segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Terra envenenada

Está envenenada a terra que nos enterra ou desterra.
Já não há ar, só desar.
Já não há chuva, só chuva ácida.
Vista do crepúsculo no final do século

Já não há parques, só parkings.
Já não há sociedades, só sociedades anónimas.
Empresas em lugar de nações.
Consumidores em lugar de cidadãos.
Aglomerações em lugar de cidades.
Não há pessoas. Só públicos.
Não há visões. Só televisões.
Para elogiar uma flor, diz-se: "parece de plástico".
Eduardo Galeano

Fogo dá dinheiro


O proprietário faz a queimada, não é responsabilizado nas esferas civil e criminal e ainda consegue acesso a crédito rural a taxas mais baixas que as de mercado,.
Thais Banwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil 

O futuro é idiota

Ao pedir desculpas por sua postura na campanha pela prefeitura da maior metrópole brasileira, Pablo Marçal oferece uma via de compreensão da atualidade política. Admite ter-se comportado como idiota com o objetivo, vitorioso, de subir nas pesquisas. Sua retratação não é mudança de atitude, mas retrato de uma estratégia: idiotia como caminho para o poder.

Não é demais remontar à origem da palavra. "Idiotes", na Polis grega, eram aqueles centrados em negócios privados, alheios à vida pública, que interessava aos "politikós". Os significados atuais das duas palavras derivam dessa oposição. Mas se tornou pesado o atributo de idiota, pois implica ignorância, estreiteza mental e desconexão com o mundo.

Entre nós, por semeadura de Bolsonaro ou fatalismo fonológico, a bilabial oclusiva "b" tem sido marca subliminar de palavras associadas ao destrambelho mental: bobo, besteirol, baixarias. Às vezes, na televisão, BBB, senão em pilares do atraso parlamentar, como Bala, Bíblia e Boi. O B de Bozo se esvaziou, perdeu eco, mas o oco fica à espera de que alguém o preencha. De idiotia renovada.


É que a mistificação idiotizada tem lógica própria: num determinado formato, o vazio de sentido é preenchido, como numa casca de noz, por significações secundárias, alheias ao original e, no entanto, funcionais. Acontece na propaganda, na tevê popularesca e no populismo das redes sociais. Quase uma segunda linguagem, de trânsito fácil na esfera dos "idiotes". Multidões participam à distância de um reality show.

Influenciador é um desdobramento desse infradiscurso. Agente de mídia com efeito na realidade, à cata de bode expiatório para a culpa inconsciente que cada um carrega, dispensa ideias, como um camelô de fantasias de imunidade a todos os males. Transposto para o vácuo da política, ele acena com o que chama de antissistema: esculacho dos políticos, transformação de defeitos em virtudes, liberdade de empreender, até o crime. Surpresos com a reação pública à sua "liberdade", os delinquentes do 8 de janeiro, civis e militares, julgavam-se empreendedores de patriotismo. De normalização do crime, na verdade.

Marçal garante que, com Deus, celular e rede social, todos podem empreender. Ficou conhecido ao vender a 30 pessoas um curso de como "superar a vida e tornar-se um vencedor": com ele à frente, escalariam o pico mais difícil da Mantiqueira. Terminaram, claro, resgatados às pressas por bombeiros. Mas, na retórica da xaropada, vexame é corda de alpinista na capitalização da idiotia. Dependurado, ele calcula que a Prefeitura de São Paulo seja o sopé de um novo pico, a Presidência da República. Um coach de inovadora ciência política: idoneidade não atrai eleitores, voto não é selo de verdade, o futuro é idiota.

Entre a infância do brincar e do celular

Na era da informação abundante e veloz, a gente se sente quase que obrigado a ter opinião e falar sobre os mais diversificados e complexos temas. Uma tolice. Claro que há uma diferença conceitual entre informação e conhecimento. Mas, em qualquer hipótese, minha ignorância é tamanha que somente a curiosidade justifica escrever dois dedos de prosa.

No caso, foi o impacto da leitura “ansiosa” (sem pretensão de trocadilho) do livro de autoria do escritor, pesquisador, psicólogo social norte-americano, Jonathan Haidt , A geração ansiosa – Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais (Companhia das Letras. Julho de 2024).

Haidt, autor de A mente moralista (2020) e A hipótese da felicidade: encontrando a verdade moderna na sabedoria antiga (2022) diz, na introdução Crescendo em Marte: “Este livro conta a história da geração nascida depois de 1995, popularmente conhecida como geração Z, aquela que se segue aos millennials (nascidos entre 1981 e 1995)”.


Embora reconheça as divergências dos recortes temporais (ele próprio admite 1996 e menciona referências, segundo as quais, crianças nascidas depois de 2010 já fazem parte da geração alfa), o autor utiliza o critério das mudanças tecnológicas ao afirmar: “As pessoas mais velhas da geração Z entraram na puberdade por volta de 2009 quando várias tendências tecnológicas convergiram: a rápida expansão da banda larga na década de 2000, a chegada do iPhone em 2007 e a nova era de redes hiperviralizadas – iniciada em 2009 com os botões de ‘curtir’, e ‘compartilhar (ou ‘retuitar’) que transformaram a dinâmica social do mundo online”.

Mais adiante, acrescenta que a geração Z passou pela puberdade com um portal no bolso “que os afastava das pessoas próximas e os atraía para um universo alternativo empolgante, viciante, instável e – como vou mostrar – inadequado a crianças e adolescentes”. A partir dessa constatação, o autor se reporta aos dois conceitos centrais da sua obra: “a infância baseada no brincar” que, no fim dos anos 1980, transitou para uma “infância baseada no celular”, transição concluída em meados da década de 2010.

Curiosamente, o projeto original do livro tinha como objetivo avaliar os efeitos nocivos das redes sociais à democracia nos Estado Unidos. No entanto, Haidt percebeu que estava diante de desafio muito maior do que uma história das redes sociais, mas “uma história da transformação radical da infância em algo não humano: uma existência baseada no celular”.

Neste sentido, o livro está dividido em quatro partes: I. A onda gigante; II. O pano de fundo: o declínio da infância baseada no brincar; III. A grande reconfiguração: a ascensão da infância baseada no celular; IV. Ações coletivas para uma infância mais saudável.

A obra percorre um caminho longo, denso, ancorado em pesquisas, na abordagem teórica de cientista social, professor e na condição de pai de dois adolescentes, condição esta que levou o autor assumir o papel de expor a alarmante progressão dos transtornos mentais em meninos e meninas bem como assumir o risco de defender propostas para enfrentar a gravidade do problema.

De modo a caber nos estreitos limites de um artigo, segue-se o esforço de síntese pautado nos quatro prejuízos fundamentais por conta do uso desmedido das redes sociais pela geração Z: privação social, privação de sono, atenção fragmentada e vício. Os dados referentes à crescente tendência dos transtornos mentais (ansiedade, depressão, TDAH, bipolaridade, anorexia, abuso de substâncias viciantes, esquizofrenia), em universitários americanos (FONTE; American College Health Association), é assustadora.

Porém, não se trata de um fenômeno localizado. Está disseminado mundo afora e dentro de nossas famílias. Mesmo reconhecendo controvérsias e erros, o autor propõe “quatro reformas tão importantes e em que tenho tamanha confiança que vou chamá-las de fundamentais: nada de smartphone antes do nono ano, dando aos filhos apenas celulares básicos; nada de redes sociais antes dos dezesseis; nada de celular na escola, durante todo período de aula, desde o ensino fundamental até o médio; muito mais brincar não supervisionado e independência na infância”.

O que parece simples diante de um desafio tão complexo não levaria o autor a um erro tão primário até porque a base das reformas é uma construção coletiva e solidária. Então como pôr em prática essas medidas? “Encerro com duas sugestões: fale e junte-se, propõe Haidt, acrescentando: se você acha que a infância baseada no celular é ruim para as crianças e quer o retorno da infância baseada no brincar, diga isso […] se você é pai ou mãe, junte-se a outros […] Há muitas organizações excelentes que unem pais em torno dessa causa”.

De fato, a dimensão do livro vai além de famílias, escolas, instituições que cuidam de crianças ou se importam com elas na certeira definição do próprio autor: “Geração ansiosa é sobre restabelecer uma vida humana para os seres humanos de todas as gerações”.
Gustavo Krause

domingo, 1 de setembro de 2024

Pensamento do Dia

 


As plataformas para o inferno

Em todo o lado e por diversos meios – livros, jornais, revistas, documentários, ficções narrativas e, como não podia deixar de ser, no médium de todos os media, a rede das redes digitais, a Internet – circula um discurso que se dedica, com a ajuda de muita psicologia e sociologia, ao diagnóstico de uma doença, de uma epidemia como nunca houve outra na história da humanidade, adotando muitas vezes um tom apocalíptico que tem sempre o dom do fascínio: o discurso sobre os malefícios da rede, das plataformas, de tudo o que elas oferecem e suscitam sem ser preciso mais do que um telefone inteligente munido de um ecrã, um smartphone, que do ponto de vista de uma arqueologia dos media (atenção: não é o mesmo que uma história) é um condensado de computador, telégrafo, ecrã de televisão, aparelho de rádio, câmara fotográfica, gravador de som, calculadora e muitas outras coisas.


Distúrbios mentais (especialmente da atenção), dependência que pode atingir o grau de uma autêntica escravatura sem que o escravizado se dê conta, ansiedade, depressão, anorexia, esquizofrenia, suicídio, declínio do desejo sexual pelo corpo não virtual de outrem, episódios de histeria colectiva (leia-se, por exemplo, no jornal inglês The Guardian a história emocionante de uma jovem youtuber que suscitou uma reacção histérica e paranóica dos seus muitos milhares de fãs), difusão em larga escala de notícias falsas que incitam a passagem ao acto de multidões alienadas, aumento da polarização política e ideológica: a lista das “doenças” sociais e individuais diagnosticadas é extensa e tão diversa quanto as funções do computador e do smartphone. O medo de ficar sem acesso ao celular, de ficar “desconectado”, como se diz hoje, já engendrou um neologismo, em inglês, para designar esse estado de privação: nomophobia, isto é, no mobile phone phobia. Um documentário americano realizado por Jeff Orlowski, The Social Dilemma, elevou o grau da ameaça até este nível: “É um xeque mate à humanidade.” Nem o mais moderado destes diagnósticos fica aquém de uma transformação antropológica na evolução da humanidade.

Esta nova condição civilizacional gerou um paradoxo: a hiperprotecção das crianças e jovens (pelos pais e pelas medidas biopolíticas dos governos), que lhes retira as prerrogativas da socialização e da autonomia, vai a par da complacência e alguma inconsciência perante os perigos a que eles estão expostos quando se isolam no quarto com o smartphone ou o computador. Há pouco tempo, a apresentadora de uma televisão britânica, Kristie Alsopp, foi ameaçada pelos serviços sociais de perder a custódia do filho de 15 anos por ter permitido que ele fizesse uma viagem de Interrail, pela Europa (ela própria tinha divulgado no Facebook a sua decisão). Em seu auxílio, chegou o parecer de Jonathan Haidt, o psicólogo social da Universidade de Nova Iorque, autor de um livro já traduzido em Portugal, A Geração Ansiosa, que veio lembrar que um jovem munido de um smartphone corre riscos muito maiores em casa do que ao viajar por Paris, Berlim, Munique, etc.

Esta visão de um desastre em curso e de uma doença planetária induzida e sem remédio (tão irremediável como o pecado original: o computador não é um simples utensílio, é uma versão do Deus Ordinator da teologia medieval) torna bastante surpreendente a notícia de que em França, ao aterrar no seu jacto privado, foi detido o patrão da uma grande plataforma social chamada Telegram, o russo Pavel Durov, acusado de promover a fraude, o tráfico de droga, o terrorismo e o cyberbullying. Em suma: nada de que as empresas tentaculares do capitalismo digital, geralmente designadas pelo acrónimo GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft), estejam isentas, sem contarmos com os malefícios maiores de difusão de patologias que levam um entrevistado do referido documentário a esta sucinta conclusão: “Estamos tramados.”

É fácil aderir a este discurso apocalíptico, sempre rentável e de fácil recepção. Ele produz diagnósticos verossímeis, à luz da nossa experiência atual, nos seus aspectos essenciais. Mas é preciso confrontá-los com outras análises e estudos mais complexos, perante os quais eles se revelam marcados por alguma simplificação ou até pela demagogia. Uma arqueologia do nosso futuro introduz aqui alguma complexidade em falta e que deverá, por exemplo, levar a questões como esta: devemos acreditar na eficácia da proibição do uso dos smartphones na sala de aula? Não será o mesmo que querer restituir a virgindade a quem a perdeu?

Pequena fábula

“Ah”, disse o rato, “o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” — “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.

Franz Kafka

Alegria contra a raiva

Uma consequência profunda, embora pouco assinalada, da vaga populista dos últimos anos é a contínua e persistente degradação do debate público, cada vez mais reduzido a trocas de acusações. Ainda por cima, quando estas são formuladas, quase sempre, através de um vocabulário direto e sem outra preocupação que não seja a de fazer despertar emoções básicas, que conduzam à repulsa do adversário ou à adesão irracional àquilo que se transmite. O resultado está à vista: todo e qualquer acontecimento ou assunto é depressa transformado num motivo de indignação e qualquer caso menos esclarecido é imediatamente alcandorado à categoria de escândalo. Nessa voragem, em que se repetem acusações e indignações sempre pontuadas por uma profusão de pontos de exclamação, é fácil perder a noção da realidade e lançar a confusão sobre o peso e a função específica de cada palavra.


Perante a nossa apatia e sem sequer nos incomodarmos verdadeiramente, enquanto comunidade, tudo passou a ser uma “vergonha” e qualquer motivo é suficiente para alguém decretar que estamos perante uma “invasão” ou prestes a entrar em “guerra”. Sabemos que essa escalada é potenciada pelas redes sociais, com os seus algoritmos ensinados a identificar e a exponenciar as polémicas mais ruidosas e que melhor alimentam o negócio das partilhas e visualizações. Mas o problema é que esta pulsão não se manifesta apenas no mundo virtual, em que todos podem debitar a sua opinião e são, em simultâneo, também alvos fáceis para os exércitos profissionais de bots e para as milícias de vigilantes que se aglomeram na net, sempre prontas a arrasar quem as contraria ou pensa de maneira diferente. Este clima permanente de confronto, de polarização e da mais absoluta ausência de tolerância está hoje presente em todo o lado. Tornou-se norma. E, aos poucos, vai contaminando todo e qualquer debate, como se as discussões acaloradas entre apoiantes de clubes rivais de futebol fossem a matriz que, para captar atenções, tem de ser usada em qualquer assunto, independentemente da sua importância.

Embora esta realidade seja hoje observável em qualquer parte do mundo, ela é particularmente visível, devido à força e à influência mediática, no atual ambiente político dos Estados Unidos da América: um país profundamente dividido em dois blocos, já sem qualquer ponto de contacto entre eles, que parece caminhar para algo muito próximo de uma guerra civil. E o mais impressionante é a velocidade com que tudo se processou, perante a passividade e a contribuição dos dois lados.

Na convenção do Partido Democrático de 2012, para a reeleição de Barack Obama, o ex-Presidente Bill Clinton foi, num discurso histórico, um dos primeiros a alertar para o que estava, então, a iniciar-se, com a radicalização da ala mais conservadora do Partido Republicano. E fê-lo de uma forma que merece ser lembrada: sublinhando que algumas das medidas mais importantes dos seus mandatos, que coincidiram com o período de maior prosperidade e paz dos EUA, só foram possíveis devido à confluência de interesses entre os dois partidos.

Desde que Donald Trump entrou em cena, essa tendência só se tem agravado, tanto nos EUA como no resto do mundo. Sempre com o mesmo objetivo, comum a todos os populistas – mas que também se vai observando, tantas vezes, nos argumentos de quem os combate: a exploração da raiva dos eleitores, os apelos ao combate e a obliteração, à lei da bomba, de tudo o que possa proporcionar o mínimo ponto de contacto ou de entendimento entre os apoiantes, fiéis ou circunstanciais, dos dois lados.

O combate aos inimigos da democracia e de uma sociedade mais justa não pode ficar resumido aos apelos à resistência. Precisa também de transmitir alegria e, acima de tudo, de insuflar esperança – porventura, aquilo de que mais sentimos falta no mundo atual, dominado pelos sentimentos de vingança, de perseguições aos outros, de conflito permanente, dinamizado pelos populistas.

Se for eleita Presidente da nação mais poderosa do planeta, Kamala Harris não vai, de certeza, resolver todos os problemas do mundo. Mas, para já, teve uma virtude, como candidata frente a Donald Trump: soube restaurar a alegria que deve estar inerente a qualquer projeto de esperança por uma sociedade melhor. E isso, só por si, já devia fazer toda a diferença.

Marçal reduz Bolsonaro a uma versão ultrapassada

A disputa patrimonial na extrema direita nacional é a sensação da temporada. Está além das eleições municipais. Pablo Marçal ocupou espaço sem pedir licença; contestado, resistiu. Debilitou as forças de Jair Bolsonaro e pôs em dúvida sua liderança. Modelo 4.0 do reacionarismo, reduz o ex-presidente a uma versão beta, ultrapassada, cheia de bugs. Mesmo que formalmente o reverencie, Marçal não é seu discípulo ou fiel a seus interesses. Antes, parece a kryptonita de Bolsonaro.

Mais ousado, de ataques mais baixos, fortes e desconcertantes, o ex-coach se coloca não apenas como empecilho para a reeleição do prefeito Ricardo Nunes, mas também como pesadelo às pretensões do ex-presidente e, talvez, aos projetos de Tarcísio de Freitas, que, ironicamente, passam a ser percebidos como parte do sistema.

Contudo Marçal não é novo, menos ainda surpreendente. Brota da mesma escuridão do presente. Pertence à novíssima geração de extremistas reacionários, antissistema, candidatos a autocratas, montados num pretensioso anarcocapitalismo que confunde esforço pessoal e empreendedorismo com bizarrice, caos e carnificina social.


Como Jair Bolsonaro, sua força é resultado do espírito do tempo. Ambos são filhos da fúria da transição entre os mundos analógico e digital; da quarta revolução incapaz de incluir — e de ser assimilada — por hordas humanas de desesperados ou bestializados perdidos numa longa transição, potencializadas pela exploração política da ignorância. Jovens das periferias ou das largas avenidas por onde uma nova oligarquia economicamente instruída desfila sem cultura e educação políticas.

São instrumentos do mal-estar que não controlam, tampouco lideram. Apenas vocalizam, beneficiando-se de misérias. São frutos do movimento antissistema que se espalha pelo mundo, críticos do Estado, política e democracia, desgastados por incapazes de se antecipar aos mais perniciosos efeitos da transformação. Soldados do iliberalismo e da destruição do edifício iluminista, afetado pelo esgotamento de Yalta, Potsdam, Bretton Woods; pelo abalo da esperança (vã?) da queda do Muro de Berlim.

Um processo que levou ao Brexit (2016) a Donald Trump (2016), Jair Bolsonaro (2018), Nayib Bukele (2019), Javier Milei (2023). Ou, antes, Hugo Chávez (1999), Vladimir Putin (2000), Narendra Modi (2001), Daniel Ortega (2007), Viktor Orbán (2010).

Figuras como Trump, Bolsonaro ou Marçal mais vocalizam essa fúria do que a lideram. Espalham o medo e colhem o poder sem saber exatamente o que fazer com ele, pois têm os olhos no passado e desconhecem qualquer ideia de futuro para além do mimetismo dos prédios de Dubai ou das lojas de Miami.

A boa notícia é que já não passam ao largo da percepção da maioria da população que resiste indicando preferir a civilização à barbárie. Antes atônitos e divididos, herdeiros do velho Iluminismo já se impõem com frentes políticas em defesa da democracia, da diversidade e da humanidade. Recentes eleições no Reino Unido e na França parecem ser prova disso. Assim como a contestação continental ao processo político venezuelano, a conciliação do Partido Democrata nos Estados Unidos contra Donald Trump é alvissareiro sinal de resistência e resposta.

Por seu tamanho e sua dimensão simbólica, a cidade de São Paulo terá oportunidade de demonstrar que aqui também será assim: uma frente ampla — para vencer a eleição e governar a cidade — contra o estrondoso som e a fúria que, destruindo tudo, normalmente, significam nada.

Crise de abstinência do X? Calma: há tanta vida lá fora

Era 9 de abril deste ano, e o X ainda estava a todo vapor (e rancor) quando decidi deixar uma conta com 900 e tantos mil seguidores e respirar um pouco. Como é (era?) típico da plataforma, mil teorias da conspiração foram levantadas para o motivo da minha decisão, o que foi engraçado. Quase cinco meses depois posso dizer para quem está vivendo a crise de abstinência do X depois que a plataforma foi tirada do ar: calma, gente, tem vida fora dali.

É claro que uma coisa é deletar o X por vontade própria, porque cansou de bater palma para o maluco do Elon Musk lucrar e zombar da democracia. Outra é fazer isso porque o Alexandre de Moraes achou por bem tirar a plataforma do ar. Este não é um texto sobre isso, até porque hoje é sábado. A esse respeito escrevi na coluna de ontem no GLOBO, que você pode ler aqui.



É um texto de quem está se divertindo desde ontem com a chegada dos refugiados digitais no Threads, a plataforma da Meta que emula o Twitter, com uma quantidade (ainda) menor de metais pesados no ar. “Gente, cadê vocês?”, “Onde ficam os Trending Topics aqui?” (Dica: ainda não tem).

Outra modalidade de postagens (atenção para não chamar de tuítes) é falar da saudade do X. Ou falar mal do Musk morrendo de saudade daquele boy lixo que todo mundo odiava mas ninguém conseguia largar.

Não sei como está o fluxo no Bluesky, o outro candidato a recolher os órfãos do X, mas no Threads o debate começa a esquentar, o número de likes começa a subir e o volume do hate aos poucos também vai chegando.

Precisamos mesmo de outra rede social? No tempo em que tudo ainda era mato ali naquele concorrente do Zuckerberg, eu pouco aparecia. Usar o Instagram para mostrar a vida era (é) mais prazeroso, embora nem sempre salutar. Agora já vejo o debate sobre política começar a engrenar. Um motor antes da chegada dos brasileiros desgarrados pela pena do Alexandre de Moraes vinha sendo a eleição americana. Democratas (principalmente) e republicanos já vinham postando por ali e obtendo engajamento bem razoável, talvez num movimento para esvaziar o poder de influência de Musk no pleito por lá.

Para você que está chegando, tente manter seu terreno limpo. Não adianta nada dizer que o Twitter estava irrespirável e ir emitir monóxido de carbono na rede vizinha.

Para quem ainda está hesitante em abrir outra conta em outra rede que depois pode (deve?) se tornar igualmente manipuladora, tóxica e viciante, melhor. Tem muita coisa boa para ver (a segunda temporada de "Os Outros", no Globoplay, está magnífica), para ouvir (já escutou o novo álbum da Liniker, “Caju”? Não??? Então esquece Xandão versus Musk e dá play agora!) e para ler (recomendo muito “Como Salvar a Democracia”. Spoiler: não é como o ministro Moraes tem feito nos últimos tempos).

sábado, 31 de agosto de 2024

Como supostos laços do X com oligarcas russos impactam Musk

Documentos judiciais divulgados na semana passada pelo Tribunal de Distrito dos EUA para o Distrito Norte da Califórnia lançaram luz sobre acionistas e investidores envolvidos com a X Holdings Corp de Elon Musk, revelando quem ajudou a financiar em 2022 a aquisição de 44 bilhões de dólares (R$ 247 bilhões) da plataforma, conhecida na época como Twitter.

A revelação ocorre justamente quando o bilionário sul-africano se encontra em uma disputa com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

A lista, obtida pelo jornal Washington Post, elenca cerca de 100 entidades e indivíduos, incluindo empresários proeminentes do Vale do Silício, mas também indivíduos que supostamente têm ligações com oligarcas russos.

Os advogados da organização sem fins lucrativos Reporters Committee for Freedom of the Press (Comitê de Repórteres para a Liberdade de Imprensa) entraram com uma moção em julho pedindo que o tribunal liberasse os registros, em nome do jornalista independente de tecnologia Jacob Silverman.

Em seu site, Silverman escreveu: "Acredito que as pessoas têm o direito de saber quem é o proprietário de uma empresa com um papel tão proeminente na formação do discurso público, tanto nos Estados Unidos quanto ao redor do mundo".


Uma das empresas listadas é a 8VC, uma companhia de capital de risco cofundada por Joe Lonsdale, também cofundador da plataforma de análise de dados Palantir.

A 8VC investiu em projetos de defesa dos EUA, com Lonsdale argumentando que a crescente influência da China está por trás da iniciativa de sua empresa de apoiar startups militares.

Ao falar durante um evento em março, Lonsdale afirmou que a China está "construindo coisas realmente avançadas que estão começando a competir com os EUA".

"Isso se tornou uma constatação muito assustadora para nós há cerca de 10 anos, de modo que passamos a nos dedicar com afinco à defesa", disse ele.

No site do fundo, Denis Aven e Jack Moshkovich – filhos dos oligarcas russos sancionados Petr Aven e Vadim Moshkovich – aparecem na seção de funcionários. O primeiro é cofundador do Alfa-Bank, o maior banco privado da Rússia, e da empresa de investimentos LetterOne Holdings. Ele foi sancionado como parte das medidas impostas a indivíduos russos em reação à guerra da Rússia contra a Ucrânia.

Moshkovich, por sua vez, fez fortuna no setor agroindustrial com sua empresa Rusagro Group. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, ele foi sancionado pelos países ocidentais devido a seus supostos laços com o presidente russo,Vladimir Putin.

Não há nada que sugira que os pais sancionados tenham algum vínculo financeiro com a 8VC. No entanto, é provável que as funções de seus filhos sejam submetidas a um exame mais minucioso, já que o governo dos EUA está se tornando cada vez mais cauteloso com os vínculos de personagens estrangeiros com o setor de tecnologia.

Recentemente, o National Counterintelligence and Security Center, do gabinete de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, divulgou um boletim alertando as startups do Vale do Silício sobre a possibilidade de agentes estrangeiros usarem acordos de investimento para explorar dados confidenciais.

Conhecer a propriedade de um canal de mídia que exerce uma influência considerável, com alcance internacional, proporciona transparência, não apenas para os usuários, como também para as partes financeiras interessadas. Então, o que essas revelações de propriedade significam para Elon Musk e sua plataforma de mídia social X?

"Os proprietários tradicionais, como fundos de investimento, podem esperar um retorno financeiro convencional. Em comparação com outras mídias, o oeste selvagem dos canais de mídia social pode atrair outros investidores que imaginam que seus retornos possam vir de uma combinação diferente de maneiras", diz Gordon Fletcher, especialista em pesquisa e inovação da Salford Business School do Reino Unido.

"Endossos, acesso a dados, amplificação algorítmica de mensagens ou filtragem aprimorada podem ser possibilidades", disse à DW.

A divulgação pode ser incômoda para alguns dos investidores de alto nível, que incluem o príncipe Alwaleed bin Talal, da família real da Arábia Saudita, e empresas de investimento como o Baron Opportunity Fund e a Andreessen Horowitz.

"Embora os investidores em tecnologia sediados nos EUA tenham sido revelados logo no início, o grupo mais amplo de investidores não foi. Uma promessa de não divulgação incomodaria alguns que agora estão sob os holofotes. Isso pode ser útil como alavanca para negociar uma posição diferente em relação à empresa", disse Fletcher.

No entanto, não está claro, neste momento, se isso provocará um êxodo de investidores da X.

"Pode não ser simples para eles venderem suas participações para Musk ou algum outro comprador. A capacidade de vender pode depender de acordos de investimento específicos que não conhecemos", diz Paul M. Barrett, vice-diretor do NYU Stern Center for Business and Human Rights.

Nesta fase, também é muito cedo para dizer se o envolvimento da 8VC e, especificamente, a dos filhos de oligarcas russos sancionados, poderá dissuadir outros fundos de capital de risco de investirem na X.

"Há um grupo cada vez maior de grandes investidores institucionais que estão cada vez mais apresentando seu portfólio como sendo baseado em compromissos éticos. Muitos deles se baseiam em preocupações ambientais e não políticas. Mas a visibilidade desses investidores específicos e sua ligação com a Rússia deixarão alguns investidores institucionais nervosos", disse Fletcher.

Dito isso, Fletcher acredita que outros players internacionais ainda podem estar dispostos a investir. "Já houve interesse de diferentes fundos soberanos em fazer investimentos em mídia de todos os tipos, impressa e digital. Se o retorno for adequado (seja qual for a forma prometida), sempre será possível encontrar um investidor."

Embora Fletcher afirme que os investidores e anunciantes estarão "considerando suas opções cuidadosamente", Barrett não está convencido de que as possíveis consequências das revelações sobre a propriedade possam deter os anunciantes.

"Não está claro para mim se um anunciante que tenha tolerado o deslizamento do Twitter de volta ao pântano do extremismo e da propagação do ódio ficaria de repente tão desiludido com essa revelação que corte os laços com a empresa", disse.

A DW não conseguiu entrar em contato com o departamento de comunicação da X para obter um comentário sobre o assunto.

O que acontece nas redes sociais fica nas redes?

Quando há dias Pavel Durov, o fundador da rede social Telegram, foi detido em França, gerou-se um coro burlesco liderado por Elon Musk – estaria em curso um ataque à liberdade de expressão. Por essa altura, pouco se sabia sobre os motivos da detenção e até havia razões para algum ceticismo. Afinal, a detenção ocorria em França, um país que tem tido posições bastante restritivas em matéria de liberdade de expressão e de reserva da privacidade, designadamente em relação à proteção de fontes de jornalistas.


O tema é sério. Acima de tudo, porque as redes sociais têm sido instrumentais para a mobilização social de quem se bate pela liberdade em regimes autoritários ou em democracias musculadas, mas, não menos relevante, porque há de facto uma pulsão controladora nas nossas sociedades que acabará por se transformar numa rampa deslizante. Para já, são apenas casos excêntricos – como as diretrizes da administração do Hospital de Santa Maria, que se propõe instaurar processos judiciais a pessoas que ofendam os seus profissionais nas redes sociais–, mas convém estar alerta: em dois tempos, em nome dos limites à liberdade de expressão, estaremos a censurar as opiniões daqueles de quem discordamos.

Mas, ao contrário do que por vezes nos quer fazer crer esta geração de libertários tecnológicos, a liberdade de expressão não pode ser encarada como um valor absoluto. Da mesma forma que o Estado de Natureza exigiu um Leviatã e o faroeste um xerife, um juiz e, já agora, um cangalheiro, também o mundo novo das plataformas digitais obriga a algum tipo de (auto)regulação. Sob pena de, no fim das interações intensas que decorrem no espaço digital, que, entretanto, criaram um ambiente nauseabundo, não sobrar ninguém para contar a história efémera das sociedades abertas no mundo real.

E sobre a regulação, há movimentos de sentido contrário. Enquanto no contexto europeu se coloca em causa, por bons motivos, o princípio da neutralidade das plataformas, criando obrigações equilibradas de reporte decorrentes de novos regulamentos europeus, designadamente o dos Serviços Digitais – o que tem sido respondido positivamente por uma parte das plataformas (por exemplo, Google, Meta e TikTok). Mas, outros há, como o X, desde que foi adquirido por Musk, e o Telegram de Durov, que têm persistido na não-colaboração e, no caso do X, no recuo das políticas de moderação de conteúdos, na manipulação do algoritmo (com resultados evidentes na degradação do ambiente nesta rede) e numa maior opacidade sobre o funcionamento da plataforma.

Só que, como recorda o caso Durov, a liberdade de expressão é, também, um cavalo de Tróia para ataques ao Estado de direito. Se em relação ao insulto gratuito e às campanhas contra o bom-nome das pessoas, que encontraram terreno fértil nas redes sociais, não há alternativa à tolerância infinita, o mesmo não deve acontecer perante crimes sofisticados e hediondos, que têm nas plataformas veículos privilegiados. Musk e Durov, duas personalidades entre o demiúrgico e o narcisista, com exércitos globais de minions libertários, bem podem rasgar as vestes, mas Durov foi indiciado por cumplicidade com burlas, tráfico de droga e pornografia infantil, designadamente após o Telegram se ter recusado a responder a um pedido das autoridades francesas para identificar um utilizador envolvido na promoção destes conteúdos. Há mesmo limites para o que se pode passar nas redes sociais. Limites previstos na lei.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


Ressentidos querem ir à forra contra o mundo

Na pena de Shakespeare, Ricardo III era maldade pura, ambicioso sem limites, capaz de qualquer coisa pelo poder. De feiura profunda, assustava quem lhe aparecesse pela frente. Julgava-se um injustiçado e, como tal, autorizado a cometer o mal. A matança por ele promovida era o exercício de uma espécie de direito à reparação, a que, possesso, ele julgava fazer jus: uma rasteira na crueldade do destino, que lhe condenara à feiura chocante e brutal.

“Ricardo III”, de Shakespeare — peça analisada por Freud em ensaio conhecido —, põe em evidência o direito a ser vilão em contexto de supostas injustiças. O mundo passa a ser devedor, culpado, de modo que uma pessoa pretensamente injustiçada pelo destino se sente como que autorizada a ser injusta, transformando a vida dos outros na tragédia que é sua própria vida.


Trazendo a ideia para o século XXI, a mesma atitude de Ricardo III perante a vida, de cobrança intransigente, pode ser encontrada no discurso da extrema direita, que vem assolando o mundo. O mundo — o que, evidente, inclui coisas tão importantes como democracia ou meio ambiente — deve ser implodido, numa atitude de vingança, na medida em que o próprio mundo não teria dado voz e vez a toda uma classe, que sempre vivera nas sombras. É a desforra dos ressentidos — o momento de glória dos “cobradores”, daqueles que se guiam pelo sentimento de vingança, cobrando do mundo, dia e noite, reparação a que julgam ter direito.

Interessante pensar nisso como resultado, em parte, da dissociação, cada vez maior, entre política e ideologia. Política pressupõe necessariamente antagonismo, conflito de ideias. A política democrática precisa ter ascendência real sobre desejos e fantasias. Como identifica Chantal Mouffe, quando a divisão social não pode se manifestar em razão da pouca clareza da linha divisória entre esquerda e direita, as paixões não podem ser mobilizadas na direção dos objetivos democráticos, e os antagonismos assumem formas que podem pôr em risco as instituições democráticas.

O que se vê hoje é a substituição da divisão entre esquerda e direita pelo antagonismo baseado na divisão do povo contra o “establishment”. O debate político descambou para o campo moral, onde, na medida em que o “bem” se contrapõe ao “mal”, não há adversário, mas inimigo a ser eliminado. O desafio, portanto, é a construção de um espaço onde o pluralismo seja respeitado e onde, sobretudo, haja visões conflituosas de mundo, capazes de gerar identificação e mobilização.

Se a construção desse espaço é um projeto de longo prazo, o que temos de imediato são as instituições, que exercem papel relevantíssimo, já que contribuem para frear o ânimo destrutivo dos seres humanos. No Brasil, é preciso ressaltar — e louvar — a atuação do STF na manutenção da nossa democracia. É ele quem, em última instância, vem dizendo “não”. Acontece que, para continuar exercendo sua função, o Supremo precisará cada vez mais de capital político, o que depende, em grande parte, da sua capacidade de se fazer respeitar. Do contrário, se não restar nem mesmo o STF, estarão dadas as condições para os “cobradores” fazerem a festa.

'Somos neutros'

Os banqueiros da grande bancaria do mundo, que praticam o terrorismo do dinheiro, podem mais que os reis e os marechais e mais que o próprio Papa de Roma. Eles jamais sujam as mãos. Não matam ninguém: se limitam a aplaudir o espetáculo.

Seus funcionários, os tecnocratas internacionais, mandam em nossos países: eles não são presidentes, nem ministros, nem foram eleitos em nenhuma eleição, mas decidem o nível dos salários e do gasto público, os investimentos e desinvestimentos, os preços, os impostos, os lucros, os subsídios, a hora do nascer do sol e a frequência das chuvas.

Não cuidam, em troca, dos cárceres, nem das câmaras de tormento, nem dos campos de concentração, nem dos centros de extermínio, embora nesses lugares ocorram as inevitáveis consequências de seus atos.

Os tecnocratas reivindicam o privilégio da irresponsabilidade:

— Somos neutros — dizem.

Eduardo Galeano, "O livro dos abraços"

Empresários entre o horror e o inevitável em São Paulo

Sondado por um amigo comum para uma conversa com Pablo Marçal, um banqueiro despistou. “Cê tá louco? Ele vai sair por aí dizendo que falou comigo”. Um grande investidor paulistano, com negócios imobiliários em Goiás, de onde Marçal foi exportado para São Paulo, recebeu a mesma sondagem e caiu fora.

No meio empresarial e financeiro, este tem sido o comportamento padrão em relação ao candidato do PRTB à Prefeitura de São Paulo. Pelo menos até 6 de outubro. Num segundo turno contra Guilherme Boulos (Psol), cenário no qual a pesquisa Quaest desta quarta sugere um rigoroso empate, a coisa muda de figura.

O horror cede lugar ao inevitável. Com PCC, com tudo. Em dois grupos diferentes de WhatsApp de investidores, a vitória do candidato do Psol aparece como a única situação que os levaria a optar por Marçal, como um dia o fizeram, de maneira menos titubeante, por Jair Bolsonaro contra o lulismo.


Os empresários que orbitam em torno de Marçal ainda são predominantemente do marketing digital e startups financeiras, mas essas bolhas já começam a se expandir. Na noite do sábado, Samuel Pereira, um empresário do marketing digital, reuniu em sua casa em Alphaville um grupo de amigos em torno do candidato do PRTB.

Entre aqueles 11 homens brancos, regados a Rosso di Montalcino 2019 - Biondi Santi, havia um de fora da bolha, José Janguiê Diniz, fundador do Ser Educacional. Um dos grupos que mais se expandiram com o Fies e o Prouni dos governos petistas, abriu capital na B3. Janguiê joga em todas as posições.

Estreitou relações com administrações de centro-esquerda, como a Prefeitura do Recife, com a qual tem parceria de formação profissional, e comprou, por R$ 27,5 milhões, no leilão da massa falida do Banco Santos, a mansão do Morumbi, zona sul de São Paulo, do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira. Com os cotovelos sobre a mesa, Janguiê gravou mensagem de apoio a Marçal, assim como os demais comensais, em vídeo que circula nas redes sociais em que todos fazem o “M” com os dedos apontados para baixo.

Não é o único de fora da bolha. Na lista de doadores oficiais da campanha de Marçal, está Helio Seibel, da HS Investimentos, com participações em grandes empresas do país, como a Dexco (Duratex, Deca, Hydra), Leo Madeiras, Loggi e Apolo Energia.

No registro oficial, Seibel doou R$ 100 mil, o mesmo que o empresário goiano Helvio Paulo Ferro Filho. Cada um deles doou tanto para Marçal quanto Arminio Fraga o fez para a candidata do PSB, Tabata Amaral. Marçal arrecadou, até o momento, R$ 944 mil, quatro vezes mais que Tabata. Dos cinco primeiros colocados nas pesquisas, são os únicos com registro de doações no TSE.

A lista de mais de 1 mil doadores de Marçal, com valores de R$ 500 a R$ 1 mil, é um cartão de visita para o discurso do empreendedorismo que entusiasma dois simpatizantes, Rafael Ferri e Tallis Gomes.

Ferri ganhou fama ao colocar uma escultura de Paulo Guedes na entrada da empresa da qual era sócio, a TC, na avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo. Depois de vender sua participação nesta empresa, abriu uma assessoria de investimentos, a GTF Capital, que presta consultoria patrimonial a clientes da corretora Genial. Já Gomes, fundador da Easy Taxi e da Singu, empresa de beleza que vendeu para a Natura, hoje dirige a G4 Educação.

Não foram esses empresários que levaram à sua arrancada. Mais importante foi o impulsionamento cruzado de cortes de seus vídeos, desrespeitando a lei eleitoral, como denunciado - e acatado - pela Justiça Eleitoral. E, ainda, trapaças como aquela contada por Ana Luiza Albuquerque, Eduardo Escolese e Flávio Ferreira, da “Folha de S.Paulo”, em que Marçal se valeu de um homônimo de Guilherme Boulos para disseminar a associação que fez entre o candidato e a cocaína.

O que esta rede de pequenos doadores mostra é que Marçal tem nadado de braçada no empreendedorismo sem ser acossado por concorrentes. Um empresário que colaborou com Boulos chegou a sugerir uma incubadora de startups, com apoio da prefeitura, que negociaria convênio com universidades, forneceria água, luz, internet e isentaria os impostos municipais. Até uma parceria com o pé-de-meia, programa federal de bolsas para o ensino médio, poderia rolar. A proposta ficou no ar.

Além da ausência de concorrentes no tema, joga a favor de Marçal o discurso de que as ações contra sua candidatura podem vir a prejudicar o mercado digital para além de sua treta eleitoral. Duas gigantes do mercado, Google e X, entraram com embargos de declaração contra a decisão que suspendeu os perfis de Marçal pelo medo do efeito cascata.

É no TSE que esta batalha deve findar. É nisso que aposta o prefeito Ricardo Nunes, que, em entrevista ao Valor publicada nesta edição, insistiu no papel da Justiça Eleitoral a despeito de não tê-la acionado.

Como Marçal tem avançado nas pesquisas de maneira mais célere do que as ações, o mais provável é que uma decisão desfavorável à sua permanência no jogo, se acontecer, venha apenas no fim da campanha.

Tirar um candidato emergente da disputa tem um custo menor do que arrancar o líder que ele arrisca se transformar. A reação dessa rede de apoiadores, impulsionadores e influenciadores do marketing do empreendedorismo, dentro e fora da lei, abrirá uma frente de batalha que renovará a guerra entre justiça e política até 2026.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


Economia da destruição

Existe um dito popular que se refere a agosto como sendo o mês de cachorro louco. Esta seria uma das possíveis explicações para a recorrência com que fatos dramáticos têm afetado a sociedade brasileira ao longo da História neste período do ano. Outras pessoas preferem atribuir ao fenômeno astrológico de Plutão retrógrado a desgraceira toda que estamos vivendo por estes dias em termos das queimadas que assolam o país. Enfim, apesar da possibilidade de se buscar razões deste tipo, o fato inegável é que boa parte dos incêndios que estão provocando imensos prejuízos materiais e sociais têm uma base criminosa.

Ao que tudo indica, há uma clara confluência das queimadas provocadas nas regiões Norte e Centro Oeste com os efeitos dos incêndios provocados nas regiões de cultura da cana de açúcar em estados do Sudeste. No primeiro caso, estamos diante do conhecido processo de derrubada de vegetação nativa em biomas como Amazônia, Pantanal e Cerrado, com o objetivo de comercializar madeiras de forma ilegal, abrir campos para pastagem e mesmo iniciar a agricultura de “commodities”, como a soja. Já no segundo caso, trata-se de incêndios em regiões de tradição consolidada de plantio e processamento de cana.


Por mais que a eliminação ilegal dos biomas de fronteira seja caracterizada como atividade criminosa, o fato é que existem dificuldades efetivas para o monitoramento e a imposição de dificuldades por parte do Estado brasileiro para a continuidade de tal fenômeno. A dimensão continental de nosso território, as questões de logística para penetrar em tais áreas de difícil acesso e a influência dos grupos econômicos sobre o poder político local são alguns dos fatores. No entanto, apesar de explicarem, eles não podem servir de justificativa para a incapacidade crônica das instituições estatais de todos os níveis e esferas poderem atuar de forma a inibir e punir tais crimes.

É óbvio que a linha política e programática do governo federal pode atuar em um ou outro sentido. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 contou com o forte apoio dos setores ligados ao agronegócio, incluindo também os grupos envolvidos com a grilagem de terras, o garimpo ilegal, a invasão de áreas destinadas a populações originárias e outras ilegalidades. A chegada desse defensor da tortura e da ditadura no Palácio do Planalto teve o significado de abrir as porteiras para a boiada passar, no dizer de seu Ministro do Meio Ambiente. Uma completa inversão valores e de implementação de políticas públicas.

Assim, logo no primeiro ano de seu governo, Bolsonaro estimulou um conjunto de ações desencadeadas pelos produtores rurais. Assistimos à pulverização de atos criminosos por todo o nosso território com apoio do setor público federal. O evento ficou conhecido como o “Dia do Fogo”. Talvez por coincidência ou sincronicidade, mas deu-se também em agosto de 2019. O dia 10 daquele mês foi marcado por uma quantidade incomensurável de atos de degradação ao meio ambiente, sempre contando com a segurança de impunidade para os responsáveis.

Esse tipo de orientação de conivência e cumplicidade para os órgãos públicos teve igual repercussão quando se tratava de apoio à invasão de terras indígenas, ao desmatamento ilegal e na passividade de tratamento de atividade de garimpo ilegal. As direções de órgãos como Ibama, ICMBio, Funai e outros passaram a colaborar com os criminosos e não aturam em defesa das populações atingidas e de preservação do meio ambiente. Além disso, tais instituições foram submetidas a processos de desmonte e de sucateamento, passando a sensação para o conjunto da sociedade de que o momento era para ser aproveitado para políticas de terra arrasada e de vale-tudo.

A partir de janeiro de 2023, as coisas mudaram de orientação. Com o terceiro mandato de Lula, o meio ambiente voltou a ser considerado prioridade na agenda governamental, inclusive com a nomeação simbolicamente relevante de Marina Silva para a pasta responsável pela sustentabilidade. No entanto, o desmonte provocado no setor durante os 6 anos de Temer e Bolsonaro ainda deixa raízes terríveis. Os indicadores apresentam melhoria mas o nível do desastre ainda é bastante levado.

No caso da cana de açúcar, a questão é mais complexa. Os setores envolvidos com a defesa dos interesses das usinas argumentam que as práticas de queima da terra após a safra para preparar o novo plantio são seculares. De fato, os incêndios deste mês não podem ser explicados apenas por esta causa. A legislação é ambígua e abre uma brecha de interpretação que permite uma leitura favorável a se utilizar deste tipo de queimada. Uma alternativa de método de planto equivocada em todos os sentidos e que compromete sobremaneira os solos, as águas, a flora, a fauna e o meio ambiente de forma geral.

As primeiras notícias e análises do processo atual, por exemplo no interior do estado de São Paulo, apontam para a possibilidade de ocorrência de atos criminosos contra inclusive os interesses das próprias usinas. Será necessário avaliar com mais calma os resultados das investigações para se ter maior clareza a respeito dos fatos. De toda forma, trata-se de medidas que precisam ser apuradas e os responsáveis de ser incriminados e processados. É fundamental romper o círculo vicioso da impunidade que existe também neste setor.

Enfim, mas o que importa reter no conjunto da análise dos eventos de mais este agosto trágico é que se trata de mais um fenômeno associado à economia da destruição. A começar da inserção do Brasil nesse modelo da divisão neocolonial das atribuições em escala internacional. Nossas elites aceitaram passivamente a transformação do país em um grande produtor-exportador de bens primários de baixo valor agregado. Que seja na exportação de minério de ferro e petróleo ou então da produção para venda no mercado externa de soja e carnes. A especialização e a concentração de toda nação nestas atividades implicam a destruição do meio ambiente e promovem a desindustrialização de nossa estrutura produtiva.

Os atuais incêndios são apenas uma faceta mais extremada e violenta do processo de destruição econômica. É claro que a tarefa atual é combater esse tipo de crime, mas não basta que os céus sejam mais claros e azuis.
Paulo Kliass

Das palavras e da guerra


Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. São a vida e quase toda a vida – a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.
Raul Brandão









Não sei que palavras utilizar , quando os dias que correm são dias de vergonha . Queria registar toda a perplexidade dorida que cresce , sempre que eclodem as notícias diárias. Mas « os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo» escreveu Wittgenstein, no século XX. Perante a barbárie, esgotam-se os caminhos da linguagem. Perante a crueza das realidades emergentes do mundo actual, é impossível ser claro , sem que a emoção nos embargue e o horror nos tome.

A verbalização é uma capacidade inerente à pessoa humana, à sua relação com o mundo e respectiva materialização. Eis porque se quedam as palavras numa agónica aporia, num silêncio de espanto perante o terror que milhares e milhares de seres humanos vivem, numa parte deste nosso mundo. E, quando esse terror é propagado pela tirana ambição de um só homem, de que nos servem as palavras que conhecemos? Recusam-se a traduzir a ferocidade do homem capaz de negar o outro homem. Teriam de ser medonhas , numa obscuridade indefinível , que logo ficariam opacas pela sua enormidade. Como criá-las ? E inventá-las para quê , quando são glosadas infamemente pela boca do carrasco. A inversão de posições, o plano da realidade é empurrado para a vítima invadida, quando o agressor se diz ser ele próprio a vítima. O Ocidente está a sofrer o resultado da sua ambição, grita o louco facínora, enquanto lança bombas sobre crianças e gente desprotegida. Não lhe basta dizimar um país, mas quer estender a ameaça ao mundo ocidental. Que tipo de homem tem tamanha ambição?

E lembro-me de repente dum filme muito antigo
Em que o criminoso perguntava:
“De quoi est fait un homme, monsieur le comissaire?”
e nos seus olhos lia-se o pavor
de quem viu um abismo e não lhe sabe o fundo...
De quoi est fait un homme? De que são feitos os homens
que queimaram vivos outros homens? Que tinham centos de crianças
a morrer de fome e pavor, escravos como os pais?
que matavam ou deixavam morrer homens aos milhões,
que os faziam descer ao mais fundo da degradação,
torturados, esfomeados, feitos chaga e esqueleto?
Eram esses mesmos homens
que faziam pouco da liberdade,
que vinham salvar o mundo da desordem,
que vinham ensinar a ORDEM ao planeta!
Sim, que traziam a paz com as grades das prisões,
a ordem com as câmaras de tortura...

Assim disse Adolfo Casais Monteiro, no magnífico poema Europa.

Sei que não sei dizer as palavras nem exactas nem reais .Tento reconhecê-las em quem as soube produzir. Mas sei, isso sim, que há dor a mais nos rostos de quem sobrevive à morte encomendada por um só homem. Homem que traz as grades da tortura para impor a Ordem do seu amordaçado mundo. As palavras emudecem. E, se algumas sobreviverem, talvez repitam como Sartre: «Ces mots durs et noirs, je n’ en ai connu le sens que dix ou quinze ans plus tard et, même aujourd’hui, ils gardent leur opacité : c’est l’humus de ma mémoire. »
Maria José Vieira de Sousa

Polarização é ato de má-fé

Temos corpos repartidos em esquerda e direita. Mãos, pés, olhos, narinas, ouvidos, dedos, hemisférios cerebrais, tudo tem um outro polo que não é “reserva” ou “duplicata”, mas complemento. Somos constitucionalmente duplos, e nossa natureza bipolar facilita a automistificação.

Polarizar é parte de nossa natureza. Entretanto ela tem sido usada mais para dividir e condenar que para compreender. Os lados se complementam, mas, na politicagem, o conceito bloqueia a relativização. Passa a ser prova de certezas, quando o que está em jogo são circunstâncias e limites.

Polarização é uma palavra mais apropriada para uma enfermidade em que represento a verdade, enquanto você exprime erro e ignorância. Tudo o que digo traduz boa consciência do mundo e das coisas; ao passo que você é a personificação da má-fé. Estamos afundados nessa dualidade não complementar e destrutiva faz tempo.


Lula 3 diz que o regime de Maduro na Venezuela é “desagradável”, mas não hesitou em equacionar a reação de Israel ao terrorismo do Hamas como genocídio. Aliás, esse episódio revela nossa infortunada capacidade de somar selvagerias...

Tudo o que está comigo é verdadeiro e não é relativizável, mas seu lado é, invariavelmente, falso, hipócrita ou mentiroso. Hitler e Stálin não exterminaram ninguém; simplesmente foram antipáticos. Como Fidel ou Ortega.

A má consciência revela um autoritarismo rigoroso e, no limite, é o berço dos fascismos. O Diabo, que sempre desejou a morte de Deus e de suas incertezas, é fascista. Para ele, não pode haver outro lado além do seu. Eu tenho amor; você, ódio. A outra mão deve ser englobada em todas as situações. O aleijão resultante não é problema. Podemos viver sem um lado, como manda a lógica da má-fé e dos ficcionalismos modernos.

A má consciência é madrinha dos particularismos. Ser diferente é ser particular ou singular. Somos exclusivos em nossas identidades, mas não podemos equacionar peculiaridades com privilégios, exceto em casos especiais. Quando somos muito ricos, grandes ou poderosos.

Quando julgamos a esquerda subversiva e a direita reacionária, não contribuímos para a clareza. Pelo contrário, apagamos a luz do lado que consideramos inútil, malvado ou demoníaco.

Polarizar não é opor com objetivos de esclarecer ou enxergar melhor. É, como tristemente testemunhamos, um modo de esvaziar o outro lado de razão.

No fundo, trata-se de mutilar o debate, o contraste, a identidade e a compreensão pela eliminação moral ou ideológica do outro, porque temos a bala de prata do certíssimo, do claríssimo e do crudelíssimo. Só nós contamos, porque estamos absolutamente certos de que ultrapassamos a eterna dúvida humana que faz parte de nosso caminhar.

A certeza castra a competição. E a competição é a base do liberalismo democrático. É ela que testa a riqueza de certos caminhos e posições. Por causa disso, regimes democráticos têm como sina e determinação a mudança periódica dos cargos públicos. Todos regulados por ideais diversos, mas unidos num acordo pela transitoriedade do poder. Uma transitoriedade fundada em direitos individuais.

Para realizar tal objetivo, regimes democráticos articulam eleições — competição eleitoral em que se submetem ao julgamento da população de cidadãos, aqueles que votam e elegem seus candidatos por um período delimitado. A regra eleitoral é um dos melhores exemplos de norma universalista, pois vale para todos os candidatos e todos os votantes. Trata-se de “jogo inclusivo” e, como sabemos, arriscado.

Como um jogo de poder, ele desperta paixões espúrias e, em países cuja estrutura social se funda em valores aristocráticos e elitistas, existe permanente tentação de eliminar o opositor. O golpe nasce e cresce como malfadado projeto, justamente quando a polarização assegura certezas e armazena os argumentos das balas de prata que salvariam a sociedade. Trata-se de um pantanal ético de que — valha-me Deus! — ninguém escapa!

Inocentes condenados

Neste planeta há estimados dois bilhões de animais humanos com idade menor que 10 anos, e cerca de 650 milhões que ainda não fizeram o sexto aniversário. Todos eles são inocentes. Inocentes, e condenados!

É triste saber que meus filhos e netos, assim como os dos leitores, estão condenados, mesmo sendo inocentes. Condenados a quê? Inocentes de quê?

Nesse subconjunto da humanidade estão pessoas que, em sua maioria, estarão vivas no ano 2100, quando terão menos de 90 anos. Claro, muitos terão morrido, mas a maioria ainda estará viva, salvo alguma possível – provável? – guerra nuclear. Afinal, o aumento da expectativa de vida é um dos feitos positivos da humanidade. E os ainda estiverem vivos, em que mundo viverão?


No Brasil de hoje, do Sudeste ao Norte, estamos respirando ar seco, poluidíssimo, cheio de gases venenosos, agravado pela fumaça de incêndios, alguns dos quais criminosos, feitos em nome do progresso, em nome de abrir áreas para aumentar a produção de alimentos! Estamos vendo também a quase totalidade deste país, e de muitos outros, sob ameaça de mais incêndios queimando árvores que deveriam viver para reter água para nossa sobrevivência. Mas, em nome do “progresso”, continuamos a degradar a biosfera, a base da nossa sobrevivência.

Hoje, a Organização Mundial da Saúde estima em sete milhões as mortes, a cada ano, decorrentes “apenas” da poluição do ar. Quantas serão dentro de vinte, cinquenta anos, se seguirmos acreditando que explorar e queimar petróleo trás riqueza? É fato que quando tal queima começou, há quase dois séculos, ela ajudou a melhorar a vida de muitos, mas continuar a usá-lo passou a piorar e a condenar a vida de muitos mais, inclusive aqueles que hoje são crianças. Não é novidade comparar os combustíveis fósseis às drogas: euforia nos primeiros usos, morte quando se torna dependente!

Não são só os incêndios que preocupam, e matam. Há pouco, vimos o Rio Grande do Sul devastado por enchentes e, na Arábia Saudita, estimados 1.300 fiéis morreram em poucos dias, em decorrência do calor extremo, que afeta inúmeras regiões do planeta.

A rapidez com que aumenta a frequência e a gravidade dos desastres derivados dos extremos climáticos assusta até mesmo os cientistas, pois sua progressão tem se mostrado mais veloz e grave que as previsões. Nessa aceleração, já se aceita que o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5oC já não é mais viável, acréscimos bem maiores sendo prováveis. Com eventos ainda mais extremos, e sofrimentos maiores.

Daí a se concluir que, embora nossos filhos e netos sejam inocentes, pois nós é que decidimos por eles, somos nós, e principalmente os dirigentes de países e empresas que, ao insistir em manter nosso modo de vida poluente e insustentável, os estamos condenando a vidas bem mais difíceis.

Trata-se de uma nova versão de holocausto e genocídio, realizado a cada dia de forma mais acelerada, em nome do “desenvolvimento”.

Espécie humana, se és sapiens, acorda e age!

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


Ameaça climática já está no horizonte

Parecia uma cena do antigo cinema francês. Domingo de manhã, na bruma que cobria o lago Paranoá, um jovem de pé remava em sua prancha de stand-up paddle, enquanto a companheira, de chapéu e pernas cruzadas, observava o estranho horizonte. Não se via a outra margem. Os ventos pareciam levar à capital federal perguntas sobre o futuro.

Poucas vezes o céu de Brasília esteve assim tão encoberto. Queimadas ocorrem na região nessa época. Mas a novidade do fim de semana foi a chegada da densa bruma proveniente do Sul, de queimadas ocorridas em São Paulo e Goiás.

Algumas delas foram intencionais, segundo investigações preliminares de polícias estaduais. Em Goiás, um dos responsáveis pelo fogo admitiu que o mandante do crime teria intenções de prejudicar um adversário político.

O governo prontamente acionou a Polícia Federal para investigar se algumas das queimadas teriam mesmo sido propositais. E a extensão do fogo pela região central do país já assusta os experimentados agentes do Ibama.

A bruma, que parecia cenário de cinema romântico, na verdade tinha contornos de um denso filme de ação. Ou, quem sabe, de ficção científica.

De agora até outubro, o cheiro das queimadas estará mais forte do que o de costume. Como se buscasse chegar aos gabinetes oficiais para lembrar a urgência climática.

Por enquanto pouca gente estará na capital federal para perceber o aviso. Muitos deputados e senadores permanecerão em seus estados a maior parte do tempo até a data das eleições municipais. Decisões em Plenário serão cirúrgicas e rápidas.

O governo permanece em pleno funcionamento, mas não são poucos os ministros que dividirão suas atenções nos próximos dois meses, que coincidem com o pior período da época seca, com o destino de seus aliados políticos nas próprias bases.

Quando as chuvas de novembro finalmente chegarem, trazendo de volta a normalidade à capital federal, será o momento de averiguar se os sinais da natureza terão tido algum êxito em atualizar a visão de mundo de muitos dos que decidem o futuro do país.

As queimadas contribuem para as maiores emissões do Brasil de gases do efeito estufa. A redução dessas emissões dependerá da contenção de ações criminosas e da conscientização dos produtores rurais – além de apoio político.

Mas outro setor importante para a redução das emissões e para a contenção dos riscos climáticos é o de energia. Para estimular a produção de energias renováveis, o governo enviou importantes projetos de lei ao Congresso Nacional.

Um deles estimula a produção de energia eólica offshore, ou seja, no oceano. Uma prática cada vez mais frequente na Europa, por exemplo, e que parece bastante promissora no vasto litoral brasileiro.

Pois o projeto foi populado, em sua tramitação no Senado, por diversos jabutis – como são chamadas as emendas que pouco têm a ver com a proposta original. Uma dessas emendas, por exemplo, permite a prorrogação de contratação de térmicas a carvão – entre as mais poluentes do mundo – a um custo de R$ 92 bilhões.

Os poderosos lobbies do setor de energia têm feito a sua parte no convencimento de parlamentares. Muitos interesses regionais também estão em jogo quando se discute o processo de transição energética do país.

Lobbies bem menos poderosos ligados aos movimentos ambientalistas também procuram atuar no Congresso Nacional, com resultados muito mais modestos.

Os sinais emitidos pelo clima terão algum sucesso na mudança de ventos em Brasília? Não se pode ser muito otimista, quando o Legislativo tem sido marcado pela forte influência das bancadas ultraconservadoras.

De qualquer forma, a ameaça da mudança climática já está, de fato, no horizonte. Vai ser cada vez mais difícil fechar os olhos para ela.

Foice no escuro

É de se lembrar aos que porventura se entusiasmem pelo personagem encarnado na figura de Pablo Marçal (PRTB) na disputa pela Prefeitura de São Paulo: em 1959, a cidade "elegeu" para vereador, com 100 mil votos, Cacareco, rinoceronte fêmea residente no zoológico.

A rebeldia daquele eleitorado de 65 anos atrás não provocou efeito prático algum. Apenas marcou a entrada do episódio na história dos protestos contra os políticos tradicionais.E daí? Daí que os rebeldes se acreditaram engajados pela via do repúdio, mas jogaram no lixo a oportunidade de fazer uma boa escolha.


São Paulo é a maior, mais rica, mais poderosa e mais complexa cidade da América do Sul. Merece e carece de melhores opções para governantes por parte de seus residentes, interessados que deveriam estar em manter esse lugar de destaque.

Paulistanos orgulham-se da posição que também é motivo de admiração no restante do país. O estado é a locomotiva-mestre do desenvolvimento, como se diz, e a cidade tem papel preponderante nessa pujança.

A capital paulista não deve ser governada na base da galhofa, da subversão de regras de legalidade e civilidade. Necessita ser levada a sério, com governantes e governados que se deem ao respeito.

Não pode ser objeto de piadas ou de escárnio, muito menos de disputas que obedeçam à dinâmica de brigas de foice no escuro, como os atritos entre o clã Bolsonaro e o histriônico Marçal. Caberia aos candidatos adversários, aos partidos, aos organizadores de debates, às campanhas, à Justiça Eleitoral e, sobretudo, ao eleitorado, dar um jeito de encontrar a melhor maneira de retomar o rumo adequado desse debate político.

Se não for assim, estaremos mal. Vamos nos arriscar, absolutamente todos, a aceitar a lógica da contestação vazia contida na preferência por um similar de Cacareco que só nos leva ao fundo do poço da negação da política.

Pablo Marçal revela a ameaça em gestação

Sinto que é hora de planejar férias. Nada de grandes viagens, mas apenas um mergulho no território da literatura e de outras artes. Isso me ajudou na pandemia. Encontrei a obra de Jorge Luis Borges, quatro volumes editados pela Globo Livros, um refúgio de sensibilidade e erudição. Saltei alguns poemas, mas foi um tempo enriquecedor.

O ato de interpretar o cotidiano da política brasileira desgasta e pede um respiro anual. Pressenti o desgaste do STF quando decidiu julgar, sem estrutura adicional, milhares de pessoas. Prisões consideradas ilegais, problemas na própria cadeia, gente com câncer precisando de tratamento e, sobretudo, penas consideradas muito pesadas — enfim, uma sequência de problemas que acabariam se voltando contra a Corte.

Tentei ser discreto, mas não deixei de mencionar minha apreensão. O resultado foi a desconfiança de que protegia a direita. Da mesma forma que a própria direita acusa a defesa de direitos humanos como proteção de bandidos.


O Supremo agora tomou uma decisão importante, determinando que as emendas parlamentares sejam transparentes e rastreáveis. O Congresso queria retaliar, atribuindo-se o poder de anular decisões do STF. Tomar posição nesse caso valeu críticas dos que combatem o STF.

Enfim, como respondeu o personagem de Samuel Beckett que apanhava todos os dias quando lhe perguntaram quem bateu:

— São os mesmos de sempre.

Isso faz parte do jogo e pode ser levado com certo humor. Mas outros problemas me deixam mais preocupado. Pensei que as eleições municipais fossem discutir as mudanças climáticas e a necessidade de melhor proteção das cidades, sobretudo das áreas mais vulneráveis. A observação do debate em São Paulo não só me desapontou, como trouxe à cena uma imensa ameaça. Sabemos que o crime organizado se infiltra na política. Mas, para sobreviver, precisa aceitar as regras do jogo.

O que acontece lá é diferente. Um homem apontado como criminoso por inquéritos policiais entra na cena política cometendo crimes abertamente, como se invadisse uma residência e rendesse a família. E nada acontece.

Talvez tenha uma sensibilidade especial para esse tipo de problema. Mas, para mim, é o desdobramento da política da extrema direita na versão mais agressiva e, infelizmente, com chances de crescer. Steve Bannon, ex-assessor de Trump, já previu o surgimento de uma extrema direita mais audaciosa e disruptiva. Parece que isso acontece no Brasil.

Os ensinamentos básicos são estes: os políticos são corruptos ou comunistas; em ambos os casos, pode-se acusá-los de qualquer coisa sem provas. Para combater o sistema político, todos os meios são válidos, é possível cometer tantos crimes quantos forem tolerados por uma Justiça Eleitoral hesitante e tardia.

As eleições na maior cidade do Brasil trazem um ensinamento sobre o qual será preciso refletir. Não se trata apenas de uma aventura política camuflada pela luta anticorrupção. É um pouco mais que isso. É a mensagem apocalíptica de que todos são criminosos, e é preciso escolher entre os que falam diretamente com seus medos e preconceitos.

Até que ponto isso pode avançar? A extrema direita no poder na Itália temperou seu discurso. Mas essa é a tendência ou o que vemos no Brasil é algo que aponta para algum futuro, um tempo em que a própria tecnologia favorece a barbárie?

Não é simples formular o antídoto. Por onde começar? Pelo mundo político que precisa se voltar para as expectativas elementares da sociedade? Pelos setores da sociedade que conseguem se identificar com a barbárie na esperança de algo melhor?

Desses problemas não se tiram férias. A nova variante da extrema direita não se opõe apenas ao sistema político, à imprensa e à academia. Ela desafia abertamente a lei pelos crimes comuns em que se formou, mas também pela metralhadora giratória de falsas acusações. Houve todo um preparo do TSE para combater fake news. Chegaram com uma nova embalagem e ainda não foram reconhecidos.

A pilantragem nunca deu tantos votos

"Mas entretanto eu errei no golpe/ Você no golpe também tinha errado/ Você julgando que eu desse moleza/ Atrás de moleza também tenho andado", diz a letra do samba-choro "Dois Bicudos". Os autores, Cartola e Aluísio Dias, contam a história de dois golpistas, que antes trocavam carícias e agora não se beijam. A situação lembra a de Jair Bolsonaro e Pablo Marçal nas eleições de São Paulo.


Os golpistas-bicudos têm espantosas semelhanças, a começar pela compulsão de mentir. Estão ligados ao crime; falam em nome de um Deus só deles; manipulam as redes; vendem-se como antissistema; ignoram qualquer projeto de governo e atacam o Estado; defendem a trapaça como um ideal de vida. Correm na mesma faixa da direita para seduzir o eleitor e representam a enganação política —que sempre existiu— levada ao paroxismo.

Um já esteve na Presidência, e as consequências todos sabemos. O outro quer chegar lá. O coach leva uma vantagem em relação ao capitão: seu trabalho como golpista foi mais eficaz. Durante anos ele participou de uma quadrilha especializada em invadir contas bancárias pela internet. Quem foi fisgado —e quem não foi no país que trocou o jeitinho pelo golpinho?— não esquece.

Marçal foi condenado, o crime prescreveu. Bolsonaro está livre. O ex-presidente tem um medo pânico de perder o controle das forças conservadoras, impossibilitando os planos de reverter a inelegibilidade (por enquanto, tais planos continuam a ser articulados no Congresso).

Mesmo assim, o choque entre Bolsonaro e Marçal tem alguma coisa do antigo telecatch —mordidas, cabeçadas, dedos nos olhos, tijoladas na cabeça e tesouras voadoras de mentirinha. Enquanto eles brigam, ou encenam a briga, estão capturando as atenções. Guilherme Boulos, o candidato da esquerda, e Tabata Amaral, do centro, vão ficando em segundo plano. A pilantragem nunca deu tantos votos como hoje.