sábado, 8 de junho de 2024

A opção dos humanos: o planeta 4R

Estamos todos cientes de que este planeta é tudo o que temos. Continuando business as usual, o fim da civilização global fica cada dia mais próximo. A inércia mental e a ambição por mais “riqueza”, definida em quantidade e não em qualidade, predominam e comprometem a sobrevivência.

Um exemplo de inércia mental é continuar a falar em “civilização ocidental cristã”! Há muito nossa civilização deixou de ser ocidental e cristã, tornando-se global e vendilhona. Valores cristãos, islâmicos, judaicos, hinduístas e de outros credos foram substituídos pelo culto ao dinheiro. A cooperação minguou e a competição foi exacerbada. O “nós X eles” só se mantem em razão da busca por mais dinheiro por parte da indústria bélica e associados. Os problemas que afligem 100% da humanidade, e mais agudamente os 80% que continuam muito pobres, não podem ser resolvidos pelas ficções chamadas países. Há que superar, com urgência, a inércia que nos mantem presos a tais ficções e viciados em combustíveis fósseis.

Se quisermos evitar a extinção da (dita) civilização, teremos que mudar hábitos. A ideia do planeta 4R vai nessa direção. Trata-se de proposta do Climate Crisis Advisory Group – CCAG, especialistas na ciência do sistema terra. Vale dizer: Reduzir rapidamente as emissões de GEE, Remover o excesso de GEE da atmosfera, Recuperar os ecossistemas e ampliar a Resiliência local e global. O CCAG defende que os líderes do G20 liderem movimento nesse sentido, com os ricos do mundo ajudando a construir resiliência, o que significa melhor qualidade de vida, principalmente no Sul Global. Trata-se de grande oportunidade para o Brasil, atual presidente do G20. Será aproveitada?

Os desastres ambientais, decorrentes da emissão de GEE principalmente pelos humanos mais ricos, estão cada vez mais caros, em vidas e em materiais. Neste início de 06/24 há grave crise de água na cidade do México, onde até os ricos têm sofrido a falta do líquido; incêndios se espalham pelo Canadá, a Inglaterra teve a primavera mais quente jamais observada e, em Nova Dehli, temperaturas nos últimos dias chegaram a 52oC, causando mortes, sofrimento, perdas econômicas e distúrbios. A situação dos gaúchos nem precisa ser lembrada.

Na Inglaterra, há um movimento no sentido de centrar os debates eleitorais na questão climática. Aqui no Brasil também teremos eleições e a maioria da população se diz preocupada com a crise climática. Nestes trópicos onde quase todas as capitais estaduais carecem de planos para enfrentar emergências, assim como de políticas de uso do solo para garantir cidades mais frescas e resilientes, será que o tema será ao menos debatido?

Se quisermos ajudar a construir um planeta 4R, o que é essencial para que nossos filhos e netos tenham qualidade de vida, precisamos andar muito depressa nessa nova direção. Seria, também, uma maneira de atender aos anseios da maioria, já consciente e preocupada com seu presente e o futuro dos seus!
Eduardo Fernandez Silva

Desgoverno global

As catástrofes climáticas estão por toda a parte. Chegaram mais cedo do que a humanidade esperava e com fúria inaudita. Enchentes devastadoras e secas desertificantes vêm ocorrendo em todos os cantos do planeta. Pessoas morrem de calor na Índia e no Canadá. Furacões intensos destroçam territórios ­norte-americanos. A Alemanha e o Rio Grande do Sul enfrentam inundações assustadoras. Nenhum continente está isento de destruições.

Os pontos de não retorno em vários biomas avançam e as tendências entrópicas do meio ambiente como um todo se agravam diariamente. O mundo parece mover-se como um trem sem freios, em alta velocidade e rumo ao abismo. O grande risco para a humanidade e todas as espécies são as transformações em curso, a indicar tendências paradoxais, para o bem e para o mal. Algumas delas indicam possibilidades de soluções colaborativas. Outras acenam para soluções divergentes, trágicas e violentas. Infelizmente, as tendências destrutivas estão ganhando o jogo.


Algumas transformações apontam para um cenário apocalíptico. As principais, segundo numerosos especialistas, são as seguintes: agravamento da crise climática pela intensificação do novo período geológico do Antropoceno; caminhada rumo ao ponto da singularidade digital de 2045 (domínio das máquinas sobre os humanos); advento do transumanismo e de nova biopolítica com tendências desumanizadoras; um nova Guerra Fria entre potências do Ocidente e do Oriente; intensificação de conflitos armados regionais, como os da Ucrânia e Gaza; impacto dos grandes deslocamentos transnacionais (migrações de fome e escassez, de guerras e de refugiados ambientais); ameaça à sobrevivência das democracias pelo fortalecimento do extremismo de direita.

O problema é que não existem governos com capacidade para enfrentar as catástrofes climáticas, estancar as ações de depredação do meio ambiente e imprimir direção e sentido às transformações em curso. Com isso crescem as tendências de acirramento dos conflitos sociais, políticos, econômicos e militares, tanto internos quanto internacionais.

As tendências conflitivas assentam-se em três razões principais: 1. Os impactos das mudanças climáticas provocam escassez de recursos e isto desencadeará a luta por recursos diversos. 2. A salvação do meio ambiente planetário e da vida implicará mudanças drásticas em relação às quais haverá resistência de grupos econômicos e de Estados. Em determinadas circunstâncias, é provável ser necessário o uso da força para a contenção da crise e para alcançar os objetivos da sustentabilidade. 3. As medidas de mitigação dos efeitos catastróficos e os investimentos necessários para mudar os padrões de produção, de consumo, de vida urbana, de energia e das políticas públicas em geral exigirão somas estratosféricas. Ocorrerão grandes disputas para determinar quem pagará os custos dessas mudanças. As forças hegemônicas dos mercados e do capitalismo globalizado agem para socializar os prejuízos e privatizar os benefícios.

O atual cenário global não favorece o enfrentamento eficaz da crise ambiental nem é capaz de viabilizar um desenvolvimento sustentável no sentido forte do termo. Ao contrário, as catástrofes ambientais e as mudanças indicadas acima agravam a governabilidade global e interna.

Esse quadro de crise tem estimulado saídas particularistas e nacionalistas nos diversos países, favorecendo a competição em detrimento da colaboração. Isso reforça o descompromisso dos Estados com os acordos firmados nos fóruns internacionais. Os nacionalismos extremados de direita alimentam teorias negacionistas sobre as mudanças climáticas.

Por outro lado, a desmaterialização provocada pela economia digital aumenta a extraterritorialidade de atividades produtivas e comerciais, enfraquecendo a regulação nacional, provocando um domínio crescente do mercado financeiro e das plataformas digitais oligopolistas, aumentando o impacto das externalidades sobre as economias locais, fragilizando a regulação jurífica de justiça e de proteção ambiental e social. Essas circunstâncias deterioram a capacidade de coordenação das instituições multilaterais e das jurisdições internacionais e supranacionais.

A captura política dos Estados nacionais por grupos particularistas e depredadores é um enorme problema, agravado pelo crescimento dos movimentos de extrema-direita, que adotam políticas negacionistas e de desmonte das proteções sociais e ambientais. É necessário aumentar a consciência dos riscos sistêmicos e engajar a sociedade nesse debate. Somente com consciência social, organização e mobilização seremos capazes de deter esse trem sem freios que se move rumo ao abismo.

Nos desabituamos do trabalho de verificar

Todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou—apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos—«Este é uma besta! Aquele é um maroto!» Para proclamar—«É um génio!» ou «É um santo!» oferecemos uma resistência mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há ação individual ou coletiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do fato, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo.
Eça de Queirós, 'A Correspondência de Fradique Mendes'

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Pensamento do Dia


 

A sustentabilidade já era

As condições atuais são tão desfavoráveis aos humanos que a simples postura em defesa da sustentabilidade não tem mais o efeito que se imaginava há 30 ou 40 anos atrás. Não é mais suficiente. Por isso, Francisco Nilson Moreira está coberto de razão quando diz em seu Ted X ESMPU: “A sustentabilidade já era. Hoje temos que ser regenerativos”. E o Rio Grande do Sul está aí para provar.

Por milênios, os homo sapiens têm habitado a terra destruindo-a. Alguns, os menos informados, imaginam que tudo começou com a revolução industrial nas dobras dos séculos XVIII/XIX, como também imaginam que o movimento ambientalista começou com a Conferência de 1972 em Estocolmo (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano). Antes desta conferência, Rachel Carson já havia publicado Primavera Silenciosa, com enorme impacto sobre o nascente movimento ambientalista, e o mundo já conhecia a criação de áreas protegidas, o Brasil inclusive. Antes da revolução industrial, os Sapiens já haviam dizimado os Neandertais, enfraquecidos pelos fortes efeitos da era glacial na Eurásia, como também os megamamíferos, os mamutes, entre 50 e 10 mil anos atrás. Incluindo o Brasil, onde foram extintos os tigres dentes de sabre, as preguiças gigantes e os toxodontes, entre outros.

A revolução industrial com a adoção do modelo econômico baseado na reprodução ampliada e nos combustíveis fósseis acelerou exponencialmente o processo já existente, a destruição da fauna selvagem. E a expandiu à biodiversidade. Segundo David Attenborough, mais da metade do número de indivíduos dos vertebrados, sobretudo mamíferos, já foi extinta. E a outra o será em breve. A sociedade humana destruiu também a maior parte das florestas, incluindo, mais recentemente, as tropicais. Inspirada na grande ideologia do crescimento, aquela que perpassa regimes capitalistas e socialistas, a sociedade humana consome cada vez mais recursos naturais e emite gases de efeito estufa (GEE) para a atmosfera.


A invenção do desenvolvimento sustentável, nos anos 1980/1990, implicou múltiplos esforços de mudança, mas, por enquanto, inócuos. Os GEEs continuam a se acumular provocando o aquecimento global, e com ele, os seus efeitos nocivos largamente conhecidos.

Já estamos adentrando a meta da COP de 2015, em Paris: 1,5º C acima da temperatura média global de antes da revolução industrial. Se o mundo alcançar 3oC ingressaremos em um patamar catastrófico. E se formos a 5oC será um patamar desconhecido, ou seja, que não sabemos o que ocorrerá com o clima e seus eventos críticos, incluindo neste caso ameaças existenciais à humanidade.

As concentrações desses gases na atmosfera são frequentemente medidas em partes por milhão (ppm) ou partes por bilhão (ppb). Segundo os relatórios do IPCC, em 1990, a atmosfera continha cerca de 354 ppm de CO2; em 2000, cerca de 369 ppm; em 2010 - 389 ppm. Em 2024, cerca de 415 ppm. No caso do metano, a variação foi de 1.700 partes por bilhão (ppb), em 1990, para cerca de 1.870, atualmente. E, no caso do óxido nitroso (N2O), variou de cerca de 310 ppb para cerca de 333, em 2024. Ou seja, todas as medidas tomadas no mundo, sob o signo de criar um desenvolvimento sustentável, não diminuíram os gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. Eles continuam aumentando, os eventos críticos climáticos tornam-se mais frequentes e intensos.

É de conhecimento público, com exceção dos negacionistas, que são as atividades humanas que produzem poluição, destroem a biodiversidade e provocam as mudanças climáticas (sugiro esgotamento de recursos não-renováveis). No entanto, estamos adentrando um período em que este fenômeno será superado: crescimento constante de eventos críticos climáticos, mais frequentes e mais intensos, que se farão independentemente das atividades econômicas dos humanos.

Como as mudanças climáticas tendem a ganhar vida própria, ou seja, independente das atividades humanas? Basicamente pelo círculo vicioso que está se formando entre o degelo dos Polos, que reduz o chamado efeito albedo (medida da proporção da radiação solar que é refletida de volta à atmosfera e ao espaço), a exposição do permafrost, que emite GEEs e o aumento da temperatura dos oceanos, somado à perda da vegetação e da biodiversidade.

As geleiras do mundo inteiro, particularmente dos polos, possuem a capacidade de refletir a radiação solar, evitando que a terra absorva o seu calor (efeito albedo). Na medida em que a terra se aquece, e ela tem se aquecido desde o século XIX com a industrialização, porém mais acentuadamente nas últimas três décadas, a terra perde superfície de gelo e, assim, reduz o efeito albedo. Com isso, o planeta tem que absorver uma maior quantidade de calor. A consequência da perda de superfície de gelo reflete-se, também, em outro aspecto: o ressurgimento do permafrost à luz do sol. Esta é a terra que está sob as geleiras, às vezes há milhões de anos, repleta de micróbios e germes ancestrais, mas sobretudo de CO2 e metano, dois dos mais poderosos gases de efeito estufa. Com isso, aumenta o acúmulo de GEE na atmosfera e a terra se aquece ainda mais. O que produz, por sua vez, mais degelo. Ao que se deveria acrescentar a redução da capacidade dos principais sumidouros de CO2: oceanos e cobertura vegetal. Os oceanos porque, com o aquecimento, perdem vida, sobretudo algas, e absorvem menos CO2. A cobertura vegetal, como no caso das florestas já foram em grande parte destruídas, e continuam a sê-las.

Em resumo: mesmo que os humanos cessassem hoje de emitir gases de efeito estufa, as mudanças climáticas, com seus eventos críticos continuariam, e de forma mais frequente e intensa. O aquecimento continuaria a se elevar, e não apenas, como diz Tomas Tarquínio, em belíssimo artigo aqui publicado, resultado dos gases já emitidos nas últimas décadas.

Neste sentido, Richards, Lupton e Allwood em artigo publicado na revista Climatic Change (2021), chamam a atenção, para o fato de que hoje “Há uma preocupação crescente de que as alterações climáticas representem um risco existencial para a humanidade”. Previsões similares, e mesmo mais graves, têm sido feitas constantemente por outros estudiosos das mudanças climáticas. O risco existencial se faz também presente junto a animais não-humanos.

Muitos cientistas evitam falar em desastre ou colapso. Em parte, pelas idiossincrasias próprias da cultura científica, sempre atrelada aos cuidados de objetividade, verificação e adequação à empiria, ou seja, aos fatos e experimentos. Um dos intelectuais mais brilhantes neste campo foi sem dúvida Jared Diamond, com seu famoso, e muito debatido internacionalmente, livro – Colapso. Como as sociedades escolhem o fracasso ou sucesso. Livro cujas partes mais interessantes rezam sobre as sociedades antigas: os Maias da América Central, os Rapa Nui da ilha de Pascoa, os Polinésios das Ilhas de Pitcairn e d’Henderson, os Anasazis do Novo México no sudoeste dos Estados Unidos e os Vikings da Groelândia.

Para Diamond, cinco são os fatores centrais na destruição dessas civilizações pretéritas: (i) destruição dos recursos naturais, (ii) mudanças climáticas, (iii) conflitos internos e externos, (iv) dependência de parceiros comerciais e (v) respostas inadequadas aos problemas ambientais. Fatores que em geral se retroalimentam.

Os cinco fatores causais do colapso, citados por Diamond, estão presentes de forma relevante em todos os casos, e igualmente presentes hoje, no mundo: (i) mais da metade da vegetação de florestas tropicais já foram destruídas e mais de 60% dos indivíduos da fauna selvagem, particularmente mamíferos; (ii) o aquecimento é um fato inconteste assim como o aumento da frequência e da intensidade dos eventos críticos; (iii) a polarização e, sobretudo, o negacionismo são os exemplos mais visíveis dos conflitos de risco; (iv) o mundo hoje é economicamente globalizado, e o que ocorre em um determinado país pode desorganizar cadeias produtivas globais como ocorreu com a invasão da Rússia na Ucrânia, e, finalmente, (v) as respostas mais evidentes para vencer o risco climático são largamente insuficientes. Os GEE se acumulam na atmosfera. A cada ano o mundo bate recorde de aquecimento. Tudo se conjuga para provocar a sexta extinção da vida no planeta, e com ela, os sapiens correm o risco de irem juntos.

Ora, no caminhar atual da carruagem, ou seja, se não forem tomadas medidas drásticas de mudanças nos defrontaremos, antes de 2050, com perda de vidas humanas aos milhões, senão bilhões. Enquanto isso, muitos políticos, governos e empresas tendem a escamotear o problema ou simplesmente negá-lo. Em plena tragédia climática do Rio Grande do Sul, o Congresso Nacional continua a aprovar medidas para reduzir as restrições à destruição da natureza no Brasil.

E a sociedade, como um todo, resiste à adoção de medidas radicais que, no entanto, com o aumento da frequência dos eventos críticos terão de ser tomadas, para não tornar a terra um lugar inabitável aos humanos. Se não tomarmos medidas radicais de mudança de rumo, como propugna Edgar Morin9, o Rio Grande do Sul será o Brasil de amanhã. E como diz Przeworski, “nossos filhos e netos morrerão ou queimados ou afogados”.


Sem medidas radicais de mudança, o ser matricida, que somos nós, será expulso da vida. Para regozijo de todos os seres vivos da terra. Por isso, sustentabilidade já era. Adentramos a fase de atividades regenerativas a começar da própria agricultura: é preciso reduzir a monocultura e o uso excessivo e mortal de pesticidas, estimular a agricultura orgânica e a agroecologia. É preciso recuperar a biodiversidade, ampliando áreas protegidas; parar de emitir gases de efeito estufa, com novas tecnologias e estímulo à economia de proximidade e à economia circular; reduzir o consumo dos ricos; findar com a obsolescência programada; reduzir as embalagens e adotar material reciclável; acelerar a transição energética, adotar um novo e radical sistema tributário, e mudar nossos hábitos e valores.

Não temos que pensar que “não tem mais jeito”, nem julgar que medidas paliativas resolverão o problema. Ainda temos tempo.

Porém para sobreviver, os humanos devem produzir uma metamorfose, como dizem Ulrich Becker e Edgar Morin, uma revolução não basta.
Elimar Pinheiro do Nascimento

O nacionalismo ameaça a ordem mundial

O próximo presidente dos Estados Unidos declara que seu país não cumprirá mais o compromisso assumido sob o tratado da Otan, de sair em defesa de um membro da organização. Os europeus não conseguem encontrar um substituto confiável. Temendo a ameaça de uma Rússia revanchista, alguns passam a ser leais à Rússia e à China. A Europa se dissolve.

Isso é plausível? Espero que não. Mesmo assim, por trás do pesadelo está a realidade. Estamos entrando em um período de ressurgimento do nacionalismo, da xenofobia e do autoritarismo.

Como Oscar Wilde poderia ter observado: “Eleger Donald Trump presidente uma vez pode ser considerado um infortúnio, mas elegê-lo duas vezes parece descuido”. Sua volta indicaria algo muito perturbador sobre o estado da superpotência ocidental.

Robert Kagan, da Brookings Institution, observa em um podcast que fez comigo que a proximidade de Trump com o poder se deve a forças antiliberais poderosas. As implicações dessas atitudes para a democracia dos EUA são preocupantes. Mas essa preocupação não está limitada ao âmbito interno.


O “América em primeiro lugar” de Trump foi um slogan usado pelo aviador Charles Lindbergh em oposição ao apoio dos EUA ao Reino Unido na Segunda Guerra Mundial. Essa oposição só cessou depois que o ataque do Japão a Pearl Harbor em dezembro de 1941 forçou os EUA a entrarem na guerra.

Putin é inimigo da ordem europeia pacífica. A decisão de Pequim de apoiá-lo foi um divisor de águas. O Ocidente precisará se manter unido para se defender da competição da China. Mas Trump e seus imitadores na Europa tornariam tal parceria quase impossível

Lindbergh era um isolacionista. Na medida em que pode ser definido, Trump é um unilateralista não confiável. Mas, no contexto da guerra da Rússia na Ucrânia, esta pode não ser uma diferença crucial. Ele ajudaria, ou ele veria isso como “uma disputa num país distante, entre pessoas sobre as quais não sabemos nada”, nas notórias palavras de Neville Chamberlain sobre a Tchecoslováquia em 1938?

Por mais de um século a segurança da Europa dependeu da presença dos EUA. Infelizmente, depois da Primeira Guerra Mundial, o Senado repudiou a Liga das Nações e assim os EUA se retiraram. Isso levou ao ressurgimento da Alemanha como potência militar dominante no continente e assim à Segunda Guerra Mundial. Felizmente, os EUA continuaram empenhados na era do pós-guerra. Após o colapso da União Soviética em 1991, eles podem ter acreditado, de modo plausível, que deveriam se retirar novamente.

Mas agora, depois da invasão não provocada da Ucrânia pela Rússia, esse não pode ser o caso. A China, também cada vez mais vista pelos EUA como uma ameaça, está fornecendo um forte apoio moral e prático à Rússia, incluindo bens de dupla utilização valiosos para o prosseguimento de sua guerra. Mais uma vez isso justifica o compromisso. O que Trump faria? Esta poderá ser em breve uma questão relevante.

O colapso da ordem de segurança da Europa liderada pelos EUA teria repercussões globais. A derrota da Ucrânia certamente encorajaria a China em relação a Taiwan. Mas, além disso, as dúvidas sobre as garantias de segurança na Europa teriam implicações à credibilidade dessas garantias para o Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Por toda a Ásia, países tentariam se aproximar da China.

Infelizmente, a União Europeia também está ameaçada por nacionalistas, xenófobos e autoritários internos. Os partidos com essas atitudes deverão ampliar substancialmente sua presença nas eleições parlamentares europeias. Com o tempo, espera-se que mais deles chegarão ao poder: Marine Le Pen poderá até mesmo ser o próximo presidente da França. Quando se pensa nas dificuldades criadas apenas pelo putinismo de Viktor Orbán, as perspectivas são sombrias.

O nacionalismo também está refletido no afastamento do comércio liberal, que vem ganhando força no mundo todo. Trump teve um papel de liderança na legitimação do protecionismo durante o seu mandato. Biden fez o mesmo. A atual suspeita em relação ao comércio tem muitas causas: o aumento da competição da China na produção industrial; as interrupções nas cadeias de abastecimento após a pandemia de covid-19; a competição estratégica; a crença crescente na política industrial; e o repúdio à própria noção de multilateralismo, com a notável inclusão da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo Biden desenvolveu uma agenda relativamente sofisticada em torno da ideia de “reduzir os riscos” no comércio. Mas a ação está ficando mais brutal. Assim, os EUA impuseram tarifas de 100% sobre as importações de veículos elétricos da China, por uma mistura de motivações de segurança e política industrial. Em resposta, Trump disse que “eles também têm que fazer isso em outros veículos e precisam fazer isso com muitos outros produtos porque a China está comendo nosso almoço neste momento”. É altamente provável que, no poder, ele adote medidas agressivas contra as importações não só da China, mas de seus aliados.

A reviravolta no comércio já é profunda. Ao longo do período do pós-guerra, os EUA, influenciados pelas lembranças da década de 30 e os objetivos estratégicos do pós-guerra, promoveram o multilateralismo e as economias de mercado liberais. Há agora um entendimento cada vez mais bipartidário de que isso foi um erro grave. Embora o governo Biden deseje permanecer relativamente próximo de seus aliados, sua agenda, também, é de certa forma a “América em primeiro lugar”. Mas Trump é muito mais descaradamente nacionalista do que Biden.

Putin é um inimigo inequívoco de uma ordem europeia pacífica. A decisão da China de apoiá-lo foi, para mim, um divisor de águas. Mas quanto mais o mundo ocidental quiser se defender da competição da China, mais ele também precisará para se manter unido. O nacionalismo de Trump ou de seus imitadores na Europa tornaria tal cooperação quase impossível.

Mesmo na nossa era da competição estratégica, a cooperação com a China continua sendo essencial, especialmente em relação ao clima. O Ocidente também precisa responder mais generosamente às preocupações dos países em desenvolvimento e emergentes. Mas, acima de tudo, ele precisa sobreviver como uma comunidade de democracias liberais. Esta é uma necessidade moral e prática. Se o nacionalismo autoritário destruir isso, o Ocidente terá perdido a luta.

Em 1939, o poeta WH Auden escreveu sobre o que ele considerou uma “década má e desonesta”. Como parecerá a nossa em 2029? 

Vocês vão se arrepender disso

Se destruírem a Amazônia, o que será do mundo? O pensamento indígena me interessa há muito tempo. Cresci no Norte do Canadá. Então, quando diziam que os povos nativos haviam desaparecido, eu sabia que não era verdade. Os indígenas tinham mais poder quando os ingleses queriam se aliar a eles contra os franceses e vice-versa. Após o declínio do comércio de peles, fornecidas pelos nativos, colonos passaram a ser incentivados a invadir terras indígenas, impor suas leis e até matar búfalos para que os nativos não tivessem o que comer. Toda essa história está sendo desenterrada. Os indígenas podem nos ensinar como impedir que nossas utopias igualitárias se tornem ditaduras. Várias sociedades indígenas têm arranjos sociais igualitários em que as habilidades individuais também são premiadas.

Margaret Atwood

Palavras sobreviventes

Não há fita métrica que possa medir as perdas decorrentes de uma tragédia como a que ocorreu no Rio Grande Do Sul. A dor e o sofrimento igualam todas as catástrofes e expõem a fragilidade humana, de forma mais contundente, quando na identificação de suas causas, estão o descaso, o descuido, a ação predatória do ser humano.

A Natureza vive “eras” que, ao longo de milhares de anos, se transformam a partir mudanças climáticas, geológicas, independente da perturbação de fatores antrópicos. Porém, quando a ação predatória do homem corrompe o ritmo das mudanças estruturais, a resposta cobra o preço devastador da destruição.

O momento atual afeta severamente o clima e ameaça a integridade do Planeta. Os fatos vêm confirmando o que a ciência já alertou: o fenômeno da emergência climática em decorrência do aquecimento global.

Nascemos para ser viventes e não meros sobreviventes à própria audácia de desafiar os limites biofísicos da natureza. A cada tragédia, restam vítimas reais e potenciais. Enfermidades no corpo, marcas inapagáveis na alma e perdas com que passamos a conviver.

De outra parte, existe um tipo de morte e sonho que a sutil percepção de Ruy Castro mencionou, a do livro (coluna Palavras Submersas, Folha, edição de 22/05/24): “Se cada exemplar de um livro pode ser insubstituível, pelo que representou na vida de uma pessoa, imagine essa morte em massa de páginas talvez ainda não lidas. É duro constatar que o objeto em que se assentou o conhecimento humano nos últimos mil anos é tão frágil”.

Por coincidência, estava concluindo a leitura de FACA – Reflexões sobre um atentado de autoria de Salman Rushdie (Ed. Companhia da Letras. São Paulo, 2024, abril) nascido na Índia, Bombaim (1947), historiador, com formação no King´s College, Cambridge.

Em 1981, já era um autor consagrado ao receber o Prêmio Booker com o livro Os Filhos da Meia-Noite, ao qual se juntariam duas dezenas obras o que lhe valeria a classificação de 13º (2008) colocado pelo The Times entre os 50 maiores escritores britânicos e um processo movido por Indira Gandhi que se sentiu atacada pelo escritor.

De fato, a valiosa obra de Rushdie lhe garantiu uma numerosa premiação. Porém, a fama e a projeção internacional do autor obtiveram enorme dimensão histórica em razão da sanguinária intolerância do líder iraniano, aiatolá Ruhollah Khomeini que decretou (fatwa, em 14 fevereiro de 1989) sua execução sob a acusação de haver cometido o crime de abandono da fé islâmica, ao publicar o livro Versos Satânicos, cujo longo enredo revela os dilemas do imigrante entre desenraizamento e integração, no caso, à sociedade britânica. Segundo o autor “um simples romance antigo e não uma espécie de batata quente teológica”.

A partir de então, Salman passou a viver escondido e sob a proteção do serviço secreto inglês. É possível afirmar que o autor foi um dos cidadãos mais perseguidos do mundo pelo imperdoável delito que afronta as tiranias: a liberdade de expressão, nela contida a tolerância religiosa, pilares do regime democrático.

Os ditadores, tiranos, déspotas têm sede de sangue e detêm um arsenal de extermínio cruelmente utilizados na eliminação dos “inimigos” que defendem a liberdade da palavra, um crime imprescritível.

Decorridos 33 anos do fatwa, a tentativa de executar a cruenta sentença ocorreu dia 12 de agosto de 2022. Ao subir no palco do anfiteatro, do Instituto Chautauqua, condado do Estado de Nova York, quando daria uma palestra sobre a criação de espaços seguros nos EUA para escritores de outros lugares do mundo, Salman Rushdie sofreu um brutal atentado, assim descrito pela vítima: “Ainda vejo o momento em câmara lenta. Acompanho com os olhos o homem que corre, salta da plateia e avança até mim […] ergo a mão esquerda para me defender. Ele crava nela a faca. Depois de vários golpes, em meu pescoço, peito, olhos, em tudo. Sinto as pernas cederem e caio”.

A cena é de uma brutal ferocidade. Com o sugestivo nome de Hadi Matar, o fanático desferiu, em 27 segundos, mais de dez facadas, na vítima agonizante. A partir de então, exangue, Salman que não professa qualquer religião, ateu convicto, se deparou com uma luta de gigantes, o ano da morte e o anjo da vida, títulos que deu às duas partes em que dividiu o magnífico livro A Faca – Reflexões sobre um atentado. Sem perder o refinado senso de humor, mesmo em momentos críticos, afirmou que, embora não acreditasse em Deus, sua cura foi milagrosa.

Somente uma brilhante vocação literária, transformaria uma faca, dores severas, a beira do desconhecido, cicatrizes e a mutilação (perda do olho esquerdo) na ampliação do autoconhecimento, no significado terapêutico do tempo, na luz da ciência médica, na força do acolhimento solidário da amizade e, sobretudo, no amor desmedido da poeta, romancista, artista, sua mulher, Rachel Eliza Griffiths (1978).

Escrever o livro, “o desfecho”, foi a cura. O anjo da vida venceu, mas as únicas vitoriosas são as palavras sobreviventes aos impérios. Para o autor, a grande lição é tomar a liberdade de expressão como um fato consumado. Leitura emocionante!

Gustavo Krause

terça-feira, 4 de junho de 2024

Mudança política e mudança climática

Não é preciso ser um cientista para perceber que o clima em todas as regiões da terra está mudando e que estas mudanças põem em risco nosso modo de vida. Com o conhecimento que a humanidade adquiriu do fim do século XVIII até agora é possível distinguir com bastante acerto o que tem origem em causas naturais e o que é provocado pela ação do homem. Este conhecimento nos dá o poder de intervir nesses processos, para mitigá-los ou para nos adaptarmos às suas consequências.

Hoje, no Brasil ou em qualquer democracia, a política divide as pessoas em quase tudo e, como não poderia deixar de ser, divide também quanto à questão ambiental. Se ninguém pode em sã consciência negar o fato das mudanças climáticas, uma grande parte das pessoas prefere acreditar que elas não têm relação com a ação humana e, portanto, não tem cabimento políticas ambientais que custam caro. É um ponto de vista desesperado que, levado às últimas consequências, nos manterá passivos até que as mudanças se tornem irreversíveis.

Se o negacionismo é mais presente na direita política mais radical, não é infelizmente sua exclusividade. A esquerda, com suas agendas de soberania e de desenvolvimento a qualquer custo, sem falar nos ressentimentos coloniais, não é capaz de dar passos efetivos no combate à mudança do clima. Seu discurso é politicamente correto, mas na prática ela tem outras prioridades.


Uma pessoa razoável não pode ter dificuldade em perceber que a ação do homem é uma grande causadora das pressões que se abatem sobre o nosso ambiente. Até a revolução industrial a população humana foi sempre pequena para as dimensões da terra. No primeiro ano da era cristã a população mundial tem sido estimada em 188 milhões de pessoas e 1.800 anos depois estava perto de 1 bilhão, um crescimento de cinco vezes em 18 séculos. Pouco mais de dois séculos depois, somos hoje 9 bilhões de pessoas. Do tempo dos romanos até o final do século XVIII, o padrão de vida se manteve estagnado, sem pressão da produção e do consumo sobre os recursos da natureza. De 1.750 até hoje a renda de europeus e norte-americanos multiplicou-se por vinte vezes e a do mundo como um todo, quatorze vezes. A explosão demográfica multiplicada pela explosão da renda em pouco tempo, não tinha como não pressionar o ambiente natural em que vivemos.

Deter a mudança do clima vai exigir um esforço financeiro gigantesco dos países e para isso será indispensável a concordância e a adesão das suas populações. Além disso, será necessário um nível inédito de cooperação internacional. O movimento ambiental e o relativo engajamento dos principais governos nas discussões do clima coincidiu com o fim da União Soviética e o relaxamento das tensões geopolíticas. De lá para cá o mundo reconfigurou-se à base de novos antagonismos e as tensões geopolíticas voltaram a ser tão fortes quanto antes. O ambiente para a cooperação e a repartição justa dos custos da transição parece claramente sombrio.

Olhando para a frente com realismo é possível prever que os antagonismos geopolíticos não devem favorecer políticas ambientais nacionais de grande alcance, pois a palavra de ordem nas grandes potências e nos blocos econômicos é vencer a competição e prevalecer, qualquer que seja o custo. Os movimentos ambientalistas estão perdendo tração porque sempre preferiram atuar à margem das correntes políticas principais e agora enfrentam um isolamento.

Desde que a questão ambiental entrou na agenda dos governos e de parte das sociedades, muito progresso foi feito e muita coisa foi evitada. A preocupação ambiental, no entanto, é ainda uma pauta dos governos e das elites. Para que o combate às mudanças climáticas, com todos os seus custos e todos os seus sacrifícios, adquira a escala necessária, é preciso que as pessoas comuns sejam persuadidas. Para isto o discurso da ordem e do medo deve ser substituído por um discurso de esperança. Todos precisam acreditar que com a ciência e a política a mudança do clima é mais uma luta que os homens são capazes de vencer.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Pensamento do Dia

 


O Brasil faraônico

A lembrança vem rápida, puxada do baú das reminiscências. Nos meados dos anos 60, repórter iniciante do Jornal do Brasil, na época o mais admirado do país, desloquei-me à Sudene, na av. Dantas Barreto, em Recife, para cobrir a reunião mensal dos conselheiros do órgão, composta pelos 9 governadores da região e representantes de Ministérios.

Na ocasião, ouvi do então governador Alberto Silva (MDB-PI), a historinha: “o piauiense tem um complexo de inferioridade. Encontra uma pessoa desconhecida, jeito arrogante e metido à besta. O sujeito se apresenta, com nome e credenciais. E pergunta: o senhor é de onde? O piauiense, raiva na cara, fazendo um gesto com as duas mãos, como estivesse partindo para a briga, responde: “eu sou do Piauí, e daí?”.

O gesto de briga, na visão do governador e engenheiro, traduz o sentimento do piauiense de carregar um recalque: ser originário de um Estado, na época devastado pela pobreza, junto com o Maranhão, figurando no ranking como o ente federativo menos desenvolvido do país. O chiste era: os dois Estados, em um só território, teria o nome de “Piorão”.


Alberto Silva levava muito a sério o sentimento de seus compatriotas, a ponto de, em uma de suas gestões, ter cumprido a promessa de campanha eleitoral, de puxar Copacabana, o belo cartão postal do Rio de Janeiro, para Teresina, a capital. Criou a “Poticabana”, uma praia formada nas margens do rio Poti. Com ondas e tudo.

Para alegria dos piauienses, das crianças, principalmente, adquiriu nos Estados Unidos um equipamento para formação de ondas. A sensação de enfrentar ondas gigantes nas águas sujas e barrentas do rio Poti, nas proximidades de um hotel 5 estrelas, com o mesmo nome do rio, seria o toque de charme do empreendimento. Mas a alegria foi contida. No dia da inauguração, uma criança morreu afogada. Outras, quase. Veio a tristeza. A praia acabou, enterrada pela tragédia.

O fato é que a imitação, o gosto pela extravagância, o toque de esnobismo, enfim, a vontade de construir altares grandiosos fazem parte do ethos nacional. O complexo de vira-lata, imagem criada por Nelson Rodrigues para traduzir a inferioridade em que o brasileiro se coloca ante o mundo, produz, de outro lado, a cultura das coisas fabulosas, o jeito brasileiro de entrar na tumba de faraó.

Haja olhos para contemplar a arquitetura faraônica que se espraia pelo País na forma de construções suntuosas, edifícios majestosos, obras de desenhos arrojados e massas volumosas que causam estupefação. E secam os cofres.

O Brasil se habilita a ser um hábitat para abrigar o sono eterno dos faraós. As majestades nacionais se sentem motivadas a ganhar assento nos espaços do pharao-onis, termo do velho latim para significar “casa elevada”. O planalto brasiliense, imaginado por JK, é a morada dos faraós no século 21.

O fausto, a opulência, o resplendor, a exuberância se elevam nos espaços, sob o ditame inquestionável de que, se a obra for construída em Brasília, deverá receber o selo de Oscar Niemeyer e, por consequência, não sofrerá limites de gastos. Os faraós não olham para gastos. Para onde se olhe na Esplanada dos Ministérios e arredores, se enxergam tumbas resplandecentes. Muitas construídas sob a engenharia de bilhões. Não se pretende questionar a qualidade técnica e artística das monumentais obras de Brasília e de outras paragens.

A capital federal, seu criativo traçado e, de maneira mais abrangente, a própria arquitetura brasileira, ocupa lugar de destaque nos mais belos portfólios do planeta. A questão diz respeito aos princípios constitucionais da economicidade, moralidade e finalidade da administração pública. Que devem ser obedecidos a partir dos gestores lotados nos píncaros da administração pública. As sedes monumentais, apesar do encantamento que provocam, puxam as ondas do desperdício. Eis a pergunta recorrente: o custo da obra faz jus ao porte das tarefas do órgão?

Vejam o caso do TSE. O Tribunal Eleitoral é formado por sete ministros, três dos quais já integram o STF. Se os desníveis nos andares do edifício judiciário são alarmantes, imagine-se a situação catastrófica em outras áreas. Outras frentes do desperdício: perdemos 50% dos alimentos, perda estimada em R$ bilhões anuais, o que daria para alimentar 50 milhões de pessoas, evitar perda de 40% da água distribuída e 30% da energia elétrica. Os cálculos foram feitos há tempos pelo professor de Engenharia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro José Abrantes, autor do livro Brasil, o País dos Desperdícios. Se a montanha de riquezas enfiadas no ralo pudesse ser preservada, o País estaria, há tempos, no ranking mais avançado das potências.

A que se deve isso? Primeiro, a uma cultura política plasmada no patrimonialismo, assim explicada: a res publica é entendida como coisa nossa, o dinheiro dos cofres do Tesouro tem fundo infinito, o Estado é um ente criado para garantir casa, alimento e bem-estar.

E quais seriam os caminhos mais curtos para diminuir o Produto Nacional Bruto do Esbanjamento (PNBE)? Ordem e disciplina nos gastos. Rigor no preceito constitucional da economicidade e moralidade. Uso racional do espaço público. Coordenação eficaz dos planos de obras. Qualificação e treinamento dos quadros funcionais. Elevação geral do nível educacional da população.

As vias, todas com sua importância no conjunto, se completam. No momento em que o mais modesto dos brasileiros conseguir decifrar a conta dos exageros nos umbrais da gastança, as distâncias entre os compartimentos da pirâmide serão menores e o Brasil, maior. Meta para mais de uma geração.

Não vendam nossas praias

Os senadores garantem que não querem privatizar as praias. Será? A PEC que tentam votar retira da União a propriedade exclusiva não só de praias, mas também de uma faixa de terra chamada “terrenos de marinha”, uma área de 33 metros na margem de rios, lagos e contorno das ilhas.

Ao mesmo tempo que nos garantem que são bonzinhos, empreendimentos como os da empresa Due, associada ao jogador Neymar, anunciam a criação de um Caribe brasileiro, um conjunto de empreendimentos imobiliários numa região de 100 quilômetros entre Pernambuco e Alagoas.


A ideia de privatizar existe noutros países. Mas não é nossa praia. A praia é o tipo de espaço de lazer essencial para os brasileiros, algo muito importante na definição do Rio e na integração de suas regiões urbanas.

Outro aspecto que torna a medida temerária, eu diria suicida, é o fato de estarmos em período de mudanças climáticas. Uma das consequências é a elevação do nível dos mares, algo que considero irreversível, uma vez que as geleiras já começam a derreter.

Quem tiver dúvida do poder do mar precisa visitar a praia de Atafona, no norte do Estado do Rio. Foi destruída completamente. O mar avança em Pernambuco (Boa Viagem, Paulista, Jaboatão) e provoca mudanças na Ilha de Itamaracá, ao lado do forte construído pelos holandeses. Em muitos casos, como em Santa Catarina, não podemos falar apenas de avanço do mar, mas sim de uma resposta à própria especulação imobiliária.

A lei que garante a propriedade da União sobre os terrenos de marinha foi baseada na maré de 1831. Imagino que essa referência talvez não seja mais tão segura nos tempos de aquecimento global. Isso quer dizer que as áreas marinhas precisam ser ampliadas, e não entregues à especulação.

Um dos argumentos do senador Flávio Bolsonaro, relator da emenda constitucional que privatiza as praias, é que pobres como os habitantes da comunidade da Maré, no Rio, virarão proprietários. Mas a proposta nunca pensou nos pobres, apenas basicamente nas grandes empresas imobiliárias.

Logo no começo da pandemia, fui a Fernando de Noronha exatamente para colher a opinião dos moradores contra outro projeto do próprio Flávio Bolsonaro. Ele queria abrir a ilha para os cruzeiros internacionais, inundá-la de turistas estrangeiros, sem preocupação com a ausência de estrutura. Cheguei a concluir o programa com muitos depoimentos contrários à invasão dos cruzeiros, mas a pandemia acabou resolvendo o problema à sua maneira.

Os Bolsonaros parecem ter um Caribe na cabeça, sempre tentando materializá-lo, ora em Angra, ora em Noronha, ora no Nordeste. Esse avanço da especulação imobiliária nos dá a possibilidade de discutir a importância dos oceanos nas mudanças climáticas. O próprio El Niño, que pegou pesado neste ano, é um fenômeno que se forma na costa peruana.

Recentemente houve em Barcelona um encontro internacional para discutir a proteção aos oceanos. Numa das maiores conferências ambientais no fim do século passado, houve concordância de que a alteração das correntes marinhas seria o marco de que o aquecimento se tornaria irreversível.

Com tudo o que aprendi e estamos aprendendo em família, com uma filha dedicada aos oceanos, creio que não dramatizo ao avisar que o Brasil precisa ter cuidado com o mar, senão produzirá desastres que poderiam ser evitados, como tantos outros que produz em terra firme.

Em vez de privatizar praias, o país deveria ampliar suas áreas de proteção no próprio oceano, algo que a Austrália já começou a fazer. É preciso proteger os corais, evitar que o oceano se transforme numa lixeira e combater a pesca predatória, sobretudo de navios asiáticos que navegam com fábricas de enlatar peixes.

No momento em que o Rio Grande do Sul vive uma tragédia marcada por tempestades e ciclones, é preciso fazer ver aos congressistas que é hora de conter essa corrida por lucros fáceis, que só nos leva à autodestruição.
Fernando Gabeira 

Caso Sylt: racistas perderam a vergonha

O vídeo rodou o mundo todo. Nele, jovens ricos alemães se divertem no terraço de um bar, rindo e celebrando. A cena seria normal se eles não estivessem cantando os seguintes versos: "Alemanha para os alemães, estrangeiros fora!". Entusiasmado, um dos jovens faz o que parece ser um gesto nazista e uma imitação do bigode de Hitler. O vídeo foi gravado esse mês em um bar de luxo de uma famosa ilha que é conhecida por sua clientela rica e VIP: Sylt. A música é uma adaptação de uma canção inofensiva de amor, L'amour toujours, de Gigi D'Agostino.

A cena gerou um grande escândalo na Alemanha, obviamente. A polícia abriu uma investigação criminal e o caso foi lamentando pelo chanceler federal alemão, Olaf Scholz, que classificou o episódio como "inaceitável". Ótimo. Mas isso será suficiente para barrar uma "tendência" xenófoba que cada dia fica mais clara no país? Infelizmente, acho que não.


Depois dos jovens ricos racistas viralizarem na internet, soubemos que, no mesmo fim de semana em que o vídeo foi gravado e também em Sylt, uma mulher negra de 29 anos foi insultada e levou um soco. De acordo com a emissora alemã NDR, a polícia informou ainda que um episódio semelhante ao do bar ocorreu numa outra balada da ilha.

Ou seja, o caso está longe de ser isolado. A versão da música, segundo reportagem da NDR, circula no TikTok pelo menos desde dezembro de 2023 e vários casos de jovens cantando as palavras racistas já foram registrados na Alemanha e na Áustria.

Moro na Alemanha há quase dez anos e nunca tinha visto uma cena como essa. Não estou dizendo que não existiam neonazistas, claro que existiam. Mas ver pessoas cantando sorridentes esses slogans em uma festa, aos olhos de todos, é algo que eu realmente não podia imaginar. Será que eu era muito inocente? Pode ser. Mas os xenófobos também não eram tão "saidinhos".

"Os idiotas estão saindo do armário", escreveu o cientista político e ativista alemão Tadzio Müller. Sim, a impressão que dá é que na Alemanha, assim como em muitos outros países, os preconceituosos não estão mais com vergonha de externar suas visões xenófobas, racistas, homofóbicas e misóginas.

"A gente já viu isso antes", comentou um amigo brasileiro que também mora na Alemanha no X (o antigo Twitter), depois que eu compartilhei o vídeo dos racistas na rede social. Ele falava do Brasil a partir de 2017, 2018, quando o bolsonarismo mostrou a sua cara e muita gente passou a falar sem vergonha que sentia saudades da ditadura, a falar mal de gays, por aí vai. Ou seja, os preconceituosos saíram do armário.

Vendo a cena horrorosa de Sylt (assustadora principalmente para nós, estrangeiros que moram na Alemanha) lembrei de alguns episódios que aconteceram no Brasil há poucos anos, como o fato de pessoas falarem que sentiam saudades da ditadura militar e admirarem publicamente torturadores. Esse é o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro, que "dedicou" seu voto na noite do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff a Carlos Brilhante Ustra, um dos torturadores mais sanguinários da ditadura. Depois disso, muitos dos seus admiradores, inclusive seu filho Carlos Bolsonaro, usaram sem vergonha camisetas onde estava escrito: "Ustra vive!".

Entoar slogans neonazistas na Alemanha e falar que tem saudade da ditadura são coisas diferentes, mas o ódio e a falta de vergonha de fazer apologia a crimes é muito parecida.

Muitos amigos brasileiros perguntam preocupados o que vai acontecer com a Alemanha. Claro que ver essas cenas nos machucam e assustam. Mas uma coisa eu respondo com tranquilidade: apesar do crescimento das manifestações xenófobas, é praticamente impossível que o partido de direita radical Alternativa para a Alemanha (AfD) faça parte do governo federal nos próximos anos. Isso porque o sistema político do país é o parlamentarismo de coalizão, o que significa que partidos devem fazer uma aliança que supere os 50% dos assentos parlamentares para governar. E existe no país o chamado Brandmauer, que significa "muro de contenção", ou seja, um acordo entre os principais partidos para isolar a AfD.

Além disso, o partido está envolvido em vários escândalos. No dia 14 de maio, por exemplo, um de seus maiores líderes, o deputado estadual da Turíngia Björn Höcke, foi condenado por uso de slogan nazista.

Em janeiro, milhares foram às ruas protestar contra o partido e o fascismo depois que uma reportagem mostrou que integrantes da AfD tinham se encontrado com outros extremistas para discutir um plano para expulsar milhares de estrangeiros da Alemanha. As manifestações deixaram ainda mais claro que seria uma péssima ideia (em todos os sentidos, até o eleitoral) um partido se associar à AfD.

Outra coisa que me tranquiliza: novas manifestações contra o fascismo e a xenofobia já estão marcadas em todo o país. Os xenófobos perderam a vergonha, mas ainda existe muita gente sempre pronta para gritar: "alle zusammen gegen den Faschismus" ("todos juntos contra o fascismo").

sábado, 1 de junho de 2024

Pensamento do Dia

 


As cidades e as águas


1.

A tragédia das inundações das cidades do Rio Grande do Sul nos lança com força a pergunta: quais são as manifestações da questão ambiental nas cidades e como entendê-las? O sofrimento das populações, em sua maioria urbanas, atingidas por um desastre desta monta clama por ação e também por reflexão. Afinal qual é a dimensão especificamente ambiental das cidades?

O entendimento corrente a este respeito parece ainda insuficiente. A dimensão ambiental do urbano, dizem alguns, estaria na presença da natureza na cidade. Esta natureza, normalmente associada ao rural, poderia ser observada também nas cidades. Ou então, dizem outros, trata-se apenas de um “ambiente construído”, pois, não sendo natural, o ambiente das cidades é puro artifício e a natureza seria relegada ao espaço do campo. Em ambos os casos, este tipo de resposta faz uma separação de domínios entre ambiente e sociedade ou, então, vê um ambiente cortado ao meio – parte natureza, parte artifício social.

Tentemos situar no tempo histórico a noção de ambiente urbano e sua gênese, procurando não separar ambiente e sociedade. Isto porque no campo, como nas cidades, o ambiente é sempre apropriado material e simbolicamente pelos diferentes atores sociais. Certos autores cuidam, ademais, de nos lembrar: trata-se de uma problemática construída em um momento histórico determinado. Foi apenas em um dado momento do conhecimento científico e do debate público que as paisagens, no campo como nas cidades, passaram a ser vistas sob uma nova ótica – ambiental; a “ecologia” dirigiu o olhar para o modo como são feitas as ligações entre as partes – entre plantas e solos, rios e margens, edificações e morros.

E, sobretudo, para as ligações entre os diferentes modos de usar rios, lagoas, solos, atmosfera etc. Seria preciso, por exemplo, nos dizem os especialistas, alargar o olhar sobre as cidades para abranger toda a bacia hidrográfica onde elas se inserem. A questão urbana foi, assim, sendo“ambientalizada” pela formulação de novas percepções e interpretações dos problemas urbanos, em particular pela atenção dada às ligações e impactos recíprocos entre as diferentes formas de ocupação dos espaços.

Não se trata, por outro lado, apenas da questão dos ecossistemas onde se inscrevem as cidades, mas do conjunto de ideias e concepções mediante as quais se foram construindo os problemas socioecológicos urbanos e seus modos de tratamento.

A noção de “ambientalização” surgiu, assim, para designar o modo pelos qual os atores sociais passaram a avaliar a pertinência e legitimidade das práticas de ocupação do espaço, classificando-as em ambientalmente danosas ou ambientalmente benignas.[ii] Assim foi que certos modos de apropriação e uso do espaço, nas cidades e fora delas, passaram a ser percebidos e apontados como geradores de impactos indesejáveis sobre as condições ecológicas de existência e trabalho de terceiros.

2.

E qual teria sido o histórico desta ambientalização da questão urbana? Sabemos que, em sua origem, a cidade moderna foi entendida como portadora de uma questão populacional. Os estatísticos que mediam os fatos urbanos, no século XIX, eram vistos como “técnicos de populações”. Eles apontavam o aglomerado populacional como responsável pelos males materiais e morais na cidade. Temas malthusianos invadiram então o debate público: a transpiração da cidade e a exalação de vapores em proveniência de uma grande quantidade de homens e animais eram vistos como problemas próprios aos bairros mais povoados.

Era nessas localidades, diziam eles, que se situavam as oficinas ruidosas e poluentes, as ditas patologias morais da criminalidade e da prostituição. A concentração populacional unificava as dimensões materiais e morais da recém conhecida expansão urbana. E mesmo quando os estatísticos verificavam uma distribuição desigual da taxa de mortalidade entre bairros, a relação quantitativa entre o número de indivíduos e o espaço ocupado pelo bairro era apontada como responsável pela desigualdade diante da morte – a atmosfera de massas, os miasmas, a falta de ar…

Não se incluía nas análises de então outros tipos de processos de concentração, além dos efeitos de aglomeração de gente: pouco se discutiu, por exemplo, a concentração de poder sobre o espaço urbano e seus recursos, como tampouco a concentração da capacidade de certos atores sociais afetarem – dentro e fora das cidades – os demais por via do impacto de suas práticas na fisíco-química atmosférica, nas águas, nos solos e sistemas vivos.

Enquanto o capitalismo foi criado juntamente com a privatização da terra, tornada, a partir de então, uma pseudomercadoria, apresenta-se a nós a pergunta seguinte: o que teria acontecido com os demais elementos de uso compartilhado como as águas e o ar? O historiador Alain Corbin dá elementos para caracterizar o que hoje podemos considerar uma dimensão ambiental avant la lettre do urbano: com relação aos males associados à grande indústria, prevaleceram, a partir de então, diz ele, o otimismo tecnológico e a naturalização da poluição.

O que passou a vigorar, nos usos sociais das águas e da atmosfera, foram relações de força; ou seja, o exercício da potência de certos proprietários disporem livremente dos espaços compartilhados por todos. Friedrich Engels, por sua vez, falava, de forma bem mais genérica, de uma capitalização de tudo: “os capitalistas se apropriam de tudo, enquanto, ao grande número, não resta senão a própria vida”.

A industrialização, dizem os historiadores, gerava ansiedades públicas. Ou seja, ela trazia consigo um problema político: o da prevalência de um determinado uso privado dos espaços não-mercantis do ar e das águas sobre os demais usos. Uma questão política que foi, porém, silenciada. Atos de força que foram naturalizados, despolitizados. Dada a nova escala de operação das práticas produtivas e a forma concentrada do exercício do poder de manejo dos espaços e recursos, criou-se uma divisão social desigual da capacidade das práticas espaciais se impactarem reciprocamente; no campo, nas cidades e, por certo, entre o campo e as cidades.

As práticas dominantes da grande indústria e da agricultura em grande escala impuseram, assim, de fato, seus usos privados aos espaços comuns do ar e dos cursos d´água, neles lançando os produtos não vendáveis da produção de mercadorias (resíduos, efluentes, emissões) ou, no caso da agricultura comercial, desmatando margens e compactando solos, impactando – e eventualmente comprometendo – o exercício de outras práticas espaciais não dominantes.

Podemos chamar essa configuração de uma “proto-ambientalidade” do capitalismo – ou seja um padrão “ambiental” próprio ao regime de acumulação de riqueza que começou a operar muito antes que uma questão ambiental propriamente dita tivesse sido formulada como um problema público. Certos autores fazem menção ao que teria sido uma “primeira política pública ambiental” europeia quando, em 1806, as manufaturas de Paris foram classificadas em categorias de “cômodas e incômodas”, umas sendo afastadas da aglomeração, outras toleradas.

Ora, tais medidas não davam propriamente tratamento às indústrias como fonte de poluição ambiental a ser restringida e regulada; as fábricas tornaram-se apenas objeto de políticas espaciais de localização dos incômodos.

3.

Saltemos um século: é nos anos 1960, que pudemos observar o surgimento de lutas sociais através das quais se fez a denúncia – como “males ambientais” – dos processos de dominação privada, de fato, dos espaços comuns, que vinha sendo praticada desde os primórdios do capitalismo; ou seja, a imposição, a cidadãos supostamente livres, do consumo forçado – via cursos d´água e atmosfera – de produtos invendáveis da produção mercantil: resíduos sólidos, efluentes líquidos e gasosos.

Questionamentos foram feitos igualmente ao manejo arbitrário das matas e cursos d´água pela grande agricultura químico-mecanizada, com suas consequências danosas para a alimentação, a biodiversidade e os solos. O que se buscou fazer então foi politizar um debate antes silenciado, iniciando um processo de ambientalização das lutas sociais que incluiu, por certo, questões urbanas.

Inicialmente, a partir dos movimentos sociais contraculturais de crítica ao consumismo e ao modelo agrícola monocultural que, vemos hoje, tem consequências dramáticas sobre bacias hidrográficas, com inundações de áreas urbanas, mediadas ou não por mudanças climáticas; em seguida, por instituições multilaterais, UNESCO, HABITAT e Banco Mundial, com a assim chamada “agenda marrom” relativa a uma ambientalização do saneamento; por fim, por governos, que criaram suas secretarias e ministérios de meio ambiente, em grande parte como resposta a movimentos sociais e pressões internacionais e com pouca incidência sobre as cidades, embora, mais recentemente, evocando a necessidade de adaptação das cidades às mudanças climáticas.

Mas, para além dos usos correntes do senso comum, que considera o ambiente urbano como a soma das questões do saneamento, da poluição do ar e da água, da impermeabilização e contaminação dos solos, em termos analíticos, poderíamos ainda perguntar: como se foi conceituando, de forma um pouco mais sistemática, a “dimensão ambiental do urbano”? Como foram sendo unificados processos aparentemente tão dispares?

Observando a literatura sobre meio ambiente urbano, verifica-se uma ampliação do debate convencional do urbano para aspectos físico-químicos e biológicos da configuração das cidades. Os autores que vieram animando este debate referem-se, via de regra: (a) ao modo como, nas cidades, se consome, transforma e deterioram os “bens coletivos, como água, ar, solo”; (b) ao fato que estes bens coletivos passaram a ser vistos como mediadores/transmissores de riscos de comprometimento das condições ecológicas da vida nas cidades, em função dos diferentes modos sociais de apropriação de que eles são objeto; (c) à necessidade de se considerar a diferenciação social no processo de mudança socioecológica: a saber, que os riscos urbanos são distribuídos desigualmente; o que favorece a um grupo social pode prejudicar a outro.

Assim, “a natureza urbanizada reuniria bens materiais e simbólicos atravessados por conflitos sociais urbanos em torno a seu controle, configurando padrões espaciais desigual de distribuição das amenidades e males ambientais”.

Articulando-se as considerações destes autores, a noção de “meio ambiente urbano” designaria o espaço de vigência de riscos urbanos associados aos modos de apropriação e consumo de bens coletivos como ar, água e solo, assim como elementos dos sistemas vivos portadores de microorganismos, vírus, bactérias etc., pelos quais certas práticas espaciais (em geral de empreendimentos capitalistas de grande impacto) afetam as práticas de terceiros (em geral grupos despossuídos e racializados), em contexto de padrões socialmente desiguais e conflituais de distribuição de danos e amenidades urbanas.

Estamos longe, portanto, dos simples efeitos populacionais aglomerativos do século XIX, mas, sim, confrontados aos efeitos indesejáveis de determinadas práticas espaciais desenvolvidas nas cidades ou fora delas, mas com impactos sobre elas.

4.

O governo do “ambiente urbano” remete, assim, à regulação política dos riscos desigualmente distribuídos decorrentes dos modos dominantes de apropriação dos espaços materiais compartilhados e não-mercantis da cidade ou fora das cidades, com consequências dentro delas. Não se trata, com efeito, somente da gestão de ecossistemas, mas da regulação de práticas espaciais e das disputas em torno à definição de quais delas são ou não portadoras de riscos e para quem.

A este propósito, é gritante a concomitância entre as cheias desastrosas nas cidades e a flexibilização de códigos florestais (o caso de Santa Catarina, em 2011, é disto emblemático), indicando a força do negacionismo aplicado a relações causais e à (des)responsabilização dos tomadores de decisões geradoras de riscos. Exemplo recente é o de um vereador do Rio Grande do Sul que culpou as árvores pelos deslizamentos de encostas, entre outros contrasensos.

Ou então a conhecida campanha de imprensa dizendo que as favelas deveriam ser removidas por sua definição como “problema ambiental” das cidades.[ix] Ora, a moradia precária é, na realidade, uma, entre muitas, das manifestações do padrão desigual de distribuição dos riscos ambientais urbanos. Evidências empíricas mostram, a propósito, a vigência de uma lógica discriminatória de localização de equipamentos portadores de risco, sendo as populações negras, indígenas e de baixa renda expostas, de forma mais que proporcional, a seus impactos ambientais, assim como às dinâmicas inigualitárias do mercado de terras, à distribuição desigual de infraestrutura de saneamento, ao insuficiente acesso a moradia segura etc.

As situações assim configuradas de desigualdade ambiental são aquelas, portanto, que exprimem processos de concentração do poder, por parte dos agentes das práticas espaciais dominantes, de impactar a terceiros – os promotores de práticas espaciais não dominantes – e de não serem por eles impactados. Por esta razão, as grandes corporações, inclusive as imobiliárias urbanas, justificam no plano discursivo, licenças ambientais pouco criteriosas, flexibilização de normas e regressão de direitos. Impactos danosos e riscos serão alocados sistematicamente, de forma mais que proporcional nos espaços ocupados por grupos sociais despossuídos.

Em paralelo, a condição de vulnerabilidade experimentada pelos grupos despossuídos e racializados resulta da subtração de suas condições de resistência à imposição de agravos, inclusive climáticos, quando vigoram relações desiguais de poder nas dinâmicas espaciais de localização e de mobilidade urbana. A condição de vulnerabilidade exprime, assim, o fato de o Estado deixar de assegurar proteção igual para todos os seus cidadãos – como defesa contra enchentes, ilhas de calor, deslizamentos etc.

Em debates acadêmicos em torno à definição do objeto de estudos da disciplina da História Ambiental, certos pesquisadores conclamaram seus colegas a não se ocuparem das cidades, por elas serem supostamente expressão da cultura, estranhas ao objeto natureza. Os defensores da pertinência do tema do ambiente urbano retrucaram, por sua vez, que seria impossível estudar a natureza sem levar em conta aquilo que há dois séculos representou seu maior desafio: a urbanização em massa e a industrialização.

Excluir a cidade como construção cultural, dizem eles, suporia, ademais, desconsiderar que as paisagens agrárias também o são.[x] Poderíamos acrescentar mais um argumento: a vigência de desigualdades ambientais na distribuição dos riscos urbanos indica que a gestão do ambiente das cidades é uma incontornável e específica questão política. Consequentemente, caso se queira garantir proteção ambiental para todos e evitar situações críticas como as que abalaram as cidades do Rio Grande do Sul, será preciso não apenas cuidar da manutenção das estruturas hidráulicas construídas ao longo dos cursos de água, mas também regular as práticas espaciais urbanas e extra-urbanas – no caso em pauta, da grande monocultura desmatadora – através de leis e normas que sejam resistentes aos esforços negacionistas de flexibilização, desmontagem e retrocesso.

Carta a uma jovem sobre o século XXI

Uma ideia não me saiu da cabeça desde que, na semana passada, ouvi uma mãe em situação de rua chamar sua filha. Andava pela avenida Paulista e via o cenário de crescimento da pobreza urbana que ganhou uma enorme magnitude a partir da pandemia - e da forma desastrosa que o Brasil lidou com ela. Não consegui compreender bem qual era o nome da menina, mas sonhei com a cena e no meu devaneio noturno ela se chamava Esperança. Daí em diante senti a necessidade de lhe falar sobre o presente nebuloso que gera um futuro incerto, quase um não futuro. Na minha impotência, o que me sobrou foi escrever uma carta:

“Querida Esperança,

Não tive tempo ou coragem para te conhecer direito. Mas a cena em que vi você com sua mãe nas ruas de São Paulo me fez pensar sobre o mundo que nos rodeia. Sei que sua vida é muito mais complicada do que a minha ou do que a de outras crianças, como a minha filha de 15 anos, que tem as oportunidades retiradas de um conjunto enorme de meninos e meninas brasileiras. Não conheço sua trajetória, nem posso avaliar em detalhes suas carências. O que tenho condições de falar é sobre o momento que passamos, tentando abrir alguma janela de esperança a quem tem esse nome e talvez tenha dificuldades de usufruir desse sentimento.

Há períodos na história em que o futuro se torna muito incerto e nebuloso. Até nos contos de fadas, a que nem sei se teve acesso, príncipes e princesas passam por maus bocados. E parece que o mundo está entrando num desses momentos, com a emergência de vários fatores que tornaram a vida mais perigosa e complexa no planeta. Gera-se um clima de triunfo dos pesadelos sobre os sonhos. Alguns chamam isso de distopia, que é o contrário do mundo ideal. Muita coisa ruim ou complicada está se espalhando, e a humanidade não está conseguindo sair desse buraco.

Os problemas atuais são imensos, mas não são incontornáveis, nem o desfecho está definido de antemão. Existe um espaço para alterar o rumo da história, e para fazermos isso é preciso conhecer quais são as principais barreiras e soluções para se construir um futuro melhor para todos. É preciso frisar esta expressão: um futuro melhor para todos. Porque o que está acontecendo hoje são duas coisas que dificultam esse ideal coletivo.

A primeira é o crescimento das desigualdades - de renda, racial, de escolaridade, de gênero e territorial. Sabe, Esperança, o mundo teve muitas melhoras para muita gente entre o fim do século XX e o começo do século XXI. Isso também ocorreu no Brasil a partir da redemocratização, com uma nova Constituição, que, pela primeira vez em nossa história, disse que todos somos iguais, e especialmente no período em que dois presidentes, Fernando Henrique e Lula, conseguiram ser muito bem-sucedidos num projeto de mudanças.

Claro que as diferenças sociais não deixaram de existir, mas elas se reduziram em muitos lugares, e em São Paulo havia menos população que vivia na rua do que há hoje. Se tivesse nascido um pouco antes, talvez você não tivesse que pedir junto com a sua mãe a sobra dos outros. Mais do que isso: havia a sensação de que poderíamos criar um país no século XXI que paulatinamente aumentaria as oportunidades para todo mundo. Esse sentimento se enfraqueceu nos últimos anos. De todo modo, não me sinto confortável nem feliz com o fato de que o futuro de muitos esteja cada vez mais distante das condições futuras de poucos.

Só que o século XXI trouxe um problema maior do que as desigualdades que marcam nossa história, porque agora todos podem entrar no mesmo barco da desesperança. O que está em jogo é o futuro do planeta, da humanidade como espécie. Tratamos muito mal a natureza nas últimas décadas. O relógio do descaso humano acelerou-se e o castigo vem na forma de desastres naturais cada vez mais frequentes. A tragédia inominável no Rio Grande do Sul é um exemplo do que pode vir pela frente. Lá, muita gente que tinha casa, comida e roupa lavada está em condições similares às que você e sua mãe conhecem muito bem: a tristeza das carências cotidianas e a imprevisibilidade sobre o dia de amanhã.

Não há mais tempo para brincarmos de deuses inconsequentes em relação ao meio ambiente. Tudo o que construímos durante séculos, usando nossa criatividade e suor, pode ser colocado em jogo. Grupos poderosos e líderes mentirosos têm evitado que comecemos um processo de defesa do planeta. Eles continuam dizendo que os desastres naturais sempre aconteceram. São os mesmos que culpam os pobres pela pobreza e gostariam que voltássemos ao tempo da escravidão, quando havia senhores e escravizados, e não direitos iguais para todos.

Talvez essas grandes questões estejam muito longe da sua dura realidade cotidiana, Esperança. Porém, os grandes problemas são a fonte das injustiças. Não sei se frequenta a escola, mas lá seria o lugar ideal para você aprender como superar nossas mazelas, tendo um olhar crítico sobre os erros dos seres humanos, como também sobre as possibilidades de correção. A educação é o melhor caminho para termos menos gente morando na rua, menos presídios, mais diálogo entre as pessoas que pensam diferente e mais chances de termos uma sociedade solidária.

Como um adulto que teve a sorte de ter tido oportunidades educacionais, mesmo que em escolas públicas da periferia de São Paulo, me sinto no dever de lhe contar quais são as incertezas do século XXI que tornam mais incerto o futuro para todos. Em primeiro lugar, no topo das preocupações, está a questão ambiental. Se não fizermos imediatamente a lição de casa para desacelerarmos a mudança climática, se não cuidarmos melhor das nossas florestas, rios e oceanos, e se, em suma, não tomarmos consciência de que nossos atos importam na regulação do planeta, há grandes chances de muita gente passar pela experiência de viver em escombros, e não nos lindos prédios que você, Esperança, admira ao viver nas ruas e não poder usufruir do conforto do lar.

Tal cenário pode parecer um exagero, como muitos poderiam retrucar. Mas, quem, honestamente, teria previsto há alguns meses que o Rio Grande do Sul viveria a situação em que está hoje? Na verdade, não temos ideia do que a natureza rebelada por nossas atitudes irresponsáveis pode fazer nos próximos anos. O futuro se tornou mais incerto do que em qualquer outra época da história.

O mundo também se tornou mais perigoso com a disputa das grandes potências e com os recentes conflitos na Ucrânia e nos territórios de Israel e Faixa de Gaza. A Europa, como berço da civilização ocidental, está em risco com o projeto expansionista russo. O conflito no Oriente Médio tem sido recorrente, mas ganhou um ar de crueldade recíproca que coloca em jogo a estabilidade da região e a crença de que tenhamos aprendido com os massacres do passado. Para piorar, as duas mais poderosas nações, Estados Unidos e China, entraram numa rota de colisão que pode nos levar a um conflito mundial, com proporções ainda desconhecidas.

A tecnologia é sempre admirada por todos nós, e você deve sonhar com os celulares dos que passam por ti em meio à carência material de sua situação de rua. Não se envergonhe disso, Esperança, porque quase todas as crianças e jovens são aficionadas por máquinas novas de comunicação e entretenimento. Entretanto, aquilo que deveria ter apenas um uso positivo tem gerado muitas preocupações e angústias. Duas são as principais. Uma é o uso cada vez mais frequente das redes sociais para produzir ódio e divisão entre as pessoas. Veja que triste: em meio a uma tragédia como a do Rio Grande do Sul, a internet foi utilizada para espalhar mentiras que atrapalham o auxílio dos que necessitam de ajuda. Alguns chamam isso de liberdade de expressão. Eu chamo isso de crueldade criminosa, um atentado contra a humanidade.

Outro temor trazido pela tecnologia no século XXI é a possibilidade, cada vez maior, de ela se tornar incontrolável pelos seres que a criaram. A veracidade das informações e a substituição dos homens pelas máquinas são duas enormes preocupações. Mentiras podem se tornar mais difíceis de serem combatidas e a autoria das ideias ficar mais obscura, atingindo a nossa grande liberdade que é a criatividade. Pior: milhões de empregos podem ser destruídos e, assim, talvez você tenha mais vizinhos de rua no futuro, tornando ainda mais selvagem a vida de quem não tem onde morar e o que comer.

Meu temor maior sobre o século XXI é o crescimento das desigualdades. Me assusta como meu círculo social aceita que uma menina como você, Esperança, possa viver com sua mãe numa condição indigna para um ser humano. E me amedronta ainda mais saber que, em vez de estarmos caminhando para resolver esse problema, talvez estejamos indo na rota contrária.

Não sei se a encontrarei ou se terei coragem de entregar essa carta. No fundo, espero que os que leiam lembrem de você como a expressão de muita gente que não tem um futuro pela frente. Se não posso resolver sozinho as suas carências, querida Esperança, continuarei lutando para melhorar, no que me cabe, o mundo que nos circunda. E não vou me esquecer de seu nome porque é ele que me guia mesmo nos piores dias”.

O conceito de moderno

O conceito de moderno é relativamente difuso nas ciências sociais. Surge em meados do século XIX, mais como uma manifestação de partes da população contra os então valores tradicionais ainda da Igreja e dos resquícios da Idade Média, na sua superação pela industrialização e o capitalismo. Na moda, estes conceitos são mais presentes, na sucessiva mudança de hábitos e costumes que diferenciam as classes e grupos sociais. Nas artes, principalmente na pintura, com Picasso e tantos outros, toma corporeidade devido à sua referência a um movimento bem específico e determinado no tempo. Assim como na literatura.

Nas ciências sociais, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman propõe o termo “modernidade líquida”, como o saldo que diferencia sociedades mais desenvolvidas de outras. O conceito de modernidade, entretanto, é altamente imbuído de juízo de valor, nem sempre eficaz ou preditivo de tendências.

Muitos conceituam a modernidade como aquilo que vem depois. Trata-se, entretanto, de termo, quando mal aplicado, infrutífero e até mesmo pernicioso, no que possa expressar tendências nefastas sob o manto da terminologia. Hitler e o nazismo teriam sido modernos por vir após a República de Weimar? Bolsonaro, quando aparece no Brasil, foi moderno ou retrógrado? Viktor Órban, o que representa? Seria moderno o futuro sombrio do apocalipse que se apresenta à crise ambiental?

Como disse Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. Não é o que vem depois que legisla sobre o que há de certo no amanhã.

Os Cães

– Mas, enfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borba, indo pôr a xícara vazia no parapeito de uma das janelas.

– Não sei; vou meter-me na Tijuca; fugir aos homens.

Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada.

– Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação.

Para distrair-me, convidou-me a sair; saímos para os lados do Engenho Velho. Íamos a pé, filosofando as coisas.

Nunca me há de esquecer o benefício desse passeio, que me restituiu o sossego e a força. A palavra daquele grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me ele que eu não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim que a língua filosófica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no calão do povo. Funda um jornal, disse-me ele, e “desmancha toda esta igrejinha”.

– Magnífica ideia! Vou fundar um jornal, vou escachá-los, vou...

– Lutar. Podes escachá-los ou não; o essencial é que lutes. Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.


Daí a pouco demos com uma briga de cães; fato que aos olhos de um homem vulgar não teria valor. Quincas Borba fez-me parar e observar os cães. Eram dois. Notou que ao pé deles estava um osso, motivo da guerra, e não deixou de chamar a minha atenção para a circunstância de que o osso não tinha carne. Um simples osso nu. Os cães mordiam-se, rosnavam, com furor nos olhos... Quincas Borba meteu a bengala debaixo do braço, encostou o queixo no costão e parecia em êxtase.

– Que belo que isto é! dizia ele de quando em quando.

Quis arrancar-me dali, mas não pude; ele estava arraigado ao chão, e só continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte. Notei que ficara sinceramente alegre, posto contivesse a alegria, segundo convinha a um grande filósofo. Fez-me observar a beleza do espetáculo, relembrou o objeto da luta, concluiu que os cães tinham fome; mas a privação do alimento era nada para os efeitos gerais da filosofia.

Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espetáculo é mais grandioso; as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis; luta que se complica muito, porque entra em ação a inteligência do homem, com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos, etc.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

O calor cozinha nossos miolos?

O clima tropical "amoleceu" os brasileiros, como sugeriu Albert Einstein em seus politicamente incorretos diários de viagem? O pai da Teoria da Relatividade foi aqui um gênio presciente ou apenas preconceituoso?

A viagem de Einstein à América do Sul ocorreu em 1925. À época não havia estudos rigorosos que pudessem amparar suas observações sobre os efeitos do clima na inteligência, de modo que o físico alemão apenas ecoava o determinismo geográfico de tons racistas que era moeda corrente à época.


Ocorre que, a partir de 1945, começam a surgir pesquisas que apontam efeitos negativos do calor sobre a cognição, não em caráter essencialista, do tipo que produziria povos irremediavelmente ignorantes, mas de forma aguda. O mesmo indivíduo tem performance melhor ou pior de acordo com a temperatura.

Valho-me aqui de informações constantes em "The Weight of Nature", de Clayton Page Aldern, livro que ainda vou resenhar, mas do qual já dou uma palhinha. No que provavelmente é o primeiro estudo controlado, Norman Mackworth mostrou que o desempenho de soldados da Real Força Aérea na transcrição de código Morse piorava nitidamente com o aumento dos termômetros. A partir dos 33ºC a diferença se tornava dramática.

Hoje há uma profusão de trabalhos nessa linha. Eles não só corroboram o vínculo como indicam que ele pode ser fonte de desigualdades. Na China, já se mostrou que estudantes das regiões mais quentes são injustamente penalizados no vestibular unificado do país, o "gaokao", que ocorre no verão.

Em Nova York, apenas dois terços das escolas públicas têm ar-condicionado. Obviamente, são as dos distritos mais pobres as que não têm. A climatização explica 5% da diferença de desempenho entre as crianças negras e não negras.

Não é coincidência que, quando questionado sobre o segredo do sucesso de Singapura, Lee Kuan Yew, o ditador que fundou o país, tenha respondido: ar-condicionado.