segunda-feira, 27 de abril de 2020

AI-5. É isso mesmo?

Você quer mesmo a volta do AI-5? Você, de fato, deseja o fechamento do Congresso Nacional? Você tem certeza de que o melhor para você e para o país será acabar com o Supremo Tribunal Federal? Você tem certeza? É isso mesmo o que você quer? Pois se é, bom, saiba que o que você deseja e quer muito já aconteceu um dia.

Por causa desse tal AI-5, que você diz amar, eu e meu pai fomos presos. Sabe por quê? Você não acreditaria! Garanto. Meu pai e eu fomos presos naquela época porque a gente se sentia como você se sente agora. Não com relação ao AI-5, mas com relação aos governos da época. A gente não gostava muito deles e resolveu dizer isso, como você faz agora com relação ao Congresso e ao Supremo. Fomos em cana. Sabe por quê? Porque instrumentos como o AI-5 foram criados para prender, torturar e até matar as pessoas que não pensam igualzinho ao ditador de plantão.

Ah!, mas você viveu naquele tempo e não foi preso? Sorte sua. Porque discordar e não ser preso ou morto era só questão de sorte ou de ser amigo do “rei”.


Eu estava no Congresso Nacional quando o ditador mandou fechá-lo. Eu já estava na política, desde muito novo e pela oposição, quando cassaram ministros do Supremo Tribunal Federal e garanto a você, não foi nada bom o que eu vivi naquele tempo: gente que eu gostava, admirava e até líderes que me inspiravam, como foi o caso de Juscelino Kubitschek, que sofreu horrores, vítima de processos imorais que não davam a mínima para essas coisas de amplo direito de defesa. Carlos Lacerda também.

Você deve se lembrar deles, a história é recente. E olha que o Carlos Lacerda pensava como você pensa agora, sabia? Acreditava que a intervenção militar seria coisa passageira, uma ajudinha só para alinhar as eleições. Morreu frustrado. E tinha aqueles que conseguiam enxergar o que de fato acontecia e tentavam contar a história correta mas foram calados pelos porões. Eram os brilhantes jornalistas com suas veias investigativas, questionadoras e inquietas, que, ao invés de serem criticados como podem ser hoje em dia, eram simplesmente apagados.

Você está contrariado com o Congresso Nacional e com o STF porque gosta do presidente da República, que você escolheu? Você está com raiva, em revolta e por isso defende o AI-5? Digamos que você consiga conquistar o que você quer. Como será quando a raiva passar? Você já pensou nisso? Você estará num país onde a raiva e o simples pensar diferente será duramente punido, com prisão, tortura e morte.

Então, minha amiga, meu amigo, vote e vote sempre. Coloque toda a sua revolta e sua raiva no voto, mas faça isso com a consciência de que a voz para mudar será a sua, e não de alguém que pouco se importa com você.

O AI-5 não gosta de voto. Ao contrário, abomina, odeia a ponto de prender, matar e torturar quem gosta de votar. Vote e mude com o seu voto aquilo de que você não gosta. Porque se acabaram com o seu direito de votar, você terá um trabalho enorme, muito desgaste e até poderá perder a vida na luta para que o seu direito retorne.

Está ponderando e argumentando internamente que os ministros do Supremo não são escolhidos pelo voto? Mas são sim! Os presidentes da República que você escolhe seleciona os nomes que quer prestigiar e eles são aprovados pelos senadores que você também, pelo voto, escolheu.

Pense nisso na hora de votar e, por favor, em nome do Brasil, dos seus filhos, netos e de você mesmo, pare com essa bobagem de defender o AI-5. Porque se AI-5 houvesse ainda por aqui, o presidente que você defende não estaria na Presidência, porque naquele tempo capitães e deputados não tinham chance alguma de chegar lá. Nem os operários ou as mulheres. E todos eles se se atrevessem a querer estar lá seriam presos, torturados e corriam o risco de perder a vida. E você também se os defendesse.

Pense bem nisso.
Rubem Medina

Alto risco de tragédia

Num momento em que todos reprisam, o governo é pródigo em lançar novelas inéditas. Mal acabou a novela Mandetta, entrou no ar a Sergio Moro, e começaram as filmagens da Paulo Guedes. O que está acontecendo na cabeça do presidente Bolsonaro? Ela foi sacudida pelo impacto do coronavírus.

Muitas mudanças estão sendo determinadas, no fundo, pela política escolhida por Bolsonaro para enfrentar este que é o maior acontecimento trágico no mundo moderno. Onde governos conservadores ou progressistas triunfaram, como é o caso da Austrália e da Nova Zelândia, Bolsonaro afundou.

Desde o princípio, tenho apontado a causa. Bolsonaro aderiu à camada de gordura que cerca o vírus e seus fluidos ideológicos e o transformou num tema da guerra cultural. Exatamente o oposto do que fizeram Scott Morrison, na Austrália, e Jacinda Ardern, na Nova Zelândia: despolitizaram o vírus.

Aqui não é Equador, mas em São Paulo também se morre em casa por covid-19
Ainda esta semana, o chanceler Ernesto Araújo escreveu um artigo contra o que chama de comunavírus. Ele ficou impressionado com um livro do pensador de esquerda Slavoj Zizek que previa enfim a chegada do comunismo. Depois de sonhar com a classe operária ou mesmo o lúmpen proletariado, alguns teóricos de esquerda concentram suas esperanças no vírus como agente transformador. E os bolsonaristas acreditam.

Desde o princípio, Bolsonaro viu a chegada do vírus como algo que ameaçava seu governo. A única forma de neutralizar sua importância era adotar uma tese que permitisse neutralizar os impactos econômicos. Esta tese foi a de imunização de rebanho: a maioria vai ser contaminada, é melhor que isso aconteça logo para que nos livremos do vírus.
Bolsonaro jamais considerou seriamente o fato de que, se muitos se contaminarem ao mesmo tempo, o sistema de saúde entraria em colapso, muitas pessoas morreriam na porta dos hospitais ou em casa. Um cenário que, de certa forma, se desenhou na Itália e mais tarde, de forma grotesca, em Guayaquil.

Foi por aí que caiu Mandetta. E indiretamente Moro. Bolsonaro sempre pensou em concentrar poderes. Mas a impossibilidade de determinar sozinho uma política contra o coronavírus condensou seu drama. Os governadores e prefeitos tiveram um papel decisivo. O Congresso os apoiou, o STF chancelou essa autonomia local.

A relação com Moro já sofria um desgaste. Mas Bolsonaro, na sua solidão, reclamou da ausência do ministro em sua cruzada contra o isolamento social. Moro, segundo alguns, não só era favorável à política de Mandetta, como pensou em decretar multas para quem rompesse com o isolamento social. O que, aliás, acontece em muitos países da Europa.

Sem o Congresso, STF, ministro da Saúde e da Justiça, Bolsonaro deu um passo decisivo participando de manifestação antidemocrática diante do QG do Exército. Isso resultou num inquérito que acabou se entrelaçando com outro: o das fake news. Os investigados são os mesmos: apoiadores do presidente e, possivelmente, até familiares de Bolsonaro.
Moro teve uma chance de sair depois daquela manifestação. Possivelmente estava incomodado com a posição temerária de Bolsonaro sobre o coronavírus. Mas agora estava diante de uma posição temerária contra a democracia.

Moro não se pronunciou. Num determinado momento de sua trajetória, a mulher de Moro escreveu numa rede social que ele e Bolsonaro eram a mesma coisa.

Ele pode ter sido salvo agora pela maneira como cai. A tentativa de interferir na autonomia da Polícia Federal é algo que não encontra apenas resistência na corporação, mas em muitos setores conscientes da sociedade. É inconstitucional.

Nesse sentido, Moro cai de pé. Mas, para que sua trajetória política tenha viabilidade, será necessário se distinguir de Bolsonaro, algo que não fez quando esteve no governo. O tom de seu discurso de saída é um indício de que compreendeu isto. Pelo menos se distanciou da visão atrasada de submeter o trabalho da PF aos desígnios de um presidente. O que é no fundo um crime de responsabilidade.

Mas Moro indicou claramente que Bolsonaro teme o inquérito no Supremo. Resta agora ao STF assumir seu papel institucional e não amarelar diante da pressão de Bolsonaro.

É um governo que se aproxima de uma situação limite, como foi o caso de Collor e Dilma. Mas num contexto de pandemia que jogou o planeta na maior crise econômica e social da história contemporânea. Alto risco de tragédia.

Coronavírus: o que podemos aprender com as pandemias da ficção?

Contos de Canterbury,, de Geoffrey Chauce
Em tempos incertos e estranhos como estes, em que cumprimos nosso isolamento social para achatar a curva de contágio, a literatura fornece escapismo, alívio, conforto e companhia. Porém, o apelo da ficção pandêmica também aumentou. Muitos títulos pandêmicos parecem guias para a situação de hoje. E muitos desses romances descrevem epidemias numa progressão cronológica realista, dos primeiros sinais de problema aos piores momentos, e o retorno à "normalidade". Eles nos mostram que já passamos por isso antes.

Um Diário Do Ano Da Peste, de Daniel Defoe, publicado em 1772, que narra a peste bubônica de 1665 em Londres, conta uma série de eventos sinistros que lembram nossas próprias respostas ao choque inicial e à propagação voraz do novo vírus.

Defoe começa sua história em setembro de 1664, quando circulam rumores sobre o retorno da 'pestilência' à Holanda. Em seguida, vem a primeira morte suspeita em Londres, em dezembro, e depois, na primavera, Defoe descreve como os avisos de morte publicados nas paróquias locais tiveram um aumento sinistro. Em julho, a cidade de Londres impõe novas regras - regras que estão se tornando rotineiras em 2020, como "que todas as festas públicas, jantares em tabernas, cervejarias e outros locais de entretenimento comum sejam suspensos até novas ordens".

Em agosto, Defoe escreve, a peste estava "muito violenta e terrível"; no início de setembro, atingiu o seu pior, com "famílias inteiras, ruas inteiras de famílias... desaparecendo juntas". Em dezembro, "o contágio estava esgotado, e também o clima do inverno acelerava, e o ar estava limpo e frio, com geadas fortes... a maioria dos que haviam adoecido se recuperou e a saúde da cidade começou a voltar". Quando finalmente as ruas foram retomadas, "as pessoas andavam dando graças a Deus por sua libertação".

O que poderia ser mais dramático do que um retrato de uma peste em andamento, quando as tensões e emoções são intensificadas e os instintos de sobrevivência surgem? A narrativa pandêmica é natural para romancistas realistas como Defoe e, mais tarde, Albert Camus.

A Peste, de Camus, em que a cidade de Oran, na Argélia, fica fechada por meses enquanto uma doença dizima seu povo (como de fato aconteceu em Oran no século 19), é um livro também repleto de paralelos com a crise de hoje. Os líderes locais relutam a princípio em reconhecer os sinais precoces que vêm dos ratos morrendo pela doença. "Os pais de nossa cidade estão cientes de que os corpos em decomposição desses roedores constituem um grave perigo para a população?", pergunta um colunista no jornal local. O narrador do livro, Dr. Bernard Rieux, reflete o heroísmo silencioso dos trabalhadores médicos. "Não faço ideia de o que me espera ou do que acontecerá quando tudo acabar. No momento eu sei disso: há pessoas doentes e elas precisam de cura", diz ele. No final, há a lição aprendida pelos sobreviventes da peste: "Eles sabiam agora que, se há uma coisa que sempre se pode desejar e, às vezes, alcançar, é o amor humano".

A gripe espanhola de 1918 reformulou o mundo, levando à morte de 50 milhões de pessoas, após 10 milhões de mortos na Primeira Guerra Mundial. Ironicamente, o dramático impacto global da gripe foi ofuscado pelos eventos ainda mais dramáticos da guerra, que inspiraram inúmeros romances. Enquanto as pessoas praticam agora o 'distanciamento social' e as comunidades ao redor do mundo se retêm, a descrição de Katherine Anne Porter da devastação criada pela gripe espanhola em seu romance Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, de 1939, soa familiar: "É terrível... Todos os teatros e quase todas as lojas e restaurantes estão fechados, e as ruas estão cheias de funerais o dia todo e ambulâncias soam a noite toda", diz o amigo da heroína Miranda, Adam, logo após ela ser diagnosticada com a influenza.

Porter retrata a febre e os tratamentos de Miranda, e semanas de doença e recuperação, até o despertar para um novo mundo remodelado pelas perdas da gripe e da guerra.

Porter quase morreu da gripe. "Eu mudei de uma forma estranha", ela disse à revista literária The Paris Review em uma entrevista de 1963. "Levei muito tempo para sair e viver no mundo novamente. Eu estava realmente 'alienada' no sentido puro.

As epidemias do século 21 - a síndrome respiratória aguda grave (Sars, na sigla em inglês), em 2002, a síndrome respiratória do Oriente Médio (Mers, em inglês), em 2012 e o ebola, em 2014 - inspiraram romances sobre desolação e colapso pós-peste, cidades desertas e paisagens devastadas.

O Ano do Dilúvio (2009), de Margaret Atwood, mostra-nos um mundo pós-pandêmico com humanos quase extintos, após a maioria da população ter sido exterminada 25 anos antes pelo 'Dilúvio sem Água', uma peste virulenta que "viajava pelo ar como se tivesse asas, queimando cidades como fogo".

Atwood captura o extremo isolamento sentido pelos poucos sobreviventes. Toby, uma jardineira, olha o horizonte do jardim da cobertura de um spa deserto. "Deve haver mais alguém ... ela não pode ser a única no planeta. Deve haver outros. Mas amigos ou inimigos? Se ela vir um, como vai saber?". Ren, que foi dançarina de trapézio e "uma das mais limpas entre as sujas da cidade" está viva porque estava em quarentena por uma possível doença transmitida por um cliente. Ela escreve seu nome repetidamente. "Você pode esquecer quem você é se estiver sozinho demais", diz.

Por meio de flashbacks, Atwood explica como o equilíbrio entre os mundos natural e humano foi destruído pela bioengenharia patrocinada por grandes empresas e como ativistas como Toby reagiram. Sempre atenta aos problemas que tecnologia pode trazer, Atwood baseia seu trabalho em premissas plausíveis, tornando o Ano do Dilúvio terrivelmente presciente.

O que torna a ficção pandêmica tão envolvente é que os humanos se unem na luta contra um inimigo que não é um inimigo humano. Não existem 'mocinhos' ou 'bandidos'; a situação é mais sutil. Cada personagem tem uma chance igual de sobreviver ou não. A variedade de respostas de cada personagem às circunstâncias terríveis torna a história interessante para quem escreve - e para quem lê.

Severance (A Separação, em tradução livre - livro indisponível no Brasil), de Ling Ma (2018), que o autor descreveu como um "romance apocalíptico de escritório" com uma história de imigração, é narrada por Candace Chen, uma moça que trabalha em uma empresa de publicação da Bíblia e tem seu próprio blog. Ela é uma das nove sobreviventes que fogem da cidade de Nova York durante a pandemia fictícia da febre de Shen em 2011. Ma descreve a cidade depois que "a infraestrutura ... entrou em colapso, a internet caiu em um buraco, a rede elétrica foi fechada".

Candace se junta a um grupo numa viagem em direção a um shopping em um subúrbio de Chicago, onde o grupo planeja se estabelecer. Eles viajam por uma paisagem habitada pelos "febris", que são "criaturas de hábitos, imitando velhas rotinas e gestos" até morrerem. Os sobreviventes são imunes aleatoriamente? Ou "selecionados" pela orientação divina? Candace logo descobre que em troca da segurança de estar em grupo precisa demonstrar uma estrita lealdade às regras religiosas estabelecidas pelo líder do grupo Bob, um ex-técnico de TI autoritário. É apenas uma questão de tempo até que ela se rebele.

Nossa própria situação atual é, obviamente, nem de longe tão extrema quanto a prevista em Severance. Ling Ma explora o pior cenário que, felizmente, não estamos enfrentando. Em seu romance, ela analisa o que acontece em seu mundo imaginário após a pandemia desaparecer. Depois do pior, quem está encarregado de reconstruir uma comunidade, uma cultura? Entre um grupo aleatório de sobreviventes, o romance pergunta: quem decide quem tem poder? Quem define as diretrizes para a prática religiosa? Como os indivíduos retêm poder de agência?

As vertentes narrativas do romance Estação Onze, de Emily St John Mandel, de 2014, ocorrem antes, durante e depois de uma gripe ferozmente contagiosa originária da República da Geórgia "explodir como uma bomba de nêutrons na superfície da terra", destruindo 99% da população da população global. A pandemia começa na noite em que um ator que interpreta o rei Lear, personagem de Shakespeare, sofre um ataque cardíaco no palco. Sua esposa é autora de histórias em quadrinhos de ficção científica ambientadas em um planeta chamado Estação Onze. O livro tem ecos dos Contos de Canterbury, clássico da literatura inglesa, escrito por Chaucer, o prototípico e irreverente ciclo de histórias do século 14, que tem como pano de fundo a peste negra.

Quem e o que determina a arte, pergunta Mandel? A cultura de celebridades importa? Como vamos reconstruir as coisas depois que o vírus invisível nos sitiar? Como a arte e a cultura mudarão? Sem dúvida, existem romances sobre nossas circunstâncias atuais em andamento. Como os contadores de histórias nos próximos anos retratarão essa pandemia? Como eles irão narrar a onda de espírito solidário, os inúmeros heróis entre nós? Essas são questões a serem ponderadas à medida que aumentamos o tempo de leitura e preparamos o surgimento do novo mundo.

Pensamento do Dia


O 'novo normal'

Nesses tempos de medo e depressão, chovem platitudes e truísmo de profetas, videntes e assemelhados que se multiplicam: “depois da pandemia, o mundo será mais solidário”, “veremos avanços nas áreas das ciências”, “os países serão menos globalistas e mais protecionistas”, etc.

A ciência política não escapa desse vislumbre do amanhã, razão pela qual também me inclino a fazer, vez ou outra, exercícios de futurologia. Em quase todas as projeções prega-se o advir de um mundo diferente, mais solidário, hipótese plausível ante a constatação de que a catástrofe de uma Nação, a partir de um vírus, atinge a todas. A busca pela extinção de pandemias vira missão de todos.


Hoje, tento enveredar nessa trilha: como seria esse “novo normal” com mudanças de padrões, valores, atitudes, o mapa do cotidiano pós-crise? Antes, uma apreciação sobre a paisagem social em que se abrigou o Covid-19. Uma sociedade plena de desigualdades, diferenças culturais, modos de vida, democracias vigorosas e outras nem tanto, conglomerados produtivos e competitivos, uma infinidade de micro e pequenos negócios, desemprego em massa, debilidade na defesa da saúde, acúmulo de riquezas, extrema miséria e fome.

A inferência emerge: o impacto difere em núcleos, grupamentos profissionais e classes sociais. Uns sofrem mais que outros. Mas um fio liga todos os seres humanos: o vírus não distingue ricos e pobres, maiores e pequenos. Só um grupo – os idosos – está mais arriscado.

Dito isto, fica patente: como é possível um micro-organismo desfazer de repente coisas, projetos, empreendimentos e tantos esforços, alguns produto de toda uma vida? É como se um tsunami inundasse tudo o que encontra pela frente: pessoas, construções, empreendimentos. Muitos não se salvam, mesmo em hospitais, enquanto outros, com rendas e negócios arrebentados, terão de recomeçar a vida.

A tragédia deixará marcas profundas, até naqueles com os mais profundos sentimentos de vivência na dor e no desespero. Haverá um olhar mais humano para as tragédias pela ideia de que o sofrimento pode baixar em cada um. Mas a catástrofe escancara a banalização do perigo na corrente do medo e da morte, duas sombras destes tempos.

A morte mora perto, gritada em alto e bom som: 20 mil aqui, 50 mil acolá, 100 mil mais adiante. Virou número. Antes, exclamava-se : “fulano morreu”, seguida de “não diga? Quando? Por quê?” Hoje, caminhões levam corpos mortos para covas coletivas.

Tudo aprofunda nossas feridas. Certa amargura em nossos corações, ao lado da descrença nos padrões da velha política. Como a política entra aqui? Ora, pelo descalabro com que a crise foi tratada por alguns governantes. Pela falta de equipamentos básicos e ineficiência dos serviços públicos, apesar do reconhecimento do heroísmo dos profissionais da saúde.

A sensação é a de que o Senhor Imponderável, que nos visitava em alguns períodos, doravante será mais frequente, o que pode nos tornar um povo mais medroso, mais pessimista. A bem da verdade, eis um contraponto: “quem venceu esse demônio invisível, terá condição de vencer outros que nos atacarem”.

Amém.
Gaudêncio Torquato



Gaudêncio Torquato

Beijo mortal

Quando Roberto Jefferson entra na parada, é o beijo da morte de qualquer presidente. Ele só não conseguiu matar Lula, mas conseguiu matar Fernando Collor e vai conseguir matar Bolsonaro
Marcos Nobre, professor da UNICAMP e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP)

Brasil caminha às cegas com Bolsonaro enquanto apoio ao Governo racha após saída de Moro

A saída bombástica do ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, abre um novo e perigoso capítulo para o Brasil e para o Governo de Jair Bolsonaro que envenena eleitores fieis, repele potenciais investidores e fortalece o discurso dos que pedem o impeachment do presidente. A bolsa de valores de São Paulo despencava quase 10 pontos porcentuais enquanto Bolsonaro perdia seu caro fiador da bandeira da luta contra a corrupção após acusações graves de que tirou Maurício Valeixo da direção da Polícia Federal, e que buscou interferir em investigações, algo que nem os arqui-inimigos de Bolsonaro haviam feito. “Imagina se durante a própria Lava Jato, a então presidente Dilma e o ex-presidente Luiz [Lula] ficassem ligando para as autoridades para obter informações?”, disse Moro, numa declaração que surpreendeu o mundo político.

Tão grave quanto a saída de Moro é a vocação persistente de Bolsonaro em disparar bombas nucleares em seu Governo, e engendrar novelos que enrolam a si próprio, enquanto o Brasil vive o pânico da pandemia do coronavírus, que matou mais de 3.000 pessoas. “Há uma aceleração de crises – [a troca de ministros da Saúde foi a mais recente], enquanto se luta com a maior de todas as já vividas nesta geração, com a pandemia do coronavírus”, observa Thiago de Aragão, cientista político da Arko Advice. “É como se um casal fosse sequestrado, e durante o sequestro a mulher resolvesse pedir o divórcio”, compara. A bolsa de apostas já começa a especular uma eventual saída do ministro Paulo Guedes na sequência, mas por ora é pura especulação.

Bolsonaro tentou contornar o terremoto Moro, apresentando-se ao lado de quase toda a equipe de ministros — incluindo Paulo Guedes —para defender-se das acusações. Mas a emenda pareceu pior que o soneto. Negou que interferisse no trabalho da PF, mas admitiu que buscava um interlocutor direto para conhecer algumas investigações. “Quero um delegado com que eu possa interagir. Porque não?”. A decepção de parte do eleitorado do presidente se cristalizou de imediato. “Bolsonaro não me representa mais, ele se desfez do único herói que o Brasil tinha”, lamentou Ulisses, administrador de Belo Horizonte, que até esta quinta era um ferrenho defensor do atual Governo. Em São Paulo, a analista financeira Debora pulou do barco assim que Moro apresentou suas justificativas para se demitir. “Eu queria o PT fora do poder de qualquer jeito por isso votei no Bolsonaro. Agora, eu acredito mais no Moro do que nele”, diz ela. Tanto Debora como Ulisses integram o grupo de eleitores que aplaudia a Lava Jato, e viu em Moro como ministro a esperança de que o cerco à corrupção seguiria firme com Bolsonaro. É esta base de apoiadores do Governo que começou a se dissolver com a saída de Sergio Moro, mais popular que o próprio presidente Jair Bolsonaro, como mostrou o instituto Atlas Político.

Moro tem 53% de imagem positiva entre os brasileiros, contra 39% de Bolsonaro, segundo o mais recente levantamento do instituto. “Dentro do discurso bolsonarista, o eixo mais resiliente sempre foi relacionado ao combate à corrupção e à criminalidade”, explica Andrei Roman, cientista político da Atlas. “Como responsável pelas principais condenações do Lava Jato e pela prisão do [ex-presidente] Lula, Moro garantiu ao Governo Bolsonaro um selo de legitimidade e autenticidade em relação a esse discurso”, completa.

Seguem firmes, porém, os eleitores radicais que apoiam qualquer decisão de Bolsonaro, e que amplificam suas falas corrosivas, um grupo que lhe dará suporte por algum tempo. A aparição do presidente ao lado dos ministros, incluindo os de patente militar, também promoveram a imagem de que o presidente não está só, e que as Forças Armadas seguem firmes com ele, embora nos bastidores existam muitos sinais de desconforto. “Ainda tem lenha pra queimar. O presidente pode assumir uma narrativa ainda mais agressiva, para consolidar um apoio de 22% dos brasileiros”, avalia Thiago de Aragão, cientista político da Arko Advice. Com essa popularidade Bolsonaro manteria uma perna de sustentação, e o blindaria da pressão de um impeachment, por exemplo. O assunto voltou à baila nesta sexta, com pressão de políticos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e entidades, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), para avaliar a saída do presidente do cargo. Já são mais de 20 pedidos de impeachment contra o presidente. Aragão acredita que é cedo para isso. Ele lembra que Dilma Rousseff tinha por volta de 8% de apoio quando foi destituída em 2016.

O ex-presidente Michel Temer (2016-218) também tinha apoio de menos de 10% nas pesquisas, mas contava com apoio do Congresso. Não por acaso o Governo passou a negociar com deputados do Centrão, reconhecidos pelo seu perfil fisiológico – vários deles sob investigação da Lava Jato, inclusive — para ter o apoio que hoje lhe falta. Bolsonaro decidiu bancar a aposta de se aliar a uma ala parlamentar que lhe daria maioria no Congresso para ganhar a queda de braço com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e garantiria governabilidade. Em troca, haveria repartição de cargos. A estratégia, porém, é movediça, na leitura de um experiente observador do comportamento do Centrão. “Há momentos em que não há condições de segurar absolutamente nada”, diz José Eduardo Cardozo, que ocupava o cargo de ministro da Justiça no governo de Dilma Rousseff. “Me recordo no processo de impeachment [em 2016], como as pessoas foram saindo do barco. A sensação é a mesma”, diz Cardozo, que defendeu Dilma nesse período.

O ex-ministro da Justiça acredita que o discurso de Moro em sua saída tem um efeito demolidor para Bolsonaro, independentemente das suas negociações. “O presidente sinaliza que quer interceptar inquéritos que tentam sair, como os das fake news [conduzido pelo Supremo Tribunal Federal, que pode atingir seu filho Carlos Bolsonaro, suspeito de espalhar notícias falsas para beneficiar o pai]”, diz ele. “Quando alguém quer obstar investigação, usando métodos não republicanos é porque tem algo a esconder”, completa ele, lembrando que da cultura de independência que foi construída a duras penas pela Polícia Federal.

O curto circuito promove mais estragos na imagem já frágil do presidente mundo afora. “Um investidor me disse: ‘Como posso vislumbrar no curto e médio prazo a expectativa de que decisões serão tomadas de modo racional e não emocional no Brasil?”, conta Aragão, lembrando que os donos do dinheiro buscam previsibilidade para fazer suas escolhas. Algo que definitivamente o Brasil perdeu há muito tempo.

Estadistas, populistas e a pandemia

No início do ano, foi publicada uma excelente biografia de Frank Ramsey, um cientista ligado à Universidade de Cambridge, que em sua curta vida de apenas 27 anos deixou contribuições marcantes nos campos da filosofia, da matemática e da teoria econômica. Na economia, uma de suas contribuições foi uma modelagem matemática que permitiu responder à pergunta: “Quanto a sociedade deve poupar para favorecer as próximas gerações?”. Quanto mais deixarmos de consumir no presente, mais investiremos elevando o produto, o consumo e o bem-estar das populações no futuro. Para responder qual é a distribuição ótima entre as gerações, os economistas contemporâneos incluem uma taxa de desconto para trazer a valor presente o consumo das gerações futuras. Taxas de desconto mais elevadas favorecem um consumo maior da geração presente, e planejadores que dão um peso elevado ao bem-estar das gerações futuras preferem taxas de desconto mais baixas. Ramsey tinha um profundo senso ético e grande apreço pelo bem-estar das próximas gerações, o que o levou a utilizar uma taxa de desconto nula, dando peso igual a todas as gerações.


Em um horizonte bem mais curto do que o de uma geração, a pandemia impõe aos governos uma escolha semelhante. A adoção do afastamento social poupa vidas à custa de uma recessão no presente, cujos efeitos são parcialmente atenuados por medidas que impeçam a quebra de empresas e compensem a queda de renda dos menos favorecidos, em troca de um crescimento mais vigoroso adiante. No outro extremo, o afastamento social é abolido na esperança de evitar uma recessão no presente, porém à custa de um enorme número de mortes e de menor crescimento futuro. Se o governante responsável pela decisão tiver respeito pelo futuro do país, decidirá como se tivesse uma taxa de desconto baixa ou mesmo nula, respeitando as recomendações dos cientistas e optando por um isolamento social mais rígido. Mas se o objetivo for manter sua popularidade elevada no curto prazo para favorecer sua reeleição, atirará às urtigas o futuro do país usando uma taxa de desconto muito alta.

Sempre acreditei que os estadistas têm taxas de desconto bem menores do que populistas, e minha convicção cresceu ainda mais ao ouvir o discurso de Boris Johnson quando deixou o hospital curado do coronavírus. Tendo inicialmente manifestado dúvidas com relação à eficácia do afastamento social e sido criticado fortemente por esse erro, não hesitou em curvar-se humildemente às evidências dos cientistas do Imperial College of London, voltando atrás em sua posição e decretando a continuidade do afastamento social em todo o território inglês. Como um excelente biógrafo de Churchill, não pode ser surpresa que tenha feito o discurso típico de um estadista, conclamando o povo à união na guerra contra o vírus. Boris Johnson viu a cara da morte e reduziu sua taxa de desconto para um nível muito mais baixo do que a de populistas de direita, dos quais Trump é um exemplo que é imitado por Bolsonaro.

Em um momento difícil como este, é natural que no Brasil haja divergências. Empresários que construíram suas empresas com o duro trabalho de décadas temem perdê-las ou a duras penas ter de reconstruí-las. Pessoas humildes em cujas casas pobres vivem inúmeros familiares perderam sua renda, passando a viver de transferências do governo. Nos dois casos, a tentação é atribuir a culpa ao distanciamento social e, quando cai o número de mortes, ambos lutam para que este acabe, sem se dar conta que a queda do número de mortes é a consequência do afastamento ocorrido anteriormente. A experiência do Japão e de Cingapura mostraram que é um erro abandonar precocemente a quarentena. Caberia ao governo explicar à sociedade a inevitabilidade da quarentena, trabalhando em um protocolo de saída que evite um aumento do contágio, e não se acovardando em tomar as medidas compensatórias que reduzam o custo durante o período de isolamento.

Mas não temos na Presidência um estadista, e sim um populista que, obcecado pelo objetivo de reeleger-se, tem uma taxa de desconto muito elevada, desprezando as consequências de seus atos sobre o futuro do País. Em vez de seguir o exemplo de Boris Johnson, reconhecendo humildemente seus erros e buscando unir os cidadãos, a intolerância e o radicalismo de Bolsonaro o levam a agredir todos os que divergem de suas ideias. Em vez de unir o País, ele o divide, com consequências muito negativas para o presente e para o futuro.

Viver na incerteza

Um vírus pôs a humanidade inteira em carne viva. O medo mora conosco, tomou o lugar do abraço. Um mundo imprevisível emergirá dessa tragédia, e nossa única certeza é a incerteza.

Hoje — e que dia é hoje, alguém sabe? — os referenciais que balizavam o cotidiano, a maneira como habitávamos o tempo e o espaço, se apagaram. A pandemia reverteu a flecha do tempo. A máquina do mundo parou. Petroleiros fantasmas estão parados no mar, cheios de um líquido que já não vale nada.
A casa é a fronteira da sobrevivência e uma exigência moral. Tenta-se manter uma rotina, memória esfumada de algo vivido em outra vida. O trauma deixará marcas. Esperemos que o confinamento físico tenha o dom de abrir os espíritos a mais humanidade.


Psicopatas ocupam a cena com sua covarde onipotência, acinte aos milhares de brasileiros doentes, quando liderança e competência são indispensáveis para bloquear o alastramento do mal. Com a palavra as instituições e os Poderes da democracia que juraram proteger a Constituição. Cabe-lhes impedir que continuem os inadmissíveis desvarios que ameaçam os vivos e desrespeitam os mortos.

A pandemia é uma desgraça sem precedentes. Contra ela os chefes de Estado que se respeitam tentam unir seus povos, multiplicar todos os recursos disponíveis. Convocam seus melhores quadros, mobilizando a inteligência coletiva de suas sociedades para socorrer os doentes. Todos, menos o do Brasil, imperdoável, que estressa o país nos dividindo, fabricando crises, cego aos que vão morrer sem socorro.

A hora é gravíssima. Não há espaço para mais nada que não seja dar o melhor de cada um de nós. Exemplar tem sido o trabalho heroico dos médicos e agentes de saúde e dos voluntários que se mobilizam para amparar os muitos que precisam de ajuda. Só isso deve nos preocupar e ocupar.
A pandemia tornou obsoletas questões que pareciam essenciais. Mudou as perguntas. E impôs a incerteza como regra do mundo. É com ela, e é doloroso, que doravante teremos que viver. Na travessia e no mundo de amanhã.

domingo, 26 de abril de 2020

Brasil com nova bandeira


Um governo de mentira

Sem o paladino Sérgio Moro e em negociação avançada com os velhacos de sempre, gente do naipe de Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson, o presidente Jair Bolsonaro perdeu sua força-motriz: o combate à corrupção e à “velha política” do toma-lá-dá-cá. Resta a ele insistir na mentira, instrumento sistêmico que adotou para governar.

O pronunciamento anti-Moro que fez cercado por ministros - alguns deles sem conseguir esconder o desconforto – é prova cabal disso. Bolsonaro falou demais, cuspiu besteiras, não explicou o que precisava explicar. E mentiu. Insistentemente.

Disse, sem lastro algum, que no início do governo tinha sido acusado de dificultar a Operação Lava-Jato. Afirmou estar lutando contra o establishment enquanto bate bola com o baixo clero do qual já fez parte. Que jamais deu carta branca a Moro – há entrevistas gravadas em voz e vídeo com a afirmação –, e que nunca se meteu em qualquer investigação. De novo, mentira pura.


Além de reclamar que não conseguia interagir com o diretor da Polícia Federal, confessou o pedido feito para que a PF interrogasse um ex-militar de Mossoró, dentro de um processo envolvendo seu filho Renan, que ele chama de 04. Intervenção na veia.

Embora tenha feito cara de indignado ao dizer que Moro o chamara de mentiroso, para Bolsonaro mentir é prática, método. Portanto, nem mesmo é novidade.

Já disse que a “Amazônia é úmida e não pega fogo”, que ONGs e Leonardo DiCaprio estavam por trás das queimadas, que “não existe fome no Brasil”. Que estava em Brasília quando foi multado por pescar na Estação Ecológica de Tamoios, em Angra, mesmo com fotos provando o contrário.

Adora bater no peito para dizer que não há denúncias de corrupção em seu governo, mas acoberta os ministros do Turismo e do Meio Ambiente, ambos enrolados com a Justiça. E, claro, o filho 01, suspeito por rachadinhas e envolvimento com milicianos.

Mente tanto que é o primeiro presidente na história a mentir contra ele próprio ao afirmar que as eleições que o levaram ao poder foram fraudadas. Diz que teria provas, nunca apresentadas, apontando ter sido vencedor no primeiro turno.

Listar mentiras de Bolsonaro é quase tão infinito quanto contar grãos de areia. Levantamento do aosfatos.org aponta 926 declarações falsas ou distorcidas do presidente em 479 dias. Quase duas por dia.

Diante da pandemia, se negou a apresentar os resultados de seus testes que, disse ele, teriam sido negativos, e multiplicou seu estoque de mentiras.

Em rede de rádio e TV tratou o novo coronavírus como gripezinha ou resfriadinho. Antes, afirmara à claque diante ao Palácio da Alvorada que a Covid-19, hoje com quase 4 mil mortos no Brasil, seria menos grave do que a H1N1, que, no pior ano, 2009, registrou 820 óbitos. Apropriou-se da concessão dos R$ 600 para informais, quando tinha proposto apenas R$ 200, projeto reformado pela Câmara dos Deputados. Defendeu cegamente a controversa cloroquina como medicamento salvador, e garantiu que as mortes da Itália eram “invenção da mídia”.

Na sexta-feira, 24, o presidente falou por quase 50 minutos. Nem no improviso nem na leitura conseguiu explicar a urgência de trocar o diretor da Polícia Federal em meio à gravidade da pandemia. Não poderá, portanto, reclamar das análises de que sua pretensão é proteger seu clã de investigações em curso.

Criticou Moro por querer zelar por sua biografia, enquanto ele, Bolsonaro, teria “um Brasil a zelar”. Bela frase de efeito se o presidente enxergasse além de seu umbigo e de suas pretensões eleitorais. Se demonstrasse alguma preocupação pela enfermidade que devasta o país, se fosse capaz de fazer um único gesto aos profissionais de saúde, jamais citados por ele. Se falasse algumas poucas palavras de apoio aos familiares de doentes e de mortos.

A virulência da crise deflagrada com a saída de Moro está longe de chegar ao pico e tem chances remotíssimas de reduzir a curva de contágio. Ao contrário. Para manter-se de pé, o presidente decidiu contaminar ainda mais o seu governo e dar maior relevância à mentira. Expurgado o ex-juiz, pedra no sapato da bandidagem oficial, Bolsonaro repetirá a galhofa de que não negocia nada enquanto reparte cargos entre a banda podre da política.

Não bastasse a tendência de recrudescimento da Covid-19, tudo indica que também na política o pior ainda está por vir.
Mary Zaidan

Já vimos este filme!

 Há na foto, em vestes civis, cinco generais (da ativa ou da reserva): quatro ministros e o vice-presidente Hamilton Mourão. É o retrato para a história de como o Exército atolou-se de novo na política, após 35 anos de ilibada atuação institucional.
 
Chancela um ex-militar que planejava explodir bombas para protestar contra baixos soldos. E chancela um presidente que ataca a democracia e a ConstituiçãoLuiz Fernando Vianna, "O jogo dos 7 erros na história imagem do pronunciamento"

Presença das Forças Armadas junto aos Bolsonaros faz mal à instituição

Há um ano e 19 dias, o general e já vice-presidente Hamilton Mourão fazia um comentário muito significativo em dois pontos: “Se o governo falhar, a conta irá para as Forças Armadas”. Aí estava implícito o reconhecimento da índole militarizante, um retorno sem armas ostensivas, sob o rótulo de governo Bolsonaro, o Cavalão de Troia. E ali estava explicitado, no destinatário da possível conta, quem teria a responsabilidade, de fato, pelo que seria o novo governo.

Justifica-se então a pergunta: o que mais, e mais grave, ainda precisará ocorrer para que os representantes das Forças Armadas no governo as desvinculem, afinal, da responsabilidade pela catástrofe moral e governamental que arrasa este país?


A presença desses representantes junto aos Bolsonaro, sua trupe e suas relações cavernosas faz mal às Forças Armadas como instituição, deforma-as outra vez e as desmoraliza. E faz mal ao país com a aceitação e o apoio, aparentes faces de concordância, aos desvarios, ligações milicianas, mentiras, fraudes, traições, incidentes internacionais, destruição de recursos nacionais, incentivos à violência generalizada, medidas antissociais, crimes de responsabilidade e crimes contra a humanidade pelos quais Bolsonaro deveria responder. De preferência com algemas, porque é perigoso.

Os militares precisam fazer um exame honesto e profundo de sua relação com o país. Sem isso, sua caracterização militar será sempre um rascunho e sua autoimagem sempre ilusória.

Por décadas, foi este o bordão dos militares em sua claudicante responsabilidade institucional: “Os militares estão unidos e coesos, e alheios à política”. Mas estiveram sempre divididos. Por motivos políticos. O bordão no pós-ditadura, hoje em dia muito repetido, diz que “os militares têm disciplina e hierarquia”, uma comparação desqualificante do mundo civil. Quanto aos civis brasileiros, nada a retocar. Mas, historicamente, nenhum outro segmento feriu tanto a disciplina, e com tamanha gravidade, quanto os militares.

Com escassos e pequenos intervalos, desde a articulação para derrubar a monarquia sucederam-se as conspirações, tentativas de golpe, os golpes consumados, duas ditaduras, sem que a presença civil lhes mudasse a natureza, de imposição pelas armas. Não é uma história paralela. É a própria, a verdadeira, com seu roteiro de hostilidades, esperanças e frustrações, sobre o chão infértil para o civismo.

O mesmo general e vice Hamilton Mourão foi o primeiro (e único, quando escrevo) dos militares do governo a expor um comentário sobre as acusações (iniciais) de Sergio Moro a Bolsonaro: “Perder Moro não é bom, mas vida que segue”. Segue para onde?

Nem é preciso mencionar outras atitudes de Bolsonaro: basta a designação do delegado Alexandre Ramagem para dirigir a Polícia Federal. É a confirmação do propósito de Bolsonaro de controlar o que deveria ser a investigação de crimes políticos orientada pelo Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro não retém nem o cinismo, este verniz da sua falta de escrúpulos, na escolha de notório aliado dos seus filhos postos sob inquéritos criminais.

Também esse crime de responsabilidade, esse banditismo intrometido nas instituições constitucionais, “segue” aceito, e portanto apoiado, pelos que no governo se confundem com as Forças Armadas? O cerceamento à ação do Supremo significa o fim do regime de Constituição Democrática.

Não é preciso imaginar o que, afinal, levaria à desvinculação das Forças Armadas com a versão brasileira de Idi Amim Dada. Já chegamos ao máximo. Que, no entanto, segue.

Campanha eleitoral sobre cadáveres

Foi uma quinta-feira tenebrosa. Mais 407 mortes, um recorde sinistro, foram comunicadas oficialmente. Em Manaus, ambulâncias corriam de hospital em hospital com doentes em busca de uma vaga. Em São Paulo, a Prefeitura liberou enterros à noite e anunciou a abertura emergencial de 13 mil sepulturas. Num site jornalístico, um médico descrevia a experiência de ser a última pessoa vista por um moribundo, sem a presença de familiares. Enquanto isso, no Palácio do Planalto, o presidente cuidava das prioridades mais altas da República Bolsonariana, incluída a exoneração do chefe da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo. Naquela altura, outra ação de grande importância na agenda palaciana havia aparecido no Diário Oficial. Os brasileiros poderão, graças a um decreto redentor, comprar até 550 unidades de munição por mês. Portaria anterior, anulada pelo mesmo ato, fixava o limite de 600 unidades por ano.

A demissão do ministro da Justiça, Sergio Moro, consumou-se na sexta-feira. Ele havia resistido à exoneração do diretor-geral da Polícia Federal. Havia tentado até negociar a nomeação de um substituto, segundo afirmou, para evitar um desentendimento maior num momento de pandemia. Não deu certo. Não se sabe se ele usou a palavra pandemia na conversa com o presidente. De toda forma, é difícil dizer se isso faria alguma diferença. A segurança e a vida dos brasileiros, como já sabia qualquer pessoa razoavelmente informada, estão fora das prioridades presidenciais.


Segurança, vida e bem-estar sempre estiveram longe do primeiro plano desde o começo do mandato. Há um ano, o desemprego superava 12% e os desempregados eram mais de 12,5 milhões. Mas no alto da agenda estavam as armas de fogo, apresentadas como itens fundamentais para a tranquilidade e o futuro dos brasileiros.

Revólveres, pistolas e fuzis continuam tratados como questões de alta importância, enquanto governos estaduais e municipais correm atrás de respiradores, improvisam hospitais de campanha e - apesar desse empenho - têm de providenciar câmaras frigoríficas para abrigar vítimas da pandemia. Armas, no entanto, nem são agora a mais alta prioridade presidencial. O assim chamado chefe de governo - governante seria uma palavra muito estranha - vem cuidando principalmente de seus interesses políticos pessoais e da proteção dos valores familiares, aqui entendidos como os de sua família.

Cuidar da reeleição tem sido a atividade mais notória do presidente. Essa prioridade é evidente desde o ano passado, mas o jogo tem-se tornado mais intenso. Essa preocupação se torna quase chocante quando o tratamento da pandemia é subordinado às eleições de 2022.

Candidatos potenciais, como os governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro, são tratados como rivais e até como inimigos. A redução do isolamento e a rápida liberação das atividades econômicas, bandeiras do presidente e de seus aliados, escancaram o interesse eleitoral. São orientações contrárias àquelas seguidas em vários Estados, incluído São Paulo, e envolvem uma aposta em ganhos de popularidade.

A demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde foi parte desse jogo. Além de seguir, no essencial, as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), aceitas também pelo governo paulista, o ministro havia se tornado muito mais popular que o presidente. Não foi, no entanto, apenas um caso de ciúme. Um ministro disposto a dar prioridade à vida, atendendo mais à ciência do que aos interesses de seu chefe, podia ser um estorvo.

A demissão de Mandetta, a exoneração de Maurício Valeixo e a saída de Moro são fatos estreitamente articulados. Desde o ano passado o presidente procura controlar, ou enfraquecer, os principais organismos de investigação.

Seu interesse podia estar vinculado, inicialmente, à proteção de um filho suspeito de irregularidades na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A prática da rachadinha havia sido evidenciada por declarações de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj. O assunto continua quente. Mas os problemas ficaram mais complicados com as investigações sobre fake news e sobre a organização da passeata golpista realizada em Brasília no dia 19, um domingo.

Por que o deputado Eduardo Bolsonaro recorreu ao Supremo Tribunal Federal contra a prorrogação da CPI das Fake News? Além disso, quem ignora a atuação do gabinete do ódio? Mas há outros motivos de preocupação para o presidente. Seu nome, em princípio, está fora da investigação sobre a passeata golpista, mas sua presença é inegável e o inquérito pode produzir efeitos secundários.

Percebido o erro, o presidente declarou amor às instituições e tentou maquiar os fatos. O objetivo da manifestação, disse ele a um grupo, foi a defesa da volta ao trabalho. Mesmo com a pandemia? A pandemia, admitiu, ainda ameaça as pessoas. “Lamentamos as mortes”, disse. E acrescentou: “Enfim, é a vida, né? Tem gente que vai morrer”. Em outra ocasião ele havia dito em sua língua peculiar: “Haverão mortes (...) Paciência”. Bolsonaro é isso mesmo.

Pensamento do Dia


Moro sai: tudo pode piorar

“Nada é tão ruim que não possa piorar”. Estamos, irremediavelmente, diante da força e do impacto da verdade desta frase de sábio autor desconhecido: O País já tremera na base com o embate irracionalmente feroz que redundou na queda do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, abrindo espaço para Nelson Teich, novo chefe da pasta, e o general Eduardo Pazzuello, seu braço direito, como secretário executivo – com novas estratégias “para vencer a pandemia sem matar a economia”. Episódio grave e constrangedor, e de conseqüências imprevisíveis, é verdade. No entanto, nem de perto comparável à implosão demolidora dos alicerces de imagem e sustentação política e institucional do governo do presidente Jair Bolsonaro, causada pela fala recheada de revelações e denúncias do ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, ao deixar a pasta.


Ainda resta muita poeira e fumaça no ar em razão da explosão de nitroglicerina pura nos pilares do governo bolsonarista. Mas dá para avaliar e reconhecer desde já, ao menos do ponto de vista jornalístico: O ex-ministro da Justiça e Segurança ao sair da gestão – onde sempre foi o mais bem avaliado integrante do primeiro escalão nas pesquisas de opinião pública – fez um dos pronunciamentos mais duros e reveladores dos intestinos da política e do poder na história moderna da Nação. Moro sai maior – bem maior do que entrou.E deixa menor, bem menor – quase em cacarecos – o governo onde passou menos de um ano e meio. Mais: O juiz condutor da L ava Jato deixa o governo acusando, pública e explicitamente, o mandatário do Palácio do Planalto de interferir politicamente no trabalho da Polícia Federal. O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, ontem mesmo, anunciou que todas as denúncias de Moro em sua saída serão apuradas. A conferir.

Na espera dos próximos fatos, cabe pausa para contextualizar o tumulto de domingo, 19 de abril, comemorativo do Dia Nacional do Exército. Afinal, muito da implosão desta sexta-feira,24, para não esquecer, parece decorrer da ruidosa manifestação popular pedindo o relaxamento das normas de isolamento, no combate à pandemia, onde aconteceu de tudo, ou quase: do agressivo discurso do presidente, a gritos de “prisão” e “cadeia” para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Houve até pedidos de novo AI-5 e intervenção militar..

A reação foi imediata. Ruidosa também, cheia de contradições e jeitinhos: de Maia a Alcolumbre (Congresso), de Dias Toffoli a Gilmar Mendes (STF); dos intelectuais, celebridades “e suspeitos de praxe”, como no filme “Casablanca”.

Com panos quentes, no meio do fogo cruzado, apareceu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que alerta no Twitter: “Não é bom acirrar crises institucionais. Um pouco de contenção de lado a lado ajuda. Não creio em conspirações para tirar poder do Presidente. Ele e alguns militares podem crer. Melhor não dar pretexto para o pior; Lembremos de 68”. No fim da semana o desfecho mais inesperado e devastados: a saída do ministro Sergio Moto. Desce o pano no teatro de horrores e suspense nacional.. Até o próximo ato.

Voltar ao normal? Só com estas inovações, diz Bill Gates

Todos se lembraram dele logo que a Organização Mundial de Saúde decretou esta pandemia de coronavírus. Bill Gates, cofundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do mundo, tinha já falado de uma ameaça semelhança numa Ted Talk, em 2015. Nela fazia uma descrição detalhada do que poderia ser uma propagação rápida de uma infeção viral por todo o mundo. Num primeiro momento, Gates ainda lamentou não ter sido levado a sério e que ninguém se tenha efetivamente preparado para um caso destes. Daí que tenha voltado a avisar: “No futuro pode surgir uma epidemia pior do que esta.” Mas aí, confia, o mundo já estará mais prevenido – como quem diz, a humanidade vencerá da próxima vez, mas só quando a maioria da população for vacinada. E pôs logo a mão na massa, ao doar, através da fundação criada com a mulher Melinda, investindo milhões para ajudar ao seu desenvolvimento.

Agora, perante a esperança crescente de que, dentro de pouco tempo, a coisas voltarão a ser como antes, Gates replica: Infelizmente isso não vai acontecer.” Nas notas que divulga regularmente no seu blog, citado pelo The Washington Post, Gates começa por considerar perfeitamente compreensível que a conversa nacional (mundial…) esteja a condensar-se numa única pergunta: “Quando podemos voltar ao normal?”. Mas, sublinha, a paralisação causou uma dor incomensurável em empregos perdidos, pessoas isoladas e agravando a desigualdade. “As pessoas estão prontas para seguir em frente.”

Só que, segue o filantropo num registo muito próprio, por mais que tenhamos a vontade, não temos o caminho – ainda não. “Antes que os Estados Unidos e outros países possam voltar aos negócios e à vida como de costume, precisaremos de novas ferramentas inovadoras que nos ajudem a detectar, tratar e prevenir a Covid-19″, lê-se naquela publicação.

E Gates passa a explicar. “Começa com o teste. Não podemos derrotar um inimigo se não soubermos onde ele está. Para reabrir a economia, precisamos testar pessoas suficientes para detetar rapidamente pontos de acesso emergentes e intervir cedo. Não queremos esperar até que os hospitais comecem a encher e mais pessoas morram.”
O que nos pode dar a inovação

Mas há mais: “A inovação pode ajudar-nos também a melhorar os números. Os atuais testes de coronavírus exigem que os profissionais de saúde realizem zaragatoas nasais, o que significa que precisam trocar de equipamento de proteção antes de cada teste. Mas a nossa fundação apoiou também pesquisas a fundamentar que cada um possa fazer a sua autoanálise com cotonetes estéreis próprios para a coleta de exames microbiológicos. Trata-se de uma abordagem bem mais rápida e segura – pois é feita em casa e não exige que as pessoas corram riscos em contactos adicionais.”
Cada mês a mais que precisarmos para produzir uma vacina é mais um mês em que a economia não pode voltar completamente ao normal

Explica Gates que este teste de diagnóstico agora em desenvolvimento funcionaria como um teste de gravidez em casa. É só esfregar o nariz, mas, em vez de enviar o tal cotonete para um centro de análise, só tem de o colocar num líquido. Depois, despeja-se esse líquido numa tira de papel. Se esta mudar de cor é porque o vírus está presente. E, o melhor de tudo, um teste destes pode estar disponível em apenas alguns meses.

Não é, ainda assim, o único avanço necessário em termos de testes. Faltam ainda, segue Gates na sua análise, padrões consistentes sobre quem pode – e deve! – ser testado. “Se não testarmos as pessoas certas (trabalhadores de áreas essenciais, pessoas sintomáticas e outras que entraram em contato com alguém que deu positivo) estaremos a desperdiçar um recurso precioso”.

Há também uma outra área em que a inovação pode fazer a diferença. Diz o magnata que faz falta ainda um rastreio correto ao quem esteve em contacto com alguém infetado. Por enquanto, sublinha, bem podemos continuar a questionar todos os que testarem positivos e usar um banco de dados para acompanhamento. Mas, insiste, é uma abordagem longe de ser perfeita. “Ficamos dependentes de a pessoa infetada relatar os seus contactos com precisão e exige muitos funcionários para acompanhar aquela rede.” Neste caso, reforça Gates, seria muito melhor conseguir uma ampla e voluntária de ferramentas digitais – recorrendo a apps que nos ajudariam a recordar todos os locais onde estivemos e partilhar essa informação com quem estiver a acompanhar todos os nossos contactos.
Esta é, naturalmente, a questão maior. Quem tem um resultado positivo o que quer saber, na hora, são as opções de tratamento. E isso, sublinha Bill Gates, ainda não há. Para já, reconhece, e apesar das suspeitas, está a ser dada alguma atenção à hidroxicloroquina, que funciona alterando a maneira como o corpo humano reage a um vírus. “A nossa fundação está a financiar um ensaio clínico que indicará se funciona para a Covid-19, embora pareça já claro que os seus benefícios serão modestos, na melhor das hipóteses.”

Mas há vários candidatos mais promissores no horizonte, segue um Gates bem mais otimista. “Um envolve a coleta de sangue de pacientes que se recuperaram da Covid-19, dando o seu plasma (e os anticorpos que ele contém) a pessoas doentes. Várias grandes empresas estão trabalhando juntas para verificar se isso é bem-sucedido.”

O outro tipo de candidato a medicamento, lê-se na prosa do filantropo, envolve a identificação dos anticorpos que são mais eficazes contra o novo coronavírus e o seu fabrico em laboratório. “Mas ainda não está claro quantas doses podem ser produzidas; depende de quanto material de anticorpo é necessário por dose. Em 2021, os fabricantes tanto poderão ter de fazer 100 mil tratamentos como muitos milhões.”

Perspetivando o futuro, Gates salienta: “se daqui a um ano pudermos ir a grandes eventos públicos – como jogos ou espetáculos em estádios – é porque a ciência descobriu um tratamento eficaz que faça com que todos se sintam seguros para sair à rua novamente. “Infelizmente, para já é possível que se garanta um bom tratamento, mas não um que garanta que um doente recuperará sem reviravoltas”.

Daí que, continua na sua análise, o grande investimento deve ser feito no desenvolvimento de uma vacina. “Cada mês a mais que precisarmos para produzir uma vacina é mais um mês em que a economia não pode voltar completamente ao normal”, assinala. Daí que, revela, a abordagem que mais o está a entusiasmar é a conhecida como vacina de RNA – tal como a primeira que está a iniciar testes em humanos.

Ao contrário de uma normal vacina contra a gripe ( que contém fragmentos do vírus influenza para que o sistema imunitário possa aprender a atacá-lo), uma vacina de RNA fornece ao corpo o código genético necessário para produzir fragmentos virais por conta própria. Assim, explica, quando o sistema imunitário se depara com esses fragmentos aprende como atacá-los. Essencialmente, resume, uma vacina de RNA transforma o corpo numa unidade própria de fabrico de vacinas.

A rematar, Gates recorda ainda que há um outro acordo muito importante. “Mesmo antes de haver uma vacina segura e eficaz, os governos precisam saber como a distribuir”. Ou seja, os países que financiam, aqueles que acolhem os ensaios clínicos e os mais atingidos vão naturalmente argumentar que devem ter prioridade. “Idealmente, deveria haver um acordo global sobre quem deveria receber a vacina primeiro. Mas, considerando quantos interesses concorrentes, é improvável que isso aconteça. Quem resolver esse problema de forma equitativa terá feito um grande avanço.”

É por tudo isto que Bill Gates considera que esta pandemia – a primeira da modernidade – definirá a nossa era. É que, justifica, há uma grande diferença entre uma guerra mundial e uma pandemia: “toda a humanidade pode trabalhar em conjunto para aprender sobre a doença e desenvolver a capacidade de combatê-la. Com as ferramentas certas em mãos e a implementação inteligente, poderemos declarar o fim desta pandemia – e voltar nossa atenção para como prevenir e conter a próxima.”

OCDE: 'Brasil terá de explicar graves acusações que levaram à renúncia de Moro'

"O Brasil vai ter que explicar o que fez o ministro da Justiça renunciar acusando o presidente de interferência no trabalho da polícia", afirmou Drago Kos, chefe do grupo de trabalho anticorrupção da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Em entrevista à BBC News Brasil por telefone, ele qualificou como "extremamente preocupante" a demissão de Sergio Moro, ex-juiz da Operação Lava Jato. Moro pediu demissão durante um pronunciamento na manhã desta sexta, dia 24, em que acusou o presidente Jair Bolsonaro de tentar interferir politicamente no trabalho da Polícia Federal.

De acordo com Moro, Bolsonaro queria pessoas com quem tivesse relação pessoal em cargos de comando na corporação e esperava receber informação de investigações em andamento. Em um pronunciamento no fim da tarde dessa sexta, Bolsonaro negou que tenha tentado influenciar o trabalho da Polícia Federal.

"Sergio Moro é um símbolo no combate à corrupção, ele é um lutador, conhecido por fazer um trabalho em situações adversas. Isso quer dizer que deve ter havido uma razão muito forte, muito ruim, para que ele tenha chegado à conclusão de que não tinha mais condições de continuar no governo", afirmou Kos, que comanda a área de combate à corrupção no órgão desde 2014, mesmo ano em que a Operação Lava Jato teve início no Brasil. Ele é também membro do Conselho Consultivo Internacional Anticorrupção (IACAB).

Kos opina que, apesar de eventuais excessos que possam ter sido cometidos durante o processo de investigação e julgamento da Lava Jato, nenhum deles anula a qualidade do trabalho desenvolvido por procuradores e juízes que desbarataram um grande escândalo de corrupção envolvendo partidos políticos, empreiteiras e a Petrobras.

"O trabalho de Moro iniciou uma bola de neve que se tornou tão grande, e ele provou que é possível investigar e punir corrupção mesmo em situações muito difíceis, como as que temos na América Latina", diz o dirigente da OCDE.
'Condutas criminosas do presidente'

Desde o início do governo Jair Bolsonaro, o Brasil passou a ter como um de seus principais objetivos na política internacional a obtenção de um assento na OCDE. Para tanto, negociou até mesmo o endosso dessa candidatura junto aos Estados Unidos, fazendo uma série de concessões ao governo Trump para obtê-la. O apoio americano ao Brasil veio em janeiro.

Mas, para ser aceito no grupo dos países desenvolvidos, o país precisa comunicar seus avanços em temas como saúde, educação e combate à corrupção. Por isso, o Brasil tem mandado relatórios periódicos sobre avanços e retrocessos nessa área. Kos e sua equipe também estiveram no Brasil em novembro, para checar in loco a situação.

"Ministros vão e vem, isso não é um problema para nós. Mas quando o ministro da Justiça faz acusações de interferência grave em seu trabalho de combate à corrupção, isso é sério e isso nos interessa. O Brasil vai ter que explicar o que está acontecendo", afirma Kos, cuja próxima reunião com representantes brasileiros acontecerá em junho, remotamente, por causa da epidemia de Covid-19.

Segundo ele, as afirmações de Moro não podem cair no vazio e devem ser investigadas. Pela Constituição Brasileira, o presidente só pode ser investigado com autorização do Supremo Tribunal Federal. Caso a investigação, conduzida pela Procuradoria Geral da República, se torne uma denúncia, o Congresso terá que aceitá-la para se inicie um processo de impeachment. O procurador geral da República, Augusto Aras, já pediu autorização ao STF para investigar Bolsonaro.

"Eu espero que, quando o Ministro da Justiça renuncia acusando o presidente de condutas tão graves, haja alguém no Brasil que vai investigar as acusações do juiz Moro. E se forem todas verdadeiras, o presidente deve responder por condutas criminosas".

Para Kos, a saída de Moro pode piorar a situação de instabilidade política no Brasil não apenas na questão do combate à corrupção. Ele qualificou de "hesitante" as medidas do governo federal na luta contra a epidemia de coronavírus. O país já possui mais de 50 mil casos da doença, com mais de 3 mil mortes e, na semana passada, Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

"Acredito que isso trará consequências muito ruins para o Brasil em geral, e espero que não fragilize ainda mais o país em meio a essa pandemia. Espero que a situação não fique pior do que já está. Estou muito preocupado".

Coveiro se enterra

É hora de falar. Pr está cavando sua fossa. Que renuncie antes de ser renunciado. Poupe-nos de, além do coronavírus, termos um longo processo de impeachment. Que assuma logo o vice para voltarmos ao foco: a saúde e o emprego. Menos instabilidade, mais ação pelo Brasil
Fernando Henrique Cardoso

Bolsonaro fica nu ao se despir das três bandeiras que o levaram ao poder

O presidente de extrema direita Jair Bolsonaro manteve ontem um duelo histórico com seu ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, que lhe fez graves acusações de querer interferir na Polícia Federal para ficar a par de investigações de corrupção sobre sua família.

Ainda é cedo para saber quais serão as consequências jurídicas e legais sobre tais acusações, mas o que ficou claro é que Bolsonaro vai ficando nu ao rasgar durante seu mandato as três grandes bandeiras com as quais se cobriu durante a campanha e o levaram à vitória.



Era a luta dura contra a corrupção política que naquela época envergonhava o país e que o candidato à Presidência jurou combater. Foi assim que aceitou que o paladino naquele momento de luta contra a corrupção, o à época juiz da Lava Jato, Sergio Moro, entrasse em seu Governo como um superministro da Justiça. Foi seu primeiro gol.

Ele foi perdendo essa bandeira à medida em que foram aparecendo possíveis escândalos de corrupção dentro de sua própria família. Hoje, Bolsonaro, com sua Presidência acossada, está se refugiando até mesmo nos velhos deputados que também estão envolvidos em escândalos de corrupção para que possam salvá-lo de um possível impeachment no Congresso. E acaba de perder sua melhor espada, o ministro da Justiça, Moro, que decidiu deixar o Governo e lançar contra ele acusações tão graves que serão agora analisadas pelo Supremo e podem acabar forçando-o a renunciar.

A segunda bandeira era a de acabar no Brasil com a chamada velha política que governava fazendo acordos pouco republicanos com os deputados oferecendo-lhes cargos e benefícios para conseguir aprovar os projetos do Governo.

Bolsonaro havia jurado acabar em seu mandato com aquele velho estilo de governo para governar “escutando mais o povo” do que os deputados e senadores.

Tal bandeira, que lhe rendeu muitos votos nas eleições até mesmo de brasileiros que não gostavam de seu aspecto militar totalitário, mas que estavam aborrecidos com as tais maneiras de governar de costas às pessoas, foi ao chão. E está tentando formar uma maioria que nunca teve no Congresso e sem a qual viu que era impossível governar. E o está fazendo com os métodos da mais rançosa velha política.

Resta a ele, prestes a cair, a última bandeira, a de realizar uma política neoliberal, de menos Brasília e mais Brasil, menos Estado e mais capital privado. Para essa bandeira escolheu o economista da Escola de Chicago, o superliberal Paulo Guedes. Uma bandeira que pretendia reverter a desastrosa política econômica dos governos de Dilma Rousseff, que deixou 14 milhões de trabalhadores na rua.

Essa bandeira neoliberal também já está praticamente murcha e a imprensa fala abertamente que após a saída do popular ministro Moro, já estaria sendo preparada a saída da estrela econômica Guedes, que teria perdido a confiança do Presidente que pretende reverter a política econômica para dar lugar a um populismo que possa ajudá-lo na reeleição.

Ontem foi significativo que durante seu discurso para responder às acusações de Moro, durante o qual esteve cercado por todos os outros ministros, o único sem terno e gravata, de camisa e com a máscara contra o coronavírus, tenha sido justamente o ministro da Economia. Guedes com a máscara mostrava seu contraponto ao Presidente, que insiste em minimizar a epidemia e continua abraçando as pessoas nas ruas e pedindo que tudo volte à vida normal enquanto o número de mortos já se multiplica em maior proporção do que a Espanha.

Despojado das três bandeiras que lhe deram a vitória, o Presidente, cujo Governo faz água por todos os lados, aparece a cada momento mais nu e sozinho. Restam a ele os ministros generais do Exército cuja reação diante das graves acusações lançadas por Moro, ninguém ainda sabe se decidirão abrigar o Presidente nu, ou se farão algum malabarismo para cobrir sua nudez com seu voto de confiança.

Os próximos dias serão decisivos para saber se, mais uma vez, a Presidência da República deste país cairá nas mãos do vice-presidente eleito com ele nas urnas que no Brasil, hoje, é o general Mourão. A última palavra agora será do Congresso e do Supremo, as duas instituições que podem colocar em andamento o impeachment de um Presidente da República.

Um momento que para o Brasil não poderia ser mais crítico, já que o coronavírus, além de a cada dia levar mais vidas, está produzindo uma grave crise econômica com milhões de brasileiros que sem poder trabalhar voltam aos anos terríveis da fome e da miséria.