunda rodada de votação. No primeiro turno, os eleitores votam no candidato preferido. No segundo as possibilidades se igualam, pois a escolha é determinada pela rejeição.

São vários os nomes em circulação na bolsa de valores eleitorais. A quase certeza da derrota não evitará que partidos nanicos disputem com candidatura própria, ou em coligação.

Entre os grandes, no PSDB se apresenta o governador João Doria, mas depende da direção nacional, pois corre por fora o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. O insistente Ciro Gomes tentará pelo PDT. Fernando Haddad deve ser o preferido do PT, salvo se Lula resolver o problema da inelegibilidade. Guilherme Boulos virá pelo PSOL ou como vice do PT. O outrora poderoso MDB terá dificuldade para encontrar alguém apto a participar da prova. O melhor nome, deputado Baleia Rossi, é jovem e foi derrotado como candidato à presidência da Câmara dos Deputados.

Sergio Moro e Luciano Huck produzem ruído, mas falta-lhes cacife para jogar o pôquer eleitoral. Com os espaços congestionados, não será fácil para eles encontrar legenda, salvo se concordarem em concorrer à Vice-Presidência ou ao Senado.

Sob que panorama econômico e social serão disputadas as eleições de 2022? Essa é a questão. A vacinação em massa, boicotada por Jair Bolsonaro, será decisiva para o controle da pandemia. Não bastará, porém, para resolver os problemas da desindustrialização, do desemprego, da expansão da informalidade, do empobrecimento da classe média e da crescente miséria.

É possível e desejável que até o segundo semestre do próximo ano a pandemia tenha sido debelada. Dela, porém, ficarão terríveis marcas da morte de centenas de milhares de infectados. O tempo e o esquecimento cobrirão de silêncio a destrambelhada política do negacionista defensor das aglomerações e da cloroquina? Creio que não.

A política suicida do presidente Jair Bolsonaro, exposta pela maneira como conduziu o Ministério da Saúde, ao nomear para dirigi-lo general intendente do Exército, será relembrada por familiares dos mortos, infectados e precariamente tratados por falta de vacinas, de oxigênio, de vagas hospitalares.

Quanto à economia, dizem os pesquisadores ser provável que haja deterioração ainda maior neste e no próximo ano. A responsabilidade, na opinião de especialistas, cabe à falta de foco do governo e à incapacidade de avançar com agenda econômica liberal destinada a destravar os obstáculos enfrentados pelo País.

Como a oposição lidará com o problema e se organizará em frente única, é difícil saber. Afinal, os adversários do presidente Jair Bolsonaro revelaram, nos dois primeiros anos de mandato, total incapacidade de comunicação com a opinião pública. Não se ouviu na Câmara dos Deputados e no Senado um só discurso viril contra a criminosa maneira de o governo se conduzir diante da pandemia.

Há em curso projeto de permanência no poder a qualquer preço. À semelhança da ditadura chavista, tudo será feito para repetir o regime militar, desta vez com segunda eleição. Fica a advertência.

Com as vantagens asseguradas pelo exercício do cargo, controle do Tesouro Nacional e pacto com o “Centrão”, não será impossível nova emenda ao artigo 14, parágrafo 5.º, da Constituição.

Uma bandeira destruída

Não sou de me ufanar, mas é difícil segurar a emoção quando vejo um atleta receber uma medalha olímpica enquanto nosso hino toca e a bandeira do país é hasteada. Nesses momentos, sou tomada de um orgulho raro, já que são poucas as vitórias do Brasil e muitas as suas derrotas. Uma delas foi quando permitimos que um bando de alucinados tomassem a nossa bandeira como símbolo de sua ignorância e desse governo que de patriota não tem nada.

Arredondando, foram 57 milhões de pessoas que votaram neste homem que aí está. É muita gente, e entre elas estão os que votaram por identificação e com os quais não há o que conversar, é um voto autoexplicativo que tende a se repetir.

No entanto, há milhões de homens e mulheres corretos, sensatos, de boa índole, que não desejaram votar nele, mas que entraram na onda de blindar a esquerda a qualquer custo, preferindo apostar em terra arrasada. Não são homofóbicos, nem racistas, nem fascistas, nem milicianos, nem fanáticos religiosos. São boas pessoas que, embaladas pelo endeusamento do Moro (pois é) e por medo do socialismo (!!!), deram seu voto a uma criatura que torceram para que fosse apenas um bravateiro, enquanto tapavam o nariz.


Dois anos de nariz tapado deu em asfixia, não só metafórica. Os que tentaram evitar o cheiro de podre que viria do Planalto contribuíram para que hoje contabilizemos uma quantidade trágica de vítimas do coronavírus, esgotando os profissionais de saúde e a capacidade de atendimento dos hospitais. Não quiseram enxergar o que era nítido, transparente, perceptível. Não houve enganação: ele nunca fingiu que era outra coisa que não um homem sem responsabilidade social, sem ideias, sem projeto, sem visão de mundo, sem cultura, sem compaixão, sem educação, sem inteligência, sem humor, sem amigos. Todos pressentiram o perigo, mas taparam o nariz, fecharam os olhos e cá estamos.

Nossa bandeira foi desonrada por quem não tem compromisso com o país. Nossa bandeira virou símbolo de desrespeito à nação, uma contradição que só mesmo amalucados conseguem promover. O presidente não usa máscara, despreza a vacina, dá péssimos exemplos e ergue a bandeira como se amasse os brasileiros.

Só uma corriola fanática ainda diz amém. Esses estão abduzidos, mas se você foi um dos que votaram tapando o nariz dois anos atrás, tem o dever cívico de ajudar o Brasil a respirar melhor e a recuperar o orgulho pátrio. É hora de construirmos uma transição para longe de quem transformou nossa bandeira num trapo sujo. Em qualquer governo, de qualquer país, coisas dão certo e dão errado, mas o que está acontecendo conosco não se enquadra em certo e errado. É uma monstruosidade que temos, juntos, a obrigação de reparar.

Vírus made in Brazil

 


Os oportunistas

Crise, no ideograma japonês, significa também oportunidade, de onde se extrai a ideia de que elas abrem novos caminhos, oferecem soluções criativas aos problemas. Tem sido a lição de empreendedores sobre os afazeres do cotidiano, principalmente nos negócios. É “fazer do limão uma limonada”, transformar o negativo em positivo, sair da tempestade para a bonança.

Muitos povos, graças a uma cultura forjada em tempos amargos, criaram respostas e alternativas, exigindo sacrifícios e mudança em estilos de vida. Conta-se, por exemplo, que o japonês, de tanto padecer as agruras de guerras, não costuma deixar sobras no prato. Os anglo-saxões aprenderam a não desperdiçar tempo e a responder sim ou não.

Já o talvez, mais ou menos, quem sabe, se encaixam em nossa cultura. A imprecisão se faz presente. Em Petrolina não há petróleo e a Bahia de Todos os Santos tem mais jeito de baía de todos os pecados. O senhor é católico? “Sim, mas não vou à missa aos domingos”. Quantas horas trabalha por semana? “Mais ou menos umas 40 horas”.

A flexibilidade é traço do nosso caráter para “amaciar” situações. Do trabalho duro muitos fogem. É comum se ouvir: “trabalhei demais; estou arrebentado”. Nosso DNA é cultivado na festa, no divertimento. Ascenso Ferreira, poeta pernambucano, parodiava: “Hora de comer – comer. Hora de dormir - dormir. Hora de vadiar – vadiar. Hora de trabalhar? Pernas pro ar que ninguém é de ferro”. Vejam o discurso do brigadeiro Eduardo Gomes em seu primeiro comício da campanha presidencial de 1946. “Brasileiros, precisamos trabalhar”. Do meio do povão, uma voz gritou: “Ih, começou a perseguição”. Bagunça geral no comício.

A flexibilidade e a expressão jocosa impregnam a índole brasileira. Nesse momento de pico da pandemia, com mortes de milhares de brasileiros, ainda se criam piadas com protagonistas diversos, a partir dos governantes. Como um povo que aprecia tanto a galhofa pode tomar atitudes sérias, adotar comportamentos condizentes com a gravidade desse momento?


Esclareçamos. A comunidade nacional costuma entrar no terreno do desrespeito quando se sente ludibriada, numa corrente alimentada por um grupo invasor das redes sociais para exacerbar o comportamento social. Motivam leitores e ouvintes a privilegiar o impropério. Mais: os protagonistas políticos se aproveitam do clima para adornar seu ego, emitindo opiniões estapafúrdias, tentando compor uma identidade falsa.

Alguns mudam de visão em programas de rádio e TV só com o intuito de fazer marketing, sem o amparo de bases racionais, mas com carimbo populista.

Esse vício joga os políticos no lodaçal do oportunismo. Voltemos ao início do texto. Não se faz da crise um exercício de busca de oportunidades, mas uma chance para oportunistas. Esquecem, porém, que exibem na testa a marca de medíocres, figuras de baixa expressão, mercadores de benefícios e recompensas. A dignidade não os conhece.

Do escritor argentino José Ingenieros, em "O Homem Medíocre": Ser digno significa não pedir o que se merece: nem aceitar o imerecido. Enquanto os servis sobem, por entre as malhas do favoritismo, os austeros ascendem pela escadaria das suas virtudes”.
Gaudêncio Torquato

Luta para se construir

Alfredo Martirena (Cuba)

A América Latina é desigual devido à sua história. É uma sociedade criada por um pequeno grupo de elites coloniais para explorar a vasta maioria das pessoas. Devemos lutar contra esse legado histórico para construir igualdade, para construir justiça, para construir liberdade
Daron Acemoğlu, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e James A. Robinson, da Universidade de Harvard, autores de "Por que as Nações Fracassam"

O ataque dos vírus e a extinção dos portugueses estúpidos

Mahnaz Yazdani (Iran)
As empresas farmacêuticas, localizadas em países com valores morais e éticos mais elevados do que Portugal – e que são por isso mais desenvolvidos social e economicamente e também do ponto de vista civilizacional (leiam o sociólogo Norbert Elias) -, deviam desenvolver vacinas específicas para serem aplicadas nos portugueses estúpidos. Porquê? A razão é que a sociedade portuguesa foi (e continua a ser) contaminada por vírus muito especiais e seletivos; portanto, para combatê-los, é necessário criar vacinas específicas para cada grupo. Então vejamos:

Corruptioelecti-vac: desenvolvida para combater o vírus que ataca as pessoas corruptas, mas não aquelas ligadas às corrupçõezinhas, mas sim as da alta corrupção. Ou seja, atua contra o vírus que contagia principalmente a elite económica, financeira, política e jurídica.

Nummulariis-vac: destinada principalmente aos ex-líderes e dirigentes do BPN e, principalmente, do BES/Novo Banco e outras ramificações – EDP, Portugal Telecom, TAP, etc. Esses ‘notáveis’ devem ser protegidos para continuarem a desviar fortunas e deixarem a conta para os outros pagarem; ou seja, os poucos totós que produzem riqueza e pagam impostos. Aqui pode também ser incluída a CGD, que fez chorudos empréstimos aos grandes clientes, amigos do regime, sabendo, de antemão, que eles nunca iriam pagar. Para cobrir o prejuízo, a ‘criativa’ solução dos ‘competentes’ dirigentes do banco é pagar juro zero aos pequenos depositantes e aumentar as comissões bancárias dos clientes.

Civilibus-vac: os políticos estão (sempre) numa posição de destaque, pois (muitos deles) promovem e/ou protegem a grande corrupção. Esta vacina é destinada a pessoas que ocupam altos cargos do Estado e do governo.

Magistratus-vac: é a vacina dos parlamentares (com uma grande percentagem de juristas), que utilizam o Parlamento para criarem leis que defendem, nomeadamente, os interesses dos grupos citados acima: corruptioelecti, nummulariis e civilibus.

Iudicialis-vac: combate o vírus que ataca especificamente o sistema judiciário. Pensam vocês que a venda nos olhos da Justiça (mitologia grega) significa imparcialidade, uma não distinção entre os que estão a ser julgados? Puro engano: é para não ver a atuação danosa e criminosa dos mesmos grupos protegidos pelos políticos: corruptioelecti, nummulariis e civilibus.

Duceslocales-vac: é destinada a combater o vírus que ataca os autarcas, que têm uma função específica – promover e proteger a pequena corrupção. Deste grupo, saiu uma nova variante do vírus, denominada misericordiae.

Misericordiae-vac: é uma vacina específica para os dirigentes das misericórdias, cujas interesses políticos e económicos cruzam-se com os dos duceslocales; ou seja, o vírus circula entre os autarcas locais e os provedores.

–Populuscaptiosus-vac (vulgo povo chico-esperto): vacina destinada a todos os portugueses, sem exceção. Mas principalmente àqueles que tentam tirar vantagem em tudo, não respeitando as leis, os regulamentos e os direitos dos outros: passam à frente na fila, para receber a vacina contra o Covid-19, por exemplo, conseguem empregos por cunhas e não pela competência, consultas médicas no sector público, etc.

O problema é que, ao contrário da vacina contra o Covid 19, que (quase) todos tentam (e os mais bem posicionados conseguem) passar à frente dos que realmente deveriam ser vacinados em primeiro lugar, esses grupos mencionados nunca iriam aceitar receber essas vacinas. Porquê? Exterminar esses vírus iria acabar com os seus privilégios. Por isso, Portugal vai continuar como sempre foi, desde a origem da sua fundação até hoje: com falta de civismo e civilizacionalmente atrasado.

Uma visita à mansão Bolsonaro

Flávio Bolsonaro comprou mansão de R$ 6 milhões em Brasília. Raramente me interesso por pessoas cujas casas têm banheiros com mármore de Carrara, espaço gourmet, iluminação LED na piscina, home theater e toda essa papagaiada.

No entanto os teóricos do bolsonarismo, entre eles Steve Bannon e o chanceler Ernesto Araújo, sempre afirmam que sua luta é contra o materialismo decadente, que dará lugar a uma sociedade dominada pelos símbolos e povoada por sacerdotes.

Uma das formas de combater essa posição é apontar a distância entre as palavras e a realidade. Bannon vive como um homem rico, e a mansão do primogênito de Bolsonaro é mais uma demonstração de que seu grande projeto na vida é enriquecer.

Existem, no entanto, outras formas de contestar os teóricos do bolsonarismo, embora quase ninguém se importe com isso, por achar que eles são autoconstestáveis.


Gosto dessas discussões, pois, afinal, são parte da minha vida. Nas poucas visitas a Londres, sempre dedicava meu tempo a passear na querida Charing Cross Road, rua famosa por suas livrarias, que talvez nem existam mais como antes.

Foi na Charing Cross que comprei cinco volumes de uma pesquisa realizada pela Fundação Europeia de Ciência, sob o título de “Crenças no governo”. O quarto deles foi o que mais me interessou. Chama-se “O impacto dos valores”.

Toda vez que vejo teóricos da “alt-right” afirmarem que vivemos numa sociedade materialista decadente, lembro-me desse livro.

Segundo ele, os pontos da decadência materialista que mais incomodam, o feminismo, a luta contra o racismo, a ecologia, são na verdade valores que surgiram precisamente no pós-materialismo, a partir dos anos 60.

A passagem dos valores materialistas para uma nova fase significa a superação dos anos de dificuldades econômicas e inseguranças, abrindo espaço para as necessidades de autoexpressão, pertencimento, satisfação estética, cuidados ambientais, nesse caso uma ética para com as novas gerações.

Tudo isso surgiu de mudanças profundas na sociedade. Não houve um processo de perda de valores, mas sim de câmbio de valores.

As feministas questionam valores patriarcais, os negros questionam a supremacia branca, tão cara à alt-right, os intelectuais pós-materialistas condenam uma ideia de felicidade que consiste na acumulação de riquezas.

Os teóricos do bolsonarismo, ao se apegar a uma religiosidade popular, são apenas nostálgicos, pois não examinam as próprias mudanças no interior da religião, provocadas pelo avanço da racionalidade ocidental, aquilo que os sociólogos chamam de desencantamento do mundo.

Steve Bannon dá a impressão de que leu Heidegger. Duvido que tenha feito bom proveito. Segundo o filosofo alemão, somos um ser no mundo, impossível descuidar dele.

Trump e Bolsonaro destroem o meio ambiente em nome de um materialismo vulgar, que supõe que somos senhores do mundo e o controlamos de uma posição exterior.

Não quero dizer que as lutas modernas são perfeitas, nem negar que às vezes se excedem. Também não acredito que a questão identitária possa substituir uma consciência que envolva o problema de todos.

Quero apenas acentuar que os líderes espirituais da extrema-direita buscam reviver um passado que não existe mais e, mesmo quando essa ilusão leva a uma vitória eleitoral, é completamente incapaz de conduzir o presente. Por isso, volto à mansão do senador Flávio Bolsonaro e encontro nela um espaço mais adequado para traduzir os anseios de um grupo político que apenas se aproveita da religiosidade popular para atender aos anseios de acumular riquezas.

Não é por acaso que o grande líder mundial dessa corrente é Donald Trump. E seu correspondente tropical entope o país com armas, em confronto com a própria religião.

Escassez de vacinas contra a covid-19 na América Latina escancara desigualdade brutal entre países ricos e pobres

A América Latina e o Caribe não têm a quantidade de vacinas necessárias contra a covid-19. Até esta sexta-feira, 5 de março, os países da região haviam recebido 37 milhões de doses, que deverão ser distribuídas entre 630 milhões de pessoas. A cifra é suficiente para administrar menos de seis doses para cada 100 habitantes. Mantendo-se um critério de duas doses por pessoa, hoje a região pode imunizar 2,8% de sua população. Nos Estados Unidos, enquanto isso, quase um em cada quatro cidadãos já recebeu o imunizante. As desigualdades na distribuição global desenham um mapa das diferenças entre países ricos e pobres, como denunciou em janeiro a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Dois terços das vacinas foram destinadas aos 50 países mais poderosos, e 0,1% aos 50 países mais pobres”, adverte Diego Tipping, presidente da Cruz Vermelha Argentina. O México levou a demanda por maior equidade na distribuição ao Conselho de Segurança da ONU. E somou o apoio da Argentina, país com o qual se comprometeu a fabricar 250 milhões de doses até julho em parceria com a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca. A produção, no entanto, está atrasada por falta de embalagens. Ante a emergência, aumentou o “salve-se quem puder”, como também pode acontecer na Europa.

O resultado é que a cifra total de doses pode ser enganosa quanto à capacidade da América Latina e do Caribe de atender às suas populações, pois 87% das doses estão nas mãos de apenas quatro países: Brasil (15 milhões), Chile (8,6 milhões), México e Argentina (4 milhões). Os quatro integram o grupo das cinco maiores economias da região, com a única ausência da Colômbia. Já países como Cuba (que prepara sua própria fórmula) e Honduras não receberam nem uma dose sequer. Outros, como Paraguai (4.000), Equador (73.000) e El Salvador (20.000) contam com apenas alguns milhares. As diferenças entre ricos e pobres são evidentes.

A pressão interna sofrida pelos Governos para superar os vizinhos, somada à restrição atual do lado da oferta, transformou numa miragem a ideia da distribuição baseada na solidariedade entre os países. E o modelo de compras fez o resto. Com base na lógica do livre mercado, não numa estratégia sanitária global, os países com fluidos vínculos comerciais têm tido mais sucesso que os demais. O Chile é o melhor exemplo disso: 30 tratados comerciais em vigor e uma madura cultura de negociação permitiram que o país andino selasse contratos de 60 milhões de doses em três anos, das quais já recebeu quase 9 milhões para distribuir entre 16 milhões de habitantes. “As discussões internas sobre a vacina concentram-se no âmbito local, em comparar como estamos em relação ao vizinho. E devemos entender que o acesso à vacina não é só uma questão humanitária; relaciona-se também com uma estratégia bem-sucedida contra a pandemia. De nada adianta alguns países vacinarem a totalidade de sua população se outros não puderam começar, pois o vírus continuará circulando”, diz Tipping.

A maioria dos países da América Latina e do Caribe hoje depende do Covax, o mecanismo conjunto da OMS e da Aliança Global para Vacinas e Imunização (GAVI) para distribuir de forma equitativa 281 milhões de doses. As primeiras 117.000 chegaram na segunda-feira passada à Colômbia, país que, como tantos outros, ficou de fora da primeira rodada de entregas por parte dos laboratórios privados. O vazio abriu caminho para que a Rússia e a China introduzissem suas próprias vacinas na região.

Enquanto a farmacêutica americana Pfizer cumpriu 1,6% de seus contratos com a região e a britânica AstraZeneca somente 0,26%, as entregas da vacina russa Sputnik V e da empresa chinesa Sinopharm giram em torno de 5% do que foi acordado. “Laboratórios como Pfizer e AstraZeneca tinham também grandes compromissos na Europa e nos EUA, mas as vacinas russa e chinesa não tinham esses compromissos. Os países latino-americanos que compraram da Rússia ou da China receberam vacinas primeiro, pois é mais fácil estar na frente na lista desses laboratórios que na dos que têm compromissos com os EUA e a Europa”, explica o colombiano Johnattan García Ruiz, pesquisador do think tank Dejusticia e professor de Direito e Saúde Global da Universidade de Los Andes. “Uma coisa é fechar a negociação. Outra é que o laboratório cumpra com as entregas.”

Todos os presidentes têm uma responsabilidade inédita, que é pensar uma estratégia global contra a pandemia sem que os países olhem para si mesmos e se comparem com o do lado
Diego Tipping, presidente da Cruz Vermelha Argentina

O Brasil é um bom exemplo dos problemas relacionados com os envios. A maior economia da região reservou 415 milhões de doses (mais da metade delas da AstraZeneca), mas só recebeu 15 milhões para uma população de 210 milhões de pessoas. “O Brasil não comprou a tempo a quantidade adequada” diz Marcio Sommer Bittencourt, médico e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Bittencourt atribui a demora à imperícia do Governo de Jair Bolsonaro, que “não aceitou a oferta das empresas feitas antes da finalização dos estudos clínicos, criou obstáculos jurídicos, não facilitou a aquisição de vacinas por parte dos Estados e não buscou alianças.”

À primeira vista, o Brasil reservou mais vacinas do que necessita, mas até agora só conseguiu vacinar cerca de 4% da população, e isso considerando o total de pessoas que recebeu somente uma das duas doses dos imunizantes. “Obviamente, é mais difícil para um país pobre comprar vacinas, mas o Brasil é um país intermediário, como Chile, Marrocos e Turquia, que estão na frente na vacinação”, afirma. Assim como Argentina e México, o Brasil apostou na produção local de vacinas em parceria com laboratórios internacionais, com o Instituto Butantan (Coronavac) e a Fiocruz (em parceria com a AstraZeneca e a Oxford) na linha de frente. Mas o pesquisador da USP lamenta que o país não esteja desenvolvendo sua própria vacina contra a covid-19, embora tenha a tecnologia necessária. Gonzalo Vecina, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), lembra que o Brasil “exporta a vacina contra a febre amarela”, por exemplo.

Em 23 de dezembro passado, o México foi o primeiro país latino-americano a receber a vacina contra a covid-19. E, assim como o Brasil, está muito atrasado por problemas de escassez. O Governo de Andrés Manuel López Obrador fechou a compra de mais de 234 milhões de doses de cinco imunizantes diferentes, mas recebeu apenas 1,7% “O México fez o que pôde”, diz Mauricio Meschoulam, professor da Universidade Iberoamericana. Meschoulam explica que a margem de ação é muito reduzida para os países de renda média e baixa, porque o fator determinante nas negociações com as farmacêuticas é o financiamento para o desenvolvimento de suas vacinas. Desse modo, os países ricos pediram mais vacinas do que necessitam, e os laboratórios ofereceram mais do que podem produzir, deixando as demais nações no limbo.

“Estamos diante de uma desigualdade brutal na distribuição de vacinas no mundo”, diz Meschoulam. Uma realidade que serviu para que os governos justificassem as demoras nas campanhas locais. O protesto mexicano na ONU vai nesse sentido. “O Governo tenta explicar que ‘estamos lentos na vacinação e gostaríamos de ter mais vacinas, mas veja o que está acontecendo no contexto internacional’”, afirma Meschoulam. Os problemas se agravam à medida que diminui o poder de compra nacional ou que a situação política se torna mais frágil. É o caso do Peru, nas mãos de um Governo de transição após a saída antecipada do presidente Martín Vizcarra pela via parlamentar.

O Peru recebeu em fevereiro um milhão de frascos da chinesa Sinopharm, uma compra que foi manchada pelo chamado vacunagate, escândalo que envolve mais de 450 pessoas que se imunizaram irregularmente entre setembro e janeiro com doses que a empresa ofereceu ao Governo peruano em agosto. O diretor do Centro Bartolomé de las Casas de Cusco, Carlos Herz, chama a atenção para esses problemas adicionais, frutos da “frágil institucionalidade do Estado e da pouca capacidade de gestão”. “O ineficiente aparato público faz com que tenhamos essa quantidade de vacinas, mas os interesses políticos particulares agregam um fator de demora. Isso vai de encontro à capacidade de relacionamento para comprar”, diz Herz.

Os países da América Latina e do Caribe, sem exceção, devem resolver o quanto antes o gargalo existente na cadeia produtiva. Têm pouco ou nulo poder de fogo contra as maiores economias. Tipping, da Cruz Vermelha Argentina, diz que a situação é muito grave, mas que também há uma oportunidade. “Todos os presidentes têm uma responsabilidade inédita, que é pensar uma estratégia global contra a pandemia sem que os países olhem para si mesmos e se comparem com o do lado”, afirma.