quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O apocalipse, segundo Donald Trump

Todos os países são ficções, mas alguns são mais fictícios do que outros. Quero dizer que todos os países são construídos a partir de uma história: pode ser uma história que a sociedade assume como sua, para além das divisões internas – liberdade, igualdade e fraternidade – ou uma história que funcionou durante séculos e depois entrou em crise repentina, como a da União Europeia. História de impérios, ou uma história que parte das nossas aspirações, mesmo que a realidade não as justifique.

Entre todas as ficções do Ocidente, a dos Estados Unidos foi talvez a mais arriscada, porque tentou construir uma identidade monolítica numa das sociedades menos monolíticas do planeta: durante décadas a História foi estudada em escolas com um livro intitulado “The American Experiment”. Clichês entram em cena: “o sonho americano”, o “caldeirão de culturas”, “a maior nação da Terra”. Todos os políticos nos Estados Unidos pronunciam estas últimas palavras sem o menor sinal de modéstia ou ironia: fazê-lo – e também, de forma implausível, acreditar nelas – é um requisito para aspirar a qualquer cargo público.

No seu discurso mais famoso, Martin Luther King ansiava por uma nação que “vivesse de acordo com o verdadeiro significado do seu credo”. O que isto significa? Isso significa que, mais do que outras daquelas construções fictícias que chamamos de países, o norte-americano está constantemente se fazendo, definindo-se como um eterno adolescente, sempre dependendo do seu próprio conceito de si mesmo. Era isso que eu pensava há alguns dias, antes do desastre eleitoral, quando Kamala Harris falou num dos seus últimos discursos sobre a diferença entre a sua proposta e a de Trump. Tendo a Casa Branca como pano de fundo, no mesmo lugar do universo a partir do qual Trump apelou a uma insurreição violenta diante dos olhos de todos, Harris disse que seu oponente passou uma década tentando dividir os cidadãos e semeando o medo entre eles. “É ele”, disse ela. “Mas esta noite, América, venho dizer: não somos assim.”

Dias depois, 73 milhões de votos – bem como uma vitória republicana no Senado e provavelmente na Câmara – disseram a Harris que talvez sejam: que isto, seja o que for, é quem eles são. E a crise de identidade dos Estados Unidos levará muitos anos, muito mais do que a presidência de Trump, para chegar a uma certa conclusão sobre o que aconteceu para que um personagem do seu calibre fosse eleito pela segunda vez, mas a verdade profunda é inevitável: Trump criou uma história baseada em ressentimento, queixa, ódio, e milhões de eleitores a aceitaram.

Apesar do que se lê nos bonés vermelhos de seus eleitores, sua ficção não era sobre o retorno da América a um passado maior, mas sobre se defender de um presente horrível: um presente distópico ao lado do qual “Blade Runner” parece uma cena da “Barbie” , um presente de horror onde hordas de estrangeiros libertados das prisões e asilos do Terceiro Mundo estão a invadir as nossas cidades, a violar as nossas mulheres, a comer nossos animais de estimação e a envenenar o sangue do nosso país, e onde o “inimigo interior” está a destruir as nossas liberdades, abortando crianças depois de nascerem e mudando de sexo à força quando vão para a escola.

Devo esclarecer: nem uma palavra que acabei de escrever é exagero ou caricatura. Estas são as palavras de Trump, ditas em público e diante das câmaras, aplaudidas veementemente pelo seu povo. E parece-me que não foi dito o suficiente sobre a grande lição que a vitória de Trump deixa aos aspirantes a autoritários em todo o mundo: não existe ficção tão extrema, nenhuma mentira tão grande, que não possa ser aceita pela sociedade. São necessários apenas dois ingredientes: por um lado, uma cidadania vulnerável, assustada, desinformada ou crédula; de outro, um líder cujos escrúpulos são inversamente proporcionais ao seu desespero.

É assim que é. Para Trump, regressar ao poder não foi uma questão de ganância, mas de sobrevivência: ser presidente era a única forma de não acabar na prisão vestido com um macacão da cor da sua maquiagem. A sua longa vida como violador de todas as regras – e de muitas das leis – estava a apanhá-lo. O eterno assediador sexual que o traficante de crianças Jeffrey Epstein considerava o seu melhor amigo, aquele que foi perseguido pelas acusações credíveis de mais de 20 mulheres, aquele que se gabou do seu assédio numa conversa privada impossível de ouvir sem nojo, já foi condenado a pagar cerca de 90 milhões de dólares por difamar um dos queixosos, e essa condenação civil abre a porta à consideração criminal dos seus vários excessos. O empresário fraudulento, que passou a vida a trapacear, que ainda não cumpriu a tradição presidencial de publicar a sua declaração de rendimentos, que se orgulhava de não pagar os impostos devidos, já foi condenado por 34 crimes e aguarda atualmente sentença. A pena, no caso de qualquer outro cidadão, seria de prisão; no caso de Trump, nunca saberemos. Porque a sentença não virá: um dos primeiros atos do seu mandato será perdoar-se. Mas ele já nos tinha anunciado que só seria ditador no primeiro dia.

Seus delitos são tantos que é difícil acompanhar: nunca na história dos Estados Unidos um presidente teve tal histórico de mau comportamento, ou comportamento antiético ou crimes comprovados, e nem pela opinião pública ou pela mídia – que em qualquer caso não é confiável, como sabemos: eles são “inimigos do povo”, são “notícias falsas” – mas pela justiça. Depois de cada um dos seus muitos escândalos, o anti-trumpismo foi rápido a declarar a sua morte política, e sempre esteve errado. O superpoder de Trump é a sua incapacidade de sentir vergonha: tal como uma morte é uma tragédia, mas um milhão de mortes é uma estatística, Trump descobriu que uma mentira pode destruir um político – ela fez isso com Nixon, quase fez isso com Clinton – mas dezenas de milhares de mentiras repetidas interminavelmente o levarão à Casa Branca. Das muitas características dolorosas da vitória de Trump, esta é talvez a mais pitoresca e ao mesmo tempo a mais perigosa: a capacidade implausível não só de mentir, mas de sustentar a mentira mesmo quando o mundo inteiro está a ver a verdade.

Donald Trump vendeu uma ficção distópica – não apocalíptica – para obter os votos daqueles que se sentem inseguros ou ameaçados há décadas por uma economia que não cuida deles, por guerras culturais, por elites globalizadas. O assustador é que agora, para governar, ele terá que manter essa ficção. Em abril do ano passado escrevi que deveria ter disparado todos os alarmes. Trump pronunciou-se perante um grupo de conservadores, incluindo alguns dos seus cúmplices mais fanáticos e até mesmo os seus correspondentes no novo mundo da extrema direita transnacional: Bolsonaro, por exemplo. “Em 2016, declarei que sou a sua voz”, disse-lhes Trump. “Hoje acrescento que sou seu guerreiro, sou sua justiça. E para aqueles que sofreram injustiças e traições, eu sou a sua vingança. Eu sou sua vingança.

O que foi anunciado começará em janeiro. Talvez tenhamos direito a um resfriado.
Juan Gabriel Vásquez

Pensamento do Dia

 


Como carências na infância afetam a renda futura

Resolver carências básicas das crianças brasileiras mais pobres, como dar óculos às que têm problemas de visão ou levar saneamento às casas onde moram, melhora não só a sua vida imediata, mas também sua renda na idade adulta e o potencial de o país como um todo se desenvolver.

Isso é o que apontam duas pesquisas divulgadas em outubro. Uma mediu qual é o impacto de não ter óculos nos anos escolares na futura vida profissional, e outra investigou a associação entre falta de saneamento e expectativa de renda.

Ambas mostram que priorizar o cuidado na infância traz benefícios individuais e coletivos no longo prazo, com custo baixo, e comprovam que deixar as crianças desatendidas prejudica seu desenvolvimento cerebral e físico e pode fadá-las a uma vida inteira de dificuldades.


Crucial, o acesso a óculos para crianças com miopia, astigmatismo ou hipermetropia é deficiente no Brasil. Há problemas para marcar consulta com oftalmologistas do Sistema Único de Saúde (SUS) em muitas cidades – e, mesmo que haja o diagnóstico, não há uma política pública nacional que ofereça óculos gratuitos às famílias mais pobres. Sem enxergar bem, as crianças não conseguem ler corretamente lousas e livros e ficam para trás no aprendizado.

Uma pesquisa da Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira (IAPB) estimou qual é o efeito de fornecer óculos a crianças com problemas de visão a partir dos 5 anos de idade. O resultado: aquelas que recebem óculos terão ao longo da vida uma renda em média 78% superior às que não receberam.

Para chegar a esse resultado, a IAPB primeiro analisou os resultados de quatro grandes ensaios clínicos realizados na China com participantes escolhidos de forma aleatória, que coletaram dados sobre o impacto no aprendizado de fornecer óculos a crianças com problemas de visão. A conclusão foi de que uma criança sem a visão corrigida aprende cerca de metade do que aprendem as demais.

Depois, o estudo calculou estimativas para diversos países, tendo em vista as condições econômicas de cada um deles. No Brasil, há cerca de 380 mil crianças de 5 a 11 anos e 410 mil adolescentes de 12 a 17 anos com problemas de visão não corrigidos, segundo o estudo global Global Burden of Disease de 2021. Se essas crianças recebessem óculos, o Brasil seria o terceiro país mais beneficiado do mundo, atrás de China e Índia.

Uma maior escolaridade geral se reflete também em crescimento econômico. No cenário de todas as crianças com os problemas de visão corrigidos, o Brasil teria um incremento anual no seu Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 21,9 bilhões, estimou a pesquisa.

Ir para a escola sem enxergar direito a lousa era um problema diário para Dhavi Pietro da Silva, de 12 anos, morador de Campina Grande, na Paraíba. Com astigmatismo e miopia, e sem condições de realizar exames e comprar óculos, a dificuldade de aprendizado se impunha.

"Minha visão começou a embaçar, e eu forçava muito a vista. Comecei a sentar mais na frente, mas mesmo assim não conseguia enxergar o quadro. Era complicado para fazer as atividades", disse ele à DW.

No ano passado, Dhavi Pietro participou de um projeto de sua cidade que coletava cartas das crianças para o Papai Noel, e uma ótica local atendeu ao pedido e doou um exame e óculos para ele. "Mudou muito, mesmo sentando em qualquer canto da sala conseguia enxergar o quadro, as notas melhoraram, minha vida melhorou", afirma.

"Queria que outras crianças pudessem ter o mesmo acesso que tive", diz. Mas ele sabe do risco de voltar a ter problemas, e diz que sua mãe tem dificuldade para agendar consulta com oftalmologista no SUS para fazer os exames periódicos.

Caio Abujamra, presidente do Instituto Suel Abujamra, que oferece atendimento oftalmológico a pessoas em situação de vulnerabilidade e é parceiro da IAPB, confirma à DW que faltam oftalmologistas do SUS em diversas áreas do país.

Mesmo quando há um profissional disponível, muitos pais não sabem da importância de levar os filhos pequenos para uma consulta. "Podem achar que a criança tem ansiedade, TDAH, quando às vezes ela só não está prestando atenção à aula porque não está conseguindo enxergar e não tem óculos", diz.

Associado a outras duas organizações, o instituto firmou uma parceria com a cidade de São Paulo para examinar as 420 mil crianças do ensino fundamental da cidade e fornecer gratuitamente óculos às que precisam – o mutirão começou em fevereiro e deve ser concluído em junho de 2025.

"Não é o olho que enxerga, é o cérebro, o olho é só uma ferramenta, mas temos que aprender a usá-lo. E temos mais aptidão para ensinar o cérebro até os 7 anos de idade, por isso é crucial fazer a triagem cedo. Tem um impacto para o resto da vida", afirma Abujamra.

Outra carência durante a infância e a adolescência que afeta a renda na vida adulta é a falta de saneamento básico. Na primeira infância, isso expõe os bebês a mais casos de diarreias e outras doenças transmitidas pela água ou pela proximidade com o lixo, impactando seu desenvolvimento físico e cognitivo. Mais tarde, surgem também os problemas de saúde bucal, que causarão novos problemas e afastamentos da escola.

Um estudo encomendado pelo Instituto Trata Brasil mediu qual é o atraso escolar associado à falta de esgoto, água tratada e banheiro, a partir de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que a cada dois anos aplica testes e questionários a estudantes da rede pública e privada. A pesquisa concluiu que, ao final do ensino médio, um jovem que mora em local sem saneamento básico terá uma defasagem escolar de 1,8 ano em relação a um jovem com acesso ao saneamento – o que, por si só, levaria a uma queda de 12,7% na sua remuneração futura.

Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continuada do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estudo também estimou que, entre dois jovens de 19 anos com o mesmo gênero, raça e área de residência, o que mora numa casa sem saneamento tem renda média mensal 33,4% inferior ao que dispõe desses serviços. A pesquisa então projetou que a falta de saneamento é associada a uma renda 46,1% menor na vida adulta.

A partir de uma estimativa matemática, a pesquisa conclui que a renda média de um jovem de 19 anos de idade sem saneamento ao longo de 35 anos de vida profissional será R$ 126 mil menor do que a de um com saneamento – valor suficiente para dar entrada num imóvel, por exemplo.

A advogada Isabela Minelli, do Instituto Alana, lembra que saneamento básico envolve, além de água tratada e coleta de esgoto, o manejo de resíduos sólidos e a drenagem pluvial – e está associado a outras carências. E cita a chamada Equação Heckman, do economista James Heckman, Nobel de Economia em 2000: "A cada dólar investido na primeira infância, sete dólares retornam para a sociedade, por exemplo com redução de gastos médicos, menor índice de evasão escolar e violência."

Um dos maiores pesquisadores brasileiros que se dedica à estudar a relação entre infância e desenvolvimento é Naercio Menezes, professor da Cátedra Ruth Cardoso do Insper e membro do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

Ele diz que a ciência vem apresentando seguidas evidências de que uma criança que vive em condições ideais na primeira infância – com estímulo familiar, renda suficiente para a compra de alimentos e roupas e um ambiente sem violência – irá se desenvolver melhor e mais rapidamente, com efeitos cumulativos ao longo da vida. Ela terá melhor educação, maior probabilidade de entrar na faculdade ou abrir um negócio, e maior produtividade e renda futura.

Menezes está conduzindo com o Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância (CPAPI) uma pesquisa de longo prazo para entender melhor como o desenvolvimento infantil afeta o aprendizado, que pretende acompanhar 2 mil crianças nascidas no segundo semestre do ano passado em Ribeirão Preto por toda a sua vida, aplicando testes periódicos sobre diversas variáveis.

"O baixo aprendizado é um dos principais problemas do Brasil. Não conseguimos melhorar a posição dos jovens, um quarto deles não estuda nem trabalha, é uma juventude com pouca esperança no mercado de trabalho e no futuro. Queremos entender como o desenvolvimento infantil está relacionado com essas questões", afirma.

Os resultados dessa pesquisa ainda vão demorar para sair, mas a orientação já é clara: "Os recursos gastos com políticas públicas na primeira infância têm um retorno muito grande para a sociedade, pois isso evita uma série de problemas no futuro."

A parolagem do capitão Derrite

Em menos de uma semana, o aparelho de segurança de São Paulo mostrou seu rosto violento e poderoso para baixo, inepto e sonolento para cima.

Aos fatos.

Na terça-feira da semana passada, o menino Ryan da Silva Andrade Santos, de 4 anos, foi baleado no Morro São Bento, em Santos. Segundo a Polícia Militar, o tiro “provavelmente” partiu de um PM. Leonel, pai de Ryan, havia sido um dos 56 mortos deixados pela Operação Verão há alguns meses.

Ryan morreu na quarta-feira. Na quinta, um pelotão de PMs fardados e armados para um combate apareceu no cemitério onde a criança era velada.

Na sexta-feira, Antônio Vinícius Lopes Gritzbach — um operador da caixa do Primeiro Comando da Capital (PCC) que vinha colaborando com o Ministério Público — foi fuzilado na área de desembarque do aeroporto de Guarulhos. Uma gravação informa que o PCC havia colocado sua cabeça a prêmio (R$ 3 milhões). Os assassinos dispararam dezenas de tiros de fuzil, ferindo duas pessoas e matando um motorista que trabalhava no aeroporto.


Nas palavras do secretário de Segurança, Guilherme Derrite, Gritzbach era um criminoso. Havia recusado a proteção oferecida pelo Ministério Público, pois contava com sua própria segurança. Ela era formada por quatro PMs. E cadê a escolta (privada) do “criminoso”? Escoltavam um automóvel parado, que, segundo eles, tinha defeito. Derrite revelou que os policiais vinham sendo investigados havia um mês. O tempo poderá esclarecer por que se precisa de mais de 48 horas para concluir que um PM trabalha na escolta de um “criminoso”.

Ao chegar ao aeroporto, Gritzbach caiu numa armadilha montada por outras pessoas. Quem não se lembra da execução de Sonny Corleone (James Caan no filme da trama emotiva de Mario Puzo)? Os assassinos são coadjuvantes. Gritzbach denunciava a hierarquia do PCC e suas conexões com policiais corruptos.

O PCC é uma das maiores organizações criminosas em atividade no país. Segundo o Ministério da Justiça, elas são pelo menos 88. É talvez a maior, com âmbito nacional e braços em atividades legítimas. Gritzbach operava no mercado imobiliário.

Os doutores discutiram se e como a Polícia Federal entraria no caso. Na segunda-feira, triunfante, o capitão Derrite anunciou que foi criada uma força-tarefa. Com a PF, para chegar aos bandidos. Maldita expressão, designa o truque pelo qual se exibe força e não se conclui a tarefa.

Como os mordomos, o PCC é o primeiro suspeito, mas há ainda o segundo e o terceiro, todos parceiros. São os incomodados pelas delações. Gritzbach havia denunciado policiais de dois departamentos e de duas delegacias. Está tudo registrado, em depoimentos e em áudios. Basta puxar os fios.

Pelo espetáculo, ao gosto das quadrilhas, o fuzilamento de Gritzbach demarcou autoridade e sinalizou o poder sobre a vida de quem pensa em falar. Para os cabeças dessas organizações, a ciranda de doutores faz parte de um teatro.

É uma polícia que mata em bairros pobres e, para que ninguém ouse reclamar, constrange velórios. Às vezes investiga ilustres conexões, mas, quando alguém fala (quase sempre, o que se sabe), elas vão lá, matam e assistem à criação de uma força-tarefa.
Elio Gaspari

Vitória significa rejeição do liberalismo clássico e inaugura nova era nos EUA e no mundo

A vitória esmagadora de Donald Trump e do Partido Republicano no último dia 5 levará a grandes mudanças em áreas importantes na política dos Estados Unidos, desde a imigração até a Ucrânia. Mas o significado da eleição vai muito além dessas questões específicas e representa uma rejeição decisiva dos eleitores americanos ao liberalismo e à maneira particular como a compreensão de uma "sociedade livre" evoluiu desde os anos 1980.

Quando Trump foi eleito pela primeira vez em 2016, era fácil acreditar que esse evento era uma aberração. Ele estava concorrendo contra uma oponente fraca que não o levava a sério e, de qualquer forma, Trump não venceu no voto popular. Quando Biden conquistou a Casa Branca quatro anos depois, parecia que as coisas tinham voltado ao normal após uma desastrosa Presidência de um mandato só.

Após a votação do dia 5, agora parece que a anomalia foi a Presidência de Biden, e que Trump está inaugurando uma nova era na política dos EUA e talvez no mundo como um todo. Os americanos votaram nele com pleno conhecimento de quem Trump era e o que ele representava. Não só ele ganhou a maioria dos votos e todos os estados-pêndulo, mas os republicanos retomaram o Senado e parecem que vão manter a maioria da Câmara dos Representantes. Dada a sua já existente dominância na Suprema Corte, eles agora estão prontos para controlar todos os Três Poderes do governo.


Mas qual é a natureza desta nova fase da história americana?

O liberalismo clássico é uma doutrina construída em torno do respeito pela dignidade dos indivíduos por meio de um Estado de Direito que protege seus direitos e de controles constitucionais sobre a capacidade do Estado de interferir nesses direitos.

Mas, ao longo do último meio século, esse impulso básico sofreu duas grandes distorções. A primeira foi a ascensão do neoliberalismo, uma doutrina econômica que canonizou os mercados e reduziu a capacidade dos governos de proteger aqueles prejudicados por mudanças econômicas. O mundo ficou muito mais rico ao todo, enquanto a classe trabalhadora perdeu empregos e oportunidades. O poder se deslocou dos lugares onde nasceu a Revolução Industrial para a Ásia e outras partes do mundo em desenvolvimento.

A segunda distorção foi a ascensão do identitarismo ou do que se poderia chamar de liberalismo "woke" (forma como é chamado o discurso de pautas identitárias nos EUA), em que a preocupação progressista com a classe trabalhadora foi substituída por proteções direcionadas para um conjunto mais restrito de grupos marginalizados: minorias raciais, imigrantes, minorias sexuais e afins. O poder do Estado foi cada vez mais usado não a serviço da justiça imparcial, mas sim para promover resultados sociais específicos para esses grupos.

Enquanto isso, os mercados de trabalho estavam mudando para uma economia da informação. Em um mundo em que a maioria dos trabalhadores se senta em frente a uma tela de computador em vez de levantar objetos pesados do chão da fábrica, as mulheres têm uma posição mais igualitária. Isso transformou o poder dentro das famílias e levou à percepção de uma celebração aparentemente constante das conquistas femininas.

A ascensão desses entendimentos distorcidos a respeito do que é o liberalismo impulsionou uma grande mudança na base social do poder político. A classe trabalhadora sentiu que os partidos políticos de esquerda não estavam mais defendendo seus interesses e começou a votar em partidos de direita.

Assim, o Partido Democrata perdeu o contato com sua base da classe trabalhadora e se tornou um partido dominado por profissionais urbanos escolarizados. Os trabalhadores escolheram votar nos republicanos. Na Europa, eleitores do partido comunista na França e na Itália desertaram para Marine Le Pen e Giorgia Meloni.

Todos esses grupos estavam insatisfeitos com um sistema de livre comércio que eliminou seus meios de subsistência, ao mesmo tempo em que criou uma nova classe de super-ricos, e também estavam insatisfeitos com partidos progressistas que aparentemente se importavam mais com estrangeiros e o meio ambiente do que com sua própria condição econômica.

Essas grandes mudanças sociológicas foram refletidas nos padrões de votação na terça-feira. A vitória republicana foi construída em torno de eleitores brancos da classe trabalhadora, mas Trump conseguiu atrair significativamente mais eleitores negros e hispânicos em comparação com a eleição de 2020. Isso foi especialmente verdadeiro para os homens dentro desses grupos. Para eles, a classe importava mais do que raça ou etnia. Não há razão particular para que um latino da classe trabalhadora, por exemplo, deva se sentir particularmente atraído por um liberalismo woke que favorece imigrantes recentes e se concentra em avançar os interesses das mulheres.

Também está claro que a grande maioria dos eleitores da classe trabalhadora simplesmente não se importava com a ameaça à ordem liberal, tanto doméstica quanto internacional, representada por Trump.

Donald Trump não quer apenas reverter o neoliberalismo e o liberalismo woke, mas é uma grande ameaça ao próprio liberalismo clássico. Essa ameaça é visível em várias questões políticas; uma nova Presidência de Trump não se parecerá em nada com seu primeiro mandato. A verdadeira questão neste ponto não é se suas intenções são malignas, mas sim sua capacidade de verdadeiramente cumprir o que ameaça.

Muitos eleitores simplesmente não levam sua retórica a sério, enquanto republicanos tradicionais argumentam que os freios e contrapesos do sistema americano o impedirão de fazer o pior. Isso é um erro: devemos levar suas intenções declaradas muito a sério.

Trump é um protecionista autoproclamado, que diz que tarifa é a palavra mais bonita da língua inglesa. Ele propôs tarifas de 10% ou 20% contra todos os bens produzidos no exterior, por nações amigas ou inimigas, e não precisa do aval do Congresso para fazê-lo.

Como um grande número de economistas apontou, esse nível de protecionismo terá efeitos extremamente negativos sobre a inflação, produtividade e emprego. Será extremamente prejudicial para as cadeias de suprimentos, o que levará os produtores domésticos a solicitar isenções. Isso então proporciona a oportunidade para altos níveis de corrupção e favoritismo, à medida que as empresas correm para agradar o presidente.

Tarifas nesse nível também convidam a retaliações igualmente massivas por outros países, criando uma situação em que o comércio (e, portanto, a renda) colapsa. Talvez Trump recue diante disso; ele também pode responder como a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, corrompendo a agência estatística que reporta as más notícias econômicas.

Com relação à imigração, Trump não quer mais simplesmente fechar a fronteira; ele quer deportar o máximo possível dos 11 milhões de imigrantes em situação irregular já no país. Essa é uma tarefa administrativa tão grande que exigirá anos de investimento na infraestrutura necessária para realizá-la — centros de detenção, agentes de controle de imigração, tribunais e assim por diante.

Terá efeitos devastadores em vários setores que dependem da mão de obra imigrante, particularmente construção civil e agricultura. Também será enormemente desafiador em termos morais, à medida que pais são separados de seus filhos americanos, e criaria o cenário para um conflito civil, já que muitos dos imigrantes vivem em jurisdições democratas que farão o que puderem para impedir que Trump consiga o que quer.

Com relação ao Estado de Direito, Trump se concentrou, durante a campanha, em buscar vingança pelas injustiças que acredita ter sofrido nas mãos de seus adversários. Ele prometeu usar o sistema de justiça para perseguir de Liz Cheney e Joe Biden ao ex-presidente do Estado-Maior Mark Milley e Barack Obama. Ele quer silenciar críticos da mídia retirando suas concessões ou impondo penalidades.

Se Trump terá o poder de fazer qualquer uma dessas coisas é incerto: o sistema judicial foi uma das barreiras mais resilientes aos seus excessos durante o primeiro mandato. Mas os republicanos têm trabalhado consistentemente para inserir juízes trumpistas no sistema, como a juíza Aileen Cannon na Flórida, que rejeitou o forte caso dos documentos confidenciais contra Trump.

Algumas das mudanças mais importantes virão na política externa e na natureza da ordem internacional. A Ucrânia é de longe a maior perdedora; sua luta militar contra a Rússia estava enfraquecendo mesmo antes da eleição, e Trump pode forçá-la a se render nos termos da Rússia ao reter armas, como a Câmara Republicana fez por seis meses no inverno passado.

Trump ameaçou reservadamente sair da Otan, mas mesmo que não o faça, ele pode enfraquecer gravemente a aliança ao não cumprir sua garantia de defesa mútua do Artigo 5. Não há líderes europeus que possam substituir os Estados Unidos como líder da aliança, então sua futura capacidade de enfrentar a Rússia e a China está em grave perigo. Pelo contrário, a vitória de Trump inspirará outros populistas europeus, como a Alternativa para a Alemanha e a Reunião Nacional na França.

Aliados e amigos dos EUA no Leste Asiático não estão em posição melhor. Embora Trump tenha falado duramente sobre a China, ele também admira muito Xi Jinping por suas características autocráticas e pode estar disposto a fazer um acordo com ele sobre Taiwan. Trump parece avesso por natureza ao uso do poder militar e é facilmente manipulado, mas uma exceção pode ser o Oriente Médio, onde ele provavelmente apoiará completamente as guerras de Benjamin Netanyahu contra o Hamas, o Hezbollah e o Irã.

Há fortes razões para pensar que Trump será muito mais eficaz em cumprir essa agenda do que foi durante seu primeiro mandato. Ele e os republicanos reconheceram que a implementação de políticas depende da equipe. Quando foi eleito pela primeira vez em 2016, ele não entrou no cargo cercado por um grupo de assessores leais; em vez disso, teve que contar com republicanos do establishment.

Em muitos casos, eles bloquearam ou retardaram suas ordens. No final de seu mandato, ele emitiu uma ordem executiva que retiraria todas as proteções de estabilidade dos servidores federais e permitiria que ele demitisse qualquer burocrata que quisesse. Um renascimento dessa medida está no cerne dos planos para um segundo mandato de Trump, e os conservadores têm estado ocupados compilando listas de potenciais funcionários cuja principal qualificação é a lealdade pessoal a Trump. É por isso que ele tem mais chances de executar seus planos desta vez.

Antes da eleição, críticos, incluindo Kamala Harris, acusaram Trump de ser um fascista. Isso foi equivocado na medida em que ele não estava prestes a implementar um regime totalitário nos EUA. Em vez disso, haveria uma decadência gradual das instituições liberais, assim como ocorreu na Hungria após o retorno de Viktor Orbán ao poder em 2010.

Essa decadência já começou, e Trump causou danos substanciais. Ele aprofundou uma polarização já significativa e transformou os EUA de uma sociedade de alta confiança para uma de baixa confiança; ele demonizou o governo e enfraqueceu a crença de que ele representa os interesses coletivos dos americanos; ele tornou o discurso político mais grosseiro e deu permissão para expressões abertas de intolerância e misoginia; e ele convenceu a maioria dos republicanos de que seu antecessor foi um presidente ilegítimo que fraudou a eleição de 2020.

A amplitude da vitória republicana, estendendo-se da Presidência ao Senado e provavelmente à Câmara dos Representantes também, será interpretada como um forte mandato político confirmando essas ideias e permitindo que Trump aja como quiser. Só podemos esperar que algumas das barreiras institucionais restantes sigam de pé. Mas pode ser que as coisas tenham de piorar muito antes de melhorarem.

A 'Folha' deve uma explicação aos seus leitores sobre Bolsonaro

Espaço de opinião é para colaboradores fixos e avulsos de um veículo de comunicação, e para o próprio veículo se expressar por meio de editoriais. Os editoriais são a voz do dono, não dos jornalistas; os artigos, a voz dos seus autores, jornalistas ou não.

Com menos frequência, o espaço de opinião também é usado por convidados especiais do dono do veículo ou dos que comandam sua redação, levando-se em conta a importância dos convidados e o que eles têm a dizer de relevante e oportuno naquele momento.

A Folha de São Paulo julgou relevante e oportuno convidar o ex- presidente Jair Bolsonaro para que escrevesse um artigo, e o publicou no último dia 10, às 20h, em sua edição digital, reproduzindo-o no dia seguinte em sua edição impressa.


Não foi um ato isolado. A ombudsman da Folha notou que, ultimamente, o jornal tem aberto generoso espaço para destacar ações de Bolsonaro e dos seus aliados. Se isso significa uma conversão ao bolsonarismo, não sei, mas a Folha tem esse direito.

Sob o título que soa irônico “Aceitem a democracia”, e o subtítulo “O povo tem escolhido a ordem, o progresso, a liberdade econômica e de expressão e o respeito às famílias e à religião”, o artigo exalta o avanço da direita no mundo e desanca a esquerda.

Alguns trechos:

“Nada consegue conter a onda conservadora. Nem a censura, nem os cancelamentos, nem o boicote econômico, nem as perseguições policiais, nem as longas, arbitrárias e injustas prisões.”

“A resistência e a resiliência da direita têm uma razão muito simples: nossas bandeiras, mesmo sob ataque do grosso dos veículos de comunicação e de seus jornalistas, expressam os sentimentos e anseios mais profundos da maioria da sociedade.”

“A moda é nos acusar de inimigos da democracia. Mas quem mostra dificuldade de aceitar a democracia é a esquerda quando a maioria do povo decide por caminhos diferentes do que ela gostaria. Basta olhar a reação da esquerda às suas derrotas.”

“Cada um que faça suas escolhas. Nós, da direita, tão injustamente acusados de “extremismo”, continuaremos perseverando no caminho que sempre defendemos, o da liberdade e da democracia, entendida como o governo do povo.”

A polêmica desatada pela publicação do artigo tem a ver com duas coisas: deve-se dar voz a um golpista, filhote da ditadura que a seu juízo torturou e matou menos gente do que deveria, e logo para que ele defenda hipocritamente a democracia que já tentou derrubar?

A normalização de um líder autoritário só faz mal à democracia

Bolsonaro está inelegível, condenado por abuso de poder político e econômico nas comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil. Há fartas provas de que na iminência da derrota em 2022, ele tramou dar um golpe, e não foi a única vez que tramou.

O artigo de Bolsonaro é um exercício de pura enganação, embora ele tenha o direito de enganar a rodo. A Constituição não proíbe a mentira e assegura a liberdade de expressão por mais deletéria que ela possa ser. Nas democracias é assim, daí sua vulnerabilidade.

A segunda coisa que tem a ver com a publicação do artigo é esta: os leitores da Folha esperavam que ela refletisse sobre o conteúdo da peça escrita por Bolsonaro, seja para a criticar ou corroborar. É o que a Folha costuma fazer com assuntos de grande repercussão.

Por que o jornal desta vez preferiu calar? Por que não demoliu um por um os argumentos de Bolsonaro sem lastro na realidade? A normalização de líderes autoritários serve ao propósito dos que se beneficiam da democracia com a intenção de miná-la por dentro.

A Folha deve uma explicação aos seus leitores. Não basta abrir espaço para que a critiquem, nem acionar repórteres para que confrontem Bolsonaro com ele mesmo. Se o jornal está aos poucos se reposicionando, que o faça com transparência.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Armadilhas da história

Pobre Francis Fukuyama. Ele escreveu que a democracia liberal era a última e definitiva forma de organização política. Fim da História. Pobres de nós. Pensamos que os regimes autoritários precisavam transitar para a democracia para garantir prosperidade às pessoas. O mundo deu uma volta. As democracias têm dificuldade de crescimento sustentável. Não agradam como antes. Os regimes autoritários adotam os métodos capitalistas e conseguem decolar.

Em 1995, apenas 4% das pessoas com renda de US$ 20 mil ao ano viviam em países de regime autoritário. Eram 35 milhões. Hoje, mais de 350 milhões ganham isso, na Rússia, no Cazaquistão e em países do Golfo Pérsico. Incluindo províncias costeiras da China, o número sobe a 800 milhões. A liberdade de expressão, direitos políticos, tudo isso foi trocado por bem-estar e um certo orgulho nacional.

Trump admira alguns desses regimes autoritários, líderes fortes. Se avançar sem resistência sobre a democracia liberal americana, o planeta muda de figura definitivamente.

Assegurar o regime democrático em nosso continente é uma acrobacia: apoiar a esquerda quando surge o perigo pela direita, como no Brasil; apoiar a direita quando o perigo vem da esquerda, como na Venezuela.


A grande questão que se coloca é a sobrevivência da liberdade num contexto político em que a democracia perde prestígio e cresce a sedução autoritária. O que fazer? Claro que temos muito a discutir, superar divergências. Pouco adiantará nossa discussão se não buscarmos as pessoas, inclusive aquelas mais distantes na periferia. Vivemos numa sociedade de riscos, e os pobres são os principais atingidos pelos eventos extremos. É preciso organizar sua autodefesa, conhecer suas demandas.

Os políticos profissionais parecem não se dar conta da possibilidade de o povo se voltar contra a democracia. Em 2013, houve uma revolta por serviços do Estado. Mesmo agora, é impossível oferecer serviços eficazes se não houver grande esforço, que passa pela redução dos custos do aparato burocrático militar, supressão de supersalários e adaptação às condições reais do país. Os projetos sociais precisam ser modernizados, como na Índia, onde a adoção de um número pessoal suprimiu todo o desperdício, sem prejuízo dos benefícios.

Será preciso ser mais realista na luta identitária. Ela não é instrumento principal, sobretudo em eleições majoritárias. O rígido politicamente correto e os cancelamentos só atrapalham.

O próprio sistema jurídico poderia contribuir para amenizar a polarização. Os vencedores do momento precisam mostrar mais generosidade. Manter presa a mulher que escreveu com batom numa estátua, condenar a 17 anos de prisão uma idosa que fez cocô no STF, tudo isso merece ser revisto. A ideia é que participavam de um plano golpista, abriam caminho aos militares e aos políticos. Os militares não apareceram, os políticos ficaram em seus gabinetes; estamos punindo pesadamente um corpo sem cabeça.

Sei que, assim argumentando, me exponho às acusações de sempre: estar a serviço da direita. Não tenho medo de ser condenado à lata de lixo da História, sempre saio dela reciclado. Vejo o momento como muito grave, um túnel escuro em que os democratas precisam se unir.
Quando começa um período mais difícil, sempre penso nesta frase:

— Coragem, o Reino dos Céus está próximo.

Ouvi de integrantes do Exército da Salvação em Estocolmo. É apenas uma licença poética. Não acredito em reino dos céus. Mas gosto do som da frase.

Importante traçar um rumo desde agora: não sectário, fixado no essencial. Quanto menos estresse, menos conflito inútil, maior a possibilidade de pensar uma saída em tempos sombrios e um dia, quem sabe, a gente poderá rir um pouco de todo esse sufoco.

Os horrores de uma guerra que Israel tenta esconder do mundo

Ou as Forças de Defesa de Israel têm má pontaria ou para elas pouco importa matar deliberadamente civis inocentes, de preferência mulheres e crianças, desde que aqui e acolá matem vez por outra combatentes armados ou desarmados do grupo Hamas.

Se você dispara um míssil contra um prédio ou um conjunto deles, seja durante o dia, mas principalmente à noite, é impossível desconhecer que o míssil não distinguirá entre homens armados ou desarmados, mulheres e crianças que ali habitam.

Você poderá chamar de “danos colaterais” a morte de inocentes. Eu chamo de assassinato em massa, genocídio, holocausto como o que dizimou milhões de judeus, ciganos e outras minorias na Alemanha de Hitler à época da Segunda Guerra Mundial.


Durante séculos, a palavra “holocausto” foi usada para designar grandes massacres. Desde os anos 1960, porém, o termo passou a ser usado por estudiosos e escritores para se referir especificamente ao genocídio nazista contra o povo judeu.

Quase 70% dos mortos na Faixa de Gaza nos primeiros seis meses da guerra eram mulheres e crianças, de acordo com o mais recente relatório da ONU. Em números: das 8.119 mortes investigadas, 3.588 foram de crianças e 2.036 de mulheres.

A vítima mais jovem era um menino de um dia de vida, e a mais velha uma mulher de 97 anos. O conflito se arrasta há 13 meses. Segundo as autoridades de saúde palestinas, nesse período o número total de mortos já ultrapassou a casa dos 43 mil.

O relatório diz que os números indicam “uma violação sistemática dos princípios fundamentais do direito internacional humanitário”. A esmagadora maioria das mortes ocorreu em prédios residenciais ou habitações similares.

Crianças de cinco a nove anos representam a maior faixa etária atingida, seguidas por aquelas de 10 a 14 anos e, por fim, as de até quatro anos. Em 88% dos casos verificados, cinco ou mais pessoas foram mortas no mesmo ataque por armas de uso israelense.

Os funcionários da ONU encontraram 484 famílias que perderam entre cinco e mais de 30 membros. A família Al Najjar perdeu 138 dos seus membros, entre os quais 35 mulheres e 62 crianças; a família Al Astal perdeu 94, sendo 33 mulheres e 45 crianças.

O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, comenta: “Esse nível sem precedentes de mortes e ferimentos de civis é uma consequência direta da falha em cumprir os princípios fundamentais do direito humanitário internacional”.

Quase 2 milhões de pessoas, 80% dos que ainda vivem na Faixa de Gaza, passaram por deslocamentos ordenados por Israel. Os palestinos estão limitados a 20% da área que antes ocupavam. É dramática a escassez de água, luz, comida e remédios.

É uma guerra cujos horrores Israel tenta esconder do mundo, uma vez que a imprensa é proibida de acompanhá-la no local. Pelo menos 129 jornalistas e profissionais da mídia palestinos foram mortos, informa o Committee to Protect Journalists (CPJ).

Este foi o ano mais mortal para jornalistas desde que o CPJ começou a registrar os números em 1992. Nas primeiras 10 semanas da guerra, mais jornalistas foram mortos na Faixa de Gaza do que em qualquer país ao longo de um ano inteiro.

domingo, 10 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


O caminho para sair do medo

Este ano, muitas das mensagens de aniversário chegaram com desabafos de desalento. “Coragem! Este mundo está do avesso”, escrevia uma amiga. “Estou preocupado com o mundo”, acrescentava um amigo. E sempre esta ideia de que o que está à frente é pior, mesmo que o que se deseje seja celebrar esse ano que aí vem. Talvez esteja a ficar velha, pensei. Os velhos sempre acreditaram que o fim do mundo está próximo. E está. A cada morte há um mundo que se acaba. E talvez a proximidade desse final nos faça acreditar que tudo se deslassa e desaba, talvez para que nos custe menos a partida de um lugar que já não é bom.

Sim, estou a ficar velha. Mas o mundo também. O mundo envelhece quando perde a esperança. Deixar de sonhar é o primeiro sinal de degenerescência, de desistência e, enfim, de falência.

Como continuar se não acreditamos que o que aí vem é melhor? E não me refiro ao punhado de amigos que envelhece comigo, mas a esta ideia que se foi instalando no âmago de todos de que não há alternativas. A ideia de que a utopia deixou de ser o lugar com que se sonha para se esfumar num riso de escárnio descrente. A ideia de que tudo o que está mal não tem remédio e de que não há nada que possamos fazer para o mudar.

A desistência é a pior de todas as derrotas. O desânimo é o pior de todos os venenos. Deixa-nos a apodrecer lentamente. Faz com que todas as coisas se equivalham. Não há bem nem há mal. Há um encolher de ombros perpétuo e desalentado.

E é no meio disso que melhor nasce a raiva. A raiva é o que sobra quando acreditamos que não há um movimento que nos leve para um lugar melhor. A raiva faz-nos esbracejar. E esbracejar parece ser o único movimento que nos resta. Por isso, esbracejamos. Enraivecemo-nos.

Mas a raiva precisa de combustível. Para a manter acesa é preciso o ódio. É preciso encontrar inimigos. Não temos para onde ir, mas encontramos um objetivo neste ódio que alimenta a raiva e nos dá a ilusão de estarmos a fazer alguma coisa, quando nada mais parece possível.

A nossa raiva parece-nos justificada. Mas e a dos outros? A dos outros causa-nos medo. Porque sabemos que também nós seremos um dia incinerados nessa pira de raiva e ódio. Mesmo quando fingimos achar que estamos a salvo, tememos secretamente esta raiva que nos rodeia. Sabemos que é cega e tem fome de vítimas.

É por o sabermos que tememos o mundo. Vemos ao longe, como uma vaga que se agiganta, essa tempestade que sabemos que virá para nos engolir.

Chegou-me por estes dias, por mensagem, uma frase atribuída a Hannah Arendt. “Vivemos tempos sombrios. As piores pessoas perderam o medo e as melhores a esperança”. E é nesta mensagem, aparentemente desalentada, que podemos encontrar essa esperança que se diz perdida.

É que Arendt viu o horror e sobreviveu-lhe. Os que, como eu, nasceram muito depois pisaram esse chão aberto e limpo de promessa e liberdade, construído sobre os escombros da derrota do que há de pior na Humanidade.

E é por aí que temos de ir, sabendo que a cada onda de medo e opressão que se aproxima, cabe-nos dar o peito e mostrar o caminho, porque ele existe, mas apenas se acreditarmos nele. Quando o começarmos a imaginar, ele começará a aparecer. E, então, estas frases de desalento parecerão apenas a memória de umas trevas que já deixámos (outra vez) para trás.
Margarida Davim

Investir na democracia

Golpistas brasileiros festejaram a vitória de Donald Trump na eleição americana, como se isso fosse um sinal para a anistia a quem depredou Brasília e tentou derrubar o governo em 8 de janeiro de 2023. Anistia se aplica geralmente a crimes comuns e, em situações muito especiais, a crimes políticos, quando se restabelece a democracia e se busca a reconciliação. Convém cuidar do assunto com muita prudência. A democracia sobreviveu ao golpismo, as sedes dos Poderes foram restauradas e a rotina institucional foi mantida, como se comprovou nas eleições deste ano. Mas a extrema direita pouco ou nada mudou. Continua a desfrutar dos direitos e liberdades comuns, como fazem os extremistas em todas as democracias, e a esperar novas oportunidades para destruir a ordem constitucional.

Não basta, no entanto, reprimir o golpismo e defender legalmente, no dia a dia, as liberdades básicas. Pesquisas têm apontado, entre os cidadãos, preferência majoritária pelos valores democráticos, mas políticos eleitos nem sempre se mostram alinhados a essa preferência. É preciso fazer muito mais para consolidar, em todos os grupos, o compromisso com as normas fundamentais da democracia.


Esse esforço é especialmente relevante num país de enormes desigualdades econômicas e culturais, onde o conservadorismo se confunde, frequentemente, com a aceitação do autoritarismo. A mistura de religião e política, hoje mais visível do que em outras épocas do Brasil independente, torna o cenário especialmente complicado.

A extrema direita tem explorado essa mistura com empenho e com aparente sucesso. Passados 135 anos da implantação da República, ainda é necessário – e talvez mais do que em outros tempos – lembrar e reafirmar com vigor o caráter laico do Estado nacional. Esse caráter já foi respeitado, de fato, no período do Império, embora dom Pedro I tenha apresentado a Constituição de 1824 “por graça de Deus” e “em nome da Santíssima Trindade”.

Embora possa parecer estranho, o presidente da República ainda precisa, em 2024, reafirmar o Estado nacional como entidade responsável pela segurança, pelos direitos básicos e pela igualdade de todos os brasileiros, consagrados como indivíduos livres, com direitos intocáveis de cidadania e como sujeitos de uma ordem democrática.

Mas esse empenho produzirá resultados insuficientes, se faltar a esses indivíduos, ou a uma grande parte deles, a crença nessa ordem como condição essencial à sua dignidade e às suas possibilidades de bem-estar e de sucesso. Cuidar da integração de todos os grupos, incluídos os mais carentes, é, portanto, mais que uma tarefa vinculada a uma bandeira partidária. É um trabalho necessário à consolidação de uma sociedade capaz de operar de forma livremente colaborativa, apesar das diferenças entre os componentes do conjunto.

Não basta, portanto, promover o crescimento econômico, se for muito desigual o acesso ao bem-estar e a melhores condições de vida. O Brasil já viveu esse tipo de crescimento – ou de desenvolvimento, mesmo, dadas as grandes transformações nas condições de produção. A integração social nesse processo foi em geral limitada, com acesso restrito aos benefícios propiciados pelas mudanças.

Durante a grande expansão econômica iniciada na segunda metade dos anos 1960, apenas uma parcela da mão de obra teve acesso às ocupações de tecnologia mais moderna e remuneração mais elevada. A desigualdade acentuou-se, portanto, também no interior da classe trabalhadora, fato já reconhecido por analistas nos anos 1970. Embora o investimento em educação tenha aumentado nesse período, as oportunidades de formação permaneceram concentradas, assim como os benefícios econômicos da modernização profissional.

Nas décadas seguintes, Estado e setor privado continuaram fazendo muito menos que o necessário para distribuir mais amplamente as possibilidades de ascensão econômica ligadas à educação e ao treinamento. Embora reconhecida a importância econômica da escola, a política educacional nunca foi suficientemente integrada aos programas de expansão e transformação do sistema produtivo. Falou-se muito no exemplo coreano de articulação das políticas de crescimento e de educação, mas com limitados efeitos práticos. Excetuada a formação universitária, acessível a poucos e nem sempre de alta qualidade, a educação profissional continuou a depender principalmente do ensino privado e do treinamento empresarial.

Não há como cuidar com eficácia dos objetivos de integração social, de elevação das condições de vida e de valorização da ordem democrática sem combinar as políticas de crescimento econômico, de apoio aos grupos mais vulneráveis e de ambiciosa difusão das oportunidades educacionais. Não basta, obviamente, destinar grandes volumes de recursos aos chamados programas sociais. A ajuda emergencial pode ser indispensável, mas só se alcançarão resultados amplos, duradouros e relevantes para a democracia com amplo investimento na capacidade produtiva de todos os cidadãos – sempre com valorização das liberdades básicas.

Uma foto. Pelo menos uma foto com Trump, implora Bolsonaro

Uma coincidência infeliz para o pior presidente da história do Brasil desde o fim da ditadura militar de 64, quiçá mais para trás.

Bolsonaro anunciou que pedirá à justiça a liberação do seu passaporte para ir à festa de posse de Donald Trump, em janeiro.

Nas próximas semanas, Paulo Gonet, o Procurador-Geral da República, denunciará Bolsonaro por um ou mais crimes. A saber:

* tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito;

* roubo de joias presenteadas ao Brasil por governos estrangeiros;

* e falsificação de certificados de vacina contra a Covid-19.

É certo que Bolsonaro será denunciado por tentativa de golpe. A Polícia Federal o indiciou pelos outros dois crimes.

O passaporte de Bolsonaro foi apreendido por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Logo, a liberação dependerá de Moraes, que continua sendo atacado pelos filhos e aliados mais próximos de Bolsonaro.

Quem garante que Bolsonaro não pedirá asilo aos Estados Unidos caso Moraes permita que ele viaje ao encontro de Trump?

É Bolsonaro que garante que não pedirá. Mas desde quando, por tudo que já fez e disse, a palavra de Bolsonaro merece confiança?

No mais, como soaria aqui uma decisão de Moraes favorável a Bolsonaro depois de ele ter sido denunciado por Gonet?

Não faria sentido. E se Bolsonaro não voltasse, pareceria que tudo não passou de um acordão para que ele escapasse de ser preso.

Nenhum mandatário, nem ex, é convidado para a posse de um presidente dos Estados Unidos, uma cerimônia doméstica.

Eduardo Bolsonaro, o Zero Três, foi admitido na residência de Trump na Califórnia para acompanhar a apuração dos votos.

Não satisfeito, Eduardo cometeu a molecagem de infiltrar na residência um ex-ministro do seu pai e um parente.

Postou nas redes sociais uma foto dele, Eduardo, na companhia de Donald Trump Jr. E foi tudo o que conseguiu, saindo satisfeito.

Bolsonaro acha que poderia conseguir muito mais, talvez um aceno de Trump, pai, ou – quem sabe? – até uma foto ao seu lado.

Trump pode não ter gostado do apoio dado por Lula à candidatura de Kamala Harris, mas daí a ir além disso…

Daí a pressionar a justiça brasileira para que não condene Bolsonaro vai uma longa distância. Trump tem mais o que fazer.

A raiva triunfa nos EUA

Ao contrário do lamento e da amargura, o sentimento de raiva dá ao ser humano a sensação de ter algum poder, algum comando sobre a vida que julga estar desgraçada, desolada e esquecida no mundo. A raiva derrota o medo, diminui a solidão, compensa a desilusão com o alardeado progresso humano. A raiva, sobretudo, faz votar. E Donald Trump elegeu-se 47º presidente dos Estados Unidos em grande parte por apostar na raiva social, cultural e econômica das dezenas de milhões de cidadãos americanos que, na semana passada, o catapultaram de volta à Casa Branca.

Foi um triunfo brutal, acachapante, com ganhos em todos os cantos do país e junto a quase todos os grupos demográficos. Levou de arrasto a almejada maioria no Senado e deverá manter a maioria na Câmara. Além da indispensável vitória no Colégio Eleitoral, Trump também deverá conquistar o prêmio dos prêmios, aquele que nem sequer sua megalomania considerava atingível: a cobiçada maioria no voto popular. Chamados a escolher entre a candidatura da primeira mulher negra em 248 anos de História americana e um ex-presidente fascistoide que fugiu da Casa Branca pela porta dos fundos em 2021, o povo preferiu Trump. E pela segunda vez. De forma consciente, irretorquível e ostentatória.


Da primeira, em 2016, a liderança democrata se socorreu em explicações e racionalizações rasas — a bagagem política e a personalidade de Hillary Clinton haviam pesado demais, enquanto seu topetudo adversário republicano acenara com promessas meteóricas e uma realidade alternativa. O surgimento de Trump era uma aberração episódica, uma aposta no desconhecido de um eleitorado irresponsável, à Brexit.

Desta vez não houve voo cego. O eleitor conhecia todas as obsessões, crimes, desvarios, improvisações, malignidades e infidelidades morais ou sexuais do candidato. Ainda assim, optou por entregar o país ao magnata condenado num processo criminal, indiciado noutros três, com seis declarações de falência no currículo e dois impeachments durante o primeiro mandato. A exposição máxima da vulgaridade de Trump, de sua irresponsabilidade misturada a nacionalismo xenófobo, misoginia e mendacidade não afugentou o eleitor. Ao contrário, foram recebidos como manifestação de franqueza crua. A grande maioria dos eleitores de Trump se sentiu ouvida e representada no revanchismo escancarado do candidato.

Trump conseguiu afastar a política americana dos partidos, trocou o processo pela performance e fundiu tudo num só movimento popular. Sua adversária, Kamala Harris, não teve chance. Elencada de última hora para substituir um octogenário Joe Biden agarrado ao poder, teve apenas 107dias para desviar o país da rota trumpista. Foi triturada pelo adágio da era Nixon lembrado na autópsia do day after:

— Um vigarista sempre derrota um incauto.

Foi Trump quem conseguiu arregimentar uma improvável coalizão de diferentes que vão da área rural aos excluídos sociais.

— Os americanos não querem ser governados por gente que se formou em Columbia ou Yale. Todo mundo “das quebradas” está com Trump porque ele é o melhor gângster que vimos até hoje — diz Patrick Bet-David, popularíssimo podcaster e empresário de mídia digital com Q.G. na Flórida.

Em festas patrocinadas por ele, circulam rappers, ex-mafiosos, competidores de UFC, youtubers — recorte perfeito da nova classe política emergente do trumpismo.

Trump deve a vitória à frustração da maioria com o sistema, as instituições, a falsa meritocracia — o mesmo sistema e instituições que ele deverá comandar a partir de janeiro. Governará dentro ou à margem das normas democráticas? Na semana passada, em entrevista à Foreign Affairs, o historiador Stephen Kotkin, autor de uma biografia de Stálin em três volumes, repetiu o que diz há anos — Trump é tão americano como torta de maçã:

— Talento para o espetáculo, espírito de bucaneiro, instinto para o tudo ou nada são alguns dos traços que fizeram os Estados Unidos. Trump não é um alienígena que pousou de algum outro planeta. Não é alguém implantado no poder pelos serviços de operações da Rússia. É alguém que espelha algo profundo e duradouro da cultura americana. Basta ver as palavras que ele habita e o projetam: luta livre profissional, reality show, cassinos e jogos de azar, cultura das celebridades, redes sociais.

Kotkin não acredita que a retórica francamente antidemocrática do ex e futuro presidente desembocará em fascismo:

— Não há dúvida de que Trump tem inúmeros desejos. Também não há dúvida de que ele gostaria de exercer o mesmo tipo de controle sobre o sistema político de que dispõem Xi Jinping na China ou Putin na Rússia. Ele até já disse isso. Mas é preciso considerar o sistema como um todo, o conjunto das instituições, não apenas as fantasias de uma só pessoa.

Acontece que já são duas as pessoas com fantasias assustadoras e convergentes — os dois homens mais poderosos do mundo. Um foi eleito, o outro não. Juntos, Donald Trump e Elon Musk podem querer brincar de donos do Universo.

sábado, 9 de novembro de 2024

Faltam escolhas sábias


A participação pública não é a única coisa a se considerar, a gente também quer que as pessoas façam escolhas sábias quando votam. Acho que elas estão votando por causa de questões de curto prazo, como a inflação, sem atentar para outras, de longo prazo, muito mais importantes, como a sobrevivência do Estado de direito nos EUA.
Francis Fukuyama, autor de "O fim da história e o último homem"

Civilização Ocidental

Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho
Escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.

Agostinho Neto

O homem certo

Hoje, numa época em que se misturam todos os discursos, em que profetas e charlatães usam as mesmas fórmulas com mínimas diferenças, cujo percurso nenhum homem ocupado tem tempo de seguir, num tempo em que as redações dos jornais são constantemente incomodadas por gente que acha que é um gênio, é muito difícil ajuizar do valor de um homem ou de uma ideia. Temos de nos deixar guiar pelo ouvido para podermos perceber se os rumores, os sussurros e o raspar de pés diante da porta da redação são suficientemente fortes para poderem ser admitidos como voz da polis. A partir desse momento, porém, o génio passa a outra condição. Deixa de ser matéria fútil da crítica literária ou teatral, cujas contradições os leitores que qualquer jornal deseja ter levam tão pouco a sério como a tagarelice de uma criança, para aceder ao estatuto de fatos concretos, com todas as consequências que isso tem.

Certos fanáticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detrás de tal situação. O mundo dos que escrevem porque têm de escrever está cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a substância.

Os atributos dos grandes homens e das grandes causas sobrevivem ao que quer que seja que lhes deu origem, e é por isso que sobram sempre muitos atributos. Foram criados um dia por algum homem importante para outro homem importante, mas esses homens há muito que morreram, e os conceitos que lhes sobreviveram têm de ser utilizados. Por isso andamos sempre à procura do homem certo para um determinado adjetivo. A "portentosa plenitude" de Shakespeare, a "universalidade" de Goethe, a "profundidade psicológica" de Dostoievski e muitas outras imagens que uma longa tradição literária deixou atrás de si andam às centenas nas cabeças dos que escrevem, e essa sobrelotação de reservas leva-os a dizer hoje que um estrategista do tênis é "insondável" ou um poeta em moda "grandioso". É compreensível que se sintam gratos quando conseguem aplicar sem desperdício a sua reserva de palavras. Mas terá sempre de se tratar de um homem cuja importância já é um fato aceite, de maneira a que se compreenda como as palavras se ajustam bem a ele, ainda que não se diga exatamente a que qualidades.

Robert Musil, "O Homem sem Qualidades"

Bruxas de importação

Já faz alguns anos que, na véspera do Dia de Todos os Santos, a criançada das redondezas de onde moro, no subúrbio de São Paulo, logo depois de escurecer, em grupos, muito sorridente e alegre, bate à porta de casa e quando atendemos somos saudados com o que parece ser mais uma ameaça do que uma brincadeira: “Gostosuras ou diabruras?”.

A alegria infantil das atitudes contrasta com a sisudez da frase estrangeira, originária de uma cultura religiosa repressiva dos tempos puritanos da caça às bruxas nos EUA.

No começo, aqui em casa, resistimos em aderir e participar. Não víamos nenhuma relação com nossa sociedade e nossos costumes. Aquilo era estranho e postiço.


Para minha mulher e eu, não tinha sentido. Amigos nos sugeriram que havia aqui um equivalente das bruxas americanas, o saci-pererê. Na verdade o saci é outra coisa. Não é bruxa. Nem feiticeiro. É um “trickster”, um ser ambíguo. Para muitos é o nosso malandro simbólico. Situa-se no limite dos lados, desrespeita regras, encarapita-se nos mourões das porteiras. Separa e une. De certo modo, é um poder.

Um jovem indígena de uma aldeia do sul da cidade de São Paulo explicou-me que, ao contrário da impressão geral, o saci não é negro, é de origem indígena. Suas características físicas, menino de uma perna só, o sugerem. Como o curupira, que tem os pés invertidos em relação à direção do caminhar. No século XVIII, com o incremento do tráfico negreiro, tornou-se negro, com as características que tem hoje na cultura popular. Assumiu a identidade do outro.

Procuramos entender o que significava aquela novidade, de bruxas americanas a falar português e expressar concepções de um imaginário estrangeiro. No mundo inteiro, países coloniais e países atrasados como o nosso sofreram invasão cultural como técnica de sujeição cultural dos nativos.

Foi interessante e foi uma descoberta. Vinham em bandos sucessivos, e as visitas se prolongavam até antes da meia-noite. Os primeiros grupos eram de crianças pequenas, sempre acompanhadas por alguns adolescentes, claramente para protegê-las. Eram crianças, não eram malandros. Os mais velhos vinham mais tarde. E os malandros vinham na véspera.

Aprendemos a comprar balas e doces com antecipação e a preparar pacotinhos de “doçuras”. Chegamos a distribuir, todos os anos, quase cem pacotes de balas de vários tipos. Nunca falta o “muito obrigado” de todos e de cada um, sempre seguido de um “Deus os abençoe”. São crianças que vêm dos bairros pobres e da favela das proximidades. É um jeito de adoçar a vida para elas amarga.

De bruxa, nem notícia. Reinventam a prática esdrúxula, resistem ao que não tem sentido. O Halloween tornou-se aqui um artifício para saciar da carência de doçura esta sociedade de insuficiências e insatisfações, que precisa imitar o que não é para chupar uma bala.

A difusão dessas práticas não é coisa apenas de pobres. A classe média, no mundo inteiro destituída de autenticidade, aqui é fascinada pela ideia de imitar e copiar, pela ideia de ser coadjuvante de quem aparece no cinema.

Os ricos são, no Brasil, grandes importadores de costumes estrangeiros, que por meio deles se disseminam. Foi o caso do Papai Noel, nas décadas finais do século XIX, trazido pelos fazendeiros de café, do Sudeste, que após a colheita iam para a Europa desfrutar os créditos obtidos com a comercialização da safra.

Nosso Natal era apenas, e assim fora durante todo o período colonial, o marco da passagem de ano. A partir do Dia de Natal, o calendário civil mudava. O dia 24 de dezembro de 1553 foi o último do ano, e o dia 25 de dezembro do mesmo 1553 já vinha numerado nos documentos oficiais como 1554.

O dia festivo para as crianças era o dos Santos Reis, 6 de janeiro, que comemora as dádivas dos Santos Reis para o menino da manjedoura. É o dia do desmontar o presépio doméstico.

Apesar da poderosa concorrência da mentalidade mercantil difundida pelo comércio natalino, a celebração dos Santos Reis ainda resiste. Mesmo nas cidades, não só as do interior.

As Folias de Reis ressurgiram nas cidades, nos bairros de migrantes oriundos da roça. Ainda fazem a visita ritual em alguns bairros. Os migrantes são os grandes preservadores da religiosidade popular na região metropolitana de São Paulo, justamente a região que foi por longo tempo uma região industrial.

Foi aí pelos anos 1990 que numa noite de janeiro ouvimos um cântico vindo do portão de casa. Acompanhado por acordes de viola caipira, um grupo precatório de foliões dos Santos Reis entoava o “Deus Te Salve Casa Santa”. Procedia de um bairro pobre vizinho para surpresa dos moradores de minha rua. Nasceu daí meu livro “O coração da Pauliceia ainda bate”.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


.A arte de engolir sapos

O Adão, meu amigo, professor de biologia, já encantado, amava os sapos. Dedicou sua vida a estudá-los. Estudava e admirava. Era capaz de identificá-los não só por sua aparência física como também pelo seu canto. Creio que o Adão achava os sapos bonitos. E é certo que eles têm uma beleza que lhes é peculiar. O filósofo Ludwig Feuerbach diria que para os sapos não existe nada mais belo que o sapo e, se entre eles houvesse teólogos, haveriam de dizer que Deus é um sapo. Cada forma de vida é o Bem Supremo para si mesma.

Eu mesmo, sem ter a sensibilidade do Adão, escrevi um livro para crianças em que um dos heróis é o sapo Gregório. Mas desejo confessar que não acho os sapos bonitos. Bonita eu acho a sua cantoria durante a noite, a despeito da sua falta de imaginação e da sua monotonia. Mas o que ela perde em riqueza estética é plenamente compensado pelo seu poder hipnótico, o que é bom para fazer dormir.

Mas o fato é que nós, humanos, não consideramos os sapos como animais com que gostaríamos de conviver. Ter um cãozinho, um gato ou um coelho como bichinho de estimação, tudo bem. Mas se o menino quisesse ter um sapo como bichinho de estimação, os pais tratariam de levá-lo logo a um psicólogo para saber o que havia de errado com ele. Sapo é bicho de pesadelo.

Quem sugere isso são as Escrituras Sagradas. Está relatado, no capítulo oitavo do livro de Êxodo, que Deus, para dobrar a obstinação do faraó egípcio que não queria deixar que o povo de Israel se fosse, enviou-lhe uma série de pragas de horrores, uma delas sendo a dos sapos. Diz o texto que a praga era de rãs, mas não faz muita diferença.

Eis que castigarei com rãs todos os teus territórios. O rio produzirá rãs em abundância, que subirão e entrarão em tua casa, e no teu quarto de dormir, e sobre o teu leito, e nas casas dos teus oficiais, e sobre o teu povo, e nos teus fornos, e nas tuas amassadeiras.

Já imaginaram o horror? A gente entra debaixo das cobertas e sente o frio das rãs que lá estão. Morde o pão e dentro dele está uma rã assada.

Nas estórias infantis é a mesma coisa. A bruxa poderia ter transformado o príncipe numa girafa, num tatu ou num gato. Escolheu transformá-lo no mais nojento, um sapo. E há aquela outra estória em que o sapo queria dormir na cama com a princezinha. Tão horrorizada ela ficou de ter de dormir com um sapo que, para evitar os beijos e seus desenvolvimentos inevitáveis, pegou-o pela perna e jogou-o contra a parede. Esse ato teve efeito mágico, pois, ao cair no chão, o sapo transformou-se em príncipe. Já aconselhei pessoas a lançar contra a parede seus sapos e sapas conjugais, para ver se o contrafeitiço funciona também para os humanos. Parece que não.

O horror do sapo aparece também numa sugestiva expressão popular: “ter de engolir sapo”. Por que não “ter de engolir gato”, “ter de engolir borboleta”, “ter de engolir tico-tico”? Porque mais nojento que sapo não existe.

Essa expressão traz o sapo para o campo das atividades alimentares. Engolir é comer. O ato de comer é presidido pelo paladar. O paladar é uma função discriminatória. Ele separa o saboroso do não saboroso. O saboroso é para ser engolido com prazer. O não saboroso, o corpo se recusa a comer. Cospe. “Ter de engolir sapo”: ser forçado a colocar dentro do corpo aquilo que é nojento, repulsivo, viscoso, frio, mole.


Não há forma de engolir sapo com prazer. Engolir um sapo é ser estuprado pela boca. Há um ditado inglês que diz: “If you are going to be raped, and there is nothing you can do about it, relax and enjoy it”: se você vai ser estuprado e você não pode fazer nada para impedi-lo, relaxe e trate de gozar o mais que puder. Esse ditado sugere a possibilidade de sentir prazer em ser estuprado. Pode até ser. A psicanálise me ensinou a aceitar a possibilidade dos mais estranhos prazeres perversos. Mas não há relaxamento que faça do ato de engolir um sapo uma experiência prazerosa.

Por que engolir um sapo?

Há pessoas que engolem sapos por medo. Bem que seria possível evitar a repulsiva refeição: o sapo é um sapinho. Mas elas preferem engolir o sapo a enfrentá-lo. Não têm coragem de pegá-lo e jogá-lo contra a parede. Pessoas que fizeram do ato de engolir sapos um hábito acabam por ficar parecidas com eles: andam aos pulos, sempre rente ao chão e coaxam monotonamente.

Mas há situações em que é inevitável engolir o sapo. Eu mesmo já engoli muitos sapos e disto não me envergonho. O meu desejo, com esta crônica, é dar uma contribuição ao saber psicanalítico, que até agora fez silêncio sobre o assunto. Muitos dos sintomas neuróticos que afligem as pessoas resultam de sapos engolidos e não digeridos.

Tudo começa com um encontro: à minha frente um sapo enorme, ameaçador, com boca grande. A prudência me diz que é melhor engolir o sapo a ser engolido por ele. É melhor ter um sapo dentro do estômago (sapos engolidos nunca vão além do estômago) do que estar no estômago do sapo.

Aí, impotente e sem opções, deixo que ele entre na minha boca, aquela massa mole e nojenta. É muito ruim. O estômago protesta, ameaça vomitar. Explico-lhe as razões. Ele cessa os seus protestos, resignado ao inevitável. Não consigo mastigar o sapo. Seria muito pior. Engulo. Ele escorrega e cai no estômago.

Alimentos não digeríveis são eliminados pelo aparelho digestivo de duas formas: ou são expelidos pelo vômito ou são expelidos pela diarreia. Os sapos são uma exceção. Não são digeridos, mas não são expelidos nem pelas vias superiores nem pelas vias inferiores. Os sapos se alojam no estômago. Transformam-no em morada. Ficam lá dentro. Por vezes hibernam. Mas logo acordam e começam a mexer.

Ninguém engole sapo de livre vontade. Engole porque não tem outro jeito. Tem sempre alguém que nos obriga a engolir o sapo, à força. A pessoa que nos obriga a engolir o sapo, a gente nunca mais esquece. Diz a Adélia que “aquilo que a memória amou fica eterno”. Aí eu acrescento algo que aprendi no Grande sertão. Conversa de jagunços matadores. Diz um: “Mato, mas nunca fico com raiva”. Retruca o outro, espantado: “Mas como?”. Explica o primeiro: “Quem fica com raiva leva o outro para a cama”. É isso. A gente leva para a cama a pessoa que nos obrigou a engolir o sapo. A raiva também eterniza as pessoas. Não adianta falar em perdão. A gente fica esperando o dia em que ela também terá de engolir um sapo. Ou, como dizia uma propaganda antiga de loteria, a gente reza: “O seu dia chegará...”.
Rubem Alves, "Palavras para desatar nós"

O bicho está vivo

Eu queria que a Kamala ganhasse e estava convencido de que ia ganhar. Até fiz apostas e tudo, gravadas em vídeo para não haver dúvidas.

Substitua-se a palavra Kamala por Hillary e podíamos estar em 2016: será que não aprendi nada em quase dez anos?

O único alento vem do eleitorado americano, que representa todos os eleitorados, em todas as democracias em que cada pessoa pode votar, e cada voto vale tanto como qualquer outro.

Qualquer eleição é magnífica. Representa o triunfo do indivíduo. Representa o triunfo da sensatez: todos aceitam que a maioria é que tem o direito de decidir.

No caso da vitória de Trump, tenho isto a dizer: quem quer vencer eleições não pode insultar a maioria. E também não se pode insultar as grandes minorias que facilmente se tornam maiorias. Não o pode fazer nem directa nem implicitamente. Tanto faz dizer que são deploráveis (Hillary Clinton) ou que são lixo (Joe Biden).



Nem é preciso chamar-lhes nomes: basta ficar calado e agir com a condescendência do costume.


O lixo reage mal. É que o lixo é constituído um a um. Cada bocado de lixo é diferente. E cada bocado de lixo pensa antes de votar.

Trump ganhou porque as mulheres não votaram todas como se queria que as mulheres votassem. Ganhou porque os negros não votaram todos como se queria que os negros votassem. Ganhou porque os latinos não votaram todos como se queria que os latinos votassem.

Votaram um a um, como eleitores que são. Recusaram-se, um a um, a corresponder ao que era esperado deles. E porquê? Porque não são grupos. Não são peças num tabuleiro. Não são blocos. Não são sondagens.

São indivíduos. São imprevisíveis. São desobedientes. São complexos – até para os amigos, até para a família. Só têm uma coisa em comum: não gostam de ser catalogados.

Não gostam que a individualidade deles seja diluída. Não gostam de raspanetes. Não gostam de ser tratados como criancinhas. Não gostam de receber ordens.

O bicho está vivo: o bicho é o povo.