quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Quando Che Guevara deitou no chão da Capela Sistina

Che Guevara tinha 29 anos quando, de passagem por Roma, em 27 de agosto de 1959, da cidade sagrada só quis visitar a Capela Sistina. “Quando chegou, ele se deitou no chão para ver melhor os afrescos de Michelangelo”, me contou, em sua casa em Roma, o romancista asturiano Luis Amado Blanco, que foi o lendário embaixador de Cuba junto à Santa Sé e chegou a ser o decano dos embaixadores.

O Che estava de passagem, a caminho do Sudão em uma turnê pela Ásia e o norte da África. Tinha apenas uma manhã em Roma antes de seguir viagem. Quando lhe perguntaram na embaixada cubana o que queria visitar em Roma, esperando que respondesse o Coliseu, as Termas de Caracalla ou o Circo Máximo, surpreendeu a todos dizendo que só queria ver a Capela Sistina no Vaticano.

Não foi uma visita relâmpago, como a da maioria dos milhares de turistas que desfilam diariamente pela cidade. O revolucionário cubano dedicou toda a manhã à Capela Sistina. Ele a esquadrinhou – me contou o embaixador Amado Blanco – em todos os seus ângulos. Ficou horas ali, imóvel, às vezes deitado no chão, enquanto os turistas passavam.

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Nove anos depois, faz agora meio século, o guerrilheiro em conflito com Fidel Castro e que sonhava com uma América Latina comunista, seria fuzilado na Bolívia aos 39 anos. O mito continua vivo e as relações entre a Cuba de Fidel e a Santa Sé ainda são misteriosas. Fidel sempre quis manter boas relações com os papas e teve a inteligência de deixar seu embaixador na Santa Sé durante quase 15 anos sem substituí-lo. Assim, Amado Blanco tornou-se o decano dos embaixadores no Vaticano, encarregado de fazer, uma vez por ano, um importante discurso diante do Papa e de todo o Corpo Diplomático credenciado junto à Santa Sé. Assim, durante anos, era o embaixador da Cuba comunista que pronunciava seu discurso ao Papa e aos embaixadores de todo o mundo.

Aquele estratagema de Fidel me foi contado pelo embaixador, que era um asturiano simpático, cujos pais tinham mudado para Cuba quando ele ainda era criança. Devorador de charutos habanos, ele me obrigava a acender um cada vez que me convidava à embaixada, quando eu era correspondente em Roma. Como nunca fumei, meu charuto apagava imediatamente. O embaixador – que tinha um grande senso de humor e era muito severo naquele rito – dizia que “reacender um habano era um sacrilégio papal”. Quando um apagava, era preciso acender outro novo.

O que me impressionou do embaixador quando me contou sobre a visita do comandante Che Guevara à Capela Sistina foi a surpresa que ele mesmo teve diante da insistência do jovem comandante de não querer ver mais nada em Roma, assim como as horas que passou imóvel contemplando os afrescos hoje totalmente restaurados.

São os mistérios dos personagens que entram na história, tornam-se mitos e nunca conhecemos totalmente. E essa história do Che absorto diante das pinturas da Capela Sistina me fez lembrar que no Brasil está acontecendo uma caça às obras de arte que algumas pessoas consideram provocantes. Também aquelas figuras nuas de Michelangelo sofreram a censura do papa Pio IV, mas foi em 1564, quando mandou o pintor Danielle di Volterra cobrir os nus do Juízo Final com uma braguetta, uma espécie de cueca, razão pela qual foi apelidado de il braguettone. No fim do século XX, o Vaticano, mais liberal, mandou desnudar novamente as pinturas que o Che Guevara pôde desfrutar, como continuam fazendo milhões de pessoas de todo o planeta. Poderíamos dizer hoje que os brasileiros pudicos com os nus da arte podem ser considerados “mais papistas do que o Papa”. A Capela Sistina permanece “nua”.

Mais papista do que o Papa também foi o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que em 2008 mandou cobrir com um sutiã os seios da famosa obra A Verdade Desvelada pelo Tempo, de Giambattista Tiepolo. A obra estava exposta no Palazzo Chigi, residência do primeiro-ministro, e aparecia na televisão toda vez que este era filmado. Temendo que os telespectadores pudessem ficar escandalizados, decidiu censurá-la. O polêmico político, que chegou ao poder depois da operação Mani Pulite, a Lava Jato italiana, ainda carrega processos judiciais por supostos escândalos relacionados a sexo.

Às vezes a vida é muito curiosa.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Vamos encarar a verdade?

O Brasil está exausto de saber que “o sistema” está falido e é preciso mudar tudo. Mas dessa constatação em diante é só escuridão.

“Na crise, de volta ao básico.” É preciso lembrar todos os dias que não existe alternativa à fórmula dos três Poderes independentes respaldados na vontade popular expressa pelo voto universal convivendo harmonicamente. Fora daí se regride ao monarca absoluto. A História não registra outra hipótese.

A “narrativa”, no momento, é a dos Poderes Legislativo e Executivo desmoralizados pela corrupção e encurralados por um Poder Judiciário impoluto batalhando pela reforma dos costumes daqueles perdidos. Mas ela não para um minuto em pé. O sistema inteiro está cevado na corrupção e no privilégio, o Judiciário inclusive e principalmente, só que a blindagem “inata” desse Poder contra investigações externas e pressões diretas do eleitorado mantém suas próprias mazelas fora das manchetes e essa é a conjunção de fatores que o “elege” como o protagonista ideal dos golpes contra a democracia a que assistimos neste continente. O País real, paralisado pelo medo de que as ambições à solta façam tudo degringolar irreversivelmente, sabe que essa briga não é a sua e por isso se mantém fora dela.


A discussão da questão “técnica” supostamente envolvida – o STF deveria ou não ser só uma Corte constitucional? – também é ociosa. Na matriz que inventou esse sistema a Constituição, com 230 anos, tem 7 artigos e 27 emendas estabelecendo os direitos de todos e os limites precisos das prerrogativas do governo. A nossa, com apenas 29 anos, tem por enquanto 250 artigos e 96 emendas, a maioria definindo exceções aos direitos de todos e os privilégios dos titulares do governo e seus servidores e apaniguados. A consequência resumida disso é que se gastam 11% da metade do PIB arrecadada em impostos por ano com funcionários da ativa e outros quase 58% (!!) com funcionários aposentados pela simples e escandalosa razão de que outorgar o “direito” de ganhar sem trabalhar é a moeda com que se compra poder neste país. Por isso o funcionalismo – e por cima dele a casta dos “marajás” de até R$ 500 mil por mês, constituída por membros do Judiciário e do Ministério Público – tem aposentadorias precoces, o que faz com que o número de inativos se multiplique na velocidade dos avanços da medicina, e com proventos médios entre 6 vezes (os do Executivo) e 23 vezes (os do Judiciário e Ministério Público) maiores que os dos brasileiros comuns.

Esse é o problema real!

Todas as distorções das nossas instituições, assim como toda a corrupção que está aí, giram em torno desse poder de distribuir e “legalizar” mais e mais formas de apropriação ilícita do dinheiro público. Só que, como os protagonistas da discussão do resultado disso, na esmagadora maioria – promotores, juízes, políticos, “especialistas” (professores das universidades públicas, ex-ministros do STF, etc.), além de boa parte dos jornalistas –, são, eles próprios ou seus pais, filhos e cônjuges, os clientes desses privilégios, todos hesitam em ser suficientemente claros a esse respeito. É isso, mais o que se “aprende” nas nossas escolas, que mantém o País na desorientação em que está.

As delações premiadas foram boas para destravar os ventos da mudança. Mas logo “o sistema” aprendeu a usá-las para desviar a atenção da evidência maior de que o texto da Constituição e a instrumentalização da lei, muito mais que as violações delas, é que estão matando o País ao legalizar e automatizar parcelas crescentes do assalto sistemático à riqueza da Nação.

Há mais de cem anos as democracias entenderam que na vida real manda quem tem o poder de demitir. O direito de eleger (ou de contratar) desassociado do poder de deseleger (ou demitir) a qualquer momento só conduz à corrupção galopante dos representantes (e dos servidores públicos), como já ficara provado mil anos antes na experiência romana. Por isso elas incorporaram a solução suíça de, num ambiente de estrito respeito ao princípio federalista, dividir o eleitorado em distritos, amarrar todas as ações de governo da vida comunitária aos municípios e dar aos eleitores, em cada um deles, plenos poderes para fazer e desfazer suas próprias leis, chancelar as do Legislativo mediante referendos e retomar a qualquer momento o mandato de seus representantes. Essa combinação – plenos poderes para o eleitor, mas com um alcance “geográfico” restrito – mudou tudo. Resultou num remédio contra a corrupção tão potente que deixou ricos todos quantos o adotaram sem aumentar a instabilidade da nação.

A perna que falta para que o Brasil se reequilibre é ligar o fio terra da nossa democracia na única fonte que pode legitimá-la. Essa briga destrutiva entre Poderes, para tudo quanto diz respeito ao País real, não terá vencedores.

Na receita de Montesquieu o Judiciário não faz nem modifica leis, só executa as que o Legislativo eleito pelo povo escreve. A questão objetiva, portanto, é como mudar o que está aí sem destruir as instituições para as quais a alternativa é a opressão. Se quiser reformar-se dentro da e para a democracia, o Brasil terá de criar caminhos para fazê-lo dentro do e através do Legislativo. Tornar ilegais comportamentos que já foram legais é o caminho, desde que se tenha em vista um futuro ao qual todos possam aderir na negociação de um projeto de salvação nacional. Fazer leis retroativas é amarrar o País a um passado que não pode ser mudado apenas para encurralar adversários na disputa pelo direito de nos explorar.

A chance de ressurreição da democracia brasileira depende de o Legislativo retomar a iniciativa. E isso só se pode dar cooptando o povo para uma batalha decisiva por um futuro sem privilégios. Para essa briga, entretanto – Temer é a prova –, não há meio-termo. É tudo ou nada. Ou se desnuda de uma vez por todas essa esfinge de araque no meio da praça pública, ou ela continuará jantando os trouxas dentro e fora do “sistema”.

Democracia e autoritarismo

O Brasil, ao longo da sua história, não teve uma cultura política democrática. Mil oitocentos e oitenta e nove não passou de uma solução de força. Os republicanos — apesar de 19 anos de propaganda, desde o manifesto de 1870 — não passavam de pequenos grupos espalhados em não mais que cinco províncias. Sua presença na cena eleitoral era mínima. Basta recordar o péssimo resultado na última eleição no Império, a 31 de agosto de 1889. Elegeram apenas dois parlamentares; os conservadores, sete; e os liberais, 120. Chegaram ao poder através de um levante militar. Numa situação nacional e internacional distinta, em 1930, os insatisfeitos com a Primeira República identificaram no golpismo o atalho para o poder. As rebeliões de 1922, 1924 e a Coluna Prestes foram demonstrações de que o voto e o convencimento não faziam parte do ideário mudancista, independentemente do sistema eleitoral, marcado pela fraude. Tanto que, no início dos anos 1930, o vocábulo ditadura era utilizado de forma absolutamente positiva pelas principais lideranças políticas. Na conjuntura de 1964, a defesa de uma saída militar para a grave crise política estava presente em todo o espectro político. Raros eram aqueles — como Francisco San Tiago Dantas — que apostavam na resposta democrática. Durante o regime militar, especialmente após o fracasso dos grupos de luta armada, no campo da esquerda, o golpismo perdeu força; e no lado oposto houve a busca de uma transição democrática iniciada — ainda que timidamente — pela distensão. A inflexão, porém, pouco durou.

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A construção de um estado democrático de direito se transformou numa panaceia. A Constituição de 1988, por mais paradoxal que pareça, é invocada por aqueles que sistematicamente solapam a democracia. O acusado de corrupção — muitas vezes, em vídeos e áudios, aparece negociando propinas milionárias — desdenha dos fatos. Em um primeiro momento, busca se afastar das luzes, orientado por especialistas que se dedicam a esta atividade. Depois chega o advogado — geralmente de um escritório com excelentes relações com as cortes superiores de Brasília. Ambos sabem que o acusado é corrupto. Aproveitam até para cobrar um “plus,” pois o criminoso está em situação delicada. Não perguntam, em nenhum momento, a origem dos pagamentos pelos seus serviços. E quando conseguem evitar a prisão e a condenação do político, o que geralmente ocorre, ficam ainda melhor posicionados neste mercado antirrepublicano aguardando uma nova denúncia. E isto se repete a cada semana. O cidadão, ao ver que o crime compensa, identifica no regime a raiz dos males. Democracia deixa de ser o império da lei, transformando-se em sinônimo de corrupção.

E o que dizer das acusações que pesam sobre o presidente Michel Temer? A elite política vê com naturalidade a acusação de corrupção passiva, obstrução da Justiça e formação de organização criminosa. Temer é aprovado por 3% da população. E a vida segue como se tudo isso fosse normal, e não produto da degeneração da democracia. Quando seus defensores jurídicos utilizam argumentos semelhantes aos da defesa de Lula, não é mero acaso. É que os dois são produtos de um mesmo sistema. Sistema que levou ao segundo turno das eleições presidenciais de 2014 uma presidente que perdeu o mandato por crime de responsabilidade e um opositor que, no momento, está afastado do mandato de senador e é obrigado, por determinação judicial, ao recolhimento domiciliar no período noturno.

O sentimento de impotência domina o cidadão. Fazer o quê? Como participar da vida política? Ou, ao menos, como simplesmente votar? Em quem? O voto ainda tem valor? Muda alguma coisa? A desmoralização das instituições chegou ao ponto máximo. Não há paralelo com qualquer momento da nossa história. O longo domínio petista colaborou em muito para chegarmos a esta situação. Mas não é o único responsável. Basta citar os escândalos do atual governo. A questão, portanto, não é partidária, mas estrutural.

Frente a esta conjuntura, a resposta do cidadão é encontrar uma solução rápida, que considera eficaz. Entende que no sistema que aí está, não há nenhuma possibilidade de mudança. A cada momento em que o estado democrático de direito é invocado por um advogado de corrupto, cresce ainda mais a intolerância à democracia. Uns passam a considerar o golpe militar como a redenção do país; outros defendem o separatismo — é, o separatismo voltou — como meio de acabar com a corrupção e a insegurança.

Citar a Constituição vai ficando um discurso vazio, pois não há uma relação entre a Carta Magna e o cotidiano. Todo arcabouço legal construído nas últimas três décadas não tem, para o cidadão, aplicação prática. Quando milhares de policiais e soldados, com auxílio das Forças Armadas, não conseguem sequer capturar um bandido — como no recente caso da Rocinha e o marginal Rogério 157 — o cidadão pergunta: para que serve esta tal de democracia?

O regime democrático somente é compreendido como algo que está a serviço da cidadania quando, ao menos, demonstra eficácia legal e administrativa. Não é o caso atual. A fratura entre a sociedade civil e o Estado cresce a cada dia. De nada adianta negar a crise. Isto só alimenta o autoritarismo. Michel Temer quer — e deve conseguir — impedir que o STF aprecie a segunda denúncia da PGR. Os parlamentares só pensam na eleição do ano que vem e de como vão manter seus mandatos e seus negócios. O STF — “guardião da Constituição” — continua tomando decisões absurdas. E a democracia pode estar dando seus últimos suspiros derrotada pelo autoritarismo.

Marco Antonio Villa

Viciados em dinheiro

Não deu outra: o presidente postiço Michel Temer vetou artigos da nova Lei Eleitoral (“Reforma Política” uma ova!) que limitavam a contribuição individual para as campanhas. Tirou o que fixava em no máximo 10 salários mínimos essa doação. Fica mantido, então, o farto “teto” de 10% da renda bruta do doador, para os milionários presentearem à vontade seus candidatos.

Temer também acabou com a restrição ao autofinanciamento, de 7% do teto para cargos proporcionais e de vultosos R$ 200 mil para os cargos majoritários. Agora o candidato pode usar seus próprios recursos até o total possível para o cargo que disputa.


Estão sendo chamados de “vetos Doria”, alusão ao prefeito milionário – aquele que vez em quando visita São Paulo – doador de R$ 4,4 milhões para sua própria campanha.

Esses tetos, aliás, foram inseridos na Lei, contra a reclamação de nós poucos. Eles são chocantes para a realidade social do país: R$ 70 milhões para presidente, R$ 21 milhões para governadores, R$ 5,6 milhões para senadores, R$ 2,5 milhões para deputados federais, R$ 1 milhão para estaduais.

Seus defensores dizem que estão bem abaixo do que se gastou nas eleições de 2014. Mas aqueles valores eram o ponto máximo da degradação mercantilista do sistema eleitoral do país, nutrido pelo conluio corrompido de grandes empresas e partidos políticos. Não servem de parâmetro!

Quanto aos vetos de Temer, é improvável derrubá-los quando forem apreciados. Mas, pelo evidente abuso do poder econômico, que fica assim viabilizado, é preciso instar o Tribunal Superior Eleitoral a estabelecer limites mais austeros, na regulamentação do pleito. E, em última instância, recorrer ao Supremo.

Norberto Bobbio (1909-2004) explicitou com precisão o mercado do voto. O que funcionou na Itália (e ainda funciona, apesar da “Mãos Limpas”) vale para o Brasil:

“Um dos modos de conquistar votos é comprá-los e um dos modos para se livrar das despesas é servir-se do poder conquistado para conseguir benefícios dos que possam receber vantagens desse poder. Considerada a arena política como uma forma de mercado, onde tudo é coisa comprável e vendível, o político se apresenta num momento como comprador (do voto), e num segundo momento como vendedor (dos recursos públicos dos quais, graças aos votos obtidos, se tornou potencial dispensador)” (L´Utopia Capovolta, 1990).

Se não fizermos uma mudança radical no modo de financiar as campanhas e na forma de fazê-las, de maneira que o tamanho das ideias valha mais que o tamanho do bolso, continuaremos ladeira abaixo. E as próximas eleições garantirão a continuidade da cleptoburocracia nos Poderes Executivos e Legislativos, estaduais e nacional. Nova roupagem no mesmo corpo doentio e já em putrefação.

PS: impossível não registrar a aguda dor diante da mortandade na creche Gente Inocente, em Janaúba (MG). Só uma fé algo louca pode trazer algum conforto. Pequeno consolo é ver que as lágrimas que a cidade inteira derrama são também de emocionado orgulho por existirem pessoas como a pedagoga Helley Batista, que deu a vida por suas crianças.

Gente fora do mapa

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Loes Heenrik 

Arquitetura da impunidade

O presidente do Senado, Eunício Oliveira, entrou num labirinto, de mãos dadas com os senadores Aécio Neves, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Fernando Collor e Romero Jucá.

Atravessaram a semana exalando ressentimentos e ameaças de retaliação ao Supremo, num levante promovido por Aécio, com o discreto estímulo do presidente Temer e dos seus ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha. Todos são investigados por corrupção.

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“Pode abrir uma crise, uma crise grande”, alardeava Renan. “Não tenho medo, não tenho medo”, bravateava Jucá. Ao lado, Jader jactava-se: “O Supremo é Poder, mas nós somos Poder também!”. Collor apregoava: “Nenhum Poder é mais legítimo do que o Legislativo, que vem sendo achincalhado.”

Eles sonham induzir os juízes do Supremo, na sessão de amanhã, a um ato público de contrição, por terem submetido um dos senadores a inquérito, impondo-lhe afastamento do mandato e ordem para dormir em casa.

Três meses atrás, o STF autorizou que Aécio Neves fosse investigado por suspeita de violação dos princípios constitucionais de “legalidade”, de “impessoalidade” e de “moralidade” no exercício do mandato. A abertura desse inquérito chegou a ser celebrada no Senado.

Aconteceu em julho, na Comissão de Ética, quando líderes do PMDB e do PSDB uniram-se para impedir o nascimento de um processo para cassar o mandato do senador mineiro.

Encontraram na decisão do tribunal um pretexto para arquivar o caso. Argumentaram que somente o Supremo pode processar e julgar integrantes do Congresso em casos de infrações penais comuns. Aécio, claro, comemorou.

O tribunal julgou, dias atrás, um pedido de prisão preventiva do senador mineiro. A procuradoria alinhou motivos em excesso — como corrupção; interferência no processo, com explícita ameaça a testemunha; e descumprimento de ordem judicial enquanto estava afastado do mandato no primeiro semestre.

Os juízes rejeitaram a prisão. Escolheram medidas alternativas, entre elas novo afastamento do mandato e ordem para que Aécio durma em casa. Esses procedimentos são diferentes da prisão preventiva ou domiciliar e estão previstos no Código de Processo Penal que o Senado aprovou há seis anos.

Os senadores, na época, destacaram e separaram em três capítulos específicos do código o significado de “prisão preventiva” (Artigos 311 a 316), de “prisão domiciliar” (Artigos 317 a 318), e de “medidas cautelares diversas da prisão” (Artigos 319 e 320).

No levante promovido por Aécio, agora pretende-se que o Senado confronte o Supremo para garantir imunidade processual absoluta aos parlamentares federais, mesmo quando violem os princípios constitucionais de “legalidade”, de “impessoalidade” e de “moralidade” no exercício do mandato.

Seria a arquitetura de um paraíso da impunidade. A proposta de um embate entre poderes é inócua, até porque faltam ao Senado instrumentos constitucionais para revisar ou anular qualquer decisão do Supremo.

Vai ser difícil ao presidente do Senado, Eunício Oliveira, enrolado na bandeira da retaliação, encontrar a saída do labirinto em que entrou de mãos dadas com Aécio, Renan, Jader, Collor e Jucá.

José Casado

Às urnas em 2018

Temos instituições para garantir a transição rumo à prosperidade, com eficiência e fraternidade entre brasileiros de mentes aguçadas e corações macios

O diagnóstico de corrupção sistêmica está hoje claríssimo para a opinião pública.

O ex-presidente Lula foi condenado por ter recebido suborno da empreiteira OAS no escândalo da Petrobras, enquanto o presidente Temer tenta sobreviver às acusações do dono da J&F por articulações para pagamento de propinas.

A inegável degeneração das práticas políticas foi o resultado da ferocidade na disputa pela ocupação de um disfuncional aparelho de Estado.

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Disfuncional, sejamos claros, para o bom desempenho de políticas públicas nas áreas de saúde, educação, segurança, saneamento, em atendimento às compreensíveis exigências de gastos sociais de uma democracia emergente. Mas um aparelho de Estado que se revelou bastante funcional para a prática de corrupção através do tráfico de influência.

Compra e venda de favorecimento em obras públicas, créditos subsidiados em bancos oficiais, medidas provisórias sob encomenda dos grupos de interesses, permissão ou impedimento de fusões e aquisições empresariais, isenções fiscais, são inúmeras as dimensões em que uma decisiva intervenção estatal pode ser negociada.

Vísceras expostas em praças públicas, a morte da Velha Política em 2017 é incontornável.

O inferno de Lula e agora Temer é um buraco negro que ameaça tragar lideranças políticas corrompidas pelo poder do Leviatã estatal, cuja maldição infelicitou a geração de social-democratas que redemocratizou o país.

Com o despertar de um Poder Judiciário independente, assistimos agora ao grandioso espetáculo de uma nova ordem devorando seus filhos pela exigência de conduta justa e transparente.

Temos instituições para a transição rumo à Sociedade Aberta, muito além da “direita” e da “esquerda”, cujas obsoletas ideologias impediram que eficiência e fraternidade fossem praticadas por brasileiros de mentes aguçadas e corações macios.

A Constituição, o Judiciário e o Congresso impediram descaminhos políticos como os da Venezuela bolivariana. E o Banco Central evitou que falsos diagnósticos amplificassem a escalada inflacionária que desgraçou os primeiros anos e condenou ao martírio a Nova República. O ajuste da Previdência, sob Temer, Maia, Eunício ou Carmen Lúcia, nos dará fôlego e reduzirá as dores do nascimento de uma Nova Política nas urnas em 2018.

Artes e Orifícios

A Arte, assim como o Marcelo Adnet, imita a Vida e a Vida imita a Arte. Por isso mesmo uma está processando a outra por plágio, apropriação indébita e danos morais. O célebre “adevogado” Kakay, de Brasília, já foi contratado, a peso de ouro, para processar e defender as duas partes na disputa. Ao mesmo tempo!

Hordas de brasileiros histéricos resolveram, do dia pra noite, virar críticos de arte da Folha de São Paulo. Furiosos picaretas, armados de marretas, invadem qualquer exposição para fazer valer as suas opiniões estéticas paleonto-conservadoras. Se tiver alguma nudez em exibição, então, é um Deus nos acuda, porque esses caras não podem ver um nu que já pensam em sacanagem zoopedofílica. Pra quem não sabe, Zoopedofilia é a prática de sexo não consentido com filhotes de animais.



Indecente? Ora indecente é o meu salário no O Antagonista, que há mais de um ano é zero. Um zero redondo.  Um círculo perfeito e singelo que poderia ser interpretado por um moralista histérico como uma representação gráfico-figurativa de um pavilhão retofuricular, uma região tabu da anatomia humana, portanto ofensiva à família, a religião e aos costumes. Mais do que isso, é um incentivo à zoofilia, uma vez que, segundo a Isaura, a minha patroa, só pratico sexo animal.

Esses neo-caretas veem sacanagem em qualquer manifestação artística. Para eles, então, o que a Dona Dilma Roskoff fez com as Contas Públicas foi arte. Lula, Zé Dirceu, Vaccari, Renan, Collor, Geddel, Temer e tantos outros são artistas também. E, pior, nem precisam da Lei Rouanet.

A Arte pode ser picaretagem? Sim, pode. A Arte pode ser imoral? Sim, pode. Mas muito mais imoral e indecente foi o Santander que fechou a exposição de Porto Alegre. Curiosa essa posição sexual do banco: atrás dos depósitos da comunidade LGBT –Lésbicas, Gays, Bolsonaros e Travestis, resolveu patrocinar uma exposição de arte transgenérica. Mas não aguentou o tranco e fechou a mostra que já tinha sido paga com a grana do cidadão, alegando estar com dor de cabeça.

No MAM de São Paulo, só porque um sujeito nu, deitado e parado fez uma performance no museu, um monte de militantes do MBL (Movimento Broxa Livre) organizou um protesto nas redes anti-sociais. Entre uma visita a um site pornô e outro, todos foram postar o seu repúdio indignado contra aquela imoralidade.

Para esses caras só serve a arte tradicional, a arte da Academia. De preferência da Academia Militar das Agulhas Negras. Aliás, estas Agulhas Negras podem muito bem ser a representação subliminar de imensos falos afrodescendentes apontando para os céus, num claro gesto de desafio e achincalhe à religião e a fé cristã. Eu mesmo já fiquei nu, deitado no meio de um monte de mulheres que ficaram me bolinando, se esfregando e me manipulando — e não aconteceu nada. Absolutamente nada. Para meu total desespero e desencanto das fêmeas gulosas e insaciáveis.

Mas dirão os guardiães da moralidade: foi uma criança que apalpou o sujeito, isso é pedofilia. Ora bolas, pedofilia é roubar a verba da merenda escolar. Brasileiro vê sexo em tudo. Talvez por isso mesmo é um povo que vive se fo#$%ˆ&#@*%#dendo. O problema é que o mundo está ficando cheio de Bolsonaros de fim-de-semana. Esses manés não podem ver um homem fardado que já ficam  excitados, com um incontrolável comichão em regiões profundas da sua anatomia. Eles querem a volta dos militares. Só não ousam confessar para onde eles querem que os militares voltem.  São uns indecisos enrustidos que quando tomam uma decisão na vida, insatisfeitos, pedem para a gente voltar…atrás.
Agamenon Mendes Pedreira é crítico de artes da Primeira Companhia de Obuses Autopropulsados. 

Paisagem brasileira

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Praia de Pititinga (RN)

Show do Milhão

Um dos avanços da reforma política seria a criação de um limite para o autofinanciamento de campanhas. Essa regra chegou a ser aprovada por deputados e senadores. Para a alegria dos milionários, o presidente Michel Temer vetou a mudança ao sancionar a nova lei.

A Câmara havia fixado um teto de R$ 200 mil para todos os políticos que pretendem bancar as próprias candidaturas. Numa trapalhada legislativa, o Senado tentou derrubar o limite e impôs um valor ainda mais baixo, de R$ 9.690,00.

Agora Temer resolveu o impasse a favor dos super-ricos. Com a canetada presidencial, eles poderão financiar até 100% de suas campanhas. Assim, as eleições de 2018 arriscam se tornar um grande “Show do Milhão”. Em vez de comprar votos, como sempre ocorreu, os magnatas poderão comprar mandatos.

Para um ministro do Tribunal Superior Eleitoral, a derrubada do teto de autofinanciamento representa o primeiro “tiro de canhão” na sucessão presidencial. Ele avalia que o veto terá um beneficiário direto: o prefeito João Doria, cujo patrimônio declarado é de R$ 179 milhões.

Em 2016, o tucano já levou vantagem na eleição de São Paulo ao injetar R$ 4,4 milhões na própria campanha. A autodoação representou 35% da receita do tucano e 57% do orçamento do segundo colocado, o petista Fernando Haddad.
Além de ajudar o aliado Doria, o veto de Temer estimulará os partidos a lançarem outros magnatas. Isso tende a distorcer ainda mais a representação política dos brasileiros. Em 2014, quase metade dos deputados eleitos (248 dos 513) já tinham patrimônio superior a R$ 1 milhão.

É ilusão pensar que os super-ricos vão tirar dinheiro do bolso para bancar suas campanhas, seja vendendo iates ou esvaziando contas no exterior. Um lobista que quiser entrar na política poderá passar o chapéu entre empresários e dizer à Justiça Eleitoral que só usou recursos próprios. Qualquer semelhança…

Mudar ou não mudar

Parei algumas vezes esta semana para pensar 2018. Compreendo o pessimismo em que estamos envolvidos no momento. Mas, olhando para trás, as eleições de 2018 podem se livrar de alguns sérios problemas deste período democrático.

O primeiro instrumento para isso é a Lei da Ficha Limpa. Independentemente até do alcance que a interpretação do STF lhe der, é um filtro imposto pela própria sociedade. Um segundo filtro potencial, que também depende do STF, é acabar com o foro privilegiado. A Ficha Limpa exclui condenados, o foro privilegiado é um refúgio para os que querem escapar da condenação.

Se o Supremo escolher esse caminho sensato, não estará fazendo bem apenas ao processo político-eleitoral, mas a si próprio. Pode se livrar de centenas de processos e, simultaneamente, livrar-se do Código Penal, cuidar mais da Constituição.

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Nas mãos do Supremo está outro fator de mudança: a liberação de candidaturas independentes. Reconheço que é contraditória com o princípio que levou à cláusula de barreira, um mecanismo que exclui partidos pouco votados. A ideia, aqui, era de combater a fragmentação, que torna o País ingovernável e o predispõe ao toma lá, dá cá que marcou o colapso do chamado presidencialismo de coalizão. Mas candidatos independentes estarão propondo mudanças e tendem a ser mais monitorados por seus eleitores, que, nesses casos, costumam ter papel decisivo na eleição. Aliás, se houve um momento neste longo período democrático em que valia a pena testar um novo caminho, esse momento é este.

A posição de procuradora-geral Raquel Dodge foi favorável às candidaturas avulsas. Não há nada que as proíba na Constituição e estão, segundo ela, amparadas no Pacto de São José, que vem a ser a Convenção Interamericana de Direitos Humanos.

Todos esses fatores contribuem para um tipo de eleição melhor que no passado. No entanto, quando penso em 2018 ainda não consigo equacionar alguns problemas das eleições brasileiras que percebi agudamente em 2010. Naquelas eleições descobri um pequeno exército de robôs trabalhando para Sérgio Cabral. Juntamos o material para denunciar o uso de empresas no exterior para produzir mensagens e interferir nas eleições. Mas naquela época era até um pouco esotérico denunciar as trapaças eletrônicas de Cabral. Vejo em pesquisas realizadas no exterior que os partidos brasileiros já utilizam esse mecanismo em grande escala, após a virada da década. Exércitos nacionais e estrangeiros de robôs entraram em cena nas redes sociais.

A eleição de Trump, nos EUA, revelou como a atmosfera é favorável à massificação das fake news. Existem suspeitas da participação dos russos no processo americano. No momento em que o eixo das campanhas se desloca da televisão para a internet, certamente os robôs terão impacto maior agora do que em todas as outras. O único caminho, naturalmente, será multiplicar o combate às fake news, o que já é feito pela imprensa. Num processo eleitoral as coisas acontecem rapidamente, às vezes no apagar das luzes, como os vazamentos contra Macron, na França.

Mesmo aqui, onde há problemas, reside também uma novidade nas eleições de 2018. Mais do que nunca, milhões de pessoas podem se informar sobre os fatos e compartilhar as suas ideias.

Se aquelas expectativas razoáveis se confirmarem no Supremo, aumentam as possibilidades de boas eleições em 2018.

O fracasso do sistema político-partidário é uma evidência para a sociedade. Candidaturas avulsas, grupos renovadores que optem por entrar em partidos, enfim, vai se criando uma base para mudar.

É uma ilusão pensar que novos nomes sozinhos modificam isso. Terão de se apoiar em parlamentares experientes que também querem mudar. Ainda assim, não serão maioria. Mas se representam grande parte da sociedade, jogam com 12, jogam com a torcida.

Pode parecer prematuro adiantar hipóteses para 2018 num país com tantas surpresas. Mas os sinais são de que o ano acabará sem grandes novidades. A segunda denúncia contra Temer caminha para ser rejeitada na Câmara. Não se esperam surpresas por aí, as próprias crises do hamletiano PSDB se parecem com as da primeira denúncia.

Segundo as pesquisas, grande parte da população quer que ele fique até o fim do governo e, ao mesmo tempo, seja investigado. Isso é impossível. Mas, pelo menos, dá um alento a quem votar contra a denúncia. O famoso se ajeita comigo e dê graças a Deus.

É nesse caminho que entra 2018, um ano que vai exigir muito de nós. Será realmente a primeira grande eleição sob impacto direto da Lava Jato. Ela contribuiu para que políticos e empresários saibam que a corrupção é mais arriscada. Ela pode ter filtros e também receber sangue novo.

Claro que todo o quadro depende de novas crises. A do momento envolve Senado e STF. É possível aplicar medidas cautelares contra deputados ou senadores? O Supremo proibiu Eduardo Cunha de ir à Câmara e recolheu Aécio durante a noite. Como resolver essa questão, a não ser pelo próprio Supremo? O embate é um novo centro de resistência às investigações. Se não houvesse foro privilegiado, o STF não teria desgastes pontuais, apenas definiria se juízes podem ou não aplicar medidas cautelares contra acusados.

Se os Parlamentos tivessem resposta adequada a cada caso de quebra de decoro, os juízes não precisariam adotar medidas cautelares. Em alguns países o próprio acusado se afasta, em outros é afastado pelo Conselho de Ética. A mensagem que a resistência ao Supremo passa é a de que medidas devem ser submetidas ao Congresso.

Com as decisões punitivas restritas aos comitês de ética e excluindo o STF, os parlamentares vão criar uma espécie de limbo onde tudo se dissolve. Aliás, é nele que se dissolvem em discursos e troca de favores as denúncias contra o presidente Temer.

Só mesmo em 2018 a sociedade poderá responder a tantos anos de ultraje.

Patéticos patetas

O diabo não há. Existe é homem humano
Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas"


Censura não! Passa da conta de tolerância dos que advogam a tolerância.

Viver no Brasil é negócio muito perigoso. Bomba relógio. Panela de pressão em fogo alto do gás metano da intolerância – siamesa da ignorância.

O que faz brilhar olhos de uns, pode até meter medo em outros. O direito de apreciar ou não é inerente à democracia. Se não aprecia, não veja. Entrou desavisado? Saia. Até proteste. Feche sua porta. Use burca. Corra. Reze. Mas sem impedir que os que apreciam possam ver.

Limite de comportamento é coisa de se impor a si próprio, aos seus.

Censura é treva, ferramenta afiada do autoritarismo. E esse, sempre que praticado, dá M.

Há intensa má intenção em fazer artes e artistas de vilões. Não são.

Desenhos e representações artísticas, corpos masculinos nus, em salas de museu, não merecem histeria e mimimi até de autoridades constituídas. (Fossem corpos femininos podia? Pode, vá. Você aí, moralista convicto, perderia esse selfie? Pedia censura? Ou recomendava - e levava -outros para apreciar o espetáculo? ).

O problemão criado tem focinho de causo pensado, um jeito ajeitado de desviar atenção das mazelas tantas - deles, particularmente, por (mal) feitos ou consentidos. E assim tirar olhos de alhos para bugalhos.

Também ganhar mídia, fazer média com o pensamento médio. Dar uma escapada básica da responsabilidade de governar na real uma cidade falida e em guerra, outra atolada na confusão de seu gigantismo. Danadinhos!

São Paulo merece mais do que um ocasional varredor de ruas, contumaz viajante, ator constante de vídeos-post. Nos derradeiros dias, também praticante da impolidez.

O Rio merece um prefeito que respeite a diversidade do Rio – marca da cidade.

Antes de reforçar a estupidez, um deveria desengomar-se, descer do jatinho - também do salto carrapeta e do sorriso X - para aterrissar na cidade que o elegeu para alcaide, não para candidato a candidato.

O outro deveria descer do púlpito e encarar o diabo concreto que vive no seu quintal. Há uma guerra aí, senhor burgomestre. E não é virtual, nem imaginária. Prefeito não tem polícia, mas deveria ter obrigatório respeito por todos – os que lhe deram votos, os que não. Eleição é eleição. Governo é governo. Cidade não é igreja. Museu também não. É da cidade. Existe para o deleite dos cidadãos. Avisar ao bispo ajuda?

Liberdade não é relativa, nem concedida. Nas democracias - e só nelas - é direito inalienável de todos (até das bestas).

Dá trabalho alcançar e praticar democracia e liberdade de ação, de expressão e de pensamento. Isso é autonomia. Difícil de conseguir! Implica pensar, refletir, compreender e conviver com a diferença. Coisas que dão um trabalhão. E vão muito além de ler, escrever e diplomar-se.

Mais fácil espelhar nas artes diabos que vivem dentro de mim. Histérico, levanto a cruz da censura contra eles – os meus monstros que vejo nos outros.

Quantos dos cruzadeiros pró censura manifestaram indignação pelo menino posto à disposição de um estuprador numa prisão do Piauí? Há milhares de abusados no país. Vítimas de abusos reais. Que governante faz cruzada e post em favor deles?

Muito mais fácil alvejar artes e artistas.

Assim, intransigente apatetado, sigo saudosista do atraso. Minha vidinha besta será protegida pela censura que eu pedi. Eu sem luz, todos no escuro.

Obreiro, carneiro, pago dízimos e promessas para alcançar um paraíso de paredes cinza - sem artes, nem artistas, nem ninguém que ouse praticar bíblia diferente da minha.

PS.: Na ditadura, nos dez anos de vigência do AI-5 (1968-1978), 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música foram censurados. As alegações para cortes ou proibições total da obra eram ao gosto do censor - cenas de sexo, palavrões, sugestão de propaganda política, conteúdo subversivo e o indefectível, “atentado à moral e aos bons costumes”. O órgão responsável por esse “zelo” todo era a Divisão de Censura de Diversões Públicas, que durou até 1988, quando a nova Constituição pôs fim à censura.

Ontem, no Facebook, em comentário sobre um post compartilhado de Caetano Veloso, fui avisada: os artistas que estão defendendo liberdade de expressão vão levar “um coturno no C”. Com detalhe: “O recado é para o Caetano”.

Viver no Brasil anda negócio muito perigoso.

Imagem do Dia

Secret swimming spot....The Narrows. Upper south side of Lake Travis near the community of Spicewood. From Austin take Texas 71, turn north on Spur 191, and proceed approximately one mile to Spicewood. Continue traveling north 1.1 miles on Burnet County Road 410 to CR 411, which is a gravel road. Proceed approximately 1.5 miles north to the entrance for the Narrows Recreation Area.
 Narrows. no lago Travis (EUA)

'Sociedade brasileira cultua a violência

Uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em conjunto com o Datafolha, mostrou que o medo da violência é uma das principais razões para que o brasileiro tenha propensão a posições autoritárias.

O estudo, divulgado na sexta-feira, também apontou que o segmento mais rico da população é o que mais rejeita a ampliação dos direitos humanos e civis no país.

Para o sociólogo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP, hoje há espaço no Brasil para posições políticas e ideológicas que reforçam preconceitos, posições reacionárias e atitudes de intolerância.

"A sociedade brasileira é extremamente violenta, e infelizmente essa é uma característica que tem raízes históricas", diz Lima, em entrevista à DW. "Somos uma sociedade que cultua a violência, o individualismo exacerbado e não valoriza a vida."

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Quais são as principais conclusões do estudo?

A pesquisa mostra que a sociedade brasileira é extremamente violenta, e infelizmente essa é uma característica que tem raízes históricas. É uma sociedade que entende que a forma de resolver os conflitos é por meio de posturas autoritárias e de violência. Ou seja, violência se resolve com mais violência. No caso de apoio a posições autoritárias, o índice atingiu 8,1 numa escala de 0 a 10 – sendo 10 a mais alta propensão. Segundo a nossa pesquisa, as pessoas mais propensas ao autoritarismo são as mais pobres, com menos escolaridade e moradores da região Nordeste do país.

Outro destaque é que as pessoas mais ricas, que ganham mais de dez salários mínimos, são aquelas que, proporcionalmente, mais rejeitam a ideia de ampliação dos direitos humanos e civis, como por exemplo, da população LGBT, das mulheres e dos negros. Nesse caso, o índice atinge 7,83 numa escala de zero a dez. Ou seja, temos uma combinação tóxica no Brasil onde, de um lado, a população mais pobre tem maior propensão a posições autoritárias e, de outro, a mais elitizada não quer aderir à agenda de direitos da nossa Constituição.

Qual é o motivo para que a população brasileira seja mais propensa ao autoritarismo?

Vemos que o medo da violência tem dominado a população adulta no país e, assim, essa questão assume um papel central no contexto atual, em que vivemos uma profunda crise de legitimidade das instituições democráticas. Essa crise abre espaço para posições políticas e ideológicas que reforçam preconceitos, posições reacionárias e atitudes de intolerância e que podem levar a retrocessos dramáticos no que diz respeito a políticas públicas, em especial as voltadas para a área de segurança pública.

Os resultados apontam para a urgência de o Brasil rever a maneira como tem enfrentado a violência e pautado as políticas de segurança pública. Quer dizer, o medo da violência é o maior motor para posições polarizadas, porque a sociedade brasileira vive, na média, amedrontada. Ou interferimos na interdição moral e política da violência como uma ferramenta de solução de conflitos ou estamos criando um ambiente extremamente complexo, que abre margem para sectarismos e posições perigosas para a democracia brasileira.

Por que os brasileiros mais ricos apresentam uma maior tendência de ser contra a agenda de direitos?

Geralmente, as pessoas associam direitos a privilégios. Uma das perguntas foi se "a lei das domésticas interfere indevidamente nas relações entre patrões e empregados". Muitos brasileiros ricos pensam que, se a população tiver seus direitos ampliados, eles não terão mais condições de pagar uma empregada doméstica todos os dias. Então, associa-se ao risco que a mobilidade social oferece aos privilégios que a classe média e os mais ricos conseguiram construir ao longo dessa estrutura de desigualdade, de não direitos. A população do Brasil, historicamente, é relegada ao salve-se quem puder e, em meio a isso, a perspectiva de ampliação de direitos assusta aqueles que, de algum modo, imaginam que conseguiram mobilidade por mérito ou herança. Somos uma sociedade que cultua a violência, o individualismo exacerbado e não valoriza a vida. Nosso futuro depende de reconhecermos na vida o nosso valor máximo a ser preservado e garantido.

Só na Venezuela!?

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É difícil imaginar por que o governo não aceita abrir um corredor humanitário. É uma questão urgente, as pessoas estão morrendo por questões meramente ideológicas, estúpidas
José Félix Olleta, ex-ministro venezuelano da Saúde (1997-1999)

Não há República sem homens honestos

Agamenon Magalhães, governador, ministro, patriarca de Pernambuco, era um político sábio: – “O homem público no poder não compra, não vende, não troca”. Outro sábio, Ortega y Gasset, filósofo espanhol, em 1921, perplexo diante do desfibramento da política e da sociedade espanhola, escreveu “Espanha Invertebrada”, sobre os rumos e o futuro da Nação: – “Uma sociedade míope agrava a enfermidade pública, prestigiando políticos sem virtudes que impõem as suas vontades e interesses em detrimento dos verdadeiros valores nacionais”.

Roberto D’Ávila, com seu talento e competência profissional, entrevistando Lula, na Globo News, tentou tirar leite das pedras, extrair alguma luz de uma cabeça de bagre. A entrevista foi um descalabro. Uma aula torta de como mentir. Podia ter encerrado a conversa relendo relatório da Polícia Federal, publicado na “Folha de S. Paulo” que lista as 15 empresas da família Lula.

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O Brasil teve durante 300 anos uma família imperial. Agora sabe-se que tem uma “família empresarial”, que fez o milagre de chegar a São Paulo carregando uma trouxa e meio século depois ser proprietária destas 15 empresas:

1 – BR4 Participações Ltda /Capital R$ 4 milhões.

2 – FFK Participações Ltda / Capital R$ 150.000,00.

3 – G4 Entretenimento e Tecnologia Digital / Capital R$ 150.000,00.

4 – LFT Marketing Esp. Ltda / Capital R$ 100.000,00.

5 – LKT Marketing Eireli / Capital R$ 100.000,00.

6 – Flex BRT Tecnologia S.A. / Capital R$ 20.000,00.

7 – Flex BRT Ltda / Capital R$ 20.000,00.

8 – LLCS Participações Ltda / Capital R$ 1.000,00.

9 – LLF Participação Eireli / Capital R$ 80.000,00.

10 – Gamecop S.A. / Capital R$ 10.000,00.

11 – LLCS Participações Eireli / Capital R$ 1.000,00.

12 – Touchdowm Prom. de Eventos Esportivos Ltda / Capital R$ 1.000,00.

13 – Gasbom Cursino Ltda / Capital R$ 2.000,00.

14 – Gisam Comércio de Roupas Ltda / Capital R$ 5.000,00.

15 – L.I.L.S. Palestras Eventos e Publicidade / Capital R$ 100.000,00”.

É com essa L.I.L.S. que Lula assina os recibos das fajutas conferências.

O mestre Florestan Fernandes ensinou que o problema do Brasil é que somos um povo atrasado.

1 – O ex-ministro e professor João Sayad, da USP, confirma: – “A Democracia ameaça a República se for dominada pela demagogia, por eleitores mal informados. Não há república sem homens virtuosos: honestos defensores do interesse público e corajosos. A República pode se tornar tirania. República e democracia procuram um equilíbrio delicado. A República vai mal. Falta virtude. Como tornar os homens públicos virtuosos? Deveriam ler os clássicos – Cícero, Catão, Platão, Aristóteles. Só assim homens virtuosos poderiam se candidatar sem ter que jantar escondido com financiadores de currículo duvidosos”. (Valor Econômico)

2 – Professor e diretor do Instituto de Políticas Públicas da UNESP, Marco Aurélio Nogueira: – “A política ficou submetida ao mercado e a representação perdeu substância. A fragmentação e a falta de operacionalidade do sistema político fazem com que a democracia, em alguns países, fique bloqueada e, em outros, passe a ser alimentada por doses expressivas de corrupção e ilicitude. Neste ambiente, os governos e a classe política pioram dramaticamente seu desempenho e deixam suas comunidades sem muitas saídas.” (O Estado de São Paulo)

O PT nasceu para ajudar a iluminar a vida política da Nação. Mas só fez apagar a luz. O Brasil jamais havia descido a um nível político tão invertebrado. Ortega y Gasset não viu nada.

Nuzman é o Michael Phelps do nado no esgoto

O legado mais vistoso da Olimpíada de 2016 é o acervo de assombros protagonizados por Carlos Arthur Nuzman, finalmente engaiolado pela Lava Jato e anexado a uma população carcerária até então carente de um representante dos dirigentes esportivos bandidos. Uma das façanhas aparece no vídeo acima: sem ficar ruborizado, o supercartola que comprara a vitória do Rio finge surpreender-se com o resultado da eleição da sede dos Jogos de 2016.

O choro convulsivo de Lula, que despeja lágrimas de esguicho enquanto Nuzman celebra o sucesso dos fora-da-lei, confirma que se cinismo sincronizado fosse uma modalidade olímpica o Brasil já teria acumulado mais medalhas que as conquistadas por atletas americanos desde os primeiros Jogos da era moderna. Lula sabia de tudo, como de tudo sabiam Sérgio Cabral, João Havelange, Orlando Silva, Eduardo Paes e outros festeiros reunidos na capital da Dinamarca naquele 2 de outubro de 2009.

Outras duas proezas de Nuzman bastam para conferir-lhe o status de fenômeno merecedor de manchetes em todos os idiomas. Primeira: abastecido pela usina de ladroagens administrada pela quadrilha de Sérgio Cabral, o presidente do COI gastou uma fortuna de espantar qualquer Geddel na compra dos votos que decidiram a disputa, mas conseguiu enfiar nos próprios bolsos o suficiente para duplicar seu patrimônio.

A segunda façanha entronizou Carlos Arthur Nuzman no panteão dos semideuses do esporte. Com uma única Olimpíada, um jogador de vôlei aposentado conseguiu 16 quilos de ouro. E entrou para a História como um Michael Phelps do nado no esgoto.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Por que o 'novo' envelhece prematuramente. E a hipótese de um Benjamin Button eleitoral

O “novo para 2018” enfrenta, na primavera, um primeiro outono. Seu nome mais vistoso, João Doria, perde substância eleitoral. No front dos políticos, o establishment reagrupa-se contra o protagonismo do Judiciário. E a Lava-Jato segue, só que cada vez mais restrita ao plano operacional: as pessoas continuam sendo presas e processadas, mas o efeito político dilui-se.

Uma explicação é a progressiva mudança na correlação de forças. Quanto mais inimigos você decide ter, mais aumenta a dificuldade de derrotá-los todos de uma vez só. Por exemplo, desde o movimento da PGR contra o atual presidente da República, a “faxina” perdeu o apoio de quem a via apenas como útil instrumento para remover o governo Dilma Rousseff.

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Papel decisivo nessa tendência tem tido a resistência de Michel Temer. Se conseguir travar na Câmara dos Deputados a segunda denúncia do ex-PGR, o mundo da política terá imposto aos adversários uma segunda e talvez decisiva derrota estratégica. Ainda haveria muitas vítimas fatais até o fim da guerra, mas já se saberia quem no fim vai ganhar e quem vai perder.

Nenhuma correlação de forças nos universos restritos da política e do jornalismo seria porém suficiente, não estivesse acompanhada de dois fatores econômicos decisivos: a baixa e declinante inflação, com o automático alívio nas contas dos mais pobres, e a política econômica agressivamente liberal, uma antiga reivindicação dos mais ricos.

Daí que o governo Temer viva uma situação aparentemente paradoxal: é o mais mal avaliado desde a redemocratização, e não vê nenhuma mobilização social relevante para mandá-lo para casa. Ajuda nisso também a proximidade da eleição. Pois ela passa a concentrar os planos de quem espera assumir o Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2019.

Mas se a eleição logo ali fosse o fator decisivo, talvez tivéssemos um cenário como no ocaso de José Sarney: um desgaste agudo dos nomes “velhos” e uma busca persistente pelo “novo”. Que acabou sendo Collor, como poderia ter sido Lula ou Brizola. Nunca Ulysses, Aureliano, Covas ou Maluf. A renitente hiperinflação era mesmo um obstáculo difícil de transpor.

2018 não está, por enquanto, com jeito de 1989. A melhora, mesmo lenta, do cenário econômico tira alguma musculatura do tentador discurso de “mudar tudo o que aí está”. O “novo” perde momentum. E há até espaço para que o próprio Temer, quem sabe?, venha a ter mais peso na sucessão do que autorizam extrapolações lineares para o futuro.

Se conseguir travar a segunda denúncia, Temer aumenta muito a chance de chegar sentado na cadeira no dia da eleição. Especialmente se conseguir relançar em algum grau sua agenda e evitar a degeneração vegetativa. A chance é pequena mas não é zero. E governo sempre é governo, nunca é demais lembrar. Ainda mais no Brasil.

*

O envelhecimento do “novo” autêntico abre espaço para um “velho” que consiga rejuvenescer no processo. Um Benjamin Button eleitoral. A aversão aos políticos e o medo da instabilidade econômica dão espaço para projetos de “mudança segura”. Pode ser Alckmin. Mas também pode ser Lula, se conseguir concorrer. O que hoje parece improvável.

*

A proibição das contribuições empresariais fará da eleição de 2018 um parque de diversões para os milionários, as igrejas e o crime organizado. Foi o caminho que se escolheu ao ceder à lógica de uma “política sem dinheiro”. Coisa aliás tão factível quanto, por exemplo, fazer jornalismo sem dinheiro. O inferno está mesmo lotado de boas intenções. Fica a dica.
*

Começou o bombardeio sobre Jair Bolsonaro. É razoável esquadrinhar os candidatos à presidência, em especial os mais fortes. Mas não é disso que se trata. Bolsonaro foi poupado enquanto era politicamente útil. Agora querem descartá-lo. Faz sentido. Ele deixa o eleitorado centrista exposto ao assédio da esquerda. Um risco desnecessário.

Quem leva o ouro...


Quem ganhou com a reforma são os políticos que já têm poder, cargo, que são conhecidos e controlam a máquinas partidária. É bom fortalecer as siglas, mas como é que se vão formar novas lideranças? A reforma, até agora, favorece a cartelização das legendas

Mara Telles, professora de Ciência Política da UFMG

O homem nu e a política pelada

A querela do homem nu e das artes pornográficas dá o que pensar sobre o sucesso de mídia de ideias conservadoras. Provoca também perguntas sobre o motivo do fracasso de debates públicos mais cruciais. Por exemplo, sobre quem paga a conta da falência do Estado, conflito que está para explodir.

O frenesi dos embates recentes pode ser transitório, mas o assunto está na pauta pelo menos desde o Junho de 2013. A guerra cultural é no mínimo sintoma. Do quê? De conversões maciças ao conservadorismo? Dos desertos que se formaram na política?

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Há ojeriza a partidos, escasseiam organizações político-sociais para vocalizar interesses, a direita sem voto reforma a economia e a esquerda no poder acabou em catástrofe. O corpo político parece uma geleia, sem ossos.

Mas a guerra cultural não é só a política por outros meios.

Pouco antes do fechamento da exposição Queermuseu, o Datafolha publicava nova rodada da pesquisa que tenta medir a adesão a ideias de direita e esquerda. A esquerda cresceu desde 2014, voltando a empatar com a direita, parte da qual lidera a guerra ao homem nu. Embora irônico, o resultado não diz muito.

Outra vez, nota-se na pesquisa que as pessoas podem se definir com ideias daqui ou dali, de resto mais tolerantes do que as tigradas de redes sociais.

Três de cada quatro brasileiros acham que a sociedade deve aceitar a homossexualidade. A maioria é contra pena de morte, armas e aborto. Para 80%, crer em Deus melhora as pessoas e drogas devem ser proibidas. Mais da metade acha que sindicatos são meros politiqueiros. Imigrantes pobres são bem-vindos para 70%.

Dos que votariam em Lula e Alckmin para presidente, 31% caem na categoria de esquerda comportamental, assim como 19% dos eleitores de Bolsonaro e 39% dos adeptos de Marina Silva. Quando se juntam as respostas a questões econômicas, a esquerda perfaz 44% do eleitorado de Lula, 37% de Alckmin, 50% de Marina e 29% de Bolsonaro (no total do país, 41%).

Parece difícil dizer que andem por aí massas de indivíduos conservadores ou com identidades unívocas de qualquer tipo.

Isto posto, há, sim, apelos a massas com certas (mas nem todas) ideias conservadoras. Organizações de direita, uma novidade, procuram mobilizar esse público em seu ataque decisivo à ruína do PT e a grupos identificados à esquerda ("intelectuais", "artistas", sindicatos). O conservadorismo se tornou um mercado político grande também porque a esquerda oficial cometeu um atentado suicida contra o país.

A desarticulação dos partidos com a sociedade e a penúria de organizações sociais intermediárias leva pré-candidatos a presidente a buscar bases em grupos fora da política, organizados e sensíveis a certas ideias conservadoras, como os neopentecostais, 21% do eleitorado.

Falta algum tipo de organização para repropor confrontos em outros termos. Há interesse em esvaziar o debate da crise econômica: quem paga o talho maciço do Estado ou mais impostos?

Por 20 anos, mal e mal, PT e PSDB deram alguma ossatura ao confronto. Antes de se tornarem pelegos do PT, movimentos sociais davam costelas à política. Organizações empresariais fraquejam. A guerra cultural ocupa o corpo da política desossada.

domingo, 8 de outubro de 2017

Imagem do Dia

21 pontes antigas (Foto: bbe022001/Reprodução)
Ponte da Lua, em Taipei (Taiwan)

O furacão conservador e outras tragédias artificiais

A natureza anda mesmo implacável com a gente.

Está decidida a nos varrer da face do planeta com seu espanador de catástrofes.

Nós, brasileiros, demos a sorte.

Estamos a salvo de erupções vulcânicas, raramente temos terremotos e não há registro de nevascas nos livros de História.

Em compensação, o que nos falta em tragédias naturais, compensamos criando tragédias artificiais.

Desastres criados pela mão do homem, sem nenhuma relação com as forças do meio-ambiente.


A primeira dessas tragédias é o Tsunami de Corrupção.

Uma onda de roubalheira que vai se formando aos poucos nos subterrâneos, nos quartos de hotel, nos porta-malas, nas repartições públicas do segundo escalão.

A marolinha, então, cresce até invadir o Congresso Nacional e as salas de estar do Executivo com uma força de dimensões inimagináveis.

No rastro do Tsunami de Corrupção vêm sempre crises econômicas, desemprego e destruição de sonhos e esperanças.

Tal qual o tsunami natural, que apaga ilhas inteiras e arranca árvores centenárias pela raiz como se fossem de brinquedo, o Tsunami de Corrupção arranca de seus tronos os empresários e políticos enraizados à gerações.

Afunda empresas que pareciam sólidas como rochas.

Outra tragédia artificial criada aqui em nossas terras é a Inundação de Incompetência.

Começa com uma garoa ininterrupta de equívocos e má fé.

O despreparo, a burocracia, o nepotismo e o corporativismo vão se acumulando até atingir um nível alarmante.

Um dia a barragem política não aguenta e rompe causando uma inundação de prejuízos e devastação sem precedentes.

A Inundação de Incompetência ocorre em áreas específicas do país, notadamente na saúde pública, saneamento e educação.

Tem mais: a virulenta Epidemia Evangélica.

Em sua variante não agressiva, a Epidemia Evangélica surgiu nas igrejas e cultos espalhados pelo país.

Em pouco tempo se propagou — com fúria bíblica — para as Assembléias. Legislativas.

A contaminação do Congresso Nacional foi instantânea.

Aí adeus.

A Epidemia Evangélica mandou para a UTI o Estado Laico.

E não existe cura conhecida.

Todas essas tragédias já seriam suficientes para nos apagar do mapa.

Mas o pior guardei para o final: o Furacão Conservador.

Tenho até medo de descrever.

Começa como uma brisa as vezes confundida com um refresco de ideias.

De uma hora para outra os ventos da mudança começam a girar no sentido anti-horário.

E quando nos damos conta, é tarde demais.

O olho do Furacão Conservador é a ignorância.

É de lá que emanam rajadas terríveis de nacionalismo, xenofobia, preconceito e até militarismo.
O Furacão Conservador não poupa ninguém.

Escolas, museus, minorias, movimentos sociais são todos arrancados de seus direitos mais fundamentais.

E olha só: não quero ser alarmista nem nada, mas estudiosos dizem que existe um terrível Furacão Conservador em formação.

Não garantem, mas à boca pequena dizem que vai atingir categoria 5 em outubro do ano que vem.

Espero que estejam errados senão, meu amigo, a gente vai implorar por um meteoro.

Mas já não dorme!

 
Se brasileiro soubesse tudo que sei, seria muito difícil dormir
Cármen Lúcia, presidente do STF

A vez dos oportunistas

Ideológicos, por motivação religiosa ou, principalmente, por oportunismo, o Brasil tem registrado nos últimos tempos constantes ataques à liberdade de expressão em praticamente todos os setores. No fundo, são ataques à Constituição. Por consequência, ao estado democrático de direito. Diz o artigo 220 da Carta que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição. O parágrafo primeiro afirma que nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social e o parágrafo segundo estabelece que é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

Para que a coisa não corresse frouxa, os constituintes de 1987/88 tiveram o cuidado de tornar também regras constitucionais a proibição do anonimato, exceto para resguardar a fonte de informação e o direito de resposta e à indenização quando houver dano moral. Observe-se que o direito de resposta e à indenização só pode ser pedido depois de publicada a informação, pois não há censura prévia.

Portanto, não passou de puro oportunismo a emenda do deputado Áureo Ribeiro (SD-RJ) à reforma política e eleitoral que permitiria a retirada, sem necessidade de decisão judicial, de conteúdo na internet que possa ser interpretado como discurso de ódio, disseminação de informações falsas ou ofensa em desfavor de partido, coligação, candidato ou de habilitado a se candidatar. Por estar carregada de inconstitucionalidade, o presidente Michel Temer decidiu vetar a emenda.

Charge O Tempo 07/10/2017

Também foram oportunistas as manifestações do prefeito de São Paulo, João Doria, em vídeo postado no dia 30, no qual condena a performance de um artista que ficou nu, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, e a “Queermuseu”, realizada pelo Santander Cultural em Porto Alegre, mostra essa encerrada depois de ameaças porque alguns setores a consideraram herege ou um tributo à pedofilia. “Afrontam o direito, a liberdade e, obviamente, a responsabilidade.” Ele ainda qualificou a performance do artista de “libidinosa” e de “absolutamente imprópria”. No momento da performance, uma mãe entrou com uma criança no recinto e a induziu a interagir com o artista. Daí, a gritaria. Na entrada havia uma observação sobre o fato de o artista estar nu. Por sua vez, no Rio, o prefeito Marcelo Crivella decidiu dificultar a montagem da mostra “Queermuseu”.

Vale repetir o que diz a Constituição, em seu artigo 220, parágrafo segundo: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. 

Ainda nesta semana, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, foi procurado por um grupo de deputados, liderado por Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), pastor da Assembleia de Deus. O grupo, oportunista, pressionou o ministro a dizer que a performance havia sido um crime. O ministro escorregou aqui e ali e acabou por dizer que, em sua opinião pessoal, houve desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

Sá Leitão é ministro da Cultura num Estado laico. Ele pode até ter uma religião. Mas, como ministro, cabe a ele insistir no distanciamento entre uma coisa e outra. Como ministro, ele não tem de tomar partido e deve respeito à Constituição. Tem é de defender a arte como instrumento de subversão cultural e de manifestação libertária.

Quando ministro do STF, Carlos Ayres Britto costumava dizer que, por ser um direito pleno, a liberdade de expressão não permite regulamentação por parte do Estado nem pode ser objeto de emenda constitucional. É uma expressão dos direitos e garantias individuais, o que é uma cláusula pétrea.

Nem por isso está livre dos oportunistas.

Gente fora do mapa

fruits and flowers

Um dos maiores problemas do país é a promiscuidade institucional em Brasília

O advogado e economista Celso Serra tem reiterado aqui na “Tribuna da Internet” que a construção de Brasília teve alguns reflexos altamente negativos, devido à promiscuidade institucional que acontece na capital, e ninguém tem a menor dúvida a respeito. Basta assinalar a intimidade verdadeiramente incestuosa entre o presidente Michel Temer e o ministro Gilmar Mendes, membro do Supremo e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, que tem impunemente afrontado a legislação e participado de julgamentos que envolvem direitamente o chefe do governo, seu amigo, irmão, camarada.

Outros integrantes do STF também agem assim, como Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski, amigos pessoais do ex-ministro José Dirceu, que também não se declararam impedidos de julgá-lo e de gentilmente lhe concederem liberdade, podendo circular livremente em Brasília. Toffoli, aliás, também não se sentiu constrangido em determinar a soltura do ex-ministro Paulo Bernardo, seu amigo há anos, que chefiou uma quadrilha no Ministério do Planejamento para desviar dinheiro de empréstimos a aposentados e servidores ativos.


Da mesmo forma, o ministro Marco Aurélio Mello também libertou Aécio Neves, seu amigo há muito anos, e até elogiou “os serviços prestados ao país” pelo senador flagrado em gravíssimos atos de corrupção, envolvendo a própria irmã e um primo, que foi filmado pela Polícia Federal ao receber uma mala de dinheiro para entregar ao presidente licenciado do PSDB.

Diante de tantos exemplos nada republicanos, não causa surpresa que também o neoministro Alexandre de Moraes, nomeado por Temer, de quem é amigo pessoal há muitos anos, esteja participando de julgamentos que envolvem diretamente o chefe de governo, em afronta à legislação em vigor.

Como o exemplo vem de cima, em breve não haverá mais suspeição ou impedimento de magistrados e membros do Ministério Público, pois os dispositivos legais entrarão no rol das leis tipo “vacina”, que não pegaram.

 A propósito da crise do Supremo, o advogado Antonio Pedro Pellegrino escreveu artigo em O Globo, na última quinta-feira, dia 5, em que reitera teses antigas que precisam ser adotadas o quanto antes, como a mudança da sistemática de escolha dos ministros dos tribunais superiores e a necessidade de restringir ao máximo a subida de processos para exame pelo Supremo, como ocorre em todos o país minimamente organizados.

O mais interessante no artigo é o exemplo da Alemanha, onde a Suprema Corte está convenientemente instalada em Karlsrule, a 750 km da capital Berlim, e este afastamento é proposital, justamente para evitar a promiscuidade entre os Poderes da República.

Em seu artigo, Pellegrino lamenta o alto custo que teria a retirada estratégia do Supremo para bem longe do Planalto Central, mas este argumento não tem validade. Um país que dispõe de R$ 1,7 bilhão para gastar a cada dois anos no custeio de campanhas eleitorais, além de consumir R$ 900 milhões anuais para distribuir entre os partidos, com certeza este país tem condições de instalar o Supremo em qualquer lugar do território nacional.

Engana que o Brasil gosta

O que chama a atenção no caso da prisão de Carlos Arthur Nuzman, o eterno cacique do Comitê Olímpico Brasileiro, não é apenas a corrupção exposta, mas o grau de empulhação que as autoridades — as políticas e as esportivas — conseguem vender para o público, que, por sua vez, a aceita bovinamente.

Um pouco de memória: quando o Brasil foi escolhido para ser, sucessivamente, sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, a tese vendida pelos dirigentes políticos e esportivos era a de que o país mudara de patamar, estava encaixado entre os grandes do mundo.
Não era apenas a nação alegre e musical que o mundo admira, mas também uma potência perfeitamente capaz de organizar os dois eventos que mais atenção concitam no planeta.

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O então presidente Lula, no discurso em que defendeu a candidatura do Rio, disse que havia participado fazia pouco da cúpula do G20, na qual havia sido desenhado “um novo mapa econômico mundial”. Completou: “O Brasil conquistou o seu lugar” (nesse suposto novo mundo). Escolhido o Rio, Lula chorou, Sérgio Cabral, então governador do Rio, chorou, a delegação brasileira emocionou-se, Nuzman também chorou.

Pena que, como se vê agora, o Brasil não conquistou seus Jogos Olímpicos por ter entrada em um suposto novo mapa-múndi econômico, mas por ter praticado seu ancestral esporte favorito, a corrupção. Comprou os jogos, para ser breve.

Como se fosse pouco, a compra dos Jogos abriu a porteira para uma série de obras nas quais, como aparece na investigação em curso, houve o tradicional superfaturamento e as propinas, esquemas em que o prisioneiro Sérgio Cabral ganha medalhas de ouro — mesmo em um país em que elas são mais comuns do que arroz-com-feijão.

O povo alegre e musical divertiu-se, no entanto, com a dupla escolha. Desandou a cantar “sou brasileiro/com muito orgulho/com muito amor”.

Passados apenas oito anos do que Lula chamara de “momento mágico”, os dois máximos dirigentes do esporte brasileiro (Nuzman e José Maria Marin, da CBF) estão presos, o que só comprova o óbvio: os caciques do esporte não poderiam ser diferentes dos caciques políticos, uma penca destes também na cadeia ou denunciados ou condenados, mas ainda soltos (caso de Lula, por exemplo).

O “muito orgulho” da canção foi substituído pela vergonha, mostrou o Datafolha em junho: 47% dos brasileiros entrevistados à época afirmaram ter vergonha de serem brasileiros.

Na noite de quinta-feira (dia 5), cruzei nos corredores da ESPN com Juca Kfouri, um Quixote quase solitário na denúncia dos desmandos das cúpulas do esporte. Juca acaba de lançar um livro de memórias cujo título diz tudo: “Confesso que perdi”.

Disse-lhe: “Ânimo, Juca, você ainda é novo o suficiente para ver um dia um país melhor“. E ele: “Nem meus filhos verão. Quem sabe os netos“.

Que pelo menos os netos, os meus e os dele, não sejam tão facilmente enganados já seria um progresso.

Dias de amargura

Enfrentamos na última semana acontecimentos assustadores e que não espantaram mais por estarmos numa época de calamidade generalizada, em plena overdose de notícias aterrorizantes. Leva ao espanto: será verdade? A que ponto chegamos?

A semana iniciou-se com 59 pessoas exterminadas e 527 baleadas em Las Vegas, pior que filme de terror. No país que não sabe conter e disciplinar a compra de armas, dá nisso mesmo.


Aqui, até as Olimpíadas do Rio de Janeiro, que se encerraram aplaudidas no mundo todo com o discurso de Carlos Nuzman, mostrou tratar-se de um evento inserido nos propinodutos e no mar de corrupção. Parece que, como em outros fantasmagóricos projetos do quilate do pré-sal, do Mundial de futebol, da transposição, dos aeroportos no deserto e de inúmeras obras públicas, por detrás a motivação é criar vórtices, entre urgências patrióticas, para tragar montanhas de recursos públicos. Mais uma do aloprado Sérgio Cabral.

O império da corrupção onipresente revelou mais essa faceta até então desconhecida. Atrás da fachada “Olimpíadas”, mais um esquema para desviar bilhões em recursos amputados das contas de alívio à miserabilidade.

Abateram-se sobre os cidadãos mais revelações e gravações de acertos criminosos que apresentam figuras sem escrúpulos e sem moral, comungando o deslumbre para riqueza e luxo, absolutamente incompatíveis com suas funções públicas.

Não bastasse isso, o incorrigível Congresso Nacional aprovou, e o presidente sancionou, o financiamento público de campanhas eleitorais com R$ 1,7 bilhão. Isso para os partidos bancarem suas eleições de 2018 e sem adotar qualquer medida que diminua os gastos e enquadre em regras austeras as eleições. Coloca-se o povo a bancar as eleições retirando R$ 500 milhões das emendas orçamentárias dos parlamentares, ou seja, recursos destinados às obras aguardadas pelo povo dos Estados e dos rincões. Outro acinte foi não possibilitar o voto nominal de uma matéria dessa importância.

O que se consumou foi a perda de um recurso para inserir mais de 700 mil crianças, hoje excluídas das creches, entre os milhões de não atendidos, exatamente por falta de verbas.

A criação de mais esse fundo é execrável, aprovado anonimamente no apagar das luzes de uma semana sofrida. Mas ficou claro que os mesmos demagogos que condenavam o “distritão misto”, como solução de país subdesenvolvido, conseguiram fazer muito pior: dar a cada um dos parlamentares R$ 2 milhões para se perpetuarem no cargo em 2018 ou levar bolada para casa.

Ainda proibiram as candidaturas avulsas, que constituem um direito nas mais livres democracias, para não se submeter aos esquemas das organizações partidárias. Isso, sim, de país de Terceiro Mundo que tem uma casta incrustada no poder.

Outro capítulo da semana: Cesare Battisti, interceptado tentando atravessar os confins do Brasil. Um assassino que matou pelas costas quatro pessoas e deixou um rapaz paraplégico na Itália. Uma figura que foi protegida, pelo governo brasileiro, para ser subtraída à Justiça de seu país. O Brasil mostrou ser generoso com assassinos perversos, e ao mesmo tempo cruel com sua população mais carente, privando-a de R$ 1,7 bilhão.

Isso tudo para os desavisados não tem relação com a tragédia de Janaúba, com o extermínio de criancinhas queimadas vivas por um desgraçado que se suicidou em seguida.

Entretanto, cada sociedade constrói seu destino com suas energias positivas e infelizmente negativas, seus vícios e egoísmos. Produz os efeitos e seus méritos. Não há evento que não tenha um peso direto no conjunto e especialmente as ações de seus membros mais importantes, dos líderes, das elites da nação. Daqueles que, elevados às alturas, são responsáveis por dar um exemplo.

Nessa época se artificializa e se dissimula, e nosso povo é vítima assim de desleais, de seres vorazes e sem sentimentos. E, quando isso acontece, o destino se apresenta, a Gomorra se aproxima da destruição.

Tirando os poucos parlamentares que prestam, os partidos dominados pela ganância devem ser enfrentados com as armas da democracia. Cassados pelo voto popular. Criando uma corrente que se negue a votar em quem destrói a nação e quem faz uso da verba tirada dos inocentes.

Vittorio Medioli