domingo, 17 de janeiro de 2016

Mandado de segurança será uma peça futurista e arrojada

No caso da ação sobre o rito do impeachment, só podia dar em controvérsia uma decisão improvisada a respeito de um processo que envolve questão complexa, de alta indagação, decisão tomada às pressas, sem tempo para estudos e reflexões por parte dos ministros do Supremo Tribunal Federal e sem o exaurimento completo de todas as etapas que a lei 9882/99 prevê para que o processo de uma ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental)inicie e termine.

Esta aí mais uma forte razão para que jamais pudesse ser convertida em julgamento de mérito a decisão a respeito dos pedidos de liminares na medida cautelar embutida no bojo da ação principal, a ADPF 378 do PCdoB, e assim terminasse a tramitação do processo. O açodamento e a pressa são sempre inimigos da perfeição e adversários do que é justo e bom.

Às oportunas perguntas do ex-ministro Nelson Jobim, no jornal Zero Hora, soma-se o bem fundamentado artigo de Thomaz Pereira (professor de Direito da FGV-Rio), publicado na edição de sábado do O Globo, pagina 8, com o título “O impeachment e a polêmica do voto secreto” e que, no mínimo, serve para deixar o STF mais constrangido ainda com a decisão precipitada e ilegal que a Corte tomou no tocante à ADPF do PCdoB.

Duas são as esperanças para a volta à normalidade, ao equilíbrio e à sensatez que se espera da mais alta Corte: os Embargos de Declaração, cujas apresentações já foram antecipadas por parte da Câmara dos Deputados tão logo o Acórdão da ADPF seja publicado, e o Mandado de Segurança, já pronto, que será impetrado por dois eleitores: um jornalista do Rio(o nosso editor da TI, Carlos Newton) e um representante comercial do Rio Grande do Sul (Francisco Bendl), residente na cidade de Rolante.

Os Embargos têm previsão legal. Já o Mandado de Segurança é novidade. Muitos vão considerar esta ação (Mandado de Segurança é ação, não é recurso) completamente descabida, imprópria, teratológica, tresloucada… insana mesmo. Onde já se viu – dirão eles – impetração de Mandado de Segurança por dois cidadãos-terceiros que não fizeram parte da ADPF do PCdoB, com pedido para que a ADPF do PCdoB retome o seu curso e prossiga até receber julgamento final de mérito?

Mas haverá outros, muitos outros, com visão ampla e projetada no futuro, a reconhecer que, entre os muitos direitos do eleitor brasileiro, um deles é o de participar ativamente do processo judicial instaurado para interpretar e decidir a respeito da lei que estabelece rito e etapas que culminam com a deposição de um presidente da República que o voto desse próprio eleitor elegeu.

Quem tem legitimidade para eleger tem também para destituir o eleito. Quem é parte legítima para o processo eleitoral que elege um presidente da República é também parte legítima para integrar e participar do processo cuja pena é a destituição do cargo daquele que foi eleito. Trata-se de um direito difuso, transindividual, coletivo e a todo eleitor pertencente.

É uma visão arrojada e futurista? Sim. É. Mas não pode ser tida como tresloucada ou teratológica. E se assim for considerada, a História vai mostrar que no início do Século XXI todos que assim pensavam estavam errados e atrasados.

Lula na mira de Sean Penn

Deu no “The Piauí Herald”: após a prisão do traficante El Chapo, manifestantes pedem a Sean Penn que entreviste Lula. Seria de fato uma providência oportuna — considerando-se as dificuldades encontradas pelas instituições convencionais para livrar o país de um governo criminoso. Vai uma dica para o astro de Hollywood e herói dos picaretas terceiro-mundistas iniciar a entrevista com Lula: “Venerável presidente, me fale da sua gratidão ao grande Nestor Cerveró”.

Segundo Cerveró, Lula o indicou para a diretoria da BR Distribuidora em 2008 “por reconhecimento”. É o tipo de solidariedade que comove Sean Penn e toda a esquerda festiva planetária. Vamos explicar esse gesto nobre àqueles que não estão familiarizados com uma certa Operação Lava-Jato (essa denunciada por um manifesto dos advogados dos honoráveis bandidos): como diretor internacional da Petrobras protegido pelo PT, Cerveró fechou um contrato de R$ 1,3 bilhão com o Grupo Schahin para operar um navio-sonda — operação que rendeu um pixuleco de R$ 12 milhões adivinhe para quem, Sean Penn? Acertou, seu danado: para o PT, como confirmou o dono do Schahin em delação premiada.


O intermediário dessa operação progressista foi o companheiro Bumlai, que também vale uma bela entrevista — no caso, já sendo feita pelos investigadores golpistas que o prenderam. José Carlos Bumlai é o amigo de Lula que tinha escritório com os filhos de Lula e aparece como facilitador das montagens e reformas das propriedades de Lula que não são de Lula. São dinheiros que vêm de empreiteiras e se aninham sob a titularidade de laranjas — porque socialista que é socialista não tem nada de valor em seu nome, companheiro Sean Penn.

Bumlai foi aquele que montou reunião sobre o navio-sonda com Lula, por indicação do lobista do petrolão Fernando Baiano, e passou a reunião toda vendo um livro do Corinthians. Os R$ 12 milhões do pixuleco petista vieram através de um empréstimo falso a Bumlai (a consagrada tecnologia do mensalão), que depois fingiu que pagou em sêmen de boi fictício. É um enredo eletrizante — e esse boi imaginário também renderia uma bela entrevista. Não se sabe exatamente quanto desses R$ 12 milhões foi para a campanha de Lula em 2006 e quanto foi usado para acalmar um chantagista do caso Celso Daniel, mas isso é questão de foro íntimo. Perguntando com jeitinho, Sean Penn, quem sabe o Lula te conta.

Cerveró, coitado, está lá tendo que decidir o que diz e o que desdiz. Tudo depende, claro, do futuro que lhe for oferecido pelos amigos de fé. O líder do governo Dilma no Senado foi direto para a cadeia depois de oferecer ao companheiro Nestor um futuro arriscado. É muita falta de sensibilidade mesmo oferecer uma vida de fugitivo a um homem que tem a gratidão de Luiz Inácio da Silva. Essa gente parece que bebe.

Felizmente, o Brasil é uma mãe gentil: pela primeira vez na história, um senador com mandato é preso — sendo que esse senador, que estava negociando com a máfia do petrolão, era apenas e tão somente o líder do governo Dilma. Vários comentaristas e analistas continuam se referindo a Delcídio Amaral como ex-líder do PT — mostrando que brasileiro anistia até sem querer. O companheiro Delcídio não liderava Rui Falcão e companhia, caros colegas: liderava o Palácio do Planalto e a companheira presidenta — inclusive nas tratativas com os assaltantes da Petrobras.


Nada disso é suficiente para o Brasil providenciar o impeachment. Só você mesmo, Sean Penn. Mas, pelo amor de Deus, não mostre a sua reportagem sobre o reinado de Lula ao companheiro El Chapo. Ele teria uma violenta crise de autoestima.

Se o ex-marido de Madonna fosse só ex-marido de Madonna, nem valeria citá-lo. Mas Sean Penn é um ator extraordinário, um artista realmente importante. Entre outras ações impressionantes, usou essa importância para apoiar Hugo Chávez e a ascensão de Maduro — que ameaça transformar a ditadura branca do chavismo em ditadura assumida, com um golpe no Congresso. Aliás, essencial para isso tem sido a Suprema Corte venezuelana, que virou arma palaciana para atropelar o Poder Legislativo. Sim, você já viu esse filme — num cinema bem pertinho de você.

Esse negócio de usar o prestígio artístico ou intelectual para defender governos devastadores como o da Venezuela e o do Brasil, por alguma razão obscura, ainda não foi desmascarado. A lenda do coitado continua rendendo dividendos seguros no mercado da notoriedade, ainda que esses gestos solidários sejam tão genuínos quanto o sêmen do boi de Bumlai. Essa lenda vagabunda é hoje, por incrível que pareça, o principal sustentáculo do governo delinquente de Dilma Rousseff. E segue o baile: Lula contrata Nilo Batista, para ter a defesa de um advogado de esquerda. O filão é inesgotável.

Enquanto isso, Dilma quase triplica a verba do fundo partidário, aproximando-a do bilhão de reais — em plena e grave recessão. Eles continuarão comprando tudo e todos com o seu dinheiro, na sua cara. A não ser que você comece a vender um pouco mais caro a sua tolerância.

Politizar emoções: a mais poderosa artimanha da esquerda

A maior artimanha no arsenal esquerdista é politizar as emoções. Uma vez que este objetivo é alcançado, não há mais limites para a intervenção do Estado pois as emoções não são limitadas pela razão.

Considere os seguintes exemplos emocionalmente carregados. É certo ou errado matar um bebê por um milhão de dólares? E quanto a matar uma escola cheia de crianças por um milhão de dólares? Ou matar um membro se sua própria família por um trilhão de dólares?

Por mais horrendo que seja sequer considerar cometer atos tão sórdidos, o valor monetário — um reflexo dos recursos materiais e humanos do trabalho — não determina por si só se algo é ou não correto.

Agora considere o assistencialismo estatal. É certo ou errado ajudar uma pessoa pobre? E quanto a oferecer educação às crianças? Ou garantir que todos tenham acesso à saúde? Essas coisas parecem ser corretas à primeira vista e, portanto, o custo pouco importa para a esquerda. A escassez e o modo como os recursos são empregados não são levados em consideração. Seja de forma voluntária ou involuntária, pouco importa como é feito. Logo, não importa se o governo força as pessoas a fazer algo contra sua vontade ou não.

Agora pense nas leis desarmamentistas, as quais sofrem de ausência de evidências factíveis para assegurar a própria eficiência, dada as restrições do mundo real. Armas não podem ser desinventadas – apenas retiradas e colocadas nas mãos de um outro alguém. Mas como as armas fazem os esquerdistas ficarem com nojinho, é melhor pedir ao governo para desaparecer com elas.

Como muitos esquerdistas são dominados por emoções e se entediam facilmente com fatos e a razão, a maioria pouco se importa com as consequências de suas próprias ações. Eles apenas desejam que as coisas melhorem. Isso não quer dizer que os esquerdistas sejam idiotas; eles são especialistas nos subterfúgios e no sofisma. Eles colocam a carroça na frente dos bois – emoção antes da razão.

Hoje o típico totalitário de esquerda não é mais um bandido em trajes de guerrilheiro, mas um afeminado hipersensível vestindo casaco de lã, cuja obsessão por sentimentos o tornam imune a argumentos racionais. O perigo de dar ao governo poder ilimitado para fazer o “bem,” assim como outras coisas, é ignorado ou desprezado pelo esquerdista, já que o simples pensamento de se conformar com um mundo imperfeito o incomoda. É por isso que a esquerda jamais aprenderá com a história: o passado é apenas um prólogo para a utopia vindoura, a qual será perfeita, justa e igualitária.


Os esquerdistas estão convencidos de que são do bem. Eles pouco se importam com os custos; eles se preocupam com a humanidade. Eles se preocupam tanto com a humanidade que desprezam os indivíduos (pergunte a qualquer esquerdista o que pensam as dezenas de milhões de mortos por socialistas confessos). Isso não significa que esquerdistas tenham um coração de pedra; na verdade eles tendem a ser hiper-sensíveis em relação aos melodramas que brotam de suas mentes. Além disso, o centrismo emocional inclui a ganância e a malícia, pois todo seu processo mental é focado em obter o poder efetivo, o qual eles crêem que será usado para o bem. Os fins justificam os meios.

Esquerdistas são militantes que amam tanto o próximo que estão dispostos a obrigar as pessoas a pagar a conta de qualquer causa que eles considerem oportunas. Salvar o planeta, mesmo que isso signifique fazer outras pessoas sofrerem (veja a malária e as DSTs; subsídios para o etanol e a fome mundial; a histeria do aquecimento global, etc.). Travar uma guerra sem fim e autodestrutiva contra a pobreza, enquanto empobrecem a nação. Ignorar a natureza humana, como se punir o comportamento produtivo e subsidiar a ociosidade não fosse danificar a economia ao longo de gerações. Estamos igualmente pobres, mas a esquerda se sente melhor por ter tentado.

Tal pensamento negligente faz toda discussão sobre dívida inútil. Não importa quão racional sejam os limites que se coloquem ao assistencialismo; o esquerdista simplesmente rotulará o argumentador como inimigo do povo por sugerir que exista limites ou que deva haver limites. E o fato óbvio de que o governo não pode curar todos os males do mundo se perde. Como Thomas Reed escreveu, “[u] ma das maiores ilusões do mundo é a esperança de que os males deste mundo devem ser curados pela legislação.”

Para piorar, se alguém diz que é dono de sua própria vida, o esquerdista tem duas reações: primeiro, diz que a pessoa é egoísta e gananciosa; e segundo, que os regimes socialistas são perfeitamente compatíveis com a liberdade e a democracia. Claro que não são – como os observadores políticos mais perspicazes desde Alexis de Tocqueville têm denunciado:

A democracia valoriza o que cada homem tem de melhor; o socialismo faz de cada homem um agente, um instrumento, um número. Democracia e socialismo, têm somente uma coisa em comum: a igualdade. Mas note bem a diferença. A democracia tem como objetivo a igualdade na liberdade. O socialismo deseja a igualdade na restrição e na servidão.

O ser humano não precisa de coerção para fazer o que é certo para si, mas a coerção é necessária para forçar que seres humanos forcem os outros a se sacrificarem por eles. O caminho para tornar o mundo melhor é simples: as pessoas devem parar de usar a coerção para obrigar os outros a serví-los, e as pessoas devem servir a si próprias. Deve haver liberdade civil, econômica e respeito aos indivíduos. É disso que se trata o sistema de livre mercado: servir a si mesmo enquanto se serve aos demais e, especificamente, através da oferta de bens e serviços em troca de dinheiro.

Ah, mas isso é tão cruel!

“Mas qual é a resposta do conservador para todo o sofrimento do mundo?” os gritos de esquerda. “O que faremos a respeito de [cite um infortúnio]? Será que os conservadores realmente querem fazer algo?”

A melhor resposta é fornecida por Frederic Bastiat.

O socialismo, como as antigas idéias das quais esta deriva, confunde a distinção entre governo e sociedade. Como resultado, cada vez que nos opomos a algo ser feito pelo governo, os socialistas concluem que nos opomos a que algo seja feito. Nós desaprovamos a educação estatal. Em seguida, os socialistas dizem que somos contra qualquer tipo de educação. Opomo-nos a uma religião estatal. Em seguida, os socialistas dizem que não queremos nenhuma religião. Opomo-nos a uma igualdade imposta pelo Estado. Então eles dizem que somos contra a igualdade. E assim por diante. É como se os socialistas acusasem-nos de não querer as pessoas famintas porque não queremos que o estado semeie grãos.

A melhor resposta ao esquerdista que acha estar do lado do bem e que, portanto, os meios para seus fins são irrelevantes, é que ninguém nasce neste mundo como propriedade de qualquer outra pessoa, incluindo o conceito abstrato de “sociedade.” A objeção contra tal raciocínio é este conter uma premissa implícita validando a escravização de alguns seres humanos por outros. Uma vez que este é um anátema para o estado natural e é evidentemente grotesco, toda justificativa racional para um governo onipotente está descartada. A vida de um ser humano é seu próprio meio e fim.

O surgimento da civilização se deve à razão e não a pura emoção, à medida que empreendimentos agrícolas e produtivos permitiram aos seres humanos utilizarem recursos no ambiente para melhorar sua situação. A politização da emoção, ou o uso da força para impor sentimentos, leva à anarquia e à destruição social. Esquerdistas devem levar isso em conta antes de acreditar que qualquer infortúnio particular obriga a socialização do sofrimento; antes de remediar a miséria acumulada sem nunca exterminá-la — seja por meio da dívida ou por meio do extermínio em massa de vidas humanas.

Em oposição a este histórico de catástrofe social, a Constituição é o pináculo da ciência política racional e a barricada jurídica contra a mentalidade coletivista que impulsiona a democracia das massas. Demagogos surgem no âmbito de tal sistema de governo, porque eles prometem grande parte dos espólios do governo, enquanto atiçam as chamas do populismo. O Estado de Direito e o método científico foram desenvolvidos justamente para proteger os seres humanos do perigo de agir na ignorância e de forma puramente emocional. Políticos do Partido Democrata e ativistas de esquerda, por outro lado, aproveitam-se destas vulnerabilidades humanas.

Kyler Becker (Tradução: Rodrigo Carmo)

sábado, 16 de janeiro de 2016

E o que vem depois?

O dilema do impeachment é o desconhecido que, a partir dele, se instalará. Não se sabe sequer se Dilma Roussef será sucedida por seu vice, Michel Temer, já que este é também réu, ao lado dela, em processo no TSE, que investiga crimes de campanha.

Confirmadas as doações criminosas, com propinas da Petrobras – e há quanto a isso abundantes indícios, fornecidos pelas delações premiadas dos doadores –, caem presidente e vice.

Nessa hipótese, pouco considerada – embora menos remota do que parece -, quais as alternativas de sucessão? E aí entra em cena o fator que distingue o atual processo daquele que depôs Fernando Collor: não há lideranças no Congresso (ou fora dele) à altura da complexidade do momento.

Naquele tempo, nomes como Ulysses Guimarães, Mário Covas, Franco Montoro e Leonel Brizola, entre outros, estavam em plena atividade, liderando seus pares na Câmara e no Senado, com absoluto comando sobre suas respectivas bancadas. Não há hoje nada nem remotamente parecido.

Outro ponto: Collor não dispunha de um partido de verdade. Seu PRN era ridicularizado por ele próprio. Sem base social, sem ter tido tempo para ocupar a máquina estatal, bastaram quatro ou cinco manifestações, já então sob a hegemonia petista das ruas (hoje perdida), e com apoio dos governadores, que favoreceram sua organização, para apeá-lo do cargo. Saiu sem qualquer reação.

Hoje, em que pese o fato, atestado em sucessivas pesquisas, de que o impeachment é desejado por mais gente ainda que naquela época – mais de dois terços da população -, não há conexão entre a política institucional e as ruas.

As manifestações, bem maiores que as que investiram contra Collor, ocorrem numa espécie de universo paralelo, ainda que reunindo milhões, em atos simultâneos, país afora.

O povo vaia os políticos em seu conjunto e, por falta de interlocução, não vê no horizonte lideranças qualificadas para suceder e superar a hecatombe petista.

Quando não há saída política – e ela não está sendo efetivamente construída -, a desordem se instala (não é casual o retorno dos black blocs às ruas) e o risco de intervenção militar, que ninguém deseja, torna-se efetivo. A omissão favorece o caos.

Em 13 anos de reinado, o PT aparelhou a máquina estatal e as instituições mais tradicionais da sociedade civil, como OAB, ABI, CNBB e UNE (que estiveram à frente do impeachment de Collor), além do aparato sindical e de organizações predadoras como MST, MTST e Movimento Passe Livre. Haverá (está havendo) resistência.

Michel Temer, além dos riscos que corre no TSE, não é Itamar Franco; não tem a mesma confiabilidade, nem o mesmo poder aglutinador, nem lideranças políticas de peso a seu lado.

A oposição – se é que há uma – não o corteja, nem se exibe a seu lado. A rigor, à exceção de meia dúzia de gatos pingados – e o momento, mais que nunca, exige ação conjunta e articulada -, não se exibe em parte alguma, a ponto de sua existência ter se transformado num problema metafísico: existirá mesmo?

Mais: Temer é, hoje, contestado dentro de seu próprio partido, o PMDB, cuja presidência exerce há anos, mas corre agora o risco de perdê-la, em face de manobras do governo federal, associado ao senador Renan Calheiros – que quer sua renúncia - e ao PMDB fluminense, de sumidades como o governador Pezão, o prefeito Eduardo Paes e o deputado Leonardo Picciani.

Se não tem consenso onde reina há anos, como supô-lo em relação ao conjunto do país? E vive um paradoxo: se o processo de impeachment o distancia de Dilma, o processo do TSE os aproxima; é uma causa comum, a ser defendida por advogados comuns – e isso mostra a ambiguidade do quadro.

A principal liderança oposicionista, o octogenário ex-presidente Fernando Henrique, que se diz aposentado, garante que não disputará mais cargo algum – e política é por excelência campo de disputa. Sua liderança, pois, é mais honorária, platônica.

Mesmo assim, intervém mais na cena política, ainda que de maneira vacilante – uma hora morde, outra assopra -, que o senador Aécio Neves, cuja omissão dilui o patrimônio de 51 milhões de votos obtidos há pouco mais de um ano. Sua liderança está longe de espelhar aquela performance.

O governo Dilma não cairá: já caiu. O que se vê são seus escombros. Mas foi derrubado por si próprio, não pela oposição. O trabalho foi feito pela Lava Jato e pelo desastre econômico – e será por aí que os escombros serão removidos. Mas o que está em pauta é o day after – e dele as oposições têm que começar a cuidar.

Ninguém crê no que diz a presidente, ninguém investe um centavo em nada, a economia está paralisada, com índices apavorantes. Ministros do primeiro time, como Jacques Wagner (Casa Civil), Edinho Silva (Comunicação Social) e Aloizio Mercadante (Educação), além de outros menos relevantes, sem contar o líder de todos, Lula, estão sob investigação policial.

O governo está literalmente na delegacia, mas e daí? Ninguém se move. O ex-deputado Arnaldo Madeira, um dos fundadores do PSDB, disse esta semana que “não há motivos para o impeachment”. Pois é.

A única proposta alternativa para a crise econômica foi apresentada pelo PMDB de Temer, “Uma ponte para o futuro”, que com certeza nem Pezão, nem Picciani, nem Eduardo Cunha, nem Renan Calheiros leram – e esses são hoje os protagonistas do partido, que se nutre da crise, com mais demandas por cargos.

Resta a saída proposta pelo senador Ronaldo Caiado (DEM-GO): eleições federais – Presidência da República, Câmara dos Deputados e Senado -, em outubro, junto com as eleições municipais. É a solução, mas alguém acredita nisso?

Kakay e o Manifesto: Vaidade e insulto contra a Lava Jato

Luis Buñuel, o cineasta dos absurdos mais impensáveis, faz um registro emblemático que me parece sob medida para ilustrar esta semana da entrevista surreal, à BBC Brasil, do advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, na terça-feira. Seguida, ontem (15), do Manifesto, assinado pelo criminalista e mais de 100 colegas, publicado nos espaços mais nobres e mais caros dos principais jornais do País, sob o título "Carta Aberta" em repúdio aos "abusos na Operação Lava Jato".

Na linha de tiro, nos dois casos, as cabeças do juiz Sérgio Moro e do procurador geral da República, Rodrigo Janot. Os dois referências nacional e internacional (ao lado da Polícia Federal) na condução, apuração, prisão e ágil condenação de poderosos implicados no Petrolão - maior escândalo de corrupção e ladroagem, no país, envolvendo agentes públicos e privados: Políticos de alto coturno, gestores governamentais e executivos das maiores empreiteiras, metidos no saqueio que abala, quase de morte, a Petrobras, empresa nacional de maior orgulho dos brasileiros.

O trecho referido está no livro de memórias “Meu Último Suspiro”. No capítulo em que Buñuel fala das coisas de que mais gosta e das que mais detesta. Cito-o, a seguir, depois da espantosa (para quem ainda se espanta com alguma coisa no Brasil) entrevista de Kakay e da leitura do arrazoado que ele assina com mais de 100 advogados criminalistas.

O cabeça do “movimento” é defensor de 11 políticos e grandes empresários investigados pela Operação Lava Jato. Na conversa com a BBC Brasil, digna de obra do realismo fantástico, o advogado fala via celular, pachorrentamente sentado em um banco às margens do Rio Sena, em Paris.

Com a palavra o realizador de “O Cão Andaluz”: “Gosto das cobras e sobretudo dos ratos. Durante toda a minha vida vivi com ratos, exceto nos últimos anos. Eu os domesticava inteiramente e a maioria das vezes cortava-lhes um pedaço do rabo (é muito feio um rabo de rato). O resto é um animal apaixonante e muito simpático. No México, quando chegava a ter uns 40, ia soltá-los na montanha”.

Amaldiçoado seja quem pensar mal dessas coisas, diriam ironicamente os franceses. No entanto, em se tratando de absurdos, jamais diga que já viu ou ouviu tudo. Mesmo sendo um adepto fanático dos filmes do diretor de “A Bela da Tarde" ou um habitante da Bahia dos “maiores absurdos”, no dizer do lendário ex-governador Otávio Mangabeira, atualmente lembrado na placa que dá nome ao estádio da Fonte Nova, em Salvador.

Honraria dividida com a Cervejaria Itaipava, que, estranhamente, virou sócia do espaço sagrado do futebol baiano, depois da reconstrução da “arena” para a Copa do Mundo. Obra multimilionária entregue às empreiteiras Odebrecht e OAS, no governo petista de Jaques Wagner, atual ministro chefe da Casa Civil do enrolado Governo Dilma. Uma história de inúmeros detalhes ainda submersos, cuja panela fervente começou a ser destampada, com a revelação de parte do conteúdo das conversas gravadas no celular de Léo Pinheiro (então diretor presidente da OAS), atualmente preso e condenado no bojo da Lava Jato atacada duramente por Kakay e seus seguidores.

Quer mais? Então sigamos para uma parada em Paris, da surrealista entrevista de Kakay. Conversa estranha, às vezes desconexa nas arengas despropositadas e frases mal alinhavadas (como é próprio dos anos de mando petista e de seus parceiros). Aparentemente surgida do nada, ou mais provavelmente fruto de alguma situação conjuntural, objetiva e factual, ainda a ser revelada em seus escuros bastidores e desvãos. Talvez caso de desespero profissional, político ou de imensos e insondáveis interesses financeiros ameaçados.

O fato é que a entrevista e a “Carta Aberta” são peças de virulenta hostilidade contra representantes da lei, da justiça e do poder público, considerados ética, técnica e profissional exemplares pela sociedade brasileira. Fala e escrito recheados de tiradas maliciosas, suposições condenáveis, afirmativas inverídicas ou com as marcas venenosas das meias verdades. Sem falar no escandaloso e quase infantil exibicionismo de tola vaidade pessoal.

Kakay se jacta de episódio do qual foi protagonista recentemente, no Rio de Janeiro, enquanto bebia com amigos no restaurante carioca Jobi, no bairro do Leblon. Diz que se surpreendeu na hora da conta: “Estava paga por um grupo de 10 dez amigos que me disseram “olha só você faz um enfrentamento contra esse povo aí da Lava jato”. O enfoque central da entrevista e do “manifesto” falseia fatos, ao afirmar que o Brasil vive, “sem a menor dúvida,” um momento de “criminalização da riqueza”, em que "a Justiça tenta, a qualquer custo, jogar a sociedade contra quem tem algum tipo de poder”. Nada, ou quase, sobre a corrupção e os poderosos - apanhados em fraudes, arranjos criminosos e roubal heira da grossa - já investigados, presos e condenados com a agilidade e severidade que os crimes praticados exigem. Afinal, a lei existe para todos e não só para ladrões de galinha.

A BBC pergunta ao criminalista se todos os seus clientes são inocentes, e ele não se acanha na resposta: “Não tenho a menor dúvida. Estão todos soltos e por isso estou aqui em Paris”. Chega! Quem quiser mais consulte a BBC Brasil e os jornais e meios onde saíram entrevista e manifesto. Chega! Fico por aqui, porque o resto é ainda mais insultuoso e impróprio para menores. Além disso, tenho a incômoda sensação de que os ratos de rabo cortado, de que fala Buñuel, começam a ficar impacientes nas montanhas do México, a caminho do Brasil.

Lula e Dilma, com indicações partidárias, abalaram a Petrobras

As reportagens de Eduardo Bresciani e André de Souza, no Globo, de Beatriz Rulla, O Estado de São Paulo, e de Márcio Falcão, Rubens Valente e Aguirre Talento, Folha de São Paulo, edições de quarta-feira, ao destacarem o depoimento de Nestor Cerveró ao Ministério Público, convergiram para uma afirmação inquestionável: o ex-presidente Lula e a presidente Dilma, ao aceitarem indicações partidárias para cargos de direção da Petrobrás, contribuíram para abalar os alicerces da estatal, a economia brasileira e a classificação moral e financeira do país.

Pois os episódios em série deixaram claro que o objetivo dos autores dessas nomeações tinham como meta principal assaltar a Petrobrás, dentro de um processo de roubos sucessivos e progressivos. Não pode haver dúvida quanto a isso.


Pois através do Instituto que leva o seu nome, Luis Inácio Lula da Silva – está nos três mais importantes jornais do país – afirma que os diretores escolhidos foram indicados por partidos que apoiavam seu governo. Em pronunciamento anterior ele disse que tais indicações eram encaminhadas a ele por José Dirceu, então ministro-chefe de sua Casa Civil. Quer dizer em síntese: ele não se preocupava em saber as motivações ocultas, a capacidade técnica, tampouco a integridade daqueles aos quais assinava as nomeações. Incrível.

Por seu turno, a presidente Dilma Rousseff, no episódio no qual terminou por confirmar as sugestões do senador Fernando Collor para diretorias da BR Distribuidora, forte subsidiária da Petrobrás, sustenta ter tido suas palavras mal interpretadas por aquele ex-presidente da República. Qual seria então a análise correta? O fato é que as sugestões foram aceitas. Os resultados foram explosivos.

Os reflexos dos cheques em branco que Lula e Dilma assinaram, e que caíram nas mãos de ladrões, estão expostos nitidamente na reportagem de Antônio Pita e Fernanda Nunes, publicada no Estado de São Paulo, também de quarta-feira. As ações da Petrobrás recuaram ao valor nominal do exercício de 2004. Somando-se simplesmente os índices anuais de inflação do IBGE para os últimos onze anos, chegamos a um total aparente de 72,1%. O cálculo real, no entanto, vai muito além.

Se considerarmos o montante acumulado a submersão é bem mais profunda. O recuo concreto passará da escala de 90% no período. Isso sem levar em consideração as reduções dos investimentos, a perda do valor de mercado, o crescimento da dívida da Petrobrás, que ultrapassa o enorme limite de 101 bilhões de dólares. Os roubos acumulados, consentidos tacitamente, e aos quais se juntaram as grandes empreiteiras do país, aumentam a dimensão dos prejuízos. Eles vieram de todos os lados. A população paga o prejuízo.

Mas o episódio, em seu conjunto, não termina nesse ponto. Tem mais: é o resultado do fatiamento dos postos administrativos e das assinaturas irresponsáveis por parte de dois presidentes da República. Aos quais, pelas denúncias de Nestor Cerveró, incluem um terceiro: FHC, no caso da compra da empresa argentina Pecom pela Petrobrás. Será que os responsáveis maiores não desconfiaram de nada? Não parece possível. Isso porque todas as propostas de aquisição nesse nível de grandeza, a exemplo de Pasadena, devem merecer e concentrar atenções especiais. Porque – todos sabem – confiar nas pessoas mais próximas é o maior tóxico a envenenar o poder e, sobretudo, o país.

Alerta

Quando um governo controla tanto o poder econômico … quanto o poder coercitivo do Estado … isso viola a regra fundamental de bem viver: Nunca deixe que as pessoas com o controle sobre o dinheiro e as pessoas com o controle sobre as armas sejam as mesmas 
P. J. O’Rourke

Lava Jato é exceção. Criminoso rico não vai para a cadeia



Qualquer cidadão com um mínimo de conhecimento e experiência já constatou que no Brasil o Executivo e o Legislativo são dois poderes apodrecidos, uma realidade que se comprova facilmente, bastando observar o enriquecimento inexplicável das autoridades. Em nosso país, não há fiscalização eficaz sobre esse fenômeno de alpinismo social, embora não existam maiores dificuldades para que se comece a fazê-lo. Mas quem se interessa?

Nos Estados Unidos, um criminoso de alta periculosidade como Al Capone, chefe de quadrilha e homicida, só foi para a cadeia, em 1931, quando o apanharam por sonegação fiscal. Se não demonstrasse o enriquecimento ilícito, o mais famoso gangster da História jamais seria aprisionado.

Em diversos países, a corrupção e os crimes fiscais são considerados delitos gravíssimos, com penas severas e implacáveis. Enquanto isso, no Brasil, não falta quem defenda o enriquecimento ilícito. Esta semana, em Paris, o excêntrico advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, que fatura alto em cima de 11 réus da Lava Jato, deu entrevista dizendo que o Brasil vive hoje a “criminalização da riqueza” e depois liderou um manifesto de advogados contra a Lava Jato, vejam a que ponto pode chegar a distorção de valores em nosso país.

Nos dias de hoje, aqui no Bananal, não há notícia de condenação de milionário por sonegação fiscal. A Lava Jato é exceção, não há dúvida. O Judiciário está tão apodrecido quanto os outros poderes. A injustiça social é uma característica de nosso país. O brasileiro carente tem de pagar IPVA para dirigir um fusquinha 63, a longevidade do veículo não elimina a cobrança de seguro, taxa de vistoria etc. Mas o dono de um avião a jato, de um helicóptero turbinado ou de uma lancha de 122 pés está isento de pagar IPVA. E o Kakay ainda acha que os ricos estão sendo perseguidos…

A realidade é outra. Os milionários têm muitas regalias no país e a coisa mais difícil e ver algum deles atrás das grades. Com a ajuda dos Kakays e das brechas da lei, os processos prescrevem, não há cumprimento de pena, tudo é festa. Este é o Brasil dos nossos dias.

Mas é claro que os advogados que defendem a impunidade dos milionários são poucos. Vejam o que disse Alexandre Thiollier, do escritório Thiollier e Advogados, em comentário publicado quinta-feira (14) no site “Migalhas“, sob o título “Criminalização da riqueza”?
“Em entrevista publicada ontem no UOL, o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro afirmou que o Brasil vive a criminalização da riqueza. Provavelmente fez esse comentário porque seus clientes abastados estão sendo investigados/denunciados no que se resolveu chamar de Lava Jato. Engana-se o colega, quando pretende jogar no mesmo saco imundo da roubalheira, uma imensidão de pessoas honestas que conseguiram angariar majestosos patrimônios sem furtar um centavo. O Brasil vive hoje, Dr. Kakay, a criminalização de políticos e empresários milionários que assaltaram as empresas estatais e/ou governos. E tenha a certeza que o Brasil torce para ver todos os culpados trancafiados, e bem trancados, na cadeia, após o devido processo legal. Pessoas sérias e honestas não aceitam essa generalização; ao contrário, continuam acreditando que é do trabalho honesto e diário que se forma a riqueza.”

Miséria cultivada

  Perkins T. Moreira
"Que é a avareza? Viver sempre
na pobreza pelo receio da pobreza"
São Bernardo

Fome com fome mitigada
fome a esperar outra fome
fome armazenada
fome como fonte
riqueza jamais saboreada
Dalila Teles Veras

Liberdade x Libertinagem de expressão

Com o advento das redes sociais, blogs e demais instrumentos virtuais, as pessoas encontraram espaço para falar sobre qualquer coisa da forma que acham apropriada. Mas, esse recurso está gerando uma verdadeira profusão de absurdos, xingamentos e todo o tipo de baboseira que as mentes mais afoitas são capazes de produzir. Moldou-se, com isso, um discurso oco, desprovido de estudo, compreensão e reflexão. Pior. No Brasil isso contaminou todo o “debate”. Grafei a palavra entre aspas pois o que se vê não é um debate, mas, como diria Carlos Lacerda, “furores, gritos, guinchos selvagens, cóleras irreprimidas”.

Fala-se o que quer, xinga-se sem o menor pudor e grita-se com a grandiloquência de palhaços em um circo. Agora, por trás disso tudo não se vê fundamento, concatenação de ideias, ponderação, nem, muito menos, uma consciência lógica. Os recentes debates de nossa – assim chamada, direita – demonstram esse fenômeno de forma absolutamente clara e evidente.

O brasileiro perdeu a capacidade de análise e de observação. Mas, em contrapartida, desenvolveu uma habilidade monstruosa de revelar todo o ridículo e desprezível que guarda dentro de si. A coisa chega a tal grau de absurdo que muita gente – anteriormente considerada séria – passou a agir da mesmíssima forma. Repetem assim, o patético, o burlesco, o caricato e tudo o que cairia melhor em uma ópera-bufa.

Está na hora de dar um passo atrás. Lembro-me, com gosto e melancolia, dos brilhantes artigos de Roberto Campos, das colunas de Nelson Rodrigues e de Paulo Francis, dos escritos de Carlos Lacerda e de Millôr Fernandes, apenas para citar alguns. Depois de um mergulho nos textos impecáveis desses gigantes do passado, submergimos para um presente desalentador.

Ao que parece, o brasileiro está se lambuzando na liberdade de expressão – potencializada pela internet – mas age como um redator libertino, cuspindo tudo que sai de uma cabeça vazia e sem espírito crítico. O melhor exemplo disso são os “seguidores”. Gente que, desprovida da capacidade de pensar por si, replica tudo que o novo “gênio” de plantão fala. Para estes vale a advertência de George Bernard Shaw em seu artigo “Como Tornar-se um Gênio”: “No fundo, o grande segredo é o seguinte: os gênios não existem. Eu sou um gênio e portanto sei. O que há é uma conspiração para fazer de conta que os gênios existem e uma escolha das pessoas certas para assumir o papel imaginário de gênio. O difícil é ser escolhido.”

Essa era da “libertinagem de expressão” está produzindo uma infinidade de macacos de imitação. Sinceramente, eu esperava que a era da informação trouxesse as pessoas para debates mais profundos e ricos. Todavia, acabou gerando um festival de asneiras e maledicências, absolutamente inúteis e perniciosas. Antes de sair escrevendo ou replicando ideias alheias, seria bom que a turma parasse para pensar, conversar e debater de forma consistente. Para terminar, digo, sem rodeios, não se esqueçam dos antigos. Leiam o que os grandes pensadores do passado falaram, reflitam, pensem e tirem suas próprias conclusões. Repetir ideias de “gurus” é mais um caminho para a ignorância.

Questão de sobrevivência

Ao sancionar o Orçamento para o ano em curso, aprovado em dezembro pelo Congresso, a presidente Dilma manteve cortes profundos na saúde e na educação públicas, assim como em serviços essenciais, forças armadas e pesquisas científicas, além de programas como o “Minha Casa, Minha Vida” e o da “Aceleração do Crescimento”. Admite-se a gravidade do momento, a crise alcança níveis de desemprego e paralisação da atividade econômica como nunca.

O que não dá para entender, ou entendemos muito bem, é como Madame cedeu à pressão dos partidos, voltou atrás e aceitou a proposta de deputados e senadores para aumentar em 163% o valor do Fundo Partidário. Como estão proibidas doações de empresas para as campanhas eleitorais, inclusive deste ano, os políticos exigiram e convenceram Madame a destinar 819 milhões de reais para financiamento da disputa de votos em todos os municípios do país. Quer dizer: não tem dinheiro para escolas, creches, merenda escolar, hospitais, postos de saúde e remédios, mas para os candidatos a prefeito e vereador, não vai faltar.

A intromissão dos recursos do poder público na vida partidária é uma aberração que vem de longe. O festival de corrupção encenado pelas empresas privadas chegou ao limite máximo da distorção do processo eleitoral, tendo por isso sido proibido. Mas desafogar o caixa das empreiteiras e transferir seus encargos para o Tesouro Nacional fica muito pior, ainda mais com a multiplicação do valor do Fundo Partidário. Atenta-se contra a natureza das coisas, pois retira-se dinheiro de obras sociais e sucedâneos para beneficiar partidos, entidades de Direito Privado que deveriam ser sustentadas pelas próprias forças.

Grave na história é verificar a fraqueza do governo em ceder à pressão dos caciques partidários. Para conquistar votos e eleger seus candidatos, deveriam desdobrar-se no convencimento do eleitorado. Empenhar seus recursos pessoais e demonstrar quais as propostas, planos, programas e personagens melhor afinados com o sentimento popular. Jamais utilizar dinheiro público para executar funções de sua alçada.

O precipício se amplia quando se atenta para a existência de outro vergonhoso escoadouro de centenas de milhões de reais na forma de emendas individuais ao orçamento, agora impositivas por proposta de todo parlamentar. Pulveriza-se o que deveria integrar um projeto nacional definido nas esferas da alta administração. Qualquer pinguela, estrada desimportante ou dotação para entidades desnecessárias tem precedência sobre obras de vulto, imprescindíveis, visando prestigiar determinado deputado ou senador desligado do planejamento municipal. Em especial se for adversário político do prefeito.

A presidente Dilma revelou-se refém das tramoias e dos interesses partidários. Para ela, deve tratar-se de uma questão de sobrevivência, mas a pergunta que fica é se valerá tanto...

Cobertor curto e desfiando


A velha história do cobertor curto não pode dar conta do que vai acontecer com os gastos do governo neste ano. Talvez seja otimista demais ficar na dúvida entre cobrir os pés ou a cabeça. O cobertor deve ficar mais puído, deve diminuir de novo.

Não é lá grande novidade que a arrecadação federal de impostos deve cair outra vez em 2016. Surpresa seria ver o governo fazer a poupança mínima que prometeu e não dar outro talho brutal nos seus investimentos "em obras".

Evitar outro corte nos investimentos deve ser prioridade para um governo que quer estancar a recessão. No entanto, pelo andar da carruagem, será possível investir tanto quanto em 2015, que já foi pouco, apenas com mais cortes em saúde e educação. Ou com mais deficit.

Ao fim das contas de 2015, o gasto com investimento deverá ter caído quase 40% em relação a 2014. Em relação ao tamanho da economia, os gastos "obras" devem cair de 1,36% do PIB, em 2014, para 0,9% do PIB. Como fatia da despesa do governo, de 7,5% para 4,9% do total.

Trata-se dos níveis mais baixos em nove anos.

No papel, no Orçamento para 2016, a despesa com investimento deve cair uns 7%. Essa estimativa foi feita com base na ideia oficial de que a recessão não vai diminuir ainda mais a receita de impostos; de que vão entrar dinheiros tais como o da CPMF, que talvez seja votada lá por meados do ano.

Na previsão oficial, ainda sobraria dinheiro equivalente a 0,5% do PIB, a meta de superavit primário para este ano (isto é, a diferença entre receita e despesa, afora aquela com juros da dívida pública).

Chutes bem informados de economistas do setor privado projetam um deficit primário de pelo menos 1% do PIB, o terceiro ano seguido de contas do governo no vermelho fogo.

Parece uma previsão mais condizente com o espírito da nova equipe econômica, que não quer sacrificar muito mais investimento em troca de décimos de superavit fiscal, de uma equipe econômica que tem dito com insistência que quer estabilizar o crescimento. Acredite-se ou não nessas ideias, é o que os novos ministros da economia têm dito.

Não se corta mais investimento, pois. Não se mexe mais com as despesas de saúde e de educação, que já estão quase no limite inferior obrigatório. Muito bem. Qual será então o efeito de mais um deficit primário? Como vai reagir, por exemplo, o Banco Central?

Há um zum-zum a respeito da decisão do BC na semana que vem, se vai aumentar ou não a taxa básica de juros, a Selic. Pelos compromissos em tese assumidos pelo menos na segunda metade de 2015, o BC deveria aumentar a taxa de juros. De resto, o BC tem dito que o gasto excessivo do governo tem prejudicado o controle da inflação.

No entanto, mesmo economistas ditos "liberais" de peso acreditam que uma alta extra não faria efeito ou seria francamente daninha (não vai bulir com a inflação, vai elevar ainda mais a despesa com juros).

É bem possível. Mas então podemos ficar na situação muito interessante de o BC não elevar a taxa de juros, as expectativas de inflação continuarem em alta, de o governo continuar a ter deficit e de não haver nenhuma reforma maior que aponte mudança no médio prazo.

Como vai ser o nome dessa política econômica?

A triste agonia do rio São Francisco

Os nordestinos sofrem muito com a escassez de água; por isso, surgiu, em 1847, a ideia de construir dois canais para que o Velho Chico banhasse outras áreas do semiárido, mas não havia tecnologia suficiente para obra tão complexa. Outros governantes cogitaram também disso, embora não se inquietassem com os sinais de agonia do rio. Os maus-tratos começaram no século XVIII, com a desordenada ocupação humana, porque as atividades econômicas geravam intenso impacto ambiental por implicar desmatamento, poluição, destruição de nascentes, assoreamento e intensa drenagem de recursos hídricos.


A consciência ambiental das últimas décadas não mobilizou autoridades e população para rever sua postura em relação à calha principal e aos afluentes sustentados por ribeirões, córregos e pequeninos filetes de água, que sofrem todo tipo de agressão, especialmente nos vales dos rios Pará, Paraopeba e das Velhas. Todos ignoraram as razões da extinção de vapores entre Pirapora e Juazeiro e do avanço do mar na foz, provocando a inundação do povoado de Cabeço e comprometendo a pesca em água doce, sustento de muitos sergipanos e alagoanos.

O presidente Fernando Henrique Cardoso lançou, no dia 5.6.2001, o Projeto de Conservação e Revitalização da Bacia Hidrográfica do São Francisco, que foi transformado, em 2004, no Programa de Revitalização da Bacia do São Francisco, sob responsabilidade do Ministério do Meio Ambiente e do Ministério da Integração Nacional e participação de outros 14 ministérios, além da Codevasf, da Agência Nacional de Águas (ANA), do Ibama, do ICMBio e da Funasa, mas os resultados têm sido pífios, porque os problemas na bacia aumentaram bastante desde então. A nascente do Velho Chico esteve seca, por alguns dias, em 2014. O rio Pará está coberto de aguapés na altura da usina do Gafanhoto, em Divinópolis. Ele recebe, logo depois, seu afluente Itapecerica, comprometido por esgoto “in natura” de uma cidade média. A canalização de 134 km de córregos em Belo Horizonte constitui uma aberração de urbanismo.

Apesar dessa fragilidade, as obras de transposição do São Francisco começaram em 2007 e talvez nem terminem, apesar das despesas monumentais já consumidas.

Parece que o destino do Brasil é mesmo ignorar problemas existentes, iniciando outras obras fadadas ao fracasso, diante da malversação dos recursos públicos e dos erros de planejamento. Assim, os brasileiros continuam padecendo com suas dificuldades e distanciando-se dos países desenvolvidos. Quando o objeto da ação é uma bacia hidrográfica, o malogro é mais grave, porque implica degradação de um ecossistema, extinção de vida fluvial, transtornos na economia e comprometimento do futuro da população.

O Tribunal de Contas da União tem verificado que, apesar do aparato institucional para revitalização da bacia, não há cumprimento dos objetivos, como recuperação de áreas degradadas e intervenções voltadas para o desenvolvimento sustentável da região.

O maior mal de todos

Em 2001, Delcídio foi eleito Senador com 500 mil votos no Mato Grosso do Sul. Antes disso, como engenheiro eletricista, com apenas 28 anos, atuou em Tucuruí, uma das maiores e mais importantes usinas hidrelétricas do Brasil. Chegou a ter sob seu comando mais de 60 mil trabalhadores e um orçamento gigantesco. Também foi diretor da Shell na Holanda. De volta ao Brasil, assumiu a Eletrosul e, em seguida, a Secretaria Executiva do Ministério de Minas e Energia. Foi também presidente do Conselho de Administração da Companhia Vale do Rio Doce. Em 2005, ficou conhecido nacionalmente ao presidir a CPI dos Correios, que investigou o mensalão durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula.

Delcídio está preso desde o dia 25 de novembro, há quase dois meses, quando passou a ser chamado de Delcídio DO Amaral. Até então, era o líder do PT no Senado e seu nome mal era cogitado no escândalo do Petrolão. A dúvida a respeito das nomeações de diretores da Petrobras o beneficiavam, como faziam com Collor, Calheiros, Lobão e outros membros das alcateias petistas, pepistas e peemedebistas. A gravação do filho de Cerveró encerrou todas as dúvidas e o primeiro Senador da República foi preso no exercício de seu mandato desde a redemocratização do país. Foi para a cadeia, de onde não sairá tão cedo.



Agora duas ou três ponderações que me remetem ao título deste artigo: O sujeito que comandou a CPI que redundou em inéditas cassações, demissões e prisões de ministros, deputados, empresários e banqueiros, o parlamentar que trabalhou com decência na condução da CPI mais importante da história do Brasil, não aprendeu absolutamente nada, mas nos ensinou duas coisas: uma, que neste país ninguém tem medo da lei, da cadeia e ninguém tem vergonha na cara. Nenhuma! Ele demonstrou, com seu comportamento, que o crime compensa, desde que no Brasil do PT de Lula e de Dilma, de Dirceu, Barroso e de Lewandowski, de Renan, Sarney, Collor e de Eduardo Cunha. Este era Delcídio Amaral.

Outro detalhe que não me passou despercebido é que, ao ser preso em novembro passado, a imprensa, ainda que subliminarmente, tratou de criar uma “distinção” entre o justo Delcídio Amaral de 2005 e o bandido Delcídio DO Amaral de 2015. Não conseguiu e jamais conseguiria. Trata-se do mesmo sujeito, que até tucano foi, mas que se acertou mesmo foi no ninho do Partido de Zeca e de Lula, o Partido dos Trabalhadores.

A vergonhosa prisão do Senador da juba branca e abundante, tramando a fuga de um denunciado na Operação Lava-Jato comprovou também outra triste suspeita: Os casos se repetem e nada os detém. Não há leis novas que venham a coibir reedições de crimes semelhantes, não há modificações nos códigos para que punições sejam ainda mais rigorosas e sumárias e, acima de tudo, não há nenhuma instituição que se encarregue de assegurar que os crimes tenham nova “dosimetria”, ampliada visando fazer da política um “campo minado” para políticos novos e velhos com intenções nada republicanas.

O crime político é um crime que lesa os mais pobres. O crime cometido por políticos é hediondo por natureza, pois ele mata, fere e aleija a sociedade inteira. Crimes cometidos por pessoas no setor público são crimes de responsabilidade ainda maior e a punição deveria ser a mais severa e rápida quanto possível.

Este deveria ter sido nosso tema de casa que, uma vez feito corretamente a partir da Ação Penal 470, teria mantido Delcídio sem o DO e todos nós continuaríamos com a memória do correto e nobre parlamentar de boa no caso do Mensalão. O mal maior é a certeza de que ele acontecerá de novo
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Perguntas que não calam

Com uma imensa população que adora futebol, grandes redes de televisão, patrocinadores poderosos, excelentes estádios, fartura de jogadores, o Brasil seria o mercado ideal para investimentos muito lucrativos no futebol profissional. Até nos Estados Unidos e na China o business do futebol está bombando. Por que os clubes brasileiros estão quebrados?
O pré-sal foi anunciado como o nosso “passaporte para o futuro” e houve briga acirrada pelo butim antes mesmo de extraída a primeira gota. Com o barril de petróleo a 30 dólares e os altos custos de produção do pré-sal crescendo, logo a exploração vai custar mais caro que a venda.

Mesmo sendo presidente da Petrobras durante a roubalheira institucionalizada, mesmo que os seus diretores e os seus maiores fornecedores estejam presos, José Sérgio Gabrielli ainda não foi sequer indiciado na Lava-Jato. O que a razão e a lógica não explicam, talvez só o esotérico possa responder: qual é o terreiro baiano que protege tanto Gabrielli?

Por que políticos ladrões acham que roubar para o partido, a campanha, o projeto, é mais nobre do que para si mesmo, se o dinheiro da corrupção servirá para fraudar o processo eleitoral e a democracia, roubando dos outros candidatos e de toda a sociedade o direito a eleições justas? Para criminalizar de verdade o caixa dois, os roubos para fins políticos deveriam ter uma agravante de um terço da pena, pela amplitude dos danos que provocam.

Como o setor público tem tantas vantagens funcionais e aposentadorias tão generosas, não seria justo que os funcionários que usem seus cargos vitalícios e seus poderes para roubar também tenham as suas penas agravadas?

O sociólogo petista Jessé Souza, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), diz que a culpa da corrupção é do capitalismo. No socialismo e no comunismo não se rouba? Mais Estado, mais corrupção.

Por que o governo federal e o estadual, em época de penúria da Saúde, não tem vergonha de seus orçamentos milionários de (auto)publicidade, que não sofreram cortes? Para nos dizer, com nosso dinheiro, que somos idiotas?

Nelson Motta

A vergonha do vermelho

Minas acordou estarrecida há pouco mais de uma semana e os demais brasileiros abobalhados com a novidade do governador Fernando Pimentel. Como crise financeira dos governos tem povo imbecil para pagar, o excelentíssimo resolveu gastar este ano R$ 3,4 milhões para pintar de vermelho, a cor do PT, a fachada de 613 unidades do Programa Farmácia de Minas.

É a velha fixação dos petistas. Não importa que os órgãos sejam públicos, como símbolo da tomada deles pelo poder, saem tascando vermelho por tudo quanto é do governo.

Não é de hoje nem loucura de Pimentel, às voltas com processos na Justiça - por sinal outra das marcas indeléveis dos petistas.
Marketing de Maricá: ônibus vermelho e "gratuito" ao custo de milhões
Como os jornalões e a mídia das cidades maiores não ligam ao que acontece nas suas periferias, há muito que tudo quanto é prefeito do PT sai pichando de vermelho onde põe a mão. São os prédios públicos, os uniformes escolares, os carros da Prefeitura, os ônibus "gratuitos" (conhecidos até como Vermelhinhos), tudo vermelho.

Os modernos marcos de posse determinam que o público passa a ser do partido da estrela vermelha, portanto, privatizado para o PT. Nada mais significativo de que os petistas se acharem donos de todo o Estado, quando assumem o poder, tal qual os partidos comunistas fizeram em seus domínios.

Está bem claro há muito, sem precisar consultar jornalões, que o PT se acha no direito de ser dono de tudo quanto é órgão ou prédio público se for "para o bem do povo e felicidade geral da nação".

Apropriação indébita feita às claras, sob os holofotes da mídia, com a colorização marqueteira e aplausos nas casas de tolerância e entre simpatizantes, principalmente das "zelites", aquelas que defendem os pobres desde que seus privilégios juntos aos poderes não sejam atingidos.

Não é, mas bem que tem semelhança com os tempos stalinistas, dos quais muito brasileiro tem saudade sem mesmo nem estar ainda vivo naquela época. É o imenso desejo de entrar na história como quem assiste a filme no cinema, virar herói nos braços do povo, quiçá chamado de "paizinho". Puro sonho de inconsequentes que nunca poderão ser por falta de capacidade, ou caráter. A História cobra caro a entrada. Essa é triste e truculenta demais para esse seres sensíveis como nossos petistas, que da lama vieram e à lama voltarão. Ficam em sonhos enquanto enlameiam tudo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

2016 vira cpmf metamorfose C

Os senhores da razão

“O tempo é o senhor da razão”.

No tempo em que Fernando Collor de Mello começava a perder a penugem de “caçador de marajás” e o país ia percebendo o que escondia atrás daquela máscara de gladiador olímpico, ele saía a correr aos domingos dando entrevistas coletivas imaginárias através dos dizeres estampados em suas camisetas.

A frase acima era uma espécie de recado aos que o atacavam e pediam o seu impeachment. Algo assim como “vocês vão ver como eu estava certo”.

Uma forma de comunicação indireta e quase esquizoide, tentando atrair alguma simpatia dos poucos remanescentes que ainda acreditavam no homem e na lenda que ele criou sobre si mesmo.

Definitivamente, ele não era o homem que matou o facínora; aproximava-se mais do vulto do próprio facínora.Com a imagem inteiramente destruída desde que as peripécias de sua criminosa parceria com Paulo César Farias foram desvendadas por seu irmão Pedro, numa bombástica entrevista à revista Veja, Collor se tornou um morto vivo esperando apenas o momento de ser despejado do Palácio do Planalto.

A agonia de Collor teve uma certa espetaculosidade: eram as fontes do jardim da Casa da Dinda, era a Operação Uruguai (as famosas “sobras de campanha” de um empréstimo imaginário no Uruguai), era o apelo para que todos se vestissem de verde e amarelo para apoiá-lo (um desastre), eram boatos quentes e frios, até o dia em que ele finalmente foi visto pelas costas, marchando a passos largos rumo ao helicóptero que o levou para longe do poder.

Inglório final para a primeira eleição direta depois de 20 anos de ditadura militar.

Ruía o falso “caçador de marajás” depois de uma campanha política construída sobre um pedestal de barro, que transformou um político provinciano das Alagoas, com estreitas ligações com retrógrados usineiros de açúcar, em ícone da transformação e da modernização do país.

A construção da narrativa do “modernizador" e do “caçador de marajás”, reforçada na campanha por golpes baixos pessoais e morais dirigidos ao adversário, o sindicalista Lula da Silva, assentou-se na cuidadosa elaboração de um personagem fictício, que perseguia “marajás" e criticava duramente a indústria automobilística nacional, acusando-a de produzir “carroças “em vez de automóveis.

Em função da sôfrega demanda por moralização e modernização com que o País sonhava depois de 20 anos de atraso e estagnação, o eleitorado engoliu a pílula dourada e comprou gato por lebre. Ao dar-se conta do erro, escorraçou o gato e deu por encerrado esse trágico equívoco da história política do País.

O que acontece? Acontece que o tempo é o senhor da razão.

Parecia que, em 1989, o Brasil se separava irremediavelmente em dois blocos: Collor e suas fantasias e todos aqueles que, sedentos de ética, encheram as ruas pedindo seu impeachment.

Os caras pintadas, fortemente estimulados pelo PT e liderados por Carlos Lindenberg, que mais tarde seria eleito senador, invadiram a rua em busca de “ética na política”.

Collor foi posto para fora, os “éticos” chegaram ao poder, e depois deu-se tudo aquilo que as pessoas estão cansadas de saber.

Collor, derrubado por um Fiat Elba, foi absolvido pelo STF, que não encontrou nenhum dos crimes pelos quais foi afastado do poder, foi eleito senador por Alagoas, a garagem da Casa da Dinda encheu-se de Lamborghinis, Porsches e Ferraris, e agora ele é um protagonista de primeira linha da Operação Lava Jato.

O procurador geral da República, Rodrigo Janot, disse que Lula deu a Collor “ascendência" na BR Distribuidora, Cerveró diz que Dilma entregou ao “caçador de marajás” várias diretorias da empresa, e os caminhos do Bem e do Mal cruzaram-se na porta do cofre saqueado da maior empresa estatal brasileira.

O tempo é ou não é o senhor da razão?

O certo virou errado

O governo carrega nas costas um milhão de leis que em vez de protegerem o povo protegem os criminosos. Quando menino, ouvindo alar de Sodoma no cheder, eu não entendia como toda uma cidade ou todo um país podia corromper-se. De uns tempos pra cá, passei a compreender. Sodoma tinha constituição, e nosso sobrinho, Lot, juntamente com os outros advogados, a reelaborou, de modo que o certo tornou-se errado, e o errado, certo.
Isaac Bashjevis Singer 

O Brasil flerta com a morte

Tenho duas notícias para o jeca, uma ruim e outra boa: a ruim é que, sim, o sórdido lulopetismo agigantou as mazelas brasileiras para se arrumar na vida e se perenizar no poder, mas a súcia se lambuzou tanto – como admitiu aquele compositor baiano de óperas vigaristas, o Jaques – que a única dúvida é se o jeca contemplará a própria extinção política solto ou na cadeia. A boa notícia é que finalmente o técnico veio fazer a conversão do meu fogão para gás encanado.

Lúcido sempre, J. R. Guzzo, mais do que relativizar o impeachment, lembra que o Brasil perambula entre a ausência de governo e a incorporeidade da oposição. Qual a alternativa para, digamos, a prefeitura de São Paulo? O Brasil decente saberá ganhar as eleições municipais? Perguntas objetivas que apontam para a angústia no centro da alma do país indignado: a nossa fome.


O Brasil tem fome de quê? De impeachment, mas não só. Com ou sem impeachment, continuaremos tomando três refeições diárias (quem pode), escovando os dentes, dormindo, ouvindo música e tal, e também tendo de ganhar outras batalhas na luta para fazer deste um país que preste.

É nelas que as eleições municipais se inscrevem e que teriam de ser ganhas mesmo se o impeachment nem assunto fosse. OK, mas o meu, por favor, é com impeachment: aplicar a lei contra um governo ilegal mitigaria a fome de um país esbulhado apontando a importância da legalidade para uma nação minimamente viável.

Por quase uma semana, numa relação baseada nas promessas-desculpas dele e na minha cobrança indignada, eu e o técnico do fogão alcançamos uma espécie de familiaridade, estranhando-nos no país do compromisso cujas hora e data são só uma referência líquida. Apareceu com um jaleco aberto por cima de uma camiseta estampada com a foto do David Bowie e uma calça espacial de… técnicos de fogão fãs do Bowie.

Irresistível. Como detesto resistir ao irresistível, abrandei a manifestação da minha irritação pela demora: Ah, você também gosta do David Bowie? E mantive a naturalidade diante desse Brasil inverossímil e real na figura do técnico-astronauta de mármore no meio da minha cozinha e do auxiliar grave e gorduchoto que me obrigou a pensar no Sancho Pança, numa mistura camaleônica entre Cervantes e o gênio pop.

Dancei, namorei, viajei ao som de Bowie, tendo na alma a fome que nos alimenta e que, se passar, nos mata antes da morte. O Brasil flerta com a morte deixando a súcia lambuzar-se na noite lulopetista inteira; pareceu ter perdido a fome de futuro, de realizar as potencialidades que traz na alma.

Onde a fome da alma dele? Nesta coluna e territórios contíguos, na multiplicação dos indignados, no cerco inelutável conquanto lento da realidade. Meu fogão ficou perfeito e vou preparar um jantar para os amigos mais chegados que terão de trazer a própria cadeira, o que não tem importância nenhuma quando a fome não é só de comida.

Ganha força o impeachment

A charge de hoje é de Laerte; veja galeria de agosto aqui: http://t.co/2ASm9hmvBT
A partir dessa nova onda de delações premiadas há quem se preocupe com a sorte do governo, da presidente Dilma, do ex-presidente Lula e do PT. Só por milagre eles recuperam popularidade e prestígio, mas podem perder mais coisa. A começar pelas eleições deste ano e de 2018, entrando na equação o próprio poder. O impeachment de Madame já não está tão longe quanto há duas ou três semanas. O volume de acusações dessa nova safra de denúncias surpreende pelo envolvimento, a participação e a tolerância de gente antes considerada acima de qualquer suspeita.

Tome-se a entrega da BR Distribuidora ao ex-presidente Fernando Collor pela presidente Dilma. Foi ao vivo, em audiência palaciana. Não há como desmentir a “doação”, confirmada pelo próprio ex-presidente e por Madame.

Nem vale à pena ficar citando as delações personalizadas de Fernando Baiano, Cerveró e outros personagens. Mesmo que estejam ampliando acusações ou até mentindo em determinadas situações, prevalece a natureza das coisas. Políticos, empreiteiros e altos funcionários públicos tem sido condenados e presos por ação da Justiça. O país inteiro toma conhecimento de suas falcatruas e roubalheiras.

Reflexos e consequências surgem inevitáveis. Primeiro o desprezo dedicado pelo cidadão comum aos políticos, mesmo com uns poucos sendo injustiçados. Depois, a descrença nas instituições. Junte-se a falência dos governos, do federal aos estaduais e municipais, e se terá a receita da rejeição, pelo povo, de quantos um dia imaginaram representá-lo.

É preciso prestar atenção no retorno de deputados e senadores a Brasília, no final do mês. Trarão na bagagem o sentimento de repúdio colhido junto às suas bases, até inutilmente dispostos a demonstrar pertencerem a outro universo, mas sabendo da mesma origem. Parece provável que venham menos tolerantes com o festival de corrupção revelado cada dia em maiores detalhes. Traduzindo: o impeachment da presidente Dilma ganhará força, senão bastante para destrona-la, pelo menos suficiente para intimidá-la. Cresce a certeza de que não adianta mais dar o dito pelo não dito e iniciar a ansiada recuperação nacional. Ninguém acreditaria. Nem eles.

O futuro da educação no Brasil

Chegamos ao início de 2016 rodeados e preocupados com uma forte crise econômica vivida pelo país. Um cenário de incertezas ronda a cabeça de todos os brasileiros e dezenas de perguntas permanecem sem respostas. Entre as dúvidas está o desenvolvimento da educação nacional.

No Brasil, todos os governos afirmam que a educação é uma meta prioritária. Ela foi e ainda é utilizada na plataforma eleitoral de todos os partidos. No entanto, a maior parte das promessas feitas durante a corrida eleitoral não é cumprida pelos que assumem o poder.

O desleixo com a educação no Brasil não é tema de debate recente. Em 1932, foi lançado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, um documento que continha um diagnóstico conciso e propunha ações necessárias para uma mudança drástica no setor de educação. Em 1959, uma nova versão do mesmo manifesto foi feita.

O primeiro Plano Nacional de Educação (PNE) foi pensado em 1962. Apenas 26 anos depois, em 1988, ele foi aprovado pelo Congresso e só em 2001 foi implantado. O PNE continha um conjunto de metas e estratégias para um período de dez anos. O segundo PNE foi aprovado recentemente pelo Congresso.

O que todos esses projetos têm em comum? A resposta é simples: eles não têm sido executados em sua totalidade. O futuro da educação nacional é incerto, mas é possível traçar possíveis caminhos na busca pela excelência e democratização do modelo educacional brasileiro. Para não perdermos em competitividade é preciso formar mão de obra qualificada; para atender as demandas da crescente classe média, que busca oportunidades de um futuro melhor, é preciso garantir a todos o acesso ao conhecimento.

De acordo com pesquisa realizada em 2013 pela consultoria McKinsey & Company, 48% dos empregadores brasileiros consideram a escassez de competências como a principal razão para vagas não preenchidas no nível iniciante. Para melhorar a educação é preciso pensarmos de forma ampla, e também podemos avaliar fórmulas que dão certo em outros países.

No Brasil, o ensino superior público é sinônimo de gratuidade e – não tanto quanto antes – essas instituições são reconhecidas, também, pela sua qualidade de ensino e pelo foco na formação acadêmica. Nos Estados Unidos, entretanto, até as universidades públicas são pagas. Lá, há uma diversidade de instituições voltadas à capacitação profissional de jovens que optam por seguir um caminho menos tradicional e acadêmico e mais voltado para o mercado de trabalho, as community colleges.

Na Europa, em 1999, 29 países aderiram à Declaração de Bolonha, visando estabelecer um padrão para o ensino superior na Europa. Na prática, a Declaração estabeleceu que por lá o ensino superior estaria dividido em três ciclos: o primeiro, com duração mínima de três anos, irá garantir o grau de licença ou graduado; o segundo corresponde ao grau de mestre e deve durar entre um ano e meio e dois anos; e o terceiro ciclo equivale ao grau de doutor. Esse sistema é válido para todos os Estados que aderiram à Declaração, promovendo um ciclo comum entre as instituições e proporcionando a mobilidade dos estudantes e pesquisadores.

Claro que elevar o padrão de qualidade da nossa educação não é só um requisito para a modernização do país e a melhoria das condições de vida dos brasileiros. É um requisito também para a inclusão demandada por uma sociedade desigual. O ensino de qualidade, especialmente no nível fundamental, que é o nível que mais afeta a cidadania, deve ser visto como um compromisso de todos.

Os conteúdos desnecessários em todos os níveis de ensino devem ser substituídos por exercícios que estimulem o pensar, a argumentação, a criatividade e a prática aplicada na resolução dos problemas. Não há outro caminho para o Brasil melhorar, para as ruas serem atendidas, para diminuir o grau de corrupção, para que se elejam políticos e governantes dignos, probos, para melhorar a qualidade do serviço público, da pesquisa, da tecnologia, de tudo no país, se não investirmos na educação de forma intensiva.

Janguiê Diniz

Ano novo, problemas crônicos


Iniciamos 2016 com problemas conhecidos desses meses mais chuvosos: alagamentos, inundações, quedas de barreiras, comunidades isoladas. Apesar de não se ter controle sobre as precipitações hídricas, segundo o Sistema Integrado de Administração Financeira, a cada R$ 1 que poderia ser gasto em prevenção a desastres no Brasil, o Poder Executivo gasta R$ 37 para a recuperação e reconstrução. A grande questão é: Por que, no Brasil, insiste-se em atuar mais na resposta aos eventos, se o valor de reconstrução e/ou reparação após um desastre acaba custando muito mais que a prevenção e a mitigação dos danos dos mesmos? Não investir na redução de risco de desastres no período de normalidade, bem como em prevenção e mitigação de danos, faz com que os problemas ocasionados por eventos de origem natural, como inundações e alagamentos, se tornem crônicos, aumentando a magnitude dos prejuízos econômicos e socioambientais.

Patrícia Sottoriva (Leia mais)

Mais estado, menos Estado

Desde a proclamação da República, o Brasil, em seu próprio nome, se diz uma federação. Começamos com “República dos Estados Unidos do Brasil”, depois passamos a simplesmente “Estados Unidos do Brasil”, e mais recentemente nos assumimos “República Federativa do Brasil”. Mas deixemos os nomes de lado e olhemos para a realidade: seria o Brasil uma federação de fato?

A Constituição Federal de 1988 enterrou qualquer ideia de federação. Na verdade, ela trouxe muitos outros males para o país, mas o assunto é suficiente para uma série inteira de artigos – coisa para um futuro próximo. No tocante ao assunto de hoje, é importante dizer que nossa última Constituição tira autoridade e recursos das mãos de estados e municípios e os centraliza na União, um movimento exatamente oposto ao federalismo.


Num país de dimensões continentais como o Brasil, cheio de diferenças marcantes entre populações e realidades regionais, e com uma diversidade cultural imensa, favorecer um poder central não é, de forma alguma, uma boa solução. Os estragos que podem ser feitos num modelo como esse são do pior tipo, e fazem parte da atualidade brasileira: temos um governo federal inchado, em cujos meandros se instalou uma casta de corruptos, com instituições aparelhadas e uma política econômica equivocada ao extremo. Os estados não têm praticamente como fazer frente a nenhuma decisão do governo federal, pois lhes falta autonomia legislativa, e seus orçamentos dependem de repasses feitos pela União. São como filhos adolescentes, que não decidem nada de importância em casa e vivem sob a ameaça do corte da mesada.

No dia 8 de janeiro deste ano, o governador do estado norte-americano do Texas divulgou um documento extenso e bem fundamentado, cuja nome traduz-se como “Restaurando o Estado de Direito com os estados liderando o caminho”. Nele, o governador Greg Abbott sugere nove emendas à Constituição dos Estados Unidos, todas fortalecendo os estados e tirando poder do governo federal. São elas:

1. Proibir o Congresso Nacional de regular atividades que ocorram exclusivamente em um estado;

2. Exigir que o Congresso Nacional execute o equilíbrio fiscal;

3. Proibir as agências reguladoras e administrativas – e seus burocratas não eleitos – de criar leis federais;

4. Proibir as agências reguladoras e administrativas – e seus burocratas não eleitos – de impedir leis estaduais;

5. Permitir que uma maioria de dois terços dos estados anule uma decisão da Suprema Corte;

6. Exigir uma “supermaioria” de sete juízes para qualquer decisão da Suprema Corte que invalide uma lei democraticamente aprovada;

7. Restaurar o equilíbrio de poder entre os governos federal e estaduais, limitando aquele aos poderes expressamente delegados pela Constituição;

8. Dar aos oficiais estaduais o poder de processar os oficiais federais em cortes federais quando estes agirem além de seus limites;

9. Permitir que uma maioria de dois terços dos estados anule uma lei ou um regulamento federal.

Embora os Estados Unidos tenham uma Constituição muito voltada ao federalismo e os estados possuam bastante autonomia para legislar e para arrecadar, o governo federal americano atingiu níveis de burocracia, dívida pública, intervencionismo e intromissão na vida dos cidadãos que são incompatíveis com uma democracia de verdade. Mas a própria Constituição americana fornece o remédio para tal situação em seu Artigo 5.º, remédio do qual Greg Abbott ameaça lançar mão: uma Convenção dos Estados, capaz de propor e aprovar emendas constitucionais de forma independente. É a democracia acontecendo dentro da estrutura mesma de poder.

A realidade brasileira é bem diferente, e nosso governo federal interfere na vida dos cidadãos em níveis intoleráveis. O isolamento dos poderes em Brasília, o comportamento legislador de nossa suprema corte, a submissão do Congresso Nacional ao Poder Executivo, a fraqueza dos estados e municípios, o desequilíbrio de representatividade entre os cidadãos de diferentes estados, os níveis mundialmente inéditos de burocracia estatal e todos os direitos afirmativos garantidos pela Constituição de 1988, só para citar alguns problemas, são como uma âncora, impedindo o país de avançar social e economicamente.

Onde está o nosso Greg Abbott?

Corrupção e o PT: avalanche de melado

Nos noticiários as TVs apresentam amenidades, acidentes, notícias do exterior, poucas notas políticas. Tudo repetido à exaustão. O Brasil de férias quase não toma conhecimento dos recorrentes assaltos à coisa pública, que vão sendo descortinados por delatores loucos para salvar a pele. Eles vendaram a alma ao “diabo” do PT e agora estão pagando com juros e correção monetária.

Enquanto isto o melado com o qual o PT se lambuzou continua a percorrer distâncias e vai envolvendo figuras do alto escalão governamental. Parece a lama sinistra que se abateu sobre o distrito de Mariana soterrando tudo, matando gente, invadindo lonjuras, contaminando rios, confiscando o azul dos mares. Foi a maior catástrofe ambiental já havida no País, assim como a avalanche de melado da corrupção da era PT não tem comparação com as roubalheiras do passado, tal seu grau de institucionalização e volume.

Interessante é que o autor da frase, “o PT se lambuzou”, ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, agora se encontra lambuzado, sendo que outros ministros comeram também bastante do melado. Pelo menos é o que se lê no O Estado de S. Paulo, de 8 de janeiro de 2016:

“Lava Jato – Além de Jaques Wagner, Edinho Silva (Comunicação) e Henrique Alves (Turismo) são citados em diálogos do empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, condenado a 16 anos de prisão”.

Também é mencionado no respectivo jornal o atual presidente da Petrobras, Aldemir Bendine. Ao mesmo tempo, o notório Cerveró, ex-diretor da Petrobras, menciona Jaques Wagner em algumas grossas, como diria Lula da Silva, maracutaias.

Nada acontece com o presidente de fato, que depôs pela quarta vez na Polícia Federal sobre uma generosa medida provisória que beneficiou um de seus filhos. E enquanto seus outrora “amigos íntimos”, aqueles que privaram de sua intimidade, que festejaram juntos em magníficos banquetes, que se divertiram com Brahma em suntuosas viagens estão vendo o sol nascer quadrado, “o pobre operário” segue indiferente à desdita dos companheiros de partido e “das zelites”. Não sei se esse traço de personalidade é próprio da humanidade como um todo ou mais acentuado em certos indivíduos sem caráter.

Em todo caso, o espertíssimo ex-presidente da República, grande beneficiado da locupletação geral não sabe de nada, não viu nada e, se duvidar, não conhece nenhum imbecil que caiu na esparrela, conforme taxou o senador petista e ora detento, Delcídio Amaral.

Lula da Silva foge dos “imbecis” como o diabo da cruz. Eles podem contaminar seu projeto de poder. Afogá-lo no pote de melado. No momento vislumbra-se apenas um fiozinho de melado a lhe escorrer pela barba. Foi posto por Cerveró que o mencionou quase que de passagem, a lembrar de que até a sorte acaba um dia nesse mundo de finitudes. Nada, porém, de previsões açodadas porque Brahma ou Boi até agora escapou. Ele conta com proteções internas e possivelmente externas, como as do Foro de São Paulo.

Há de se convir que o PT ainda detém força suficiente para evitar males piores. Exemplo disto foi o anteparo do STF que evitou por duas vezes o impeachment de Rousseff, com evidente e indevida intromissão no Legislativo. Ela ficará por mais três anos sem nenhuma condição de governabilidade, fazendo discursos que são peças de propaganda enganosa a se desmanchar na primeira ida das donas de casa ao supermercado. Enquanto isso o País afundará cada vez mais na recessão e na sua insignificância de potência regional sul-americana, a ser suplantada pela Argentina sob a presidência de Mauricio Macri.

Seguem-se outros exemplos do poder petista, como aqueles que tentam torpedear a extraordinária e inédita Operação Lava-Jato. É o caso do chamado desmonte da PF através do corte de R$ 133 milhões no seu orçamento. Foi votado no Congresso, mas tem evidente dedo do Executivo. Outro exemplo foi o da medida provisória assinada por Rousseff, que altera as bases da Lei Anticorrupção. Desse modo, se aprovada no Congresso empresas corruptas poderão fazer acordos de leniência com a CGU sem precisar colaborar com as investigações nem prestar contas ao TCU. Também poderão fechar contratos com o governo e receber verbas públicas. Não faltam também investidas do ministério da Justiça contra o competente e ilibado juiz Sérgio Moro.

Sem dúvida, o PT resiste diante do mar de melado que o submerge. Seu grande teste, porém, será nas eleições municipais desse ano. Se o povo achar que são lícitas as doçuras corruptas do poder, enquanto amarga a inflação, o desemprego, a inadimplência, ótimo para os petistas. Se não Lula terá, em 2018, que pensar em outro plano B.

No passado escolheu José Dirceu, depois Antonio Palocci e deu no que deu. Agora Jaques Wagner era (ou é?) o plano B, mas comeu muito melado. Dilma, a “faxineira”, vai mantê-lo no cargo? Certamente, mas nem tomando banho de ervas e sal grosso, Jaques Wagner, codinome compositor, se livrará do melado.

 Maria Lucia Victor Barbosa

O mundo a partir de casa

É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir… Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo. 


Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo.
Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares, 1948-1997, in "Entrevista à revista Ler-1989)"