sábado, 22 de outubro de 2016

Moro e a morosidade da Justiça

Fosse eu governo, daria um pouco mais de atenção aos indicadores econômicos do trimestre em que Michel Temer assumiu o comando do navio. Eles mostram claramente que a sociedade ainda está muito refratária ao tal “clima” de melhorias anunciadas pelo governo, como reduções de tarifas que não chegam ao consumidor ou alívios que não aliviam nada. Apesar da sinalização quase despercebida de que demos um cavalo-de-pau na rota de colisão em que nos encontrávamos, não parece que a economia tupi-guaraná tenha finalmente saído do atoleiro em que se encontra já há tanto tempo. A meu ver, a razão é simples. Não basta sinalizar o caminho; é necessário começar a percorrê-lo.

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Não duvido que haja em setores do governo ─ e também da sociedade ─ gente que acha que um bom final para essa novelinha bolivariana é que a Famiglia Lula vá se exilar na terra dos cassinos e nos deixe em paz, para trabalharmos feito burros de carga para o próximo bando de ladrões que se apresentar na cédula eleitoral em 2018. Não faltam gangues no horizonte formado por 35 partidos de plástico que ostentamos por aqui, todos prontos para dar forma e substância para mais um golpe da esquerda marreta e seus comensais do erário, todos ávidos por voltarem a “uma boquinha pública e uma bandeirinha enfiada na cueca” que tanto os delicia na vida.

Nessa toada, o governo será governo se enfrentar esses escombros do socialismo pilantra e suas raízes na coisa pública. A sociedade vem deixando isso bem claro ao surrar o candidato mineiro e consagrar o paulista na campanha municipal onde os tucanos têm poleiros. Estamos todos fartos de sustentar picaretas. O sinal de que precisamos para saber que este país ainda tem justiça, leis e hierarquias que vale a pena defender é o fim da morosidade generalizada com que os entes públicos atacam o problema. Mirem-se no exemplo do juiz Sergio Moro, meus caros. Mirem-se no exemplo do próprio Temer. Há uma montanha de escombros à frente. Vamos arregaçar as mangas e fazer valer o carguinho público em que cada um está sentado?

Imagem do Dia

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Parque Nacional de Yorkshire Dales (Inglaterra)

Polícia versus política

A política brasileira continua refém da polícia. A prisão de Eduardo Cunha reabriu o leque de especulações punitivas, que vão de Lula a Michel Temer. A caixa preta de Cunha é a porta de entrada da Lava Jato no PMDB, sucessor e velho parceiro do PT, no poder e no delito – sobretudo no delito. Mas não é só Cunha, claro.

Há múltiplas delações premiadas em curso, de empresários, doleiros e operadores, algumas já concluídas, acrescentando novos dados e personagens aos crimes de rapina, perpetrados ao longo dos últimos 13 anos e meio contra o Estado brasileiro.

Não se sabe o que daí ainda virá, mas sabe-se que a Lava Jato está longe de seu fim, e recentemente obteve prorrogação de um ano em suas investigações. Mas o que se sabe já convulsiona a República.


Há, entre os infratores, além da cúpula do governo anterior, personagens que, nesse período, figuraram na oposição (tucanos, inclusive), e ainda os que estavam e continuam na situação – isto é, gente do PMDB. Tudo isso, claro, gera instabilidade política, com reflexos na economia. Quem quer investir num campo minado?

A hipótese de Michel Temer vir a ser atingido direta ou indiretamente por essas revelações não é remota. Já teve de demitir ministros e é possível que haja outros na fila. Como se não bastasse, há o processo contra a chapa eleitoral em que figurou ao lado de Dilma. O ministro Luiz Fux, do STF, considerou possível que, no processo em curso no TSE, Temer possa se dissociar de Dilma.

A jurisprudência, no entanto, vai em sentido contrário, o que daria ao fatiamento das campanhas um selo de casuísmo, enfraquecendo ainda mais a autoridade moral do atual presidente, que ainda corteja sem êxito a simpatia da opinião pública.

O legado econômico do PT é devastador. A PEC 241, que estabelece o teto de gastos públicos, nada mais é que o retorno à lógica contábil, em que só se gasta o que se tem. E é um desafio ao gestor, que terá de estabelecer o que de fato é prioridade.

Se, por exemplo, estivesse em vigor no início do governo Dilma, o Brasil não teria promovido nem a Copa do Mundo, nem as Olimpíadas, a menos que as considerasse (como as considerou) mais prioritárias que educação, saúde, segurança, programas sociais, obviamente prejudicados por gastos adicionais nada modestos.

O resultado aí está: R$ 170 bilhões de déficit no orçamento do próximo ano, 12 milhões de desempregados e milhares de empresas fechadas. Não basta, porém, dar racionalidade às contas. É preciso que o governo sinalize com alguma estabilidade. E é impossível fazê-lo quando abriga ainda gente sob suspeita, alguns já citados nas investigações policiais. O país quer tanto a estabilidade quanto o saneamento moral de sua classe dirigente.

No momento, porém, essas coisas colidem - e não há como excluir uma em favor da outra. A prisão de Cunha não terá resultados imediatos. É óbvio que ele irá delatar, já que não pretende ver mulher e filha presas, nem passar o resto da vida na prisão.

Mas a delação é precedida de negociações, em que o delator tem de provar a utilidade do que delatará. Cunha chega com a maior parte de sua história já conhecida. Mas a parte que resta, e que envolve nomes graduados, pode fazer a diferença.

Resta saber o que ele está disposto a contar. E aí a Praça dos Três Poderes balança. Ele é não apenas um arquétipo do político brasileiro contemporâneo, mas alguém que se tornou íntimo das altas esferas do poder, desde os tempos de Collor de Mello.

Lidou com a esquerda, a direita, o subsolo e a sobreloja. Foi sempre um personagem de segundo escalão, alçado ao primeiro exatamente por quem mais hoje o critica: o PT.

Sua prisão foi vista como preâmbulo à de Lula, o que não é necessariamente verdade. A situação de Lula envolve outro roteiro, cujo timing só a Força Tarefa conhece, mas cujo conteúdo foi antecipado na célebre entrevista dos procuradores, há um mês.

Lula foi considerado chefe da organização criminosa que promoveu o assalto à Petrobras e a outras estatais em mais de duas décadas de exercício do poder. Cunha é peixe pequeno diante disso. O que têm em comum é uma conversa agendada com o juiz Sérgio Moro, em que o veículo disponível é um camburão. Cunha já foi.

Compra às claras e há muito

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Com o Bolsa Família, generalizado, querem um modelo de fidelização que pode levar à eternização no poder. A compra de voto agora é institucionalizada (com o programa)
Gilmar Mendes, ministro do STF

O grileiro dos Jardins

O maior desmatador da história recente da Amazônia é filho de um rico e tradicional pecuarista de São Paulo. Ele próprio operava sediado no bairro dos Jardins, na capital. Até ser preso, comandava um esquema sofisticado de desmatamento, grilagem e falsificação no Pará, que contava até com profissionais de geoprocessamento para enganar os satélites de monitoramento. Denunciado por índios, o caso levou a recente operação conjunta entre o IBAMA, a Polícia Federal, o Ministério Público e a Receita Federal, revelando detalhes sobre como hoje se organiza o crime na expansão da fronteira agropecuária amazônica.

Área desmatada ilegalmente
Era fevereiro de 2014. Luciano Evaristo, Diretor de Proteção Ambiental do IBAMA, chegava na garagem da sede da instituição em Brasília e conseguia ouvir um burburinho alto vindo do escritório. Dentro de seu gabinete, pintados para guerra, mais de trinta índios kayapós esperavam por ele com arcos e flechas. Luciano teve o cuidado de pedir que depositassem as armas antes de começarem a conversa.

O Plano Básico Ambiental (PBA) do licenciamento da rodovia BR-163, que liga Cuiabá (MT) à Santarém (PA), dá aos kayapós da Terra Indígena Mekrãgnoti, o direito a receber recursos do governo para compensação de impactos decorrentes da obra. Em 2014, desconfianças do governo de que os índios estariam desmatando no entorno da Mekrãgnoti levou a retenção desta verba. Os índios não eram os culpados pelo desmatamento, mas eles sabiam quem era. Foram até Brasília a procura de Luciano Evaristo para denunciar um criminoso.

“A conversa foi dura”, relembra Luciano. Tão logo os kayapós se foram, ele tratou de levantar as imagens de satélite da região em busca das áreas alvo das denúncias. “Não achei nada nos satélites que indicasse operação de desmatamento em larga escala”. Ainda assim, resolveu confiar nos índios. Luciano desembarcou em Mekrãgnoti em abril de 2014. Lá, um grupo de lideranças kayapós se uniu à equipe de fiscalização do IBAMA. Usando um sistema de radioamadores para repassar informações entre si - sinal de telefone celular não pega - os índios já haviam mapeado a localização de acampamentos de desmatadores na floresta.

Encontraram 18 acampamentos. Somados, foram embargados 14 mil hectares. “A maior área já encontrada pelo IBAMA aberta por empreitada de um só infrator ambiental na floresta amazônica”, conta Luciano. A ação ficou conhecida como Operação Kayapó. Presos 40 trabalhadores, logo muitos começaram a falar. Um mesmo nome, então, se repetia. Começava aí a investigação que uniu instituições e resultou, pela primeira vez, na prisão de um chefão do crime operando na floresta.

O maior desmatador da história recente da Amazônia é filho de um pecuarista milionário de São Paulo. Antônio José Junqueira Vilela Filho – o AJJ Vilela, vulgo Jotinha, nasceu e cresceu em um império bovino montado pelo pai, Antônio José Junqueira Vilela. Junto com a família, Jotinha operava um esquema sofisticado que envolvia desmatamento em série, grilagem de terras públicas, lavagem de dinheiro, falsificação e trabalho escravo no Pará.
"Em São Paulo, empresas de fachada serviam para que o grileiro movimentasse as altas quantias de dinheiro que iam para financiar a atividade ilegal de desmatamento, ou servir de crédito para atrair compradores das terras griladas"

O nome de Jotinha começou a circular pelas páginas de embargos do IBAMA no Pará nos idos de 2009, embora ligado a áreas desmatadas menores. Foi entre 2012 e 2014, revelam as investigações, que as motosserras de Vilela Filho trabalharam sem descanso. Ao serem presos, ele e seus parceiros acumulavam denúncias de destruição que somavam 30 mil hectares de floresta no município de Altamira (PA), área equivalente ao território de cidades como Fortaleza (CE) ou Belo Horizonte (MG).

A operação Rios Voadores, que prendeu a quadrilha, foi deflagrada em 30 de junho de 2016, após dois anos de quebras de sigilo bancário e interceptações telefônicas. No dia D, contou com um efetivo de 95 policiais federais, 15 auditores da Receita e 32 servidores do IBAMA, distribuídos pelos estados de Pará, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. A Justiça Federal de Altamira expediu 52 medidas judiciais, entre 15 prisões preventivas e mandados de busca e apreensão.

Jotinha, primeiro considerado foragido, apresentou-se à justiça uma semana depois. Dias após a operação, escutas telefônicas interceptaram Ana Luiza Junqueira Vilela Viacava, irmã de Jotinha, que passava férias nos Estados Unidos, coordenando de longe a ocultação e destruição de provas contra o irmão. Ana Luiza foi presa ao desembarcar de viagem. Os três filhos de Antônio José Junqueira Vilela - Jotinha, Ana Luiza e Ana Paula - todos acusados de participar do esquema, são figurinhas fáceis da noite paulistana. A família circula entre celebridades e políticos. Na internet é possível achar menções a eles em colunas sociais, frequentando eventos exclusivos e recebendo vips para festas em mansões no bairro dos Jardins, de classe média alta em São Paulo. Ana Luiza leva o sobrenome Viacava do marido Ricardo. A família Viacava é de igual peso na história da pecuária brasileira e seus patriarcas são amigos de longa data. Ricardo Viacava, além de cunhado, era o braço direito de Jotinha na operação criminosa.

Vilela Filho é hoje o homem que recebeu o maior valor em multa aplicada a um só infrator ambiental – R$ 119,8 milhões, somadas em dez autos de infração referentes à Operação Rios Voadores. Ele é acusado de movimentar o equivalente a R$ 1,9 bilhão entre 2012 e 2015, em operações ilegais. Legou à sociedade, segundo os cálculos do IBAMA, um prejuízo ambiental estimado em R$ 420 milhões.

Cunha juntou-se aos seus

Afeito ao debate político, sei que sempre há quem busque convencer e vencer sem ter razão. Os meios para alcançar esse resultado foram estudados por Arthur Schopenhauer, que listou 38 estratagemas úteis a tão torpe objetivo. O último na lista do autor e o mais vil de todos na minha opinião, é aquele em que o debatedor, sentindo-se perdido, deixa de lado o tema e passa a atacar a pessoa de seu adversário. Schopenhauer dá a isso o nome de argumentum ad personam. Recentemente, os adjetivos fascista, coxinha, golpista, direita raivosa, cumpriram esse objetivo. Idêntica intenção motivou a associação, tão insistentemente apontada quanto falsa, de que o impeachment era uma iniciativa de Eduardo Cunha apoiada por gente como ele. O inverso também não é verdadeiro.

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O tema era outro e os fatos não foram esses. Em março de 2015, a nação saiu às ruas clamando contra a corrupção e pelo impeachment de Dilma, dando origem às dezenas de requerimentos nesse sentido que se acumularam sobre a mesa de Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados. Durante o ano inteiro, Cunha os reteve, a oposição se conservou irresoluta, e o PT não se defendeu das denúncias, delações e investigações da Lava Jato. Em vez disso, preferiu atacar os manifestantes, acusando-os de terem, pelo velhaco Eduardo Cunha, os mesmos sentimentos de amor sem medida nem juízo que os petistas mantinham e mantêm por Lula e seus comparsas.

Cunha não era líder nem modelo de coisa alguma para os milhões de famílias brasileiras que clamavam às instituições em inolvidáveis e pacíficas concentrações cívicas. Ele era apenas o sujeito que tinha na mão a caneta que podia fazer andar o processo. E note-se: fez o possível e o impossível para esfriar as manifestações. Ao insistir na tese de que o impeachment não era uma iniciativa do povo nas ruas, mas um plano de Eduardo Cunha, o PT cuidava de transferir ao procedimento a improbidade do infame presidente da Casa.

A história haverá de registrar que há apenas sete meses, no domingo 13 de março deste ano, deputados, senadores, ministros do STF, dirigentes de partidos políticos e demais membros da cúpula do Estado brasileiro, acomodaram-se em seus sofás para assistir as manifestações pelo impeachment. Se fossem pouco expressivas, ele estaria cancelado. O que testemunharam, porém, foi o rugido das avenidas e praças do Brasil, a assombrosa mobilização de 6 milhões de cidadãos cobrando deles, em seus sofás, o cumprimento dos respectivos deveres. Ali Dilma perdeu o mandato. Além da motivação por crime de responsabilidade, sobrava motivação política. Eduardo Cunha? Ora, o Cunha! Juntou-se aos seus. Ele foi o estafeta do requerimento e o 38º artifício petista contra a vontade soberana da comunidade nacional.

Nesta semana, foi fornecida e autenticada a prova de que o povo brasileiro vale muito mais do que imagina quem jogou o país na sinistra situação em que se encontra. Só entre os membros da organização criminosa, em qualquer lado do balcão, a prisão de Cunha causou taquicardia e hipertensão arterial. A população? Ah! A população festejou o evento. Vibrou com a iniciativa de Sérgio Moro, naquelas horas em que o solitário ex-presidente da Câmara seguia para Curitiba. E uma lufada de ar mais puro varria os céus da República.

Percival Puggina

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Viva o Mensageiro!

Ao ler ou ouvir o farto noticiário sobre a corrupção no Brasil, onde milhão, bilhão, trilhão é lugar comum, ouço claramente a voz do professor Raimundo, criação do genial e saudoso Chico Anísio, a invectivar o espectador com seu delicioso bordão “E o salário mínimo... ó?”.

Pois é, querido professor, ainda estamos sem repostas para sua pergunta. Cada vez com menos dinheiro no bolso, mais nos espanta a quantidade assombrosa de dinheiro que passava de mão em mão, por baixo dos panos, e que se não fosse nossa aguerrida Imprensa continuaria a passar com velocidade e silenciosamente.

Ou você, leitor, imagina que saberíamos sobre o gracioso presente que a senhora Sergio Cabral recebeu por ocasião de seu aniversário, comemorado no Principado de Mônaco, se não fosse a Imprensa?

A viperfish, 2 foot of terrifying deep sea predator. Look at those astonishing teeth!:
Para quem ontem andou entusiasmado lendo sobre a prisão do ardiloso Eduardo Cunha a ponto de não ter tempo de ler mais nada, repito aqui uma notícia muito interessante: o empresário Fernando Cavendish é levado pelo governador Sergio Cabral à joalheria Van Cleef & Arpels, em Monte Carlo, e lá paga com seu cartão de crédito o presente de 800 mil reais que o governador daria à sua mulher. Não, a notícia não menciona se Cabral tinha alguma arma apontada contra Cavendish. Será que foi a voz melíflua do governador que hipnotizou o empresário e o fez aceitar esse encargo?

Claro que esse anel será um parágrafo menor no livro que num futuro distante falará sobre a gulosa corrupção que afundou e tentou destruir o Brasil, e que o teria conseguido, não fosse a Imprensa sempre atenta e voltada para o bem do país. Como publicou ontem em O Globo a jornalista Maiá Menezes: “(...) Foi de investigações da imprensa que saíram informações fundamentais para abastecer as investigações da Lava-Jato”.

A corrupção é tão antiga quanto a prostituição. Não é uma criação brasileira. As paredes do Senado Romano registraram muitos discursos sobre o roubo de dinheiro público. “Cui prodest?”,pergunta cunhada pelo Cônsul Lúcio Flávio tantas vezes repetida pelo grande orador Cicero ao falar dos erros e crimes cometidos contra a República que correu o Mundo Romano e chegou até nós, é a pergunta que a Justiça brasileira agora faz: “A quem interessa?”.

Para responder à pergunta tão fundamental, precisamos da ajuda inestimável da Imprensa, pois sem ela quantos anéis não passariam despercebidos?

Robert Kennedy (1925/1968), quando Procurador-Geral da República no governo de seu irmão Jack, declarou: “Não acredito que repórteres possam substituir um Procurador da República, mas a Imprensa tem um papel investigativo muito importante. Reportagens sobre corrupção no Governo, extorsão e condições impostas pelo crime organizado, são grandes auxiliares na manutenção da Justiça em nossas comunidades e em todo o país”.

Nada mudou muito nestes últimos anos. A Imprensa continua a ser um grande auxiliar na vida de um país. Não é à toa que Donald Trump, aquele tipo extravagante que imagina chegar à presidência dos EUA apenas baseado em seus trilhões de dólares, agora se volta contra a Imprensa e ameaça, se for eleito, abolir a Primeira Emenda da Constituição Americana, aquela que garante ao povo americano a Liberdade de Expressão e proíbe o Congresso de restringir a Imprensa ou os cidadãos de falarem livremente.

Cui Prodest, Trump? Só mesmo a fulanos como você.

A governança criminosa

Vai-se findando a semana; a paciência e a esperança se escoando cada vez mais pelos buracos da cidadania. As balas dos corruptos deixam cada cidadão mais esburacado do que parede em Mossul. Lá é a guerra que enfileira corpos, empulha destroços. Mas aqui, aonde alardeiam paz, os números das desgraças são muito superiores.

Zdzisław Beksiński:
Zdzisław Beksiński

Os mortos são alvejados por balas perdidas (sic), pelas facadas feminicidas, pela violência infantil, pela incúria administrativa dos governantes. Se a Cruz Vermelha, no Iraque, não pode chegar às áreas em conflito, aqui os remédios e assistência não chegam aos hospitais, postos de saúde, UPAs.

A paz, no país abençoado por Deus, é adubada com sangue, suor e sofrimento ... do cidadão.

Não há aqui Daesh em luta contra o governo, mas o próprio Estado criminoso em guerra contra o cidadão. É o terrorismo de Estado com os mascarados de políticos arrasando o país.

O que não falta no Brasil é facção criminosa e crime organizado em todas as instâncias. A marginalidade de ontem, restrita às favelas, que foram estigmatizadas como antros de bandidos, não era nada ao que se vê nestes tempos.

O crime se institucionalizou e mesmo facções criminosas com sucursais em todos os estados e até em países vizinhos não foram as únicas a se especializarem.

O crime entrou na veia do Estado. Vive-se o terror do crime dando as cartas em todas as esferas governamentais.



Aguentar uma ladainha de "Cunha! Cunha! Cunha!" é fechar os olhos para o principal problema: o crime se generalizou da marginalidade aos altos poderes. O país é uma chaga de tantos punhais políticos   
Luiz Gadelha

A literatura da distopia

Foram necessários romances que mostravam bárbaros regimes totalitários, fábulas com porcos, gangues violentos, controle biológico, uso indiscriminado de drogas e queima de livros para finalmente entendermos como era impraticável o modelo de utopia construído há alguns séculos atrás. Por isso são tão importantes os autores de "1984", "Laranja Mecânica", "Admirável Mundo Novo" e "Farenheit 451".

Como vimos no já publicado A Literatura da Utopia, as tentativas de adequação do presente para alcançar uma sociedade perfeita acabaram por desencadear uma desordem na organização racional do mundo. Muitas vezes, fizeram-nos viver submetidos a valores distorcidos e no risco de uma eterna aceitação de factores hostis que são meio para um fim que parece justificá-los: a perfeição.
Ao perceberem isso, autores como Aldous Huxley e George Orwell resolveram desconstruir os conceitos de utopia existentes. Segundo eles, a moralidade humana não conseguiria seguir uma evolução tão ligeira e, mesmo nos casos em que as sociedades perfeitas são alcançadas, a personalidade corrompida do homem colocaria tudo a perder.

As chamadas distopias podem ser entendidas filologicamente como "utopias negativas". Este neologismo foi cunhado por Gregg Webber e John Stuart Mill num discurso ao Parlamento Britânico em 1868: "É, provavelmente, demasiado elogioso chamar-lhes utópicos; deveriam em vez disso ser chamados dis-tópicos, ou caco-tópicos. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável."


Detalhe de capa de "A revolução dos bichos"

Na literatura, as utopias sempre possuem raízes no presente e são taxadas como o caminho ideal a ser seguido - mesmo que impraticável. Nas distopias, não há qualquer ligação com o presente: partem da utopia já alcançada. Nelas, os problemas actuais seguiram como que camuflados pela perfeição aparente e, a certo momento, eclodem da forma mais bruta. Estes romances geralmente são contados do ponto de vista de uma personagem consciente imersa na estupidez colectiva. São explorados recursos como a coerção física e moral, o uso de drogas e robots e o monopólio do conhecimento, todos agindo de forma directa na contenção socialA actual idolatria ao género literário pode ser explicada pela crescente visibilidade da política de esquerda no âmbito contemporâneo. Vários dos autores desta "escola" foram activistas políticos da oposição e deixaram claros seus fundamentos no pensamento Marxista. George Orwell, por exemplo, conviveu muito tempo com pobres e operários. Apesar de odiar os conflitos entre os partidos de esquerda, dizia-se socialista e simpatizante de partidos anarquistas. Conseguiu se tornar um crítico de sua própria ideologia:as suas magnum opus são 1984 e A Revolução dos Bichos (O Triunfo dos Porcos, em Portugal); na primeira retrata um regime totalitário que, através de constante supervisão e monopólio da História, constrói uma sociedade colectivista auto-punitiva; no segundo, uma sátira directa ao stalinismo mostra que o governo do Estado sempre será susceptível às fraquezas humanas, desmembradas pelo carácter sedutor do poder.

Outros autores também levantaram questões que hoje se mostram mais presentes do que nunca. Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo - escrito num período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial -, descreveu um futuro hipotético onde estaríamos aprisionados pela obrigação de bem-estar, seja através da divisão social, do uso indiscriminado de drogas reguladoras ou do controle biológico - uma espécie de eugenia. Isso numa época onde tentativas de clonagem e fertilização in vitro não passavam de experiências fracassadas.

Anthony Burguess, em Laranja Mecânica (obra imortalizada no cinema por Stanley Kubrick, em 1971), via, num futuro indeterminado, que a predisposição humana à violência não acompanharia o ritmo da evolução intelectual, o que resultaria num colapso da sociedade e esdrúxulos e impositivos métodos de contenção psicológica desta característica "primitiva" baseado no Método Ludovico, uma espécie de behaviorismo radical levado ao extremo.

Ray Bradbury, autor de Fahrenheit 451 (adaptado com louvor por François Truffaut, em 1966) formula um futuro onde a principal arma de opressão utilizada pelo Estado é a censura dos livros, o que faz da televisão o único (e manipulado) instrumento de informação e diversão. É um ensaio sóbrio (ainda que fantástico) sobre a censura e os limites entre entretenimento e alienação que meios de comunicação em massa devem respeitar.

Discutir os problemas sociais atuais através de romances satíricos muito bem elaborados foi o recurso que muitos autores utilizaram para chamar a atenção para os problemas que a eterna busca pela sociedade perfeita encara. Os já considerados clássicos da literatura moderna revolucionaram a forma como pensamos, enxergamos e lidamos com o destoamento da utopia para onde a sociedade caminhava. Há quem diga, inclusive, que já estamos inseridos em distopias tais quais nos livros.
Sergio Coletto

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O segredo do sucesso é ofender o maior número possível de pessoas 
George Bernard Shaw

Esse perigoso vazio da política. E depois?

Com certo constrangimento, ao que parece (Estado, 18/10), peritos internacionais que terão de examinar queixa enviada pelos advogados do ex-presidente Lula com relação a procedimentos do Estado brasileiro que envolvem o ex-chefe do governo disseram desconhecer a questão. Segundo um desses peritos, “na melhor das hipóteses o tema deve entrar na agenda em meados de 2017” (embora nela já esteja protocolado). A denúncia é de “abusos de poder” do juiz Sergio Moro e de procuradores da Operação Lava Jato, além de “parcialidade” do Judiciário. Será examinado pela Convenção Internacional de Direitos Políticos. Mas, conforme este jornal, com o acúmulo de atrasos, provavelmente “a questão não será tratada antes do fim de 2017”.

Resistirá durante quase um ano e meio? Com a balbúrdia nas nossas discussões políticas, ainda terá relevância? Principalmente não estando entre 25 casos prioritários já selecionados pela convenção?

O Partido dos Trabalhadores (PT) “contempla agora a perspectiva de se desmanchar como organização partidária, porque não poderá mais, talvez nunca, contar com a sedução do Estado para amalgamar forças progressistas que sustentem o mito do populismo hoje desmoralizado de Lula da Silva e seus cúmplices, boa parte dos quais devidamente encarcerada”. Tudo isso estaria conduzindo ao “grande racha que se delineia no partido (...) agora como “10.º em número de prefeituras conquistadas” (...). O fato é que a desconstrução do PT, até recentemente inimaginável, parece provável” (Estado, 18/10).

Já o historiador e professor da Unesp Albert Aggio pensa (18/10, A2) que os resultados eleitorais indicam, se não o fim do partido, ao menos o fim da era eleitoral de predomínio do PT. Não à toa, “voltou-se a falar em refundação do PT”, em ‘nova esquerda’ e mesmo numa “outra esquerda”. E mais: “O resultado eleitoral nada mais fez que jogar uma pá de cal no projeto de poder do PT, sem remissão”. E agora?

Os diagnósticos de que há um “avanço do conservadorismo”, afirma este jornal, não convencem, apenas levam mecanicamente a pensamentos como “fora Temer”, “fora o golpe”. O tempo exigiria “uma outra esquerda”, plural, democrática e reformista, “para ingressar no século 21 com, corpo e alma novos”. Mas do lado conservador também não se vislumbram novos caminhos. Quase invariavelmente surgem as velhas propostas, quase unicamente de defesa e até de ampliação dos velhos formatos dos capitais financeiros – em parte para compensar a remuneração desse tipo de investimento, principalmente externo, mas com forte influência nos índices internos de juros e de inflação.

Bom layout:

Ao mesmo tempo que a situação se radicaliza no campo das palavras e até de algumas situações, seguimos nos impasses. O governo prepara – informa este jornal (13/10) – “uma campanha publicitária direcionada ao Nordeste para informar que a região vai entrar no sexto ano consecutivo da estiagem. Será a seca mais prolongada dos últimos 100 anos”, já com a previsão de colapsos de abastecimento de água para consumo humano em Campina Grande e pontualmente em Fortaleza. E, inacreditavelmente, o objetivo primeiro é evitar que o presidente da República “seja responsabilizado pela falta de água numa região em que já é impopular”. E mais: “O governo avalia que, se preparar a população para o problema, a reação será minimizada (Coluna do Estadão, 13/10). Só isso, mesmo com 6.800 carros-pipa atendendo a 3.500 localidades?

E onde estão pensamentos mais abrangentes para um país como o Brasil, que poderia ter posição privilegiada, com território continental, sol o ano todo, quase 13% de toda a água superficial existente no planeta, a maior biodiversidade planetária em vários biomas, imensa riqueza mineral? O que se vê, neste momento, é o início de uma discussão sobre a privatização do Aquífero Guarani, com 1,1 milhão de quilômetros quadrados – o maior depósito subterrâneo de água, que abrange as Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste –, sem lembrar que água é bem que se pode esgotar ou ter seu uso inviabilizado, como na região de Ribeirão Preto (SP). Ou ainda diante da proposta de fracking em vários pontos, condenada pela comunidade científica.

O que é possível ver neste momento é a total ausência de concepções políticas nacionais ou sua transposição para projetos políticos, sua discussão em campanhas municipais, estaduais ou nacionais, que levem a formulações capazes de preencher o vazio que nos cerca, à direita, à esquerda, no centro. Um marasmo preocupante, só quebrado em certos momentos, como o que este jornal registrou (18/10) com o assassinato do coordenador de campanha do candidato do PMDB em Porto Alegre e o ataque a tiros ao comitê do candidato Nelson Marchezan (PSDB).

Enquanto isso, seguimos com um índice brutal de desemprego, acima de 10%; mais de metade de nossas residências não são ligadas às redes públicas de saneamento – e quase tudo o que é ali coletado é despejado sem tratamento em rios (só agora se começa a despoluir os Rios Tietê e Pinheiros; mais de 10% das habitações urbanas não recebem água tratada); a poluição ambiental urbana vai literalmente à estratosfera, com a emissão de poluentes por carros e motos crescendo 192% em duas décadas.

Seria ingênuo supor que as corporações políticas, os ocupantes de cargos públicos – eleitos ou não – não tenham consciência desse quadro. Mais provável é que ele esteja umbilicalmente ligado às indicações para os cargos por motivos eleitoreiros, como as manifestações em praça pública explicitam. Mas há indicações de esgotamento, apesar das resistências dos beneficiários, sejam eles detentores do poder ou seus beneficiários. Com consequências que podem ser até dramáticas.

Diante da visibilidade do quadro, melhor não postergar soluções. Pode ter consequências muito graves.

Um pouco de jazz

As vacas profanas e as superfaturadas

Sempre que o Brasil tem pela frente um desafio monumental como o destes tempos de tanta intolerância e insensatez,em meio a tanta gente escabriada como ultimamente, me consolo e me animo ao lembrar-me da constatação de Goethe - mais difícil do que derrotar o monstro e remover-lhe os destroços.

Quem está de fora, querendo, pode ver melhor. As lentes dos óculos ou das meninas-dos-olhos ficam mais límpidas. Os que seguem no picadeiro desse circo montado com o maior conforto em qualquer espaço onde seja possível amealhar algum dinheirinho, ainda apostam naquele perdão prometido aos que não sabem o que fazem.

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Ora, não sabem. Sabem e muito. Não apenas sabem como até ensinam suas artes e manhas aos que chegam. Logo saberão que não sendo apadrinhados por um desses Corleones, e os são muitos em diversas frentes, não terão futuro na organização marginal a que pejorativamente chamam de política.

Impressionante ver em cores nítidas como a rapaziada aprende rápido a se dar bem, sem temor de consequências. Foi-lhes ensinado que quanto mais processos criminais, melhor. O foro privilegiado faz desaguar todos para enxurrada que leva à prescrição, que consolida a impunidade.

Ouço muitos dizendo que depois da Lava a Jato não vai ter lugar para tantos criminosos que passando-se por políticos se aboletaram nas facilidades do clientelismo, do toma lá dá cá.

Ouvi no rádio que um Deputado do Maranhão, ou de sobrenome Maranhão, exigiu uma Vice Presidência da Caixa Econômica Federal para levar à votação um projeto de interesse do Governo. Antes, na votação do impeachment, um Senador, aliás, socialista, emplacou um apadrinhado na direção de um Banco estatal.

A que servem essas ocupações?

O monstro incorporado na desastrosa presidência da senhora Dilma restou vencido, não sem antes causar os maiores prejuízos à economia, à coesão social, enfim ao que resistiu no arcabouço institucional. A estratégia da tomada do Estado por prazo ilimitado pela via do aparelhamento dos três poderes não se completou a tempo e, por isso, não funcionou.

Remover agora os destroços do monstro que se mostrava imbatível e que agora jaz inerte sob o sol e a chuva na Praça dos Três Poderes não é tarefa para tão poucos patriotas nessa urgência que a realidade social e política impõem.

No Ministério da Agricultura,por exemplo, não era possível fechar contrato. Nem dar seguimento, a qualquer providência que dependa de alguma cópia em papel.

Sem receber o que fora contratado, a empresa prestadora dos serviços retirou todas as copiadoras e agora, já vencido o prazo do contrato, tudo está a depender de uma licitação.

Para economizar despesa com hotel em Tóquio, Temer preferiu viajar à noite. O fuso horário de 24 (vinte e quatro) horas atrasou a notícia.

No início da tarde de ontem a Polícia Federal prendeu Eduardo Cunha em Brasília. Desde a véspera ele já havia até arrumado a mala. No avião presidencial que voltava ao Brasil, passava da meia-noite. Temer dormia.

Na véspera, horas antes do Juiz Moro assinar a ordem mandando prender Cunha, estou uma rebelião num manicômio em Franco da Rocha, município de São Paulo. Alguns fugitivos foram capturados. 55 (cinquenta e cinco), não.

Edson Vidigal

A esquerda é muito maior do que o PT

Cavalheirismo é machismo - PapodeHomem:
Não só no Brasil, mas em todo o mundo democrático, vivemos um momento de ebulição no campo das forças de esquerda, com uma profunda discussão em torno do papel dos partidos que compõem esse espectro ideológico e os seus desafios nos dias de hoje. No caso brasileiro, é evidente que o retumbante fracasso moral dos governos de Lula e Dilma Rousseff gerou um forte impacto sobre os grupos mais progressistas, como se a esquerda se resumisse ao PT e seus aliados. Trata-se, evidentemente, de uma tese falaciosa e desprovida de qualquer sentido.

O desastre lulopetista, que chegou ao fim por meio do impeachment da ex-presidente da República, deixou marcas indeléveis no PT, no país e nas esquerdas – associadas, indistintamente, ao desmantelo e à corrupção que afundaram o Brasil. O que temos acompanhado, com tristeza e preocupação, é um sentimento crescente de repulsa em relação aos políticos e partidos que possuem uma visão mais igualitária, humanista e voltada ao social, enquanto, por outro lado, se fortalecem discursos de ódio, intolerância, preconceito ou de conteúdo xenófobo e até mesmo fascista em determinados momentos, frutos de um reacionarismo cada vez mais exacerbado.

Uma das consequências desse fenômeno é o retorno de um anticomunismo anacrônico e descabido, como se ainda fizesse sentido se manifestar contra algo que é página virada na história. Basta conhecer minimamente a política brasileira para constatar, sem muito esforço, que o PT não é e nunca foi comunista. As raríssimas experiências comunistas que ainda se mantêm em pé, entre as quais Cuba e Coreia do Norte, não significam nada de relevante nem oferecem qualquer perspectiva de futuro – o regime norte-coreano, comandado por um bizarro ditador, se assemelha a uma dinastia imperial. Há também a China, que mantém um sistema político ditatorial, mas há muito tempo abriu sua economia para o capitalismo.

Do início ao fim, os governos de Lula e Dilma sempre estiveram afinados com os interesses da banca financeira, que nunca obteve lucros tão fabulosos quanto no período lulopetista. Nos últimos 13 anos, a educação e a saúde continuaram sofrendo com um declínio de qualidade vergonhoso. As famílias brasileiras se endividaram em decorrência do incentivo desenfreado ao consumo. Como resultado de tamanha irresponsabilidade e de uma série de equívocos cometidos na política econômica, o Brasil amarga uma recessão de proporções nunca antes vistas em nossa história, com mais de 12 milhões de desempregados. Como se tudo isso não bastasse, a tão prometida reforma agrária não saiu do papel e o déficit habitacional só se agravou. É a população mais pobre, fundamentalmente, quem mais sofre com o descalabro produzido pelo PT – cuja cartilha seguida enquanto governo nada teve a ver com uma política minimamente de esquerda.

É importante entender que o campo ideológico progressista no Brasil, formado por um amplo leque de partidos com visões de mundo distintas, não se restringe ao próprio PT. Isso ficou evidenciado no processo de impeachment de Dilma, em que as legendas que representam a esquerda democrática brasileira – o Partido Popular Socialista (PPS), o Partido Socialista Brasileiro (PSB) e o Partido Verde (PV) – votaram unidas pelo afastamento da então presidente.

A esquerda mais avançada, conectada ao século XXI e ao mundo do futuro, defende, neste exato momento, o ajuste econômico e a responsabilidade fiscal propostos pelo governo de Michel Temer para tirar o Brasil do buraco. Apoiar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241/2016, que busca racionalizar os gastos públicos, não é uma bandeira empunhada por esquerda ou direita – mas por todos os que temos compromisso com um país mais justo, sustentável e digno para os seus cidadãos. E esse é apenas um dos exemplos que evidenciam a diferença entre uma esquerda autoritária, arcaica e dogmática e aquela mais democrática, dinâmica e plural.

Essa esquerda tem história, dignidade, honradez e jamais se enxovalhou com a corrupção desenfreada de mensalões ou petrolões. Essa esquerda oferece ao país não um projeto de poder, mas um projeto de desenvolvimento para todos os brasileiros.

Roberto Freire

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#Bretagne #Finistere - soirée du 30 aout à l'Ile-Tudy © Paul Kerrien @ http://toilapol.net:
Paul Kerrien (Foto)

Sentido para a vida

Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia - mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer - e eles vão morrer. 

Warm glow...silent night, a beautiful combination:
A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei - o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros. Não é o gozo que eu invejo (não dou um passo para o gozo) - é o pedreiro que passa por aqui logo de manhã com o pico às costas, assobiando baixinho, e já absorto no trabalho da pedra.

Se vale a pena viver a vida esplêndida - esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho? ... Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz é para mim a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a com êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta. E agora mais doente, mais perto do túmulo, busco-a com ânsia.
Raúl  Brandão (1867 - 1930) 

Esquerda e exquerda

A esquerda exige certas características: compaixão com os pobres, os perseguidos, os excluídos e vítimas de preconceitos; compromisso com o avanço técnico a serviço do povo e da humanidade; sentimento nacional integrado na civilização universal; busca da paz entre povos e dentro de cada povo; mas exige também respeito à verdade dos fatos.

O filósofo Marx formulou o conceito de que o pensamento de esquerda deveria passar pela percepção da realidade e não por crenças preestabelecidas. Por isso, qualquer analista que ainda lembre algumas das bases da filosofia e, especialmente, da epistemologia formulada por Marx, fica surpreso com a infantilidade com que alguns militantes se dizem de esquerda, mas tomam posições sem considerar os fatos reais. Preferem falar com base em narrativas criadas, conscientemente ou por marqueteiros, para conspurcar o ambiente intelectual, sem compromisso com a verdade. Perdem com isso até mesmo o argumento correto que possam ter e terminam atropelados pela verdade.

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Considerar o presidente Michel Temer como político de direita é uma opinião, logo pode ser aceita, mas precisam dizer que Dilma, Lula e toda a esquerda votaram nele, mas hoje o criticam. Estavam iludidos, não leram sua história ou enganaram os eleitores. Mas, dizer que Temer deu golpe antidemocrático não corresponde à verdade. Todos os indicadores democráticos estão sólidos, inclusive a eleição ocorrida no dia dois de outubro que levou a uma fragorosa derrota da esquerda ao redor do PT. Ao usar a mentira do golpe para o impeachment de 2016, a esquerda termina legitimando o golpe de 1964 e todas as suas consequências: ao fazer isso, deixa de ser esquerda e vira “exquerda”.

Ao longo de décadas, a esquerda fugiu ao debate ideológico sobre as prioridades para o uso dos recursos públicos. Apoiar mais gastos para educação, saúde, salário mínimo e saneamento; e ao mesmo tempo garantir salários de marajás, subsídios à indústria, deixando o país sem os serviços públicos de qualidade e as finanças públicas falidas, ou continuar com a velha mentira da inflação: o governo dispõe de quatro, mas gasta cinco, desvalorizando a moeda e gerando inflação. É uma conta que corrompe a aritmética e ilude a sociedade.

A reação à PEC do Teto, que é uma PEC do óbvio — não se pode gastar mais do que se arrecada quando há mais para endividar-se —, também é uma recusa de ver a verdade da própria aritmética, uma visão, portanto, direitista ou “exquerdista”. É usar argumentos falsos que não combinam com a postura comprometida com a verdade, que deve caracterizar a esquerda. Negar a necessidade de definir um teto para os gastos é optar pela mentira de que os recursos públicos são ilimitados. Agora será preciso optar por prioridades. Também é falsa a ideia de que haverá redução nos gastos com educação.

O teto se impõe sobre o conjunto, sendo possível elevar a verba da educação, desde que tenhamos força política para indicar de onde tirar recursos. E se não tivermos, melhor não nos enganarmos aumentando salário de professor com dinheiro falso, da inflação. Pela primeira vez, vamos identificar os defensores da educação, capazes de lutarem pela redução de custos em outros setores, eliminando desperdícios e gastos que não são prioritários.

Da mesma forma, é surpreendente a falta de compromisso com a verdade ao denunciarem a proposta de autorização à Petrobras de não investir na exploração de todos os poços de petróleo do Pré-sal. Ao obrigar a Petrobras, sem condições financeiras, a lei atual leva o Brasil a não explorar o petróleo: perder receita, royalties para a educação e impostos, além de impedir a criação de empregos. Com a nova regra, quando a Petrobras avaliar que não é do seu interesse atuar sozinha, ela não será obrigada, e poderá explorar o petróleo em sociedade com outras empresas brasileiras ou estrangeiras, retomando emprego em cidades, gerando renda, arrecadação de impostos e royalties para financiar a educação.

É lamentável que parte da esquerda, por preconceito e corporativismo, caia na cegueira de preconceitos que a impede de ver o que é melhor para o Brasil e para o povo. E ainda se considera de esquerda, embora presa a mitos e reacionarismos. Para ser de esquerda, é preciso ter utopia para o futuro, é preciso ver a realidade do presente como ela é. E quem não tem utopia e nem capacidade de ver a realidade, não é de esquerda, é de exquerda.

Um irritado Macri acaba com a subvenção pública ao futebol argentino

A paciência do presidente Mauricio Macri com a Associação do Futebol Argentino (AFA) explodiu ao invés de estancar. As últimas gotas que fizeram o copo transbordar foram pesadas: a frustrada Superliga, a greve dos times da segunda divisão, o incessante protagonismo das barras bravas (torcidas organizadas) e uma gestão imprudente por parte dos dirigentes de alguns clubes são alguns dos condimentos de um futebol que causa muitos problemas no dia a dia. Mas, acima de tudo, há transmissão televisiva gratuita dos jogos pela empresa estatal Futbol para Todos (FPT), criada na época do kirchnerismo, com um custo para o Estado de 2,5 bilhões de pesos (524 milhões de reais) por temporada. É por causa disso que o Poder Executivo decidiu em julho romper o contrato com a FPT em dezembro próximo, mas solicitando que os jogos continuem sendo transmitidos na TV aberta até 2019. Nesta terça-feira, no entanto, a Casa Rosada decidiu interromper o fluxo de dinheiro para a AFA.

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A pergunta que todos se fazem é o que acontecerá com a transmissão do campeonato local, que até agora ocorre exclusivamente em canais abertos. Fontes do governo dizem que está sendo pensada uma forma de garantir a continuidade disso.

A reunião que selou a decisão ocorreu num gabinete da sede presidencial, envolvendo Macri, o presidente da FPT, Fernando Marín, e o secretário-geral da presidência, Fernando de Andreis. Foi justamente este último quem anunciou semanas atrás que neste ano o Estado pagaria os 1,85 bilhão de pesos (388 milhões de reais) prometidos no contrato de 2016, assinado no começo do ano. Foi também De Andreis quem protestou: “É muito fácil sair por aí pedindo que o Estado seja uma espécie de ambulância para o esbanjamento da AFA”. Uma fonte da Casa Rosada disse que “desta vez o assunto não será resolvido com um grito gutural de Armando Pérez, embora a oratória não seja o seu forte”. Alguns relacionam o anúncio com uma reunião que Marín e seu advogado teriam mantido com gente da equipe de Ted Turner, um velho interessado nos direitos de transmissão do futebol argentino.

A bronca do chefe de Estado ocorre porque a comissão reguladora presidida por Armando Pérez (em viagem à Alemanha) e imposta pela FIFA não cumpriu os três pontos encomendados: administrar, adequar o estatuto da AFA à doutrina da FIFA e constituir uma Junta Eleitoral para convocar eleições. O descumprimento rendeu uma advertência administrativa solicitada pelo Tribunal de Disciplina. “O problema e a solução estão na AFA. Em vez de gastar em coisas disparatadas, no melhor dos casos, pois há sérios indícios de corrupção, deveriam devolver o dinheiro para que tudo fique transparente. Se os clubes deixassem de se financiar por meio da dívida com a AFA, 80% dos problemas estariam resolvidos”, afirma De Andreis. E ele critica: “Com o nível de desperdício, a corrupção, a pouca profissionalização na administração dos recursos e os absurdos pagos em alguns casos, não tem bolso que aguente”
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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O Brasil está morto! Viva o Brasil!


Marcada pela ambiguidade a cena foi uma síntese do momento brasileiro. No “banco dos réus” o ministro Meirelles e a PEC 241 de salvação dos 22,7 milhões de desempregados, subempregados e “desativados” pela explosão do déficit que paralisou o país constrangido a uma espécie de “autocrítica”; na “cátedra” à volta, toda a cúpula do Judiciário, um dos grandes detonadores dessa explosão, exigindo dele a reiteração da vassalagem ao conceito de “autonomia dos poderes“, versão pervertida do princípio de “independência dos poderes” nas democracias sem cuja retificação não será possível desapertar o garrote do pescoço dos miseráveis do Brasil.

Foi na sexta-feira, 14, no gabinete da presidente do STF, ministra Carmen Lucia, e estavam lá, além da imprensa, os presidentes do TSE, Gilmar Mendes; do STJ, Laurita Vaz; do Superior Tribunal do Trabalho, Ives Gandra Martins Filho; do Superior Tribunal Militar, William de Oliveira Barros e mais a Advogada Geral da União, Grace Maria Fernandes Mendonça. Mais de um entre eles fez questão de tomar posição a favor das reformas mas, como reagiam a um documento patrocinado pela Procuradoria Geral da Republica, pelo Tribunal de Contas da União e pelo Ministério Público assinado por vários juízes apedrejando a PEC 241 como “inconstitucional” e atentatória à sua versão de “democracia“, estavam entre a cruz e a caldeira. Botando panos quentes mas não sem, antes, reafirmar o “direito” dos privilegiados do Brasil aos privilégios que eles próprios se outorgam, inscrito na Constituição que ele está.

É um estranho interregno este que vivemos. É ilegal fazer justiça no país que a “Constituição dos Miseráveis” criou. Tudo nele é privilégio, discriminação e mentira e todo mundo sabe disso mas continua sendo proibido dizê-lo, sob as penas da lei que há, a escrita e a não escrita.

Em palestra recente a secretária do Tesouro, Ana Paula Vescovi, deu os últimos dados conhecidos da previdência pública, ainda de 2013. São 4,2 milhões, somados, os aposentados e pensionistas da União, dos estados e dos municípios. O déficit dessa conta correspondeu naquele ano a 3,8% do PIB. Aplicada a porcentagem ao PIB estimado para 2016, de R$ 6,2 tri, estaríamos falando de um rombo de R$ 237 bilhões. O déficit da conta dos 28,3 milhões de aposentados e pensionistas do resto do Brasil inteiro somados foi de R$ 85,8 bilhões no ano passado e de estimados R$ 148,7 bi este ano. 6,7 vezes menos gente custando 1,6 vezes mais dinheiro. Uma coisa multiplicada pela outra e temos que nós estamos valendo, na média, 10,7 vezes menos que eles.

Como chegamos a isso?

Raul Velloso, que assessora governadores do Sul e Sudeste para medir a catástrofe que têm nas mãos, conta que há nos estados e na União cinco “donos do orçamento” que, invocando a tal “autonomia“, “agem como se tivessem indulgência divina para gastar”. São eles – bingo! – o Legislativo, o Judiciário, os Tribunais de Contas, o Ministério Público e a Defensoria Pública. Nos estados esse grupo come sozinho 60% da receita líquida corrente, mas não é só. Junto com saúde e educação que também têm um pedaço do orçamento constitucionalmente garantido, ninguém nesses sete setores paga os direitos previdenciários de seus empregados. Saem contratando e empurram a conta para os tesouros estaduais que, por sua vez, não contabilizam essa despesa nas suas folhas de salário, o que faz da regra de ouro da Lei de Responsabilidade Fiscal (máximo de 49% das receitas para pessoal) letra morta. Para realmente “servir o público“, as migalhas e…o caríssimo dinheiro dos bancos. Assim cavado, o déficit atuarial das previdências estaduais está hoje acumulado em R$ 2,4 trilhões. Na União dá-se o mesmo; cinco “donos” mais alguns associados adicionais relativos aos “gastos sociais” levam a apropriação do orçamento federal a 80%.

O Estado é, porém, um péssimo distribuidor de riqueza também dentro das suas fronteiras. Os funcionários recebem, em média, aposentadorias de R$ 5.108,00 enquanto o brasileiro que pagou todas as contribuições só R$ 1.356,00. Mas também lá a grande maioria está abaixo da média. Ganham muito, mas muito mesmo, mediante as gambiarras de sempre, um milhãozinho de pessoas, se tanto. E quase todos, é claro, vêm das cinco corporações + dois “sócios” que são “donas” dos orçamentos públicos.

Nem o “teto” da PEC 241, que terá de ser alcançado esmagando a fatia “sem dono” (ou seja, nossa) dos orçamentos, nem as alterações até aqui mencionadas para a previdência de todos nós, conquanto também necessárias pelas razões sócio-demográficas que todo mundo aceita, serão capazes de por o Brasil de volta nos trilhos sem tocar nos privilégios desse milhãozinho de “marajás” a quem a tal “Constituição Cidadã” entregou o país bem amarrado.

A reunião acima descrita ilustra vivamente porque um governo interino só pode ir até onde já foi na discussão desse problema. Mas não havendo mais como estabilizar qualquer governo no poder com o Estado reduzido à incapacidade de pagar os seus protegidos todos de tanto que deve a tão poucos, um valor mais alto se alevanta. Daí estar “o impensável” acontecendo bem diante dos nossos olhos. É o PMDB quem maldisfarçadamente puxa a “denuncia” da mazela mais radical do “Sistema”. Não é mais a imprensa que trabalha para nos mostrar o que os governantes gostariam de esconder, são eles que conspiram para levá-la a revelar os fatos que, até aqui, pouco tem feito para expor inteiros. E isto porque sabe que a verdade sobre os números e, principalmente, sobre os personagens da pontinha mais dourada da “privilegiatura” da previdência pública é uma daquelas que não se suporta a si mesma. A sua mera exposição precipitará o desmoronamento do “Sistema”.

Esse Brasil das tetas desbragadas acabou. Não cabe mais em si mesmo nem no mundo. E quem contribuir por ação ou por omissão para prolongar e aprofundar a miséria que custa mantê-lo insepulto, não vai ter lugar no próximo que vem vindo aí.
nani2

A panela, a cadeira e o microondas

Premido pela crise, demorei mais que o necessário para ver que algumas coisas em minha casa estavam caindo pelas tabelas. E fui comprar os itens que listei acima. Três das melhores marcas que conheço, para que fique bem claro que trabalho dobrado para tentar colocar em casa apetrechos com um pingo de dignidade na parada. A panela quebrou em três cozidas, a cadeira quebrou o suporte das rodinhas, me derrubando em pleno escritório falando com meu chefe pelo telefone, e o microondas ronca mais que um Trabant subindo a ladeira e queimando todo o óleo pelo caminho.

Três das melhores marcas do mercado, eu repito. Deem uma rápida olhada nas compras de supermercado do mês e vocês verão que o mais novo mimo do nosso “capitalismo, pero no mucho” é um selinho vermelho num canto da embalagem, afirmando que a mesma agora vem com 10% a menos de produto embutido nela. A lei agora permite isso. Um mimo, não é mesmo? Essa sucata em que transformaram a indústria nacional, apoiada na muleta calhorda do vigarismo estatal que campeou todo esse tempo por aqui, é o resultado de uma ideologia bamba com o mais completo descuido com qualquer planejamento, mérito, controle e eficiência.

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É o PT no poder. É o discurso safado de esquerda, que quando não vomita evacua na decência, como um bando de macacos acuados diante da evolução da espécie. Demorei para encontrar um Nêumanne, nos escombros do jornalismo de hoje, para dar às coisas os nomes que as coisas tem. Que bom que ainda existe um exemplar, no meio de tantos outros que professam mesmo é sua indignação com o savonarolismo da Lava Jato. O país mais corrupto do mundo, nu e com as calças arriadas, bradando que é vítima de uma perseguição seletiva. Não dá pra encarar, não é mesmo? Eu já vinha dizendo aqui mesmo que, como engenheiro que sou, sei bem os resultados de se fazer uma obra com a metade do cimento, para pagar propina. No mínimo, durará a metade do tempo.

Antes que alguém mande eu me benzer, afirmo categoricamente que estou sofrendo de Brasil. Um ajuntamento de vigaristas que tenta sobreviver, dando uma tunga no consumidor e usando materiais dos mais vagabundos em seus produtos. Teremos ou não uma “colaboração premiada” também neste quesito? Passou da hora do país repatriar também sua vergonha na cara, irremediavelmente perdida entre o socialismo de pinga que nos impuseram e a saudade marreta que essa gente ostenta de uma realidade que jamais se consumou, porque foi arquitetada para ser a fraude que é.

Essa gente não me engana. Se aquele escritor, andares abaixo, pedisse emprestado um liquidificador para uma prima dele, lá nos Estados Unidos, e esta lhe apresentasse um troço que mói até pedra britada, aposto que ele entenderia finalmente a diferença entre o socialismo barato que nós condescendemos em experimentar por aqui e o capitalismo de resultados práticos e aferíveis. Nunca antes tinha visto este país com olhos tão abertos. É um lixo. Obrigado, Nêumanne. Obrigado, Augusto. Tá difícil.

Para começar o dia

A indiferença de gênero

Toda vez que alguém afirma que, na escola, não pode existir diferença entre garotas e garotos e que, em sala de aula, o gênero não deve ser nem mencionado, Freud se vira e revira no túmulo e morre de vontade de fumar um charuto para se acalmar. Às vezes, um charuto é apenas um charuto. Às vezes, nem sempre. Negar o óbvio não resolverá o relacionamento entre o sexo masculino e o feminino, tampouco aumentará o respeito a homossexuais, transexuais, bissexuais e os mais de quarenta tipos sexuais diferentes.

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Para ilustrar a questão, recorro aos índios koguis, da Colômbia. Vivem na região caribenha de Santa Marta, no meio da selva amazônica, perto da Cidade Perdida, a gigantesca e desafiante ruína da civilização Tayrona, desaparecida há séculos. O Pico São Cristóvão, o mais alto da Colômbia, é o centro de seu universo.

Andei por lá, contatei alguns membros da tribo. São evasivos, desconfiados, calados. Não reconhecem a diferença de sexo entre meninos e meninas até os 10 ou 11 anos. Elas e eles se vestem com a mesma bata branca rente ao chão, não cortam o cabelo que lhes toca o ombro, brincam juntos, uns e outros muito parecidos fisicamente. Em seu paraíso tropical, as meninas são tão destras quanto os meninos para voar entre uma árvore e outra usando cipós. Nada de macho e fêmea, nenhuma discriminação, nenhuma disputa.

No entanto, assim que chega a puberdade, o quadro muda. Eles assumem o papel de machões e elas se tornam semiescravas. Esposas obedecem aos maridos às cegas. Muitos as castigam fisicamente, largam-nas em cômodos pouco confortáveis, não admitem que frequentem o templo central da aldeia ou abandonem a tribo. Uma delas, apaixonada por um guia turístico, foi caçada depois de fugir. Outra teria sido morta. O que faz uma situação de absoluta igualdade se transformar em desigualdade?

A resposta é a cultura. Apesar de toda a equiparação inicial, a sociedade no fundo pratica outros valores, tacitamente aceitos. É a tradição dos koguis, com a qual convivem há séculos. Para mim soa uma afronta, um ato inadmissível. Para eles, é a norma. Não devo julgar. Trata-se de uma questão antropológica.

Sempre houve e haverá diferença entre os sexos, mascarada na infância dos koguis. Entre nós, nas escolas, também há e esquecê-la tampouco evitará, no futuro, a discriminação e o preconceito, mantidos os atuais padrões de nosso convívio.

Para eliminar a absurda discriminação ou agressão à mulher, a sociedade como um todo precisa se preparar. A sala de aula é um ótimo ponto de partida. Custa muito mudar um preconceito centenário, aceito até por quem é prejudicado. Conheço mulheres que até hoje dispensam tratamento especial aos filhos homens. São mais machistas que eles. Jamais admitiriam, por exemplo, que fossem homossexuais.

Atitudes positivas e afirmativas também ajudariam a minorar o problema. Além disso, a lei deve prevalecer. Existem proteções legais contra os abusos. Estão em vigor. Se aplicadas, muitos problemas deixarão de existir.

No entanto, há um longo caminho até a igualdade entre os sexos e até a completa liberdade de opções sexuais. Assim como para a discriminação racial. A qualquer hesitação, encampamos a atitude dos kóguis, sem qualquer prurido antropológico. Aliás, no fundo, é a nossa tendência. Muitas gerações e muitos discursos nos levaram a esse comportamento. Até quando?

Luís Giffoni

Lula quer desmoralizar o Brasil

O herói faz agora o papel de vítima e é assim que doravante se apresentará na grande encenação para o público, daqui e do exterior, na qual o pérfido antagonista é a Justiça brasileira. Réu até agora em três processos que resultaram de investigações sobre corrupção – e na falta de sólidos argumentos de defesa –, Lula da Silva está armando um espetáculo circense para mostrar aos desavisados que o Mal cooptou a Justiça, que se empenha na missão abjeta de condenar um inocente, o homem “mais honesto do Brasil”, punindo-o pelo crime de governar para os pobres.


A politização dos processos judiciais em que Lula está envolvido como réu ou apenas investigado faz parte da estratégia concebida pelo lulopetismo, com a assessoria de uma chusma de advogados, para desviar a atenção da opinião pública das fortes evidências de envolvimento do ex-presidente da República e sua família numa série de episódios suspeitos nos quais se teriam beneficiado de tráfico de influência, de recebimento de vantagens materiais e financeiras indevidas ou pura e simplesmente de propina. Essa estratégia envolve também a tentativa de envolvimento dos brasileiros que ainda apoiam o ex-presidente num clima emocional alimentado por fantasiosas notícias sobre a iminente prisão de Lula. Na última segunda-feira, por exemplo, algumas dezenas de pessoas, munidas de farto material de propaganda impresso, postaram-se diante do apartamento de Lula em São Bernardo para uma “vigília cívica” contra a “ameaça iminente” da prisão do ex-presidente.

No dia seguinte, a Folha de S.Paulo publicou artigo assinado por Lula com o sugestivo título Por que querem me condenar. Começa por afirmar que, desde que ingressou na vida pública sua vida pessoal foi “permanentemente vasculhada”, mas “jamais encontraram um ato desonesto de minha parte”. Acrescenta: “Não posso me calar, porém, diante dos abusos cometidos por agentes do Estado que usam a lei como instrumento de perseguição política”. E explica: “Não é o Lula que pretendem condenar: é o projeto político que represento junto com milhões de brasileiros”. E conclui, dramaticamente: “O que me preocupa, e a todos os democratas, são as contínuas violações ao Estado de Direito”.

Os advogados de Lula, que tentaram em vão, várias vezes, contestar a autoridade e isenção dos magistrados responsáveis por processo em que o ex-presidente está envolvido, voltaram à carga interpelando o desembargador Gebran Neto, do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, relator dos recursos da Lava Jato, a quem acusam de ter “amizade íntima” com o juiz Sergio Moro. Segundo o ex-ministro Gilberto Carvalho, fiel escudeiro de Lula, essa nova iniciativa obedece “à ordem de não ficar calado”, num processo permanente de “questionamento” de tudo o que já foi ou vier a ser levantado contra Lula.

A até recentemente bem-sucedida trajetória política de Lula foi alavancada pelo marketing. E é com o marketing que ele pretende sair da grossa enrascada em que se meteu. Sem ter elementos concretos e convincentes de defesa, apresenta-se como vítima dos “inimigos do povo”.

Os acontecimentos desta semana revelam, portanto, que se pode esperar daqui para a frente a intensificação e maior contundência da contraofensiva lulista nas áreas judicial e popular. Pode até haver quem entenda que a prisão de Lula poderia favorecer a “causa”, na medida em que criaria uma “enorme comoção nacional” manipulável em benefício dos “interesses populares”. Quem conhece bem o ex-presidente sabe que esse tipo de sacrifício jamais lhe passaria pela cabeça. É claro, portanto, que a estratégia lulista contempla também a necessidade de manter formadores de opinião e detentores do poder considerados confiáveis no exterior providos de argumentos políticos que sejam úteis para a eventualidade de que se torne premente a necessidade de preservar a liberdade de Lula. Ou seja, condenado aqui, procuraria refúgio em regime amigo, apresentando-se, assim, como exilado político.

O homem está disposto a pagar qualquer preço por todas essas precauções. Inclusive o de tentar desmoralizar a Justiça e de apresentar o Brasil, aos olhos da opinião pública mundial, como uma reles ditadura. Mas esse ato de desespero lhe será cobrado pela consciência cívica do País.

Tá na Lava-Jato? Tá fora

Vamos imaginar a seguinte situação: você é ministro do governo Temer e sabe que está, digamos, envolvido nas tramoias da Lava-Jato e naquelas que levaram Eduardo Cunha à cadeia e possivelmente a uma delação premiada. O que fazer?

O dilema está colocado porque, falando em termos simples, quem meteu a mão no dinheiro ilegal sabe perfeitamente o que fez. A questão é: vão pegar ou não vão pegar?

Com a prisão de Cunha e a delação da Odebrecht, a probabilidade de ser apanhado aumentou, e muito.

Você, sendo ministro, tem a prerrogativa do fórum especial, ou seja, vai para o Supremo Tribunal Federal. Os ministros do STF ficam de bronca quando se diz que é uma vantagem sair da jurisdição de Curitiba e ir para a suprema de Brasília.

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Mas é uma vantagem. No mínimo, o STF demora mais para aceitar denúncia, abrir inquérito, processar, julgar, mandar para a cadeia. Além disso, o Supremo também não costuma decretar essas prisões preventivas que o juízes de primeira instância têm aplicado.

Por outro lado, pode-se dizer que demora, mas acaba sendo julgado. Tudo bem, mas o tempo ajuda aqui. Sabe como é: no turbilhão da Lava-Jato, com tanta gente mais importante sendo condenada e presa, pode haver alguma esperança de que se esqueçam de você. Ficando para o fim da fila já estaria bom, não é mesmo?

Então, caro ministro envolvido, o que fazer? Se agarrar na rapadura ou pedir demissão?

Se agarrando no cargo, o ministro cria um constrangimento enorme para o presidente Temer, seu governo e, claro, um obstáculo para o programa de reformas econômicas. O assunto corrupção/delação torna-se dominante, desmoraliza o governo, que vai passar o tempo todo se explicando.

Portanto, se quiser ajudar o presidente Temer, o ministro-que-se-sabe enrolado deveria renunciar. Limpa o caminho.

Aliás, todos os enrolados deveriam sair — e juntos, porque o primeiro que renunciar neste momento estará fazendo uma quase-confissão. Na verdade, mesmo saindo em bando, todos também estarão praticamente admitindo algum rolo, mas fazer o quê? Se não tem mais como virar o jogo. . .

Mesmo porque, se os caras não saírem, o presidente Temer, para manter a capacidade de administrar, vai ter que demitir os denunciados e/ou enrolados e/ou apanhados.

Verdade que Temer desqualificou recentes denúncias envolvendo seu pessoal mais próximo. São apenas alegações, disse.

Pois é, mas essas alegações se aproximam perigosamente da verdade. Em países como Japão e Alemanha, não tem nem conversa. Em situações como essa, aliás, em casos bem menos graves, a autoridade pede demissão, se desculpa e vai cuidar de sua defesa.

Aqui tem sido diferente — o sujeito nega até a última evidência. O problema é que essa evidência fica cada vez mais luminosa.

A regra de cair fora para não atrapalhar vale não apenas para ministros, mas para as demais autoridades, seja em que nível estiverem.

Se não caírem fora, Temer terá que arranjar um jeito de se livrar da turma, e logo.

Vejam, o ambiente econômico está claramente melhorando: inflação em queda sustentada, juros baixos no mundo todo, confiança em recuperação. Até a recessão, neste momento, é uma ajuda: com a atividade tão baixa, o Banco Central tem mais um poderoso argumento para uma “agressiva” queda dos juros. Já há especialistas prevendo que a taxa básica chegue ao final de 2017 na casa dos 9%.

Mas é parte essencial desse cenário o ajuste das contas públicas e as reformas que vão iniciar o longo trabalho de reconstrução da economia nacional. Ora, tudo isso depende do Congresso e, pois, da capacidade política do governo Temer de conduzir a votação das reformas.

Como poderá fazer isso um governo envolvido em Lava-Jato, Cunha, Odebrecht, delações sem fim?

Do mesmo modo, como o Congresso poderá votar essa pauta tão importante com tantos membros já apanhados e tantos outros por apanhar nas prováveis delações de Cunha e da Odebrtecht?

Tudo considerado, ficamos assim: ou se faz uma limpeza geral ou o governo e as reformas não andam. Difícil? Ok, mas quem for comandar as reformas não pode estar envolvido na Lava-Jato.

E já imagino a pergunta do leitor: e se o próprio Temer estiver envolvido?

Pois a história vale para ele também: será preciso arrumar um outro presidente, um outro governo. Nesse caso, o último serviço útil de Temer seria o de ajudar nessa transição.

Carlos Alberto Sardenberg

Imagem do Dia

Berry College water wheel in Mount Berry, Georgia • photo: Randy Clegg:
Mount Berry, Georgia (EUA)

Podemos deixar o palanque para a rua e ir além do discurso rasteiro

Vai-se tornando quase (mau) hábito falar mal da política, sobretudo dos políticos, como se fossem eles os únicos e verdadeiros responsáveis por nossos males. Milhões de brasileiros, além de descerem a borduna indistintamente em todos eles, comemoram a morte ou, então, a ameaça de morte de qualquer partido político, mas, principal e precocemente, a do Partido dos Trabalhadores, como se fosse ele o único e verdadeiro responsável pela crise que vive a democracia representativa, não só aqui, no Brasil, mas no mundo todo. Ou seja: a sociedade, em geral, não é responsável por nada, nem mesmo pelas pequenas mazelas. Pois essa é, também, tarefa do Estado.

Essa crítica feroz, feita à matroca, nunca expõe quem a faz. Esse, claro, se considera acima do bem e do mal – ou ser inatingível pelo erro, ou pela transgressão. Que não se lembra de que, como disse a escritora e jornalista Ana Maria Machado, em seu artigo no jornal “O Globo” do último domingo, “se quisermos ajudar o Brasil a ser mais democrático e a diminuir as desigualdades, cada um de nós precisa conversar mais, ouvir mais, abandonar a preguiça de pensar, acolher em si diferentes pontos de vista. Isto é, se acharmos que podemos deixar o palanque para a rua e ir além do discurso rasteiro e do deboche”.

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Quase ninguém, com raríssimas exceções (refiro-me àqueles com quem lido com maior frequência), se dispõe a fazer um exame de consciência a respeito de seu julgamento, muitas vezes injusto. Não passa nem de longe por sua cabeça que tanto partidos quanto políticos só chegaram ao poder, no Legislativo e no Executivo (municipal, estadual e federal), por nossas mãos, isto é, tendo em vista nossos “rígidos critérios éticos”, que nunca falham, pois somos infalíveis.

Em certas rodas, sobretudo naquelas em que o dinheiro nunca falta, chega a ser chique falar mal da política, dos partidos, dos políticos em geral e, também, de nossas tristes mazelas, que nunca são vistas ou reconhecidas como consequência de nossas omissões ou escolhas.

Sobre a PEC 241, tenho ouvido o diabo. Para alguns, aliás, é o próprio, embora travestido do bem. As críticas, porém, são quase sempre improcedentes ou ideológicas. Há quem a compare ao Plano Collor, cuja inspiradora (ou apenas coordenadora) foi a ex-ministra Zélia Cardoso de Melo, atualmente exilada por vontade própria. E há quem diga que as já precárias saúde e educação, por falta de verba, simplesmente desaparecerão do mapa. Viveremos, de fato, o inferno.

Já afirmei e afirmo de novo, leitor: a PEC 241, que estabelece o teto dos gastos públicos, por si só, valerá pouco (ou se transformará numa grande decepção, ou num enorme desastre), se não vier acompanhada de outras reformas, também inadiáveis, mas, sobretudo, de uma gestão corajosa e eficiente, com vista à “destruição” de um Estado paquidérmico, que não nasceu agora, mas que precisa ser enfrentado o quanto antes. Para mim, a importância dessa PEC se torna mais necessária e até indispensável quando constato que, contra ela, se insurgem poderosos grupos corporativos que só pensam em seu bolso.

Não sou (dirijo-me a um de meus poucos leitores) um entusiasta do governo Temer, mas insisto em acreditar que ele não tem outra saída senão agir certo para conduzir nosso país até 2018, ocasião em que – assim espero – surja alguém neste deserto de homens (ou de agentes públicos) enfim voltado, por dever de ofício, ao bem comum.

Vamos cair já na real, minha gente!

Cabeça é para se usar

Mente Aberta:  
A verdadeira revolução não é a revolução nas ruas, mas na maneira revolucionária de pensar
Charles Maurras

Do PT ao PT do B

O ex-presidente Lula não visou o grande público em seu artigo “porque querem me condenar”, publicado em jornal de circulação nacional. A essa altura do campeonato, o caudilho tem plena consciência de que suas palavras são inúteis para mudar a convicção dos brasileiros quanto às suas responsabilidades nos delitos praticados em seu governo e por seu partido.

Ele usou o jornal para falar com as fileiras internas do Partido dos Trabalhadores, engalfinhadas em uma guerra intestina; com tudo para desaguar no desmanche do PT.

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Desde o resultado das urnas o Partido dos Trabalhadores entrou em estado de liquefação. Enquanto sua cúpula brinca de avestruz e empurra a crise com a barriga, a avalanche vai se formando.

Impossível detê-la com o apelo à unidade, em nome da “defesa de Lula”, ou com vigílias em frente do prédio onde mora o ex-presidente, para evitar sua suposta “prisão iminente”.

O real é o ultimato dado por um grupo expressivo de parlamentares para que até o início de dezembro seja convocado o congresso partidário e para a antecipação das eleições internas.

Os parlamentares, claro, miram em 2018, sabem ser mínimas suas chances de reeleição por uma legenda que acabou de ser escorraçada das urnas.

A pressão por mudanças vem também das tendências mais à esquerda, que vão direto na jugular de Ruy Falcão, presidente nacional do partido, e de outros dirigentes vinculados à tendência majoritária “Construindo um Novo Brasil”.

O PT hoje é uma nau à deriva, na qual sua tripulação, ou parte dela, se indaga se já não é hora de se jogar no mar e se agarrar em alguma tábua de salvação.

Essa boia pode ser a proposta de uma “frente ampla”, ou melhor, uma frente de esquerda, um contorcionismo de petistas para driblar sua crise.

Nada a ver com a “Frente Amplio” do Uruguai, construída por meio de um longo processo, iniciado em 1971, e no poder há 15 anos. Aqui seria uma cortina de fumaça onde o PT se esconderia dos eleitores em 2018, face à sua queimação ampla, geral e irrestrita.

E como se daria essa “frente ampla”? Por meio de uma fusão com outras legendas? Quem irá querer se fundir com o PT, ou mesmo se coligar com ele, na próxima disputa presidencial? E o candidato desta frente, digamos Ciro Gomes, faria a defesa em seu palanque dos governos Dilma e Lula?

Uma “frente de esquerda” para 2018 é uma ideia natimorta. Todo mundo quer distância do PT, a começar pelo PSOL, que, bem ou mal, concorde-se ou não com suas ideias, conquistou um lugar ao sol, sem nenhum trocadilho.

O PSOL aposta na polarização ideológica, em ser o reverso da medalha do deputado e pré-candidato pelo PSC, Jair Bolsonaro, na próxima disputa presidencial. Não vai se diluir numa frente.

Mesmo o PDT de Ciro Gomes, um caleidoscópio ideológico, pensará duas vezes se aceita, ou não, a composição com o PT; se isto agrega votos ou se lhe condena a uma derrota.

No PT, só há um consenso: o de que não há consensos. Daí cada cabeça ser uma sentença entre seus parlamentares. Para uns, a salvação está em criar uma nova legenda, tarefa nada fácil se o horizonte for ser competitivo nas eleições de 2018.

Sair agora a campo para construir um novo partido pode ser uma enorme aventura. Mas ficar no Partido dos Trabalhadores provavelmente será o caminho mais rápido para a não reeleição.

Político que se preza, pensa, antes de tudo, na sua sobrevivência. Não será diferente com os parlamentares petistas. Provavelmente percorrerão o caminho mais seguro, a revoada para outras legendas para ter tempo de TV e acesso ao fundo partidário. Pode até ser uma dessas legendas de aluguel disponíveis no mercado.

Quem diria, o desmanche do PT pode escoar no PT do B. Vá explicar para os eleitores que são coisas diferentes...

Algo vai acontecer

O “Sistema Único de Saúde é inviável!” proclamam aqueles que desde a degola de Dilma Rousseff e do PT passaram a contestar a Constituição de 1988. Empenhados em suprimir o elenco de direitos tidos até agora como imprescindíveis, os novos donos do poder lançaram-se na campanha pelo retorno de seus privilégios e a extinção das prerrogativas das massas. Insurgem-se diante do tratamento médico gratuito para quem não possa pagá-lo, condenando os pobres à miséria e os ricos à indiferença.

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Do corte de direitos sociais à supressão de pensões e aposentadorias, do aumento de impostos ao abandono das maiorias carentes e ao desemprego crescente, desenham um novo Brasil rachado ao meio. Ainda agora estão beneficiando quantos enviaram dinheiro roubado para o exterior e hoje poderão repatriá-lo sem maiores punições.

Em tempo rápido o governo Michel Temer vai revogando conquistas sociais que levaram décadas para ser implantadas. O triste é que a sociedade não reage, ou reage muito pouco. O trabalhador deixa de ganhar as ruas, preocupado em reconquistar o emprego perdido, mesmo às custas de redução salarial. A classe média fecha os olhos e as elites ampliam reivindicações e benesses.

Enquanto isso, multiplicam-se as apreensões. Alguma coisa vai acontecer, mesmo ignorando-se quando e como. Pode ser amanhã. Até hoje.