sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Solidão dos inocentes


Não há lugar mais solitário no mundo do que a cama de uma criança ferida que já não tem família para cuidar dela
Ghassan Abu Sittah, cirurgião plástico britânico do Hospital al-Shifa, em Gaza

Biden, Netanyahu e Putin são senhores da guerra

O jornalista Henry Foy, correspondente do Financial Times em Bruxelas, instiga a reflexão sobre a nova conjuntura internacional a partir da guerra de Gaza, que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse, ontem, que será de longa duração. Ou seja, não deve se encerrar enquanto Israel não invadir a Faixa, eliminar o Hamas e restabelecer seu controle sobre toda a região, a exemplo do que já ocorre na Cisjordânia — apesar da existência de uma enfraquecida Autoridade Palestina.

Segundo Foy, o apoio incondicional do Ocidente a Israel, especialmente Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia, envenenou os esforços para isolar a Rússia e obter apoio dos países em desenvolvimento em favor da Ucrânia. A reação implacável dos israelenses ao ataque terrorista do Hamas, em 7 de setembro, desconstruiu a narrativa do Ocidente em relação às violações de direitos humanos cometidas pela Rússia em Donetsk e outras regiões ocupadas por suas tropas.

“Na enxurrada de visitas diplomáticas de emergência, videoconferências e chamadas, os funcionários ocidentais foram acusados de não defender os interesses de 2,3 milhões de palestinos na sua pressa de condenar o ataque do Hamas e apoiar Israel”, destacou o analista do Financial Times. Isso teria corroído esforços diplomáticos para que a Índia, o Brasil e a África do Sul endurecessem o discurso contra o líder russo Vladimir Putin, com base na necessidade de defender uma ordem global em que as regras do direito internacional fossem respeitadas.

Apesar da generalizada condenação ao ataque de surpresa do Hamas, principalmente à morte e sequestro de civis, a crise humanitária na Faixa de Gaza solidificou posições enraizadas no mundo em desenvolvimento quanto ao conflito israelense-palestino. A maioria desses países apoia a posição oficial da ONU, favorável à criação do Estado da Palestina independente de Israel. “Todo o trabalho que fizemos com o Sul Global [sobre a Ucrânia] foi perdido. Esqueça sobre regras, esqueça a ordem mundial. Eles nunca vão nos ouvir novamente”, lamentava um diplomata do G7 ao jornalista britânico. O Grupo dos Sete é formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, com a União Europeia de observadora.


A maioria dos países em desenvolvimento sempre apoiou a causa palestina pelo prisma da autodeterminação e vê com desconfiança o domínio global dos EUA, o aliado principal de Israel. Os países árabes, inclusive aqueles que têm boas relações com o Washington e Tel Aviv, acumulam ressentimentos. Não são apenas os decorrentes da antiga ordem colonial, nem fruto de intervenções mal-sucedidas no Iraque, na Síria e na Líbia. Nesse caso de Gaza, estão diretamente ligados ao tratamento dado pelas potências ocidentais ao povo palestino.

Ao contrário, Rússia e China cultivam laços históricos com os palestinos. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, na terça-feira, durante a reunião com o líder chinês XI Jinping, em Pequim, agarrou com as duas mãos a oportunidade de questionar o presidente dos EUA, Joe Biden, que adota dois pesos e duas medidas em relação à Ucrânia e à Faixa de Gaza. “O que dissemos sobre a Ucrânia deve se aplicar a Gaza. Caso contrário, perdemos toda a nossa credibilidade”, lamentou o diplomata do G7, segundo o jornalista do Financial Times.

Há pouco mais de um mês, na reunião do G20, em Nova Déli, Biden e outros líderes ocidentais conclamaram os países em desenvolvimento a condenar os ataques da Rússia a civis ucranianos, respeitar a Carta da ONU e o direito internacional. Desde o último domingo, porém, endossam incondicionalmente as ações de Israel na Faixa de Gaza, onde os civis estão sem água, eletricidade, gás de cozinha, comida e remédios.

A ordem global pós II Guerra Mundial não funciona para o mundo árabe, inclusive para a Jordânia e o Egito, que mantêm relações com Israel. Na União Europeia, o incomodo também começa a crescer, sobretudo depois de a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajar para Israel sem um mandato dos 27 estados-membros do bloco e não tratar da questão humanitária. Dublin, Madri e Luxemburgo queixaram-se de seu discurso em Tel Aviv.

Preocupada, a França começou a se movimentar em parceria com o Brasil, que protagoniza os esforços humanitários na presidência do Conselho de Segurança da ONU. Teme que a Rússia não esteja mais interessada em conter seus aliados na região, sobretudo o Irã. A crise de Gaza ofusca a guerra da Ucrânia e desloca recursos dos EUA para Israel, além de neutralizar a narrativa em relação às violações de direitos humanos pelo Exército russo.

Putin e Netanyahu já eram notórios senhores da guerra, mas Biden não tinha essa imagem, graças à retórica em defesa dos direitos humanos. Agora passou a ter.

'Parece que só fugimos de uma morte para outra'

Adnan Elbursh, repórter do serviço em árabe da BBC,
e a família dele tiveram que se mudar de casa mais de uma vez
Nós deixamos Jabalia, no norte de Gaza, na sexta-feira, 13 de Outubro, depois de Israel ter ordenado que os residentes evacuassem a área. Israel descreveu o sul como uma área segura do ponto de vista humanitário, então minha esposa, minhas quatro filhas, meu filho e eu fomos para a cidade de Khan Younis.

Agora estamos no sul. Vi colunas de fumaça e ouvi explosões. Fontes oficiais e testemunhas oculares me disseram que casas foram atingidas por ataques aéreos e famílias acabaram mortas.

Junto com meu irmão e a família dele, conseguimos encontrar um apartamento para ficar que achamos seguro. Éramos 12 pessoas hospedadas no local, que tinha dois quartos e um banheiro. Não havia água, eletricidade ou quaisquer outras instalações.

Mas logo fomos aconselhados a partir.

Disseram-nos que o exército israelense entrou em contato o proprietário do edifício para dizer que o local seria bombardeado. Eles afirmaram que o dono do prédio era procurado por uma associação com o Hamas.

Pouco depois do meio-dia, eu estava fazendo filmagens para uma reportagem da BBC. Minha família e a família do meu irmão foram retiradas às pressas. Eles não puderam levar nenhum dos pertences que havíamos trazido do norte de Gaza e fugiram rapidamente, sem saber qual direção seguir.

O prédio vizinho foi bombardeado enquanto eles fugiam. Felizmente, ninguém se feriu.

Agora minha família e eu estamos sem teto. Não sabemos para onde ir. Fui dominado pelo pânico e pelo medo. Alguém sugeriu que fôssemos ao prédio do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho em Khan Younis. Lá até poderia ser seguro, mas o local já está superlotado — os corredores e os quartos estão cheios de gente.

Não sei o que fazer. Pergunto-me constantemente se devemos voltar à nossa casa no norte de Gaza — que é uma escolha perigosa — ou permanecer no sul — que também não é seguro.

Parece que só fugimos de uma morte para outra. Não há um único centímetro seguro em Gaza.


Sem ter onde dormir dentro de casa, passamos a noite ao ar livre, em um parque perto do prédio do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Foi incrivelmente duro. Uma sensação de impotência me assombrou.

Minha esposa, meus filhos, os filhos do meu irmão e a esposa dele estavam deitados no chão. Foi uma visão terrível. Eles não tinham nada para se cobrir. Espalhamos pedaços de papelão e sentamos sobre eles.

O tempo ficou extremamente frio naquela noite e estávamos congelando, principalmente as crianças. Pegamos alguns cobertores emprestados das pessoas ao nosso redor para cobrir as crianças e ficamos acordados a noite toda, sem dormir.

Na manhã seguinte, decidi levar a minha família para ficar com um amigo que está no campo de Nuseirat, no meio da Faixa de Gaza.

Pouco antes de chegarmos, vários ataques aéreos atingiram uma padaria perto da região. Uma testemunha ocular me disse que os foguetes foram lançados pela força aérea israelense. Eles disseram que centenas de pessoas fizeram fila para comprar pão devido à escassez de alimentos. Com os bombardeios no local, pessoas foram mortas. Foi extremamente horrível e perigoso.

O Ministério da Saúde palestino afirma que os ataques iraelenses em Gaza causaram 3,5 mil mortes e 12,5 mil feridos até o momento. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou a um cessar-fogo humanitário imediato para aliviar o "sofrimento humano épico".

O bombardeio de Israel é uma resposta ao ataque dos militantes do Hamas, que matou pelo menos 1,3 mil pessoas no dia 7 de outubro. Outros 199 indivíduos foram feitos reféns.

Os militares israelenses disseram na manhã de terça-feira (17/10) que atacaram centros de comando operacional, infraestrutura militar e esconderijos do Hamas em Khan Younis e em Rafah, que ficam no sul de Gaza, bem como em duas áreas ao norte.

Mas, para mim e para a minha família, o som dos aviões militares é alto e assustador. Minha família está no campo de Nuseirat. Eu estou em Khan Younis. Não sei onde passarei esta noite. Realmente não sei para onde ir.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

A paz morreu?

Na noite de quatro de novembro de 1995, cem mil pessoas se aglomeravam na Praça dos Reis de Israel em Tel Aviv. Realizava-se um comício pela paz entre israelenses e palestinos. A multidão foi ao delírio quando o primeiro-ministro Ytzhak Rabin concluiu seu discurso histórico: “sempre acreditei que a maioria de nós quer a paz e está disposta a morrer por ela”.

Poucos minutos depois Rabin foi assassinado quando se dirigia ao seu carro. O assassino, Igal Amin, um jovem militante da extrema-direita israelense confessou:” O meu objetivo era eliminar o chamado processo de paz com os palestinos e para alcançá-lo achei que seria melhor eliminar Rabin”.

Os três tiros disparados nas costas de Ytzhak Rabin dizimaram o sonho de muita gente. Simbolicamente é visto como a morte do processo de paz entre dois povos que sempre foram inimigos históricos.

Pouco antes disso aconteceram os acordos de Oslo de 1993 onde, por meio de negociações secretas, o governo de Israel e a Organização para a Libertação da Palestina de Yasser Arafat se comprometeram a unir esforços pela paz. Passos importantes foram dados: Israel saiu de territórios ocupados e os palestinos passaram a contar com um embrião de Estado, a Autoridade Palestina.

Os ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro parecem confirmar a morte definitiva da paz entre palestinos e Israel. O sonho de dois estados também parece soterrado. Com boa dose de razão, uma onda de pessimismo varre o mundo, dado o temor de uma escalada do conflito, generalizando-se para toda a região.



O risco existe, mas considerá-lo como irreversível pode levar à paralisia e a ignorar que não há, para israelenses e palestinos, uma alternativa segura senão a paz definitiva. Ela só acontecerá se for assegurada a existência dos estados de Israel e da Palestina e se as forças interessadas na radicalização exponencial do conflito armado forem isoladas e derrotadas.

É preciso não confundir o Estado de Israel com o governo fundamentalista e de extrema-direita de Netanyahu. Desde 1996, quando chegou ao poder pela primeira vez, Netanyahu teve como estratégia avançar em territórios palestinos, particularmente na Cisjordânia, por meio de novos assentamentos de judeus. Antes, quando foram sacramentados os acordos de Oslo, existiam 200 mil assentados em territórios palestinos. Trinta anos depois são 700 mil.

Seu outro objetivo foi o enfraquecimento da Autoridade Palestina.

Seus planos naufragaram com o 7 de Outubro. Seu fracasso em garantir segurança para os israelenses o leva agora a tentar uma guerra final contra os palestinos. Seu objetivo é promover a diáspora palestina, com o êxodo de seus habitantes.

Netanyahu tenta se apropriar do apoio do mundo democrático ao direito de Israel de se defender e de enfrentar militarmente o Hamas. A opinião pública mundial, não está, contudo, avalizando a ocupação da Faixa de Gaza ou ações que violem o direito internacional. Esse é o sentido do alerta do presidente americano, Joe Biden, de que o “Hamas deve ser derrotado, mas Israel ocupar Gaza é um erro”.

Biden reconheceu ainda o direito dos palestinos de ter o seu próprio Estado e na visita que anunciou fazer à região pretende abrir diálogo com o polo moderado do mundo árabe, com vistas a fortalecê-lo.

Israel é um estado democrático, com uma opinião pública dinâmica e de valores ocidentais. Ela foi às ruas quando Netanyahu tentou usurpar poderes do Judiciário. Seu estado tem mecanismos democráticos para a alternância do poder. Isso aconteceu em 1973, quando o governo de Golda Meyer foi surpreendido pela invasão da Síria e do Egito. No médio prazo, forças moderadas israelenses podem se constituir em governo.

Também não se pode confundir o Hamas com os palestinos. Pesquisas indicam que mesmo na Faixa de Gaza, 64% da população preferem o caminho da negociação com Israel e apenas 12% confiam no Hamas. Os palestinos também são vítimas do terror e são usados como escudo humano. Se dependesse da vontade dos palestinos, viveriam em uma sociedade laica e democrática.

Diferentemente de Israel, não há no território dominado pelo Hamas mecanismos democráticos para a alternância do poder. O grupo terrorista chegou ao poder em 2006, quando ganhou as eleições, mas um ano depois expulsou a Autoridade Palestina da Faixa de Gaza e estabeleceu uma ditadura fundamentalista.

Só será deslocado pela combinação do enfrentamento militar com sua derrota política. Pelo seu isolamento e o fortalecimento da Autoridade Palestina, uma força moderada que firmou posição clara ao declarar sua opção pela política e pela resistência pacífica.

A alternativa à paz é a reprodução em escala infinitamente ampliada do enfrentamento dado ao Estado Islâmico na Síria. O ISIS foi exterminado, mas 20 mil pessoas foram mortas. Caso essa seja a opção, como defende o governo de Netanyahu, o derramamento de sangue será superior, dada a densidade demográfica na faixa de Gaza.

É preciso fugir da armadilha da mata escura. De um lado, Netanyahu ver como solução final a anexação total da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, com a expulsão dos palestinos. E, de outro, a solução final do Hamas que é eliminar o Estado de Israel.

É imperioso reconectar-se com o espírito de Oslo, quando políticos do porte de Itzhaki Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat deram uma chance à paz e por isso mereceram o Prêmio Nobel da Paz de 1994.

À época, Rabin percebeu que não havia mais condição de manter os palestinos como subcidadãos em seu próprio solo. São extremamente atuais suas palavras, quando recebeu o Nobel: “Cemitérios militares em todos os cantos do mundo são um testemunho silencioso do fracasso dos líderes nacionais em santificar a vida humana.”

O ataque a um hospital da Faixa de Gaza, no qual centenas de civis palestinos foram mortos, a maioria crianças e mulheres, impõe aos líderes da comunidade internacional encontrar caminhos para estancar a insanidade da guerra no Oriente Médio.

Desonestidade


O Hamas fez uma obscenidade moral. Mas nada que Israel não tivesse feito aos palestinos vezes sem conta. Dizer uma coisa e não dizer a outra é profundamente desonesto
Terry Eagleton, filósofo e crítico literário britânico 

Preservar o espaço da paz: o trabalho do mundo durante a guerra contra o Hamas

Aviv Kutz, de 54 anos, morador do kibutz Kfar Aza, é amigo de infância de um amigo meu muito próximo. Aviv e a mulher, Livnat, de 49 anos, e os filhos Roten, de 19, Yonatan, de 17 e Yiftach, de 15, moraram em Kfar Aza por anos. Ainda que a família Ktuz tenha passado por vários ataques com foguetes e morteiros do Hamas ao seu kibutz, pais e filhos continuaram esperando pela paz.

Todo ano, a família organizava um festival de pipas, com o objetivo de criar um pequeno espaço pacífico na zona de guerra. Pipas coloridas, algumas com mensagens de paz, eram empinadas perto da cerca da fronteira com Gaza. A irmã de Livnat, Adi Levy Salma, que participou do festival nos anos anteriores disse que “a ideia é empinar as pipas perto da cerca para mostrar a Gaza que só queremos viver em paz”.

O festival de pipas deste ano estava programado para o sábado, 7 de outubro. “Festival de pipas 2023”, dizia o convite, “vamos nos encontrar no campo de futebol às 16h para enfeitar o céu”. Algumas horas antes do festival começar, os terroristas do Hamas invadiram e ocuparam o kibutz. Os terroristas foram de casa em casa torturando, matando e sequestrando sistematicamente dezenas de moradores do kibutz. Todos os cinco membros da família Kutz foram mortos.


Atrocidades como estas confundem a mente. Por que os seres humanos fazem coisas como estas? O que o Hamas esperava alcançar? O objetivo do ataque do Hamas não era capturar e manter território. O Hamas não tem a capacidade militar de controlar o kibutz por muito tempo diante do Exército israelense.

Três coisas devem ser apontadas, para entender os objetivos do Hamas. Primeiro, o Hamas focou amplamente neste ataque em matar e sequestrar civis, ao invés de soldados. Em segundo lugar, os terroristas torturaram e executaram adultos, crianças e até bebês no modo mais tenebroso que poderiam imaginar. E, em terceiro lugar, ao invés de tentar esconder as atrocidades, o Hamas garantiu que elas fossem divulgadas, até filmando algumas eles mesmos e compartilhando os vídeos chocantes nas redes sociais.

Essa é a própria definição de terrorismo, e já vimos coisas similares antes com o Estado Islâmico (EI). Diferente da guerra convencional que usualmente busca conquistar território ou degradar capacidades militares, o terrorismo é uma forma de guerra psicológica, que visa a aterrorizar. Ao matar centenas de pessoas de formas brutais e tornando isso público, organizações como o Hamas e o EI buscam aterrorizar milhões — israelenses, palestinos e pessoas do mundo.

O Hamas é diferente de outras organizações palestinas como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), e não deve ser equiparada a todo o povo palestino. Desde sua fundação, o Hamas recusou-se veementemente a reconhecer o direito de existência de Israel e fez tudo o que estava ao seu alcance para arruinar todas as oportunidades de paz entre israelenses e palestinos, e entre Israel e o mundo árabe.

O pano de fundo imediato do atual ciclo de violência são os tratados de paz assinados entre Israel e países do Golfo Pérsico, e o esperado tratado de paz entre issraelenses e sauditas. Havia a expetativa de que esse acordo não apenas normalizasse as relações entre Israel e boa parte do mundo árabe, mas também que, de algum modo, aliviasse o sofrimento de milhões de palestinos vivendo sob ocupação israelense, e que reiniciasse o processo de paz entre os dois lados do conflito.

Nada alarma mais o Hamas do que a possibilidade de paz. É por isso que ele lançou este ataque — e é por isso que matou a família Kutz e mais de mil outros civis israelenses. O que o Hamas fez é um um crime contra a Humanidade no sentido mais profundo do termo. Um crime contra a Humanidade não é apenas sobre matar seres humanos. É sobre destruir nossa confiança na Humanidade. Quando você testemunha coisas como pais sendo torturados e executados na frente dos filhos, ou crianças pequenas brutalmente assassinadas, você pede toda a confiança nos seres humanos. E corre o risco de perder sua humanidade também.

Os crimes do Hamas não podem ser justificados pela conduta passada de Israel. Dois erros não fazem um acerto. Há muito por criticar Israel por manter milhões de palestinos por décadas sob ocupação, e por abandonar, nos últimos anos, qualquer tentativa séria de paz.

No entanto, o assassinato da família Kutz e muitas outras atrocidades cometidas pelo Hamas, não tinham o objetivo de reiniciar o processo de paz ou tem alguma probabilidade de liberarem um único palestino da ocupação israelense. Em vez disso, a guerra lançada pelo Hamas impõe imenso sofrimento a milhões de palestinos. Impulsionado pelo seu fanatismo religioso, o Hamas simplesmente não parece se importar com o sofrimento humano – israelense ou palestino.

Diferente da laica OLP, muitos dos líderes e ativistas do Hamas parecem só se importar com suas fantasias de vida paradisíaca após a morte. Eles estão dispostos a entregar este mundo às chamas e a destruir as nossas almas no processo, para que as suas próprias almas possam supostamente desfrutar da felicidade eterna num outro mundo. Nós temos que vencer essa guerra de almas.

Em sua guerra contra o Hamas, Israel tem o dever de defender seu território e seus cidadãos, mas deve também defender sua humanidade. Nossa guerra é com o Hamas, não com o povo palestino. Os civis palestinos merecem desfrutar de paz e prosperidade em sua terra, e até no meio do conflito, seus direitos humanos básicos devem ser reconhecidos pelos dois lados. Isso se refere não apenas a Israel, mas também ao Egito, que partilha a fronteira com a Faixa de Gaza, que fechou parcialmente.

Já o Hamas e seus apoiadores devem ser excomungados pela Humanidade. Não só Israel, mas toda a comunidade humana deveria colocar o Hamas completamente fora dos seus limites, assim como fez antes com o EI. Os cidadãos de Israel não podem viver em lugares como Kfar Aza, com o Hamas do outro lado da cerca, assim como iraquianos e sírios não podiam viver como o EI à sua porta.

Dezenas de milhares de israelenses já fugiram das áreas de fronteira, e não podem voltar para suas casas antes que a ameaça a suas vidas seja removida. Em um nível mais profundo, as vidas de todos os seres humanos são desvalorizadas e ameaçadas enquanto se permita que organizações como o Hamas e o Estado Islâmico existam.

Os objetivos da guerra em Gaza devem ser claros. Ao fim da guerra, o Hamas deve estar totalmente desarmado e a Faixa de Gaza deve ser desmilitarizada, para que os civis palestinos possam viver vidas dignas no território, e os civis israelenses possam viver sem medo ao lado da Faixa de Gaza.

Até que esses objetivos sejam atingidos, a luta para manter a nossa humanidade vai ser difícil. Muitos israelenses são psicologicamente incapazes nesse momento de ter empatia com os palestinos. A mente está cheia até a borda com nossa própria dor, e não resta espaço nem para reconhecer a dor dos outros.Muitas das pessoas que tentaram manter esse espaço — como a família Kutz — estão mortas ou profundamente traumatizadas. Muitos palestinos estão em uma situação semelhante — suas mentes também estão tão cheias de dor que não podem ver a nossa.

Mas os que estão de fora e não imersos na dor devem fazer um esforço para ter empatia com todos os seres humanos que sofrem, ao invés de preguiçosamente verem apenas uma parte da terrível realidade. É o trabalho dos que estão de fora ajudar a manter o espaço para a paz. Nós depositamos esse espaço pacífico com vocês, porque não podemos mantê-lo no momento. Cuidem bem dele para nós, para que um dia, quando a dor começar a sarar, tanto israelenses como palestinos possam habitar este espaço.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

O mundo em guerra

O mundo está em guerra, como sempre. O mundo tem hoje cerca de dez guerras em andamento. Todas são igualmente iguais, pela sua insensatez, crueldade e mortes. Mas algumas têm mais relevância pela sua amplitude e consequências políticas.

As três mais relevantes hoje são a Guerra entre o Hamas e Israel, sendo o Oriente Médio o berço e a origem dos conflitos de nossa civilização; a Guerra da Ucrânia, uma guerra geopolítica entre a Rússia e os Estados Unidos que domina toda a Europa, e joga por baixo a noção da relativa estabilidade da ordem mundial pós Segunda Guerra; e o possível conflito entre os Estados Unidos e a China, na luta pela hegemonia mundial deste século XXI, com a China tendendo a ultrapassar o PIB do Estados Unidos, gerando tensões que podem resultar em guerra. Este é o trio que nos amargura na visão quase apocalíptica do amanhã.

No berço de nossa civilização, Gregos e Persas se antepuseram, a Grécia mais ligada à noção de democracia, a Pérsia mais baseada no conceito do estado centralizado. Samuel Huntington, em “O choque de civilizações”, fala-nos sobre a relativa diminuição da economia ocidental e o relativo aumento da economia dos países árabes e islâmicos, em concepções antepostas. Israel com política expansionista territorial, entra em conflito contínuo com os Palestinos, ainda sem a constituição de um Estado, e com o mundo Árabe, com poucas chances de solução em não havendo negociação.


Na Europa, chega a impressionar que um país como a Ucrânia, com PIB de US$ 200 bilhões em 2021 e renda per capita de US$ 3.500, 00 dólares, hoje com o PIB diminuído para US 160 bilhões e recebendo auxílio militar de US$150 bilhões no primeiro ano do conflito, seja o palco de tamanha guerra que abala os alicerces mundiais. Em 2021, o PIB da Rússia aumentou 22%, o dos Estados Unidos 9%, o da União Europeia caiu 3,5%. Desde 1950, os Estados Unidos participaram em cerca de 30 guerras no mundo, a Rússia em seis.

No Mar da China, navios e aviões da China e dos Estados Unidos provocam-se reciprocamente, aumentando a possibilidade de conflito. De 2000 a 2021, o PIB dos Estados Unidos foi de US$ 10,3 trilhões para US$ 23,3 trilhões, a China de US$ 1,2 trilhões para US$ 17,7 trilhões. A China reivindica Taiwan, responsável por 90% da produção mundial dos supercondutores na vanguarda do conhecimento, os Estados Unidos defendem a sua autonomia. Os supercondutores são fundamentais na determinação do poder econômico e político das nações no século XXI. A luta que era antes por colônias, depois por petróleo, agora é por supercondutores.

Na música de Rita Lee, “Alô, alô Marciano, aqui quem fala é da Terra, pra variar, estamos em guerra, você não imagina a loucura, o ser humano tá na maior fissura porque, tá cada vez mais down in the high society”. O mundo é cego, e marcha para a sua possível autodestruição, na contraposição do mercado e da crise ecológica que se aproxima.

Pensamento do Dia

 


Uma breve história de Marte

Dos filmes e livros às sondas de exploração da NASA, Marte é sinônimo de fascínio e mistério. Haverá vida no planeta vermelho? O planeta Marte está sempre nas manchetes. Recentemente, foi a descoberta de água líquida fluindo na sua superfície, e mais um tanto acumulada em crateras. A lista de filmes sobre Marte ou marcianos é longa. O filme de Ridley Scott, Perdido em Marte, baseado no livro de Andy Weir, lotou cinemas pelo mundo afora. Parece que o planeta vermelho não quer ser ofuscado pela Lua, especialmente agora que o bilionário Elon Musk diz que quer colonizar o planeta com sua empresa SpaceX.
Na mitologia greco-romana, Marte é o deus da guerra, guardião dos soldados e dos fazendeiros. A conexão com a guerra pode ser traçada aos egípcios. Os gregos o chamavam de Ares, um dos deuses do Olimpo, filho de Zeus e Hera. A cor avermelhada de Marte, plenamente visível a olho nu, inspira certo temor, dando ao planeta um ar de mistério. Que tipo de criatura pode habitar um mundo que aparenta ser coberto de sangue? Com a astronomia restrita a observações a olho nu até 1609, pouco foi aprendido sobre Marte até então. Entre 1601 e 1609, o astrônomo alemão Johannes Kepler usou o planeta para deduzir que sua órbita tinha a forma de uma elipse, e não a de um círculo perfeito. Talvez a inspiração de Kepler tenha vindo do impulso guerreiro atribuído a Marte, refletido na sua órbita um tanto excêntrica (no sentido de não circular).

O astrônomo bem sabia que sua visão ruía milênios de conhecimento astronômico, e que forçaria uma nova atribuição de imperfeição aos desenhos celestes. {14} Já bem na era dos telescópios, e aproveitando a aproximação de Marte durante um período de ótima visibilidade em 1877, o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli observou certos detalhes do relevo marciano que descreveu usando a palavra italiana “canali”. Mesmo que Schiaparelli estivesse se referindo às longas depressões e sulcos na superfície de Marte, algumas pessoas acreditaram que houvesse descoberto canais escavados, que cruzavam a superfície do planeta em padrões extremamente regulares.

Na imaginação popular, os canais logo se transformaram em vias artificiais, construídos por uma antiga e sábia civilização, dirigindo água dos polos aos centros urbanos das áreas equatoriais, castigadas por terríveis secas. Centenas de canais foram “observados” e batizados, mesmo se revelados apenas através de observações munidas de telescópios. Estranhamente, as fissuras recusavam-se a aparecer em fotografias tiradas com os mesmos telescópios. Astrônomos ofereceram várias explicações para essa situação um tanto peculiar, argumentando que técnicas fotográficas precisam de um longo período de exposição, tornando-as, assim, mais sensíveis a flutuações térmicas na atmosfera. Segundo eles, essas flutuações comprometem a qualidade das imagens fotográficas, apagando qualquer traço de existência dos canais.

Algo semelhante ocorre quando viajamos em estradas com o asfalto aquecido pelo Sol e observamos imagens distorcidas à nossa frente. Astrônomos de excelente reputação acreditaram com entusiasmo na existência dos extensos canais marcianos. Entre eles, o milionário e astrônomo amador americano Percival Lowell ficou fascinado com a possibilidade de vida inteligente em Marte. Em 1895, Lowell publicou um livro expondo suas ideias com grande convicção e autoridade. Usando sua fortuna pessoal, fundou um observatório em Flagstaff, no estado do Arizona, inicialmente dedicado exclusivamente a observar Marte. Não é por coincidência que H. G. Wells publicou seu livro A Guerra dos Mundos em 1898, um dos grandes clássicos da ficção científica, que conta a história de uma invasão marciana.


No livro, Wells usa os marcianos como metáfora para o futuro da humanidade, dominada pelos grandes impérios do final do século XIX (Austro-Húngaro, Otomano, Britânico, a América do Norte emergente...). Da mesma forma que duas espécies inteligentes não podem coexistir no mesmo planeta, uma conflagração entre os grandes impérios seria inevitável no futuro próximo. (Que se materializou, profeticamente, com a Primeira Guerra Mundial.) Os marcianos, forçados a abandonar o seu mundo, haviam criado terríveis máquinas de destruição, um aparato bélico que fazia das nossas armas brinquedos de criança. Não foi nossa inteligência ou estratégia que derrotou os invasores, mas a Natureza.

Wells, imbuído dos ensinamentos de Darwin e sua teoria da evolução, sabia que qualquer espécie, inteligente ou não, só está bem adaptada ao ambiente onde vive. Os marcianos não tinham os anticorpos necessários para se defender contra os nossos micróbios. Inspirado pelo livro de H. G. Wells, ainda mais dramático foi o programa de rádio criado e produzido em 1938 pelo genial Orson Welles, alertando os habitantes do estado de Nova Jersey para uma invasão de marcianos. A Guerra dos Mundos tornou-se “real” logo antes da Segunda Guerra Mundial. A série de transmissões, na forma de noticiários urgentes, causou verdadeiro pânico na população local.

A maioria das pessoas acreditou passivamente nos noticiários, sem questionar a existência de uma civilização tecnologicamente avançada em Marte, aparentemente com péssimas intenções com relação à Terra e seus habitantes.

Essa credibilidade só foi possível porque o planeta vermelho ocupava já um local privilegiado na psique coletiva como um mundo habitado por seres mais avançados, cuja índole destruidora causaria o nosso fim. Poucos entenderam que o que viam nos marcianos era um reflexo de nós aqui na Terra, uma espécie que, movida pela ganância e pela sede de poder, cria meios terríveis de autodestruição.

As duas versões do livro de Wells para o cinema – a primeira, de 1953, dirigida por Byron Haskin, e a segunda, de 2005, dirigida por Steven Spielberg – adaptam a narrativa para a realidade social da época. A versão de 1953 ecoa a era atômica e a Guerra Fria. Os marcianos querem aniquilar os humanos, sem, aparentemente, um motivo óbvio. Na versão de 2005, o foco é a desintegração da família e o medo da ameaça terrorista. Os monstros que vêm de Marte são os monstros que carregamos em nós mesmos.

Durante as décadas de 1960 e 1970, as várias sondas espaciais da linha Mariner e Viking provaram definitivamente que os extensos “canais marcianos” não existem. Também não existe qualquer traço de uma civilização inteligente em Marte, no presente ou no passado. Por outro lado, sabemos agora que o planeta apresenta uma geologia extremamente rica, mesmo se desértica e com temperaturas muito baixas. Vales e leitos de rios, vastos sistemas de cânions com mais de 4 mil quilômetros de extensão, enormes vulcões extintos, tudo isso indica que, no passado, Marte era um planeta muito diferente do que é hoje, com muita água e até, quem sabe, clima tropical.

Com as sondas mais recentes, que pousaram em Marte e exploraram a região vizinha ao seu local de pouso com pequenos jipes robóticos, ficou claro que o planeta é mesmo um deserto gelado, semelhante a certas regiões do Oeste americano. Seu tom avermelhado vem do acúmulo de poeira na superfície, formada por vários compostos de ferro e oxigênio. Essa poeira é levantada com frequência em terríveis tempestades de areia, que podem ser vistas até por telescópio. Apesar de alguns alarmes falsos, a vida não foi detectada em Marte. Se existe vida lá, será simples, provavelmente bacteriana.

Difícil que seja na superfície, dado que a atmosfera de Marte é muito fina, em média com menos de 1% da densidade da atmosfera terrestre: sem a proteção da atmosfera, a superfície é eficientemente esterilizada pela radiação ultravioleta oriunda do Sol. Para piorar, o gás carbônico (o que a gente exala quando respira) compõe 96% da atmosfera, tornando-a inviável para seres como nós. Com massa menor do que a Terra, em Marte o peso dos humanos seria em torno de 40% menor. Bom lugar para dietas, mas não para passar as férias. Seria uma viagem de pelo menos seis meses, sem qualquer garantia de volta. Missões recentes confirmaram a presença de água líquida em certas encostas de Marte.

Estrias escuras em terreno seco indicam a presença de água, semelhante ao que ocorre com o concreto, que escurece quando molhado. A alta quantidade de vários tipos de sais na água faz com que permaneça líquida mesmo a baixas temperaturas, no caso em torno de -30 graus Celsius. Infelizmente, essa alta salinidade também dificulta a existência de vida, semelhante ao que ocorre no Mar Morto em Israel e, mais dramaticamente, na lagoa de Don Juan, na Antártica, com salinidade 9,6 vezes mais elevada que no Mar Morto.

Mesmo que a possibilidade de a vida existir nessas condições seja baixa, só saberemos se alguma criatura pode sobreviver nessas condições extremas se tivermos a oportunidade de investigar a área diretamente. Apesar de parecer uma decisão simples, enviar uma sonda para essas regiões é um processo não só caro como complexo. O maior problema é a possibilidade de contaminação, isto é, de a própria sonda levar consigo criaturas terrestres, bactérias ou vírus. Certamente, numa questão dessa grandeza não queremos ser enganados, especialmente se a vida descoberta em Marte for idêntica à encontrada aqui, o que seria muito suspeito. Não há dúvida de que a descoberta de vida extraterrestre seria uma das maiores notícias de todos os tempos. Contemplar a existência de outras formas de vida é contemplar a natureza de nossa própria existência como seres humanos.

Até que ponto somos únicos e especiais? Sabemos hoje que apenas em nossa galáxia existem em torno de 250 bilhões de estrelas, e que a maioria delas têm planetas girando à sua volta. Devemos, também, incluir as luas, que são potencialmente plataformas para a vida. Isso significa que existem trilhões de mundos apenas em nossa galáxia, cada qual com sua própria composição e história. Se as leis da física e da química são as mesmas nesses mundos – e sabemos que são –, fica difícil imaginar que somos o único planeta com vida.

A probabilidade de vida extraterrestre é alta, mesmo se limitarmos nossa busca à Via Láctea e a criaturas semelhantes a nós, com química baseada em carbono e dependendo de água líquida. Astrônomos que trabalham nessa área – chamada de astrobiologia – especulam que teremos indicação indireta de que a vida existe em outro planeta (fora do sistema solar) em duas ou três décadas. Essa “detecção” se dará através da análise da composição da atmosfera do planeta, que, otimisticamente, teria gases associados à presença de vida, como oxigênio e ozônio. Vale lembrar, no entanto, que detectar vida não é o mesmo que detectar vida inteligente. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas, a vida inteligente sendo certamente muito mais rara. (Veja ensaio anterior, “A questão alienígena”.)

A vida existe na Terra há pelo menos 3,5 bilhões de anos. Em números arredondados, durante os primeiros 3 bilhões de anos, a vida aqui consistia apenas em seres unicelulares. A complexidade dos dinossauros veio muito depois. Nós estamos aqui apenas há 200 mil anos, resultado de uma série de mutações genéticas e acidentes cósmicos. A vida não é como uma semente, que brota e vai dar numa grande árvore. A vida não tem um plano final. A existência de inteligência é a exceção e não a regra. Essa revelação da ciência moderna põe nosso medo dos marcianos num outro patamar, decididamente o da ficção científica. Voltando à obra de H. G. Wells, é melhor tomá-la como metáfora dos perigos que nossa espécie confronta no presente e no futuro próximo. Numa era em que a automação cega e a distância entre nós e o resto da vida em nosso planeta aumentam impunemente, a raridade da vida deveria ressoar com uma nova identidade para a humanidade, guardiões da Natureza num Universo profundamente hostil à vida. É hora de repensar nossa importância e raridade, tomando o destino da vida e do nosso planeta em nossas mãos.
Marcelo Gleiser, "O caldeirão azul"

Ensaio sobre a surdez

Um motorista parado no sinal descobre subitamente que perdeu a visão. Assim começa o "Ensaio sobre a Cegueira", do escritor português José Saramago. Um a um, os habitantes da cidade percebem que já não podem mais ver. Como muitos agora não podem mais ouvir.

No romance de 1995, a “treva branca” se espalha de forma incontrolável. Como se a lembrar a responsabilidade dos que ainda podem ver, quando muitos dos demais habitantes da cidade se acostumam à recente cegueira.

Se ainda estivesse por aqui, diante de duas guerras e da cacofonia das redes sociais, Saramago poderia escrever um novo ensaio, mas desta vez sobre a surdez. Ou sobre a responsabilidade dos que ainda ouvem quando se espalha a surdez – não como epidemia, mas como opção.

A inspiração poderia bater-lhe à porta por meio das imagens do sofrimento de jovens russos e ucranianos, israelenses e palestinos. Homem de esquerda por toda a vida, ele teria suas preferências políticas. Mas não deixaria de perceber como esse sofrimento comum nos revela tão humanos.

Hoje, além de opcional, a surdez é seletiva. A transmissão instantânea de imagens das guerras é rapidamente seguida pela divulgação igualmente instantânea de opiniões e julgamentos em apressadas redes sociais.

Quando a imagem de uma jovem pessoa atingida pela guerra coincide com a posição política de um candidato a influenciador, esse candidato rapidamente a divulga, acompanhada das mais ácidas legendas.

Se a imagem é a de uma igualmente jovem pessoa atingida pelas armas do lado pelo qual se nutre simpatia, opta-se por não a retransmitir. Ouve-se o choro da pessoa que está de seu lado. E não se ouve o lamento de alguém que sofre do outro.


A surdez seletiva já chegou a debates universitários e os interrompeu com sua intolerância. Qualquer palavra fora de lugar já será suficiente para motivar um julgamento sumário. E, quando se decreta que alguém se encontra do lado oposto, não se ouvem mais seus argumentos.

Há décadas a rivalidade entre israelenses e palestinos motiva paixões em todo o mundo. Desde que se decidiu permitir a criação de um Estado judaico naquela região, após o holocausto da Segunda Guerra Mundial, abriu-se um fosso político.

Sem o estabelecimento igualmente de um Estado palestino, têm alertado as mais sensatas vozes ao longo das últimas décadas, não haverá estabilidade na região.

Depois de muitas guerras, rebeliões e revoltas ao longo do século 20, a situação – ainda que tensa como sempre – parecia razoavelmente sob controle. Até que o mais cruel e violento ataque terrorista do grupo Hamas mostrou que nada mais seria como antes.

Os israelenses, até então divididos pelo governo radical de extrema direita de Benjamin Netanyahu, logo se uniram em emergência nacional para organizar uma resposta ao Hamas. E o mundo inteiro passou a temer as consequências de um iminente ataque israelense a Gaza.

Enquanto os generais de Israel planejam seu contra-ataque, o planeta é inundado com sons e imagens de palestinos em fuga. Da mesma forma como já havia sido invadido, dias antes, por sons e imagens do assassinato de jovens que dançavam em uma festa em Israel.

A guerra nos novos campos de batalha é logo seguida por uma guerra disso que nos habituamos a chamar de narrativas.

Nas redes sociais os sons e imagens de sofrimento são convertidos em propaganda política. Se o sofrimento é de alguém de um campo de simpatias, logo acusa-se o campo adversário.

Mas não se demonstra nas mesmas redes empatia com o sofrimento de pessoas comuns, ainda que crianças ou idosos, do lado que se considera inimigo.

Assim corremos todos em direção a uma desumanização. Uma tendência que já marcou diversas sociedades ao longo dos séculos antes de grandes conflitos. Vale tudo em nome de alguma causa.

Os sinais que nos chegam do Oriente Médio não são promissores. Ao contrário, indicam a possibilidade de uma guerra longa que, na pior das hipóteses, poderá atrair novos e perigosos atores ao longo dos próximos meses.

Até aqui só parece claro que dificilmente qualquer lado conseguirá total sucesso por meios militares. Sem uma ampla negociação não haverá paz duradoura.

Por isso as palavras neste momento importam tanto. E por isso os adeptos da surdez seletiva precisam estar atentos. A própria estabilidade global pode estar em risco.

Um esboço de possível declaração do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas a respeito do conflito já chegou às mãos do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Grandes discussões estão à frente.

O acaso deu ao Brasil a responsabilidade de dirigir o conselho em um momento de grave crise. E a oportunidade de estimular os representantes de cada país ali representado a ouvirem uns aos outros para que se mantenham abertas as portas da negociação.

Ver fotos e vídeos de guerra

Ainda que tente, não consigo parar de ver fotos e vídeos de guerra. Não sei por que tenho feito isso, mesmo sentindo tanto desconforto. Talvez esteja tentando entender o que nunca poderá ser entendido. Talvez esteja tentando humanizar as notícias, dar a elas rostos e histórias, ainda que, paradoxalmente, veja esses mesmos rostos na velocidade constrangedora de um scroll. Ou talvez só esteja tentando aliviar a angústia dos impotentes com a movimentação débil de um dedo indicador.

Fui para a minha estante buscar ajuda. Lá estava Susan Sontag, com seu “Diante da dor dos outros”. Nessa obra, a autora comenta que durante muito tempo as pessoas acreditaram que, se o horror dos conflitos fosse vívido e real o bastante aos olhos do grande público, as guerras cessariam.

Sontag cita como exemplo uma tentativa feita por Ernst Friedrich, em 1924, com a obra “Guerra contra a Guerra!”. Este livro de fotos (à venda por um punhado de dólares na Amazon), lançado logo depois da Primeira Guerra, foi concebido para ser uma verdadeira terapia de choque, mostrando ao público fotos impactantes do campo de batalha e do seu entorno.

Focado em construir com imagens uma narrativa linear e persuasiva, o livro começa com fotos de soldadinhos de brinquedo (alguma dúvida de que o belicismo tem gênero? Até ontem dávamos aos meninos armas de plástico).

Segue com fotos de igrejas e casas destruídas, vilarejos arruinados, carros destroçados, enforcamentos, prostitutas seminuas em bordéis militares, soldados e civis mortos, corpos de crianças e, por fim, sepulturas. Tudo isso com legendas, por vezes cáusticas, em quatro idiomas.


A parte mais forte da edição fica no meio dessa narrativa, em uma seção nomeada “Faces da Guerra”, com 24 closes de soldados com os rostos deformados por cicatrizes —hoje essas imagens estão a um Google de distância de qualquer pessoa e seguem sendo extremamente perturbadoras.

Após o lançamento, o libelo antibeliscista foi denunciado por veteranos de guerra e organizações patrióticas e recolhido de diversas livrarias. Ainda assim, foi celebrado em alguns países, com dez edições na Alemanha e traduções em diversas línguas, fazendo com que muitos pacifistas acreditassem que sua circulação teria uma influência decisiva na opinião pública no sentido de evitar futuros conflitos. Alguns anos depois, estourava a Segunda Guerra.

Estamos falando de uma publicação que foi distribuída apenas em uma parte do mundo. De qualquer forma, parece haver nessa tentativa frustrada de conscientização alguma universalidade.

Desde o ano em que “Guerra contra Guerra!” foi lançado, a produção de imagens deu um salto. Se antes as fotos eram poucas, reveladas em papel filme, impressas em edições de alcance limitado e atreladas a algum custo, agora vemos imagens produzidas em tempo real, a câmera muitas vezes na mão dos civis durante o ataque, o quadro tremido por fugas e explosões, o rosto dos narradores se comunicando de forma veemente ou desesperada a um palmo do nosso, com dezenas, centenas ou milhares de comentários e replicações. Que influência a produção dessas imagens dolorosas vem tendo na tomada de decisões dos últimos conflitos? Acredito que ainda não seja possível saber.

De qualquer forma, parece não haver horror e explicitude capazes de frear os infernos que desde sempre o homem inventa para si.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


Netanyahu faz com os palestinos o que o nazismo fez com os judeus

O governo de extrema direita do primeiro-ministro de Israel, Benjamin “Bibi” Netanyahu, acossado por denúncias de corrupção e pelo fracasso de dispor do mais poderoso exército do Oriente Médio que não soube defender seu país, mandou que os palestinos da Faixa de Gaza, moradores do Norte, se transferissem para o Sul do enclave. Do contrário, seriam bombardeados.


Dada a ordem, iniciado o êxodo, continuou bombardeando os que decidiram permanecer no Norte e passou a bombardear os que caminhavam para o Sul. E nenhum dos mais de 60 países que já anunciaram apoio a Israel disse nada até agora. Alguns limitaram-se a recomendar que respeitasse as regras de guerra estabelecidas pela Convenção de Genebra e pediram uma trégua.

O governo de “Bibi” não está nem aí para as tais regras que país algum respeita ao enfrentar um inimigo; quanto ao pedido de trégua, recusou-o. Nem por isso o chanceler da Alemanha, a maior economia da Europa, deixará de desembarcar, hoje, em Tel Aviv para reafirmar apoio a Israel. Nem por isso o presidente americano, Joe Biden, deixará de o fazer amanhã com o mesmo objetivo.

A última guerra justa travada pelos europeus foi contra a Alemanha de Hitler, que matou 6,5 milhões de judeus, ciganos e outras minorias. Devedores dos Estados Unidos, que os salvaram do nazismo, lutaram em todas as guerras que os americanos deflagraram ou se envolveram desde então. Foi assim, por exemplo, no Vietnã, nos anos 1960, no Afeganistão e no Iraque.

No Vietnã, os Estados Unidos foram à guerra a pretexto de impedir que o comunismo se apossasse do país. Acabaram derrotados depois de quase destruírem e queimarem o Vietnã inteiro com bombas incendiárias. Armaram os talibãs no Afeganistão para que enfrentassem os russos. Invadiram o Afeganistão, o país mais miserável do mundo, a pretexto de combater o terror.

Sabiam que eram sauditas os 14 terroristas que sequestraram quatro aviões e jogaram dois deles contra as Torres Gêmeas de Nova Iorque em setembro de 2021. Mas a Arábia Saudita é um dos maiores produtores de petróleo do planeta, do qual os Estados Unidos dependem. E o Afeganistão… Bem, o Afeganistão tem petróleo, mas é um país essencialmente agrícola.

Os Estados Unidos saíram do Afeganistão derrotados. Invadiram o Iraque a pretexto de derrubar a ditadura de Sadam Hussein, que dava abrigo aos terroristas do 11 de setembro e acumulava armas de destruição em massa. Não dava abrigo. Não acumulava armas de destruição em massa, como ficou provado. Sadam foi capturado e morto. Mais tarde, os Estados Unidos abandonaram o Iraque.

Nos últimos 14 anos, Israel bateu com o Hamas quatro vezes. Em duas delas, 2009 e 2014, Israel invadiu Gaza por terra. Morreram milhares de civis palestinos e centenas de israelenses. Há 9 anos, não havia nenhum israelense refém do Hamas; há 14 anos, só um. Hoje, existem de 200 a 250 reféns. O Hamas jamais esteve tão forte. Por que Israel o dizimará desta vez?

O que o governo Netanyahu faz em Gaza com os palestinos é a mesma coisa que o nazismo fez com os judeus. Gaza é um campo de concentração onde vivem 2,3 milhões de pessoas em petição de miséria, cercadas por um muro erguido por Israel, que dependem de Israel para comer, beber água, tomar banho, curar suas doenças e se locomover. Então, Israel decidiu privá-las de todas essas coisas.

Quer dizer: privá-las de viver.

Em comunidade

Passemos a outra questão: o modo de tratarmos com o nosso semelhante. Como devemos agir, que preceitos ministrar? Que não derramemos sangue humano? Ao nosso semelhante devemos fazer o bem: aconselhar a não lhe fazer mal, que ridículo! Até parece que encontrar algum homem que não seja uma fera para os outros já é coisa merecedora de encômios... Vamos aconselhar a que se estenda a mão ao náufrago, se indique o caminho a quem anda perdido, se divida o pão com o esfomeado? Mas para que hei-de eu enumerar todos os atos que devemos ou não devemos praticar quando posso numa só frase resumir todos os nossos deveres para com os outros? Tudo quanto vês, este espaço em que se contém o divino e o humano, é uno, e nós não somos senão os membros de um vasto corpo. A natureza gerou-nos como uma só família, pois nos criou da mesma matéria e nos dará o mesmo destino; a natureza faz-nos sentir amor uns pelos outros, e aponta-nos a vida em sociedade. A natureza determinou tudo quanto é lícito e justo; pela própria lei da natureza, é mais terrível fazer o mal do que sofrê-lo; em obediência à natureza, as nossas mãos devem estar prontas a auxiliar quem delas necessite. Devemos ter gravado na alma, e sempre na ponta da língua, o verso famoso: “Sou homem, tudo quanto é humano me concerne!”, de Terêncio. Possuamos tudo em comunidade, uma vez que como comunidade fomos gerados. A sociedade humana assemelha-se em tudo a um arco abobadado: as pedras que, sozinhas, cairiam, sustentam-se mutuamente, e assim conseguem manter-se firmes!

Sêneca, "Cartas a Lucílio"

E quando nos perguntarem por que não fizemos nada…

Amir é professor de Educação Cívica e está a dar uma segunda oportunidade a uma aluna conflituosa. O docente propõe-lhe que apresente um problema e uma solução para o mesmo. A escola fica numa cidade israelita e Lian dá um exemplo concreto de um problema: o assédio de dois rapazes árabes a uma das suas amigas. Para Lian, a solução é simples: proibir os árabes de frequentarem a mesma piscina. Amir lembra-lhe que não há outra, que talvez a solução possa passar por juntarem dinheiro para construir uma nova.

Mas Lian é irredutível: os árabes não podem frequentar a mesma piscina, aliás, não podem viver sequer no mesmo sítio. O melhor é enfiá-los em autocarros e depositá-los nos países vizinhos: Egipto, Líbano, Síria… Melhor, melhor é atirá-los ao mar, continua a rapariga que entretanto conquistou um aliado na turma, é Asir, cujo irmão foi ferido enquanto cumpria o serviço militar. No próximo ano serão eles a ir para as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla inglesa).

A sala de aula grita quase em uníssono para que se atirem os palestinianos ao mar. O professor ainda argumenta que aquela terra já estava ocupada quando eles, judeus, lá chegaram; e lembra que na Alemanha nazi, a primeira proibição a que os judeus foram sujeitos foi precisamente a frequência das piscinas. Então, não foram metidos em autocarros, mas em comboios, para morrerem. Mas nenhum dos argumentas chama os alunos à razão.

São aqueles miúdos que, em poucos meses, terão treino militar e terão armas nas mãos, que não conseguem perceber que o que o seu governo está a fazer foi o que fizeram aos seus avós e bisavós; que, por exemplo, a Faixa de Gaza funciona como o gueto de Varsóvia, onde tudo o que entrava e saía era decidido pelos alemães, tal como hoje, tudo o que entra e sai de Gaza é decidido por Israel — esta comparação é minha, não do professor.

Ainda não terminei de ver A Lição, uma série de seis episódios que começou, na RTP2, poucos dias antes de o Hamas entrar em Israel e matar indiscriminadamente porque, desde o fim-de-semana passado, que a televisão tem estado ligada nos canais noticiosos e tudo o resto parece irrelevante. Desde que vi, pela primeira vez, os ataques do Hamas ao festival de música — onde perderam a vida mais de 260 jovens de várias nacionalidades, e desapareceram talvez mais de uma centena, que terá sido raptada e mantida em cativeiro pelo grupo terrorista —, que tenho dificuldade em dormir.

Naqueles rapazes e raparigas vejo os meus filhos, os seus companheiros e amigos. “E não nos vês na Faixa de Gaza?”, perguntaram-me os meus filhos, em diferentes momentos. Sim, respondi de imediato. Consigo ver-nos, a todos, de um lado e do outro. A sermos vítimas de um governo ditatorial que devia ter previsto e evitado o que aconteceu; e a sermos vítimas diárias desse mesmo governo, que decide se abre ou fecha a água, se liga ou desliga a luz, se podemos ou não podemos atravessar a fronteira para irmos trabalhar —; e reféns do Hamas, de um lado ou do outro da fronteira.

“É uma sorte o lugar onde nascemos”, diz com alguma constância a minha filha, que viveu dois anos fora, e cujas amigas de mestrado são de muitos cantos da Europa e do mundo. A ucraniana cuja melhor amiga era russa e deixaram de se falar quando a guerra rebentou; a russa que tenta ser amiga de todas e todas a evitam; a indiana de um estado de maioria islâmica que sofre com as leis nacionalistas de Modi — confessou ontem, numa troca de mensagens, que o que o Hamas fez só contribuiu para a demonização dos muçulmanos na Índia; a egípcia que frequentou uma das melhores universidades norte-americanas, mas tem dificuldade em arranjar visto para trabalhar na Europa por causa da sua nacionalidade; a norte-americana que antevê uma guerra civil no seu país, por isso, prefere ficar deste lado do Atlântico; a brasileira que ama a segurança da Europa, sobretudo dos países nórdicos; a colombiana…

Que sorte termos nascido em Portugal, sim, mas não confiemos na sorte. É preciso estarmos atentos. Quem votou em Netanyahu foram os israelitas; quem votou em Modi foram os indianos; quem votou em Trump foram os americanos; quem votou em Bolsonaro foram os brasileiros, etc., etc.. Há que ensinar os mais novos a compreender que há um poder que temos nas nossas mãos, há que saber ler, ver, ouvir e interpretar para usarmos correctamente esse poder, para não repetirmos erros antigos ou recentes.

Lembro-me de nas aulas de História, no secundário, perguntarmos ao professor como é que o Holocausto tinha acontecido sem que ninguém tivesse movido uma palha. Como vamos responder aos nossos filhos quando nos fizerem exactamente a mesma pergunta: onde é que estávamos, o que fizemos quando Israel decidiu não dar alternativa a um povo e bombardeá-lo?

E voltemos ao festival de música trance. Um adolescente português, que veja os vídeos sobre o que se passou quando os militantes do Hamas invadiram o recinto, pode facilmente identificar-se com aqueles jovens que dançam, que se divertem, que são obrigados a fugir, e tomar um partido. É mais fácil imaginar-se no corpo de um jovem israelita com um ar saudável do que de um palestiniano sujo do pó das bombas que caem. Por isso, cabe-nos a nós pais, ajudá-los a compreender que aquelas crianças e jovens não são animais, como apelidam vários ministros israelitas, mas são vítimas do Hamas, assim como de Israel; que não têm como sair dali, por mais que as Nações Unidas o implorem, que Israel comporta-se exactamente do mesmo modo que o Hamas. A diferença é que o primeiro é um Estado supostamente democrático, enquanto o segundo é um grupo terrorista, que cresceu com a complacência de Israel. Também os jovens israelitas, bem como as famílias mortas e sequestradas foram vítimas de parte a parte.

É importante saber o que está a acontecer no mundo. E o mundo entra pelos telefones dos nossos filhos, sem filtro, sem que tenhamos poder sobre isso, desconhecendo se o que vêem é ou não é informação fidedigna. É importante sentarmo-nos e contextualizarmos o que se está a passar. Explicar-lhes por quanto já passou um rapaz ou uma rapariga que tenha hoje 14 anos, em Gaza; que quando nasceu já era refugiado, que sobreviveu a quatro confrontos com Israel, que quando as IDF entram naquele território matam indiscriminadamente; que o mundo ocidental não olha da mesma maneira para um palestiniano e para um israelita, quando todos deviam ser iguais, ter os mesmos direitos e deveres. É importante ensinar-lhes a ter empatia, a ser solidários, a agir.

Guerra lá, guerra aqui

A partir da década de 1970 o Rio cresceu em direção à Barra da Tijuca, bairro mais ou menos planejado que oferecia, além da beleza natural de praias e lagoas, o conceito publicitário da segurança em condomínios fechados e shoppings. Uma espécie de paraíso para a classe média alta. Hoje o perigo mora ao lado.

Na semana passada, a Polícia Federal apreendeu 47 fuzis e centenas de munições calibre 556 escondidos numa mansão de um condomínio de luxo, na Barra. O arsenal veio de Belo Horizonte para abastecer traficantes de drogas, milicianos e bicheiros que estão em guerra na região. O que seria uma ilha de tranquilidade se transformou em palco de assassinatos brutais –como os que vitimaram por engano três médicos num quiosque.


Quem mora na Barra e no Recreio dos Bandeirantes se acostumou a ver comboios de três veículos, de cor preta e vidros cobertos por película escura. Dentro não vão executivos nem autoridades; estão os chefes do crime organizado, responsáveis por uma estatística que iguala a Baixada de Jacarepaguá à Baixada Fluminense no imaginário da violência. O número de homicídios quase triplicou entre janeiro e agosto deste ano em relação ao mesmo período de 2022.

É a prova de que tráfico e milícia, infiltrando-se na estrutura do Estado, agem livremente. A política de segurança do governador Cláudio Castro só parece eficaz para produzir chacinas em favelas. Estima-se que haja 56 mil traficantes e milicianos no Rio, com 28 mil fuzis a seu dispor. Nos últimos cinco anos, 114 crianças foram baleadas; 32 morreram. Um sofrimento imenso das famílias que, no calor da primeira hora, afeta a população em geral. Aos poucos, a dor coletiva vai sendo esquecida ou substituída por outra.

No momento, o horror do conflito no Oriente Médio magnetiza todas as atenções, sobretudo as ideológicas. Mas nossa guerra –permanente e gradual– não dá trégua.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Pensamento do Dia


 

'O morro não tem vez, e o que fez já é demais'


Com a nova Nakba que se desenha agora em Gaza, tudo indica que Israel busca não só avançar na eliminação dos palestinos de seu território, como mostrar ao mundo que a sua tecnologia de confinamento ainda é capaz de impedir o morro de descer quando não for Carnaval

Faixa de Gaza vira campo de concentração para palestinos pobres

Assim como as grandes potências do mundo ocidental fecharam os olhos ao sofrimento dos judeus enquanto eles eram dizimados pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial, agora procedem do mesmo modo em relação ao sofrimento imposto por Israel aos palestinos que vivem na Faixa de Gaza.

Nenhuma das grandes potências ignorava a existência de campos de concentração com suas câmeras de gás para matar judeus, ciganos e outras minorias, mas denunciar a existência deles ou atacá-los não fazia parte de suas prioridades. Era preciso derrotar Hitler rapidamente para poupar vidas de soldados aliados.

O mesmo raciocínio se aplicou à guerra contra o Japão. Derrotá-lo pelos meios convencionais custaria milhares de vidas a Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e França. Então, os Estados Unidos lançaram duas bombas atômicas que mataram entre 90 mil e 166 mil pessoas em Hiroshima, e 60 mil a 80 mil em Nagasaki.

Em maio de 2016, o presidente Barack Obama visitou Hiroshima para depositar uma coroa de flores no monumento aos mortos. Hiroshima e Nagasaki não faziam parte do complexo industrial militar do Japão durante a Segunda Guerra. Perguntaram a Obama se ele pediria perdão pelo que seu país fez. Resposta:

“Não, porque creio que é importante reconhecer que, no meio de uma guerra, os líderes tomam todo tipo de decisões.”


Joe Biden era vice de Obama. Biden, ontem, como presidente dos Estados Unidos, falou ao mundo sobre os ataques do grupo terrorista Hamas que matou até aqui mais de 998 israelenses e feriu cerca de 3.420. Não deu uma palavra sobre os 950 palestinos mortos e os 5 mil feridos por causa dos ataques de Israel a Gaza.

Quando Israel começou a bombardear a Faixa de Gaza, no sábado à noite, a mulher de Amer Ashour entrou em trabalho de parto. “Estava preocupado em como chegaríamos à maternidade”, contou Ashour. O que não esperava é que, quando saísse do hospital, com o filho recém-nascido, não tivesse mais onde morar.

O apartamento de Ashour foi pulverizado por uma bomba israelense. Sua família faz parte dos mais de 180 mil habitantes da Faixa de Gaza que viram suas casas reduzidas a pó e destroços pelo bombardeio aéreo mais intenso de 75 anos de guerra entre israelenses e palestinos. Quem Israel pune?

“Há [16] anos, Israel reagiu à tomada de controle da Faixa de Gaza pelo Hamas, impondo a sanção coletiva de um bloqueio, sem precedentes, aos cerca de 2 milhões de habitantes deste território”, lembra Jean-Pierre Filiu, professor de Estudos do Oriente Médio no Instituto Sciences Po, em Paris.

Gazza tornou-se o que o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy chamou em 2007 de “a maior prisão do mundo a céu aberto”. Isso não impediu que, desde então, tivessem acontecido quatro guerras entre Israel e Hamas (2008-2009, 2012, 2014 e 2021). “Neste 7 de Outubro, o caldeirão acabou por explodir”, observa Filiu.

O bloqueio barra o acesso da população de Gaza a serviços fundamentais em Jerusalém, como cuidados especializados de saúde, bancos e educação. A taxa de desemprego é elevadíssima; duplicou de 23,6% em 2005, antes do bloqueio, para 49% em 2020. A taxa de pobreza saltou de 40% para 56%.

Israel limita a importação de alimentos a uma cesta básica de subsistência mínima, “que é suficiente para sobreviver sem desenvolver má nutrição”, segundo investigadores da Universidade Americana de Beirute (Líbano). Na verdade, 80% da população depende da ajuda humanitária internacional para sobreviver.

A mesma política aplica-se a eletricidade, combustível e água. Antes do início dos bombardeios no sábado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aconselhou os palestinos civis a abandonarem a Faixa de Gaza. Mas eles não podem fazê-lo. As duas entradas e saídas foram fechadas por Israel e Egito.

Gaza virou um campo de concentração para palestinos pobres, e uma fortaleza para o Hamas que os usam como escudos. “Combatemos animais humanos, e agimos em consequência”, justifica o ultradireitista Yoav Galant, ministro da Defesa de Israel. “Nem eletricidade, nem alimentos, nem combustível.”

'Bem-vindos ao Brasil. E tenham uma estadia segura'

"Obrigado por terem escolhido a Lufthansa. Tenham todos os uma estadia SEGURA no Rio de Janeiro e no Brasil". Essa frase foi dita pelo comandante de um voo lotado de turistas que me trouxe de Munique para o Rio há duas semanas. Estou acostumada, como viajante frequente, a ouvir "tenhamos um voo seguro". Mas essa foi a primeira vez que escutei um piloto desejar uma ESTADIA segura. E olha que já viajei para alguns lugares que não são modelo de segurança.

Ouvir o piloto falar assim do meu país e da minha cidade natal me fez rir de nervoso e comentar com amigos, em um surto de escapismo, que os alemães eram "diretos demais”. Só que o piloto estava coberto de razão. E não demorou mais que uma semana para que isso fosse jogado na minha cara com força. Na quinta-feira, 5 de outubro, acordamos com a notícia da execução de três médicos que participavam de um congresso de ortopedia na cidade.

Os ortopedistas Diego Ralf Bomfim, Marcos de Andrade Corsato, Perseu Ribeiro Almeida e Daniel Proença tomavam uma cerveja em um quiosque em frente a um hotel de luxo na Barra da Tijuca, quando foram alvejados. Diego, Marcos e Perseu foram mortos. Daniel escapou com ferimentos. De acordo com a polícia, três homens desceram de um carro e efetuaram pelo menos 33 disparos contra os médicos.


Essa barbárie aconteceu em pleno "asfalto" privilegiado, em um dos metros quadrados mais caros da cidade. Se um conhecido alemão me perguntasse se era perigoso tomar uma cerveja em um quiosque na praia da Barra da Tijuca, em frente ao hotel onde se hospedaria, eu responderia: "Claro que não".

No dia do horror, passamos por todo tipo de sentimento: o pavor de imaginar que a chacina poderia ser um crime político contra Sâmia Bomfim, que recebe centenas de ameaças de morte (estendidas à sua família), por conta de sua atuação e também por ela ser uma mulher feminista; o choque; o choro. E a incredulidade, quando a polícia civil do Rio de Janeiro afirmou que a razão do crime poderia ser o fato de um dos atingidos ser parecido fisicamente com um miliciano que estaria jurado de morte.

O assassinato teria sido um "engano", de acordo com o secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, José Renato Torres.

No dia seguinte, a Polícia Civil do Rio informou que os assassinos dos médicos teriam sido mortos, e seus corpos, encontrados em dois carros na zona oeste. Ou seja: uma guerra.

A Polícia Federal também acompanha as investigações, que ainda estão em andamento.

Se você fosse gringa e lesse essas notícias você viajaria de férias para o Rio de Janeiro? Eu não.

É claro, a guerra não começou semana passada. Ela existe desde que me lembro por gente. Mas piora todo dia. De acordo com o Instituto Fogo Cruzado, 1.112 pessoas foram atingidas por arma de fogo na região do Grande Rio apenas no primeiro semestre de 2023.

No dia 5 de outubro, a barbárie avançou até uma área nobre da Barra da Tijuca, mas inocentes são mortos diariamente no Rio de Janeiro nas favelas e zonas periféricas. E a vida segue, como se nada tivesse acontecido. Essa é uma cidade onde não só médicos brancos são mortos "por engano pela milícia”, mas também onde crianças são mortas "por engano” pela polícia, como já escrevi aqui.

O piloto tinha toda razão. E a execução dos médicos provou mais uma vez que ao viajarmos para o Rio de Janeiro, e para o Brasil em geral, não basta que a gente diga: "divirta-se”. É preciso também: "tome cuidado”, ou "tenha sorte”. Você pode estar fazendo algo teoricamente muito seguro, como tomar um chope com os amigos depois de um dia de conferências e ser executado. É de dar enjôo. E não para aí.

Não deu para eu me recuperar emocionalmente. No dia seguinte ao assassinato dos médicos, meu amigo Vilmar Ledesma, um jornalista com mais de 30 anos de profissão que mora nos Jardins, uma das áreas mais nobres de São Paulo, narrou nas redes sociais outro episódio de barbárie:

"Houve um roubo na rua, acho que de celular. Ouvi uma gritaria imensa antes de sair de casa. E quando estava na rua, havia uma euforia por onde passava. O cara saiu correndo, foi perseguido e acabou linchado. O corpo estava estendido no chão (vi um pedaço do corpo da esquina), no quarteirão da Bela Cintra entre Jaú e Itu, Jardins/SP, Havia uma euforia de carnaval no ar, e ouvi vários comentários elogiando o linchamento. Voltei pra casa arrasado e com vontade de fugir para algum lugar longe dessa insensatez. Socorro!”

Sim, uma pessoa foi assassinada por populares na Rua Bela Cintra, um dos endereços mais caros da rica capital paulistana. Esse tipo de fato deve ser rotineiro, já que o linchamento dos Jardins nem foi noticiado pela mídia.

"Desejo a todos uma estadia segura”. O piloto alemão, repito, estava coberto de razão ao nos desejar isso. Ele podia ter acrescentado que "sacos de papel, no caso de enjoo, estariam disponíveis na cadeira à frente.”

O Produto Interno Bruto de nossa felicidade

Quem vê os rostos radiantes dos brasileiros que chegam ao Brasil, saídos do “inferno” da guerra Hamas x Israel, e trazidos pela Força Aérea Brasileira (FAB), podem inferir que os sorrisos de alegria estampam a cara da felicidade. Ledo engano. O país está com medo. Com muito medo, pois vive um ciclo de violência, com mortes que se multiplicam, aqui e ali, no Rio de Janeiro, em São Paulo e na Bahia, entre outros enclaves mortíferos.

A alegria passageira dos nossos conterrâneos ao pisar o nosso solo mostra que a felicidade é uma régua, que vai do 0 a 100, sendo balizada pelas circunstâncias. A proximidade da morte que uma guerra propicia acaba produzindo uma carga de pavor incomum, aliás determinante para a pessoa entrar em estado de euforia quando se vê distante de bombas e ataques terroristas.


Para arrematar a hipótese, este analista vale-se dos quatro impulsos básicos estudados por Pavlov para explicar as ações humanas: dois instintos relacionados à sobrevivência do indivíduo e dois instintos ligados à perpetuação da espécie – o combativo e o nutritivo; e os impulsos sexual e paternal.

Explicando: o ser humano enfrenta fenômenos da natureza (crises climáticas, inundações, por exemplo) e luta contra seus semelhantes (conflitos, guerras, ataques), para garantir sua sobrevivência. Os nossos conterrâneos foram combativos em sua ânsia para escapar dos bombardeios. Além disso, os seres precisam preservar sua vida, suprindo-se de alimentos e água, sem as quais fenecem.

Sobre o instinto nutritivo, este escriba até montou uma equação para explicar a hipótese: BO+BA+CO+CA = Bolso cheio, Barriga satisfeita, Coração agradecido, Cabeça decidindo aprovar o governante que lhe proporcionou bem-estar. Quanto mais “pança cheia”, mais agradecida será a população. Bolsas-Família fazem parte dos silos estocados para suprir o estômago. Nesse caso, a felicidade tem boa chance de aparecer. Ao contrário, barrigas roncando de fome geram revolta. Veto e não voto.

Quanto aos dois instintos ligados à perpetuação da espécie, o sexual e o paternal, constituem eles a função reprodutiva, a par de valores associados à humanidade da pessoa: amor, solidariedade, paz, harmonia, respeito, autoridade, humildade, caridade, enfim, as virtudes que sustentam o edifício da dignidade humana.

Como se pode aduzir, o conceito de felicidade carrega um escopo de necessidades, condições, ações, satisfações, princípios e valores, todos operando nos campos material e espiritual dos habitantes do planeta. Manter os níveis de energia, com alimento e oxigênio, recuperar os níveis de fluidos corporais, buscar a homeostase do corpo, preservar o mecanismo de perpetuação de nossa espécie e proteger a prole, são atividades rotineiras que ancoram uma vida feliz.

Portanto, calcular a Felicidade Interna Bruta, a FIB, como é chamada, exige um complexo sistema de controles e pesquisas para avaliar a qualidade de vida de um povo, sua satisfação com o trabalho, a saúde física e mental, a educação, a cultura, os níveis de degradação do meio ambiente. Essa FIB é uma invenção do então rei do Butão na década de 1970. O Butão é um país onde o budismo faz parte da identidade nacional.

Localizado no Sul da Ásia, vizinho da China, Índia e Nepal, o Butão possui cerca de 800 mil habitantes, composto por 10 estados e com a capital Thimphu. Com uma economia baseada na mineração, conheceu a TV em 2000 e a Internet, apenas em 2010. Suas matas ocupam 70% de sua extensão. É o único país do mundo que produz menos dióxido de carbono do que suas áreas verdes podem absorver. O governo mantém rígido controle de tabaco e álcool. Não se pode beber ou fumar em lugares públicos.

Sob essa configuração, dimensionar o Produto Interno Bruto da Felicidade brasileira mais parece um exercício para as gerações futuras. Somos um país de dimensão continental. Seu traçado reúne uma complexa camada de fatores díspares, diferentes cadeias de problemas e até de costumes. Relatórios de pesquisas que aparecem periodicamente com a intenção de medir o grau de satisfação de nossa população não passam de espelhos fragmentados (e tortos) da realidade. São pouco críveis, eis que um povo satisfeito com determinada ação pública de governos não quer dizer, necessariamente, que este seja um povo feliz.

A não ser que queiramos entender felicidade como a ironia de Zé Ramalho sobre o Admirável Gado Novo: “Vocês que fazem parte dessa massa/ Que passa nos projetos do futuro/ É duro tanto ter que caminhar/E dar muito mais do que receber. É ter que demonstrar sua coragem, à margem do que possa parecer/E ver que toda essa engrenagem/Já sente a ferrugem lhe comer…. E correm através da madrugada/A única velhice que chegou/Demoram-se na beira da estrada/E passam a contar o que sobrou!”. É o Brasil.