domingo, 8 de março de 2020

Apelo às ruas é mais um sinal de desespero de um presidente isolado

O que causa espanto não é Jair Bolsonaro remeter um vídeo para seus seguidores endossando a manifestação de rua contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal convocada por seus devotos para o próximo dia 15 – e depois negar que o tenho feito. Nem aproveitar, agora, uma viagem de fim de semana a Roraima para incentivar o povo a participar da manifestação que será, segundo ele, muito bem-vinda, porque é “o povo quem diz para onde o Brasil deve ir”. Nada disso espanta.

Espanta é a reação dos que ainda acreditam ou dizem acreditar que Bolsonaro tem compromissos, sim, com a manutenção da democracia entre nós e que em momento algum tenta enfraquecê-la. Ou são ingênuos, ou cegos ou coniventes com ele. É direito do povo ou de parcelas dele ir às ruas pacificamente defender o que quiser, até mesmo uma ditadura como parte faz, e Bolsonaro nunca condenou, antes pelo contrário. Mas o presidente não tem o direito de jogar o povo contra os demais Poderes.

Foi o general Augusto Heleno, ministro do esvaziado Gabinete de Segurança Institucional, quem sugeriu a Bolsonaro chamar os bolsonaristas de raiz e os de ocasião para pressionar o Congresso a rever o acordo sobre o chamado Orçamento Impositivo da União. O acordo havia sido firmado, de um lado, pelos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, por outro, pelos ministros Paulo Guedes, da Economia, e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Bolsonaro e Heleno estavam informados a respeito. Mesmo assim o acordo acabou revisto por um Congresso com medo de ser enxovalhado nas ruas. Um novo acordo foi fechado nesta semana e começou a ser votado. Isso não impediu que Bolsonaro, outra vez, mentisse ao afirmar que não fez acordo.

O apelo dele ao apoio das ruas tem menos a ver com verbas do Orçamento e mais com a situação difícil que o país atravessa, e também o governo. A economia patina. O coronavírus chegou. Por sua culpa ou escolha, Bolsonaro está cada vez mais isolado. E aí... Aí tenta distrair a atenção dos brasileiros dos problemas que de fato importam. Quanto mais confusão, melhor para ele. Chama o palhaço fantasiado de presidente para explicar o pibinho. Culpa a imprensa por tudo, rompe relações com ela, para depois reatar. Cerca-se de generais. Nomeia uma artista de televisão, antiga namoradinha do Brasil, com a missão de pacificar as relações do governo com a classe artística. Promete que ela terá carta branca para governar e depois diz que não será bem assim.

Onde está Queiroz? Quem matou Marielle Franco? Por que barrar a investigação do esquema da rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro? O que guardam na memória os celulares do miliciano Adriano Lopes caçado e morto na Bahia?

É jogo jogado que Bolsonaro será sempre Bolsonaro, o mal militar como disse o ex-presidente Ernesto Geisel, o presidente mau como se revela. Resta impedi-lo de destruir “tudo o que está aí” para depois construir o país dos seus sonhos. Ou dos seus pesadelos.

sábado, 7 de março de 2020

Nacional-populismo

A eleição de Bolsonaro insere-se no fenômeno do surgimento da direita nacional-populista que levou ao poder Trump nos Estados Unidos, Viktor Orbán na Hungria, Salvini e Beppe Grillo na Itália, ao Brexit e a Johnson na Inglaterra.

Líderes vencem não pela consistência de suas convicções, mas porque, orientados por especialistas em opinião pública, lançam mão de técnicas e algoritmos na internet. Conhecem, então, a receita do bolo a ser servido a cada tribo de consumidores/eleitores, por via do estudo científico dos medos, aspirações, alegrias e ódios desvelados no uso das redes sociais, das quais surge perfeita tomografia de corpo e alma dos usuários. As frustrações e a raiva que produzem são fonte de energia e formam o cardápio político. Conforme Moura e Corbellini (A Eleição Disruptiva – por que Bolsonaro venceu, Record, 2019),“a vitória de Bolsonaro foi a manifestação da ira contra tudo o que está aí, foi a eleição dos indignados”.

Os magos por trás da máquina de controle daqueles que se pensam, enganadamente, fautores do próprio destino por integrarem as redes sociais são os técnicos como Gianroberto Casaleggio, na Itália, Dominic Cummings, que conduziu a campanha em favor do Brexit, o ex-chefe de campanha de Trump e próximo de Olavo de Carvalho, Steve Bannon, o articulador de Orbán, Arthur Finkelstein e o controvertido jornalista Milo Yiannopoulos.

É Giuliano Da Empoli, no livro Os Engenheiros do Caos (Vestígio, 2019, tradução de Arnaldo Bloch), que revela a nova política tecnicamente administrada, gerida sem nenhum limite ético.


As manobras antes utilizadas em face do consumidor passaram a ser aplicadas ao eleitor, objeto de cooptação para levar ao poder ambiciosos sem pudor, falsos moralistas que prometem expulsar os maus do “templo” valendo-se do ressentimento e da raiva fáceis de ser explorados, sempre sob a ótica conspiratória contra bodes expiatórios denunciados com fake news nas redes sociais.

Adotam esses chefes autoritários posições diversas a cada passo. Dizem um dia o necessário para contentar parcela Y da sociedade, para no seguinte, sem preocupação com a coerência, aderirem ao inverso, se preciso, para satisfazer a parcela X.

No caso brasileiro, o desencanto com a corrupção após a ditadura, a desesperança de dias melhores após a nova Constituição, bem como a crise de segurança pública facilitaram um discurso raso de direita e a indicação dos culpados: a classe política, acusada de só ver o próprio interesse, as elites traidoras, o aparelhamento do Estado.

A eventual frustração de cada qual nos planos profissional, econômico, sexual, familiar se soma à indignação dos eleitores contra o PT, a corrupção, o Congresso, o STF, muitos sem perceber que ir contra os dois últimos lesa direitos fundamentais e instaura o arbítrio.

A tática é sempre a mesma: populistas, ao se nutrirem do ódio dos outros, fazem da humilhação dos poderosos a sua promessa, como diz Da Empoli. Ser vulgar e grosseiro, mormente com a imprensa, e afrontar o politicamente correto passa por exprimir autenticidade, atendendo ao gosto popular, ao contrário dos hábitos das elites e da velha política.

Buscam-se os cantos, e não o centro, ou um denominador comum. Não há união, mas adjunção. Somam-se desconhecidos, cada qual carregando sua revolta em direção aos extremos e a ser explorada pelos líderes populistas manobrados pelos técnicos em algoritmos e internet.

Da Empoli ressalta: “No mundo de Trump, Johnson e Bolsonaro cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo e, mal se está comentando um evento, esse já é eclipsado por outro, numa espiral infinita que catalisa a atenção e satura a cena midiática”.

No carnaval houve reiterada conduta agressiva de Bolsonaro: ofendeu a jornalista da Folha; divulgou conversa do general Heleno chamando congressistas de chantagistas e sugerindo ida às ruas; postou no WhatsApp dois vídeos convocando para ato em 15 de março: num conclama patriotas a resgatar o Brasil e defender o presidente cristão e incorruptível; no outro põe os nomes Gen. Heleno/Cap. Bolsonaro e se faz de mártir ante os inimigos do Brasil; na quinta-feira 27/2 acusou mendazmente a jornalista Vera Magalhães de mentir.

Se Bolsonaro nunca teve apreço pela democracia representativa e pelos partidos políticos, sabe, todavia, o valor de um gabinete do ódio no terceiro andar do palácio a calibrar a relação direta entre o “líder” e o povo a ser emocionalmente explorado. Basta assistir ao vídeo compartilhado no qual sem pudor é endeusado: “Foi chamado a lutar por nós”, “quase morreu por nós”, “única esperança de dias cada vez melhores”, “presidente trabalhador, patriota”, “precisa de nosso apoio nas ruas”. Apoio por quê? Ora, apenas em favor da ambição do poder populista, sem intermediação.

O que parece desatino em muito é planejado. Na convocação para o dia 15 Bolsonaro exagerou e pulou no carnaval fora da dignidade e dos limites constitucionais impostos pelo cargo. O mesmo na triste comédia do PIB.

'Talkey show' da vergonha

Não tendo como mentir sobre o pibinho, Bolsonaro convocou um humorista travestido de Bolsonaro para distribuir bananas à imprensa —um humorista, aliás, que é fake: autodenominado Carioca, ele nasceu em Niterói. Jornalistas não cooptados pelas verbas do governo se recusaram a participar da palhaçada, agravando uma discussão deontonlógica: diante de tantas ofensas, repórteres devem continuar ouvindo o presidente no cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada?

O "talkey show" é uma vergonha, mas deve, sim, ser registrado, para que no futuro não digam que estávamos aumentando ou faltando com a verdade —por mais inverossímil que ela pareça. E até para que possamos rir dela, ao lado de nossos netos, quando o pesadelo passar. Se o próprio presidente quer fazer um papel ridículo, o problema é dele. E, se não formos nós, quem irá questioná-lo? A claque? Isso não quer dizer que não possamos protestar: na próxima semana está marcado um dia de braços cruzados simbólico.


Na esperança de que a relação entre imprensa e governo possa se estabelecer de maneira responsável, segue uma pequena pauta com perguntas a serem respondidas pelo verdadeiro presidente, aquele que fez o juramento de manter e cumprir a Constituição, e não pelos muitos bobos da corte, profissionais ou não, que o circundam:

Por que o senador Flávio Bolsonaro tentou nove recursos para trancar as investigações contra ele envolvendo crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa? Por que o governo privilegia Sul e Sudeste na concessão do Bolsa Família, em detrimento do Nordeste, que concentra maior número de famílias pobres? Por que o gabinete do deputado Eduardo Bolsonaro propaga ódio na internet?

Quanto mais alto o dólar, melhor? Por que os 13 celulares do herói-miliciano continuam mudos? Quem pagou o cachê do falso Carioca? Cadê o pibão prometido?

Brasil no tarô


É na fronteira que a Europa perde sua alma

É aqui, na fronteira entre a Grécia e a Turquia, que eu estou deixando de acreditar na Europa. O que aconteceu com os nobres valores que a Europa e também nós, como seus cidadãs e cidadãos, representam?

"A dignidade humana é inviolável": essa frase é a síntese do que a Alemanha e a Europa significam para mim. Não importa a cor da pele, a religião, a orientação e identidade sexual, a etnia: todos temos os mesmos direitos perante a Lei Fundamental (Constituição alemã).

Mas aqui, no pequeno vilarejo fronteiriço de Kastanies, eu deixo de acreditar naquilo que eu mesmo digo durante as minhas viagens pelo mundo árabe: "Vocês podem acusar a Europa e a Alemanha, minha pátria de adoção, de muitas coisas, mas os direitos humanos são respeitados por lá."

Estou decepcionado. A inviolabilidade da dignidade humana não existe aqui, na fronteira externa sudeste. Aqui a Europa começa a perder a sua alma.


Onde crianças e mães com seus bebês resistem, as forças de segurança da Grécia lançam gás lacrimogêneo. Pessoas que fugiram de seus países em guerra relatam que as forças de segurança gregas bateram nelas quando tentaram atravessar a fronteira, e que elas foram enviadas de volta para a Turquia. Ao que tudo indica, os desesperados na fronteira – mulheres, homens e crianças – não são humanos o suficiente para que os direitos humanos valham também para eles.

Não devemos deixar que o desumano se torne banal. Quando pessoas que buscam refúgio não podem mais atravessar a fronteira da União Europeia (UE), então somos nós que atravessamos a fronteira daquilo que é humano. Tolerância e solidariedade para com pessoas que perderam tudo – de que valem os direitos fundamentais da Europa se ficamos escolhendo, nas nossas fronteiras, quem tem e quem não tem direito a ser tratado com dignidade? Os direitos humanos não são seletivos. Eles deveriam proteger pessoas fracas e necessitadas da arbitrariedade. Não importa de onde elas venham.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, usa os refugiados em prol dos seus próprios interesses. Eu não esperava outra coisa de um não democrata. Mas da União Europeia, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2012 por seu engajamento pelos direitos humanos? O que a UE faz? Os 27 países-membros querem enviar um sinal para a Turquia: não se deve usar refugiados para fazer pressão. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, elogiou o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, e qualificou a Grécia de escudo protetor da Europa.

Aqui, na fronteira, eu não vejo nenhum perigo para a Europa. Eu vejo pessoas desesperadas, passando frio, miseráveis, famintas e necessitadas, que deixaram seus países em busca de uma vida melhor. Não são pessoas de quem nós precisamos nos proteger, mas pessoas que nós precisamos proteger.

Na Grécia, o direito ao refúgio foi suspenso: pedidos não serão mais aceitos durante um mês. A ONU criticou a decisão, que não tem base legal. Os gregos, mesmo assim, não querem revê-la. E eu que pensava que os países-membros da UE são, todos, Estados de Direito, onde a lei é levada a sério. Estou estupefato. O direito ao refúgio é um direito humano!

No mínimo, uma pessoa deve poder encaminhar um pedido. A avaliação legal do pedido decidirá se ele será aceito ou não. Simplesmente acabar com esse direito, sem qualquer base legal, é, para mim, uma clara afronta aos direitos humanos. Justamente isso não poderia ocorrer, muito menos depois de radicais de direita terem atacado funcionários de uma ONG e jornalistas na ilha de Lesbos. A extrema direita na Europa se sente confirmada com isso!

Essa política da marginalização, da priorização com base na origem, na religião ou na cor da pele é desumana. No que ainda somos diferentes dos extremistas de direita na Europa quando se trata de política migratória? O que nos diferencia de Weidel, Höcke e Orbán?

Ninguém abandona sua casa se não houver necessidade. Nenhuma pessoa abandona sua casa se ela tiver como se sustentar ali, se ela se sentir segura, se houver paz, se as crianças puderem ir para a escola. Como nós, europeus, podemos esquecer os nossos valores quando algumas milhares de pessoas chegam à nossa fronteira?

O Bundestag (Parlamento alemão) rejeitou até mesmo acolher 5 mil refugiados que estão na Grécia. O Partido Verde queria que a Alemanha recebesse 5 mil crianças desacompanhadas, grávidas, mulheres que fugiram sozinhas ou pessoas traumatizadas que estão nos campos de refugiados gregos. Essas pessoas poderiam ser nós. Por que deixamos pessoas, que estão necessitadas, sozinhas?

Ajuda humanitária já, controle e verificação de identidade dos refugiados, verificação do grau de proteção de que necessitam: isso seria o caminho correto. Em vez disso, 26 políticos europeus enfiam a cabeça na areia e repassam 700 milhões de euros de ajuda emergencial para a Grécia fechar a fronteira. O preço é um campo crescente de miséria às portas do nosso continente, são crianças, mulheres e homens doentes e traumatizados.

Onde estão os direitos humanos na Europa quando mais se precisa deles? Eu não quero deixar de acreditar nisso. Eu quero continuar contando, no mundo árabe, que a Europa respeita os direitos humanos!
Jaafar Abdul Karim

O perigo da ambiguidade

Entre as anomalias deste tempo está a ambiguidade com que o governo Bolsonaro tratou o motim da Polícia Militar no Ceará. O presidente, seus filhos e seus ministros, inclusive os generais — com raras exceções — não condenaram a ação criminosa dos policiais e usaram o evento para os seus objetivos políticos. O governador Camilo Santana (PT) se comportou de maneira firme e mesmo depois de tudo resolvido evitou as polêmicas, para focar no principal: este tipo de movimento é crime e passar mensagens dúbias em relação a ele é pôr em risco a ordem pública.

É espantoso que um governo que tem tantos oficiais generais tenha sido leniente com o comportamento delinquente de servidores públicos armados. Se há um valor que as Forças Armadas costumavam prezar é a hierarquia. Os amotinados a quebraram. Eles usaram as armas compradas com o dinheiro dos nossos impostos contra os cidadãos. Com balaclava no rosto, à moda de bandidos, ameaçaram comerciantes e aterrorizaram cidadãos.


O episódio em que ficou mais claro o apoio implícito do governo federal aos amotinados foi o discurso do coronel Aginaldo Oliveira, comandante da Força Nacional, num palanque, elogiando os amotinados. Eles seriam “gigantes” e “corajosos”. “Os senhores se agigantaram de uma forma que não tem tamanho”, disse ele. “Demonstraram isso ao longo de 10,11,12 dias que estão aqui dentro desse quartel, em busca de melhoria da classe, e vão conseguir. Os covardes nunca tentam, os fracos ficam pelo meio do caminho, só os fortes conseguem atingir seus objetivos”. Era um sinal para policiais de outros estados para fazer o mesmo em busca dos seus “objetivos”.

O mais impressionante não foi o que o coronel disse, mas o silêncio dos seus superiores. Um eloquente silêncio como o do ministro da Justiça, Sérgio Moro. Semanas antes, Moro fora padrinho no casamento do coronel com a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) e, no discurso da cerimônia, usou para definir a noiva uma palavra considerada elogiosa: “caveira.” No caso do Ceará, Moro escondeu-se no silêncio. Em outros momentos foi loquaz.

No Twitter ele politizou o caso afirmando que “a crise no Ceará só foi resolvida pela ação do governo federal, Forças Armadas e Força Nacional que protegeram a população e garantiram a segurança”. É falso. O governador Camilo Santana foi bem mais equilibrado. Ele reconheceu, em entrevista à Central Globonews, o papel do governo federal, mas afirmou que o governo estadual foi fundamental para debelar a crise e criar os parâmetros para além das fronteiras do Ceará. Santana mandou uma Proposta de Emenda à Constituição do estado proibindo a concessão de anistia a policiais amotinados. Ela já foi aprovada com um adendo feito pelos parlamentares: a própria assembleia fica proibida de analisar aumentos de salários por seis meses após um motim. Se o governador cedesse, o problema se espalharia por outros estados. A tibieza do governo federal tem um motivo conhecido: Bolsonaro fez sua carreira política apoiando motins de policiais. Ele próprio saiu do Exército num caso de insubordinação.

O senador Cid Gomes (PDT-CE) tentou entrar com uma retroescavadeira em um quartel de amotinados. O governo aproveitou esse ataque de insensatez para fazer política. O governador Camilo Santana, por sua vez, não quis criticar o senador porque ele é seu aliado. Disse que ele estava demonstrando indignação. Há muitas formas de demonstrar esse sentimento. Essa não é uma delas. Mas o fato é que hoje Cid Gomes carrega duas balas no corpo. O deputado Eduardo Bolsonaro protocolou denúncia na Procuradoria-Geral da República contra Cid Gomes por “tentativa de homicídio” e “dano ao patrimônio público”. Não houve a mesma preocupação de criticar os amotinados ou quem atirou contra o senador, nem por parte do deputado, nem por parte de integrantes da cúpula do governo.

Moro conseguiu a proeza de dar um nó num princípio jurídico. Afirmou que a “paralisação” era ilegal, mas os policiais não podiam ser tratados como criminosos. Para o ex-juiz, descumprir a lei deixou de ser crime. Aliás, é a lei maior, a própria Constituição, que proíbe greve de militares. Por isso, a definição correta não é a palavra “paralisação” que o ministro usou, mas motim.

Mediocridade, atenção

Os médios é que estão em perigo, a gente meia corrompida e meia intacta; os homens que estão contaminados por dentro e querem parecer cândidos e justos 
Giovanni Papini, "História de Cristo"

Um governo de outro mundo

Danos econômicos já se espalham por todo o mundo, produzidos pela epidemia de coronavírus, mas o governo brasileiro tem-se comportado como se estivesse em outro planeta. O crescimento mundial poderá cair de 2,6% em 2019 para cerca de 1% neste ano, segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IIF), formado por 500 dos maiores grupos financeiros do mundo. No Brasil, já há quem projete expansão abaixo de 2% para o Produto Interno Bruto (PIB). Exportadores de petróleo voltaram a rebaixar a demanda mundial esperada para este ano, enquanto a Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata) calcula perdas entre US$ 63 bilhões e US$ 113 bilhões, em 2020, para a indústria da aviação civil. Mas os brasileiros deveriam ficar tranquilos, garantiu na quarta-feira, em Brasília, o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O Brasil, segundo ele, está longe de ser “uma folha ao vento do comércio internacional”. Além disso, o País avança, de acordo com o ministro, em sentido oposto ao do resto do mundo. “Agora o mundo começou a desacelerar e nós estamos reacelerando – estamos fora de fase com eles.”


Se o ministro falou, essa deve ser a posição oficial de seu Ministério e também do governo, mas nem dentro do Ministério há entendimento. Isso é evidenciado pela confissão do secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, em palestra ontem de manhã. “Durmo preocupado”, disse ele, “por não saber o que vai acontecer com o crescimento do mundo. A gente sabe o que é a China crescendo 6%, 7% ao ano. Não sabe o que é a China crescendo 3% ao ano. Que vai acontecer com o mundo num cenário de crescimento baixo, em que ainda se está numa fase de recuperação? Assusta.” O Brasil, lembrou o secretário, também é afetado pela piora mundial.

Talvez seja impossível, neste momento, uma resposta precisa à interrogação do secretário do Tesouro. Mas toda resposta sensata é por enquanto preocupante, segundo os economistas de instituições financeiras e das principais consultorias. O Banco Fibra reduziu de 2,6% para 1,8% o crescimento do PIB estimado para 2020. A projeção do Banco Safra foi diminuída de 1,9% para 1,6%. A da LCA Consultores foi rebaixada de 2,3% para 1,9%. A da XP Investimentos foi revista de 2,3% para 1,8%. O crescimento esperado para o Brasil foi mantido em 1,7% pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em relatório divulgado na segunda-feira. De toda forma, a previsão para a economia brasileira já era baixa no documento anterior, publicado em novembro.

Para o PIB global a estimativa da OCDE passou de 2,9% para 2,4%, mas, se a epidemia for pior do que pareceu inicialmente, a expansão mundial poderá ficar em cerca de 1,5%. O cálculo divulgado pelo IIF já incorpora, portanto, uma avaliação mais dramática da nova emergência sanitária. O crescimento próximo de 1% será o mais fraco desde a crise de 2008. O instituto mudou de 2% para 1,3% a expansão prevista para a economia americana e de 5,9% para 4% o aumento esperado para o PIB chinês.

A epidemia também motivou a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) a reduzir de novo a projeção da demanda global. Pelas contas do fim de 2019, a procura mundial de petróleo teria um acréscimo de 1,14 milhão de barris/dia neste ano. O crescimento agora esperado é de 480 mil barris/dia.

Enquanto as preocupações atrapalham a bolsa, jogam o dólar para cima e levam o mercado a rever projeções, o ministro da Economia parece habitar outro mundo, ao contrário do secretário do Tesouro. Não é normal, segundo o secretário, um país como o Brasil crescer 1%, como no ano passado.

Em São Paulo, o ministro Guedes disse ontem esperar uma expansão de 2% em 2020 e reafirmou a aceleração nacional. O Brasil, afirmou, é pouco vulnerável às flutuações externas, por ser uma economia fechada. Além disso, atribuiu à Secretaria de Política Econômica a projeção de 2,4% para este ano. A dele, insistiu, sempre foi de 2%. Curiosamente, a tal secretaria é subordinada ao ministro Paulo Guedes.

O Governo da piada pronta não precisa de humorista

No mesmo dia em que convocou o humorista Carioca para responder a questionamentos da imprensa sobre o PIB em seu lugar, o presidente Jair Bolsonaro viu um antigo aliado protagonizar um episódio digno dos esquetes mais aleatórios do humor. O ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, que o apoiou na campanha presidencial e, recentemente, se tornou embaixador do turismo com a devida bênção bolsonarista, foi detido após entrar no Paraguai com documentos adulterados. Uma personalidade incumbida da missão de promover a imagem do Brasil mundo afora investigada por suspeita de passaporte falso.

Ronaldinho acumula problemas com a Justiça brasileira. Em 2015, ele e seu irmão, Roberto de Assis Moreira, foram condenados a pagar multa de 8,5 milhões de reais por construções irregulares em áreas de preservação ambiental às margens do rio Guaíba, em Porto Alegre. Sem êxito na tentativa de cobrar o pagamento pelas infrações e indenização estipulada, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul determinou a apreensão dos passaportes da dupla no fim de 2018, mas os irmãos ignoraram as intimações. Somente um mês depois da ordem judicial, eles entregaram os documentos, o que comprometeu a agenda de compromissos publicitários de Ronaldinho no exterior.


Porém, nem mesmo a impossibilidade de viajar para fora do país impediu que ele fosse nomeado embaixador do turismo brasileiro em setembro do ano passado. A função voluntária, que não prevê remuneração, integra um programa da Embratur em que personalidades exercem o papel de promotoras de atrações turísticas do Brasil. Por causa da condenação, a escolha do ex-jogador para o time de embaixadores gerou controvérsia no Ministério do Turismo. Na época, a Embratur explicou que o cargo é “honorário e simbólico”, sem implicações com os imbróglios do astro na Justiça.

“Espero poder ajudar, em todo lugar do mundo onde eu passe, a mostrar esse nosso país tão bonito por natureza, convidando o mundo todo a vir pra cá. É motivo de muito orgulho”, disse Ronaldinho, que também é embaixador internacional do Barcelona, em sua cerimônia de nomeação. No mesmo mês, o Ministério Público do Rio Grande do Sul chegou a um acordo com os irmãos Assis para a quitação da multa e, consequentemente, a liberação dos passaportes. Até então, eles tentavam reaver os documentos por meio de recursos no Supremo Tribunal Federal (STF), mas não haviam conseguido derrubar a decisão da Justiça gaúcha. Em fevereiro, o Ministério Público Federal, que defendeu a apreensão dos passaportes, acatou denúncia contra Ronaldinho por outro processo, em que é acusado de fazer parte de um esquema de pirâmide financeira envolvendo criptomoedas.

A viagem de Ronaldinho ao Paraguai foi motivada pelo contrato de marketing do ex-jogador com um cassino em Assunção mantido pelo empresário Nelson Belotti, apontado pela Operação Lava Jato como suposto intermediário de 24 milhões de reais em movimentações suspeitas por lavagem de dinheiro entre empresas de José Carlos Bumlai, Alberto Yousseff e a JBS. A defesa do ex-atleta e do irmão diz que eles não sabiam que o documento era adulterado e que vão colaborar com as investigações até que tudo seja esclarecido. A Embratur ainda não se pronunciou sobre a detenção constrangedora do ex-jogador, o segundo embaixador nomeado pelo órgão implicado em embaraços judiciais. Richard Rasmussen, biólogo e apresentador de TV escolhido para promover o ecoturismo brasileiro, já foi multado oito vezes pelo Ibama por danos à fauna e ao meio ambiente.

Não é de se espantar o “dedo podre” de Bolsonaro, que soma desgastes na presidência pelas relações pregressas com milicianos. O ministro da Educação, o segundo em menos da metade do mandato, tropeça na gramática. O do Meio Ambiente tem no currículo uma condenação por favorecer empresas em detrimento do… meio ambiente. O do Turismo, representado internacionalmente por embaixadores como Ronaldinho e Rasmussen, é réu por suspeita de candidaturas laranjas. Rodeado de tantos “cidadãos de bem”, o presidente não precisa de humoristas para fazer graça com sua corte. As cenas de tragicomédia no Governo se reproduzem em modo automático. Nem precisa ensaiar.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Quem mandou nascer pobre no Brasil?

Pobre é uma desgraça. Mora em área de risco para curtir a vista e a natureza, adora fazer cocô e xixi nos rios e no mato, joga lixo e sofá nas encostas e córregos, provoca enchentes e entope bueiros. Pobre causa desmatamento na Amazônia e é o maior inimigo do meio ambiente. Pobre não sabe poupar e, quando aparece um dinheirinho e o dólar favorece, desperdiça com excursão à Disney.

Quem mandou nascer pobre no Brasil? Ainda por cima, pobre sobrecarrega o SUS. É um escândalo. Pobre adoece com frequência, não se cuida e morre até na fila ou no corredor de hospitais, expondo prefeitos, governadores e presidente. Pobre empurra pobre para poder entrar em trem e ônibus superlotados e ir trabalhar. Cadê as boas maneiras em transporte tão inseguro e sucateado?


Estão falando aí de Orçamento impositivo. Com O maiúsculo. Ando mais preocupada com a Pobreza impositiva. Essa miséria que invade nossas casas pela televisão e nos deixa culpados por morar em casas secas, por dar descarga em nossos vasos sanitários e beber água mineral, quando 35 milhões de brasileiros não têm água tratada e 100 milhões não têm coleta de esgoto. Repetindo: metade da população brasileira não tem esgoto.

Pobre tem mania de se apegar à pobreza no Brasil. Tirando craque de futebol, youtuber, funkeiro e algumas exceções só creditadas a uma garra monumental para estudar e a um talento individual excepcional, a carência passa de geração a geração. Muito difícil melhorar de vida se não nascer já numa família de posses.

O Forum Econômico Mundial mostrou que, no ranking de mobilidade social, estamos em 60º lugar entre 82 economias, piorando a cada ano desde 2015. O Brasil só é campeão na desigualdade: nenhuma outra democracia concentra mais renda no 1% mais rico. O pobre deve ter culpa aí também. Por que são eles tantos?

O povo não é bobo. Pobre não sai em manifestações de idolatria a políticos. Às vezes o pobre consegue protestar, como o que jogou lama ao vivo no prefeito bispo Marcelo Crivella. Não jogou ovo nem tomate porque sua geladeira foi destruída. E a casa, submersa pela incompetência de um prefeito que tira dinheiro da prevenção de enxurradas e fecha os olhos a moradias irregulares patrocinadas pela milícia.

Da boca de Crivella, também jorrou lama. Naquele cenário desolador, de mortes, choros e desesperança, Crivella não assumiu sua responsabilidade na coleta ineficiente, sua omissão criminosa apesar de aumentar abusivamente o IPTU. Acusou o pobre. Aquele que perde tudo e vê a vida e os móveis boiando em casa, como num conto de realismo fantástico. O prefeito pediu desculpas depois. Isso já está manjado. O pós-discurso dos governantes é o mesmo. As aspas são sempre “deturpadas pela imprensa”.

Crivella se queixa de sofrer “pré-conceito” por ser “um bispo evangélico”. No culto da igreja, ele prega o Evangelho, “mas aqui na prefeitura não”. Mentira, prefeito. Nas reuniões de trabalho internas, o senhor vive usando citações bíblicas. É Isaías versículo tal e tal. Distribui as bíblias do tio, Edir Macedo, nas salas dos assessores. E canta, no trabalho, músicas sobre o Senhor. Reserve um pouco de amor e compaixão para o pobre.

Como o Rio de Janeiro sofre uma “tempestade perfeita”, ainda temos o Witzel prometendo um manual de comportamento para evitar mortes por balas perdidas em favelas. Manual para morador, bem entendido. Pobre cisma de sair de casa bem na hora em que a polícia está atirando a esmo contra suspeitos. Quem mandou nascer pobre, sem acesso a educação, saúde, moradia, saneamento e segurança? 

(Nova) Paisagem brasileira


No circo

No picadeiro armado no portão do Alvorada surge um palhaço animadíssimo, de terno escuro e faixa presidencial, que salta de um carro oficial carregando uma penca de bananas que aguarda o momento de serem atiradas nos apaixonados pelo mito e nos jornalistas que não tinham se dado conta, ainda, que aquele cercadinho era na verdade um picadeiro.


Sinceramente, os jornalistas ali presentes levaram muito tempo para identificar, com seu nome verdadeiro, o cercadinho como picadeiro... Vamos relevar essa lentidão. Afinal eles não foram até ali por livre vontade, foi a pauta que seus chefes lhes passaram. A ideia central era fazer perguntas ao Presidente da República e anotar as respostas do chefe da Nação. Do verdadeiro ou do palhaço travestido de presidente? Dos dois, já que ambos são palhaços, ambos adoram dar bananas, ambos sonham com as gargalhadas dos adoradores do mito.

E qual é a missão do palhaço? Fazer rir ou fazer chorar? Na verdade, acho que ninguém sabe. No circo muitas vezes o palhaço não consegue fazer rir. No palco da ópera, às vezes faz chorar, mas no picadeiro do Alvorada, não faz nem rir, nem chorar. O que o palhaço que carrega as bananas faz é alertar o reduzido número de presentes sobre quem é o verdadeiro palhaço!
As bananas que o palhaço carrega têm uma perfeita utilidade: matam a fome de quem às vezes está em jejum e confirmam a semelhança entre o mito e o humorista. O mito só ri. Está feliz, nada lhe é mais agradável do que fazer rir e exibir aquele seu sorrisinho tão encaixadinho que seus amantes ficam até um pouco em dúvida: ele estará sorrindo ou assustado, temeroso do que estará por vir? Será que é isso?

Talvez seja. Por via da duvidas, o melhor é levar um alter ego para poder depois dizer que não foi ele, foi o palhaço que deu bananas para a plateia do circo...

Até quando se aguenta?

A imprensa se pergunta até quando o governo de Jair Bolsonaro vai durar. Eu, modestamente, pergunto-me até quando vou durar com o governo de Jair Bolsonaro
Diogo Mainardi 

Carnaval no governo, cinzas na economia

Era um daqueles dias de pânico nos mercados financeiros, quando muita gente não sabe bem o que está fazendo nem para onde o vento sopra. O ministro da Economia deu mais unstiros nesse desconcerto.

Para quê? O tempo está fechando. Já há paniquito entre os negociantes de dinheiro grosso, "o mercado", mas também questões reais na praça, além dos lobbies de costume.

Nesta quinta-feira, o pessoal da finança pediu ao Banco Central que atenue a corrida do dólar. Foi também dia de pregar que o BC não reduza a taxa básica de juros daqui a duas semanas.


O mercado já jogou a "sua" taxa básica de curto prazo no chão, mas argumenta que nova queda da Selic vai colaborar para alta adicional do dólar e alimentar riscos de inflação, com o que os juros de prazo mais longo já sobem. Na terça-feira, o Banco Central sugeriu que tal coisa não tende a acontecer.

Caso fosse duradoura e relevante, essa alta das taxas de juros de prazos mais longos encareceria o financiamento dos negócios, de fato. Mas a alta dos juros mais longos nem durou nada, nem foi relevante e nem alguém tem ideia segura do destino do dólar e de seus efeitos na inflação. Até mesmo o impacto da crise que veio da China no PIB brasileiro é incerto.

O tiroteio de frases de Paulo Guedes pode dar em nada, assim como a desordem desta quinta-feira na praça financeira --por vezes isso simplesmente passa. No entanto, como o governo de Jair Bolsonaro é dado ao disparate atroz contínuo, o ambiente anda estressado e a desconfiança aumenta.

Por exemplo, há cada vez mais fofoca sobre a permanência de Guedes no governo, o que não está em questão, mas é um exemplo dos efeitos nocivos do rumorejo constante, desde janeiro em nível de gritaria graças às crises de Bolsonaro.

No dia depois do pibinho, Guedes:

1) disse que, se "fizer muita besteira", "se o presidente pedir para sair, se todo o mundo pedir para sair", o dólar pode ir a R$ 5;

2) observou que as notícias da relação conturbada de Bolsonaro com o Congresso e o risco de atraso nas reformas contribuem para alta do dólar (não deu para entender se o ministro atribuiu a responsabilidade ao tumulto ou ao fato de o tumulto ser noticiado);

3) fez observações azedas sobre uma declaração de seu secretário do Tesouro ("se o Mansueto [Almeida] estava esperando que fosse crescer 3%, ele deve estar frustrado");

4) disse que sua previsão de crescimento da economia é diferente da estimativa da Secretaria de Política Econômica.

"Se todo o mundo pedir para sair"? Do que se trata?

Guedes disse ainda que, como o Brasil é uma economia fechada, a crise mundial não terá efeitos tão grandes ("quando ventou a favor [no mundo], não pegou, quando ventar contra, também não pega tanto"). Hum.

Não tem sido esse o caso do último quarto de século, por exemplo, quando a economia brasileira passou a sentir especialmente as variações da economia chinesa e seus impactos nos termos de troca (a relação entre os preços das exportações e das importações brasileiras). Uma queda relativa do preço dos bens que exportamos, dominados por commodities, tende a reduzir o crescimento brasileiro. Não é destino, mas é provável.

Em si mesmas, em um ambiente e país mais normais, uma afirmação dessas de Guedes não faz lá diferença. Soltar todas elas em apenas um dia, dia de paniquito, em país ainda mais conturbado pela sensação crescente de desgoverno, confirma essa impressão de que a coisa está desgovernada.

Bolsonaro não tem ideia da agenda de presidente

Por mais que o presidente Bolsonaro tenha se esforçado para se esquivar de perguntas sobre o baixo desempenho da economia no ano passado, com a evolução do PIB se mantendo no nível decepcionante de 1%, a realidade de uma economia quase estagnada continua a existir e, cada vez mais, pressiona sua gestão.

A atitude que se espera do presidente é reagir à inércia que tomou conta do seu governo com respeito às reformas. Precisa reativá-las, uma resposta adequada à virtual estagnação da economia.

Isso requer o envolvimento direto do Palácio nas articulações com o Congresso, falha recorrente do governo Bolsonaro. O que faz aumentar as preocupações com o alheamento do presidente e as demonstrações de que não entende as suas funções.

Podia não ter encontrado a imprensa na quarta-feira, dia da divulgação do PIB de 1,1%, se não queria falar sobre o assunto.


Mas na porta do Alvorada decidiu ir ao encontro dos repórteres com uma performance debochada e desrespeitosa, em que um humorista com faixa presidencial saiu do carro oficial para oferecer bananas aos jornalistas. Transformou o Palácio em circo.

Bolsonaro constrói com eficiência a imagem de alguém que não está à altura do cargo. Mostra não entender a dimensão da agenda presidencial. Dela consta não apenas apressar as reformas, como também resistir a pressões que devem surgir para abandonar o ajuste fiscal, a fim de supostamente acelerar a retomada da economia com mais gastos públicos.

O presidente deveria fazer uma reflexão profunda sobre as razões para atrairmos tão pouco investimento externo. Concluirá que parte da explicação está na imprevisibilidade do seu comportamento, fator de aumento da percepção de risco pelo investidor. Um país em tensão política constante, devido ao seu presidente, não é atraente a investidores em grandes projetos de longa maturação, como os de que o Brasil necessita, principalmente na infraestrutura.

Em encontro com os movimentos Vem pra Rua e Brasil Livre (MBL), o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, disse que o governo tem “15 semanas para salvar o Brasil”. Em referência à proximidade do calendário eleitoral, que paralisará o Congresso no segundo semestre.

Pode ter sido um exagero, mas é essencial de fato que Congresso e governo apressem os trabalhos pelo menos até o fim do semestre. A agenda está posta: além da reforma administrativa, ainda não enviada pelo governo, e a tributária, para a qual também falta a contribuição do Executivo, há PECs a aprovar também com urgência (a Emergencial e a dos Fundos Públicos).

Enquanto Bolsonaro perde tempo em patrocinar atos de desrespeito à imprensa, para animar uma plateia digital, há um expediente no Planalto à sua espera que não está sendo cumprido. O presidente precisa trabalhar, e para isso tem de desmontar o picadeiro eletrônico que armou à frente do Alvorada.

A epidemia como pretexto

Quem tem acompanhado atentamente as notícias do Brasil — estando ou não no país — deveria estar profundamente alarmado nesta quarta-feira de cinzas sombria. Entre a violência deflagrada pelas greves da PM, a conclamação do presidente da República para que seus apoiadores se juntem à manifestação contra as instituições democráticas e o primeiro caso de coronavírus no Brasil, há hipóteses assustadoras que não devem ser descartadas, tampouco tomadas com complacência. A pior delas é que o instinto autoritário do presidente o leve, perante o pretexto de uma epidemia iminente, a tentar obter poderes excepcionais. Não é exagero nem distopia. É risco dos mais graves.

Muito tem se falado sobre as consequências da pandemia que agora parece inevitável para a economia global e para o Brasil em particular. Os mercados internacionais nos últimos dias refletiram a conscientização repentina de que a epidemia de coronavírus não está circunscrita à China e de que a capacidade que têm outros países de reagir como fizeram os chineses é limitada não apenas pela falta de recursos, mas pela existência de entraves democráticos. Ainda que seja possível impor quarentenas maciças e impedir o deslocamento de pessoas das áreas mais afetadas, ninguém possui o arsenal de monitoramento que a China possui. E é evidente — ainda que profundamente perturbador — que um regime autoritário com enorme capacidade tecnológica para neutralizar as liberdades de seus cidadãos esteja em outro patamar quando se defronta com uma epidemia em larga escala. No atual ambiente onde líderes diversos flertam abertamente com o autoritarismo — alguns mais do que flertam — não é exagero, menos ainda hipérbole, achar que os piores instintos serão atiçados pelo alastramento do coronavírus.

É verdade que há muito pouca informação sobre a doença e que, a depender dos próximos dias e semanas, a atual sensação de pânico deverá se dissipar. Contudo, é precisamente a falta de informação e a incerteza que agravam não apenas as projeções para a economia — a nossa e a dos outros — como também a intensidade da reação de líderes e de governos. Não é nada difícil imaginar que um presidente profundamente despreparado, e com histórico de desprezo pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), resolva juntar seus correligionários e facilitadores para fazer o estrago nas instituições democráticas brasileiras que muitos suspeitam que ele queira fazer. Epidemias, ou o risco de que aconteçam, são situações absolutamente propícias para isso, já que os poderes de exceção, de agir diante de circunstâncias extraordinárias, acaba invariavelmente nas mãos do poder executivo. É pela aplicação dessa lógica que países fecharam fronteiras e suspenderam a entrada de pessoas provenientes de áreas de risco — medidas brandas perto do arsenal que ainda pode ser lançado, sobretudo naqueles lugares onde as instituições estão abaladas pela descrença.

Após o vídeo em que convocou apoiadores a aderirem aos protestos de 15 de março, Bolsonaro foi duramente criticado por líderes da oposição no Congresso, pelo ministro Celso de Mello do STF, por ex-presidentes, por jornalistas, por outras entidades que viram em suas palavras graves riscos à democracia. Em resposta, Bolsonaro chamou as críticas de “ilações”, descartando-as. Ainda que a atitude não reflita qualquer inclinação a adotar ações drásticas perante os riscos de uma epidemia, ela prejudica o Brasil de tantas maneiras que é difícil exagerá-las.

Como não enxergar na atitude presidencial um desprezo que naturalmente desemboca em crise institucional? Lembro a quem quiser ler estas palavras que o crescimento brasileiro está em apenas 1% e que as chances de que permaneça nesse patamar, ou fique abaixo dele, são crescentes, sobretudo com problemas de saúde pública pela frente. Se não for pela via direta da epidemia que testemunharemos o que o Brasil de fato elegeu em 2018, será inevitavelmente pela via da armadilha do crescimento baixo à qual estamos presos. Urge encarar essa realidade.

Pensamento do Dia


O quase fim do mundo

Se dúvidas houvesse acerca de como a literatura nos prepara para a vida, os últimos dias teriam sido elucidativos. Senti-me personagem incrédula num cenário distópico dos livros. Ainda a mancha cinzenta se alastrava pelo mapa-mundo teimando em não chegar a terras lusas, e já me mandavam fotografias de prateleiras de supermercados vazias e sms desesperados. Álcool de todo o tipo, esgotado. Desinfetante para as mãos, nem vê-lo. Sabonetes antibacterianos, para esquecer. Máscaras protetoras, das mais simples às mais elaboradas, desapareceram aos milhões das farmácias e até das lojas de bricolage – havia quem comprasse dezenas de caixas de cada vez. Pobre do pintor ou do decapador que precise delas para trabalhar, vai ter de se aguentar sem elas. O culpado? O Covid-19, mais conhecido por coronavírus. Ainda ele não andava por cá, e já fazia nascer dúzias de cabelos brancos nas cabeças das mães que debitavam angústias em fóruns de conselho e desabafo, pedindo, desesperadas, as localizações das lojas onde ainda conseguiam comprar esse bem de primeira necessidade. Frascos de álcool e desinfetante passam clandestinos por baixo do balcão a 5 euros. Tempos desesperados exigem medidas desesperadas. Isto é um caso de vida ou morte!


Há uns séculos, teríamos todos de nos benzer quando pronunciássemos a palavra maldita: peste. Agora, ao invés de nos benzermos, ligamos o modo pânico civilizado e partimos para a ação preventiva tresloucada. Vai dar mais ou menos ao mesmo, ou seja, a lado nenhum. É nos flagelos e calamidades que conhecemos a essência humana, e ela, por mais civilização que lhe ponhamos em cima, será sempre uma: egoísta.

Fui à prateleira buscar Camus, pois claro, que n’A Peste retratou, em 1947, uma epidemia que assolou uma cidade, tal como a ocupação nazi assolara França. Ora abramos aspas longas para o Nobel da Literatura: “Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. (…) Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: ‘Não vai durar muito, seria idiota.’ E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar.

A tolice insiste sempre, e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. Os nossos concidadãos, a esse respeito, eram como todo o mundo: pensavam em si próprios. Em outras palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à altura do homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam, e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções. Os nossos concidadãos não eram mais culpados do que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, os deslocamentos e as discussões? Julgavam-se livres, e nunca alguém será livre enquanto houver flagelos.”

Ah, são tão reveladoras as epidemias. Os anos passam, mas Camus continua certeiro…

Hoje temos um mundo globalizado, cadeias de produção e abastecimento espalhadas pelo globo, viagens low-cost que encurtam todas as distâncias, internet que faz de nós semideuses, mas estamos à mercê de um micro-organismo invisível que nos põe na ordem em três tempos e bloqueia tudo perante a ameaça de flagelo. Vivemos numa ilusão de mundo livre e, em menos de nada, estamos num Quase Fim do Mundo, como lhe chamou Pepetela. Saramago resumiu-o bem no Ensaio sobre a Cegueira: “Só num mundo de cegos as coisas serão como verdadeiramente o são.”
Mafalda Anjos

Epigrama 4

Desperta-se com tiros de canhão
na manhã cheia de aviões.
Parece revolução
mas é o aniversário do tirano. 
Ernesto Cardenal

O prazo de validade de Paulo Guedes

A conversa nos bastidores do Congresso esta semana — que começou antes da divulgação do pibinho de 1,1% de 2019 — é de que o prazo de validade do ministro da Economia, Paulo Guedes, estaria chegando ao fim. Menos pelo estado de ânimos do ministro, apontado muitas vezes como um fator que poderia levá-lo a chutar o balde em algum momento, do que pelo clima de cobrança em relação aos resultados da economia que impera hoje no Palácio do Planalto.


Jair Bolsonaro não está mais fazendo questão de disfarçar que vem exigindo mais serviço do ministro da Economia no quesito crescimento. Nesta quarta, logo após a divulgação do número do IBGE para a evolução da economia seu primeiro ano de governo — menor do que o último de Michel Temer —, o presidente montou um espetáculo na porta do Alvorada para escapar de perguntas sobre o assunto. Entre uma e outra banana oferecida aos jornalistas pelo comediante da Record vestido de presidente, porém, Bolsonaro fez uma única observação: o problema do PIB é do Posto Ipiranga.

Se já andava alta, a pressão sobre Paulo Guedes será redobrada depois do PIB oficial. Além dos generais do Planalto, uma parte da área política também parece ter perdido a boa vontade em relação ao ministro. A ansiedade cresce. Afinal, tem eleição municipal este ano, e os políticos ligados ao governo temem sua nacionalização e os ganhos que a oposição poderá ter com o discurso da estagnação da economia.

Nas hostes governistas, há pessoas de bom senso que acreditam que, se está ruim com Guedes, pode ser pior sem ele. Lembram que o ministro da Economia ainda é a principal âncora do governo junto ao mercado, inclusive internacionalmente, e aos setores do PIB. Mesmo com sua credibilidade em curva descendente — já que quase nada do que prometeu está se cumprindo —, consideram que será difícil, para Bolsonaro, conseguir um substituto com o mesmo perfil.

Por isso, acham que o presidente vai manter seu jogo de pressionar Guedes, desvinculando-se da imagem de quem não fez ainda a economia crescer e multiplicando as cobranças públicas, mas vai mantê-lo no cargo. Mesmo entre esses, porém, não há tanta segurança assim: quem é que sabe, afinal, o que se passa na cabeça de Bolsonaro? Ninguém, talvez nem ele mesmo.

Até por isso, o ministro da Economia, que pode ter lá sua falta de traquejo político mas não é bobo, parece estar asfaltando uma estrada que poderá, se necessário, conduzi-lo a uma saída honrosa, aparentemente por iniciativa própria.

O prazo de quinze semanas para aprovação da agenda econômica que está no Congresso — e também da que não está, como a reforma administrativa — , ao qual o Guedes se referiu na terça-feira em conversas com movimentos empresariais, é absolutamente inviável. Todo mundo sabe que, ao dizer que tem pouco mais de três meses e meio para “mudar o Brasil”, o ministro tem perfeita consciência de que não mudará o Brasil. Mas ganha uma boa desculpa para pedir o boné e botar a culpa de tudo no Congresso.

A tragédia das chuvas se repete. Quando vamos mudar?

Em memória aos bombeiros militares que tombaram em combate durante as atividades de salvamento em Guarujá, São Paulo, em 3 de março de 2020
Há alguns eventos no Brasil que, pela sua importância e periodicidade, fazem parte do calendário nacional: Carnaval, Copa do Mundo, eleições e tantos outros. Infelizmente, a tragédia das chuvas também já faz parte do anuário. As televisões mostram imagens de casas desmoronando e de encostas colapsando que são tão parecidas com as exibidas em anos anteriores que fica difícil distinguir o que é transmissão ao vivo e o que são imagens de arquivo. Tudo se repete: os locais, as causas, a tristeza, a falta de planejamento urbano, as mortes.

Mas pensando bem, há algo que não se repete: as vítimas. Os seus nomes. As suas histórias. A cada ano, novas histórias são destruídas, sonhos inéditos são interrompidos, outras famílias passam a chorar a perda de seus queridos. E de uma forma cruel e irresponsável, nomeamos isso de “fatalidades”, como se essas mortes fossem fruto do acaso, do imponderável, do imprevisível.

Ninguém quer contar ou ninguém quer perceber que todas essas mortes são assassinatos. Cujos assassinos somos todos nós, que aprendemos a achar normal a ocupação desordenada que impera na cidade, onde milhares de pessoas moram em áreas de risco convivendo com a nossa condescendência desumana. Ninguém quer falar que tudo isso era evitável, que existe política pública para isso, que essas mortes não precisavam ter acontecido. Por um motivo muito simples: é mais fácil assim. É mais fácil responsabilizar o recorde dos índices de chuvas do que assumir que nossas mãos estão cheias de sangue, lama e água de enchentes.

Simultaneamente à nossa crise de responsabilidade, instaura-se um tenebroso espetáculo político cuja receita já é conhecida: primeiro, atribui-se a culpa daquela tragédia a gestões passadas, que não fizeram as obras que deveriam ter sido feitas; segundo, anuncia-se que serão feitos estudos e planejamentos para realizações de obras que impeçam as tragédias de se repetirem; e terceiro, as obras anunciadas não são realizadas ou não são finalizadas naquela gestão e a nova gestão repetirá fielmente o ciclo acima descrito. O jogo do empurra-empurra da culpa parece funcionar e, no final das contas, a justificativa é sempre a mesma: a culpa é da chuva, e todas essas vidas perdidas acabam ficando apenas na conta de São Pedro. O culpado é sempre o outro. E mais uma vez, adota-se a solução mais simples: no jogo eleitoral, vale mais a pena prometer construir uma creche do que enfrentar o intricado problema do (des)ordenamento urbano, que é denso, demorado e difícil de resolver. Nos debates eleitorais que teremos logo mais neste ano, a pauta da chuva será propositalmente esquecida, pois se aventurar a equacionar itens como reassentamento de comunidades, planejamento hidrológico e obras estruturais de prevenção é perigoso demais para nossos políticos. Demandaria reconhecer a perversidade da desigualdade social e a adoção de medidas impopulares e caras, que embora sejam urgentes e necessárias, implicariam na perda de votos. E nesse dilema é desnecessário dizer qual é a opção da esmagadora maioria dos governantes.

Nesta quarta, companheiros de São Paulo velaram o nosso irmão de farda Rogério de Moraes Santos, bombeiro militar que morreu enquanto tentava realizar o resgate de um bebê nos braços da mãe em meio ao cenário desolador que se instaurou no Morro do Macaco Molhado, em Guarujá. O bebê e a mãe foram encontrados sem vida. O outro militar que estava na equipe de resgate, Marciel de Souza Batalha, segue desaparecido.

O bombeiro que faleceu na atitude heroica deixou três filhos. O caçula tem 16 anos. É bem provável que ele pergunte por que o pai morreu, ao que será explicado que ele se foi tentando salvar a vida de duas pessoas que ele nem sequer conhecia. Talvez alguém possa dizer ao garoto que foi uma “fatalidade” de serviço. Não foi. A nossa conivência, o nosso descalabro político, a nossa banalização do absurdo fez mais uma vítima. Fomos nós, enquanto sociedade irresponsável e autocentrada, que matamos Rogério e todas as outras vítimas das chuvas. E ao acharmos que a morte desses dois militares e de qualquer outro óbito decorrente das chuvas foram “fatalidades”, matamos essas vítimas novamente, pois desconstituímos o legado que elas deixaram com as próprias vidas, da necessidade de mudanças urgentes em nossas concepções de vida na cidade e em sociedade.

No mês passado, a notícia de uma Lamborghini que valia alguns milhões e foi destruída pela chuva chamou mais atenção do que pessoas que tinham perdido suas casas e seus pertences por essa mesma chuva. Enquanto caminharmos assim, teremos falhado miseravelmente enquanto seres humanos e continuaremos a ter de entregar a vida de nossos melhores bombeiros para lembrar a sociedade de que esse não é o caminho. E o pior de tudo, a partir de hoje teremos de conviver com o choro e a eterna saudade dos três filhos de Rogério, levado pelas águas e destroços da nossa ganância, da nossa insensatez, da nossa insensibilidade. Não foi fatalidade.
Pedro Aihara. bombeiro militar, mestre em Direitos Humanos, especialista em Gestão e Prevenção de desastres, professor e palestrante. Atuou em tragédias como as de Brumadinho, Mariana, Janaúba

No país do pibinho e da revolução conservadora, paciência do povo é a dúvida

O Brasil está em crise política ou econômica faz seis anos. Mais pobre do que era faz dez anos. Com o sistema político tradicional desacreditado pelo menos desde 2013 e desmoralizado desde 2015. Caberia perguntar por quanto tempo o país ainda pode se desmilinguir sem revolta social ou rompimento político.

A pergunta parece mais oportuna por causa da renovação da perspectiva de quase nenhum crescimento da economia, como agora. Até quando seria paciente a maioria silenciosa do povo miúdo, que parece ainda mais quieta por causa da algazarra atroz das milícias digitais?


Mas algum rompimento houve, pela via institucional. Jair Bolsonaro é o resultado disso. De certo modo, o tempo de tolerância da crise voltou a ser contado na eleição de 2018. As urnas são momento de renovação de otimismo, por mais estranha ou monstruosa a forma que essa esperança possa tomar.

O sentimento de que o país se esboroa se deve também ao fato de que acontecem mudanças profundas, goste-se ou não. Mudam a Previdência, a poupança pública e privada, as relações trabalhistas, o emprego. Há contenção do gasto público por asfixia.

Houve desmonte da organização do trabalho, em particular das desmoralizadas centrais sindicais. Muda o comando do capital. Empresários com proeminência política são outros. O país não está apenas se desmilinguindo. Sofre uma mutação, que talvez dê em um monstro, mas não se trata dessa história aqui, agora.

Aconteceu também um rearranjo político importante, talvez provisório. O parlamentarismo branco coloca certa ordem no país desgovernado e sujeito aos golpeamentos de Bolsonaro, tolerados pela maioria da elite econômica, incentivados por parte dela. É a geringonça da direita.

Até por falta de opção dos envolvidos, o arranjo político deve continuar com a aprovação de algumas reformas, caso Bolsonaro não promova mais baderna atroz.

Parece uma geringonça estável enquanto os golpeamentos, as tentativas de demolição institucional bolsonariana, não balançarem estruturas (badernas de subalternos em quarteis?). Enquanto não sobrevier um escândalo decisivo dos Bolsonaro ou uma recaída na recessão. No mais, é insondável de quando pode vir nova revolta ou queda relevante do prestígio do governo.

O PIB de 2019, muito parecido com o de 2018, não revelou nada que não se soubesse faz tempo. Uma economia que cresce com consumo baseado em lerdo aumento dos salários e sem investimento vai se recuperar de modo muito lerdo, sujeita a recaídas fáceis devido a qualquer choque. O investimento não virá tão cedo, pois o governo não gastará mais, as empresas têm capacidade ociosa ou medo e gastos maiores em infraestrutura pública e privada só começam a pingar no final deste ano, se tanto.

Nada disso vai mudar tão cedo, embora Rodrigo Maia, em uma atitude meio enigmática no dia do pibinho, tenha criticado a falta de investimento público e esteja pelas tampas com o governo; embora o país esteja desgovernado desde que Bolsonaro resolveu golpear até geringonça.

Mas o arranjo de contenção da ingovernabilidade deve continuar, assim como o crescimento quase nulo; não há movimento social ou partidário de oposição relevante.

A paciência da população é mais imprevisível. Por quanto tempo o povo, passando mal, terá fé nessa geringonça com promessa de revolução de extrema direita e transformação agônica das relações socioeconômicas?

quinta-feira, 5 de março de 2020

O que diz a claque de Bolsonaro

O dia era de PIB raquítico, mas teve um número que Jair Bolsonaro conseguiu fazer crescer. Foi o de comentários em seus posts no Facebook. Sua média em março vinha na casa de 3.800 reações por post. Isso até a transmissão ao vivo desta quarta, ao lado do humorista Carioca. Nas oito primeiras horas no ar, o vídeo somou mais de 16 mil comentários.


Entre algumas poucas críticas e reclamações, como as relacionadas ao preço dos combustíveis, ao efeito das chuvas e às aposentadorias, muitos, muitíssimos elogios, quando não declarações de amor e pedidos de encontro. Uma pequena amostra dá ideia da engrenagem que Bolsonaro ativa ao ligar a câmera na frente do Alvorada.

"Bom começar o dia sorrindo, espantando as tristezas", escreveu Shirley Aparecida Dervinis, de Osasco.

"Como é maravilhoso ter um presidente que, mesmo com toda luta e problemas, ainda arranja um tempo para abraçar, ouvir, brincar, sorrir para as pessoas!", escreveu Márcia Ébani, do Espírito Santo.

"Aí pergunta por que o cara é mito. Adoro, ele tira onda mesmo. Comédia com comédia se paga", disse Luis Claudio Pedroso, de Porto Alegre.

"Para esclarecer aos menos esclarecidos o que é PIB: PIB é um tipo de buzina PIB PIB", afirmou Lourdes Barros, da Polícia Militar de Minas.

"A esquerda vai inventar alguma e tentar reverter em falta de decoro, que usou carro oficial para essa palhaçada. É inveja pura", disse Arnaldo Sens, de Piracicaba (SP).

"Jamais haverá um outro presidente como esse, vamos mantê-lo pelo tempo que for necessário", disse Gustavo Duarte, de Campo Grande.

"Meu presidente, alguns te chamam de bobão. Mas não é ladrão. Esses jornalistas vão aí só para fazer discórdia e difamá-lo, bando de desocupados. Conte comigo", escreveu Mauricio Soares, de Santa Bárbara d'Oeste (SP).

"Bonito ver povo inteligente. Parabéns, presidente", sentenciou Heitor Farias, de Votorantim (SP).

Pensamento do Dia


'Civilização' brasileira

Considera-se tanto mais civilizado um país, quanto mais sábias e eficientes são suas leis que impedem ao miserável ser miserável demais, e ao poderoso ser poderoso demais
Primo Levi

Bolsonaro insiste em desonrar a Presidência da República

O presidente Bolsonaro, em mais uma agressão aos jornalistas profissionais que por dever de ofício o seguem — logo, em mais um ataque à própria imprensa — recusou-se a responder sobre o frustrante PIB de 2019, ao escalar um humorista para que, passando-se por ele, oferecesse bananas aos repórteres.

Em decisão correta, parte se retirou. Foram desrespeitados e, por meio deles, agredidos, além da própria imprensa profissional, os direitos constitucionais que a garantem.


Bolsonaro insiste em desonrar a Presidência da República. Continua sem entender o que ele representa por ocupar o Palácio do Planalto. E vai, assim, criando ineditismos, como ser um presidente que simpatiza com motim de policiais, e manda desligar radares das estradas federais para atender a seu curral eleitoral de caminhoneiros, mesmo que aumente o número de mortes nas vias.

Se não criasse uma crise profunda, já teria decretado o congelamento do diesel para agradar à categoria. A imprensa continuará a informar tudo de importante que o presidente faça ou diga. Cenas como a que patrocinou ontem agravam a falta de decoro com que representa a nação
.

A guarda pretoriana do comediante

Como estivesse difícil entender, o coronel Aginaldo de Oliveira resolveu desenhar. Ao celebrar a coragem dos policiais militares na assembleia que deliberou pelo fim do motim policial no Ceará, o coronel, que é diretor da Força Nacional de Segurança, mostrou que o presidente Jair Bolsonaro hoje dispõe de meios para arregimentar uma guarda pretoriana. Não é um feito solitário. Tem a decisiva ajuda do ministro da Justiça, Sergio Moro, cuja autoridade se mostrou incapaz de repreender amotinados.

A guerra de facções do crime organizado no Ceará, Estado que se tornou corredor de exportação do narcotráfico andino, foi a primeira crise enfrentada pelo presidente da República. Na semana da sua posse, Bolsonaro optou pelo envio da Força Nacional de Segurança para o Estado que havia acabado de reeleger um governador do PT.


Um ano depois, nova crise eclodiria sob a forma de motim policial. Como a força especial composta por policiais militares já não desse conta de reprimir seus próprios colegas, o presidente foi pressionado a decretar uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), conduzida por militares do Exército. Entre uma e outra crise, deterioraram-se as bases da hierarquia e da disciplina das tropas locais e a capacidade de operação da força nacional. O governador é o mesmo, Camilo Santana, reeleito pelo PT. Quem mudou foi o presidente, ocupado, desde a posse, em incutir, nas bases policiais, o vírus da insubordinação que marcou sua carreira militar.

É uma barafunda bolsonarista por excelência. Desde sua criação, em 2000, a Secretaria Nacional de Segurança Pública, chapéu, no MJ, para a Força Nacional de Segurança, foi ocupada por policiais e especialistas. No governo Michel Temer, assumiu o primeiro general, Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro do governo Bolsonaro e um dos poucos militares da reserva a expor publicamente sua crítica à insubordinação policial.

Com a posse de Bolsonaro, o cargo seria ocupado por um segundo general. Secretário de segurança do governo Tasso Jereissati nos anos 1990, o general Guilherme Theophilo viria a ser o candidato tucano ao governo do Estado em 2018. Seu programa de segurança foi elaborado pelo coronel Aginaldo Ribeiro. Derrotado pela reeleição de Camilo Santana, Theophilo assumiria a secretaria nacional de segurança e, em retribuição aos serviços prestados na campanha, colocaria o coronel para dirigir a força nacional.

O casamento, amplamente coberto pelas redes sociais, com a deputada Carla Zambelli, entusiasta de primeira hora dos protestos de 15 de março, já havia tirado Aginaldo Ribeiro da obscuridade. Mas foi o discurso na assembleia dos amotinados cearenses que o tornou um ícone da era bolsonarista.

Nota do ministério de Sergio Moro limitou-se a informar que o coronel fez um discurso interno para os policiais. Foi outro “discurso interno”, de 30 de março de 1964, no salão do Automóvel Clube do Brasil no Rio de Janeiro que precipitou o golpe contra João Goulart. Ao contrário do coronel, Jango se dirigiu aos sargentos presentes com um apelo pelos valores militares da hierarquia e da disciplina, mas sua presença na posse da Associação dos Sargentos foi capaz de dobrar o último general que resistia ao golpe, Castelo Branco.

O coronel não é presidente da República mas é por ele mantido no cargo a despeito de estimular a sublevação de policiais num Estado em que o governador resiste à anistia de PMs com apoio do general Freire Gomes, comandante militar do Nordeste.

Chefe de uma força de segurança formada por homens recrutados na elite das polícias militares de todo país, Aginaldo não deixou dúvidas de que é capaz de colocá-la a soldo de interesses da conjuntura. Os policiais militares obedecem a tantos poderes que não surpreende se deixarem de se curvar a algum deles. Em “Desmilitarizar: segurança pública e direitos humanos” (Boitempo, 2019), Luiz Eduardo Soares, secretário de segurança nacional no governo Luiz Inácio Lula da Silva, lista as cadeias de comando cruzadas.

A Constituição trata as PMs como forças auxiliares e reserva do Exército, que também aprova o nome indicado pelo governador para seu comando. Ou seja, se o presidente da República é o comandante-em-chefe das Forças Armadas, o governador não o é de suas polícias. Sua orientação está a cargo das secretarias estaduais de segurança, mas o controle é repartido entre o governador e o Exército ou, em última instância, seu comandante, Bolsonaro.

A consternação dos meios militares com a insubordinação consentida dos policiais é lastreada nessa baderna legal. Ao fraquejar na imposição de sua autoridade, o ministro Sergio Moro já perdeu o prestígio de que desfrutava no generalato. Não é entrando no presídio da Papuda, hoje sob GLO, num tanque de guerra, que o ministro o recuperará.

Nenhuma autoridade preocupa mais os generais hoje, no entanto, do que o presidente da República. A inquietação foi ampliada com a convocação para a manifestação do dia 15. O último artigo de Fernando Henrique Cardoso em “O Estado de S.Paulo” sugere que o ex-presidente foi porta-voz dessa preocupação: “Não é para ‘dar um golpe’ que os militares aceitam participar do atual governo. Sentem sinceramente que cumprem uma missão... O risco para a democracia e para as próprias Forças Armadas é que se borre a fronteira entre os quartéis e a polícia”.

Essa fronteira estará tanto mais em risco quanto maior for a dificuldade de a economia brasileira reagir. O comediante da porta do Alvorada não representa o desdém do presidente apenas pela pauta do crescimento. Se não for capaz de fazer o país crescer, como sugere o PIB de 2019, o presidente pode se valer da imprudência de sua guarda pretoriana para fazer graça com a Constituição.

Daí porque o ministro Paulo Guedes, que já havia perdido apoio no Congresso, no empresariado e nas finanças, está sem lastro no generalato palaciano. Seu preferido é o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, coringa de técnico com formação militar e trânsito legislativo. É uma tentativa de garantir que o governo Bolsonaro possa acabar como começou, pelo voto. Ou não.

Com economia fraca, Bolsonaro inventa distração do circo sem pão

Era para ser uma sátira, mas foi uma representação fiel da realidade. No dia em que o país registrou um crescimento frustrante do PIB, Jair Bolsonaro apareceu ao lado de um humorista que encarnava um presidente que não dá a mínima para a economia e não sabe nem o significado daquelas três letras.

"PIB? O que que é PIB? Pergunta o que que é PIB", recomendou Bolsonaro ao piadista Márvio Lúcio, vestido com a faixa presidencial.


Quem esperava do verdadeiro governante um plano para o crescimento precisou se contentar com mais uma encenação indecente. Bolsonaro pôs um imitador diante das câmeras e o estimulou a se comportar como um pateta malcriado. Depois que o presidente se recusou a falar sobre os apertos da economia, o comediante atirou bananas aos jornalistas.

Além de levar a um novo patamar de insulto suas afrontas à imprensa, Bolsonaro criou um retrato vergonhoso de si mesmo e do governo. A cena revelou um presidente sem capacidade de liderança sobre um tema delicado, disposto a apelar para distrações cada vez mais infantis.

A caricatura tosca feita na porta do Palácio da Alvorada era tão verossímil que repetia o nome de Paulo Guedes para fugir de explicações sobre o crescimento. O ministro, no entanto, corre o risco de se tornar uma boia de salvação esvaziada, demonstrando a auxiliares desconforto com as dificuldades impostas pelo presidente à sua agenda de reformas.

Bolsonaro só quis falar dos números do PIB no fim do dia. Disse apenas que a recuperação estava em curso e que esperava um 2020 melhor.

Ao se recusar a prestar contas sobre assuntos difíceis, um governante também desrespeita aqueles que precisam de solução. A brincadeira de Bolsonaro pode ser encarada como um desrespeito às milhões de pessoas que procuram emprego ou veem suas rendas corroídas há anos.

O humor da população é especialmente sensível ao giro da economia. Sem sinal da prometida recuperação milagrosa, o presidente tenta oferecer um espetáculo de circo sem pão.

O triunfo da injustiça

Gabriel Zucman e Emmanuel Saez são dois economistas franceses que lecionam no campus de Berkeley da Universidade da Califórnia. Zucman foi aluno de outro economista francês, Thomas Piketty, que ficou famoso e rico como autor de “O capital no século 21”, em que, entre outras heresias, mostrava como o capitalismo desenfreado dos sonhos neoliberais não traria felicidade geral, mas desigualdade e miséria crescentes. Saez segue a linha de Zucman, e eles acabam de lançar um livro expondo suas ideias — que ganharam relevância especial porque os dois são conselheiros para assuntos econômicos dos candidatos mais progressistas do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos, Bernie Sanders e Elizabeth Warren.


A dupla francesa se junta a outros economistas do contra, como os americanos Paul Krugman e Joseph Stiglitz, para citar apenas os nomes mais conhecidos, que desafiam a ortodoxia neoliberal e suas “verdades” estabelecidas. A ideia mais chocante para os ortodoxos é a da taxação progressiva de grandes fortunas para assegurar uma melhor distribuição de renda e dar ao Estado os meios de combater as mil maneiras que os muito ricos e as grandes corporações têm de esconder seus lucros imorais. A desigualdade é uma questão moral antes de ser uma questão de economia ou política, ou simplesmente estética, de simetria.

Bernie Sanders tem se saído melhor, nas “primárias” e nas pesquisas de intenção de votos, do que Elizabeth Warren. Tem contra si a idade, quase 80, e o fato de “socialismo”, mesmo que só signifique taxar os ricos e garantir programas universais de saúde, ainda ser palavrão para muitos americanos. Joe Biden, que tem o carisma de uma couve-flor, está subindo nas “primárias” e nas pesquisas e talvez acabe sendo a opção sensata para enfrentar o Trump. 

O livro recém-lançado de Zucman e Saez é intitulado “The Triumph of Injustice”, o triunfo da injustiça, um nome perfeito para o que acontece em países como o Brasil, em que a austeridade é um disfarce para o predomínio do capital financeiro, cujo poder persiste através dos anos no que pode ser descrito como um longo, interminável, desfile triunfal.

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