segunda-feira, 13 de março de 2023

Propina das Arábias


De presente oficial da Casa de Saud, segundo a versão inicial, a semana termina com a suspeita de que as faiscantes joias-ostentação têm cara, cheiro e delivery de propina.
Dorrit Harazim

O futuro das mentes e das máquinas que pensam

Considere a seguinte situação: você acorda atrasado para o trabalho e, na pressa, esquece o celular em casa. Só quando fica engavetado no tráfego, ou amassado no metrô, é que você se dá conta. E agora é tarde para voltar. Olhando em volta, você vê pessoas com celular em punho conversando, mandando torpedos, surfando na internet. Aos poucos, você vai sendo possuído por uma sensação de perda, de desconexão.

Sem o celular, você não é mais você. A junção do humano com a máquina é conhecida como “transumanismo”. Tema de vários livros e de filmes de ficção científica, hoje é um tópico essencial na pesquisa de muitos cientistas e filósofos. A questão que nos interessa aqui é até que ponto essa junção homem-máquina pode ocorrer, e o que isso significa para o futuro da nossa espécie. Será que, ao inventarmos tecnologias que nos permitam ampliar nossas capacidades físicas e mentais, ou mesmo máquinas pensantes, estaremos decretando o nosso próprio fim? Será esse o nosso destino evolucionário, criar uma nova espécie além do humano? É bom começar distinguindo tecnologias transumanas daquelas que são apenas corretivas, como óculos ou aparelhos de surdez.

Tecnologias corretivas não têm como função ampliar nossa capacidade cognitiva: simplesmente regularizam alguma deficiência existente. A diferença ocorre quando uma tecnologia não só corrige uma deficiência como leva seu portador a um novo patamar, além da capacidade normal da espécie humana. Por exemplo, braços robóticos que permitem que uma pessoa levante 300 quilos, ou óculos com lentes que permitem enxergar no infravermelho. No caso de atletas com deficiência física, a questão se torna bem mais controversa: em que ponto uma prótese, como uma perna artificial de fibra de carbono, cria condições além da capacidade humana? Considerando esse caso, será que é justo que esses atletas compitam com humanos sem próteses?

A maioria das pessoas acha que esse tipo de hibridização entre tecnologia e biologia é coisa para um futuro distante. Ledo engano. Como no caso do celular, está acontecendo agora. Estamos redefinindo a espécie humana através da hibridização – na maior parte, ainda externa – com tecnologias que ampliam nossa capacidade. Sem nossos aparelhos digitais – celulares, tablets, laptops –, já não somos os mesmos. Criamos personalidades virtuais, ativas apenas na internet, outros “eus” que interagem em redes sociais com selfies arranjadas para impressionar. Esses eus virtuais são criações remotas, onipresentes.


Cientistas e engenheiros usam computadores para ampliar sua capacidade cerebral, enfrentando problemas que, há apenas algumas décadas, eram considerados impossíveis. Como resultado, a cada dia surgem novas questões que, antes, nem podíamos contemplar. O ritmo do progresso científico está diretamente relacionado com nossa aliança a máquinas digitais. Somos já transumanos. Aonde isso nos levará? Em livro de 2018, o filósofo sueco Nick Bostrom, professor na Universidade de Oxford, soa o alarme: se criarmos inteligências superiores à nossa, poderemos nos tornar obsoletos.

Em Superinteligência, Bostrom faz uma analogia entre nós e os gorilas, e entre nós e as inteligências artificiais sobre-humanas: do mesmo modo que a sobrevivência dos gorilas depende da nossa benevolência, se máquinas mais inteligentes e poderosas do que nós existirem, nossa sobrevivência dependerá delas. E o que garante que elas irão nos preservar? É o mito do Frankenstein revisitado, criaturas criadas por cientistas ameaçando nossa espécie. Claro, a premissa aqui é que é possível criar tais máquinas superinteligentes.

Nisso, a comunidade científica e filosófica está dividida. De um lado, temos os que acreditam que é apenas uma questão de tempo: do mesmo modo que a Natureza “criou” ao menos uma espécie inteligente (golfinhos, baleias, cachorros e gatos são inteligentes, mas não desenham computadores ou sondas espaciais, ou compõem sinfonias e poesia), não há qualquer empecilho fundamental para que possamos repetir a façanha, criando outras entidades inteligentes. As leis da Natureza, argumentam, não proíbem a construção de inteligências artificiais.

Críticos rebatem que a questão não é tão simples. Primeiro, não sabemos exatamente o que é inteligência. E, se não temos uma definição, fica bem difícil recriá-la artificialmente. Por exemplo, o supercomputador da IBM Deep Blue, que ganhou do campeão mundial de xadrez Garry Kasparov em 1997, não era inteligente. Ao menos não no sentido de ser uma entidade autônoma, capaz de tomar suas próprias decisões. Deep Blue reunia uma velocidade incrível de processamento de informação com um programa altamente sofisticado de seleção de estratégias, escolhendo seus movimentos baseado num processo refinado de otimização.

A inteligência de Deep Blue era de seus programadores e não da máquina em si. Na Europa e nos EUA, duas grandes iniciativas estão tentando criar uma máquina inteligente baseada na desconstrução do cérebro humano. Essencialmente, a ideia é mapear o cérebro em todo detalhe, incluindo cada neurônio, suas ligações sinápticas com outros neurônios (sua “cognitividade”), o fluxo de substâncias neurotransmissoras de neurônio a neurônio, recriando toda essa informação num gigantesco programa de computador, uma simulação do cérebro humano em uma entidade de silicone. Uma pesquisa sem dúvida fascinante, que leva a uma pergunta essencial: como saber se temos toda a informação relevante para recriar um cérebro humano, o objeto mais complexo do Universo conhecido?

Como no famoso conto de Jorge Luis Borges, “Sobre o rigor na ciência”, um mapa perfeito, contendo todos os detalhes do original, teria que ser do tamanho do que se propõe a mapear, sendo, portanto, inútil. No caso do mapeamento do cérebro, certamente esse tipo de iniciativa é extremamente importante e válida, e nos trará muita informação valiosa sobre seu funcionamento e estrutura. Mas o objetivo final, a compreensão completa do cérebro humano, me parece um mito.

Afinal, sabemos que nossa aferição do que existe é sempre limitada: o que vemos do mundo, mesmo com nossos instrumentos, jamais é tudo o que pode ser visto. Portanto, qualquer simulação de uma entidade real será necessariamente incompleta. No máximo, podemos tentar captar aquilo de mais essencial, recriando um modelo parcial do que existe. Me parece difícil concluir que esse modelo parcial terá funções cognitivas idênticas a um cérebro real. Ainda pior: nem sabemos o que significa entender o cérebro destituído do corpo que o comanda.

Mesmo se programas de computador chegarem a ser inteligentes, sua inteligência não será como a nossa. Será outra coisa, destituída de um corpo. E o que é um humano destituído de um corpo? Impossível contemplar. O que é uma inteligência que não sofre ou sente dor? Até que ponto essas emoções subjetivas podem ser capturadas num programa, numa sequência de instruções? Me parece que esse objetivo – a construção de máquinas autônomas inteligentes – está bem mais distante do que um que já está acontecendo, nossa hibridização com tecnologias que expandem nossas habilidades cognitivas.

No brilhante filme Ela, de 2013, um homem se apaixona por um sistema operacional inteligente, capaz de aprender com a informação que recebe. A história é trágica, explorando a solidão humana e como a tecnologia do futuro – na medida em que nos definimos pelas nossas interações com os outros – irá redefinir quem somos. Ao menos no filme, os “outros” poderão não ser mais humanos. Apesar da beleza e da importância do filme, é bom não confundi-lo com a realidade. Como argumentei, é muito possível que a premissa das máquinas inteligentes, ou mais inteligentes do que nós, seja falsa. É bem mais provável que o futuro da inteligência esteja dentro do cérebro humano, e não fora. Nós, ou os nossos híbridos com máquinas, é que nos tornaremos superinteligentes, estendendo nossa capacidade mental por meio da união do biológico com o cibernético.

A meu ver, o futuro da inteligência artificial não está nas máquinas, mas na inteligência humana artificialmente ampliada. Não estamos desenhando nosso fim, mas uma nova espécie que transcenderá os limites evolucionários que determinam o funcionamento de nossos cérebros e corpos. Com isso, não devemos temer o futuro da pesquisa em inteligência artificial, mas vê-la como uma oportunidade de emancipação, de crescimento da nossa espécie. Certamente, nossos descendentes serão mais inteligentes e, espero, também mais sábios.
Marcelo Gleiser, "O caldeirão azul"

1984 não é aqui

Reler um livro é um prazer renovado. A frase imortal do filósofo Heráclito: “Não podemos nos banhar no mesmo rio porque as águas renovam-se a cada instante”, não se aplica aos livros: a beleza da escrita parece água parada. O que muda é o banhista caso se disponha a reaprender, redescobrir novos mundos e recriar um novo leitor.

Imaginando que os meses tradicionais de fim de ano seriam mais amenos, me comprometi a reler três livros (não sou um “leitor voraz”, normal, apenas). Engano: os tempos sombrios, ferozes, seguem trepidantes. Ainda assim, segui o conselho do grande Nelson Rodrigues “Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia”.



Escolhi 1984 de Eric Blair, nome jogado ao esquecimento pela força do pseudônimo do George Orwell e quase uma dezena obras precocemente interrompidas, aos 46 anos, por uma infame tuberculose.

Irving Howe, editor e crítico literário americano, desfez minha dúvida: “Não é fácil imaginar que muita gente torne a reler 1984 espontaneamente: não há razão nem necessidade, pois ninguém o esquece”. Mas, precisa ser lembrado. Principalmente diante de autocratas declarados e enrustidos.

Diferente dos clássicos, uma vasta e atônita “fortuna crítica” não conclui se ele escreve sobre o passado, descreve o presente ou prediz o futuro. Não importa se a gente termina sem ter a resposta. Mais uma vez, Howe enxerga longe: “Se o mundo de 1984 se concretizar, ninguém o lerá exceto os donos do poder total; se o mundo de 1984 não se concretizar talvez as pessoas fiquem com a impressão de que o livro não passava de um mero sintoma de algum distúrbio privado, de um pesadelo”.

Assim carregamos 1984 como um pesadelo que é nosso. “Afinal de contas, diz George Parker, escritor e jornalista do New Yorker Times, a verdade revela-se a coisa mais frágil do mundo. O drama da política é o que está no nosso cérebro”. Winston, personagem central da obra, talvez seja o último sobrevivente dos tempos de antigamente.

Viveu no ambiente propício da distopia: a guerra permanente (Oceânia e Eurásia), o inimigo imaginário – Emmanuel Goldstein a ser exterminado, a opressão letal e a substituição completa do humano por máquinas obedientes para exercer a totalidade do mal.

Com efeito este é o ponto de identificação do horror de Orwell: os totalitarismos. Não escreveu sobre governos ou qualquer preferência política. Criou o “Organograma do Mal” sob a ubiquidade do Grande Irmão; Ministério da Verdade (que só mentia pela escuta de tudo pela Teletela); Ministério do Amor (controlado pela Liga Juvenil Antissexo); A Novilíngua (ou Novafala) em associação com a Polícia do Pensamento e o Duplipensar para extinguir a liberdade de pensamento, tudo envenenado pelo programa diário Dois Minutos de Ódio e a construção filológica de modo a conectar clichês, segundo Hannah Arendt, à banalidade do mal, com permanentes doses de arsênico.

Antes de qualquer insinuação, não me refiro a distopias nacionais, mas que elas existem, existem, rondam as pessoas e, perigosamente, a humanidade em territórios de dor e surtos de desesperança na síntese de três famosos slogans do Ministério da Verdade: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força” para os quais a moral a se extrair desse pesadelo perigoso parece simples: “Não deixe que aconteça. Depende de você”.

1984 não é aqui.

sexta-feira, 10 de março de 2023

A muamba de Bolsonaro

O caso das joias presenteadas a Bolsonaro pela Arábia Saudita, trazidas na moita para o Brasil, está recheado de estrelas —nas fardas que seus protagonistas usam ou usavam até havia pouco.

O regalo milionário foi entregue ao então ministro das Minas e Energia de Bolsonaro, Bento Albuquerque, ex-almirante de esquadra. Almirante de esquadra é o segundo posto mais alto da Marinha, com quatro estrelas e uma poderosa âncora na insígnia. As joias viajaram de Riad a Guarulhos na mochila do guarda-marinha Marcos André Soeiro. Guarda-marinha é um aluno da Escola Naval prestes a se tornar segundo tenente.

Apreendida a muamba pela Receita Federal, apressou-se liberá-la o contra-almirante José Roberto Bueno Junior. Um contra-almirante tem duas estrelas e, idem, uma âncora na insígnia, mas isso não comoveu a Receita. Entrou em ação o tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens de Bolsonaro. Um tenente-coronel está a dois passos do generalato, e Cid ainda tem o privilégio de usar Glostora no cabelo e farda com gravata-borboleta. Pois voltou de mãos abanando. Outro encarregado de peitar a Receita foi Jairo Moreira da Silva, primeiro-sargento da Marinha. Debalde.

Dois elementos da própria Receita instruídos por Bolsonaro para resolver o problema também se frustraram. Mas ganharam cargos fictícios nas embaixadas de Paris e Dubai, em atos assinados pelo ex-general e vice-presidente Hamilton Mourão na ausência de Bolsonaro, que fugira para a Flórida a dois dias do fim do mandato. Dia este em que um jato da FAB, com gasolina paga por você, foi de Brasília a Guarulhos com o fim exclusivo de desbloquear a batota —igualmente em vão. E Michelle Bolsonaro, cujos colo, orelhas, pescoço e braços ostentariam as joias, vem sendo municiada sobre o que dizer pelo ex-general Braga Netto.

Está certo. Pelo artigo 142, as Forças Armadas se destinam à defesa da Pátria.

As Forças Armadas e a política brasileira

1. Já contei neste espaço que servi no CPOR de Porto Alegre. Foi em 1992, ano do impeachment de Collor, da conferência internacional do clima no Rio de Janeiro e da demarcação das terras Yanomami. No pelotão havia um jornalzinho, eu era um dos editores, e nessas páginas lidas 30 anos depois encontro excertos do pensamento militar médio da época: nós fazíamos entrevistas em que o personagem da edição dava respostas breves, seguras o bastante para não causar problemas com a cúpula do quartel.

Assim, dá para dizer que oficiais da ativa de então - no caso, tenentes e majores que entrevistamos - se sentiam à vontade para falar publicamente de democracia (“é muito boa se funcionar”), ecologia (“importante, mas estão espetacularizando demais”), Amazônia (“eu queria ter o padrinho que os índios têm”). Diante da pergunta “qual o maior problema do Brasil e qual a solução?”, um deles retomou o tema mais sensível nos discursos que passamos o ano ouvindo tristemente, entre faxinas, guardas e sessões de Ordem Unida: “Salário dos militares. Aumento”.

O preâmbulo pessoal não é por acaso. O CPOR é uma espécie de versão resumida das Agulhas Negras, a academia que forma o oficialato brasileiro. No debate sobre a presença fardada excessiva em governos recentes, é na própria mentalidade da caserna - sua autoimagem, seu papel político autoimposto - que está parte dos argumentos. Como lembra o ótimo “Poder camuflado”, do jornalista Fabio Victor (Companhia das Letras, 446 págs.), as Forças Armadas se veem como tutoras da sociedade brasileira desde a fundação da República: às vezes na linha de frente, às vezes nos bastidores, nunca como o que a tradição francesa de tropas profissionais chama de “o grande mudo”.


2. Muita coisa mudou de 1992 para cá. Óbvio que um tenente ou major daquele tempo não representa um general de hoje, com sua experiência de comando em eventos historicamente decisivos - da missão no Haiti (iniciada no governo Lula) à intervenção na segurança do Rio (governo Temer), da relação com ministros da defesa civis (a partir de FHC) aos embates com a Comissão da Verdade (instituída por Dilma e centrada em crimes da ditadura 1964-1985). Mas não surpreende que no geral, e somando o registro do jornalzinho com as minhas lembranças, os militares sigam ligados a temas e juízos que atravessaram décadas: afinal, não houve reforma curricular nas escolas de Exército, Marinha e Aeronáutica, organizações que vivem num mundo à parte, com seus sistemas autônomos de educação, saúde, previdência, justiça.

Nesse contexto, o problema dos salários não é só um detalhe corporativista. Em 1992, o parlamentar que expressava a insatisfação da tropa a respeito era Jair Bolsonaro. Persona non grata no Exército do qual havia sido expulso, proibido de entrar em quartéis para evitar o contato dos soldados com suas ideias extremistas (o que fazia sentido numa realidade analógica), na prática ele personificava a autoestima elevada de uma casta - a mesma que até hoje considera justos institutos como a pensão vitalícia para filhas de oficiais (as do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, por exemplo, ganhavam R$ 15,3 mil por mês cada em 2021).

Um dos pontos altos de “Poder camuflado” é a genealogia dessa relação, cujas arestas foram se aparando com o tempo. Contaram aí episódios particulares, como as pazes feitas entre Bolsonaro e o general que tutelou a transição democrática dos anos 1980, Leônidas Pires Gonçalves, mas algo essencial nunca mudou: a par da forma, os pronunciamentos do então deputado do baixo clero vocalizaram anseios profundos de seus ex-colegas de farda. Questões orçamentárias tiveram peso em momentos de crise com as instituições civis, algo recorrente desde o governo Sarney, e o discurso extremista é só uma forma menos articulada, menos eufemística, de expressar o golpismo que em horas decisivas muitos oficiais superiores brasileiros não hesitaram em considerar.

3. A ascensão bolsonarista é uma história de mão dupla em relação aos militares: quem dobrou quem, e a partir de quando? O anticomunismo histórico da corporação, que durante a Guerra Fria alimentou a ditadura e na democracia virou antipetismo (com toques de udenismo antipolítica), é bastante compatível com o discurso conservador de costumes (igualmente udenista) radicalizado pelo ex-capitão na era das redes sociais. As justificativas a respeito dadas pelos entrevistados de Fabio Victor às vezes soam razoáveis, fundadas num cansaço com os escândalos de corrupção dos governos petistas, mas não resistem aos tantos fatos que as desmentem: entre eles os escândalos do governo Bolsonaro, apoiado pela imensa maioria da caserna até o fim.

Algo parecido ocorre com falas aparentemente legalistas, na boca dos mesmos oficiais que agiram contra a democracia antes e depois de 2018 - o Eduardo Villas Bôas do célebre tuíte contra o STF, o Sérgio Etchegoyen que chamou Lula de covarde na esteira do golpe frustrado do 8/1. Comentando a atuação de Celso Amorim como ministro da Defesa (governo Dilma), o mesmo Etchegoyen explica o que vê como incompatibilidade entre um chefe com origem no Itamaraty e seus então subordinados de farda: “São carreiras com linguagens completamente diferentes (...). É como o general Augusto Heleno uma vez disse: ‘Botaram um presidente do Flamengo para cuidar da torcida do Vasco.’”

Involuntariamente, a comparação acaba sintetizando a tragédia que vivemos hoje. Porque a linguagem da diplomacia é a que reproduz os fundamentos da política: o entendimento sobre a necessidade da negociação, a leitura conjuntural (interna, externa) feita a partir de debates abertos com a sociedade (sem constrangimentos hierárquicos, sem confundir adversários com inimigos). A ausência de autocrítica em relação ao que aconteceu nos anos 1960/70, um dos combustíveis da radicalização fardada na época da Comissão da Verdade, não deixa de ser decorrência desse abismo cultural: Exército, Marinha e Aeronáutica só teriam a ganhar com o próprio arejamento, em vez de seguir presos a dogmas superados pela historiografia séria, a crimes cometidos por uma geração que em bom número já morreu.

Na pequena escala do CPOR, era comum fazermos piada com a pretensão militar de querer ditar os rumos do país, já que nosso dia a dia numa de suas instituições de ensino superior era um contínuo de obtusidade, de mandonismo baseado em regras cujas justificativas eram elas mesmas. Nunca esse modo de pensar e agir foi tão escancarado como no período Bolsonaro. O resultado, que foi do catastrófico ao patético em casos como o de Eduardo Pazuello à frente da Saúde durante a pandemia, está aí para nos lembrar do que não foi feito - e quem sabe ainda possa sê-lo - para a democracia enfim calar a grande tagarelice.

De quem é a culpa pelos Bolsonaros terem chegado aonde chegaram

Teria sido tão simples liberar o estojo de joias mandado pelo governo Saudita para a ex-primeira-dama Michelle. O agente da alfândega em Guarulhos ensinou: basta comunicar às autoridades da Receita Federal em Brasília e à Presidência da República.

Tratando-se de um presente oficial de um governo para o outro, nem multa seria cobrada. Mas por que não foi assim? Porque as joias seriam incorporadas ao patrimônio do Estado. Michelle poderia usá-las, mas não ficar com elas para sempre.


Esse não era o plano de Bolsonaro quando soube que o estojo fora apreendido por não ter sido declarado. Queria apossar-se dele por seu valor – R$ 16, 5 milhões. Muito dinheiro. Nem à mulher ele informou a respeito. Bem, é o que Michelle diz. Difícil acreditar.

Um segundo estojo com joias para Bolsonaro, no valor de R$ 400 mil, entrou ilegalmente no país. Estava na bagagem de outro acompanhante do almirante Bento Albuquerque, então ministro das Minas e Energia, que se prestou ao papel de mula.

O estojo de Bolsonaro escapou à vigilância da Alfândega. E Albuquerque, embora tenha tido oportunidade, nada contou ao agente da Receita que cumpria a lei. Também não teria contado sobre as joias de Michelle se elas não tivessem sido descobertas.

É uma dedução lógica. O que só reforça a convicção dos que acham que o Brasil foi governado nos últimos quatros anos por uma gente sem escrúpulos, sem princípios, interessada em tirar vantagem em tudo, nojenta. Uma gentalha. Do ex-presidente para baixo.

Todos. O almirante que terceirizou o contrabando para se poupar; seus acompanhantes que se dispuseram a transportar as joias nas malas; o secretário da Receita Federal que se empenhou em liberá-las; assim como um tenente-coronel e um sargento da Marinha.

Espantoso? Não. Antes do seu marido abandonar o país e refugiar-se nos Estados Unidos, Michelle ordenou a um jardineiro que recolhesse as moedas jogadas pelos turistas no lago do Palácio da Alvorada. Uma vez que o episódio se tornou público…

Vieram então com a história de que as moedas – no valor total de R$ 2.213,55 – foram entregues a uma instituição de caridade. Providenciou-se até recibo. Essa gente ser como é, é problema dela. Essa gente ter chegado aonde chegou, é problema nosso.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Orgulho do Brasil

 


Ainda mais idiotas armados


Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos
Nelson Rodrigues

Uma história mal contada

A história das joias trazidas da Arábia Saudita na mochila de um assessor do então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, precisa ser mais bem contada.

Segundo o almirante Albuquerque, os pacotes foram entregues em 2021 por uma pessoa do governo saudita à comitiva brasileira que partia de Riad. Ainda segundo ele, seriam presentes para Michelle Bolsonaro, mulher do presidente brasileiro.

Como se chama essa pessoa? A Casa de Saud reina na Arábia, com protocolos. O Brasil tem embaixada na Arábia, e a Arábia tem embaixada em Brasília. Se a mulher do presidente da República receberia um colar, brincos e anel, o canal para a remessa do mimo seria a embaixada. Num grau mais elevado de cortesia, o embaixador em Brasília entregaria o presente ao Itamaraty ou, se fosse o caso, à própria senhora. Assim formaliza-se a gentileza. Feitas as coisas de acordo com o cerimonial, ressaltava-se a cortesia, e deixava-se a questão tributária num segundo plano. O método iFood chique acabou na encrenca revelada agora pelos repórteres Adriana Fernandes e André Borges. Como um adereço inevitável, apareceu também o tenente-coronel Mauro Cid, cuidando da liberação das joias, sem sucesso. Isso tudo com a rotina de carteiradas, marca do governo do capitão.


A pessoa que recebeu os pacotes fechados em Riad deve lembrar o nome ou o cargo de quem lhe pediu que levasse a encomenda. Caso não lembre, nunca mais deverá fazer isso. As prisões do mundo estão cheias de jovens apanhados com cocaína dizendo que não lembram quem lhes pediu que transportassem os pacotes.

Há ainda outro detalhe mal contado na história das joias das Arábias. Um presente valioso como esse seria entregue como se fosse um sanduíche. Falta um cartão com uma mensagem elegante à destinatária. Quem se lembra de ter recebido um presente sem uma palavra de carinho?

É certo, contudo, que Bolsonaro tentou recuperar as joias apreendidas pela Receita. Sempre na base da carteirada. Felizmente, os auditores blindaram a instituição.

Pelo que se sabe até agora, quem mandou as joias teria sido o governo saudita. Essa figura impessoal não existe naquela parte do mundo. Os sauditas, bem como os emires vizinhos, gostam de presentear visitantes, sempre estreitando uma relação pessoal.

O almirante Flávio Augusto Viana Rocha, secretário especial de Assuntos Estratégicos durante o governo Bolsonaro, acumulou vasta experiência em negociações com os sauditas e com os emires das vizinhanças. Consultado, certamente teria uma boa palavra a dar sobre esse assunto, prevenindo, ou até mesmo evitando o escândalo.

Poucos governos tiveram laços tão estreitos com os sauditas e com os emirados como o governo Bolsonaro. Chega a ser surpreendente que tenha tropeçado nas caixas de joias.

Outros presentes enviados por sauditas foram listados no acervo de Bolsonaro

A Presidência catalogou mais de 9.000 presentes recebidos por Jair Bolsonaro em quatro anos. Além de chaveiros, canetas, camisas de futebol e quadros listados no acervo, ficaram de fora as joias da Arábia Saudita avaliadas em R$ 16,5 milhões e apreendidas pela Receita no desembarque no Brasil, como revelou o jornal O Estado de S. Paulo.

Outros pacotes oferecidos pelo reino, no entanto, foram incorporados ao acervo do presidente, segundo registros do GADH (Gabinete Adjunto de Documentação Histórica), vinculado à equipe de Bolsonaro.


O primeiro presente dos sauditas foi recebido em 2019 e entrou para o acervo presidencial no dia 11 de novembro daquele ano, dias depois de uma viagem de Bolsonaro ao país. Segundo o documento, o kit continha um relógio, abotoaduras, um anel, uma caneta e um tipo de rosário.

O pacote, de acordo com a listagem, é formado pelos mesmos itens que foram entregues em outubro de 2021 à comitiva do então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque. Como a Folha mostrou, os presentes da marca suíça Chopard só foram repassados ao acervo do presidente no ano seguinte.

Uma terceira leva de presentes foi enviada para Bolsonaro na mesma viagem de Bento Albuquerque à Arábia Saudita. No dia 26 de outubro de 2021, dia do desembarque da comitiva do ministro, foram integradas ao acervo do presidente uma escultura, um broche, um lenço e um bisht, manto usado em ocasiões especiais.

Os itens estão em duas planilhas elaboradas pelo GADH para atender a pedidos feitos com base na Lei de Acesso à Informação, no fim do ano passado. O órgão anotou que o material fazia parte do "acervo privado do presidente da República", mas não esclareceu se Bolsonaro levaria os presentes ao deixar o cargo.

Os documentos listam ainda um quarto pacote de presentes dos sauditas, de caráter mais protocolar, entregue em novembro de 2020. Ele inclui um estojo, cartões, uma caixa, uma bolsa, uma bandeira, uma placa, uma moeda e um selo.

Caráter personalíssimo faz de Bolsonaro um fora da lei

A mesquinhez fez Bolsonaro apossar-se do estojo com joias que recebeu de presente da ditadura da Arábia Saudita, e que entrou ilegalmente no Brasil por meio de uma mula, o almirante Bento Albuquerque, ex-ministro das Minas e Energia.

A cobiça fez Bolsonaro empenhar-se mais de um ano para reaver o estojo com joias endereçado pelos sauditas à primeira-dama Michelle, apreendido por agentes da Receita no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Fez oito tentativas e todas fracassaram.


Faziam parte do estojo de Bolsonaro um relógio, um par de abotoaduras, uma caneta rosa gold, um anel e um masbaha (espécie de rosário islâmico), todos da marca suíça Chopard. O site da loja vende peças similares que, juntas, custam R$ 400 mil.

Um bom presente, mas o de Michelle era mais valioso: um colar, um par de brincos, um relógio e um anel avaliados em R$ 16,5 milhões. Com esse dinheiro, Bolsonaro poderia comprar uma mansão de 1.200 m² em um condomínio em Alphaville, São Paulo.

A mansão tem cinco dormitórios (sendo três suítes), oito vagas de garagem, piscina aquecida, churrasqueira externa coberta, espaço gourmet, adega refrigerada, home theater profissional, poltronas reclináveis, academia, brinquedoteca e sauna. Um paraíso.

Ou então três iates produzidos no Brasil pelo estaleiro Triton Yachts: o Triton 52 HT. A embarcação tem 120 metros quadrados de área. Na proa, assentos retráteis para banhos de sol e relaxamento. Bolsonaro gosta de pescar. Sobrariam R$ 3 milhões.

Ou então 15 motos de luxo Ducati Superleggera V4. Cada uma custa R$ 1,1 milhão, tem 234 cv e pesa 152 quilos. Bolsonaro aprecia motos. Poderia promover motociatas particulares sem ter que dar satisfações a ninguém. Desde que usasse capacete.

Em agosto último, para candidatar-se outra vez, Bolsonaro foi obrigado a revelar o valor do seu patrimônio pessoal: R$ 2,3 milhões. Uma titica, convenhamos, para um político com quase 30 anos de carreira. O lucro com a rachadinha não foi declarado.

Pois bem: somados os patrimônios declarados por ele, Lula, Ciro Gomes, Simone Tebet e os demais candidatos, à exceção de Felipe d’Avila, do Novo, o resultado da conta, ainda assim, ficaria abaixo do valor do presente de Michelle (R$ 16,5 milhões).

É compreensível o esforço feito por Bolsonaro para meter as mãos nas joias da mulher: demitiu o Secretário da Receita que não colaborava; ao substituto, que colaborou, premiou mais tarde com um emprego em Paris; e acionou os militares à sua disposição.

Foi um deles, o tenente-coronel Mauro Cid, que ontem contou que Bolsonaro está com o modesto presente saudita orçado em R$ 400 mil. Guardou-o em um galpão que já foi localizado pela Polícia Federal. Ali, acumulam-se seus pertences.

O advogado Frederick Wassef, que já escondeu Queiroz, diz que os bens em posse de Bolsonaro “são de caráter personalíssimo”, coisas que ele ganhou em viagens. No entendimento do Tribunal de Contas da União, joias não têm caráter pessoal.

Se elas foram dadas de presente a Bolsonaro como chefe de Estado, quem as trouxe teria que informar que eram para o Estado; se foram dadas para a pessoa física, teria de informar da mesma forma. E se tivesse sido uma Ferrari, por exemplo?

O peronista Carlos Menem, presidente da Argentina, ganhou em 1991 uma Ferrari vermelha de presente de um empresário italiano que fazia negócios em seu país. Dizia ser um presente “pessoal”. Lutou na Justiça para ficar com o carro. Acabou perdendo-o.

Em maio de 2022 havia sete modelos de Ferrari à venda no Brasil, com preços variando entre R$ 3,4 milhões e R$ 8,4 milhões. Com a venda das joias de Michelle e um pequeno abatimento, daria para Bolsonaro comprar duas Ferrari do modelo mais caro.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Brasil da média

 


Foram dois presentes contrabandeados. Bolsonaro recebeu o dele

Bolsonaro coleciona tiros disparados no próprio pé. No caso das joias contrabandeadas da Arábia Saudita em outubro de 2021, o que poderia ter sido apenas mais um tiro foram dois, agora se sabe.

O governo daquele país mandou por intermédio do almirante Bento Albuquerque, ministro das Minas e Energia, duas caixas com presentes para Bolsonaro e a primeira-dama Michelle.

Se a intenção inicial fosse respeitar a lei, os presentes teriam sido declarados à alfândega de Guarulhos quando o ministro desembarcou de volta, mas não foram. Chegaram escondidos.

O presente de Michelle (um conjunto de joias e um relógio avaliado em 16,5 milhões de reais) foi trazido dentro de uma sacola por um ajudante de ordem do ministro, e apreendido.


O presente de Bolsonaro (relógio, caneta, abotoaduras, anel e um tipo de rosário, todos da marca suíça Chopard) escapou à vigilância dos agentes da alfândega e entrou ilegalmente no país.

A identidade do portador do presente para Bolsonaro não foi revelada. O valor do presente, tampouco. O que se conta é que o presente só foi entregue a Bolsonaro em novembro último.

Quer dizer: ficou mais de um ano guardado no Ministério das Minas e Energia enquanto Bolsonaro fazia tentativas para reaver a caixa com as joias de Michelle; foram 8 tentativas sem sucesso.

O assessor especial do Ministério de Minas e Energia Antônio Carlos Ramos de Barros Mello entregou pessoalmente o presente de Bolsonaro ao Palácio do Planalto no dia 29 de novembro.

Segundo Mello, tão logo o presente deu entrada no ministério, a Receita Federal e a Presidência da República foram informadas e consultadas a respeito. Que fim deveria ser dado ao presente?

Mello explica:

“Foi entregue ao Planalto porque demorou-se muito nesse processo para dizer quem vai receber, quem não vai, onde vai ficar, onde não vai ficar. Só não podia ficar no ministério”.

Se eram presentes normais, deveriam ter sido declarados à chegada, e incorporados ao acervo da Presidência da República. O casal Bolsonaro poderia até usá-los, mas não ficar com eles.

Neste sábado, após evento nos Estados Unidos, Bolsonaro disse que não pediu nem recebeu qualquer tipo de presente em joias do governo da Arábia Saudita:

“Estou sendo crucificado no Brasil por um presente que não pedi e nem recebi. Vi em alguns jornais de forma maldosa dizendo que eu tentei trazer joias ilegais para o Brasil. Não existe isso”.

Pode não ter pedido, mas recebeu o seu com atraso de mais de um ano. Michelle foi que não recebeu o dela. Bolsonaro está a construir uma narrativa para não ser acusado por mais um crime.

País dos esquecidos


Ser esquecido é o destino natural de todo brasileiro que comete o equívoco de morrer
Ruy Castro, no discurso de posse na ABL

A insurreição da extrema-direita

As ações históricas mais expressivas são feitas por quem sequer tem ideia do que está fazendo. Foi impossível deixar de pensar nisso ao ver a imagem do manifestante que entrou no Palácio do Planalto e achou por bem esfaquear, com uma violência tanto mais impactante porque displicente, a tela As Mulatas, de Di Cavalcanti. Seria fácil dizer que se trata de simples vandalismo, cometido por uma pessoa tão brutalizada que é incapaz de perceber o valor de um quadro “de 8 milhões de reais”, como se disse à época. Mas a verdade é que conflitos sociais reais acabam sempre por encontrar suas imagens e significações, a despeito da intenção dos seus agentes. O que o manifestante queria fazer ou acreditava estar fazendo tem pouca importância, pois não foi exatamente ele quem agiu, mas toda uma estrutura por meio dele. E, como costumava dizer Jacques Lacan, há momentos em que as estruturas descem às ruas.

É possível olhar para tudo que ocorreu em Brasília em 8 de janeiro e agir como se fosse a expressão irracional da violência das massas. Mas o que aconteceu – e provavelmente se repetirá mais à frente – não foi de fato “irracional”. Foi, na verdade, um acontecimento várias vezes previsto e anunciado: uma certa repetição do que se viu na invasão do Capitólio, em Washington. Durante muito tempo se destacou um lugar para esse acontecimento na racionalidade das lutas políticas atuais no Brasil. A questão é que essa racionalidade mudou, embora muitos prefiram não admiti-lo.

O desejo de não enxergar é tão forte que, depois das imagens muito vistas do 8 de janeiro, seguiram-se imagens não vistas, como a que registrou o que ocorreu na Praça dos Três Poderes, em 31 de janeiro passado, terça-feira. Na tarde desse dia, um senhor de 58 anos, cuja identidade não foi divulgada, ateou fogo no próprio corpo gritando palavras de ordem contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes. O homem morreu no dia 2 de fevereiro, e a maioria da imprensa preferiu não noticiar o caso. Decisão questionável, pois apenas reforça o desconhecimento da opinião pública a respeito do momento em que efetivamente nos encontramos, marcado pela força de engajamento e sacrifício da extrema direita.


A melhor maneira de não resolver um problema é ignorar sistematicamente sua real extensão e profundidade. Mas quem segue os fatos políticos das últimas décadas se lembrará de como a Primavera Árabe começou. Em dezembro de 2010, em uma pequena cidade no interior da Tunísia, um homem se autoimolou como forma desesperada de protesto contra as extorsões que sofria da polícia e do governo local. “Isso é mera analogia sem real poder explanatório”, dirão alguns. Eu gostaria, porém, de insistir no contrário. Essa repetição com os sinais invertidos demonstra que estamos outra vez diante de uma dinâmica insurrecional, mas agora capitaneada pela extrema direita.

Nesses últimos meses, uma parte do país foi pega de surpresa pela insistência, a abnegação e o entusiasmo com que pessoas de extrema direita se mobilizaram. Achar que essa dinâmica foi rompida apenas por que agora se fez algumas prisões é simplesmente tomar nossos desejos por realidade. Vimos algo muito parecido em 2021, na sequência dos eventos ocorridos em Sete de Setembro, quando Bolsonaro fez ataques ao STF e estimulou discursos incendiários: ocorreram prisões e declarações de que o então presidente havia “ultrapassado os limites”, desarticulando com isso a sua base popular. No entanto, o que ocorreu foi outra coisa. A mobilização da extrema direita não retraiu, não arrefeceu, não acabou. Ou seja, não se deve agora, em absoluto, descartar a hipótese de que o Brasil se tornou o laboratório de uma nova fase da extrema direita mundial, a saber, justamente, a fase insurrecional.

Nesse contexto, “fase insurrecional” significa que a extrema direita mundial tenderá, cada vez mais, a operar como força ofensiva anti-institucional de longa duração. Força essa que pode se expressar em grandes mobilizações populares, em ações diretas, em formas de recusa explícita das autoridades constituídas. Ou seja, toda uma gramática de luta que até pouco tempo atrás caracterizava a esquerda revolucionária agora está migrando para a extrema direita, como se estivéssemos em um mundo invertido.

Melhor aceitar isso do que continuar com explicações “deficitárias” a respeito do bolsonarismo, como se fez à exaustão nos últimos anos. Explicações deficitárias são aquelas que colocam a causa dos fenômenos em pretensas deficiências dos agentes, como dizer que o bolsonarismo é resultado do ressentimento (deficiência psicológica), do obscurantismo e das fake news (deficiências cognitivas), do ódio (deficiência moral). Explicações dessa natureza servem mais para corroborar a crença do analista em sua pretensa superioridade moral e intelectual do que para auxiliar na compreensão efetiva de um fenômeno sociopolítico de inegável complexidade.

Não deixa de ser significativo que a extrema direita descreva a esquerda brasileira recorrendo aos mesmos termos. Aos olhos da extrema direita, a esquerda é obscurantista, ideologicamente cega, ressentida e marcada pelo ódio. O que mostra o caráter eminentemente estratégico desses “conceitos analíticos”. Eles são peças de um embate retórico e, no máximo, descrevem efeitos, não causas. Ninguém passa meses tomando chuva diante de um quartel movido pelo ressentimento, mas porque acredita fazer parte de um movimento real de ruptura e transformação que irá “passar o país a limpo” e reconstruir a história brasileira, o que exige sacrifício. Há um sistema positivo de motivações movendo essas pessoas que precisa ser analisado enquanto tal.

Este texto começou com uma digressão sobre as facadas contra uma tela de Di Cavalcanti que parece ter ficado perdida no primeiro parágrafo. Na verdade, era uma maneira de introduzir o verdadeiro argumento do artigo: em todo processo de insurreição popular ocorre a afirmação de que o povo representado pelo poder não é o povo real. Para os insurgentes, o povo real é aquele que destrói as representações do poder.

Por isso, nunca houve insurreição popular sem derrubada de estátuas, profanação de espaços públicos, degradação de patrimônio histórico e artístico. O poder público não é apenas um conjunto de aparatos de controle e legislação. É um conjunto de sistemas estéticos de apresentação do povo. É a gestão contínua de toda uma série de hinos, canções “populares”, espaços arquitetônicos, pinturas, imagens, poemas, romances que visam não exatamente a “representar” um povo, mas a construí-lo. E não há país melhor para demonstrar como isso funciona do que o Brasil.

De certa forma, o Brasil é uma construção estética. Se toda nação mobiliza, em alguma escala, tal dimensão para se constituir como povo, é fato que o Brasil moderno é impensável se não for visto também assim. Não é possível compreender os desejos de modernização e desenvolvimento no país sem articulá-los a um processo amplo de construção e modernização estética do próprio povo. O ápice disso é a criação de Brasília. Como dizia o crítico de arte Mário Pedrosa, na época da fundação da capital federal (e é bom que se leia isso reparando em seu tom de utopia concreta), “edificar a cidade nova é a maior obra de arte que se possa fazer no século”. Há que se acrescentar que quem constrói uma cidade não constrói apenas uma urbis: constrói também seus habitantes.

Como toda insurreição popular é, entre outras coisas, um processo de desautorização estética, o manifestante que esfaqueou a tela de Di Cavalcanti ignorou não apenas este trabalho, como se indispôs contra as linhas curvas de Oscar Niemeyer, os murais de Athos Bulcão e o paisagismo de Burle Marx. Com seu gesto, ele queria dizer, como outros já disseram em vários momentos da história: “Esse povo representado pelas obras modernistas de Brasília não é o povo real. O povo está em outro lugar.”

Vale a pena refletir sobre isso com vagar. Porque é possível imaginar que algumas pessoas tenham dito: “Toda destruição popular de signos do poder tem algo de liberador. Não é possível criticar quem fez o que fez em Brasília em 8 de janeiro.” Mas essa posição resulta de um equívoco duplo. O primeiro consiste em acreditar que toda destruição é igual. O segundo, e ainda pior, que toda construção também é igual.

Comecemos pelo segundo erro. Como disse anteriormente, o Brasil “moderno” é uma ideia artística. A construção nacional tem entre seus eixos fundamentais o uso da modernização estética como força de redefinição do espaço, do tempo e do território. O Brasil entrou para a história como o único país do mundo (junto com a União Soviética), onde o modernismo se tornou um verdadeiro projeto de Estado. O que levou o arquiteto Lucio Costa, que fez o Plano Piloto de Brasília, a anunciar que, com a construção da capital, estava surgindo “uma nova era política, na qual a arte retomaria mais uma vez o controle da técnica”.

A ideia de construção estética de um povo, ou de fundação de um povo a partir de forças de produção simbólica e unificação social próprias a certas experiências artísticas, remete ao começo do século xix europeu. Todo professor de filosofia, classe na qual me incluo, conhece o sentido histórico de textos como A Educação Estética do Homem (1795), de Friedrich Schiller, e O Mais Antigo Programa de Sistema do Idealismo Alemão (1796-7, de autoria incerta, é atribuído a Hegel, Schelling e Hölderlin). São textos que defendem a tarefa histórica de uso das artes como dispositivo de emancipação política e social. E não por acaso foram animados pelas transformações globais impulsionadas pela Revolução Francesa.

Uma das consequências de uma revolução popular é a crença de que podem emergir novas dinâmicas de constituição do povo, possibilitando a modificação estrutural da sensibilidade e da imaginação. Uma sociedade liberada da reprodução material de tradições e mitos fundadores pode mobilizar a experiência estética como solo de criação social de novas formas. Algo dessa crença orientou o desenvolvimento do modernismo em certos países de constituição nacional tardia, como o Brasil. Animado por um processo que não foi uma revolução social, mas uma “revolução pelo alto”, a partir de 1930, o Brasil utilizou o horizonte utópico do modernismo para impulsionar a formação de um Estado nacional propulsor de uma modernização “ambígua”.

O adjetivo “ambígua” não foi usado por acaso. Poder algum se associa à força construtiva de experiências estéticas autônomas sem que isso traga acordos instáveis e difíceis de controlar. O modernismo brasileiro não foi uma emulação do Estado. Ele se realizou como uma estética da conciliação nacional, em que a aspiração vanguardista de “criar um povo que falta” se encontrava com os desejos de modernização conservadora e de progresso do Estado populista brasileiro a partir da era Vargas. Para que essa conciliação funcionasse, foram necessários muitos apagamentos e silenciamentos. Pois, para criar um povo que falta, se faz necessário negar um povo que já existe, é preciso jogar na invisibilidade esse povo que não se adequa à geometria estelar e à amplidão do vão livre arquitetônico que o modernismo brasileiro consagrou.

Por outro lado, essa modernização – e aí está seu traço ambíguo – exige que não nos apoiemos mais no solo, no território, na tradição, nas formas já constituídas de vida. Ela pede um empuxo de criação e invenção que, como eu disse, nenhum poder consegue controlar muito bem. Imbuído desse espírito do modernismo brasileiro, Celso Furtado falava de uma improvável “fantasia organizada”, uma das mais belas expressões para se referir à utopia estética nacional. Algo não muito distante do que disse Lucio Costa, ao declarar que, com Brasília, havia construído uma cidade capaz de aliar “trabalho ordenado e devaneio”. De fato, o processo é contraditório, mas essa contradição é real. Triste o tempo em que o pensamento crítico não conhece mais contradições reais.

A pessoa que esfaqueou a tela de Di Cavalcanti dentro do Palácio do Planalto agiu contra os dois lados da contradição. Ela recusou a conciliação prometida pela representação oficial do povo, dizendo com isso que há uma irreconciliação ativa, que esse não é o povo real. Mas não parou aí. Seu gesto incluiu ainda uma segunda intenção, que consiste em também não aceitar o empuxo de criação e ruptura que a construção modernista do povo expressou no Brasil. Esse segundo gesto inconsciente, mas brutalmente real por ser inconsciente, nos lembra do primeiro equívoco que mencionei antes: o de acreditar que toda destruição é igual. Há destruições que são a condição para se criar o que ainda não foi visto. E há destruições que apenas negam aquilo que ainda guarda a força silenciosa de criação de novas configurações sociais. Nesse caso, por meio da negação, busca operar uma restauração

Esse segundo gesto do agressor da tela de Di Cavalcanti só pode ser compreendido em sua real intenção se entendermos que o bolsonarismo não é simplesmente “a destruição da cultura”. É a encarnação de um embate centenário que atravessa a história do Brasil e consiste em tentar destituir um projeto de construção estética do povo em nome de outro, pretensamente mais popular e que não seja a expressão das “elites culturais globalistas”. O movimento será sempre este: o de construir esteticamente um povo, mas destruindo outro. No mesmo espaço.

Quando Bolsonaro perdeu as eleições e deixou os palácios da Alvorada e do Planalto, não foram poucos os que fizeram troça das “obras de arte” de gosto duvidoso recebidas pelo ex-presidente e empacotadas para sua mudança, como uma motocicleta esculpida em madeira, esculturas feitas de cartuchos de balas e quadros em que ele aparece ao lado de Jesus Cristo. As redes sociais se deleitaram com tamanha miséria estética. Eram trabalhos de cunho artesanal ou feitos por autodidatas que celebravam o próprio Bolsonaro. No entanto, qualquer pessoa familiarizada com o integralismo brasileiro não deixaria de reconhecer neles elementos estéticos do movimento, com sua mescla de formas populares, “poesia ingênua e sentimental” e referências religiosas e patrióticas.

De fato, o integralismo, ou seja, o fascismo brasileiro, foi inicialmente uma outra construção estética do povo – contraposta à do projeto modernista que predominou. O que não poderia ser diferente, se lembrarmos que o fundador do integralismo, Plínio Salgado (1895-1975), além de exercer a atividade política, foi escritor e participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e dos embates internos do modernismo brasileiro, tendo redigido seus próprios manifestos artísticos, como o do Movimento Verde-Amarelo, de 1926. A estética integralista celebrou outra forma de conciliação nacional, ainda mais violenta – e muito menos ambígua –, entre a acumulação capitalista primitiva, de cunho extrativista, a religião, a tradição e o extermínio indígena.

Como é um modernismo cortado de sua raiz de ruptura formal, mas que preserva seu desejo de autonomia do presente, o integralismo adequa a tradição às exigências de desenvolvimento predatório capitalista, que não verte lágrimas por aquilo que destrói. Ele é a expressão de um povo que estaria conciliado com a violência do progresso colonial e extrativista, do empreendedorismo capitalista, com a ordem atual da sensibilidade, que não questiona o que socialmente aparece como “natural”, as hierarquias “naturalmente” dadas (como as que constituem a família burguesa e o poder teológico-político). Muitos desses elementos serão atualizados nessa “estética da produção agrária exportadora” que sela a associação entre a indústria cultural brasileira e o bolsonarismo. Basta lembrar, por exemplo, a dicotomia construída por Plínio Salgado entre os tupis, que na concepção dele se permitiriam dizimar “pacificamente” para viver no sangue de cada brasileiro, e os tapuias, cujo ímpeto guerreiro e hostil à assimilação os levou ao completo apagamento.

Tudo isso indica um fenômeno que é importante não esquecer. Se há algo que a estetização política produzida pelo fascismo compreendeu é que não há insurreição popular sem reconstrução estética do povo. Há uma dimensão profunda dos embates políticos que são embates estéticos – entre formas distintas de afecções e circulação da experiência sensível. De certo modo, involuntariamente – como é involuntário todo verdadeiro ato político –, o manifestante que esfaqueou a tela de Di Cavalcanti disse exatamente isso.

Joias das arábias

A sabedoria popular recomenda não mexer no mau cheiro sob pena de piorar o fedor. O caso das joias das arábias, presente do príncipe saudita para o casal Bolsonaro, comprova o dito. Quanto mais se sabe da espantosa história apurada pelo Estadão, mais complicada fica a posição do ex. Bolsonaro, que não vê ilegalidade no mimo, jamais escondeu sua preferência pelos sauditas nas negociações envolvendo a Petrobras, até para a privatização da estatal brasileira. Uma relação que além da “afinidade” com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman envolve bilhões de dólares.

As joias – um conjunto de anel, colar, brincos e relógio masculino de diamantes – foram apreendidas no dia 29 de outubro de 2021, pela Receita Federal em Guarulhos. Estavam na mochila do assessor do então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que, em entrevista gravada pelos repórteres, afirmou se tratar de presentes para o ex e sua mulher Michelle. Albuquerque retornava de uma viagem oficial ao reino de bin Salman, com quem Bolsonaro falara dias antes.


À época, o Palácio do Planalto confirmou as sucessivas conversas telefônicas com o xeique – três em menos de dois meses – e a disposição do saudita de investir pesado nos leilões de petróleo brasileiro. Dois meses depois, o fundo Mubadala, do vizinho Emirados Árabes, arrematou, pela metade do preço, a refinaria Landulpho Alves (Rlam), localizada em São Francisco do Conde, na Bahia. A Rlam tinha sido avaliada entre R$ 17 e R$ 21 bilhões pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) e foi vendida por R$ 10,1 bilhões. Al Saud, príncipe herdeiro dos Emirados, é amigo do peito do saudita bin Salman e seus países têm vários negócios petrolíferos casados.

As relações de Bolsonaro com bin Salman começaram em 2019, quando o ex visitou o Oriente Médio. “Estou apaixonado pela Arábia Saudita”, disse, ao avaliar a viagem e anunciar que o xeique destinaria ao Brasil US$ 10 bilhões do fundo soberano de seu país. O herdeiro teria ainda convidado o Brasil a integrar a Opep, seleto clube dos produtores de petróleo que, na prática, determina o preço do óleo bruto no mercado internacional.

Nem os bilhões de dólares prometidos nem a inserção do Brasil na Opep se materializaram, mas bin Salman continuou prestigiado pelo ex-presidente, que o tratava como “um irmão”. O então ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, apostava nos sauditas em privatizações e leilões de refinarias. Até a venda da Petrobras estava incluída nas especulações.

Confeccionado pela Chopard, uma das mais exclusivas e luxuosas joalherias do mundo, o presente avaliado em R$ 16,5 milhões nem fez cócegas na fortuna de US$ 1,4 trilhão de bin Salman, mas teve o efeito contrário ao pretendido pelo príncipe saudita. Deu e continua dando trabalho ao seu “irmão” brasileiro.

A história é toda cabeluda. Por maior que seja o contorcionismo que agora os ex-assessores de Bolsonaro e ele próprio tentam fazer, não há explicações plausíveis para o presente. Muito menos de ele ter sido acomodado em uma mochila de um assessor como peças que os viajantes tentam passar sem chamar atenção da aduana.

Mais esquisita ainda é a alegação de que ninguém na comitiva, a começar pelo ex-ministro que a chefiava, sabia do conteúdo das caixas que carregavam, o que dificulta – e muito – alterar a narrativa para um presente oficial. Pior: como justificar a insistência de Bolsonaro para recuperar as joias? Se eram do Estado, por que não declará-las previamente? E por que teriam de passar por uma “análise”, como aponta um documento apresentado pelo ex-chefe da Secretaria de Comunicação de Bolsonaro, Fabio Wajngarten, na tentativa de defender seu chefe? Ora, se era necessário avaliar se “deveriam ser incorporadas ao acervo privado do presidente da República ou ao acervo público da Presidência da República”, no mínimo pairavam dúvidas sobre o destino do presente.

O episódio agora será investigado pela Polícia Federal, que, se espera, conseguirá destrinchar o caso e as várias interrogações dele, incluindo as eventuais transações tenebrosas do ex com o reino saudita. Por hora, cabem todos os elogios aos funcionários da Receita que não se dobraram às investidas de Bolsonaro para liberar a preciosa carga.

sexta-feira, 3 de março de 2023

O que restará aos humanos?

No mundo em que vivemos o trabalho desempenha importante função social, dando um sentido à vida das pessoas. Não ter emprego é quase como não ter vida. Desde a primeira revolução industrial vivemos na “sociedade do trabalho”. Essa realidade vem sendo alterada profundamente com o advento da Inteligência Artificial. O fenômeno já tinha sido observado por Yuval Harari em 2016, quando escreveu o livro “Homo Deus: uma breve história do amanhã”, e fez a previsão de que até 2050 surgiria uma nova classe social: a dos inempregáveis.

Ou seja, pessoas “irrelevantes”, cujas profissões tendem a desaparecer em decorrência da substituição do homem pela automação em tarefas repetitivas. Elas não encontrariam espaço nas novas profissões que surgirão a partir do desenvolvimento tecnológico. Assim, a humanidade estaria diante de um duplo desafio: de um lado, assegurar o sustento dessa nova classe social; de outro, encontrar um meio de ocupar o tempo dos “inempregáveis”, dando sentido a suas vidas. Do contrário, ou elas vão enlouquecer ou cairão nas teias de mazelas sociais como o alcoolismo, dependência das drogas, depressão crônica, entre outras.


O risco de vivermos em uma “sociedade do não-trabalho” aumentou extraordinariamente desde a época da previsão de Harari. A Inteligência Artificial, na sua fase preditiva, era capaz de trabalhar com grandes volumes de dados, gerando previsões mais assertivas. A supremacia humana em suas decisões, que já vinha sendo substituída por decisões automatizadas, mudou de patamar. Agora a IA, na fase generativa, invade o espaço até então privativo do homem: o criativo.

A fase atual desse processo é o ChatGPT, capaz de produzir conteúdo original, habilidade que só o homem era capaz. Sim, hoje as máquinas são capazes de compor uma música ou escrever um livro. Elas impactam profundamente na saúde, na educação, no jornalismo e numa infinidade de atividades intelectuais. Em um futuro não muito distante, o exército de inempregáveis pode ser engrossado também por profissionais dessas áreas, sobretudo se eles não se reiventarem para novas profissões.

A IA generativa está no seu limiar, mas veio para promover uma revolução na relação homem-máquina. Autora dos livros “A inteligência artificial vai suplantar a inteligência humana?” e “Desmistificando a Inteligência artificial”, a professora da PUC Dora Kaufman situa a inteligência artificial no patamar de “revelações científicas que em algum sentido questionam a supremacia humana”, assim como questionaram “as descobertas de Giordano Bruno no século dezesseis e as de Charles Darwin no século dezenove”.

Desenvolvido pela empresa OpenAI, o ChatGPT parece ficção científica, mas não é. E, se ele vem assustando muita gente, é porque, como disse Kaufman, “ameaça nossos atributos identitários, espécie de reserva de mercado”. É dela a pergunta pertinente em relação ao futuro da humanidade: “o que restará para os humanos?”

O advento de tecnologias disruptivas sempre provoca receios e incertezas quanto aos benefícios de seu uso. Não está sendo diferente com a IA. Daí ser absolutamente natural a polêmica sobre as vantagens e desvantagens do ChatGPT. Na educação, o debate é intenso, dado o impacto – para o bem ou para o mal – no processo de aprendizagem, portanto na formação profissional, intelectual e ética de nossos jovens.

Não é uma questão banal e preocupa educadores de todo o mundo. Nos Estados Unidos, o departamento de educação da cidade de Nova York proibiu o uso do ChatGPT em sua rede escolar. Não foi um caso isolado. Na França, o Instituto de Estudos Políticos de Paris também o baniu, ao tempo em que revistas acadêmicas como Nature e Science recusam artigos de coautoria com o GPT, por uma razão inconteste: o autor de um artigo acadêmico responde legalmente pelo seu conteúdo e metodologia.

Até certo ponto, entende-se a postura cautelosa. Mas há que se tomar cuidado para não cair em uma posição conservadora, refratária a avanços científicos e tecnológicos. A educação não pode se dar ao luxo de não integrar ao processo de aprendizagem as novas tecnologias. Até porque a IA generativa é hoje o campo de maior investimento da inteligência artificial e deve dar um salto de qualidade nos próximos anos.

A incorporação de tais avanços no processo de aprendizagem aumenta as responsabilidades de educadores e gestores, no sentido de ensinar seus alunos a não aceitar acriticamente conteúdos criados pela ChatGPT. De saber pesquisar, discernir o certo do errado e de usar as novas ferramentas em favor de sua formação para profissões que ainda não existem, mas que existirão quando completar seus ciclos de estudos. E sobretudo a pautar-se por valores éticos na sua relação com a máquina.

Essa é uma questão global. A regulação do uso da IA preditiva e generativa passa a ser uma necessidade e um desafio para todos os governos do planeta. Não é sensato transferir essa missão para as empresas tecnológicas, que já deram sobejas demonstrações da sua incapacidade de se autorregular.

A Inteligência Artificial vem reconfigurando toda a sociedade. A educação não ficará imune a esse processo. Muito menos o mercado de trabalho. Como em todas as revoluções industriais, profissões vão desaparecer e novas surgirão. O alerta de Harari quanto ao surgimento, até o ano de 2050, de uma classe de “desocupados”, sem meio de sobrevivência e sem uma função social deve ser levado em consideração.

Paralelamente, recomenda-se não ter uma visão catastrofista em relação ao uso da inteligência artificial. No século passado o economista John Maynard Keynes preconizou que o desenvolvimento tecnológico traria desemprego em massa. No entanto, a História provou que todas as revoluções industriais geraram mais empregos do que destruíram, por uma razão: desenvolvimento tecnológico resulta em forte expansão da economia e do consumo, fazendo surgir novas atividades para a garantia da sobrevivência das pessoas.

A premonição de Keynes não se confirmou. Não está escrito nas estrelas que a premonição de Harari se confirmará.

Terroir nazi-fascista

Sommelier: “Hum… Notas feudais e chicotadas… com aroma bem acentuado de abuso e desprezo… é um terroir nazi-fascista. Esse vinho é Salton ou Aurora”. Ou da cooperativa Garibaldi, acrescento à fala da personagem no desenho do cartunista Céllus.

Algum parente meu precisou ser muito resistente para vencer a fome, superar os maus tratos e não virar comida de tubarão nas travessias em navios negreiros. E isso foi só uma prévia antes de apanhar pra trabalhar de graça. A “abolição”, assim, entre aspas, aconteceu em 1888, ou seja, já tinha muito preto que morava por aqui e não recebeu um pão dormido, pior que isso, era expulso sem direito nenhum para dar espaço aos imigrantes brancos enquanto se amontoava de qualquer jeito nos morros.

A família Salton, por exemplo, vinda da Itália, desembarcou em 1878, quando existia uma lei de embranquecimento do país. Através de cotas (vejam só) trazia-se imigrantes brancos que recebiam terras. O curioso é o imigrante chegar em 1878 e já em 1893, somente 15 anos depois, seu Antônio Salton já ter um comércio consolidado, com terreno amplo para plantação e elaboração de vinho. Então eu pergunto, para reflexão: se o Brasil tivesse dado terra e dignidade para o escravo preto, quem seria a família milionária dona de uma das maiores fábricas de vinho do país, a família do italiano imigrante ou os descendentes de escravos?


Os cerca de duzentos trabalhadores que foram libertados de trabalhos degradantes, análogos à escravidão na empresa terceirizada por vinícolas da serra gaúcha vieram em sua grande parte da Bahia, nossa Roma Negra. A imagem na capa do jornal é confusa, mas diz muita coisa. Estão sentados “no chão”, alguns descalços e sem camisa, sirenes ao fundo, cercados pela polícia de arma em punho, não os culpados, os criminosos abusadores/torturadores, não, mas os próprios trabalhadores, expostos mais uma vez, humilhados até os ossos, de certo exaustos, confusos de fome e medo.

Mas quando o assunto é a exploração do trabalho no Brasil, não há nada tão ruim que não possa piorar. A corregedoria da polícia militar investiga o envolvimento de PMs suspeitos de acobertar a prática, espancamentos e ameaças ao grupo. Antes mesmo de deixarem o RS nos quatro ônibus em direção à Bahia, numa viagem de mais de 2 dias, Pedro Augusto de Oliveira, o responsável pelo aliciamento, foi preso, porém, pagou fiança de 40mil reais, vai responder em liberdade e propôs uma “acordo” em que cada trabalhador receberia menos de 3mil reais por danos morais. Ué?! A liberdade dele vale muitas mil vezes mais que a dos outros? É escarnio que chama isso?

E a bagaça vai longe. O Centro de Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves divulgou nota dizendo que o problema é que “há larga parcela da população com plenas condições produtivas e que, mesmo assim, encontra-se inativa, sobrevivendo através de um sistema assistencialista que nada tem de salutar para a sociedade”. Então tá, o problema é o bolsa família e não os escravocratas. Ainda em Caxias do Sul o vereador Sandro Fantinel, do Patriota, fez discurso em tribuna recomendando que os empresários da região “não contratem mais aquela gente lá de cima, a cultura dos baianos é viver na praia tocando tambor, que empreguem os argentinos”.

As vinícolas Salton, Aurora e a cooperativa Garibaldi “repudiam e se solidarizam com os trabalhadores”, afirmam estarem tomado “medidas austeras na busca de soluções perenes”. Ufa! Olha, meus parabéns, fico bem mais aliviado. Ao menos agora, ao ler nas embalagens a indicação “contém 30% de suco de uva”, dá pra saber que o restante é um pouco de água (provavelmente desviada), sangue, suor e lágrimas. Vai, Brasél!

quinta-feira, 2 de março de 2023

Inteligência Artificial: Chatbots autoritários


Em seu livro de 1991, Consciousness Explained, o cientista cognitivo Daniel Dennett descreve a ascídia juvenil, que vagueia pelo mar em busca de uma “rocha ou pedaço de coral adequado para… fazer seu lar para toda a vida”. Ao encontrar um, a ascídia não precisa mais do cérebro e o come . É improvável que a humanidade adote tais hábitos culinários, mas há um paralelo metafórico preocupante. A preocupação é que, na competição lucrativa para inserir inteligência artificial em nossas vidas diárias, os humanos estão se emburrecendo ao se tornarem excessivamente dependentes de máquinas “inteligentes” – e corroendo as práticas das quais sua compreensão depende.

O cérebro humano está evoluindo. Três mil anos atrás, nossos ancestrais tinham cérebros maiores que os nossos. Pelo menos uma explicação é que a inteligência tornou-se cada vez mais coletiva há 100 gerações – e os humanos ultrapassaram um limite populacional que viu indivíduos compartilhando informações. O professor Dennett escreveu que a expansão mais notável dos poderes mentais humanos – a ascensão da civilização por meio da arte e da agricultura – foi quase instantânea de uma perspectiva evolutiva.


Essa socialização do pensamento sináptico agora está sendo testada por um tipo diferente de troca de informações: a capacidade da IA de responder a qualquer solicitação com linguagem que soe humana – sugerindo algum tipo de intenção, até mesmo senciência. Mas isso é uma miragem. Os computadores tornaram-se mais completos, mas carecem de uma compreensão genuína, alimentada nos humanos pela evolução como indivíduos autônomos inseridos em uma teia de práticas sociais. ChatGPT , o imitador mais humano, pode gerar uma prosa elegante. Mas a matemática básica está errada. Pode ser racista e sexista. O ChatGPT não tem nostalgia, nem esquemas e nem reflexões. Então, por que todo o alarido? Em suma, dinheiro.

Quando a nova ferramenta de busca do Google com inteligência artificial, a Bard, foi flagrada esta semana com um erro em um vídeo promocional, o erro eliminou mais de US$ 150 bilhões do preço das ações de sua controladora Alphabet. Por que, perguntou-se o neurocientista Gary Marcus , o mecanismo de busca Bing da Microsoft, alimentado por ChatGPT e revelado no mesmo dia que Bard, foi aclamado como “uma revolução” apesar de oferecer um serviço repleto de erros? A resposta é a chance de que a humanidade esteja “bingando” em vez de “pesquisando” na web. Isso não parece irracional: o ChatGPT encantou milhões de pessoas desde que foi lançado no final de novembro.

O problema é que isso é apenas vibrações. Chatbots soam mais autoritários, mas não são mais verdadeiros. O professor Marcus aponta que seus erros, ou alucinações , estão em seu “sangue de silício”, um subproduto da maneira como eles comprimem suas entradas. “Como nenhuma das empresas submeteu seus produtos a uma revisão científica completa, é impossível dizer qual é mais confiável”, escreve ele. “Pode acontecer que o novo produto do Google seja realmente mais confiável.”

Todas as megacorporações adquiriram uma riqueza de informações de forma explorável sem ter que entendê-las. Jornalistas, políticos e poetas podem estar muito preocupados com os aspectos “semânticos” da comunicação, mas não tanto com os engenheiros de IA. Eles olham para a informação em uma mensagem como uma medida da desordem do sistema. É por isso que a IA corre o risco de criar uma nova classe de armas em uma guerra contra a verdade.

Os seres humanos têm um longo histórico de pensamentos positivos e subestimam os riscos de novos avanços. Interesses comerciais impulsionam a tecnologia como uma nova religião cujo artigo de fé central é que mais tecnologia é sempre melhor. Gigantes da web querem deslumbrar os usuários a superestimar a utilidade de suas ferramentas de IA encorajando a humanidade a ceder prematuramente autoridade a eles muito além de sua competência. A atitude empreendedora e a curiosidade científica produziram muitos dos avanços da era moderna. Mas o progresso não é um princípio ético . O perigo não é máquinas sendo tratadas como humanos, mas humanos sendo tratados como máquinas.
Editorial -The Guardian