domingo, 28 de abril de 2019

A corte do bobo

Os soberanos renascentistas empregavam um profissional encarregado de entreter os cortesãos e, antes de tudo, a si mesmos: o bobo da corte. A entourage bolsonarista tem um personagem assim, que é Olavo de Carvalho. Mas, com uma diferença: por aqui, a corte é que presta serviço ao bobo.

Nas cortes do passado, recrutavam-se bobos no próprio círculo da nobreza, entre jovens com deficiência mental. Mais comumente, eles eram pinçados entre comediantes que cantavam ou dançavam em grupos de saltimbancos. Salvo engano, Olavo enquadra-se no segundo caso.

Depois de tentar a sorte como astrólogo e islamita, ele vestiu a fantasia de filósofo e passou a exibir truques intelectuais primários no palco itinerante da internet. O ofício de comediante intelectual propiciou-lhe uma carreira precária no diversificado mercado da autoajuda —até que, miraculosamente, o colapso do sistema político brasileiro degenerou no governo dos ignorantes da extrema direita. Daí, ele virou um bobo singular: o guru de uma corte abobalhada.



Os bobos eram contratados para cometer equívocos divertidos. Nesse ponto, Olavo, o bobo de plantão, é fiel à tradição. Segundo o que ele qualifica como uma “tese histórica irrefutável”, os militares brasileiros entregaram o país ao comunismo. O interessante, aqui, é que não há, entre pessoas medianamente informadas, nem mesmo um debate histórico relevante sobre o tema.

O golpe de 1964 não salvou o país da ascensão comunista pelo simples fato de que a hipótese inexistia: Jango e os seus, populistas da cepa varguista, não nutriam qualquer simpatia pelo comunismo. Os comunistas, cindidos em dois partidos rivais, eram colinas periféricas na paisagem nacional. Duas décadas depois, na hora da transição democrática, a esquerda aglutinou-se no PT, que de socialista só tem trechos esparsos de resoluções escritas para enganar trouxas.

Golbery do Couto e Silva tinha razão, se é verídica a versão de que enxergava em Lula o coveiro da esquerda radical no Brasil. Mas, ainda que divertida, a “tese histórica irrefutável” de Olavo é um equívoco proposital de um profissional da comédia. O bobo que nada tem de bobo formulou uma galhofa destinada a ser levada a sério por seus devotos estúpidos da corte bolsonarista, entre os quais contam-se o presidente e seus rebentos.

No “Rei Lear”, o bobo desempenha papéis cruciais. Honesto, completamente leal, ele vai muito além de seu dever de entreter, agindo quase como superego do rei. Depois do injusto banimento de Cordelia, o bobo assume a função da única filha íntegra do rei, protegendo Lear e, por meio da ironia e do sarcasmo, alertando-o sobre seus impulsos autodestrutivos.

Na corte bolsonarista, tudo se passa ao inverso. Leal apenas a si mesmo, o bobo sabota incessantemente o rei, estimulando seus piores instintos e semeando perenes intrigas palacianas. O bobo de Lear não teme dizer a verdade desinteressada; o bobo de Bolsonaro só profere mentiras interessadas. Nesse país tão pouco shakespeariano, a corte presta vassalagem a um bobo que não almeja o triunfo do rei, mas unicamente seu triunfo pessoal.

“Bobos frequentemente provam-se profetas”, diz Regan, a segunda filha de Lear, a Goneril, sua irmã mais velha. Olavo errou em todas as suas profecias, mas esforça-se para acertar na mais recente: a implosão do governo Bolsonaro “em seis meses”. O bobo shakespeariano, um sábio cético que vira a procissão inteira de vilezas humanas, ria da afetada pretensão de majestade de Lear. Entretanto, inarredável na sua decência, jamais o abandonou, acompanhando-o na trajetória da humilhação, rumo à loucura. Já o bobo bolsonarista, um malcriado untuoso, adula seu rei para iludi-lo, conduzindo-o à beira do precipício.

“Rei Lear” é a mais sublime tragédia da literatura. A nossa é uma farsa de terceira. Mas não é ficção.

sábado, 27 de abril de 2019

Paisagem brasileira


A chance da educação

A chance de uma pessoa se tornar um Machado de Assis ou um Einstein é menor do que a probabilidade de ganhar sozinho na loteria com apenas uma aposta. Mas quem não tiver comprado o bilhete antes do sorteio não tem probabilidade de ganhar, quem na idade certa não aprendeu a escrever bem e a entender matemática não terá chance de se fazer um grande escritor ou cientista . Por isto, negar educação com a máxima qualidade a uma criança é como negar a algumas pessoas o direito de comprar bilhete de loteria.

É isto que fazemos no Brasil: a quase totalidade das crianças pobres brasileiras estão impedidas da chance de usar o talento pessoal para tentar ser um novo Machado ou Einstein. Dificilmente conseguirão chegar a este nível de sucesso, mas sem o bilhete da escola não terão chance.

O grave é que na loteria quem perde é a pessoa que não joga, até porque ela não cria riqueza, apenas concentra as apostas e entrega a soma ao vencedor, na educação perde o país inteiro. Não pelos gênios, que serão sempre rarissimos, mas pelas multidões de bons profissionais, artistas, escritores que ajudariam a criar um Brasil mais rico, eficiente, justo, sustentável, se tivessem tido a chance de estudar.

Apesar disto, ninguém se rebela contra a prática histórica no Brasil de impedir milhões da chance de receber uma boa educação. Imagine a revolução violenta que ocorreria se os pobres brasileiros passassem em frente de uma casa lotérica sem direito de entrar nela e fazer uma aposta. Mas eles passam docilmente e até sem desejo nem sonho em frente às boas escolas onde seus filhos não entram. Aceitam isto tranquilamente porque está incutido no Brasil que educção não é o caminho para a riqueza e o bem estar de um povo, que a educação de qualidade é um direito apenas dos que podem pagar e, além disto, estudar é muito mais difícil do que jogar na loteria.

Estes são nossos desafios: convencer ao Brasil que educação é o caminho, que uma criança fora da escola é um desperdício de potencial para o País, que também podemos ser campeões com os cérebros de nosso povo, e não só com os pés no futebol, e que vale a pena apostar em uma loteria que é jogada todos os dias, com esforço diário, para um prêmio que só vem décadas depois. 

Pátria envergonhada

Vivo envergonhado de ser nesta (pátria) contemporâneo de alguns dos mais notórios compatriotas e, por sê-lo, responsável moral de todas as patifarias que nela cometem
Miguel Torga

Um delírio ambiental

Não tem risco de dar certo a intervenção policial-militar do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com a nomeação de um coronel, dois tenentes-coronéis e dois majores da Polícia Militar de São Paulo para comandar a instituição. A transformação do tema da sustentabilidade num caso de polícia, por capricho pessoal do ministro, não tem precedentes na história das políticas públicas ambientais do país, inauguradas no governo José Sarney, quando foi lançado o programa Nossa Natureza, do qual resultou a fusão de vários órgãos e a criação do Ibama.


Nada contra os militares individualmente, até porque são homens que atuaram intensamente no policiamento florestal. Entretanto, a área exige interdisciplinaridade para uma boa gestão, o que a formação policial simplesmente não garante, embora seja importante para combater os crimes ambientais. Como diria o falecido astrofísico norte-americano Carl Sagan, é o tipo de decisão que somente pode ser atribuída ao “analfabetismo científico”, que está em alta em razão dos conceitos estapafúrdios do presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, com repercussão mundial desde a saída do governo norte-americano do Acordo de Paris.

A propósito de um comentário de Platão sobre o ensino de matemática às crianças do Egito Antigo, Sagan dizia que a ignorância em ciência e matemática nos dias atuais é muito mais danosa do que em qualquer outra época. A raiz dos problemas ambientais brasileiros é uma cultura atrasada, que estimula e protege agressões ao meio ambiente, muitas vezes insanáveis, tanto no meio urbano como no rural. É por isso que muitos ignoram e negam o aquecimento global, a diminuição da camada de ozônio, a poluição do ar, o lixo tóxico e radioativo, a chuva ácida, a erosão da camada superior do solo e o desflorestamento da Amazônia.

É óbvio que a linha adotada pelo governo em relação aos problemas ambientais provocará novos desastres, como os já ocorridos em razão de ações governamentais realizadas na marra, contra pareceres originais dos órgãos ambientais, como é o caso da Usina de Belo Monte, no Pará. Sem falar das licenças ambientais, da fiscalização e do controle que deveriam ter evitado as tragédias de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, nas bacias do Rio Doce e São Francisco, respectivamente. A agenda ambiental do governo está com sinal trocado; em vez da busca de soluções em base científicas, a opção é pela truculência administrativa contra pesquisadores e cientistas.

Há inúmeros exemplos históricos de resultados desastrosos em consequência de políticas que, por razões ideológicas e religiosas, trataram a ciência como caso de polícia, como a perseguição do Colégio de Roma aos matemáticos italianos, porque consideravam uma heresia o cálculo infinitesimal, que foi fundamental para o desenvolvimento da Ciência e a Revolução Industrial na Inglaterra. O mesmo aconteceu com a medicina europeia na Idade Média, com a perseguição aos médicos seculares e o desprezo pela cultura judaica e islâmica por parte da Inquisição espanhola. O fundamentalismo ideológico preside decisões como a tomada na intervenção policial-militar no ICMBio.

Bolsonaro é o seu pior adversário

O problema não é Bolsonaro meter-se em tudo e em qualquer coisa. Lula chegou a opinar sobre o cardápio de comidas servidas pelo Itamaraty em recepções oficiais. E Dilma em campanhas de propaganda do governo.

O problema é Bolsonaro vetar a exibição de um comercial de TV do Banco do Brasil só porque a maioria dos personagens ali mostrados era negra, jovem, e dançava rap. O diretor de marketing do banco perdeu o emprego por isso.

O presidente do banco, não. Havia aprovado o comercial. Mas ao receber um telefonema de reclamação de Bolsonaro, concordou com ele, proibiu o comercial e pôs a culpa no diretor demitido em seguida.

Essa foi só mais uma trapalhada das tantas protagonizadas pelo presidente da República desde que tomou posse. Cada uma delas subtrai ao governo mais um naco de popularidade, conforme atestam as pesquisas.

No campo do comportamento, chamemos assim, Bolsonaro, ontem, cometeu outra atrapalhada. Perguntaram-lhe sobre turistas estrangeiros atraídos pela liberalidade dos costumes brasileiros. Então Bolsonaro respondeu assim:
"Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay aqui dentro."



Ouviu de volta do escritor Paulo Coelho: “Mulheres brasileiras não são uma commodity. Turismo sexual não é razão para visitar o Brasil.

Racismo “é a discriminação social baseada no conceito de que existem diferentes raças humanas e que uma é superior às outras”.

Homofobia significa “aversão irreprimível, repugnância, medo, ódio, preconceito que algumas pessoas, ou grupos nutrem contra os homossexuais, lésbicas, bissexuais e transexuais”.

Misoginia “é a repulsa, desprezo ou ódio contra as mulheres”.

Com essas e outras, Bolsonaro dá razão aos seus adversários que o acusam de ser racista, homofóbico e misógino

Brasil do 'taokei'


Recruta Zero

São mesmo outros tempos. Hoje, pode-se dizer qualquer coisa do Exército sem que nada aconteça. Mas, nos anos 60, quando houve o que Jair Bolsonaro afirma que não foi ditadura, era diferente. Estudantes, jornalistas ou simples cidadãos, tínhamos de andar na ponta dos pés. Uma referência aos militares como “gorilas”, feita de passagem para um amigo na porta do seu prédio, podia ser ouvida pelo porteiro e relatada ao general de pijama que morava no seu andar. Sei disso porque meu vizinho general, aliás, de pijama, veio me cobrar no hall do elevador.

Em 1966, Nara Leão, a musa do protesto, disse a um jornal que os militares “podiam entender de canhão e metralhadora, mas não ‘pescavam’ nada de política”. E que, mesmo assim, no dia do golpe, tinham usado “veículos com pneu furado”. Costa e Silva, ministro da Guerra, quis enquadrar Nara na Lei de Segurança Nacional. O que motivou Ferreira Gullar a escrever: “Moço, não se meta/ Com uma tal de Nara Leão/ Que ela anda armada/ De uma flor e uma canção”.

Dois anos depois, quando o deputado Marcio Moreira Alves, em discurso para as cadeiras vazias da Câmara, exortou as moças brasileiras a se recusarem a dançar com os cadetes nos bailes do dia 7 de setembro, o governo tentou processá-lo, no que foi barrado pelo Congresso —e, por isso, decretou o AI-5, que nos asfixiou por dez anos.

Hoje, o astrólogo Olavo de Carvalho pode tachar os militares de “covardes”, “pústulas”, “incultos”, “preguiçosos”, “um bando de cagão”, e chamar o general e vice-presidente Hamilton Mourão de “idiota” e até acusá-lo de pintar o cabelo.

Como minha carreira militar, de reles reservista de terceira categoria, limitou-se a namorar a filha de um coronel, por acaso cassado em 1964, não concordo nem discordo. Mas o presidente Bolsonaro, cuja passagem pelo Exército lembra a do Recruta Zero, parece concordar com as opiniões de seu mestre.
Ruy Castro

Matemática rende uma reforma da Previdência por ano

Já escrevi aqui sobre o valor material da matemática. Da otimização de redes de produção e distribuição ao desenvolvimento de tecnologias de comunicação e informação, o conhecimento matemático é protagonista na economia mundial da era da internet. Quanto vale isso em dinheiro?


No início da década, quatro países —Reino Unido, França, Holanda e Austrália— realizaram estudos técnicos para quantificar a contribuição da matemática às suas economias. As conclusões foram análogas e impressionantes: de 10% a 11% dos empregos estão em profissões com forte conteúdo matemático, e essas atividades geram de 13% a 16% do PIB (produto interno bruto) desses países.
Traduzido para o Brasil, significa que a matemática pode somar R$ 1 trilhão (por ano!) à nossa economia. É o que o governo federal pretende economizar, em dez anos, com a reforma da Previdência. Como realizar esse potencial?

Mais um país europeu, a Espanha, acaba de publicar um estudo desse tipo. Por ser um caso um pouco mais próximo do nosso, as conclusões são especialmente interessantes para o Brasil. Os números são menores, mas ainda assim impressionantes. Atividades com forte incorporação da matemática criam 6% dos empregos e geram 10,1% do PIB da Espanha, ou seja, 103 bilhões de euros (R$ 455 bilhões) por ano.

Incluindo impactos indiretos, sobe para 19,4% dos empregos e 26,9% do PIB. As atividades mais impactadas são a informática, as telecomunicações, as finanças e a indústria de energia.

A produtividade dessas profissões matematizadas é comparável à dos países mais avançados: 47,20 euros (R$ 208,40) por hora. Segundo o estudo, "a diferença de impacto se explica pela estrutura produtiva espanhola, que está mais orientada para atividades com menor presença de profissões que requerem certa intensidade matemática".

O estudo contém diversas recomendações para sair desse relativo atraso, todas relevantes para o Brasil: tornar a matemática protagonista no sistema educacional, melhorar o diálogo entre o meio acadêmico e o empresariado, promover a pesquisa e as aplicações da matemática.

Há anos, a comunidade científica brasileira insiste que gasto em ciência não é custo, é investimento. Não conheço outro com retorno de R$ 1 trilhão por ano. Você conhece?

Aceitar o desmatamento é desistir do meio ambiente

A cada minuto, se perde o equivalente a cerca de 30 campos de futebol em florestas. Ou seja, até que você, caro leitor ou cara leitora, tenha lido este texto até o final, uma área florestal de cerca de 100 campos de futebol terá sido destruída – às vezes, para sempre. Esses números não vêm de cálculos abstratos, mas se baseiam na avaliação de imagens de satélite e foram compilados e publicados pelo projeto Global Forest Watch.

Enquanto isso, toda criança sabe da importância das florestas globais para o equilíbrio ecológico do nosso planeta. Um detalhe: em todo o mundo, somente as florestas tropicais absorvem cerca de um terço das emissões humanas de gases do efeito estufa. Não é por acaso que elas são consideradas os pulmões verdes do nosso planeta. O fato de que essas áreas estão encolhendo ano a ano deveria nos alarmar.

Não se trata aqui de fenômenos temporários, como incêndios florestais ou agricultura itinerante, nos quais as áreas destruídas são reflorestadas mais tarde. Aqui se fala em desmatamentos permanentes: as florestas – sobretudo na Ásia e na América Latina – se tornam pastagens e plantações. As florestas tropicais são derrubadas para satisfazer nossa fome não apenas por madeira tropical barata, mas sobretudo por carne, soja, biocombustíveis e óleo de palma.


É muito fácil se limitar a apontar o dedo para governantes distantes, como o presidente de extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, mesmo que ele diga abertamente não estar preocupado com a proteção ambiental e climática. No entanto, o comportamento individual do consumidor também exerce influência sobre o desmatamento permanente de florestas que estão a milhares de quilômetros de distância de seu próprio local de residência – com consequências graves.

No Brasil, comunidades indígenas são expulsas violentamente de suas aldeias para dar lugar a fazendas. Na Indonésia e na Malásia, os orangotangos estão ameaçados de extinção. Mas para além destas implicações locais, a perda de áreas de floresta traz consequências para cada pessoa no planeta. Em outras palavras: quem aceita pacificamente o desmatamento florestal está a um passo de jogar no lixo as metas climáticas nacionais e internacionais.

Não somente o recente movimento #FridaysForFuture prova que a proteção climática já chegou à consciência de muitas pessoas. Muitos estão dispostos a se envolver e a questionar seus hábitos de consumo: as lâmpadas antigas são substituídas por lâmpadas LED modernas, e a geladeira antiga é substituída por um modelo mais eficiente em termos energéticos – e que, além disso, é bem mais bonito.

Mas de que servem todos esses novos e modernos produtos se não se agir mais resolutamente a nível mundial contra o desmatamento das florestas? Para nós, os consumidores, seria melhores se houvesse informações claras sobre a destruição de florestas para a produção de um produto. Mas isso está longe de se tornar realidade.

Pelo contrário: até mesmo as frutas de smoothies orgânicos seriam originárias de cultivos feitos em áreas desmatadas ilegalmente, de acordo com um relatório da organização ambientalista Amazon Watch. Então, se não podemos ter certeza de que nossos produtos são provenientes de produção sustentável ou de áreas desmatadas, deveríamos limitar seu consumo. Isso pode soar como uma renúncia, mas ajuda a proteger as florestas. Porque não importa onde a árvore esteja e possa continuar crescendo: ela protege nosso clima não importa onde moremos.
 

Pensamento do Dia


O 'mártir' governa

Olavo de Carvalho, o guru do antipresidente Jair Bolsonaro, segue apostando na estratégia de falsificar a realidade para criar realidades. Desde que seu mais famoso olavete assumiu a presidência, o escritor tem tentado plantar a mentira de que Bolsonaro estaria sendo impedido de governar. São várias as afirmações neste sentido ao longo dos mais de 100 dias do Governo. Em vídeo divulgado no canal de Bolsonaro no YouTube, no final de semana, o guru repetiu mais uma vez seu repisado mantra: “Bolsonaro é um mártir”.

Explicou: “Obviamente ele é um homem bem intencionado, limpo, ele quer fazer as coisas direito, mas como é possível com essa turma em volta?”. Em seguida atacou os militares e os “novos” políticos, em seguida o vídeo foi apagado “por pressão da ala militar”, em seguida o porta-voz de Bolsonaro fez uma declaração afagando seu guru por um lado, criticando-o por outro, em seguida o filho zerodois, que obviamente é a voz do pai nas redes sociais, disse o contrário... E lá se foi o Brasil discutir o Governo da situação e o Governo da oposição, a ala militar, supostamente a menos ideológica, e a ala “olavista”, supostamente a mais ideológica, com particular atenção para o romance caliente entre o vice Hamilton Mourão e o filho zero dois, até agora entre tapas e nenhum beijo.

O general da ativa Otávio Santana do Rêgo Barros, coitado, parece cada vez menos um porta-voz de presidente e cada vez mais uma espécie de louro José de Bolsonaro. Aos 58 anos, uma carreira militar exitosa, e vai dizendo coisas assim: "De uma vez por todas o presidente gostaria de deixar claro o seguinte: quanto a seus filhos, em particular o Carlos, o presidente enfatiza que ele sempre estará a seu lado. O filho foi um dos grandes responsáveis pela vitória nas urnas, contra tudo e contra todos". Sério. Enquanto o novelão se desenrola, capturando e desviando a atenção do país, o “mártir” governa. E como governa. O projeto autoritário que Bolsonaro representa avança a cada dia sobre o Brasil com velocidade assombrosa.

Os milhares de indígenas que desde 2004 ocupam Brasília em abril para o Acampamento Terra Livre, uma tradição que Bolsonaro chamou de “encontrão de índios”, neste ano estão sendo “recepcionados” pela Força Nacional. O Mártir decidiu com seu general favorito, Augusto Heleno. Seu ministro de estimação, Sergio Moro, assinou. Por 33 dias a Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios serão defendidas do povo por uma força especial. Mas o Brasil continua sendo uma democracia.

O Mártir quer abrir as terras indígenas para soja, gado, mineração e grandes obras. Em vez de floresta amazônica um lindo pasto, uma soja a perder de vista, uma ferrovia gigante, uma cratera de mineração ainda mais fabulosa, com artísticas montanhas de resíduos tóxicos como legado para a posteridade. O planeta agradece e frita como resposta, mas aquecimento global, segundo o chanceler do Mártir, é “complô marxista”. Para os sábios do governo do Mártir, qualquer pessoa sensata pode perceber que o clima está como sempre foi, o Rio de Janeiro que o diga. Por isso Ricardo Salles, aquele que atende pelo nome de ministro do Meio Ambiente, mal entrou e já foi extinguindo a Secretaria de Mudanças do Clima e Florestas. Não precisa, né? Ele também já explicou de cara que “a discussão sobre aquecimento global é secundária”. Isso com os cientistas mais importantes do mundo afirmando que temos apenas 11 anos para tentar impedir que o planeta aqueça mais de 1,5 graus Celsius. Mas o Brasil segue sendo uma democracia.

Porque é muito magnânimo, o Mártir assegurou aos indígenas que eles são humanos como ele
Na semana passada, o Mártir promoveu um encontro transmitido em uma “live” nas redes sociais, com indígenas escolhidos a dedo, onde assegurou, mais uma vez, que eles são humanos como ele. “Com todo o respeito, alguns querem que vocês fiquem na terra indígena como se fossem um animal pré-histórico. Não é pré-histórico não, vocês são seres humanos. Na minha cabeça tem exatamente o que tem na tua cabeça, o teu coração é igual ao meu coração”, garantiu. Aparentemente os indígenas tinham dúvidas sobre se eram humanos ou não até o Mártir, magnânimo como todo Mártir, esclarecer.

Antes do início da “live”, os indígenas foram orientados a “evitar usar a palavra garimpo e usar mineração”, palavra muito mais palatável para os propósitos de derrubar a floresta para explorar o subsolo. Os escolhidos foram apresentados como lideranças, mas o povo yanomami já enviou uma carta avisando que o indígena que apareceu por lá não representa nenhuma comunidade. Da boca do Mártir só saíram pérolas. Como esta: “Por exemplo. Tem uma terra indígena aí que possa fazer uma usina hidrelétrica. Se vocês concordarem, é coisa rápida! A decisão tem que ser de vocês, sem intermediários. (...) Não tem problema nenhum. Faz o negócio, faz o preço, faz seguro. E toca o barco. (...) Vocês têm bastante terra. Vamos usar essa terra. (...) Nós queremos a liberdade de vocês”. No meio da conversa, lembrou : “Tem que mexer em leis, lógico, vai depender do parlamento, a gente vai buscar leis para mudar isso aí”. “Isso aí” é a Constituição. Mas o Brasil continua sendo uma democracia.

Com um canetaço, o Mártir decidiu deletar centenas de conselhos sociais com participação popular. Estes conselhos – formados por representantes da gestão e representantes da sociedade civil, gente com experiência nas respectivas áreas, entidades com atuação reconhecida – acompanhavam, debatiam e influenciavam as políticas públicas. São especialmente importantes em áreas invisibilizadas, como as relacionadas à população de rua, indígenas e LGBTI. Sem serem remunerados para isso, os conselheiros só recebiam transporte e diária. Eram a voz da sociedade no Governo. E a voz da sociedade foi silenciada. Mas o Brasil continua sendo uma democracia.

A reforma da Previdência é apresentada como a salvação do país. Tudo indica que o Armageddon pode ser antecipado caso a reforma não for aprovada. Mas quando é exigido que o Governo apresente os dados técnicos em que se baseou para construir a proposta levada ao legislativo, o Mártir, pelas mãos do Posto Ipiranga Paulo Guedes, decreta sigilo sobre o material até a aprovação. A lei altera a vida de todos os brasileiros, mas aos brasileiros é negado o direito de conhecer as informações que poderiam justificar a lei. São informações públicas, obtidas por funcionários públicos com dinheiro público, mas o Mártir determinou que nem os legisladores nem o povo podem vê-las. Aprova primeiro, prova depois. Mas o Brasil continua sendo uma democracia.

Até quando...?

Quosque tandem abutere patientia nostra?
Cícero, cônsul romano em 63 a.C. denunciando a conspiração pretendida pelo senador Lúcio Sérgio Catilina

Um país dividido

O Brasil está dividido, mal-humorado e turbulento. O governo tem a ala dos militares, a ala da economia e a ala dos ideológicos. O Legislativo ensaia uma guerra contra o Judiciário, que, por sua vez, ameaça o Executivo. O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Ministério Público (Procuradoria-Geral da República) entram em confronto aberto e medem forças à luz do dia. Nas ruas, simpatizante de um lado aplica mata-leão em manifestante do lado oposto. A base de apoio do governo não se entende nem a respeito das prioridades da pauta de votação na Câmara dos Deputados.

Existe também uma nítida divisão quanto ao que se percebe do desempenho do governo. Existem dois Brasis: um, que é veiculado nos grande meios de comunicação (ainda que com nuances), de cunho marcadamente contrário a Bolsonaro e ao governo; o outro, da opinião contundente e aparentemente majoritária espalhada nas redes sociais, que endeusa o presidente da República, aplaude com entusiasmo as ações governamentais e os arroubos presidenciais no Twitter.


No plano mais raivoso-ilustrado, as visões antagônicas se digladiam. A turma capitaneada por Olavo de Carvalho, alguns ministros da República incluídos, enxerga a esquerda como frequentadora de uma espécie de submundo das ideias. O que esquerdistas dizem não vale e nunca valeu nada. O subalterno ideário marxista e seus princípios não deveriam frequentar nem os livros de história do pensamento político moderno, pois não teriam atingido o status de pensamento, muito menos mereceriam o epíteto de moderno.

A esquerda, por sua vez, não economiza adjetivos. Seus inimigos são tachados de fascistas para cima. Um bando de insensíveis, sem nenhuma preocupação social, neoliberais a serviço do que existe de mais abjeto no imperialismo capitalista. São indivíduos racistas, que não aceitam a diversidade sociocultural-sexual e nas horas vagas se deliciam tecendo loas ao regime militar e lembrando nostalgicamente as façanhas dos torturadores da época. São sombrios semeadores de trevas. Nesse clima, tentar entender os argumentos do outro se transforma na mais absoluta perda de tempo.

Temos também a divisão entre a velha política e a nova política. A velha política é representada pelos partidos e políticos tradicionais, que debatem, mas nada resolvem, um time de desajustados que só pensam em se corromper. Embora amplamente majoritários e ocupando cargos de comando, não merecem o pão que os alimenta. O ideal seria que fossem exterminados, já que provocam ojeriza na sociedade e infectam a vida pública.

A nova política, essa, sim, promoverá o avanço institucional de que o Brasil precisa. Parlamentares novos, desintoxicados dos vícios do cambalacho e desinteressados de cargos, seriam a locomotiva das mudanças que o Brasil anseia e necessita. Para que o diálogo, a busca de articulação política, a formação de maiorias via partidos? Como num sonho, a agregação ocorreria de forma natural e os 25% de inexperientes e algo folclóricos deputados eleitos pela primeira vez dariam uma lição de moral e de eficiência num Congresso que chafurda no lamaçal do “toma lá dá cá”.

No âmbito dos partidos, a divisão chegou ao paroxismo. A fragmentação partidária nunca foi tão grande. Foi-se o tempo em que poucos partidos garantiam a maioria e a governabilidade. Hoje, para aprovar uma emenda constitucional, se excluirmos as agremiações oposicionistas, seriam necessários 11 partidos para alcançar os 308 votos – isso se os deputados votassem em bloco. Esses 11 partidos somaram 312 deputados nas eleições do ano passado, ou seja, 28 parlamentares por partido na média. Dá para intuir a dificuldade para organizar opiniões e vontades nessa verdadeira Torre de Babel...

O governo ajuda a turbinar a barafunda com seus ministros-bomba. A turma do barulho – formada por Ernesto Araújo, Damares Alves e Vélez Rodríguez (que recentemente deixou o governo) – não mede esforços para revirar os traumas mais recônditos da sociedade. Isso atiça a reação da esquerda, que de acuada e desmoralizada começa a exercer um protagonismo desproporcional ao respeito que angaria na sociedade. E dá-lhe pancadaria!

Na ausência de articulação política, o Congresso cria sua própria agenda. Ameaça limitar o número de medidas provisórias que podem ser editadas pelo governo, votar contra matérias de interesse do Executivo, atrasar a reforma da Previdência, enfim, dificultar ao máximo o andamento das coisas. Da Virgínia (EUA), Olavo de Carvalho dispara seu fuzil AR-15 de aleivosias contra os militares, o que provoca reação de Bolsonaro, que, por sua vez, vê com desconfiança a movimentação de seu vice, general Mourão. Ninguém se entende.

Por tudo isso, não surpreende a pesquisa do Instituto Ipsos divulgada pelo Estado em 14/4. O levantamento mostra uma grande polarização política no País. Para 32% dos brasileiros, não vale a pena conversar com quem tem uma visão diferente. Esse índice fica acima da média de 27 países incluídos no estudo. Apenas dois países superaram o Brasil: a Índia (35%) e a África do Sul (33%). Na verdade, estão todos empatados em primeiro lugar se levarmos em conta a margem de erro da sondagem.

A sociedade brasileira está dividida em relação ao governo, ao presidente da República, à aprovação da reforma da Previdência e a uma série inesgotável de assuntos. E a intensidade das opiniões é fortíssima. Não é que um indivíduo tenha uma opinião sobre um assunto – e acabou. Não. Ele está disposto a defendê-la com todo o vigor e sem aceitar contestação. A opinião, nesse sentido, confunde-se com crença, fanatismo, dogma.

O Brasil precisa aprovar reformas complexas e isso só se concretizará com a construção de consensos. Com essa hipertensão social e predisposição quase atlética para o confronto, não vai ser fácil.

Se na arte figuras más e vulgares não funcionam, na vida abundam exemplos

O que fascina em Hannibal Lecter, o canibal erudito d’ “O silêncio dos inocentes”, a que Anthony Hopkins deu corpo, é o contraste entre a elegância e sofisticação do criminoso e a violência dos seus crimes. Se Hannibal falasse como um carroceiro, seria um mero canibal.

O bom de usar exemplos preconceituosos com carroceiros é que já não existe nenhum. Aqui vai, pois, um primeiro conselho aos jovens escritores sem coragem para enfrentar a Brigada do Politicamente Correto (BPC): quando for necessário dar algum exemplo negativo, usem apenas profissões extintas, como ouvidores-mores, fanqueiros, ferreiros ou carrascos. Carrascos ainda existem, é verdade, mas trata-se de uma profissão tão desmoralizada que é legítimo desmoralizá-la ainda mais sem temer confrontos com a BPC.

Segundo conselho: se escolherem um carroceiro como personagem façam-no falar como um príncipe. É verdade que os príncipes reais raramente têm a elegância e riqueza vocabular que distinguia, por exemplo, um Antônio Houaiss (de todas as pessoas que conheci, aquela que melhor falava a nossa língua). A História abunda em príncipes que falavam como carroceiros. Basta pensar no Príncipe Charles e na famosa pérola com que seduziu a então amante, hoje esposa, Camilla Parker Bowles: “Quero ser seu absorvente íntimo.” Suspeito que com esta frase Charles fez mais pela causa republicana do que a Revolução Francesa.

Concluindo: colocar um príncipe falando como um carroceiro está mais de acordo com a realidade, e, ao mesmo tempo, adensa o personagem. Colocar um carroceiro falando como um filósofo (agora estou a supor que os filósofos falam como o Antônio Houaiss, o que também está longe de ser verdade — basta pensar em Olavo de Carvalho), pode soar pouco verossímil, mas torna o personagem mais intrigante.

Voltemos a Hannibal Lecter. Um psicopata assassino simpático, educado e sofisticado é perturbador porque gostaríamos de ser amigos dele. A atração pela luz negra de certos abismos é, não por acaso, um dos grandes temas da literatura universal.

O que me parece muito mais difícil de compreender é a atração por figuras más e vulgares. Digamos, pelo canibal carroceiro; pelos abismos sem luz; por Bonnie & Clyde sem a história de amor. Se na literatura tais personagens não funcionam, na vida há cada vez mais exemplos de sujeitos assim, que contra todas as previsões não só triunfam como são amados pelo povo (daqui se pode concluir que a literatura é mais lúcida do que a vida).

Aquilo a que se convencionou chamar populismo não é outra coisa senão a exploração de uma patologia social, que faz com que os ratos sintam uma irresistível atração por gatos. Populista é aquele tipo de sujeito que, para diminuir a pobreza, defende o assassinato dos pobres — e é eleito por eles.

Populistas odeiam a arte, a cultura, tudo o que seja educação, porque sabem que só prosperam no terreno movediço das fake news, do medo e da irracionalidade.

Para alcançar sucesso num tempo como o nosso, e continuar devorando as suas vítimas, Hannibal Lecter teria de se fingir estúpido. Se conseguisse correria o risco de se ver eleito presidente da República.
José Eduardo Agualusa

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Deu no jornal

Nos bastidores, Bolsonaro incentiva ataques a Mourão 
Jair Bolsonaro traçou uma estratégia para fazer frente aos movimentos de Hamilton Mourão, sem criar mais ebulição num governo que parece navegar em permanente efervescência: trata-se, na prática, de terceirizar ataques.
Bolsonaro tem estimulado alguns de seus líderes a descerem a borduna no vice.
A coluna teve acesso a um áudio de WhatsApp em que Bolsonaro lança algumas de suas marcas registradas verbais ("valeu aí" e "é isso aí") para agradecer e, mais grave, incentivar um aliado que lhe informara que vinha criticando Mourão nas redes sociais.
Em outro diálogo, com uma frase, Bolsonaro prevê que a batalha doméstica contra o companheiro de caserna vai perdurar pelos próximos três anos anos. Mais: dá a entender que pensa mesmo em disputar a reeleição. "Em 2022, ele vai ter uma surpresinha". Palavras de capitão.Lauro Jardim

Pensamento do Dia


Mediocridade a perder de vista

Parece que Bolsonaro foi bem-sucedido em seu objetivo. Conseguiu responsabilizar o Congresso Nacional pela necessidade de aprovação da reforma da Previdência.

Apesar de o Congresso responder aos interesses dos grupos e corporações lá representados e de ter dificuldade de ecoar o interesse difuso, a percepção de que não encaminhar nosso problema fiscal nos condena à recessão econômica é suficiente para movimentá-lo.

Ou seja, aparentemente a reforma será aprovada sem que Bolsonaro tenha que liderar o processo ou sem que ele tenha que operar nosso sistema político na chave tradicional.


Sempre achei muito ruim essa escolha do presidente. Penso haver evidências de ser possível operar nosso presidencialismo de coalizão de forma saudável.

Assim, dada a recusa do presidente em empregar os instrumentos tradicionais da política, a reforma será aprovada "por gravidade". Por esse motivo iniciei a coluna afirmando que há sinais de que Bolsonaro foi bem-sucedido. Há custos, no entanto. Ao operar a política dessa forma, o que será aprovado será muito pouco e muito tarde. Essa é minha expectativa.

Temos que avaliar, portanto, qual será a reação da economia a esse desfecho medíocre da reforma.

Na minha avaliação, não haverá rupturas. Há quatro amortecedores aos impactos do desequilíbrio de nosso contrato social --que estabelece uma estrutura de gasto do setor público incompatível com a receita-- sobre a economia.

Primeiro, a sólida posição de reservas: a desvalorização do câmbio reduz a dívida pública líquida.

Segundo, a emenda constitucional 95, que estabeleceu um limite ao crescimento do gasto primário da União e prevê uma série de medidas corretivas que serão automaticamente adotadas quando o limite for ultrapassado. O limite certamente será ultrapassado. O item mais importante dessas medidas de contenção é a manutenção do valor real do salário mínimo, medida, aliás, corretamente já adotada para 2020.

Terceiro, a própria reforma da Previdência muito diluída produz algum alívio no crescimento dos gastos públicos.

Quarto, a inflação baixa com seus fundamentos em ordem --núcleos da inflação e inflação de serviços bem comportados (serviços devem fechar o ano rodando a 3,6%)-- indica que não haverá tão cedo um ciclo de alta de juros. Em razão da surpresa negativa na atividade, pode até haver um ciclo de baixa.

Essas medidas são suficientes para gerar algum grau de previsibilidade e alguma moderação na trajetória do endividamento.

A incapacidade de tratar o conflito distributivo de forma mais permanente, no entanto, dificulta mirar o longo prazo. O investimento não deve voltar.

A economia ficará apática, rodando em torno de 2% ao ano --ou um pouco menos-- à espera de tempos melhores. O desemprego não cairá.

O câmbio deve se desvalorizar lentamente, em algum momento a inflação começará a apertar, o risco-país deve subir lentamente, e o prêmio de risco cobrado pelo alongamento da dívida pública aumentará.

O maior custo do alongamento do prazo da dívida pública produzirá processo natural de encurtamento do seu prazo de vencimento. A elevação da dívida e o encurtamento de seu prazo reduzirão a potência da política monetária.

Lentamente observaremos a deterioração dos fundamentos.

Se nada mais drástico no campo fiscal for feito, lentamente caminharemos em direção à Argentina. A inflação por lá já bate 55% ao ano, pois Macri não conseguiu renegociar o pacto social. Caminhamos para lá. Mas levará tempo.
Samuel Pessôa

Paraíso fraudulento

 
Não há uma fraude no Brasil. Há um país dentro de uma fraude 
Jorge Pontes, diretor de Ensino e Estatística da Senasp e ex-coordenador-geral da Interpol no Brasil

Informação versus fake news

Proliferam notícias falsas nas redes sociais. Todos os dias. São compartilhadas acriticamente com a compulsão de um clique. Fazem muito estrago. Confundem. Enganam. Desinformam. A mentira, por óbvio, precisa ser enfrentada. O antídoto não é o Estado. É a poderosa força persuasiva do conteúdo qualificado. O valor da informação e o futuro do jornalismo estão intimamente relacionados. É preciso apostar na qualidade da informação.

As rápidas e crescentes mudanças no setor da comunicação puseram em xeque os antigos modelos de negócios. A dificuldade de encontrar um caminho seguro para a monetização dos conteúdos multimídia e as novas rotinas criadas a partir das plataformas digitais produzem um complexo cenário de incertezas. Vivemos um grande desafio e, ao mesmo tempo, uma baita oportunidade.

É preciso pensar, refletir duramente sobre a mudança de paradigmas, uma vez que a criatividade e a capacidade de inovação –rápida e de baixo custo – serão fundamentais para a sobrevivência das organizações tradicionais e para o sucesso financeiro das nativas digitais.


Mas é preciso, previamente, fazer uma autocrítica corajosa sobre o modo como nós, jornalistas e formadores de opinião, vemos o mundo e a maneira como dialogamos com ele.

Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lembram disso? Lá estavam as nossas lembranças, os nossos registros afetivos, a nossa saudade. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava. Era bem legal.

Agora fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis. Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos. Fica para depois. E continuamos fotografando e arquivando. Pensamos, equivocadamente, que o registro do momento reforça sua lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a vivência de um instante. É importante guardar imagens.

Mas é muito mais importante viver cada momento com intensidade. As relações afetivas estão sucumbindo à coletiva solidão digital.

Algo análogo, muito parecido mesmo, se dá com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersa a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica. A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade. Não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado.

Será? Não creio, sinceramente. Penso que há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com rigor, critério e qualidade técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as competências e a magia do jornalismo de sempre.

Jornalismo sem alma e sem rigor é o diagnóstico de uma perigosa doença que contamina redações, afasta consumidores e escancara as portas para os traficantes da mentira. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto. Sobra jornalismo declaratório e falta apuração objetiva dos fatos.

É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história. Na verdade, a batalha da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos, próprios de opções ideológicas invencíveis, transformam um princípio irretocável num jogo de aparência.

A apuração de mentira representa uma das mais graves agressões à ética e à qualidade informativa. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade, mas num artifício que transmite um simulacro de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: repercussão seletiva. O pluralismo de fachada, hermético e dogmático, convoca pretensos especialistas para declararem o que o repórter quer ouvir. Mata-se a notícia. Cria-se a versão.

Sucumbe-se, frequentemente, ao politicamente correto. Certas matérias, algemadas por chavões inconsistentes que há muito deveriam ter sido banidos das redações, mostram o flagrante descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. Resultado: a credibilidade, verdadeiro capital de um veículo, se esvai pelo ralo dos preconceitos.

Politização da informação, distanciamento da realidade e falta de reportagem. Eis o tripé que corrói a credibilidade dos veículos. A informação não pode ser processada em um laboratório sem vida. Falta olhar nos olhos das pessoas, captar suas demandas legítimas. Gostemos ou não delas. A velha e boa reportagem não pode ser substituída por torcida.

A crise do jornalismo – e a proliferação de fake news – está intimamente relacionada com a pobreza e o vazio das nossas pautas, com a perda de qualidade do conteúdo, com o perigoso abandono da nossa vocação pública e com a equivocada transformação de jornais em produto mais próprio para consumo privado. É preciso recuperar o entusiasmo do “velho ofício”. É urgente investir fortemente na formação e qualificação dos profissionais. O jornalismo não é máquina, embora a tecnologia ofereça um suporte importantíssimo. O valor dele se chama informação de alta qualidade, talento, critério, ética.

O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o cara a cara, o coração e a alma. O consumidor precisa sentir que o jornal é um parceiro relevante na sua aventura cotidiana. Fake news se combatem com informação.

Gestão Bolsonaro roda como parafuso espanado

Prestes a entrar no seu quinto mês de existência, o governo de Jair Bolsonaro já consolidou uma marca: a ineficiência. É perceptível o refinamento, o cuidado, o acabamento extremo e, sobretudo, o custo com que a gestão do capitão atinge a ineficiência. A aparência é de um parafuso rodando a esmo, com a rosca espanada.

Para dar certo, o governo precisa aprovar as reformas que prometeu. Esperava-se que fosse ágil, para aproveitar o vigor pós-eleitoral. Mas a força das urnas se dissipa. E Bolsonaro não obteve no Legislativo senão uma coleção de reveses —da imposição do pagamento de emendas orçamentárias ao repasse direto das verbas federais às prefeituras.



Nesta semana, com os joelhos dobrados, o Planalto tenta arrancar a reforma da Previdência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, primeiro e mais simples estágio do processo de tramitação legislativa. Se fizer as concessões que lhe foram exigidas pelo centrão, talvez consiga passar para a fase seguinte, a discussão de mérito numa comissão especial. Coisa bem mais dura de roer.

O pacote anticrime, prioridade número dois do governo, não chegou nem à fase inaugural. Num esforço para evitar que a iniciativa murche, o ministro Sergio Moro (Justiça) levou a cara às redes sociais. Passou a borrifar explicações pretensamente didáticas no Twitter.

A dificuldade de atarraxar as reformas faz com que até o estilo de Bolsonaro comece a ser contestado. O que era visto como frescor antissistêmico, intolerância com velhas práticas e maestria tuiteira de repente virou ingenuidade de calouro, falta de articulação política e imperícia virtual a serviço da fabricação de crises.

Líder do governo na Câmara, o deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO) foi ao Twitter no final de semana para encontrar-se com o óbvio. Desse encontro resultou uma pilha de tuítes constrangedores. Num deles, o líder de Bolsonaro reconheceu que falta ao Planalto uma base congressual: "Ela simplesmente não existe."

Bolsonaro e seus operadores alegam que forças do atraso bloqueiam o governo no Congresso. Isso é uma desculpa de quem sabe que flerta com a crise, não uma solução de quem busca a superação dos problemas. O capitão foi eleito para produzir soluções, não para magnificar as encrencas.

Quando chegar o Natal, os 13 milhões de brasileiros que se encontram no olho da rua vão xingar o presidente da República, não os líderes do centrão. As estimativas para o crescimento da economia definham rapidamente rumo a uma marca próxima de 1% (pode me chamar de estagnação).

Bolsonaro logo descobrirá que a falta de prosperidade é irmã siamesa da impopularidade. Nessa hora, o arcaísmo do centrão continuará sendo um problema para o governo, só que bem mais caro.

Paisagem brasileira

Cabaceiras (PB)

Alan García

Eu o conheci durante a campanha eleitoral de 1985, por intermédio de Manuel Checa Solari, um amigo em comum que havia se empenhado em nos apresentar e que nos deixou a sós a noite inteira. Era inteligente e simpático, mas algo nele me alarmou. No dia seguinte, eu disse na TV que não votaria em Alan García, mas em Luis Bedoya Reyes. Ele não era rancoroso, pois, eleito presidente, ofereceu-me a embaixada na Espanha, que não aceitei.


Seu primeiro Governo (1985-1990) foi um desastre econômico. A inflação chegou a 7.000%. Ele tentou nacionalizar os bancos, as companhias de seguro e todas as instituições financeiras, uma medida que teria não só acabado de arruinar o Peru, mas também eternizado no poder o seu partido, a Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA). Nós o impedimos com uma grande mobilização popular hostil à medida, que o obrigou a recuar. Seu apoio foi decisivo para que a eleição presidencial de 1990 fosse vencida por Alberto Fujimori, que dois anos depois deu um golpe de Estado. Alan García precisou se exilar. Seu Governo seguinte (2006-2011) foi muito melhor do que o primeiro, embora, infelizmente, deteriorado pela corrupção, sobretudo associada à construtora brasileira Odebrecht, que venceu licitações de obras públicas muito importantes, corrompendo altos funcionários. O Ministério Público justamente o investigava sobre esse assunto, e havia determinado sua prisão preventiva por dez dias, quando ele decidiu se suicidar.

Um tempo antes, García tentou pedir asilo no Uruguai, alegando ser vítima de uma perseguição injusta. Mas o Governo uruguaio negou o pedido por considerar – com toda justiça – que no Peru atual o Poder Judiciário é independente do Governo e que ninguém é assediado por suas ideias e convicções políticas.

Durante seu segundo Governo, eu o vi diversas vezes. A primeira foi quando o fujimorismo quis impedir a abertura do Lugar da Memória, que mostraria os seus vários crimes políticos cometidos sob o pretexto da luta antiterrorista. A seu pedido, aceitei presidir a comissão que implementou esse projeto, que hoje – felizmente – é uma realidade. Quando ganhei o Nobel de Literatura, ele telefonou para me parabenizar e me ofereceu um jantar no Palácio do Governo, no qual tentou me incentivar a ser candidato à Presidência. “Achei que tínhamos feito amizade”, brinquei. Acredito que o vi pela última vez numa peça em que eu atuava, As Mil e Uma Noites.

Mas acompanhei bem de perto toda a sua trajetória política e o protagonismo que ele teve nos últimos 30 anos da vida pública do Peru. Era mais inteligente que a média dos que em meu país se dedicam a fazer política, com muitas leituras, e um orador fora do comum. Uma vez o ouvi dizer que era lamentável que a Academia de Letras só incorporasse escritores, fechando a porta aos “oradores”, que segundo ele não eram menos originais e criadores do que os primeiros (imagino que o dizia seriamente).

Quando García assumiu a liderança da APRA, fundada por Haya de la Torre, o partido estava dividido e, provavelmente, em um longo processo de extinção. Ele o ressuscitou, tornou-o muito popular e o levou ao poder, algo nunca logrado por Haya, seu mestre e modelo. Um de seus maiores méritos foi ter aprendido a lição de seu desastroso primeiro Governo, no qual seus planos intervencionistas e de nacionalização destruíram a economia e deixaram o país muito mais pobre do que estava. Ele percebeu que o estatismo e o coletivismo eram absolutamente incompatíveis com o desenvolvimento econômico de um país. Em seu segundo mandato, estimulou o investimento estrangeiro, as empresas privadas e a economia de mercado. Se ele tivesse combatido a corrupção com a mesma energia, teria feito uma gestão magnífica. Mas nesse campo, ao invés de avançar, retrocedemos, embora certamente não com a intensidade vertiginosa dos roubos e saques de Fujimori e Montesinos que, acredito, estabeleceram um limite inalcançável para os Governos corruptos da América Latina.

Teria sido ele um político honesto, comparável a um José Luis Bustamante y Rivero ou a um Fernando Belaúnde Terry, dois presidentes que saíram do Palácio do Governo mais pobres do que entraram? Acredito sinceramente que não. E o digo com tristeza porque, embora tenhamos sido adversários, não há dúvida de que havia nele traços excepcionais, como o carisma e a energia inesgotável. Temo, contudo, que participasse dessa falta de escrúpulos, dessa tolerância aos abusos e excessos tão comuns entre os dirigentes políticos da América Latina que chegam ao poder e se sentem autorizados a dispor dos bens públicos como se fossem deles, ou, o que é muito pior, a fazer negócios privados ainda com isso que violem as leis e traiam a confiança dos eleitores.

Não é realmente escandaloso, uma vergonha sem desculpas, que os últimos cinco presidentes do Peru sejam investigados por supostos roubos, propinas e negócios ilícitos cometidos durante o exercício de seus mandatos? Essa tradição, que vem de longe, é um dos maiores obstáculos para que a democracia funcione na América Latina e os latino-americanos acreditem que as instituições estão ali para servi-los, não para que os altos funcionários encham o bolso saqueando-as.

O disparo efetuado por Alan García na cabeça poderia querer dizer que ele se sentia injustamente perseguido pela Justiça. Mas, também, que desejava que aquele estrondo e o sangue derramado corrigissem um passado que o atormentava e agora retornava para cobrar responsabilidades. Os indícios são sumamente inquietantes: as contas abertas em Andorra por seus colaboradores mais próximos, os milhões de dólares entregues pela Odebrecht ao então secretário-geral da Presidência, agora preso, e a outra pessoa muito próxima, seu próprio nível de vida tão acima do que afirmou ter, ao fazer a declaração de bens antes de assumir o primeiro mandato: “Meu patrimônio é este relógio.”

No Peru, já faz tempo, há um grupo de juízes e promotores que surpreenderam a todos pela coragem que demonstram ao combater a corrupção, sem se deixarem amedrontar pela hostilidade desencadeada contra eles pela mesma esfera do poder que enfrentam, investigando, revelando os culpados, denunciando a má gestão dos poderosos. E, felizmente, apesar do silêncio covarde de tantos meios de comunicação, há também alguns jornalistas que apoiam o trabalho desses funcionários heroicos. Esse é um processo que não pode nem deve parar, pois o país depende dele para sair finalmente do subdesenvolvimento e fortalecer as bases da cultura democrática, para a qual a existência de um Judiciário independente e honesto é essencial. Seria trágico que, na compreensível emoção provocada pelo suicídio de Alan García, o trabalho desses juízes e promotores fosse interrompido ou sabotado, e que os poucos jornalistas que os apoiam fossem silenciados.

Pobres, aqui ó!

As pessoas precisam entender que, atualmente, os mais pobres sustentam o conforto e a segurança dos privilegiados. O sigilo, com todo respeito, não ajuda nada nesta missão
Janaína Paschoal (PSL-SP)

Santos e dragões

A trilogia Deus e o diabo na terra do Sol (1964), Terra em transe (1967) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968), que revolucionou o cinema brasileiro e teve grande impacto entre cineastas do mundo inteiro, apesar do contexto político em que foi realizada, trata de temas que permanecem atuais: o populismo, o messianismo e o banditismo. Messianismo e banditismo representam respectivamente Deus e o diabo, mas o maniqueísmo entre ambos, uma construção do cristianismo, não muda a realidade. Glauber tinha entre 25 e 30 anos quando produziu sua trilogia, da qual a obra mais importante, esteticamente, é Deus e o diabo, que estreou no dia 10 de julho de 1964.

O filme diz muito mais sobre a identidade nacional do que a simples alegoria do golpe militar de 1964, embora Glauber tenha sido perseguido, principalmente após o Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, quando o regime se tornou uma ditadura aberta, na avaliação do ex-ministro da Educação Jarbas Passarinho. Inspirado na obra O Diabo e o bom Deus, do filósofo francês Jean Paul Sartre, Glauber adapta livremente o roteiro, para retratar a relação entre a religião e o poder no sertão brasileiro. Seus personagens, porém, são arquétipos que transcendem os contextos regional e temporal.

Manuel (Geraldo Del Rey) se liberta do patrão explorador (Mílton Roda) e, em companhia da mulher, Rosa (Yoná Magalhães), junta-se aos fanáticos liderados pelo profeta negro São Sebastião (Lídio Silva) e, depois, ao cangaceiro Corisco (Othon Bastos). O matador Antônio das Mortes (Maurício do Valle) é contratado pela Igreja e pelos latifundiários para eliminar as ameaças ao status quo que constituem tanto o líder messiânico quanto o justiceiro do cangaço. Glauber explora a literatura de cordel para tecer a trama do fanatismo religioso. Em meio a alucinações sebastianistas, revelava influências do neorrealismo italiano e da nouvelle vague, com cenas inspiradas em Luis Buñuel, Sergei Eisenstein e Akira Kurosawa. Glauber morreu aos 64 anos, consagrado como cineasta e incompreendido como gênio na cultura nacional.

A crítica ao sebastianismo e ao banditismo é sofisticada. Os discursos de Sebastião prometem o céu na terra: “Agora eu digo, o outro lado de lá, deste Monte Santo, existe uma terra onde tudo é verde, os cavalos comendo as flores e os meninos bebendo leite na água do rio. O homem come o pão feito de pedra e poeira da terra vira farinha. Tem água e comida, tem a fartura do céu e todo dia, quando o Sol nasce, aparece Jesus Cristo e Virgem Maria, São Jorge e meu Santo Sebastião”. Rosa percebe que as promessas do profeta não levarão a lugar nenhum. Sebastião também incomoda a elite local. O padre solicita a Antônio das Mortes, assassino de aluguel, que mate Sebastião e todos os seus seguidores; ele, porém, afirma ter receio de cumprir tais ordens por mexer com coisas de Deus. Antônio das Mortes tem medo de enfrentar Sebastião e seus seguidores.

Sebastião é morto pelas mãos de Rosa, após o profeta exigir de Manuel o sacrifício de sua mulher e de uma criança. Seus seguidores são mortos por Antônio das Mortes. Em fuga, Manoel e Rosa encontram o grupo de Corisco, veem uma oportunidade de mudar de vida. Diferente do messianismo, o cangaço não se baseia em uma entidade surreal para acabar com o sofrimento do povo, e sim no reconhecimento da estrutura de poder e na manutenção, por parte dela, das condições sociais a que é submetido. Eles não ficam à espera de um anjo guerreiro vir arrancar a cabeça dos inimigos, milagrosamente. O banditismo social se propõe a cortá-la. No Dragão da maldade contra o santo guerreiro, que encerra a trilogia, Glauber junta a devoção de um santo à bravura de um guerreiro e projeta um novo messianismo, quando Antônio das Mortes abandona o Dragão da maldade e adere à causa do Santo guerreiro. Insinua um certo protagonismo popular, alternativo ao poder das oligarquias e ao banditismo do cangaço.

Após 20 anos de regime militar e 34, de democracia, o Brasil ainda não se livrou do populismo, do messianismo e do banditismo, que transitaram do Brasil rural para o urbano. Muito menos do maniqueísmo que impede essa ultrapassagem. São três ingredientes da nossa política que estão aí vivíssimos, no fenômeno da eleição do presidente Jair Bolsonaro, na resiliência eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e na dramática situação do Rio de Janeiro, onde o banditismo das milícias emula com o tráfico de drogas. São elementos da vida nacional retratados há 55 anos por Glauber Rocha, um viés antropológico vivíssimo da política brasileira, que atrasa e puxa o país para baixo.

O MST de Bolsonaro

Bolsonaro está em vias de adotar os sindicatos dos caminhoneiros como o seu MST pessoal. Após congelar o aumento do diesel na Petrobras durante alguns dias, e agora ativar empréstimos via BNDES aos caminhoneiros, além de adotar um tom quase que paternal frente aos condutores de boleias, Bolsonaro se esquece que ter governabilidade não passa pelo ato de se acovardar frente a grupos politicamente conduzidos.

O que alguém precisa explicar ao Presidente é que, proteger uma classe em detrimento de toda a economia nacional é coisa de petista; e se não há “articulação política” com deputados do centrão, muito menos haveria de existir com os sindicatos. Segurar preços a todo custo, dar vantagens políticas, e afagar grupos com discursos e empréstimos, são os exatos métodos populistas e burros nos quais os governos vermelhos se apoiaram e pelos quais afundaram o país no maior recesso que essas terras já viram.


Se tornar refém de um grupo que age através de ameaças de paralisações, que pedem benefícios especiais, sem, todavia, se importar minimamente com a seguridade econômica do país inteiro, é o mesmo que adotar um novo “MST” para chamar de seu. Afinal, é “Brasil acima de tudo”, não é mesmo?

Simplesmente não é hora de recuos. Colocar uma haste segura entre o palácio do planalto e os grupos que se acham dignos de vantagens, é o mesmo que garantir independência e poder de ação ao executivo. Fazer isso é o mesmo que finalmente expurgar esta ressaca protecionista com qual o Presidente veementemente concordou no passado, mas jurou rechaçar no presente; ou abre mão desse fraco verniz de liberalismo que tenta recobrir as suas ações econômicas até o momento, ou assume de vez os métodos do livre mercado e deixa a sua capacitada equipe econômica agir. Ser um estadista fraco e modelável não é uma opção quando estamos tratando com grupos de pressões que não se importam com a estabilidade monetária de um país inteiro, quando esses são especialistas em dobrar políticos às suas causas, sob todo custo.

Mostre de vez, Presidente, que o seu “namoro” com o livre mercado não é somente luxúria e paixão de uma eleição de verão; não podemos afagar castas e grupos de pressão com intervencionismos e, ao mesmo tempo, nos dizermos “liberais na economia”.

Não é possível que após mais de 100 anos de intervencionismos que nos deixaram na lata de lixo da história, com desenvolvimentos científicos e educacionais patéticos, com a vergonhosa tatuagem de “terceiros mundistas”, com um desenvolvimento econômico beirando ao de países africanos que estão em guerra há mais de 200 anos. Não é possível que vamos continuar tentando as mesmas estratégias que nos trouxeram cambaleantes e feridos até aqui.

Basta ler um “tiquinho” de história para perceber que o Estado intervindo na economia não deu certo nunca, em lugar nenhum desse Planeta, seja por um dia, seja por “mil anos”. Veja, me diga apenas um benefício que tal intervencionismo estatal brasileiro nos legou. Por que insistimos em errar tantas vezes repetindo as mesmas fórmulas?

domingo, 21 de abril de 2019

Pensamento do Dia


Hora do renascer

Não há melhor momento para dar uma virada do que na Páscoa. Passadas as reflexões e homenagens que se faz durante a celebração do martírio e da morte de Cristo, comemora-se hoje o renascimento, a sobrevida, a virada. Os ovos de Páscoa distribuídos nesse dia guardam o simbolismo do nascimento e da vida na cultura cristã, que toca 86,8% dos brasileiros, segundo o Censo de 2010 do IBGE.

Milhões de cristãos em todo o país, os que de fato guardam fé em seus corações, julgam ser esta a data mais adequada para mudar, mudar para melhor. Muitos enfrentam a quaresma como uma etapa de sacrifício e purificação que culmina no domingo do renascimento.

Um governo que teve em seu lema eleitoral a expressão “Deus acima de todos” poderia comungar dessa ideia e apostar numa virada a partir de agora. Não custa jurar diante do Altíssimo que se quer errar o menos possível. Não há nada mais puro do que a promessa de que se vai buscar o acerto e consultar aqueles que sabem mais sempre que se for tomar uma decisão importante, que mexa com a vida de pessoas, empresas ou instituições.

Os cristãos sabem muito bem que o perdão se obtém quando o remorso for genuíno e o coração estiver limpo. O presidente, que pelas razões que se conhece perdeu mais de 15% da sua popularidade em três meses de governo, ainda tem boas chances de recuperar o seu prestígio. Para isso, precisa mudar. Mudar para melhor.

Essa é a hora. Jair Bolsonaro não precisa mudar de lado, nem abandonar as plataformas com as quais foi eleito. Pelo contrário, se fizesse isso estaria cometendo uma ofensa ainda maior. Seria aquilo que hoje em dia se chama estelionato eleitoral. Precisa apenas de humildade e honestidade para expiar eventuais culpas ou pecados, que é o que se espera de todo penitente.

O primeiro imperativo de qualquer mandatário é respeitar as regras pelas quais foi eleito, respeitar os eleitores que o elegeram e também os que votaram em seus adversários. Respeitar todos os cidadãos igualmente, civis e militares. E buscar incessantemente honrar seu juramento de posse. “Manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”.

Respeitar a Constituição e as leis é obrigatório. Nenhum presidente do Brasil se manteria no poder se atropelasse os códigos legais. Dois já caíram por contrariar esta razão. Um deles, Fernando Collor, foi eleito por um turbilhão de votos parecido com o de Bolsonaro. E caiu. Ninguém é maior que a Constituição e as leis no país. Nem Bolsonaro. Nem Lula, que está preso. Nem dom Raymundo Damasceno, arcebispo emérito de Aparecida.

O mais difícil é promover o bem geral do povo brasileiro. E é essa parte do juramento feito por todos os presidentes que os cidadãos aguardam daqueles que mandam para o Planalto. O resto é default.

Se não der certo agora , restará ao presidente o Aseret Yemei Teshuvá, que são os dez dias de arrependimento que começam no primeiro dia do ano novo judaico. O que seria bastante digno também, já que todos sabem do amor de Bolsonaro por Israel. Durante esses dias, os judeus praticam o Teshuvá, que significa arrependimento ou retorno, quando examinam as suas próprias ações, julgam e arrependem-se de erros cometidos contra Deus e contra o próximo.

O problema é que o ano novo judaico só começa no dia 29 de setembro, e aí pode ser tarde demais para renascer ou retornar.

Só o Exército pode salvar a reputação do Exército

A reputação de uma instituição é a soma dos palavrões que ela é capaz de inspirar nas esquinas. Em Guadalupe, na zona oeste do Rio de Janeiro, ocorre uma incoerência: o Exército acha que é uma coisa e sua reputação nas esquinas é outra.

"O Exército matou meu filho", disse Aparecida Macedo, ao enterrar nesta sexta-feira o filho Luciano Macedo Moraes. Trata-se do catador de material reciclável alvejado pela mesma chuva de 83 tiros com que uma patrulha do Exército executou o músico Evaldo Rosa.

Na véspera, o comandante militar do Sudeste, general Luiz Eduardo Ramos, comentou as mortes do catador Luciano e do músico Evaldo. "Foi uma fatalidade", disse o general, após participar de almoço com Jair Bolsonaro, em São Paulo.

"O pessoal tem colocado 'assassinatos', mas não é", acrescentou o general. "Os soldados que estavam em missão tinham sido emboscados. Quem, como eu, já teve numa situação dessa ... Tensão, é difícil."

Na semana passada, após cinco dias de silêncio, o próprio Bolsonaro dissera: "O Exército não matou ninguém. O Exército é do povo. A gente não pode acusar o povo de ser assassino." Para Bolsonaro, o que houve foi "um incidente".

Fatalidade, a palavra usada pelo general, significa uma consequência inevitável do destino. Incidente, o vocábulo empregado pelo capitão, é um fato que desempenha papel secundário, incidental. As duas expressões desrespeitam a dor das famílias de Luciano e Evaldo.

Ironicamente, o catador Luciano morreu levando consigo uma noção sobre a reputação do Exército que sua mãe já não consegue cultivar. Ao enterrar Luciano, Aparecida relatou um diálogo que mantivera com ele:"Ainda falei para ele: 'Vai fazer barraco aí?'. Ele disse: 'Fica calma coroa, o Exército está ali. A gente está seguro'. O Exército matou meu filho. O Exército matou meu filho", declarou Aparecida.

Luciano morreu por ter tentado ajudar os familiares de Evaldo, que estavam com o músico no carro que a patrulha do Exército fuzilou. Ferido, ele não foi socorrido pelos soldados. Hospitalizado, não mereceu nenhuma atenção do Exército. Morto depois de duas cirurgias, tornou-se uma fatalidade, um incidente.

Gente que não tem nada a dizer, como o general Luiz Ramos e o capitão Jair Bolsonaro, deveria se abster de demonstrar em palavras a sua falta de respeito com os mortos. Só o Exército pode salvar a reputação do Exército. Mas a instituição, com a ajuda de Bolsonaro, parece determinada a assassinar também a própria imagem.

Valei-nos, Tupã!

Índio quer apito? Não, capitão. Quer terra pra morar, plantar e caçar, quer rio pra se banhar e pescar, quer água pura pra beber, ar sem toxinas pra respirar, um lugar pra realizar seus rituais e transmitir aos mais novos a cultura herdada dos ancestrais.

Quer que seu povo seja respeitado, aliás, como povo original deste país-continente, tão explorado há mais de 500 anos. Quer ter vez e voz, como Joênia Wapichana, advogada, primeira deputada indígena eleita para a Câmara Federal, uma dos poucos que conseguem se fazer ouvir, distribuindo carapuças aos que posam de governo. Como Sônia Guajajara, candidata a vice-presidente na eleição passada, que recentemente rebateu os argumentos do PSL para ceder território das tribos ao agronegócio.


Antes delas, o cacique Juruna usava o gravador na defesa das tribos, colhendo depoimentos nas aldeias e declarações de brancos engravatados, provando a ignorância destes quanto ao modo de vida indígena, suas necessidades primordiais, sua luta desigual contra a extinção, e as tantas injustiças cometidas.

Por mais dura que seja essa luta, outros líderes surgirão nas tabas, para despertar a mídia de sua eterna letargia e tirar da comodidade de um discurso já roto e medíocre as autoridades que dizem desejar o melhor para o Brasil. E, das duas, uma: os índios não resistirão à Terra reinventada ou, íntimos da natureza, nos ensinarão a sobreviver, quando o planeta atingir o auge da exaustão e não mais der frutos nem oferecer água potável.

Caminhamos a passos largos para o caos, poluindo terra, água e ar de forma inconsequente, em nome do tal progresso. Antigas doenças, tidas como erradicadas, voltam a vitimar a população e cresce o número de brasileiros nascidos com alguma deficiência, física ou mental. Nossa fauna, apesar da invejável variedade, já apresenta animais em extinção e extintos, que as novas gerações jamais conhecerão.

Com o desequilíbrio da cadeia alimentar, logo conseguiremos desestabilizar a vida terrestre, criando ambiente favorável tanto à proliferação de animais nocivos quanto ao desaparecimento de outros imprescindíveis, como as abelhas que já começam a se tornar raridade em todo o mundo, das quais dependem grande parte da polinização e a continuidade do verde.

Mas parece que tudo isso não passa de histórias sensacionalistas. O verde que interessa aos políticos é outro, em forma de cédulas. O ar que respiram, a água que bebem, os alimentos que consomem parecem vir de outro universo, onde o futuro não será o mesmo que deixarão aqui para os descendentes e o restante da espécie, se nada mudar.

Se ao menos falássemos tupi-guarani para pedir proteção a Tupã, engrossando o coro dos povos da floresta, não estaríamos tão abandonados à própria sorte, neste decadente paraíso.