domingo, 20 de setembro de 2020

Covardia

Quem poderia dizer que o adjetivo covarde definiria o presidente Jair Bolsonaro, aquele que sempre posou de machão. Nos palanques ele desdenha dos mais de 135 mil mortos pela Covid-19 e dos brasileiros que seguem as regras sanitárias – “ficar em casa é conversinha mole para fracos”. É o atleta que desafiou a pandemia, o valentão que não tem papas na língua. Mas no Planalto é um presidente relutante e medroso, atormentado por invencionices conspiratórias, sem qualquer preparo ou gosto pela governança, para a qual ele e o seu time são os maiores impedimentos.

Nada, absolutamente nada que dependa de uma decisão de Bolsonaro anda. Corrigindo: quando anda é em acelerada marcha ré.



Eleito sob a égide do combate à corrupção e promessas de redesenhar o Estado, com pegada privatista, acabando com gorduras e regalias, Bolsonaro se move no sentido inverso dessa pregação.

Desautorizou o pacote anticrime do então superministro Sérgio Moro, degolado em nome de “interesses maiores”, diga-se, dos filhos e amigos do presidente. Quase melou a reforma da Previdência ao insistir em privilégios para algumas categorias, vencendo a batalha no que tange a mimos para os militares.

Não deu um pio sobre a reforma tributária, retirada da gaveta por iniciativa da Câmara, cuja participação do governo via Paulo Guedes é vergonhosa, com um projeto improvisado e tosco. Atrasou por mais de ano o envio ao Congresso da reforma administrativa. E só topou mexer nesse ninho de cobras com responsabilidade zero, mantendo intocáveis os peçonhentos. Mudanças, só para o futuro, sem triscar um milímetro do serpentário.

Arremessou para as calendas as privatizações, incluindo aquelas de esqueletos como a estatal criada pela presidente cassada Dilma Rousseff para gerenciar o imaginário trem bala. Ou a EBC, que, quando era candidato, chamava de TV Lula e dizia ser cabide de emprego para correligionários do petista. A TV Brasil que Bolsonaro prometera fechar é hoje menina dos olhos dos militares, com orçamento garantido.

Entre fantasmas e comunistas à solta, Bolsonaro convive com aflições mais palpáveis: os imbróglios dos filhos e um improvável, mas não afastado de todo, processo de impeachment, cuja condição política está obrigatoriamente associada à popularidade do mandatário. Há mais de 50 requerimentos pró-cassação dele na Câmara, dois no STF, e um processo no TSE, este por uso de caixa 2 para impulsionar redes sociais.

Não à toa, Bolsonaro se embrenhou na corrida alucinada atrás de apoio popular. Antes de ser eleitoral, o movimento exprime o temor de perder o mandato e, claro, a proteção do seu clã. Aproveita-se do auxílio emergencial para firmar-se, inventa eventos e convoca aglomerações, tirando o máximo que pode do palanquismo.

O medo de ser cassado é tamanho que o levou a produzir uma das peças mais nonsense da República: um veto acompanhado de um apelo para que o Congresso derrube o veto. No caso, a suspensão das multas fiscais de templos e igrejas. Para agradar sem abrir flancos, Bolsonaro disse aos deputados que gostaria de fazer cafuné nos pastores com o veto deles ao veto dele. Um acinte duplo.

Ao Congresso também caberá tratar da renda complementar continuada depois de o presidente chutar o Renda Brasil, em um movimento magnífico para a plateia. “Não vou tirar dos pobres para dar para os paupérrimos”, repetiu com indignação ao passar mais um pito em Guedes, cuja equipe imaginou congelar benefícios de aposentados para custear o programa futuro.

De duas, uma, ambas péssimas: ou o enfurecido Bolsonaro fingiu nada saber e apenas teatralizou sua reação para os fiéis, ou desconhecia mesmo o quão curto é o cobertor, escancarando o completo divórcio entre ele e seu próprio governo, entre ele e o país.

A desordem é tão gritante que, sem força ou possibilidade de diálogo interno, o ministro Milton Ribeiro teve de apelar aos deputados por mais dinheiro para a educação. Suas críticas à equipe do ex Abraham Weintraub foram tão agudas que pareciam vindas de opositores ferrenhos, categoria em falta no momento.

Bolsonaro, aquele que já desafiou o povo a enfrentar a Covid-19 “como homem, não como moleque”, pode parecer destemido quando fala do vírus que ele transformou em embate político. Ao contrário do que ele imagina, não é ele que detém a força. Ela está nos mais de 85% dos brasileiros que usam máscaras para se proteger, dos que temem contrair ou propagar uma doença letal. Muitos que até votaram nele acreditando nas reformas que não vieram, no combate à corrupção que não mais existe.

Os 38% de aprovação em pesquisas de opinião e os empurra-empurra nos aeroportos e eventos feitos para a claque podem até impedir o andamento de processos de impeachment. São escudos úteis para sua incapacidade de governar. Mas, a mais de dois anos de 2022 e com o país mergulhado em crises cumulativas, têm significado relativo. Não garante a eleição de ninguém. Muito menos dos covardes.
Mary Zaidan

Assim caminha o Brasil

 


Agronegócio, Amazônia e desenvolvimento

A pandemia está sendo uma experiência única por ter detonado a maior crise global em décadas. Não sabemos ainda como ela vai terminar e nem todas suas implicações. Entretanto, parece seguro imaginar que as pessoas tenderão a valorizar uma vida mais simples e prezar mais a sociabilidade (família e amigos) e a natureza. O desejo que já existe de consumir produtos mais naturais vai se ampliar, o que vai valorizar certos atributos (orgânicos etc.) e, especialmente, exigir o conhecimento de onde e como foi produzido. A percepção da ameaça do aquecimento global é cada vez mais visível no mundo inteiro, o que favorece a transição energética e a descarbonização.

Também as empresas estão sendo fortemente pressionadas a mudar. É muito intensa a percepção de que seu desenvolvimento recente foi quase exclusivamente voltado para o curto prazo e ao retorno do acionista, com resultados para lá de questionáveis: expressiva concentração de renda e poder, redução da competição, limitado avanço da produtividade e agravamento das questões ambientais.

O conceito de governança se ampliou e agora inclui também a qualidade do relacionamento com a comunidade, a sociedade (solidariedade) e o meio ambiente. A covid-19 acelerou drasticamente essas tendências já existentes. Passamos o ano vendo companhias de todos os portes, setores e regiões, incluindo instituições financeiras e fundos de investimento, punindo países e regiões que não se posicionam na luta contra o aquecimento global.


Apenas gente muito distraída não percebeu a seriedade e a perenidade destes movimentos. Assim, tendo em vista a ampliação das exigências referentes ao meio ambiente, à sustentabilidade e à descarbonização, não dá mais para admitir a destruição da floresta amazônica por grileiros e garimpeiros agindo de forma totalmente ilegal.

O documento entregue na semana passada pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura retrata bem a importância do momento atual e apresenta linhas de ação para enfrentar a questão de forma construtiva.

Transformar os estímulos para a preservação da floresta em pé, via bioeconomia, é triplamente importante: pelo impacto na região em si e na população lá residente; pela remoção do que se transformou num obstáculo aos investimentos no Brasil; e, de forma especial, pelo afastamento de uma ameaça mortal ao único setor da economia brasileira que vem atravessando o período recessivo que se iniciou em 2015, crescendo todos os anos sem parar.

Essa disparidade de desempenhos setoriais é realmente impressionante: em relação a 2014 e usando nossas projeções para 2020 (queda de 4,8% no PIB), teremos no final do ano uma queda acumulada de 32% na construção, 15% na indústria de transformação, 6% nos serviços e uma expansão de 17% na agropecuária!!

Uma implicação lógica desses resultados é que deve ter se ampliado a importância do agronegócio no PIB brasileiro, estimado tradicionalmente em algo como 23%.

Apenas um novo censo pode gerar as informações necessárias para balizar novos cálculos, mas chamo a atenção para o crescimento significativo do valor adicionado em muitos outros produtos fora dos carros-chefe soja, milho, carnes, cana, leite e café. São exemplos frutas (tratadas aqui no jornal pelo ministro Roberto Rodrigues no domingo passado), peixes criados em cativeiro (cuja produção se faz no Brasil inteiro e já se aproxima de um milhão de toneladas), hortícolas, outros grãos, mel, produtos especiais e com certificado de origem (queijos, vinhos, embutidos, azeite de oliva), produtos certificados com certos atributos (especialmente orgânicos) e outros. O consumidor paga com satisfação um adicional para obter o que preza cada vez mais.

Enfrentada a questão amazônica, o agronegócio está pronto para um novo salto. Os 300 milhões de toneladas de grãos estão logo aí adiante. Nossa agenda de avanços tecnológicos já está dada, e dela trataremos no próximo artigo. A coalizão em torno do agronegócio poderá ser o primeiro puxador de crescimento em nosso País no pós-pandemia. Temos muito trabalho, mas um trabalho fascinante: a um só tempo, teremos de ter um adequado tratamento dos recursos naturais, abraçar em definitivo a agenda da sustentabilidade, continuar criando novas tecnologias e novos produtos, integrando indústria e serviços com grau crescente de sofisticação num ambiente de modernidade e respeito aos trabalhadores e aos consumidores. Seria muita burrice – para não dizer um crime – deixar esse futuro se perder nas chamas.

Escasseia cada vez mais


Na liberdade repousa a construção de toda democracia. É um bem sempre escasso, sempre ameaçado, cujo desfrute exige uma vigilância constante

Juan Luis Cebrián, fundador do jornal El País

‘Vossa Rinocerôncia perdeu um tempo precioso’

Na ânsia de encontrar provas do racismo em Monteiro Lobato e varrer das prateleiras de nossas crianças esse escritor perigosíssimo que fez gerações e gerações aprenderem a gostar de ler e pensar, os que não têm mais nada a fazer no MEC se esqueceram do segundo capítulo de Caçadas de Pedrinho: "Um Rinoceronte Interna-se Nas Matas Brasileiras”.

É fácil de explicar. Muito mais contundente que o conjecturado racismo em Caçadas de Pedrinho, o que Monteiro Lobato ensina à meninada, em uma crítica irônica, ferina, é o quanto a burocracia cega é prejudicial à eficiência dos governos em geral. E acharam melhor não chamar a atenção sobre esse detalhe.

Como disse a Emília ao funcionário do “Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte”: "Mas por que não discutiu isso durante a semana em que o rinoceronte andou sumido e a passagem pela porteira esteve completamente franca? Acho que Vossa Rinocerôncia perdeu um tempo precioso”.


A imposição obrigatória de um mesmo e único exame a todos os concluintes do Ensino Médio induz toda a Educação Básica do país a uma perspectiva cada vez mais padronizadora, inibindo inovações. A médio prazo, a tendência é uniformizante e empobrecedora para o sistema de ensino, pensa a Emília, rainha das implicantes.

Nós precisamos de mais escolas e mais professores, mas o inacreditável exemplo de amor à Pátria dos assessores de Vossa Rinocerência já nos indicou o caminho certo. Vamos abrir primeiro outro caminho, o Enem seriado que será chamado de Saab.

Nele, as provas dos alunos do ensino médio formarão uma nota a partir da pontuação adquirida em cada uma das três séries, que poderá ser utilizada para acesso ao ensino superior. Os estudantes que fizerem a prova da 1ª série em 2021 já estarão concorrendo a vagas nas universidades para quando concluírem o ensino médio, em 2023. Que tal?

Não é por nada que a Emília chama o MEC de Quindim. Lá Vossa Rinocerôncia se encontra com seus bravos assessores e dá ensejo à glória de nosso ensino e de nossos mestres. São poucas aulas, mas são muitas provas!

É muita dedicação, não é não?

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

O autocrata e os colaboracionistas

Quando um país toma o caminho do autoritarismo, não é pela vontade de uma só pessoa. É resultado da falha coletiva. É preciso ter um governante que despreza a democracia, e isso o Brasil tem no momento, mas todo autocrata precisa de colaboracionistas na sua conspiração contra as instituições. O Brasil neste um ano e nove meses demonstra ter uma multidão de ajudantes de Jair Bolsonaro em seu projeto antidemocrático.

Toda semana uma coleção de fatos é adicionada a outros, anteriores, mostrando a marcha que o país perigosamente empreende rumo ao abismo institucional. Muitos colaboram por má-fé ou ambição pessoal, alguns, porque olham para um ato específico e julgam erroneamente que ele não se soma a todos os demais que enfraquecem as instituições. Há os que ajudam porque andam distraídos quando a Pátria exige cuidados.


Pode-se começar a lista de qualquer ponto. Em cada um deles há sinais de que colaboradores, conscientes ou involuntários, ajudam o projeto autoritário. Na economia, quem entregou a bandeira liberal para esconder o voluntarismo autoritário do presidente colaborou muito. Mesmo quem não se considera liberal pode ver que os clichês eram úteis, mas falsos. O “tirar o Estado do cangote do empresário” ou o “mais Brasil e menos Brasília” eram estelionatos, como tudo o mais. Diariamente vemos o aumento de Brasília subjugando o país. Em nome do que trabalham os economistas do governo? Já não há projeto, não há consistência, não há autonomia mínima. Estão todos engajados na campanha de 2022. Nada entregaram, a não ser a si mesmos. E para um governante de maus propósitos.

Aceitam, os gestores do orçamento, tirar dinheiro da educação num ano de emergência para jogar em asfalto, porque crianças e jovens aprendendo melhor não dão uma inauguração, mas um trecho qualquer de estrada serve de palanque ao presidente. Aceitam os colaboradores do Ministério da Economia estar em minoria numa Junta Orçamentária de generais. Desistem de qualquer amor próprio em nome não se sabe do quê. Um economista que passou pelo mercado financeiro entende quando já perdeu. Se fica na posição é porque acha natural o abuso.

A demolição da democracia tem tido muita ajuda da Procuradoria-Geral da República (PGR). Augusto Aras sabe o que faz. E não está sozinho. Remanescente de um tempo pré-constitucional, no qual era possível somar a advocacia com a procuradoria e servir a dois senhores, Aras tem pouco a ver com o atual Ministério Público construído como defesa dos interesses coletivos após 1988. Mas tem tido ajuda no seu trabalho incessante de transposição da PGR para a AGU.

O Supremo Tribunal Federal instalou barricadas importantes contra o avanço do autoritarismo. Por isso, o presidente foi para a rua com manifestantes pedindo o seu fechamento. E o fez impunemente. Os investigados são os que financiaram os atos que pediam a morte da democracia. Quem os incentivou a pedir poderes ditatoriais para si, esse está protegido pelo manto da Presidência. O STF tem que avaliar bem seus atos neste momento da República. Eles são supremos, contra eles a quem recorrer? Todos sabem naquele egrégio tribunal que o interrogatório de um investigado, se for sério, não pode ser por escrito, porque com esse conforto o trabalho de redação será entregue a um auxiliar. Todos sabem que o capítulo em que está a prerrogativa do artigo 221 do CPP tem como título “Das Testemunhas”. O capítulo “Do interrogatório do acusado” é outro. O presidente não pode ser testemunha da sua própria investigação. Um erro não faz um direito de isonomia. O espírito da lei repousa no voto de Celso de Mello. Com que artifícios jurídicos se tentará escapar do que está escrito?

O que mais a Justiça fará para não punir os que em gabinetes com inúmeras rachadinhas drenaram o dinheiro coletivo para os bolsos da primeira família e até da ex-família? Com que tapumes serão protegidos? Com quantas liminares será cassado o direito da imprensa de informar?

Um projeto autoritário se constrói com muitos erros e omissões. O Brasil neste momento triste de 135 mil mortos e um presidente que ri do sofrimento coletivo está no caminho da perdição da sua maior conquista. A vitória que Doutor Ulysses, com ódio e nojo à ditadura, exibiu ao país, triunfante, naquele dia de não se esquecer.

Um imenso Portugal ou uma pequena Índia?

Em seu Fado tropical, Chico Buarque rimou que nosso ideal seria virar um imenso Portugal. Havia ironia nos versos do poeta, escritos em parceria com o cineasta Ruy Guerra. A música é de 1973, e nem Brasil nem Portugal viviam grande fase, oprimidos por ditaduras. Olhando em retrospectiva, seria ótimo se tal profecia tivesse se realizado.

Portugal se livrou de seu regime de força em 1974, com a Revolução dos Cravos. O Brasil restabeleceu a liberdade em 1985. Hoje Portugal é uma das democracias mais consolidadas do mundo, com 96 pontos em 100 possíveis na classificação da Freedom House. O Brasil alcança 75. Em 2019, Portugal cravou a 40.ª posição no ranking de desenvolvimento humano, formando no pelotão de frente. O Brasil está em 79.º, no segundo bloco.


Enquanto o Brasil peleja para arrumar suas contas públicas, passo essencial para investir na área social, Portugal fez seu ajuste no início da década, o que permitiu preservar o estado de bem-estar. Veio o coronavírus, e Portugal se tornou referência positiva dentro do padrão europeu. O Brasil é a tragédia que conhecemos. O terceiro país com mais mortos no mundo, recentemente superado pela Índia.

Talvez seja injusto comparar os dois países, dado que a população brasileira é a portuguesa multiplicada por 20, e as circunstâncias – com exceção da língua – são consideravelmente diferentes. Como talvez fosse despropositado comparar o Brasil com a Índia, que tem seis vezes a nossa população. Se continuarmos o exercício, no entanto, veremos que em muitas coisas estamos mais perto da Índia do que de Portugal. Para o bem e para o mal.

Para o bem. Índia e Brasil têm democracias vibrantes, sociedade civil engajada, universidades de excelência, cultura riquíssima e plural. Para o mal. Além de referências negativas no combate ao coronavírus, Índia e Brasil estão entre os países mais desiguais do mundo. A pandemia expôs tais desigualdades de forma dramática. A Índia pré-independência era um país de príncipes e plebeus divididos em castas. No Brasil, os príncipes estão na classe média. São os que podem trabalhar de casa, usando seus laptops, e se proteger da doença que chegou a ceifar mais de mil vidas por dia.

Nesta semana inicio um período de estudos em Política Comparada na Universidade de Lisboa. Para esta coluna, nada muda. Com a tecnologia, é possível acompanhar as notícias do mundo todo em tempo real, e redação e entrevistados estão ao alcance de um zoom. A ideia é continuar dando uma visão moderna da política. A atividade, hoje, não se desenrola apenas nos parlamentos, mas também nas redes e ruas, universidades e organizações cívicas – a tal sociedade civil.

Tudo mudou muito e em muito pouco tempo. A economia mundial cresceu. A distribuição de renda melhorou, embora a concentração tenha aumentado em alguns países. As democracias passaram a dialogar com instituições do mundo globalizado. Surgiram os populismos. Entender como os diferentes países lidam com os desafios do presente é mais esclarecedor, muitas vezes, do que mergulhar nas lições do passado. Num planeta cada vez mais integrado, é válido comparar-se tanto com a Índia quanto com Portugal.

O mote desta coluna é: nas democracias, não se melhora a vida dos cidadãos sem recorrer ao conhecimento. Quem ignora a ciência acaba como o prefeito do filme Tubarão: um político sem votos numa cidade sem banhistas. Estudar é preciso. Bora estudar.

sábado, 19 de setembro de 2020

Labaredas no Pantanal e na Amazônia indicam ação criminosa e coordenada em larga escala

O fogo devasta as florestas do oeste dos EUA e, em outro hemisfério e outras latitudes, extensas áreas da Amazônia e do Pantanal. As mudanças climáticas aproximam os incêndios deles dos nossos. Mas são fogos diferentes. Aqui, as labaredas indicam ação criminosa, coordenada em larga escala.

Nos EUA, Trump revela uma vez mais sua aversão à ciência quando nega o papel decisivo das mudanças climáticas. Contudo, tem razão ao mencionar o diagnóstico de técnicos florestais que acusam o ambientalismo fundamentalista pelo agravamento da crise.

Florestas temperadas de clima subúmido exigem permanente manejo para evitar o adensamento excessivo da vegetação. Nas últimas décadas, porém, sob pressão de grupos preservacionistas extremados, reduziu-se tanto a exploração madeireira sustentável como a boa prática de incêndios controlados.

Na sua vastidão, os incêndios florestais nos EUA relacionam-se primariamente com o aquecimento global, mas é difícil negar a contribuição do acúmulo de matéria orgânica, viva e morta, nos estratos inferiores.


Os sistemas ecológicos tropicais da Amazônia e do Pantanal funcionam de forma diversa. O fogo é um componente deles, durante as estações secas, mas o intrincado tecido de superfícies líquidas opera como fator limitante.

Normalmente, focos amplos de incêndio acabam contidos pelos rios, furos, igarapés, corixos e lagoas de vazante. Incêndios tão extensos como os que estão em curso só podem ser explicados por ações humanas persistentes e deliberadas.

O aquecimento global está na base dos incêndios, mas há fogos e fogos. Queimadas comuns para a limpeza de pastos não se confundem com as labaredas ateadas depois da derrubada criminosa de áreas de reserva legal com a finalidade de substituí-las por pastagens. O segundo fenômeno origina inúmeros dos incêndios amazônicos e pantaneiros. É que o crime compensa, quando o governo simula não vê-lo.

Desta vez, entretanto, a escala do desastre solicita um crime maior. Nos sistemas ecológicos do trópico úmido, incêndios que saltam incontáveis barreiras líquidas só podem nascer de fogos ateados simultaneamente ao longo de arcos de centenas de quilômetros.

Imagens de satélite indicam uma origem coordenada desses incêndios. A PF dispõe de meios para chegar aos organizadores de um crime ambiental aterrador. O obstáculo não é técnico, mas político: os criminosos agem à sombra do poder.

O Ministério do Meio Ambiente é parte do problema, não da solução. Seu titular, Ricardo Salles, não é um fanfarrão ideológico, um adorador de mestres místicos, um Weintraub qualquer, mas um operador profissional que serve aos interesses da devastação ambiental. Sua missão oficiosa consiste em desmontar os aparatos de fiscalização do Ibama e do ICMBio.

Restaria a esperança na ação dos militares, sob o comando de Hamilton Mourão. O vice-presidente fala, para alguns públicos, na proteção da floresta e ensaia a formação de uma “força tática da Amazônia”. Mas vale a pena apostar na figura que, em parceria com Salles, postou o célebre vídeo negacionista do mico-leão-dourado?

“Nós temos que fazer a contrapropaganda. Isso faz parte do negócio”, justificou-se Mourão, confundindo o dever institucional de dizer a verdade com a “guerrilha da informação” típica do bolsonarismo de redes sociais.

O declínio de um vice que chegou a funcionar como contraponto civilizado de Bolsonaro mancha, inevitavelmente, a imagem das Forças Armadas.

Os militares são um símbolo perene da soberania nacional na Amazônia. A história os colocou na linha de frente da preservação do patrimônio ambiental constituído pelas florestas.

Hoje, porém, em nome de lealdades políticas circunstanciais ou de privilégios corporativos que se acumulam, eles curvam a espinha diante do crime ambiental. Isso não “faz parte do negócio” —e não será esquecido.

Pensamento do Dia

 


Ardem florestas, corações e mentes

Enquanto Roma ardia em pavoroso incêndio, Nero tocava lira ou outro instrumento. Como saber? Agora, enquanto o Pantanal arde e a Amazônia segue o mesmo caminho, Bolsonaro toca o quê? Nada. Não toca nem o governo. Cuidado, não mostrem ignorância confundindo Amazônia com Mata Atlântica nem com o Parque do Ibirapuera, Zona da Mata, Cerrado Brasiliense ou Floresta da Tijuca como faz o inescrutável Ricardo Boiada que Passa. Passa um, passa dois, passa três, passa quatro, passa cinco, passa seis.

E passando, passando pode até passar a Damares para dentro do Supremo Tribunal Federal, este que não chove nem molha em relação ao foro privilegiado de Flávio Rachadinha, filho amado. Imaginemos Damares junto com o Fux e o Toffoli Bolsonaro Nunca Praticou Qualquer Ato Antidemocrático. Periga de vir também o Mendonça, habilmente desenhado por Mario Sergio Conti como protótipo de nazista gestapo cristão.


Ardem as matas, ardem as mentes, arde meu coração nesta primavera em que um dia é quente, o outro gelado, semelhante a Bolsonaro e suas decisões, um dia diz, no outro desdiz, diz que não disse, rejeita o dito, o que foi dito não é confirmado. O homem acusa o palerma do Guedes, que suporta em nome do quê? Qual a ambição deste que leu Keynes no original?

Disse. Não disse. Claro que disse. Quando criança lá em Araraquara, quando você dizia e não sustentava era definido por uma palavra que hoje faz parte do politicamente incorreto, mas vou citar: mariquinha. Roma ardia, Nero tocava lira, romanos morriam sob o fogo, mas também eram mortos na arena, comidos por leões, hienas ou crucificados assim como agora somos cancelados pelas redes. Bolsonaro solta rajadas de tiros, enquanto aposentados morrem à medida que seus vencimentos vão minguando, idosos fenecem porque não fazem falta nenhuma, os carentes, os indigentes, os deficientes, os índios, os negros morrem porque, como dizia Josef Mengele, não contribuem com nada para a pureza da raça.

Por que não impichamos Bolsonaro, colocando em seu lugar o embaixador norte-americano? Os mais velhos se lembram da frase que correu o País na década de 60: “Eliminemos os intermediários, Lincoln Gordon para presidente do Brasil”. Passadas décadas, não elegemos Gordon, mas elegemos um comandatário, vassalo, flâmulo, varlete, armígero, colomim, mirmidão, I Love You Trump. De onde vieram as ideologias dele? Do astrólogo Olavo de Carvalho, de Steve Bannon agora na prisão como corrupto, de Ryan Hartwig com seu Projeto Veritas que andou aqui pelo Brasil.

Olhando o cenário, o que vemos? Trump pede uma base militar e o Brasil dá. Em troca de quê? De uma banana. Trump pede que os EUA nos mandem etanol sem tarifas, o Brasil concorda, esperando que o indicado para o BID seja um brasileiro. Trump nem ouviu, c... e andou, como se diz. Nomeou um dele. Trump determinou que a cloroquina era o medicamento, compramos, e ainda produzimos bilhões de comprimidos, que formariam uma montanha do tamanho do Pão de Açúcar. Ou do Dedo de Deus, já que Deus está acima desta lesa-pátria. Única reação que o Brasil teve foi mandar Weintraub para desmoralizar o Banco Mundial. Por que não elegemos Melania Trump para presidente do Brasil? Seria nossa segunda mulher presidente. Ligação direta. Finais de semana no condomínio da Barra cercado de seguranças milicianos. Ou nos campos de golfe de Trump. Será que teríamos de fazer depósitos em dólares na conta de Melania? Inexplicados 89 mil dólares que o Guedes pagaria?

Sabem por que não temos ainda embaixador nomeado nos Estados Unidos? Por que não precisamos. As ordens vêm por um telefone direto ou por e-mails redigidos pelos 01, 02, 03, 04, 05, 06, 07, 08, 09, 0120, 0 mil, 0 um milhão, 0 milhões e milhões que puseram esse homem no poder.

Ardeu Roma, arde a Califórnia, ardem os Estados Unidos, arde minha cabeça, queima meu coração, arde a Hungria, arde Belarus, os nossos mortos decresceram, mas voltaram a subir, todo mundo aglomerado nas ruas, bares, praias, baladeiros ao sol, felizes, roleta-cloroquina, se o outro vai morrer que me importa? 2022 vai chegar, a grande questão é saber quem estará vivo para votar.

Estou dando entrada na Associação Comercial ao meu pedido de abertura de uma seita, uma igreja, quero dízimos, muitos dízimos, não quero pagar nada, imposto, taxa, boleto. Passa boi, passa boiada. A democracia começa a arder, ardem nossos corações e mentes. Não nos calemos.

Presidente 'valentão'


Vocês não entraram na conversinha mole de fica em casa. Isso é para os fracos

Jair Bolsonaro

Sucursal do inferno

No vasto e fumegante braseiro a céu aberto, de labaredas inclementes, mato seco esturricado e fogaréu até onde a vista alcança, irrompendo às alturas, sem controle, respirar é quase insuportável. Ardem os pulmões. O cheiro das cinzas de animais fritados vivos, que invade as narinas, misturado ao pó da terra barrenta e aos ventos quentes de gás e fuligem putrefata com toda aquela queima incessante, transforma o ambiente em cenário cruelmente real de uma sucursal do inferno. Sítio das trevas. Desolador. Nunca foi tão devastador. Um bioma inteiro, dentre os mais ricos e diversificados do mundo, ardendo em chamas incontroláveis. Implacáveis. Quase 30% desse paraíso na Terra tomados pelas queimadas, consumidos pela destruição que não encontra paralelo na história da região. Sem resistência, sem fiscalização, sem qualquer esforço das autoridades competentes para evitar ou barrar o processo.


Alguns, como o próprio presidente Bolsonaro, diante das cobranças, foram capazes de gargalhadas indolentes, em recente e bizarra reunião no Palácio do Planalto. Quando ali questionados por uma criança de 10 anos a respeito do fogo no Pantanal, os presentes fizeram pouco caso da pergunta e, em tom de galhofa, tripudiaram da garotinha.

“Mandamos dez aviões para jogar água lá”, respondeu um deles aos risos, como se fosse a iniciativa suficiente. Ao menos para calar a curiosidade infantil, deve ter pensado. Sabe não ser. Descaso. Descrença. Abandono. Combinados à temporada de intempéries climáticas arrasadoras que castigam a vegetação, e aos abates criminosos, compõem a receita explosiva do caos ambiental. Fauna e flora sofrem de maneira lancinante e somem da paisagem. Restam carcaças de bichos e árvores carbonizados. A vazante da natureza que ali fazia seu belo espetáculo da multiplicação de espécies cedeu lugar ao extermínio. É triste de ver. Difícil de aceitar. A algaravia de pássaros misturada ao serpentear de animais silvestres que habitavam a planície pantaneira, e dominavam o local, hoje é substituída pelo quadro dantesco e tenebroso de corpos fétidos das milhares de vítimas largadas à própria sorte. Jacarés, capivaras, cobras, onças, ariranhas, infindável diversidade de aves dizimadas pela ação do homem em sociedade com a escaldante secura da temporada. O Pantanal, maior planície alagável do planeta, perdeu quase toda a vazão de água. O território do tamanho de Portugal, Suíça, Bélgica e Holanda somados foi, em boa parte, arrasado. Numa só sentada. Resultado do mesmo pendor à irresponsabilidade de governantes, nos diversos escalões, que fizeram secar recursos e brigadas de vigilância para proteger a região. Caíram em 48% as multas por violações e infrações, embora essas seguissem em escalada gritante naquele cinturão ambiental. Multiplicou-se a área devastada. Dados consolidados do INPE apontam que os incêndios provocados e os desmatamentos ilegais cresceram 210% entre janeiro e 15 de setembro último, em comparação com o mesmo período do ano passado. O fogo decorrente consumiu uma área equivalente a 2,5 milhões de hectares. Até aqui. Já corresponde ao território inteiro de um estado como Sergipe ou a quase quatro vezes o tamanho do Distrito Federal. Menos fiscais e mais burocracia levaram não apenas ao tímido número de autuações lavradas em períodos de estiagem como o atual. Também contribuíram para o crescimento exponencial de aventureiros, que ali desembarcam, fazem suas tendas e saem à cata de oportunidades nessa hoje terra de ninguém. O garimpo nas redondezas de Poconé, por exemplo, no limite norte do Pantanal Mato-grossense, explodiu. Virou parte do problema. Exemplo intolerável de como a interferência e exploração indevidas podem ferir, aniquilar e frear o florescer da natureza que deveria ser preservada e é, na prática, espoliada. Com a complacência dos responsáveis que tudo veem e nada fazem na defesa sustentável do patrimônio. Será que entendem a dimensão dos erros por omissão? Ao contrário. Negam a realidade. Disfarçam. Fingem não ter nada a ver com o drama local. E há de se questionar: Como não? Mentem e deixam a “boiada” de irregularidades passar para depois lavarem as mãos? No mínimo deveriam cair em si sobre a leviandade latente. O assoreamento dos rios, em consequência de lavouras e pastagens em sua cabeceira, denunciam intervenções fora dos limites que contribuem para o drama. É mais um delito praticado a céu aberto. O Rio Taquari, por exemplo, já foi quase completamente soterrado por milhões e milhões de toneladas de terra que desceram com as enchentes pela via tortuosa dos desmatamentos sem controle. O ecossistema pantaneiro paga um preço caro, insuportável, por tanto descaso. O bote mortal contra o bioma é armado na moita. Devastam e quando a floresta está esgotada, enfraquecida, com a vegetação morrendo pelas motosserras, vem o golpe final por meio de tochas sendo acesas para botar fogo em tudo. E a mata arde de novo. Por dias, semanas, às vezes meses, restando os poucos troncos torrados, teimosos, fincados como palitos na paisagem calcinada. Para que tudo ali se transforme em pastagem, compondo um quadro deplorável de abandono do esplendor daquela reserva. O Pantanal está morrendo!

Não podemos ser lenientes, refratários e indulgentes com os culpados. Não foi dada a menor atenção à catástrofe em andamento. Quando os encarregados pela proteção e preservação acordaram para o quadro, já era tarde. O fracasso do controle oficial está estampado nas cenas abomináveis da mortandade na região. Em meio à angústia geral dos brasileiros, o Poder Federal foi capaz de reservar meros R$ 3,8 milhões de verba para remediar o mal. Uma esmola vergonhosa. Afronta diante dos esforços para se perdoar R$ 1 bilhão de dívidas de igrejas evangélicas, na articulação até aqui considerada essencial pelo capitão do Planalto. O paralelo sobre os dois empenhos mostra a desproporção gritante e serve para efeito comparativo das prioridades estabelecidas em Brasília. As autoridades teimam em dizer que nada é o que parece. Cinicamente brincam de promover as belezas naturais do Pantanal com vídeos propagandísticos falsos para entreter os áulicos, daqui e do resto do planeta. São biocidas do ambiente, carniceiros da fauna, espoliadores da riqueza nacional, oportunistas de plantão que não parecem entender o valor da vida selvagem e das florestas. Meros depredadores da Mata Atlântica que, por omissão ou estímulo indevido, semeiam a tragédia. Quem há de zelar por esse patrimônio para as próximas gerações? Que vozes irão se levantar para defender o que nos foi legado? A luta da preservação não pode mais ficar circunscrita a ecologistas, defensores ocasionais e ambientalistas de profissão. É devida e urgente a mobilização geral. Setores mais sensatos, líderes globais, empreendedores conscientes, produtores do agronegócio, alguns parlamentares e hoje até mesmo portentos do sistema financeiro já acordaram para a importância da missão. O capital internacional está deserdando do Brasil pela apatia nessa área vital para a humanidade. Comprometemos nosso futuro. Deixamo-lo virar joguete nas mãos de personagens inconsequentes, hoje aboletados no poder. É preciso resgatar o tempo perdido nesse campo. Não dá para ficar à mercê dos aloprados de plantão. Nem se venha falar, por falar, de mera fatalidade sazonal. Não é bem assim. Ardem no Pantanal, no momento, os órfãos de nossa resignação. Estão sendo sacrificados no altar do desprezo sistêmico, abandonados por um viés ideológico extremista, estapafúrdio e negacionista, com interesses escusos, que deitou raízes no poder e deixou o Pantanal queimar. Não acreditem nesses aventureiros de palanque, insolentes tratantes da boa fé. A joia ambiental do País está ardendo. É fato. Acordamos na era do Pantanal em extinção e não conseguimos reagir. O estupor e o choque pela perda devem ceder lugar à resposta. O Pantanal precisa de você, antes que nada mais reste que não as cinzas.

A pior notícia é que Bolsonaro diz o que as pessoas querem ouvir

Jair Bolsonaro é um completo irresponsável com a saúde pública, a sua atitude diante da pandemia é a de um sociopata, mas a pior notícia é outra: ele diz exatamente o que a maioria dos brasileiros pensa a respeito de distanciamento social e uso de máscara. Pensa e age. Passados sete meses desde o início da quarentena à la Brasil, um número crescente de cidadãos vem passando a viver como se nada houvesse — nem quase 4,5 milhões de pessoas que já foram infectadas, nem mais de 135 mil mortos. Como previsto, estamos gradativamente abolindo a pandemia por decreto e pensamento mágico infantil.

Bolsonaro é instintivo, mas no caso da pandemia ele agora também se manifesta por cálculo eleitoral. Foi o cálculo eleitoral que o levou a soltar a frase de hoje, em Mato Grosso, na entrega de títulos de propriedade rural: “Vocês não entraram naquela conversinha mole de ‘fique em casa e a economia a gente vê depois’. Isso é para os fracos. O vírus, eu sempre disse, era uma realidade e tínhamos que enfrentá-lo. Nada de se acovardar perante aquilo que a gente não pode fugir dele.”

Enfrentar a pandemia com sacrifícios pessoais e profissionais está mais para ato de coragem, não de covardia, se fosse o caso de atribuir firmeza ou fraqueza de espírito ao que é meramente contingência. Não é, à exceção dos profissionais de saúde, cujo trabalho a contingência requer, não raro, boa dose de coragem. O truque do discurso do presidente é justamente falsear a realidade, emprestando-lhe moldura incompatível com o quadro.

Governo rediscute tirar de pobres, saúde e educação para dar a paupérrimos

O congelamento do valor das aposentadorias, dos benefícios assistenciais e provavelmente do mínimo de gasto federal em saúde e educação ainda está nos cálculos do Orçamento para o ano que vem. É daí que pode sair algum dinheiro para encorpar o Bolsa Família Verde Amarelo.

Congelamento quer dizer que esses valores não serão reajustados nem pela inflação, como manda a Constituição. Caso não exista reajuste de aposentadoria, BPC e do piso de saúde e educação e a inflação (INPC) seja de 2,4%, como prevê o Ministério da Economia, o governo deixaria de gastar cerca de R$ 20 bilhões em 2020. É o número que Paulo Guedes tem apresentado ao Congresso.

Com esse dinheiro extra, seria possível pagar cerca de R$ 226 por mês a 20 milhões de famílias. Antes da epidemia, o Bolsa Família pagava R$ 190 mensais a pouco mais de 14 milhões de famílias. No fim das contas, o valor total dos benefícios anuais seria um pouco maior do que se paga atualmente em um mês de auxílio emergencial.



Vai acontecer? Um ministro com sala no Planalto diz que isso é o que está sendo combinado com o relator do Orçamento e da emenda constitucional do “pacto federativo”, senador Márcio Bittar (MDB-AC), mesma informação que vem de líderes formais e informais do governo no Congresso.

No entanto, a crise da semana foi o “cartão vermelho” de Bolsonaro para ideias de “tirar dos pobres para dar aos paupérrimos”. Dessa vez, tratava do congelamento do valor do Benefício de Prestação Continuada (o BPC), pago a 4,9 milhões de idosos e deficientes muito pobres, e das aposentadorias e outros benefícios do INSS, pagos a 30,9 milhões de pessoas (das quais 19,2 milhões ganham um salário mínimo ou um pouco menos).

Nesta quinta-feira, em uma live de uma instituição financeira, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), disse o seguinte: “Se não houver desindexação, não haverá recursos para o Renda Brasil [ou equivalente]”. “Sem uma coisa não tem a outra”, afirmou na live, explicação que deu também para o método da redução de impostos sobre a folha de salários das empresas (que não ocorrerá sem a compensação da receita criada por um imposto sobre transações eletrônicas). Barros enfatizou que “nenhum setor” vai perder recursos ou renda —congelamento é isso mesmo.

A este jornalista Barros diz que não sabe o que será o projeto de Bittar para o equivalente do Renda Brasil ou do Bolsa Família encorpado. Afirma que vai conhecer o relatório apenas no começo da semana que vem, talvez na segunda-feira.

O Congresso ou o governo vão bulir com cerca de 35 milhões de pessoas para beneficiar talvez umas 6 milhões? De resto, além do problema político e da provável insuficiência social desse Bolsa Família encorpado, há um provável problema econômico, ao menos de demanda (consumo).

Em tese, o governo vai cortar gastos no valor de mais de meio trilhão de reais de 2020 para 2021, o equivalente à redução das despesas extraordinárias do “Orçamento de guerra” deste ano de calamidade.

Nesse pacote, corta também o auxílio emergencial inteiro, gasto que pode chegar a R$ 250 bilhões. Não vai ser tudo isso. Mas o Bolsa Família encorpado teria apenas mais R$ 20 bilhões, que, enfim, não seriam “dinheiro novo”, mas recurso drenado de aposentadorias e BPC (cerca de R$ 16,6 bilhões), e o restante, de saúde e educação.

As conversas sobre a mágica orçamentária continuarão pelo final de semana. No começo da que vem, algum pobre ou paupérrimo terá perdido dinheiro ou deixado de ganhá-lo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Imagem do Dia

 


Bolsonaro faz bom uso da mentira para se reeleger

Bolsonaro disse ontem: “O Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente], e o país que mais sofre ataques vindos de fora, no tocante ao seu meio-ambiente. O Brasil está de parabéns pela maneira como preserva o seu meio-ambiente".

Bolsonaro também disse ontem: “O Moro não tem que perguntar nada para mim. Ele tem de dizer: ‘Olha, você interferiu aqui. Fez isso, fez aquilo’. Isso a gente rebate rapidamente”.

Por que Bolsonaro disse que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente quando isso nunca foi verdade e definitivamente deixou de ser desde que ele assumiu o governo?

E por que disse que Sergio Moro não tem que perguntar nada para ele quando Moro jamais foi autorizado pelo Supremo Tribunal Federal a perguntar quando Bolsonaro fosse interrogado no processo que investiga sua tentativa de intervir na Polícia Federal?

Bolsonaro pode gostar de mentir, e mente diariamente, e não perde uma oportunidade de mentir. Mas não é por puro prazer, doença ou obsessão que mente. Mente conscientemente. A mentira serve à construção de um mundo paralelo que só o beneficia.


Foi assim ou não foi quando ele inventou a história do kit-gay, a mentira que mais lhe rendeu votos nas eleições passadas? Uma mentira a essa altura histórica, tanto quanto a de Trump sobre o nascimento de Barack Obama fora do território americano.

Foi assim ou não foi quando Bolsonaro inventou, e repete até hoje, que o Supremo retirou parte dos poderes que eram seus para combater o coronavírus e transferiu-os para governadores e prefeitos? Por isso ele teria ficado de mãos atadas.

Mentira estúpida, essa, para justificar o fracasso do governo federal no enfrentamento da pandemia que já matou mais de 135 mil pessoas e infectou 4,4 milhões. Cadê os 50 milhões de testes prometidos? Não passaram de 6,5 milhões, se muito.

Bolsonaro reescreve os fatos como um animador de tragédias

Jair Bolsonaro anda fazendo bico como animador de tragédias. O governo fez pouco caso da devastação das florestas na atual temporada de seca e viu o Pantanal bater recordes de queimadas nos últimos meses. Ainda assim, o presidente tentou jogar confete no desastre.

“O Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente”, celebrou, durante um evento nesta quinta. “O Brasil está de parabéns pela maneira como preserva o seu meio ambiente.”

Bolsonaro desmontou a gestão ambiental, perseguiu fiscais, protegeu madeireiros e quis maquiar números do desmatamento. Recentemente, ele atribuiu as queimadas à população indígena e à geração espontânea. Só não demonstrou grande interesse em combater o fogo.

O presidente tomou gosto por comemorar os resultados de sua própria omissão. Para isso, vale distorcer informações, esconder problemas e até reescrever os fatos a seu favor.

Nas últimas semanas, Bolsonaro lançou uma campanha nas redes e em eventos oficiais para tentar convencer a população de que o governo fez tudo certo na pandemia que matou mais de 130 mil pessoas no país.

Depois de ter deixado o Ministério da Saúde sem titular por três meses, o presidente usou a posse de Eduardo Pazuello no cargo, na quarta, para aplaudir a si mesmo. Ainda que tenha previsto menos de 800 mortos na crise, Bolsonaro falava como se tivesse dado todas as respostas.

A cloroquina foi a estrela do discurso. O presidente voltou a fazer propaganda do remédio e disse que o governo se baseou na agência reguladora dos EUA para recomendá-lo. Bolsonaro só esqueceu que a própria FDA lançou em julho um alerta sobre os riscos do medicamento.

Ele também recordou, em tom laudatório, o pronunciamento de TV em que comparava a Covid-19 a um “resfriadinho”, em março. O presidente disse ter avisado que era preciso combater a doença e o desemprego. Naquele mesmo dia, porém, ele afirmou que o vírus passaria “em breve”. Só faltou dar parabéns a si mesmo por não ter feito quase nada.

As chamas da negação

As chamas ardem na Costa Oeste dos Estados Unidos e em dois importantes biomas nacionais, Amazônia e Pantanal. Debates essenciais nascem desses incêndios. O primeiro deles subiu para o topo da agenda na campanha para a presidência dos EUA: o aquecimento global. Lá, como aqui, há os que aceitam as evidências científicas e os que as negam.

Um segundo debate decorre do próprio princípio de precaução. Se há realmente mudanças climáticas, os incêndios serão mais intensos a cada ano. Logo, é razoável nos preparamos melhor, em vez de sermos anualmente derrotados por eles.

No Pantanal já foram destruídos mais de 22 mil km2 de vegetação, uma área do tamanho de Israel. Serpentes e jacarés carbonizados estão por toda parte, o refúgio das araras azuis está ameaçado, chamas em Porto Jofre, onde se concentra uma centena de onças-pintadas.

O desastre neste ano é muitas vezes maior que o do ano passado, que tive a oportunidade de documentar. Muito possivelmente, a julgar pelas notícias, a maioria dos focos de incêndio foi provocada. Talvez por pessoas que sonham com um Pantanal transformado apenas em pastagens e campos plantados. Ignoram a riqueza que estão destruindo. São os mesmos que sonhavam em transformar a região em grandes canaviais. Não percebem que ao destruir a vegetação arruínam todo o ecossistema, os próprios peixes que se alimentam de pequenos frutos tendem a desaparecer.

Essa incompreensão básica está também no Palácio do Planalto. Bolsonaro sonha com campos de soja, muito gado, o que na cabeça dele significa aumento da produção. Deve ser por isso que todos riram no palácio quando uma jovem blogueira perguntou pelo incêndio no Pantanal.



Bolsonaro nega o aquecimento global. E pratica sua negação. As verbas para a prevenção de incêndios caíram sistematicamente de 2018 para cá. As destinadas a brigadas, que eram de R$ 23 milhões, foram reduzidas a R$ 9, 9 milhões.

Ele caminha decisivamente na contramão das tendências climáticas. Acha que seu voluntarismo pode afrontá-las com a mesma naturalidade com que muda as regras de trânsito. Em ambos os casos colheremos mortes e destruição.

Cessado o fogo, será difícil articular um projeto de replantio. Os bichos e a mata atrapalham a produção. A ajuda internacional será vista como ameaça à soberania nacional.

Apesar do negacionismo de Trump, o horizonte no Brasil é mais sombrio. Bolsonaro representa um tipo de pensamento que existe também em parte dos fazendeiros e amplamente nas Forças Armadas. Esse tipo de pensamento relaciona destruição ambiental com progresso. O próprio ministro Paulo Guedes disse que os americanos tinham destruído suas florestas e acabado com índios.

É o tipo de argumento clássico do pensamento dominante no governo brasileiro, hoje uma estranha amálgama de generais do Exército e pastores evangélicos. Não há outro caminho senão tentar convencê-los, antes que consigam destruir o País na suposição de que fortalecem a soberania terrena e nos aproximam do reino dos céus.

A produtividade de agrofloresta é um exemplo na Amazônia. Os lucros da exploração sustentável de açaí e castanha são outro. O potencial turístico do Pantanal, a própria capacidade do bioma de atrair investimentos, tudo isso tem de ser repetido à exaustão.

As gargalhadas diante das chamas que devoram um bioma como o Pantanal revelam apenas a distância entre a pobreza da mentalidade dominante e a riqueza de nossos recursos naturais. A utopia de um mundo plantado de soja, subsolo revolvido em busca de minérios, gado pastando na relva – tudo guardado por um exército vigilante, que pinta de branco as poucas árvores que restam, é, na verdade, um pesadelo. Seríamos uma nação que construiu com tenacidade um imenso deserto, teríamos transformado o mundo no espelho do nosso universo mental.

Quem acompanha o desastre do Pantanal desejaria que Bolsonaro tivesse uma ideia mínima do que está acontecendo. Com um pouco de humildade, ele se arrependeria de chamar as ONGs de um câncer que gostaria de extirpar. São as ONGs que se põem em campo, salvando grande parte dos animais feridos, sem nenhuma estrutura ou base financeira além da cooperação voluntária.

Quando cobri um desastre na Galícia constatei que o próprio governo pôs à disposição um pequeno hospital para as aves marinhas atingidas. Comparadas com a fauna do Pantanal, as aves marinhas da Galícia são só um pequeno grupo.

Aqui, no Brasil, o trabalho é feito pela sociedade. Não importam os insultos vindos do mundo oficial, a esperança de reduzir o impacto destrutivo dessa passagem do fundamentalismo pelo poder ainda se baseia em solidariedade e trabalho voluntário. E tudo isso nos alcança num momento de pandemia, em que a capacidade de reação é limitada.

Ao intenso ataque do vírus soma-se a fumaça que atinge as grandes cidades da região. Restou-nos apenas a negação da dupla negação do governo: coronavírus e aquecimento global. Em ambos os casos, resistimos. Mas é impossível deixar de sonhar com um país em que governo e sociedade enfrentem juntos os desastres naturais e sanitários. A vida seria menos difícil.

Ladrões de mendigos e doentes

Não acredito! Agora foi demais. Deve ser uma das frases mais repetidas, e desmentidas, pela realidade do Brasil. Há sempre mais. Já tivemos quadrilhas de políticos e empresários que roubavam nas compras de sangue de hospitais públicos; que sugavam a merenda escolar da boca das crianças para seus bolsos; desviavam verbas para compra de ambulâncias. Próteses. Vacinas. Sempre dos que mais precisavam. Um dos maiores assaltos da quadrilha de Sérgio Cabral foi na Secretaria de Saúde de Sérgio Côrtes, um médico que roubava doentes.


Pelo perfil de covardia, crueldade e desprezo por seu semelhante, não é surpresa que justamente durante a pandemia, no pior momento, bandidos oficiais roubem na compra de respiradores, hospitais de campanha e remédios para a população pobre. A quadrilha de Witzel tinha uma tropa de assalto na Secretaria estadual de Saúde. O bando do satânico pastor Crivella saqueou verbas da saúde, outros desviaram R$ 41 milhões da Fundação Leão XIII, que existe para cuidar da população de rua. Roubaram dinheiro de mendigos!

Roubar sangue, ambulâncias, remédios, respiradores e merenda escolar seria moralmente mais grave do que achacar, receber propina, roubar de ricos e de empresas em obras publicas e programas governamentais? Tanto faz, a conta é sempre paga por todos, principalmente os pobres, que pagam impostos em tudo o que compram. 

Mas ladrão é ladrão. É uma vocação, vem de fábrica, tá no sangue, tantos são os sobrenomes em comum de filhos e mulheres de juízes denunciados por venda de sentenças que são advogados. No Brasil, não é a ocasião que faz o ladrão, é o ladrão que faz a ocasião. O mais impressionante é a covardia, crueldade e sadismo na escolha de sua presa indefesa: o elemento sabe que está roubando dos que mais precisam.

O que merece essa escória, a maioria impune com a cumplicidade do Judiciário e de um sistema legal feito para proteger quem pode mais?

Brasil da fome

 


Ventos ruins e sopros de esperança

Uma década depois da instituição do Dia Mundial da Democracia, 15 de setembro de 2010, o mundo está submerso em uma recessão democrática, que pode se aprofundar nesses tempos de pandemia, como alertou manifesto assinado por 160 intelectuais da América Latina e ex-presidentes, entre os quais Fernando Henrique Cardoso, Tabaré Vázquez, José Mujica e Mauricio Macri. O marco temporal do recuo da democracia é 2006, quando aumentou o número de países de índole autoritária e de democracias de baixa qualidade.

Esse fenômeno levou o cientista político Larry Diamond, da Universidade de Oxford e autor do livro “Ill winds” a ser o primeiro a usar o termo recessão democrática para definir o período que vivemos.

Com ele, chegou ao fim a terceira onda democrática, iniciada em 1974 com a crise das ditaduras. Uma por uma elas foram caindo em efeito dominó: Grécia, Portugal, Espanha. Nos anos 80 foi a vez das ditaduras militares da América Latina. Os ventos da democracia chegaram ao leste asiático, derrubaram o muro de Berlim, fizeram ruir as ditaduras do “socialismo real”. Com o fim da União Soviética houve um encolhimento de países de regime totalitários, ao tempo em que a democracia se estendeu para o leste europeu.

Mesmo na China de Deng Xiaoping houve afrouxamento do regime, apesar do massacre da Paz Celestial. Criou-se a expectativa de que o desenvolvimento e a integração da China na economia mundial desaguaria em uma democracia.

Os anos 90 foram o apogeu da terceira onda democrática, com o multilateralismo em alta e a afirmação da democracia como o grande valor universal. Ao final do século 20, as ideologias e regimes totalitários – de direita ou de esquerda – tinham sido derrotados. O Brasil singrou nesses mares, vivenciando o maior período de sua história sem quarteladas ou interrupção democrática. A Constituição-Cidadã de 1988 alargou a democracia política e social.



Larry Diamond tem razão quando define 2006 como o marco temporal do fim dessa onda. Mas foi sobretudo na segunda década deste século que a recessão democrática se expandiu. Seu ponto culminante foi a vitória de Donald Trump. Com ela, instalou-se uma cultura autoritária no berço da democracia moderna. A onda chegaria ao Brasil com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. A resiliência das nossas instituições tem segurado o tranco, mas a qualidade da nossa democracia foi rebaixada significativamente.

O populismo, de direita ou de esquerda, espraiou-se pelos quatro cantos do mundo. Na América Latina, tivemos o populismo de esquerda. Na Europa, a vaga nacional-populista de direita gerou regimes híbridos – formalmente democráticos, mas com forte viés autoritário - como os da Hungria, Polônia e Turquia. A Índia do primeiro ministro Narendra Modi deixou de ser a maior democracia do mundo em termos populacionais para se tornar um país de regime híbrido, tendendo para o autoritarismo. O colapso da Primavera Árabe foi parte desse roteiro.

Na Europa ocidental emergiram lideranças da extrema-direita como Matteo Salvini, na Itália, e Marine Le Pen, na França. E, pela primeira vez depois da segunda guerra mundial, surgiu um partido forte de extrema direita na Alemanha. A União Europeia, o mais avançado arcabouço institucional do multilateralismo, foi duramente golpeada com a vitória do Brexit na Grã-Bretanha.

A Rússia, país sem cultura democrática arraigada, saiu da ditadura do partido único para o nacional-populismo de Wladimir Putin, assim como tinha saído do czarismo para o “socialismo real”. O novo “czar de todas as Rússias” fez ressurgir das cinzas o pan-eslavismo, reposicionando-a na geopolítica mundial como grande player. Na China de Xin Jinping, o Partido Comunista suprimiu tendências internas e reforçou o seu controle sobre a economia e a sociedade. O modelo autoritário chinês se apresenta como meritocrático alternativo à “democracia disfuncional”.

Não é a primeira vez na história em que a “disfuncionalidade” da democracia é contraposta à racionalidade e eficácia de regimes totalitários. Nos anos 30, o fascismo e o comunismo vendiam-se como alternativas à “ineficiência” da democracia. A Itália de Benito Mussolini jactava-se porque os trens saiam no horário, enquanto o stalinismo vangloriava-se de ter tirado a Rússia do seu atraso, transformando-a em uma potência mundial. Ao final do século 20 os vitoriosos não foram o fascismo ou o socialismo. Foram o capitalismo e a democracia.

Sim, ventos ruins varrem o mundo nesses dez anos de Dia Mundial da Democracia, mas há sopros de esperança no apagar das luzes da década. Mesmo em países de regimes híbridos, como a Polônia e a Hungria, há sinais positivos. A última eleição polonesa revelou um país divido ao meio, com quase metade da população se manifestando favorável à democracia.

Na Hungria de Viktor Orbán, partidos de oposição pela primeira vez se uniram para disputar as próximas eleições. O nacional-populismo, por sua vez, mostrou-se impotente diante da pandemia. O isolacionismo foi incapaz de responder à crise sanitária global. O negacionismo, por sua vez, desnudou lideranças como Matteo Salvini e Donald Trump.

A resposta assertiva da União Europeia para a reconstrução das economias dos países afetados pela pandemia serviu de contenção à vaga nacional-populista.

Angela Merkel se afirmou como a grande liderança europeia, quiçá mundial. A eleição alemã acontecerá no ano que vem, mas as pesquisas já indicam um fortalecimento robusto do partido de Merkel – o CDU. Seu partido acaba de ser vitorioso nas eleições municipais na região mais populosa da Alemanha e o Partido Verde se afirmou como segunda força. O grande derrotado foi o Alternativa Para a Alemanha, de extrema-direita, com apenas 5% dos votos.

O fato mais esperançoso vem dos Estados Unidos, onde uma cultura de unidade nacional instalou-se primeiro no Partido Democrata e vem conquistando corações e mentes. Joe Biden lidera, até agora, as pesquisas. Depois de oscilar para baixo, recuperou terreno nas simulações diárias do site FiveThirtyEight, com 75% de chances de vitória.

Uma possível vitória de Joe Biden não significará necessariamente o fim da recessão democrática e nem sequer o começo do fim, mas talvez o fim do começo, para usar a genial frase de Winston Churchill.
Hubert Alquéres

INSS humilha clientela e Bolsonaro finge não ver

Deve haver, escondido nos subterrâneos do INSS, uma escola de ineficiência, desrespeito e humilhação. Não é possível que os responsáveis pelo órgão nasçam com tanta tarimba. O instituto é, hoje, o local onde há a maior possibilidade de se criar um órgão público inteiramente novo. Caos não falta.

Fechadas desde março, as agências do INSS programaram-se para reabrir nesta segunda-feira. Houve de tudo, exceto respeito à clientela. A principal demanda era a realização de perícias médicas. Produziram-se filas, reclamações e humilhações. Consultas? Nenhuma. Os médicos não deram as caras.

Cerca de 750 mil brasileiros aguardam na fila por uma perícia que lhes permita começar a receber benefícios como o auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez. Desse total, algo como 7 mil pessoas marcaram hora pelo telefone, como exige o INSS. Deram com a cara na porta.



A Associação Nacional dos Peritos Médicos Federais concluiu que não havia segurança sanitária para a realização dos exames. Avaliou-se que, desprotegidos, doutores e pacientes seriam presas fáceis para o coronavírus. Faltou avisar a clientela..

Crítico do isolamento social, Jair Bolsonaro defende a reabertura de tudo —de boteco a shopping center. Só não consegue reabrir os guichês do INSS. As agências deveriam ter voltado a funcionar em 13 de julho. Nada.

Sob a alegação de que o tempo era curto, reagendou-se a volta para 3 de agosto. Nem sinal. Reprogramou-se o retorno para esta segunda-feira, 14 de setembro. Deu no que deu.

Pela lei, o INSS é obrigado a analisar os pedidos de benefício no prazo máximo de 45 dias. Há pessoas na fila há mais de seis meses. Gente pobre, à espera de auxílio-doença, pensão por velhice ou deficiência (BPC).

Por uma dessas ironias fatais, o INSS coabita com a Receita Federal o organograma do Ministério da Economia. Numa repartição, morde-se o bolso do contribuinte com tecnologia e eficiência dignas do século 21. Noutra, o mesmo Estado oferece serviços do século 19.

O cliente pobre do INSS só será notado por Jair Bolsonaro no dia em que se declarar um brasileiro sem fins lucrativos e se reorganizar como igreja. Nessa condição, não precisará marcar hora. Será recebido com tapete vermelho, subirá pelo elevador privativo e entrará no gabinete presidencial sem bater.

'Tenho sangue nas mãos'

Em um memorando interno de 6.600 palavras para colegas de trabalho, a cientista de dados Sophie Zhang disse que, sem supervisão, tomou decisões "que afetaram presidentes" de países ao redor do mundo.

"Tenho sangue nas mãos", escreveu ela no memorando, do qual partes foram publicadas pelo site Buzzfeed sem seu conhecimento.

Em resposta, o Facebook disse que está "trabalhando muito para impedir maus usuários e comportamentos não autênticos."

Em seu memorando, Zhang afirmou: "Nos três anos que passei no Facebook, encontrei várias tentativas flagrantes de governos nacionais e estrangeiros de abusar de nossa plataforma em grandes escalas para enganar seus próprios cidadãos e criar notícias internacionais em várias ocasiões."

"Eu pessoalmente, sem supervisão, tomei decisões que afetaram presidentes e agi contra tantos políticos proeminentes globalmente que perdi a conta", acrescentou ela.


Segundo o Buzzfeed, que disse ter compartilhado apenas as partes de seu memorando que eram de interesse público, Zhang recusou um pacote de indenização de Us$ 64 mil (R$ 335 mil), sob a condição de que ela não compartilhasse seu memorando.

Em resposta, o Facebook afirmou: "Construímos equipes especializadas, trabalhando com os principais especialistas, para impedir que malfeitores abusem de nossos sistemas, resultando na remoção de mais de 100 redes por comportamento coordenado não autêntico."

"É um trabalho muito complicado que essas equipes fazem em tempo integral. Trabalhar contra comportamentos não autênticos coordenados é nossa prioridade, mas também estamos abordando os problemas de spam e falso engajamento", acrescentou a empresa.

"Investigamos cada questão cuidadosamente, incluindo aquelas levantadas por Zhang, antes de tomarmos medidas ou de fazer afirmações públicas como uma empresa", disse o Facebook.

No memorando, ela cita diferentes exemplos de manipulação política ou tentativa de manipulação no período em que esteve no Facebook, entre eles:

- 10,5 milhões de falsas reações e falsos seguidores foram removidos de perfis de políticos de destaque no Brasil e nos Estados Unidos nas eleições de 2018 (respectivamente, presidencial e legislativa).

- O Facebook, diz ela, demorou nove meses para agir com base em informações de que robôs (bots) estavam sendo usados para impulsionar o presidente de Honduras, Juan Orlando Hernandez.

- No Azerbaijão, o partido do governo usou milhares de robôs para perseguir a oposição

- Um pesquisador da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) informou ao Facebook ter encontrado atividades oriundas da Rússia sobre um grande figura política americana, as quais teriam sido removidas por Zhang.-

Contas falsas de robôs foram descobertas na Bolívia e no Equador, mas o problema não foi priorizado pelo Facebook devido à carga de trabalho, segundo ela.

- Zhang diz que descobriu e removeu 672 mil contas falsas que atuavam contra ministros da Saúde em todo o mundo durante a pandemia

- Na Índia, Zhang diz que trabalhou para excluir uma sofisticada rede com mais de mil usuários que trabalhavam para influenciar uma eleição local em Nova Déli.

"O Facebook projeta uma imagem de força e competência para o mundo exterior, mas a realidade é que muitas de nossas ações são acidentes imprudentes e descuidados."

Ela disse que a necessidade de tomar inúmeras decisões sobre muitos países diferentes afetou sua saúde e a fez se sentir responsável por distúrbios civis em locais que ela não priorizou.

Suas revelações vieram à tona apenas uma semana depois que o ex-engenheiro do Facebook Ashok Chandwaney acusou a empresa de lucrar com a disseminação de ódio.

Carole Cadwalladr, a jornalista do Reino Unido que expôs o escândalo envolvendo o uso de dados do Facebook pela consultoria Cambridge Analytica, tuitou: "A velocidade e a escala dos danos que o Facebook está causando às democracias em todo o mundo são verdadeiramente aterrorizantes."

Na análise de Marianna Spring, repórter da BBC especializada em desinformação, ''o memorando explosivo confirma as preocupações que foram levantadas há muito tempo sobre a capacidade do Facebook de enfrentar a interferência estrangeira e as campanhas de desinformação''.

Mas, embora a maioria dos olhos esteja voltada para a interferência russa na política dos Estados Unidos após a eleição de 2016, o testemunho da ex-funcionária chama a atenção para eventos democráticos para além do Ocidente.

O fracasso do Facebook em lidar com a desinformação em outros idiomas foi investigado durante a pandemia — o memorando alega que a empresa já lutou para combater as campanhas de interferência em países que não falam inglês.

''O memorando também levanta grandes preocupações sobre a enorme responsabilidade concedida aos moderadores do Facebook, cujas decisões podem afetar eventos democráticos, resultados políticos e a vida das pessoas em todo o mundo'', prossegue Spring.

''Isso, sem dúvida, aumentará as preocupações sobre o trabalho do Facebook para enfrentar as campanhas de interferência e desinformação à medida que as próximas eleições nos EUA se aproximam. Mas deve nos lembrar que o Facebook também desempenha um papel em eventos democráticos fora dos Estados Unidos''.

Fogo no Pantanal e as nossas aflições

O Pantanal é uma lindeza. Quem vê não quer parar de olhar aquela beleza de alagado, aquela multidão de pássaros. Há pontos do Pantanal que se a gente admirar bem cedinho fica pensando que deve ter sido assim o começo do mundo. São 150 mil km2 no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Até o dia 13, estavam queimados 29 mil km2. Isso é um quinto do bioma. Mas o fogo avança um pouco mais a cada dia. No Parque Estadual Encontro das Águas, 85% da área está queimada e lá moram onças pintadas. O Pantanal é a maior planície alagada do mundo. O Brasil tem tudo imenso quando o assunto é ativo ambiental. É dono da maior parte da maior floresta tropical do planeta. Tem a maioria das águas da maior bacia hidrográfica do mundo. Que tamanha insensatez a nossa.

— A gente está assistindo a uma tragédia anunciada e crescente. No começo do mês, eram 12% do Pantanal afetados e agora aumentou para 19%. A fauna está sendo muito atingida, os animais estão desidratados e sem comida e isso vai acabar afetando todo o ciclo de reprodução de animais listados em situação de extinção. A gente está vendo também um impacto econômico imenso — diz a cientista política Alice Thuault, diretora adjunta do Instituto Centro de Vida (ICV).

Nossas aflições se somam. O que afeta a Amazônia agrava o problema no Pantanal, que precisa do Cerrado. Os biomas se falam.

— O nível dos rios está muito baixo. Isso é cíclico, mas o desmatamento da Amazônia está impactando o equilíbrio do Pantanal. Eu digo que é tragédia anunciada porque todo mundo viu o que estava acontecendo, e a gente não deu conta, como sociedade, de colocar isso na agenda pública, dos tomadores de decisão — diz Alice Thuault.

Os tomadores de decisão no Brasil estão empurrando o país para o abismo ambiental. Este governo desprezou todos os alertas, desmontou o Ibama e o ICMBio, tirou dinheiro dos seus orçamentos, não liberou os recursos que tinha em caixa, estimulou insistentemente o crime ambiental por atos, por palavras, por portarias e instruções, passando sempre a boiada nas leis. Espantou até os países que estavam doando para o Brasil proteger suas riquezas.

— Pelo corte de recursos, a máquina pública não está presente. O dinheiro do Fundo Amazônia está fazendo falta nas ações de preservação. O Mato Grosso tem um Corpo de Bombeiros antigo, mas que está sem orçamento. O Prevfogo, do Ibama, este ano não fez a qualificação de brigadistas, por causa da Covid — diz a diretora do ICV.

Perto do Parque Encontro das Águas fica a Baía do Guató, última terra indígena demarcada. Todas as aldeias dos Guató foram destruídas pelo fogo que não começou lá, mas sim em terras vizinhas:

— Hoje recebi a imagem da água que eles têm para beber, parece barro. Na Baía dos Guató foram protocolados vários pedidos para montar brigadas. Estão todos esquecidos do poder público. Primeiro é preciso apagar o fogo, depois será necessário socorrer as comunidades. Os indígenas e também os quilombolas que perderam toda a sua produção de subsistência.

Uma tragédia que se desdobra em várias. De onde veio o fogo? As investigações mostram que 67% da destruição foi consequência de incêndios que começaram em nove pontos, cinco deles em áreas que têm cadastro ambiental rural de fazendas dedicadas à pecuária.

O Pantanal é muito específico. Quem vê tanta água, na época da cheia, acredita que ela sempre estará lá. Mas o bioma é frágil. As águas estão de visita, precisam do Cerrado preservado, porque no Cerrado, que parece seco, é onde nascem as águas. Se a Amazônia arde, o Pantanal fica mais seco. A fragilidade da vida se vê, por exemplo, na Arara Azul. Grande e linda e vulnerável. Ela tem suas exigências. Precisa de uma árvore, o manduvi (Sterculia apetala) para sobreviver. E faz seus ninhos nas árvores velhas que já têm um oco, onde elas se instalam na reprodução. Por um trabalho de 30 anos do Instituto Arara Azul a população dessas aves começou a aumentar. O que será delas ao fim dessa devastação?

O Pantanal é uma das preciosidades do Brasil. A flora é resiliente, ela pode voltar devagar, e com a ajuda de viveiros para o replantio, pensa a diretora do ICV. Mas a fauna está morrendo. Há organizações que estão saindo para hidratar os animais. A natureza do Brasil está pagando um preço alto demais.