sábado, 15 de outubro de 2022
Uma campanha regida pelo crime
Jair Bolsonaro instalou o modo arruaça na disputa eleitoral. Tem a arruaça pura e simples, como aconteceu na basílica de Nossa Senhora Aparecida. Desordeiros abastecidos de fanatismo alastraram ódio num lugar destinado à paz e ao conforto espiritual.
Na arruaça cognitiva, ninguém supera Damares Alves e suas delirantes depravações mentais. O padrão de lentidão das autoridades não é páreo para a velocidade supersônica do aparato de propagação de mentiras da extrema direita. Nem o boné de Lula escapou da arruaça digital.
Não podiam faltar os arruaceiros engravatados. A tropa de choque no Congresso, nutrida pelo orçamento secreto, quer criminalizar os institutos de pesquisa. A Polícia Federal e o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriram outras frentes de pressão, estas, felizmente, contidas a tempo pelo presidente do TSE, Alexandre de Moraes.
Os arruaceiros do bolsonarismo não são simples baderneiros. São criminosos que agem de forma coordenada para tumultuar o segundo turno da eleição. Contam também com outras modalidades de crime, como a ameaça aos empregos de trabalhadores e a compra de votos por fazendeiros e empresários, que nos catapulta de volta à República Velha e ao voto de cabresto.
Bolsonaro age com a técnica dos prestidigitadores. Distrai a audiência (o eleitor) com a guerra santa e o submundo digital, enquanto a campanha coleciona ilegalidades e exemplos de abuso de poder político e econômico. Uma ação toda construída na lógica do crime consegue escapar não só dos mecanismos normais de fiscalização como também do monitoramento das pesquisas. Simplesmente porque nada é normal numa campanha regida pelo crime.
Neste cenário eleitoral completamente deformado, é impossível ter qualquer segurança sobre o que sairá das urnas, daqui a duas semanas. A única certeza é que, no vale-tudo da campanha extremista, Bolsonaro ainda não esgotou seu repertório de crimes contra a democracia.
Na arruaça cognitiva, ninguém supera Damares Alves e suas delirantes depravações mentais. O padrão de lentidão das autoridades não é páreo para a velocidade supersônica do aparato de propagação de mentiras da extrema direita. Nem o boné de Lula escapou da arruaça digital.
Não podiam faltar os arruaceiros engravatados. A tropa de choque no Congresso, nutrida pelo orçamento secreto, quer criminalizar os institutos de pesquisa. A Polícia Federal e o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriram outras frentes de pressão, estas, felizmente, contidas a tempo pelo presidente do TSE, Alexandre de Moraes.
Os arruaceiros do bolsonarismo não são simples baderneiros. São criminosos que agem de forma coordenada para tumultuar o segundo turno da eleição. Contam também com outras modalidades de crime, como a ameaça aos empregos de trabalhadores e a compra de votos por fazendeiros e empresários, que nos catapulta de volta à República Velha e ao voto de cabresto.
Bolsonaro age com a técnica dos prestidigitadores. Distrai a audiência (o eleitor) com a guerra santa e o submundo digital, enquanto a campanha coleciona ilegalidades e exemplos de abuso de poder político e econômico. Uma ação toda construída na lógica do crime consegue escapar não só dos mecanismos normais de fiscalização como também do monitoramento das pesquisas. Simplesmente porque nada é normal numa campanha regida pelo crime.
Neste cenário eleitoral completamente deformado, é impossível ter qualquer segurança sobre o que sairá das urnas, daqui a duas semanas. A única certeza é que, no vale-tudo da campanha extremista, Bolsonaro ainda não esgotou seu repertório de crimes contra a democracia.
Desumanos sempre bem nutridos
a minha fome
mais do que de alimento
é fome de amor
Uzodinma Iweala, autor nigeriano de "Feras de Lugar Nenhum"
Os trens de Mussolini
Lembro-me como se fosse hoje. Era aluno num conhecido ginásio em Belo Horizonte, e, entre uma aula e outra, numa roda de conversa, o professor de Filosofia, ex-integralista, falava entusiasmado sobre as vantagens do fascismo. Eu ouvia espantado, e disse que não poderia concordar com aquilo, que eu vinha de uma família judia e muitos meus familiares haviam sido assassinados nos campos de concentração. “Ah, entendo”, disse o professor, “então você tem um problema pessoal com isso”.
Eram os anos da guerra fria, em que os Estados Unidos e a União Soviética e seus seguidores disputavam não somente a hegemonia internacional, mas também o lugar de quem melhor encarnava os valores dos que haviam se unido para conter o monstro do nazifascismo, proclamados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Os Estados Unidos e a Europa Ocidental empunhavam as bandeiras da democracia, liberdades individuais e direito à propriedade, e a União Soviética, as bandeiras do fim da pobreza, desigualdade e exploração.
Dos dois lados, havia os que acreditavam firmemente em suas bandeiras e apontavam o dedo para as violações cotidianas desses direitos feitas pelo outro. Mas havia também os que viam como, em ambos, a lógica do poder e de defesa dos interesses estabelecidos muitas vezes se sobrepunha ao discurso humanitário. Na União Soviética, os últimos vestígios da democracia participativa haviam sido enterrados pelos expurgos de Stalin, e nos Estados Unidos os princípios da liberdade e igualdade eram violados diariamente pela persistência da desigualdade social e do racismo. Internacionalmente, a União Soviética impunha com mão de ferro seu poder sobre a Europa Oriental, e os Estados Unidos, em nome da luta contra o comunismo e para defender os interesses de suas companhias, apoiavam as ditaduras latino-americanas e os remanescentes do colonialismo na África e na Ásia, muitas vezes de forma sangrenta, como no Vietnã.
Para quem pensava que o mais importante era a promessa dos direitos sociais, as restrições à democracia e aos direitos humanos nos regimes socialistas eram vistas como “erros”, pequenos pecados que poderiam ser eventualmente corrigidos, ou inevitáveis na luta contra os inimigos e por um mundo melhor. Do outro lado, para quem valorizava sobretudo a liberdade econômica e os direitos civis, a pobreza e o apoio a ditaduras totalitárias eram também descontados como problemas circunstanciais, que eventualmente seriam resolvidos num regime de liberdade política e econômica. E havia os que concluíam que, no fundo, todos eram cínicos, a única coisa que realmente importava era a disputa pelo poder político e econômico, e que os discursos dos direitos humanos não passavam de um amontoado vazio de palavras.
Esta disputa entre valores, e de regimes políticos que dão mais ênfase a umas partes do que outras dos direitos humanos, marcou o mundo ao longo do século 20 e só foi interrompida pela novidade do nazifascismo, que foi além do cinismo e passou a incorporar como valores a guerra, a xenofobia, a violência, o racismo e a discriminação. Era uma doutrina que se dizia inspirar em supostas tradições, identidades e sentimentos mais profundos dos povos, muitas vezes de cunho religioso, diante dos quais os discursos sobre valores e direitos, e a própria racionalidade abstrata das ciências sociais e naturais, cultivadas, segundo eles, pelas elites cosmopolitas, perdiam sentido.
A História mostrou o horror e o desastre criados por essa doutrina, e os importantes resultados trazidos pela liberdade política e econômica e pelos movimentos em prol dos direitos sociais. É inegável que hoje, em todo o mundo e no agregado, existe menos pobreza, miséria e opressão do que cem anos atrás, e que estamos muito mais próximos dos ideais dos direitos humanos do que jamais estivemos. Mas a distância ainda é grande, mais para determinados grupos e povos do que para outros, e o próprio progresso gera expectativas que acabam se transformando em frustração e ressentimento.
É esse o caldo de cultura para o ressurgimento das doutrinas fascistas e autoritárias, de valorização da violência, xenofobia e ataque às instituições da democracia liberal. Mussolini, afinal, fez os trens italianos andarem no horário, e o nazismo tirou a Alemanha da depressão dos tempos da República de Weimar. Será que isso não é mais importante, como pensava meu professor de Filosofia, do que a retórica da ética e dos direitos?
É assim, também, que raciocinam muitos dos que hoje, no Brasil, não dão maior importância ao crescimento da extrema direita e a alimentam como a maneira mais prática de conseguir determinados resultados. Mas o que está principalmente em disputa não é saber quem é mais ou menos corrupto, ou quem dá mais prioridade à liberdade econômica ou aos direitos sociais, e sim quem defende ou quem trabalha para romper o consenso sobre os direitos humanos e o regime democrático, que, bem ou mal, nos trouxeram até aqui. Eu tenho, sim, um problema pessoal com isso, e espero que não seja só meu.
Eram os anos da guerra fria, em que os Estados Unidos e a União Soviética e seus seguidores disputavam não somente a hegemonia internacional, mas também o lugar de quem melhor encarnava os valores dos que haviam se unido para conter o monstro do nazifascismo, proclamados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Os Estados Unidos e a Europa Ocidental empunhavam as bandeiras da democracia, liberdades individuais e direito à propriedade, e a União Soviética, as bandeiras do fim da pobreza, desigualdade e exploração.
Dos dois lados, havia os que acreditavam firmemente em suas bandeiras e apontavam o dedo para as violações cotidianas desses direitos feitas pelo outro. Mas havia também os que viam como, em ambos, a lógica do poder e de defesa dos interesses estabelecidos muitas vezes se sobrepunha ao discurso humanitário. Na União Soviética, os últimos vestígios da democracia participativa haviam sido enterrados pelos expurgos de Stalin, e nos Estados Unidos os princípios da liberdade e igualdade eram violados diariamente pela persistência da desigualdade social e do racismo. Internacionalmente, a União Soviética impunha com mão de ferro seu poder sobre a Europa Oriental, e os Estados Unidos, em nome da luta contra o comunismo e para defender os interesses de suas companhias, apoiavam as ditaduras latino-americanas e os remanescentes do colonialismo na África e na Ásia, muitas vezes de forma sangrenta, como no Vietnã.
Para quem pensava que o mais importante era a promessa dos direitos sociais, as restrições à democracia e aos direitos humanos nos regimes socialistas eram vistas como “erros”, pequenos pecados que poderiam ser eventualmente corrigidos, ou inevitáveis na luta contra os inimigos e por um mundo melhor. Do outro lado, para quem valorizava sobretudo a liberdade econômica e os direitos civis, a pobreza e o apoio a ditaduras totalitárias eram também descontados como problemas circunstanciais, que eventualmente seriam resolvidos num regime de liberdade política e econômica. E havia os que concluíam que, no fundo, todos eram cínicos, a única coisa que realmente importava era a disputa pelo poder político e econômico, e que os discursos dos direitos humanos não passavam de um amontoado vazio de palavras.
Esta disputa entre valores, e de regimes políticos que dão mais ênfase a umas partes do que outras dos direitos humanos, marcou o mundo ao longo do século 20 e só foi interrompida pela novidade do nazifascismo, que foi além do cinismo e passou a incorporar como valores a guerra, a xenofobia, a violência, o racismo e a discriminação. Era uma doutrina que se dizia inspirar em supostas tradições, identidades e sentimentos mais profundos dos povos, muitas vezes de cunho religioso, diante dos quais os discursos sobre valores e direitos, e a própria racionalidade abstrata das ciências sociais e naturais, cultivadas, segundo eles, pelas elites cosmopolitas, perdiam sentido.
A História mostrou o horror e o desastre criados por essa doutrina, e os importantes resultados trazidos pela liberdade política e econômica e pelos movimentos em prol dos direitos sociais. É inegável que hoje, em todo o mundo e no agregado, existe menos pobreza, miséria e opressão do que cem anos atrás, e que estamos muito mais próximos dos ideais dos direitos humanos do que jamais estivemos. Mas a distância ainda é grande, mais para determinados grupos e povos do que para outros, e o próprio progresso gera expectativas que acabam se transformando em frustração e ressentimento.
É esse o caldo de cultura para o ressurgimento das doutrinas fascistas e autoritárias, de valorização da violência, xenofobia e ataque às instituições da democracia liberal. Mussolini, afinal, fez os trens italianos andarem no horário, e o nazismo tirou a Alemanha da depressão dos tempos da República de Weimar. Será que isso não é mais importante, como pensava meu professor de Filosofia, do que a retórica da ética e dos direitos?
É assim, também, que raciocinam muitos dos que hoje, no Brasil, não dão maior importância ao crescimento da extrema direita e a alimentam como a maneira mais prática de conseguir determinados resultados. Mas o que está principalmente em disputa não é saber quem é mais ou menos corrupto, ou quem dá mais prioridade à liberdade econômica ou aos direitos sociais, e sim quem defende ou quem trabalha para romper o consenso sobre os direitos humanos e o regime democrático, que, bem ou mal, nos trouxeram até aqui. Eu tenho, sim, um problema pessoal com isso, e espero que não seja só meu.
sexta-feira, 14 de outubro de 2022
Não matarás
Os culpados pela opressão dos povos e pelas matanças das guerras não são os Alexandres, Humbertos, Guilhermes, Nicolaus e Chamberlains, que dirigem essas opressões e essas guerras, mas aqueles que os colocaram e os apoiam nessas posições de senhores da vida das pessoas. Por isso, o que se deve fazer não é matar os Alexandres, Nicolaus , Guilhermes, Humbertos, mas deixar de apoiar o regime social que os produz. E aquilo que apoia o actual regime das sociedades é o egoísmo das pessoas, que vendem a sua liberdade e a sua honra pelas suas pequenas vantagens materiais.
As pessoas que estão no último degrau da escala social, em parte devido à estupidificação, em parte devido às vantagens ela educação patriótica e falsamente religiosa, em parte devido às vantagens sociais, renunciam à sua liberdade e ao sentido da dignidade humana em benefício daqueles que estão acima delas e lhes propõem vantagens materiais. Em igual situação se encontram aquelas pessoas que num degrau da escada um pouco mais acima e que também , devido à estupidificação e principalmente às vantagens , renunciam à sua liberdade e á dignidade humana ; e também os que estão ainda um pouco mais acima, e assim continua até aos degraus mais altos, até às pessoas ou à pessoa que está no topo do cone e que já não tem mais nada a obter, para quem o único motivo de actividade é a sede de poder e a vanglória e que habitualmente está tão pervertida e estupidificada pelo poder sobre a vida e a morte das pessoas e pela adulação e o servilismo daqueles que o rodeiam que , sem parar de praticar o mal, está plenamente convencido de que é um benfeitor da humanidade.
Para que não houvesse opressão dos povos e não fossem necessárias as guerras e ninguém se insurgisse com aqueles que parecem causar esses males, e pudessem não os querer matar, seria necessário, ao que parece , muito pouca coisa: concretamente, apenas que as pessoas compreendessem as coisas como elas são e as chamassem pelos seus verdadeiros nomes ; soubessem que o exército é um instrumento de morte, e que a formação e direcção de um exército - precisamente aquilo de que se ocupam com tanta convicção os reis, imperadores e presidents - é a preparação do assassínio.
Bastava que cada rei, imperador ou presidente compreendesse que a sua função de dirigir exércitos não é uma ocupação honrosa e importante, como lhes incutem os seus aduladores, mas uma ocupação nojenta e vergonhosa de preparação de assassínios; e que cada pessoa individualmente compreendesse que o pagamento de impostos com os quais se pagam e se armam os soldados, e mais ainda a prestação de serviço militar, não são procedimentos indiferentes, mas procedimentos maus e vergonhosos não apenas de conivência mas de preparação no assassínio - e desapareceria por si mesmo esse poder dos imperadores, presidentes e reis que tanto nos indigna.
Não é portanto necessário matar Alexandre, Carnot, Humberto e outros, o que é preciso é explicar-lhes que eles próprios são assassinos, e principalmente não lhes permitir que matem pessoas que se recusam a matar por ordem deles.
Se as pessoas ainda não procedem assim , isso deve-se apenas àquela hipnose em que os governos diligentemente as mantêm , por instinto de autoconservação. E por conseguinte, não é através dos assassínios que se pode contribuir para que os homens deixem de matar os reis e de se matarem uns aos outros - os assassínios, pelo contrário, reforçam a hipnose- , mas fazendo-os despertar da hipnose.
Lev Tolstoi , "Os últimos Escritos"
As pessoas que estão no último degrau da escala social, em parte devido à estupidificação, em parte devido às vantagens ela educação patriótica e falsamente religiosa, em parte devido às vantagens sociais, renunciam à sua liberdade e ao sentido da dignidade humana em benefício daqueles que estão acima delas e lhes propõem vantagens materiais. Em igual situação se encontram aquelas pessoas que num degrau da escada um pouco mais acima e que também , devido à estupidificação e principalmente às vantagens , renunciam à sua liberdade e á dignidade humana ; e também os que estão ainda um pouco mais acima, e assim continua até aos degraus mais altos, até às pessoas ou à pessoa que está no topo do cone e que já não tem mais nada a obter, para quem o único motivo de actividade é a sede de poder e a vanglória e que habitualmente está tão pervertida e estupidificada pelo poder sobre a vida e a morte das pessoas e pela adulação e o servilismo daqueles que o rodeiam que , sem parar de praticar o mal, está plenamente convencido de que é um benfeitor da humanidade.
São os próprios povos, ao sacrificarem a sua dignidade humana em troca das suas vantagens , que produzem esses homens , os quais não podem fazer outra coisa a não ser aquilo que fazem; e depois zangam-se com eles pelos seus actos estúpidos e maus. Matar esses homens é como mimar as crianças e depois açoitá-las.
Para que não houvesse opressão dos povos e não fossem necessárias as guerras e ninguém se insurgisse com aqueles que parecem causar esses males, e pudessem não os querer matar, seria necessário, ao que parece , muito pouca coisa: concretamente, apenas que as pessoas compreendessem as coisas como elas são e as chamassem pelos seus verdadeiros nomes ; soubessem que o exército é um instrumento de morte, e que a formação e direcção de um exército - precisamente aquilo de que se ocupam com tanta convicção os reis, imperadores e presidents - é a preparação do assassínio.
Bastava que cada rei, imperador ou presidente compreendesse que a sua função de dirigir exércitos não é uma ocupação honrosa e importante, como lhes incutem os seus aduladores, mas uma ocupação nojenta e vergonhosa de preparação de assassínios; e que cada pessoa individualmente compreendesse que o pagamento de impostos com os quais se pagam e se armam os soldados, e mais ainda a prestação de serviço militar, não são procedimentos indiferentes, mas procedimentos maus e vergonhosos não apenas de conivência mas de preparação no assassínio - e desapareceria por si mesmo esse poder dos imperadores, presidentes e reis que tanto nos indigna.
Não é portanto necessário matar Alexandre, Carnot, Humberto e outros, o que é preciso é explicar-lhes que eles próprios são assassinos, e principalmente não lhes permitir que matem pessoas que se recusam a matar por ordem deles.
Se as pessoas ainda não procedem assim , isso deve-se apenas àquela hipnose em que os governos diligentemente as mantêm , por instinto de autoconservação. E por conseguinte, não é através dos assassínios que se pode contribuir para que os homens deixem de matar os reis e de se matarem uns aos outros - os assassínios, pelo contrário, reforçam a hipnose- , mas fazendo-os despertar da hipnose.
Lev Tolstoi , "Os últimos Escritos"
O Jair que há em nós
O Brasil levará décadas para compreender o que aconteceu naquele nebuloso ano de 2018, quando seus eleitores escolheram, para presidir o país, Jair Bolsonaro. Ex-integrante do Exército onde respondeu processo administrativo sob acusação de organização de ato terrorista; deputado de sete mandatos conhecido não pelos dois projetos de lei que conseguiu aprovar em 28 anos, mas pelas maquinações do submundo que incluem denúncias de “rachadinha”, contratação de parentes e envolvimento com milícias; ganhador do troféu de campeão nacional da escatologia, da falta de educação e das ofensas de todos os matizes de preconceito que se pode listar.
Embora seu discurso seja de negação da “velha política”, Bolsonaro, na verdade, representa não sua negação, mas o que há de pior nela. Ele é a materialização do lado mais nefasto, mais autoritário e mais inescrupuloso do sistema político brasileiro. Mas – e esse é o ponto que quero discutir hoje – ele está longe de ser algo surgido do nada ou brotado do chão pisoteado pela negação da política, alimentada nos anos que antecederam as eleições.
Pelo contrário, como pesquisador das relações entre cultura e comportamento político, estou cada vez mais convencido de que Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país.
Quando me refiro ao “brasileiro médio”, obviamente não estou tratando da imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e “malandro”. Refiro-me à sua versão mais obscura e, infelizmente, mais realista segundo o que minhas pesquisas e minha experiência têm demonstrado.
No “mundo real” o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.
Os avanços civilizatórios que o mundo viveu, especialmente a partir da segunda metade do século XX, inevitavelmente chegaram ao país. Se materializaram em legislações, em políticas públicas (de inclusão, de combate ao racismo e ao machismo, de criminalização do preconceito), em diretrizes educacionais para escolas e universidades. Mas, quando se trata de valores arraigados, é preciso muito mais para mudar padrões culturais de comportamento.
O machismo foi tornado crime, o que lhe reduz as manifestações públicas e abertas. Mas ele sobrevive no imaginário da população, no cotidiano da vida privada, nas relações afetivas e nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de whatsapp, nas piadas diárias, nos comentários entre os amigos “de confiança”, nos pequenos grupos onde há certa garantia de que ninguém irá denunciá-lo.
O mesmo ocorre com o racismo, com o preconceito em relação aos pobres, aos nordestinos, aos homossexuais. Proibido de se manifestar, ele sobrevive internalizado, reprimido não por convicção decorrente de mudança cultural, mas por medo do flagrante que pode levar a punição. É por isso que o politicamente correto, por aqui, nunca foi expressão de conscientização, mas algo mal visto por “tolher a naturalidade do cotidiano”.
Se houve avanços – e eles são, sim, reais – nas relações de gênero, na inclusão de negros e homossexuais, foi menos por superação cultural do preconceito do que pela pressão exercida pelos instrumentos jurídicos e policiais.
Mas, como sempre ocorre quando um sentimento humano é reprimido, ele é armazenado de algum modo. Ele se acumula, infla e, um dia, encontrará um modo de extravasar. Como aquele desejo do menino piromaníaco que era obcecado pelo fogo e pela ideia de queimar tudo a sua volta, reprimido pelo controle dos pais e da sociedade. Reprimido por anos, um dia ele se manifesta num projeto profissional que faz do homem adulto um bombeiro, permitindo-lhe estar perto do fogo de uma forma socialmente aceitável.
Foi algo parecido que aconteceu com o “brasileiro médio”, com todos os seus preconceitos reprimidos e, a duras penas, escondidos, que viu em um candidato a Presidência da República essa possibilidade de extravasamento. Eis que ele tinha a possibilidade de escolher, como seu representante e líder máximo do país, alguém que podia ser e dizer tudo o que ele também pensa, mas que não pode expressar por ser um “cidadão comum”.
Agora esse “cidadão comum” tem voz. Ele de fato se sente representado pelo Presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. Ele se sente importante quando seu “mito” enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que sua própria ignorância não permite compreender.
Esse cidadão se vê empoderado quando as lideranças políticas que ele elegeu negam os problemas ambientais, pois eles são anunciados por cientistas que ele próprio vê como inúteis e contrários às suas crenças religiosas. Sente um prazer profundo quando seu governante maior faz acusações moralistas contra desafetos, e quando prega a morte de “bandidos” e a destruição de todos os opositores.
Ao assistir o show de horrores diário produzido pelo “mito”, esse cidadão não é tocado pela aversão, pela vergonha alheia ou pela rejeição do que vê. Ao contrário, ele sente aflorar em si mesmo o Jair que vive dentro de cada um, que fala exatamente aquilo que ele próprio gostaria de dizer, que extravasa sua versão reprimida e escondida no submundo do seu eu mais profundo e mais verdadeiro.
O “brasileiro médio” não entende patavinas do sistema democrático e de como ele funciona, da independência e autonomia entre os poderes, da necessidade de isonomia do judiciário, da importância dos partidos políticos e do debate de ideias e projetos que é responsabilidade do Congresso Nacional. É essa ignorância política que lhe faz ter orgasmos quando o Presidente incentiva ataques ao Parlamento e ao STF, instâncias vistas pelo “cidadão comum” como lentas, burocráticas, corrompidas e desnecessárias. Destruí-las, portanto, em sua visão, não é ameaçar todo o sistema democrático, mas condição necessária para fazê-lo funcionar.
Esse brasileiro não vai pra rua para defender um governante lunático e medíocre; ele vai gritar para que sua própria mediocridade seja reconhecida e valorizada, e para sentir-se acolhido por outros lunáticos e medíocres que formam um exército de fantoches cuja força dá sustentação ao governo que o representa.
O “brasileiro médio” gosta de hierarquia, ama a autoridade e a família patriarcal, condena a homossexualidade, vê mulheres, negros e índios como inferiores e menos capazes, tem nojo de pobre, embora seja incapaz de perceber que é tão pobre quanto os que condena. Vê a pobreza e o desemprego dos outros como falta de fibra moral, mas percebe a própria miséria e falta de dinheiro como culpa dos outros e falta de oportunidade. Exige do governo benefícios de toda ordem que a lei lhe assegura, mas acha absurdo quando outros, principalmente mais pobres, têm o mesmo benefício.
Poucas vezes na nossa história o povo brasileiro esteve tão bem representado por seus governantes. Por isso não basta perguntar como é possível que um Presidente da República consiga ser tão indigno do cargo e ainda assim manter o apoio incondicional de um terço da população. A questão a ser respondida é como milhões de brasileiros mantêm vivos padrões tão altos de mediocridade, intolerância, preconceito e falta de senso crítico ao ponto de sentirem-se representados por tal governo.
Embora seu discurso seja de negação da “velha política”, Bolsonaro, na verdade, representa não sua negação, mas o que há de pior nela. Ele é a materialização do lado mais nefasto, mais autoritário e mais inescrupuloso do sistema político brasileiro. Mas – e esse é o ponto que quero discutir hoje – ele está longe de ser algo surgido do nada ou brotado do chão pisoteado pela negação da política, alimentada nos anos que antecederam as eleições.
Pelo contrário, como pesquisador das relações entre cultura e comportamento político, estou cada vez mais convencido de que Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país.
Quando me refiro ao “brasileiro médio”, obviamente não estou tratando da imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e “malandro”. Refiro-me à sua versão mais obscura e, infelizmente, mais realista segundo o que minhas pesquisas e minha experiência têm demonstrado.
No “mundo real” o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.
Os avanços civilizatórios que o mundo viveu, especialmente a partir da segunda metade do século XX, inevitavelmente chegaram ao país. Se materializaram em legislações, em políticas públicas (de inclusão, de combate ao racismo e ao machismo, de criminalização do preconceito), em diretrizes educacionais para escolas e universidades. Mas, quando se trata de valores arraigados, é preciso muito mais para mudar padrões culturais de comportamento.
O machismo foi tornado crime, o que lhe reduz as manifestações públicas e abertas. Mas ele sobrevive no imaginário da população, no cotidiano da vida privada, nas relações afetivas e nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de whatsapp, nas piadas diárias, nos comentários entre os amigos “de confiança”, nos pequenos grupos onde há certa garantia de que ninguém irá denunciá-lo.
O mesmo ocorre com o racismo, com o preconceito em relação aos pobres, aos nordestinos, aos homossexuais. Proibido de se manifestar, ele sobrevive internalizado, reprimido não por convicção decorrente de mudança cultural, mas por medo do flagrante que pode levar a punição. É por isso que o politicamente correto, por aqui, nunca foi expressão de conscientização, mas algo mal visto por “tolher a naturalidade do cotidiano”.
Se houve avanços – e eles são, sim, reais – nas relações de gênero, na inclusão de negros e homossexuais, foi menos por superação cultural do preconceito do que pela pressão exercida pelos instrumentos jurídicos e policiais.
Mas, como sempre ocorre quando um sentimento humano é reprimido, ele é armazenado de algum modo. Ele se acumula, infla e, um dia, encontrará um modo de extravasar. Como aquele desejo do menino piromaníaco que era obcecado pelo fogo e pela ideia de queimar tudo a sua volta, reprimido pelo controle dos pais e da sociedade. Reprimido por anos, um dia ele se manifesta num projeto profissional que faz do homem adulto um bombeiro, permitindo-lhe estar perto do fogo de uma forma socialmente aceitável.
Foi algo parecido que aconteceu com o “brasileiro médio”, com todos os seus preconceitos reprimidos e, a duras penas, escondidos, que viu em um candidato a Presidência da República essa possibilidade de extravasamento. Eis que ele tinha a possibilidade de escolher, como seu representante e líder máximo do país, alguém que podia ser e dizer tudo o que ele também pensa, mas que não pode expressar por ser um “cidadão comum”.
Agora esse “cidadão comum” tem voz. Ele de fato se sente representado pelo Presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. Ele se sente importante quando seu “mito” enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que sua própria ignorância não permite compreender.
Esse cidadão se vê empoderado quando as lideranças políticas que ele elegeu negam os problemas ambientais, pois eles são anunciados por cientistas que ele próprio vê como inúteis e contrários às suas crenças religiosas. Sente um prazer profundo quando seu governante maior faz acusações moralistas contra desafetos, e quando prega a morte de “bandidos” e a destruição de todos os opositores.
Ao assistir o show de horrores diário produzido pelo “mito”, esse cidadão não é tocado pela aversão, pela vergonha alheia ou pela rejeição do que vê. Ao contrário, ele sente aflorar em si mesmo o Jair que vive dentro de cada um, que fala exatamente aquilo que ele próprio gostaria de dizer, que extravasa sua versão reprimida e escondida no submundo do seu eu mais profundo e mais verdadeiro.
O “brasileiro médio” não entende patavinas do sistema democrático e de como ele funciona, da independência e autonomia entre os poderes, da necessidade de isonomia do judiciário, da importância dos partidos políticos e do debate de ideias e projetos que é responsabilidade do Congresso Nacional. É essa ignorância política que lhe faz ter orgasmos quando o Presidente incentiva ataques ao Parlamento e ao STF, instâncias vistas pelo “cidadão comum” como lentas, burocráticas, corrompidas e desnecessárias. Destruí-las, portanto, em sua visão, não é ameaçar todo o sistema democrático, mas condição necessária para fazê-lo funcionar.
Esse brasileiro não vai pra rua para defender um governante lunático e medíocre; ele vai gritar para que sua própria mediocridade seja reconhecida e valorizada, e para sentir-se acolhido por outros lunáticos e medíocres que formam um exército de fantoches cuja força dá sustentação ao governo que o representa.
O “brasileiro médio” gosta de hierarquia, ama a autoridade e a família patriarcal, condena a homossexualidade, vê mulheres, negros e índios como inferiores e menos capazes, tem nojo de pobre, embora seja incapaz de perceber que é tão pobre quanto os que condena. Vê a pobreza e o desemprego dos outros como falta de fibra moral, mas percebe a própria miséria e falta de dinheiro como culpa dos outros e falta de oportunidade. Exige do governo benefícios de toda ordem que a lei lhe assegura, mas acha absurdo quando outros, principalmente mais pobres, têm o mesmo benefício.
Poucas vezes na nossa história o povo brasileiro esteve tão bem representado por seus governantes. Por isso não basta perguntar como é possível que um Presidente da República consiga ser tão indigno do cargo e ainda assim manter o apoio incondicional de um terço da população. A questão a ser respondida é como milhões de brasileiros mantêm vivos padrões tão altos de mediocridade, intolerância, preconceito e falta de senso crítico ao ponto de sentirem-se representados por tal governo.
País de caricatura
O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco. A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política nada temos a invejar ao reino de LiliputeMachado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, de 29/12/1861
A herança bolsonarista é profunda
Assumir a cadeira presidencial em 2023 será bem mais difícil do que em qualquer outro período da história recente. Claro que sempre é complicado governar o Brasil, um país complexo, desigual, com um sistema político que exige muitas negociações e com parte dos parlamentares interessados mais em negociatas do que no interesse público. Isso faz parte do jogo. Mas o bolsonarismo deixou uma herança que amplia os obstáculos à governabilidade em dois sentidos: ele não resolveu ou aprofundou os problemas do país e, pior, criou travas para a resolução das grandes questões nacionais.
O primeiro sentido da herança negativa do bolsonarismo está expresso no conjunto de problemas que ele deixou ou agravou em quatro grandes áreas de políticas públicas. A primeira refere-se às políticas sociais, cujas estruturas construídas em décadas foram desmontadas. Pegue-se o exemplo da saúde e da educação e se constata que o desastre foi enorme, com consequências de curto e longo prazo.
O fracasso na saúde ficou bem claro com a má condução da política nacional contra a pandemia de covid-19. Se não fosse o SUS, com seus profissionais qualificados e sua estrutura que ajudou a construir os serviços nos estados e municípios, talvez tivéssemos um número mais próximo de 1 milhão de mortes. Mas se não tivesse havido o negacionismo e a descoordenação federativa produzida por quem deveria zelar para cooperação entre os níveis de governo, a quantidade de óbitos teria sido bem menor. Especialistas calculam que em torno de 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas, para não falar daqueles que estão até hoje sofrendo sequelas terríveis da doença.
Os problemas da política sanitária bolsonarista não estão apenas no combate à covid-19. A cobertura vacinal do país está caindo vertiginosamente e a dengue explodiu neste ano, o que revela que o país não tem estratégias para combater doenças que atingem muita gente. Igualmente desastrosa é a gestão dos insumos de saúde, com a falta de vários medicamentos básicos no SUS, como não acontecia desde o início da década de 1990. E os programas para grupos mais vulneráveis, como a população indígena, tiveram um retrocesso gigantesco.
O fato é que o país está menos preparado agora para epidemias ou pandemias que podem nos assolar nos próximos anos, algo que, infelizmente, tem condições críveis de ocorrer. O esgarçamento do SUS vai aumentar a mortalidade e piorar a saúde dos mais pobres, com fortes efeitos sociais, além de afetar o capital humano disponível, com consequências ruins para a produtividade da economia.
Na educação, a situação é ainda pior. O bolsonarismo lavou as mãos para a crise educacional gerada por quase dois anos de escolas fechadas, com cerca de 5 milhões de alunos não tendo acesso ao ensino remoto. O governo federal teria de ter ajudado governos estaduais e municipais num país com grande desigualdade territorial, do mesmo modo que desde o governo FHC a União tem atuado para reduzir tais disparidades. As grandes questões educacionais foram deixadas de lado para que discussões sem nenhum impacto no aprendizado dos estudantes ganhassem centralidade. Junto com o abandono da educação básica houve a redução drástica do apoio à ciência e à tecnologia, o que nos condena ao subdesenvolvimento.
Para fechar esse ciclo de maldades, o MEC se tornou um antro de corrupção por meio do uso de emendas do Orçamento Secreto. Cabe frisar que o desastre bolsonarista na educação tem mais efeitos de longo prazo do que qualquer erro de política econômica. Perder quatro anos de política educacional significa reduzir a capacidade de desenvolvimento econômico e social do país, com menos oportunidades, ascensão social e produção de capital humano. Imagine oito anos num cenário como esse, qual seria o resultado?
A segunda herança perversa do bolsonarismo reside no fracasso das políticas ambientais. O meio ambiente é um ativo do país para o seu futuro econômico, para sua posição geopolítica e para garantir a diversidade natural que faz parte da civilização brasileira. O que temos tido nos últimos anos é o desmonte dos órgãos ambientais federais, o aumento do desmatamento, o crescimento do garimpo ilegal na Amazônia e a ameaça constante à preservação de todos os ecossistemas. O país estava virando uma referência internacional e já se tornou um mau exemplo.
Toda a população brasileira irá sofrer com isso: os mais pobres e os ruralistas, com a mudança climática que afetará a produção de alimentos; os trabalhadores e os bancos, pois o Brasil está perdendo muitos investimentos e financiamentos por não ter um selo verde no momento; os povos indígenas e os que moram no Sudeste, porque o que se perde de floresta pode significar menos água para os que vivem nos grandes centros.
A política externa é a terceira herança nefasta produzida pelo governo Bolsonaro. Em poucas palavras, o Brasil se isolou completamente dos principais circuitos geopolíticos e é visto como um pária pelos países mais importantes do mundo ou de nossa região. Já não é mais chamado para as reuniões do G7 - para a próxima, o Senegal foi convidado e nós, não.
O isolacionismo tem vários efeitos negativos, como deixar de participar de decisões globais de grande relevância, receber menos investimentos ou mesmo ter a possibilidade de sofrer sanções explícitas ou implícitas dos governos ou de suas sociedades, reduzir os intercâmbios científicos, em suma, ser desimportante e malvisto lá fora cobra um preço interno de menor desenvolvimento no presente e no futuro.
O desenvolvimento econômico e social fecha o ciclo de problemas estruturais que foram ampliados durante o bolsonarismo. No curto prazo, a inflação só aumenta e está fora do controle, e só voltará a níveis razoáveis em 2024 (se tudo der certo). Para reduzir esse problema, os juros foram aumentados, o que vai implicar um custo fiscal alto para o quadriênio que vem, num Orçamento já apertado, que não consegue garantir recursos adequados nem para investimento nem para evitar o sucateamento da máquina pública federal.
Completa esse quadro um alto desemprego, que não cairá para menos de 10% nos próximos dois anos, e uma queda da renda real da população, com maior impacto entre os mais pobres, cada vez mais pauperizados e sem acesso a bens básicos, além de terem perdido a esperança de ascensão iniciada com o Plano Real - na verdade, é pior do que isso: a fome voltou a ser um fenômeno amplo no Brasil.
Essas dificuldades de curto prazo alimentam-se da ausência de um projeto econômico e social de longo prazo. O governo Bolsonaro não tem um plano estratégico para o país, movendo-se mais pelos humores populistas do presidente frente às intempéries políticas. Num dia, propõe-se a privatização da Eletrobras - num modelo que vai aumentar o custo da energia no país -, enquanto noutro se intervém na direção da Petrobras. Numa semana o assunto é a liberdade econômica, na seguinte é a criação de um auxílio aos caminhoneiros - embora o que se mantém mesmo no Brasil são os subsídios às empresas, método já assimilado por Paulo Guedes. E o tema das várias desigualdades brasileiras? Este só aparece como estratégia populista e assistencialista. Com mais quatro anos de bolsonarismo, seremos mais pobres, mais desiguais e menos ricos.
É possível pensar que uma mudança de governo poderia alterar essa situação. Os mais esperançosos poderiam, ademais, acreditar que um segundo governo Bolsonaro seria capaz de evitar parte dos problemas criados por ele mesmo - o tom da campanha vai mostrar que é preciso ser muito Poliana para embarcar nessa tese. De todo modo, qualquer uma dessas hipóteses enfrenta um obstáculo maior. Existe uma segunda herança do bolsonarismo que não advém dos seus erros e fracassos nas políticas públicas. O pior legado bolsonarista é ter criado uma lógica política que dificulta bastante a saída da crise atual.
Paul Pierson, um grande cientista político americano, definiu um conceito que cabe bem a essa segunda herança do bolsonarismo, a mais profunda de todas. Trata-se do termo “path dependence”, cujo significado é que algumas trajetórias ganham uma força institucional e/ou social difícil de ser revertida. Bolsonaro estabeleceu uma lógica política que será um obstáculo à mudança quem quer que seja o novo presidente.
Entre seus elementos estão a (re)politização das Forças Armadas, o fortalecimento de uma oligarquia parlamentar pela constitucionalização do jogo individualista (quando não secreto) das emendas orçamentárias, a produção de uma visão autoritária contra as instituições em pelo menos 20% da população, o fortalecimento de grupos religiosos que atuam contra a secularização do Estado e o incentivo ao armamentismo da sociedade, facilitando inclusive à formação de milícias políticas e de bandidagem.
Esse “path dependence” retrógrado e autoritário criado por Bolsonaro será uma barreira às grandes transformações pelas quais o Brasil precisa passar para dar certo no século XXI. A saída dessa armadilha política será o maior problema do próximo presidente, talvez até para Bolsonaro, porque em algum momento a população cobrará resultados de políticas públicas, e não adiantará mais falar em nome de Deus, da Pátria e da Liberdade ou chamar os adversários de comunistas.
O primeiro sentido da herança negativa do bolsonarismo está expresso no conjunto de problemas que ele deixou ou agravou em quatro grandes áreas de políticas públicas. A primeira refere-se às políticas sociais, cujas estruturas construídas em décadas foram desmontadas. Pegue-se o exemplo da saúde e da educação e se constata que o desastre foi enorme, com consequências de curto e longo prazo.
O fracasso na saúde ficou bem claro com a má condução da política nacional contra a pandemia de covid-19. Se não fosse o SUS, com seus profissionais qualificados e sua estrutura que ajudou a construir os serviços nos estados e municípios, talvez tivéssemos um número mais próximo de 1 milhão de mortes. Mas se não tivesse havido o negacionismo e a descoordenação federativa produzida por quem deveria zelar para cooperação entre os níveis de governo, a quantidade de óbitos teria sido bem menor. Especialistas calculam que em torno de 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas, para não falar daqueles que estão até hoje sofrendo sequelas terríveis da doença.
Os problemas da política sanitária bolsonarista não estão apenas no combate à covid-19. A cobertura vacinal do país está caindo vertiginosamente e a dengue explodiu neste ano, o que revela que o país não tem estratégias para combater doenças que atingem muita gente. Igualmente desastrosa é a gestão dos insumos de saúde, com a falta de vários medicamentos básicos no SUS, como não acontecia desde o início da década de 1990. E os programas para grupos mais vulneráveis, como a população indígena, tiveram um retrocesso gigantesco.
O fato é que o país está menos preparado agora para epidemias ou pandemias que podem nos assolar nos próximos anos, algo que, infelizmente, tem condições críveis de ocorrer. O esgarçamento do SUS vai aumentar a mortalidade e piorar a saúde dos mais pobres, com fortes efeitos sociais, além de afetar o capital humano disponível, com consequências ruins para a produtividade da economia.
Na educação, a situação é ainda pior. O bolsonarismo lavou as mãos para a crise educacional gerada por quase dois anos de escolas fechadas, com cerca de 5 milhões de alunos não tendo acesso ao ensino remoto. O governo federal teria de ter ajudado governos estaduais e municipais num país com grande desigualdade territorial, do mesmo modo que desde o governo FHC a União tem atuado para reduzir tais disparidades. As grandes questões educacionais foram deixadas de lado para que discussões sem nenhum impacto no aprendizado dos estudantes ganhassem centralidade. Junto com o abandono da educação básica houve a redução drástica do apoio à ciência e à tecnologia, o que nos condena ao subdesenvolvimento.
Para fechar esse ciclo de maldades, o MEC se tornou um antro de corrupção por meio do uso de emendas do Orçamento Secreto. Cabe frisar que o desastre bolsonarista na educação tem mais efeitos de longo prazo do que qualquer erro de política econômica. Perder quatro anos de política educacional significa reduzir a capacidade de desenvolvimento econômico e social do país, com menos oportunidades, ascensão social e produção de capital humano. Imagine oito anos num cenário como esse, qual seria o resultado?
A segunda herança perversa do bolsonarismo reside no fracasso das políticas ambientais. O meio ambiente é um ativo do país para o seu futuro econômico, para sua posição geopolítica e para garantir a diversidade natural que faz parte da civilização brasileira. O que temos tido nos últimos anos é o desmonte dos órgãos ambientais federais, o aumento do desmatamento, o crescimento do garimpo ilegal na Amazônia e a ameaça constante à preservação de todos os ecossistemas. O país estava virando uma referência internacional e já se tornou um mau exemplo.
Toda a população brasileira irá sofrer com isso: os mais pobres e os ruralistas, com a mudança climática que afetará a produção de alimentos; os trabalhadores e os bancos, pois o Brasil está perdendo muitos investimentos e financiamentos por não ter um selo verde no momento; os povos indígenas e os que moram no Sudeste, porque o que se perde de floresta pode significar menos água para os que vivem nos grandes centros.
A política externa é a terceira herança nefasta produzida pelo governo Bolsonaro. Em poucas palavras, o Brasil se isolou completamente dos principais circuitos geopolíticos e é visto como um pária pelos países mais importantes do mundo ou de nossa região. Já não é mais chamado para as reuniões do G7 - para a próxima, o Senegal foi convidado e nós, não.
O isolacionismo tem vários efeitos negativos, como deixar de participar de decisões globais de grande relevância, receber menos investimentos ou mesmo ter a possibilidade de sofrer sanções explícitas ou implícitas dos governos ou de suas sociedades, reduzir os intercâmbios científicos, em suma, ser desimportante e malvisto lá fora cobra um preço interno de menor desenvolvimento no presente e no futuro.
O desenvolvimento econômico e social fecha o ciclo de problemas estruturais que foram ampliados durante o bolsonarismo. No curto prazo, a inflação só aumenta e está fora do controle, e só voltará a níveis razoáveis em 2024 (se tudo der certo). Para reduzir esse problema, os juros foram aumentados, o que vai implicar um custo fiscal alto para o quadriênio que vem, num Orçamento já apertado, que não consegue garantir recursos adequados nem para investimento nem para evitar o sucateamento da máquina pública federal.
Completa esse quadro um alto desemprego, que não cairá para menos de 10% nos próximos dois anos, e uma queda da renda real da população, com maior impacto entre os mais pobres, cada vez mais pauperizados e sem acesso a bens básicos, além de terem perdido a esperança de ascensão iniciada com o Plano Real - na verdade, é pior do que isso: a fome voltou a ser um fenômeno amplo no Brasil.
Essas dificuldades de curto prazo alimentam-se da ausência de um projeto econômico e social de longo prazo. O governo Bolsonaro não tem um plano estratégico para o país, movendo-se mais pelos humores populistas do presidente frente às intempéries políticas. Num dia, propõe-se a privatização da Eletrobras - num modelo que vai aumentar o custo da energia no país -, enquanto noutro se intervém na direção da Petrobras. Numa semana o assunto é a liberdade econômica, na seguinte é a criação de um auxílio aos caminhoneiros - embora o que se mantém mesmo no Brasil são os subsídios às empresas, método já assimilado por Paulo Guedes. E o tema das várias desigualdades brasileiras? Este só aparece como estratégia populista e assistencialista. Com mais quatro anos de bolsonarismo, seremos mais pobres, mais desiguais e menos ricos.
É possível pensar que uma mudança de governo poderia alterar essa situação. Os mais esperançosos poderiam, ademais, acreditar que um segundo governo Bolsonaro seria capaz de evitar parte dos problemas criados por ele mesmo - o tom da campanha vai mostrar que é preciso ser muito Poliana para embarcar nessa tese. De todo modo, qualquer uma dessas hipóteses enfrenta um obstáculo maior. Existe uma segunda herança do bolsonarismo que não advém dos seus erros e fracassos nas políticas públicas. O pior legado bolsonarista é ter criado uma lógica política que dificulta bastante a saída da crise atual.
Paul Pierson, um grande cientista político americano, definiu um conceito que cabe bem a essa segunda herança do bolsonarismo, a mais profunda de todas. Trata-se do termo “path dependence”, cujo significado é que algumas trajetórias ganham uma força institucional e/ou social difícil de ser revertida. Bolsonaro estabeleceu uma lógica política que será um obstáculo à mudança quem quer que seja o novo presidente.
Entre seus elementos estão a (re)politização das Forças Armadas, o fortalecimento de uma oligarquia parlamentar pela constitucionalização do jogo individualista (quando não secreto) das emendas orçamentárias, a produção de uma visão autoritária contra as instituições em pelo menos 20% da população, o fortalecimento de grupos religiosos que atuam contra a secularização do Estado e o incentivo ao armamentismo da sociedade, facilitando inclusive à formação de milícias políticas e de bandidagem.
Esse “path dependence” retrógrado e autoritário criado por Bolsonaro será uma barreira às grandes transformações pelas quais o Brasil precisa passar para dar certo no século XXI. A saída dessa armadilha política será o maior problema do próximo presidente, talvez até para Bolsonaro, porque em algum momento a população cobrará resultados de políticas públicas, e não adiantará mais falar em nome de Deus, da Pátria e da Liberdade ou chamar os adversários de comunistas.
A eleição presidencial deste ano é a mais comprada desde 1994
Bolsonaro, à época aluno na Academia Militar de Agulhas Negras, certo dia tomava banho junto com outros cadetes quando um sabonete caiu no chão. Depois de abaixar-se para apanhá-lo, nunca mais foi o mesmo. Carrega marcas do episódio até hoje.
Quem me disse? Não revelo. Se tenho provas? Não, não tenho. Mas, Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, tem provas do tráfico internacional de crianças no arquipélago de Marajó para uso sexual? E, no entanto…
No entanto, ainda sem dispor de imunidade para dizer o que lhe venha à cabeça uma vez que se elegeu senadora, está por aí leve e solta para continuar espalhando mentiras e influenciando pessoas a votarem no presidente que a tirou do anonimato.
Adianto desde já que a história do sabonete que traumatizou Bolsonaro é brincadeira. Se me inspirasse no que ele costuma dizer, é “só força de expressão”. Faço jornalismo “dentro das quatro linhas” da verdade, e jamais deixarei de fazê-lo.
Damares, Bolsonaro e muitos dos que os cercam são traficantes assumidos de mentiras e de falsas verdades. E se ainda não foram processados pelo que dizem é porque a justiça entre nós é ceguinha da silva. Ou finge que não vê ou finge que é surda.
Nessa reta final de campanha, com um presidente em desespero por lhe faltarem votos, está sendo exponencial o crescimento de falsas notícias distribuídas pelos mais variados meios. O Tribunal Superior Eleitoral disse que estaria pronto para combatê-las.
Ou não está ou não quer. Parece desejar que o tempo passe rápido e que, com ajuda de Deus, não ocorram coisas piores até 30 de outubro como atos de violência. Proclamados os resultados, empossados os eleitos, o resto pode esperar, e esperar por anos.
Não leva em consideração que o estrago já terá sido feito e que dificilmente será revertido. Estão para nascer juízes com coragem para destituir um presidente que se beneficiou de mentiras. Quantos votos o falso kit-gay não deu a Bolsonaro há quatro anos?
Trump firmou-se como aspirante a candidato reciclando a mentira de que Barack Obama nascera na África. Surfou na mentira de que Hillary Clinton participava de orgias nos fundos de uma pizzaria em Washington. Ao final, se elegeu, mas não só por isso.
A diferença, e não para melhor, é que fake news, agora, se paga com fake news. Quem for mais competente para mentir poderá celebrar. A vantagem está do lado de quem, além do desassombro em mentir, dispõe da máquina pública e não tem escrúpulos.
Nos seus estertores, essa é a campanha presidencial mais suja que o Brasil já viu desde 1994. É também a eleição mais comprada por um governante à vista de todos.
segunda-feira, 10 de outubro de 2022
Bolsonaro e Mourão deixam claro que o plano é marcha para ditadura e caos.
O plano de Jair Bolsonaro rumo à ditadura “pela via democrática” — dado que o golpe, propriamente, falhou — já está claro e até foi detalhado pelo vice, Hamilton Mourão, eleito senador pelo Rio Grande do Sul. Os setores bolsonarizados da elite não podem alegar ignorância. Sabem de tudo. Se abraçam a proposta fascistoide, convenham, é porque são fascistoides também. Já volto ao ponto. Antes, uma breve esticada até o passado.
Não há conversa mais aborrecida e mentirosa do que o “votei em Bolsonaro em 2018 para afastar o ‘risco PT’, não porque o admirasse”. No segundo turno, vá lá. Mas e no primeiro? O cardápio de opções não petistas era grande. Uma nota sobre o segundo turno de então: a trajetória do “capitão” apontava, por acaso, para algo virtuoso, segundo esse pressuposto? Era ele o mal menor? Infelizmente, não tenho como passar a palavra aos quase 700 mil mortos da Covid ou a Genivaldo Santos, morto numa Câmara de gás.
Sem essa! Que amplas camadas da população mais pobre tenham escolhido Bolsonaro, pode-se até compreender, e há justificativas as mais variadas para isso, muitas delas em si mesmas contraditórias. Não irei a minudências agora porque seria outro texto. Atenho-me àqueles que dispõem de tempo e conforto para ter acesso a múltiplos canais de informação. Esses votaram no prosélito da ditadura; no “dá uma coça no filho gayzinho”; no “não te estupraria porque você não merece”; no “a ditadura deveria ter fuzilado 30 mil”, inclusive FHC; no quilombola que se pesa em arrobas “e nem para procriar serve mais”. Como alegar ignorância? Há arrependidos? Vá lá. Alegação de ignorância? Aí não.
Mas há os que reincidem, não? Estes não só condescendem com as iniquidades listadas como com as que a elas se somaram no curso de quatro anos de mandato. Frases ditas durante a pandemia como “não sou coveiro”, “todo mundo morre um dia”, “tem que deixar de ser um país de maricas”, acompanhadas de atos que a lei define como crimes, fazem de Bolsonaro candidato à cadeia. Mas ele pode, sim, se reeleger presidente, garantindo ao menos mais quatro anos de impunidade. E aqueles setores a que me refiro, que já sabiam de tudo, sabem de muito mais agora. Sabem e aplaudem. Sabem e gostam. Sabem e concordam. Com elites responsáveis, não se teria um país rico com tantos miseráveis.
O roteiro de mais desgraça, com um ciclo de longa duração de turbulência ou de desatinos, está dado. Em entrevista à “Veja”, Bolsonaro flertou com a ideia de aumentar o número de ministros do Supremo para ter o controle da corte. Admitiu que a proposta chegou à sua mesa, mas que decidiu tratar do assunto só depois da eleição. E a resposta só faz sentido, é claro, em caso de vitória. Sim, esse debate existe.
O mandatário dos próximos quatro anos indica os substitutos de Ricardo Lewandowski e Rosa Weber, que deixam a corte no ano que vem. Mais de uma vez, o presidente já se referiu a essas nomeações como a chance de aumentar a sua presença no tribunal. Ele diz abertamente ter o controle de 20% dos ministros. Refere-se a Nunes Marques e André Mendonça. Com um Senado ainda mais reacionário do que o que aí está, se Bolsonaro for reeleito, abre-se caminho para a militância de extrema-direita de toga.
Nesse caso, teria quatro dos onze ministros. É pouco para seus intentos. A ideia é elevá-los para 15, de sorte que isso lhe garantiria uma maioria de 8 votos. O inferno, então, seria o limite. Cumpriria o roteiro de Hugo Chávez em 2003 — Chávez que, diga-se, era o ídolo do então deputado Bolsonaro em 1999. Esse é o roteiro das tiranias. E a ditadura militar de 64, no Brasil, precedeu a de Chávez em tal prática.
O AI-2, de 27 de outubro de 1965, aumentou de 11 para 16 os integrantes do STF para garantir maioria em favor da ditadura militar. E foi mais longe:
– determinou que civis fossem julgados pela Justiça Militar “para repressão de crimes contra a segurança nacional ou as instituições militares”;
– governadores passaram a ser julgados pelo Superior Tribunal Militar em casos relacionados à segurança nacional;
– permitiu a intervenção federal nos Estados “para prevenir ou reprimir a subversão da ordem”;
– tirou da Justiça a competência para se manifestar sobre atos institucionais.
Observem que, antes mesmo do realmente famigerado AI-5, a trilha da ditadura arreganhada já estava dada.
Bolsonaro não se estendeu sobre a proposta de ampliar o número de ministros do Supremo, o que eles pretenderiam fazer votando uma PEC no Congresso. Há celerados que defendem, acreditem!, que se faça isso por simples projeto de lei. Em entrevista concedida à Globo News, Hamilton Mourão, o vice agora eleito senador, resolveu detalhar o plano. No que concerne à independência da Corte, ele está mais para AI-5 do que para AI-2. O vídeo segue no pé do texto. O plano de Mourão:
– aumento do número de magistrados;
– mudança nas regras sobre decisões monocráticas;
– definição de um mandato para ministros da Corte;
– facilitar a possibilidade de punir ministros por crimes de responsabilidade.
E aí emenda o general para dar uma aparência de legalidade democrática à cruzada:
“Temos de discutir isso. Mas, obviamente, sem paixões ideológicas e sempre buscando aquilo que é o melhor para o nosso sistema democrático”.
Aí está o que chamo de roteiro do caos. Em primeiro lugar, o pacote fere a Constituição porque, na democracia, é a Carta que define os limites dos Poderes. Bolsonaro, se reeleito, controlará o Legislativo por intermédio do Orçamento Secreto, e esse Legislativo, por sua vez, passaria a subordinar o Supremo às suas vontades. E pronto: ter-se-ia um tribunal para fazer mesuras ao mandatário, que estaria livre, inclusive, para ensaiar um terceiro mandato.
Se o arroubo autoritário desse certo, o Brasil deixaria de integrar o rol das nações democráticas, e isso teria consequências que são também econômicas. Mas há uma questão anterior: inexiste ato não judicante no Brasil segundo a Constituição. E qualquer instrumento legiferante para subordinar o Poder Judiciário ao Legislativo e ao Executivo estaria sujeito à análise do próprio Supremo, que apontaria a sua óbvia inconstitucionalidade. Nesse caso, os psicopatas que chegaram ao Congresso e o presidente mandariam cercar e fechar a Corte?
Ao listar as prioridades de um eventual novo governo Bolsonaro, numa entrevista logo depois de eleito deputado federal, o delegado Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin, listou o que chama de “prioridades”. E a primeira é a reforma do Judiciário. O vídeo também está ao fim do texto.
Dados alguns padrões de renda e informação, não há como alegar inocência. Escolher Bolsonaro é escolher não uma mera tentação ditatorial, mas um projeto que já está em curso e que, para passar à fase seguinte, precisa anular um dos Poderes. Nada disso seria pacífico. Qualquer que fosse o desdobramento, o desastre seria certo.
PS: Antes que digam que digam que o AI-2 foi coisa de ditadura militar, e a mudança que querem Bolsonaro e Mourão seria feita pelo Congresso, o que o tornaria “democrática”, observo: é objeção infantil. E de criança que estudou mal. Os golpes contemporâneos são dados sem tropas. Usam-se garantias da democracia para solapá-la. O truque nem novo é.
Não há conversa mais aborrecida e mentirosa do que o “votei em Bolsonaro em 2018 para afastar o ‘risco PT’, não porque o admirasse”. No segundo turno, vá lá. Mas e no primeiro? O cardápio de opções não petistas era grande. Uma nota sobre o segundo turno de então: a trajetória do “capitão” apontava, por acaso, para algo virtuoso, segundo esse pressuposto? Era ele o mal menor? Infelizmente, não tenho como passar a palavra aos quase 700 mil mortos da Covid ou a Genivaldo Santos, morto numa Câmara de gás.
Sem essa! Que amplas camadas da população mais pobre tenham escolhido Bolsonaro, pode-se até compreender, e há justificativas as mais variadas para isso, muitas delas em si mesmas contraditórias. Não irei a minudências agora porque seria outro texto. Atenho-me àqueles que dispõem de tempo e conforto para ter acesso a múltiplos canais de informação. Esses votaram no prosélito da ditadura; no “dá uma coça no filho gayzinho”; no “não te estupraria porque você não merece”; no “a ditadura deveria ter fuzilado 30 mil”, inclusive FHC; no quilombola que se pesa em arrobas “e nem para procriar serve mais”. Como alegar ignorância? Há arrependidos? Vá lá. Alegação de ignorância? Aí não.
Mas há os que reincidem, não? Estes não só condescendem com as iniquidades listadas como com as que a elas se somaram no curso de quatro anos de mandato. Frases ditas durante a pandemia como “não sou coveiro”, “todo mundo morre um dia”, “tem que deixar de ser um país de maricas”, acompanhadas de atos que a lei define como crimes, fazem de Bolsonaro candidato à cadeia. Mas ele pode, sim, se reeleger presidente, garantindo ao menos mais quatro anos de impunidade. E aqueles setores a que me refiro, que já sabiam de tudo, sabem de muito mais agora. Sabem e aplaudem. Sabem e gostam. Sabem e concordam. Com elites responsáveis, não se teria um país rico com tantos miseráveis.
O roteiro de mais desgraça, com um ciclo de longa duração de turbulência ou de desatinos, está dado. Em entrevista à “Veja”, Bolsonaro flertou com a ideia de aumentar o número de ministros do Supremo para ter o controle da corte. Admitiu que a proposta chegou à sua mesa, mas que decidiu tratar do assunto só depois da eleição. E a resposta só faz sentido, é claro, em caso de vitória. Sim, esse debate existe.
O mandatário dos próximos quatro anos indica os substitutos de Ricardo Lewandowski e Rosa Weber, que deixam a corte no ano que vem. Mais de uma vez, o presidente já se referiu a essas nomeações como a chance de aumentar a sua presença no tribunal. Ele diz abertamente ter o controle de 20% dos ministros. Refere-se a Nunes Marques e André Mendonça. Com um Senado ainda mais reacionário do que o que aí está, se Bolsonaro for reeleito, abre-se caminho para a militância de extrema-direita de toga.
Nesse caso, teria quatro dos onze ministros. É pouco para seus intentos. A ideia é elevá-los para 15, de sorte que isso lhe garantiria uma maioria de 8 votos. O inferno, então, seria o limite. Cumpriria o roteiro de Hugo Chávez em 2003 — Chávez que, diga-se, era o ídolo do então deputado Bolsonaro em 1999. Esse é o roteiro das tiranias. E a ditadura militar de 64, no Brasil, precedeu a de Chávez em tal prática.
O AI-2, de 27 de outubro de 1965, aumentou de 11 para 16 os integrantes do STF para garantir maioria em favor da ditadura militar. E foi mais longe:
– determinou que civis fossem julgados pela Justiça Militar “para repressão de crimes contra a segurança nacional ou as instituições militares”;
– governadores passaram a ser julgados pelo Superior Tribunal Militar em casos relacionados à segurança nacional;
– permitiu a intervenção federal nos Estados “para prevenir ou reprimir a subversão da ordem”;
– tirou da Justiça a competência para se manifestar sobre atos institucionais.
Observem que, antes mesmo do realmente famigerado AI-5, a trilha da ditadura arreganhada já estava dada.
Bolsonaro não se estendeu sobre a proposta de ampliar o número de ministros do Supremo, o que eles pretenderiam fazer votando uma PEC no Congresso. Há celerados que defendem, acreditem!, que se faça isso por simples projeto de lei. Em entrevista concedida à Globo News, Hamilton Mourão, o vice agora eleito senador, resolveu detalhar o plano. No que concerne à independência da Corte, ele está mais para AI-5 do que para AI-2. O vídeo segue no pé do texto. O plano de Mourão:
– aumento do número de magistrados;
– mudança nas regras sobre decisões monocráticas;
– definição de um mandato para ministros da Corte;
– facilitar a possibilidade de punir ministros por crimes de responsabilidade.
E aí emenda o general para dar uma aparência de legalidade democrática à cruzada:
“Temos de discutir isso. Mas, obviamente, sem paixões ideológicas e sempre buscando aquilo que é o melhor para o nosso sistema democrático”.
Aí está o que chamo de roteiro do caos. Em primeiro lugar, o pacote fere a Constituição porque, na democracia, é a Carta que define os limites dos Poderes. Bolsonaro, se reeleito, controlará o Legislativo por intermédio do Orçamento Secreto, e esse Legislativo, por sua vez, passaria a subordinar o Supremo às suas vontades. E pronto: ter-se-ia um tribunal para fazer mesuras ao mandatário, que estaria livre, inclusive, para ensaiar um terceiro mandato.
Se o arroubo autoritário desse certo, o Brasil deixaria de integrar o rol das nações democráticas, e isso teria consequências que são também econômicas. Mas há uma questão anterior: inexiste ato não judicante no Brasil segundo a Constituição. E qualquer instrumento legiferante para subordinar o Poder Judiciário ao Legislativo e ao Executivo estaria sujeito à análise do próprio Supremo, que apontaria a sua óbvia inconstitucionalidade. Nesse caso, os psicopatas que chegaram ao Congresso e o presidente mandariam cercar e fechar a Corte?
Ao listar as prioridades de um eventual novo governo Bolsonaro, numa entrevista logo depois de eleito deputado federal, o delegado Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin, listou o que chama de “prioridades”. E a primeira é a reforma do Judiciário. O vídeo também está ao fim do texto.
Dados alguns padrões de renda e informação, não há como alegar inocência. Escolher Bolsonaro é escolher não uma mera tentação ditatorial, mas um projeto que já está em curso e que, para passar à fase seguinte, precisa anular um dos Poderes. Nada disso seria pacífico. Qualquer que fosse o desdobramento, o desastre seria certo.
PS: Antes que digam que digam que o AI-2 foi coisa de ditadura militar, e a mudança que querem Bolsonaro e Mourão seria feita pelo Congresso, o que o tornaria “democrática”, observo: é objeção infantil. E de criança que estudou mal. Os golpes contemporâneos são dados sem tropas. Usam-se garantias da democracia para solapá-la. O truque nem novo é.
A política e a língua
No nosso tempo, é um facto que os textos políticos são, regra geral, mal escritos. Quando isto não acontece, normalmente verifica-se que o escritor é alguma espécie de rebelde , que exprime opiniões próprias em vez de seguir a " linha do partido". A ortodoxia, independentemente da cor, parece exigir um estilo imitativo, sem vida. Os dialectos políticos com que deparamos em panfletos, artigos de opinião, manifestos, livros brancos ou discursos de subsecretários variam, claro, consoante o partido , mas são todos iguais no sentido em que dificilmente encontramos neles um tropo novo, fulgurante, pessoal. Quando vemos no palanque um plumitivo estafado a repetir mecanicamente expressões batidas - " brutais atrocidades", " mão de ferro", " tirania sangrenta", " povos do mundo livre", "unir esforços" - temos amiúde a curiosa sensação de estar a ouvir , não um ser humano, mas uma espécie de boneco - uma sensação que se torna subitamente mais forte quando a luz bate nos óculos do orador e os transforma em discos opacos, atrás dos quais parece não haver olhos nenhuns. E isto não é inteiramente produto de imaginação. Um orador que use esse tipo de fraseologia está a meio caminho de se transformar numa máquina. Da sua laringe saem os ruídos apropriados, mas o seu cérebro não está envolvido no processo, ao contrário do que sucederia se ele estivesse a falar por palavras suas. Se o discurso que pronuncia está a ser repetido pela enésima vez, é provável que o orador mal tenha consciência do que está a dizer, como quando pronunciamos os responsos na igreja. E esta revolução da consciência é , senão indispensável, pelo menos favorável ao conformismo político.
No nosso tempo, os discursos ou os textos políticos consistem largamente numa defesa do indefensável. (...)
O estilo empolado é, só por si, uma espécie de eufemismo. Uma massa de palavras latinas tomba sobre os factos como neve fofa, elidindo os contornos e encobrindo os pormenores. O grande inimigo da linguagem clara é a hipocrisia. Quando existe um hiato entre os objectivos reais e os objectivos declarados , rerorremos quase instintivamente a palavras multissilábicas e expressões idiomáticas gastas, como lula esguichando tinta. No nosso tempo, é impossível " mantermo-nos afastados da política". Todos os nossos problemas são políticos e a política em si é um amontoado de mentiras , subterfúgios, tolices, ódio e esquizofrenia. Quando a atmosfera geral empesta, a linguagem não pode deixar de se ressentir. É de supor - mas trata-se de uma hipótese que não tenho meio de verificar, por falta de conhecimentos suficientes - que línguas como o alemão , o italiano e o russo se tenham deteriorado se tenham deteriorado nos últimos dez ou quinze anos, em resultado da ditadura.
No nosso tempo, os discursos ou os textos políticos consistem largamente numa defesa do indefensável. (...)
O estilo empolado é, só por si, uma espécie de eufemismo. Uma massa de palavras latinas tomba sobre os factos como neve fofa, elidindo os contornos e encobrindo os pormenores. O grande inimigo da linguagem clara é a hipocrisia. Quando existe um hiato entre os objectivos reais e os objectivos declarados , rerorremos quase instintivamente a palavras multissilábicas e expressões idiomáticas gastas, como lula esguichando tinta. No nosso tempo, é impossível " mantermo-nos afastados da política". Todos os nossos problemas são políticos e a política em si é um amontoado de mentiras , subterfúgios, tolices, ódio e esquizofrenia. Quando a atmosfera geral empesta, a linguagem não pode deixar de se ressentir. É de supor - mas trata-se de uma hipótese que não tenho meio de verificar, por falta de conhecimentos suficientes - que línguas como o alemão , o italiano e o russo se tenham deteriorado se tenham deteriorado nos últimos dez ou quinze anos, em resultado da ditadura.
George Orwell, "Ensaios escolhidos"
Para onde vamos?
Para frente, para trás ou para os lados? De pronto, explico o óbvio: caminhar para a frente é avançar na trilha, para trás é voltar, retroceder, e andar de lado significa permanecer na mesma posição, movendo os passos sem sair da linha horizontal. Essas são as direções que se apresentam como alternativas ao país nesse momento da mais simbólica disputa eleitoral da contemporaneidade.
Lula e Bolsonaro podem conduzir o país por qualquer uma dessas trilhas, afastando-se da dualidade entre o Bem e o Mal, erguendo a bandeira do progresso e da harmonia social ou seria isso um sonho? Terão envergadura para assumir compromissos com a ordem democrática e, mais que isso, a férrea determinação de inserir o Brasil na rota do futuro, meta que vai além do rol de promessas mirabolantes de campanha?
O governante que o Brasil precisa deve assumir, de maneira clara, a defesa dos preceitos constitucionais, a partir dos direitos individuais e coletivos, a liberdade de expressão e a instauração de políticas voltadas para a pluralidade, a diversidade e a causa ambiental. E preservar o que de bom já foi feito em administrações passadas.
Temos um perfil para vestir esse figurino? Vamos lá. Lula e Bolsonaro, ao longo de suas trajetórias, construíram uma identidade que gera intensa polêmica. Um e outro são adornados com as vestes do Arcanjo e do Demônio, alternando-se o traje de acordo com a origem dos trombeteiros. Ou seja, tanto um como outro trocam de posição.
A banda de Luiz Inácio o considera autêntico defensor da democracia, por sua jornada de lutas contra a ditadura e por sua identificação com as demandas das massas carentes. Hoje, ainda é visto como extensão do socialismo clássico.
Já Bolsonaro lapidou seu perfil nos fornos dos anos de chumbo, servindo ao Exército, chegando ao posto de capitão. Na política, tornou-se um ícone da direita conservadora, expressando apoio à tortura e aos torturadores. O fiel soldado extremista acabou sentado na cadeira presidencial, na esteira de escândalos que assolaram o terreiro petista.
O passado, desse modo, emerge como gigantesca sombra que acolhe ambos. Dessa textura, extrai-se a questão: não é possível passar uma borracha no passado. As pessoas mudam, mas certos valores continuam a balizar sua índole.
Tem sentido votar e/ou rejeitar um candidato por feitos ou desfeitos de ontem? Sim. Mas o passado não pode ser apenas a chave da porta do poder. Urge saber o que pensam, hoje, os contendores, sob a crença de que alguns fenômenos do passado se tornaram obsoletos.
Seria conveniente que, no momento em que duas visões bem diferentes travam feroz luta pela conquista do comando do país, os candidatos fossem avaliados por sua índole, seus compromissos, suas crenças, seus programas e, sobretudo, por sua identificação com o ideário da democracia e do Estado de Direito. Quais são as carências, potenciais e demandas das classes sociais? Quem tem as melhores ideias para proporcionar o bem-estar social?
É claro que as bandas raivosas e ensandecidas, que atuam como tuba de ressonância dos candidatos, não têm interesse em resgatar o grande discurso, em superpor o substantivo sobre o adjetivo rancoroso. O ódio, a revanche, a falsidade são armas da campanha, usadas como anzol para fisgar eleitores incautos.
Precisamos tirar da agenda os velhos cacoetes, o “nós e eles” e o “eles e nós”. Lula precisa ouvir o sussurro das ruas e entender que já não basta construir muros na sociedade ou igrejinhas para o PT. Se quer consolidar uma frente ampla em defesa da democracia, deve acenar com a bandeira da união, da paz social e do progresso. Muito cuidado com o furo do teto de gastos e o controle da imprensa, coisas que integram a cartilha lulista.
Bolsonaro não pode avocar as pérfidas ações dos tempos de chumbo, atraindo as massas com uma lengalenga que lembra a tensão da Guerra Fria, quando o lema era: “comunistas comem criancinhas”. Os tempos são outros. Jair, que se diz amigo de Vladimir Putin, deve melhorar a retórica destrambelhada e assumir postura condizente com a liturgia do cargo. Cuidado com o assistencialismo populista, herança do passado e isca de pesca eleitoral.
Luis Inácio: Venezuela, Cuba, Nicarágua ou Coréia do Norte são sistemas fracassados. Longe de serem alçados ao altar de referências. Aos dois candidatos, um conselho simples: interpretem as mensagens que o eleitor transmitiu com seu voto. Vejam que o 2º turno foi uma opção para analisar melhor os pleiteantes.
Não procurem pinçar nos recados do eleitor traços de esquerdismo ou direitismo. Classificar a comunidade política sob o prisma ideológico é um erro. As massas querem conforto, segurança, educação, serviços públicos de qualidade. Pergunte-se a um anônimo na multidão: “o senhor é de esquerda ou de direita”? Responderá com cara de espanto: “Como”? Só uma fração da comunidade é enrolada no lençol ideológico.
Este analista não quer descartar o debate internacional sobre ideologias – esquerda, direita, socialismo, Estado paquidérmico, Estado enxuto, liberalismo, social-democracia. Até é possível enxergar uma onda direitista soprando em vários recantos. Mas, nesse momento, o que está em jogo em nossas plagas é a meta de proporcionar um PNBF maior (Produto Nacional Bruto da Felicidade) para o bem da coletividade.
P.S. Queria ver pesquisas sobre a opção do eleitor – esquerda, direito, centro. Seria bem provável que apontasse para o bolso e para a barriga.
Lula e Bolsonaro podem conduzir o país por qualquer uma dessas trilhas, afastando-se da dualidade entre o Bem e o Mal, erguendo a bandeira do progresso e da harmonia social ou seria isso um sonho? Terão envergadura para assumir compromissos com a ordem democrática e, mais que isso, a férrea determinação de inserir o Brasil na rota do futuro, meta que vai além do rol de promessas mirabolantes de campanha?
O governante que o Brasil precisa deve assumir, de maneira clara, a defesa dos preceitos constitucionais, a partir dos direitos individuais e coletivos, a liberdade de expressão e a instauração de políticas voltadas para a pluralidade, a diversidade e a causa ambiental. E preservar o que de bom já foi feito em administrações passadas.
Temos um perfil para vestir esse figurino? Vamos lá. Lula e Bolsonaro, ao longo de suas trajetórias, construíram uma identidade que gera intensa polêmica. Um e outro são adornados com as vestes do Arcanjo e do Demônio, alternando-se o traje de acordo com a origem dos trombeteiros. Ou seja, tanto um como outro trocam de posição.
A banda de Luiz Inácio o considera autêntico defensor da democracia, por sua jornada de lutas contra a ditadura e por sua identificação com as demandas das massas carentes. Hoje, ainda é visto como extensão do socialismo clássico.
Já Bolsonaro lapidou seu perfil nos fornos dos anos de chumbo, servindo ao Exército, chegando ao posto de capitão. Na política, tornou-se um ícone da direita conservadora, expressando apoio à tortura e aos torturadores. O fiel soldado extremista acabou sentado na cadeira presidencial, na esteira de escândalos que assolaram o terreiro petista.
O passado, desse modo, emerge como gigantesca sombra que acolhe ambos. Dessa textura, extrai-se a questão: não é possível passar uma borracha no passado. As pessoas mudam, mas certos valores continuam a balizar sua índole.
Tem sentido votar e/ou rejeitar um candidato por feitos ou desfeitos de ontem? Sim. Mas o passado não pode ser apenas a chave da porta do poder. Urge saber o que pensam, hoje, os contendores, sob a crença de que alguns fenômenos do passado se tornaram obsoletos.
Seria conveniente que, no momento em que duas visões bem diferentes travam feroz luta pela conquista do comando do país, os candidatos fossem avaliados por sua índole, seus compromissos, suas crenças, seus programas e, sobretudo, por sua identificação com o ideário da democracia e do Estado de Direito. Quais são as carências, potenciais e demandas das classes sociais? Quem tem as melhores ideias para proporcionar o bem-estar social?
É claro que as bandas raivosas e ensandecidas, que atuam como tuba de ressonância dos candidatos, não têm interesse em resgatar o grande discurso, em superpor o substantivo sobre o adjetivo rancoroso. O ódio, a revanche, a falsidade são armas da campanha, usadas como anzol para fisgar eleitores incautos.
Precisamos tirar da agenda os velhos cacoetes, o “nós e eles” e o “eles e nós”. Lula precisa ouvir o sussurro das ruas e entender que já não basta construir muros na sociedade ou igrejinhas para o PT. Se quer consolidar uma frente ampla em defesa da democracia, deve acenar com a bandeira da união, da paz social e do progresso. Muito cuidado com o furo do teto de gastos e o controle da imprensa, coisas que integram a cartilha lulista.
Bolsonaro não pode avocar as pérfidas ações dos tempos de chumbo, atraindo as massas com uma lengalenga que lembra a tensão da Guerra Fria, quando o lema era: “comunistas comem criancinhas”. Os tempos são outros. Jair, que se diz amigo de Vladimir Putin, deve melhorar a retórica destrambelhada e assumir postura condizente com a liturgia do cargo. Cuidado com o assistencialismo populista, herança do passado e isca de pesca eleitoral.
Luis Inácio: Venezuela, Cuba, Nicarágua ou Coréia do Norte são sistemas fracassados. Longe de serem alçados ao altar de referências. Aos dois candidatos, um conselho simples: interpretem as mensagens que o eleitor transmitiu com seu voto. Vejam que o 2º turno foi uma opção para analisar melhor os pleiteantes.
Não procurem pinçar nos recados do eleitor traços de esquerdismo ou direitismo. Classificar a comunidade política sob o prisma ideológico é um erro. As massas querem conforto, segurança, educação, serviços públicos de qualidade. Pergunte-se a um anônimo na multidão: “o senhor é de esquerda ou de direita”? Responderá com cara de espanto: “Como”? Só uma fração da comunidade é enrolada no lençol ideológico.
Este analista não quer descartar o debate internacional sobre ideologias – esquerda, direita, socialismo, Estado paquidérmico, Estado enxuto, liberalismo, social-democracia. Até é possível enxergar uma onda direitista soprando em vários recantos. Mas, nesse momento, o que está em jogo em nossas plagas é a meta de proporcionar um PNBF maior (Produto Nacional Bruto da Felicidade) para o bem da coletividade.
P.S. Queria ver pesquisas sobre a opção do eleitor – esquerda, direito, centro. Seria bem provável que apontasse para o bolso e para a barriga.
sexta-feira, 7 de outubro de 2022
País elege um Congresso como nunca se viu na democracia
A discussão política quase toda se afoga no mar de ansiedade quanto ao resultado da eleição presidencial. É compreensível. Podemos estar pela hora da morte da democracia. Conviria, porém, prestar atenção ao Congresso, assunto em parte obliterado pelo excesso de discussão de "apoios" para o segundo turno, muita vez apenas fofoca politiqueira.
O Congresso é assunto de interesse prático e quase imediato. Embora pareça já história velha, ainda não se deu devida atenção ao fato de que a maioria do Congresso e as presidências de Câmara e Senado devem ser dominadas por uma coalizão de direita, fisiológica e/ou extremista, que jamais se viu na redemocratização.
Isso deve ter consequências sérias tanto para Lula da Silva (PT) como para Jair Bolsonaro (PL). O blocão direitista terá influência na política do Supremo (sic), ainda maior na malversação do Orçamento e no aparelhamento de funções de Estado.
PL, União Brasil, o PP, que governa para Bolsonaro, e o Republicanos (partido evangélico estrito senso) engordaram devido ao bolsonarismo, a Bolsonaro ou eles aderiram. Em coalizão, teriam 246 votos.
Podem engordar mais, devido a fuga de parlamentares de partidos ameaçados pela cláusula de barreira ou atraídos por outros incentivos. A coalizão pode crescer ainda com a adesão fácil de uma dúzia de direitistas dos nanicos.
Essa quadra direitista elegeu 154 deputados em 2018 e 114 em 2014, note-se. O ano de 2014 foi também o da grande fragmentação, do começo da dissolução do sistema partidário dominante entre 1990 e 2010, em que os maiores partidos eram em geral PMDB, PFL (depois DEM), PSDB e PT. Desses partidos, o "velho centro", central na definição do que era governo e oposição, acabou de se dissolver.
A fragmentação partidária na Câmara diminuiu em 2022. Apesar de ainda grande, voltou mais ou menos ao nível do que era entre 2002 e 2010. Na verdade, já diminuíra ao longo da legislatura de 2019-2022.
Nesses anos, o PL engordou com a migração de bolsonaristas duros do PSL, o União Brasil absorveu o bolsonarismo aguado do PSL restante, pois o DEM tomou uma atitude a fim de não se tornar um nanico como o PSDB. Além disso, elegeram ainda mais deputados.
O centrão, enfim, chegou ao centro do poder, depois de duas décadas como agregado menor de PSDB-DEM e PT. Agora, vestiu a roupa da direita extremada sobre a pele fisiológica —ou é de extrema direita mesmo. Esses partidos são netos ou bisnetos da Arena, o partido da ditadura. São liderados por alguns oligarcas regionais, mas de composição e base social ainda lá não muito bem compreendidas.
A opinião popular e de muito cientista político diz que é fácil comprar apoio parlamentar. Que seja. Ficou mais caro e isto tem consequências várias.
Uma consequência, desprezada por muito politólogo, foi o grande nojo da população por um sistema político negocista, indiferenciado "ideologicamente", fechado à participação e a exigências de mudanças e resultados reais. A revolta contra tal estado de coisas explodiu em 2013 e continua. Não é por acaso que a atitude "antissistema" tem apelo, mesmo depois da farsa de Bolsonaro.
De mais concreto, Bolsonaro pode ter vida mais fácil na nova Câmara, em parte por afinidade ideológica. Ainda que siga o arroz com feijão de certa politologia, redistribuição sem mais de poder, Lula terá problemas. O miolo mais maleável do Congresso desapareceu e a esquerda é ainda mais diminuta.
Essa mudança parece velha, pois começou a ficar evidente já na eleição de 2014, tomou impulso em 2018 e deu sinal forte de persistência na eleição municipal de 2020. Mas não estava consolidada, como é gritante pelo resultado desta eleição de 2022. É uma novidade grande.
O Congresso é assunto de interesse prático e quase imediato. Embora pareça já história velha, ainda não se deu devida atenção ao fato de que a maioria do Congresso e as presidências de Câmara e Senado devem ser dominadas por uma coalizão de direita, fisiológica e/ou extremista, que jamais se viu na redemocratização.
Isso deve ter consequências sérias tanto para Lula da Silva (PT) como para Jair Bolsonaro (PL). O blocão direitista terá influência na política do Supremo (sic), ainda maior na malversação do Orçamento e no aparelhamento de funções de Estado.
PL, União Brasil, o PP, que governa para Bolsonaro, e o Republicanos (partido evangélico estrito senso) engordaram devido ao bolsonarismo, a Bolsonaro ou eles aderiram. Em coalizão, teriam 246 votos.
Podem engordar mais, devido a fuga de parlamentares de partidos ameaçados pela cláusula de barreira ou atraídos por outros incentivos. A coalizão pode crescer ainda com a adesão fácil de uma dúzia de direitistas dos nanicos.
Essa quadra direitista elegeu 154 deputados em 2018 e 114 em 2014, note-se. O ano de 2014 foi também o da grande fragmentação, do começo da dissolução do sistema partidário dominante entre 1990 e 2010, em que os maiores partidos eram em geral PMDB, PFL (depois DEM), PSDB e PT. Desses partidos, o "velho centro", central na definição do que era governo e oposição, acabou de se dissolver.
A fragmentação partidária na Câmara diminuiu em 2022. Apesar de ainda grande, voltou mais ou menos ao nível do que era entre 2002 e 2010. Na verdade, já diminuíra ao longo da legislatura de 2019-2022.
Nesses anos, o PL engordou com a migração de bolsonaristas duros do PSL, o União Brasil absorveu o bolsonarismo aguado do PSL restante, pois o DEM tomou uma atitude a fim de não se tornar um nanico como o PSDB. Além disso, elegeram ainda mais deputados.
O centrão, enfim, chegou ao centro do poder, depois de duas décadas como agregado menor de PSDB-DEM e PT. Agora, vestiu a roupa da direita extremada sobre a pele fisiológica —ou é de extrema direita mesmo. Esses partidos são netos ou bisnetos da Arena, o partido da ditadura. São liderados por alguns oligarcas regionais, mas de composição e base social ainda lá não muito bem compreendidas.
A opinião popular e de muito cientista político diz que é fácil comprar apoio parlamentar. Que seja. Ficou mais caro e isto tem consequências várias.
Uma consequência, desprezada por muito politólogo, foi o grande nojo da população por um sistema político negocista, indiferenciado "ideologicamente", fechado à participação e a exigências de mudanças e resultados reais. A revolta contra tal estado de coisas explodiu em 2013 e continua. Não é por acaso que a atitude "antissistema" tem apelo, mesmo depois da farsa de Bolsonaro.
De mais concreto, Bolsonaro pode ter vida mais fácil na nova Câmara, em parte por afinidade ideológica. Ainda que siga o arroz com feijão de certa politologia, redistribuição sem mais de poder, Lula terá problemas. O miolo mais maleável do Congresso desapareceu e a esquerda é ainda mais diminuta.
Essa mudança parece velha, pois começou a ficar evidente já na eleição de 2014, tomou impulso em 2018 e deu sinal forte de persistência na eleição municipal de 2020. Mas não estava consolidada, como é gritante pelo resultado desta eleição de 2022. É uma novidade grande.
O que sobrou da democracia
Uma das hipóteses levantadas com frequência por cientistas políticos é a de que após uma derrota eleitoral Jair Bolsonaro não conseguiria manter vivo o movimento reacionário que encabeçou. O resultado que saiu das urnas mostra o contrário. Em 2018, descobrimos que as redes poderiam mudar radicalmente o cenário político. Aí parece que esquecemos a lição. Pois elas seguem transformando o Brasil. Para pior.
Os partidos de Centro e Centro-Direita foram dizimados no Congresso. PSDB, Novo, MBL, mesmo MDB, reduzidos a uma fração do que já foram. No último pleito, Bolsonaro trouxe consigo uma penca de parlamentares. Os que entregaram o nível de lealdade e extremismo exigidos pelo presidente se elegeram.
Com base na teoria política tradicional, não era para ter sido assim. Os candidatos fisiológicos tiveram muito dinheiro para fazer campanha, os bolsonaristas não tanto. Mas foram estes que acumularam milhares de votos. Além disso, Bolsonaro não tem um partido, é hóspede no PL. Sem partido, sugere a teoria que temos, não dá para ter movimento.
Mas, se não houvesse um movimento, se não houvesse um Bolsonarismo vivo e na sociedade, nem Bolsonaro teria dado sua arrancada final, nem sua base teria sido a campeã.
Não precisa de partido. Bastam as lives de dentro do plenário, na saída de um palácio. Bastam as bem construídas redes de Zap, que atingem num só dia dezenas de milhões de brasileiros. O algoritmo do TikTok e do Kwai, o do YouTube. Essas estruturas mantém políticos bolsonaristas e suas bases em contato contínuo, mantendo a militância mobilizada.
Esta comunicação que o digital proporciona aos políticos, e isso é quase exclusividade da extrema-direita, é barata, envolve emocionalmente, é permanente e instantânea.
O digital transformou a maneira como a política é feita. Quando mergulharmos nas pesquisas para entender onde erraram, possivelmente descobriremos que não erraram. A instantaneidade do digital catalisa decisões de última hora. Pesquisas feitas pessoalmente mostram o retrato de três dias atrás, as por telefone de um ou dois, painéis na internet conseguem encurtar o tempo. Na semana da eleição, pesquisas serão mais úteis para detectar movimentos do que placares.
Hoje, pela incapacidade de boa parte dos políticos dominarem o digital, porque a ciência política e o jornalismo político não estão suficientemente atentos, o poder foi capturado pelo pior que temos.
O que sobrou da democracia brasileira foram Esquerda e Centro-esquerda. É isso que temos para hoje.
Os partidos de Centro e Centro-Direita foram dizimados no Congresso. PSDB, Novo, MBL, mesmo MDB, reduzidos a uma fração do que já foram. No último pleito, Bolsonaro trouxe consigo uma penca de parlamentares. Os que entregaram o nível de lealdade e extremismo exigidos pelo presidente se elegeram.
Com base na teoria política tradicional, não era para ter sido assim. Os candidatos fisiológicos tiveram muito dinheiro para fazer campanha, os bolsonaristas não tanto. Mas foram estes que acumularam milhares de votos. Além disso, Bolsonaro não tem um partido, é hóspede no PL. Sem partido, sugere a teoria que temos, não dá para ter movimento.
Mas, se não houvesse um movimento, se não houvesse um Bolsonarismo vivo e na sociedade, nem Bolsonaro teria dado sua arrancada final, nem sua base teria sido a campeã.
Não precisa de partido. Bastam as lives de dentro do plenário, na saída de um palácio. Bastam as bem construídas redes de Zap, que atingem num só dia dezenas de milhões de brasileiros. O algoritmo do TikTok e do Kwai, o do YouTube. Essas estruturas mantém políticos bolsonaristas e suas bases em contato contínuo, mantendo a militância mobilizada.
Esta comunicação que o digital proporciona aos políticos, e isso é quase exclusividade da extrema-direita, é barata, envolve emocionalmente, é permanente e instantânea.
O digital transformou a maneira como a política é feita. Quando mergulharmos nas pesquisas para entender onde erraram, possivelmente descobriremos que não erraram. A instantaneidade do digital catalisa decisões de última hora. Pesquisas feitas pessoalmente mostram o retrato de três dias atrás, as por telefone de um ou dois, painéis na internet conseguem encurtar o tempo. Na semana da eleição, pesquisas serão mais úteis para detectar movimentos do que placares.
Hoje, pela incapacidade de boa parte dos políticos dominarem o digital, porque a ciência política e o jornalismo político não estão suficientemente atentos, o poder foi capturado pelo pior que temos.
O que sobrou da democracia brasileira foram Esquerda e Centro-esquerda. É isso que temos para hoje.
Os evangélicos do Brasil
Que evangelhos leram os evangélicos
do Brasil?
Que aprenderam, nesses evangelhos,
de subtil?
Acharam que o capitão Bolsonaro
era gentil?
Aquele infame palhaço ignaro,
carão hostil?
Isso ensinaram os evangelhos,
no Brasil?
Mas, então, nessa terra do Brasil,
não há Abril?
Que mal fizeram ao mundo os índios
do Brasil?
Não achará o Brasil, para seu bem,
algum ardil?
Por exemplo, enterrar os evangélicos
num covil?
Eugénio Lisboa, escritor e poeta português
do Brasil?
Que aprenderam, nesses evangelhos,
de subtil?
Acharam que o capitão Bolsonaro
era gentil?
Aquele infame palhaço ignaro,
carão hostil?
Isso ensinaram os evangelhos,
no Brasil?
Mas, então, nessa terra do Brasil,
não há Abril?
Que mal fizeram ao mundo os índios
do Brasil?
Não achará o Brasil, para seu bem,
algum ardil?
Por exemplo, enterrar os evangélicos
num covil?
Eugénio Lisboa, escritor e poeta português
Onde a Covid matou mais, Bolsonaro derrotou Lula com folga
A pandemia subtraiu votos a Bolsonaro que deu passe livre ao vírus para matar os “que tivessem de morrer”, mas não o suficiente a ponto de torná-lo execrado por sua ignorância e desumanidade, responsável em parte pela morte de mais de 650 mil pessoas.
Levantamento do Valor Data mostra que se a eleição tivesse se limitado aos 194 municípios com mortalidade por Covid acima da média, Bolsonaro estaria reeleito no primeiro turno. Onde o vírus matou mais, ele alcançou 66% dos votos, e Lula, 44%.
Nos 20 municípios que encabeçam a lista dos 194, Bolsonaro ganhou em 15 e Lula em 5. A maioria dos 20 está em São Paulo (7) e no Paraná (4). Os demais em Mato Grosso (2), Alagoas (2), Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Espírito Santo e Rondônia.
O número de mortos por 100 mil habitantes varia. Vai de 1.040 em Santa Clara do Oeste a 707 em São Caetano do Sul, ambos municípios de São Paulo. Nos extremos do país, o vírus matou 784 em uma cidade de Rondônia e 825 em outra do Rio Grande do Sul.
Faltou oxigênio em Manaus durante a pandemia e muitos morreram sufocados. O governo federal culpou o estadual pela tragédia, e o estadual negou a culpa. Bolsonaro imitou em live uma pessoa morrendo sem oxigênio. Pois ele venceu em Manaus.
Que país é esse? O que explica Bolsonaro ser bem votado no primeiro turno em lugares onde as populações deram-se tão mal com o vírus? Que os estudiosos do assunto possam explicar um dia. Certamente haverá explicações de toda natureza.
É possível, por exemplo, que a política do “fique em casa” defendida por governadores e prefeitos não tenha sido bem aceita pelos que queriam sair de casa. Ela pode ter sido entendida como mais uma forma de intervenção do Estado na vida privada.
Ou vai ver que em redutos bolsonaristas, o amor à vida revelou-se menor do que o amor ao presidente que combateu as medidas de isolamento. Isso poderá até deixar Bolsonaro satisfeito, mas a história é implacável com os que fazem o mal ao invés do bem.
Levantamento do Valor Data mostra que se a eleição tivesse se limitado aos 194 municípios com mortalidade por Covid acima da média, Bolsonaro estaria reeleito no primeiro turno. Onde o vírus matou mais, ele alcançou 66% dos votos, e Lula, 44%.
Nos 20 municípios que encabeçam a lista dos 194, Bolsonaro ganhou em 15 e Lula em 5. A maioria dos 20 está em São Paulo (7) e no Paraná (4). Os demais em Mato Grosso (2), Alagoas (2), Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Espírito Santo e Rondônia.
O número de mortos por 100 mil habitantes varia. Vai de 1.040 em Santa Clara do Oeste a 707 em São Caetano do Sul, ambos municípios de São Paulo. Nos extremos do país, o vírus matou 784 em uma cidade de Rondônia e 825 em outra do Rio Grande do Sul.
Faltou oxigênio em Manaus durante a pandemia e muitos morreram sufocados. O governo federal culpou o estadual pela tragédia, e o estadual negou a culpa. Bolsonaro imitou em live uma pessoa morrendo sem oxigênio. Pois ele venceu em Manaus.
Que país é esse? O que explica Bolsonaro ser bem votado no primeiro turno em lugares onde as populações deram-se tão mal com o vírus? Que os estudiosos do assunto possam explicar um dia. Certamente haverá explicações de toda natureza.
É possível, por exemplo, que a política do “fique em casa” defendida por governadores e prefeitos não tenha sido bem aceita pelos que queriam sair de casa. Ela pode ter sido entendida como mais uma forma de intervenção do Estado na vida privada.
Ou vai ver que em redutos bolsonaristas, o amor à vida revelou-se menor do que o amor ao presidente que combateu as medidas de isolamento. Isso poderá até deixar Bolsonaro satisfeito, mas a história é implacável com os que fazem o mal ao invés do bem.
quinta-feira, 6 de outubro de 2022
Medo, a base da religião
A religião se baseia, acredito, em primeiro lugar e principalmente, no medo. Trata-se, em parte, do terror ao desconhecido e, em parte, como eu já disse, do desejo de sentir a existência de um tipo de irmão mais velho a proteger-nos em todos os problemas e disputas. O medo é a base de todo o problema: medo do misterioso, medo da derrota, medo da morte. O medo é o progenitor da crueldade, e portanto não é nada surpreendente o fato de a crueldade e a religião andarem lado a lado. Isso acontece porque o medo é a base de ambas as coisas.
Neste mundo, agora podemos começar a compreender um pouco as coisas e a controlá-las com a ajuda da ciência, que abriu seu caminho à força, passo a passo, contra a religião cristã, contra as igrejas e contra a oposição de todos os preceitos antigos. A ciência pode nos ajudar a superar esse medo covarde no qual a humanidade vive há tantas gerações. A ciência pode nos ensinar, e acredito que também nosso próprio coração pode fazê-lo, a não mais olhar em volta em busca de apoios imaginários, a não mais inventar aliados no céu, mas, em vez disso, a olhar para os nossos próprios esforços aqui embaixo, a fim de fazer deste mundo um lugar adequado para se viver, em vez do tipo de lugar em que as igrejas ao longo desses séculos todos o transformaram.
Bertrand Russell, "Por que não sou cristão"
Neste mundo, agora podemos começar a compreender um pouco as coisas e a controlá-las com a ajuda da ciência, que abriu seu caminho à força, passo a passo, contra a religião cristã, contra as igrejas e contra a oposição de todos os preceitos antigos. A ciência pode nos ajudar a superar esse medo covarde no qual a humanidade vive há tantas gerações. A ciência pode nos ensinar, e acredito que também nosso próprio coração pode fazê-lo, a não mais olhar em volta em busca de apoios imaginários, a não mais inventar aliados no céu, mas, em vez disso, a olhar para os nossos próprios esforços aqui embaixo, a fim de fazer deste mundo um lugar adequado para se viver, em vez do tipo de lugar em que as igrejas ao longo desses séculos todos o transformaram.
Bertrand Russell, "Por que não sou cristão"
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