sábado, 12 de outubro de 2019

Uma alma atormentada!

Sente-se cercado de inimigos. Diz que tem inimigos no exterior e aqui, e que os locais são os piores. É por isso que desconfia de todo mundo – da ex-mulher a parentes complicados da mulher atual.

Suporta um emprego que jamais acreditou que poderia ser seu, que jamais quis e que só disputou para ajudar os filhos a se elegerem. Seu sonho era aposentar-se e ir curtir o resto da vida.

É obrigado todos os dias, inclusive nos fins de semana, a decidir sobre assuntos que pouco entende ou que ignora por completo. Que martírio! E ainda zombam da sua falta de conhecimentos.



Nunca gostou de ler. Gostava de palavras cruzadas. Orgulha-se de ter criado algumas e de tê-las visto publicadas. Foi treinado para obedecer, não para dar ordens. E ordens sempre gritadas.

Apesar de viver protegido por dezenas de agentes de seguranças, e de morar num palácio blindado contra qualquer ameaça, guarda um revólver na mesinha de cabeceira da cama ao alcance da mão.

Não tentaram matá-lo uma vez? Por que não tentarão novamente? Seu ofício é contrariar interesses – menos os da sua família. Daí o inseparável colete a prova de balas. Daí o paranoico que se tornou.

Sofre de insônia crônica. Atravessa madrugadas no apertado closet do quarto. Enquanto a mulher dorme e ronca baixinho, ele vasculha as redes sociais para saber o que falam a seu respeito.

Que vida! Que alma atormentada! Por que simplesmente não pede as contas e vai pescar? Desde que não seja em área proibida. Por sinal, onde está Queiroz, melhor pescador do que ele?

'Estamos assistindo a uma ofensiva final contra os povos indígenas'

Um dos mais influentes antropólogos do planeta, Eduardo Viveiros de Castro não se dá tanta importância. “Talvez seja uma conjunção aleatória, um contingente de fatores que fez com que eu me tornasse uma pessoa em evidência dentro da academia e, depois, fora”, diz com a franqueza habitual.

Escolhido pelos leitores aliados da Agência Pública, parceiro do EL PAÍS, como entrevistado do mês, Viveiros de Castro recebeu na semana passada nossos repórteres para uma conversa de mais de duas horas, em seu apartamento, no Rio de Janeiro. A sua primeira entrevista após a eleição de Jair Bolsonaro havia sido aceita com uma dose de contragosto. “Não tenho visões especialmente inéditas e profundas sobre tudo o que está acontecendo. Estou apenas perplexo, como todo mundo”, disse, ao descrever o cenário atual como “um momento em que a palavra perdeu o fôlego, inclusive o valor. A gente não consegue mais distinguir a verdade da mentira”. Para ele, a verdade se tornou inacreditável.

Apesar das necessárias ressalvas, Viveiros de Castro conversou com a Pública sobre diferentes temas da atualidade — da resistência indígena à destruição da Amazônia. Do Governo Lula-Dilma a Bolsonaro e os militares. Da reforma agrária a Belo Monte. Do terraplanismo à mamadeira de piroca. Da questão climática ao fim do mundo. No início do papo, ao tentar classificar sua perplexidade, ele afirma: “A gente chegou numa situação no Brasil em que você tem que usar um vocabulário da psicopatologia”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Um sujeito que o senhor admira, que é o Claude Lévi-Strauss, tem uma frase assim: “Meu desejo é um pouco mais de respeito para o mundo que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele. Isso é algo que sempre deveríamos ter presente”. Até que ponto o que ele diz se refere ao momento que a gente está vivendo?

Essa frase está num livro publicado em 1955, Tristes trópicos, o livro talvez mais conhecido dele fora da antropologia mais especializada. É um livro que reflete várias coisas, desde um certo pessimismo filosófico muito importante dentro da imaginação lévi-straussiana, como uma observação, em primeiro lugar, absolutamente verdadeira. É interessante como é uma observação que é, digamos assim, uma obviedade, porque o mundo começou sem o homem e vai terminar sem ele, e, ao mesmo tempo é uma obviedade que precisa ser lembrada. Primeiro porque é em cima do esquecimento dela que muitas vezes se constroem vidas e, em segundo lugar, porque nesse momento em particular algo que foi dito há 50 anos, 60 anos ganha, de repente, uma atualidade até certo ponto inesperada.

E mesmo que o Lévi-Strauss já tenha advertido para o fato de que a marcha da chamada civilização ocidental, necessariamente, envolvia uma destruição de suas próprias condições materiais de existência e, portanto, ela era um projeto civilizacional suicida, ele frequentemente localiza mais especificamente na civilização ocidental de origem europeia essa ideia de que é uma civilização que consome quantidades absurdas de matéria e energia, e que está produzindo entropia, está produzindo desorganização do cosmos terrestre e que, portanto, não poderá prosseguir dessa forma. Ela, na verdade, está colaborando para o fim da espécie, num certo sentido.

Essa ideia de que o mundo começou sem o homem e que, sabemos bem, vai terminar sem ele, toda questão diz respeito a quão rápido vai ser esse término. Vai terminar quando sem ele? A impressão que se tem é que esse término está se aproximando de nós com mais velocidade do que se imaginava. Mas, ainda que isso seja verdade, a ideia de que a crise atual, a mudança climática, a crise de todos os sistemas geofísicos, geoquímicos, do planeta, implique, necessariamente, a desaparição da espécie humana, talvez seja um pouco exagerado dizer isso. Porque é provável que não desapareça toda a espécie e que as condições de vida vão ser muito mais difíceis do que elas foram nos últimos 10.000 anos, que é o tempo que se tem de história, o chamado Neolítico da história, essa fase climática dentro da qual todas as coisas das quais nós nos orgulhamos enquanto civilização surgiram: escrita, cidade, artes etc.

E essas condições vão, muito provavelmente, implicar um choque populacional na espécie que não se sabe exatamente quando, como e o que vai acarretar. Então, a frase do Lévi-Strauss é uma frase sombria, sobretudo, porque ganhou uma urgência, uma qualidade que talvez não tivesse em 1955, e pudesse ser vista como uma frase poética — sombria, mas apenas poética. O tempo verbal se tornou, de repente, mais complicado. Não é, talvez, “vai terminar”, mas “está terminando”.

Em algumas entrevistas, já vi o senhor declarar que é um pessimista, mas em que momento da sua trajetória o senhor foi menos pessimista? E como o senhor se caracterizaria hoje?

Acho que sou pessimista, sim, em vários níveis e de maneiras diferentes. Num certo plano, sou pessimista num sentido que o Lévi-Strauss era pessimista ao falar que a espécie estava colaborando com sua própria extinção, a partir dos representantes da espécie que se consideram os mais avançados, os mais evoluídos, na vanguarda, e que são justamente aqueles que estão contribuindo da maneira mais radical para a deterioração das condições materiais de sobrevivência da espécie.

Em outro sentido, sou pessimista pois não vejo com grande esperança a capacidade dos Estados-nação, dos Governos mundiais, de efetivamente mudar com a radicalidade que se impõem as condições de existência das sociedades avançadas — em particular, as tecnologicamente avançadas — para que você diminua a velocidade de deterioração do sistema termodinâmico da Terra.

Então, é um pessimismo num sentido de que não ponho muita fé na passagem da racionalidade individual, isto é, pessoas que são capazes de perceber que as coisas estão indo muito mal do ponto de vista das condições de existência, para a racionalidade coletiva e, portanto, para que movimentos sociais, governo, ONU, seja quem for, efetivamente tomem medidas que envolvam uma mudança drástica, radical, dramática, do modo de vida que nós consideramos como sendo o ideal e que, entretanto, é precisamente aquele que está produzindo a destruição do planeta.

Tô falando de carro, tô falando de petróleo, tô falando de uso de energia elétrica, tô falando do consumo de energia, seja ela fóssil, seja ela de outras fontes, o consumo em geral, per capita, de energia, o desperdício, produção de dejetos e assim por diante.

É nesse sentido que eu sou pessimista.

Além do que nós estamos vendo algo que ninguém imaginava, talvez, que é uma maré fascista mundial encabeçada pela principal potência mundial [os Estados Unidos], em breve, segunda potência mundial. A outra [China] sempre foi o que é, há 5.000 anos, sempre foi um regime autocrático, sempre foi um regime imperial, num certo sentido.

O Brasil, pra mim, é um grande motivo de pessimismo, desde o fato de nós jamais acertarmos as contas com a ditadura — é uma vergonha o Brasil não ter feito o que fez a Argentina, o Chile... — e o fato de que nós vivemos — e hoje está mais claro do que há dez anos — como uma democracia tutelada, consentida pelos militares até certo ponto. Desde a proclamação da República foi mais ou menos sempre isso que aconteceu. O que é mais patético ainda, porque saímos de uma monarquia estrangeira para uma República tutelada pelos militares. Então, realmente não temos muito o que comemorar.

De outro lado, esse é um país que continua marcado por uma estrutura profunda da sua natureza, a escravidão. Que continua, de certa maneira, girando em torno de um modo de ser, de pensar, de agir, que se contém à memória da escravidão. Não só o racismo, mas a relação do poder público do Governo com as populações negras, pobres, do Brasil, o genocídio entusiasmado praticado por governantes.

E agora a gente chegou numa situação no Brasil em que você tem que usar um vocabulário da psicopatologia para falar dos que estão no Governo. Esse governador [do Rio, Wilson Witzel] é um psicopata, esse presidente é louco, e coisa desse gênero. Cada vez mais você vê um vocabulário… “As pessoas estão loucas.” “Isso é loucura.” Então, o que que aconteceu para que de repente a política tivesse virado na psicopatologia?

É o que me pergunto todo dia.

Tem que chamar um psicanalista para fazer análise política hoje. É que nem o Reich [Wilhelm Reich, autor e psicanalista] fez do fascismo. Para analisar isso aqui, só uma pessoa que trabalha com questões de psicopatologia.

Em 2013, eu tinha 23 anos e foi um momento de certa empolgação com o momento. E hoje se vê muito a análise — principalmente vindo da esquerda mais petista que estava no poder — de que, de alguma maneira, os protestos iniciaram uma onda de acontecimentos que resultaria no Governo que está hoje.

Você tinha uma situação em que o PT se comportou de uma maneira, no meu entender, completamente equivocada. Em vez de incorporar as bandeiras que estavam sendo levantadas em 2013, nas jornadas, ele soltou uma Garantia da Lei e da Ordem e começou a se comportar como se estivesse diante de baderneiros, terroristas, seja lá o que for. Com isso, ele jogou o movimento nos braços da direita. A direita se tornou revolucionária e a esquerda virou conservadora.

Entendendo-se o PT como um partido de esquerda, que eu sempre achei uma associação um pouco apressada; só no Brasil se diz que o Lula é um personagem da extrema-esquerda, quando na verdade o PT é um partido social-democrata, enquanto chamar o PSDB de um partido social-democrata é um absurdo, porque é um partido de centro-direita.

O projeto do PT era, na verdade, melhorar as condições de vida da população brasileira sem tocar nas chamadas relações de produção e, se possível — e ele até fez isso —, sem tocar nos lucros da classe dominante, do grande capital. Tanto é que a burguesia, os bancos, o agronegócio, todos eles lucraram muito, se deram muito bem durante o Governo do PT. Então, o que o PT queria era simplesmente que caísse mais migalhas da mesa no chão para que o povo pudesse comer mais dessas migalhas. Mas nunca pensou em pegar o bolo, dividir e entregar, redistribuir o bolo radicalmente. Você tinha uma redistribuição moderada e, sobretudo, sem meter a mão no bolso dos ricos.

Como é que se conseguiria fazer um projeto de melhorar as condições de vida da porção mais miserável da população brasileira sem mexer no bolso dos ricos? Tinha que tirar de algum lugar. Você tirou de onde? Da natureza. Das florestas, das águas. Aí aumenta desmatamento, aumenta a exploração da Amazônia, a devastação da Amazônia, aumentam os grandes projetos que vão destruir organizações sociais tradicionais, as populações tradicionais.

Eu acho que o PT cometeu um erro histórico, e acho que o principal foi o de não ter assumido o espírito das jornadas de 2013 e, ao contrário, ter se colocado do lado da polícia, literalmente, e com isso jogou o movimento na mão da direita oportunista e na mão da fração considerável da classe média, que é reacionária, que sempre foi admiradora da ditadura, que sempre saiu na rua levantando cruzes e bandeiras, na Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, vestindo camisa do Brasil.

Isso só tirou esse pessoal do armário, no qual eles estavam desde o fim da ditadura e, sobretudo, depois que o PT ganhou a eleição em 2002. Ganhou, aliás, apenas porque o PT se obrigou a fazer concessões. A Carta aos Brasileiros do Lula, em 2002, falou: não vamos tocar no sistema. E, apesar disso, ele [o PT] foi apeado do governo por um golpe. Em parte por causa, evidente, da crise econômica mundial.

De fato eu não sou especialmente otimista, acho que a gente nunca esteve tão mal, do ponto de vista político, quanto agora. A situação é propriamente surreal. Eu há pouco tempo fiz uma brincadeira nas redes sociais dizendo que o sucesso nas fake news no Brasil se deve ao fato de que a verdade se tornou inacreditável. As notícias verdadeiras são inacreditáveis, então você acredita nas falsas.

O Senado chamou o Steve Bannon pra falar no Senado. Isso é inacreditável. O Bolsonaro fala que o garimpo é fantástico e tem que acabar com os índios e não sei o quê. Isso é inacreditável. Então, você tem que acreditar em mentiras. Está mais fácil acreditar em mamadeira de piroca do que no Steve Bannon.

Tem uma entrevista que o Celso Furtado deu para a revista Caros Amigos antes da primeira eleição do Lula [2002]. E ele disse que, da visão dele, seria uma tarefa fundamental do PT, se eleito, tentar impedir o processo de desagregação do Brasil. O senhor já discorreu um pouco disso, mas quais outros pecados o PT cometeu nesse caminho? E Belo Monte?

Primeiro, eu queria fazer uma ressalva. Não é nem dizer que não é o momento de fazer essas críticas, mas é questão de dizer que perto do que está aí o PT era o paraíso, em termos de qualidade das relações políticas, relações sociais. Aliás, com toda a picaretagem, a mamata, a propina, a negociação no Congresso, o mensalão e tudo, que o PT fez, não foi o primeiro partido de esquerda a fazer isso na história.

Ele fez um pacto com o diabo para poder governar, e o diabo cobrou a conta, como sempre cobra.

Com o impeachment foi isso. Ele fez um pacto com as forças mais reacionárias, mais corruptas do sistema político para poder governar, e conseguiu isso até certo ponto. Dali pra frente, a conta veio. E a conta vem da maneira mais atroz, mais absurda, essa prisão do Lula, essa exposição do fato de que o sistema jurídico é envenenado por pessoas de má qualidade ideológica, de má qualidade cultural e de má qualidade política.

Isso tudo, evidentemente, faz com que a gente tenha que criticar o PT, mas dizendo “olha, vejam bem”. Lula livre pra começar — essa eleição foi fraudada nesse sentido de que o Lula foi preso para evitar que ele ganhasse. Nem todo mundo que votaria no Lula — e ele teria ganho em primeiro turno — era petista, e todo mundo sabe. Assim como nem todo mundo que votou no Bolsonaro é bolsominion, mas muitas das pessoas que votaram no Bolsonaro teriam votado no Lula se o Lula estivesse solto.

Isso, em parte, passa por um certo imaginário brasileiro que envolve a figura do líder poderoso, do líder salvador, que foi transferida do Lula para o Bolsonaro, ainda que eles encarnassem figuras muito diferentes ao representar a esperança. O Lula era, essencialmente, o pai dos pobres, de alguma forma, o Bolsa Família, e o outro é, essencialmente, a figura do capitão, do policial que vai matar, prender e arrebentar, como dizia o Figueiredo. E foi o policial que ganhou.

Estou usando “o policial” para não usar outra palavra, dos amigos dele, pessoal que sai em fotografia com ele em tudo que é lugar. Então nós estamos numa situação de um regime criminoso. Não sei como definir de outra forma. Não estou falando da criminalidade clássica da política, que é a criminalidade dos contratos, dos grupos de favorecimento, que sempre houve e que o PT também praticou, mas numa criminalidade num sentido de porta de delegacia, criminalidade de assassinato, extorsão de populações pobres… Essa criminalidade está no poder. Isso é uma coisa inacreditável.

E está no poder, em parte, com o apoio e, em parte, com a perplexidade do Judiciário, que está aparelhando todo o sistema, toda a máquina pública, com as piores pessoas possíveis.

Você tem uma espécie de critério que é simples: dado um determinado ministério, alguma tal secretaria, quem é a pior pessoa possível pra colocar ali? É essa pessoa que vai.

Então, você tem uma espécie de perversidade, e perversidade quase no sentido psicopatológico mesmo, por isso que falei em psicopatia. É uma espécie de perversidade de você colocar exatamente a pessoa inimiga daquele tema para tocar a política de Estado sobre aquele tema.

Isso está acontecendo no meio ambiente, nos direitos humanos, o direito da mulher, da família, está acontecendo, de certa maneira, na economia.


E Belo Monte?

Bom, uma das grandes divergências, um dos grandes problemas que eu tenho com o PT é Belo Monte, que foi enfiada pela garganta adentro dos ribeirinhos, dos indígenas da região, pelo Lula, pela Dilma. Então, eu não consigo aceitar um partido, um governo que fez Belo Monte. Daí não se segue que eu tenha que aceitar o que está no poder agora, muito pelo contrário, mas Belo Monte não tem perdão.

Eu trabalhei lá, conheço lá, não tem perdão o que eles fizeram ali. Aquilo representa uma ideia de Brasil em que, num certo sentido, há uma continuidade em algum nível entre o projeto do PT e o projeto desse governo no que diz respeito à relação com a Amazônia, com os povos tradicionais, com o Brasil profundo.

Tem que modernizar, tem que civilizar, tem que industrializar, tem que derrubar, tem que gerar renda, tem que gerar valor, gerar emprego, e a gente ouve isso há séculos e só vê o pessoal se fodendo.

Lula livre, sim; Belo Monte, não. Belo Monte jamais.

O Governo Bolsonaro elegeu alguns inimigos diretos, seja territorialmente, seja de pessoas ou grupos sociais. Estou falando da Amazônia e dos indígenas. Por que este governo tem tanto medo dos índios?

O problema dos índios, para esse governo e para as frações da sociedade brasileira que ele representa — em particular, o grande capital, o agronegócio —, é que as terras dos índios não estão no mercado fundiário. E o projeto desse governo é de privatizar 100%. Se possível, o Brasil inteiro.

Parque nacional, reserva ecológica, todas as terras que têm uso especial estão na mira desse governo. Daí a importância do Ministério do Meio Ambiente para destruir os sistemas de terras protegidas e para o ataque aos povos indígenas. Esse ataque, na verdade, exprime um desejo de transformar o Brasil inteiro em propriedade privada.

É um Estado cujo objetivo é retirar do Estado a sua soberania efetiva sobre seu território, ou melhor, transformar a soberania em apenas poder de supervisão, mas entregar as terras ao capital privado, seja nacional, seja estrangeiro.

Daí essa conversa para boi dormir dos militares: “Ah, a invasão da Amazônia pelos estrangeiros”. Eles estão vendendo as terras da Amazônia para um monte de proprietário estrangeiro, o problema deles não é esse. Isso é mentira.

O problema dos índios é que as terras dos índios são terras da União, e o objetivo do governo é privatizar. E mais do que do governo, das classes que o governo representa, das quais ele é o jagunço, porque é isso que ele é: o jagunço da burguesia.

O segundo motivo, acho, está numa declaração absurda que o Mourão, o vice-presidente, deu há pouco tempo, louvando as capitanias hereditárias e os bandeirantes, dizendo que aquilo é o melhor da nossa origem, o melhor da nossa história, empreendedorismo e tal.

Isso soa como uma provocação, uma provocação especificamente anti-indígena, porque ele está celebrando o genocídio ameríndio, celebrando o bandeirante, que é uma figura que foi transformada, evidentemente, a partir de São Paulo, em herói da nacionalidade, quando o que ele fez, efetivamente, foi arrancar o Brasil da mão dos seus ocupantes originais. Não conseguiu arrancar todos, ainda tem 13% aí de terra [indígena].

E o objetivo, agora, é completar o processo iniciado com a invasão da América pelos portugueses. Isso é muito claro.

Os militares, agora, estão se identificando com a Europa. É muito estranho, se você for olhar a composição racial das Forças Armadas brasileiras. Não vai achar muito louro. A começar pelo Mourão, que é mestiço de índio. Mas pelo jeito não gosta.

Então, você tem uma concepção que vê o Brasil como um país essencialmente europeu, num sentido assim, do que é o melhor da nossa formação, da nossa história. Como diz o Mourão, o melhor é a Europa. É isso que ele está dizendo.

Talvez o momento culminante do filme Bacurau, que está fazendo sucesso, é o momento do diálogo em que os gringos assassinos dizem pros dois puxa-sacos brasileiros que eles não são brancos coisa nenhuma. O Mourão, na verdade, estava falando como aquele motociclista: o melhor da nossa história são as capitanias. Aí vem o gringo: “Pra começar, português nem é branco. E, segundo, você não é nem português”. Então, bum!

E as celebrações do caráter mestiço, no meu entender, são pura demonstração de hipocrisia. O que se chama de mestiçagem no Brasil, o nome certo é branqueamento.

Então, você tem um ódio do não branco no Brasil, racismo contra os negros, e um racismo dobrado, de um racismo territorial, em relação aos índios. Essas são as razões principais, eu diria.

Imagem do Dia

Pináculos do Parque Nacional de Mulu (Bornéu)

Irmã Dulce está fazendo Jair Bolsonaro passar vergonha

Irmã Dulce está fazendo Jair Bolsonaro passar vergonha.

Ele decidiu não ir à cerimônia de canonização no próximo domingo, 13, no Vaticano.

As explicações são péssimas: Bolsonaro quis cutucar o papa Francisco, que tem posições divergentes sobre a Amazônia, e seguir conselhos de evangélicos.



A decisão de não viajar foi influenciada pela opinião da primeira-dama, Michelle Bolsonaro

Para piorar: desmarcou sua ida a Salvador onde vai ocorrer uma nova celebração num estádio.

Detalhe: Bolsonaro se diz católico.

Mas o importante aqui é outra coisa.

Irmã Dulce foi um ser humano extraordinário, colocou sua vida a favor dos mais pobres.

É dos projetos mais lindos de saúde gratuita que vimos no Brasil.

E pela batalha de uma mulher sozinha.

Seria uma forma de Bolsonaro prestigiar esse símbolo.

Bolsonaro fala tanto em valores cristãos – e Irmã Dulce é a essência deles.

Nunca enriqueceu usando Deus. Pelo contrário.

A vergonha de Irmã Dulce foi mostrar a mesquinhez de Bolsonaro.

Ministro justiceiro

É porrete ou cenoura
Sérgio Moro, ministro da Justiça, sobre as alternativas oferecidas por ele aos presos ligados a facções criminosas

Quem domina a cadeia, domina a rua

Os brasileiros talvez não saibam, mas são – somos – reféns da barbárie carcerária nacional. Um drama ainda pouco estudado para além das caixinhas dos vieses ideológicos; problema gravíssimo – que é muito anterior, claro, a Jair Bolsonaro.

O presidente, porém, cultiva e manifesta – expressando ignorância profunda sobre as consequências desta postura – desprezo à figura do presidiário; como se a existência do preso fosse uma concessão à falta de meios para se aplicar a lógica do “bandido bom é bandido morto”. Ocorre que há a lei.

No Brasil, pune-se o criminoso com cadeia. Não está prevista a pena de morte. Assim, uma vez sob a guarda do Estado, a única possibilidade aceitável é a de que o condenado possa cumprir a pena. É seu direito; porque, no estado de direito, mesmo o assassino – o mais cruel – tem direitos. Oh! Se a regra determina que seu crime, por pior que seja, deve ser pago sob privação de liberdade, sua privação de liberdade deve ser assegurada. Para tanto, o óbvio: deve estar vivo. Garantir tal condição é responsabilidade do Estado.

Tratar massacres em presídios – preso esquartejando preso – com desdém, quase como se coisa positiva, espécie de auto-limpeza, tudo na linha influente do “eles que se matem lá”, é chancelar a selvageria que desqualifica e desacredita o Estado, e que, atenção, dá poder às facções criminosas, de súbito empossadas como únicas polícia e justiça vigentes no sistema carcerário, organizações que se convertem em governantes das cadeias.

É isto, simplesmente o coração do problema, que Bolsonaro – sempre preferindo jogar pra galera – não alcança. Entre outras coisas, que extermínio de bandidos na cadeia é imposição de bandidos na cadeia – estado paralelo, força que se projeta.

Mesmo o seu desprezo pela figura do presidiário não pode ignorar – agora desde a condição de presidente da República – que o drama carcerário brasileiro, objetivamente, é o drama da segurança pública brasileira; e que é desde dentro dos presídios que as facções montam base e ditam as ações do crime nas ruas. Para citar um especialista, Eduardo Mattos de Alencar, em síntese perfeita: “Quem domina a cadeia, domina a rua. Cadeia é estável; permite operar com tranquilidade”.

Está tudo aí. Mais do que nunca, quem se preocupa com a segurança das gentes de bem deveria enfrentar – como prioridade – o assalto ao Estado a partir do controle do sistema prisional. Jair Bolsonaro daria grande contribuição à segurança pública do país se ajudasse o Estado a retomar o domínio dos presídios. É preciso inteligência.

Se não mudar enfoque diplomático e ambiental, Brasil não consegue entrar na OCDE

Em matéria de diplomacia, o governo Jair Bolsonaro começou pessimamente. Ao invés de manter a neutralidade que sempre caracterizou o trabalho do Itamaraty, o novo presidente se atirou nos braços do matriz USA, assumiu-se como filial Brazil e se afastou do maior parceiro comercial do país, a China. Agora, por exemplo, há uma oportunidade de ouro para os produtores de carne suína, altamente consumida pelos chineses. A criação local foi dizimada por uma peste, as importações estão abertas e a hora é essa, mas ninguém sabe o que o governo está fazendo a respeito.

O pior é a questão ambiental. No início do governo, o Brasil anunciou que iria deixar o importantíssimo Acordo de Paris e as infelizes declarações climáticas do chanceler Ernesto Araújo criaram um furacão diplomático internacional contra o Brasil.

O que o Brasil ganhou com essa mudança de rota? Nada, absolutamente nada. E as consequências são tenebrosas, porque até mesmo o antes amigável governo da matriz USA resolveu colocar a filial Brazil na berlinda, porque o governo Bolsonaro literalmente conseguiu entrou em choque com a opinião pública mundial.


A gota d’água foram as queimadas na Amazônia, que o Brasil não soube explicar, por falta de conhecimento específico das autoridades. E as consequências estão à vista de todos, com o posicionamento da matriz sobre a entrada da filial na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

O Brasil teve de recuar no caso do Acordo de Paris e precisa seguir recuando, mas os pronunciamentos do chanceler sobre mudanças climáticas continuam revoltando a opinião pública mundial, porque ele resolveu ignorar os relatórios da ONU, classificando-os de “ideologia da mudança climática ou climatismo”

Enquanto isso, o mundo inteiro caminha em outra direção. O secretário-geral da ON, António Guterres, que é português, diz que “há cada vez mais conservadores que entendem que a ação climática é parte da política”, e defende pressão social para conter a crise climática: “Cedo ou tarde, os Governos seguem a opinião pública, em todo o mundo”.

A ONU deixa bem claro quais são essas necessidades. Entre outras metas, propõe a redução de 45% das emissões de dióxido de carbono até 2030 e, para 20 anos depois, em 2050, a neutralidade do carbono, ou seja, que a quantidade de emissões não supere a capacidade de absorção das florestas, por exemplo. Assim, o impacto será zero, neutro. “Tragam planos, não discursos”, pede Guterres aos líderes nas cúpulas do clima.

O secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría (mexicano) reforça, dizendo: “Temos que assegurar o cumprimento dos compromissos assumidos nos Acordos de Paris. A necessidade da ação climática não deveria exigir grandes reflexões”.

Sobre a entrada do Brasil na OCDE, na manhã desta quinta-feira o secretário-geral adjunto Ludger Schuknecht (alemão) deu um recado direto ao presidente Bolsonaro e ao chanceler Araújo, durante o Fórum de Investimentos Brasil 2019.

Após ouvir o chanceler dizer que o Brasil já está pronto “para começar nosso processo de adesão à OCDE, isso reforçará toda essa dinâmica e toda essa agenda que nós temos”, o secretário-adjunto da OCDE fez um discurso franco, ouvido por Bolsonaro e pelo ministro, dizendo que o Brasil precisa de reformas econômicas sem abandonar a responsabilidade ambiental e social.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Brasil da banda podre


As Excelências e os bobos

No Brasil existem 32 partidos políticos cadastrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e outras 76 legendas em formação. Dentre as novas agremiações que tentam o registro no TSE, está, por exemplo, o Partido Nacional Corinthiano (PNC). O processo, em fase avançada de tramitação, tem como relator o ministro Jorge Mussi. O punho cerrado levantado, gesto eternizado no Corinthians por Sócrates, é o símbolo do partido inspirado na Democracia Corinthiana.

Caso as novas legendas obtenham registro, o país terá 108 partidos políticos. Mesmo com a cláusula de desempenho, ainda parece ser um bom negócio, em fase de expansão e rentável.


Apesar de o rombo fiscal previsto para o próximo ano ser de R$ 124,1 bilhões, alguns parlamentares chegaram ao cúmulo de sugerir o valor de R$ 3,7 bilhões para o Fundo Eleitoral em 2020, o que representaria crescimento de R$ 2 bilhões (118%) em relação às eleições do ano passado. Mas, além do Fundo Eleitoral — criado quando foram proibidas as doações empresariais —, existe o Fundo Partidário, também bancado por recursos públicos, com valor de R$ 959 milhões já previsto no projeto de lei do Orçamento do próximo exercício.

Some-se aos “Fundos” o montante de R$ 815,7 milhões que o país pode deixar de arrecadar por conta da recriação — em outro formato — do indigesto horário eleitoral gratuito. Aliás, a propaganda eleitoral de gratuita não tem nada. O governo concede isenção fiscal aos veículos de comunicação que transmitem o horário eleitoral e deixa de arrecadar valor correspondente ao que as emissoras ganhariam nesse período com publicidade.

O presidente Bolsonaro sancionou em 27 de setembro, com vetos, a Lei 13.877/2019, que altera regras de funcionamento dos partidos e de organização das eleições. Convém ressaltar que uma coalizão de 22 entidades sociais (Transparência Partidária, Contas Abertas, Transparência Brasil, Instituto Ethos, Acredito, Livres, Renova, entre outras), ligadas à transparência, ao combate à corrupção e à renovação política, alertou quanto à possibilidade de a nova lei abrir brechas para aumentar a corrupção, o caixa dois e a lavagem de dinheiro.

Os vetos do presidente Bolsonaro em relação ao texto que saiu da Câmara dos Deputados foram corretos, ainda que pudessem ser mais amplos. Porém, há risco enorme de que hoje os vetos sejam derrubados no Congresso para que prevaleça o texto original, que contém absurdos do tipo:

1) Os recursos públicos do Fundo Eleitoral poderão ser utilizados para bancar a defesa de políticos acusados por corrupção e para custear ações de “interesse indireto” dos partidos. Você, leitor, concorda em pagar advogados para corruptos?

2) Penalidades já impostas aos partidos podem ser anistiadas, e há exigência de conduta dolosa para que as multas sejam aplicadas. Além disso, as penalidades podem ser pagas com recursos públicos. Você acha justa a anistia de multas e concorda em pagá-las?

3) Os partidos podem comprar passagens aéreas para qualquer pessoa, independentemente de o beneficiado estar filiado. Você acha justo pagarmos pelo turismo de apadrinhados de políticos?

4) Os partidos poderão apresentar suas prestações de contas em sistemas próprios, sem a obrigação de utilizar o modelo padrão disponibilizado pela Justiça Eleitoral. Imaginem o que aconteceria se cada um de nós fizesse a declaração de Imposto de Renda em qualquer formulário próprio?

5) A verificação da inelegibilidade do candidato não irá mais ocorrer quando do registro da candidatura, mas sim na época da posse. Você está disposto a correr o risco de votar em um ficha-suja?

Alguns políticos ainda não perceberam que o modelo democrático conservador está esgotado. A indignação começa nas redes sociais e transborda para as urnas, à revelia dos partidos. A imoralidade poderá ser hoje consagrada, e sairão vitoriosos os que trabalham contra o interesse público, a favor das causas próprias, do umbigo e do bolso.

Mas, na minha opinião, um grande erro dos parlamentares “espertos” é achar que podem fazer todos de bobos.

Essa lei anticrime é criminosa

Gostei, TCU. O Tribunal de Contas da União suspendeu propaganda de Bolsonaro e Moro. Presidente e ministro queriam convencer a sociedade a apoiar um pacote anticrime que ainda depende de aprovação na Câmara dos Deputados. Não estamos numa democracia plebiscitária. E pontos do pacote já foram derrubados pelo Legislativo. O Executivo vive numa ilha da fantasia. Bolsonaro quer criar o PES: Partido do Eu Sozinho.

O lugar da fala hoje é de Bruna da Silva, mãe de Marcos Vinícius, morto a tiros em junho de 2018, aos 14 anos, no Complexo da Maré. Com a coragem das mães, com a fala desabrida de quem sabe que a verdade está de seu lado, Bruna levou camisa e mochila manchadas de sangue de Marcos para Rodrigo Maia. Pediu que a Câmara dos Deputados vete a lei anticrime. Não chorou. As lágrimas secaram. Bruna citou 13 vezes “meu filho”.




“Eu mandei meu filho impecável para a escola e o Estado me devolveu ele assim (mostra a camisa ensanguentada). Isso aqui não é uma afronta pro senhor não, tá bom? É pro senhor entender que foi o que o Estado me deu. A gente na favela cobra o estudo de nossos filhos, a única coisa que a gente fala para os filhos é que na nossa vida a gente só leva os estudo. Com a aprovação desse pacote criminoso, vai ficar ruim pra gente. Já tá ruim. Eu tenho uma única filha, a Maria Vitória, de 13. A minha filha continua sendo alvo. Na minha laje eu fui alvo a semana passada porque a Civil entrou dando tiro. Me viu em cima da laje. Atirou com helicóptero. Eu recolhi três projétil com a cápsula marcada de verde. Aí eu pergunto, o excludente de ilicitude. Será que essa Casa (a Câmara) tá pronta pra aprovar isso? Porque, se essa Casa estiver pronta, vai ser muito sangue derramado. E automaticamente vai ser aqui que a gente vai vir cobrar, porque essa aqui é uma Casa do povo. A maioria das leis que nos mata lá fora sai daqui de dentro. Se é do povo, não pode sair lei daqui que nos prejudique lá fora, tá entendendo? Então a gente tá aqui, representando o Brasil, aquelas pessoas que não têm voz, pedindo sua ajuda, que o senhor venha olhar pra gente, para cada história, eu não tenho mais o Marcos Vinícius em casa, o meu filho me faz falta. O meu filho me fez uma pergunta na UPA. ‘Mãe, pelo amor de Deus, o que foi que eu fiz? A polícia não me viu com roupa e material de escola?’ Eles viram. Porque meu filho foi morto numa Operação de Vingança. A Core (elite da Civil) veio se vingar do Complexo da Maré (pela morte de um policial em Acari). 

Era 9 horas da manhã. Meu filho foi baleado na rua da minha casa. Não tinha operação. Tinha um blindado plantado na rua. E os policiais da Civil com touca Ninja e sem identificação, porque é assim que eles agem. Só que agora, né, tem a faca. Eles já matam a gente a bala, agora com faca também? A gente vai sofrer. Sofrer por que, se essa guerra não é nossa? Por que esse reflexo respinga na gente? Tá aqui. Isso aqui é o sangue de meu filho. É o meu DNA que tá aqui. Eu perdi meu primogênito, meu lado alegre, o meu filho homem, o meu filho tava doido pra ter barba no rosto, o meu filho não acreditou em quem deu aquele tiro. E a gente sempre conversava, filho, dia de operação cuidado quando você estiver vindo aí da escola, e ele, não, mãe, não corro esse risco porque eu tô com roupa, tá vendo. O meu filho usava uma mochila preta. O meu filho teve o cuidado de trocar a mochila dele. ‘Mãe, posso ficar com essa mochila abóbora?’ Eu falei, mas meu filho, a tua preta é nova. E ele, não, porque estudante de mochila preta na favela, o policial atira. A polícia atirou no meu filho com essa mochila abóbora. Essa aqui é a marca de sangue do Marcos. Aí eu te falo. Não dá pra gente cruzar os braços e deixar que o Estado entre, nos mate e fique por isso mesmo. O Estado tem que ser responsável por essas mortes. Tem que haver investigação, eles têm que cumprir pena. A gente cumpre pena...a gente paga quando a gente erra. E essa lei anticrime, ela é criminosa, porque vai diretamente pro povo. Essa lei é direcionada pra gente dentro de favela, da Baixada, no asfalto, essa lei não é válida para a Zona Sul do Rio de Janeiro. O sangue que jorra é o sangue do pobre, não é o sangue nobre. Então que o senhor venha acolher nosso pedido de socorro, o senhor como o presidente da gente”.

O “excludente de ilicitude” é aquele item do pacote de Moro que inocenta policiais que matam por “escusável medo, surpresa e violenta emoção”. Ora, esses sentimentos surgem em toda operação em favela porque policiais morrem também. Claro que a proporção de policiais mortos é infinitamente menor que a de suspeitos. Crianças assassinadas “por engano” se tornam “perdas colaterais” na guerra com bandidos em comunidades abandonadas pelo Estado. Em nenhum lugar do mundo isso deu certo. O pacote de Moro, como está, estimula a matança e a impunidade. 

A hipótese da estultice

Permanece em aberto a questão de saber se Jair Bolsonaro é um sujeito inteligente, isto é, alguém que se vale de estratégias elaboradas para alcançar seus objetivos, ou apenas um valentão que teve duas ou três intuições corretas e uma enorme dose de sorte.

Os defensores da hipótese de vida inteligente sempre poderão afirmar que ele venceu a eleição mais disputada do país e que vem presidindo um processo de recuperação econômica, ainda que timidíssimo.

Não faltam, porém, argumentos àqueles que sustentam que Bolsonaro não passa de um despreparado que as ruínas da administração petista aliadas às forças do acaso galgaram à Presidência. A prova mais eloquente disso estaria no fato de o primeiro mandatário levantar incessantemente polêmicas nas quais tem muito mais a perder do que a ganhar.

O caso do divórcio entre o bolsonarismo e o PSL reforça a hipótese da estultice. É possível que tudo não passe de um blefe, mas, se a separação for para valer, fica difícil vislumbrar o que Bolsonaro ganharia. Já a lista das perdas é graúda.

Para início de conversa, parlamentares que seguirem o presidente correriam um sério risco de perder seus mandatos. Mesmo que os advogados encontrem um modo de evitar isso, a debandada deixaria milhões de reais dos fundos partidário e eleitoral com uma sigla que terá rompido com Bolsonaro.
Em termos estruturais, o presidente se afasta ainda mais do projeto de criar uma base partidária razoavelmente sólida, que seria importante tanto para dar sustentação a seu governo como para ajudá-lo numa eventual disputa pela reeleição.

Ou Bolsonaro está tantos passos à frente de todos em suas maquinações políticas que temos dificuldade até para reconhecer-lhe a inteligência, ou temos motivos para temer que ele nem sequer consiga definir quais são seus objetivos, menos ainda a melhor estratégia para alcançá-los. Façam suas apostas.

Paisagem brasileira

Sabará, Rubens Vargas

Real people x fake news em 2022

Todos os meus amigos, sem exceção, estão convictos de que o pêndulo de opinião se deslocou para a direita por um bom tempo e de que a esquerda, desde já, deve ser descartada como opção eleitoral possível —se viável, aí o debate é outro— para 2022. Eu não estou. E olhem que isso nada tem a ver com “Lula livre” ou “Lula preso”.

Ouso sugerir que se coloquem os pobres na equação. No país que teve deflação em setembro —e duvido que Paulo Guedes tenha tido tempo de explicar para Jair Bolsonaro que isso não é bom—, o presidente decidiu fazer um esparramo em seu próprio quintal ideológico ao detonar o PSL. Que importa que isso crie dificuldades adicionais para alguns objetivos que deveriam ser estratégicos para o governo, como as reformas?


Nesta quinta, li cheio de interesse uma fala de Guedes a investidores brasileiros e estrangeiros. O trecho que mais me encantou foi este: “Estamos com o crescimento subindo, a inflação descendo e retomando provavelmente agora um longo ciclo de crescimento. Num momento em que o mundo sincronizadamente desacelera, entrando em uma clínica de reabilitação após um período de excessos, o Brasil está saindo da clínica de reabilitação”.

O discurso do ministro sempre pareceu complexo demais para o meu curto entendimento. Como quando prometeu arrecadar R$ 1 trilhão com privatizações ou zerar o déficit ainda em 2019. Com o mundo na clínica de reabilitação, e o Brasil iniciando seu longo ciclo de crescimento, suponho que a sustentação de que trata estará ancorada no mercado interno.

Não sou especialista em economia. Ele é. O debate no país consegue ser bem despudorado quando o tema é o rendimento das famílias, não é mesmo?

Vejo o escarcéu que se fez com o estudo do Banco Mundial sobre os gastos com o funcionalismo. Os números parecem especialmente perversos porque o rendimento médio do trabalho no país é de R$ 2.300.

Quase metade das famílias tem renda de R$ 1.996. O aluguel de uma casa de dois cômodos, com banheiro e quintal coletivo, na Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, custa R$ 700. Na parte nobre da favela de Paraisópolis, na Zona Sul, pode ser um pouco mais caro.

Precisamos cortar os excessos do funcionalismo, sem dúvida. Mas de quais categorias? Não vi se o estudo do Banco Mundial cruza a formação escolar dos servidores com a do conjunto dos brasileiros e dos trabalhadores da iniciativa privada. Professores do ensino público podem ser confundidos com nababos. São?

Ainda que a renda média das famílias não o escandalize, leitor, deve-se entender que Banânia vai sustentar o crescimento, na contramão do mundo, incentivando o mercado interno, mas tirando dinheiro das mãos dos brasileiros —ou da parcela que consegue guardar alguma coisinha. O tempo dirá se faz sentido.

Não sei, não... O encanto do discurso da direita disruptiva, entendo, já se quebrou. A extrema direita hidrófoba nas redes sociais está dividida. Suas celebridades de internet estão se estapeando pela prerrogativa de liderar o obscurantismo, a vulgaridade, a truculência, a burrice e a falta de empatia com a maioria dos brasileiros, formada de gente pobre.

Acreditem: os escuros, achados pelas balas perdidas destes dias aziagos, ressurgirão em 2022. Talvez já deem as caras em 2020. Quem sabe ver e ouvir já percebeu que o “real people” tende a diminuir a importância das “fake news”. Querem apostar? Não creio que multidões de duros vão manter a mesma disposição de lutar contra o comunismo...

Para encerrar: também nós somos os curdos de Donald Trump. Deu uma banana para “Bolsonaro I love you” e resolveu apoiar o ingresso da Romênia e da Argentina na OCDE. A Argentina é aquele país que decidiu resistir à orientação de Bolsonaro e que vai eleger os esquerdistas Alberto Fernández e Cristina Kirchner para a Presidência.

A propósito: Guedes já deixou claro à Organização Mundial do Comércio que os curdos da Vila Brasilândia não querem mais tratamento diferenciado? Afinal, sabem como é, estamos na contramão do mundo. E gozar de regalias na OMC é coisa para países atrasados, como a China.

Na briga com o PSL, Bolsonaro já conseguiu o que queria

Fala-se agora, novamente, na possibilidade de Jair Bolsonaro investir na constituição de um novo partido. Isso vai e vem, a depender das conveniências bolsonaristas. Há mesmo gente, nas franjas do bolsonarismo, trabalhando para tanto. O argumento é o de que a mobilização bolsonarista precisaria de organização de base - de coesão programática e ideológica - para não perder o viço e deixar esfarelar o fenômeno que sustentou a eleição de Bolsonaro.

Tenho, porém, dificuldade em acreditar que o presidente apoie - para valer - a iniciativa. É inconsistente com a mentalidade bolsonarista e com o histórico partidário de Jair Bolsonaro; daí por que seja bem mais provável, segundo avalio, que ele autorize a ventilação da hipótese como ameaça e, óbvio, como parte fundamental da estratégia de desqualificação da ideia de partido.

A lógica do bolsonarismo, força autocrática e personalista, é a de depreciar e esvaziar o valor de toda e qualquer forma de mediação, de representação. Partido é a máxima expressão da atividade política, da impessoalidade e da concertação entre agentes, que se manifesta - por excelência - no exercício parlamentar. Não e à toa, diga-se, que o bolsonarismo ataca o Congresso. A impessoalidade e a desconcetração decisória são riscos ao propósito populista.

De resto, objetivamente, organizar um partido novo, agora, seria complicar, arriscar mesmo, o projeto de poder bolsonarista - que precisa (incontornavelmente) eleger braços municipais fortes - para as eleições de 2020; que pode se servir bem daquilo já montado, inclusive em termos financeiros, no PSL.

Mais provável é, pois, que Bolsonaro e corte fiquem; ao menos até o fim do ano que vem. Não há dúvida de que examina alternativas. O presidente, contudo, já conseguiu o que pretendia: rebaixou o próprio partido; que é, também, investimento no rebaixamento da democracia representativa. E colocou sua insatisfação na mesma sintonia de sempre, uma das frequência de sua eleição: o da - falsa - indignação com desvios e falta de clareza na gestão dos fundos partidários pela direção do PSL; isto sem falar na podridão que ainda se pode cheirar desde o laranjal de Marcelo Alvaro Antonio. Tem método. Bolsonaro faz isso. Está sempre se limpando. Sempre criando condições para se cercar de descartáveis.

Por essa exata razão é que não se pode desconsiderar a chance de uma eventual mudança de partido; mas para outro entre esses de aluguel.

Cabe registrar, adicionalmente, que parte influente do bolsonarismo prega por uma reforma eleitoral que admita candidaturas avulsas - conforme há em algumas democracias do mundo. Gente muito boa, fora do bolsonarismo, também defende essa tese. Sou contra. No Brasil, radicalmente contra. Candidatura avulsa, neste país, com o histórico de líderes carismáticos que temos, seria erro grave: o estabelecimento mesmo do chão para o reino do populismo, do personalismo, do messianismo, em detrimento do equilíbrio próprio à cultura da representação e da mediação política. Cuidado.

Finalmente, a partir de um exemplo típico da gramática bolsonarista, proponho aqui uma breve reflexão sobre a linguagem influente do bolsonarismo. Ontem, em entrevista - sobre esse imbróglio partidário - ao site O Antagonista, o presidente afirmou que não sairia do PSL por "livre e espontânea vontade" e que não queria "entrar nessa briga".

Note, leitor, o grau de manipulação discursiva para o objetivo de inverter a ordem dos fatos e se vitimizar. O presidente faz isso diariamente. Age como se não fosse ele, Jair Bolsonaro, o gerador - a própria origem - da crise; como se não tivesse sido ele a pedir que se esquecesse o PSL e a se referir ao dono do partido como "queimado".

>Isto é o bolsonarismo: uma fábrica de conflitos artificiais. No caso, com efeito, para diminuir o PSL, situar - reforçar a ideia de - o partido como mais um no meio de um sistema corrupto, e se destacar novamente como aquele de fora, puro, que nada tem a ver com isso e aponta os erros. Ele fica; o partido mingua mais um pouco; e ainda joga fumaça sobre as denúncias contra o ministro do Turismo do qual - dono do PSL em Minas - não abre mão.

Guedes está dois lances atrás da própria língua

O governo de Jair Bolsonaro seria outro se o presidente trouxesse suas palavras na coleira e o ministro da Ecomomia convertesse gogó em resultados. O problema é que Jair Bolsonaro não para de produzir insensatez —a crise com o PSL foi apenas a penúltima— e Paulo Guedes parece estar sempre dois lances atrás da sua própria língua. Bolsonaro preocupa-se mais com as urnas de 2022 do que com os cofres de 2019. Cofres que a língua de Guedes havia prometido sanear no primeiro ano de governo.


Falando num fórum de investidores, o ministro celebrou o fato de que a economia mundial entra numa clínica de reabilitação num instante em que o Brasil está saindo dessa clínica. A economia brasileira melhora, mas não recebeu alta hospitalar. Vai crescer menos de 1% neste ano. Na comparação com o PIB mundial, que terá crescimento médio acima de 2%, o Brasil está mais enfermo. E o declínio da economia do resto do mundo tornará a recuperação ainda mais lenta. Guedes disse a certa altura que, depois de quatro décadas de economia fechada, impostos elevados, Bolsonaro "começou a revolução em relação ao que há de melhor no mundo ocidental".

A gestão Bolsonaro está a dois meses e meio de fazer aniversário de um ano. E Paulo Guedes ainda não levou ao Congresso uma proposta de reforma tributária. O fim dos subsídios? Nada. A facada na mamata do Sistema S? Nem sinal. A coleta de R$ 1 trilhão com a venda de estatais e imóveis públicos? Necas. São coisas que a língua prometeu e o ministro não entregou. Por enquanto, o que há de concreto é uma reforma previdenciária lipoaspirada e inconclusa, um presidente que produz crises na saída do Alvorada e um ministro da Economia com a garganta maior do que as atitudes. Um pouco de sinceridade talvez causasse melhor impressão nos investidores.

Os governos do Brasil têm convivido com ministros econômicos que se consideram extraordinários. Alguns têm o prestígio de super-ministros. Mas a maioria, no fim das contas, apresenta um defeito comum. Costumam encontrar as verdadeiras soluções para os problemas nacionais quando se transferem do palco para a crítica. Para evitar a sina dos ex-ministros geniais, Paulo Guedes deveria serenar a retórica e perseguir resultados.

Pensamento do Dia


Cheiro de gás

Solange M. T. Hernandes foi lembrada por mais de um comentarista político nos últimos dias. Funcionária da Polícia Federal, ficou tão conhecida nos anos 1970 que seu nome virou sinônimo da censura a jornais, revistas, livros, filmes, peças, músicas, noticiários e novelas, amplamente praticada pelo regime militar. Sua tesoura inoxidável mutilava não só manifestações de oposição, mas tudo aquilo que ela considerasse atentatório à moral e aos bons costumes.


Estaríamos assistindo à volta dos tristes tempos de dona Solange? É o que se perguntam todos quantos se preocupam com a escalada dos destemperos verbais do presidente Bolsonaro e de seus subalternos contra a imprensa e artistas conhecidos; a ameaça de impor filtro à produção cinematográfica; as demissões em organismos ligados ao Ministério da Cultura; e a suspensão de financiamentos de empresas públicas a atividades culturais se os beneficiados tiverem o perfil “errado”.

Há quem sustente que, a despeito do linguajar chulo do presidente, apenas estaríamos diante de mudanças esperáveis de um governo de extrema direita eleito segundos as regras do jogo: governo de extrema direita, políticas culturais de extrema direita, executadas por funcionários de mesma orientação. Bolsonaro retruca que não se trata de censura, mas de defesa dos valores cristãos compartilhados por faixas extensas da população —das quais se imagina representante.

É fato que dona Solange serviu a um regime de força, sua atuação autorizada pelo Ato Institucional n°5 e pela Lei de Censura. Hoje vivemos outros tempos, sob democracia e com ampla liberdade de expressão. Mas não há como ignorar a tensão permanente entre as instituições democráticas vigentes e um presidente de clamorosa inclinação populista e autoritária. Nesse particular, de todo modo, o Brasil não é um caso único.

Ali onde populistas de esquerda ou de direita conquistaram o governo, a imprensa independente, intelectuais e artistas tornaram-se alvos prioritários de tentativas de censura e descrédito. Em alguns países, as investidas tiveram êxito —a exemplo de Hungria, Filipinas, Polônia, Rússia e Venezuela. Em outros, nem tanto. Apenas irritam e poluem a atmosfera política, como nos Estados Unidos e na Itália. Tudo parece depender da resiliência das instituições democráticas.

Não é possível saber de antemão como será aqui. Os tempos de dona Solange ainda não estão de volta. Mas as manifestações e as medidas tópicas tomadas pelo governo são como o gás que escapa lentamente de um vazamento sem que se dê muita atenção. Até que seja tarde demais.
Maria Hermínia Tavares de Almeida

Atendendo à chefia...

São agressões generalizadas, graves, e com a conivência do poder Público, do Estado. Parece que fizeram uma seleção de psicopatas, e deram o direito a eles se regozijarem nos presos – o que a gente vê é a banalização do mal
Servidor estadual descreve horror nos presídios do Pará implantado por agentes federais da Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária (FTIP) 

Bolsonaro não ficou nem saiu do PSL, e virou um OVNI político, perdido no espaço

O presidente Jair Bolsonaro conseguiu chegar à Presidência da República mediante uma série de circunstâncias, diria o grande filósofo e analista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Depois de chegar ao poder, porém, as circunstâncias mudaram muito e o presidente brasileiro enfrenta dificuldades cada vez maiores. Na política interna ou externa, seu amadorismo é cada vez mais surpreendente, porque formou uma péssima equipe e está pagando esse preço, porque não tem assessores qualificados que possam sugerir os caminhos mais seguros para trafegar. O resultado é patético.

Como toma as importantes decisões sem antes discuti-las, os resultados são patéticos e surpreendentes, A cada dia sai uma novidade (no mau sentido), como uma deselegância, um erro de avaliação, uma ofensa ou mesmo um desatino.


Não adianta esperar que o presidente da República aprimore seu comportamento, porque ele é assim mesmo, todos sabem que não irá mudar. Na verdade, Jair Bolsonaro não se comporta como presidente da República. Posiciona-se preferencialmente como chefe da família Bolsonaro.

Um bom exemplo é essa briga com o presidente do PSL, Luciano Bivar, que nunca foi, não é e jamais será referência. Bolsonaro tentou destruí-lo com uma declaração explosiva: “Cara, não divulga isso não. O cara tá queimado pra caramba lá. Vai queimar o meu filme. Esquece o Bivar, esquece o partido”, disse, sem entrar em detalhes.

E o motivo? Ora, tudo isso é porque Bivar não impediu que o líder do PSL no Senado, Major Olimpio, criticasse publicamente Flávio Bolsonaro e sugerido que deixasse o partido. Ou seja, Bolsonaro agiu como pai, ao invés de se comportar como presidente da República.

O resultado foi o contrário do que Bolsonaro esperava, porque caiu no centro da roda e começou a levar pancada de todo lado. Bivar acusa pessoas ligadas a Bolsonaro de querem controlar as finanças do PSL, o que significa uma maluquice total, enquanto Olímpio aumenta as críticas aos filhos de Bolsonaro, dizendo que eles são filiados como qualquer outro, o que é pura verdade.

Todos sabem que seu partido, o PSL, não é nenhum primor democrático, mas foi a legenda que o levou ao poder e se tornou a maior do país. Agora Bolsonaro está na berlinda, não saiu, mas também não é mais do partido, igual à Viúva Porcina, aquela que foi, sem nunca ter sido, na definição genial de Dias Gomes.

Ele pode trocar de partido mais uma vez, porém os deputados e senadores que elegeu não podem acompanhá-lo com facilidade, há regras na Lei Eleitoral a serem obedecidos. A chamada janela só se abre em 2022. Até continuará reinando a esculhambação.

A nova literatura de Brasília

Estamos tão acostumados com o surrealismo que impera na política brasileira que a revelação de que um procurador-geral da República pretendia assassinar um ministro do Supremo Tribunal Federal e depois se suicidar passa como uma espécie de anedota para a opinião pública. Mais uma dessas maluquices de Brasília.

Mas a verdade é que a revelação de Janot abre um novo capítulo naquilo que podemos esperar de nossos homens públicos. Imagine se cada desses protagonistas da história republicana recente decidisse publicar livros com relatos bombásticos? Aí sim valeria a pena ler, reler e guardar todos os jornais da semana. A Netflix teria que produzir minisséries em série — com o perdão do trocadilho. Ainda que eu esteja convencido de que poucos escritores de ficção teriam talento para superar o ex-procurador-geral, não posso deixar de imaginar o potencial dessas histórias. Eis alguns trechos que permitirão aos leitores saber quem está narrando.

No livro de um poderoso ex-deputado federal: “No dia da votação do impeachment, estava convencido que precisava garantir que o processo passasse para o Senado. Pedi que colocassem uma bazuca embaixo da mesa da presidência. Já havia negociado com todos os deputados que podia, mesmo assim ainda tinha medo de alguma mudança de lado na última hora. Então chamei um deputado com experiência militar e decidimos espalhar algumas bombas em locais estratégicos do plenário, just in case. Graças a Deus, não foi necessário utilizá-las.”

Nas memórias de um ex-vice-presidente: “Quando ele veio me visitar, temi que fosse me chantagear. Então pedi para que ficássemos na garagem de casa, para não haver testemunhas. Minha intenção era esconder seu corpo no porta-malas depois de assassiná-lo, já que não conseguiria arrastá-lo da sala até o carro. Sou um senhor de idade, entendam. Além do mais, poderia chamar a atenção dos empregados. No entanto, quando percebi que ele estava seguindo todas as minhas instruções, mudei de ideia. Ah, se eu soubesse que o safado estava nos gravando…”

Na biografia autorizada de uma ex-presidente: “Se tinha uma coisa que eu odiava, era quando ele me chamava de ‘querida’. Sério. Aquilo me tirava do sério. Mas fazer o quê? Sendo ele quem era, podia chamar a gente do que bem entendesse. Então, naquele dia que liguei para ele, aquele dia que eu ia chamá-lo para a Casa Civil, tinha certeza que a conversa estava sendo gravada. E eu sabia que ele ia me chamar de ‘querida’. Foi minha vingança. É como eu sempre digo: Mais vale um pássaro na mão do que um peixe que morre pela boca.”

Em “A Verdadeira História do Brasil”, de um ex-presidente-presidiário: “Isso eu nunca contei para ninguém. Guardei para esse livro. Antes desse escândalo todo começar, o tal juiz veio falar comigo. Pouca gente sabe disso. Eu o recebi no meu apartamento. Ele tinha uma proposta. Queria trocar a chácara pela minha liberdade. Queria tudo. Até os pedalinhos. Disse que se eu passasse a chácara para o nome dele, encerraria o processo. Expliquei que não era dono da chácara. Ele ficou maluco e começou a me perseguir. Veja você como funciona a Justiça no Brasil.”

E, finalmente, no romance “Meus Amores”, de um ministro do STF: “Naquele dia em que ele veio ter comigo, decidi que iria matá-lo e depois me suicidaria. Depois que li que essa também era sua intenção, percebi como somos parecidos. Nos aproximamos. Agora moramos juntos num apartamento funcional, em Brasília. Temos um labrador chamado Jairzinho e estamos muito felizes.”