segunda-feira, 16 de outubro de 2023

'Bem-vindos ao Brasil. E tenham uma estadia segura'

"Obrigado por terem escolhido a Lufthansa. Tenham todos os uma estadia SEGURA no Rio de Janeiro e no Brasil". Essa frase foi dita pelo comandante de um voo lotado de turistas que me trouxe de Munique para o Rio há duas semanas. Estou acostumada, como viajante frequente, a ouvir "tenhamos um voo seguro". Mas essa foi a primeira vez que escutei um piloto desejar uma ESTADIA segura. E olha que já viajei para alguns lugares que não são modelo de segurança.

Ouvir o piloto falar assim do meu país e da minha cidade natal me fez rir de nervoso e comentar com amigos, em um surto de escapismo, que os alemães eram "diretos demais”. Só que o piloto estava coberto de razão. E não demorou mais que uma semana para que isso fosse jogado na minha cara com força. Na quinta-feira, 5 de outubro, acordamos com a notícia da execução de três médicos que participavam de um congresso de ortopedia na cidade.

Os ortopedistas Diego Ralf Bomfim, Marcos de Andrade Corsato, Perseu Ribeiro Almeida e Daniel Proença tomavam uma cerveja em um quiosque em frente a um hotel de luxo na Barra da Tijuca, quando foram alvejados. Diego, Marcos e Perseu foram mortos. Daniel escapou com ferimentos. De acordo com a polícia, três homens desceram de um carro e efetuaram pelo menos 33 disparos contra os médicos.


Essa barbárie aconteceu em pleno "asfalto" privilegiado, em um dos metros quadrados mais caros da cidade. Se um conhecido alemão me perguntasse se era perigoso tomar uma cerveja em um quiosque na praia da Barra da Tijuca, em frente ao hotel onde se hospedaria, eu responderia: "Claro que não".

No dia do horror, passamos por todo tipo de sentimento: o pavor de imaginar que a chacina poderia ser um crime político contra Sâmia Bomfim, que recebe centenas de ameaças de morte (estendidas à sua família), por conta de sua atuação e também por ela ser uma mulher feminista; o choque; o choro. E a incredulidade, quando a polícia civil do Rio de Janeiro afirmou que a razão do crime poderia ser o fato de um dos atingidos ser parecido fisicamente com um miliciano que estaria jurado de morte.

O assassinato teria sido um "engano", de acordo com o secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, José Renato Torres.

No dia seguinte, a Polícia Civil do Rio informou que os assassinos dos médicos teriam sido mortos, e seus corpos, encontrados em dois carros na zona oeste. Ou seja: uma guerra.

A Polícia Federal também acompanha as investigações, que ainda estão em andamento.

Se você fosse gringa e lesse essas notícias você viajaria de férias para o Rio de Janeiro? Eu não.

É claro, a guerra não começou semana passada. Ela existe desde que me lembro por gente. Mas piora todo dia. De acordo com o Instituto Fogo Cruzado, 1.112 pessoas foram atingidas por arma de fogo na região do Grande Rio apenas no primeiro semestre de 2023.

No dia 5 de outubro, a barbárie avançou até uma área nobre da Barra da Tijuca, mas inocentes são mortos diariamente no Rio de Janeiro nas favelas e zonas periféricas. E a vida segue, como se nada tivesse acontecido. Essa é uma cidade onde não só médicos brancos são mortos "por engano pela milícia”, mas também onde crianças são mortas "por engano” pela polícia, como já escrevi aqui.

O piloto tinha toda razão. E a execução dos médicos provou mais uma vez que ao viajarmos para o Rio de Janeiro, e para o Brasil em geral, não basta que a gente diga: "divirta-se”. É preciso também: "tome cuidado”, ou "tenha sorte”. Você pode estar fazendo algo teoricamente muito seguro, como tomar um chope com os amigos depois de um dia de conferências e ser executado. É de dar enjôo. E não para aí.

Não deu para eu me recuperar emocionalmente. No dia seguinte ao assassinato dos médicos, meu amigo Vilmar Ledesma, um jornalista com mais de 30 anos de profissão que mora nos Jardins, uma das áreas mais nobres de São Paulo, narrou nas redes sociais outro episódio de barbárie:

"Houve um roubo na rua, acho que de celular. Ouvi uma gritaria imensa antes de sair de casa. E quando estava na rua, havia uma euforia por onde passava. O cara saiu correndo, foi perseguido e acabou linchado. O corpo estava estendido no chão (vi um pedaço do corpo da esquina), no quarteirão da Bela Cintra entre Jaú e Itu, Jardins/SP, Havia uma euforia de carnaval no ar, e ouvi vários comentários elogiando o linchamento. Voltei pra casa arrasado e com vontade de fugir para algum lugar longe dessa insensatez. Socorro!”

Sim, uma pessoa foi assassinada por populares na Rua Bela Cintra, um dos endereços mais caros da rica capital paulistana. Esse tipo de fato deve ser rotineiro, já que o linchamento dos Jardins nem foi noticiado pela mídia.

"Desejo a todos uma estadia segura”. O piloto alemão, repito, estava coberto de razão ao nos desejar isso. Ele podia ter acrescentado que "sacos de papel, no caso de enjoo, estariam disponíveis na cadeira à frente.”

O Produto Interno Bruto de nossa felicidade

Quem vê os rostos radiantes dos brasileiros que chegam ao Brasil, saídos do “inferno” da guerra Hamas x Israel, e trazidos pela Força Aérea Brasileira (FAB), podem inferir que os sorrisos de alegria estampam a cara da felicidade. Ledo engano. O país está com medo. Com muito medo, pois vive um ciclo de violência, com mortes que se multiplicam, aqui e ali, no Rio de Janeiro, em São Paulo e na Bahia, entre outros enclaves mortíferos.

A alegria passageira dos nossos conterrâneos ao pisar o nosso solo mostra que a felicidade é uma régua, que vai do 0 a 100, sendo balizada pelas circunstâncias. A proximidade da morte que uma guerra propicia acaba produzindo uma carga de pavor incomum, aliás determinante para a pessoa entrar em estado de euforia quando se vê distante de bombas e ataques terroristas.


Para arrematar a hipótese, este analista vale-se dos quatro impulsos básicos estudados por Pavlov para explicar as ações humanas: dois instintos relacionados à sobrevivência do indivíduo e dois instintos ligados à perpetuação da espécie – o combativo e o nutritivo; e os impulsos sexual e paternal.

Explicando: o ser humano enfrenta fenômenos da natureza (crises climáticas, inundações, por exemplo) e luta contra seus semelhantes (conflitos, guerras, ataques), para garantir sua sobrevivência. Os nossos conterrâneos foram combativos em sua ânsia para escapar dos bombardeios. Além disso, os seres precisam preservar sua vida, suprindo-se de alimentos e água, sem as quais fenecem.

Sobre o instinto nutritivo, este escriba até montou uma equação para explicar a hipótese: BO+BA+CO+CA = Bolso cheio, Barriga satisfeita, Coração agradecido, Cabeça decidindo aprovar o governante que lhe proporcionou bem-estar. Quanto mais “pança cheia”, mais agradecida será a população. Bolsas-Família fazem parte dos silos estocados para suprir o estômago. Nesse caso, a felicidade tem boa chance de aparecer. Ao contrário, barrigas roncando de fome geram revolta. Veto e não voto.

Quanto aos dois instintos ligados à perpetuação da espécie, o sexual e o paternal, constituem eles a função reprodutiva, a par de valores associados à humanidade da pessoa: amor, solidariedade, paz, harmonia, respeito, autoridade, humildade, caridade, enfim, as virtudes que sustentam o edifício da dignidade humana.

Como se pode aduzir, o conceito de felicidade carrega um escopo de necessidades, condições, ações, satisfações, princípios e valores, todos operando nos campos material e espiritual dos habitantes do planeta. Manter os níveis de energia, com alimento e oxigênio, recuperar os níveis de fluidos corporais, buscar a homeostase do corpo, preservar o mecanismo de perpetuação de nossa espécie e proteger a prole, são atividades rotineiras que ancoram uma vida feliz.

Portanto, calcular a Felicidade Interna Bruta, a FIB, como é chamada, exige um complexo sistema de controles e pesquisas para avaliar a qualidade de vida de um povo, sua satisfação com o trabalho, a saúde física e mental, a educação, a cultura, os níveis de degradação do meio ambiente. Essa FIB é uma invenção do então rei do Butão na década de 1970. O Butão é um país onde o budismo faz parte da identidade nacional.

Localizado no Sul da Ásia, vizinho da China, Índia e Nepal, o Butão possui cerca de 800 mil habitantes, composto por 10 estados e com a capital Thimphu. Com uma economia baseada na mineração, conheceu a TV em 2000 e a Internet, apenas em 2010. Suas matas ocupam 70% de sua extensão. É o único país do mundo que produz menos dióxido de carbono do que suas áreas verdes podem absorver. O governo mantém rígido controle de tabaco e álcool. Não se pode beber ou fumar em lugares públicos.

Sob essa configuração, dimensionar o Produto Interno Bruto da Felicidade brasileira mais parece um exercício para as gerações futuras. Somos um país de dimensão continental. Seu traçado reúne uma complexa camada de fatores díspares, diferentes cadeias de problemas e até de costumes. Relatórios de pesquisas que aparecem periodicamente com a intenção de medir o grau de satisfação de nossa população não passam de espelhos fragmentados (e tortos) da realidade. São pouco críveis, eis que um povo satisfeito com determinada ação pública de governos não quer dizer, necessariamente, que este seja um povo feliz.

A não ser que queiramos entender felicidade como a ironia de Zé Ramalho sobre o Admirável Gado Novo: “Vocês que fazem parte dessa massa/ Que passa nos projetos do futuro/ É duro tanto ter que caminhar/E dar muito mais do que receber. É ter que demonstrar sua coragem, à margem do que possa parecer/E ver que toda essa engrenagem/Já sente a ferrugem lhe comer…. E correm através da madrugada/A única velhice que chegou/Demoram-se na beira da estrada/E passam a contar o que sobrou!”. É o Brasil.

domingo, 15 de outubro de 2023

O antissemitismo estrutural que emerge na guerra de Gaza

O movimento negro brasileiro consolidou o conceito de racismo estrutural e desconstruiu a tese de que o Brasil é uma democracia racial, devido à miscigenação e ao voto direto, secreto e universal, que garante a negros, mulatos e pardos — classificação agora considerada “politicamente incorreta” — os mesmos direitos políticos da “elite branca”. O racismo estrutural, porém, limita o alcance desses direitos do ponto de vista econômico, social e mesmo político, se considerarmos as estruturas de poder.

Consiste na organização da sociedade de maneira a que privilegie um grupo de certa etnia ou cor em detrimento de outro, percebido como subalterno. A exclusão e discriminações complexas mascaram o fenômeno. O racismo estrutural é uma forma de exploração e opressão, enraizada na estrutura social e nas relações institucionais, econômicas, culturais e políticas.

Uma outra forma de racismo estrutural é o antissemitismo, que tem características completamente diferentes, porque não está associado à condição econômica e social subalterna, ao contrário, mas à condição étnica, especificamente, e ao preconceito cultural. Enquanto em relação aos negros, o racismo vem dos tempos da escravidão, no início do século XVI, o nosso antissemitismo tem origem na atuação da Inquisição católica, nos tempos da Reconquista, que expulsou árabes e judeus da Península Ibérica.


Sim, árabes e judeus são semitas. Na Antiguidade, fenícios, hebreus (judeus), babilônicos, arameus e outros se deslocaram da Península Arábica para a Mesopotâmia, 3 mil anos antes de Cristo. O termo semita como designação para esses povos do Oriente Médio foi cunhado pelo historiador alemão August Ludwig von Schloezer, em 1871, a partir de referências bíblicas. Apesar das diferenças religiosas e étnicas, segundo o Antigo Testamento, todos eram descendentes de um dos três filhos de Noé: Sem.

Entretanto, o termo antissemitismo é usado para designar o ódio e a aversão contra judeus por conta dos eventos históricos que resultaram na migração desses povos para vários cantos do mundo, como aconteceu com as famílias sefarditas na Espanha e Portugal. A primeira sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel (Rocha de Israel), foi fundada no Recife, em 1641, durante a dominação holandesa (1630-1657), pelo rabino luso-holandês Isaac Aboab da Fonseca. Com a derrota dos invasores holandeses na Batalha dos Guararapes, os judeus migraram de Pernambuco para Nova Amsterdã, atual Nova York, onde formaram a Congregação Shearith Israel, a primeira sinagoga da América do Norte.

O surgimento do movimente sionista no século XIX, em resposta à diáspora e à milenar perseguição aos judeus, com objetivo de reocupar a Palestina e construir um Estado-nação, apartou árabes e judeus. Sion significa Jerusalém, a cidade sagrada para os judeus, muçulmanos e cristãos, cujo lado oriental, que era administrado pela Jordânia, foi ocupado por Israel em 1967, na Guerra dos Seis Dias.

Sempre houve resistência ao sionismo entre os judeus, principalmente entre os judeus assimilados da Europa. A filósofa judia-alemã Hannah Arendt chegou a participar do movimento sionista, mas se desvinculou na década de 1940. Autora de A Condição Humana e Raizes do Totalitarismo, Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”para explicar o Holocausto, ao descrever o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann.

Sequestrado num subúrbio de Buenos Aires por um comando israelense, em 1960, Eichmann foi levado para Jerusalém. No mais importante julgamento de um criminoso nazista depois do tribunal de Nuremberg, em vez do monstro sanguinário, surgiu um burocrata medíocre e carreirista, incapaz de refletir sobre os próprios atos ao receber uma ordem. Para Arendt, o processo desnudou a capacidade de o Estado transformar o exercício da violência homicida em organogramas e mero cumprimento de metas.

O julgamento legitimou a grande vitória sionista que fora a criação do Estado de Israel, pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948, com objetivo de evitar um novo Holocausto, como o perpetrado pelo líder da Alemanha nazista, Adolph Hitler, na Segunda Guerra Mundial. Entretanto, os palestinos (de maioria muçulmana), que já viviam no atual território de Israel, não aceitaram a hegemonia judaica. Desde então, conflitos e guerras inviabilizaram a criação de um Estado palestino.

O radicalismo político e religioso de ambas as partes inviabilizou todos os acordos. No atual conflito, o ataque terrorista do Hamas, inimaginável e inaceitável, não justifica o que ocorre em termos humanitários em Gaza, onde a população civil está sem água, energia elétrica, combustível, alimentos e remédios, forçada ao êxodo por bombardeios indiscriminados do Exército israelense.

O pior é que essa crise desperta o antissemitismo em quase todos os lugares. No caso do Brasil, árabes e judeus se integraram à vida nacional e convivem em harmonia, traduzem sua cultura para a nossa realidade (viva o Arranco de Varsóvia!), sem chauvinismo nem perda de identidade. É uma conquista civilizatória à qual não devemos nunca renunciar.

Pensamento do Dia

 


Bombas

Bombas agem com indiferença. Matam e destroem o que está em seu raio de ação. É coisa de espaço. Métrica que delimita a área da morte provável. Não liga para a cor da pele, nacionalidade, religião, inclinação política ou quaisquer outras dessas besteiras que a gente inventa para dizer que gente não é tudo igual. Ela só explode e acaba-se.

Para quem morre, tanto faz se foi morto a tiro, explosão, susto ou raiva. Mas faz diferença para quem mata. Mortos são todos iguais em sua mórbida paralisia. Assassinos é que são diferentes em suas formas de matar.

Quem mata a facada sente o hálito de quem mata. Suja as mãos de sangue. É coisa quase íntima.

Quem atira, tem alvo. Dispara chumbo ou cobre numa direção específica, com um propósito mortífero específico. Ou a esmo, quando tanto faz em quem acertar. Seja como for, é um tiro para uma morte. Tiro tem direção e limite. Não se espalha por aí indiferente à reta que o define.

Mas a bomba, que mata aos montes, é morte provocada por quem não está nem aí para quantos ou quem morrerá. É ferramenta de matar aos montes. Todo lançar de bombas é meio genocida. Da mesma forma que a bomba mata com indiferença. Quem mata com bomba também é indiferente ao matar quem provoca.

Matar só por matar, seja de que jeito for, é coisa rara de acontecer. Mistura de loucura, maldade e tédio. O comum é matar dizendo o porquê do morto merecer morrer. Apela-se às diferenças para justificar a diferença que há entre deixar-se viver e fazer morrer.

Pessoas que matam com bombas – e as que aplaudem quem mata com bombas – são diferentes de bombas. Não são indiferentes como as bombas que lançam com indiferença sobre os que creem não merecer viver. Agem movidos por simpatias e antipatias anteriores às bombas lançadas. E fazem, das mesmas bombas que estraçalham gente, boas ou más dependendo de quem se está a matar.

O curioso é que matar gente com bomba pararia se não olhássemos outros como diferentes. Se não inventássemos e enchêssemos de ódio tantas diferenças, qualquer bomba que mata seria um absurdo. Seria um crime não contra palestino ou israelense. Ou russo ou ucraniano. Mas crime contra a humanidade. Contra o humano que há em mim e em você.

Talvez, na indiferença que nos iguala a todos como humanos só porque somos igualmente capazes de sentir e pensar, pudéssemos ser indiferentes às diferenças do que sentimos e pensamos. Talvez, só talvez, a humanidade pudesse experimentar aquela paz tão falada, tão desejada e tão pouco buscada.

O ardil

Em tempos de precipício, alguma clareza ajuda: não pode haver espaço para relativizar a barbárie do terrorismo islâmico. Ela é absoluta e implacável. Nosso compasso humano não precisa saber se os bebês judeus foram degolados, carbonizados ou fuzilados pelos atacantes para nos situar como humanos.

De início, a matança espetaculosa desencadeada pelo Hamas contra Israel na manhã do último dia 7 não conseguiu desencadear uma guerra com mais atores. Foi, essencialmente, um atentado terrorista de crueldade máxima contra o maior número possível de judeus. Planejado e executado com ferocidade calculada pelo Hamas (acrônimo, em árabe, de Movimento de Resistência Islâmica, a entidade controladora dos 2,3 milhões de palestinos de Gaza), o ataque conseguiu o que pretendia: aterrorizar os civis, humilhar os militares e atrair as Forças Armadas do governo de Benjamin Netanyahu para o ardil de uma invasão ao enclave palestino.

Os 36 artigos da fundação do Hamas, criado em 1987, a que foram acrescidos outros 42 elaborados em 2017, deixam tudo às claras, por escrito — a necessidade de obliteração total de Israel, o estabelecimento de um Estado palestino teocrático do Mar Mediterrâneo até o Rio Jordão, a proibição de qualquer negociação, iniciativa internacional ou proposta de acordo, a purificação de crianças pela sharia, a conformidade obrigatória à lei islâmica da idealizada nação. O futuro e solução para o povo palestino seria um só, a qualquer preço: a jihad, guerra santa.


O poder do terror reside em fazer crer que é capaz do impossível. É a propaganda por meio do ato, a pedagogia por meio do assassinato — a propaganda e o produto. Não precisa sequer vencer o inimigo, basta humilhá-lo por meio do horror, impotência e desespero que gera. É comum grupos terroristas não terem pátria nem precisarem de conquistas territoriais para se sentir vitoriosos. Em 2001, os 19 jihadistas da Al-Qaeda que sequestraram quatro aviões comerciais, derrubaram as Torres Gêmeas, deixaram Nova York e Washington de joelhos e causaram a morte de mais de 3 mil civis aleatórios em pouco mais de uma hora não conquistaram 1 centímetro de terra. Não era seu propósito. Tampouco imaginaram conseguir afundar o governo de George W. Bush e a sociedade americana em duas décadas de guerras de retaliação — ambas equivocadas, invencíveis e ruinosas, ambas com gritantes violações do Direito internacional. E ambas com crimes de guerra comparáveis aos atos do terror.

Sim, também guerras têm um manual de regras. Ele vem sendo aperfeiçoado e frequentemente violado depois de cada conflito mundial. O recurso a armas químicas, o sequestro de civis, o genocídio, a execução de prisioneiros civis ou militares, ataques a populações não combatentes constituem alguns dos crimes de guerra ou contra a humanidade acordados pelas nações. Que não se aplicam a grupos terroristas, justamente por estarem fora de qualquer lei. Mas o Hamas parece ter calculado com assustadora precisão como arrastar as Forças de Defesa de Israel, as temidas e invencíveis FDI, para o pântano de uma guerra suja em vielas espremidas de Gaza. Fez mais de uma centena de reféns entre jovens, crianças, famílias inteiras, idosos civis e militares, e os entocou no enclave para usá-los como escudo humano e abominável trunfo. Ainda é difícil saber o objetivo final do Hamas para além da matança-surpresa.

É fácil, em contrapartida, imaginar a prioridade para Israel: a erradicação, a qualquer custo, da capacidade tentacular do grupo extremista. Primeiro foi cortado o suprimento de água, luz, comida e possibilidade de vida à população de Gaza, sublinhada por dias e noites de bombardeios ferozes. Na sexta-feira, o ultimato para que 1,1 milhão de palestinos do Norte abandonassem tudo e fugissem para o Sul prenunciava o pior. O resgate dos reféns, a possibilidade de um corredor humanitário, o destino de estrangeiros sem porta de escape daquela terra condenada — era tudo incerteza. Cinquenta anos atrás, uma colossal ofensiva militar da Síria e do Egito também pegou Israel de surpresa. Foram 19 dias de combates ferozes que transformaram a cena política do país e da região. Golda Meir, chefe do governo trabalhista que erguera Israel das cinzas do Holocausto, renunciou ao cargo por não ter prevenido o duplo assalto. Deixou aos inimigos uma das frases mais profundas e amargas da História:

— Eu não os odeio por terem matado nossas crianças. Eu os odeio por terem me levado a matar as vossas crianças.

A causa palestina de um Estado independente, laico e de convívio com Israel precisa ser possível, precisa ser viável. Não é mais possível desviar o olhar do que está à nossa frente: um povo em busca de existência.

Desordem mundial

Os tempos de paz foram, porventura, uma ilusão. Até porque ao longo das décadas em que pensávamos estar a viver em paz, nunca deixaram de existir guerras, conflitos escondidos e ataques desmesurados aos direitos humanos. Havia, no entanto, uma diferença fundamental em relação ao que se observa agora: apesar de as armas nunca se terem calado, a esmagadora maioria dos líderes mundiais continuava, em público, a falar da necessidade de pacificação mundial. Por isso, em busca de reconhecimento ou de uma glória efémera, desdobravam-se em conversações e em tentativas de acordos de paz – com a fotografia da assinatura a ficar guardada para a posteridade. Havia vergonha em apelar à guerra. Havia…

Os tempos mudaram. Em especial desde a retirada das tropas americanas e dos seus aliados no Afeganistão – o momento em que foi anunciado, com estrondo, o fim da chamada pax americana, em que vivíamos desde o final da Guerra Fria. Desde então, ficou livre o caminho para a criação de novas esferas de influência, em que vários atores procuram ganhar poder regional ou até reconhecimento mundial.


Agora, há ataques contínuos e cada vez mais explícitos à ordem internacional saída dos escombros da II Guerra Mundial. Não há zona do globo onde não se registem tensões e um escalar de conflitos que acabam por ter implicações em todo o mundo.

O que está a ocorrer no Médio Oriente é bem o exemplo desta nova desordem mundial, em que mergulhámos, de forma desprevenida, mas com consequências dramáticas, como sucede em todas as guerras. Aquela que foi uma das regiões mais martirizadas do globo nas últimas décadas parecia estar a caminhar, segundo uma visão superficial, para uma certa normalidade. Havia aproximações entre a Arábia Saudita e Israel, percebiam-se as tentativas de alguma parte do bloco ocidental para criar pontes com o Irão, apesar de o regime continuar a desenvolver o seu plano nuclear e a persistir na repressão dos direitos humanos. Afinal, era tudo uma ilusão. Os últimos dias demonstraram que organizações como o Hamas – mas também o Hezbollah – têm o poder para mergulhar a região no caos. E, mais uma vez, ficou demonstrado que os discursos de líderes autoritários e populistas, como Benjamin Nethanyau, sempre a insistir na tecla da segurança, são afinal ilusórios perante a realidade. Só isso explica que aqueles que eram considerados os melhores serviços secretos do mundo tenham sido apanhados completamente desprevenidos perante o ataque assassino perpetrado pelo Hamas, que visou diretamente a população civil de Israel.

Duma forma ou doutra, esta ação terrorista do Hamas não deixa de ser inspirada na invasão da Ucrânia pelas tropas de Vladimir Putin, outro momento fundador desta nova desordem mundial. E cujas consequências estão a alastrar pela zona europeia, com uma escalada preocupante no conflito adormecido entre a Sérvia e o Kosovo, nos Balcãs, mas também a servir de “combustível”, mesmo que indireto, para a tentativa do Azerbaijão de controlar o enclave de Nagorno-Karabakh na Arménia, que já provocou dezenas de milhares de refugiados.

Em África, por seu lado, sucedem-se os golpes militares na região do Sahel, criando um efeito de contágio que ameaça alastrar a outros pontos do continente, onde o combate à violência jihadista é aproveitado pela Rússia, através do grupo Wagner, para ganhar novos aliados. E, para cúmulo de tudo, nos EUA assistimos, atualmente, a um descontrolo total nas estruturas do poder, por causa da deriva extremista que está a tomar conta do Partido Republicano e, com isso, a paralisar o normal funcionamento das instituições da maior potência mundial. Quem beneficia, afinal, desta desordem? A resposta, infelizmente, ainda vai demorar a ser encontrada.

Manter a tensão interessa aos envolvidos

Em toda disputa, o maior objetivo é provocar no adversário a reação esperada. A previsibilidade decorrente dessa tática permite o planejamento estratégico. Quem domina essa técnica é capaz de manter a iniciativa. Reduzido à condição de coadjuvante, o adversário consome seu tempo e energia reagindo, enquanto o protagonista se ocupa do próximo lance.

Se dois atores em lados opostos souberem empregar esse método com maestria e sem limites morais, ele se torna a única tática efetiva. O centro do tabuleiro é esvaziado, e a eletricidade se concentra nos polos opostos. Os extremistas palestinos e israelenses empregam essa técnica há 80 anos. Sua eficácia avassaladora e seu custo humano são comprovados mais uma vez.


As Forças de Defesa de Israel ignoraram as advertências dos serviços de inteligência israelense, egípcio e americano. Elas falharam durante as incursões do Hamas no dia 7 porque suas atenções estavam voltadas para as prioridades do governo de Binyamin Netanyahu: a expansão das colônias judaicas na Cisjordânia e o acesso de fiéis judeus ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa.

O governo israelense não concede alvará de construção para palestinos na Cisjordânia e demole casas novas, assim como as residências das famílias de palestinos acusados de atos de violência. Ao mesmo tempo, financia a construção de novas moradias e a criação de novos assentamentos para judeus na Cisjordânia.

Essa política tem elevado as tensões e fomentado a atuação de células terroristas e de ataques de palestinos contra colonos judeus e contra as forças de segurança israelenses. Os judeus podem andar armados; os palestinos, não.

Os colonos, muitos deles recém-chegados da Europa e dos Estados Unidos, invadem casas de palestinos cujas famílias moram na Cisjordânia há muitas gerações, e os agridem, gritando frases como “vão embora, aqui não é a sua terra”. Algumas vezes, sob o olhar de aprovação de soldados israelenses.

REGRA. O ministro de Segurança Itamar Ben-Gvir, líder dos colonos judeus da Cisjordânia, defende o livre acesso de fiéis judeus ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa. Grupos religiosos judeus acreditam que suas orações nesse local dariam início à construção do 3.º Templo. O 2.º Templo foi destruído pelos romanos no ano 70.

No mesmo local foi construída a mesquita entre 685 e 715. Os tratados de Paris e de Berlim, que regem o acesso a lugares sagrados em áreas disputadas, firmados em 1856 e 1878 respectivamente, determinam que só os judeus rezem no Muro das Lamentações, as fundações que restaram do 2.º Templo, e só os muçulmanos tenham acesso à parte de cima.

Israel tradicionalmente respeitou essa regra, violada pelo atual governo ultranacionalista. No terceiro dia da festa judaica dos Tabernáculos, dia 1.º, a polícia israelense ordenou que os palestinos fechassem suas lojas na Cidade Velha de Jerusalém, e impediu o acesso dos muçulmanos, para garantir a entrada de judeus no complexo de Al-Aqsa.

O Hamas denominou a incursão no dia 7 de “Inundação de Al-Aqsa”. Segundo seu comandante militar, Mohammed Deif, a operação começou a ser planejada em maio de 2021, depois que policiais israelenses invadiram a mesquita, durante o mês sagrado muçulmano do Ramadã, espancaram e arrastaram palestinos de dentro de lá, alegando que eles os haviam atacado.

O Hamas venceu as eleições de 2006 na Faixa de Gaza e seu rival palestino, o Fatah, ganhou na Cisjordânia. Mas Estados Unidos e União Europeia anunciaram o corte da ajuda de meio bilhão de dólares cada para os palestinos, se o Hamas assumisse, por considerá-lo organização terrorista. O Fatah então continuou governando Gaza até o ano seguinte, quando o Hamas tomou o poder no território à força.

Desde então, houve cinco guerras entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, que está sob bloqueio israelense. Metade da população do território está desempregada. Segundo o Programa de Alimentos da ONU, 1,84 milhão de palestinos não tem comida suficiente, ou seja, um terço da população nos dois territórios e mais Jerusalém Oriental. Desses, 1,1 milhão vive em “grave insegurança alimentar” – 90% deles na Faixa de Gaza.

Esse ambiente estimula o radicalismo palestino. Os ultranacionalistas israelenses sabem disso. A perpetuação do conflito interessa a ambos. Fazer essa análise não é justificar a violência. É entender suas causas. E, nesse sentido, honrar suas vítimas.

sábado, 14 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


A guerra

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Os últimos dias da morte

No século XXI, é provável que os humanos façam um lance sério para a aquisição da imortalidade. A luta contra a velhice e a morte será tão somente a continuação da luta, consagrada pelo tempo, contra a fome e a doença, e uma manifestação do valor supremo da cultura contemporânea: a valorização da vida humana. Somos constantemente lembrados de que ela é o que há de mais sagrado no universo. Todos dizem isso: professores nas escolas, políticos nos parlamentos, advogados nos tribunais e atores nos palcos de teatros. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) após a Segunda Guerra Mundial — e que talvez seja o que há de mais próximo que temos de uma Constituição global —, declara categoricamente que o “direito à vida” é o valor fundamental da humanidade. Por se constituir em uma clara violação desse direito, a morte é um crime contra a humanidade, e temos de travar uma guerra total contra ela.

Durante a História, religiões e ideologias não santificaram a vida em si mesma. Santificaram sempre algo que está acima ou além da existência terrena, e consequentemente foram bem tolerantes com a morte. De fato, algumas delas mostraram-se bastante afeiçoadas ao Anjo da Morte. Uma vez que o cristianismo, o islamismo e o hinduísmo insistiam que o significado de nossa existência dependia da sina no pós-vida, elas consideravam a morte como parte vital e positiva do mundo. Humanos morriam porque Deus assim decretava, e o momento de sua morte era uma experiência metafísica sagrada e repleta de significado. Quando um humano estava próximo de seu derradeiro suspiro, era hora de convocar sacerdotes, rabinos e xamãs, fazer o balanço de sua vida e assumir seu verdadeiro papel no universo. Tente imaginar o cristianismo, o islamismo ou o hinduísmo em um mundo sem mortes — o que seria também um mundo sem céu, inferno ou reencarnação.

A ciência e a cultura modernas têm uma visão totalmente diferente da vida e da morte. Não pensam nesta última como um mistério metafísico, e certamente não a veem como a fonte do sentido da vida. Na verdade, para pessoas modernas a morte é um problema técnico que pode e deve ser resolvido.

Como, exatamente, morrem os humanos? Histórias fantásticas medievais descrevem a Morte como uma figura envolvida por um manto negro com capuz, empunhando uma grande foice. Um homem vive sua vida, preocupando-se com isto e aquilo, correndo para lá e para cá, quando subitamente o Anjo da Morte surge à sua frente, bate em seu ombro com um dedo esquelético, e diz: “Venha!”. E o homem implora: “Não, por favor! Espere só um ano, um mês, um dia!”. Mas a figura encapuzada sibila: “Não! Você tem de vir AGORA !”. E é assim que morremos.


Na realidade, contudo, humanos não morrem porque uma figura envolta em um manto negro bate em seu ombro, ou porque Deus assim decretou, ou porque a mortalidade é parte essencial de algum grande plano cósmico. Humanos morrem devido a alguma falha técnica. O coração para de bombear sangue. A artéria principal entope com depósitos de gordura. Células cancerosas espalham-se no fígado. Germes multiplicam-se nos pulmões. E de quem é a responsabilidade por todas essas falhas técnicas? Outros problemas técnicos. O coração para de bombear o sangue porque não chega bastante oxigênio ao músculo cardíaco. Células cancerosas se espalham porque uma mutação genética acidental reescreve suas instruções. Germes se instalaram nos meus pulmões porque alguém espirrou no metrô. Nada metafísico. Somente problemas técnicos.

E todo problema técnico tem uma solução técnica. Não é preciso esperar pela volta de Cristo à Terra para superar a morte. Alguns nerds num laboratório podem fazer isso. Se a morte era tradicionalmente a especialidade de sacerdotes e teólogos, hoje são os engenheiros que estão assumindo o caso. As células cancerosas podem ser mortas por meio de quimioterapia ou por nanorrobôs. Os germes nos pulmões podem ser extintos com o uso de antibióticos. Se o coração parar de bater, é possível fortificá-lo com medicamentos e choques elétricos — e, se isso não funcionar, pode-se realizar o implante de um coração novo. É verdade que no momento não dispomos de solução para todos os problemas técnicos. Mas é exatamente por causa disso que investimos tanto tempo e dinheiro em pesquisas sobre o câncer, germes, a genética e a nanotecnologia.

Mesmo os leigos, que não estão envolvidos em pesquisas científicas, acostumaram-se a pensar na morte como um problema técnico. Quando uma mulher vai ao médico e pergunta “Doutor, o que há de errado comigo?”, ele poderá responder “Bem, você está com uma gripe” ou “Você tem tuberculose”, ou “Você tem câncer”. Mas nunca dirá “Você tem morte”. E é generalizada a percepção de que uma gripe, a tuberculose e o câncer são problemas técnicos, para os quais algum dia poderemos encontrar a solução técnica.

Mesmo quando pessoas morrem num furacão, num acidente de carro ou numa guerra, tendemos a tratar esse evento como uma falha técnica que poderia e deveria ter sido evitada. Se o governo tivesse adotado uma política melhor; se a municipalidade tivesse feito adequadamente seu trabalho; se o comandante militar tivesse tomado uma decisão mais sensata, a morte poderia ter sido evitada. A morte tornou-se um motivo quase automático para processos legais e investigações. “Como é possível que tenham morrido? Alguém, em algum lugar, meteu os pés pelas mãos.”

A grande maioria dos cientistas, médicos e estudiosos ainda se distancia de sonhos explícitos com a imortalidade com a alegação de que estão tentando superar este ou aquele problema específico. No entanto, como a velhice e a morte são o resultado de problemas específicos, e nada além disso, não existe um ponto no qual médicos e cientistas irão se deter e declarar: “Até aqui, e nenhum passo a mais. Já superamos a tuberculose e o câncer, mas não vamos erguer um só dedo para combater o Alzheimer. As pessoas poderão continuar a morrer desse mal”. Não se afirma na Declaração Universal dos Direitos do Homem que os humanos têm “direito à vida até os noventa anos”. O que se diz é que todo ser humano tem direito à vida. Ponto. Esse direito não é limitado por uma data de vencimento.

Consequentemente, uma minoria crescente de cientistas e pensadores está falando mais abertamente sobre o assunto hoje em dia e declara que a principal empreitada da ciência moderna é derrotar a morte e garantir aos humanos a juventude eterna. Exemplos notáveis são o gerontologista Aubrey de Grey e o polímata e inventor Ray Kurzweil (ganhador da Medalha Nacional dos Estados Unidos para Tecnologia e Inovação em 1999). Em 2012, Kurzweil foi nomeado diretor de engenharia no Google, e um ano depois o Google lançou uma subcompanhia chamada Calico, cuja missão declarada é “resolver a morte”. 
Recentemente o Google nomeou outro verdadeiro crente na imortalidade, Bill Maris, para presidir o fundo de investimentos Google Ventures. Em uma entrevista concedida em janeiro de 2015, Maris disse: “Se vocês me perguntarem hoje se é possível viver até os quinhentos anos, a resposta é sim”. Maris dá suporte a suas corajosas palavras com investimentos pesados. O Google Ventures está investindo 36% de sua carteira de 2 bilhões de dólares em start-ups na área da biociência, inclusive projetos ambiciosos relacionados com a prorrogação da vida. Empregando uma analogia com o futebol americano, Maris explicou que na luta contra a morte “não estamos tentando avançar algumas jardas. Estamos tentando ganhar o jogo”. Por quê? Porque, segundo ele, “viver é melhor do que morrer”.

Esses sonhos são compartilhados com outros luminares do Vale do Silício. O cofundador do PayPal, Peter Thiel, confessou recentemente que tem o desejo de viver para sempre. “Acredito que existem três modos de encarar [a morte]”, ele explicou. “Você pode aceitá-la, negá-la ou combatê-la. Nossa sociedade é dominada por pessoas que estão entre a negação e a aceitação; eu prefiro combatê-la.” Muitos irão rejeitar tais declarações por considerá-las fantasias de adolescentes. No entanto, Thiel deve ser levado muito a sério. Um dos mais bem-sucedidos e influentes empreendedores no Vale do Silício, possui uma fortuna pessoal estimada em 2,2 bilhões de dólares. É bem óbvio: igualdade é out — imortalidade é in.

O desenvolvimento vertiginoso de campos como a engenharia genética, a medicina regenerativa e a nanotecnologia estimulam profecias ainda mais otimistas. Alguns especialistas acreditam que os homens vão vencer a morte por volta de 2200; outros anunciam que isso acontecerá em 2100. Kurzweil e De Grey são ainda mais confiantes: eles sustentam que qualquer pessoa que tenha um corpo saudável e uma igualmente saudável conta bancária terá em 2050 uma chance séria de imortalidade, enganando a morte uma década por vez. Segundo esses dois estudiosos, a cada dez anos aproximadamente poderemos ir até uma clínica e receber um tratamento renovador que não só irá curar doenças, como também regenerar tecidos deteriorados e aumentar a eficácia de mãos, olhos e cérebro. Antes de se realizar o próximo tratamento, os médicos terão inventado uma série de novos medicamentos, atualizações e uma variedade de dispositivos. Se Kurzweil e De Grey estão certos, talvez já haja alguns imortais caminhando a seu lado na rua — ao menos se você estiver andando por Wall Street ou pela Quinta Avenida.

Na verdade, eles serão amortais, e não imortais. Ao contrário de Deus, os futuros super-homens poderão morrer em alguma guerra ou em um acidente de trânsito, e nada os trará de volta. Contudo, diferentemente de nós, mortais, suas vidas não teriam “data de vencimento”. Enquanto uma bomba não os fizer em pedaços ou um caminhão não lhes passar por cima, poderão continuar a viver indefinidamente. No entanto, é bem provável que isso fará dessas pessoas as mais ansiosas na História. Nós mortais arriscamos diariamente nossa vida porque sabemos que ela, de um jeito ou de outro, vai acabar. Assim, saímos em jornadas no Himalaia, nadamos no mar e participamos de outras ações perigosas, como atravessar a rua ou comer fora. Mas, se acreditarmos que podemos viver para sempre, seremos loucos se apostarmos com o infinito.

Será que teríamos um começo melhor se adotássemos metas mais modestas, como duplicar a expectativa de vida? No século XX , quase a duplicamos — a expectativa de vida passou de quarenta para setenta anos —; assim, no século XXI , poderíamos ao menos tornar possível uma nova duplicação e chegar aos 150. Embora esteja muito aquém da imortalidade, essa conquista iria revolucionar a sociedade humana. De saída, estrutura familiar, matrimônio e relações entre pais e filhos seriam transformados. Hoje em dia, as pessoas ainda esperam estar casadas “até que a morte as separe”, e boa parte da vida gira em torno de ter e criar filhos. Agora, tentemos imaginar uma pessoa com 150 anos de idade. Se se casasse aos quarenta, ela ainda teria 110 anos pela frente. Seria realista esperar que um casamento dure 110 anos? Até mesmo os fundamentalistas católicos veriam isso como um obstáculo. Em decorrência, a tendência atual de casamentos em série provavelmente se intensificaria. Uma pessoa que tem dois filhos aos quarenta anos terá, quando completar 120, apenas uma lembrança remota dos anos que dedicou à sua criação — um episódio menor em sua longa vida. Difícil dizer que tipo de relação pais-filhos poderia se desenvolver em tais circunstâncias.

E quanto às carreiras profissionais? Atualmente, de modo geral, estuda-se para se ter uma profissão da adolescência até pouco mais de vinte anos; depois, passa-se o resto da vida atuando nessa atividade. Obviamente existe um aprendizado mesmo quando se está com quarenta ou cinquenta anos, mas a vida costuma dividir-se em um período de aprendizagem seguido de um período de trabalho. Isso não vai funcionar se as pessoas começarem a viver até os 150 anos, sobretudo em um mundo constantemente sacudido por novas tecnologias. As carreiras serão muito mais longas e será preciso se reinventar de novo e de novo, mesmo aos noventa anos.

Ao mesmo tempo, as pessoas não vão se aposentar aos 65 anos nem vão abrir caminho para a nova geração com suas ideias inovadoras e suas aspirações. Em uma citação famosa, o físico Max Planck afirmou que a ciência avança de funeral em funeral. Ele quis dizer que somente quando uma geração desaparece é que surgem novas teorias com uma chance de erradicar as antigas. Isso se aplica não apenas às ciências. Pense por um momento em seu lugar de trabalho. Não importa se você é um acadêmico, um jornalista, um cozinheiro ou um jogador de futebol. Como você se sentiria se seu chefe tivesse 120 anos, suas ideias tivessem sido formuladas quando a rainha Vitória ainda governava, e sabendo que ele provavelmente permaneceria como seu chefe por mais algumas décadas?

Na esfera política, os resultados poderiam ser ainda mais sinistros. Você gostaria de ver Vladimir Putin circulando por aí por mais noventa anos? Pensando melhor, se as pessoas vivessem até os 150 anos, Stálin ainda estaria em Moscou, em 2016, governando firme e forte aos 138 anos, o presidente Mao estaria na meia-idade, com 123, e a princesa Elizabeth estaria esperando sentada para herdar o trono de um Jorge VI com 121 anos. Seu filho, o príncipe Charles, não chegaria a reinar antes de 2076.

De volta ao domínio da realidade: estamos muito longe de qualquer certeza de que as profecias de Kurzweil e De Grey se realizarão em 2050 ou em 2100. Minha opinião pessoal é de que as esperanças de juventude eterna no século XXI são prematuras, e quem quer que as leve demasiadamente a sério está sujeito a sofrer um amargo desapontamento. Não é fácil viver com a consciência de que vamos morrer, mas é muito pior acreditar na imortalidade e constatar que tudo se tratava de um equívoco.

Embora a duração média de vida tenha duplicado nos últimos cem anos, não é razoável extrapolar e concluir que podemos duplicá-la novamente para alcançar 150 anos no século seguinte. Em 1900, a expectativa de vida global não excedia os quarenta anos porque jovens morriam de subnutrição, doenças infecciosas e violência. Porém, quem escapava à fome, à peste e à guerra podia viver até os setenta ou oitenta anos, que é a duração de vida natural do Homo sapiens. Ao contrário do que em geral se supunha, em séculos anteriores os septuagenários não eram considerados aberrações da natureza. Galileu Galilei morreu com 77 anos, Isaac Newton com 84, e Michelangelo viveu 88 anos, sem a ajuda de antibióticos, vacinas ou transplante de órgãos. De fato, mesmo os chimpanzés na selva podem ter seis décadas de vida.

Na verdade, até o presente a medicina não prolongou o tempo de vida natural do ser humano em um ano sequer. Sua grande conquista foi nos salvar da morte prematura e permitir que usufruamos da plenitude da existência. Mesmo que o câncer, a diabetes e outros grandes assassinos possam ser vencidos, poderíamos nos estender até os noventa anos — mas isso não seria suficiente para nos levar aos 150, muito menos aos quinhentos anos. Para isso, a medicina terá não só de realizar a reengenharia das estruturas e dos processos fundamentais do corpo humano como também descobrir como regenerar órgãos e tecidos. Não está claro se seremos capazes de fazer isso até 2100.

Não obstante, toda tentativa frustrada de vencer a morte nos aproxima um passo do alvo, e isso vai nos dar esperança e encorajar esforços ainda maiores. Embora provavelmente a Calico, do Google, não vá “resolver a morte” a tempo de tornar imortais Sergey Brin e Larry Page (cofundadores do Google), decerto descobertas significativas em biologia celular, medicina genética e saúde humana serão realizadas. A próxima geração de googlers poderá iniciar seu ataque à morte a partir de posições mais recentes e mais efetivas. Os cientistas que gritam “imortalidade” são como o garoto que gritou “lobo”: mais cedo ou mais tarde, o lobo realmente aparece.

Mesmo que não conquistemos a imortalidade durante nossa existência, a guerra contra a morte ainda será o projeto emblemático do próximo século. Acrescente à nossa crença na santidade da vida humana a dinâmica do estamento científico e a esta as necessidades da economia capitalista, e a guerra implacável contra a morte parece inevitável. Nosso compromisso ideológico com a vida humana nunca permitirá que simplesmente aceitemos a morte. Enquanto a morte for motivada por alguma coisa, estaremos empenhados em superar suas causas.

O estado científico e a economia capitalista ficarão mais do que felizes em endossar esse empenho. A maior parte de cientistas e banqueiros não se importa com o que estão trabalhando, contanto que isso lhes ofereça a oportunidade de fazer novas descobertas e obter maiores lucros. Pode alguém imaginar um desafio científico maior do que driblar a morte — um mercado mais promissor do que o da juventude eterna? Se você tem mais de quarenta anos, feche os olhos por um minuto e tente se lembrar do corpo que tinha aos 25. Não se concentre em sua aparência, mas acima de tudo em como era senti-lo. Você estaria disposto a pagar quanto pela oportunidade de ter aquele corpo de volta? Sem dúvida, algumas pessoas não se importariam muito com isso, mas haveria muitas outras dispostas a pagar grandes quantias, constituindo um mercado quase infinito.

Se tudo isso ainda não é o bastante, o medo da morte entranhado na maioria dos humanos confere à guerra contra a morte um ímpeto irresistível. Desde que se conscientizaram de que a morte é inevitável, as pessoas se condicionaram a suprimir o desejo de viver para sempre, ou o refrearam em favor de novas metas. Elas querem viver para sempre e assim compõem uma sinfonia “imortal”, empenham-se pela “glória eterna” em alguma guerra, ou mesmo sacrificam a própria vida para que sua alma “desfrute da felicidade perpétua no paraíso”. Grande parte de nossa criatividade artística, de nosso comprometimento político e de nossa fé religiosa é alimentada pelo medo da morte.

Uma vez perguntaram a Woody Allen, que fez uma carreira fabulosa falando do medo da morte, se ele esperava viver para sempre nas telas. Allen respondeu: “Eu preferiria viver em meu apartamento”. E acrescentou: “Não quero atingir a imortalidade por meio do meu trabalho. Quero atingi-la não morrendo”. Glória eterna, cerimônias comemorativas nacionalistas e sonhos com o paraíso são substitutos muito insatisfatórios para o que humanos como Woody Allen realmente desejam — não morrer. Se as pessoas pensarem (com ou sem bons motivos) que têm uma boa probabilidade de escapar da morte, a vontade de viver se recusará a continuar empurrando a carroça da arte, da ideologia e da religião e se lançará à frente como uma avalanche.

Se você acha que fanáticos religiosos com olhos flamejantes e barbas esvoaçantes são cruéis, espere só para ver o que farão magnatas idosos do varejo e estrelinhas de Hollywood envelhecendo quando pensarem que o elixir da vida está ao alcance deles. Se e quando a ciência fizer um progresso significativo na guerra contra a morte, a batalha real sairá dos laboratórios para os parlamentos, os tribunais e as ruas. Os esforços científicos, uma vez coroados de sucesso, desencadearão conflitos políticos amargos. Todas as guerras e todos os conflitos da história tornar-se-ão um pálido prelúdio da verdadeira batalha a nossa frente: a busca da juventude eterna.
Yuval Noah Harari, "Homo Deus: uma breve história do amanhã"

O mundo em guerra

O mundo está em guerra, como sempre. O mundo tem hoje cerca de dez guerras em andamento. Todas são igualmente iguais, pela sua insensatez, crueldade e mortes. Mas algumas têm mais relevância pela sua amplitude e consequências políticas.

As três mais relevantes hoje são a Guerra entre o Hamas e Israel, sendo o Oriente Médio o berço e a origem dos conflitos de nossa civilização; a Guerra da Ucrânia, uma guerra geopolítica entre a Rússia e os Estados Unidos que domina toda a Europa, e joga por baixo a noção da relativa estabilidade da ordem mundial pós Segunda Guerra; e o possível conflito entre os Estados Unidos e a China, na luta pela hegemonia mundial deste século XXI, com a China tendendo a ultrapassar o PIB do Estados Unidos, gerando tensões que podem resultar em guerra. Este é o trio que nos amargura na visão quase apocalíptica do amanhã.

No berço de nossa civilização, Gregos e Persas se antepuseram, a Grécia mais ligada à noção de democracia, a Pérsia mais baseada no conceito do estado centralizado. Samuel Huntington, em “O choque de civilizações”, fala-nos sobre a relativa diminuição da economia ocidental e o relativo aumento da economia dos países árabes e islâmicos, em concepções antepostas. Israel com política expansionista territorial, entra em conflito contínuo com os Palestinos, ainda sem a constituição de um Estado, e com o mundo Árabe, com poucas chances de solução em não havendo negociação.


Na Europa, chega a impressionar que um país como a Ucrânia, com PIB de US$ 200 bilhões em 2021 e renda per capita de US$ 3.500, 00 dólares, hoje com o PIB diminuído para US 160 bilhões e recebendo auxílio militar de US$150 bilhões no primeiro ano do conflito, seja o palco de tamanha guerra que abala os alicerces mundiais. Em 2021, o PIB da Rússia aumentou 22%, o dos Estados Unidos 9%, o da União Europeia caiu 3,5%. Desde 1950, os Estados Unidos participaram em cerca de 30 guerras no mundo, a Rússia em seis.

No Mar da China, navios e aviões da China e dos Estados Unidos provocam-se reciprocamente, aumentando a possibilidade de conflito. De 2000 a 2021, o PIB dos Estados Unidos foi de US$ 10,3 trilhões para US$ 23,3 trilhões, a China de US$ 1,2 trilhões para US$ 17,7 trilhões. A China reivindica Taiwan, responsável por 90% da produção mundial dos supercondutores na vanguarda do conhecimento, os Estados Unidos defendem a sua autonomia. Os supercondutores são fundamentais na determinação do poder econômico e político das nações no século XXI. A luta que era antes por colônias, depois por petróleo, agora é por supercondutores.

Na música de Rita Lee, “Alô, alô Marciano, aqui quem fala é da Terra, pra variar, estamos em guerra, você não imagina a loucura, o ser humano tá na maior fissura porque, tá cada vez mais down in the high society”. O mundo é cego, e marcha para a sua possível autodestruição, na contraposição do mercado e da crise ecológica que se aproxima.

Acerca do fanatismo

A essência do fanatismo consiste em considerar determinado problema como tão importante que ultrapasse qualquer outro. Os bizantinos, nos dias que precederam a conquista turca, entendiam ser mais importante evitar o uso do pão ázimo na comunhão do que salvar Constantinopla para a cristandade. Muitos habitantes da península indiana estão dispostos a precipitar o seu país na ruína por divergirem numa questão importante: saber se o pecado mais detestável consiste em comer carne de porco ou de vaca. Os reacionários americanos prefeririam perder a próxima guerra do que empregar nas investigações atómicas qualquer indivíduo cujo primo em segundo grau tivesse encontrado um comunista nalguma região. Durante a Primeira Guerra Mundial, os escoceses sabatários, a despeito da escassez de víveres provocada pela atividade dos submarinos alemães, protestavam contra a plantação de batatas ao domingo e diziam que a cólera divina, devido a esse pecado, explicava os nossos malogros militares. Os que opõem objecções teológicas à limitação dos nascimentos, consentem que a fome, a miséria e a guerra persistam até ao fim dos tempos porque não podem esquecer um texto, mal interpretado, do Génese. Os partidários entusiastas do comunismo, tal como os seus maiores inimigos, preferem ver a raça humana exterminada pela radioatividade do que chegar a um compromisso com o mal - capitalismo ou comunismo segundo o caso. Tudo isto são exemplos de fanatismo.

Em cada comunidade há um certo número de fanáticos por temperamento. Alguns desses fanáticos são essencialmente inofensivos e os outros não fazem mal enquanto os seus partidários forem pouco numerosos ou estiverem afastados do poder. Os “amish” na Pensilvânia pensam que é mau usar botões; isto é completamente inofensivo, salvo na medida em que revela um estado de espírito absurdo. Alguns protestantes extremistas gostariam de ressuscitar a perseguição aos católicos; essas pessoas só serão inofensivas enquanto forem em pequeno número. Para que o fanatismo se torne uma ameaça séria é preciso que possua bastantes partidários para pôr a paz em perigo, internamente por meio de uma guerra civil ou externamente por uma cruzada; ou quando, sem guerra civil, estabeleça uma Lei dos Santos que implique a perseguição e a estagnação mental. No passado, o melhor exemplo da história é o reinado da Igreja desde o século IV ao século XVI.

(...) Para curar o fanatismo - salvo nas aberrações raras dos indivíduos excêntricos - são necessárias três condições: segurança, prosperidade e educação liberal.

Bertrand Russell, "A Última Oportunidade do Homem"

O radicalismo vai vencer o jogo político?

O radicalismo tornou-se um dos maiores desafios da política contemporânea. Esse modelo privilegia o confronto e a polarização em vez da negociação e do compromisso. Por muitas vezes ele esteve presente e forte na História, mas a chamada terceira onda de democratização, iniciada com a Revolução dos Cravos em Portugal (1974), e o fim da Guerra Fria inauguraram uma breve era em que havia sempre a esperança da vitória dos acordos e do diálogo nos planos nacional e internacional, mesmo quando os conflitos permaneciam. O cenário se modificou nos últimos anos, com a ascensão da lógica da guerra permanente, que conquista cada vez mais corações e mentes, votos e armas.

A chamada pax americana não foi, evidentemente, um mundo róseo ou o fim da História. Houve guerras nos Bálcãs e no Iraque, vários atentados terroristas, o 11 de Setembro, a invasão do Afeganistão, algumas crises econômicas internacionais, a derrota da paz em Israel e a manutenção de importantes regimes autoritários, como a China ou a Arábia Saudita. Mesmo assim, havia dois fatores distintivos do período: a força de lideranças democráticas em várias partes do mundo, capazes de estabelecer algum nível de diálogo nacional e internacional, e uma maior cooperação entre potências globais e regionais, permitindo a entrada da China na Organização Mundial do Comércio e a ascensão dos Brics.



Desde a crise econômica de 2008 tem havido um declínio da democracia e da interlocução internacional. O entendimento desse fenômeno passa pela ascensão de regimes autoritários ou iliberais, bem como pela crise de relacionamento dos países líderes do eixo ocidental - EUA e Europa - com a Rússia e a China, mas tem seu elemento-chave num modus operandi político que pode ser denominado de lógica da guerra permanente. Trata-se de um tipo de radicalismo que joga contra a democracia e os acordos internacionais em nome de uma visão de mundo baseada no confronto e na violência contra os adversários.

No plano interno dos países, o radicalismo presente na lógica da guerra permanente teve na ascensão da extrema direita a sua mola propulsora. São grupos radicais - fascistas para alguns - que adotaram um discurso de luta cultural e moral não só contra a esquerda, mas contra valores básicos construídos desde o Iluminismo. Não estão apenas combatendo os “comunistas”, como gostam de dizer. Vão muito além e são contrários aos que pensam diferente, denunciando-os cotidianamente em praça pública - leia-se: nas redes sociais. Desse modo, não há nenhum espaço para se negociar e encontrar um meio-termo com os adversários. Tal visão de mundo mata o lado mais rico da política, especialmente nas democracias: a arte de se construir compromissos entres os grupos divergentes.

Por esse caminho radicalizante, substitui-se o pluralismo político que ancorou o jogo democrático desde o final da Segunda Guerra Mundial pela polarização imutável. Uma verdadeira cruzada moral dos “puros” contra os “impuros” alimenta essa lógica da guerra permanente. Contra a ideia de que a democracia é o terreno da competição legítima entre opostos e de que a alternância entre grupos é saudável, estabelece-se uma única forma de política: ou minha posição vence, ou é preciso tornar ilegítimo o outro lado. A extrema direita, no fundo, não aceita a incerteza intrínseca aos regimes democráticos, caminhando, de um modo ou de outro, para soluções autoritárias, seja para inviabilizar o governo dos rivais, seja para evitar qualquer controle institucional dos seus governantes.

A extrema direita é a principal propulsora da lógica da guerra permanente como norteadora do jogo político, porém por vezes parcelas da esquerda também adotam tal padrão, principalmente em suas batalhas por cancelamento nas redes sociais. Negar-se ao diálogo, à possibilidade de estabelecer compromissos entre os diferentes ou à busca pelo convencimento é fazer o jogo dos extremistas. Ao fim e cabo, esse é um erro fatal, porque naturaliza a radicalização e a polarização que movimentos antissistema e reacionários querem que comandem a política contemporânea. Por isso, aos democratas genuínos só resta sempre apostar no diálogo amplo e evitar o comportamento de menosprezo à arte da política em nome de imperativos morais absolutos.

A ascensão do extremismo político no plano interno dos países semeou o radicalismo no âmbito internacional. Trump iniciou a batalha sem fim contra a China, gerando uma animosidade entre americanos e chineses que impacta negativamente o mundo todo. Putin destruiu todos os seus inimigos políticos - alguns literalmente - em nome de uma ideologia moralista e extremista, ganhando um poder irrefreável que lhe permitiu a aventura inconsequente da invasão da Ucrânia. O radicalismo terrorista do Hamas, alimentado pelo modelo totalitarista dos líderes iranianos, produziu um massacre terrível de inocentes, e terá como resposta a promessa de carnificina advinda do governante israelense, um pretendente explícito ao autoritarismo.

A insensatez tomou conta da ordem internacional e a lógica da guerra permanente, sem espaço para o diálogo e o compromisso entre opositores, está prevalecendo. A consequência disso não será a vitória inconteste de um dos grupos, que provavelmente se autointitula como o “lado certo da História”. Ao contrário, os resultados mais prováveis serão a piora do cenário econômico global, o crescimento do número de mortes e do caos nos ambientes de guerra, bem como a incapacidade para guiar o mundo para as batalhas que favorecem a todos, como a luta contra a desigualdade e a mudança climática. China, EUA, Rússia, Israel, Palestina, nenhum deles ou qualquer outro ganhará com o radicalismo crescente. O futuro imediato do século XXI só caminhará para uma trilha mais positiva se for recuperada a política como parteira de acordos amplos pela sobrevivência e desenvolvimento do maior número possível de nações.

E o Brasil, como fica diante desse cenário? Três questões são centrais diante da ascensão da guerra permanente como variável-chave da ordem política atual. Em primeiro lugar, é preciso ter grande capacidade de equilíbrio em sua política externa. No fato conflituoso mais recente, é fundamental ressaltar o caráter terrorista da ação do Hamas, que não representa por completo a posição do povo palestino, do mesmo modo que é necessário lutar para uma solução negociada para o curto e o longo prazos. No plano imediato, atuar para evitar tanto o maior número possível de mortes como o prolongamento dessa crise. Numa perspectiva temporal mais ampla, ajudar a juntar o maior número possível de apoios para a convivência pacífica e soberana desses dois povos, buscando isolar os que não querem nem o Estado de Israel nem uma nação palestina.

A posição brasileira deverá se basear na defesa incondicional dos direitos humanos de todos e evitar a tomada de posições em razão de amizades políticas. Ademais, o Brasil não será o ator central para resolver esse conflito, cabendo mais aos Estados Unidos, à China e aos países árabes essa posição. Dessa maneira, qualquer ação mais espalhafatosa, mesmo que bem-intencionada, deverá ser trocada pela parcimônia.

Uma segunda questão que deriva do fortalecimento da lógica da guerra permanente diz respeito aos atores que defendem esse modelo no Brasil, particularmente aqueles que atuaram em prol de um golpe de Estado. Não será possível garantir as bases democráticas do país se não houver uma punição dos extremistas golpistas. A política deve se lastrear principalmente na busca do acordo e do compromisso, contudo, quando está em jogo a própria sobrevivência da democracia, as ações têm de ser exemplares, para evitar que o radicalismo da extrema direita volte a se expressar no futuro próximo pela via antidemocrática.

O ponto central nesse cenário de radicalismo relaciona-se a uma terceira questão: como recuperar a política brasileira para que ela funcione por meio de um cálculo responsável em prol do diálogo e do compromisso? Os principais líderes políticos não podem se esquecer dos resultados calamitosos do extremismo bolsonarista, em particular sua negação constante da política institucional e da conversa entre os diferentes. É necessário adotar um modelo oposto a esse, que procure a construção de consensos, em vez de apostar na polarização e na definição de um caminho com apenas um vencedor. Mais interlocução contínua entre os diferentes e menos ameaças de ataque ao outro, eis a fórmula para sairmos melhores dessa crise nacional e internacional de grande monta.

Uma nova política não será para alijar a esquerda, a direita ou o centro democráticos do jogo político. Ela deve, em vez disso, procurar o que há de comum e construir pontes para uma posição que não signifique uma perda substantiva para nenhum grupo político e social significativo. A radicalização que houve nas últimas semanas no Congresso Nacional, numa aliança estratégica entre setores do Centrão com o bolsonarismo, poderá gerar um desastre para o país no momento internacional mais delicado desde o fim da Guerra Fria. A história recente está mostrando que a lógica da guerra permanente só tem produzido votos para os radicais e enfraquecido os democratas de diversos matizes. É nisto que deveriam pensar os chefes dos Poderes em Brasília.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


A escalada não é só no Médio Oriente

O nível de crueldade que caracterizou os ataques do Hamas no sábado foi desmesurado. Não falo apenas do número de mortos, feridos e desaparecidos. Falo de detalhes. Há detalhes de profunda malvadez nas imagens e nos relatos que tenho visto e ouvido. Falo de sofrimento que não precisaria de ter sido infligido para levar a cabo os ataques. Os milicianos do Hamas não se limitaram a matar. Torturaram e entregaram-se a práticas violentas que o próprio ódio não explica.

Entendo que reconhecer isto faz parte de qualquer análise que seja feita ao que se passou naquele dia e ao que se tem passado desde aí.

O problema é que as análises que tenho lido cristalizaram nesses acontecimentos. Debruçam-se sobre o horror dos ataques do Hamas e passam apenas de raspão pela chacina que ainda agora começou e que ameaça dizimar a população de Gaza. O problema não está apenas nas análises, que são seletivas. O problema está sobretudo em nós; no facto de a maioria dos europeus diferenciarem, e digo isto num sentido profundo, sangue israelita de sangue palestiniano.


Depois dos ataques de sábado, e em reação a eles, as forças militares israelitas estão a destruir Gaza e a matar centenas de pessoas. Morrerão as que tiverem de morrer. Entre as vítimas estão crianças e já vimos imagens tenebrosas de algumas. Os palestinianos de Gaza estão sem eletricidade, sem água e sem fornecimento de comida. Claro que fazer isto viola o direito internacional, mas, como são palestinianos, as instituições europeias não bradam aos céus. Esqueçam os crimes de guerra. Esses diplomas legais nunca entraram em vigor em Gaza.

Mas o mais extraordinário é que, enquanto os palestinianos de Gaza estão a ser massacrados, ainda está toda a gente presa ao rescaldo das consequências dos ataques do Hamas. A empatia pelo sofrimento dos palestinianos está nas ruas da amargura e não existe urgência em acabar com ele. São as imagens do festival de música que continuam a arrepiar. Gaza é apenas um lego cinzento que se esborralha facilmente com o fogo israelita e, mesmo que isso esteja a acontecer enquanto escrevo e enquanto leem, não é com os palestinianos que a maioria das pessoas se comove.

É fundamental que se reconheça que esta insensibilidade existe. Seria um primeiro passo para resolver o problema de racismo que impregna tanta gente. Mas, sobretudo, esse reconhecimento é fundamental para retomar o sentido de justiça que se perdeu no que diz respeito ao conflito entre Israel e a Palestina. Já agora, trata-se de uma ocupação repetidamente condenada pela ONU. Chamar-lhe conflito pode fazer esquecer o que nos trouxe até aqui.

Em Gaza são civis que estão a ser bombardeados. Tanta indignação – e justa – por o Hamas ter atacado civis e, na resposta ao ataque, estão a fazer precisamente o mesmo. Não é um grupo radical terrorista, é o próprio Estado de Israel e com a permissão da União Europeia, dos Estados Unidos e da NATO. Foi nisto que se consubstanciou o direito que todos expressaram reconhecer a Israel: o direito de se defender. A diplomacia mundial não teve nada mais a dizer.

Outra vez: os civis palestinianos parecem não ter o mesmo valor que os civis israelitas. Tudo indica que aquelas pessoas estão entregues à sua própria sorte, que é muito pouca. Nesta fase, quase ninguém se atreve a questionar a legitimidade de Israel para atacar civis. Os ataques do Hamas parecem ter legitimado tudo. Mas, da mesma forma que décadas de opressão e massacre não legitimaram os ataques do Hamas, eles não podem servir de justificação e legitimação para a atual barbárie israelita.

Por cá, já houve uma manifestação de apoio à causa palestiniana, mas foi interpretada como um gesto de apoio ao Hamas. Não é só Israel que está a confundir o Hamas com os palestinianos, essa confusão está generalizada. Isto é bem demonstrativo da solidão e abandono a que estão condenados.

Não foram os ataques de sábado a determinar a falta de empatia pela Palestina. Já vinha de trás. Em Telavive dois homossexuais podem andar na rua de mão dada e uma mulher pode vestir uma saia curta e combiná-la com um decote. Para muitos é quanto basta para tomar o partido de Israel. Mas a falta de compreensão das condicionantes culturais e religiosas dos palestinianos é simplesmente um sintoma de pouca humanidade. E é isso que mais se nota nos últimos dias: uma terrível falta de humanidade. Todos os ódios e preconceitos vieram ao de cima. A escalada não é só no Médio Oriente.

Ninho de carcarás

Provavelmente, no futuro próximo, não encontraremos fortunas fabulosas concentradas em poucas pessoas. Um por cento dos mais ricos são proprietários privados de quase 50 por cento do PIB mundial: US$ 96,5 trilhões. Não há mais espaço para isso! São oito bilhões de seres humanos habitando este Planeta, expandindo-se a um ritmo de aproximadamente 1% ao ano, numa média de 800 mil novos nascimentos.

E não são as ideologias que estão provocando essa potencial inversão de valores. Elas são apenas véus (discursivas) que nos distraem da verdade absoluta: a ameaça de extinção da vida no Planeta. É a realidade! Os recursos naturais – a biodiversidade, as florestas, as águas – são cada vez mais escassos para uma população que cresce assustadoramente.

Os dramas ambientais aterradores frequentes são banalizados no cotidiano: tsunamis, terremotos, exploração irrefreável do subsolo (a terra está se tornando um espécie de queijo mineiro: toda furada por dentro) , temperaturas nunca experimentadas, inundações, secas prolongadas, desmatamentos, queimadas, perda de terras cultiváveis, escassez de alimentos, quase 1 bilhão de pessoas famintas. E continua a falar-se em desenvolvimento (econômico), industrialização, guerras fratricidas, até nucleares. Tudo predatório dos recursos naturais que protegem a Terra e os princípios ativos da vida.

Não queria citar o Presidente Lula, porque ele é muito retórico, nem sempre explícito. Mas ele se apropriou de um discurso social e ambiental difícil de ser contestado. Tem apregoado coisas que estão acontecendo, e outras passíveis de acontecer, quase como um profeta, tipo beato Antônio Conselheiro, que pregava os céus na Terra. É por aí mesmo. A transversalidade da problemática ambiental atravessa todos os segmentos.

Falta gestão, mas o Brasil tem, de fato, se adiantado na busca de soluções. Promulgada em 5 de outubro, a Constituição de 1988 pôs em destaque um capítulo especial, capitaneado pelo artigo 225, segundo o qual a proteção do meio ambiente é um direito do cidadão. Foi a primeira Lei Magna no mundo a tratar dessa questão.

Para homenagear seus autores parlamentares, a comunidade brasiliense, idealizou em Brasília, na praça dos Três Poderes, um monumento ambiental simbólico com o nome de Bosque dos Constituintes, em que cada um daqueles congressistas, acompanhado de grupos de escolares, entre 12 a 15 anos, plantou uma árvore nativa do bioma da região de origem.

Na entrada do Bosque depara-se com um exuberante pau-ferro (Caesalpinia leiostachya), plantada pelo ex-deputado Ulysses Guimarães, quem promulgou, em nome do Congresso, a nova Carta, desaparecendo depois no mar, como o rei Dom Sebastião, em Portugal.

A empreitada constitucionalista foi assumida por milhões de brasileiros, assustados com o autoritarismo que a antecedeu. Doze milhões de assinaturas, em centenas de emendas populares, ajudaram a dar um formato democrático e socialmente justo para a Constituição e para o destino do País. No Congresso, durante dois anos, assistiram-se confrontos ideológicos e culturais. Mas, propósitos quase religiosos conduziram o diálogo entre políticos e entre cidadãos a um consenso democraticamente amistoso, ignorados, hoje, em discursos reformistas odientos entre Poderes e partidos.

O Bosque, plantado pelos parlamentares constituintes de 1988 – e pelo Presidente da República, José Sarney (Pau Brasil= Caesalpinia echinata), e o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Rafael Meier (Ipê branco= Tabebuia roseo-alba) e do Senado, Humberto Lucena (Ipê roseo Handroanthus heptaphyllus) -, era a expressão simbólica dos desejos e sonhos dos brasileiros . Mais que uma homenagem, procurava chamar de atenção para os dramas ambientais, que tendem a multiplicarem-se, impactando a vida na Terra, o nosso bioma tropical e a existência de 220 milhões de brasileiros, comprometendo o futuro, hoje, de 60 milhões crianças e adolescentes.

Descobriu-se que o crescimento econômico imoderado e a problemática social eram, sobretudo, desafios à vida. Mantendo-se o ritmo acelerado no uso dos recursos naturais poderíamos chegar a um momento em que o homem estaria sozinho na Terra, quiçá, sem condições materiais para sobreviver. Voltaria à condição de coletor do que restasse, e teria de praticar a antropofagia para sobreviver, até com a autodestruição.

O Bosque Constituintes surgido neste cenário expressava essas preocupações. Indicava o rumo no artigo 225 da Constituição de 1988. Legava aos brasileiros um mantra, segundo o qual o meio ambiente é um direito; protegê-lo é uma responsabilidade dos cidadãos.

Contudo, como uma maldição beatificada, o gavião carcará (Carcará plancus), uma ave carnívora, necrófila, do topo da cadeia alimentar das espécies voadoras, encontrou no Bosque dos Constituintes habitat propício. Fez ali seu ninho, e se reproduz rápido. Traz glamour à a paisagem, mas serve de advertência, simbólica, para aqueles que cultuam a ideia “hobbesiana” (Thomas Hobbes:1588-1679) do homem como lobo do próprio homem: “… devido ao seu egoísmo, parece cultivar a ideia de todos contra todos“.

Ora, pela omissão meramente administrativa recebida em parte desses últimos 35 anos, correu-se o risco de ver o Bosque perder o significado como Bosque dos Constituintes, representação de desejos e sonhos da Nação; para transformar-se numa mera curiosidade pública como o BOSQUE DOS CARCARÁS, prenúncio constante de algum desastre.

Ao se comemorar os 35 anos da Constituição e, quiçá, do Bosque, torcemos para que nossos políticos atuais reajam, como ESTADISTAS, agindo em direção a harmonia entre Poderes, de maneira democrática e respeitosa. Os carcarás lutam também pela sua sobrevivência e a de sua prole. Só que eles se alimentam da destruição de outras vidas.

Trata-se de uma questão de educação. De maneira metafórica, Ulysses lembrava que “Num ninho de mafagafa (pássaro imaginário) tem sete mafagafinhos, quando a mafagafa grita, que dirão os mafagafinhos?!!!…”. Assim, é preciso evitar a retórica instigante que fala da paz, mas ampara-se na ideia da guerra. Antes das opções ideológicas, é necessário compreender a problemática da vida na sua essência. Tendemos a passar por uma gigante ressignificação dos modelos produtivos e de convivência social.

A transversalidade ambiental está cobrando isso de todos os segmentos. As árvores são uma opção para proteger o clima da Terra. Mantê-las de pé uma obrigação solidariamente humana, para a sobrevivência.

Drogas e crime S/A, as multinacionais da violência

Imagine acordar com a mídia noticiando que uma agroindústria de cocaína abrirá seu capital na BOVESPA. Seria o maior IPO da história das bolsas de valores.

Segundo o Observatório de Drogas Europeu, 3,5 milhões de europeus experimentaram cocaína em 2021 (Exame, 2023). Se cada um consumiu 1g do pó, pagando 70 euros/g, alguém faturou R$ 1,5 bilhão.

Calculando as apreensões feitas na Europa, em torno de 300 ton/ano (metade disso em portos da Holanda e Bélgica), nota-se que o mercado internacional de drogas movimenta dezenas de bilhões de dólares.

Nesse cenário, o Secretário Nacional de Segurança Pública Tadeu Alencar foi feliz em propor o Programa ENFOC. Com a antecipação do seu lançamento, o ministro Flavio Dino recolocou o governo no centro do desafio de inviabilizar essas verdadeiras S/A do crime (após quatro anos de leniência federal).

Nesse mercado, os lucros da droga são incomparáveis. Não se gasta com impostos, encargos trabalhistas ou padrões sanitários, entre outras despesas comuns em negócios legais. E os preços fazem inveja a produtos de luxo.


Existe toda uma rede de plantio, beneficiamento, atacado, varejo e segurança, que usa as mesmas estruturas e serviços (privados ou públicos) que a economia formal: rodovias, rios, portos, aeroportos, internet, telefonia, bancos, casas de câmbio e advogados. Não é à toa que essa cadeia produtiva é chamada de ‘crime organizado’.

A escala logística e financeira é maximizada pela parceria com o garimpo ilegal, contrabando de cigarros, pirataria de agrotóxicos, tráfico de armas, agiotagem, grilagem, lavagem de dinheiro, assaltos a bancos, sequestros, roubo de cargas, extravio de obras de arte, tráfico humano, extorsão, furtos, trabalho escravo e até mesmo terrorismo.

Trata-se de um meganegócio global cujo sucesso (assim como em outros mercados legais da economia moderna) se baseia em velhos fatores produtivos não declarados: a desigualdade social e a degradação do meio ambiente.

Por isso, o desafio é incomparável para a América Latina, África e Ásia. Com biomas e fronteiras acima das capacidades estatais de defesa, as periferias urbanas e as penitenciárias tornam-se o chão de fábrica ideal para esse negócio bilionário.

Não é uma guerra, nem uma questão de esquerda ou direita. Tampouco uma oposição entre polícias e direitos humanos. O problema da criminalidade é sociopolítico. É mais uma atividade econômica em que poucos lucram às custas de muitos. O Brasil está na rota de distribuição internacional e se tornou um mercado consumidor lucrativo.

A solução inclui questões conhecidas no mundo dos negócios: dissuadir os investidores elevando-se o risco atuarial, aplicar a Lei sem prejudicar a população, investir nos territórios afetados e garantir a justiça social.

O Programa ENFOC é um bom recomeço, porque recoloca no radar algumas dessas questões, atuando em eixos como a integração de informações, a recuperação de ativos, a vigilância de fronteiras, portos e aeroportos, bem como na cooperação entre as agências especializadas nacionais e internacionais.

O passo primordial é a vontade política, desde o nível internacional até o local, envolvendo elites e autoridades, ancorada no compromisso de reduzir as desigualdades. O Ministério da Justiça e Segurança Pública tem demonstrado sensibilidade nesse sentido.

A situação crítica exigiu trocar os pneus com o carro em movimento. E na Segurança Pública, o ótimo é inimigo do bom.

A infância lá e cá

Na mais contundente nota emitida até aqui sobre o ataque terrorista do Hamas e a reação israelense, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apelou pela vida das crianças. Mereceu elogio do secretário-geral da ONU, António Guterres, por tratar a violência contra meninas e meninos israelenses e palestinos como “a mais grave violação aos direitos humanos” na tragédia que alcança o Oriente Médio. É relevante que o mandatário do país que ora ocupa a presidência do Conselho de Segurança da ONU, ainda que por somente um mês, apele por “humanidade na insanidade da guerra”.

O brasileiro propôs que o Hamas liberte as crianças israelenses sequestradas das famílias pelos terroristas e que Israel interrompa os bombardeios, para que os pequenos palestinos deixem a Faixa de Gaza com as mães na direção do Egito. Guterres, já no terceiro dia do confronto, chamou a atenção para crimes de guerra cometidos pelas duas partes e apelou pela abertura de um corredor humanitário para garantir alimentos, água e assistência aos civis palestinos.


Na quarta-feira, a ONU informou que 11 funcionários da agência para refugiados foram mortos por bombardeios israelenses em Gaza; 18 escolas transformadas em abrigo também foram danificadas. Na véspera, o Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância, já tinha alertado sobre a degradação da situação humanitária e pediu segurança para os trabalhadores que estão na região para assistir crianças e famílias com serviços e itens básicos à sobrevivência. Até ali, o total de mortos não tinha chegado a mil em Israel e 700 em Gaza; anteontem, se aproximava de 2.500.

A Human Rights Watch, em nota na segunda-feira, chamou a atenção para a principal regra do direito humanitário internacional: num conflito, as partes devem distinguir combatentes de civis. Estes nunca poderão sofrer ataques homicidas; tratamento cruel, humilhante ou degradante; ultraje à dignidade pessoal; tortura nem ser tomados reféns. Vale para todas as pessoas — em particular, idosos; sobretudo, crianças.

Fechar os olhos para a violência contra bebês, meninas e meninos, moças e rapazes, em meio à barbárie, é dar as costas ao futuro. Não há como falar nem de esperança nem de paz, quando menores de idade estão sequestrados, são assassinados, testemunham em tenra idade a violência extrema. A cada criança que desaparece ou morre em vida com o coração congelado pelo luto e pela brutalidade, a humanidade esmaece.

Crianças estão em perigo em Gaza e em Israel. Estão em perigo na Ucrânia. Estão em perigo no Brasil. Em fins de setembro, a ONG Redes da Maré lançou pesquisa sobre a primeira infância no conjunto de favelas. Nas 16 comunidades, vivem 14 mil miúdos de 0 a 6 anos. Do total de famílias com crianças, 57,4% não recebem nenhum benefício social, dois terços enfrentam dificuldades no acesso à saúde e a equipamentos públicos; 62,9% dos moradores na faixa até 3 anos estão fora da creche.

No início da semana, uma megaoperação policial na Maré, na Cidade de Deus e no Complexo da Penha deixou 23 mil crianças e adolescentes sem aula. Só na Maré, 41 escolas suspenderam atividade, prejudicando 17 mil estudantes; 990 atendimentos médicos foram suspensos; 280 refeições do projeto Prato Feito Carioca não foram distribuídas a pessoas em situação de fome.

Em 2022, no Brasil, houve registro de 74.930 casos de estupro, o maior número da série histórica, segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública. Do total, 61,4% tinham de 0 a 13 anos, 10,4% até 4 aninhos. Ao todo, 22.527 crianças e adolescentes foram vítimas de maus-tratos; seis em dez tinham até 10 anos.

De 2019 a 2022, a proporção de crianças brasileiras de até 7 anos que não sabem ler nem escrever dobrou de 20% para 40%, segundo relatório divulgado pelo Unicef na antevéspera do Dia da Criança, 12 de outubro. O percentual de meninas e meninos na pobreza multidimensional chegava a 60,3%. Significa que 31,9 milhões de crianças e adolescentes brasileiros estão privados de um ou mais direitos (alimentação, educação, moradia, água, saneamento e informação), além da insuficiência de renda.

A situação da infância é dramática mundo afora, se deteriora em Gaza e Israel, é grave no Brasil. Enquanto isso, setores do Legislativo brasileiro estão ocupados em proibir o casamento homoafetivo — assegurado pelo Supremo Tribunal Federal há mais de década — e em aliviar a tributação de revólveres, pistolas e acessórios. Nota técnica do Instituto Sou da Paz mostrou que, como está, a PEC 45/2023, em tramitação no Senado, reduzirá a alíquota no Rio de Janeiro, de 75% para 10%, e em São Paulo, de 63% para 10%. Três em cada quatro mortes violentas intencionais no país são cometidas com armas de fogo. Perto de um décimo das vítimas de homicídio tem até 17 anos.