sábado, 24 de janeiro de 2015

Nunca antes houve um partido como o PT


Acompanhei, à distância, o nascimento do PT e de outros partidos. Afinal, quem já viveu mais de 65 anos e nunca foi alienado tem de conhecer um pouco da História Política brasileira. Com proposta nova e com uma maneira de agir diferente, nasceu e foi assumindo seu espaço e granjeando adesões. As minorias, representando os mais diversos segmentos sociais, encontraram (foram acolhidas, absorvidas) no PT razão para suas lutas.

No poder, o PT transformou-se, esqueceu suas ideias libertárias e rasgou as bandeiras que dizia defender. Algumas delas hoje servem para limpar banheiros de rodoviárias. Suas principais lideranças enriqueceram, da noite para o dia. Se a Receita Federal trabalhasse direito, muitos estariam presos.

Na História Republicana, nenhuma agremiação política brasileira deu guinada tão violenta, tão drástica, tão vergonhosa como fez o PT. Reconheço a existência de erros, usurpações, safadezas e ilegalidades nos demais partidos. Todos já participaram de negociatas, de maracutaias e de armações, mesmo os pequenos partidos, de todas as tendências, aqui e ali, praticaram deslizes.

Mas o PT superou a todos. Desafio a desmentir estes fatos aqueles militantes que, por teimosia ideológica ou por necessidades fisiológicas, continuam defendendo o PT. Só não enxerga quem é cego mentalmente ou está se beneficiando, aboletado no poder.

Estamos na democracia, qualquer um de nós pode escolher partido, facção ou o que seja. Mas os petistas têm a mania de patrulhamento. Antes de assumir o poder, quando eram apontados erros ou safadezas deste ou daquele partido, os petistas tripudiavam, porque entendiam estar por cima de todos, em termos éticos e morais.

A partir do governo Lula, porém, perderam inteiramente o direito de cobrar qualquer irregularidade cometida por outro partido. Aliás, muitas legendas que eram então acusadas de fazerem maracutaias estão coligadas ao PT o tempo todo.

Assim, na minha opinião, devemos mandá-los procurar a turma deles. Nunca antes, na História deste país, houve governo tão corrupto e fétido como o PT. Nós sabemos e eles, também. O resto é conversa de bêbado. E até neste ponto eles estão bem representados.

O PT apodreceu e, como todo fruto podre, cairá e se arrebentará no chão. E, finalmente, para o bem dos brasileiros ainda conscientes, irá para o lugar que é dele, por direito: a lata de lixo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Fé cega, faca amolada


A derrocada de Dilma, o PT e a volta de Lula


Acho que precisamos ler o que está contido nas entrelinhas desses aparentes choques entre petistas. Dilma Rousseff tem pela frente um mandato inteiro e jamais o PT pegou o Brasil para governar numa situação econômica e social tão difícil, que a própria presidente deixou para si mesma, portanto, do PT para o PT. A nomeação de seus ministros foi um fracasso total, muitos deles com problemas na Justiça. Soma-se a essas dificuldades a corrupção institucionalizada. Acrescente-se a esse quadro dantesco o escândalo da Petrobrás, que ainda terá muitos desdobramentos e ramificações, de acordo com a pressão que se está exercendo pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pela Justiça.
O fato é que a insatisfação com o governo Dilma aumenta entre a população mais esclarecida. Integrantes do seu próprio partido a estão criticando publicamente. E pessoas ligadas a Lula, como Marta Suplicy, declaram que ele já desistiu de Dilma, culpando-a pelo atual estágio da economia brasileira.

Outro fato é que o mundo vive uma nova crise – de identidade, recrudescimento da violência, xenofobia, preconceito religioso – que certamente influenciará a economia global. O preço do petróleo desaba e a Rússia está tendo sua moeda em queda, a ponto de a China se oferecer para ajudá-la. Os países que fazem parte do Mercosul (ainda existe?) estão com sérios e graves problemas, dificultando nossas exportações, e a Argentina se apressa em fazer acordo com a China.


Em meio a essa situação, no Brasil o Congresso aumenta as exigências para negociar com o Executivo, com os partidos querendo mais regalias, mais ministérios, mais secretarias, mais poder. Enfraquecida, Dilma pode nem concluir seu governo, se o escândalo da corrupção aumentar e a presidente for atingida por um pacote de acusações que determine a votação do impeachment de seu mandato.

Diante dessas circunstâncias, penso que o PT está fazendo um belo teatro, uma pantomima para nos fazer crer que Dilma traiu o partido, quando, na verdade, a presidente está sendo abandonada por desertores, por covardes petistas que visam a candidatura de Lula em 2018 para resgatar o partido e oferecer ao povo o crescimento econômico que não houve nas duas administrações de Dilma!

O PT é sórdido, mal intencionado, sua paixão é pelo poder e pelos cargos. Se Dilma continuar nesta sua gestão com os mesmos fracassos que a anterior, e tudo indica que é irreversível esta situação, o PT perde prestígio e eleitores com a estagnação econômica, agravando os problemas crônicos do país. E o PT então pode ser alijado do poder, mesmo com Lula se candidatando.

A chance do ex-presidente voltar é se dizer desvinculado de Dilma, alegar que ela não fez o que o partido lhe determinara, que não seguiu os conselhos que ele, Lula, lhe sugerira.

O séquito de Lula, de Marta (relaxa e goza!) e de outras figurinhas carimbadas já começou a puxar o tapete de Dilma justamente no início de seu segundo mandato. Ora, por que deixá-la prejudicar o País por mais quatro anos? Por que Lula não se candidatou? Por um simples motivo: não tem quem possa evitar a crise que se aproxima.

Que então se espalhe que a presidente desobedeceu as ordens do partido, tendo como consequência o fracasso de sua administração. Que a oferenda à fogueira das vaidades seja apenas Dilma, que desceu de paraquedas no PT, e não o próprio Lula, que ainda engana incultos e incautos e tem chances de manter o controle do partido até 2018.

Lula é o Judas. Os beijos e abraços em Dilma na campanha à reeleição diziam claramente: Eis a mulher que deverá ser sacrificada em nome do PT. 

Francisco Bendl 

Casa da mãe Joana

A expressão foi cunhada na Itália. Joana, rainha de Nápoles e condessa de Proença, liberou os bordéis em Avignon, onde estava refugiada, e mandou escrever nos estatutos: “Que tenha uma porta por onde todos poderão entrar”. No Brasil ficou então como “casa de mãe Joana”. Antigamente, a expressão era como se chamava tudo que era confusão, aliás, como o mundo está agora, tendo o Brasil como destaque. 
Até há pouco tempo, pensou-se que jamais haveria qualquer coisa mais imoral do que o mensalão, remuneração mensal criada para parlamentares e membros proeminentes do governo que, em troca dessa benesse, aprovavam no Congresso qualquer porcaria que o governo quisesse. Poucos foram os punidos e muitos os beneficiados e até consagrados, outros, os mafiosos mesmo, arranjaram doenças que não matam nem aleijam, mas libertam. Com nomes de gringos, juízes importantes entenderam que tudo não passou de sacanagem das oposições fascistas... Quem sabe um dia poderão ser canonizados santos?

E nem chegaram a um terço das penas a que foram “condenados”, foram jubilados e estão soltos e fagueiros. Ainda com a estupefação pública pelo mensalão, eis que começa o petrolão... Este pode quebrar o Brasil. Como estará aquele empréstimo que a Petrobras fez ao pré-sal comprando à vista para receber a prazo não sei quantos milhões ou bilhões de barris de petróleo? E, por falar em pré-sal, não tem ninguém preso, não? E como será que está esse caso? Garanto que certinho como “boca de bode” não está...

E de todos os lados pipocam escândalos e absurdos: Na Argentina, “suicidaram” um promotor federal – Augustino Alberto Nisman, de 51 anos, que foi encontrado morto em seu apartamento. Ele era o responsável pela investigação do atentado contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina – Amia –, quando da explosão que deixou 85 mortos. Falam em coincidência... Torcedor do Galo, eu acredito. Em São Paulo, o novo secretário de Justiça, Aloisio de Toledo César, usou uma rede social para criticar os cartunistas do jornal “Charlie Hebdo”, avaliando que eles fizeram mau uso da liberdade de expressão e que está solidário com os muçulmanos porque eles condenam a violência. E concluiu: posso dizer que eu também sou Maomé. 

Eu tenho a mesma opinião do papa Chico. Neste mundo, tudo tem um limite, e, nesse caso, “não se pode insultar a fé das outras pessoas, não se pode tirar sarro de fé”. Disse mais: “Se ofender a minha mãe, pode esperar um murro, é normal”. Legal o Chico... Não concordei foi com Mateus 5:39 – “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal, mas, se qualquer te bater na face direita, ofereça-lhe também a outra. Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo”. Não sei por quê, lembrei-me do Cerveró...

A coisa tá feia!


Desagregação energética


Se o ano de 2014 foi de estiagem, escassez d’água e de energia, podemos esperar que em 2015 as dificuldades serão ainda piores. Racionamento e desorientação dos setores produtivos, gerando-se falências em cadeia e desemprego. Ruas e praças cheias de revoltosos inconformados e famélicos.
As medidas ensaiadas por Joaquim Levy são encomendas de banqueiros, passam longe do cerne da sustentabilidade e do desenvolvimento. A ortodoxia vesga das medidas propostas penaliza a sustentabilidade dos setores primários e estruturantes, aqueles que pagam impostos.

Aumento de tributos, de tarifas reguladas, arrocho de financiamentos. Cortar na pele da administração pública está proibido, os altos escalões se decretaram aumento salarial de 50%, e os gastos fixos nesse patamar secarão ainda mais a capacidade de investimento.

Vida boa está garantida apenas para parlamentares com salário de R$ 34 mil, em cascata todo o serviço público virá atrás. Levy, que vem do Bradesco, vai fazer contrariar todos os interesses, menos os dos banqueiros, um setor sanguessuga, longe de ser o puxador do desenvolvimento.

Em algumas regiões de Minas a chuva de janeiro é zero, não se lembram os mais idosos de um caso tão desesperador. As lavouras estão se perdendo, e a vegetação do campo já está seca como no inverno. Safra zero para alguns produtos em regiões tradicionais. Escassez e aumento do preço da comida.

O índice de saturação dos reservatórios está em apenas 22%, no ano passado nessa época era de 44%, rios secando, reservatórios vazios. Mesmo que fevereiro e março registrassem boas precipitações, das quais não se tem notícia, a realidade continuará arrasadora para o abastecimento e para a geração de energia. Racionamento, que é necessário e já passou da hora, está descartado para não contrariar a soberba presidencial. Cair atirando é a previsão de Dilma.

A situação é crítica desde 2012 e vem gradativamente se esgarçando. Dilma parece o faraó do livro do Êxodo, aquele que mereceu sete castigos divinos pela sua teimosia até se emendar e tomar a medida prometida.

O alicerce do setor elétrico foi rachado, na contramão da história, da lógica e da regra universal, em plena campanha das eleições municipais de 2012, anunciando uma diminuição de 26% das tarifas. Um tiro no pé, uma bomba no setor que originou outras medidas em cadeia para tapar da vista do eleitor o desastre e a conta dele.

Em 2015 deverá se recuperar o que se perdeu escondendo a verdade e adiando medidas.

Agora a conta se abaterá sobre o consumidor com 36% imediatos de reajuste e outros muitos que pipocarão em breve, pois o custo para as geradoras aumentou muito mais, e, de R$ 135 por MWh em 2012, as indústrias encontram-se a contratar por R$ 450, mas com baixíssima oferta.

Para se ter preços baixos, só tem a hipótese de a energia ficar abundante. Dilma fez o contrário: inibiu por decreto a possibilidade de investimento das geradoras, quebrou seus contratados, as quebrou, e ainda o desconto de 26% durou apenas três meses em 2013, seguindo-se aumentos que nunca se viram antes na história deste país.

Ainda se embaralhou, tirou referências no setor, afugentando os investimentos e condenando o país a ser carente de energias por muitos anos ainda. Quer dizer, tarifas altas.

Sempre na contramão, a CCEE rebaixou o PLD máximo (valor de liquidação da excedência de energia) de R$ 822 por MWh para R$ 388. Quer dizer, inviabilizou a produção independente e eventual, que custa cerca de R$ 680 por MWh, como é o caso da termoelétrica a petróleo de Igarapé-MG operada pela Cemig.

Em Pernambuco a termoelétrica de Suape (20% da Petrobras), com capacidade de 389 MWh, uma das maiores do país, sofreu uma quebra na última semana, paralisando 16 dos seus 17 termogeradores. Estouram por ter puxado a corda, sem descanso e manutenção adequada, chegando à fatiga inusual dos materiais.

Isso vem acontecendo de forma generalizada, e já 40% da capacidade nominal de geração está parada por sucateamento, e sem valores definidos que compensem o conserto com a remuneração de R$ 388 por MWh.

O despreparo de quem conduz as medidas de enfrentamento da crise a agrava. Parece que querem arrasar o setor? Seria uma teoria da conspiração para estatizar os falidos?

O caos está aí e parece que veio para ficar

Vittorio Medioli

Sobre o riso e a gargalhada


Como negociar com o terror, cuja força vem exatamente da recusa ao diálogo?
No livro “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais", Mikhail Bakhtin observa que, a partir do Renascimento e do Iluminismo, a gargalhada espontânea e rude das formas festivas populares — próximas da carne, dos processos fisiológicos e da terra — começa e ser transformada e reprimida. O riso contido diz adeus ao seu estilo escandaloso e “grotesco”, ligado à imagem de um corpo imperfeito, aberto, mutável e sujeito à decomposição. Surge um Equador cósmico entre o que fica acima (mãos, cabeça e juízo) e o que está vergonhosamente abaixo da cintura: o traseiro, os órgãos genitais e excretores, e os seus orifícios e funções. O grotesco tem nessa divisão sua origem, pois o interior do corpo e as suas passagens remetem ao obscuro das grutas. A mesa se divorcia da cama...

Na estética do Renascimento, que modelou a arte iluminista e “moderna”, o corpo perde os orifícios, abandona seus produtos mais humildes: suas protuberâncias e sua capacidade de confundir-se concretamente (como no parto e no amor carnal) com outro corpo. Ele se individualiza. Para Bakhtin, as grosserias e obscenidades seriam “sobrevivências petrificadas e puramente negativas dessa concepção aberta do corpo". A podridão, os órgãos sexuais e a nudez desabrida caracterizavam as festividades populares, as quais baniam o pecado e o tabu, assim como a separação entre o humano e outros mundos.

A partir do século 18, surge um universo fundado na racionalidade que separa a gargalhada (que vem da garganta) do riso superficial educado. O gargalhar é lapidado e “toma a forma de humor, ironia ou sarcasmo. Deixa de ser jocoso e alegre. O aspecto regenerador e positivo do riso reduz-se ao mínimo".

Agora temos o risinho mascarado superior, inaugurado por Voltaire e citado pelos estudiosos entendidos em França que comentaram o recente atentado de Paris. Essa seria a tradição do “Charlie Hebdo" quando, de fato, o terrorismo tem a volúpia dos mártires e — é óbvio — de alguns artistas imbuídos de profetismo, reproduzindo um grotesco rabelaisiano cuja onipotência encara a morte como uma diversão, e não como algo a ser suportado.

O riso irônico dos filósofos franceses separa a luta politica das opções religiosas. Naquela, matava-se com método (usando a guilhotina — uma maquina de matar moderna — igualitária e mecânica); no caso da religião, contudo, tudo se justifica em nome de Deus e do Profeta. A liberdade de dizer o que se quer é deste mundo; matar quem blasfema contra o nosso sagrado é uma guerra e uma vingança porque fala deste mundo e do outro.

A modernidade domesticou o riso que, supomos, pode ser dirigido contra ou a favor de alguma coisa ou alguém. “Certamente, continua Bakhtin, o riso subsiste mas ele se atenua e toma a forma de humor, ironia ou sarcasmo. Deixa de ser jocoso e alegre. O aspecto regenerador e positivo do riso reduz-se ao mínimo". Eu humildemente diria que, se o riso for além da ironia, ele readquire sua antiga volúpia utópica (e carnavalesca) que regenera e pode levar à morte. Morte física ou morte pela transformadora aceitação do gargalhar.
Leia mais o artigo de Roberto DaMatta

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Estagnolândia


O PT sem propostas


Para criar convicções sólidas e estáveis na mente dos trabalhadores, geralmente desconfiados e prejudicados pela permanente falta de oportunidades, deveria o PT promover um objetivo direto capaz de falar à vida e mesmo ao bolso de cada um. Uma forma de melhorar salários e condições de trabalho, como mecanismo para sensibilizá-los. Pode ser cruel a conclusão, mas uma adesão baseada exclusivamente em palavras será sempre débil e vacilante. A autoridade partidária precisa estar materialmente exposta através da formulação de metas a alcançar que atinjam e ampliem diretamente o futuro de cada um.

Até agora, e desde o início do governo Lula, qual a proposta concreta levada pelo PT aos trabalhadores em matéria de direitos e prerrogativas? Estabilidade no emprego? Participação no lucro das empresas? Multiplicação do salário-família? Transporte público gratuito? Cogestão ou extinção dos empecilhos ao salário-desemprego? Aposentadorias compatíveis com as exigências familiares? Reforma agrária efetiva pela distribuição e ocupação das terras improdutivas?

Nada foi apresentado como motivação para o aumento do número de companheiros e por isso o PT diminui ano a ano em número de filiados. Basta atentar também para a influência cada vez menor da CUT nas relações de trabalho, blindada a organização pela necessidade de não criar dificuldades ao governo. Do jeito que as coisas vão, decresce a militância e fica menor a influência do partido no processo político e eleitoral. A reeleição, para Dilma, foi mais difícil do que a eleição. Chegou-se a duvidar dela. Passados quase três meses da vitória sofrida e suada, qual a iniciativa adotada pelos caciques petistas para recuperar o tempo quase perdido e mobilizar a massa operária e camponesa?

A impressão é de que na cúpula do PT, depois das urnas, chegou a hora de cada um pensar em si, reivindicando as tradicionais facilidades de nomeações e acomodações na máquina administrativa. O trabalhador que permaneça à margem, perplexo e desiludido pela falta de propostas em condições de atraí-lo. Pelo contrário, recebe de longe apelos para mais sacrifícios e até supressão de seus direitos.

Perdendo espaços e apoio, desvinculado sempre mais dos ideais de sua fundação, arrisca-se o PT a grandes e negativas surpresas. Perceberá, num dia não muito distante, haver perdido as bases por ausência da capacidade de motivá-las. Como em política inexistem vazios, é bom meditar sobre que forças estranhas irão ocupá-los.

Carlos Chagas

Culpados somos nós?


Brasil vai mal e na educação dá vexame


Criado em 1998, na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, o mais recente resultado do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) demonstra que andamos cada vez mais para trás no que diz respeito à educação.

Na sua última campanha eleitoral, a presidente Dilma Rousseff tinha um mote exclusivamente demagógico e alardeava a promessa de que, em um segundo mandato à frente do Executivo nacional, levaria esta mal tratada nação ao patamar de uma “Pátria Educadora”. Ledo engano.

Esta Pátria foi literalmente deseducada no governo Lula e também no governo Dilma. Basta observar que o problema não se resume na impossibilidade de se fazer uma simples redação, que levou 529.374 estudantes a tirarem nota zero. Eram 6.193.565 participantes e somente 250 deles conseguiram a nota máxima. Isto é uma vergonha, não há dúvida, mas em matemática, esta matéria tão importante para o desenvolvimento dos jovens, também ocorreu outro vexame sem precedentes, já que em 2013, a média conquistada pelos estudantes fora de 514,1 pontos, enquanto agora caiu para apenas 476,8 pontos. Isso significa que pioramos.

Fica, assim, mais do que evidente que esse delírio de marketing de quinta categoria que idealiza transformar o país numa “Pátria Educadora” jamais será alcançado no governo Dilma, que acaba de cortar as verbas do Ministério da Educação. Na verdade, a presidente comanda um governo que, em 12 anos no poder, nada de concreto fez para melhorar o nível educacional das crianças cujos pais não têm condições de matriculá-las em escolas particulares.

Editar em tempos de cólera

Hildebranda tinha uma concepção universal do amor, e achava que qualquer coisa que acontecesse com uma pessoa afetava todos os amores do mundo inteiro
Gabriel Gárcia Márquez

Os muitos séculos que existem entre a primeira vez que um indivíduo morreu arbitrariamente por ter opinião e os nossos dias consolidaram a consciência de que a opinião é inata ao ser humano e, portanto, um direito não somente de tê-la, como também expressá-la, especialmente considerando sua natureza de viver em comunidade.



Por se tratar de uma conquista histórica, um valor quase folclórico que passamos de geração em geração, a liberdade de expressão tem algo da concepção universal do amor de Hildebranda Sanchez, na obra de Gabriel García Márquez: toda vez que acontece algo, é como se afetasse todas as liberdades de expressão no mundo inteiro. E é por isso que os editores, jornalistas e formadores de opinião de todo o mundo se manifestaram energicamente – suscitando, inclusive, inconformismo de muitos por não ter sido noticiado, com a mesma energia, o massacre de aproximadamente duas mil pessoas na Nigéria na mesma semana, ou por não se noticiar mensalmente o alto índice de homicídios de jovens brasileiros nas periferias.

Sim, a mídia de massa retratou o atentado a Charlie Hebdo com a dor de quem via o seu próprio editorial sendo atacado, potencializando o movimento Je suis Charlie, bem como o Je ne suis pas Charlie.

Basicamente, o movimento “ne suis pas” acrescenta o “mas” após a afirmação: “É um absurdo o atentado, mas os cartunistas pegaram pesado”; “É uma tragédia, mas eles sabiam que caçoar os muçulmanos daria nisso” etc.

Essa estrutura de raciocínio atribuindo parte da responsabilidade pela ocorrência do crime à vítima é a mesma que aquela máxima machista que atribui o estupro à roupa da vítima. Acrescentar qualquer “mas” ao atentado terrorista ao Charlie é dizer que eles pediram para morrer tanto quanto uma mulher estuprada estava querendo por causa de sua minissaia – não se pode culpar a vítima pela loucura alheia.²

Sei que muitos leitores tiveram acesso às polêmicas charges e ficaram chocados com seu teor – e elas foram feitas para isso mesmo: polemizar – e passaram a repensar sobre a tal liberdade de expressão. Talvez, pensando melhor, a liberdade de expressão teria limites, não?

Pois sim, a liberdade de expressão tem limites, como qualquer direito o tem. E, considerando que se trata de um direito fundamental, os limites não podem ser arbitrados pelo medo, pela moral, pelo “mimimi”, pela mediocridade, pelos religiosos (dos fundamentalistas aos não praticantes), pela conveniência ou ainda pela sogra. Direitos fundamentais devem ser limitados pelo próprio Direito: se a liberdade de expressão de alguém for ofensiva/excessiva a outrem, esse pode exigir judicialmente muita coisa – a reparação moral ou material, a retratação, o direito de resposta, a retirada de circulação etc. Pode exigir um tanto de coisas, mas não pode explodir o coleguinha, nem na França, nem na Nigéria, tampouco no Brasil.

Aliás, esse mesmo Estado de Direito também deve assegurar proteção às minorias, como no caso da minoria muçulmana que vive na França e passou a sofrer retaliações das mais diversas formas pelo reforço do preconceito que o ataque terrorista promoveu. Da mesma forma, também deve restringir atos da minoria muçulmana radical que vive na Nigéria e que quis impor novo ordenamento jurídico baseado em sua religião, resultando no lamentável massacre de dois mil cidadãos.

Por conta disso, não se pode incluir qualquer “mas” a direitos fundamentais, seja da minoria, da maioria, de bom ou mau gosto. Não se pode conceder liberdade de expressão apenas às expressões Don Juan que buscam agradar e conquistar a todos. E, se a expressão de alguém for excessiva, que o próprio Direito corrija, não a AK-47 mais próxima.

Tendo lembrado que temos um Estado de Direito na França e na Nigéria, gostaria de lembrar que, muito embora também tenhamos um Estado de Direito no Brasil, ter opinião por aqui é algo bem arriscado. Sem manter opiniões tão contundentes quanto os cartunistas e editores de Charlie, muitos autores e editores brasileiros recebem ameaças e violências das mais diversas formas.

No ano passado, a sede da Editora Abril foi depredada por vândalos, em retaliação à capa da revista Veja daquela semana. Gostem ou não da revista, ela assume uma postura editorial e, provavelmente por causa disso, sua editora foi atacada – apesar de ter sido numa sexta-feira de outubro, não se pode alegar que foi por causa do Halloween e dos “doces ou travessuras”...

Não raramente, o colunista da UOL Leonardo Sakamoto relata nas redes sociais as ofensas e ameaças que recebe por conta de sua coluna naquele portal de notícias. O Blog do Sakamoto não publica charges polêmicas como Charlie, mas igualmente possui opinião (goste você da opinião dele ou não) e se expressa.

Até mesmo Carlos Ruas, autor dos quadrinhos Um sábado qualquer, que utiliza humor leve para falar de religião, recebe ameaças e ofensas. E fico imaginando os diversos jornais, jornalistas, colunistas e autores que temos pelo Brasil afora expressando suas opiniões, o que já não receberam de ameaças ou violências. Muitos editores e autores já me confessaram não expor publicamente sua opinião para não correr riscos, e tampouco adotam linha editorial ou teórica clara para evitar qualquer conflito.

O que isso demonstra? Que se você tem uma opinião e não quer ter problemas, mantenha-a para si. Não a expresse. Opinar é insalubre. E quem vive de ideias, deve pleitear na Justiça do Trabalho o adicional por periculosidade. Imagine o que é ser editor e autor em tempos de cólera? Deveria haver um seguro para isso: Seguro-opinião contra terceiros.

Leia mais o artigo de Henderson Fürst

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A tirania pior

A cidadania democrática permite a cada um ser como quiser, mas sempre a partir da aceitação da lei civil comum, contra a qual não valem direitos religiosos, nacionais ou de qualquer outro cunho. Santayana (George Santayana, 1863 -1952) nos avisou de que “não há tirania pior que a de uma consciência retrógrada ou fanática que oprime um mundo que não entende o nome de outro mundo que é inexistente"

'Pátria Educadora' durou menos de duas semanas


A medida já foi explicada pelo ministro da Educação, Cid Gomes. Segundo ele a atividade fim permanece assegurada. No entanto, convenhamos, é difícil justificar que sob a égide do lema “Brasil, Pátria Educadora”, o governo promova um corte de R$ 7 bilhões no orçamento da pasta da Educação para o ano de 2015.

A aplicação de cortes no orçamento da União é medida de racionalidade administrativa. Nada a obstar quanto a isso. Contudo, não parece oportuno que esses cortes afetem logo o ministério sobre o qual recaem as maiores responsabilidades financeiras para o custeio da educação nacional.

Por outro lado, é uma pena que a centralização de recursos fiscais em Brasília prossiga sem sequer uma pausa para reflexão: isso serve ao país? não seria preferível ampliar a autonomia dos Estados e municípios?

Percival Puggina

Riqueza de 1% deve ultrapassar a dos outros 99%


Renda anual individual de parcela mais rica da sociedade pode chegar a R$ 7 milhões
A partir do ano que vem, os recursos acumulados pelo 1% mais rico do planeta ultrapassarão a riqueza do resto da população, segundo um estudo da organização não-governamental britânica Oxfam.

A riqueza desse 1% da população subiu de 44% do total de recursos mundiais em 2009 para 48% no ano passado, segundo o grupo. Em 2016, esse patamar pode superar 50% se o ritmo atual de crescimento for mantido.

Leia mais: Fortuna de super-ricos é 'incontrolável', diz pesquisador

O relatório, divulgado às vésperas da edição de 2015 do Forum Econômico Mundial de Davos, sustenta que a "explosão da desigualdade" está dificultando a luta contra a pobreza global.

"A escala da desigualdade global é chocante", disse a diretora executiva da Oxfam Internacional, Winnie Byanyima.

"Apesar de o assunto ser tratado de forma cada vez mais frequente na agenda mundial, a lacuna entre os mais ricos e o resto da população continua crescendo a ritmo acelerado."

A concentração de riqueza também se observa entre os 99% restantes da população mundial, disse a Oxfam. Essa parcela detém hoje 52% dos recursos mundiais.

Porém, destes, 46% estão nas mãos de cerca de um quinto da população.

Isso significa que a maior parte da população é dona de apenas 5,5% das riquezas mundiais. Em média, os membros desse segmento tinham um patrimônio individual de US$ 3.851 (cerca de R$ 10.000) em 2014.

Já entre aqueles que integram o segmento 1% mais rico, o patrimônio era de US$ 2,7 milhões (R$ 7 milhões).

Leia mais em BBC Brasil

Dilma usa Indonésia para desviar atenção

É difícil, mesmo sendo espiritualista, defender traficantes. Sei que não temos o direito de tirar a vida de um semelhante, mas esses “semelhantes” que facilitam drogas em porta de escolas para jovens de 15 anos, com o intuito de viciá-los, torná-los clientes e até empregados, merecem alguma consideração? Esses “semelhantes”, que matam com a maior frieza, rindo, merecem alguma consideração?

Por que não “retorná-los” para o lugar de onde vieram, no baixo astral, para ver se lá os ensinam? Aqui, no mundo físico, os que arrecadam impostos e nos governam têm outras “prioridades” administrativas, sobejamente conhecidas, expostas diariamente nos sites e blogs e que não incluem educação e saúde.

E então, como e onde traficantes deverão ser redimidos? Aqui no Brasil, como todos sabem, se forem soltos, podem acabar sendo ministros, nem que seja para Assuntos Aleatórios.

Tiraram até do armário o assessor “tok tok” Marco Aurélio Garcia para armar outro imbróglio tipo Honduras. Pelo jeito, o governo Dilma precisa de uma muleta para desviar a opinião pública do desastre do seu péssimo governo. E há os que se prestam a servir de muleta.

Quem sabe propomos a invasão da Indonésia para acabar com esses “malfeitores” e mudarmos suas leis (como quisemos fazer com Honduras), uma vez que tiveram a ousadia de fuzilar um traficante (coitadinho) brasileiro? Ainda bem que Fidel Castro nunca fuzilou ninguém, pois se o tivesse feito, teria a veemente crítica do atual governo brasileiro.

Nossos navios de guerra, para levarem novos pracinhas, precisam apenas que os EUA nos emprestem alguns rebocadores que os arrastem até lá, pois as embarcações foram criteriosamente sucateadas.

Por isso, até agora estou na dúvida se as condolências enviadas pela nossa diplomacia no caso Charlie Hebdo (França) foram destinadas às famílias dos jornalistas assassinados ou para as famílias dos terroristas também assassinados.

É hora de corte


O que vamos comer amanhã?

América Latina desperdiça 15% dos alimentos que produz
Todos os dias, o mundo joga no lixo entre 1/4 e 1/3 da comida que produz. Enquanto isso, 870 milhões de pessoas – mais de quatro vezes a população brasileira – acorda e vai dormir sem saber o que e quando vai comer.

Levando-se em conta que a população global chegará a 9 bilhões em 2050, como garantir comida a tanta gente, e ainda por cima a preços acessíveis? “É impossível vencer o problema da insegurança alimentar se não investirmos na América Latina para promover exportações e ajudar a alimentar o mundo”, comenta o gerente regional de agricultura do Banco Mundial, Laurent Msellati.

Quando fala em investimentos, ele não se refere só às técnicas para aumentar a produtividade, mas também ao conhecimento para enfrentar os principais riscos como secas, cheias e outros fenômenos climáticos extremos (e cada vez mais frequentes), pragas e até os altos e baixos da economia global.

Tudo isso é importante sobretudo para o maior produtor de alimentos da região, o Brasil, que em breve vai concluir seu primeiro diagnóstico das políticas e programas de gestão de risco do setor agropecuário.

O documento, a ser entregue ao Governo em março de 2015, apresenta recomendações e prioridades para uma melhor gestão dos riscos de um setor cuja safra foi de 194,5 milhões de toneladas em 2014, 3,3% maior do que a de 2013, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Técnicos do Banco Mundial, do Ministério da Agricultura (MAPA) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) analisaram 7.000 questionários respondidos em todo o Brasil. Os riscos relacionados com a infraestrutura e logística do setor agropecuário, além das secas cada vez mais graves em todo o país, são as maiores preocupações dos atores do setor.

E, para o diagnóstico não se limitar as percepções do setor, foram feitas consultas com especialistas de Universidades e do setor público e privado em gestão dos diferentes riscos, comparando os resultados do questionário com os resultados de estudos científicos e avaliações de impacto.

“Conhecer os riscos à agricultura é importante para garantir o acesso à alimentação da população mais vulnerável e evitar que a economia seja impactada. Só no estado de São Paulo (que tem a maior participação na produção agrícola do país), uma queda de 10% na produção custaria mais de 4 bilhões de reais (cerca de 1,5 bilhões de dólares) em receitas fiscais”, explica Msellati.

Em compensação, se começar a agir rapidamente para prevenir riscos, o país tem muito a ganhar: um dólar investido em mitigação de riscos como desastres naturais economiza sete em ações de resposta.

Leia mais o artigo de Mariana Kaipper Ceratti 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Minha aldeia


Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
-
Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desempara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.
António Gedeão (1906-1997)



Desaparecido


Muito barulho para esconder a mesma sujeira



O que é bom a gente mostra. O que é ruim a gente esconde
Rubens Ricúpero, ex-ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, em 1994 antes do início de uma entrevista captada por antenas parabólicas  


É com a máxima presteza que Dilma vai de um extremo a outro sem a mínima vergonha, talvez esquecida do que diz antes. Foi capaz de condenar o atentado em Paris - "Barbárie!" - esquecida que ocupou o parlatório da ONU, em Nova Iorque, diante da Assembleia Geral, para defender negociações com o Estado Islâmico, exterminador de gente em chacinas.

Agora, com amplo destaque na mídia, para uso interno, advogou as súplicas ao governo indonésio para a clemência ao brasileiro instrutor de asa delta, que traficou drogas para aquele país, onde o tráfico é condenado com a morte.

A presidente foi ao cúmulo de se dizer "consternada e indignada" com a execução. Deu uma de santinha, sabendo que o caso era perdido, porque Joko Widodo, presidente indonésio, também queria tirar casquinha da execução para dar ibope em casa. Ou seja, um brasileiro que vivo ou morto daria apenas pontos para os governantes, independente do crime que cometeu. Apenas mais um caso usado e abusado pelos governos, que não têm consideração por ninguém fora do grupo.

Aqui houve mais um gesto de cretinice dos "revoltados" com a execução, não admitida felizmente no país. Confundem respeito às leis soberanas de um país, no caso islâmico, apontam-nas como barbárie, mas esquecem que nos Estados Unidos a pena de morte também existe. Seríamos tão clementes com um brasileiro condenado por lá? Achincalharíamos os States? Ou a China?

Num momento de falta de manchete, a execução ganhou a mídia e as redes sociais, exageradamente. Se condenou a Indonésia, por vezes até esculhambada, e se apelou em massa para a liberação do condenado, muito mais do que se falou nas chacinas de Pedrinhas. A cobertura jornalística chegou às raias do apelativo, quando as prisões brasileiras não são diferentes das de lá. O privilégio, o tráfico, o uso indiscriminado de celulares, smartphone, iPad, estão nas cadeias de lá como nas daqui. Portanto não seremos assim tão superiores, nem muito tão civilizados, em relação aos indonésios. A sujeira penitenciária é igual. A diferença é a pena, porque lá se mata e aqui se deixa sair pela porta da frente.

Pedimos a clemência de um condenado no exterior, mas esquecemos de com a mesma força criticar penas de menos de um ano de prisão os políticos corruptos, por terem trabalhado e estudado na prisão; deixamos encarcerados por anos sem estudo e trabalho os pobres ladrões de galinha, até mesmo inocentes. Mas esses não merecem clemência, porque não dão voto nem contribuem para a imagem civilizada da presidente, que abriga em seu ministério gente com prontuário na Justiça ou procura esconder a corrupção generalizada.

A pena de morte não exterminará o tráfico e é mesmo condenável, mas não se pode aproveitar a execução de Marco Archer para se esconder as mazelas brasileiras em relação ao tráfico, que aqui encontrou um paraíso, até propiciado por falta de ações governamentais, às prisões abarrotadas onde tudo se comercializa, à corrupção de baixo a alto escalão.

Se a Indonésia executou um brasileiro, aqui se condenam e executam brasileiros por minuto sem que haja tanto movimento por clemência dessas vítimas. Criticar tanto o rabo dos outros é feio, quando o nosso está emporcalhado, talvez mais do que achamos.

A trincheira

No momento de barbárie, vejo como a ideia da liberdade individual, livre de doutrinas políticas ou religiosas, é uma trincheira a se defender com todos os riscos. Embora os riscos não sejam tão altos aqui nos trópicos
Fernando Gabeira

O mundo vai acabar



O mundo passou dos mil, mas não passa dos 2 mil!

Ouvi isso aos 11 anos.

Não se falava em Antropoceno e aquecimento global. Éramos etnocêntricos e eu temi menos o fim do mundo apocalipse do que a minha idade no apocalipse. Com 62 anos, eu seria mais velho que papai!

Mas o futebol e o amor, fizeram-me esquecer o fim do mundo. Ele retorna novamente com o aquecimento global e a crise do capitalismo consumista. É imperioso descobrir o suficiente e direcionar ambições.

Não há lógica no roubo de bilhões feito nas encruzilhadas entre Estado e sociedade porque quem paga a conta é o Brasil. Afora isso, sei que o mundo vai acabar.

No século passado pensava-se em limites. Hoje, eu prefiro falar do meu passado (o qual, penso, conheço razoavelmente) do que do futuro do País o qual se já não se f..., a Deus pertence, como dizia minha avó.

Entrei no mundo por meio do futebol e no universo da individualidade quando descobri o sexo. Falava do meu time sem nenhuma delação premiada; mas o sexo era tão obscuro como a corrupção que assola o País.

- O que é sutiã?

Para achar a resposta, começamos a ver a empregada tomar banho. Vestir o sutiã sinalizava o fim do espetáculo e tivemos uma resposta. Mas a travessura vazou e a porta foi trocada. Acabaram com o show da empregada, mas começamos a espiar a mulher do vizinho, que mudava de roupa sem fechar a janela.

Entre o cinema e as histórias em quadrinho, vivíamos o sexo indo ao banheiro com uma revista debaixo do braço. Tal como hoje defecamos lendo a notícia malcheirosa de um Brasil que como aquele bloco do carnaval de João Ternura, de Aníbal Machado, dá um passo pra frente e três pra trás.

O banheiro era o único lugar da solidão. Nele surgia o cidadão moderno livre, totalmente inexistente debaixo da supervisão familística porque, "menino não tem vontade"; e Deus - onipresente - nos via em todo lugar, sobretudo no banheiro.

Éramos entidades infra-humanas: "meninos". O mundo tinha "gente grande" e "crianças". Fui muitas vezes expulso da varanda porque "a conversa não era para criança!". Como "meninos", não éramos filhos e netos mas "diabos" e "cornetas". Quando lembravam da travessura de espiar a empregada - virávamos patifes!

O mundo tinha pobres e ricos; brasileiros e estrangeiros (ingleses beberrões que gostavam de clubes). A oposição entre brancos e negros que viviam na casa, mas não eram parte da família, era tabu. Ninguém deveria ser assim chamado numa óbvia sobrevivência de uma escravidão embargada.

Os grandes eram, além de adultos, misteriosamente homens e mulheres. Como soubemos? Todos eram obrigados a comer numa mesma mesa, mas a dormir em camas separadas. Entretanto, pai e mãe e até mesmo vovó e o "velho Raul" dormiam em camas de casal. Por que a comunhão na mesa e nas camas dos casais, as quais correspondiam a quartos separados e com chave enquanto todos nós, "meninos" dormíamos sozinhos?

Pensei muito sobre a cama e a mesa quando morreu uma colega, a professora nos obrigou a ir ao velório e, pela primeira vez, vi a máscara de cera dos mortos no corpo da menina que jazia em cima da mesa, na sala de jantar.

A mesa era uma cama de pés altos onde os mortos não acordavam. A cama, era uma mesa de pés baixos na qual os vivos amavam, dormiam, o sonhavam e experimentavam um arremedo da morte. Estudava-se e comia-se na mesa. Nela eu vi minha mãe fazendo um copo girar, em volta de um alfabeto, formando mensagens enviadas pelo espírito de um tio morto. Mensagens que, logo descobri, eram desejos de minha mãe.

Os "grandes" tinham sexo. Nas casas com animais de estimação, a divisão surgia mais nitidamente. Num lar de amazonenses que queriam falar de tudo, menos de índios, selva e bichos, a identidade de gênero era encoberta pela de idade. E um dia, um de nós quis saber o que era uma mulher.

- Elas sangram mensalmente e usam Modess, disse alguém.

- E os homens usam Midess jurou um outro que "passava a mão" na prima e, como especialista, sabia que elas não tinham nada entre as pernas, exceto um vale ondulado e escorregadio como uma geleia.

Esses eram tempos em não havia limite para quem estava no poder. Hoje, evoluídos e cientes do fim do mundo, temos múltiplas escolhas. A liberdade e os direitos criaram a consciência do palco e dos privilégios e deveres dos papéis. Quando eu era juvenil, a paixão estava na política que dominava até mesmo o nosso erotismo. Do mundo de hoje, eu nada sei. Penso que ainda existe amor e paixão e muita insegurança e confusão. E se isso existe, então há esperança.

Roberto Damatta

domingo, 18 de janeiro de 2015

O soco inoportuno do papa Francisco


Rir de nós e dos nossos deuses é a melhor forma de aceitar que não somos nem patrões nem escravos
Francisco, o papa carismático, é um amante do futebol. Tem até um time do coração. Entretanto, no momento em que a notícia do mundo estava ancorada na tragédia perpetrada contra os jornalistas do semanário humorístico francês Charlie Hebdo, ele acabou marcando um gol contra.

A cena percorreu o mundo. No avião que o conduzia às Filipinas, o terceiro país com maior número de católicos do mundo, ele comentava com os jornalistas a bordo o sangrento atentado contra a liberdade de expressão que gelou a alma de milhões de democratas do mundo, quando deu um escorregão.

É verdade que foi taxativo ao afirmar: “Matar em nome de Deus é uma aberração”. E fez bem em salientar que tanto a liberdade de expressão como a liberdade religiosa “são direitos humanos fundamentais”. Direitos que a Igreja Católica não só às vezes se esqueceu de protagonizar como também condenou a morte os que não pensavam como ela.

Francisco, um dos papas que mais recorrem aos textos do Evangelho para inspirar seu carismático pontificado em favor dos pobres e da paz, teve um lapso de memória ao comentar com um jornalista que se alguém insultar a sua mãe você “pode esperar um soco”. O Evangelho condena o antigo “olho por olho, dente por dente”.

O papa não estava falando ex-catedra, nem numa encíclica. Foi uma confidência em linguagem popular, num clima descontraído, sem maiores pretensões teológicas. Entretanto, aquele “soco” na boca de um papa, e de um papa pacifista como Francisco e naquele momento, chocou os amantes da liberdade.

Foi um gol contra inoportuno porque, ao propor a violência como resposta a uma hipotética ofensa, seja contra a sua mãe ou a sua religião, no momento de tensão e de violência terrorista que atemoriza o planeta, é impossível não interpretar suas palavras como algum tipo de justificativa para a violência perpetrada pelos terroristas islâmicos contra os jornalistas do Charlie Hebdo.

Nenhum homem religioso ou ateu que respeite o valor sagrado que é a liberdade de expressão, tanto quanto o direito à vida, pode admitir que a sátira, por mais dura que seja contra qualquer instituição de poder – e é isso que as religiões são –, seja silenciada com as armas.

Tem razão o papa quando adverte que liberdade de expressão não significa liberdade de insulto ou calúnia. Nesses casos, entretanto, devem atuar os tribunais de justiça. Ninguém tem o direito de tomar a justiça nas próprias mãos. A liberdade de expressão, como bem salientou Antonio Caño, diretor deste jornal, não aceita perguntas nem restrições, que é como dizer que é sagrada.

A única distinção possível é que uma coisa é fazer humor sobre uma religião, qualquer que seja, e outra contra as pessoas concretas. Ninguém aceitaria que se fizesse chacota dos muçulmanos, a grande maioria pacíficos, ou dos cristãos, budistas ou judeus. As pessoas são sagradas como o seu direito de viver. Os símbolos, mitos ou deuses podem ser objeto de sátira. Do contrário, teríamos que admitir que Deus não sabe rir.

Leia mais o artigo de Juan Arias

Terror na rede


A 'despalavra' do ano na Alemanha

Manifestante exibe cartaz com a palavra
 Lügenpresse, conceito já utilizado pelos nazistas 
Lügenpresse – "imprensa da mentira" – foi escolhida a "despalavra do ano" de 2014 na Alemanha, anunciou nesta terça-feira, em Darmstadt, o júri liderado pela linguista Nina Janich.

"Uma condenação generalizada como essa impede a crítica midiática fundamentada e colabora assim para pôr em risco a liberdade de imprensa, tão importante para a democracia", afirmaram os jurados.

Segundo eles, "é impossível não perceber a grave ameaça" à liberdade de imprensa apresentada pelo extremismo, "principalmente nos dias atuais". Eles lembram que esse slogan já era usado pelos nazistas para difamar de forma indiscriminada a imprensa independente.

Nos dias atuais, Lügenpresse é usada principalmente em manifestações do grupo Pegida (sigla em alemão para "Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente"). Por trás desse uso há motivações de extrema direita, algo de que nem todos os seguidores do Pegida estão conscientes, disse Janich. É justamente isso que torna o conceito "um meio especialmente pérfido para aqueles que o usam de forma deliberada".

Políticos e profissionais da imprensa elogiaram a escolha. "É a decisão correta, na hora certa", afirmou a deputada Tabea Rössner, do Partido Verde. Para o jornalista Heribert Prantl, do jornal Süddeutsche Zeitung, trata-se de um conceito que "não estimula ao debate nem à crítica, mas lhes dá um golpe mortal".

Leia 

O Brasil dos excessos


O que acontece com um balão de borracha se, depois de enchê-lo, a pessoa continuar soprando e soprando? Vai estourar, é claro... Pois é. Assim estamos vivendo nós, brasileiros. Sabemos que o balão vai estourar, mas continuamos soprando. Ainda assim, vamos nos assustar com o estouro desse balão, principalmente quem não está prestando atenção. Tudo tem uma medida certa – os balões, os sacos, a vida...

É sempre assim: tudo o que existe demais acaba sobrando. E nosso povo está convivendo com muitos excessos: excessos de leis, de deputados, de partidos políticos, de falta de vergonha e de respeito, de senadores, de ministérios, de juízes que não judicam ou que pouco produzem por excesso de recursos processuais, por excesso de preguiça também, leis benevolentes que condenam, mas não prendem ladrões e, principalmente, terroristas... E, continuando assim, chegaremos vivos ao inferno. Por que só agora estamos começando a notar essas coisas? Será por excesso de fé em Deus? Boa saída para os irresponsáveis ou preguiçosos de má-fé... Então: esse balão vai estourar porque o Brasil é assim, desse jeito? Não, nós não somos assim.

Estamos assim por desleixo. Precisamos de líderes do bem. Sim, porque de líderes do mal o mundo está cheio. Por aqui é Sarney, Renan, ex-Luiz, (cadê o homem, gente), Jucá, Barbalho, Vicentinho (quem? Vicentinho, pô), Berzoini, Tarso Genro, Maluf, Dirceu, Palocci. Ia me esquecendo de Genoino... muitos desses não estão presos? Estão nada. Estão mais soltos que o terrorista italiano Battisti, aquele, sabe?

Eu acho que estou ou sou pessimista. Será? Pode até ser, mas penso em achar jeito para pelo menos ajudar, sugerindo. Assim: diminuir o número de deputados federais, uns 150; estaduais, de 15 a 30, conforme o Estado. Vereadores, no máximo 15, assim mesmo só nas capitais. Construir cadeias, muitas cadeias; acabar com essa discriminação da política de cotas. Educação, saúde e segurança como políticas de Estado e de responsabilidade da União, Estados e municípios.

Proibir emancipação de distritos municipais por pelo menos dez anos. Proibir gastos com propagandas oficiais, permitidos publicação apenas de editais e avisos, justificada a necessidade. Considerar sempre o tempo de serviço do funcionalismo efetivo para efeito de remuneração.

Efetivar todos os funcionários contratados com mais de 20 anos de serviço. Proibir novas contratações. Novas nomeações só para cargos comissionados que não poderão passar do prazo do mandato do presidente da República, que deverá ser de cinco ou seis anos, sem reeleição, fonte inesgotável de corrupção. Nada mais que dois ou três mandatos no Legislativo. Reformar o Código Tributário. Transformar os Tribunais de Contas em Câmaras de Contas dos Tribunais de Justiça, providas por desembargadores. Como está é brincar de fazer de conta... E tudo isso rápido, já que o tempo urge e também ruge...

Je suis 'demagogô'


Marqueteiro do Papa deve ter feito o cálculo certeiro: nada mais progressista do que um líder católico defendendo o Islamismo
Depois que Dilma Rousseff tomou posse defendendo a Petrobras, qualquer piada está liberada — inclusive as que envolvem Maomé. Os facínoras do Estado Islâmico e da al-Qaeda não têm ideia do nível de escárnio a que os brasileiros estão submetidos cotidianamente. O PT monta o maior sistema de pilhagem já visto na República e a presidente conclama o país a um pacto contra a corrupção. Entenderam o que é achincalhe, queridos sanguinários de Alá?

A sorte dos picaretas do Ocidente e do Oriente é que a opinião pública continua dormindo seu sono das mil e uma noites. Para se ter uma ideia, o mundo culto está discutindo há mais de uma semana a legitimidade de um massacre. Isto é em si uma piada — mas não ria, porque vão te acusar de sacrilégio. O pensamento morreu. Você não vale mais o quanto pensa, vale a bandeira que levanta. Então, não perca tempo: repita também, como um brado no Ipiranga, que o Islã é legal e matar os outros não é legal. Pronto, você está no altar do jardim de infância global.

Daqui para frente, o mundo terá que ser legendado, para facilitar a compreensão. Chico Caruso já deu a senha no GLOBO: uma charge de Maomé com as inscrições “este não é Maomé” e “isto é um desenho de humor”. Perde um pouco a graça, porque os heroicos defensores de Charlie, do Islamismo, do humanismo e do bom-mocismo ficam sem bateria para esgrimir seu óbvio fulgurante. Mas reduz a ameaça — dos terroristas e, principalmente, dos pernósticos.

Talvez uma das figuras mais representativas deste momento esquisito seja o Papa Francisco. Sua Santidade tem provavelmente uma espécie de João Santana ao pé do ouvido, para soprar-lhe as últimas tendências do mercado. Foi assim que o líder máximo da Igreja Católica mergulhou na causa gay. Vamos tentar legendar. A defesa dos direitos dos gays não é só importante, é urgente. Trata-se de derrubar um muro de hipocrisia que faz muita gente sofrer à toa. Mas e o Papa com isso?

Bem, Francisco também pode achar que é uma causa urgente. Só que ele lidera uma Igreja cuja doutrina não aceita o homossexualismo. Não aceita nem a camisinha! No Catolicismo, o sexo tem que ter fins reprodutivos. Quando a Igreja Católica aceitará uma família gay, com dois pais ou duas mães? Talvez semana que vem — desde que ela destrua alguns de seus pilares e erga outros em seus lugares, ou seja, que refunde a si mesma. Só que, em geral, isso não é uma questão de dias, mas de séculos. Ou seja, o Papa bonzinho está jogando para a arquibancada.

Mas a plateia ama. Lembra até um pouco Lula, o Papa brasileiro, quando assumiu o governo mantendo as diretrizes econômicas do antecessor (porque não é bobo) e gritando contra os juros altos. Inaugurou o primeiro governo de oposição da História, e não saiu mais de lá.

Depois do atentado em Paris, a reunião no departamento de marketing do Vaticano deve ter fervido. Francisco tinha ali várias causas bondosas para escolher. Demorou um pouco, mas saiu a decisão: o Papa defendeu o Islã contra as ofensas dos chargistas franceses — uma posição candidamente desastrosa. O marqueteiro de Francisco deve ter feito o cálculo certeiro: nada mais surpreendente, exótico e progressista do que um líder católico defendendo o Islamismo. E ainda soltou a pérola: “Liberdade de expressão tem limite”.

Não, Francisco. Não tem. Seria como declarar que democracia tem limite. O que deve ser limitado — e já é, pela lei — é a expressão criminosa ou lesiva, não a liberdade. Está vendo como é dura a vida do populista? Esse negócio de ficar levantando bandeiras não é fácil, a gente acaba se atrapalhando mesmo.

Nesse aspecto, o PT é muito mais profissional. Eles não inventam. São os heróis da resistência contra a ditadura e a direita, e fim de papo. Essa tecla única já lhes rendeu 12 anos de paraíso parasitário. Depois de avançar no Banco do Brasil e compor a obra-prima do mensalão (que, incrivelmente, não os tirou do poder), depenaram a Petrobras sem perder o rebolado: a culpa é da oposição neoliberal que quer privatizar o que é nosso. Contando, ninguém acredita. Nem com legenda.

Leia mais o artigo de Guilherme Fiuza

sábado, 17 de janeiro de 2015

O melhor é duvidar sempre, mas não se surpreender com nada

Depois de três semanas de ausência, tento compor estas linhas com o firme propósito de continuar a ser sincero e, agora, com o firmíssimo propósito de não permitir que nelas transpareça, neste início de 2015, a superdose de amargura que me coube (e coube a você também, leitor), em razão, sobretudo, do que de desastroso acontece em nosso país hoje. A tarefa, sei bem, não será fácil, mas há compensação: não somos exceção no planeta, incluímo-nos na regra geral. Só que essa constatação não nos vale para nada… Reinventemo-nos, pois!

Você merece, antes de tudo, os votos (atrasados) de muita paz no Ano-Novo. Mesmo assim, e ciente de que a esperança está em franca queda livre, convido-o a integrar o grupo dos guerreiros que vivem e morrem em nome dessa miragem sempre à mão: “Sem ela, não vivemos, murchamos”, disse Lia Luft, em sua primeira crônica deste ano. A tarefa é desumana, mas a esperança nunca morre, não é mesmo?

Sugiro-lhe, porém, acondicionar, em seu novo alforje, não só durante a difícil viagem que se iniciou há poucos dias, mas “ad aeternum”, o dever do exercício diário da dúvida. Repitamos, então, à exaustão, este mantra: “Duvido de tudo, mas nada me surpreende”. Com certeza, com essa precaução, daqui pra frente, como diz a canção, tudo será diferente, embora sejamos, nesse grande circo, o triste palhaço.

Por outro lado, não insistamos, por favor, no equívoco de achar, como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé, que “crer na evolução moral do homem é ignorância ou simples vaidade”; nem alimentemos a ilusão de considerar, como dizem os santos e espiritualistas, que o homem, por ser criatura de Deus, só pode ser bom. Sejamos prudentes.

Ou será que Pondé está mesmo certo ao afirmar que, “em termos morais e políticos, podemos voltar a qualquer instante à Idade da Pedra, ou pior? Dentro de cada um de nós – conclui ele – vive um neandertal (sem querer ofender seus descendentes, claro)”.

Nossa conversa pode se prolongar até o fim deste ano ou, talvez, até o fim de mais outro, de mais outro, de mais outro… Se isso o angustia, a mim angustia muito mais. Comecemos o ano, então, com esta simples pergunta: será que a presidente Dilma se sente tão apreensiva quanto nós? Ou o poder lhe ofuscou a visão de tal sorte que já não é mais capaz de enxergar um milímetro além do seu umbigo?

Não era intento meu falar sobre nossa presidente, mas sua figura, tanto no primeiro quanto agora, no segundo mandato, ainda que vista de longe, é a mesma: desperta não só em mim, mas em milhões de brasileiros, muitas dúvidas e aflições. Como, pois, distanciar-me de um assunto do qual depende, para o bem ou para o mal, o destino de mais de 200 milhões de humanos? Você conseguiria?

A Petrobras, de cujo Conselho Dilma foi presidente (após ter sido ministra de Minas e Energia), criou empresas de papel, segundo auditoria do Tribunal de Contas da União, para construir um gasoduto na Bahia. Lula e Dilma, em 2010, inauguraram a obra às vésperas da eleição que a elegeu. Mas não é só isso: a auditoria do TCU identificou, na execução da obra, um superfaturamento de 1.800%!

Nada melhor, para definir o momento por que passa o país, do que relembrar alguns versos de um poema de Pablo Neruda, em seu “Canto Geral”: “Por fim, levaram ao Congresso a Lei suprema, a famosa, a respeitada, a intocável Lei da Trapaça. Foi aprovada”.

É disso que se trata: da política que virou trapaça.

Acílio Lara Resende

As adversativas



Não vejo equivalência possível entre uma piada, ainda que ruim, e uma bala na cabeça
Tenho uma fantasia que se manifesta como se fosse um esquete do Porta dos Fundos. Estádio lotado, jogo decisivo, minutos finais. O camisa 10 mata no peito na entrada da área. Dá um chapéu no primeiro beque. Mete por baixo das pernas do beque na cobertura. Toca no contrapé do goleiro, que cai sentado, pateticamente. Golaço.

Então, o camisa 10 parte para a comemoração. Aponta para baixo, bota a língua para fora, faz o sinal do demo com os indicadores e os mindinhos. Por fim, sacode o escudo com o pentagrama antes de ser soterrado pelos colegas. O técnico beija a cruz invertida que oculta sob o agasalho. Os reservas encapuzados brincam de ciranda em torno do mascote do time, um sujeito vestido de bode preto com olhos vermelhos.

Talvez mais alguém ache graça nisso, lembrando dos jogadores que intercalam “toda glória a Deus” a cada declaração banal. Talvez alguém ache de mau gosto. Talvez alguém queira meter uma bala na minha cabeça. Talvez ninguém estranhe nada. Afinal, quando as pessoas perguntam se acredito em Deus, e respondo que sou ateu, sinto que se dissesse “eu acredito em Satã, Senhor de Todos os Infernos” elas ficariam menos decepcionadas. Nesse caso, como a maioria, eu ao menos acreditaria num outro mundo.

Não acredito. Não vejo equivalência possível entre uma piada, ainda que ruim, e uma bala na cabeça. Se os jornalistas foram quase unânimes na condenação do atentado ao “Charlie Hebdo”, e nas implicações dele para a liberdade de expressão, base de todas as outras, inclusive a religiosa, também choveram adversativas relativistas. Sinal de que, pensando nos próprios credos, muitos estão dispostos a perdoar os terroristas.

“Atentados como os de Paris são condenáveis, mas uma coisa é a liberdade de expressão, outra é a mera provocação, e não se pode ridicularizar a fé alheia.” Esta frase é um pequeno frankenstein, que costurei a partir das coisas que li. Claro que também li observações argutas, como a de uma leitora deste jornal, chocada justo pela presença de “conjunções adversativas — mas, porém, contudo, entretanto, todavia etc. — antes de (...) ‘argumentos’ que, invariavelmente, pedem limites à liberdade de expressão.”

Pergunto-me se a turma do “mas” seria tão compreensiva se a redação de um jornal esportivo fosse massacrada por membros de uma torcida organizada furiosa com as gozações feitas ao seu time, algo simples assim, chão, terreno. Acho que não. Porque as adversativas indicam que, na cabeça dessa gente, é o discurso religioso que está a salvo de reparo, crítica ou sátira. Ele e o discurso do culto à personalidade. Porque, como escreveu George Orwell, “um Estado totalitário é na realidade uma teocracia”.

Leia mais o artigo de Arthur Dapieve 

Somos Atlas


Até tu, papa?

PODE
Francisco pisou na bola como qualquer perna de pau do San Lorenzo de Almagro. Preparou uma jogada de placa, mas deu um chutão para a galera.

Chico foi de uma santa infelicidade quando sugeriu que liberdade de expressão tivesse limites. Não foi capaz de lembrar a lição cristã de oferecer a outra face. Mas não que a ofensa, que é também uma forma de liberdade de expressão, tenha como resposta uma agressão física como o soco, ou uma AK-47.

Para agradar gregos e troianos, ou judeus e islâmicos, condenou o que seria um excesso dos chargistas ou humoristas, que deveriam ter medidas de até onde ir, respeitando a liberdade religiosa, que nada mais é o que outra liberdade de expressão.

O papa, nas entrelinhas, estaria censurando o riso, a brincadeira, a crítica, quiçá condenando o que é próprio do homem, portanto, vinda de Deus. Ou não somos imagem e semelhança como asseguram as Escrituras? Deus não sorriria de nossas brincadeiras? Ou seria um Carrancudo, com maiúscula? (Esqueceram da alegria e da brincadeira que tanto espalhou São Francisco de Assis, o menino alegre da Igreja dizendo verdades?)

Chico lembrou que tem que se respeitar a religião como se essa criação humana fosse sagrada acima mesmo da criação. Não são sagrados os vermes, as bactérias, os vírus, os animais, a natureza, o homem? São bem mais do que qualquer religião, expressões máximas de Deus, e, no entanto, não merecem o tratamento digno nem são condenadas com tanta veemência as agressões a elas.

O ataque ao Charlie Hebdo deixou mesmo muita cabeça tonta, porque a liberdade realmente tonteia. Tem que se condenar com rigor o terrorismo, a bandidagem, ainda mais feita em nome da religião, não se pode é ter a mesma medida condenatória à liberdade seja ela qual for, quando aí sim estaremos dando grande passo para satisfazer os falsos sérios, os falsos religiosos, os falsos de qualquer tipo.
NÃO PODE

Nossa dívida


Depois de tudo que logramos fazer, estamos deixando uma civilização do medo para nossos jovens, nossas crianças e aqueles que ainda não nasceram: o medo do aquecimento global e de todas as consequências de um clima enlouquecido; o medo do desemprego em uma economia capaz de usar tecnologias milagrosas que descartam trabalhadores, em vez de criar tempo livre para ser usado livremente; o medo da droga que corrói o cotidiano de cada dependente e sua família; o medo da crescente desigualdade mundial, revelada pelo fato de que as 85 pessoas mais ricas do mundo detêm patrimônio superior a US$ 1,7 trilhões (US$ 20 bilhões per capita) equivalente à riqueza da metade da população mais pobre (3,5 bilhões de pessoas, resultando em US$ 685 per capita); a desigualdade que atinge a mais imoral de suas manifestações ao desigualar a esperança de vida conforme a renda de que a pessoa dispõe para pagar por serviços médicos; uma civilização que superou as desigualdades nobiliárquicas e construiu a desigualdade no direito de viver mais ou menos conforme a renda; sobretudo o mais visível medo, o da violência urbana crescente e do terrorismo impossível de ser controlado se não barrarmos as causas que o fabricam.
Cristovam Buarque em "Nós somos Charlie, nós estamos indignados, nós temos esperança"

Nível do mar subiu mais do que se esperava

Intervenção do Greenpeace na cúpula do clima de Cancún, em 2010

Em seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore alertava que o aquecimento global provocaria uma elevação do nível do mar de mais de 6 metros num futuro próximo, sepultando cidades à beira-mar. Foi um dos exageros mais criticados do filme do Prêmio Nobel da Paz de 2007.

Na realidade, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, que compartilhou o Nobel com Gore, calcula que o nível do mar se elevou a um ritmo de 1,7 milímetro por ano durante o século XX. Durante o século XXI, estimam, o oceano subirá, em média, entre 0,22 e 0,44 metro em relação aos níveis de 1990.

Um novo estudo argumenta agora que as cifras do IPCC para o século XX também estão “superestimadas” e é necessário “revisar” as projeções para o futuro. Seus autores, da Universidade Harvard (EUA), reajustaram os modelos matemáticos com as últimas técnicas disponíveis e calculam que o nível do mar subiu apenas 1,2 milímetro ao ano entre 1901 e 1990.

O trabalho, publicado nesta quarta-feira na revista Nature, está longe de minimizar o problema. Os pesquisadores, liderados pela física Carling Hay, alertam que a aceleração da subida do nível do mar nas últimas duas décadas é maior do que se pensava, alcançando 3 milímetros ao ano entre 1993 e 2010.

O nível do mar sobe porque a água se expande à medida que se aquece e pelo derretimento do gelo terrestre. No entanto, a elevação não é uniforme, mas depende de uma multiplicidade de padrões geográficos analisados agora em detalhe pela equipe de Harvard, que também leva em conta os registros históricos das marés e os dados de satélite. Para o climatologista Jonathan Gregory, coautor dos informes do IPCC, a nova pesquisa é “um passo útil adiante”.

Carling Hay lembra que algumas projeções para o futuro “se embasam nas reconstituições do nível do mar no passado, por isso será importante ajustar esses modelos com os novos dados”.

O IPCC calcula que o nível do mar subiu 120 metros depois do último período glaciar vivido pela Terra, há uns 21.000 anos, até estabilizar-se há uns dois milênios. Depois disso, o mar ficou calmo, até que a Revolução Industrial fez dispararem as emissões de CO2, e o nível do mar voltou a subir. Um estudo recente financiado pelo Governo espanhol concluiu que o nível do oceano no litoral espanhol aumentará entre 0,6 e 0,8 metro ao longo do século XXI se nada for feito para reduzir as emissões.

Transcrito de El Pais