Fatos são fatos.Hoje lavamos mais as mãosDo que no tempo de Pilatos.
quarta-feira, 16 de junho de 2021
O país dos mascarados
Muito antes da pandemia, o sistema brasileiro usava máscara. No fundo, a recusa de usar máscara pelo nosso exemplar presidente da República (este “mito” revelador de como a “polícia”, no seu sentido mais barato e vil, legitima os piores e afasta os melhores) é uma ironia. Porque, com Bolsonaro presidente, ela expõe a irracional recusa contra a ciência (que universaliza pelos princípios da biologia), mas agressivamente revela um oculto particularismo: o fato de que quem manda faz o que quer.
É mais do que dono do poder. É senhor do contrassenso ativado contra a moralidade e, por fim, mas jamais por último, da lei. Essa lei tão falada e louvada, mas feita para os inferiores. Os que não fazem parte dos vários sistemas de mando quase sempre incongruentes, vigentes no Brasil. Contradições desenhadas para inocentar legalmente os desonestos. Lei na qual a forma vale mais do que a substância, como prova a anulação de penalidade por meio de erro geográfico.
Voltemos, porém, às máscaras para dizer que – num sentido preciso – todas as sociedades humanas usam máscaras pois, diversamente dos animais, elas romperam com a natureza e nela se projetam com suas máscaras ideológicas. A mais básica e a menos percebida é justamente a linguagem articulada na qual o elo entre o som e seu significado é arbitrário. O que é chamado de “mesa” em português vira “table” em inglês. Conforme aprendemos com Saussure, Boas e com Whorf e Sapir, as línguas vão além da comunicação: elas definem a realidade. Como dizia Roland Barthes, elas têm o seu fascismo na medida em que nos obrigam a dizer certas coisas a seu modo. São máscaras gigantescas a encobrir construções paralelas do mundo.
Quando Marx distinguiu objetos como tendo “valor de uso” e “valor de troca” (alguém aí se lembra disso?), o valor de troca era a máscara que desmascarava o capitalismo na sua desumanidade. Porque no capitalismo a riqueza não pertence mais à virtude, à honra ou ao terror, como em 1748, escreveu Montesquieu ao caracterizar respectivamente as repúblicas, as aristocracias e as tiranias, mas apenas ao Capital com letra maiúscula mesmo, conforme escreve com brilho habitual o crítico da USP Roberto Schwarz.
No Brasil, relacionamos, confundimos ou mascaramos tudo, porque o velho e malandro Portugal é a Suíça dos engenhos e pontes entre culturas, etnias e regimes. Foi o único reinado no qual a Corte e o Rei abandonaram a terra que os legitimava.
Se fomos aristocratas-católicos-mercadores de escravos e podíamos virar nobres por bravura, e sobretudo por decreto, simpatia e dinheiro, por que não poderíamos desenvolver um sistema político no qual os culpados jamais seriamos nós?
O valor do capital se exprime nos cargos públicos que legitimam o seu ganho por meio da expropriação sistemática da sociedade vista como o seu escravo perene. Tal desencontro é difícil de se enxergar, porque os donos do estado são, como dizia com precisão Raymundo Faoro, os donos do poder. São sócios e parentes legais e “políticos” de uma ordem pública cujos administradores exploram a sociedade. Neste sentido, o Estado brasileiro jamais deixou de ser aristocrático e seus mandões escravocratas – com uma ou duas exceções – recriaram fidalguias (ou “panelinhas” – hoje gabinetes) em seus governos.
Com nossos ‘hermanos’ latino-americanos constituímos um exemplo histórico excepcional de construções sociais, nas quais o maior explorador do trabalho produzido pela sociedade não é apenas o capital, mas o Estado Nacional, com seus infindáveis velhos e novíssimos ministérios, conselhos, comissões, delegados, diretores, fiscais e representantes que – com a protocolar da devida vênia – representam muito mais os seus interesses particulares do que as demandas universais do País.
No Brasil, a luta de classes é uma luta de quem vai assumir cargos públicos legitimamente (renunciando sua autonomia burocrática ou não) em confronto tenaz com seus hiperprivilégios.
O antropólogo americano Anthony Leeds, pioneiro no estudo das favelas cariocas, deu uma contribuição importante e incomoda quando escreveu um ensaio mencionando que os membros da elite brasileira eram todos “cabides de emprego” – algo que até hoje ocorre com os “doutores” que, entre nós, precisam de múltiplos empregos para manter o nível de vida que aspiram. Daí, sem dúvida o projeto de ser funcionário público, pois o concurso abole o contrato e o emprego não é sinônimo de trabalho. Muito pelo contrário, ele é, na maioria dos casos, a sua negação.
As olvidadas malas de dinheiro determinantes para eleger Jair Bolsonaro serve como um “mito” da nossa incapacidade de nos enxergarmos com um mínimo de sinceridade.
Adicione-se a isso os 4 milhões de cidadãos que não tomaram a segunda dose da vacina, evidentemente empenhados na campanha antivacina do presidente motociclista. Nisso não há, como revela a práxis errática do presidente, nenhuma máscara. Há apenas o flerte com a morte – esta inegável índole do bolsonarismo.
É mais do que dono do poder. É senhor do contrassenso ativado contra a moralidade e, por fim, mas jamais por último, da lei. Essa lei tão falada e louvada, mas feita para os inferiores. Os que não fazem parte dos vários sistemas de mando quase sempre incongruentes, vigentes no Brasil. Contradições desenhadas para inocentar legalmente os desonestos. Lei na qual a forma vale mais do que a substância, como prova a anulação de penalidade por meio de erro geográfico.
Voltemos, porém, às máscaras para dizer que – num sentido preciso – todas as sociedades humanas usam máscaras pois, diversamente dos animais, elas romperam com a natureza e nela se projetam com suas máscaras ideológicas. A mais básica e a menos percebida é justamente a linguagem articulada na qual o elo entre o som e seu significado é arbitrário. O que é chamado de “mesa” em português vira “table” em inglês. Conforme aprendemos com Saussure, Boas e com Whorf e Sapir, as línguas vão além da comunicação: elas definem a realidade. Como dizia Roland Barthes, elas têm o seu fascismo na medida em que nos obrigam a dizer certas coisas a seu modo. São máscaras gigantescas a encobrir construções paralelas do mundo.
Quando Marx distinguiu objetos como tendo “valor de uso” e “valor de troca” (alguém aí se lembra disso?), o valor de troca era a máscara que desmascarava o capitalismo na sua desumanidade. Porque no capitalismo a riqueza não pertence mais à virtude, à honra ou ao terror, como em 1748, escreveu Montesquieu ao caracterizar respectivamente as repúblicas, as aristocracias e as tiranias, mas apenas ao Capital com letra maiúscula mesmo, conforme escreve com brilho habitual o crítico da USP Roberto Schwarz.
No Brasil, relacionamos, confundimos ou mascaramos tudo, porque o velho e malandro Portugal é a Suíça dos engenhos e pontes entre culturas, etnias e regimes. Foi o único reinado no qual a Corte e o Rei abandonaram a terra que os legitimava.
Se fomos aristocratas-católicos-mercadores de escravos e podíamos virar nobres por bravura, e sobretudo por decreto, simpatia e dinheiro, por que não poderíamos desenvolver um sistema político no qual os culpados jamais seriamos nós?
O valor do capital se exprime nos cargos públicos que legitimam o seu ganho por meio da expropriação sistemática da sociedade vista como o seu escravo perene. Tal desencontro é difícil de se enxergar, porque os donos do estado são, como dizia com precisão Raymundo Faoro, os donos do poder. São sócios e parentes legais e “políticos” de uma ordem pública cujos administradores exploram a sociedade. Neste sentido, o Estado brasileiro jamais deixou de ser aristocrático e seus mandões escravocratas – com uma ou duas exceções – recriaram fidalguias (ou “panelinhas” – hoje gabinetes) em seus governos.
Com nossos ‘hermanos’ latino-americanos constituímos um exemplo histórico excepcional de construções sociais, nas quais o maior explorador do trabalho produzido pela sociedade não é apenas o capital, mas o Estado Nacional, com seus infindáveis velhos e novíssimos ministérios, conselhos, comissões, delegados, diretores, fiscais e representantes que – com a protocolar da devida vênia – representam muito mais os seus interesses particulares do que as demandas universais do País.
No Brasil, a luta de classes é uma luta de quem vai assumir cargos públicos legitimamente (renunciando sua autonomia burocrática ou não) em confronto tenaz com seus hiperprivilégios.
O antropólogo americano Anthony Leeds, pioneiro no estudo das favelas cariocas, deu uma contribuição importante e incomoda quando escreveu um ensaio mencionando que os membros da elite brasileira eram todos “cabides de emprego” – algo que até hoje ocorre com os “doutores” que, entre nós, precisam de múltiplos empregos para manter o nível de vida que aspiram. Daí, sem dúvida o projeto de ser funcionário público, pois o concurso abole o contrato e o emprego não é sinônimo de trabalho. Muito pelo contrário, ele é, na maioria dos casos, a sua negação.
As olvidadas malas de dinheiro determinantes para eleger Jair Bolsonaro serve como um “mito” da nossa incapacidade de nos enxergarmos com um mínimo de sinceridade.
Adicione-se a isso os 4 milhões de cidadãos que não tomaram a segunda dose da vacina, evidentemente empenhados na campanha antivacina do presidente motociclista. Nisso não há, como revela a práxis errática do presidente, nenhuma máscara. Há apenas o flerte com a morte – esta inegável índole do bolsonarismo.
Ventres da pátria hostil
Quem já esteve grávida sabe que esse é um estado de sublimação extrema, sobretudo quando ele é fruto de uma escolha da mulher. A centelha de uma revolução que começa imperceptível, e que no espaço de 40 semanas (aproximadamente) toma todo o ventre, transforma um corpo inteiro, para que outro corpo possa nascer. E tamanha transformação é acompanhada pelo enfrentamento de muitos medos. Alguns que nem sabíamos que existiam, outros que estavam escondidos há muito tempo, e que imaginávamos ser apenas lembrança.
A morte é algo que ganha outra dimensão para as grávidas. Não só porque todo parto é um renascimento – e, por isso, é também um tipo de morte –, mas porque sabemos não estar mais sozinhas. Sabemos que a vida, aquela vida guardada no útero, depende de nós.
Mas esse "nós" não é uma condição equânime entre as grávidas. Porque neste "nós" está aquilo que somos: o que comemos, onde moramos, nossa cor de pele, nossa classe social. E o que testemunhamos nas últimas semanas é que até mesmo a gravidez sucumbe ao racismo.
Kathlen Romeu era uma jovem mulher negra e grávida que morreu em decorrência da ação do Estado brasileiro. Não, ela não foi vítima de violência obstétrica ou de negligência médica na hora do parto. Ela não pôde parir porque foi morta em decorrência de uma ação policial que ceifou sua vida e a do filho que carregava no ventre. Um tipo de violência que não tem nome, para a qual não tem dor que dê conta nem indignação que baste.
Segundo levantamento da plataforma de dados Fogo Cruzado, 15 grávidas foram baleadas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro desde 2017, quatro delas em meio a ações policiais, e oito morreram. Houve ainda dez bebês baleados quando ainda estavam nos ventres de suas mães, e só um deles sobreviveu.
As ações policiais que atingiram Kathlen Romeu e outras mulheres grávidas obviamente não as tinham como vítimas potenciais. Tampouco se preocuparam em evitar suas mortes. Viraram estatística. Daquelas tristes, que dão um nó na garganta e que podem causar algum tipo de constrangimento dentre os responsáveis pela segurança pública no Brasil – mas muitas vezes, nem isso.
Afinal de contas, eram mulheres, e provavelmente muitas delas eram negras. As mesmas que recebem menos anestesia na hora do parto, ou que têm um pré-natal menos criterioso, pois são tidas como "boas parideiras", "mulheres de ancas largas" que aguentam a dor do parto e todas as demais. Argumentos ao mesmo tempo infundados e amplamente difundidos por uma ideologia falaciosa que acredita na existência de raças humanas e da desigualdade biológica entre elas.
Só que o racismo não mata só uma vez. Ele mata duas, às vezes três vezes a mesma pessoa. Mata quando tira a vida, mata quando esfrega na cara que a vida tirada não importa. E mata quando tenta lucrar com essa morte.
O racismo foi implacável com Kathlen Romeu, uma mulher negra do Rio de Janeiro e que circulava em espaços destinados às classes dominantes. Não bastou matá-la com uma "bala perdida" quando ela ia visitar sua família numa comunidade na zona norte da cidade. Transformou sua morte num código de venda da loja em que ela trabalhava, sob o pretexto de que 3,5% do valor das peças compradas iriam para a família de Kathlen (o mesmo percentual que ela ganhava de comissão). Isso mesmo que você leu: a morte da Kathlen viralizou nas redes sociais, e a marca para a qual ela trabalhava achou que poderia unir o útil ao agradável, fazendo uma "boa ação" ao mesmo tempo que, literalmente, lucrava com a morte de uma mulher grávida.
Para uma historiadora, é impossível não traçar um paralelo entre a ação de marketing dessa empresa e todo o embate político que esteve por trás da Lei do Ventre Livre – que em 2021 ano completa 150 anos. A lei, aprovada em setembro de 1871, representou um verdadeiro divisor de águas na luta abolicionista brasileira. Dentre os ganhos, estava a definição de que, a partir daquela data, os filhos e filhas das mulheres escravizadas estariam livres. Com uma condição: a liberdade do ventre só ocorreria depois que o proprietário da mãe fosse indenizado.
Essa compensação poderia ser feita de duas formas: ou a escravizada pagava 600$000 réis, ou seu filho e/ou filha teria que trabalhar como escravizado até os 21 anos de idade. A liberdade estava garantida, contanto que os proprietários ainda pudessem lucrar. Uma lei emancipacionista, mas que assegurava uma sobrevida de 50 a 60 anos para a escravidão. Bem a cara da nossa elite escravocrata e do Brasil de hoje, que não soube e não quis rever seu passado escravista.
Ynaê Lopes dos Santos, Mestre e Doutora em História Social pela USP, professora de História das Américas na UFF e autora dos livros "Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro" (Hucitec 2010), 'História da África e do Brasil Afrodescendente" (Pallas, 2017)
A morte é algo que ganha outra dimensão para as grávidas. Não só porque todo parto é um renascimento – e, por isso, é também um tipo de morte –, mas porque sabemos não estar mais sozinhas. Sabemos que a vida, aquela vida guardada no útero, depende de nós.
Mas esse "nós" não é uma condição equânime entre as grávidas. Porque neste "nós" está aquilo que somos: o que comemos, onde moramos, nossa cor de pele, nossa classe social. E o que testemunhamos nas últimas semanas é que até mesmo a gravidez sucumbe ao racismo.
Kathlen Romeu era uma jovem mulher negra e grávida que morreu em decorrência da ação do Estado brasileiro. Não, ela não foi vítima de violência obstétrica ou de negligência médica na hora do parto. Ela não pôde parir porque foi morta em decorrência de uma ação policial que ceifou sua vida e a do filho que carregava no ventre. Um tipo de violência que não tem nome, para a qual não tem dor que dê conta nem indignação que baste.
Segundo levantamento da plataforma de dados Fogo Cruzado, 15 grávidas foram baleadas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro desde 2017, quatro delas em meio a ações policiais, e oito morreram. Houve ainda dez bebês baleados quando ainda estavam nos ventres de suas mães, e só um deles sobreviveu.
As ações policiais que atingiram Kathlen Romeu e outras mulheres grávidas obviamente não as tinham como vítimas potenciais. Tampouco se preocuparam em evitar suas mortes. Viraram estatística. Daquelas tristes, que dão um nó na garganta e que podem causar algum tipo de constrangimento dentre os responsáveis pela segurança pública no Brasil – mas muitas vezes, nem isso.
Afinal de contas, eram mulheres, e provavelmente muitas delas eram negras. As mesmas que recebem menos anestesia na hora do parto, ou que têm um pré-natal menos criterioso, pois são tidas como "boas parideiras", "mulheres de ancas largas" que aguentam a dor do parto e todas as demais. Argumentos ao mesmo tempo infundados e amplamente difundidos por uma ideologia falaciosa que acredita na existência de raças humanas e da desigualdade biológica entre elas.
Só que o racismo não mata só uma vez. Ele mata duas, às vezes três vezes a mesma pessoa. Mata quando tira a vida, mata quando esfrega na cara que a vida tirada não importa. E mata quando tenta lucrar com essa morte.
O racismo foi implacável com Kathlen Romeu, uma mulher negra do Rio de Janeiro e que circulava em espaços destinados às classes dominantes. Não bastou matá-la com uma "bala perdida" quando ela ia visitar sua família numa comunidade na zona norte da cidade. Transformou sua morte num código de venda da loja em que ela trabalhava, sob o pretexto de que 3,5% do valor das peças compradas iriam para a família de Kathlen (o mesmo percentual que ela ganhava de comissão). Isso mesmo que você leu: a morte da Kathlen viralizou nas redes sociais, e a marca para a qual ela trabalhava achou que poderia unir o útil ao agradável, fazendo uma "boa ação" ao mesmo tempo que, literalmente, lucrava com a morte de uma mulher grávida.
Para uma historiadora, é impossível não traçar um paralelo entre a ação de marketing dessa empresa e todo o embate político que esteve por trás da Lei do Ventre Livre – que em 2021 ano completa 150 anos. A lei, aprovada em setembro de 1871, representou um verdadeiro divisor de águas na luta abolicionista brasileira. Dentre os ganhos, estava a definição de que, a partir daquela data, os filhos e filhas das mulheres escravizadas estariam livres. Com uma condição: a liberdade do ventre só ocorreria depois que o proprietário da mãe fosse indenizado.
Essa compensação poderia ser feita de duas formas: ou a escravizada pagava 600$000 réis, ou seu filho e/ou filha teria que trabalhar como escravizado até os 21 anos de idade. A liberdade estava garantida, contanto que os proprietários ainda pudessem lucrar. Uma lei emancipacionista, mas que assegurava uma sobrevida de 50 a 60 anos para a escravidão. Bem a cara da nossa elite escravocrata e do Brasil de hoje, que não soube e não quis rever seu passado escravista.
Ynaê Lopes dos Santos, Mestre e Doutora em História Social pela USP, professora de História das Américas na UFF e autora dos livros "Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro" (Hucitec 2010), 'História da África e do Brasil Afrodescendente" (Pallas, 2017)
Analfabeto político é cúmplice do genocídio
“Felizes os que constroem a paz, pois serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5,9), bradou Jesus Cristo no Discurso da Montanha, na Palestina, colônia com povo escravizado e explorado pelo Imperialismo Romano. Vivemos em uma Casa Comum, onde tudo está interconectado com tudo. Sendo assim, não há espaço para neutralidade e omissão, pois toda “postura neutra e de omissão” se torna, na prática, cumplicidade. Todo analfabeto político, que elege os piores políticos, não é apenas omisso diante das injustiças que os podres políticos causam ao não governar para o bem comum, mas para privilegiar aliados da classe dominante. Vejamos alguns exemplos!
Na Zona da Mata Mineira, na cidade de Tombos, MG, que tem oito mil habitantes, em tempos de pandemia da covid-19, já com 21 pessoas mortas, o prefeito Tiago Pedrosa Lazarone Dalpério (PP – Partido Progressista), assinou o Decreto Municipal N° 125/2021, de 20 de maio de 2021, desapropriando um terreno de propriedade da Associação dos Pequenos Agricultores e Trabalhadores Rurais de Tombos (APAT), terreno vendido para oito famílias que adquiriram lotes, onde algumas estão construindo, outras já estão residindo, além de ter ali uma plantação com diversas hortaliças, mandioca e abóbora que ajudam nas finanças de uma família que faz uso da terra desenvolvendo atividade de Agricultura Familiar. Agora todos foram pegos de surpresa pelo Decreto de desapropriação dos terrenos das oito famílias. O motivo aparente apresentado pelo prefeito, ao desapropriar, é que precisa do terreno de 4.600 metros quadrados (quase ½ hectare, ½ campo de futebol) para fazer um canil, “um centro de zoonose para cães”. Entretanto, é de conhecimento de todos/as que a Prefeitura de Tombos dispõe de vários terrenos, alguns em situação de abandono, onde pode ser construído um canil sem nenhum custo com indenização, para cuidar dos animais que não têm culpa por essa atitude injusta e perseguidora contra os trabalhadores e trabalhadoras rurais. O terreno e as construções das oito famílias valem mais de um milhão de reais. No entanto, no decreto do prefeito foi avaliado em apenas 80 mil reais, ou seja, menos de 7% do valor real. Além do valor econômico das oito pequenas propriedades, há valor de memórias de anos de luta, dignidade e respeito ao povo Tombense, tudo isso sendo violado e pisado nesta decisão absurda do prefeito.
Em Sete Lagoas, MG, com 242 mil habitantes, já com mais de 540 mortos pelo genocídio coordenado pelo desgoverno federal, há um déficit habitacional acima de 15 mil moradias, uma tremenda desigualdade social na cidade. Em 17 maio de 2020, há mais de um ano, cerca de 200 famílias ocuparam um terreno da prefeitura de Sete Lagoas, terreno que estava abandonado há décadas, sem cumprir sua função social. O atual prefeito de Sete Lagoas, Duílio de Castro (do Partido Patriota), durante a campanha eleitoral, visitou a Ocupação Cidade de Deus e prometeu para as famílias que não iria requerer reintegração de posse, que iria regularizar fundiariamente a permanência das famílias na área ocupada. Fez isso para ganhar votos. Entretanto, na prática, o prefeito requereu judicialmente a reintegração de posse, alegando que “é área verde”, o que não é verdade. A juíza da Vara da Fazenda Pública e Autarquias da Comarca de Sete Lagoas, Wstânia Barbosa Gonçalves, determinou liminar de reintegração de posse, mandando a prefeitura arrumar abrigo provisório para as famílias. As famílias têm direito à moradia permanente e adequada e não apenas a “abrigo provisório”. A prefeitura de Sete Lagoas está fazendo vistas grossas com a invasão de áreas ambientais por famílias ricas. Para beneficiar famílias ricas, a prefeitura desafetou um terreno que era Área Ambiental para colocar como preferencialmente para habitação, ao lado do shopping, próximo da Serra Santa Helena. Esta gravíssima injustiça social acontece em Sete Lagoas, enquanto o prefeito já colocou à venda mais de 100 terrenos da prefeitura e já anunciou que pretende vender para uma construtora o terreno onde estão as 100 famílias da Ocupação Cidade de Deus. Poderíamos citar muitos outros exemplos de injustiças que estão sendo praticadas por prefeitos, governadores, antipresidente etc.
A CPI[2] da covid-19 no Senado Federal já concluiu que a política genocida do antipresidente e do desgoverno federal, com a cumplicidade de 70% dos deputados/as e senadores/as, parte do Supremo Tribunal Federal e parte da mídia, é responsável por mais de 400 mil mortes que poderiam ter sido evitadas, caso o (des)governo Federal tivesse comprado vacina para os 213 milhões de brasileiros/as, no final de 2020, e não tivesse implementado politica negacionista com falsos remédios e sempre desdenhando da ciência e das orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Trata-se de uma política para matar os mais enfraquecidos, uma eugenia não declarada. Pesquisas comprovam que o número de mortos pela covid-19 foi muito maior nos estados e municípios (des)governados por bolsonaristas (políticos do centrão, da direita e extrema direita). A todos esses dedicamos a profecia do profeta Isaías, que, com ira santa, exorta: “Ai daqueles que fazem decretos iníquos e daqueles que escrevem apressadamente sentenças de opressão, para negar a justiça ao fraco e fraudar o direito dos pobres do meu povo, para fazer das viúvas a sua presa e despojar os órfãos” (Isaías 10, 1-2).
Todos os/as eleitores/as têm responsabilidade sobre as ações políticas dos seus políticos eleitos. Óbvio que as lideranças, sejam elas religiosas ou não, a mídia e todos que influenciam o povo durante a campanha eleitoral são os primeiros e maiores (ir)responsáveis. Errar é humano, mas permanecer no erro é mais do que burrice, é se tornar cúmplice dos políticos opressores. E não basta arrepender por ter votado errado e chegar na próxima eleição votar em nomes diferentes, mas opressores como os anteriores. A história das eleições demonstra que os políticos do centrão, da direita e da extrema direita (PSL, NOVO, Democratas, Progressistas, PTB, PSD, PMDB, PL, PSDB, PSC, Podemos, PRTB, PMB etc) governam contra o povo, contra o meio ambiente e a favor dos grandes empresários e capitalistas. Os partidos e políticos de esquerda ou de centro-esquerda (UP, PCO, PSTU, PCB, PSOL, PT, PCdoB, PSB, REDE, PDT etc) não são perfeitos, mas implementam políticas sociais que são vitais para assegurar algum nível de respeito à dignidade humana e aos direitos sociais garantidos pela Constituição Federal. O fato é que voto não tem preço, tem consequências! “Somos seres políticos”, já dizia o filósofo Aristóteles. Ingenuidade dizer: “Sou apolítico. Não gosto de política. Sou neutro.” Errado dizer “todo político é corrupto”. Há, sim, uma minoria de políticos que são éticos e tentam governar para o bem comum. Todos nós fazemos Política o tempo todo. Política é como respiração. Sem respiração, morremos. Política refere-se ao exercício de alguma forma de poder, como nos ensina Bertold Brecht em “O Analfabeto Político”. A política, como vocação, é a mais nobre das atividades; como profissão, a mais vil.
A história da humanidade mostra muitos povos que foram seduzidos por “espinheiros” que, com mil artimanhas, acabaram sendo eleitos e exerceram o poder oprimindo, violentando e explorando o povo. Por exemplo, o imperador Nero se deleitava em jogos no Coliseu enquanto incendiava Roma, a capital do império; Benito Mussolini, eleito pelo povo, se tornou o criador do fascismo e um ditador; Adolf Hitler, também aclamado pelo povo diante do seu populismo, se tornou nazista contumaz e mandou matar em campos de concentração milhões de judeus, comunistas, ciganos, homossexuais etc. A história mostra também que todos os ‘espinheiros’ eleitos usam e abusam do nome de Deus e dizem defender os “valores da família”, mas na prática colocam “a morte acima de tudo” e arrasam com as famílias e todo o povo de mil formas.
Atribuído a Bertolt Brecht, o texto “O Analfabeto Político” mostra as consequências que o analfabeto político causa: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo.” Nascem também os políticos fascistas e genocidas. Por isso, os analfabetos políticos são cúmplices das políticas genocidas em curso no Brasil. Convertam-se antes que seja tarde demais!
Notas:
[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-
[2] Comissão Parlamentar de Inquérito.
Na Zona da Mata Mineira, na cidade de Tombos, MG, que tem oito mil habitantes, em tempos de pandemia da covid-19, já com 21 pessoas mortas, o prefeito Tiago Pedrosa Lazarone Dalpério (PP – Partido Progressista), assinou o Decreto Municipal N° 125/2021, de 20 de maio de 2021, desapropriando um terreno de propriedade da Associação dos Pequenos Agricultores e Trabalhadores Rurais de Tombos (APAT), terreno vendido para oito famílias que adquiriram lotes, onde algumas estão construindo, outras já estão residindo, além de ter ali uma plantação com diversas hortaliças, mandioca e abóbora que ajudam nas finanças de uma família que faz uso da terra desenvolvendo atividade de Agricultura Familiar. Agora todos foram pegos de surpresa pelo Decreto de desapropriação dos terrenos das oito famílias. O motivo aparente apresentado pelo prefeito, ao desapropriar, é que precisa do terreno de 4.600 metros quadrados (quase ½ hectare, ½ campo de futebol) para fazer um canil, “um centro de zoonose para cães”. Entretanto, é de conhecimento de todos/as que a Prefeitura de Tombos dispõe de vários terrenos, alguns em situação de abandono, onde pode ser construído um canil sem nenhum custo com indenização, para cuidar dos animais que não têm culpa por essa atitude injusta e perseguidora contra os trabalhadores e trabalhadoras rurais. O terreno e as construções das oito famílias valem mais de um milhão de reais. No entanto, no decreto do prefeito foi avaliado em apenas 80 mil reais, ou seja, menos de 7% do valor real. Além do valor econômico das oito pequenas propriedades, há valor de memórias de anos de luta, dignidade e respeito ao povo Tombense, tudo isso sendo violado e pisado nesta decisão absurda do prefeito.
Em Sete Lagoas, MG, com 242 mil habitantes, já com mais de 540 mortos pelo genocídio coordenado pelo desgoverno federal, há um déficit habitacional acima de 15 mil moradias, uma tremenda desigualdade social na cidade. Em 17 maio de 2020, há mais de um ano, cerca de 200 famílias ocuparam um terreno da prefeitura de Sete Lagoas, terreno que estava abandonado há décadas, sem cumprir sua função social. O atual prefeito de Sete Lagoas, Duílio de Castro (do Partido Patriota), durante a campanha eleitoral, visitou a Ocupação Cidade de Deus e prometeu para as famílias que não iria requerer reintegração de posse, que iria regularizar fundiariamente a permanência das famílias na área ocupada. Fez isso para ganhar votos. Entretanto, na prática, o prefeito requereu judicialmente a reintegração de posse, alegando que “é área verde”, o que não é verdade. A juíza da Vara da Fazenda Pública e Autarquias da Comarca de Sete Lagoas, Wstânia Barbosa Gonçalves, determinou liminar de reintegração de posse, mandando a prefeitura arrumar abrigo provisório para as famílias. As famílias têm direito à moradia permanente e adequada e não apenas a “abrigo provisório”. A prefeitura de Sete Lagoas está fazendo vistas grossas com a invasão de áreas ambientais por famílias ricas. Para beneficiar famílias ricas, a prefeitura desafetou um terreno que era Área Ambiental para colocar como preferencialmente para habitação, ao lado do shopping, próximo da Serra Santa Helena. Esta gravíssima injustiça social acontece em Sete Lagoas, enquanto o prefeito já colocou à venda mais de 100 terrenos da prefeitura e já anunciou que pretende vender para uma construtora o terreno onde estão as 100 famílias da Ocupação Cidade de Deus. Poderíamos citar muitos outros exemplos de injustiças que estão sendo praticadas por prefeitos, governadores, antipresidente etc.
A CPI[2] da covid-19 no Senado Federal já concluiu que a política genocida do antipresidente e do desgoverno federal, com a cumplicidade de 70% dos deputados/as e senadores/as, parte do Supremo Tribunal Federal e parte da mídia, é responsável por mais de 400 mil mortes que poderiam ter sido evitadas, caso o (des)governo Federal tivesse comprado vacina para os 213 milhões de brasileiros/as, no final de 2020, e não tivesse implementado politica negacionista com falsos remédios e sempre desdenhando da ciência e das orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Trata-se de uma política para matar os mais enfraquecidos, uma eugenia não declarada. Pesquisas comprovam que o número de mortos pela covid-19 foi muito maior nos estados e municípios (des)governados por bolsonaristas (políticos do centrão, da direita e extrema direita). A todos esses dedicamos a profecia do profeta Isaías, que, com ira santa, exorta: “Ai daqueles que fazem decretos iníquos e daqueles que escrevem apressadamente sentenças de opressão, para negar a justiça ao fraco e fraudar o direito dos pobres do meu povo, para fazer das viúvas a sua presa e despojar os órfãos” (Isaías 10, 1-2).
Todos os/as eleitores/as têm responsabilidade sobre as ações políticas dos seus políticos eleitos. Óbvio que as lideranças, sejam elas religiosas ou não, a mídia e todos que influenciam o povo durante a campanha eleitoral são os primeiros e maiores (ir)responsáveis. Errar é humano, mas permanecer no erro é mais do que burrice, é se tornar cúmplice dos políticos opressores. E não basta arrepender por ter votado errado e chegar na próxima eleição votar em nomes diferentes, mas opressores como os anteriores. A história das eleições demonstra que os políticos do centrão, da direita e da extrema direita (PSL, NOVO, Democratas, Progressistas, PTB, PSD, PMDB, PL, PSDB, PSC, Podemos, PRTB, PMB etc) governam contra o povo, contra o meio ambiente e a favor dos grandes empresários e capitalistas. Os partidos e políticos de esquerda ou de centro-esquerda (UP, PCO, PSTU, PCB, PSOL, PT, PCdoB, PSB, REDE, PDT etc) não são perfeitos, mas implementam políticas sociais que são vitais para assegurar algum nível de respeito à dignidade humana e aos direitos sociais garantidos pela Constituição Federal. O fato é que voto não tem preço, tem consequências! “Somos seres políticos”, já dizia o filósofo Aristóteles. Ingenuidade dizer: “Sou apolítico. Não gosto de política. Sou neutro.” Errado dizer “todo político é corrupto”. Há, sim, uma minoria de políticos que são éticos e tentam governar para o bem comum. Todos nós fazemos Política o tempo todo. Política é como respiração. Sem respiração, morremos. Política refere-se ao exercício de alguma forma de poder, como nos ensina Bertold Brecht em “O Analfabeto Político”. A política, como vocação, é a mais nobre das atividades; como profissão, a mais vil.
A história da humanidade mostra muitos povos que foram seduzidos por “espinheiros” que, com mil artimanhas, acabaram sendo eleitos e exerceram o poder oprimindo, violentando e explorando o povo. Por exemplo, o imperador Nero se deleitava em jogos no Coliseu enquanto incendiava Roma, a capital do império; Benito Mussolini, eleito pelo povo, se tornou o criador do fascismo e um ditador; Adolf Hitler, também aclamado pelo povo diante do seu populismo, se tornou nazista contumaz e mandou matar em campos de concentração milhões de judeus, comunistas, ciganos, homossexuais etc. A história mostra também que todos os ‘espinheiros’ eleitos usam e abusam do nome de Deus e dizem defender os “valores da família”, mas na prática colocam “a morte acima de tudo” e arrasam com as famílias e todo o povo de mil formas.
Atribuído a Bertolt Brecht, o texto “O Analfabeto Político” mostra as consequências que o analfabeto político causa: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo.” Nascem também os políticos fascistas e genocidas. Por isso, os analfabetos políticos são cúmplices das políticas genocidas em curso no Brasil. Convertam-se antes que seja tarde demais!
Notas:
[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-
[2] Comissão Parlamentar de Inquérito.
terça-feira, 15 de junho de 2021
A chacina bolsonarista foi premeditada
Em 6 de agosto de 2020, o bolsonarismo baniu o termo “quarentena”.
A ata de uma reunião no Ministério da Saúde, realizada naquele dia, é explícita:
“Os termos quarentena e auto-isolamento não serão mais utilizados nos documentos técnicos”.
Àquela altura, os responsáveis pela chacina bolsonarista sabiam perfeitamente que quarentena e auto-isolamento eram o único instrumento seguro para reduzir o número de mortes. De fato, numa reunião anterior, em 25 de maio, os técnicos de Eduardo Pazuello discutiram abertamente sobre o assunto, em documento reproduzido pelo Estadão:
“Toda pesquisa leva a acreditar que medidas sociais drásticas dão resultados positivos; que, sem intervenções, esgotamos UTIs, os picos vão aumentar descontroladamente; que, sem isolamento, levará um tempo muito grande, de um a dois anos, para controlarmos a situação”.
O bolsonarismo, portanto, não desconhecia a ciência; ele a ignorou de maneira premeditada, sabotando a quarentena e o isolamento social. A lorota de que Jair Bolsonaro acredita em Terra Plana é, na verdade, um álibi para acobertar seus crimes. Ele foi informado sobre o que deveria ser feito para diminuir a mortandade e, mesmo assim, preferiu praticar seu assassinato em massa. O sociopata eliminou o termo “quarentena” e, junto com ele, eliminou também 500 mil pessoas.
A ata de uma reunião no Ministério da Saúde, realizada naquele dia, é explícita:
“Os termos quarentena e auto-isolamento não serão mais utilizados nos documentos técnicos”.
Àquela altura, os responsáveis pela chacina bolsonarista sabiam perfeitamente que quarentena e auto-isolamento eram o único instrumento seguro para reduzir o número de mortes. De fato, numa reunião anterior, em 25 de maio, os técnicos de Eduardo Pazuello discutiram abertamente sobre o assunto, em documento reproduzido pelo Estadão:
“Toda pesquisa leva a acreditar que medidas sociais drásticas dão resultados positivos; que, sem intervenções, esgotamos UTIs, os picos vão aumentar descontroladamente; que, sem isolamento, levará um tempo muito grande, de um a dois anos, para controlarmos a situação”.
O bolsonarismo, portanto, não desconhecia a ciência; ele a ignorou de maneira premeditada, sabotando a quarentena e o isolamento social. A lorota de que Jair Bolsonaro acredita em Terra Plana é, na verdade, um álibi para acobertar seus crimes. Ele foi informado sobre o que deveria ser feito para diminuir a mortandade e, mesmo assim, preferiu praticar seu assassinato em massa. O sociopata eliminou o termo “quarentena” e, junto com ele, eliminou também 500 mil pessoas.
2022: 'Quem' ou 'Para Quê'?
Há uma longa e danosa tradição em eleições no Brasil: discutimos “quem”, e não “para quê?” Enquanto for assim, o vencedor tomará posse compromissado apenas com o grupo que financiou sua campanha e “vendeu” seu nome à população. Nenhum compromisso com o País!
É preciso romper essa tradição; não discutir “quem”, mas “para quê”. Ou seja, definir objetivos claros, quantificáveis, repisados e detalhados durante a campanha, e que, por serem percebidos como melhorias sensíveis em sua qualidade de vida, atraiam os eleitores. Isso seria um primeiro passo de uma tão necessária reforma política. Eleito defendendo objetivos claros, será difícil para o ungido cometer mais um estelionato eleitoral.
Debater “o quê”, e não “quem”, ajudará a definir um rumo para este país à deriva; evitará lutar contra inimigos de ocasião; tenderá a dar coerência às ações dos vários órgãos e níveis de governo, gerando sinergia e minimizando os efeitos danosos da inevitável partilha do controle da máquina pública; será possível construir uma coalisão em prol daqueles fins. Sabendo os objetivos, ficará mais fácil identificar experiências exitosas e multiplicá-las.
Precisamos de algo que seja uma versão século XXI do mote de JK, “cinquenta anos em cinco”, que, é bom lembrar, baseava-se em metas claras e quantificadas.
Se falamos em eleger A ou B, ao invés de “para quê”, o eleito terá uma agenda sua e dos seus, não do Brasil. Fatiará o controle da máquina pública para “comprar” apoio, terá dificuldades de fazer convergir as ações dos órgãos públicos e lançará programas vazios, tirados da cartola. O caos da pandemia demonstrou, mais uma vez, a importância da coordenação nacional para enfrentar os muitos e difíceis problemas que nos afligem.
Os verdadeiros inimigos são as desigualdades, a péssima qualidade da educação, da saúde, da Justiça, da mobilidade, da alimentação, da segurança; o desemprego, o desalento, os preconceitos, a violência. Para esses males, interligados e que se realimentam, quais seriam metas alcançáveis em quatro anos? E em oito ou dez? E para outros males que, embora urgentes e centrais ao século XXI, não estão na agenda política brasileira?
É necessário, ainda, romper outra tradição política danosa e levantar propostas para problemas reais embora não apontados, nas pesquisas de opinião, como prioridades. Por exemplo, gerar menos lixo, cidades mais humanas, defesas contra os algoritmos, tornar progressiva a estrutura tributária, etc.
Enquanto discutimos se A ou B, nada sabemos sobre como o eleito tratará esses temas. Daremos a ele carta branca, e adiaremos por mais quatro, oito ou mais anos qualquer possibilidade de sairmos do pântano em que nos colocaram aqueles que se elegeram mais pelo seu nome e imagem que por suas propostas.
Eduardo Fernandez Silva. ex-Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados
É preciso romper essa tradição; não discutir “quem”, mas “para quê”. Ou seja, definir objetivos claros, quantificáveis, repisados e detalhados durante a campanha, e que, por serem percebidos como melhorias sensíveis em sua qualidade de vida, atraiam os eleitores. Isso seria um primeiro passo de uma tão necessária reforma política. Eleito defendendo objetivos claros, será difícil para o ungido cometer mais um estelionato eleitoral.
Debater “o quê”, e não “quem”, ajudará a definir um rumo para este país à deriva; evitará lutar contra inimigos de ocasião; tenderá a dar coerência às ações dos vários órgãos e níveis de governo, gerando sinergia e minimizando os efeitos danosos da inevitável partilha do controle da máquina pública; será possível construir uma coalisão em prol daqueles fins. Sabendo os objetivos, ficará mais fácil identificar experiências exitosas e multiplicá-las.
Precisamos de algo que seja uma versão século XXI do mote de JK, “cinquenta anos em cinco”, que, é bom lembrar, baseava-se em metas claras e quantificadas.
Se falamos em eleger A ou B, ao invés de “para quê”, o eleito terá uma agenda sua e dos seus, não do Brasil. Fatiará o controle da máquina pública para “comprar” apoio, terá dificuldades de fazer convergir as ações dos órgãos públicos e lançará programas vazios, tirados da cartola. O caos da pandemia demonstrou, mais uma vez, a importância da coordenação nacional para enfrentar os muitos e difíceis problemas que nos afligem.
Os verdadeiros inimigos são as desigualdades, a péssima qualidade da educação, da saúde, da Justiça, da mobilidade, da alimentação, da segurança; o desemprego, o desalento, os preconceitos, a violência. Para esses males, interligados e que se realimentam, quais seriam metas alcançáveis em quatro anos? E em oito ou dez? E para outros males que, embora urgentes e centrais ao século XXI, não estão na agenda política brasileira?
É necessário, ainda, romper outra tradição política danosa e levantar propostas para problemas reais embora não apontados, nas pesquisas de opinião, como prioridades. Por exemplo, gerar menos lixo, cidades mais humanas, defesas contra os algoritmos, tornar progressiva a estrutura tributária, etc.
Enquanto discutimos se A ou B, nada sabemos sobre como o eleito tratará esses temas. Daremos a ele carta branca, e adiaremos por mais quatro, oito ou mais anos qualquer possibilidade de sairmos do pântano em que nos colocaram aqueles que se elegeram mais pelo seu nome e imagem que por suas propostas.
Eduardo Fernandez Silva. ex-Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados
Militares dos EUA e da França mostram por que o Brasil é a vanguarda mundial do atraso
Um marciano que descesse à Terra entre 21 de abril e 10 de maio chegaria à conclusão de que o Brasil nada mais é do que a vanguarda mundial do atraso. Nesse espaço de tempo, dois berços da democracia mundial, a França e os Estados Unidos, assistiram a demonstrações de engajamento político de militares da reserva e uns poucos da ativa.
Primeiro veio a carta assinada por 1.200 oficiais reformados, entre os quais 24 generais, com a adesão, anônima, de duas dezenas de militares da ativa das Forças Armadas francesas. Eles escolheram o aniversário de 60 anos da tentativa de golpe contra a independência da Argélia no governo do general Charles De Gaulle.
No texto, os oficiais dizem que foram o antirracismo, o indigenismo e as políticas de descolonização que semearam o ódio no país. Citam, para isso, a decapitação de um professor, no ano passado, por um aluno que não gostara de uma caricatura de Maomé mostrada na sala de aula de uma escola da região metropolitana de Paris. A carta aberta define o islamismo como um “dogma” contrário à Constituição nacional e ainda diz que a tolerância religiosa levará a França à guerra civil.
O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas, o general François Lecointre, instou os signatários da ativa a passar para a reserva. Já a líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, saudou a carta e pediu o apoio dos signatários para sua candidatura à Presidência em 2022. Entre aqueles identificados na publicação do artigo pela revista “Valeurs Actuelles” (valores atuais, em francês), há oficiais reformados e saudosistas do império colonial francês. Um verdadeiro exército de Brancaleone.
Pipocaram pesquisas mostrando apoio a uma intervenção militar por até metade dos franceses, mas as sondagens acabaram desacreditadas por terem sido feitas poucos dias depois de dois eventos que comoveram o país: uma manifestação de rua pelo julgamento do assassino de uma judia ortodoxa, internado numa instituição de doentes mentais, e uma condenação, branda na visão dos manifestantes, de uma gangue que ateou fogo em um carro de polícia.
Dezenove dias depois, do outro lado do Atlântico, veio a público uma carta aberta de 124 generais e almirantes da reserva americanos. Mais parecia ter sido escrita pelo ex-presidente Donald Trump, tamanha a semelhança dos argumentos. O texto afirma que a eleição de Joe Biden foi roubada, que a liberdade do país está sob a ameaça e que o viés “politicamente correto” do presidente divide as Forças Armadas e ameaça a prontidão para a guerra. “Sob um Congresso democrata e o corrente governo, nosso país deu uma guinada à esquerda rumo ao socialismo e o marxismo”, afirma o texto.
A carta ainda diz que a integridade das eleições depende de medidas restritivas ao voto de grandes comunidades de negros e latinos em todo o país. Também questiona as condições físicas e mentais de Biden como comandante-em-chefe. Entre os signatários estão oficiais veteranos da guerra do Vietnã, um condenado na operação Irã-Contras, do governo Ronald Reagan, militantes antimuçulmanos e antiLGBT.
No dia seguinte, os franceses de extrema direita voltaram a se manifestar. Desta vez, a carta não esteve restrita à assinatura de militares, mas ao público em geral. O site da revista “Valeurs Actuelles” contabiliza 299 mil signatários até o fechamento desta edição. Este segundo texto acresce aos argumentos já apresentados em abril a menção à “Operação Sentinela”. Convocada pelo presidente Emmanuel Macron, em 2015, foi uma reação a uma série de atentados deflagrados concomitantemente no estádio de futebol de Saint-Denis, na região do Canal Saint-Martin e na casa de shows Bataclan, na capital francesa, que deixaram 130 mortos. Os ataques, que foram os mais letais na cidade desde a Segunda Guerra Mundial, acabaram reivindicados por grupos terroristas de origem islâmica.
É este o fio que Vinícius de Carvalho, estudioso do tema, professor do Departamento de Estudos de Guerra e diretor do Brazil Institute do King’s College, de Londres, puxa para colocar o país de Jair Bolsonaro na roda. Para além das contingências históricas de cada uma dessas nações, diz, é a atribuição de funções civis aos militares que age como um precedente de seu envolvimento político - na França, nos Estados Unidos, no Brasil e em muitos dos vizinhos da América Latina.
No Brasil, a atuação na “lei e ordem”, concessão dos constituintes ao finado regime militar, ampliou-se com a adoção, há quase 30 anos, das Operações de Garantia da Lei e da Ordem, inauguradas com o uso das Forças Armadas na segurança da Conferência das Nações Unidas Rio-92. Não é coincidência que a candidatura Jair Bolsonaro tenha decolado no ano em que o Rio, onde o presidente colheu uma de suas mais espetaculares votações, abrigou uma das maiores GLOs da história, a da intervenção na segurança pública do Estado.
No primeiro mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva, às GLOs se somou a liderança do Brasil na missão das Nações Unidas no Haiti, onde os militares brasileiros atuaram no combate às gangues e no controle da violência urbana. Foi uma prévia das grandes intervenções militares em comunidades. Dos 11 generais que comandaram a missão no Haiti, cinco acabaram se imiscuindo na vida civil brasileira e um tornou-se o primeiro comandante do Exército no governo Bolsonaro: Heleno Ribeiro (Gabinete de Segurança Institucional), Carlos Alberto dos Santos Cruz (ex-Secretaria de Governo), Luis Eduardo Ramos (Casa Civil), Floriano Peixoto (ex-Secretaria-Geral da Presidência), Ajax Pinheiro (assessor especial da Presidência do Supremo) e Edson Leal Pujol.
Se as operações militares no Brasil foram marcadas pela intervenção durante eventos internacionais, greves policiais, crises na segurança pública, incêndios florestais e eleições, no resto no mundo, na avaliação de Vinícius de Carvalho, a inserção foi desencadeada pelo terrorismo. O momento de inflexão foram os ataques da Al-Qaeda às torres gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001.
Acionadas pelo terrorismo, as intervenções acabaram naturalizadas contra sublevações sociais e imigração ilegal. Quando o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, Mark Milley, pediu desculpas ao povo americano no ano passado, os sinais de tensão na política interna já eram evidentes com a convocação da Guarda Nacional. A presença de Milley ao lado ex-presidente Donald Trump em caminhada da Casa Branca até uma igreja próxima durante a ocupação de Washington pelos protestos “Vidas Negras Importam” foi vista como um endosso à repressão contra os negros. Daí os esclarecimentos.
Mesmo num país em que é comum os presidentes ostentarem, em algum momento de suas carreiras, patentes militares, a entrega, por Donald Trump, do cargo de secretário de Defesa para um militar reformado foi recebida com reservas. Apesar disso, a prática foi mantida pelo atual presidente Joe Biden, que nomeou o general da reserva Lloyd Austin, primeiro afro-americano a comandar tropas americanas no exterior (Iraque). A nomeação exigiu que o Congresso americano aceitasse a redução da quarentena de sete para quatro anos para oficiais das Forças Armadas. É o equivalente, diz o professor do King’s College, à militarização do Ministério da Defesa no Brasil.
A pasta foi criada em 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, para ser ocupada por um civil que representaria politicamente as três Forças. Foi um marco num continente que, ao longo das últimas décadas, vide Colômbia e México, tem cedido à pressão americana no combate ao narcotrático pela militarização da segurança nacional. Acabou, porém, sendo ocupada por generais da reserva nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.
A reocupação da pasta por civis, na visão de Vinícius de Carvalho, é o eixo a partir do qual deveriam se estruturar as mudanças necessárias. Mas não apenas. As esquecidas Comissão de Defesa do Senado e da Câmara também merecem sua lupa. “São as instâncias que o Parlamento brasileiro tem para participar na formatação do modelo de Forças Armadas que se quer para o país", diz. A primeira distinção a ser feita é entre defesa, tema militar por excelência, e segurança nacional, atribuição das múltiplas e desfuncionais polícias do país.
O professor do King’s College não vê, por exemplo, razão para o país, que não tem conflitos com seus vizinhos, manter o 14º efetivo mundial de militares do mundo, com batalhões em áreas que não são de fronteira. Na última vez em que um comandante do Exército se manifestou sobre o tema, o general Pujol, em 2020, disse que os efetivos da Força eram necessários para garantir a soberania da Amazônia. “Se uma potência nuclear quiser dominar a floresta, não será simplesmente com presença de grandes efetivos militares na região que o Brasil impedirá que isso aconteça”, diz Carvalho, alertando para os riscos advindos dos flancos na defesa cibernética, cuja expertise não é exclusividade militar.
Este efetivo faz com que os soldos e pensões das Forças Armadas consumam quase 80% de seus gastos. A reforma realizada no governo Bolsonaro, que recompôs gastos com a folha que haviam sido reduzidos no governo Fernando Henrique, foi um dos primeiros degraus da escalada de políticas para atrelar as Forças Armadas ao destino do presidente da República. A entrega do Ministério da Saúde para um general da ativa levar a cabo o negacionismo do presidente foi o ápice desse atrelamento. E a possível punição que envolve a ida do ex-ministro da Saúde e general Eduardo Pazuello a seu palanque, no Rio de Janeiro, a mais recente das tensões.
Ainda que não haja parâmetro nos Estados Unidos ou na França para a agitação dos quartéis pretendida por Bolsonaro, os movimentos políticos da caserna nos dois países dão repertório ao presidente brasileiro. Isolado depois da derrota de Trump e, principalmente, depois do negacionismo ímpar na pandemia, Bolsonaro peleja para conseguir seu segundo mandato sob o escudo militar. É como pretende se manter na crista da onda do novo viés da extrema-direita mundial.
Primeiro veio a carta assinada por 1.200 oficiais reformados, entre os quais 24 generais, com a adesão, anônima, de duas dezenas de militares da ativa das Forças Armadas francesas. Eles escolheram o aniversário de 60 anos da tentativa de golpe contra a independência da Argélia no governo do general Charles De Gaulle.
No texto, os oficiais dizem que foram o antirracismo, o indigenismo e as políticas de descolonização que semearam o ódio no país. Citam, para isso, a decapitação de um professor, no ano passado, por um aluno que não gostara de uma caricatura de Maomé mostrada na sala de aula de uma escola da região metropolitana de Paris. A carta aberta define o islamismo como um “dogma” contrário à Constituição nacional e ainda diz que a tolerância religiosa levará a França à guerra civil.
O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas, o general François Lecointre, instou os signatários da ativa a passar para a reserva. Já a líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, saudou a carta e pediu o apoio dos signatários para sua candidatura à Presidência em 2022. Entre aqueles identificados na publicação do artigo pela revista “Valeurs Actuelles” (valores atuais, em francês), há oficiais reformados e saudosistas do império colonial francês. Um verdadeiro exército de Brancaleone.
Pipocaram pesquisas mostrando apoio a uma intervenção militar por até metade dos franceses, mas as sondagens acabaram desacreditadas por terem sido feitas poucos dias depois de dois eventos que comoveram o país: uma manifestação de rua pelo julgamento do assassino de uma judia ortodoxa, internado numa instituição de doentes mentais, e uma condenação, branda na visão dos manifestantes, de uma gangue que ateou fogo em um carro de polícia.
Dezenove dias depois, do outro lado do Atlântico, veio a público uma carta aberta de 124 generais e almirantes da reserva americanos. Mais parecia ter sido escrita pelo ex-presidente Donald Trump, tamanha a semelhança dos argumentos. O texto afirma que a eleição de Joe Biden foi roubada, que a liberdade do país está sob a ameaça e que o viés “politicamente correto” do presidente divide as Forças Armadas e ameaça a prontidão para a guerra. “Sob um Congresso democrata e o corrente governo, nosso país deu uma guinada à esquerda rumo ao socialismo e o marxismo”, afirma o texto.
A carta ainda diz que a integridade das eleições depende de medidas restritivas ao voto de grandes comunidades de negros e latinos em todo o país. Também questiona as condições físicas e mentais de Biden como comandante-em-chefe. Entre os signatários estão oficiais veteranos da guerra do Vietnã, um condenado na operação Irã-Contras, do governo Ronald Reagan, militantes antimuçulmanos e antiLGBT.
No dia seguinte, os franceses de extrema direita voltaram a se manifestar. Desta vez, a carta não esteve restrita à assinatura de militares, mas ao público em geral. O site da revista “Valeurs Actuelles” contabiliza 299 mil signatários até o fechamento desta edição. Este segundo texto acresce aos argumentos já apresentados em abril a menção à “Operação Sentinela”. Convocada pelo presidente Emmanuel Macron, em 2015, foi uma reação a uma série de atentados deflagrados concomitantemente no estádio de futebol de Saint-Denis, na região do Canal Saint-Martin e na casa de shows Bataclan, na capital francesa, que deixaram 130 mortos. Os ataques, que foram os mais letais na cidade desde a Segunda Guerra Mundial, acabaram reivindicados por grupos terroristas de origem islâmica.
É este o fio que Vinícius de Carvalho, estudioso do tema, professor do Departamento de Estudos de Guerra e diretor do Brazil Institute do King’s College, de Londres, puxa para colocar o país de Jair Bolsonaro na roda. Para além das contingências históricas de cada uma dessas nações, diz, é a atribuição de funções civis aos militares que age como um precedente de seu envolvimento político - na França, nos Estados Unidos, no Brasil e em muitos dos vizinhos da América Latina.
No Brasil, a atuação na “lei e ordem”, concessão dos constituintes ao finado regime militar, ampliou-se com a adoção, há quase 30 anos, das Operações de Garantia da Lei e da Ordem, inauguradas com o uso das Forças Armadas na segurança da Conferência das Nações Unidas Rio-92. Não é coincidência que a candidatura Jair Bolsonaro tenha decolado no ano em que o Rio, onde o presidente colheu uma de suas mais espetaculares votações, abrigou uma das maiores GLOs da história, a da intervenção na segurança pública do Estado.
No primeiro mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva, às GLOs se somou a liderança do Brasil na missão das Nações Unidas no Haiti, onde os militares brasileiros atuaram no combate às gangues e no controle da violência urbana. Foi uma prévia das grandes intervenções militares em comunidades. Dos 11 generais que comandaram a missão no Haiti, cinco acabaram se imiscuindo na vida civil brasileira e um tornou-se o primeiro comandante do Exército no governo Bolsonaro: Heleno Ribeiro (Gabinete de Segurança Institucional), Carlos Alberto dos Santos Cruz (ex-Secretaria de Governo), Luis Eduardo Ramos (Casa Civil), Floriano Peixoto (ex-Secretaria-Geral da Presidência), Ajax Pinheiro (assessor especial da Presidência do Supremo) e Edson Leal Pujol.
Se as operações militares no Brasil foram marcadas pela intervenção durante eventos internacionais, greves policiais, crises na segurança pública, incêndios florestais e eleições, no resto no mundo, na avaliação de Vinícius de Carvalho, a inserção foi desencadeada pelo terrorismo. O momento de inflexão foram os ataques da Al-Qaeda às torres gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001.
Acionadas pelo terrorismo, as intervenções acabaram naturalizadas contra sublevações sociais e imigração ilegal. Quando o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, Mark Milley, pediu desculpas ao povo americano no ano passado, os sinais de tensão na política interna já eram evidentes com a convocação da Guarda Nacional. A presença de Milley ao lado ex-presidente Donald Trump em caminhada da Casa Branca até uma igreja próxima durante a ocupação de Washington pelos protestos “Vidas Negras Importam” foi vista como um endosso à repressão contra os negros. Daí os esclarecimentos.
Mesmo num país em que é comum os presidentes ostentarem, em algum momento de suas carreiras, patentes militares, a entrega, por Donald Trump, do cargo de secretário de Defesa para um militar reformado foi recebida com reservas. Apesar disso, a prática foi mantida pelo atual presidente Joe Biden, que nomeou o general da reserva Lloyd Austin, primeiro afro-americano a comandar tropas americanas no exterior (Iraque). A nomeação exigiu que o Congresso americano aceitasse a redução da quarentena de sete para quatro anos para oficiais das Forças Armadas. É o equivalente, diz o professor do King’s College, à militarização do Ministério da Defesa no Brasil.
A pasta foi criada em 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, para ser ocupada por um civil que representaria politicamente as três Forças. Foi um marco num continente que, ao longo das últimas décadas, vide Colômbia e México, tem cedido à pressão americana no combate ao narcotrático pela militarização da segurança nacional. Acabou, porém, sendo ocupada por generais da reserva nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.
A reocupação da pasta por civis, na visão de Vinícius de Carvalho, é o eixo a partir do qual deveriam se estruturar as mudanças necessárias. Mas não apenas. As esquecidas Comissão de Defesa do Senado e da Câmara também merecem sua lupa. “São as instâncias que o Parlamento brasileiro tem para participar na formatação do modelo de Forças Armadas que se quer para o país", diz. A primeira distinção a ser feita é entre defesa, tema militar por excelência, e segurança nacional, atribuição das múltiplas e desfuncionais polícias do país.
O professor do King’s College não vê, por exemplo, razão para o país, que não tem conflitos com seus vizinhos, manter o 14º efetivo mundial de militares do mundo, com batalhões em áreas que não são de fronteira. Na última vez em que um comandante do Exército se manifestou sobre o tema, o general Pujol, em 2020, disse que os efetivos da Força eram necessários para garantir a soberania da Amazônia. “Se uma potência nuclear quiser dominar a floresta, não será simplesmente com presença de grandes efetivos militares na região que o Brasil impedirá que isso aconteça”, diz Carvalho, alertando para os riscos advindos dos flancos na defesa cibernética, cuja expertise não é exclusividade militar.
Este efetivo faz com que os soldos e pensões das Forças Armadas consumam quase 80% de seus gastos. A reforma realizada no governo Bolsonaro, que recompôs gastos com a folha que haviam sido reduzidos no governo Fernando Henrique, foi um dos primeiros degraus da escalada de políticas para atrelar as Forças Armadas ao destino do presidente da República. A entrega do Ministério da Saúde para um general da ativa levar a cabo o negacionismo do presidente foi o ápice desse atrelamento. E a possível punição que envolve a ida do ex-ministro da Saúde e general Eduardo Pazuello a seu palanque, no Rio de Janeiro, a mais recente das tensões.
Ainda que não haja parâmetro nos Estados Unidos ou na França para a agitação dos quartéis pretendida por Bolsonaro, os movimentos políticos da caserna nos dois países dão repertório ao presidente brasileiro. Isolado depois da derrota de Trump e, principalmente, depois do negacionismo ímpar na pandemia, Bolsonaro peleja para conseguir seu segundo mandato sob o escudo militar. É como pretende se manter na crista da onda do novo viés da extrema-direita mundial.
O 'evangelho' segundo Bolsonaro
O oitavo Mandamento diz que não se deve dar falso testemunho. No “evangelho” do presidente Jair Bolsonaro, contudo, esse mandamento caducou.
Ao discursar numa igreja evangélica em Anápolis (GO), na quarta-feira passada, Bolsonaro fez um sermão repleto de mentiras, tão evidentes que nem era preciso ser onisciente para perceber.
Bolsonaro voltou a afirmar que houve “fraude” na eleição de 2018, que ele venceu. “Eu fui eleito no primeiro turno. Eu tenho provas materiais, mas o sistema, a fraude existiu sim, me jogou para o segundo turno”, disse Bolsonaro.
A primeira vez em que o presidente alegou ter sido vítima de fraude na eleição foi em março de 2020. Na ocasião, disse que tinha “provas” e que as mostraria “brevemente”. Bolsonaro nunca o fez, porque não existem. Mas isso não tem importância: no “evangelho” bolsonarista, a verdade não é aquilo que encontra correspondência na realidade, e sim aquilo que Bolsonaro enuncia como tal. É questão de fé.
No mesmo sermão, Bolsonaro tornou a acusar governadores e prefeitos de “utilizar politicamente o vírus” da covid-19. Sem qualquer respaldo nos fatos, o presidente disse que as medidas de isolamento social para conter a pandemia se prestam a derrubá-lo: “Vamos fechar tudo, lockdown, toque de recolher, que a gente pela economia tira esse cara daí”. Bolsonaro disse que o querem fora porque “fez com que as estatais não dessem mais prejuízo”, “está começando a arrumar a economia”, “acredita em Deus”, “respeita seus militares” e “acredita na família”.
Em seguida, disse que “gente que estava ao meu lado” fez contas, a partir de um “acórdão do Tribunal de Contas da União”, e chegou à “constatação da supernotificação de casos de covid” por parte de Estados interessados em ter “mais recursos” federais. Segundo Bolsonaro, “se nós retirarmos as possíveis fraudes” da contabilidade de mortos por covid-19, “o nosso Brasil” será “aquele com menor número de mortes por milhão de habitantes por causa da covid”. Ou seja, o presidente está dizendo, em outras palavras, que milhares de médicos em todo o Brasil integram uma máfia dedicada a fraudar atestados de óbito para favorecer os planos de governadores corruptos.
Uma vez eliminada a “fraude”, disse o presidente, ficará claro que o Brasil teve poucas mortes por covid-19 porque adotou o “tratamento precoce”, com cloroquina e ivermectina, cuja ineficácia contra o coronavírus já foi amplamente atestada. Bolsonaro disse que não se investe nesse “tratamento” porque “interessa viver em cima de mortes, para se ganhar mais recursos”.
Para o presidente, é irrelevante se o tal “tratamento precoce” não tem comprovação científica. “Eu pergunto: a vacina tem comprovação científica ou está em estado experimental ainda? Está experimental”, disse Bolsonaro, naquela que talvez seja a mais nociva das tantas mentiras que contou no seu sermão. Ao questionar a segurança da vacina, já atestada pelas autoridades sanitárias regulatórias, Bolsonaro sabota todos os esforços para incentivar os brasileiros a tomar o imunizante.
Mas a epifania bolsonarista em Anápolis, malgrado suas repetidas referências a “milagres” e “Deus”, teve objetivos bem mais mundanos. Conforme a já manjada tática bolsonarista, era preciso inventar variadas polêmicas, em grande quantidade, para tirar a atenção do mais importante: a forte alta da inflação, anunciada no mesmo dia do sermão de Bolsonaro.
Se por um lado a inflação aumentou a arrecadação do governo, pois os tributos são cobrados em cima de preços mais altos, por outro a alta dos preços corrói a renda dos brasileiros, especialmente a dos mais pobres, que já convivem com forte desemprego. Ante o risco de insatisfação popular, muito concreto, Bolsonaro recorreu a quase todo o seu repertório de falsidades para que o País mude de assunto.
Em sua prédica mendaz, foi honesto uma única vez, quando disse que, ao ser eleito, “não sabia o que fazer”. Hoje, contudo, sabe muito bem: mentir dia e noite para ser reeleito. Se vai conseguir ou não, depende da credulidade dos eleitores.
Ao discursar numa igreja evangélica em Anápolis (GO), na quarta-feira passada, Bolsonaro fez um sermão repleto de mentiras, tão evidentes que nem era preciso ser onisciente para perceber.
Bolsonaro voltou a afirmar que houve “fraude” na eleição de 2018, que ele venceu. “Eu fui eleito no primeiro turno. Eu tenho provas materiais, mas o sistema, a fraude existiu sim, me jogou para o segundo turno”, disse Bolsonaro.
A primeira vez em que o presidente alegou ter sido vítima de fraude na eleição foi em março de 2020. Na ocasião, disse que tinha “provas” e que as mostraria “brevemente”. Bolsonaro nunca o fez, porque não existem. Mas isso não tem importância: no “evangelho” bolsonarista, a verdade não é aquilo que encontra correspondência na realidade, e sim aquilo que Bolsonaro enuncia como tal. É questão de fé.
No mesmo sermão, Bolsonaro tornou a acusar governadores e prefeitos de “utilizar politicamente o vírus” da covid-19. Sem qualquer respaldo nos fatos, o presidente disse que as medidas de isolamento social para conter a pandemia se prestam a derrubá-lo: “Vamos fechar tudo, lockdown, toque de recolher, que a gente pela economia tira esse cara daí”. Bolsonaro disse que o querem fora porque “fez com que as estatais não dessem mais prejuízo”, “está começando a arrumar a economia”, “acredita em Deus”, “respeita seus militares” e “acredita na família”.
Em seguida, disse que “gente que estava ao meu lado” fez contas, a partir de um “acórdão do Tribunal de Contas da União”, e chegou à “constatação da supernotificação de casos de covid” por parte de Estados interessados em ter “mais recursos” federais. Segundo Bolsonaro, “se nós retirarmos as possíveis fraudes” da contabilidade de mortos por covid-19, “o nosso Brasil” será “aquele com menor número de mortes por milhão de habitantes por causa da covid”. Ou seja, o presidente está dizendo, em outras palavras, que milhares de médicos em todo o Brasil integram uma máfia dedicada a fraudar atestados de óbito para favorecer os planos de governadores corruptos.
Uma vez eliminada a “fraude”, disse o presidente, ficará claro que o Brasil teve poucas mortes por covid-19 porque adotou o “tratamento precoce”, com cloroquina e ivermectina, cuja ineficácia contra o coronavírus já foi amplamente atestada. Bolsonaro disse que não se investe nesse “tratamento” porque “interessa viver em cima de mortes, para se ganhar mais recursos”.
Para o presidente, é irrelevante se o tal “tratamento precoce” não tem comprovação científica. “Eu pergunto: a vacina tem comprovação científica ou está em estado experimental ainda? Está experimental”, disse Bolsonaro, naquela que talvez seja a mais nociva das tantas mentiras que contou no seu sermão. Ao questionar a segurança da vacina, já atestada pelas autoridades sanitárias regulatórias, Bolsonaro sabota todos os esforços para incentivar os brasileiros a tomar o imunizante.
Mas a epifania bolsonarista em Anápolis, malgrado suas repetidas referências a “milagres” e “Deus”, teve objetivos bem mais mundanos. Conforme a já manjada tática bolsonarista, era preciso inventar variadas polêmicas, em grande quantidade, para tirar a atenção do mais importante: a forte alta da inflação, anunciada no mesmo dia do sermão de Bolsonaro.
Se por um lado a inflação aumentou a arrecadação do governo, pois os tributos são cobrados em cima de preços mais altos, por outro a alta dos preços corrói a renda dos brasileiros, especialmente a dos mais pobres, que já convivem com forte desemprego. Ante o risco de insatisfação popular, muito concreto, Bolsonaro recorreu a quase todo o seu repertório de falsidades para que o País mude de assunto.
Em sua prédica mendaz, foi honesto uma única vez, quando disse que, ao ser eleito, “não sabia o que fazer”. Hoje, contudo, sabe muito bem: mentir dia e noite para ser reeleito. Se vai conseguir ou não, depende da credulidade dos eleitores.
Exemplo assassino
Todo e qualquer o líder que não percebe o valor do exemplo não tem a mais pequena vocação para a função. O exemplo é o mais poderoso instrumento de motivação: capaz de ajudar a elevar homens a heróis ou descer a vilões
A pátria em chuteiras calça as pantufas dos isentões
A Conmenbol, confederação sul-americana de futebol, abriu a Copa América em Brasília apenas com uma lembrança tímida, quase protocolar, a respeito de uma pandemia que já matou quase 500.000 brasileiros. O principal avalista do torneio, o presidente Jair Bolsonaro festejou ao seu estilo fanfarrão: com uma foto nas redes sociais apontando para a logomarca do SBT, emissora dona dos direitos de transmissão dos jogos. O líder negacionista vestia uma camiseta do time do Brusque (SC) com propaganda da Havan, firma do empresário e apoiador Luciano Hang, um dos patrocinadores da transmissão na TV de Silvio Santos.
O Brasil venceu por 3×0 uma Venezuela alvejada por um surto de Covid-19 às vésperas da partida —onze atletas testaram positivo e não puderam atuar neste domingo. A pátria em chuteiras, como o cronista Nelson Rodrigues batizou a seleção nacional, tampouco promoveu qualquer manifestação além do minuto de silêncio no início da partida.
Ao contrário das jogadoras da seleção feminina, que na semana passada, antes do amistoso com a Rússia, exibiram uma faixa de protesto contra o assédio de Rogério Caboclo —o presidente afastado da CBF—, os homens apenas jogaram bola, mantendo a marca histórica masculina da falta de pronunciamento. A pátria em chuteiras calçou as pantufas dos isentões.
Nem mesmo a gravidade da peste provocada pelo coronavírus comoveu até agora os atletas e a comissão técnica da equipe. Mesmo na singela cartinha publicada no story do Instagram dos boleiros, não houve a menor sensibilidade para defender a vacina ou o SUS, por exemplo. Nada. No jogo de abertura da Copa América, idem, nem mesmo um gesto que pudesse ajudar os brasileiros vítimas da Covid. Uma omissão histórica bem superior à vergonha moral do 7×1 para a Alemanha na Copa de 2014.
Na breve cerimônia de abertura, um médico e um enfermeiro, representando a turma da linha de frente dos hospitais, entrou no estádio Mané Garrincha com a taça da competição. Muito pouco, dona Conmebol. A melhor homenagem, porém, seria ter evitado a realização do torneio, como defenderam dezenas de infectologistas e autoridades em saúde pública. Não foi em vão que grandes patrocinadores oficiais, como Ambev e Mastercard, retiraram suas marcas do evento. Essa Copa América, também chamada de Cepa América, queima o filme. Não serve à imagem de ninguém, a não ser para redundar a frieza e o negacionismo presidencial.
O Brasil venceu por 3×0 uma Venezuela alvejada por um surto de Covid-19 às vésperas da partida —onze atletas testaram positivo e não puderam atuar neste domingo. A pátria em chuteiras, como o cronista Nelson Rodrigues batizou a seleção nacional, tampouco promoveu qualquer manifestação além do minuto de silêncio no início da partida.
Ao contrário das jogadoras da seleção feminina, que na semana passada, antes do amistoso com a Rússia, exibiram uma faixa de protesto contra o assédio de Rogério Caboclo —o presidente afastado da CBF—, os homens apenas jogaram bola, mantendo a marca histórica masculina da falta de pronunciamento. A pátria em chuteiras calçou as pantufas dos isentões.
Nem mesmo a gravidade da peste provocada pelo coronavírus comoveu até agora os atletas e a comissão técnica da equipe. Mesmo na singela cartinha publicada no story do Instagram dos boleiros, não houve a menor sensibilidade para defender a vacina ou o SUS, por exemplo. Nada. No jogo de abertura da Copa América, idem, nem mesmo um gesto que pudesse ajudar os brasileiros vítimas da Covid. Uma omissão histórica bem superior à vergonha moral do 7×1 para a Alemanha na Copa de 2014.
Na breve cerimônia de abertura, um médico e um enfermeiro, representando a turma da linha de frente dos hospitais, entrou no estádio Mané Garrincha com a taça da competição. Muito pouco, dona Conmebol. A melhor homenagem, porém, seria ter evitado a realização do torneio, como defenderam dezenas de infectologistas e autoridades em saúde pública. Não foi em vão que grandes patrocinadores oficiais, como Ambev e Mastercard, retiraram suas marcas do evento. Essa Copa América, também chamada de Cepa América, queima o filme. Não serve à imagem de ninguém, a não ser para redundar a frieza e o negacionismo presidencial.
O anticristo Bolsolini prega, mata e mente
O lema da motociata de sábado, expediente cênico inventado por Benito Mussolini nos anos 1930 para atestar vigor do Partido Nacional Fascista italiano e já encenado antes no ato político que lançou o general da ativa Eduardo Pazuello na política, foi “Acelera para Cristo”. Ninguém precisa ter frequentado uma aula de teologia para defini-lo como uma blasfêmia. Afinal, os louvores não eram para Jesus, mas para Jair Messias, numa grosseira falsificação tratada como ato de fé. Bulsolini é o anticristo.
O versículo 6 do capítulo 14 do texto canônico do evangelista João, homenageado pelos bisavós deste articulista no nome do pai de seu pai, atesta sem direito a dúvidas: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. O trajeto entre São Paulo e Jundiaí (seguido por cerca de 12 mil motoqueiros) não tinha como justificativa nenhuma confirmação da fé cristã, muito menos a afirmação de cumprimento desses três pilares básicos da cristandade. Explícito ofício eleitoral ilícito, não punido pelo leniente Tribunal Superior Eleitoral (TSE) (alô, alô, ministro Barroso), de afirmação pública da crendice negacionista do bolsonarismo, a procissão sobre duas rodas foi a forma mais radical da desumanidade de comemorar previamente o massacre de meio milhão de brasileiros pela covid-19. A estrada não levava a Aparecida, Lourdes, Fátima, ou ao Muro das Lamentações, nem a Meca, mas ao recorde obtido com desonra absoluta pelo capitão terrorista que, sem dar um tiro, levou centenas de milhares de uma só vez à cova.
A verdade foi ofendida em todas as estações do sepulcro caiado do qual ressurge a candidatura em desmanche do titular do desgoverno que ora nos desgraça, aflige e amaldiçoa.
As estações iniciais da marcha da negação ocorreram em depoimentos dos bolsonaristas Eduardo Pazuello, Ernesto Araújo, Fábio Wajngarten, Elcio Franco, Mayra Pinheiro, Nise Yamaguchi e Marcelo Queiroga na comissão parlamentar de inquérito (CPI) da covid-19 no Senado. Confrontados com as próprias declarações dadas ao longo de 14 meses, esses obscurantistas as negaram, como se a mentira anulasse os fatos e as próprias palavras. Assim que tentativas de evitar a quebra de sigilo decretada pela CPI começaram a cair no Supremo Tribunal Federal (STF), documentos das embaixadas brasileiras em Washington e Pequim desmancharam os castelos de areia de suas versões absurdas com a constatação singela de que a imunização foi atrasada deliberadamente para anabolizar o total de óbitos na pandemia, de tal dimensão que se torna impossível contar o feito em marcas na coronha do fuzil do artilheiro despojado de farda, armas e coturno por indisciplina crônica e terrorismo.
O mentiroso-mor já havia protagonizado cena de que só não se envergonha quem nunca teve pudor algum. A um punhado de adoradores que chama inadequadamente de “povo” Messias Bolsolini atribuiu a um órgão de controle do Poder Legislativo, o Tribunal de Contas da União (TCU), a afirmação de que haveria supernotificação de mortes por covid, o que pressupunha uma conspiração sigilosa inviável de todos os profissionais da saúde envolvidos no combate do acreditado Sistema Único de Saúde (SUS) nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do País. O TCU desmentiu e o reincidente voltou à claque para dizer que tinha “errado”, porque não houvera “relatório” e, sim, “acórdão”. Nada disso, esclareceram a presidente Ana Arraes e o corregedor Bruno Dantas, que decidiram pelo afastamento do responsável pela patranha, o auditor bolsonarista e filho de militar bolsonarista Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, cujos sobrenomes reúnem dragonas e faixas presidenciais da recente ditadura.
O bloco dos sujos com capacete e sem máscara foi encerrado com um discurso em que o anticristo insistiu na sua originalidade ao combater ao novo coronavírus aderindo à tese, mais infame do que o próprio agente da pandemia, de que para salvar alguns urge matar milhões. Expressões impróprias como “tratamento precoce” ou nobres como “liberdade de ir e vir” foram mais uma vez misturadas de maneira farisaica para enganar não tolos, mas espertinhos de espartilho que se beneficiam do saque ao erário. Este inclui o custo informado do falso cristianismo do culto à “imunidade de rebanho”, de R$1,2 milhão, da motociata de corpo presente.
A direita estúpida perdeu as eleições nos Estados Unidos e no Peru e acaba de sucumbir a uma esdrúxula aliança em que a extrema direita se uniu à esquerda e ao centro para derrubar do poder o aliado do capetão sem noção em Israel. Bibi Netanyahu, cuja ausência isola ainda mais o preferido dos corruptos do Centrão, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Conmebol, que, ainda assim, se aferra à pílula do câncer, à cloroquina e ao agora batizado de “atendimento precoce”, apelando para o eufemismo.
A distância semântica entre “tratamento” e “atendimento” pode ser quiçá medida em milímetros. Não é o caso da diferença entre 1,3 milhão de motos da motociata da morte e as prováveis 12 mil. Não há ainda uma unidade capaz de medir o cinismo de Allan dos Santos, que, do exterior, disparou a mentira de que a síncope sofrida pelo craque dinamarquês Eriksen em campo na Eurocopa tenha resultado de vacina anticovid. A Internazionale de Milão já denunciou o delírio bolsonarista. Mas não basta para deter o tsunami de terraplanismo, obscurantismo, desumanidade e, sobretudo, absoluto cinismo do pastor que nem sequer se traveste de ovelha para pregar o massacre dos inocentes. E, assim, garantir o patrimônio imobiliário de uma família que só negocia com dinheiro vivo. E é garantido no poder, entre outros segmentos sociais, pelo ser abstrato mercado de capitais, que não precisa recorrer a moedas impressas para enriquecer.
O versículo 6 do capítulo 14 do texto canônico do evangelista João, homenageado pelos bisavós deste articulista no nome do pai de seu pai, atesta sem direito a dúvidas: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. O trajeto entre São Paulo e Jundiaí (seguido por cerca de 12 mil motoqueiros) não tinha como justificativa nenhuma confirmação da fé cristã, muito menos a afirmação de cumprimento desses três pilares básicos da cristandade. Explícito ofício eleitoral ilícito, não punido pelo leniente Tribunal Superior Eleitoral (TSE) (alô, alô, ministro Barroso), de afirmação pública da crendice negacionista do bolsonarismo, a procissão sobre duas rodas foi a forma mais radical da desumanidade de comemorar previamente o massacre de meio milhão de brasileiros pela covid-19. A estrada não levava a Aparecida, Lourdes, Fátima, ou ao Muro das Lamentações, nem a Meca, mas ao recorde obtido com desonra absoluta pelo capitão terrorista que, sem dar um tiro, levou centenas de milhares de uma só vez à cova.
A verdade foi ofendida em todas as estações do sepulcro caiado do qual ressurge a candidatura em desmanche do titular do desgoverno que ora nos desgraça, aflige e amaldiçoa.
As estações iniciais da marcha da negação ocorreram em depoimentos dos bolsonaristas Eduardo Pazuello, Ernesto Araújo, Fábio Wajngarten, Elcio Franco, Mayra Pinheiro, Nise Yamaguchi e Marcelo Queiroga na comissão parlamentar de inquérito (CPI) da covid-19 no Senado. Confrontados com as próprias declarações dadas ao longo de 14 meses, esses obscurantistas as negaram, como se a mentira anulasse os fatos e as próprias palavras. Assim que tentativas de evitar a quebra de sigilo decretada pela CPI começaram a cair no Supremo Tribunal Federal (STF), documentos das embaixadas brasileiras em Washington e Pequim desmancharam os castelos de areia de suas versões absurdas com a constatação singela de que a imunização foi atrasada deliberadamente para anabolizar o total de óbitos na pandemia, de tal dimensão que se torna impossível contar o feito em marcas na coronha do fuzil do artilheiro despojado de farda, armas e coturno por indisciplina crônica e terrorismo.
O mentiroso-mor já havia protagonizado cena de que só não se envergonha quem nunca teve pudor algum. A um punhado de adoradores que chama inadequadamente de “povo” Messias Bolsolini atribuiu a um órgão de controle do Poder Legislativo, o Tribunal de Contas da União (TCU), a afirmação de que haveria supernotificação de mortes por covid, o que pressupunha uma conspiração sigilosa inviável de todos os profissionais da saúde envolvidos no combate do acreditado Sistema Único de Saúde (SUS) nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do País. O TCU desmentiu e o reincidente voltou à claque para dizer que tinha “errado”, porque não houvera “relatório” e, sim, “acórdão”. Nada disso, esclareceram a presidente Ana Arraes e o corregedor Bruno Dantas, que decidiram pelo afastamento do responsável pela patranha, o auditor bolsonarista e filho de militar bolsonarista Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, cujos sobrenomes reúnem dragonas e faixas presidenciais da recente ditadura.
O bloco dos sujos com capacete e sem máscara foi encerrado com um discurso em que o anticristo insistiu na sua originalidade ao combater ao novo coronavírus aderindo à tese, mais infame do que o próprio agente da pandemia, de que para salvar alguns urge matar milhões. Expressões impróprias como “tratamento precoce” ou nobres como “liberdade de ir e vir” foram mais uma vez misturadas de maneira farisaica para enganar não tolos, mas espertinhos de espartilho que se beneficiam do saque ao erário. Este inclui o custo informado do falso cristianismo do culto à “imunidade de rebanho”, de R$1,2 milhão, da motociata de corpo presente.
A direita estúpida perdeu as eleições nos Estados Unidos e no Peru e acaba de sucumbir a uma esdrúxula aliança em que a extrema direita se uniu à esquerda e ao centro para derrubar do poder o aliado do capetão sem noção em Israel. Bibi Netanyahu, cuja ausência isola ainda mais o preferido dos corruptos do Centrão, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Conmebol, que, ainda assim, se aferra à pílula do câncer, à cloroquina e ao agora batizado de “atendimento precoce”, apelando para o eufemismo.
A distância semântica entre “tratamento” e “atendimento” pode ser quiçá medida em milímetros. Não é o caso da diferença entre 1,3 milhão de motos da motociata da morte e as prováveis 12 mil. Não há ainda uma unidade capaz de medir o cinismo de Allan dos Santos, que, do exterior, disparou a mentira de que a síncope sofrida pelo craque dinamarquês Eriksen em campo na Eurocopa tenha resultado de vacina anticovid. A Internazionale de Milão já denunciou o delírio bolsonarista. Mas não basta para deter o tsunami de terraplanismo, obscurantismo, desumanidade e, sobretudo, absoluto cinismo do pastor que nem sequer se traveste de ovelha para pregar o massacre dos inocentes. E, assim, garantir o patrimônio imobiliário de uma família que só negocia com dinheiro vivo. E é garantido no poder, entre outros segmentos sociais, pelo ser abstrato mercado de capitais, que não precisa recorrer a moedas impressas para enriquecer.
segunda-feira, 14 de junho de 2021
Para sair desta maré
‘É tudo um tecido de mentiras.’
Essa frase de um personagem de Ingmar Bergman às vezes me vem à cabeça quando tento sintetizar a política do governo Bolsonaro contra a pandemia.
Noutros momentos, procurei destacar a base dessa atitude devastadora, que é a negação de fatos. A negação como fenômeno psicológico foi teorizada por Freud em 1923. Sua filha Anna Freud ampliou os estudos do tema, sobretudo em crianças.
Não ver ou ouvir certos fatos às vezes é uma tentativa de evitar a dor ou o desafio que abale nossas convicções do mundo. Nas crianças indefesas, até que isso, em determinadas condições, tem um lado positivo e permite seguir adiante apesar de experiências traumáticas.
Em política, esse conceito de negação foi usado também para definir as teses que negam o Holocausto e as atrocidades do regime nazista.
Mas às vezes essa tendência se infiltra na sociedade. Michael Milburn e Sheree Conrad escreveram um livro sobre as principais políticas de negação na sociedade norte-americana.
Bolsonaro se recusou a aceitar a existência da pandemia. Da célebre comparação do vírus a uma gripezinha a todos os passos posteriores, sua atitude foi negar.
No auge da pandemia, já com 480 mil mortos, ele ainda fez uma tentativa desesperada de negar que todas essas mortes foram causadas pela Covid-19. Para isso, um auditor amigo produziu um relatório fake e o introduziu no sistema do Tribunal de Contas da União.
No entanto, na CPI da Covid, onde se apuram as responsabilidades, a tendência do governo é negar sua política de adesão à hidroxicloroquina e recusar a vacina. É a negação da negação.
O que fazer com tanta mentira? Para a CPI, a tarefa é simples: alinhar declarações, atitudes e documentos e provar que esse tipo de política causou mortes.
No campo político, entretanto, coloca-se uma questão importante: como atuar na vida pública com um país tão intoxicado pela mentira?
Não tenho ilusões de que o clima será muito melhor no futuro. O crescimento da internet mostra como os grupos se atacam: como enxames de abelhas, parecem morder diante de um pensamento que lhes desagrada.
Outro dia, questionado sobre a possibilidade de atenuação do clima, respondi longamente. Percebi como o tema me preocupa.
Um dos caminhos é unificar o campo da oposição e reduzir a hostilidade mútua diante do adversário comum. Coalizões mais heterogêneas, como em Israel, surgiram da necessidade.
Para reduzir a hostilidade no campo de oposição, não basta boa vontade. É preciso reconhecer que existem candidaturas diferentes, representando a esquerda, o centro e até a direita.
Os que afirmam que não querem nem um nem outro, nem Lula nem Bolsonaro, precisam avançar nessa forma simplificada, reconhecendo que não são forças equivalentes; existe uma diferença de qualidade entre elas.
Isso seria um primeiro passo. O centro seria criticado apenas por pensar de forma diferente, mas não por estabelecer uma equidistância artificial entre esquerda e extrema-direita.
Outra ideia que me parece válida é reconhecer que Bolsonaro pode perder apoio. A tática correta não é estigmatizar seus mais de 50 milhões de eleitores. Erros históricos coletivos acontecem. A tarefa principal é tornar leve o caminho de volta para uma posição mais sensata. O estigma, pelo contrário, dificulta a vontade de mudar.
São ideias iniciais. Quando as exprimi numa conversa com Fernando Henrique Cardoso, Sergio Fausto lembrou o plebiscito no Chile e como uma posição mais solar, mais leve, acabou derrotando a herança de Pinochet.
São ideias iniciais, mas uma reflexão sobre o caminho. É insatisfatório apenas denunciar as mentiras do governo Bolsonaro e seus passos rumo a um golpe.
É necessário criar uma base comum de resistência e, sobretudo, algumas razões para acreditar em mudanças. Isso não purifica a atmosfera política, mas pelo menos ajuda a respirar.
Essa frase de um personagem de Ingmar Bergman às vezes me vem à cabeça quando tento sintetizar a política do governo Bolsonaro contra a pandemia.
Noutros momentos, procurei destacar a base dessa atitude devastadora, que é a negação de fatos. A negação como fenômeno psicológico foi teorizada por Freud em 1923. Sua filha Anna Freud ampliou os estudos do tema, sobretudo em crianças.
Não ver ou ouvir certos fatos às vezes é uma tentativa de evitar a dor ou o desafio que abale nossas convicções do mundo. Nas crianças indefesas, até que isso, em determinadas condições, tem um lado positivo e permite seguir adiante apesar de experiências traumáticas.
Em política, esse conceito de negação foi usado também para definir as teses que negam o Holocausto e as atrocidades do regime nazista.
Mas às vezes essa tendência se infiltra na sociedade. Michael Milburn e Sheree Conrad escreveram um livro sobre as principais políticas de negação na sociedade norte-americana.
Bolsonaro se recusou a aceitar a existência da pandemia. Da célebre comparação do vírus a uma gripezinha a todos os passos posteriores, sua atitude foi negar.
No auge da pandemia, já com 480 mil mortos, ele ainda fez uma tentativa desesperada de negar que todas essas mortes foram causadas pela Covid-19. Para isso, um auditor amigo produziu um relatório fake e o introduziu no sistema do Tribunal de Contas da União.
No entanto, na CPI da Covid, onde se apuram as responsabilidades, a tendência do governo é negar sua política de adesão à hidroxicloroquina e recusar a vacina. É a negação da negação.
O que fazer com tanta mentira? Para a CPI, a tarefa é simples: alinhar declarações, atitudes e documentos e provar que esse tipo de política causou mortes.
No campo político, entretanto, coloca-se uma questão importante: como atuar na vida pública com um país tão intoxicado pela mentira?
Não tenho ilusões de que o clima será muito melhor no futuro. O crescimento da internet mostra como os grupos se atacam: como enxames de abelhas, parecem morder diante de um pensamento que lhes desagrada.
Outro dia, questionado sobre a possibilidade de atenuação do clima, respondi longamente. Percebi como o tema me preocupa.
Um dos caminhos é unificar o campo da oposição e reduzir a hostilidade mútua diante do adversário comum. Coalizões mais heterogêneas, como em Israel, surgiram da necessidade.
Para reduzir a hostilidade no campo de oposição, não basta boa vontade. É preciso reconhecer que existem candidaturas diferentes, representando a esquerda, o centro e até a direita.
Os que afirmam que não querem nem um nem outro, nem Lula nem Bolsonaro, precisam avançar nessa forma simplificada, reconhecendo que não são forças equivalentes; existe uma diferença de qualidade entre elas.
Isso seria um primeiro passo. O centro seria criticado apenas por pensar de forma diferente, mas não por estabelecer uma equidistância artificial entre esquerda e extrema-direita.
Outra ideia que me parece válida é reconhecer que Bolsonaro pode perder apoio. A tática correta não é estigmatizar seus mais de 50 milhões de eleitores. Erros históricos coletivos acontecem. A tarefa principal é tornar leve o caminho de volta para uma posição mais sensata. O estigma, pelo contrário, dificulta a vontade de mudar.
São ideias iniciais. Quando as exprimi numa conversa com Fernando Henrique Cardoso, Sergio Fausto lembrou o plebiscito no Chile e como uma posição mais solar, mais leve, acabou derrotando a herança de Pinochet.
São ideias iniciais, mas uma reflexão sobre o caminho. É insatisfatório apenas denunciar as mentiras do governo Bolsonaro e seus passos rumo a um golpe.
É necessário criar uma base comum de resistência e, sobretudo, algumas razões para acreditar em mudanças. Isso não purifica a atmosfera política, mas pelo menos ajuda a respirar.
Os negacionistas somos nós
Quando o presidente da República começou a municiar suas redes sociais com fake news, algo não muito diverso do que havia marcado sua campanha, aliás, muitas pessoas se indignaram. Mas não muito mais do que isso. Dizia-se que era inadmissível que um presidente propagasse mentiras – mas estas continuaram a ser admitidas. Até outro dia em que a imprensa divulga que os ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) ficaram escandalizados com a utilização de dados mentirosos para questionar os mortos na pandemia.
A imprensa ela mesma se escandalizou quando as ofensas a seus jornalistas se tornaram quase diárias no cercadinho onde o presidente os atende no começo do expediente. Ele foi misógino, homofóbico ou simplesmente mal-educado. E a imprensa seguiu ouvindo e divulgando o presidente, até que os jornalistas começaram a ser fortemente hostilizados pela claque e, em alguns eventos, simplesmente agredidos. Mas não houve greve, não houve bloqueio, não houve silenciamento. O mesmo presidente que havia dito, de forma nojenta, que uma jornalista estava ávida para “dar o furo”, na semana passada chamou outra de “quadrúpede”.
As instituições continuaram funcionando, mesmo depois que o presidente deu razão a um auxiliar direto que ofendeu, gratuita e grosseiramente, a ministros do Supremo Tribunal Federal – mas o que parecia ser o fim de linha resolveu-se com um prêmio para um requisitado cargo no exterior. E o presidente continuou dando guarida a todos os parceiros que humilham e ameaçam os ministros, e ele mesmo tece considerações para lá de desairosas cada vez que recebe uma decisão desfavorável. Mas não tem problema, segundo os próprios presidentes do Tribunal. Dias Toffoli, ao deixar o cargo, fez questão de dizer não ter visto da parte do presidente e de seus ministros, “nenhuma atitude contra a democracia”; Luiz Fux, logo depois de assumir, afirmou que o impeachment de Bolsonaro seria simplesmente “desastroso para o país”.
Não bastassem os milhares de militares com que o governo vem aparelhando a máquina pública, e um grupo de ministros fardados de competências questionáveis, uma parcela considerável do meio político ainda permanece na expectativa de que, no final das contas, os mais racionais do Exército saberão cortar as asas do presidente para evitar loucuras. Mas eis que o general Pazuello sobe no palanque para troçar da CPI da Covid, e sua falta funcional é arquivada em tempo recorde, proibindo Bolsonaro que os militares até a comentassem. Que fundamentos terão sido urdidos para justificar não punir a violação à disciplina de que tanto se orgulham os militares não se saberá tão cedo, pois o sigilo lançado no processo administrativo só se iguala ao das atrocidades praticadas na Guerra do Paraguai.
Depois de levas de eleições muito bem-sucedidas, com apurações rápidas e confiáveis, eis que a fidelidade da apuração eletrônica é colocada em xeque, da mesma forma como Donald Trump antecipou nos Estados Unidos as críticas ao já tradicional voto por correspondência. O alerta de fraude, como se sabe, foi mero pretexto para negar um provável resultado desfavorável e, no caso, justificou uma agressão ao Parlamento que os Estados Unidos até então nunca tinham presenciado. E que diz Bolsonaro sobre o assunto? Que “se não houver voto impresso na eleição de 2022, no Brasil será muito pior”. A ameaça explícita à democracia não fez o país discutir o impeachment, mas justamente o voto impresso.
Um secretário de Bolsonaro emulou a lembrança de Goebbels, para anunciar um programa nacionalista que, na véspera, o presidente elogiara como a redenção da cultura brasileira. Bolsonaro o demitiu a contragosto, mas passou ele mesmo a mimetizar Mussolini na convocação e liderança de atos de massa que defendem, abertamente, a destruição da democracia. Chocando um total de zero pessoas, pois, como como diz Marcio Sotelo Felippe, um dos intelectuais que mais cedo identificou o DNA fascista do governo:
“Bolsonaro jamais dissimulou. Ao longo de sua abjeta vida e de sua ridícula trajetória política, ele nunca escondeu o culto à morte, o gosto pela tortura, a frustração porque a ditadura não matou 30 mil pessoas em vez de 430, a admiração pelo homem que enfiava ratos e baratas na vagina de mulheres. Como isso foi possível? A resposta está na compreensão do fascismo. Do que é a sua essência. Bolsonaro jamais escondeu o que era e o que pretendia, tal como Hitler e Mussolini. Hitler cumpriu rigorosamente o programa do Mein Kampf, publicado anos antes de sua ascensão ao poder. Bolsonaro cumpriu seu programa com a contingência da pandemia. A fala do fascista é essencial para levá-lo ao poder. Não se trata de bravatas ou palavras ao léu como costumeira e ingenuamente se interpreta.”
Mas nós continuamos a tratar a situação como um “momento de polarização”, um presidente indelicado, dentro de uma democracia que é forte e tem as suas próprias defesas.
Na pandemia, vimos a tragédia acontecer diante de nossos olhos incrédulos: desprezo pela gravidade da doença, desrespeito com os mortos, luta incessante contra as medidas de isolamento, críticas mentirosas à funcionalidade das máscaras, propaganda de um remédio que sabidamente não funciona, e um atraso proposital na aquisição de vacinas, porque, afinal de contas, a pandemia é seu principal mecanismo de defesa. Ninguém melhor que seu desafeto Rodrigo Maia conseguiu expor isso ao fundamentar por que ignorava os pedidos de impeachment: “Temos de focar na pandemia”. Com foco na pandemia, meio milhão de brasileiros já morreram e o país que patina na marca de 10% da população adulta vacinada oferece um espetáculo diário tragicômico no Senado para “discutir a cloroquina”.
O que as instituições funcionando não perceberam é que o governo é a sua própria sombra; ele funciona no paralelo porque ele é o negativo das instituições. Ele não tem um “gabinete do ódio”; ele é um gabinete de ódio, porque o ódio é essencial para a política de destruição a qual nunca escondeu.
Dizem que eles são negacionistas, mas não é verdade. Negacionistas são os que se recusam a ver. Ou veem e se recusam a aceitar o que veem. Em States of denial (Polity Press, 2008), o sociólogo Stanley Cohen discute os estados de negação que levam as pessoas ao paradoxo de saber e ao mesmo tempo não saber. Para ele, mesmo as vítimas potenciais repletas de sinais de alerta costumam minimizar seus riscos, não acreditando que o impensável pode acontecer com elas. Veja o que diz Cohen sobre a situação dos judeus alemães às vésperas do Holocausto:
“O desdobramento da percepção da Solução Final pelos próprios judeus europeus tornou-se um protótipo de negação coletiva. Nos anos trinta, poucas pessoas levaram a retórica de Hitler a sério. O nazismo era visto como um fenômeno temporário, um retrocesso a ser suportado até que passasse. Na Alemanha, cada nova medida antijudaica, cada escalada da perseguição, era vista como a última. Mesmo quando os massacres começaram, os rumores, depois relatos confirmados e histórias de sobreviventes, eram todos descrentes. Laqueur enumera as negativas familiares: ‘são como pogroms tradicionais … apenas incidentes isolados, o trabalho de um comandante local … não pode ficar pior do que isso … Os alemães são cultos, isto é a Europa, não uma selva … isso não pode acontecer com pessoas inocentes …”
Os negacionistas somos nós.
Marcelo Semer
A imprensa ela mesma se escandalizou quando as ofensas a seus jornalistas se tornaram quase diárias no cercadinho onde o presidente os atende no começo do expediente. Ele foi misógino, homofóbico ou simplesmente mal-educado. E a imprensa seguiu ouvindo e divulgando o presidente, até que os jornalistas começaram a ser fortemente hostilizados pela claque e, em alguns eventos, simplesmente agredidos. Mas não houve greve, não houve bloqueio, não houve silenciamento. O mesmo presidente que havia dito, de forma nojenta, que uma jornalista estava ávida para “dar o furo”, na semana passada chamou outra de “quadrúpede”.
As instituições continuaram funcionando, mesmo depois que o presidente deu razão a um auxiliar direto que ofendeu, gratuita e grosseiramente, a ministros do Supremo Tribunal Federal – mas o que parecia ser o fim de linha resolveu-se com um prêmio para um requisitado cargo no exterior. E o presidente continuou dando guarida a todos os parceiros que humilham e ameaçam os ministros, e ele mesmo tece considerações para lá de desairosas cada vez que recebe uma decisão desfavorável. Mas não tem problema, segundo os próprios presidentes do Tribunal. Dias Toffoli, ao deixar o cargo, fez questão de dizer não ter visto da parte do presidente e de seus ministros, “nenhuma atitude contra a democracia”; Luiz Fux, logo depois de assumir, afirmou que o impeachment de Bolsonaro seria simplesmente “desastroso para o país”.
Não bastassem os milhares de militares com que o governo vem aparelhando a máquina pública, e um grupo de ministros fardados de competências questionáveis, uma parcela considerável do meio político ainda permanece na expectativa de que, no final das contas, os mais racionais do Exército saberão cortar as asas do presidente para evitar loucuras. Mas eis que o general Pazuello sobe no palanque para troçar da CPI da Covid, e sua falta funcional é arquivada em tempo recorde, proibindo Bolsonaro que os militares até a comentassem. Que fundamentos terão sido urdidos para justificar não punir a violação à disciplina de que tanto se orgulham os militares não se saberá tão cedo, pois o sigilo lançado no processo administrativo só se iguala ao das atrocidades praticadas na Guerra do Paraguai.
Depois de levas de eleições muito bem-sucedidas, com apurações rápidas e confiáveis, eis que a fidelidade da apuração eletrônica é colocada em xeque, da mesma forma como Donald Trump antecipou nos Estados Unidos as críticas ao já tradicional voto por correspondência. O alerta de fraude, como se sabe, foi mero pretexto para negar um provável resultado desfavorável e, no caso, justificou uma agressão ao Parlamento que os Estados Unidos até então nunca tinham presenciado. E que diz Bolsonaro sobre o assunto? Que “se não houver voto impresso na eleição de 2022, no Brasil será muito pior”. A ameaça explícita à democracia não fez o país discutir o impeachment, mas justamente o voto impresso.
Um secretário de Bolsonaro emulou a lembrança de Goebbels, para anunciar um programa nacionalista que, na véspera, o presidente elogiara como a redenção da cultura brasileira. Bolsonaro o demitiu a contragosto, mas passou ele mesmo a mimetizar Mussolini na convocação e liderança de atos de massa que defendem, abertamente, a destruição da democracia. Chocando um total de zero pessoas, pois, como como diz Marcio Sotelo Felippe, um dos intelectuais que mais cedo identificou o DNA fascista do governo:
“Bolsonaro jamais dissimulou. Ao longo de sua abjeta vida e de sua ridícula trajetória política, ele nunca escondeu o culto à morte, o gosto pela tortura, a frustração porque a ditadura não matou 30 mil pessoas em vez de 430, a admiração pelo homem que enfiava ratos e baratas na vagina de mulheres. Como isso foi possível? A resposta está na compreensão do fascismo. Do que é a sua essência. Bolsonaro jamais escondeu o que era e o que pretendia, tal como Hitler e Mussolini. Hitler cumpriu rigorosamente o programa do Mein Kampf, publicado anos antes de sua ascensão ao poder. Bolsonaro cumpriu seu programa com a contingência da pandemia. A fala do fascista é essencial para levá-lo ao poder. Não se trata de bravatas ou palavras ao léu como costumeira e ingenuamente se interpreta.”
Mas nós continuamos a tratar a situação como um “momento de polarização”, um presidente indelicado, dentro de uma democracia que é forte e tem as suas próprias defesas.
Na pandemia, vimos a tragédia acontecer diante de nossos olhos incrédulos: desprezo pela gravidade da doença, desrespeito com os mortos, luta incessante contra as medidas de isolamento, críticas mentirosas à funcionalidade das máscaras, propaganda de um remédio que sabidamente não funciona, e um atraso proposital na aquisição de vacinas, porque, afinal de contas, a pandemia é seu principal mecanismo de defesa. Ninguém melhor que seu desafeto Rodrigo Maia conseguiu expor isso ao fundamentar por que ignorava os pedidos de impeachment: “Temos de focar na pandemia”. Com foco na pandemia, meio milhão de brasileiros já morreram e o país que patina na marca de 10% da população adulta vacinada oferece um espetáculo diário tragicômico no Senado para “discutir a cloroquina”.
O que as instituições funcionando não perceberam é que o governo é a sua própria sombra; ele funciona no paralelo porque ele é o negativo das instituições. Ele não tem um “gabinete do ódio”; ele é um gabinete de ódio, porque o ódio é essencial para a política de destruição a qual nunca escondeu.
Dizem que eles são negacionistas, mas não é verdade. Negacionistas são os que se recusam a ver. Ou veem e se recusam a aceitar o que veem. Em States of denial (Polity Press, 2008), o sociólogo Stanley Cohen discute os estados de negação que levam as pessoas ao paradoxo de saber e ao mesmo tempo não saber. Para ele, mesmo as vítimas potenciais repletas de sinais de alerta costumam minimizar seus riscos, não acreditando que o impensável pode acontecer com elas. Veja o que diz Cohen sobre a situação dos judeus alemães às vésperas do Holocausto:
“O desdobramento da percepção da Solução Final pelos próprios judeus europeus tornou-se um protótipo de negação coletiva. Nos anos trinta, poucas pessoas levaram a retórica de Hitler a sério. O nazismo era visto como um fenômeno temporário, um retrocesso a ser suportado até que passasse. Na Alemanha, cada nova medida antijudaica, cada escalada da perseguição, era vista como a última. Mesmo quando os massacres começaram, os rumores, depois relatos confirmados e histórias de sobreviventes, eram todos descrentes. Laqueur enumera as negativas familiares: ‘são como pogroms tradicionais … apenas incidentes isolados, o trabalho de um comandante local … não pode ficar pior do que isso … Os alemães são cultos, isto é a Europa, não uma selva … isso não pode acontecer com pessoas inocentes …”
Os negacionistas somos nós.
Marcelo Semer
O Pau-Brasil e os cupins
Na biblioteca Wiedener, Harvard, a palavra “crise” está mencionada em 23.600 livros, segundo Adam Przeworski (Crises da Democracia. Ed. Schwartz: Rio de Janeiro, 2019), autor da célebre frase “Ama a incerteza e serás democrático”.
No Brasil, a frequência das crises é um estado de normalidade. O que assusta é a superposição de crises agravada pela Covid-19 de trágicas consequências.
Em 2018, somaram-se impeachment, recessão, desemprego, circunstâncias que geraram um ambiente de profunda radicalização política. Os ditames da democracia representativa – eleições e alternância do poder – obedeceram às regras constitucionais.
No entanto, o desencanto, sentimento presente nos processo de transição política, alimentou um caldo de cultura antipolítico, antistabilshment e indignação com a corrupção exposta pela operação Lava-Jato. O grau de descrença na política tradicional levou o eleitor a buscar como solução o salvador da pátria.
Emergem atores políticos que, favorecidos pela virtù e fortuna (conceitos maquiavelianos: habilidade e sorte), conquistam e mantém o poder. A receita do sucesso tem um roteiro semelhante em todas a nações que passam pelo enfraquecimento global da democracia liberal. Creem firmemente em promessas irrealizáveis; vibram com bravatas irresponsáveis; mobilizam os iracundos que se julgam excluídos por uma “elite” cruel; e agridem as instituições democráticas.
Em favor das inclinações populistas de qualquer matiz, está a frustração das expectativas com as soluções democráticas que são mais sábias, mais legítimas, porém sem a velocidade autoritária e irresponsável das que emanam do poder despótico.
Mas a urna falou, tá falado. O palco se abre para o segundo ato. Confirmam-se suspeitas de um projeto autoritário em andamento. Mantém o verniz democrático e corrói a essência da democracia explorando os vetores da violência: a intolerância, a fragmentação das forças políticas; a transformação do opositor em inimigo a ser eliminado.
O primeiro erro da oposição foi subestimar o candidato; o segundo foi subestimar o uso do poder; o terceiro está em curso: não enfrentar, unida, o projeto de poder em que se inscreve a demolição da democracia representativa.
Espertamente, o governo constrói pontos de apoio: 1/3 de fanáticos; a volubilidade parlamentar; aparelhamento dos mecanismos de controle do poder; desafia o papel institucional das Forças armadas; e não hesitará em manejar o populismo fiscal.
Este último ato está à vista da nação. Pensar no Brasil é a senha do consenso político-eleitoral. Um grito de alerta. Pau-Brasil é poesia/manifesto de Oswald de Andrade e Madeira de Lei que os cupins não roem, mas precisa do abraço protetor.
No Brasil, a frequência das crises é um estado de normalidade. O que assusta é a superposição de crises agravada pela Covid-19 de trágicas consequências.
Em 2018, somaram-se impeachment, recessão, desemprego, circunstâncias que geraram um ambiente de profunda radicalização política. Os ditames da democracia representativa – eleições e alternância do poder – obedeceram às regras constitucionais.
No entanto, o desencanto, sentimento presente nos processo de transição política, alimentou um caldo de cultura antipolítico, antistabilshment e indignação com a corrupção exposta pela operação Lava-Jato. O grau de descrença na política tradicional levou o eleitor a buscar como solução o salvador da pátria.
Emergem atores políticos que, favorecidos pela virtù e fortuna (conceitos maquiavelianos: habilidade e sorte), conquistam e mantém o poder. A receita do sucesso tem um roteiro semelhante em todas a nações que passam pelo enfraquecimento global da democracia liberal. Creem firmemente em promessas irrealizáveis; vibram com bravatas irresponsáveis; mobilizam os iracundos que se julgam excluídos por uma “elite” cruel; e agridem as instituições democráticas.
Em favor das inclinações populistas de qualquer matiz, está a frustração das expectativas com as soluções democráticas que são mais sábias, mais legítimas, porém sem a velocidade autoritária e irresponsável das que emanam do poder despótico.
Mas a urna falou, tá falado. O palco se abre para o segundo ato. Confirmam-se suspeitas de um projeto autoritário em andamento. Mantém o verniz democrático e corrói a essência da democracia explorando os vetores da violência: a intolerância, a fragmentação das forças políticas; a transformação do opositor em inimigo a ser eliminado.
O primeiro erro da oposição foi subestimar o candidato; o segundo foi subestimar o uso do poder; o terceiro está em curso: não enfrentar, unida, o projeto de poder em que se inscreve a demolição da democracia representativa.
Espertamente, o governo constrói pontos de apoio: 1/3 de fanáticos; a volubilidade parlamentar; aparelhamento dos mecanismos de controle do poder; desafia o papel institucional das Forças armadas; e não hesitará em manejar o populismo fiscal.
Este último ato está à vista da nação. Pensar no Brasil é a senha do consenso político-eleitoral. Um grito de alerta. Pau-Brasil é poesia/manifesto de Oswald de Andrade e Madeira de Lei que os cupins não roem, mas precisa do abraço protetor.
Pergunte aos eleitores
Meu Deus, como um homem tão fraco, confuso, que não sabe diferenciar o real do irreal e com falsas crenças pode tomar, por meio do voto, a dianteira em um país tão maravilhoso como o nosso? Triste realidadeOtto Alencar, senador (PSD-BA)
Com máscara
Terça-feira, dia 8, já noite. Na papelaria Kalunga abrigada num shopping na Enseada do Suá, em Vitória, ocorre um diálogo carregado. Tipo pano rápido, porém eloquente.
1) Funcionário solicita a um cliente o uso de máscara facial de proteção para poder atendê-lo.
2) Cliente diz “não”.
3) Funcionário explica ser lei.
4) Cliente responde: “Eu faço a minha lei, não cumpro leis”. Saca uma arma e a aponta para o rosto do funcionário.
5) Cliente conclui a compra com outra vendedora, sai da loja rindo. Sem máscara.
Segundo o repórter Caíque Verli, da TV Gazeta, o funcionário ameaçado registrou a ocorrência em delegacia, e a pessoa que testemunhou o ocorrido preferiu não se identificar. Compreende-se. Estamos num país onde o recurso a armas para “cidadãos de bem” é incentivado e facilitado a canetadas pelo chefe da nação.
O cliente do shopping de Vitória é apenas mais um espécime do Brasil gestado por Jair Bolsonaro — antecipou-se sem saber à clara intenção presidencial de erradicar a obrigatoriedade do uso de máscara. O anúncio feito por Bolsonaro de forma oblíqua, porém oficial, sugeriu o caminho: caso queira permanecer no cargo, “um tal de Queiroga” — designação usada pelo presidente para seu quarto ministro da Saúde, Marcelo Queiroga — deveria fazer um “estudo” sobre a inutilidade da proteção facial para quem já foi vacinado ou infectado. “Vamos ficar reféns de máscaras até quando?”, pergunta o mandante, sem esconder o asco do exemplar entre os dedos. Pelo fato de o vírus ser invisível e estar naufragando seu governo, Bolsonaro parece ter transferido à singela máscara o papel de inimigo mais detestável — ela é física e insultuosa, pois explicita a morte que ronda o país. É preciso varrê-la de cena, portanto. Sumir com este que é, além da vacina, nosso melhor escudo para não chegarmos tão depressa às 500 mil vidas varridas pela Covid-19.
Como previsto, e foi intencional, o proclama oficial injetou fervor nos mais crédulos, confundiu e atordoou os menos informados e exasperou a repulsa de quem se esforça para não perder a sanidade. Vale conferir o semblante de alarme represado do doutor Drauzio Varella ao ser entrevistado no programa “Em pauta”, da GloboNews. Havia inabitual angústia na fala e no olhar de quem, há décadas, nos explica com serenidade e saber as mazelas da saúde pública nacional. Por honrado, ele não fugiu a uma pergunta sobre o que o doutor Queiroga deveria fazer para honrar a profissão, se instado a produzir um relatório nos moldes pedidos. “Pedir demissão”, respondeu.
Existem inúmeros vocábulos para definir um chefe de nação que necessita ser idolatrado como “mito” por um rebanho. Difícil é encontrar linguagem publicável, em qualquer idioma, para retratar um presidente que se autodefine como “imorrível”, “imbrochável”, “incomível”. Voltemos, portanto, a nosso personagem do shopping.
“Eu faço a minha lei, não cumpro leis”, arrostou o valentão de arma em punho de Vitória. Palavras ainda não pronunciadas ipsis litteris pelo presidente do Brasil, embora pareçam estar na raiz de seus movimentos — em três anos no poder, Bolsonaro já domesticou a Procuradoria-Geral da República, a Advocacia-Geral da União, as Forças Armadas, o Coaf e quase consegue fazer estrago no Tribunal de Contas da União. No seu governo impera a teia do “paralelo” no lugar do oficial, desdenha-se o valor de instituições, da ciência, da cultura, das gentes múltiplas que compõem o Brasil. Tudo a céu aberto e cada vez mais desenvergonhado, com foco único no embate eleitoral de 2022. Ou antes, se preciso.
A edição mais recente da revista “Cult” abriga um sólido artigo do desembargador Marcelo Semer. Convém lê-lo na íntegra, embora o título já aponte para a tese central: “Os negacionistas somos nós”. O autor nos faz percorrer quanto instituições que vão da grande imprensa ao STF, dos partidos de oposição à opinião pública, uma a uma, acabaram aceitando o que professavam ser inadmissível. “O que as instituições funcionando não perceberam”, escreve o autor, “é que o governo é sua própria sombra, ele funciona no paralelo porque ele é o negativo das instituições. Ele não tem um ‘gabinete do ódio’; ele é um gabinete de ódio, porque o ódio é essencial para a política de destruição que nunca escondeu. Dizem que eles [o mandatário e seus operadores] são negacionistas, mas não é verdade. Negacionistas são os que se recusam a ver. Ou veem e se recusam a aceitar o que veem...”.
Em outras palavras, nós. Sabemos ser no escuro que os olhos começam a enxergar. Estamos no escuro, começando a enxergar — de máscara e com a ajuda da CPI.
1) Funcionário solicita a um cliente o uso de máscara facial de proteção para poder atendê-lo.
2) Cliente diz “não”.
3) Funcionário explica ser lei.
4) Cliente responde: “Eu faço a minha lei, não cumpro leis”. Saca uma arma e a aponta para o rosto do funcionário.
5) Cliente conclui a compra com outra vendedora, sai da loja rindo. Sem máscara.
Segundo o repórter Caíque Verli, da TV Gazeta, o funcionário ameaçado registrou a ocorrência em delegacia, e a pessoa que testemunhou o ocorrido preferiu não se identificar. Compreende-se. Estamos num país onde o recurso a armas para “cidadãos de bem” é incentivado e facilitado a canetadas pelo chefe da nação.
O cliente do shopping de Vitória é apenas mais um espécime do Brasil gestado por Jair Bolsonaro — antecipou-se sem saber à clara intenção presidencial de erradicar a obrigatoriedade do uso de máscara. O anúncio feito por Bolsonaro de forma oblíqua, porém oficial, sugeriu o caminho: caso queira permanecer no cargo, “um tal de Queiroga” — designação usada pelo presidente para seu quarto ministro da Saúde, Marcelo Queiroga — deveria fazer um “estudo” sobre a inutilidade da proteção facial para quem já foi vacinado ou infectado. “Vamos ficar reféns de máscaras até quando?”, pergunta o mandante, sem esconder o asco do exemplar entre os dedos. Pelo fato de o vírus ser invisível e estar naufragando seu governo, Bolsonaro parece ter transferido à singela máscara o papel de inimigo mais detestável — ela é física e insultuosa, pois explicita a morte que ronda o país. É preciso varrê-la de cena, portanto. Sumir com este que é, além da vacina, nosso melhor escudo para não chegarmos tão depressa às 500 mil vidas varridas pela Covid-19.
Como previsto, e foi intencional, o proclama oficial injetou fervor nos mais crédulos, confundiu e atordoou os menos informados e exasperou a repulsa de quem se esforça para não perder a sanidade. Vale conferir o semblante de alarme represado do doutor Drauzio Varella ao ser entrevistado no programa “Em pauta”, da GloboNews. Havia inabitual angústia na fala e no olhar de quem, há décadas, nos explica com serenidade e saber as mazelas da saúde pública nacional. Por honrado, ele não fugiu a uma pergunta sobre o que o doutor Queiroga deveria fazer para honrar a profissão, se instado a produzir um relatório nos moldes pedidos. “Pedir demissão”, respondeu.
Existem inúmeros vocábulos para definir um chefe de nação que necessita ser idolatrado como “mito” por um rebanho. Difícil é encontrar linguagem publicável, em qualquer idioma, para retratar um presidente que se autodefine como “imorrível”, “imbrochável”, “incomível”. Voltemos, portanto, a nosso personagem do shopping.
“Eu faço a minha lei, não cumpro leis”, arrostou o valentão de arma em punho de Vitória. Palavras ainda não pronunciadas ipsis litteris pelo presidente do Brasil, embora pareçam estar na raiz de seus movimentos — em três anos no poder, Bolsonaro já domesticou a Procuradoria-Geral da República, a Advocacia-Geral da União, as Forças Armadas, o Coaf e quase consegue fazer estrago no Tribunal de Contas da União. No seu governo impera a teia do “paralelo” no lugar do oficial, desdenha-se o valor de instituições, da ciência, da cultura, das gentes múltiplas que compõem o Brasil. Tudo a céu aberto e cada vez mais desenvergonhado, com foco único no embate eleitoral de 2022. Ou antes, se preciso.
A edição mais recente da revista “Cult” abriga um sólido artigo do desembargador Marcelo Semer. Convém lê-lo na íntegra, embora o título já aponte para a tese central: “Os negacionistas somos nós”. O autor nos faz percorrer quanto instituições que vão da grande imprensa ao STF, dos partidos de oposição à opinião pública, uma a uma, acabaram aceitando o que professavam ser inadmissível. “O que as instituições funcionando não perceberam”, escreve o autor, “é que o governo é sua própria sombra, ele funciona no paralelo porque ele é o negativo das instituições. Ele não tem um ‘gabinete do ódio’; ele é um gabinete de ódio, porque o ódio é essencial para a política de destruição que nunca escondeu. Dizem que eles [o mandatário e seus operadores] são negacionistas, mas não é verdade. Negacionistas são os que se recusam a ver. Ou veem e se recusam a aceitar o que veem...”.
Em outras palavras, nós. Sabemos ser no escuro que os olhos começam a enxergar. Estamos no escuro, começando a enxergar — de máscara e com a ajuda da CPI.
Má companhia
Duas pesquisas recentes mostram que a impopularidade do presidente Jair Bolsonaro se consolidou. Levantamento Exame/Ideia indica que 49% dos entrevistados desaprovam o governo de Bolsonaro. Índice semelhante (50%) foi apurado na última pesquisa XP/Ipespe – essa sondagem mostra que a desaprovação do governo vem crescendo de forma consistente e ininterrupta desde outubro do ano passado, quando estava em 31%.
Quando convidados a avaliar o trabalho de Bolsonaro em si mesmo, os entrevistados se mostram ainda mais críticos. Na pesquisa XP/Ipespe, 60% disseram desaprovar o modo como Bolsonaro administra o País, índice que vem subindo desde dezembro do ano passado, quando esteve em 45%. Já na pesquisa Exame/Ideia, a desaprovação do trabalho do presidente é de 50%, também em alta consistente há meses.
É óbvio que essa impopularidade pode diminuir com o efeito de medidas demagógicas e com uma eventual recuperação da economia nos próximos meses, mas está claro que uma parte significativa da população está profundamente insatisfeita com o presidente.
As razões são óbvias. Além do quase meio milhão de mortos em razão da pandemia, o que por si só deveria bastar para arruinar a imagem de qualquer presidente, há uma aflitiva lentidão na vacinação, fruto da incompetência criminosa do governo, como vem mostrando com clareza a CPI da Pandemia. Apenas 11% dos brasileiros receberam as duas doses de vacina, enquanto nos EUA esse índice é de 42% e no Chile, de 45%.
As imagens de vários países do mundo em que a população começa a experimentar algo próximo da normalidade ampliam a sensação de desalento no Brasil, onde se registram mais de 1,5 mil mortos por dia, a ocupação hospitalar não é inferior a 80% e as impopulares restrições continuam em vigor para evitar novo colapso do sistema de saúde.
Nesse contexto, a vacina, desprezada explicitamente por Bolsonaro, é uma demanda da maioria absoluta dos brasileiros. A pesquisa XP/Ipespe apurou que apenas 5% dos entrevistados dizem que “com certeza” não vão se vacinar, enquanto 88% disseram que ou já se vacinaram ou pretendem se vacinar.
Esse é seguramente um dos aspectos que minam a popularidade de Bolsonaro, mas decerto não é o único. Outro tema sensível abordado na pesquisa XP/Ipespe foi a corrupção, que Bolsonaro se jacta de ter liquidado em seu governo. O levantamento mostra que, em novembro de 2018, após a vitória eleitoral de Bolsonaro, 56% dos entrevistados, confiando nas ruidosas promessas do presidente eleito, esperavam que a corrupção fosse diminuir nos seis meses seguintes, enquanto apenas 17% imaginavam que a corrupção fosse aumentar. Já na mais recente pesquisa, 46% disseram crer que a corrupção vai aumentar, enquanto apenas 16% entendem que vai diminuir.
Isso significa que a percepção de corrupção no País cresceu junto com a impopularidade do presidente, e não parece ser mera coincidência. As inúmeras suspeitas envolvendo a família do presidente, de rachadinhas ao uso da máquina pública para fins privados, contradizem frontalmente o discurso saneador de Bolsonaro. Hoje, quem está com Bolsonaro corre o risco de ser visto como corrupto.
Tal percepção é implacável, mesmo para os que têm boa imagem nacional. A pesquisa XP/Ipespe mostra que as Forças Armadas – de longe a instituição que inspira maior respeito entre os brasileiros – vêm perdendo a confiança dos cidadãos desde que se permitiram envolver com um governo tão nocivo para o País. O levantamento mostra que, em dezembro de 2018, pouco antes da posse de Bolsonaro, 70% dos brasileiros diziam confiar nas Forças Armadas; hoje, essa confiança caiu para 58%.
Se a má companhia bolsonarista prejudica uma instituição tão respeitada como as Forças Armadas, o estrago para os já desmoralizados partidos e políticos que dão sustentação ao pior governo da história é muito maior. E o preço desse apoio será cada vez mais salgado: a pesquisa Exame/Ideia mostra que 52% dos entrevistados concordam com a realização de manifestações contra o governo. O mau humor com Bolsonaro veio para ficar.
Quando convidados a avaliar o trabalho de Bolsonaro em si mesmo, os entrevistados se mostram ainda mais críticos. Na pesquisa XP/Ipespe, 60% disseram desaprovar o modo como Bolsonaro administra o País, índice que vem subindo desde dezembro do ano passado, quando esteve em 45%. Já na pesquisa Exame/Ideia, a desaprovação do trabalho do presidente é de 50%, também em alta consistente há meses.
É óbvio que essa impopularidade pode diminuir com o efeito de medidas demagógicas e com uma eventual recuperação da economia nos próximos meses, mas está claro que uma parte significativa da população está profundamente insatisfeita com o presidente.
As razões são óbvias. Além do quase meio milhão de mortos em razão da pandemia, o que por si só deveria bastar para arruinar a imagem de qualquer presidente, há uma aflitiva lentidão na vacinação, fruto da incompetência criminosa do governo, como vem mostrando com clareza a CPI da Pandemia. Apenas 11% dos brasileiros receberam as duas doses de vacina, enquanto nos EUA esse índice é de 42% e no Chile, de 45%.
As imagens de vários países do mundo em que a população começa a experimentar algo próximo da normalidade ampliam a sensação de desalento no Brasil, onde se registram mais de 1,5 mil mortos por dia, a ocupação hospitalar não é inferior a 80% e as impopulares restrições continuam em vigor para evitar novo colapso do sistema de saúde.
Nesse contexto, a vacina, desprezada explicitamente por Bolsonaro, é uma demanda da maioria absoluta dos brasileiros. A pesquisa XP/Ipespe apurou que apenas 5% dos entrevistados dizem que “com certeza” não vão se vacinar, enquanto 88% disseram que ou já se vacinaram ou pretendem se vacinar.
Esse é seguramente um dos aspectos que minam a popularidade de Bolsonaro, mas decerto não é o único. Outro tema sensível abordado na pesquisa XP/Ipespe foi a corrupção, que Bolsonaro se jacta de ter liquidado em seu governo. O levantamento mostra que, em novembro de 2018, após a vitória eleitoral de Bolsonaro, 56% dos entrevistados, confiando nas ruidosas promessas do presidente eleito, esperavam que a corrupção fosse diminuir nos seis meses seguintes, enquanto apenas 17% imaginavam que a corrupção fosse aumentar. Já na mais recente pesquisa, 46% disseram crer que a corrupção vai aumentar, enquanto apenas 16% entendem que vai diminuir.
Isso significa que a percepção de corrupção no País cresceu junto com a impopularidade do presidente, e não parece ser mera coincidência. As inúmeras suspeitas envolvendo a família do presidente, de rachadinhas ao uso da máquina pública para fins privados, contradizem frontalmente o discurso saneador de Bolsonaro. Hoje, quem está com Bolsonaro corre o risco de ser visto como corrupto.
Tal percepção é implacável, mesmo para os que têm boa imagem nacional. A pesquisa XP/Ipespe mostra que as Forças Armadas – de longe a instituição que inspira maior respeito entre os brasileiros – vêm perdendo a confiança dos cidadãos desde que se permitiram envolver com um governo tão nocivo para o País. O levantamento mostra que, em dezembro de 2018, pouco antes da posse de Bolsonaro, 70% dos brasileiros diziam confiar nas Forças Armadas; hoje, essa confiança caiu para 58%.
Se a má companhia bolsonarista prejudica uma instituição tão respeitada como as Forças Armadas, o estrago para os já desmoralizados partidos e políticos que dão sustentação ao pior governo da história é muito maior. E o preço desse apoio será cada vez mais salgado: a pesquisa Exame/Ideia mostra que 52% dos entrevistados concordam com a realização de manifestações contra o governo. O mau humor com Bolsonaro veio para ficar.
Os 15 minutos dos imbecis
Quase 50 anos separam as declarações de que as redes sociais dariam voz a uma legião de imbecis e que chegaria o dia em que todos teriam seus 15 minutos de fama.
Teria Andy Warhol vislumbrado a internet e a cultura dos conspiracionistas? Ou pensava apenas nas subcelebridades instantâneas e deu a deixa para Umberto Eco ampliar o escopo da profecia, de modo a incluir a infâmia?
A palavra “imbecil”, em sua origem, designava “o que não se aguenta de pé”. Por extensão, foi aplicada aos tolos, àqueles cujas ideias não se sustentam. Isso antes de o insustentável ganhar fama e um megafone virtual para apregoar suas elucubrações.
A verdade pode ser enunciada de forma límpida. A mentira, para convencer, precisa ser cheia de cantinhos. Daí as teorias da conspiração serem tão elaboradas: quanto mais estapafúrdias, mais poderosas. Elas consistem num sistema dotado de razoável coerência, em que se estabelece um encadeamento lógico entre (falsas) causas e (discutíveis) consequências — ou vice-versa. E são tão caras aos imbecis por lhes dar a ilusão de deter conhecimento — diferentemente do pensamento mágico, que não exige muita coordenação motora dos neurônios. O até então in bacillum (literalmente, “sem cajado”) se sente apoiado por um arremedo de razão.
Algumas conspirações são inócuas (o terraplanismo, os teóricos dos antigos astronautas), mas é por causa dos “antivax” que sarampo e poliomielite — quase erradicados — estão voltando. E que a Covid-19 faz mais vítimas do que seria de esperar numa época em que se sabe tanto de virologia e infectologia. Negar a doença continua sendo o mecanismo de defesa preferido por quem não consegue lidar com a angústia que ela provoca.
Há hoje excesso de informação e escassez de compreensão. Sabemos que o cientista tem crenças e expectativas — por isso, experimentos precisam ser replicáveis e estudos passam por revisão. Há um método, que valida — ou não — o que a ciência produz. O imbecil tem ligação emocional com a conclusão. Tudo é arquitetado para confirmar sua hipótese. O que não convém é adulterado ou descartado.
Quem cria notícia falsa ou teoria conspiratória desconstrói os fatos e os rearranja numa narrativa que lhe seja favorável. Quem compartilha — sem verificar as fontes — tem consciência, intimamente, dessa falsidade. Acredita na mentira que é de seu interesse. Desmascarado, cria nova conspiração contra os mecanismos de checagem de conteúdo.
A internet, segundo Eco, “promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade” — do seu simulacro de verdade, agora com audiência amplificada. Resta saber quanto tempo ainda vão durar — e a que custo — esses 15 minutos de fama. Eduardo Affonso
Teria Andy Warhol vislumbrado a internet e a cultura dos conspiracionistas? Ou pensava apenas nas subcelebridades instantâneas e deu a deixa para Umberto Eco ampliar o escopo da profecia, de modo a incluir a infâmia?
A palavra “imbecil”, em sua origem, designava “o que não se aguenta de pé”. Por extensão, foi aplicada aos tolos, àqueles cujas ideias não se sustentam. Isso antes de o insustentável ganhar fama e um megafone virtual para apregoar suas elucubrações.
A verdade pode ser enunciada de forma límpida. A mentira, para convencer, precisa ser cheia de cantinhos. Daí as teorias da conspiração serem tão elaboradas: quanto mais estapafúrdias, mais poderosas. Elas consistem num sistema dotado de razoável coerência, em que se estabelece um encadeamento lógico entre (falsas) causas e (discutíveis) consequências — ou vice-versa. E são tão caras aos imbecis por lhes dar a ilusão de deter conhecimento — diferentemente do pensamento mágico, que não exige muita coordenação motora dos neurônios. O até então in bacillum (literalmente, “sem cajado”) se sente apoiado por um arremedo de razão.
O Sapiens — ensinou Yuval Harari — é capaz de se unir em tribos graças à ficção partilhada. A conspiração tem o mesmo propósito: congregar os imbecis em torno de coisas “que só eles sacaram”: a Nova Ordem Mundial, a Big Pharma, os reptilianos, a existência de fascistas no armário e de comunistas embaixo da cama.
Algumas conspirações são inócuas (o terraplanismo, os teóricos dos antigos astronautas), mas é por causa dos “antivax” que sarampo e poliomielite — quase erradicados — estão voltando. E que a Covid-19 faz mais vítimas do que seria de esperar numa época em que se sabe tanto de virologia e infectologia. Negar a doença continua sendo o mecanismo de defesa preferido por quem não consegue lidar com a angústia que ela provoca.
Há hoje excesso de informação e escassez de compreensão. Sabemos que o cientista tem crenças e expectativas — por isso, experimentos precisam ser replicáveis e estudos passam por revisão. Há um método, que valida — ou não — o que a ciência produz. O imbecil tem ligação emocional com a conclusão. Tudo é arquitetado para confirmar sua hipótese. O que não convém é adulterado ou descartado.
Quem cria notícia falsa ou teoria conspiratória desconstrói os fatos e os rearranja numa narrativa que lhe seja favorável. Quem compartilha — sem verificar as fontes — tem consciência, intimamente, dessa falsidade. Acredita na mentira que é de seu interesse. Desmascarado, cria nova conspiração contra os mecanismos de checagem de conteúdo.
A internet, segundo Eco, “promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade” — do seu simulacro de verdade, agora com audiência amplificada. Resta saber quanto tempo ainda vão durar — e a que custo — esses 15 minutos de fama. Eduardo Affonso
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