quarta-feira, 6 de novembro de 2024

A mensagem das eleições

A mensagem destas eleições não seria a reformulação de implacáveis polos? Elas não apresentam o desejo de tempos mais igualitários e democráticos? Eleição que nas brutais cadeiradas e repugnante má-fé confirma nossa dificuldade de competir como iguais, vendo os adversários como alternativa, e não como inimigo?

O equilíbrio dos eleitores, comprovando que sabem votar, expressa a domesticação das dualidades negativas que vão dos “dois Brasis” — o desenvolvido e o subdesenvolvido — ao clássico e messiânico “litoral/sertão”; assenta-se na oposição da casa/rua, do sabido/trouxa e chega ao cósmico Fla-Flu de Nélson Rodrigues.

No meu entender, o resultado eleitoral estampa o velho “nem um nem outro”. É sinal dos estertores para a polarização, sempre embrulhada em redes de relações pessoais, entre uma esquerda santificada e pura, destinada a cuidar do povo pobre e do pobre povo, contra uma direita satânica, compromissada com o mercado e com o imperialismo ianque.

Ao sinalizar a recusa da polaridade negativa, esse resultado não seria revelador do elo moral escondido entre Lula e Bolsonaro? Sim, porque sem o Lula do petrolão, não haveria o Bolsonaro da negação e do golpe. A preferência para o “centro” mostra o esvaziamento das fórmulas tipo bala de prata esquerdistas e do caos “salvacionista” da direita.

O resultado das urnas não é um gesto de esperança da cura de nossa estadomania, estadolatria e estadopatia? A fé cega de que será exclusivamente pelo Estado que a sociedade, vista como errada ou doente, inviável ou feudal e torta pela tara de origem racial doentia, seria consertada? Corrigida e curada por seus luminares, donos das receitas legais que logo anistiam os desviantes em função de suas prerrogativas que reagem ao poder público.

Não seria o ajustamento entre costumes, práticas sociais, legislações e diretrizes públicas que os eleitores pretendem? Não seria uma mensagem de que os extremos são reais, mas podem ser complementares? Não seria essa humildade de ser eleito para o povo e não pelo povo, como manda o populismo?

Não seria este pleito municipal um voto devotado a eleger quem promete mais liberdade para trabalhar com autonomia individual? Com menos chavões ideológicos e ineficiência cartorial, como dizia Hélio Jaguaribe? Com mais competência e menos da pomposa burrice legal que facilita a malandragem burocrática dos jeitinhos e da grossa corrupção?

Menos Estado onipotente e mais sociedade com liberdade e consciência dos limites dos seus costumes? Não seria essa a aspiração de todos nós, cansados de legalismos que excluem os privilegiados — seres isentos e acima das leis?

Não seria a hora de domesticar o elitismo de direita e de esquerda e sair dos privilégios e dos palácios feitos por nobres, mas irresistíveis aos eleitos pelo povo? Não seria tempo de mais coerência jurídica, condenando os que usam a máquina do Estado para suas ambições? Não seria tempo de governar menos para a parentela, partido, ideologia; e mais para as carências das cidades e do povo anônimo, relevante apenas no período eleitoral?

Quando — parece presumir o resultado eleitoral — uma dessas figuras será mesmo enjaulada provando que a lei vale para todos?

Esta eleição inventou o “pobre de direita”, a expressão mais reacionária do direito de escolher vigente nos Estados Democráticos de Direito. A direita estigmatizada faz perna com o “pobre de esquerda”, que também tem seu ponto cego como todo posicionamento ideológico.

Aliás, cabe perguntar: quem é mais conservador? Os esquerdistas, que permanecem atados a sua fé nos “operários de todo o mundo, uni-vos”, ou este velho cronista, que simplesmente tem fé na obrigação de compreender os inesperados? As permanentes surpresas que destoam e sepultam nossas previsões e determinismos; e escancaram a surpreendente porta da História.

A eleitorcracia contra o mundo

Por muitos séculos, as tribos de seres humanos não percebiam que o mundo existia; cada grupo étnico se sentia único. Aos poucos, o mundo foi se transformando na soma-de-países diferentes que conviviam ou disputavam em guerras entre eles. O mundo passou a ser percebido maior do que cada país, mas suas populações não eram integradas.

Nas últimas décadas, o mundo ficou integrado econômica e culturalmente, diversas entidades foram sendo criadas para promover a cooperação entre países em fóruns internacionais. É muito recente a atual realidade em que cada país é um pedaço-do-mundo. A foto desde o espaço trouxe a percepção de que a Terra é um território unificado e com recursos limitados. O planeta deixou de ser apenas um conceito de astronomia e se transformou na casa de todos os humanos. As mudanças climáticas passaram a ser vividas em qualquer parte do globo, mostrando que a humanidade não é mais apenas um conceito filosófico. Pela primeira vez, os seres humanos perceberam que têm um destino comum que não respeita fronteiras nacionais. As migrações em massa mostram que a busca por sobrevivência não respeita as distâncias nem as fronteiras.


A Terra passou a ser uma casa e a humanidade, uma família, mas cada indivíduo se mantém ligado e fiel ao seu país. A política segue baseada nos interesses dos indivíduos organizados nos espaços nacionais e até regionais. Para o eleitor, o que interessa é qual será o melhor presidente para atender aos interesses de seu país nos próximos anos. No caso dos Estados Unidos, país decisivo no futuro do planeta e da humanidade, a eleição pode ser decidida pelos interesses dos eleitores do bairro de uma cidade, sem qualquer compromisso com o longo prazo do mundo.

O mundo ficou interligado, mas a democracia escolhe os dirigentes locais conforme as promessas dos candidatos para atender aos interesses da maioria dos indivíduos local e imediatamente. A democracia é, na verdade, uma eleitorcracia movendo os eleitores sem sentimento com a humanidade, sem compromisso com o resto do mundo, nem mesmo com povos que vivem em países vizinhos. Tampouco com os interesses da própria nação no longo prazo. Cada país é um pedaço-do-mundo, nenhum povo aceita decidir seu futuro com base em ser parte da humanidade, nem os de outro país, nem aqueles que ainda não nasceram no próprio país. Isso fica visível na aversão dos eleitores de cada país aos imigrantes, tanto os estrangeiros vindos de outros países quanto as gerações que ainda não nasceram. Sobretudo no momento em que a era da abundância deu lugar a uma era da escassez.

As eleições recentes nos Estados Unidos e na Europa mostram a visão míope da eleitorcracia. A fala e as atitudes dos candidatos, uns mais outros menos, têm de estar sintonizadas com os interesses dos eleitores para o presente em suas comunidades. O sonho nacional não foi substituído por um sonho humanista. A política segue vinculada ao tempo do mundo soma-de-países, e os candidatos são obrigados a fazer promessas colocando os desejos dos eleitores em primeiro lugar, sem considerar o suicídio implícito no longo prazo. Nos anos 1960, a corrida armamentista levou eleitores e eleitos dos Estados Unidos e da União Soviética a defenderem cada um deles, sabendo-se que, no longo prazo, se marchava para um suicídio da civilização. A catástrofe não ocorreu porque os governos tinham possibilidade de controlar o uso das bombas, mas nenhum presidente controla a ânsia de consumo e de ganância de cada cidadão, e o espírito tribal de proteger os privilégios que já dispõe contra os estrangeiros.

Diferentemente da bomba atômica, a bomba consumista é detonada por cada ser humano, controlando aos governantes pelo poder soberano do eleitor na eleitorcracia.

Os eleitores não escolhem o melhor presidente para fazer um mundo melhor no futuro, apenas o que melhora o seu ao redor nacional no imediato. A maioria dos eleitores não busca o melhor nem mesmo para o seu país como pedaço do mundo no longo prazo. A democracia não reflete o interesse do povo no futuro, apenas da maioria dos eleitores para hoje. Por isso, deveria ser chamada eleitorcracia.

Dificilmente a eleitorcracia vai definir regras nacionais para proteger o meio ambiente planetário no longo prazo. O emprego no presente pesa mais na decisão do eleitor do que o risco das catástrofes mundiais devido às mudanças climáticas. Por isso, os candidatos se aproximam na hora das propostas sobre imigrantes e meio ambiente. A eleitorcracia tem horror ao planeta, ao humanismo, ao futuro, aos estrangeiros, defende com lucidez os interesses imediatos e nacionais dos eleitores contra o resto mundo.

Pensamento do Dia


 

Assassinos louvados

Maria sabia que envenenava João, mas continuou na mesma trilha, sem alterar suas ações. Um outro João estava ciente de que, pouco a pouco, matava uma outra Maria, mas não mudou seu comportamento. Ainda um outro João divulgou mensagens falsas para esconder o fato de que, aos poucos, matava uma outra Maria. E muitos outros joões e marias seguiam na mesma trilha: conscientemente continuavam a matar outras marias e joões, mas alegavam que lhes era essencial continuar com as mesmas ações: questão de sobrevivência. Sobrevivência de quem, cara pálida?

Esses joões e essas marias acreditavam-se oráculos e, assim, se desculpavam, pois muitos os admiravam, pois a propaganda que faziam funcionava! Estes admiradores fechavam os olhos para as marias e os joões mortos ou moribundos e miravam apenas uma coisa que aqueles outros joões e marias queriam mostrar: the bottom line! Ou seja, dos muitos resultados decorrentes do comportamento daquelas marias e joões, só um interessava, só a um se dava importância. Como se algo tão vasto, complexo e importante como a qualidade da vida pudesse ser medido por apenas um número, o “resultado final” de uma contabilidade enviesada, que contabiliza apenas parte dos custos, socializando muitos outros. Tais como a fumaça do cigarro, a exaustão dos motores, as florestas queimadas, os peixes intoxicados, os rios assoreados e as zonas mortas nas suas fozes, o plástico em nossas veias, os químicos eternos nas nossas comidas, o arremedo de comida que nos envenena, o ar poluído que mata, a cada ano, mais que o holocausto!

Não obstante todos esses óbitos, o resultado trimestral apresentado às bolsas é o que mais importa, o que é mais louvado, como se tais resultados não decorressem, em larga medida, daquelas mortes e doenças.


São marcas de luxo que lucram com trabalho escravo, produtores de mercadorias que envenenam pessoas, extratores de recursos naturais que desequilibram o clima, vendedores de sonhos que convencem as pessoas a se endividarem para comprar coisas de que não necessitam, todo um conjunto de pessoas articuladas entre si que, comprovadamente, levam-nos, e mais ainda nossos filhos e netos, ao abismo.

Mas esses assassinos criam empregos, pagam impostos, desenvolvem tecnologias. Sem dúvida isso é verdade. Mas, quais empregos, aqueles que levam as pessoas a crises de burn out? E os impostos que pagam, superam os subsídios que recebem e os custos que não contabilizam? E as tecnologias que desenvolvem focam na ampliação do bottom line e em não contabilizar parte dos custos, que passam a ser rotulados de “externalidades”, “acidentes” e outros eufemismos! Menos de dez empresas gigantescas são responsáveis por mais da metade do plástico que destrói os oceanos!!

É triste constatar que convivemos com assassinos que, ao invés de processados e condenados, são louvados por grande parte da imprensa e dos políticos. Alguns diriam que é o mundo que se está a construir; outros, mais realistas, dirão que é a vida, inclusive a humana, que se está a destruir!

Repetição dos mesmos erros

Mesmo um exame superficial da história revela que nós, seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados, começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam. Temos botões de fácil acesso que, quando carregamos neles, libertam emoções poderosas. Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Deem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer - mesmo coisas que sabemos serem erradas.

Carl Sagan, "O Mundo Infestado de Demônios"

A última a morrer

Um estudo recentemente concluído nos Estados Unidos, com base em entrevistas a capelães de hospitais de regiões diferentes do país e de diversas origens religiosas, mostrou que a área religiosa e espiritual é fundamental para a recuperação e o bem-estar dos doentes, suas famílias e igualmente importante para o trabalho das capelanias que operam na saúde. Acresce que foram consultados capelães de origem cristã, judaica, islâmica e humanistas seculares.

Uma sondagem realizada em 2023 pela Universidade de Chicago já tinha revelado que mais de setenta por cento dos norte-americanos acreditavam no poder da oração, e associavam a frequência de serviços religiosos a um menor risco de morte, suicídio e abuso de substâncias, assim como a menor ocorrência de episódios depressivos.

As conclusões da investigação apontam para o facto de que os indivíduos com fé religiosa encontram dentro de si forças psicológicas significativas para enfrentar a doença e mesmo para a combater. E quando acabam por ser vencidos pela sua patologia, se acaso dispõem de acompanhamento espiritual, os seus últimos dias são frequentemente vividos com muito mais coragem e ânimo.


De facto, a oração (falar com Deus) tem um efeito diversificado conforme os casos, mas sempre eficaz, quando o próprio doente recorre a ela ou é alvo da oração de intercessão em seu favor por terceiros. A religião e a espiritualidade ajudam a superar sentimentos como o medo e o desespero em pacientes com doenças graves.

Aliás, os estudos em neurociências efectuados nas últimas décadas têm vindo a revelar que as crenças religiosas influenciam diretamente zonas vitais do cérebro, ao desencadearem um efeito que pode proteger os indivíduos contra quadros depressivos e sentimentos negativos como o desespero. Além disso sabe-se que duma forma geral a prática religiosa e a espiritualidade podem proporcionar a construção de significado e um sentido para a vida, e por isso abrir a porta à esperança.

Estas vantagens podem não se verificar apenas em contextos de fé religiosa tradicional, mas igualmente pela via das artes, do belo, do exercício físico, do contacto com a natureza ou por práticas culturais que vão ao encontro dos seus gostos e interesses.

O ser humano precisa de esperança ao longo da vida, muito em especial quando enfrenta uma doença grave ou se sente perante a proximidade inevitável do final do seu ciclo de vida. Caso contrário surgem inúmeros problemas emocionais, mentais e até físicos que redundam na perda da qualidade de vida, causada por exemplo pelas alterações do sistema imunitário.

A alternativa é desistir, entrar numa espiral de ressentimentos, auto-piedade, remorsos ou revolta, o que não leva a lado nenhum e apenas piora a experiência desses tempos de luta contra a doença, de convalescença ou de espera pelo desenlace final.

O ser humano parece ser o único ser vivo que tem consciência de que a sua existência física tem um fim. Os outros seres vivos respondem a um instinto de sobrevivência, têm noção dos perigos que correm ou de quando estão feridos, doentes ou se sentem enfraquecidos, mas não propriamente a consciência de que um dia desaparecerão deste mundo.

Só que esta certeza que todo o ser humano adulto possui carrega consigo implicações emocionais muito profundas. Desde logo a valorização dos seus dias, dos entes queridos e a preparação para o fim. As questões existenciais assumem assim uma relevância crescente à medida que a idade avança, ou que o corpo e a mente vão dando sinais crescentes de debilitação e perda de faculdades a cada dia que passa.

É por isso que a esperança deve ser sempre a última a morrer.

Trump afia as facas. Kamala é o sistema. E que está Israel a fazer na ONU, ainda?

1. Esta eleição americana será a mais dramática que já vivemos. Domingo passado vimos como Trump e a sua milícia afiam as facas contra a grande maioria de nós — mulheres, imigrantes, negros, muçulmanos, judeus —, com o apoio de metade dos Estados Unidos da América. Vimos aquela ilha de lixo ululante em pleno centro de Nova Iorque. No mesmo Madison Square Garden que em 1939 encheu com um comício nazi. O mesmo banal e letal barro humano, agora em direto para o planeta.

E no dia seguinte, com duas novas leis, o parlamento israelita fez o seu maior ataque às Nações Unidas, dentro da guerra geral que Israel trava na ONU desde a fundação. A primeira lei, aprovada por 92-10 votos, decreta o fim da UNRWA em todo o território israelita num prazo de 90 dias; a segunda, aprovada por 87-9, proíbe qualquer instituição do estado de colaborar com a UNRWA. Maiorias esmagadoras, que mostram (mais uma vez) como a degradação de Israel está longe de se resumir a Netanyahu. Mais de 20 deputados nem puseram os pés na votação. O mesmo pseudo-parlamento que persegue o jornalismo. E obriga os aliados internacionais a contorções diárias — ou ao silêncio — para manter o mito de que Israel é uma democracia.


2. A UNRWA foi, a partir de 1949, o que as Nações Unidas inventaram para lidar com a Catástrofe palestina, a Nakba, quando centenas de milhares tiveram de fugir das suas casas, depois da fundação de Israel. O único caso na História em que é criada uma agência de refugiados para um povo, supostamente provisória porque ia haver uma solução — mas nunca houve uma solução. Então, a UNRWA é o que o mundo inventou por ter abandonado um povo inteiro. Ao longo de todos estes anos deu comida, educação, teto e cuidados médicos a milhões a quem foram roubados os direitos humanos básicos, tantos nos países onde continuam refugiados palestinos (Jordânia, Líbano, Síria), como nos Territórios Ocupados (Jerusalém Oriental, Cisjordânia, Gaza). Uma tragédia por todas as razões, incluindo o fato de a máquina que garante a sobrevivência ser ela mesma, por isso, perpetuadora do mal. Ao longo de 22 anos fui testemunha, em todos os lugares onde a UNRWA atua, de como tantos palestinos dependem dela para viver. E ao mesmo tempo de como é terrível essa dependência, como viabiliza a ocupação. A ajuda da UNRWA desresponsabilizou Israel. Permitiu ao mundo fechar os olhos aos crimes da ocupação. E aos israelitas fechar ainda mais os olhos aos seus próprios crimes. Pois se alguém estava a manter os palestinos vivos o mundo podia seguir como se nada fosse. Visitas cristãs à Terra Santa. Paradas gay em Tel Aviv. Jovens bonitos na praia. Uma rave. Até que tudo isso foi pelos ares no 7 de outubro. Aí, pela primeira vez, muitos jovens no mundo viram o que era a Palestina do outro lado do muro. E viram o que era Israel, essa construção do Ocidente, quando tudo lhe é permitido. Quando o Ocidente se permite escolher as vidas que valem mais, começando pela sua, e a sua própria culpa.

A UNRWA é a má consciência do Ocidente. Foi muito útil a Israel, perito em dar de comer à máquina enquanto a vai destruindo. Mas com todas as críticas que possamos ter quanto à ONU, e aos aparelhos de ajuda que perpetuam os problemas, a UNRWA só existe porque o mundo nunca fez justiça aos palestinos. E com o holocausto em curso desde 7 de outubro, a maior obscenidade depois de todas as anteriores seria tirar aos palestinos a ajuda que têm. Não é simplesmente possível substituir a UNRWA agora, ou num futuro próximo. O que não impediu supostas democracias de cortarem apoios decisivos à UNRWA por em 30 mil funcionários, 10 ou 12 pessoas serem acusados por Israel de ligações ao Hamas. Uma percentagem ínfima, e milagrosa, tendo em conta as redes de estreita proximidade acentuadas pela ocupação, como sabe qualquer pessoa que conheça aqueles territórios. Uma investigação interna foi feita, 9 pessoas despedidas por poderem ter algum tipo de laços com o Hamas. Não bastou a Israel. Era preciso acabar de vez com ela. Estas duas leis fazem isso. Banir a UNRWA de Israel significa bani-la de Jerusalém Oriental, território que Israel anexou contra todas as resoluções internacionais, e onde milhares de famílias palestinas dependem da UNRWA. E a segunda lei, ao proibir qualquer colaboração israelita com a UNRWA, impede a chegada de ajuda a Gaza, porque as Forças de Defesa de Israel não vão poder coordenar isso com a UNRWA. Salários e despesas não poderão ser pagos com bancos israelitas. Milhões de palestinos deixarão de ter escola, comida, cuidados médicos.

Há muitas formas de matar. Por exemplo, o mais conhecido “jornalista” da TV israelita há dias vibrou ao ser convidado a carregar no botão para fazer explodir um edifício no Líbano. Outros carregam no botão estando no parlamento. Mandam uma agência das Nações Unidas pelos ares. Chamam-lhe terrorista. Proíbem o secretário-geral de entrar em Israel. Insultam-no, não lhe atendem as chamadas. Isto está a acontecer desde 7 de Outubro. Ao mesmo tempo que Israel continua sentado nas Nações Unidas. A mesma organização que espezinha. A fazer o quê, mesmo?

O que é que falta para as outras nações tratarem Israel como o estado pária que é? Para Israel, enfim, aprender o que é um limite? Ou a ideia é as Nações Unidas afundarem-se com Israel?

3. Antes de começar esta crônica fui (de novo) à procura da reação de Kamala Harris ao facto de a UNRWA ser banida. E (de novo) vi a cara consternada (na linha Blinken) do porta-voz do Departamento de Estado a dizer que os EUA estavam “deeply troubled” com a decisão de Israel. De tanto “deeply troubled”, os EUA estão já enterrados até às orelhas, o que não os impede de continuarem a mandar bombas. Quanto às declarações de Kamala, não achei nada. Está com certeza deeply troubled, mas em campanha. E como foi claro desde a convenção do Partido Democrata, Kamala em campanha não tem qualquer visão além do que vinha de Biden, e de antes, apesar de esta campanha pedir mais visão do que nunca. Na convenção, Kamala desprezou os não-alinhados que lhe pediram algo tão simples como uma voz palestina-americana no palco a falar por Gaza. Desprezou os apelos ao embargo de armas. Desprezou a quantidade de muçulmanos americanos, e de jovens eleitores americanos em geral, que pediam um gesto real pelo cessar-fogo, em vez de conversa para boi dormir. E parece não entender que isso lhe vai custar votos preciosos.

A seguir à convenção, um amigo que mora nos EUA contou-me uma conversa com amigos do filho. Jovens americanos de classe média, que vão votar pela primeira vez na terça-feira. Perguntou-lhes em quem votariam. Ouviu esta resposta: Gaza vai decidir o nosso voto.

4. Torço para que Trump, proto-ditador e criminoso já condenado, perca as eleições e a derrota não seja violenta. Penso nos milhões de pessoas que estão, e estarão, sob a ameaça das tropas trumpianas. E é por tudo isso, e não apesar disso, que lamento ainda mais o que Kamala não disse e não fez desde que Biden abdicou. O fato de Trump ser tão mau não torna melhor a incapacidade de Kamala. Claro que ela é melhor do que ele, será certamente muito melhor para as mulheres e muitos imigrantes na América. Mas ficou tão aquém do que se podia esperar dela num momento histórico. Kamala continua o sistema na versão mulher não-branca e jovial. Não deu o passo entre o passado e o futuro. A generalidade do Partido Democrata não parece ter dado. Só podemos esperar que o venham a dar, com muita gente a lutar por isso.

Entretanto, o retrato do mundo é aquela bandeira das Nações Unidas derrubada, junto com um edifício da UNRWA, durante mais uma operação do exército de Israel.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Por que apoiadores de Trump também devem ter cautela se ele voltar ao poder

Não sei quem vencerá a eleição presidencial. Ninguém sabe. Mas há, obviamente, uma chance substancial de que Donald Trump retorne ao poder. Estou preocupado com o nosso país e com o que minha própria vida seria sob um segundo mandato de Trump. E você também deveria estar.

O primeiro mandato de Trump, no qual nossa democracia permaneceu relativamente intacta, é um mau modelo para o que acontecerá se ele conseguir um segundo. As barreiras que o contiveram da última vez desapareceram. Se ele recuperar o poder, esta pode muito bem ser a última eleição mais ou menos livre e justa da América por um longo tempo.

E então? Alguns sugeriram que podemos estar caminhando para uma "autocracia suave" como a de Viktor Orban na Hungria, na qual o partido governante mantém o poder manipulando eleições, controlando os tribunais e silenciando a mídia, em vez de através de repressão violenta.

Deveríamos ter tanta sorte.


Há muitas razões para pensar que Trump e seus apoiadores mais fervorosos estão ansiosos para usar a violência contra seus oponentes: Quase quatro anos atrás, uma multidão violenta desceu sobre o Capitólio dos Estados Unidos e tentou reverter os resultados da última eleição presidencial. Mais recentemente, Trump, que chamou seus adversários políticos de "vermes", sugeriu usar nosso exército contra "o inimigo interno".

Na semana passada, ele criticou as visões belicistas de Liz Cheney —que endossou Kamala Harris— e então fantasiou: "vamos colocá-la com um rifle ali" e ver como ela se sentiria "quando as armas estivessem apontadas para o rosto dela". No domingo, em um comício, ele declarou que alguém tentando pegá-lo "teria que atirar através das notícias falsas e eu não me importo tanto com isso."

Também é importante perceber que Trump não precisaria usar o exército contra cidadãos americanos para criar um clima de medo e repressão. Tudo o que ele teria que fazer é tacitamente conceder permissão aos muitos extremistas que estão entre seus apoiadores para agir como vigilantes.

Ainda assim, você pode imaginar que, mesmo se a América se tornar "Magafield", você não estará pessoalmente em risco. Se é isso que você acredita, talvez queira reconsiderar.

No final, não importará se você não está vivendo ilegalmente nos EUA ou se é porto-riquenho ou um democrata vocal.

Você trabalha para uma organização de notícias? A menos que seu veículo tenha sido um torcedor fervoroso dele e de sua agenda, Trump considera você um "inimigo do povo". E o apoio deve ter sido alto; Trump até acusou a Fox News de ser "fraca e suave com os democratas."

Você trabalha em uma agência estatística do governo? Alegações falsas de que números que o Maga não gosta são fraudulentos agora são prática padrão republicana. Se, como sugerem pesquisas de economistas, as políticas de Trump se mostrarem altamente inflacionárias, eu não ficaria nem um pouco surpreso se houver uma purga no Bureau of Labor Statistics, com funcionários civis profissionais sendo forçados a sair e substituídos por leais que produzirão números mais favoráveis.

Você é bibliotecário? Não precisamos especular aqui: uma vez membros universalmente amados de suas comunidades, muitos bibliotecários já enfrentaram assédio e ameaças de direitistas que querem banir livros que não gostam. Espere que isso piore muito se Trump assumir o poder.

Você é médico? Agora que Trump diz que dará a Robert Kennedy Jr. um papel importante na política de saúde —"Vou deixá-lo enlouquecer na saúde", ele disse— em algum momento você pode estar se colocando em risco se, por exemplo, administrar vacinas ou até mesmo dar conselhos aos pacientes com base na melhor ciência médica.

Você é um empresário que tenta se manter fora da política? Mesmo que eu esteja errado ao supor que Trump seria pior que Orban, considere que grande parte da economia da Hungria foi tomada por capitalistas de compadrio com laços com o partido governante.

Você é bilionário? Você pode pensar que sua riqueza o protegerá. Na verdade, no entanto, isso o torna um alvo, e um alvo fácil, dada a amplitude de seus interesses comerciais. Alguns dos ultra-ricos parecem estar percebendo isso; minha impressão é que pelo menos alguns passaram da ganância (Trump vai cortar meus impostos) para o medo (é melhor não criticá-lo, ou ele pode retaliar).

Finalmente, você é um apoiador de longa data de Trump? Movimentos radicais que tomam o poder muitas vezes acabam devorando os seus próprios. Às vezes isso acontece porque eles não eram radicais o suficiente —eram como John Kelly, que foi um dos secretários de Segurança Interna de Trump e um de seus chefes de gabinete da Casa Branca, mas agora descreve Trump como "um autoritário" que "certamente se enquadra na definição geral de fascista."

Às vezes, no entanto, antigos apoiadores acabam punidos simplesmente porque estavam do lado errado de uma luta interna pelo poder.

Em suma, a América pode estar prestes a se tornar um lugar muito sombrio. E aqueles que imaginam que suas vidas simplesmente continuariam como antes, intocadas de qualquer maneira significativa pelo potencial medo e caos, estão cometendo um grande erro.

Pensamento do Dia

 


Breve nota sobre a idolatria

A idolatria foi condenada por três religiões diferentes – e nem sempre convergentes – como um dos piores pecados que um ser humano pode cometer. A Bíblia, a Tora e o Alcorão convergem nisso sem a mais pequena reserva. O homem que idolatra não admira com fundamento: adora com fanatismo e vê, nos que ponham reservas a tão aquecida paixão, um inimigo arrogante, um desmancha-prazeres e um convencido. Quiçá um herético ou um infiel a abater. A idolatria renega o equilíbrio, a saúde mental e o sentido crítico.

Sobre a idolatria, o grande dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw, disse várias coisas saborosas, entre elas, esta: “O selvagem dobra-se diante ídolos de madeira e de pedra, o homem civilizado, diante de ídolos de carne e osso.”

A nossa vida intelectual, depois de quarenta e seis anos de democracia e de muitas décadas de saudável pedagogia libertadora de um António Sérgio, vive ainda no comprimento de onda da mais provinciana e infecunda idolatria, como se torna evidente com a histeria obituária que por aí se despenha, de cada vez que se assinala o passamento de um vulto de algum modo mais destacado, no nosso meio cultural. A falta de perspectiva e de aconselhável comedimento que então nos assola é simplesmente assustadora. Uma avaliação honesta, modesta, comedida, e fora das ejaculações mais intemperadas é considerada inveja, mau feitio e desmancha-prazeres. O cronista A, o romancista B, o poeta C, o filósofo D são, no mínimo, verdadeiros gigantes, só que ninguém dá por eles, nos verdadeiros areópagos. Há nesta loucura não tão mansa como isso algo de muito doentio: uma espécie de sobrecompensação para a nossa pequenez e relativa pouca relevância internacional. Debita-se para aí uma ladainha de Bandarra, com promessas férvidas de triunfos que nos compensem de infortúnios pretéritos. Escrevemos então o melhor romance dos últimos cem anos, um poema tão grande como os Lusíadas e temos, entre nós, o melhor filósofo dos últimos três séculos ou mesmo de sempre. E fazemos uma festa com grande espalhafato, que só não nos torna mais ridículos porque ninguém, lá fora, dá por isso.

Na África do Sul, na língua Afikander, há uma palavra capitosa que significa um peixe considerado grande porque habita num lago pequeno. Se eu fosse linguista, inventava, em português, um vocábulo que se ajustasse a este conceito. Teríamos bom uso para ele.

O pior das idolatrias é que são um terrível entrave ao progresso do conhecimento. Este sempre se fez de um necessário acolhimento à contradição e ao encontrar sucessivo de melhores respostas para as nossas perplexidades. A admiração não faz mal, mas o embevecimento é de mau aviso. Além do mais, o idólatra tende a reduzir o diâmetro do foco da sua atenção: só vê o idolatrado e nada mais à sua volta ou para trás, numa espécie de “criacionismo” que a ciência de há muito rejeita.

Para terminar, direi que o Portugal de Bento Caraça, de Aniceto Monteiro, de Aurélio Quintanilha, de Tiago Oliveira, de António Sérgio, de Sílvio Lima, de Jaime Cortesão, de Raul Proença, de José Régio, de Rui Luis Gomes, de Abel Salazar, de Jorge de Sena e de tantos bons argonautas da Seara Nova não merece que lhe suceda um Portugalinho idólatra, provinciano, unânime e contente. Alguém dizia que um Professor é um cavalheiro de opinião diferente. Um verdadeiro pensador, um verdadeiro investigador, um verdadeiro artista criador é também isso mesmo: um cavalheiro de opinião diferente A idolatria não acolhe a opinião diferente e é sempre um triste sinal de atraso. Por mim, enquanto o vigor me não abandonar, terei sempre muito orgulho em pertencer à tribo dos cavalheiros de opinião diferente. Até porque, mesmo com a minha provecta idade, não quero ficar parado.

Eugénio Lisboa

Educar para a paz

É muito mais fácil educar os povos para a guerra do que para a paz. Para educar dentro do espírito bélico, basta apelar para os seus instintos mais primitivos. Educar para a paz implica ensinar a reconhecer o outro, a ouvir seus argumentos, a entender suas limitações, a negociar com ele, a fazer acordos. Essa dificuldade explica por que os pacifistas nunca contam com a força suficiente para ganhar… as guerras
José Saramago, "As palavras de Saramago"

A primeira classe também cai

A tortura de quem escreve para o público é a véspera, quando bate o fantasma da repetição. Desde anos atrás, toda a imprensa do mundo discorreu sobre um confuso conceito de “populismo” todos os dias do ano. Nomes como Nicolás Maduro (Venezuela), Daniel Ortega (Nicarágua), Viktor Orbán (Hungria), Recep Erdogan (Turquia) e Narendra Modi (Índia) se espicharam nos sofás de nossas salas e nada faz crer que tão cedo consigamos apontar-lhes o caminho da rua. A tentativa russa de massacrar a Ucrânia e a guerra de Israel contra os grupos terroristas mantidos pelo Irã vieram complementar e elevar à enésima potência a tortura do “populismo”.


No Brasil, temos vivido sob o fantasma da “crise fiscal”. Fantasma, sandice, dê-se-lhe o nome que se quiser, mas no fundo a questão é muito simples. É uma batalha diária para equilibrar a receita e a despesa, proeza quase irrealizável, uma vez que enchemos um prato da balança com gastança e desperdício e o outro com irresponsabilidade, miopia e falta de coragem para reformar a máquina do Estado. Esse quadro infesto, praticamente sinônimo de estagnação, já deveria ser suficiente para meter medo, não fora toda a tragédia que ele oculta. Discorrer sobre o sistema de ensino, a quase metade das residências sem conexão com as redes públicas de esgoto, e a chusma de quase desocupados que recebem supersalários em Brasília é perda de tempo. Nesta semana o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) afirmou que, no frigir dos ovos, “o tributo é o mesmo para assalariados e ultrarricos” ( Estadão, 30/10). Divulgou-se também que cerca de 1,5 milhão de habitantes da maior cidade do Brasil e da América do Sul mal consegue comer.

Crise fiscal: o termo indica que estamos nos contorcendo para obrigar a receita e a despesa a andarem juntas. Nossas autoridades, com as exceções de praxe, odeiam o capital privado, doméstico ou internacional, e se recusam a adotar um modelo econômico mais aberto ao exterior. Já seria surrealista se elas se desapegassem da fixação, originária da Revolução de 1930 e da ditadura varguista, de que um país só é autônomo e digno de respeito se conseguir promover o crescimento valendo-se basicamente de empresas públicas. No mês passado, o economista Maílson da Nóbrega e João Pedro Leme, ambos da Tendências Consultoria, publicaram neste jornal um primoroso artigo mostrando que nas condições atuais, e principalmente com as regras orçamentárias plantadas na Constituição de 1988, poderemos chegar a uma “severa crise fiscal” num prazo relativamente curto. Com essa formulação relativamente branda, os autores, consciente ou inconscientemente, indicaram que a crise decorrente de uma “crise severa” pode ser uma catástrofe social. Foi seguramente para nos trazer algum alívio que o economista Gustavo Franco, um dos pais do Real, sugeriu que a situação de médio prazo pode melhorar se devotarmos quantias bem maiores à área do saneamento. Así lo quiera Dios! O que não podemos é fugir de uma verdade que qualquer criança de 12 anos conhece: a primeira classe também cai. Não há notícia de uma aeronave cuja parte anterior tenha despencado sem levar consigo a da frente, com o piloto no seu lugar, conduzindo-a como sempre faz, voando lépido e fagueiro.

Parece-me essencial acrescentar uma consideração mais ampla ao que acima vai exposto. Existem fortes indícios de que nós, brasileiros, estamos perdendo uma parte importante de nossa capacidade de pensar. Em tempos idos, podíamos nos dar o direito de sermos ingênuos, pois toda a nossa mediocridade parecia ter aqui aportado nos porões das caravelas portuguesas. A lavoura canavieira produzia praticamente todo o açúcar de que o mundo demandava, os senhores de engenho constituíam uma primeira classe inexpugnável. Com o ouro foi um pouco diferente, mas depois o café reeditou o enredo canavieiro. Supriu café suficiente para satisfazer quase todo o mundo, mas não teve fôlego para sustentar a competição com outros centros produtores que surgiam por toda parte. O jeito foi o Estado bancar o estrago e encaixar os proprietários daqueles magníficos palacetes da Avenida Paulista nos altos escalões do Estado. Fórmula de pouca duração que deixou em seu rastro um grave conflito entre regiões produtoras e não produtoras e, finalmente, a contrafação batizada como Revolução de 1930.

Hoje, tentar compreender a mentalidade que emergiu de tudo isso parece nos causar tédio. Caminhando para lá e para cá como sonâmbulos, nós hoje nem nos damos conta de que o cenário externo não é reconfortante. Embora tenhamos escapado de uma recessão global em 2024-2025, o Panorama Econômico Global do Fundo Monetário Internacional (FMI) faz um enérgico alerta quanto aos riscos de baixar a guarda: ao contrário, afirma, é hora de fortalecer os fundamentos para o crescimento futuro.

O fecho destas reflexões só pode ser a radicalização política nos Estados Unidos e a possível reeleição de um senhor já unanimemente condenado por golpismo político e obcecado pelo protecionismo.

E se o racista for seu filho ou sua filha?

Esse é um texto que eu ensaiei escrever algumas vezes. A vontade ficou latente quando estourou um caso de racismo em uma escola de classe média alta de São Paulo. O caso ganhou especial repercussão, pois a vítima era filha de uma atriz brasileira. E, mesmo assim, a questão central foi menos sobre os cuidados que a menina discriminada deveria receber e mais sobre o que fazer com as jovens que cometeram o ato racista.

Não há dúvidas que é fundamental questionar e balizar como o papel educativo e pedagógico de uma escola deve funcionar em situações como essa. Mas é também de um racismo atroz constatar que, no frigir dos ovos, o debate público passou da saúde mental e emocional da menina negra para ficar totalmente centrado na intensidade da sanção que as meninas brancas deveriam (ou não) receber.

Poucos meses depois, um jovem negro estudante de outra escola da elite paulista cometeu suicídio por não ter conseguido suportar os inúmeros bullyings que sofria por ser quem era: um menino negro, homossexual e pobre, que havia entrado na escola por conta de ações afirmativas. Ao invés dessa tragédia ajudar a fomentar um debate mais aprofundado sobre saúde mental na adolescência, e suas interseções de raça, classe e sexualidade, o que vimos foi o silêncio costumaz da escola – que, na época, sequer fez um pronunciamento digno – e a oportunidade espúria para criticar as políticas de ação afirmativa, mais especificamente as cotas raciais. O recado dado por importantes representantes da elite paulistana foi: o apartheid racial, social e econômico da cidade mais rica do Brasil deve ser mantido.


Mas foi agora, quando minha filha chegou com queixas da escola, que resolvi escrever. Isso porque há algumas semanas me vi obrigada a sentar com uma menina de 7 anos – que há pouquíssimo tempo começou a questionar a existência de Papai Noel – e explicar que, sim, ela foi vítima de racismo. Em meio à violência da qual o racismo se alimenta, eu tive que explicar para ela que o cabelo dela não é feio, e que ela não foi a primeira (e infelizmente, não será a última) criança a ser zombada por seus colegas por conta do seu cabelo.

Confesso que, apesar de achar que conheço relativamente bem o modo como o racismo se expressa, não esperava que ela passasse por essa situação. Como o cabelo dela é muito menos crespo que o meu, acreditei que ela estaria a salvo dessa discriminação.

Inocência a minha.

Num universo marcado por crianças brancas de cabelos lisos ou anelados, o cabelo da minha filha é suficientemente crespo para ser alvo de racismo. Então, para tentar apaziguar o choro e a indignação dela, falei justamente isso: "você não é a primeira menina negra a viver isso". Eu mesma passei pela mesma situação, exatamente na mesma idade e num contexto muito semelhante: ser uma das poucas alunas negras numa escola branca da classe média alta e progressista. E para ela entender o que aconteceu e acontece com outras muitas meninas (e meninos) negras, peguei um pacote de bombril e disse: "era isso que diziam que meu cabelo parecia".

Obviamente eu fiquei muito tocada e afetada pela repetição das nossas histórias, a minha e da minha filha. E cheguei a ensaiar um texto para os pais da escola, porque não considero justo que a bomba do racismo estoure apenas no meu colo. Afinal de contas, se a minha filha está sofrendo esse tipo de racismo, é porque crianças estão sendo racistas com ela. Só que o problema é que esse cenário descrito não é exceção, mas a regra. E uma regra de história longa.

Essa situação me fez lembrar do início do livro Almas da Gente Negra, no qual um dos mais proeminentes sociólogos do mundo, o estadunidense W.E.B Du Bois, conta que foi na infância, interagindo com crianças brancas, que ele foi apresentado ao racismo. Uma situação que atravessou o século 19, o século 20 e chegou ao 21, como bem demonstra um vídeo feito pelo Criança Esperança, no qual, em meio a uma dinâmica, meninas e meninos negros são "convidados" a dizer frases abertamente racistas. Eles recusam o convite não só por acharem as frases erradas, mas também porque aquelas frases os faziam lembrar de situações racistas que passaram junto a seus pares, crianças brancas.

Esse é um ponto sobre o qual devemos falar: crianças podem sim ser racistas. E isso pode acontecer independentemente da consciência racial dos pais dessa criança. E, embora o racismo não esteja inserido no código genético de ninguém, ele é ensinado e aprendido desde a mais tenra infância. Como sabemos, as crianças são excelentes observadoras e absorvem conhecimento de uma maneira invejável. Então, se elas vivem num mundo racista (e sim, todos nós vivemos), o racismo será algo que elas vão aprender.

Geralmente o primeiro passo dessa aprendizagem começa com um estranhamento das desigualdades (algo bonito de ver): "por que só vejo famílias negras pedindo dinheiro nas ruas? ", ou "por que na minha escola tem poucos negros?", "como é que deixaram a escravidão existir?". Essas são frases que alguns dos meus amigos brancos já tiveram que responder para seus filhos e filhas.

No entanto, mesmo com as respostas que reforcem que "somos todos iguais e devemos ser tratados da mesma forma" não é isso que o mundo informa às nossas crianças. E, aos poucos, a diferença vai sendo naturalizada como desigualdade, e o racismo vai turvando nosso olhar.

Tudo isso para dizer aos pais e mães de crianças brancas que vocês têm um desafio enorme nas mãos. E por mais que esse seja mais um trabalho dentro das inúmeras tarefas da maternidade/paternidade, não se furtem, porque ele valerá à pena. Também cabe a vocês a construção de uma sociedade menos racista. E isso pode começar com seus filhos e filhas.

O post-it do momento nos Estados Unidos é dirigido às mulheres

Uma mulher colou um bilhete na porta de seu salão de cabeleireiro na Carolina do Norte. Outra pressionou-o na parte de trás de uma caixa de absorventes no Arkansas. Uma terceira pendurou o bilhete no espelho de um banheiro feminino em um aeroporto de Ohio. “De mulher para mulher”, diz o bilhete. “Ninguém vê seu voto nas urnas.”


Em estados indecisos, em redutos republicanos, em campus universitários e em arenas esportivas, post-its surgiram lembrando às mulheres que seus votos são secretos, mantidos em sigilo até mesmo e especialmente dos homens de suas vidas, conta o jornal The Washington Post.

Nos últimos dias da corrida presidencial, o que começou como uma campanha de sussurros feita por mulheres e para mulheres, tornou-se assunto de um anúncio de 30 segundos, amplificado por gigantes democratas como Michelle Obama.

Pesquisas mostram uma divisão entre como homens e mulheres planejam votar, e em uma eleição que provavelmente será decidida nas margens, Harris precisa que as mulheres — mesmo as que estão namorando ou são casadas com apoiadores Donald Trump — compareçam em massa para votar nela.

“Seu voto é uma questão privada, independentemente das visões políticas de seu parceiro”, disse a ex-primeira-dama Michelle Obama no final do mês passado em Kalamazoo, Michigan. “Você pode usar seu julgamento e votar.”

“Você pode votar de acordo com sua consciência e nunca ter que dizer uma palavra a ninguém”, disse a ex-deputada republicana Liz Cheney, que apoia Harris, em um evento nos arredores de Detroit em 21 de outubro. “E haverá milhões de republicanos que farão isso em 5 de novembro.”

Um anúncio digital de 30 segundos sobre o assunto atraiu o desprezo particular da direita. Narrado pela atriz Julia Roberts, o anúncio mostra uma mulher chegando às urnas com um homem que parece ser seu marido. Ela entra em uma cabine sozinha, olha nos olhos de outra mulher e sorri. Então, vota em Harris.

“Você fez a escolha certa?” – o homem pergunta enquanto ela se afasta. “Claro que sim, querido”, responde a mulher, usando um chapéu com uma bandeira americana. “Lembre-se: o que acontece na cabine, fica na cabine”, conclui o anúncio.

Muitos conservadores proeminentes acharam o anúncio ofensivo. Charlie Kirk, que lidera o grupo jovem pró-Trump “Turning Point USA”, chamou-o de “a personificação da queda da família americana”. O apresentador da Fox News, Jesse Watters, disse que sua mulher votar secretamente em Harris seria o equivalente a ela “ter um caso”.

“É questionável, é um insulto”, afirma Jayme Franklin, cofundadora do Conservateur, uma marca de mídia e estilo de vida para mulheres conservadoras. “Como uma mulher casada, entendo o quão importante é a união e a confiança dentro de um casamento, e a campanha de Kamala promovendo mentiras é decepcionante”.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Educar para a democracia

Os olhos do mundo estão voltados para a eleição de amanhã na maior economia do planeta e a possibilidade de vitória de um candidato que já demonstrou nenhum apreço pelas regras do jogo democrático causa temores de que a agenda populista e autoritária ganhe ainda mais impulso global.

Relatório deste ano do instituto V-Dem, vinculado à Universidade de Gotemburgo (Suécia), mostrou que a parcela da população mundial vivendo em países que se autocratizaram superou aquela habitando em nações que se democratizaram nos últimos 15 anos. Não se trata, portanto, de um fenômeno local, e para combatê-lo é fundamental refletir sobre o papel da educação na construção e preservação de uma cultura de convivência democrática.

Uma primeira constatação a ser feita é que a ampliação dos níveis de instrução não é garantia suficiente de que um país se torne mais democrático e tolerante. Apenas para ficar em um óbvio exemplo histórico, o nazismo foi germinado no início do século passado numa das sociedades mais escolarizadas da Europa à época. E o trauma da experiência do nazismo parece não ter gerado um aprendizado categórico da sociedade.


Hoje, seguindo uma receita similar — com ingredientes como a desinformação, discursos de ódio, enfraquecimento da confiança na ciência e no progresso e atitudes antiestablishment — a extrema direita recrudesceu tanto em países desenvolvidos quanto em nações pobres.

Com efeito, precisamos discutir sobre qual modelo educacional pode ser eficaz para garantir o desenvolvimento pleno de cada pessoa, incluindo tanto a formação para uma cidadania ativa e convicta dos valores democráticos como a preparação para o mercado de trabalho, em acelerada transformação.

O livro de François Dubet e Marie Duru-Bellat, “A escola pode salvar a democracia?”, de 2020, afirma que “a confiança na educação de massas não diz respeito apenas ao progresso na igualdade e ao aumento das competências dos estudantes. Diz respeito, também, à transmissão da cultura e dos valores democráticos. (...) Essa confiança baseia-se na crença de que a escola, ao mesmo tempo, educa e instrui”. Hoje, precisamos avaliar, enquanto sociedade, em que medida essa confiança está abalada.

Para além disso, supomos que a equidade no ambiente escolar é também parte importante dessa estratégia, pois altos níveis de desigualdade são prejudiciais às sociedades democráticas, por dificultarem, entre outros fatores, a construção de confiança mútua, a participação social, o respeito e a valorização da diversidade.

Como afirmou a professora e ativista norte-americana bell hooks, “temos de trabalhar para encontrar maneiras de ensinar e compartilhar conhecimento de modo a não reforçar estruturas existentes de dominação (hierarquias de raça, gênero, classe e religião). A diversidade de discursos e de presenças pode ser bastante valorizada como um recurso que intensifica qualquer experiência de aprendizado”.

Estratégias em que a educação contribua para o fortalecimento de uma sociedade democrática não deveriam ser conflitantes com o desenvolvimento de capital humano. A princípio, a economia tende a ganhar com o fortalecimento da democracia, como demonstraram, em artigo de 2019, os pesquisadores Daron Acemoglu, James A. Robinson, Pascual Restrepo e Suresh Naidu, ao constatarem que a democratização aumenta o PIB per capita em cerca de 20% no longo prazo. Os dois primeiros autores foram laureados neste ano, junto com Simon Johnson, com o Nobel de Economia.

No livro “O Corredor Estreito” (2020), Acemoglu e Robinson também argumentam que, se é verdade que o Estado precisa ser forte para manter a paz e fomentar o crescimento, é igualmente fundamental uma sociedade forte e mobilizada para controlar e limitar seus excessos. Isso só se faz com uma cidadania crítica e ativa.

A aquisição de conhecimentos essenciais básicos e o desenvolvimento de habilidades mais sofisticadas — como o pensamento crítico e o raciocínio analítico dedutivo — são fundamentais para que os cidadãos sejam mais capazes de entender fenômenos complexos e façam melhores escolhas individuais e coletivas. Mas a formação para a democracia exige mais do que isso. É preciso praticar a resolução de conflitos, a habilidade para conviver com argumentos divergentes e o debate qualificado desde cedo.

Isso não se faz por transmissão de conhecimento. Por definição, a escola pública é o local do convívio com as diferenças. Conflitos vão sempre existir, mas a maneira como os processamos é que pode diferenciar experiências autoritárias das democráticas.

Felizmente, temos experiências pelo Brasil de escolas que conseguiram melhorar seus indicadores de convivência e aprendizagem sem apelar para falsas soluções autoritárias. Precisamos que a escola seja uma instituição que fortaleça a democracia, assegure o desenvolvimento cognitivo, emocional e social e promova a cidadania. O caminho passa por aqui.

'Não somos militares. Por que estamos sendo atingidos?'

Quando o ataque aéreo aconteceu, Mohammed estava distribuindo comida quente para vizinhos idosos — algo que ele e seus amigos vinham fazendo desde a última invasão israelense ao Líbano, em 1º de outubro.

O engenheiro civil, de 29 anos, estava a cerca de 5 metros da explosão, que destruiu uma casa em sua aldeia no sul do Líbano.

Camadas de pele foram queimadas de sua testa e bochechas, deixando seu rosto cru e rosado. Suas mãos estavam carbonizadas. Seu abdômen tem queimaduras de terceiro grau. Duas semanas depois, ele irradia dor e trauma, mas quer contar sua história.

“Estava tudo preto, fumaça por todo lado”, ele diz em voz baixa. “Demorou cerca de um minuto. Então comecei a reconhecer o que estava ao meu redor. Percebi que meus dois amigos ainda estavam vivos, mas sangrando muito. Demorou cerca de cinco minutos para as pessoas nos tirarem de lá.”

Mohammed relata os horrores de sua cama no hospital governamental Nabih Berri, que fica no topo de uma colina em Nabatieh. É uma das maiores cidades do sul, e fica a apenas 11 km (sete milhas) da fronteira com Israel, em linha reta. Antes da guerra, era o lar de cerca de 80.000 pessoas.

Mohammed diz que não houve nenhum aviso antes do ataque – “de forma alguma, nem para nós, nem para nossos vizinhos, nem para a pessoa dentro da casa que foi atingida”.

Essa pessoa era um policial, ele diz, que foi morto no ataque.

“Não somos militares”, ele diz, “não somos terroristas. Por que estamos sendo atingidos? As áreas que estão sendo atingidas são todas áreas civis.”

Mohammed retornará para casa, para sua aldeia, Arab Salim, quando for liberado, embora ela continue sob fogo. “Não tenho mais para onde ir”, ele diz. “Se eu pudesse [sair], eu iria. Não há lugar.”

Enquanto circulamos pelo hospital, outro ataque aéreo faz com que a equipe corra para uma sacada, para verificar o que foi atingido dessa vez. O hospital oferece uma vista panorâmica da fumaça cinza saindo de um terreno alto a cerca de 4 km de distância.

Pouco depois, alguns andares abaixo, na sala de emergência, o lamento de uma sirene avisa sobre a chegada de vítimas – daquele ataque aéreo. Ele atingiu a vila de Mohammed, Arab Salim.

Uma mulher é levada às pressas em uma maca, com sangue escorrendo pelo rosto. Ela é seguida pelo marido, que bate na parede em frustração antes de cair em choque. Os médicos desaparecem atrás de portas fechadas para examiná-la.

Em poucos minutos, o diretor do hospital, Dr. Hassan Wazni, informa à equipe que ela tem uma artéria rompida e deve ser transferida para um centro vascular especializado em um hospital mais ao norte.

"Ela precisa disso imediatamente", ele diz, enquanto gritos de dor vêm da sala de exames. "Fale com Saida [uma cidade próxima]. Se estiver tudo bem, vamos levá-la imediatamente, porque ela não pode esperar."

O hospital recebe de 20 a 30 vítimas de ataques aéreos israelenses por dia. A maioria são civis, mas ninguém é mandado embora. “Aceitamos todos os pacientes, todos os feridos e todos os mártires que vêm”, ele diz. “Não fazemos discriminação entre eles.”

O Dr. Wazni não saiu do hospital desde que a guerra começou. Atrás de sua mesa em seu escritório, ele abre um maço de cigarrilhas. “Acho que é OK quebrar algumas regras em uma guerra”, ele diz com um sorriso de desculpas.

Ele está lutando para pagar salários e conseguir 1.200 litros de combustível por dia para acionar os geradores que abastecem o hospital. “Não recebemos nada do governo”, ele diz. “Ele não tem.”

Seu combustível é o expresso, que ele nos oferece repetidamente.

Com 170 leitos, o Nabih Berri é o principal hospital público da cidade, mas agora tem apenas uma equipe mínima e 25 pacientes. Os doentes e feridos trazidos para cá são transferidos rapidamente para hospitais em áreas mais seguras mais ao norte. A equipe diz que houve “muitos ataques” perto do Nabih Berri. Durante nossa visita, havia vidro quebrado dentro do saguão.

Nabatieh está sob fogo há mais de um mês.

Ataque aéreo destruiu o mercado de Nabatieh e edifícios municipais

O prédio da prefeitura foi explodido há duas semanas, matando o prefeito, Ahmad Kahil, e outras 16 pessoas. Na época, ele estava tendo uma reunião para coordenar a distribuição de ajuda. Quando passamos pelas ruínas, pacotes de pão achatado permanecem visíveis no chão de uma ambulância destruída.

A greve massiva derrubou vários prédios vizinhos – um quarteirão da cidade está faltando na paisagem.

Também está faltando um mercado da era otomana – o coração de Nabatieh – que foi destruído no mesmo dia. Séculos de história foram esmagados em escombros, a herança virou pó.

O antigo mercado, ou souk, era estimado por Hussein Jaber, 30, que faz parte dos serviços de emergência do governo. Ele e seus homens, alguns deles voluntários, nos levam até lá para uma breve visita. Eles dirigem em alta velocidade - a única maneira de viajar em Nabatieh.

“Nós nascemos e fomos criados aqui”, diz Hussein, gesticulando em volta de lajes de concreto e metal retorcido. “Estamos aqui desde que éramos crianças. O souk significa muito para nós. É muito triste vê-lo assim. Ele guarda memórias do passado e dos lindos dias que passamos com as pessoas desta cidade.”

Assim como o Dr. Wazni, Hussein e seus colegas permaneceram com o povo, apesar dos riscos. Mais de 110 paramédicos e socorristas foram mortos em ataques israelenses no Líbano no ano passado, de acordo com números do governo libanês — a maioria deles no mês passado. Alguns ataques envolvem “aparentes crimes de guerra”, de acordo com o grupo de campanha internacional, Human Rights Watch.

Hussein perdeu um colega e um amigo neste mês, em um ataque aéreo a 50m de sua estação de defesa civil, onde eles dormem com colchões contra as janelas. O homem morto, Naji Fahes, tinha 50 anos e dois filhos.

“Ele era entusiasmado e forte e amava ajudar os outros”, Hussein me conta. “Mesmo sendo mais velho do que nós, ele era o que corria para ir em missões, para estar com as pessoas e resgatá-las.”

Ele morreu, como viveu.

Quando o ataque aéreo aconteceu, Naji Fahes estava do lado de fora da estação, pronto para partir em uma missão.

Enquanto Hussein fala, temos companhia. Um drone israelense circula nos céus, depois fica mais baixo e mais alto. O zumbido insistente do drone compete com sua voz. “Nós o ouvimos 90% do tempo”, ele diz. “Achamos que ele está diretamente acima de nós agora. Muito provavelmente ele está nos observando.”

Quanto ao Hezbollah, sua presença na cidade está fora de vista.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) nos disseram que estão “operando somente contra a organização terrorista Hezbollah, não contra a população libanesa”.

Israel diz que sua luta é “contra a organização terrorista Hezbollah, inserida na população civil e na infraestrutura”.

Um porta-voz disse que “toma muitas medidas para mitigar os danos civis, incluindo avisos antecipados”, embora não tenha havido nenhum aviso sobre o ataque aéreo que feriu Mohammed, ou o ataque que matou o prefeito.

Em cinco horas e meia nesta cidade outrora movimentada, vimos duas pessoas ao ar livre, a pé. Ambas saíram correndo, sem vontade de falar. Durante nossa visita, um drone estava transmitindo mensagens do exército israelense – instruindo as pessoas a saírem imediatamente.

Estima-se que apenas algumas centenas permanecem aqui, sem vontade ou incapazes de se mudar para outro lugar. São principalmente os velhos e os pobres, e eles viverão ou morrerão com sua cidade.

E Hussein e sua equipe estarão aqui, para ajudá-los. “Somos como uma rede de segurança para o povo”, ele diz. “Ficaremos e continuaremos. Estaremos ao lado dos civis. Nada nos deterá.”

SOS

Estamos presos em um ciclo vicioso em que os problemas econômicos reduzem o foco político no meio ambiente, enquanto a destruição da natureza custa bilhões à economia.

Até que tenhamos líderes mundiais com a sabedoria e a coragem de colocar a natureza como prioridade política máxima, os riscos relacionados à natureza continuarão a aumentar.
Tom Oliver, professor de biodiversidade na Universidade de Reading

Sociedade americana prestes a acertar contas com seus fantasmas

Onze horas da manhã em Nova York. Dias atrás, numa escola pública da Rua 56, entre a Segunda e Terceira avenidas de Manhattan, as aulas seguiam seu curso normal. Os alunos em aula nem sequer levantavam a cabeça para observar, através da porta envidraçada, as idas e vindas de estranhos em direção à quadra da esportes. Eram na maioria mulheres indo votar antecipadamente. Do portão de entrada até o local das urnas, dezenas de voluntários — novamente mulheres, na maioria — agradeciam o comparecimento de quem chegava e forneciam a absurda cédula em papel, trilíngue (inglês, espanhol, chinês), que mais parece um cardápio de vinho metido a chique. Tudo na maior calmaria, pontuado por discretos acenos de cabeça indicando esperança na sororidade pró-Kamala Harris.

Não longe dali, a livraria Barnes & Noble da Quinta Avenida expunha em espaço nobre um best-seller que fez barulho sete anos atrás: “On tyranny”, do historiador Timothy Snyder. Nele, o professor de Yale e Prêmio Hannah Arendt elenca 20 lições sobre tirania no século XX a ser aprendidas em tempos presentes. Escrito pouco depois da traumática vitória de Donald Trump à Presidência em 2016, a obra voltou a ganhar urgência e relevância. Ensinamento do primeiro capítulo desse chamamento à razão e guia de preservação de liberdades em tempos de incerteza: “Não obedeça antecipadamente”.

Faltando menos de cem horas para o fatídico acerto de contas da sociedade americana com seus fantasmas, até mesmo o venerado Jon Stewart, mais influente comediante político do país, admite estar tenso. Ele diz procurar se preservar do ritmo circadiano das redes sociais, da torrente de pesquisas de opinião e do noticiário partidário:

— É difícil escapar da compulsão neurótica de checar a milésima adivinhação eleitoral do dia.

Mais difícil ainda, senão impossível, tem sido para a democrata Kamala tocar uma campanha convencional contra um adversário propositalmente desvairado e instável. Deveria ela ignorar ou vilipendiar os insistentes elogios de Trump à genitália de um famoso campeão de golfe? Como competir com as encenações ostensivamente falsas (porém fotogênicas) do candidato republicano, que ora se fantasia de atendente de McDonald’s, ora se apresenta como motorista fake de um caminhão de lixo fake? Tudo surreal e altamente eficaz, destinado a manter em suspenso a questão-chave: o resultado da eleição será respeitado?

Quatro anos atrás, brotara da mente privilegiadamente trevosa de Steve Bannon a recomendação para que Trump declarasse vitória já na noite da eleição, independentemente da apuração e do resultado. Assim foi feito, em 6 de janeiro de 2021 a horda de trumpers tentou impedir pela força a certificação da vitória de Joe Biden, e o negacionismo da derrota perdura até hoje.

Pois bem, eis que na terça-feira passada o mesmo Steve Bannon ressurge bronzeado e desenvolto da prisão federal de Danbury, Connecticut, e convoca uma entrevista coletiva em endereço de prestígio e poder — 540 Park Avenue — para a mesma tarde. Ele havia cumprido seus quatro meses de prisão por desacato a uma convocação do Congresso, declarou-se ex-prisioneiro político e garantiu que desta vez a campanha de Trump está mais bem preparada para travar qualquer tipo de batalha. Embora não faça mais parte do círculo persuasivo de Trump — esse espaço foi ocupado de braçada por Elon Musk —, Bannon mantém o estilo rombudo, espaçoso e combativo de antes.

Coube ao analista político Bill Kristol comparar a realidade ficcional de Trump ao superestado Oceânia, criado por George Orwell em “1984”. Enquanto na imaginária edificação sem janelas havia luzes internas permanentemente acesas do repressivo “Ministério do Amor”, na vida real de 2024 Trump descreveu nos seguintes termos seu assustador comício no Madison Square Garden do domingo anterior:

— O amor naquela arena foi de tirar o fôlego. Nunca houve evento tão lindo. Foi uma festa de amor. Amor pelo país.

Na verdade, o que se viu e se ouviu por horas a fio foi um desfilar de ódio, racismo, xenofobia e fascismo. Sim, fascismo — desta vez a palavra é inescapável.

Em 1935, quando Sinclair Lewis publicou sua seminal distopia “It can’t happen here”, recebida como ficção de regime totalitário, um pedaço real do inimaginável já havia, de fato, acontecido. Foi num domingo ensolarado de fevereiro de 1931 que policiais de Los Angeles cercaram um parque público frequentado por latinos, prenderam 400 pessoas ao acaso, todos de pele escura, enquanto o mesmo se repetia em hospitais, mercados, igrejas, clubes e associações. Em pouco tempo, mais de 1,8 milhão de mexicanos foram deportados por ordem do governo de Herbert Hoover —60% deles tinham cidadania americana. Passado quase um século, Trump e seus aliados discutem abertamente a deportação em massa de 10 milhões de imigrantes.

Quando realidade e ficção se misturam, e a civilização fica à deriva, leva vantagem quem proclama certezas simples para problemas enroscados.

— Preciso dizer que me orgulho de votar em Kamala Harris, escreveu Kristol. — Tenho certeza de que, se eleita, ela me desapontará, é sempre assim. Mas pelo menos terá conseguido ficar à altura do momento.

Dorrit Harazim

A 'máquina de preconceitos': Google diz o que você quer ouvir

"Estamos à mercê do Google." Eleitores indecisos nos EUA que recorrem ao Google podem ter visões de mundo dramaticamente diferentes – mesmo quando estão fazendo exatamente a mesma pergunta.

Digite "Kamala Harris é uma boa candidata democrata", e o Google pinta um quadro otimista. Os resultados da pesquisa mudam constantemente, mas na semana passada, o primeiro link foi uma pesquisa do Pew Research Center mostrando que "Harris energiza os democratas". O próximo é um artigo da Associated Press intitulado "A maioria dos democratas acha que Kamala Harris seria uma boa presidente", e os links seguintes eram semelhantes. Mas se você tem ouvido coisas negativas sobre Harris, você pode perguntar se ela é uma "má" candidata democrata. Fundamentalmente, essa é uma pergunta idêntica, mas os resultados do Google são muito mais pessimistas.

"Tem sido fácil esquecer o quão ruim Kamala Harris é", disse um artigo da Reason Magazine no primeiro lugar. Então o US News & World Report ofereceu uma interpretação positiva sobre como Harris não é "a pior coisa que poderia acontecer à América", mas os resultados a seguir são todos críticos. Um artigo da Al Jazeera explicou "Por que não estou votando em Kamala Harris", seguido por um tópico interminável no Reddit sobre por que ela não é boa.


Você pode ver a mesma dicotomia com perguntas sobre Donald Trump, teorias da conspiração, debates políticos contenciosos e até mesmo informações médicas. Alguns especialistas dizem que o Google está apenas repetindo suas próprias crenças de volta para você. Pode estar piorando seus próprios preconceitos e aprofundando as divisões sociais ao longo do caminho.

"Estamos à mercê do Google no que diz respeito às informações que conseguimos encontrar", diz Varol Kayhan, professor associado de sistemas de informação na Universidade do Sul da Flórida, nos EUA.

"A missão do Google é dar às pessoas as informações que elas querem, mas às vezes as informações que as pessoas acham que querem não são as mais úteis", diz Sarah Presch, diretora de marketing digital da Dragon Metrics , uma plataforma que ajuda empresas a ajustar seus sites para melhor reconhecimento do Google usando métodos conhecidos como " otimização de mecanismos de busca " ou SEO.

É um trabalho que exige uma análise meticulosa dos resultados do Google e, alguns anos atrás, Presch percebeu um problema. "Comecei a observar como o Google lida com tópicos em que há debates acalorados", diz ela. "Em muitos casos, os resultados foram chocantes."

Alguns dos exemplos mais gritantes analisaram como o Google trata certas questões de saúde. O Google frequentemente extrai informações da web e as mostra no topo dos resultados para fornecer uma resposta rápida, que ele chama de Featured Snippet . Presch pesquisou por "link entre café e hipertensão". O Featured Snippet citou um artigo da Mayo Clinic, destacando as palavras "A cafeína pode causar um aumento curto, mas dramático, na sua pressão arterial". Mas quando ela pesquisou "nenhuma ligação entre café e hipertensão", o Featured Snippet citou uma linha contraditória do mesmo artigo da Mayo Clinic: "A cafeína não tem um efeito de longo prazo na pressão arterial e não está associada a um risco maior de pressão alta".

A mesma coisa aconteceu quando Presch pesquisou por "o TDAH é causado pelo açúcar" e "o TDAH não é causado pelo açúcar". O Google apresentou Featured Snippets que argumentam que apoiam ambos os lados da questão, novamente retirados do mesmo artigo. (Na realidade, há pouca evidência de que o açúcar afeta os sintomas do TDAH, e ele certamente não causa o transtorno.)

Ela encontrou o mesmo problema com questões políticas. Pergunte "o sistema tributário britânico é justo", e o Google cita uma citação do deputado conservador Nigel Huddleston, argumentando que de fato é. Pergunte "o sistema tributário britânico é injusto", e o Featured Snippet do Google explica como os impostos do Reino Unido beneficiam os ricos e promovem a desigualdade.

"O que o Google fez foi retirar pedaços do texto com base no que as pessoas estão procurando e alimentá-las com o que elas querem ler", diz Presch. "É uma grande máquina de preconceitos."

Por sua vez, o Google diz que fornece aos usuários resultados imparciais que simplesmente combinam as pessoas com o tipo de informação que elas estão procurando. "Como um mecanismo de busca, o Google visa apresentar resultados de alta qualidade que sejam relevantes para a consulta que você inseriu", diz um porta-voz do Google. "Nós fornecemos acesso aberto a uma variedade de pontos de vista de toda a web, e damos às pessoas ferramentas úteis para avaliar as informações e fontes que elas encontram."

Segundo uma estimativa, o Google lida com cerca de 6,3 milhões de consultas a cada segundo, totalizando mais de nove bilhões de pesquisas por dia. A grande maioria do tráfego da internet começa com uma Pesquisa do Google, e as pessoas raramente clicam em qualquer coisa além dos cinco primeiros links — muito menos se aventuram na segunda página. Um estudo que rastreou os movimentos oculares dos usuários descobriu que as pessoas geralmente nem olham para nada além dos primeiros resultados. O sistema que ordena os links na Pesquisa do Google tem um poder colossal sobre nossa experiência do mundo.

De acordo com o Google, a empresa está lidando bem com essa responsabilidade. "Pesquisas acadêmicas independentes refutaram a ideia de que o Google Search está empurrando as pessoas para bolhas de filtro", diz o porta-voz.

A questão das chamadas "bolhas de filtro" e "câmaras de eco" na internet é um tema quente, embora algumas pesquisas tenham questionado se os efeitos das câmaras de eco online foram exagerados .

Mas Kayhan – que estudou como os mecanismos de busca afetam o viés de confirmação , o impulso natural de buscar informações que confirmem suas crenças – diz que não há dúvidas de que nossas crenças e até mesmo nossas próprias identidades políticas são influenciadas pelos sistemas que controlam o que vemos online. "Somos dramaticamente influenciados por como recebemos informações", ele diz.

O porta-voz do Google diz que um estudo de 2023 concluiu que a exposição das pessoas a notícias partidárias se deve mais ao fato de que é nisso que elas clicam, do que ao Google fornecer notícias partidárias em primeiro lugar. Em certo sentido, é assim que o viés de confirmação funciona: as pessoas procuram evidências que apoiam suas opiniões e ignoram evidências que as desafiam. Mas mesmo naquele estudo, os pesquisadores disseram que suas descobertas não implicam que os algoritmos do Google não sejam problemáticos. "Em alguns casos, nossos participantes foram expostos a notícias altamente partidárias e não confiáveis ​​no Google Search", disseram os pesquisadores, "e trabalhos anteriores sugerem que mesmo um número limitado dessas exposições pode ter impactos negativos substanciais".

De qualquer forma, você pode escolher se envolver com informações que o mantêm preso em sua bolha de filtro, "mas há apenas um certo buquê de mensagens que são colocadas na sua frente para você escolher em primeiro lugar", diz Silvia Knobloch-Westerwick, professora de comunicação mediada na Technische Universität Berlin, na Alemanha. "Os algoritmos desempenham um papel substancial neste problema."

O Google não respondeu à pergunta da BBC sobre se há uma pessoa ou uma equipe especificamente encarregada de abordar o problema do viés de confirmação.

"Na minha opinião, todo esse problema decorre das limitações técnicas dos mecanismos de busca e do fato de que as pessoas não entendem quais são essas limitações", diz Mark Williams-Cook, fundador do AlsoAsked , outra ferramenta de otimização de mecanismos de busca que analisa os resultados do Google.

Um caso antitruste recente dos EUA contra o Google revelou documentos internos da empresa onde funcionários discutem algumas das técnicas que o mecanismo de busca usa para responder suas perguntas. "Nós não entendemos documentos – nós os fingimos", escreveu um engenheiro em um slideshow usado durante uma apresentação de 2016 na empresa. "Um bilhão de vezes por dia, as pessoas nos pedem para encontrar documentos relevantes para uma consulta... Além de algumas coisas básicas, dificilmente olhamos para documentos. Olhamos para pessoas. Se um documento recebe uma reação positiva, achamos que é bom. Se a reação é negativa, provavelmente é ruim. Simplificando grosseiramente, esta é a fonte da mágica do Google."

Em outras palavras, o Google observa para ver no que as pessoas clicam quando inserem um determinado termo de busca. Quando as pessoas parecem satisfeitas com um certo tipo de informação, é mais provável que o Google promova esse tipo de resultado de busca para consultas semelhantes no futuro.

Um porta-voz do Google diz que esses documentos estão desatualizados e que o sistema usado para decifrar consultas e páginas da web se tornou muito mais sofisticado.

"Essa apresentação é de 2016, então você tem que encarar com uma pitada de sal, mas o conceito subjacente ainda é verdadeiro. O Google cria modelos para tentar prever o que as pessoas gostam, mas o problema é que isso cria um tipo de loop de feedback", diz Williams-Cook. Se o viés de confirmação empurra as pessoas a clicar em links que reforçam suas crenças, ele pode ensinar o Google a mostrar às pessoas links que levam ao viés de confirmação. "É como dizer que você vai deixar seu filho escolher sua dieta com base no que ele gosta. Ele vai acabar comendo junk food", diz ele.

Williams-Cook também se preocupa que as pessoas podem não entender que quando você pergunta algo como "Trump é um bom candidato", o Google pode não necessariamente interpretar isso como uma pergunta. Em vez disso, ele geralmente apenas puxa documentos relacionados a palavras-chave como "Trump" e "bom candidato".

Ele diz que isso dá às pessoas expectativas equivocadas sobre o que elas encontrarão quando fizerem uma pesquisa, e isso pode levá-las a interpretar mal o que os resultados da pesquisa significam.

Se os usuários fossem mais claros sobre as deficiências do mecanismo de busca, Williams-Cook acredita que eles poderiam pensar sobre o conteúdo que veem de forma mais crítica. "O Google deveria fazer mais para informar o público sobre como a Busca realmente funciona. Mas eu não acho que eles farão, porque para fazer isso você tem que admitir algumas imperfeições sobre o que não está funcionando", ele diz. ( Para saber mais sobre o funcionamento interno dos mecanismos de busca, leia este artigo sobre como as atualizações do algoritmo do Google estão mudando a internet).

O Google é aberto sobre o fato de que a Busca nunca é um problema resolvido, diz um porta-voz da empresa, e a empresa trabalha incansavelmente para lidar com os profundos desafios técnicos no campo conforme eles surgem. O Google também aponta para recursos que oferece que ajudam os usuários a avaliar informações, como a ferramenta " Sobre este resultado " e avisos que permitem que os usuários saibam quando os resultados sobre um tópico relacionado a notícias de última hora estão mudando rapidamente.

O porta-voz do Google diz que é fácil encontrar resultados que refletem uma variedade de pontos de vista de fontes por toda a web, se é isso que você quer fazer. Eles argumentam que isso é verdade mesmo com alguns dos exemplos que Presch apontou. Role mais para baixo com perguntas como "Kamala Harris é uma boa candidata democrata" e você encontrará links que a criticam. O mesmo vale para "o sistema tributário britânico é justo" - você encontrará resultados de pesquisa que dizem que não é. Com a consulta "ligação entre café e hipertensão", o porta-voz do Google diz que a questão é complicada, mas o mecanismo de busca traz à tona fontes confiáveis ​​que se aprofundam na nuance.

Claro, isso depende de as pessoas explorarem além dos primeiros resultados – quanto mais abaixo na página de resultados você for, menor a probabilidade de os usuários se envolverem com os links. No caso da hipertensão relacionada ao café e do sistema tributário britânico, o Google também resume os resultados e dá sua própria resposta de forma proeminente com Featured Snippets – o que pode tornar menos provável que as pessoas sigam links mais abaixo nos resultados da pesquisa.

Por muito tempo, observadores descreveram como o Google está em transição de um mecanismo de busca para um "mecanismo de resposta", onde a empresa simplesmente fornece a informação, em vez de apontar para fontes externas. O exemplo mais claro é a introdução do AI Overviews , um recurso em que o Google usa IA para responder a consultas de busca para você, em vez de exibir links em resposta. Como a empresa colocou, agora você pode " Deixar o Google fazer a busca para você ".

"No passado, o Google mostrava algo que outra pessoa havia escrito, mas agora ele mesmo está escrevendo a resposta", diz Williams-Cook. "Isso agrava todos esses problemas, porque agora o Google tem apenas uma chance de acertar. É uma jogada difícil."

Mas mesmo que o Google tivesse a capacidade técnica de lidar com todos esses problemas, não está necessariamente claro quando ou como eles devem intervir. Você pode querer informações que respaldem uma crença específica e, se for o caso, o Google está fornecendo um serviço valioso ao entregá-lo a você.

Muitas pessoas se sentem desconfortáveis ​​com a ideia de uma das empresas mais ricas e poderosas do mundo tomar decisões sobre qual é a verdade, diz Kayhan. "É trabalho do Google consertar isso? Podemos confiar que o Google vai consertar a si mesmo? E isso é mesmo consertável? Essas são perguntas difíceis, e não acho que alguém tenha a resposta", diz ele. "A única coisa que posso dizer com certeza é que não acho que eles estejam fazendo o suficiente."