terça-feira, 26 de maio de 2026

A ilusão de Babel e a Comunicação Não Violenta

A promessa era simples: mais tecnologia, melhor comunicação. O resultado está à vista: mais ruído, menos sentido. Na sua encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV aponta o diagnóstico com uma clareza desconfortável — não é a Inteligência Artificial que nos ameaça, é a nossa incapacidade crescente de escutar.

Há qualquer coisa de profundamente irónico no nosso tempo: nunca tivemos tantas ferramentas para comunicar e, ainda assim, nunca foi tão difícil compreender o outro.

A nova encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial, entra neste paradoxo com a lucidez de quem percebe que o problema não é a tecnologia — é o modo como a deixámos redefinir o humano. Logo na abertura, a imagem é frontal: a humanidade está perante uma escolha — “erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”.

Não é apenas teologia. É um diagnóstico civilizacional.


Babel já não é uma torre; é um ecossistema. Funciona em silêncio, num ritmo vertiginoso, com a aparência de neutralidade — mas, como recorda o Papa, a tecnologia “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. O problema, portanto, não está nas máquinas, mas na consciência — ou na ausência dela.

A encíclica alerta para um deslocamento subtil: começamos por utilizar ferramentas e acabamos por pensar como elas. Quando se aceita que sistemas “desprovidos de experiências, valores e sentimentos” participem em decisões humanas, o risco não é apenas técnico — é ético e antropológico.

E manifesta-se, antes de mais, na linguagem.

Leão XIV fala de uma necessária “ecologia da comunicação”. A expressão devia inquietar-nos mais. Porque, tal como o ambiente natural, também o espaço simbólico das palavras está poluído: excesso de ruído, défice de sentido, velocidade que impede a reflexão. Comunicamos em fluxo contínuo, mas raramente em profundidade.

É aqui que a encíclica cruza uma urgência concreta do nosso tempo: a necessidade de reaprender a comunicar. E isso já não é apenas uma questão espiritual ou cultural — é uma questão educativa e social.

A Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida por Marshall Rosenberg e hoje aprofundada em práticas formativas em contexto escolar e comunitário — como as que vêm sendo partilhadas em plataformas de reflexão como o blogue Comunicação Não Violenta / Portugal — https://comunicacaonaoviolenta.blogspot.com — propõe algo radicalmente simples: voltar a escutar para compreender, e não apenas para responder.

Num mundo onde se reage antes de pensar, a CNV reintroduz quatro gestos esquecidos: observar sem julgar, reconhecer sentimentos, identificar necessidades e formular pedidos claros. Não é uma técnica — é uma ética da relação.

E é precisamente isso que falta à nossa Babel contemporânea.

A crise da comunicação não se resolve com mais aplicações nem com algoritmos mais sofisticados. Resolve-se com pessoas mais conscientes. Educadores preparados para mediar conflitos, professores capazes de criar espaços de escuta, alunos treinados na empatia e famílias que recuperem o valor da palavra dita — e ouvida — com tempo.

A encíclica aponta, aliás, para uma “aliança educativa” na era digital, sublinhando a centralidade da escola e da formação integral. Não como um lugar de transmissão de conteúdos, mas como espaço de construção de humanidade.

Porque é aí que tudo se decide. Se a educação continuar a privilegiar o desempenho em detrimento da relação, a rapidez em detrimento da compreensão e a competição em detrimento da cooperação, então estaremos a formar excelentes operadores de sistemas — mas péssimos cidadãos do mundo.

E, nesse cenário, Babel não será uma metáfora. Será o destino.

Leão XIV insiste: é preciso “permanecer humanos.” A frase parece simples, mas é talvez a mais exigente de todas. Permanecer humano hoje implica resistir: ao imediatismo, à superficialidade, à despersonalização. Implica escolher o encontro num tempo que favorece o isolamento.

Entre Babel e Jerusalém, a diferença não está na tecnologia, mas na qualidade das relações. Em Babel, fala-se muito e compreende-se pouco. Em Jerusalém, escuta-se — e é isso que torna possível uma comunidade.

A pergunta que fica não é ingénua: queremos um mundo que funcione ou um mundo que faça sentido?

Se quisermos o segundo, teremos de investir menos em velocidade e mais em educação, menos em controlo e mais em relação, menos em respostas e mais em perguntas.

E, talvez, reaprender a dizer — com verdade, com tempo, com humanidade — aquilo que nenhuma máquina poderá jamais substituir: eu escuto-te.

Nenhum comentário:

Postar um comentário