sábado, 3 de setembro de 2016

A bagunça política

O PT, nos seus treze anos de reinado, bagunçou não apenas o coreto da economia, mas sobretudo o da política.

Se colocar os números no lugar leva tempo, mais ainda levará a política, que depende de fatores bem mais complexos, ligados a questões de natureza psicossocial, como confiança e credibilidade, que não se improvisam, nem se resolvem com emendas constitucionais, decretos ou projetos de lei.

Se é possível – e necessário – impor um teto aos gastos públicos, não há teto à vista para os estragos da política.

O dano causado pelo golpe de fatiar a Constituição em plenário, numa votação que era única, e que só poderia ser única, piorou o que já não prestava. O poço parece já não ter fundo.

Mas o truque saiu pela culatra: se o objetivo era – e foi – livrar Dilma de Sérgio Moro, nomeando-a secretária de Estado de algum governador amigo, a reação havida foi – está sendo - de tal porte que é improvável que alguém, por mais fiel a ela, tenha a coragem de lhe encaminhar tal convite. A menos, claro, que queira ir para o inferno com ela. Em política, até cumplicidade tem limite.

Não obstante o tamanho da lambança, os políticos só começaram a percebê-la depois da reação indignada da sociedade. E se assustaram. De algum modo, a maioria chancelou o crime (pois é disso que se trata: crime contra a Constituição).

As declarações das principais lideranças – gente como Aloysio Nunes, Aécio Neves, Cássio Cunha Lima, Cristovam Buarque (que apoiou o fatiamento) – eram no sentido de contemporizar.

Ninguém se dispunha a recorrer ao STF. Michel Temer mesmo, embora registrasse sua contrariedade, manteve sua viagem à China no dia mesmo em que recebia em caráter efetivo a Presidência da República e via sua base parlamentar cindida em meio ao caos moral daquela votação. Mais uma vez, os políticos assustaram-se com a reação da sociedade, como se esta pudesse reagir de outra forma.

Assim como não previram as manifestações de rua do ano passado e deste ano – e só as levaram em consideração quando já não era possível ignorá-las -, subestimaram a capacidade reativa diante do estupro à Constituição. E aí, só aí, passaram a considerar a hipótese de ir ao STF, que já recebera recursos de entidades da sociedade civil, que, mais uma vez, se antecipou aos políticos.

Por aí se vê o quanto a política oficial está dissociada do sentimento da sociedade que deveria representar. Não fosse a voz das ruas, o tema do impeachment nem teria entrado na agenda. As instituições só funcionam quando movidas pelo combustível do medo.

A Era PT, pontuada por Mensalão, Petrolão e coisas do gênero, fez com que o absurdo parecesse natural. E fez com que a classe política mergulhasse num autismo do qual parece emergir com grande lentidão e contrariedade.

Algo está mudando – e é de fora para dentro. “A agenda política está nas ruas, não nos gabinetes”, proclama o senador Ronaldo Caiado. O recado é para Temer e os que o cercam.

Renan Calheiros e Ricardo Lewandowski não o perceberam. O presidente do STF, em dissonância com alguns de seus mais experientes pares, como Celso de Melo e Gilmar Mendes, já declarou que cabe recurso ao impeachment, embora isso não conste da Constituição, que diz que o Senado é instância definitiva e incontrastável para decidir a matéria.

Mas o advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo, confiante nos padrões até aqui vigentes, já ingressou no STF com pedido de anulação do impeachment. Lá, ele está convencido, tudo é possível.

Tem razão: até aqui, as teses mais absurdas encontraram eco no STF. Lula, por exemplo, ainda não se encontrou com Sérgio Moro graças ao STF, que segurou o quanto pôde o seu processo, mesmo não tendo ele direito a foro privilegiado. Tem amigos privilegiados, é o que lhe basta – ou bastava.

Os tempos estão mudando, não obstante a resistência dos políticos (e de alguns juízes e procuradores) a que isso aconteça. Mais de 35 milhões de brasileiros assistiram ao impeachment de Dilma peyla televisão aberta, mais gente do que a média de espectadores durante a Olimpíada, que registrou pouco mais de 33 milhões.

As pesquisas eleitorais mostram que o petismo está minguando, com reflexos sobre seus satélites – PSOL, PSTU, Rede. Não há espaço para truques como os de Marina Silva, da Rede, que, depois de meses condenando o impeachment, decide apoiá-lo na última hora, cuidando, porém, de orientar o único senador do partido, Randolfe Rodrigues, a que votasse em favor de Dilma.

A plateia está atenta. Pode até não entender direito o que é pedalada fiscal, mas sabe que quem as cometeu foi a mesma quadrilha que saqueou a Petrobras. E de roubo todo mundo entende.

Transparência e encenação

Há alguns anos, Fernando Gabeira revelou que, sendo candidato petista, amadureceu a decisão de sair do partido quando, ao gravar um programa eleitoral, foi surpreendido por uma encenação coletiva em que políticos de ar sério e pastas na mão fingiam se consultar ou exibir papéis e projetos em gestos teatrais, como se estivessem trabalhando. Chocado com a farsa preparada para enganar os eleitores, pura casca sem substância, concluiu que não queria continuar participando daquilo.

Há menos de um mês, dia 19 de agosto, em entrevista à BBC, Lula afirmou que em seu governo o Brasil era um país mais rico do que a Inglaterra. A fanfarronice pode ter sido recebida com sorrisos zombeteiros de alguns ou gargalhadas francamente debochadas de outros, racionalmente incapazes de aceitar que agora sumiu de repente, como carruagem de Cinderela nas 12 badaladas, esse país tão rico que não chegou a ser visto, com a pobreza resolvida em nível britânico — em saneamento básico, saúde gratuita para todos, habitação popular, escola de qualidade, transporte de massa adequado e segurança pública que permita a qualquer cidadão andar tranquilamente em sua cidade a qualquer hora. Mas muita gente não estranhou e engoliu a balela numa boa. Outros nem ligam, relevam a bazófia, gabolice que não prejudica ninguém e se repete há tanto tempo que já anestesiou os ouvintes. Tudo bem, a crença é livre. Acredite quem quiser. Com fé religiosa não se discute — é um fervor poderoso que opera em outra esfera, capaz de aceitar todos os milagres e promessas, inocências e santidades.

A dificuldade começa quando o fiel religioso é chamado a ser eleitor. A distinguir transparência de jogo de cena. Ainda mais em dias dramáticos como estes, em que uma presidente eleita por 54 milhões de votos é impedida por um congresso eleito por 140 milhões. Essa legitimidade de parte a parte só aumenta a exacerbação dos ânimos, já esgotados por processo tão longo. Sucedem-se momentos exaltados — de xingamentos de canalha e golpista a uma estarrecedora confissão do presidente de um Poder cobrando de senadora por favores oriundos de gestões indevidas junto a outro Poder. Câmeras guardam as imagens que para elas exibem os participantes, cada um buscando seu melhor ângulo e maior protagonismo na construção do personagem que deseja impingir à história ou à campanha eleitoral futura — não apenas diante de jornalistas, mas também de ficcionistas, mais uma vez desprezando fronteiras entre documento e circo, transparência e encenação. Mais que o fato, importa é “a disputa pela versão dos fatos”, como explicitou o líder petista no Senado. Sair bem na foto, no filme, no livro. As imagens mostram quase tudo, mas em falsa transparência. Ocultam, por exemplo, as manobras de bastidores pelo fatiamento da decisão, de modo a garantir que congressistas (como Cunha ou Renan, para só citar as estrelas) sejam também beneficiados no futuro. Ou que daqui a pouco a presidente defenestrada possa driblar a Justiça e pular para dentro de casa outra vez, pela janela do foro privilegiado.

Não é a primeira vez que os holofotes midiáticos atuam nesse jogo. Um dos momentos mais emblemáticos a que a nação assistiu, no impeachment do Collor, foi propiciado pelo então presidente do SFT, Sidney Sanchez: tendo recebido um envelope lacrado do presidente da República, em pleno exercício de suas funções, deixou para abri-lo ao vivo durante o “Jornal Nacional” e leu , para microfones e câmeras, o texto em que Collor destituía seu advogado. Não se sabe se sob comando de um diretor de cena quanto ao ângulo ideal ou à melhor luz.

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A diluição desses limites entre realidade e espetáculo também está presente nas sucessivas discussões sobre vazamentos e não apenas aqui e agora. Lá fora, basta lembrar os questionamentos envolvendo Julian Assange ou Edward Snowden (logo transformados em heróis de filmes ) e suas explosivas revelações, do tipo “doa a quem doer”. No Brasil, temos um exemplo didático: o do agora sumido procurador Luiz Francisco de Souza, que no governo FH consagrou o obsessivo processo chamado de “escandalização do nada” e falsos vazamentos, ao fazer denúncias semanais que logo ecoavam na mídia, provocando investigações que eram arquivadas em seguida por falta de base, mas enlameavam nomes e davam origem a acusações de “engavetamento geral”.

Para evitar manipulações ocultas, a cada vazamento cabe desconfiar e perguntar a quem serve a divulgação daquele rumor ainda sem provas. Analisar quem se beneficia com aquela “informação” assim plantada e coberta pela impunidade garantida pelo sigilo da fonte. Lembrar que a cada plantação anônima corresponde uma futura colheita. E a safra anunciada pode apenas ser a mentira de uma erva daninha trazendo riscos para a tenra planta da democracia, regime ideal ainda que imperfeito. Sempre ameaçado por aqueles que, dos bastidores, confundem iluminação ou transparência com sombras e jogo de cena. Olho neles.

Ana Maria Machado

Alegria e seriedade

Após a Olimpíada e o impeachment, temos do que nos orgulhar. O pior legado do lulopetismo foi a legitimação de ser “bagaceiro”, elevando-se a esperteza a valor nacional ao se qualificar como positivo o jeitinho para prosperar na sinecura, no descaso com as finanças públicas e, o mais grave, no desvio de dinheiro das estatais.

Glorificava-se no lulopetismo a mera improvisação, tecendo louvação ao fato de nada se ler e, em contrapartida, desprezar o mérito, o trabalho cotidiano, o cuidado no aprendizado. A Olimpíada, todavia, mostrou um outro lado, o Brasil que deu certo: pessoas humildes saíram de situações de conflito e de dificuldades para o pódio graças à superação dos obstáculos pela dedicação contínua em busca de objetivo que dependia primacialmente apenas delas mesmas.

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O Brasil multicultural, do samba e do chorinho, do carnaval e do frevo deve conviver com o Brasil do esforço e da persistência, do certo e do justo, com vista ao sucesso como fruto do mérito, e não da malandragem. É exatamente isso que revelou a Olimpíada, com colorido das festas de abertura e de encerramento, com a vibração de uma torcida que toma partido, com a acolhida simpática do povo carioca e a emoção dos nossos medalhistas.

Para ser sério e ético não é preciso ser sisudo. Conjugam-se alegria, espontaneidade, samba no pé, gingado no corpo e sorriso no rosto com seriedade na labuta diária, seja no esporte, no estudo, na fábrica ou na prestação dos mais variados serviços.

O esporte, individual ou coletivo, não permite ser esperto para vencer. O exame antidoping denuncia. Não basta ter dom, ou propensão para determinada modalidade esportiva, é preciso treino todos os dias, apuro na técnica transmitida pelos experts. Esse é um território próprio do merecimento, no qual o estelionato da invenção milagrosa inexiste.

Atletas, administradores e voluntários dos Jogos Olímpicos demonstraram que o nosso povo, ao lado da espontaneidade e da simpatia, também tem a capacidade de superar percalços, vencendo pela dedicação competições e desafios da organização de um evento imenso. Podemos ter orgulho do nosso país tropical, cheio de método e eficiência.

O processo de impeachment é outro ponto do qual o Brasil se pode orgulhar. Esse processo contra uma presidente que tinha base congressual tramitou com dificuldades, foi submetido a rito determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e não causou a menor atribulação às instituições da República.

A acusação – malgrado cortada pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, no que respeitava aos fatos de responsabilidade da presidente na proteção dos corruptos diretores da Petrobrás – continha imputações relevantes de lesão às finanças públicas em 2015.

Durante o processo, prestigiou-se até com exagero a defesa, para não se alegar o mínimo constrangimento. Foram ouvidas 40 testemunhas, foi realizada perícia. Razões de quase 600 páginas foram apresentadas pela defesa e novas testemunhas foram indagadas, além da própria presidente, que prestou declarações destoantes da realidade, próprias de um universo paralelo, para um futuro que não terá. Houve paciência na condução do processo, cuidado na elaboração dos relatórios e na tipificação precisa dos crimes de afronta grave às finanças públicas.

Enquanto o processo de afastamento da presidente corria no Senado Federal, em parte sob a direção do presidente do nosso Judiciário, as demais instituições da República exerceram plenamente suas funções em busca de um caminho para retirar o País do desastre econômico no qual foi jogado pela ânsia de poder e absoluta irresponsabilidade da ora ex-presidente.

As instituições democráticas vêm garantindo plenamente o exercício dos direitos individuais e políticos. Houve a mais absoluta ordem institucional durante o processo de destituição de uma presidente dotada de apoio parlamentar e de base social. Desenrola-se livre propaganda eleitoral no rádio e na televisão em meio ao final do julgamento da presidente. Podemos, portanto, confiar na solidez de nossas instituições políticas, agora revestidas de maturidade.

Temos razão, portanto, de nos orgulharmos do nosso país. Sabemos enfrentar os obstáculos com persistência para alcançar objetivos como retribuição ao mérito, sem perder a leveza do bom humor e a espontaneidade, que não se confundem com a esperteza safada. Bom humor e eticidade combinam-se e devem ser vivenciados juntos.

Agora, passado o impeachment, devemos aperfeiçoar nossas instituições, sem medo da incitação à convulsão pregada por Dilma Rousseff e alguns sequazes que dizem amar o Brasil, mas antes amam a si mesmos e ao poder. Cumpre demonstrar firmeza diante da sandice de Dilma, visivelmente descontrolada, que de modo irresponsável prega a revolta para retornar ao Alvorada. Pretender pôr em risco a integridade física dos brasileiros em defesa de sua sede de poder apenas confirma o acerto do afastamento da ex-presidente.

Maturidade será demonstrada também com a tomada corajosa de medidas no campo econômico sem o temor de descontentar A ou B, já desfeita a exigência de uma votação qualificada de dois terços no Senado Federal. Maturidade caberá ao enfrentar ao menos duas questões da reforma política importantes para vigorar na eleição de 2018: a cláusula de barreira e o fim das coligações partidárias para deputado.

Não vamos estragar a vitória por conta da baderna de alguns mascarados instigados pela inconformada gerentona Dilma. Vamos viver com alegria e seriedade o novo tempo.

Miguel Reale Júnior

Agenda livre

A ex-presidente Dilma Rousseff saiu atirando em seu discurso de despedida. Nem se lembrou de agradecer aos senadores golpistas que votaram pela manutenção dos seus direitos políticos e a salvaram da pena de morte. Este é um velho problema de Dilma: excesso de cabelinho nas ventas. Se foi ingrata até para com seu criador, o ex-presidente Lula, não lhe devolvendo o trono que ele esperava ter de volta em 2014, por que seria simpática com os que lhe garantiram uma sobrevida?


O fato é que, agora, com agenda livre e todas as opções, Dilma deveria aproveitar para algo que nunca teve tempo de fazer: estudar. Os que a conhecem sabem que isso — permitir que alguma informação nova penetre em sua carapaça de certezas — poderá ser uma revolução em sua vida. Mesmo porque é disso que dependerá sua sobrevivência política.

Dilma tem zero experiência legislativa, por exemplo. Poderia candidatar-se a vereadora em Porto Alegre, para se familiarizar com o beabá do jogo político e aprender que a democracia não vive de decisões monárquicas, mas de acordos e desacordos — ou não será democracia. A vereança, por municipal, terá também a vantagem de impedi-la de propor medidas que afetem a economia nacional. Se for bem sucedida, Dilma poderia, aos poucos, aspirar às legislaturas mais altas. Em apenas oito anos, estaria de volta a Brasília.

Se quiser tirar férias da política, Dilma poderá aceitar os convites para se tornar professora das universidades de Bolívia, Equador e Venezuela — espera-se que não de administração. Ou efetivamente cumprir o mestrado e/ou doutorado (nunca se soube qual) em ciências econômicas que dizia ter feito na Unicamp.

Talvez estas sejam as suas melhores opções. Mesmo porque Lula e o PT só esperam a poeira assentar para dizer-lhe — de vez — tchau, querida.

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Mikko Eerola

O fim de uma Era

Um céu enevoado pairava sobre Brasília nas primeiras horas do dia 31 de agosto de 2016. Nada daqueles dias ensolarados que douram o cerrado: apenas a atmosfera sufocante e seca que traduzia as horas. Debaixo daquele céu, uma Esplanada deserta, melancólica, de ressaca antecipada. Sim, um dia histórico e de reflexão – exceto para o ativismo das redes sociais, onde o clima de terceira guerra mundial continuava de vento em popa.

Pouco depois das 11 horas, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, iniciou a sessão do julgamento de Dilma Rousseff. Às 13h35, tudo estava consumado. Não era apenas o fim do governo Dilma. Chegava ao fim uma era que expôs com toda crueza nossa infantilidade brasileira, nosso despreparo perante os embates da vida, nossa dificuldade em debater com maturidade as questões essenciais da nação.

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Não vou atribuir todos os males desta terra ao PT, já que nossa história e ethos nos mostram que malandragem, jeitinho, corrupção e populismo têm lugar garantido desde priscas eras. Entretanto, é inegável que a era petista ampliou o ódio e estimulou algumas práticas que hoje estão plenamente incorporadas ao modo de agir brasileiro. Somadas ao caráter natural de parte da população e ao advento das redes sociais, constituíram um pacote explosivo que resulta na atual face da nossa sociedade.

Nos últimos anos, fomos envenenados. Não foi abrupto, com a boca sendo aberta à força e o cálice tóxico derramado goela abaixo. Não, nada disso. Foi um envenenamento gradual – a cada dia uma gota amarga e cumulativa sendo oferecida com um sorriso nos lábios. Aos poucos o organismo desta pobre Nação recebeu, sem resistência, as gotículas que se converteram no oceano de raiva mal contida que agora nos ameaça. E quando nos demos conta, lá estávamos nós, ventre inchado de ódios, vomitando a mágoa que nos encharcava as vísceras e saía boca afora, violenta e feia.

Atordoados pelo veneno, feridos pelas marcas de um passado ditatorial recente que nos apavorava, muitos acreditaram nas ilusões que viam. E reverenciaram salvadores da pátria que tinham como único objeto de adoração o seu próprio projeto de poder. Nossa gente tão crédula abraçou os discursos demagógicos, os corruptos em pele de cordeiro, os exploradores da pobreza e os que, espertamente, os insuflavam a se odiarem mutuamente.

O modo de agir era sempre o mesmo: pegava-se um problema social pré-existente e, em vez de concentrar esforços apenas em mecanismos positivos para eliminá-lo, açulava-se os brasileiros uns contra os outros. Em vez da educação que liberta, de ações positivas, do incentivo ao respeito mútuo, o país mergulhou na era da vingança induzida pelo debate superficial e por sofisticadas técnicas de marketing. Curiosamente, a prática contraria uma das mais famosas frases de um ídolo das esquerdas, o pedagogo Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Não deu outra: os oprimidos adoraram inverter os lugares.

E foi assim que causas nobres e dignas de atenção – como combate ao racismo, à pobreza, ao preconceito contra homossexuais e a violência contra as mulheres – tornou-se propriedade exclusiva de um grupo instalado no poder. Aos petistas e seus mais próximos aliados cabia o monopólio da indignação com qualquer problema de natureza social. Souberam manipular muito bem as mentes mais imaturas, dando a elas a sensação de que agora tinham voz e armas para lutar contra a opressão. Não é muito diferente das estratégias de colonização de cérebros utilizada pelo Estado Islâmico. Só mudam os resultados práticos. Quer transformar alguém num homem/mulher bomba real ou virtual? Convença-o que ele é vítima de um sistema, dê-lhe inimigos, faça-o concentrar seu ódio em um alvo específico, assegure a ele que está do lado certo e que suas estratégias – mesmo as mais estapafúrdias – são a maneira adequada de “lutar”.


O envenenamento de almas converteu os incautos em uma espécie de Peter Pan malcriado que adora expressar, de forma teatral, sua raiva e frustração. Simultaneamente desaprendemos os fundamentos da vida adulta, como o fato de que o sucesso é fruto de esforço, tempo e dedicação; que não há almoço grátis e que o Estado não é uma vaca de miraculosas tetas de onde brotam cédulas e moedas. Para essas mentes infantis, caiu perfeitamente bem um governo que se apresentava como o grande dizimador das desigualdades mediante atos mágicos, escorados em slogans criativos. Seduzidos por memes e frases de efeito repetidos à exaustão, provocações pueris e gestos afetados, tornaram-se instrumentos dóceis de seus manipuladores. Sem jamais se dar conta de que são meros peões de um jogo muito complexo, milionário e perigoso.

Pensar tornou-se dispensável: as opiniões surgiam, prontinhas, no feed de notícias. Bastava curtir e reproduzir. Atos midiáticos tornaram-se um clássico instantâneo. A luta feminista agora tem como símbolos máximos um rastro de menstruação escorrendo pelas pernas, mamas desnudas e sovacos cabeludos exibidos como troféus – sem falar nos relatos rocambolescos que tomam as redes sociais e protestos simplistas contra cartazes de filmes de super herói. Sinceramente, só consigo ver isso como demonstração de rebeldia adolescente. Educar pela reflexão e exemplo ou trabalhar voluntariamente em instituições voltadas para dar suporte a mulheres vítimas de violência talvez não seja algo tão espetacular para colocar no Facebook. Além de que tudo isso consome muitas horas que se pode passar tentando arrumar curtidas e viralização nas redes sociais, não?

E o racismo? Reduziu-se a mantras do tipo “a casa grande surta quando a senzala aprende a ler”, que soa fortemente provocativa e atinge, indiscriminadamente, aos preconceituosos e aos que apoiam a causa embora não sejam diretamente afetados. Suspeito que Martin Luther King discordaria dessa abordagem tosca. Sem a tal educação libertadora, o que temos para hoje é um pessoal que adora se tornar opressor, repito. Foi o caso daqueles que ofenderam um rapaz branco (ó crime!) por haver cometido o pecado de “apropriação cultural” ao usar dreadlocks.

Os exageros da militância infantilizada causaram sérios danos a todas essas causas que merecem atenção. Despertaram antipatia e empurraram muita gente boa direto para os braços de políticos rudes e gurus falastrões, vaidosos e sem o menor bom senso, cuja única vantagem é ter uma suposta coragem de combater os excessos do politicamente correto. Sim, estou dizendo a todos esses guerreiros da justiça social que eles mesmos ajudaram a turbinar os seguidores fanáticos de seus adversários. É o preço que se paga por optar pelo caminho da superficialidade.

No Brasil de hoje já quase não há espaço para o caminho do meio, para os que pensam com calma. É a era dos extremos, na qual se cola na testa alheia, com facilidade e quase displicência, rótulos de todo tipo: reacionário, progressista, retrógrado, opressor, macho indócil, feminazi, coxinhas, petralhas, etc. A criatividade é imensa; a maturidade, não.

Simultaneamente, perdemos nesta terra a delicadeza do gesto, a elegância da expressão, o respeito à opinião diferente e a arte de argumentar. Nas redes sociais, tornou-se cada vez mais natural cuspir na face alheia os mais cabeludos palavrões e as mais duras agressões. Aos poucos, a Nação trouxe para a vida real as escarradas virtuais, a impaciência generalizada e esse ódio cada vez mais onipresente.

Hoje somos um país de crianças mimadas e mal-educadas, que reagem com histeria à menor contrariedade. Infantes desacostumados ao que dá estofo às civilizações: estudo, trabalho e altos valores.

Desaparece dentre nós o hábito da leitura mais longa. Qualquer texto de mais de cinco linhas torna-se “textão” e gera a inevitável e quase elogiada preguiça. Preguiça que, aliás, também se tem diante do exame da argumentação alheia. Tudo é cansativo. Sem o hábito da leitura, do estudo sério e da reflexão, torna-se compreensível a adesão ávida às armadilhas da falsa retórica.

Ah, pátria minha, que compaixão me toma ao pensar em ti. Uma terra tão rica, cuja fertilidade Pero Vaz atestou logo na chegada: em se plantando, tudo dá… Aqui está a maior jazida mineral do planeta, opulentos mananciais de água doce, biomas extraordinários, clima ameno, cenários de sonho. O que nos falta para ser grandes? Maturidade. Apenas maturidade em vários aspectos.

Maturidade para entender que não é o rótulo de “direita” ou “esquerda” que dá salvo conduto moral e atestado de bons sentimentos.

Maturidade para escolher governantes sem paixão cega.

Maturidade para retirá-los do poder quando violarem a ética ou malbaratarem os bens públicos. Sem traumas, sem guerras civis, sem a morte das amizades.

Maturidade para aceitar as regras do jogo democrático quando elas se voltarem contra interesses e desejos pessoais.

Maturidade para compreender que, no grande jogo político, há profundas manipulações mas cabe a cada um de nós, votantes, a decisão de não ser marionetes de interesses inconfessáveis. E este é um poder imenso.

Maturidade para aprender a respeitar regras e leis.

Maturidade para entender que são valores essenciais de uma nação o trabalho árduo, a boa educação e a honestidade.

Maturidade para compreender que a excelência deve ser buscada em grandes obras e pequenos detalhes. Sempre.

Maturidade para tirar os olhos exclusivamente do umbigo e saber colaborar para o bem comum, evitando sobrecarregar o organismo social. E isso vai de lixo jogado na rua à corrupção nas altas esferas.

Maturidade para entender o mais que óbvio: no Brasil tudo está por fazer e cada um tem um papel decisivo nessa tarefa.

Sei que tudo isso soa como utopia e até platitude, mas ainda cultivo na alma uma grande esperança: a de que essa época de ódios acabe por cansar a nossa gente. Que seja como aqueles relacionamentos tumultuados, que se consomem de intensa paixão por alguns meses e depois se deixam aquietar, vencidos pela intensidade dos sentimentos que ninguém é capaz de suportar por longo tempo.

Que venha esse tempo de calmaria, onde se reaprenderá a viver de verdade.

A crise política às vésperas do Dia da Pátria

Circula, entre nós, há muitos anos, a afirmação sobre o Brasil como o país do futuro. Isso era um sopro de esperança, em meados do século XX, quando outras nações reerguiam-se, após a destruição provocada pela Segunda Grande Guerra. Enquanto a maioria atingiu, nas décadas seguintes, elevado bem-estar social, sucessivas crises políticas constituíram severo obstáculo para que não entrássemos em rota perene de prosperidade para todos. Isso aconteceu por desmandos das lideranças que travaram o desenvolvimento econômico, a modernização das instituições e a formação de cidadãos independentes, instruídos e críticos, sem viés partidário.

O impeachment de Dilma Rousseff deveria ser o fim de um período turbulento e o início de consenso para construir a governabilidade fundada nos preceitos constitucionais. Eles seriam defendidos, diuturnamente, por aliados do presidente no Congresso Nacional fiscalizados por oposição incisiva, mas serena e responsável em relação ao destino de 206 milhões de brasileiros. Parece que isso não acontecerá, porque facções da base governista solaparam a Constituição, e os ânimos do grupo destituído do poder estão acirrados. Fica para a população todo o ônus de mais uma turbulência política que repercutirá no desenvolvimento econômico e nas ações governamentais indispensáveis a todos.

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O resultado dúbio do julgamento pelo Senado do impeachment de Dilma Rousseff aconteceu às vésperas do Dia da Pátria, quando o país celebrará 194 anos de independência. Descobrimos, entretanto, que autoridades manipularam a Constituição para garantir autoproteção e blindagem de amigos, comprometendo a segurança jurídica da sociedade. Percebemos, então, que perdemos tempo demais, em relação a outras nações, enterrando o sonho de “país do futuro”, porque, além da vergonhosa interpretação da Carta Magna, ainda não atingimos patamares fundamentais do mundo moderno, como escolaridade, assistência médica, saneamento, moradia sólida, proteção plena aos vulneráveis, segurança pública e preservação ambiental.

Teremos, então, mais uma vez, apenas uma festa do Estado, em que militares desfilam diante de autoridades protegidas por forte esquema de segurança, enquanto o povo fica atrás do cordão de isolamento. Isso sempre esmaeceu a identidade do cidadão comum diante dos governantes, registrando a distância entre eles e comprometendo a percepção de cidadania, com separação entre o mundo oficial e o social.

Assistiremos, então, mais uma vez, passivamente, àquele espetáculo, sem celebrar nossa nacionalidade. Isso não nos favorece, porque as fronteiras nacionais sustentam a soberania de um povo e vão além da demarcação de território, uma vez que se referem à dimensão humana que se sobrepõe à infraestrutura material. São delineadas pelo reconhecimento de cada indivíduo como membro de um grupo que almeja convivência pacífica, autonomia política e desenvolvimento integrado, esperando bastante do futuro.

Gilda de Castro

Volta às origens

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O PT agora é vítima de novo. Das elites, da mídia, da CIA, dos tucanos e, claro, do PMDB. Com quem está, mais uma vez, urdindo acordos nos municípios — mas isso, com certeza, não vai entrar no documentário
Cora Rònai

É ele mesmo: o PT não tem ninguém, apenas Lula,

A candidatura do Lula em 2018 está posta, ancorada na tentativa de ressurreição do PT. A leitura que fica da decisão dos companheiros seria cômica se não fosse trágica: não há mais ninguém. Em tantos anos de experiência, o partido não criou sucedâneos para seu fundador. Quem achou que era Dilma quebrou a cara, bem antes, até, de seu afastamento. Nem nos governos estaduais nem no Congresso apareceu um substituto. Sequer nos meios sindicais.

Indaga-se a razão desse engessamento e a resposta só pode ser uma: porque o Lula não deixou. De tal maneira ocupou espaços e reivindicou todos os comandos que agora ficou sozinho.

Quando escolheu Dilma para sucedê-lo, todo mundo aceitou. Não havia alternativa. Bem que ele tentou voltar em 2014, mas Madame não deixou. Imaginou-se Rainha da Cocada Preta e exigiu disputar o segundo mandato. Parece que fez até pressão para constranger o antecessor, ameaçando divulgar episódios da vida privada dele. Deu no que deu, com o esfacelamento do PT.

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Hoje, para tentar recuperar o tempo perdido, voltam-se mais uma vez os companheiros para o Lula, pelo mesmo motivo de sempre: não há outro. Condições, ele possui, mesmo submetido a virulenta campanha de descrédito, em boa parte liderada pelos que tremem de medo de sua volta. Vão tentar desmoralizá-lo e até mobilizar o Judiciário, pelo simples motivo de não haver adversário.

Se chamado a escolher um candidato no PT, mesmo disposto a encontrá-lo, não conseguirá. Terminará olhando-se no espelho e concluindo ser ele mesmo, caso o PT se disponha a lutar pelo poder. Ainda que a contragosto, a maioria das forças populares ficará com ele, apesar dos desmandos e do caos deixado por Dilma.

Resta saber se, entrado nos setenta anos, terá saúde e disposição para enfrentar uma campanha. E se terá apoio parlamentar suficiente para evitar a arapuca onde caiu sua malograda criação.

Um conto chinês

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Se Chico - o Anísio - fosse vivo poderia repetir o bordão de "Pantaleão", um dos seus mais famosos personagens: "É mentira, Terta?!".

Este é o bordão que perturba o pensamento de milhões de pessoas, não só no Brasil, mas, também, no exterior, que acompanharam o longo e tumultuado processo de impedimento e cassação dos direitos políticos da ex-presidente Dilma Rousseff.

O presidente Michel Temer, constitucionalista com larga experiência no estudo das nossas muitas constituições e político com conceito de ilibada conduta no uso do dinheiro público, partiu para a China demonstrando que o país vive em democracia plena e seu presidente pode deixar o comando do governo sob a responsabilidade do jovem presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia.

Apesar das manifestações violentas de seguidores de Lula, real líder da massa ainda sustentada pelo governo, a realidade é que a maioria do povo está calma e ordeira desejando trabalhar para reparar os graves danos provocados pela política irresponsável praticada por 13 anos pelo Partido dos Trabalhadores.

Lá, do outro lado do mundo, o presidente Michel Temer, em momento de descanso na viagem de volta, poderá rever o filme "Um conto chinês" do cineasta argentino Sebástian Borensztein que retrata um fato bizarro, para utilizar a palavra do ministro do STF, Gilmar Mendes, sobre o fatiamento da fase final do processo de impedimento.

O fato deu-se quando uma vaca despencou de um avião militar russo que transportava algumas cabeças de gado afanadas de fazendas. A vaca soltou-se das amarras colocando em perigo a vida dos tripulantes que decidiram jogar o animal ao mar. O inusitado é que a vaca caiu sobre um barco pesqueiro japonês e o afundou, deixando os pescadores a boiar sobre as águas até serem salvos por um barco patrulha russo. Durante algum tempo a história foi contada como piada até que as autoridades russas confirmaram o relato dos japoneses.

A inusitada decisão do Senado Federal em eliminar texto constitucional para garantir direitos políticos à Dilma Rousseff é um desses fatos que nos remete a muitas decisões formuladas não para serem atos juridicamente perfeitos, mas atos políticos que desconsideram a letra fria da lei para acomodar os interesses de dirigentes políticos.

O presidente Michel Temer, lá da China, decidiu não analisar a decisão do Senado Federal , afirmando que a questão é jurídica e caberá aos juristas decifrar o julgamento. Para ele, o importante é que a interinidade acabou e ele deve se dedicar à estabilidade política e à recuperação econômica. É razoável supor que os chineses estejam ansiosas para investir no Brasil, incentivando outros investidores a fazer o mesmo.

No encontro com o presidente, Xi Jinping, se instado a responder à pergunta do dirigente chinês sobre o "impeachment": ­- 真正的总统, após a devida tradução, (é verdade, presidente?) poderá dizer: Agora não trato mais de assuntos jurídicos, sou só o presidente constitucional do Brasil; é a última referência que farei à nossa flexível Constituição Federal nos próximos dois anos, se não, a vaca, em vez de cair do céu e parar no mar, irá para o brejo!

Cuba, Bolívia, Venezuela e Equador: A fonte secou

Assim como o Renascimento deve muito à atividade dos mecenas, membros abastados da elite daqueles tempos, assim também existe, há anos, um mecenato político vermelho. Nesse sentido, está a merecer estudo a atividade da Secretaria de Relações Internacionais do PT. Foi dali que saiu o senhor Marco Aurélio (top top) Garcia para determinar, até bem pouco, tudo que realmente importava no Itamaraty. Graças a essa interferência de um partido nas relações externas do Brasil, nosso governo, desde 2003, esteve para os articulados no Foro de São Paulo mais ou menos (não é uma analogia perfeita) como a Rússia para seus países satélites.

Havia uma coincidência ideológica, de estratégia e de interesses. Unidos por objetivos de conquista e preservação do poder, esses grupos políticos, no início do século 21, descobriram que era mais fácil e menos perigoso fazer a revolução pelo voto, valendo-se da democracia para destruí-la, do que pela insurgência. Seguiram todos pelo mesmo caminho e vinham se dando bem. Unia-os a veneração às barbas de Fidel, o desejo de reproduzir nos respectivos cercados a longevidade da dinastia Castro, a antipatia pelos Estados Unidos, o discurso de ódio aos machos de pele branca da classe média para cima e, claro, desastrosas políticas econômicas de intervencionismo estatal.

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Lula, e depois Dilma, se tornaram os mecenas do clube. Passaram a financiar obras públicas a juros que nós subsidiávamos, a contratar presumidos médicos cubanos, a permitir que tomassem instalações da Petrobrás na Bolívia, a pagar acima do contratado por energia paraguaia de Itaipu, a doar (como se vê em vídeo que recentemente postei em (www.puggina.org/videos) milhares de toneladas de cereais. Por essas e muitas outras, os membros do clube bolivariano reuniam-se frequentemente para ouvir os dois mecenas. Recebiam-nos com brilho nos olhos, como se o tamanho da nossa economia fosse sinônimo de riqueza disponível e socializável e os escutavam como estagiários diante de Bill Gates.

Se você, leitor, crê que aqueles atos de generosidade petista tinham alguma relação com solidariedade internacional, está muito enganado. Nosso governo lixava-se para uruguaios, paraguaios, argentinos, bolivianos, equatorianos, venezuelanos, nicaraguenses e cubanos. Sua solidariedade se dirigia aos governantes desses países. Tanto era assim que se desinteressava imediatamente tão logo o poder local trocasse de mãos.

Agora que a casa caiu, a fonte secou e a boca livre acabou, os governos de Cuba, Bolívia, Equador e Venezuela fazem beicinho e reclamam porque o Brasil retirará o apoio que prestava àqueles tiranos explícitos ou disfarçados.

Percival Puggina

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Senhor Presidente!!!

Vamos combinar, meus caros amigos. Quantas vezes fomos surpreendidos pela sorrateira mudança nas regras do jogo no processo de impeachment dessa mamulenga? Mais uma vez fomos vítimas de uma empulhação. Cabe aqui salientar a solerte participação do Randolfe, aquela coisinha que é a Marina das Selvas falando no Senado, e boa parte do PMDB que pratica o “culpa, mas não pune” para liberar geral a impunidade.

Quer dizer que dona du chefe é culpada pelos crimes que cometeu contra a nação, mas não é punida pelos seus desmandos? Não é porque eu quero. A lei deixa bem claro que a cassação do mandato implica a consequente perda dos direitos políticos. Mas aqui vale tudo. Vale dar de presente para aquela que faliu o país e ludibriou os desejos de milhões de brasileiros um carguinho qualquer com foro privilegiado, para evitar que a Lava-Jato e o juiz Sergio Moro passem a limpo este país e acabem com essa vigarice de vez.

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O apelo ao sentimentalismo barato e ao senso de grandeza não colam. A tal casa do espanto é um antro de bandidos, que convivem impunemente com seus pares marretas e querem, todos juntinhos e irmanados, promoverem seus interesses mais pusilânimes. O lugar certo para corrigir essa vigarice é a urna, caro cidadão-eleitor feito de besta. Onde estava a cidadania que elegeu esses canalhas, canalhas, canalhas? Quem foi o responsável por petetizar todos os aposentos dessa casa de tolerância?

Somos reféns silenciosos de uma minoria barulhenta e vagabunda, por conta da consciência pesada de todo aquele que se elegeu para participar desse circo em que nos metemos. Como bem lembrou a senadora Ana Amélia, os ilustres vigaristas que legislam não estão lá mais sozinhos, fazendo o que bem entendem de suas ilustres biografias barrocas. São agora escrutinados e acompanhados por uma poderosa ferramenta de dissuasão de suas intenções mais torpes: as redes sociais.

Por elas fomos às ruas e exigimos o fim da era da safadeza. Por elas construímos nossas opiniões e consensos. Por elas, fica claro que essa classe de nojentos merece o lixo. Lembrarei de cada um deles ao depositar meu voto na urna nos próximos pleitos. Quero saber o que dona du chefe fará com este indulto de natal que recebeu de seus pares no Congresso. Estamos de olho, meus caros senadores. Em vocês, eu não voto nunca mais. Que venham os próximos.

Que tudo passe

O primeiro disco de George Harrison, depois que os Beatles acabaram, chamou-se Todas As Coisas Tem de Passar.

Sim: que tudo passe, das paixões aos impasses.

Vimos tantos filmes VHS! Aquele cartucho enorme, enfiável num aparelho ao lado da tevê de tubo grossa feito toco de açougue!

Pois é, também passamos do toco de açougue para o balcão frigorífico dos supermercados.

E, depois de tanto VHS, vimos tantos DVDs, que porém também passaram, como estão passando os CDs, que já foram fita cassete um dia, quem diria.

E, antes da fita cassete, só existia o gravador de rolo, antes do qual nada se gravava, os sons perdiam-se para sempre. As orquestras tocavam maravilhosamente e eram ouvidas só por quem estivesse no teatro.

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A nonna ouvia rádio-novela tricotando com os pés na cadeira de palhinha, pitando palheiro e cuspindo na escarradeira – e passaram as rádio-novelas, passaram os palheiros e as escarradeiras. As cadeiras de palhinha, porém, tornaram-se chiques; de tudo fica um pouco, conforme o poeta.

Meu neto pega músicas em alta fidelidade na nuvem da internet. Outro dia descobriu minha coleção de discos long-plays no porão, perguntou: que é isso, vô? Música, falei. Ele foi tirando os discos negros das capas, até perguntar: são músicas de luto, vô?

Sou do tempo em que guri trepava em árvore e as mães davam graças a Deus, ao menos estavam à vista.

Espero que as árvores não passem. Nem a vontade moleca de trepar em árvores e em telhados.

E que também não passem os papagaios, voltem todo ano no céu dos arrebaldes, empinados por guris tão hábeis quanto descalços, e que seja por gosto, não por falta de sapatos.

Também não passem os piões, as bolinhas de gude, os bilboquês e os carrinhos de rolemã, apesar de tanto asfalto esburacado. Se passarem, que não seja porque os guris só tem olhos e dedos para celulares. Não deixe, Deus, não deixem, pais, que percam a infância só enfurnados numa telinha.

A corrupção é que podia passar, ou ao menos diminuir. Mas isso não depende de Deus, né, mas de nós.

Também não passe a vontade de comer pipoca em noite de frio, de chupar pirulito em festa de criança, de correr com cachorro em gramado, de chupar manga se lambuzando, de beber água de mina na palma da mão.

Passem os poentes, maravilhosamente. Mas não passe esta vontade de andar ou ver tevê de mão dada com meu amor, e o gosto de ser honesto mesmo quando parece que a ladroagem tomou conta de tudo.

E que passem as modas, mas o coração continue com a corda toda. Amém.

A 'oposição enérgica' do PT

A reação da ex-presidente Dilma Rousseff à votação no Senado que cassou seu mandato foi previsível. Fiel ao raciocínio elaborado durante seu interrogatório – se os senadores a absolvessem, seria o desfecho de um processo legítimo; se o impeachment vencesse, seria golpe –, ela não economizou, em seu discurso de quarta-feira, no uso dos termos “golpe” e “golpista”, inclusive prometendo que “haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer”. Notável seria se Dilma dissesse algo diferente. E o país realmente precisa de uma oposição enérgica – a frouxidão de certas legendas que passaram 14 anos longe do governo também permitiu que o país chegasse à situação atual. Mas de nada adianta energia sem responsabilidade. E o histórico da “oposição enérgica” feita pelo PT em tempos passados não é nada animador.

Como oposição, o partido esteve do lado errado em muitos dos grandes episódios da vida política brasileira antes de 2002. Na redemocratização, em 1985, com a possibilidade de eleições diretas rejeitada pelo Congresso, o PT expulsou três parlamentares que participaram da eleição indireta e votaram em Tancredo Neves para a Presidência da República. Já em 1988, o PT até assinou a nova Constituição – não havia como não fazê-lo –, mas não era favorável ao texto porque desejava algo “mais radical”, como afirmou o próprio Lula em 2013, durante comemoração dos 25 anos da Carta Magna. “Se nosso regimento fosse aprovado, o país seria ingovernável, porque nós éramos duros na queda”, disse na ocasião o ex-presidente, mostrando que tipo de Brasil o PT queria durante os trabalhos da Assembleia Constituinte.
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Também é impossível esquecer a “oposição enérgica” feita pelo PT ao Plano Real, em 1994. O partido, que já tinha se negado a integrar o governo de coalizão proposto por Itamar Franco após o impeachment de Fernando Collor, rejeitou veementemente o plano de estabilização econômica elaborado pela equipe de Fernando Henrique Cardoso. Aquilo que Lula chamou de “estelionato eleitoral” colocou fim à hiperinflação e lançou as bases para que o governo petista pudesse promover suas políticas de ascensão social – um mérito que o PT jamais reconheceu.

Da mesma forma, a Lei de Responsabilidade Fiscal, instrumento fundamental para colocar ordem na gestão pública, encontrou oposição forte do PT em 2000, quando foi aprovada. Neste caso, o partido até chegou a fazer um mea culpa, primeiro com o ex-ministro Antonio Palocci e, depois, com a própria ex-presidente Dilma, que tratou do tema durante o interrogatório no Senado. Mas ações valem mais que palavras, e o descontrole fiscal, a “criatividade contábil”, as “pedaladas” e as demais maquiagens mostram como o partido realmente trata o orçamento. Felizmente, em todos esses casos a “oposição enérgica” não prosperou, e só resta esperar que o partido tenha aprendido algo nesses 14 anos como governo.

Mas não é só no plano parlamentar que a “oposição enérgica” pode se manifestar. Já antes do impeachment, defensores de Dilma se lançaram em uma onda de barbárie em algumas das principais metrópoles brasileiras, especialmente em São Paulo, lembrando os piores momentos dos protestos de 2013, com depredação de patrimônio público e privado. Dilma, é verdade, não fez nenhum apelo à violência em seu discurso. Mas nem ela, nem líderes petistas repudiaram esse vandalismo que lhes convém. E como esquecer que, em agosto de 2015, a então presidente ouviu candidamente o presidente da CUT, Vagner Freitas, prometer “ir para as ruas entrincheirados, com armas nas mãos, se tentarem derrubar a presidenta”? Ameaças semelhantes foram feitas por outros “movimentos sociais” e até pelo ex-presidente Lula, no famoso chamamento ao “exército do Stédile”, no início de 2015. A mais recente declaração nesse sentido foi do senador (peemedebista, mas sempre aliado ao petismo) Roberto Requião, que falou em “guerra civil” em caso de impeachment. “Entrincheirem-se, porque o conflito é inevitável”, disse na terça-feira. Oxalá tenha sido mera bravata; o que o Brasil menos precisa, em um momento como este, é de novos incendiários e de líderes coniventes com eles.

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Rio de Janeiro

Coração, pulmão e política

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O que somos e para que existimos?

Essa inquietude nos permite mudar, crescer e buscar razões para uma existência melhor.

A medicina, ciência inexata e ampla, que busca preservar a saúde, física e mental, nos exercita na procura por respostas precisas.

Na anatomia (estudo da forma e da estrutura) e na fisiologia (estudo das funções e do funcionamento normal) do corpo humano iniciamos nossa jornada.

Vamos ao coração. Esse órgão é um músculo especializado, retorcido, que funciona de maneira involuntária e como uma bomba propulsora. Possui quatro câmaras: átrio e ventrículo; à direita e à esquerda. Como numa parada de elevador, o coração abre e fecha suas portas - válvulas -, enviando o sangue para suas diversas partes e para o resto do corpo. O átrio direito recebe o sangue pobre em oxigênio que vem de todo o organismo, e depois envia para o ventrículo direito. Este, também em movimentos sincronizados, envia o sangue escurecido para os pulmões.

Pulmões, colméias fantásticas que abraçam lateralmente o coração, são formados por canais distintos por onde passam ar e sangue sem se misturar, mas permitindo as trocas gasosas essenciais - nossa respiração. Diferentemente do coração, órgão único, mas com lados distintos, temos um pulmão à direita e outro à esquerda. Um corpo com apenas um pulmão perde parte da capacidade de oxigenar o sangue. Não pense, caro leitor, que, nesse caso, basta aumentar a concentração de oxigênio para solucionar o problema, pois o ar que respiramos é uma mistura gasosa, composta principalmente por oxigênio e nitrogênio. Administrar apenas oxigênio em alta concentração pode ser tóxico. O tratamento de uma de infecção nesse pulmão único, por menos virulenta que seja a bactéria, será sempre mais complicado, custoso e com maior possibilidade de fracasso.

O sangue que sai do lado direito do coração pode ir para qualquer um dos pulmões. Pouco importa qual receberá a missão de oxigenar o sangue, pois não há preferência de lado quando órgão é saudável. Missão dada, missão cumprida.
Feito seu trabalho, alternando pressão negativa e positiva da cavidade torácica, os pulmões encaminham o sangue para o lado esquerdo do coração: o átrio o recepciona, e o ventrículo, mais robusto, o impulsiona para o restante do organismo. Esse ciclo é ininterrupto, pouco importando em que pulmão o sangue foi oxigenado.

Agora preciso explicar por que escrevi “política” no título deste artigo.

O ser humano, sem importar sua origem e seu desenvolvimento social, é um ser político. Precisa se relacionar para poder viver melhor, pois seu isolamento é ruim. As regras que norteiam esses relacionamentos devem ser complementares como a anatomia e a fisiologia de um corpo saudável.

Neste texto, ao escrever sobre coração e pulmões, eu me dirijo aos políticos profissionais. Afirmo que a anatomia é irmã da fisiologia. Já o fisiologismo é o pai do autoritarismo.

Reflitam sobre isso, oxigenando seus corações.

Impeachment: o Brasil que fez! E o Senado deformou

O que a Constituição une, o Senado não pode separar. Mas separou pena e sentença: é o saco de gatunos do PMDB em ação. Contudo, o que fica de essencial é que Dilma Rousseff vai, que o Brasil falará de si, mudaremos de assunto finalmente. Há menos de dois anos, Dilma se reelegia como poste que seria ponte para o Lula de 2018 e a resistência se abatia com a derrota de Aécio Neves por tão poucos votos e por tanta roubalheira. A Lava Jato, a pressão das ruas e a crise econômica frustraram o pesadelo hegemônico. Me parece que a soma das crises – política, econômica e ética – revelou um país novo que esboça a urgente mudança de crenças e valores dos brasileiros quanto ao papel do Estado e da sociedade, provou o quão nefasta pode ser a tutela e a intermediação do Estado em relações privadas e confirmou a vocação totalitária do PT e adjacências.

Petistas, congêneres e defensores insistem na mentira de que o governo Temer é ilegítimo, mas não disseram o mesmo sobre Itamar Franco, que assumiu depois da destituição de Collor. Sentiram-se vingados porque haviam perdido a eleição para o marajá caçador de marajás. O esquerdismo, na sua versão ressentida, expõe uma especialidade da idiotia latino-americana que culminou no bolivarianismo: o personalismo na política. Então, tudo é transformado em questões pessoais; é assim, por exemplo, que Lula toma como ofensa pessoal a dupla vitória de FHC sobre ele nas eleições presidenciais de 1994 e 1998. No Brasil, esse personalismo apresentou outra degeneração no oportunista populismo de gênero, com a ascensão de Dilma Rousseff. Com um carisma artificial, a ex-presidente forjou certo dilmismo e grassaram entre nós o getulismo, o lulismo, o malufismo e até o marinismo.


Não gosto de governantes carismáticos e não gosto de nenhuma dessas figuras que batizam ismos. Desconfio quando o carisma parece ser sua única ou a mais alta qualidade, quando tudo o mais que possam fazer ou dizer se sustenta neste tal appeal. Gosto de Serra, Merkel, Anastasia, Uribe e FHC. Evidentemente, a inteligência e os bons modos democráticos do sedutor FHC o tornam um político carismático, mas o sóbrio carisma dele só é uma qualidade porque há as demais que a ele se somam e até o suplantam. Nos demais políticos carismáticos, como também na espertalhona Marina Silva, por exemplo – que se pronunciou a favor do impeachment ao mesmo tempo em que o senador Randolfe Rodrigues, o único que representa a Rede, votou contra, – com ares de mandona, a prolixidade de quem não tem o que dizer e o despiste sempre que interpelada com firmeza, o carisma é o diluidor da figura institucional do governante para robustecer a persona dele.

O nefando personalismo na recente política brasileira pariu um jeca que precisou de quase 40 anos de vigarice para instaurar o lulismo; uma parvoíce que em apenas 6 anos nomeia como dilmismo uma vertente da escória; e uma Marina que só precisou de duas campanhas para fazer florescer o marinismo. Sempre usando os pobres como álibi moral, escudo contra a lei e anteparo de críticas, é somente no culto secular a figuras antidemocráticas e medíocres, que os esquerzoides podem ainda defender o capitalismo estatista, o coitadismo, os fins justificando quaisquer meios, a vigarice intelectual para fraudar a história e convencer quem pensa pouco de que nos salvarão da direita má que quer exterminar direitos, do imperialismo americano que espreita nossas riquezas e da elite perversa que só quer, bem, continuar sendo elite perversa.

Me parece que esse personalismo, à parte demais deformações, nutre a permanente atitude belicosa de Dilma Rousseff que se vai prometendo guerra. Sabemos que para essa gente qualquer arma vale, mas não seria hora finalmente de pensar no país? De se dar conta de que o combate não prejudica Temer – que, de resto, nada fez contra ela –, mas o país? Não, a coisa é pessoal. Para escapar da merecida cadeia, talvez a mulherzinha se homizie em algum cargo de administrações petistas que lhe garanta foro especial, já que nesse “impeachment de coalização”, segundo uma definição perfeita que li em algum lugar, ela contou com a manobra espúria que lhe garantiu o direito de exercer cargos públicos.

Dilma deixa algumas lembrancinhas como as contas arruinadas, um país a ser reconstruído, o futuro adiado e a mais importante de todas: PT e congêneres nunca mais. Finalmente, passaremos a falar do futuro que temos para hoje: reforma, reforma e reforma – é isso o que nos colocará no século 21. Reforma, sobretudo, de mentalidade. Parabéns, ao Brasil que foi às ruas (nos domingos, sem depredar nada nem atrapalhar o cotidiano) esfregar na cara dos caras que essa primeira mudança já raiou no horizonte. O impeachment, esse lindo, é só o começo, mas o começo é por onde as coisas começam mesmo.

Vices e versos

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Com os escândalos de Collor e PC Farias explodindo na mídia, em algum momento caiu a ficha: se elle sair, quem vai entrar? Itamar Franco??? Meu Deus! Foi a reação geral. Mas foi ele, tido como um provinciano simplório e antiquado, que, em decisão de sábia audácia, nomeou um sociólogo ministro da Fazenda e bancou a criação do Plano Real, resolvendo um problema que durante 30 anos parecia insolúvel, nos dando uma moeda e mudando a História do Brasil. Pois é, Itamar, do pão de queijo, do topete ridículo...

O ex-vice Michel Temer só agora é presidente, antes esteve pressionado por exigências, ameaças e chantagens, de partidos, de políticos, de corporações, que não podia enfrentar como interino. Engoliu tudo e esperou sua hora. Agora não tem mais desculpas, tem que fazer o que tem que ser feito. Seu look de mordomo de filme de terror, seu carisma zero, sua aparência antiga e conservadora não ajudam na missão ciclópica de resgatar o Brasil da beira do abismo de nossas desesperanças. As esperanças são sua vasta experiência e habilidade politica, fundamentais para qualquer mudança, sua carreira de jurista emérito, seu temperamento conciliador.

No papel, Temer parece até mais qualificado do que Itamar. O problema são as companhias... O que esperar de velhas raposas, muitas delas agatunadas, algumas competentíssimas, de volta ao poder, onde na verdade sempre estiveram, inclusive no governo Dilma? Mas ao menos há muita gente competente na área econômica, a base de tudo.

Agora é o melhor momento para uma reforma política. A opinião pública está mobilizada, o país exige mudanças, os líderes políticos e os parlamentares têm uma oportunidade de reabilitação perante os eleitores. Neste reinício, com a sociedade vivendo uma mudança de paradigmas que está levando políticos e empresários poderosos aos tribunais e à cadeia, o que esperar de Temer e seus aliados de ocasião?

As reformas política, previdenciária e tributária podem ser o Plano Real de Temer e justificar seu mandato — e como chegou ao poder. Se não, vai virar o ex-vice Sarney, que também escrevia versos.

Nelson Motta

História antiga

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Damião Martins
Na época das vagas magras
redemocratizado o país
governava a Paraíba
alugava de meu bolso
em Itaipu uma casa
do Estado só um soldado
que lá ficava sentinela
um dia meio gripado
que passara todo em casa
fui dar uma volta na praia
e vi um pescador
com sua rede e jangada
mar adentro e saindo
perguntei se podia ir junto
não me reconheceu partimos
se arrependimento matasse
nunca sofri tanto
jogado naquela velhíssima
jangada
no meio de um mar
brabíssimo
voltamos agradeci
meses depois num despacho
anunciaram um pescador
já adivinhando de quem
e do que se tratava
dei (do meu bolso) três contos
é para uma nova jangada
que nunca vi outra
tão velha
voltou o portador
com a seguinte notícia
o homem não quer jangada
quer um emprego público

Francisco Alvim

Versões petistas - Genéricos da verdade incômoda

A nação, aos poucos, foi identificando a distância que se estabeleceu entre o discurso que levou o PT ao poder e a posterior prática na gestão dos negócios públicos. Alguns, entre os quais me incluo, predisseram, bem antes, os riscos aos quais se expunha uma sociedade que confiasse poderes de governo e de Estado a uma organização que fazia uso das práticas que caracterizavam a ação petista. Refiro-me, especificamente, aos seguintes meios:
a) organização e manipulação de movimentos sociais para atos que atentavam à ordem pública, à lei, ao direito de propriedade e às determinações judiciais;
b) desrespeito pela honra alheia e o assassinato das reputações de quaisquer adversários que se colocassem no caminho traçado pelo partido;
c) articulação partidária internacional com governos totalitários, com organizações terroristas e com movimentos revolucionários de esquerda, dos quais o Foro de São Paulo é apenas um exemplo regional em meio a inúmeros outros mundo afora;
d) transformação de instituições do Estado, de setores importantes da administração pública, bem como de conselhos profissionais, órgãos de cultura, instituições de ensino e organismos religiosos como a CNBB, em aparelhos do partido.
Resultado de imagem para petismo chargeOs milhões de brasileiros que saíram às ruas, bem como os autores das cinco dezenas de requerimentos de impeachment formulados por juristas munidos de exaustiva coletânea de fundamentos, respeitaram a legitimidade de três sucessivos mandatos presidenciais do PT. Três mandatos cuja lisura, aliás, com as revelações da força-tarefa da Lava Jato, ingressam na mais nebulosa suspeita. Bastaria isso para descredenciar a veemência da tropa de choque do governo extinto. Do início ao fim desse exaustivo processo conviveram, braços dados, a obra e o conjunto da obra de uma específica mandatária. Na gênese deste impeachment, conviveram o crime de responsabilidade e uma vultosa mistura de ingredientes. Eles vão da incompetência, passam pelo conhecimento de que uma organização criminosa causou um dos maiores casos de corrupção da história e deságuam na mais tormentosa crise econômica e social da vida republicana.

Como reage o petismo diante desse quadro? Com arrogância, virulência e irresponsabilidade. Em momento algum, desde março do ano passado, o partido, seus agentes e a própria presidente demonstraram qualquer preocupação com a situação nacional. Nada! Brandiam os números dos tempos de bonança, da China compradora e do petróleo em alta, como se fossem méritos, e méritos permanentes, do governo. Nunca dedicaram uma palavra sequer aos 14 milhões de desempregados de agora, nem às famílias cuja renda despenca, nem às vítimas da criminalidade que se abastece do ódio de classes, raça e "gênero" semeado, nem às empresas que fecham as portas. Só os mobiliza a construção de discursos que possam pavimentar uma viela de retorno ao poder.

Não lembro de outra circunstância em nossa história na qual os ditames constitucionais tenham sido tão minuciosa e longamente observados. Para o petismo, porém, tratava-se de uma nova queda de Jango, de um novo suicídio de Vargas. Impossível não ver em tudo isso o mesmo petismo de sempre, dedicado à dissimulação da realidade, às mentiras, ao espargimento de ódios e à construção de versões como genéricos da verdade incômoda. Portanto, onde alguns veem combatividade e dedicação à causa eu identifico contumácia, vícios empedernidos, incorrigibilidade. Já não queimam pneus, os artífices do caos?

Fim de jogo

O impeachment representa oficialmente o fim de uma experiência de 13 anos da esquerda no governo. Em 1964, após o golpe do militar, ela denunciou a ditadura, mas mergulhou num processo de autocrítica, destacando o populismo como um dos seus grandes erros. Infelizmente, para uma parte importante dela, o caminho escolhido foi a luta armada com todas as suas consequências. Esse processo foi alvo de intensa autocrítica que nos levaria, se a análise fosse completa, a uma marcha pelas instituições.

O chamado socialismo do século XXI, que teve suas consequências mais graves na Venezuela, lançou na América do Sul um modelo que não era a marcha pelas instituições, e sim a captura das instituições. Primeiro o Executivo, depois o Legislativo, o Judiciário e, finalmente, a imprensa.

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Nesse modelo, a democracia é só uma tática não o objetivo estratégico. O populismo, no fundo, partilha dessa escolha. A diferença da experiência democrática de agora é a ausência de autocrítica. A narrativa do PT é que ele foi afastado do poder por suas qualidades e o bem que fez ao país.

Compartilhei das críticas no pós-64 e das críticas à luta armada que decorreu da análise equivocada do fracasso do populismo. Por que agora a autocrítica é tão difícil?

Quando deixei o PT e o governo, em 2003, disse que estava deixando pelo conjunto da obra. Vejo essa expressão retornar nos debates sobre o impeachment. Em 2003, não tinha ocorrido o mensalão e o que se passou até o processo que arruinou a Petrobras.

Todos esses fatos não produziriam ainda um impeachment pela lentidão das investigações e julgamento. Os decretos suplementares, o uso ilegal do Banco do Brasil revelam a ilusão de que o dinheiro cai do céu e podemos gastá-lo à vontade. O populismo orçamentário. De novo, o populismo derruba a esquerda.

Quando vejo jovens gritando “golpe” e outros slogans da esquerda, sinto ternura pelo passado, mas também inquietação. É possível que acreditem que o mal triunfou. A eles está sendo negada uma saudável crítica. No seu lugar, a visão monolítica. Num tempo de reconstrução política e econômica, revolução digital e aquecimento planetário, que papel terá uma esquerda se insistir no papel de vítima?
Fernando Gabeira

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Dilma et exterminador do futuro eu voltarei i will be back pedalada bicicleta ceu lua

E como fica agora?

O rito da destituição de Dilma foi consumado e o Partido dos Trabalhadores (PT), que a sustentava, passa à oposição, depois de 13 anos no poder. Mas o Senado manteve os direitos políticos dela, o que lhe permitirá se candidatar a cargos eletivos e exercer funções na administração pública.

A saída da presidenta era desejada, segundo as pesquisas, por 61% dos brasileiros, o que não impede que tenha sido uma comoção nacional.

Muitos se perguntarão: e como fica agora?

Talvez esta seja, paradoxalmente, a hora da reflexão e da reconciliação, mais que a de vinganças, já que os povos são sempre maiores que seus governantes. Os presidentes irão passando, e o Brasil continuará vivo, com seus problemas e lutas.

Quando uma cidade é golpeada por um terremoto, nesse momento trágico as pessoas não perguntam a razão da explosão. As pessoas correm para tentar salvar vidas dos escombros e ajudar solidariamente a reconstruir a cidade.

O Brasil sofreu um terremoto político que causou dor e até dividiu a sociedade. Não será esta a hora de se esquecer do que produziu o sismo, para todos junto contribuírem para resolver a crise política, econômica e social sofrida nestes anos de polêmicas?

By Pawel Kuczynski--  The poor, a ticking bomb.   I love it when art actually makes me think and go "oooh".:
Pawel Kuczynski
A responsabilidade é de todos os que de verdade amam o país e o futuro que desejam para seus filhos. É a hora da trégua, como nas guerras do passado, já que no final somos todos filhos de uma mesma esperança de viver em paz e com bem-estar.

Impedir neste momento quem tem a responsabilidade de seguir governando o país até 2018, quando os brasileiros poderão escolher com seu voto por quem desejarão ser governados, equivaleria a voltar a colocar as intrigas políticas acima do bem do país.

Pensar neste momento em paralisar o país provocando novos terremotos e incêndios seria uma grande irresponsabilidade.

Significaria esquecer-se dos milhões sem trabalho, dos que sofrem as consequências de uma inflação disparada que corrói o salário dos mais pobres, dos que entram no inferno das dívidas por causa de juros que são os maiores do mundo.

A nova oposição tem o direito e o dever de vigiar o novo governo, que terá agora de ser julgado por seus atos com a mesma severidade com a que o foi o de Dilma.

O “quanto pior, melhor”, porém, não só nada construiria como também agravaria a forte crise econômica que o país ainda sofre, e pela qual Dilma saiu em definitivo de cena.

Esta é a hora de cada um demonstrar se de verdade se sente empenhado em fazer o Brasil crescer para que volte a ser o que foi e que havia entusiasmado o mundo, ou prefere continuar enredado em seus jogos políticos, se esquecendo dos que trabalham, e com não poucos sacrifícios, para manter o país de pé.

Um pescador semianalfabeto me perguntara esta manhã: “Acha que agora vamos ficar melhor?”. Pode parecer uma pergunta banal. Não é. A grande caravana dos pobres se alimenta da esperança de que, como na canção de Chico Buarque, apesar de tudo e de todos, “amanhã vai ser outro dia”.

Eles sabem pouco de política e muito da dureza da vida.

No final, nós todos não nos alimentamos da mesma esperança do pescador? Sem ela não seríamos capazes nem de nos levantarmos.

Talvez seja ingênuo de minha parte, mas minha esperança para este Brasil, que é também meu, é que nos deixem, e nos deixemos uns aos outros, poder voltar a sonhar.

O desfecho do impeachment

Todo cidadão honesto deste país há de estar estupefato com o desfecho do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Malgrado o fato de que a petista finalmente teve seu mandato cassado, levando alívio ao País, tão maltratado pela incúria administrativa e pelo desleixo moral da agora ex-presidente e de seu partido, um punhado de notórios personagens da vida política – desses que não se consegue identificar bem na escala biológica, porque são ao mesmo tempo animais de pluma, couro e escama – aproveitou a deixa para urdir uma maracutaia digna de uma república bananeira. O objetivo, claro, foi beneficiar todos os políticos facínoras que a Justiça está por alcançar. Mas o resultado da trama, do qual essa chusma de irresponsáveis talvez nem tenha se dado conta, é que o governo de Michel Temer, do qual vários deles esperam fazer parte e colher seu quinhão, corre o risco de terminar antes mesmo de começar (ver abaixo o editorial Dá para olhar para a frente?).

Como toda maquinação, esta não ficou clara senão pouco a pouco, minuto a minuto, para assombro geral, em meio ao drama da votação que determinou o impeachment de Dilma no Senado. As coisas ficaram meridianamente claras quando a bancada do PT fez ao presidente da sessão, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, um pedido de destaque por meio do qual pretendia que houvesse duas votações: uma sobre a perda do mandato e outra sobre a perda dos direitos políticos de Dilma. O argumento, mais um da inesgotável coleção de chicanas petistas, era que não havia vinculação entre a cassação e a inabilitação.

Tivesse o ministro Lewandowski um mínimo de familiaridade com o artigo 52 da Constituição, o pedido teria sido rejeitado sem maiores considerações. Esse artigo, que estabelece a competência do Senado para processar e julgar o presidente, diz em seu parágrafo único que a condenação, proferida por dois terços dos votos dos senadores, será limitada “à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis”. Salvo se o uso da preposição “com” ganhou significado oposto ao que manda a boa gramática, não é possível concluir outra coisa desse artigo senão que a inabilitação para o exercício de cargos públicos acompanha, necessariamente, a perda do cargo de presidente.

O fato é que aqueles que tramaram a cavilação estavam no seu dia de sorte. O ministro Lewandowski, não conhecendo o artigo 52, aceitou o destaque que fatiou a votação. E assim, com a inocente anuência do presidente do Supremo Tribunal Federal, a Constituição foi reescrita no joelho.

Adotada a escandalosa manobra, senadores revezaram-se em vexaminoso exercício de caradurismo para dar um mínimo de dignidade à esbórnia. A senadora Kátia Abreu, por exemplo, apelou à piedade dos colegas, ao dizer que Dilma, se ficasse inabilitada, teria de viver com uma aposentadoria de meros R$ 5 mil. Já o presidente do Senado, Renan Calheiros, cujas digitais estão por toda a parte nesse caso, brandindo um exemplar da Constituição, disse que “não podemos ser desumanos” com Dilma. O ministro Lewandowski, com ternura cristã, alertou os parlamentares que Dilma, se fosse inabilitada, não poderia ser “nem merendeira de escola”.

Assim, o impeachment de Dilma passou, mas seus direitos políticos foram preservados. A punição pela metade não garantirá a Dilma um emprego de merendeira, mas se presta a livrar plumas, couros e escamas de figuras graúdas do Congresso que estão enroladas na Justiça, algumas das quais com assento nas mesas que dirigiram os trabalhos desse processo e que deveriam estar conscientes de sua responsabilidade perante a Nação.

Quarenta e dois senadores que garantiram os direitos políticos da ex-presidente comprovaram que o brasileiro não tem “complexo de vira-latas” por causa das vicissitudes do futebol, mas porque é reduzido a essa condição por políticos agrupados em matilhas.

Essa imoralidade abre precedente para uma catadupa de escândalos. O que aconteceu ontem não foi motivo apenas para que o PSDB e o DEM ameaçassem romper a coalizão com o governo Temer, comprometendo todo o esforço de recuperação nacional. Trata-se de um episódio que expõe a inesgotável capacidade da classe política nacional de trair a confiança dos brasileiros de bem.

Mudar o governo


 Não se pode governar um país como se a política fosse um quintal e a economia fosse um bazar. Ao avaliar um regime de governação precisamos, no entanto, de ir mais fundo e saber se as questões não provêm do regime mas do sistema e a cultura que esse sistema vai gerando. Pode-se mudar o governo e tudo continuará igual se mantivermos intato o sistema de fazer economia, o sistema que administra os recursos da nossa sociedade. Nós temos hoje gente com dinheiro. Isso em si mesmo não é mau. Mas esses endinheirados não são ricos. Ser rico é outra coisa. Ser rico é produzir emprego. Ser rico é produzir riqueza. Os nossos novos-ricos são quase sempre predadores, vivem da venda e revenda de recursos nacionais.
 Governo católico | Ricardo Campus - Caricaturas Cartoons e Ilustração:
Afinal, culpar o governo ou o sistema e ficar apenas por aí é fácil. Alguém dizia que "governar é tão fácil que todos o sabem fazer até ao dia em que são governo". A verdade é que muitos dos problemas que nós vivemos resultam da falta de resposta nossa como cidadãos ativos. Resulta de apenas reagirmos no limite quando não há outra resposta senão a violência cega. Grande parte dos problemas resulta de ficarmos calados quando podemos pensar e falar.
Mia Couto

Imagem do Dia

Arte  e Conceito:
Daniel Dociu

O 'acordão' que interessava a Temer, Lula, Dilma, PT e PMDB

Quer dizer que quase todo mundo em Brasília sabia há uma semana que estava em curso um “acordão” para separar o impeachment de Dilma da suspensão por oito anos dos seus direitos políticos e o presidente Michel Temer não sabia, não fazia a mínima ideia?

Quer dizer que ele foi surpreendido quando o ministro Ricardo Lewandowski acatou o pedido do PT para que houvesse duas votações, uma para decidir se Dilma deveria perder o mandato ou não, outra para decidir se os direitos políticos dela deveriam ser preservados?

Quer dizer que Temer desconhecia que Renan Calheiros, presidente do Senado, apelaria em discurso aos colegas para que não tornassem Dilma inelegível uma vez que àquela altura ela já perdera o mandato? E que 12 dos 17 senadores do PMDB atenderiam ao apelo de Renan?

Jarbas, 31/08/2016 -

“Estamos juntos”, disse Temer a Renan ao tomar posse como presidente. Para menos de uma hora depois, reunido com seus ministros, criticar o “acordão” que salvou os direitos políticos de Dilma. Antes, autorizara o senador Romero Jucá (PMDB-RR) a recorrer da decisão ao Supremo.

Teatro puro. A ser verdade que Renan, Lewandowski e 12 dos 17 senadores haviam lhe passado a perna, Temer estaria mal, muito mal. Fora traído por seu próprio partido. Perdera para Renan a posição de maior líder do PMDB. E revelara-se um presidente, no mínimo, inepto.

Não há no Congresso uma única ingênua alma capaz de acreditar que Temer estava por fora do acordo. Estava por dentro, sim. E o acordo não interessava somente a Dilma e ao PT, consultados há mais de 15 dias a respeito. Interessava também a Temer.

Por temperamento, estilo e gosto, Temer prefere a conciliação ao confronto. Sempre foi assim – e nisso se parece com Lula. Dilma está mais para José Dirceu – não sabe viver sem uma boa briga. Prefere pegar em armas a gastar saliva em conversas com adversários.

Temer quer ser visto como o presidente que pacificou o país. Ou que tentou pacificar. Suará a camisa para desarmar os espíritos – inclusive os do PT. E precisa de um Congresso calmo, cooperativo, para aprovar ali as reformas que Fernando Henrique, Lula e até Dilma imaginaram aprovar.

Por um voto apenas, Fernando Henrique perdeu no Congresso a batalha pela reforma da Previdência. Lula desistiu da reforma por falta de condições de obtê-la do Congresso. Em compensação, fez tudo para manter o imposto do cheque – e acabou derrotado.

Movimentos sociais foram às ruas em várias cidades protestar contra o impeachment de Dilma, mas o PT, oficialmente, não foi. Bom sinal para Temer. Na sua posse, não se viu uma só bandeira vermelha no Congresso, uma faixa, um grito de protesto. Bom sinal para Temer.

Um dia desses, Temer revelou que cogitava a ideia de convidar Lula para um encontro. Poderá não fazê-lo tão cedo. Poderá nunca fazê-lo. Mas a ideia continua na cabeça dele. Os dois sempre se deram bem. Lula ficou rouco de tanto aconselhar Dilma a prestigiar Temer. Em vão.

Se dependesse de Temer, Lula jamais seria preso. Muito menos condenado e banido da vida política. Em 2010, Temer foi a Lula sugerir a montagem de uma chapa à eleição presidencial daquele ano com Serra na cabeça e Dilma de vice. Lula foi que não quis. Serra topava.

De volta ao “acordão”: ele não é garantia de que Dilma poderá se candidatar em breve ou mais tarde. Caso ela queira, o Supremo é quem irá decidir. E não é certo que decidirá a favor dela. É provável que decida contra. Assim, o “acordão” não terá saído tão caro a Temer.

'Mágicos' do Brasil