domingo, 17 de novembro de 2019
A pele branca e o mito da paz racial na América Latina

Em relação às populações nativas, sofreram o extermínio na chamada Conquista do Deserto e sucessivas campanhas militares, como as do general Roca, e foram depois consumidas pela marginalização. Hoje, apenas 2% dos argentinos se consideram membros das etnias originárias.
A Argentina, dizíamos, é um simples exemplo de uma realidade continental. Sobre alguns elementos, como as denúncias de frei Bartolomé de las Casas contra a crueldade exercida sobre os nativos no começo do século XVI, e o fato de que muitos colonizadores espanhóis tiveram descendência com nativas, se construiu um peculiar mito segundo o qual na América Latina a questão racial seria menos sangrenta do que na América de colonização anglo-saxã. É, de fato, um mito.
A questão racial continua sendo um dos pontos fundamentais dos conflitos políticos, especialmente nos lugares em que são mais numerosos os membros de populações nativas e os descendentes de escravos. Jair Bolsonaro sabia que estava ganhando votos quando, após visitar uma comunidade quilombola em 2017, comentou jocoso que “o afrodescendente mais magro ali pesava sete arrobas” e que não serviam “para nada”. “Já não servem nem para procriar”, comentou, rindo.
A Bolívia é o único país latino-americano em que os povos nativos são maioria: 62% dos habitantes, de acordo com dados das Nações Unidas. Quem quiser captar a essência do conflito político e social que ameaça destruir o país deve levar muito em consideração esse fato. Seria bem engraçado escutar os argumentos do novo e espantosamente ilegítimo Governo (ilegitimidade que não justifica os desmandos cometidos por Evo Morales) sobre como são pagãos, selvagens e desprezíveis os índios com suas polleras (traje típico) e sua Pachamama, se não fosse pelo fato de que essas pessoas que assaltaram o poder com a Bíblia na mão encarnam o horror do supremacismo mais estúpido.
É difícil entender, a essas alturas, o prestígio de uma pele branca. O caso é que esse prestígio se mantém. O caso é que todas as oligarquias dessa parte do mundo (caudilhos e burocratas da revolução) veneram a pele branca e a origem europeia de antepassados tão famélicos e desesperados como qualquer imigrante. O caso é que as coisas não têm solução razoável se esse delírio da raça não for superado previamente.
A síndrome de Odorico Paraguaçu
Odorico foi o personagem central e inesquecível da novela da Globo “O Bem Amado”, genialmente concebido por Dias Gomes com a interpretação magistral de Paulo Gracindo e um elenco recheado de artistas talentosos.
De fato, o protagonista interpretava o prefeito de Sucupira, um dos grotões desse imenso Brasil, município imaginário na Bahia, mas em nada diferente do que os estudiosos chamam de “realpolitik”. O edil nordestino era a síntese da cultura que permeia a política brasileira, com todos cacoetes da grandiloquência, do embuste, da esperteza e o completo desprezo pelos mínimos sinais das propaladas “virtudes republicanas”.
No entanto, a solução dos grandes problemas nacionais passa pelo poder local. E não é difícil entender. Nos municípios que estão na base da pirâmide federalista, o mundo real se revela. Neles, o governo de proximidade não lida com abstrações: desnutrição não é um conceito científico, é a pessoa sem pão, sem feijão; desemprego não é uma situação socioeconômica, é o sujeito pedindo ou assaltando nos semáforos; mortalidade infantil não é um dado estatístico, é o desespero do pai de família que bate na porta do prefeito ou do vereador.
A fonte de inspiração do autor foi o que Platão, depreciando a democracia ateniense, chamava de “teatrocracia” e o que Bill Clinton disse sobre a política: “é igual a Hollywood, só que com gente feia”.
De fato, o protagonista interpretava o prefeito de Sucupira, um dos grotões desse imenso Brasil, município imaginário na Bahia, mas em nada diferente do que os estudiosos chamam de “realpolitik”. O edil nordestino era a síntese da cultura que permeia a política brasileira, com todos cacoetes da grandiloquência, do embuste, da esperteza e o completo desprezo pelos mínimos sinais das propaladas “virtudes republicanas”.
Porém, Odorico e seus pares, os prefeitos, pagaram a conta maior da ridicularia. Enquanto isso, autoridades das outras esferas metiam “a boca no capim”, como disse um prócer partidário, ao ser nomeado para um cargo que “tinha poço”. Todo prefeito, justa ou injustamente, é tido como portador da síndrome de Odorico Paraguaçu.
No entanto, a solução dos grandes problemas nacionais passa pelo poder local. E não é difícil entender. Nos municípios que estão na base da pirâmide federalista, o mundo real se revela. Neles, o governo de proximidade não lida com abstrações: desnutrição não é um conceito científico, é a pessoa sem pão, sem feijão; desemprego não é uma situação socioeconômica, é o sujeito pedindo ou assaltando nos semáforos; mortalidade infantil não é um dado estatístico, é o desespero do pai de família que bate na porta do prefeito ou do vereador.
E assim sucede com todas as carências: no município a necessidade tem cara de gente; as prioridades estão à vista, clamando para serem atendidas; as soluções são mais simples, criativas e baratas.
Paradoxalmente, para começar a falar em pacto federativo, o primeiro e o passo fundamental é aprovar a PEC que propõe, a partir de 2026, a incorporação e fusão de municípios com menos de 5.000 habitantes e arrecadação própria menor que 10% da receita total (1.253 municípios, sendo que Serra da Saudade (MG), Borá (SP) e Araguainha (MT) têm, respectivamente, 781, 837 e 935 habitantes).
De 1988 a 1996, aconteceu a “farra” dos municípios: foram criados cerca 1200, dividindo penúria e somando votos. Odorico Paraguaçu é inocente. Só queria inaugurar um cemitério.
Deus, Pátria e Família
Os dois grupos de ultradireita são separados por 87 anos e duas ditaduras. Unem-se no apelo à fé, ao nacionalismo e ao anticomunismo para mobilizar seguidores e disputar o poder.
Os integralistas buscaram referências na Europa. Salgado chegou a ser recebido por Mussolini, que comandava a Itália com seus milicianos de camisas negras. Voltou decidido a copiar o modelo de Estado autoritário, com partido único, hierarquia rígida e submissão total ao chefe.
“O símbolo lembra que o nosso movimento tem o significado de integrar todas as forças sociais do país na suprema expressão da nacionalidade”, explica o site da Frente Integralista Brasileira, que cultua a memória e o ideário de Salgado.
Na quinta-feira, o grupo celebrou a reciclagem do lema pelo partido de Bolsonaro. “É mais uma demonstração do quanto estão vivos os ideais essencial e sadiamente cristãos e brasileiros do integralismo”, festejou, nas redes sociais.
O historiador Odilon Caldeira Neto, da Universidade Federal de Juiz de Fora, vê traços de continuidade entre os dois movimentos. “O integralismo ajudou a formar uma cultura política nacionalista e autoritária”, explica.
Autor do livro “Sob o Signo do Sigma: Integralismo, Neointegralismo e o Antissemitismo” (Eduem, 2014), ele acompanha os pequenos grupos que se espelham em Salgado. Depois da extinção do Prona, do ex-deputado Enéas Carneiro, eles se aproximaram do PRTB, do vice-presidente Hamilton Mourão.
Com a eleição de Bolsonaro, os neointegralistas encontraram um governo partilha suas bandeiras ultraconservadoras. Isso não significa que a Aliança pelo Brasil seja uma nova versão da Ação Integralista Brasileira. O mundo é outro, os personagens também.
Plínio Salgado cultivava veleidades intelectuais. Circulou com os modernistas e escreveu cerca de 70 obras. Bolsonaro e seus filhos não têm intimidade com os livros: preferem os vídeos do guru Olavo de Carvalho. O líder integralista admirava Mussolini, fuzilado em 1945. A família presidencial mira-se em Donald Trump, que sonha com a reeleição em 2020.
Na campanha, o capitão usava uma camiseta com a frase “Meu partido é o Brasil”. Para o historiador Caldeira Neto, a criação da Aliança reforça o caráter antissistêmico do bolsonarismo. “Ela nasce como um partido e, ao mesmo tempo, como um antipartido”, define. Ao mesmo tempo, o clã promove uma “purificação” na tropa, abandonando os dissidentes no PSL.
No que isso vai dar? “Ainda é uma incógnita”, diz o professor da UFJF.
De curtos-circuitos e centelhas
Pois essa aparência se dissolveu de vez. Vemo-nos agora, como sugere Fernando Henrique Cardoso, em meio a fios desencapados cujo contato acidental pode desencadear curtos-circuitos de proporções imprevistas, passando transversalmente por classes e camadas sociais, ignorando ou redefinindo interesses materiais brutos, acirrando demandas de reconhecimento ou explorando ressentimentos difusos. Um conhecedor das revoluções do século 20 poderia mencionar, a propósito, a centelha – a iskra, não por acaso o título de um jornal operário russo – que faria incendiar todo o edifício da ordem, mas o que falta agora, irremediavelmente, é o agente político – o partido – que compreende a si mesmo como capaz de dominar todo o processo e encaminhá-lo para o fim previamente disposto.

Na falta desse demiurgo – o que não é de lamentar –, requerem-se doses adicionais de cautela e comedimento, atenção aos riscos que assediam nossas sociedades e afeição inabalável às formas da democracia. Já é alguma coisa que tenha desaparecido do horizonte, a não ser no caso de seitas francamente minoritárias, o apelo revolucionário que, estivéssemos nos anos 1960, teria imposto o recurso às armas e a militarização da política – ou, na verdade, a anulação desta última da pior forma possível. Cuba, o símbolo daquela época, hoje é parte do problema, não hipótese de solução. A manutenção do autoritarismo na antiga ilha rebelde chega a ser funcional para a extrema direita da região, unida, como se viu em recente voto nas Nações Unidas, na estratégia infame do bloqueio, que enrijece o regime, garante-lhe algum consenso passivo e, acima de tudo, castiga cruelmente o povo cubano.
No mundo em rede, a centelha pode vir de qualquer parte, até mesmo de Hong Kong, e nascer de fatos rotineiros, como o aumento no bilhete de metrôs. Foi o que vimos em junho de 2013, sem, no entanto, apreender os sinais inquietantes emitidos sobre o descolamento entre política e cidadãos, e é o que estamos vendo por estas semanas no Chile, ainda há pouco tido como “oásis” num continente campeão de injustiças e desigualdades. Mera miopia ter visto só “direita” nas ruas brasileiras de 2013, assim como miopia total é ver “subversão de esquerda” no Chile de agora, tal como interessadamente o faz quem sonha com a reedição de atos institucionais ou com o advento de uma democracia plebiscitária em torno do “homem forte”.
A sedução do homem providencial, aliás, percorre a política latino-americana de fio a pavio, como praga daninha. Os presidentes ou ditadores “eternos” pulam da História diretamente para as páginas do realismo fantástico – e vice-versa. E que a praga não está restrita aos caudilhos caricatamente reacionários comprova-o a safra de reeleições ilimitadas protagonizada pelos recentes chefes bolivarianos, como Chávez, Maduro e Morales.
Sob aspectos essenciais o Chile se afasta desse padrão e precisamente por isso a grande crise atual da sua democracia nos inquieta de modo agudo. Trata-se de uma realidade a desafiar automatismos pró-governo, por parte da extrema direita brasileira, ou pró-oposição, por parte da esquerda populista. O Chile, como se sabe, conseguiu não só ter números macroeconômicos consistentes, como também, nas duas décadas que o separam do pinochetismo, reduziu a pobreza e passou a ostentar bons resultados sociais por qualquer índice que se adote, sempre tendo em conta o contexto latino-americano. Mas é indiscutível que fundamentos do pinochetismo persistem, como o atesta a previdência individualizada, que é antes índice de uma sociedade de mercado que de uma economia de mercado. E sociedades assim, em que escasseiam bens públicos, como, entre outros, a proteção à velhice, são um terreno propício para centelhas e curtos-circuitos.
A esquerda brasileira oficial, contudo, treinada historicamente no confronto por conta do corporativismo radicalizado, não deveria deter-se nesta primeira constatação, sob pena de perder o essencial. Num país de partidos e tradições longamente enraizadas, a longa noite pinochetista seria superada de modo gradual, ainda nos anos 1990, com recursos puramente políticos. Democratas-cristãos e socialistas, ao convergirem num projeto comum, o da Concertación, realizaram o que o ex-presidente Ricardo Lagos recentemente chamou de “épica da sua geração”: com meios ínfimos diante do poder do ditador, a política democrática trouxe de volta o Chile para o lugar que lhe é próprio num continente martirizado como nuestra América.
Para desconsolo até da direita chilena que atua nos marcos legais, é sabido que nossos governantes, sem dúvida eleitos legitimamente, contam-se entre os admiradores confessos do déspota, embora, sob a Constituição de 1988, estejamos distantes de qualquer pinochetismo ou coisa parecida. Mesmo assim, uma estratégia de choque frontal alimentaria tensões, cindiria ainda mais o tecido social e abriria espaço para todo tipo de curto-circuito. O caminho da concertação aponta em outro sentido, exigindo a autocontenção dos atores oposicionistas, mas não é certo que tomemos rapidamente esta segunda via para escrever a épica que precisa ser escrita.
A política é uma folia
Todas as combinações possíveis já pareciam esgotadas. Apenas entre os que comercializam a sigla trabalho, temos o Partido Trabalhista Brasileiro, o Partido Democrático Trabalhista, o Partido Trabalhista Cristão, o Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado e —epa!— o Partido dos Trabalhadores.

Na área socialista ou social-democrata, temos o Partido Socialista Brasileiro, o Partido Social Cristão, o Partido Social Democrático, o já citado e meio coringa Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado e o Partido da Social-Democracia Brasileira, o falecido PSDB. E alguém sabia que o ex-partido de Bolsonaro, o PSL se chama Partido Social Liberal?
Não há quem se entenda nessa algaravia de siglas: Pode, Pros, PCO, PTC, PRTB, PSTU. Há um PSB, um PSC e um PSD —quando virá o PSE? O dito PCO é o Partido da Causa Operária, com 3.688 filiados que chegam de kombi. Há o PMB, Partido da Mulher Brasileira, que, dizem, tem mais homens do que mulheres como adeptos. E a Justiça Eleitoral está analisando os registros de mais 76 partidos, entre os quais o Partido Militarista Brasileiro e o Partido Nacional Corinthiano.
Vou sugerir ao pessoal do Bola a criação do Partido Nacional do Bola Preta. Se a política é uma folia, um partido que leva para as ruas dois milhões de foliões no Carnaval pode arrasar nas urnas.
Caminho dos 'eleitos'
A Aliança pelo Brasil é o caminho que escolhemos e queremos para o futuro e para o resgate de um país massacrado pela corrupção e pela degradação moral contra as boas práticas e os bons costumesPrograma do novo, e nono, partido do presidente
Tomar dinheiro de desempregado é covardia
Pela proposta da "ekipekonômica", os brasileiros que recebem o seguro-desemprego, que vai de R$ 998 a R$ 1.735, pagarão de R$ 75 a R$ 130 como contribuição previdenciária. O sujeito perdeu o emprego, não tem outra renda, pede o benefício, que dura até cinco meses, e querem mordê-lo em 7,5% do que é pouco mais que uma esmola.
Se isso fosse pouco, no mesmo pacote a ekipekonômika desonerou os empregadores que aderirem ao programa do pagamento de sua cota previdenciária de 20%. Tinha razão o poeta Augusto dos Anjos, “a mão que afaga é a mesma que apedreja”, mas o doutor Paulo Guedes afaga para cima e apedreja para baixo.

Tomar dinheiro dos miseráveis era coisa comum no tempo da escravidão. Em 1734, para combater “a ociosidade dos negros forros e dos vadios em geral”, a Coroa cobrava quatro oitavas de ouro a cada bípede livre que vivia na região das minas. Em 1835 a Assembleia da Bahia tomava dez mil réis de todos os negros libertos nascidos na África. Esse imposto rendia um bom dinheiro, algo como 7,6% do orçamento da província. Eram tungas de outra época.
No século 21, a ekipekonômica de Guedes quer arrecadar R$ 11 bilhões em cinco anos com argumentos mais refinados e cosmopolitas. Como o programa de estímulo ao emprego (e à propaganda oficial) gera despesa, deve-se indicar uma fonte de receita para custeá-lo.
Sob o céu de anil deste grande Brasil, os doutores miraram no bolso dos desempregados que conseguem acesso ao seguro, um benefício restrito aos trabalhadores do mercado formal. Em julho, 11,7 milhões de pessoas trabalhavam sem carteira assinada.
O argumento dos doutores pode ser uma girafa social, mas parece matematicamente correto. É intelectualmente desonesto porque o programa de estímulo ao emprego dos jovens durará só até 2022, enquanto a tunga do seguro dos desempregados ficará para sempre.
Há três semanas, neste espaço, Eremildo, o Idiota, propôs que junto com a discussão do fim dos incentivos à energia solar se pensasse também na cobrança de um imposto aos desempregados, pois eles usam os serviços públicos e não contribuem para a caixa da Viúva. Eremildo é um cretino assumido e se orgulha disso.
Amazônia Centro do Mundo
Em busca de soluções para barrar o desmatamento e o extermínio da biodiversidade, Davi Kopenawa Yanomami, Socorro de Barcarena, Anita Juruna, Isis Tatiane da Silva, Bedjai Txucarramãe, Raimunda Gomes, Mitã Xipaya, Chico Caititu, Mukuka Xikrin, entre outras lideranças indígenas, quilombolas e beiradeiras hoje estão sentados em círculo conversando com as jovens lideranças do movimento Fridays For Future Anuna De Wever e Adélaïde Charlier, da Bélgica, e Elijah Mackenzie, do Reino Unido, com os ativistas do movimento Extinction Rebellion Robin Ellis-Cockcroft, Alejandra Piazzolla e Tiana Jacout e com a ativista russa Nadya Tolokonnikova, do movimento Pussy Riot. Nesta roda pela vida da Amazônia estão também alguns dos mais inspiradores cientistas e pensadores do Brasil: o cientista da Terra Antonio Nobre, o arqueólogo Eduardo Neves, as antropólogas Manuela Carneiro da Cunha e Tânia Stolze, o engenheiro florestal Tasso Azevedo e o cientista social Maurício Torres.
Todas estas pessoas deixaram suas casas e seus países convidadas por mim, pelo Instituto Ibirapitanga, pelo Instituto Socioambiental e pela Associação dos Moradores da Reserva Extrativista Rio Iriri. Algumas viajaram semanas num barco à vela, para conhecer de forma profunda, com seu corpo no corpo do território, a floresta e os povos da floresta. É instinto de sobrevivência o que as move, mas é também amor. É movimento de vida numa geopolítica que impõe a morte da maioria para o benefício e os lucros da minoria que controla o planeta. É uma pequena grande COP da Floresta criada a partir das bases. Aqui, não há cúpula.

Ao final desta travessia, parte deste grupo se somará ao grande evento chamado Amazônia Centro do Mundo, que começa às 17 horas deste domingo, 17 de novembro, em Altamira. Os movimentos sociais do Xingu e as organizações da floresta, além da Universidade Federal do Pará – campus Altamira, estão conjurando os brasis e os brasileiros a deslocarem seu corpo para o verdadeiro centro do país e do planeta para criar uma aliança pela Amazônia. Estes, que agora estão na floresta, levarão suas vozes para que sejam somadas a destas outras vozes. Neste centro, nos conjugamos no plural e nos realizamos no coletivo.
Em Altamira, o grupo da floresta encontrará lideranças históricas, como Antonia Melo, do movimento Xingu Vivo, e Antonia Pereira, da Fundação Viver Produzir e Preservar. Também Jackson Dias, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), religiosos como os bispos Dom Erwin Kräutler e Dom João Muniz e a sacerdotisa de umbanda Mãe Juci D’Óyá. Também artistas do Xingu e de outras regiões do Brasil. Algumas das vozes mais representativas da Amazônia atenderam ao chamado para virar uma voz só em defesa da floresta e de seus povos. Altamira, epicentro da destruição da Amazônia, será epicentro de uma aliança pela vida. Buscamos a paz para todos, humanos e não humanos – e não apenas para alguns.
Lideranças de grande expressão estão trazendo seu conhecimento para encontrar soluções para manter a floresta e seus povos vivos: entre elas, Raoni, indicado para o Nobel da Paz, Maria Leusa Munduruku, representante de um dos povos indígenas que mais lutam pela integridade da floresta e da bacia do Tapajós, Michael Heckenberger, um dos mais renomados arqueólogos do planeta.
No encontro Amazônia Centro do Mundo haverá população da cidade e da floresta. E também os produtores rurais que colocam alimento na mesa da população, aqueles que respeitam os povos tradicionais e atuam preservando a Amazônia, porque sabem que dela depende o seu sustento. Sabemos que há fazendeiros que destroem a floresta, mas também sabemos que há agricultores que a respeitam e têm mudado suas práticas para responder aos desafios do colapso climático que atingirá a todos, produtores que respeitam a lei e a democracia e que também querem viver em paz. Pessoas que perceberam que precisam não apenas parar de desmatar, mas reflorestar a floresta.
O fim do mundo não é um fim. É um meio. É o que os povos indígenas nos mostram em sua resistência de mais de 500 anos à força de destruição promovida pelos não indígenas. À tentativa de extermínio completo, seja pela bala, seja pela assimilação. Hoje, meio milênio depois da barbárie produzida pelos europeus, as populações indígenas não apenas não se deixaram engolir como aumentam. E erguem, mais uma vez, suas vozes para denunciar que os brancos quebraram todos os limites e constroem rapidamente um apocalipse que, desta vez, atinge também os colonizadores: a maior floresta tropical do mundo está perto de alcançar o ponto de não retorno. Dizem isso muito antes do que qualquer cientista do clima. Alguns de seus ancestrais plantaram essa floresta. Eles sabem.
Como Raoni tem repetido há décadas:
“Se continuar com as queimadas, o vento vai aumentar, o sol vai ficar muito quente, a Terra também. Todos nós, não só os indígenas, vamos ficar sem respirar. Se destruir a floresta, todos nós vamos silenciar”.
Os humanos, estes que sempre temeram a catástrofe na larga noite do mundo, tornaram-se a catástrofe que temiam. Alteraram o clima do planeta. Ameaçaram a sobrevivência da própria espécie na única casa que dispõem. Mas não todos os humanos. Uma minoria dos humanos, abrigada nos países desenvolvidos demais, consumiu o planeta. As consequências, porém, já são sentidas pelas maiorias pobres e pelos povos que não cabem nas categorias de rico e de pobre impostas pelo capitalismo.
Na Amazônia brasileira, estes povos são principalmente indígenas, beiradeiros (ou ribeirinhos), e quilombolas. A ONU chama de “apartheid climático”, mas talvez apartheid pressuponha que os que estão fora queiram entrar. Essa crença de que o desejo maior de todos aqueles que não consomem é se sentar à mesa do consumo. Como é a crença de que tudo o que uma “nação” deve querer é crescer infinitamente, como se isso fosse possível. Não. Estes outros que são chamados de povos tradicionais não querem entrar, se tornar também eles devoradores de mundos. Eles querem que não destruam esta casa a qual pertencem, mas não possuem nem querem possuir. Querem apenas viver nela segundo seus próprios termos. Porque são parte dela, são outros e o mesmo.
Enquanto isso se passa na Amazônia há séculos, em 2018, no lado de lá do mundo, uma garota de rosto redondo, uma trança loira de cada lado, postou-se sozinha diante do parlamento sueco. Ela fazia uma greve escolar pelo clima. “Estou fazendo isso porque vocês, adultos, estão cagando para o meu futuro”, dizia. Aos 15 anos, Greta Thunberg, hoje o mundo inteiro conhece o seu nome, inspirou um movimento de resistência que abarcou o planeta.
Inspirada por ela, outras adolescentes, como Anuna De Wever e Adélaïde Charlier, na Bélgica, e Luisa Neubauer, na Alemanha, levaram milhares de jovens às ruas de vários países da Europa, Oceania, Ásia, África e América. Já na primeira greve global, em março de 2019, mais de um milhão de crianças e adolescentes deixaram a escola para denunciar a falta de políticas públicas para enfrentamento do colapso climático e para barrar os grandes poluidores do planeta. Também em 2018, o movimento Extinction Rebellion (Rebelião contra a Extinção) bloqueou as pontes de Londres e se espalhou por outras cidades do mundo, defendendo a desobediência civil e não violenta para evitar a extinção em massa e a aniquilação da biodiversidade do planeta.
A geração climática encarna a primeira grande adaptação psíquica e comportamental ao Antropoceno, esta nova época geológica em que os humano tragicamente substituíram a natureza como força dominante do planeta. Pela primeira vez, os filhotes são obrigados a proteger o mundo que seus pais e avós destruíram e destroem com afinco. Deve ser aterrorizante lutar contra adultos que acreditam que o melhor que podem fazer por um filho é “lhe dar tudo”, quando é justamente este “tudo” de materialidades que vem arruinando a Terra. Os meninos e meninas europeus que vão às ruas estavam inscritos na infância protegida, esta infância que na época do colapso climático já não pode ser. Quando vão para as ruas apontar o dedo contra o sistema que exauriu o mundo, estão sinalizando também a passagem para um outro conceito de infância.
O que esses jovens europeus que lutam pelo clima talvez não saibam é que são também índios. Sua forma de compreender seu ser/estar no planeta é muito mais semelhante a dos povos originários, com os quais nunca conviveram, para além de referências distantes em livros e exposições, do que semelhantes a de seus avós e bisavós. A compreensão de que a Terra é casa e que a “casa está em chamas”, como diz Greta, os lançou numa outra inscrição. Nesta inscrição parecem ter se tornado capazes de reconhecer outras gentes e também as outras gentes de si.
É desta percepção que parte a ideia deste encontro na floresta amazônica. Deslocamos o que é centro e o que é periferia para recolocar o que estava deslocado. Numa época de emergência climática, vale repetir mais uma vez, o centro do mundo é a Amazônia. A cada 24 horas, a maior floresta tropical do planeta lança 20 trilhões de litros de água na atmosfera. Pela transpiração. A floresta transpira e salva o planeta todos os dias. Como aponta Antonio Nobre, cientista de Gaia, não há como conter o superaquecimento global sem manter a floresta criando rios voadores. Uma apoteose cotidiana não alcançável por nenhuma das obras-primas da arte humana.
Mas o centro do mundo é a Amazônia também porque nela habitam os povos que sabem como viver no planeta sem destruí-lo, os povos que compreendem, das mais diversas maneiras, que a sua carne é a carne da Terra. Os povos que também são floresta. Os povos com os quais os brancos precisam aprender, se eles ainda estiverem dispostos a ensinar, depois de tudo o que a chamada “civilização” fez contra os seus corpos.
O encontro entre outros e outros acontece na floresta profunda, no lugar chamado Terra do Meio, na bacia do Xingu. Um mosaico de terras indígenas, reservas extrativistas ocupadas por beiradeiros, uma estação ecológica e um parque nacional. Os não índios, os não beiradeiros, os não quilombolas fizeram o gesto de se deslocar até o coração da floresta que é também coração do planeta. Vieram para falar. Vieram principalmente para escutar. E sentir. Os rios, as árvores, seus povos humanos e não humanos. Reconhecem, com o deslocamento do corpo, a centralidade da floresta.
Vieram para a criação de uma aliança pela Amazônia. Vieram também para a refundação de um humano outro, um que possa ser múltiplo. Este encontro, este de corpo encarnado no corpo encarnado da floresta, de todas as florestas que compõem a floresta, é o ponto inicial de uma tessitura de múltiplas centralidades. É também um gesto de rompimento dos muros e das barreiras que não param de se reproduzir sob o domínio dos déspotas eleitos – e seus nacionalismos que deixam apenas os corpos que já exauriram de fora, depois de já terem devorado as riquezas naturais de seus mundos. Nesta época de nacionalismos de ocasião, os que vêm de dentro e de fora vêm também para mostrar que não há fora, que somos +um+um+ na única casa que temos. A potência desse gesto é tecer o comum na horizontalidade colorida de nossas diferenças.
É imensamente simbólico que as jovens ativistas climáticas Anuna De Wever e Adélaïde Charlier tenham escolhido alcançar a Amazônia de barco à vela desde a Europa. Não mais saltar sobre os mundos. Mas percorrê-los, por semanas, no gesto de alcançar o outro e encontrar a si mesmas. Desta vez as caravelas são de descolonização. Este é um encontro para descolonizar o pensamento e também a ação. E é, sim, um encontro de índios. Os que sabiam que eram, os que só descobriram agora.
Bem-vindos ao centro do mundo.
sábado, 16 de novembro de 2019
A gente somos inúteis
Jornalistas revelam o que certos poderosos não gostariam que fosse de conhecimento público; sociólogos estudam problemas para os quais as autoridades muitas vezes fecham os olhos; arquivistas classificam, preservam e organizam documentos que muitos gostariam que fossem incinerados; técnicos em segurança do trabalho denunciam condições insalubres e desumanas nas empresas; artistas fazem a crítica dos costumes e dos poderes. Por ironia, sobrou até para o empregado do lava-jato. Tudo bem que é preciso modernizar a legislação trabalhista, mas não precisa o governo meter uma mão peluda no mercado de trabalho para precarizar ainda mais profissões que estão passando por grandes transformações devido à revolução tecnológica. O governo deveria se preocupar mais com a sua reforma administrativa e as carreiras do serviço público, pois, essas sim, o mercado não resolve.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já se manifestou sobre a proposta do governo. Disse que vários dispositivos, entre os quais o que acaba com o registro profissional de jornalista, deverão ser retirados. A rigor, esse não é um assunto interditado ao debate, pois a comunicação, com as redes sociais, deixou de ser oceânica para se tornar galática e os jornalistas perderam o monopólio da notícia. Nada acontece sem que um cidadão com o celular ou uma câmera de segurança registre em tempo real. Entretanto, não tem sentido resolver a questão por medida provisória. Na revolução em curso no mundo do trabalho, a maioria das profissões que existirão daqui a 25 anos, provavelmente, ainda não foi nem criada; mesmo entre as novas, algumas terão vida efêmera, como tiveram o fax, o DVD e o iPod.
Não se resolve esse assunto com uma canetada. A medida provisória restringe as profissões àquelas que têm conselhos que as regulamentam, que são justamente as mais corporativistas e que transformaram seu mercado de trabalho em grande cartório. Mesmo as profissões mais valorizadas estão sendo muito impactadas pela inteligência artificial, como as de advogado e de médico. A propósito, a inteligência artificial deveria ampliar o acesso e baratear os serviços, e não encarecê-los ainda mais e elitizá-los, como acontece no Brasil.
O governo fez cálculos cabalísticos sobre a geração de emprego, com base em medidas que, a rigor, não aumentam a produtividade, apenas a exploração do trabalho, como medidas para reduzir indenizações e multas trabalhistas. Acaba até com o seguro para acidentes da trânsito, Dpvat, que é sabidamente impactado pelos acidentes com motoboys. Espera com isso criar 1,8 milhão de empregos por ano, uma meta chutada, que não pode servir para legitimar as maldades da equipe econômica, pressionada a resolver o problema do desemprego pelo próprio presidente Bolsonaro. Luiz Carlos Azedo
Quando perder é pecado
O mundo está preso em um sistema de valores que coloca o sucesso acima de tudo, e, por outro lado, condena o fracasso. Perder é o único pecado que no mundo de hoje não tem redenção. Estamos condenados a ganhar ou ganhar. E, bem, ao longo da história muitas pessoas melhores perderam, e isto não lhes tira nem um pouco a razão. Os dois homens mais justos na história da humanidade, Sócrates e Jesus, morreram condenados pela justiça. Os mais justos foram condenados pela justiça. E não deixam de ser justosEduardo Galeano
Balas a esmo
Inventamos uma tremenda de uma mentira, a ‘bala perdida’. Quase todas as mortes no Rio são atribuídas a balas perdidas, o que é uma falácia. Não existem balas perdidas. Temos, sim, balas a esmo nesta cidade que já foi o orgulho do Brasil mas que hoje é nossa maior vergonha.
Só neste malfadado ano de 2019 perdemos seis crianças com idades entre doze e cinco anos. Vou repetir para gravar no coração do Leitor: seis crianças. São seis vidas ainda não plenamente vividas cuja morte destruiu também suas famílias.
Bolsonaro veio abraçar as famílias, dar-lhes força? O Witzel se preocupou em saber se as famílias tinham condições de arcar com as grandes despesas dos funerais? Sergio Moro, o herói da Segurança, se explicou?
O Ministro da Justiça, Sergio Moro, disse: "O governo federal tem combatido duramente o tráfico de drogas e de armas. Não é correto comparar as apreensões dos primeiros cinco meses de 2019 com o total apreendido nos anos anteriores, como faz o governador do Rio de Janeiro ao buscar transferir a responsabilidade dos crimes no estado ao governo federal".
Choro a morte das seis crianças, três meninos e três meninas. Choro a dor de suas famílias. Mas não esqueço que não foram só elas as vítimas dessas balas atiradas de qualquer jeito, sem controle, sem ordem, sem tino. Morrem velhos, adultos, adolescentes, gente boa e gente má, todas as mortes comemoradas pelo governador que afirma que o Rio é uma cidade tranquila, tão segura quanto Paris, New York, Londres.
Segundo essa figura que nos desgoverna, as áreas de interesse turístico estão seguras. Mas para chegar ao Pão de Açúcar ou à Floresta da Tijuca, como fazer, ir voando? Ou atravessar áreas onde o perigo se esconde? Onde as milícias são protegidas pelos mais altos postos da República?
E ainda querem armar mais a população! Se essa não é a ideia mais imbecil que rondou nossos céus, qual será?
Encerro com um pedido a São José, pai do menino Jesus: acalme os corações dos pais de Kethleen, Jennifer, Kauan, Kauã, Kauê e Agatha. Ajude-os, meu bom São José, a vencer essa dor terrível que agora atravessam.
Só neste malfadado ano de 2019 perdemos seis crianças com idades entre doze e cinco anos. Vou repetir para gravar no coração do Leitor: seis crianças. São seis vidas ainda não plenamente vividas cuja morte destruiu também suas famílias.
Bolsonaro veio abraçar as famílias, dar-lhes força? O Witzel se preocupou em saber se as famílias tinham condições de arcar com as grandes despesas dos funerais? Sergio Moro, o herói da Segurança, se explicou?
O governador do Rio diz que a culpa é do governo federal que não controla como devia a entrada de armas e drogas em nossas fronteiras.
O Ministro da Justiça, Sergio Moro, disse: "O governo federal tem combatido duramente o tráfico de drogas e de armas. Não é correto comparar as apreensões dos primeiros cinco meses de 2019 com o total apreendido nos anos anteriores, como faz o governador do Rio de Janeiro ao buscar transferir a responsabilidade dos crimes no estado ao governo federal".
Que tal?
E o presidente da infeliz República (você, Leitor, está comemorando a data, ou, como eu, achou melhor ignorá-la?), o que disse? Nada. As seis crianças mortas não é bem um assunto que lhe interessa, sobretudo agora que os líderes comunistas que ele tanto admira estavam em Brasília. Isso, sim, era assunto importante para ele. (Por falar nisso, como é que ele vai se acertar com Trump, o americano paixão?)
Choro a morte das seis crianças, três meninos e três meninas. Choro a dor de suas famílias. Mas não esqueço que não foram só elas as vítimas dessas balas atiradas de qualquer jeito, sem controle, sem ordem, sem tino. Morrem velhos, adultos, adolescentes, gente boa e gente má, todas as mortes comemoradas pelo governador que afirma que o Rio é uma cidade tranquila, tão segura quanto Paris, New York, Londres.
Segundo essa figura que nos desgoverna, as áreas de interesse turístico estão seguras. Mas para chegar ao Pão de Açúcar ou à Floresta da Tijuca, como fazer, ir voando? Ou atravessar áreas onde o perigo se esconde? Onde as milícias são protegidas pelos mais altos postos da República?
E ainda querem armar mais a população! Se essa não é a ideia mais imbecil que rondou nossos céus, qual será?
Encerro com um pedido a São José, pai do menino Jesus: acalme os corações dos pais de Kethleen, Jennifer, Kauan, Kauã, Kauê e Agatha. Ajude-os, meu bom São José, a vencer essa dor terrível que agora atravessam.
Toffoli comporta-se como um monarca absolutista
Dias Toffoli justificou o congelamento dos processos recheados com dados do Coaf com o argumento de que não se pode conviver com "um Estado autoritário que invada a vida das pessoas". Há dois meses, numa entrevista à Reuters, perguntou-se ao presidente do Supremo Tribunal Federal se sua decisão, tomada nas férias de julho, visava proteger Flávio Bolsonaro. E ele: "É uma decisão em defesa da cidadania, defesa de toda a sociedade". Cabe agora indagar: Quem protegerá a sociedade das decisões autoritárias de Toffoli?
Por uma dessas ironias da história, Toffoli e a República fazem aniversário no mesmo dia. Nesta sexta-feira, a República completa 130 anos. Toffoli, 52. Em data tão especial, o procurador-geral da República Augusto Aras pediu a Toffoli que revogue a ordem que resultou no envio ao Supremo dos dados bancários e fiscais sigilosos de 600 mil pessoas e empresas. Toffoli respondeu com a velocidade de um raio. Indeferiu o pedido de Aras.
Na véspera, instado a explicar por que requisitou ao Banco Central relatórios produzidos nos últimos três anos pelo antigo Coaf e pela Receita Federal, Toffoli mandou dizer que não comenta processos sigilosos. É como se, sob a presidência de Toffoli, o Supremo criasse sua própria monarquia. No sistema monárquico, só uma pessoa usa a coroa, o manto e o cetro. No caso específico, houve uma autocoroação. O presidente do Supremo autoproclamou-se Dom Toffoli 1º.
Como se sabe, há dois tipos de monarquia: as absolutas e as constitucionais. Toffoli optou pelo primeiro modelo. O absolutismo lhe pareceu mais conveniente porque, nesse modelo, o soberano não deve nada a ninguém. Muito menos explicações. A silhueta do monarca já havia se insinuado atrás da toga em março, quando Toffoli 1º determinou a abertura de inquérito secreto no Supremo para apurar ataques à Corte e aos seus membros.
Acumulando os papeis de vítima, investigador e julgador, o Supremo de Toffoli ganhou a aparência de anomalia. A requisição dos dados sigilosos de 600 mil brasileiros potencializou a anormalidade. Toffoli 1º convidou os amigos para celebrar seu aniversário neste sábado. A festa ocorrerá em São Paulo. Deve-se torcer para que, fora das dependências do Supremo, o soberano reencontre nas ruas de São Paulo a República cuja proclamação ele parece ignorar.
sexta-feira, 15 de novembro de 2019
A política republicana
Nunca quereria tratar de semelhante assunto, mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito, a fim de que não pareça que há medo em dar, sobre a questão, qualquer opinião.
No Império, apesar de tudo, ela tinha alguma grandeza e beleza. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas; os homens tinham elevação moral e mesmo, em alguns, havia desinteresse.
Não é mentira isto, tanto assim que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu.
O que havia neles não era a ambição de dinheiro. Era, certamente, a de glória e de nome; e, por isso mesmo, pouco se incomodariam com os proventos da ‘indústria política’.

A República, porém, trazendo tona dos poderes públicos, a borra do Brasil, transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os ‘arrivistas’ se fizeram políticos para enriquecer.
Já na Revolução Francesa a coisa foi a mesma. Fouché, que era um pobretão, sem ofício nem benefício, atravessando todas as vicissitudes da Grande Crise, acabou morrendo milionário.
Como ele, muitos outros que não cito aqui para não ser fastidioso.
Até este ponto eu perdoo toda a espécie de revolucionários e derrubadores de regimes; mas o que não acho razoável é que eles queiram modelar todas as almas na forma das suas próprias.
A República no Brasil é o regime da corrução. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a ‘verba secreta’, os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência.
A vida, infelizmente, deve ser uma luta; e quem não sabe lutar, não é homem.
A gente do Brasil, entretanto, pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos, para obter ajudas de custo e sinecuras.
Vem disto a nossa esterilidade mental, a nossa falta de originalidade intelectual, a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população.
Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar idéias; ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Todos querem ‘comer’.
‘Comem’ os juristas, ‘comem’ os filósofos, ‘comem’ os médicos, ‘comem’ os advogados, ‘comem’ os poetas, ‘comem’ os romancistas, ‘comem’ os engenheiros, ‘comem’ os jornalistas: o Brasil é uma vasta ‘comilança’.
Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual, com toda a independência de espírito, nasceu-lhe depois da República.
Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes.
Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas.
Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude; mas, proclamada que foi a República, ali, no Campo de Santana, por três batalhões, o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos, para sugar os cofres públicos, desta ou daquela forma.
Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. Quando não se consegue, por dinheiro, abafa-se.
É a política da corrução, quando não é a do arrocho.
Viva a República!
Lima Barreto
Só manteve mamata
A República extinguiu o privilégio dos Braganças, mas não conseguiu eliminar os privilégios sociaisJosé Murilo de Carvalho
Na retaguarda do atraso

Lá se vão mais de trinta anos, e aquele que foi também um traçado crítico da política brasileira recém-liberta da ditadura só não pode ser aplicado à atualidade porque não existem (ainda?) no cenário lideranças capazes de representar algo parecido com esperança de mudança para melhor. Salvo alguns breves ensaios logo interditados pelo êxito eleitoral do populismo, nessas três décadas retrocedemos a um quadro mais apropriado ao que poderíamos chamar de retaguarda do atraso.
A despeito da modernização em diversos setores, na política seguimos vivendo sob a égide da obsolescência. Seja nas regras que norteiam o sistema eleitoral, seja no funcionamento dos partidos, na vocação da maioria para pautar escolhas de governantes por esperanças tão apaixonadas quanto equivocadas, na dinâmica da dicotomia desprovida de nuances atualmente chamada de polarização, que vem de longe e continua a privilegiar a exclusão como norma na tomada de decisões.
Voltemos de novo no tempo, desta vez para demonstrar. Na primeira eleição direta pós-regime militar havia uma variedade enorme de candidaturas presidenciais (eram 22 os concorrentes), algumas bastante qualificadas, mas prevaleceu o critério da rejeição: sendo o governo José Sarney a encarnação do mal na óptica vigente, ganhou aquele que soube representar o seu contrário (Fernando Collor). Fez isso nos termos rancorosos muito parecidos com os utilizados hoje.
Com o surgimento do PSDB, acirraram-se as animosidades entre tucanos e petistas, que já se estranhavam desde a cisão da esquerda decorrente do fim da frente de combate à ditadura. Instalou-se, então, o ambiente de beligerância que dominaria a política por mais de vinte anos como se nada mais existisse a não ser PT e PSDB. E nem existia mesmo, pois as demais forças atuavam como satélites desses dois partidos. Criticar um significava automaticamente adesão ao outro. Tudo branco ou preto, sem direito a meio-tom.
E eis que estamos de volta ao que a velha musa entoava. No mesmo lugar no qual é de se perguntar se e quando o Brasil vai se dar ao direito de não dançar conforme a música do embate bipolar que nos impõe o modo dízima periódica, numa repetição sem fim.
Escapar dessa armadilha não é fácil, mas é possível. A eleição de 2018 mostrou que há um enorme contingente a ser trabalhado entre os que votaram no candidato que lhes pareceu o menos deletério e os que não fizeram escolha alguma, ausentando-se, isentando-se (opção em branco) ou protestando mediante o voto nulo.
O mundo político há que se virar para apresentar boas alternativas, mas o eleitorado há que se mexer muito mais ainda para adaptar seus critérios de avaliação a fim de não se deixar capturar pelos ilusionismos de todos já bastante conhecidos.
Sob Toffoli, absurdo adquire naturalidade no STF
Só há dois caminhos possíveis na vida. Ou você é parte da solução ou é parte do problema. Ao requisitar ao Banco Central, em 25 de outubro, dados bancários e fiscais sigilosos de 600 mil pessoas e empresas, Dias Toffoli revela uma disposição incontida de manter o Supremo Tribunal Federal no rol dos problemas. Sob a presidência de Toffoli, o absurdo vai adquirindo na Suprema Corte uma doce, uma persuasiva, uma admirável naturalidade.
Há quatro meses, quando impôs a trava que congelou as investigações relacionadas a Flávio Bolsonaro, Toffoli tentou passar a impressão de que não assinava uma liminar em pleno período de férias do Judiciário apenas para proteger o filho do presidente da República. Suspendeu, então, todos os processos municiados com dados detalhados do antigo Coaf. Alegou que agia "em defesa de toda a sociedade", não do primeiro-filho.
Toffoli sustenta que movimentações bancárias suspeitas só podem ser compartilhadas depois de uma decisão judicial. Com isso, transforma o velho Coaf numa espécie de arquivo morto, que só pode ser manuseado pelas togas muito vivas do Supremo. Toffoli colocou-se num posto de observação privilegiado. Pode olhar com lupa dados que proibiu procuradores e promotores de usar. Apalpa inclusive informações sobre políticos e autoridades. Vale atrasar o relógio para verificar como tudo começou.
Na origem da encrenca, está um processo que nasceu há 16 anos, em 2003. Nele, os sócios de um posto de gasolina contestaram a legalidade do compartilhamento de seus dados fiscais, repassados pela Receita ao Ministério Público. O processo chegou na mesa de Toffoli no ano passado. Em abril de 2018, o julgamento foi marcado para 21 de março de 2019. Sem pressa, Toffoli adiou a encrenca para 21 de novembro.
De repente, os advogados de Flávio Bolsonaro engancharam nesse processo o pedido de trancamento das investigações contra o Zero Um. Desde então, coisas estranhas acontecem no Supremo. Não é que a Justiça seja cega. Ela é caolha, só enxerga a metade que interessa. Nesse ritmo, Toffoli vai acabar transformando a Supremacia do Supremo num poder extremamente seletivo.
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