quarta-feira, 5 de novembro de 2025
A legitimação da chacina pela opinião pública
Em 28 de outubro de 2025, vimos um novo marco da violência policial no Brasil: superando em número de mortos da chacina do Carandiru, a “megaoperação” no Rio de Janeiro, realizada a céu aberto, com imagens de drones e helicópteros, um enorme efetivo policial com armamento de confronto militar, foi longamente planejada pelas forças de segurança pública fluminenses para fazer do massacre de jovens negros e periféricos um espetáculo político macabro.
Na manhã seguinte, logo após a população dos complexos do Alemão e da Penha enfileirar na praça os corpos dos civis mortos pela polícia e deixados na mata – boa parte deles com sinais de execução sumária –, o governador Claudio Castro e o secretário de segurança pública, em coletiva de imprensa, classificavam a operação como “um sucesso”.
Como uma operação que chocou o mundo, transformou o local onde vivem mais de 100 mil pessoas em cenário de guerra, resultou em 121 mortes (117 civis e 4 policiais), cumpriu uma parcela pequena dos mandados de prisão expedidos e apreendeu uma pequena quantidade de armas pode ser considerada um sucesso pelo governador e seus agentes de segurança?
A resposta a esse questionamento veio com as pesquisas de opinião realizadas ao final da semana: levantamento realizado pelo instituto AtlasIntel e divulgado na sexta-feira (31/10) demonstrou apoio de 62,2% dos cariocas à operação policial, contra 34,2% de desaprovação. No restante do Brasil, a operação também foi aprovada pela maioria dos respondentes (55,2%), enquanto 42,3% desaprovavam. Embora sejam levantados questionamentos sobre a metodologia dessa pesquisa, o índice de aprovação entre os moradores das favelas cariocas é chocante: 87,6% disseram apoiar a operação policial.
No dia seguinte, o instituto Datafolha divulgou pesquisa de opinião realizada na cidade do Rio de Janeiro e região metropolitana segundo a qual 57% concordavam (parcial ou totalmente) com a declaração do governador de que a operação “foi um sucesso”, contra 39% de discordância. Na mesma pesquisa, 48% dos respondentes avaliaram que a operação que resultou na morte de 121 pessoas foi muito bem executada e, somente 24% afirmaram que foi mal executada pela polícia.
É possível dizer, a partir desses levantamentos, que a Operação Contenção, esse espetáculo macabro, foi “um sucesso” político para o governador Claudio Castro e para a extrema-direita no Brasil. Ao campo progressista e engajado com os direitos humanos, impõe-se a obrigação de questionar: por que a população, principalmente aquela que sofre diretamente com a violência das instituições, tem alto grau de concordância com a letalidade policial extrema?
Por óbvio, a explicação não é única, nem simples. O criminólogo argentino Alejando Alagia, por exemplo, aponta a relação entre o tratamento punitivo estatal contemporâneo e a solução sacrificial das sociedades primitivas, sustentando que, na civilização, a partir da crença de que um mal deve ser respondido com outro equivalente, o Estado escolhe os indivíduos vulneráveis ao tratamento sacrificial. No entanto, e sem desconsiderar as discussões acadêmicas que partem da sociologia do genocídio, da antropologia política e da psicanálise, o que se pretende nesse curto texto é provocar o leitor a refletir sobre a legitimação do massacre a partir da economia política, sua relação com as políticas de “segurança pública” apregoadas pela extrema-direita e o medo do crime sentido pela população.
O projeto da extrema-direita brasileira contemporânea articula-se em torno do conservadorismo, da idolatria do mercado e do armamentismo. Nesse espectro político, onde se situa o governador do Rio de Janeiro, argumenta-se que somente o livre mercado seria capaz de garantir a liberdade individual, devendo o Estado limitar-se exclusivamente a preservar a ordem institucional necessária. Sob a égide político-econômica neoliberal, reina a ideologia da austeridade fiscal e o Estado é cada vez menos capaz de alcançar as políticas públicas que setores significativos do eleitorado exigem, como saúde, educação, moradia, emprego etc.
Tanto o incremento e maior grau de organização da violência criminal quanto a truculência e intensidade das respostas punitivas estatais são decorrentes dos deslocamentos do mercado de trabalho no contexto do capitalismo tardio: um mercado que, segundo Jock Young, “exclui a participação do trabalhador mas estimula a voracidade do consumidor” e um capitalismo que, como diz, Debora Pastana “se multiplica financeiramente e que, por isso mesmo, descarta a força de trabalho como nunca havia feito antes”.
Zaffaroni tem argumentado que a reprodução da delinquência é multifuncional aos interesses neoliberais, promovendo a maior demanda por punição; debilitando o sentimento de comunidade; legitimando a imagem de guerra; desorientando e condicionando a atuação dos governos populares e; imunizando o poder punitivo hegemônico e informal.
O Estado, enfraquecido diante do poder do capital e movendo-se conforme os interesses deste último, se amolda mais e mais ao modelo de Estado policial. Se não pode cumprir a função de regulação social, o Estado neoliberal dissemina, sustenta e se aproveita do sentimento de insegurança e de medo do crime, que passam ao primeiro plano das preocupações políticas.
Pesquisas de opinião realizadas tanto pela AtlasIntel quanto pela Genial/Quaest no segundo semestre de 2025 trazem a segurança pública e a criminalidade como as maiores preocupações dos brasileiros, em trajetória crescente. A insegurança sentida pela população não é irracional, nem apenas resultado de manipulação midiática: de fato, a vida de milhões de brasileiros é cotidianamente afetada pelo crime, sejam os pequenos delitos patrimoniais, seja a atuação das facções nos territórios e, diante da permanência dos problemas, tende a apoiar respostas imediatistas e simplistas.
Diante da importância do medo do crime na vida dos brasileiros, a agenda da segurança é incorporada como uma das principais fontes de capital e disputa política. O populismo punitivo se incorpora às estruturas sociais, reconfigura o poder penal, promove discursos de ódio voltados contra o desviante e o apoio a medidas extremas em nome do controle do crime.
Após a chacina promovida pelo governo do Rio de Janeiro, a extrema direita no Congresso Nacional ou nos governos de outros estados busca capitalizar politicamente o evento com a retórica de “narcoterrorismo” e a pressão para o recrudescimento da legislação penal e das práticas policiais.
É especialmente importante, e também urgente, olhar para as formas de consolidação do populismo neste momento em que as ameaças autoritárias pairam, de forma evidente, sobre Brasil.
À classe política comprometida com a democracia, assim como a todo o espectro progressista da população, é necessária uma tomada de posição: a democracia deve ser pensada de forma “maximalista”, sem espaços para exclusão dos marginalizados e criminalizados. É preciso se posicionar abertamente contra a violência empreendida pelas forças de segurança, mas também contra o projeto de controle e encarceramento massivo em curso contra qualquer discurso pautado na criminalização como resposta simbólica aos problemas sociais.
É imprescindível implementar propostas que promovam, de fato, a segurança dos cidadãos e reduzam o sentimento de medo do crime experienciado cotidianamente pela população, sem violar os direitos dos desviantes.
Mais do que isso, é vital apresentar um projeto de superação do neoliberalismo e, nesse momento de instabilidade, catalisar os movimentos emancipatórios que começam a despertar.
Na manhã seguinte, logo após a população dos complexos do Alemão e da Penha enfileirar na praça os corpos dos civis mortos pela polícia e deixados na mata – boa parte deles com sinais de execução sumária –, o governador Claudio Castro e o secretário de segurança pública, em coletiva de imprensa, classificavam a operação como “um sucesso”.
Como uma operação que chocou o mundo, transformou o local onde vivem mais de 100 mil pessoas em cenário de guerra, resultou em 121 mortes (117 civis e 4 policiais), cumpriu uma parcela pequena dos mandados de prisão expedidos e apreendeu uma pequena quantidade de armas pode ser considerada um sucesso pelo governador e seus agentes de segurança?
A resposta a esse questionamento veio com as pesquisas de opinião realizadas ao final da semana: levantamento realizado pelo instituto AtlasIntel e divulgado na sexta-feira (31/10) demonstrou apoio de 62,2% dos cariocas à operação policial, contra 34,2% de desaprovação. No restante do Brasil, a operação também foi aprovada pela maioria dos respondentes (55,2%), enquanto 42,3% desaprovavam. Embora sejam levantados questionamentos sobre a metodologia dessa pesquisa, o índice de aprovação entre os moradores das favelas cariocas é chocante: 87,6% disseram apoiar a operação policial.
No dia seguinte, o instituto Datafolha divulgou pesquisa de opinião realizada na cidade do Rio de Janeiro e região metropolitana segundo a qual 57% concordavam (parcial ou totalmente) com a declaração do governador de que a operação “foi um sucesso”, contra 39% de discordância. Na mesma pesquisa, 48% dos respondentes avaliaram que a operação que resultou na morte de 121 pessoas foi muito bem executada e, somente 24% afirmaram que foi mal executada pela polícia.
É possível dizer, a partir desses levantamentos, que a Operação Contenção, esse espetáculo macabro, foi “um sucesso” político para o governador Claudio Castro e para a extrema-direita no Brasil. Ao campo progressista e engajado com os direitos humanos, impõe-se a obrigação de questionar: por que a população, principalmente aquela que sofre diretamente com a violência das instituições, tem alto grau de concordância com a letalidade policial extrema?
Por óbvio, a explicação não é única, nem simples. O criminólogo argentino Alejando Alagia, por exemplo, aponta a relação entre o tratamento punitivo estatal contemporâneo e a solução sacrificial das sociedades primitivas, sustentando que, na civilização, a partir da crença de que um mal deve ser respondido com outro equivalente, o Estado escolhe os indivíduos vulneráveis ao tratamento sacrificial. No entanto, e sem desconsiderar as discussões acadêmicas que partem da sociologia do genocídio, da antropologia política e da psicanálise, o que se pretende nesse curto texto é provocar o leitor a refletir sobre a legitimação do massacre a partir da economia política, sua relação com as políticas de “segurança pública” apregoadas pela extrema-direita e o medo do crime sentido pela população.
O projeto da extrema-direita brasileira contemporânea articula-se em torno do conservadorismo, da idolatria do mercado e do armamentismo. Nesse espectro político, onde se situa o governador do Rio de Janeiro, argumenta-se que somente o livre mercado seria capaz de garantir a liberdade individual, devendo o Estado limitar-se exclusivamente a preservar a ordem institucional necessária. Sob a égide político-econômica neoliberal, reina a ideologia da austeridade fiscal e o Estado é cada vez menos capaz de alcançar as políticas públicas que setores significativos do eleitorado exigem, como saúde, educação, moradia, emprego etc.
Tanto o incremento e maior grau de organização da violência criminal quanto a truculência e intensidade das respostas punitivas estatais são decorrentes dos deslocamentos do mercado de trabalho no contexto do capitalismo tardio: um mercado que, segundo Jock Young, “exclui a participação do trabalhador mas estimula a voracidade do consumidor” e um capitalismo que, como diz, Debora Pastana “se multiplica financeiramente e que, por isso mesmo, descarta a força de trabalho como nunca havia feito antes”.
Zaffaroni tem argumentado que a reprodução da delinquência é multifuncional aos interesses neoliberais, promovendo a maior demanda por punição; debilitando o sentimento de comunidade; legitimando a imagem de guerra; desorientando e condicionando a atuação dos governos populares e; imunizando o poder punitivo hegemônico e informal.
O Estado, enfraquecido diante do poder do capital e movendo-se conforme os interesses deste último, se amolda mais e mais ao modelo de Estado policial. Se não pode cumprir a função de regulação social, o Estado neoliberal dissemina, sustenta e se aproveita do sentimento de insegurança e de medo do crime, que passam ao primeiro plano das preocupações políticas.
Pesquisas de opinião realizadas tanto pela AtlasIntel quanto pela Genial/Quaest no segundo semestre de 2025 trazem a segurança pública e a criminalidade como as maiores preocupações dos brasileiros, em trajetória crescente. A insegurança sentida pela população não é irracional, nem apenas resultado de manipulação midiática: de fato, a vida de milhões de brasileiros é cotidianamente afetada pelo crime, sejam os pequenos delitos patrimoniais, seja a atuação das facções nos territórios e, diante da permanência dos problemas, tende a apoiar respostas imediatistas e simplistas.
Diante da importância do medo do crime na vida dos brasileiros, a agenda da segurança é incorporada como uma das principais fontes de capital e disputa política. O populismo punitivo se incorpora às estruturas sociais, reconfigura o poder penal, promove discursos de ódio voltados contra o desviante e o apoio a medidas extremas em nome do controle do crime.
Após a chacina promovida pelo governo do Rio de Janeiro, a extrema direita no Congresso Nacional ou nos governos de outros estados busca capitalizar politicamente o evento com a retórica de “narcoterrorismo” e a pressão para o recrudescimento da legislação penal e das práticas policiais.
É especialmente importante, e também urgente, olhar para as formas de consolidação do populismo neste momento em que as ameaças autoritárias pairam, de forma evidente, sobre Brasil.
À classe política comprometida com a democracia, assim como a todo o espectro progressista da população, é necessária uma tomada de posição: a democracia deve ser pensada de forma “maximalista”, sem espaços para exclusão dos marginalizados e criminalizados. É preciso se posicionar abertamente contra a violência empreendida pelas forças de segurança, mas também contra o projeto de controle e encarceramento massivo em curso contra qualquer discurso pautado na criminalização como resposta simbólica aos problemas sociais.
É imprescindível implementar propostas que promovam, de fato, a segurança dos cidadãos e reduzam o sentimento de medo do crime experienciado cotidianamente pela população, sem violar os direitos dos desviantes.
Mais do que isso, é vital apresentar um projeto de superação do neoliberalismo e, nesse momento de instabilidade, catalisar os movimentos emancipatórios que começam a despertar.
Segurança pede mais do que torneio verbal
Peço desculpas por começar simplificando. Uma política de segurança que prioriza a morte é condenável. Mas a ocupação do território pelo crime organizado, oprimindo milhões de pessoas, é intolerável. Como resolver esse problema?
Grande parte da energia social no Brasil foi investida na troca de acusações: fascistas de um lado; cúmplices de traficantes do outro. O tiroteio verbal foi tão intenso quanto o barulho ensurdecedor da terça-feira passada no Alemão e na Penha.
O debate é necessário em todos os níveis, mas, concentrado nas acusações mútuas, transforma o sofrimento real dos moradores do morro em mais uma rotineira troca de farpas entre esquerda e direita.
A questão central permanece intocada. Governadores de direita criaram um consórcio às pressas, num movimento nitidamente eleitoral. Sua tese de igualar o tráfico ao terrorismo é um dado importante na geopolítica. Paraguai e Argentina classificaram os traficantes brasileiros como terroristas. É a posição de Trump, que, no momento, tem destruído barcos no Caribe e no Pacífico. Na verdade, é a política do extermínio usando o argumento do terrorismo, algo que, levado às últimas consequências, pode resultar na morte de milhares de inocentes, como aconteceu em Gaza.
A visão dos governadores de direita exclui Norte e Nordeste, por onde passam rotas e existem organizações locais, além de CV e PCC. Tive oportunidade de falar sobre elas em programas em Manaus, onde domina a Família do Norte, e Fortaleza, onde prevalecem Os Defensores do Estado.
A melhor saída é a integração com o governo federal, cujos instrumentos são indispensáveis: PF, Receita, Polícia Rodoviária, Forças Armadas.
É preciso vencer a resistência à integração para chegar a uma política de segurança que, pela eficácia e transparência, convença os dois lados da batalha ideológica.
Como resolver o problema da reconquista do território? Inteligência, dizem alguns. Tudo bem, inteligência é essencial. Asfixia financeira. Ok. Mas há duas questões que inteligência e asfixia financeira não resolvem. Os traficantes têm fuzis, pistolas, drones e, em alguns casos, metralhadoras .30. O domínio territorial com taxas sobre tudo — motoboys, comércio, bujões de gás, gatonet — garante mais dinheiro que a própria droga e é inesgotável.
Impossível recuperar território sem algum uso de força, essa sim pode ser inteligente e ponderada. É uma fórmula que deixaria de fora apenas os que querem matanças ou os que se opõem a qualquer intervenção estatal e preferem o statu quo.
A integração entre governos federal, estadual e municipal teria de usar uma força esmagadoramente superior, com o objetivo de fazer com que a resistência seja inviável, e a rendição uma saída racional. Prender e não emboscar. Para isso, seria preciso inteligência, planejamento, trabalho psicológico com bombardeio de panfletos e um cuidado especial com a tática de utilizar a população como escudo.
Muita gente acredita que os traficantes não se rendem. Não parece verdadeiro. Há vídeos de traficantes querendo se render, relatos de mães que foram à mata chamadas pelos filhos querendo negociar a rendição — enfim, nem todos são suicidas.
Naturalmente, uma operação desse tipo custa caro. Mais caro ainda o investimento que os governos terão de fazer nas áreas liberadas para que se reintegrem ao Estado de Direito. Mas o preço que as populações dominadas pagam é muito alto, material e psicologicamente. E há também o preço nacional pela inércia. Estaremos vulneráveis a um tipo de populismo baseado na mais tosca repressão, como a que vigora hoje em El Salvador.
Fernando Gabeira
Grande parte da energia social no Brasil foi investida na troca de acusações: fascistas de um lado; cúmplices de traficantes do outro. O tiroteio verbal foi tão intenso quanto o barulho ensurdecedor da terça-feira passada no Alemão e na Penha.
O debate é necessário em todos os níveis, mas, concentrado nas acusações mútuas, transforma o sofrimento real dos moradores do morro em mais uma rotineira troca de farpas entre esquerda e direita.
A questão central permanece intocada. Governadores de direita criaram um consórcio às pressas, num movimento nitidamente eleitoral. Sua tese de igualar o tráfico ao terrorismo é um dado importante na geopolítica. Paraguai e Argentina classificaram os traficantes brasileiros como terroristas. É a posição de Trump, que, no momento, tem destruído barcos no Caribe e no Pacífico. Na verdade, é a política do extermínio usando o argumento do terrorismo, algo que, levado às últimas consequências, pode resultar na morte de milhares de inocentes, como aconteceu em Gaza.
A visão dos governadores de direita exclui Norte e Nordeste, por onde passam rotas e existem organizações locais, além de CV e PCC. Tive oportunidade de falar sobre elas em programas em Manaus, onde domina a Família do Norte, e Fortaleza, onde prevalecem Os Defensores do Estado.
A melhor saída é a integração com o governo federal, cujos instrumentos são indispensáveis: PF, Receita, Polícia Rodoviária, Forças Armadas.
É preciso vencer a resistência à integração para chegar a uma política de segurança que, pela eficácia e transparência, convença os dois lados da batalha ideológica.
Como resolver o problema da reconquista do território? Inteligência, dizem alguns. Tudo bem, inteligência é essencial. Asfixia financeira. Ok. Mas há duas questões que inteligência e asfixia financeira não resolvem. Os traficantes têm fuzis, pistolas, drones e, em alguns casos, metralhadoras .30. O domínio territorial com taxas sobre tudo — motoboys, comércio, bujões de gás, gatonet — garante mais dinheiro que a própria droga e é inesgotável.
Impossível recuperar território sem algum uso de força, essa sim pode ser inteligente e ponderada. É uma fórmula que deixaria de fora apenas os que querem matanças ou os que se opõem a qualquer intervenção estatal e preferem o statu quo.
A integração entre governos federal, estadual e municipal teria de usar uma força esmagadoramente superior, com o objetivo de fazer com que a resistência seja inviável, e a rendição uma saída racional. Prender e não emboscar. Para isso, seria preciso inteligência, planejamento, trabalho psicológico com bombardeio de panfletos e um cuidado especial com a tática de utilizar a população como escudo.
Muita gente acredita que os traficantes não se rendem. Não parece verdadeiro. Há vídeos de traficantes querendo se render, relatos de mães que foram à mata chamadas pelos filhos querendo negociar a rendição — enfim, nem todos são suicidas.
Naturalmente, uma operação desse tipo custa caro. Mais caro ainda o investimento que os governos terão de fazer nas áreas liberadas para que se reintegrem ao Estado de Direito. Mas o preço que as populações dominadas pagam é muito alto, material e psicologicamente. E há também o preço nacional pela inércia. Estaremos vulneráveis a um tipo de populismo baseado na mais tosca repressão, como a que vigora hoje em El Salvador.
Fernando Gabeira
Paz com justiça
Aceitamos ajuda em informação, intervenção, não. O México é um país soberano. A maneira de construir paz e segurança é com justiça social e um verdadeiro sistema de justiça, onde haja zero impunidade.
Claudia Sheinbaum, presidente do México
Guerra sem fim: a insanidade da segurança no Rio
Um dito atribuído a Albert Einstein afirma: "A definição de insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes". É uma descrição perfeita da política falida de segurança pública do Rio de Janeiro.
Vivo na cidade desde 2012 e, nesse tempo, publiquei com frequência, a cada dois ou três anos, reportagens sobre operações policiais em favelas que deixaram um número cada vez maior de mortos. Sempre houve policiais entre as vítimas – e sempre surgiram, logo depois, relatos de execuções cometidas por agentes do Estado.
As imagens da violência circularam pelo mundo inteiro, com manchetes como "Guerra no Rio" – e consolidaram a percepção do Brasil como um país violento e caótico, cuja política e sociedade seriam incapazes de resolver problemas de forma civilizada.
As ações deixaram famílias e comunidades traumatizadas, e sempre se seguiram debates polarizados entre direita e esquerda sobre quem seriam as verdadeiras vítimas desses confrontos: moradores ou policiais?
Essas discussões duravam três ou quatro dias, até que outro assunto ganhasse prioridade — até que uma nova operação policial voltasse a produzir números recordes de mortos e imagens ainda mais brutais.
Foi o que aconteceu nesta semana, quando a tentativa de cumprir diversos mandados de prisão contra líderes da facção criminosa Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha terminou em desastre, com um número de mortos e feridos que superou de longe tudo o que já se havia visto antes.
Raramente o mundo presenciou cenas tão brutais vindas do Brasil como as dos 50 a 60 corpos seminus alinhados no asfalto, cercados por moradores — entre eles, crianças.
Ao contrário do que afirmam agora políticos da extrema direita, como o governador do Rio, Cláudio Castro, essas não são imagens de sucesso no combate ao crime organizado. São imagens da insanidade!
Um Estado incapaz de cumprir mandados de prisão sem provocar condições de guerra, com mais de uma centena de mortos (inclusive agentes seus), que mergulha uma das maiores metrópoles da América Latina em medo e caos — esse Estado fracassou. Ele abandonou grande parte da sua população pobre ao domínio do crime organizado e, agora, responde apenas com violência.
É a pior das respostas, porque não leva a lugar algum. O site The Intercept resumiu bem: "A pior operação policial do Rio de Janeiro é sempre a próxima.”
Foi em 2010 que os complexos de favelas do Alemão e da Penha, com suas dezenas de milhares de moradores, foram ocupados pela polícia. A maioria dos membros do Comando Vermelho fugiu, e os policiais hastearam a bandeira do Brasil sobre o mar de casas.
Quando as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) foram instaladas, parecia realmente que o Estado — às vésperas da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 — finalmente assumiria responsabilidade pelas enormes áreas pobres das quais esteve ausente por décadas.
Prometia-se não apenas policiamento, mas também desenvolvimento social: educação, saúde, cultura, saneamento — enfim, cidadania. Mas isso nunca veio.
E se confirmou o que muitos observadores haviam previsto: tratava-se apenas de uma encenação para o público internacional e de mais uma promessa vazia. Nunca houve interesse real da classe política em integrar as favelas ao Estado e aos seus serviços. Com o tempo, o financiamento das UPPs foi sendo reduzido até praticamente desaparecer.
Assim, as favelas voltaram ao controle do crime organizado — hoje mais forte do que nunca. A expansão territorial do Comando Vermelho, que já alcança até as profundezas da Amazônia, a quantidade de cocaína que trafica e seu moderno arsenal bélico — agora novamente exposto — são assustadoras.
O CV já não é apenas um cartel de drogas; diversificou seus negócios e impõe o terror a centenas de milhares de brasileiros através do uso sistemático da violência. Que essa organização criminosa, hoje ativa em todo o país, não seja comandada pelos "soldados" do Complexo do Alemão — peças descartáveis facilmente substituíveis — deveria ser óbvio para todos.
Se o Estado quisesse de fato combater o crime organizado (como é seu dever), atacaria suas contas bancárias, seus fluxos de dinheiro, a lavagem através de empresas "legais" e os chefes que vivem em apartamentos de luxo.
Tentaria impedir a compra e o contrabando de armamento pesado, com o qual as facções se fortalecem cada vez mais. E ocuparia de forma permanente os territórios dominados pelo crime, em vez de aparecer neles apenas quando é conveniente. O Estado agiria com inteligência e estratégia — com olhos e ouvidos — em vez de atirar às cegas, movido pela raiva.
Não entrarei aqui em detalhes sobre as diversas denúncias de corrupção que pesam contra o governador Cláudio Castro. Mas o massacre de terça-feira tem, evidentemente, uma dimensão eleitoral.
Grande parte da população do Rio aplaudiu a operação. "Quanto mais bandidos mortos, melhor", dizem muitos. Estão cansados de viver com medo de assaltos e de ouvir explicações sociológicas sobre por que jovens das favelas cometem crimes e muitas vezes ficam impunes — ou por que há tiroteios diários entre facções rivais.
Essas pessoas acreditam que a violência deve ser respondida com mais violência — sem perceber que um Estado nunca pode agir como aqueles que combate, sob pena de se tornar criminoso também.
É provável que essa parcela do eleitorado se incline a apoiar Castro nas eleições para governador no próximo ano, vendo nele um suposto candidato da "lei e da ordem”, apesar das acusações de corrupção. Aliado de Jair Bolsonaro, Castro já tenta explorar politicamente a tragédia, alegando que o governo federal, sob Lula, teria se recusado a apoiar a operação — embora ele sequer tenha feito tal pedido.
Assim, toda discussão necessária sobre uma estratégia realmente eficaz de combate ao crime organizado é sabotada. A população é enganada, levada a acreditar que a guerra contra o crime pode ser vencida dentro das favelas. Na prática, trata-se apenas de ação midiática — uma tentativa de exibir autoridade onde não há inteligência nem eficácia.
É o povo quem paga o preço.
Diz-se com frequência que o Brasil é um país pacífico, que não faz guerra contra outros.
Mas vive, há décadas, em guerra contra si mesmo.
Vivo na cidade desde 2012 e, nesse tempo, publiquei com frequência, a cada dois ou três anos, reportagens sobre operações policiais em favelas que deixaram um número cada vez maior de mortos. Sempre houve policiais entre as vítimas – e sempre surgiram, logo depois, relatos de execuções cometidas por agentes do Estado.
As imagens da violência circularam pelo mundo inteiro, com manchetes como "Guerra no Rio" – e consolidaram a percepção do Brasil como um país violento e caótico, cuja política e sociedade seriam incapazes de resolver problemas de forma civilizada.
As ações deixaram famílias e comunidades traumatizadas, e sempre se seguiram debates polarizados entre direita e esquerda sobre quem seriam as verdadeiras vítimas desses confrontos: moradores ou policiais?
Essas discussões duravam três ou quatro dias, até que outro assunto ganhasse prioridade — até que uma nova operação policial voltasse a produzir números recordes de mortos e imagens ainda mais brutais.
Foi o que aconteceu nesta semana, quando a tentativa de cumprir diversos mandados de prisão contra líderes da facção criminosa Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha terminou em desastre, com um número de mortos e feridos que superou de longe tudo o que já se havia visto antes.
Raramente o mundo presenciou cenas tão brutais vindas do Brasil como as dos 50 a 60 corpos seminus alinhados no asfalto, cercados por moradores — entre eles, crianças.
Ao contrário do que afirmam agora políticos da extrema direita, como o governador do Rio, Cláudio Castro, essas não são imagens de sucesso no combate ao crime organizado. São imagens da insanidade!
Um Estado incapaz de cumprir mandados de prisão sem provocar condições de guerra, com mais de uma centena de mortos (inclusive agentes seus), que mergulha uma das maiores metrópoles da América Latina em medo e caos — esse Estado fracassou. Ele abandonou grande parte da sua população pobre ao domínio do crime organizado e, agora, responde apenas com violência.
É a pior das respostas, porque não leva a lugar algum. O site The Intercept resumiu bem: "A pior operação policial do Rio de Janeiro é sempre a próxima.”
Foi em 2010 que os complexos de favelas do Alemão e da Penha, com suas dezenas de milhares de moradores, foram ocupados pela polícia. A maioria dos membros do Comando Vermelho fugiu, e os policiais hastearam a bandeira do Brasil sobre o mar de casas.
Quando as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) foram instaladas, parecia realmente que o Estado — às vésperas da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 — finalmente assumiria responsabilidade pelas enormes áreas pobres das quais esteve ausente por décadas.
Prometia-se não apenas policiamento, mas também desenvolvimento social: educação, saúde, cultura, saneamento — enfim, cidadania. Mas isso nunca veio.
E se confirmou o que muitos observadores haviam previsto: tratava-se apenas de uma encenação para o público internacional e de mais uma promessa vazia. Nunca houve interesse real da classe política em integrar as favelas ao Estado e aos seus serviços. Com o tempo, o financiamento das UPPs foi sendo reduzido até praticamente desaparecer.
Assim, as favelas voltaram ao controle do crime organizado — hoje mais forte do que nunca. A expansão territorial do Comando Vermelho, que já alcança até as profundezas da Amazônia, a quantidade de cocaína que trafica e seu moderno arsenal bélico — agora novamente exposto — são assustadoras.
O CV já não é apenas um cartel de drogas; diversificou seus negócios e impõe o terror a centenas de milhares de brasileiros através do uso sistemático da violência. Que essa organização criminosa, hoje ativa em todo o país, não seja comandada pelos "soldados" do Complexo do Alemão — peças descartáveis facilmente substituíveis — deveria ser óbvio para todos.
Se o Estado quisesse de fato combater o crime organizado (como é seu dever), atacaria suas contas bancárias, seus fluxos de dinheiro, a lavagem através de empresas "legais" e os chefes que vivem em apartamentos de luxo.
Tentaria impedir a compra e o contrabando de armamento pesado, com o qual as facções se fortalecem cada vez mais. E ocuparia de forma permanente os territórios dominados pelo crime, em vez de aparecer neles apenas quando é conveniente. O Estado agiria com inteligência e estratégia — com olhos e ouvidos — em vez de atirar às cegas, movido pela raiva.
Não entrarei aqui em detalhes sobre as diversas denúncias de corrupção que pesam contra o governador Cláudio Castro. Mas o massacre de terça-feira tem, evidentemente, uma dimensão eleitoral.
Grande parte da população do Rio aplaudiu a operação. "Quanto mais bandidos mortos, melhor", dizem muitos. Estão cansados de viver com medo de assaltos e de ouvir explicações sociológicas sobre por que jovens das favelas cometem crimes e muitas vezes ficam impunes — ou por que há tiroteios diários entre facções rivais.
Essas pessoas acreditam que a violência deve ser respondida com mais violência — sem perceber que um Estado nunca pode agir como aqueles que combate, sob pena de se tornar criminoso também.
É provável que essa parcela do eleitorado se incline a apoiar Castro nas eleições para governador no próximo ano, vendo nele um suposto candidato da "lei e da ordem”, apesar das acusações de corrupção. Aliado de Jair Bolsonaro, Castro já tenta explorar politicamente a tragédia, alegando que o governo federal, sob Lula, teria se recusado a apoiar a operação — embora ele sequer tenha feito tal pedido.
Assim, toda discussão necessária sobre uma estratégia realmente eficaz de combate ao crime organizado é sabotada. A população é enganada, levada a acreditar que a guerra contra o crime pode ser vencida dentro das favelas. Na prática, trata-se apenas de ação midiática — uma tentativa de exibir autoridade onde não há inteligência nem eficácia.
É o povo quem paga o preço.
Diz-se com frequência que o Brasil é um país pacífico, que não faz guerra contra outros.
Mas vive, há décadas, em guerra contra si mesmo.
IA, energia e… água: o custo invisível da nova revolução digital
Vivemos um período marcado por uma corrida sem precedentes à Inteligência Artificial (IA), uma tecnologia que tem o poder de reconfigurar todo o nosso modelo económico e social. Mas, enquanto nos deixamos cativar pelas suas potencialidades, ignoramos, muitas vezes, os custos reais que a IA está a gerar. Não apenas em termos de energia, mas, de forma ainda mais crítica, no consumo de água potável.
Eric Schmidt, ex-CEO da Google, escreveu recentemente num artigo que o verdadeiro limite da IA já não reside nos chips, mas sim na eletricidade consumida. As estimativas traçam um cenário tão claro quanto inquietante: se o atual ritmo de crescimento se mantiver, os Estados Unidos da América (EUA) poderão precisar de 92 gigawatts adicionais apenas para alimentar os modelos de IA. Se considerarmos que uma central nuclear gera, em média, 1 gigawatt, estamos perante o equivalente à construção de 92 novas centrais.
Mas há um tema ainda mais ausente do debate público e com um impacto significativo: o uso intensivo de água potável para arrefecer os servidores e os data centers que sustentam esta nova economia digital. E não, não estamos a falar de processos circulares, como nas antigas centrais de Sines, onde a água era utilizada para o arrefecimento e depois devolvida ao mar. Falamos, sim, de água potável canalizada diretamente das redes públicas, usada para o arrefecimento dos sistemas operacionais e que, no fim do processo, se evapora totalmente, sem possibilidade de reutilização.
Segundo estimativas recentes, o treino de um único modelo de IA, como o GPT-4, pode levar à evaporação de até 700 mil litros de água potável. E o cenário tende a agravar-se: até 2027, os sistemas de Inteligência Artificial poderão consumir entre 4,2 e 6,6 milhões de metros cúbicos de água — o equivalente ao consumo anual de quatro a seis países da dimensão da Dinamarca, ou a metade do consumo do Reino Unido.
Mais preocupante ainda é o facto de esta sede digital estar a crescer precisamente em regiões sob forte escassez hídrica. Nos EUA, estados como o Arizona, com falta de água crónica, instalaram um total de 26 data centers só desde 2022. Já na Europa, observamos casos como o da Catalunha, que impõe restrições severas ao uso de água por parte de cidadãos e agricultores, mas continua a aprovar centros de dados que consomem milhões de litros.
Enquanto sociedade, parecemos aceitar esta contradição sem qualquer debate. Apenas 41% dos data centers divulgam publicamente o seu consumo de água, protegendo essa informação sob o véu do “segredo comercial”. No entanto, como escreveu recentemente Henrique Raposo, a água não é uma propriedade privada. É um bem público que não pode ser usado de forma indiscriminada por decisões empresariais tomadas à porta fechada.
A transição digital não pode acontecer à margem da sustentabilidade. As empresas tecnológicas têm de ser responsabilizadas, e os decisores públicos têm de legislar com base em critérios ambientais rigorosos, que considerem não apenas a eficiência energética, mas também a hídrica.
Num contexto de emergência climática, talvez devêssemos estar a debater outras questões. Por exemplo, como compatibilizamos a Inteligência Artificial com a sustentabilidade? De que forma regulamos o consumo hídrico desta nova infraestrutura tecnológica? Que alternativas existem — a dessalinização, a reutilização da água ou até mesmo a localização estratégica dos centros de dados em regiões com menor stress hídrico?
A discussão sobre a IA não pode continuar confinada à sua dimensão tecnológica ou económica. Tem de ser, acima de tudo, ecológica, ética e transparente. Mais do que nos perguntarmos se a IA veio para nos roubar o emprego, talvez devêssemos abrir espaço para uma questão mais urgente: vai a IA ficar com a nossa água?
Eric Schmidt, ex-CEO da Google, escreveu recentemente num artigo que o verdadeiro limite da IA já não reside nos chips, mas sim na eletricidade consumida. As estimativas traçam um cenário tão claro quanto inquietante: se o atual ritmo de crescimento se mantiver, os Estados Unidos da América (EUA) poderão precisar de 92 gigawatts adicionais apenas para alimentar os modelos de IA. Se considerarmos que uma central nuclear gera, em média, 1 gigawatt, estamos perante o equivalente à construção de 92 novas centrais.
Mas há um tema ainda mais ausente do debate público e com um impacto significativo: o uso intensivo de água potável para arrefecer os servidores e os data centers que sustentam esta nova economia digital. E não, não estamos a falar de processos circulares, como nas antigas centrais de Sines, onde a água era utilizada para o arrefecimento e depois devolvida ao mar. Falamos, sim, de água potável canalizada diretamente das redes públicas, usada para o arrefecimento dos sistemas operacionais e que, no fim do processo, se evapora totalmente, sem possibilidade de reutilização.
Segundo estimativas recentes, o treino de um único modelo de IA, como o GPT-4, pode levar à evaporação de até 700 mil litros de água potável. E o cenário tende a agravar-se: até 2027, os sistemas de Inteligência Artificial poderão consumir entre 4,2 e 6,6 milhões de metros cúbicos de água — o equivalente ao consumo anual de quatro a seis países da dimensão da Dinamarca, ou a metade do consumo do Reino Unido.
Mais preocupante ainda é o facto de esta sede digital estar a crescer precisamente em regiões sob forte escassez hídrica. Nos EUA, estados como o Arizona, com falta de água crónica, instalaram um total de 26 data centers só desde 2022. Já na Europa, observamos casos como o da Catalunha, que impõe restrições severas ao uso de água por parte de cidadãos e agricultores, mas continua a aprovar centros de dados que consomem milhões de litros.
Enquanto sociedade, parecemos aceitar esta contradição sem qualquer debate. Apenas 41% dos data centers divulgam publicamente o seu consumo de água, protegendo essa informação sob o véu do “segredo comercial”. No entanto, como escreveu recentemente Henrique Raposo, a água não é uma propriedade privada. É um bem público que não pode ser usado de forma indiscriminada por decisões empresariais tomadas à porta fechada.
A transição digital não pode acontecer à margem da sustentabilidade. As empresas tecnológicas têm de ser responsabilizadas, e os decisores públicos têm de legislar com base em critérios ambientais rigorosos, que considerem não apenas a eficiência energética, mas também a hídrica.
Num contexto de emergência climática, talvez devêssemos estar a debater outras questões. Por exemplo, como compatibilizamos a Inteligência Artificial com a sustentabilidade? De que forma regulamos o consumo hídrico desta nova infraestrutura tecnológica? Que alternativas existem — a dessalinização, a reutilização da água ou até mesmo a localização estratégica dos centros de dados em regiões com menor stress hídrico?
A discussão sobre a IA não pode continuar confinada à sua dimensão tecnológica ou económica. Tem de ser, acima de tudo, ecológica, ética e transparente. Mais do que nos perguntarmos se a IA veio para nos roubar o emprego, talvez devêssemos abrir espaço para uma questão mais urgente: vai a IA ficar com a nossa água?
O retorno do reprimido
No dia 28 de outubro de 2025, a guerra em Gaza matou 104 pessoas. A guerra no Rio de Janeiro matou mais de 120. Acuada pela falência da segurança pública no Brasil, parte da população festejou o massacre, que excedeu chacinas históricas como a do Carandiru, em São Paulo.
Festejou porque apoia a premissa de que “bandido bom é bandido morto”, a mesma por trás da prática crescente de linchamentos a assaltantes, que submete o valor da vida ao valor do patrimônio.
A operação no Rio satisfaz a sede de vingança dos justiceiros. Nada além disso. A guerra ao tráfico, vigente há décadas, não mostrou eficácia no combate ao crime organizado, mais poderoso do que nunca.
Como numa psicanálise, em que o sujeito precisa rememorar sua história para elaborar feridas e traumas que se repetem e prolongam seu sofrimento, uma análise do que ocorreu no Rio não pode ignorar a História que remonta à constituição do Brasil como nação independente de Portugal.
Embora proibida, salvo em casos de crimes militares, a pena de morte é aplicada pelo braço armado do Estado brasileiro, sem inquérito, julgamento ou direito de defesa dos executados. Os mortos, quase sempre, são descendentes de uma população negra escravizada, que foi alforriada e abandonada à própria sorte no fim do século XIX, sem o amparo de qualquer política de saúde, educação, emprego, habitação — os direitos básicos à cidadania, condições mínimas à sobrevivência nas cidades.
Essa força de trabalho foi substituída por um incentivo à imigração em massa de europeus, pelo projeto eugenista de embranquecer o Brasil. Foi obrigada a se aquilombar em favelas e periferias, a inventar estratégias de subsistência real e simbólica, muitas das quais, como a capoeira e o samba, viraram alvo da repressão estatal.
Na dinâmica psíquica, um conteúdo reprimido não desaparece do aparelho mental: ele se mantém latente, sob o limiar da consciência, influenciando o comportamento do sujeito. Quanto maior a repressão, maior a força do reprimido para voltar à tona, como um zumbi que irrompe do jazigo e retorna para nos assombrar.
Na dinâmica social, a violência do retorno do reprimido também é proporcional à violência da repressão. Continua a alimentar sintomas e repetições de traumas que carecem de elaboração.
Diante da brutalidade do real, a única via de elaboração possível é simbólica. Há que se debater, falar, buscar alternativas à estratégia falida de manter o Estado em guerra contra os cidadãos.
Mas as palavras que circulam no léxico cultural brasileiro, hoje, repetem o léxico bélico do governo de Donald Trump. “Narcoterroristas” são as embarcações abatidas nas costas da Colômbia e da Venezuela, matando dezenas de pessoas. “Narcoterroristas” são as mais de cem pessoas mortas no Rio, por autoridades que cometem um genocídio em troca de vantagens eleitorais em 2026.
É o Novo Velho Oeste, normalizando um bang-bang transfronteiriço, onde mais vale atirar antes de perguntar. E o mundo se torna um lugar mais sangrento para todos nós.
Festejou porque apoia a premissa de que “bandido bom é bandido morto”, a mesma por trás da prática crescente de linchamentos a assaltantes, que submete o valor da vida ao valor do patrimônio.
A operação no Rio satisfaz a sede de vingança dos justiceiros. Nada além disso. A guerra ao tráfico, vigente há décadas, não mostrou eficácia no combate ao crime organizado, mais poderoso do que nunca.
Como numa psicanálise, em que o sujeito precisa rememorar sua história para elaborar feridas e traumas que se repetem e prolongam seu sofrimento, uma análise do que ocorreu no Rio não pode ignorar a História que remonta à constituição do Brasil como nação independente de Portugal.
Embora proibida, salvo em casos de crimes militares, a pena de morte é aplicada pelo braço armado do Estado brasileiro, sem inquérito, julgamento ou direito de defesa dos executados. Os mortos, quase sempre, são descendentes de uma população negra escravizada, que foi alforriada e abandonada à própria sorte no fim do século XIX, sem o amparo de qualquer política de saúde, educação, emprego, habitação — os direitos básicos à cidadania, condições mínimas à sobrevivência nas cidades.
Essa força de trabalho foi substituída por um incentivo à imigração em massa de europeus, pelo projeto eugenista de embranquecer o Brasil. Foi obrigada a se aquilombar em favelas e periferias, a inventar estratégias de subsistência real e simbólica, muitas das quais, como a capoeira e o samba, viraram alvo da repressão estatal.
Na dinâmica psíquica, um conteúdo reprimido não desaparece do aparelho mental: ele se mantém latente, sob o limiar da consciência, influenciando o comportamento do sujeito. Quanto maior a repressão, maior a força do reprimido para voltar à tona, como um zumbi que irrompe do jazigo e retorna para nos assombrar.
Na dinâmica social, a violência do retorno do reprimido também é proporcional à violência da repressão. Continua a alimentar sintomas e repetições de traumas que carecem de elaboração.
Diante da brutalidade do real, a única via de elaboração possível é simbólica. Há que se debater, falar, buscar alternativas à estratégia falida de manter o Estado em guerra contra os cidadãos.
Mas as palavras que circulam no léxico cultural brasileiro, hoje, repetem o léxico bélico do governo de Donald Trump. “Narcoterroristas” são as embarcações abatidas nas costas da Colômbia e da Venezuela, matando dezenas de pessoas. “Narcoterroristas” são as mais de cem pessoas mortas no Rio, por autoridades que cometem um genocídio em troca de vantagens eleitorais em 2026.
É o Novo Velho Oeste, normalizando um bang-bang transfronteiriço, onde mais vale atirar antes de perguntar. E o mundo se torna um lugar mais sangrento para todos nós.
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
Operação Contenção foi caçada humana
Da forma como foi planejado, podia se esperar o pior. Mas foi pior que o esperado.
A realidade, escreveu o saudoso Leonard Cohen, é uma das possibilidades que não podemos nos dar ao luxo de ignorar. Desde as primeiras imagens, sons, cadáveres e testemunhos da Operação Contenção contra criminosos da cúpula do Comando Vermelho entocados nos complexos do Alemão e da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, a realidade é uma só: na terça-feira, 28 de outubro de 2025, o governador Cláudio Castro e as forças policiais envolvidas no planejamento e ação praticaram uma chacina.
— Foi um sucesso — comemorou Castro, antes mesmo do balanço final da caçada humana.
Até a noite de sexta-feira haviam sido computados 121 mortos, entre os quais quatro policiais e 117 “suspeitos” ou “bandidos”, na catalogação oficial.
A operação conseguiu fazer mais mortos do que presos (113), mais mortos do que feridos (15 policiais e quatro moradores), mais mortos do que os 104 palestinos eliminados por Israel em Gaza no mesmo dia. Tudo isso por zelo, visando a poupar os moradores daquele emaranhado de favelas, como proclama a versão oficial, ou por arroubo na execução da habitual “justiça sem julgamento”? O governador garante que tudo foi realizado e é investigado “com transparência absoluta”. Há que concordar com ele em um ponto: dentre todas as chacinas contra bandidos ou inocentes ocorridas no Rio (Acari, Candelária, Jacarezinho, Vila Cruzeiro, para citar apenas as mais infames), a da semana passada foi de fato transparente — ostensivamente transparente no resultado.
— O sentimento e a disposição de uma sociedade em relação ao modo de tratar o crime e os criminosos constituem um dos mais seguros termômetros de civilização de uma nação — advertia Winston Churchill num de seus famosos discursos na Câmara dos Comuns, à época ainda imperial.
— O reconhecimento sereno e imparcial dos direitos de um acusado, ou de um condenado perante o Estado [...], é símbolo que afere a força acumulada de uma pátria —assegurava ele naqueles idos de 1910.
Por esse critério, o Brasil foi, ainda é e levará gerações até sair da barbárie. Segundo levantamento do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminente (Geni/UFF), a Região Metropolitana do Rio somou 707 chacinas na região desde 2007, com 2.865 civis mortos nas ações policiais.
A sofreguidão com que brotaram manifestações políticas de solidariedade a Castro sugere que, na eleição de 2026, o recurso à violência como instrumento de segurança pública terá peso. O resultado de uma primeira pesquisa de opinião encomendada pelo jornal bolsonarista Correio da Manhã, realizada pela Arrow Pesquisas, mostra aprovação à operação policial por 68,8% dos fluminenses, ante 24,4% que desaprovam. Outras pesquisas haverão de atestar se — ou quanto — esse levantamento é ideologicamente enviesado.
Em entrevista a Luiz Fernando Toledo, da BBC, o professor da Universidade de Cambridge Graham Denyer Willis não se declarou surpreso. Autor de “The killing consensus”e “Keep the bones alive” (ambos sem edição em português), o acadêmico estuda a atuação de forças policiais no Brasil.
— Não se trata realmente de uma questão de boa ou má operação policial. Não há nada de novo no Comando Vermelho, nem na polícia violenta, nem no tráfico de drogas, nem na chegada de Castro ao poder. Então, por que agora? Foi uma performance pública de Castro para preencher um vazio na política de direita e atrair Donald Trump, além de se inserir no mapa político nacional e internacional — diz ele.
O salto na visibilidade do governador ocorre poucos dias antes de seu julgamento sob a acusação de abuso de poder político e econômico durante a campanha de 2022. Em tese, uma condenação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido pela ministra Cármen Lúcia, poderia levar à cassação de seu mandato. Apenas em tese, pois o empenho de alguns ministros daquela Corte para julgar o caso nesta terça-feira, como agendado, parece ralo. Um oportuno II Simpósio Internacional de Bruxelas, organizado pelo Instituto de Estudos Jurídicos Aplicados na mesma data, justificará algumas ausências causídicas do país.
Ficará em chão brasileiro o cadáver decapitado de Yago Ravel, de 19 anos, junto aos outros 120 mortos na operação-sucesso do governador.
— Quem disse que foi a polícia que cortou a cabeça? Os criminosos podem ter feito novas lesões nos corpos para chamar a atenção da imprensa — diz Felipe Curi, secretário da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Poder, podem — e é para isso que uma investigação independente e criteriosa se faz necessária.
Podia se esperar o pior. Mas foi pior que o esperado.
A realidade, escreveu o saudoso Leonard Cohen, é uma das possibilidades que não podemos nos dar ao luxo de ignorar. Desde as primeiras imagens, sons, cadáveres e testemunhos da Operação Contenção contra criminosos da cúpula do Comando Vermelho entocados nos complexos do Alemão e da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, a realidade é uma só: na terça-feira, 28 de outubro de 2025, o governador Cláudio Castro e as forças policiais envolvidas no planejamento e ação praticaram uma chacina.
— Foi um sucesso — comemorou Castro, antes mesmo do balanço final da caçada humana.
Até a noite de sexta-feira haviam sido computados 121 mortos, entre os quais quatro policiais e 117 “suspeitos” ou “bandidos”, na catalogação oficial.
A operação conseguiu fazer mais mortos do que presos (113), mais mortos do que feridos (15 policiais e quatro moradores), mais mortos do que os 104 palestinos eliminados por Israel em Gaza no mesmo dia. Tudo isso por zelo, visando a poupar os moradores daquele emaranhado de favelas, como proclama a versão oficial, ou por arroubo na execução da habitual “justiça sem julgamento”? O governador garante que tudo foi realizado e é investigado “com transparência absoluta”. Há que concordar com ele em um ponto: dentre todas as chacinas contra bandidos ou inocentes ocorridas no Rio (Acari, Candelária, Jacarezinho, Vila Cruzeiro, para citar apenas as mais infames), a da semana passada foi de fato transparente — ostensivamente transparente no resultado.
— O sentimento e a disposição de uma sociedade em relação ao modo de tratar o crime e os criminosos constituem um dos mais seguros termômetros de civilização de uma nação — advertia Winston Churchill num de seus famosos discursos na Câmara dos Comuns, à época ainda imperial.
— O reconhecimento sereno e imparcial dos direitos de um acusado, ou de um condenado perante o Estado [...], é símbolo que afere a força acumulada de uma pátria —assegurava ele naqueles idos de 1910.
Por esse critério, o Brasil foi, ainda é e levará gerações até sair da barbárie. Segundo levantamento do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminente (Geni/UFF), a Região Metropolitana do Rio somou 707 chacinas na região desde 2007, com 2.865 civis mortos nas ações policiais.
A sofreguidão com que brotaram manifestações políticas de solidariedade a Castro sugere que, na eleição de 2026, o recurso à violência como instrumento de segurança pública terá peso. O resultado de uma primeira pesquisa de opinião encomendada pelo jornal bolsonarista Correio da Manhã, realizada pela Arrow Pesquisas, mostra aprovação à operação policial por 68,8% dos fluminenses, ante 24,4% que desaprovam. Outras pesquisas haverão de atestar se — ou quanto — esse levantamento é ideologicamente enviesado.
Em entrevista a Luiz Fernando Toledo, da BBC, o professor da Universidade de Cambridge Graham Denyer Willis não se declarou surpreso. Autor de “The killing consensus”e “Keep the bones alive” (ambos sem edição em português), o acadêmico estuda a atuação de forças policiais no Brasil.
— Não se trata realmente de uma questão de boa ou má operação policial. Não há nada de novo no Comando Vermelho, nem na polícia violenta, nem no tráfico de drogas, nem na chegada de Castro ao poder. Então, por que agora? Foi uma performance pública de Castro para preencher um vazio na política de direita e atrair Donald Trump, além de se inserir no mapa político nacional e internacional — diz ele.
O salto na visibilidade do governador ocorre poucos dias antes de seu julgamento sob a acusação de abuso de poder político e econômico durante a campanha de 2022. Em tese, uma condenação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido pela ministra Cármen Lúcia, poderia levar à cassação de seu mandato. Apenas em tese, pois o empenho de alguns ministros daquela Corte para julgar o caso nesta terça-feira, como agendado, parece ralo. Um oportuno II Simpósio Internacional de Bruxelas, organizado pelo Instituto de Estudos Jurídicos Aplicados na mesma data, justificará algumas ausências causídicas do país.
Ficará em chão brasileiro o cadáver decapitado de Yago Ravel, de 19 anos, junto aos outros 120 mortos na operação-sucesso do governador.
— Quem disse que foi a polícia que cortou a cabeça? Os criminosos podem ter feito novas lesões nos corpos para chamar a atenção da imprensa — diz Felipe Curi, secretário da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Poder, podem — e é para isso que uma investigação independente e criteriosa se faz necessária.
Podia se esperar o pior. Mas foi pior que o esperado.
Bogotá, um exemplo de desenvolvimento urbano para o mundo?
Após uma década, o Dia Mundial das Cidades retornou à América Latina. A capital colombiana foi escolhida pelas Nações Unidas (ONU) para sediar o evento mais importante para a reflexão sobre o futuro do urbanismo.
“É muito importante que a América Latina, por meio do que faz em suas cidades, possa se projetar para o mundo e aproveitar isso para um diálogo intercultural produtivo e fraterno, mas que também traga resultados concretos em termos de recursos, ideias e transformações”, disse Elkin Velásquez, diretor regional para a América Latina e o Caribe do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat).
Além da visibilidade internacional que pode facilitar a cooperação entre cidades da região e de outros continentes, como Europa, África e Ásia, Velásquez destaca outros benefícios de sediar o evento. "Há um reconhecimento global do que Bogotá, Colômbia e América Latina estão fazendo", afirma, bem como valiosas lições aprendidas, "porque o Dia Mundial das Cidades reúne experiências concretas em um local específico."
Para Vanessa Velasco, Secretária de Habitat de Bogotá, "este evento representou uma oportunidade para o mundo olhar para Bogotá e reconhecer as transformações que estão ocorrendo na cidade em múltiplas frentes", apontando o desenvolvimento urbano e a habitação como os motores da mudança.
O evento também serviu como ponto de encontro para o setor público, o setor privado, o setor bancário e os cidadãos, onde alianças puderam ser forjadas e "a possibilidade de explorar mecanismos de financiamento alternativos e inovadores que promovam esse desenvolvimento" foi analisada, disse Velasco.
Com quase oito milhões de habitantes, Bogotá, assim como outras grandes cidades do mundo, enfrenta desafios globais como a escassez de moradias, a desigualdade e a pressão sobre a terra. Apesar disso, a capital colombiana estabeleceu metas ambiciosas para o futuro.
"A cidade definiu um plano de ação climática que orienta as estratégias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, com o objetivo de reduzi-las pela metade até 2035 e alcançar a neutralidade de carbono", destaca Velasco.
"Estamos avançando com políticas importantes, como ter a frota elétrica mais limpa da América Latina, promover estratégias de conservação e renaturalização em áreas de risco e implementar projetos baseados na natureza para tornar os centros urbanos mais verdes", explica o funcionário.
"Bogotá está liderando um importante projeto de restauração ambiental em suas colinas orientais, o pulmão verde da cidade, após os 42 hectares afetados por incêndios florestais no ano passado", disse Helène Julien, diretora adjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento para a Colômbia.
A iniciativa, promovida pelo Ministério do Meio Ambiente, visa restaurar ecologicamente 1.300 hectares até 2027. "Trata-se de manter algumas plantações existentes, mas também e sobretudo de plantar novas espécies, mais adaptadas às mudanças climáticas", explica Julien, lembrando que 487 hectares foram restaurados no ano passado.
Para realizar essa restauração, "apoiamos a prefeitura com assistência técnica, bem como com o gerenciamento e controle de espécies exóticas invasoras que aumentam a vulnerabilidade ao risco de desastres", acrescenta ele.
No ano passado, a capital colombiana sofreu os piores efeitos da crise climática com uma seca prolongada. "Surgiu uma situação crítica no abastecimento de água, levando à reflexão sobre como tornar a cidade viável nos próximos anos", lembra Velasco. Entre as medidas em consideração está a intervenção em 170 mil hectares de bacias hidrográficas estratégicas para garantir o abastecimento de água.
Velásquez alerta que o caso de Bogotá não é único, mas sim que "está ocorrendo com frequência crescente: a crise hídrica em Montevidéu há alguns anos, a crise hídrica no vale da Cidade do México ou em cidades do norte do México, como Monterrey, as crises hídricas ou o estresse hídrico em cidades como Mendoza e nos Andes argentinos".
A Secretária de Habitação de Bogotá enfatiza que, para enfrentar essa crise, foi implementada uma estratégia de racionamento e consumo responsável com a participação de todos os setores. Da mesma forma, "foram implementadas soluções de engenharia para recuperar água de diferentes fontes e, além disso, utilizá-la de forma mais eficiente", acrescenta Velásquez, apontando para a reciclagem de água e o uso inteligente da água da chuva.
No ano passado, a cidade enfrentou o maior volume de chuvas em três décadas. "A Secretaria de Habitação está implementando soluções baseadas na natureza, como os Sistemas Urbanos de Drenagem Sustentável (SUDS), em 20 zonas de revitalização, que representam um quarto da área urbana de Bogotá", explica Velasco.
Essa ação, que busca dotar a cidade de uma infraestrutura verde que se adapte aos desafios das mudanças climáticas, faz parte da estratégia Revitalize Your Neighborhood (Revitalize Seu Bairro) , que visa levar moradia, espaço público e transporte para áreas carentes.
"Atualmente, a cidade está avançando em corredores como San Cristóbal e Potosí, fortalecendo a conexão com áreas de difícil acesso", explica o Secretário de Habitação de Bogotá, lembrando que os cabos aéreos complementarão a primeira linha de metrô, que está em construção.
“É muito importante que a América Latina, por meio do que faz em suas cidades, possa se projetar para o mundo e aproveitar isso para um diálogo intercultural produtivo e fraterno, mas que também traga resultados concretos em termos de recursos, ideias e transformações”, disse Elkin Velásquez, diretor regional para a América Latina e o Caribe do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat).
Além da visibilidade internacional que pode facilitar a cooperação entre cidades da região e de outros continentes, como Europa, África e Ásia, Velásquez destaca outros benefícios de sediar o evento. "Há um reconhecimento global do que Bogotá, Colômbia e América Latina estão fazendo", afirma, bem como valiosas lições aprendidas, "porque o Dia Mundial das Cidades reúne experiências concretas em um local específico."
Para Vanessa Velasco, Secretária de Habitat de Bogotá, "este evento representou uma oportunidade para o mundo olhar para Bogotá e reconhecer as transformações que estão ocorrendo na cidade em múltiplas frentes", apontando o desenvolvimento urbano e a habitação como os motores da mudança.
O evento também serviu como ponto de encontro para o setor público, o setor privado, o setor bancário e os cidadãos, onde alianças puderam ser forjadas e "a possibilidade de explorar mecanismos de financiamento alternativos e inovadores que promovam esse desenvolvimento" foi analisada, disse Velasco.
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| Bogotá recuperou 142 mil metros quadrados de espaço público |
Com quase oito milhões de habitantes, Bogotá, assim como outras grandes cidades do mundo, enfrenta desafios globais como a escassez de moradias, a desigualdade e a pressão sobre a terra. Apesar disso, a capital colombiana estabeleceu metas ambiciosas para o futuro.
"A cidade definiu um plano de ação climática que orienta as estratégias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, com o objetivo de reduzi-las pela metade até 2035 e alcançar a neutralidade de carbono", destaca Velasco.
"Estamos avançando com políticas importantes, como ter a frota elétrica mais limpa da América Latina, promover estratégias de conservação e renaturalização em áreas de risco e implementar projetos baseados na natureza para tornar os centros urbanos mais verdes", explica o funcionário.
"Bogotá está liderando um importante projeto de restauração ambiental em suas colinas orientais, o pulmão verde da cidade, após os 42 hectares afetados por incêndios florestais no ano passado", disse Helène Julien, diretora adjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento para a Colômbia.
A iniciativa, promovida pelo Ministério do Meio Ambiente, visa restaurar ecologicamente 1.300 hectares até 2027. "Trata-se de manter algumas plantações existentes, mas também e sobretudo de plantar novas espécies, mais adaptadas às mudanças climáticas", explica Julien, lembrando que 487 hectares foram restaurados no ano passado.
Para realizar essa restauração, "apoiamos a prefeitura com assistência técnica, bem como com o gerenciamento e controle de espécies exóticas invasoras que aumentam a vulnerabilidade ao risco de desastres", acrescenta ele.
No ano passado, a capital colombiana sofreu os piores efeitos da crise climática com uma seca prolongada. "Surgiu uma situação crítica no abastecimento de água, levando à reflexão sobre como tornar a cidade viável nos próximos anos", lembra Velasco. Entre as medidas em consideração está a intervenção em 170 mil hectares de bacias hidrográficas estratégicas para garantir o abastecimento de água.
Velásquez alerta que o caso de Bogotá não é único, mas sim que "está ocorrendo com frequência crescente: a crise hídrica em Montevidéu há alguns anos, a crise hídrica no vale da Cidade do México ou em cidades do norte do México, como Monterrey, as crises hídricas ou o estresse hídrico em cidades como Mendoza e nos Andes argentinos".
A Secretária de Habitação de Bogotá enfatiza que, para enfrentar essa crise, foi implementada uma estratégia de racionamento e consumo responsável com a participação de todos os setores. Da mesma forma, "foram implementadas soluções de engenharia para recuperar água de diferentes fontes e, além disso, utilizá-la de forma mais eficiente", acrescenta Velásquez, apontando para a reciclagem de água e o uso inteligente da água da chuva.
No ano passado, a cidade enfrentou o maior volume de chuvas em três décadas. "A Secretaria de Habitação está implementando soluções baseadas na natureza, como os Sistemas Urbanos de Drenagem Sustentável (SUDS), em 20 zonas de revitalização, que representam um quarto da área urbana de Bogotá", explica Velasco.
Essa ação, que busca dotar a cidade de uma infraestrutura verde que se adapte aos desafios das mudanças climáticas, faz parte da estratégia Revitalize Your Neighborhood (Revitalize Seu Bairro) , que visa levar moradia, espaço público e transporte para áreas carentes.
"Atualmente, a cidade está avançando em corredores como San Cristóbal e Potosí, fortalecendo a conexão com áreas de difícil acesso", explica o Secretário de Habitação de Bogotá, lembrando que os cabos aéreos complementarão a primeira linha de metrô, que está em construção.
Rio de Janeiro, um Estado serial killer
O governador Cláudio Castro (PL) estava certo ao dizer, antes mesmo do final da caçada humana da última terça-feira no Complexo do Alemão e da Penha, no Rio, que a “mega” operação policial, fora um sucesso. Naquele dia, deu-se conta da morte de 64 pessoas. No dia seguinte, a conta fechou em 121.
Das 5 maiores chacinas da história do Rio, quatro carregam as digitais de Castro. Foram realizadas sobre seu comando e com a sua autorização. A mais recente foi também a maior chacina da história recente do Brasil, superando a de 1992 no Carandiru, a Casa de Detenção de São Paulo, onde a polícia matou 111 presos.
Castro aprendeu que o sentimento de medo em um Estado campeão de mortes serve para justificar execuções extrajudiciais. Segundo observou a jornalista Dorrit Harazim, a chamada “Operação Contenção” fez mais mortos do que presos (113) e mais mortos do que feridos (15 policiais e quatro moradores).
Por sinal, fez mais mortos do que os 104 palestinos eliminados por Israel naquele mesmo dia. Sim, Donald Trump diz ter patrocinado um acordo de paz em Gaza. O que existe lá é um cessar-fogo violado dia sim, dia não por Israel. A guerra entre Israel e o grupo Hamas já custou a vida de 70 mil palestinos em dois anos.
Castro invadiu o Alemão e o complexo da Penha para, a mando da Justiça, prender 100 criminosos do Comando Vermelho, organização que já domina mais de 50% da área metropolitana do Rio. Dos 100, prendeu 20. Dos mais de 100 que morreram, nenhum estava na lista de pessoas que a polícia de Castro foi lá prender.
Um fracasso? Se levado em conta o objetivo oficial da operação, um fracasso de grandes dimensões. Se levado em conta o oculto, o fortalecimento político de Castro, um sucesso. Aumentou a aprovação popular do governo. Castro passou a ser aplaudido em igrejas. Sua candidatura ao Senado tornou-se possível.
A direita bolsonarista, e a outra que se apresenta como civilizada, voltaram a sonhar com a derrota de Lula em 2026. Só lhes faltam, porém, duas coisas: um candidato capaz de enfrentar o desafio com chances reais de vencer; e a unidade entre elas. As duas coisas dependerão também do insucesso de Lula daqui para frente.
Quanto ao avanço territorial no Rio do crime organizado: as chacinas anteriores não o detiveram. Não será essa última que o deterá. O Rio continua lindo, mas mantém a condição de capital do medo. Se tiro, pancada e bomba resolvessem, o Rio reconquistaria o título de cidade maravilhosa, orgulho dos seus moradores.
Estamos muito longe disso, infelizmente.
Das 5 maiores chacinas da história do Rio, quatro carregam as digitais de Castro. Foram realizadas sobre seu comando e com a sua autorização. A mais recente foi também a maior chacina da história recente do Brasil, superando a de 1992 no Carandiru, a Casa de Detenção de São Paulo, onde a polícia matou 111 presos.
Castro aprendeu que o sentimento de medo em um Estado campeão de mortes serve para justificar execuções extrajudiciais. Segundo observou a jornalista Dorrit Harazim, a chamada “Operação Contenção” fez mais mortos do que presos (113) e mais mortos do que feridos (15 policiais e quatro moradores).
Por sinal, fez mais mortos do que os 104 palestinos eliminados por Israel naquele mesmo dia. Sim, Donald Trump diz ter patrocinado um acordo de paz em Gaza. O que existe lá é um cessar-fogo violado dia sim, dia não por Israel. A guerra entre Israel e o grupo Hamas já custou a vida de 70 mil palestinos em dois anos.
Castro invadiu o Alemão e o complexo da Penha para, a mando da Justiça, prender 100 criminosos do Comando Vermelho, organização que já domina mais de 50% da área metropolitana do Rio. Dos 100, prendeu 20. Dos mais de 100 que morreram, nenhum estava na lista de pessoas que a polícia de Castro foi lá prender.
Um fracasso? Se levado em conta o objetivo oficial da operação, um fracasso de grandes dimensões. Se levado em conta o oculto, o fortalecimento político de Castro, um sucesso. Aumentou a aprovação popular do governo. Castro passou a ser aplaudido em igrejas. Sua candidatura ao Senado tornou-se possível.
A direita bolsonarista, e a outra que se apresenta como civilizada, voltaram a sonhar com a derrota de Lula em 2026. Só lhes faltam, porém, duas coisas: um candidato capaz de enfrentar o desafio com chances reais de vencer; e a unidade entre elas. As duas coisas dependerão também do insucesso de Lula daqui para frente.
Quanto ao avanço territorial no Rio do crime organizado: as chacinas anteriores não o detiveram. Não será essa última que o deterá. O Rio continua lindo, mas mantém a condição de capital do medo. Se tiro, pancada e bomba resolvessem, o Rio reconquistaria o título de cidade maravilhosa, orgulho dos seus moradores.
Estamos muito longe disso, infelizmente.
Quem lê tanta notícia?
“O Sol na banca de revista, me encha de alegria e preguiça, quem lê tanta noticia? “
Pois é, assim falava Caetano Veloso em Alegria, alegria. As bancas de revista que hoje viraram mercadinhos exibiam não só revistas como jornais cheios de notícias. E as pessoas se juntavam na frente para ler enquanto esperavam o bonde. Nostalgias à parte, eram outros tempos. É certo também que o povo lia mais as manchetes, muitas vezes escandalosas e exageradas. Quem tinha dinheiro para comprar jornal? O povão comprava quando dava jornais que faziam o sangue escorrer. Mas a banca cheia de gente era festa. Muitas fotos ilustram esse hábito brasileiro que se perdeu. Aliás, as coisas coletivas se perderam e quando o povo se junta, o que é raro, é para manifestar algum desejo muito forte.
Isso hoje em dia está sendo feito nas redes sociais. Depois que inventaram o celular e com ele as big- techs, a vida mudou. As pessoas andam com o celular diante dos olhos como se a tela substituísse a realidade. Um pouco elas já fazem isso. A realidade pode ser moldada ao bel prazer do comunicador. A mentira está aí para isso. Levar a população a pensar de um jeito que favoreça aquele pensamento, usando mentiras ou verdades.
Todo mundo tem um celular. O último censo feito mostrava que havia mais celular do que gente no Brasil. Em todo lugar todo mundo está diante de um celular. Na rua caminhando, na bicicleta trabalhando, na academia malhando, todos usam o celular e é sempre muito mais para ver alguma coisa do que para se comunicar. A solidão de outros tempos se foi. Hoje você tem “amigos” virtuais e pode ficar sabendo da vida de todos sem precisar ler um jornal. Claro que isso trouxe uma sensação de democratização da comunicação. Ao mesmo tempo um perigo de que aquelas mentiras que falamos possam se difundir e mudar a realidade como até já vimos acontecer.
Um estudo e uma regulamentação são importantes e fundamentais. Esse acesso ao que todos dizem é importante, mas ao mesmo tempo uma ideia de liberdade de expressão precisa de regras. Primeiro que uns comunicam mais do que outros, tem mais verba e atropelam o processo. Depois é preciso que se diga que qualquer associação precisa de regulamentação. Casamento precisa, futebol precisa, enfim, seguindo as regras, ou os limites, tudo é possível. Sua liberdade vai até onde começa a do seu vizinho, já dizia aquele azulejo velho da casa demolida.
É certo também que o povo fica vendo foto, lendo fofoca, jogando e trocando mensagens na maioria dos casos. Mas também é alvo da informação mal intencionada. Essa precisa ser pensada, não sei como, mas a imagem do povo na frente da banca não me sai da cabeça. Todo mundo podia ler tudo o que era permitido expor ali. A ideia de liberdade de expressão americana, por exemplo, é uma ilusão. É feita para os brancos, ricos e na maioria, protestantes. Os negros, os pobres, os grupos segregados não chegam nem perto. Aí reside o problema. O celular reproduz a sociedade que vivemos e tenta mantê-la viva. Se conseguirmos mudar a sociedade, torna-la mais justa talvez consigamos mudar também os celulares. Quem sabe? Vale a pena tentar. Tenho que parar. Meu celular apitou.
Pois é, assim falava Caetano Veloso em Alegria, alegria. As bancas de revista que hoje viraram mercadinhos exibiam não só revistas como jornais cheios de notícias. E as pessoas se juntavam na frente para ler enquanto esperavam o bonde. Nostalgias à parte, eram outros tempos. É certo também que o povo lia mais as manchetes, muitas vezes escandalosas e exageradas. Quem tinha dinheiro para comprar jornal? O povão comprava quando dava jornais que faziam o sangue escorrer. Mas a banca cheia de gente era festa. Muitas fotos ilustram esse hábito brasileiro que se perdeu. Aliás, as coisas coletivas se perderam e quando o povo se junta, o que é raro, é para manifestar algum desejo muito forte.
Isso hoje em dia está sendo feito nas redes sociais. Depois que inventaram o celular e com ele as big- techs, a vida mudou. As pessoas andam com o celular diante dos olhos como se a tela substituísse a realidade. Um pouco elas já fazem isso. A realidade pode ser moldada ao bel prazer do comunicador. A mentira está aí para isso. Levar a população a pensar de um jeito que favoreça aquele pensamento, usando mentiras ou verdades.
Todo mundo tem um celular. O último censo feito mostrava que havia mais celular do que gente no Brasil. Em todo lugar todo mundo está diante de um celular. Na rua caminhando, na bicicleta trabalhando, na academia malhando, todos usam o celular e é sempre muito mais para ver alguma coisa do que para se comunicar. A solidão de outros tempos se foi. Hoje você tem “amigos” virtuais e pode ficar sabendo da vida de todos sem precisar ler um jornal. Claro que isso trouxe uma sensação de democratização da comunicação. Ao mesmo tempo um perigo de que aquelas mentiras que falamos possam se difundir e mudar a realidade como até já vimos acontecer.
Um estudo e uma regulamentação são importantes e fundamentais. Esse acesso ao que todos dizem é importante, mas ao mesmo tempo uma ideia de liberdade de expressão precisa de regras. Primeiro que uns comunicam mais do que outros, tem mais verba e atropelam o processo. Depois é preciso que se diga que qualquer associação precisa de regulamentação. Casamento precisa, futebol precisa, enfim, seguindo as regras, ou os limites, tudo é possível. Sua liberdade vai até onde começa a do seu vizinho, já dizia aquele azulejo velho da casa demolida.
É certo também que o povo fica vendo foto, lendo fofoca, jogando e trocando mensagens na maioria dos casos. Mas também é alvo da informação mal intencionada. Essa precisa ser pensada, não sei como, mas a imagem do povo na frente da banca não me sai da cabeça. Todo mundo podia ler tudo o que era permitido expor ali. A ideia de liberdade de expressão americana, por exemplo, é uma ilusão. É feita para os brancos, ricos e na maioria, protestantes. Os negros, os pobres, os grupos segregados não chegam nem perto. Aí reside o problema. O celular reproduz a sociedade que vivemos e tenta mantê-la viva. Se conseguirmos mudar a sociedade, torna-la mais justa talvez consigamos mudar também os celulares. Quem sabe? Vale a pena tentar. Tenho que parar. Meu celular apitou.
A arte de conversar
Um convite para tomar um café é um convite a conversar. Na Europa, as coffee houses remontam ao século XVII. Surgiram em Inglaterra, quando os viajantes introduziram o café como bebida. Foram o berço do Iluminismo, espaços de conversa civilizada, onde todos eram admitidos, independentemente da classe social. Distinguiam-se das tabernas, onde se vendia álcool e onde eram frequentes os desacatos. Locais de partilha e de discussão de notícias, eram conhecidos como as penny universities, um espaço alternativo de aprendizagem, onde quem tinha um penny para pagar o café era admitido e onde a distinção resultava do domínio da arte de conversar.
Hoje desaprendemos de conversar. Conversar implica tempo e um genuíno interesse de escutar o outro. Nem sempre é fácil… Por vezes, discordamos ou perdemos interesse, e nesse momento é mais fácil pegar no omnipresente smartphone, e consultar emails e redes sociais. Um shot de dopamina. A sua mera presença, mesmo desligado, mas no nosso campo de visão, já nos desconcerta… Como fazer uma confidência ou partilhar uma preocupação, se é iminente a interrupção? O diálogo foca-se no mundano. Estamos destreinados. Constantemente interrompidos, temos dificuldade em nos concentrarmos numa única tarefa, promovemos e desejamos o multitasking. Estejamos no parque infantil, em casa a preparar o jantar ou no escritório a rever um documento, o telefone está lá, e com ele a nossa atenção dividida.
Subestimamos o poder de uma máquina desenhada para capturar e manter a nossa atenção, e quando nos sentimos isolados recorremos a uma app de meditação ou de companhia. O ChatGPT tem sempre uma palavrinha certa e esquecemos que é uma máquina. Que não tem corpo, não adoece, não morre. Não pode, por isso, compreender as nossas ansiedades enquanto seres humanos. Apesar de tão eloquente, as suas interações não são verdadeiras, mas simulacros.
Embora estejamos neurologicamente aptos à nascença para aprender a falar, conversar envolve uma aprendizagem. Tal acontece, primeiro, na família. É nesse espaço que a criança é destinatária de atenção, compreende o impacto das palavras, como podem transmitir alegria ou causar dor. Mas se o adulto não olha a criança nos olhos, se usa o ecrã como um cuidador substituto, se é o primeiro a desrespeitar a regra de que “à mesa não há telefones”, como educar para a empatia?
Sem ferramentas sociais básicas, que deveriam ser apreendidas no ambiente seguro da família, não surpreende que na escola crianças e adolescentes prefiram os telemóveis e, ao invés de conversarem sobre o que sentem, gostam ou pensam, prefiram falar sobre o que está no seu ecrã. Tornam-se exímios na arte de aperfeiçoar o seu “avatar” nas redes sociais. Estas não são um diário, onde aprendem a falar com o seu eu interior, mas um registo “editado” do seu dia a dia. Uma “exposição”, como num museu, para o seu público, os seus seguidores, os seus “amigos online”. Nos adultos, a forma superior desta “curadoria de exposição” é o LinkedIn, onde somos todos o perfeito profissional.
Peritos em selecionar imagens e escrever textos curtos, optamos por trocar mensagens escritas. Mesmo no trabalho, evitamos o contacto humano. Esgrimimos emails.
Ao reconhecermos a nossa vulnerabilidade perante o poder desta maquineta que nos cabe no bolso, e perante a constatação de que o legislador tarda em intervir, estamos em condições de agir no nosso círculo social. Em família, assegurando espaços e horas livres de smartphones e portáteis. No trabalho, criando um pequeno espaço físico acolhedor, seja para uma refeição leve ou um café, onde procuramos conhecer os nossos colegas. Nos liceus e universidades, devotando um dos cafés/cafetarias a um espaço sem telefones. Precisamos de espaços físicos para conversar. Vamos tomar um café?
Hoje desaprendemos de conversar. Conversar implica tempo e um genuíno interesse de escutar o outro. Nem sempre é fácil… Por vezes, discordamos ou perdemos interesse, e nesse momento é mais fácil pegar no omnipresente smartphone, e consultar emails e redes sociais. Um shot de dopamina. A sua mera presença, mesmo desligado, mas no nosso campo de visão, já nos desconcerta… Como fazer uma confidência ou partilhar uma preocupação, se é iminente a interrupção? O diálogo foca-se no mundano. Estamos destreinados. Constantemente interrompidos, temos dificuldade em nos concentrarmos numa única tarefa, promovemos e desejamos o multitasking. Estejamos no parque infantil, em casa a preparar o jantar ou no escritório a rever um documento, o telefone está lá, e com ele a nossa atenção dividida.
Subestimamos o poder de uma máquina desenhada para capturar e manter a nossa atenção, e quando nos sentimos isolados recorremos a uma app de meditação ou de companhia. O ChatGPT tem sempre uma palavrinha certa e esquecemos que é uma máquina. Que não tem corpo, não adoece, não morre. Não pode, por isso, compreender as nossas ansiedades enquanto seres humanos. Apesar de tão eloquente, as suas interações não são verdadeiras, mas simulacros.
Embora estejamos neurologicamente aptos à nascença para aprender a falar, conversar envolve uma aprendizagem. Tal acontece, primeiro, na família. É nesse espaço que a criança é destinatária de atenção, compreende o impacto das palavras, como podem transmitir alegria ou causar dor. Mas se o adulto não olha a criança nos olhos, se usa o ecrã como um cuidador substituto, se é o primeiro a desrespeitar a regra de que “à mesa não há telefones”, como educar para a empatia?
Sem ferramentas sociais básicas, que deveriam ser apreendidas no ambiente seguro da família, não surpreende que na escola crianças e adolescentes prefiram os telemóveis e, ao invés de conversarem sobre o que sentem, gostam ou pensam, prefiram falar sobre o que está no seu ecrã. Tornam-se exímios na arte de aperfeiçoar o seu “avatar” nas redes sociais. Estas não são um diário, onde aprendem a falar com o seu eu interior, mas um registo “editado” do seu dia a dia. Uma “exposição”, como num museu, para o seu público, os seus seguidores, os seus “amigos online”. Nos adultos, a forma superior desta “curadoria de exposição” é o LinkedIn, onde somos todos o perfeito profissional.
Peritos em selecionar imagens e escrever textos curtos, optamos por trocar mensagens escritas. Mesmo no trabalho, evitamos o contacto humano. Esgrimimos emails.
Ao reconhecermos a nossa vulnerabilidade perante o poder desta maquineta que nos cabe no bolso, e perante a constatação de que o legislador tarda em intervir, estamos em condições de agir no nosso círculo social. Em família, assegurando espaços e horas livres de smartphones e portáteis. No trabalho, criando um pequeno espaço físico acolhedor, seja para uma refeição leve ou um café, onde procuramos conhecer os nossos colegas. Nos liceus e universidades, devotando um dos cafés/cafetarias a um espaço sem telefones. Precisamos de espaços físicos para conversar. Vamos tomar um café?
Facções eleitorais
Quase todo brasileiro é técnico de futebol. Há outras expertises nacionais. Somos curandeiros de plantão, com dicas medicinais infalíveis, experts em moralismos baratos, imbatíveis nos pitacos para levar vantagem em tudo. Desde a terça-feira passada, nos tornamos peritos em segurança pública, detentores de respostas precisas para salvar os milhões de cidadãos reféns de facções e milícias. Tudo a revelar que ninguém sabe, de fato, o que fazer para enfrentar o crime cada vez mais organizado.
Entre o digladio ideológico e populista de esquerda e direita, só uma coisa é certa: a falência do Estado e a falta de disposição política para buscar saídas.
Sem entrar no mérito da megaoperação do governo do Rio nos complexos do Alemão e Penha (que condeno na forma e no resultado, mas não me sinto apta para criticar ou elogiar por não me incluir entre os especialistas da vez), as cenas de guerra civil e de corpos enfileirados na rua são de arrepiar. E a elas se somam ao escárnio de políticos que transformam o medo da população em moeda eleitoral. É disso que se trata o tal “Consórcio da Paz”.
Proposta pelos governadores de direita – Tarcísio de Freitas (SP), Ibaneis Rocha (DF, representado pela vice Celina Leão), Eduardo Reidel (MS), Jorginho Mello (SC), Ronaldo Caiado (Goiás), Romeu Zema (Minas) -, os três últimos presentes a uma reunião em apoio ao governador do Rio, Claudio Castro, a ideia é que esses estados troquem dados, experiência e até reforços no combate às facções. Ao mesmo tempo, eles se negam peremptoriamente a apoiar a PEC do governo federal que prevê a integração de forças para o combate do crime organizado. E o fazem mesmo depois de o governo Lula abrir mão de coordenar as ações, o que era tido por eles como tentativa de interferir na autonomia dos Estados. Ou seja, preferem fazer campanha eleitoral.
Facções criminosas e milícias não surgiram da noite para o dia. Crescem em progressão geométrica. Estão no Norte e no Nordeste, alcançaram o Sul e Centro-Oeste e há anos fazem festa no Sudeste. Mas só viram emergência quando os políticos precisam. Agora não foi diferente.
Sem exceção, todos à direita, que até então se via aprisionada ao ex inelegível e condenado Jair Bolsonaro, viram na guerra do Rio a chance de sair das cordas. E agem com exagero. Chegam, como Caiado, candidato ao posto de Lula, a defender a matança. “O que o secretário de Segurança e as polícias conseguiram no Rio é algo inédito e tem que ser aplaudido”, comemora o goiano. Acusam o governo central pelo crescimento da violência com a qual convivem (e nada fazem) há tempos, seja no Rio ou nos demais estados em que as facções atuam.
Entre os governistas reina a confusão. Parte lamenta o atraso no envio do projeto antifacção, pronto há mais de três meses e só assinado sexta-feira pelo presidente. Outra corrente insiste na visão exclusiva de desrespeito aos direitos humanos, facilitando que opositores os tachem como defensores de bandidos. Lula, que há poucos dias enveredou-se pela absurda frase de que traficantes eram vítimas de usuários, está calado. Só fala por escrito.
Nas redes, os defensores do governo tentam levantar a bola com exemplos das ações da Polícia Federal, que desbaratou operações do PCC paulista sem dar um único tiro. É fato louvável. Mas não tem o condão de fazer frente à rendição das populações pobres sob jugo de criminosos. Que veem seus filhos sendo cooptados por traficantes, que pagam mais caro por gás, internet e alimentos, que não podem nem mesmo ir e vir sem autorização prévia. Nada disso se resolve com novas leis.
Há mérito na lei que amplia penas de integrantes de facções, mas isso pouco vale quando o país inteiro sabe que o Código Penal existente não é cumprido. Nesse quesito, a Justiça fica muito mal na fita. Dos 121 mortos na terça-feira de horror do Rio, 78 tinham “histórico criminal relevante”, incluindo crimes hediondos. Pergunta-se: por que estavam soltos?
A terrível conclusão – novamente sem entrar no mérito da operação – é que não há mocinho nessa história. O crime organizado se alimenta do desinteresse e inoperância das instituições, enquanto políticos, como facções eleitorais, utilizam a criminalidade para turbinar suas campanhas. Os milhares de reféns nas comunidades do Rio e em tantos lugares esquecidos do Brasil que se danem. De um lado e do outro da rinha política eles são só números, estatísticas… e votos.
Entre o digladio ideológico e populista de esquerda e direita, só uma coisa é certa: a falência do Estado e a falta de disposição política para buscar saídas.
Sem entrar no mérito da megaoperação do governo do Rio nos complexos do Alemão e Penha (que condeno na forma e no resultado, mas não me sinto apta para criticar ou elogiar por não me incluir entre os especialistas da vez), as cenas de guerra civil e de corpos enfileirados na rua são de arrepiar. E a elas se somam ao escárnio de políticos que transformam o medo da população em moeda eleitoral. É disso que se trata o tal “Consórcio da Paz”.
Proposta pelos governadores de direita – Tarcísio de Freitas (SP), Ibaneis Rocha (DF, representado pela vice Celina Leão), Eduardo Reidel (MS), Jorginho Mello (SC), Ronaldo Caiado (Goiás), Romeu Zema (Minas) -, os três últimos presentes a uma reunião em apoio ao governador do Rio, Claudio Castro, a ideia é que esses estados troquem dados, experiência e até reforços no combate às facções. Ao mesmo tempo, eles se negam peremptoriamente a apoiar a PEC do governo federal que prevê a integração de forças para o combate do crime organizado. E o fazem mesmo depois de o governo Lula abrir mão de coordenar as ações, o que era tido por eles como tentativa de interferir na autonomia dos Estados. Ou seja, preferem fazer campanha eleitoral.
Facções criminosas e milícias não surgiram da noite para o dia. Crescem em progressão geométrica. Estão no Norte e no Nordeste, alcançaram o Sul e Centro-Oeste e há anos fazem festa no Sudeste. Mas só viram emergência quando os políticos precisam. Agora não foi diferente.
Sem exceção, todos à direita, que até então se via aprisionada ao ex inelegível e condenado Jair Bolsonaro, viram na guerra do Rio a chance de sair das cordas. E agem com exagero. Chegam, como Caiado, candidato ao posto de Lula, a defender a matança. “O que o secretário de Segurança e as polícias conseguiram no Rio é algo inédito e tem que ser aplaudido”, comemora o goiano. Acusam o governo central pelo crescimento da violência com a qual convivem (e nada fazem) há tempos, seja no Rio ou nos demais estados em que as facções atuam.
Entre os governistas reina a confusão. Parte lamenta o atraso no envio do projeto antifacção, pronto há mais de três meses e só assinado sexta-feira pelo presidente. Outra corrente insiste na visão exclusiva de desrespeito aos direitos humanos, facilitando que opositores os tachem como defensores de bandidos. Lula, que há poucos dias enveredou-se pela absurda frase de que traficantes eram vítimas de usuários, está calado. Só fala por escrito.
Nas redes, os defensores do governo tentam levantar a bola com exemplos das ações da Polícia Federal, que desbaratou operações do PCC paulista sem dar um único tiro. É fato louvável. Mas não tem o condão de fazer frente à rendição das populações pobres sob jugo de criminosos. Que veem seus filhos sendo cooptados por traficantes, que pagam mais caro por gás, internet e alimentos, que não podem nem mesmo ir e vir sem autorização prévia. Nada disso se resolve com novas leis.
Há mérito na lei que amplia penas de integrantes de facções, mas isso pouco vale quando o país inteiro sabe que o Código Penal existente não é cumprido. Nesse quesito, a Justiça fica muito mal na fita. Dos 121 mortos na terça-feira de horror do Rio, 78 tinham “histórico criminal relevante”, incluindo crimes hediondos. Pergunta-se: por que estavam soltos?
A terrível conclusão – novamente sem entrar no mérito da operação – é que não há mocinho nessa história. O crime organizado se alimenta do desinteresse e inoperância das instituições, enquanto políticos, como facções eleitorais, utilizam a criminalidade para turbinar suas campanhas. Os milhares de reféns nas comunidades do Rio e em tantos lugares esquecidos do Brasil que se danem. De um lado e do outro da rinha política eles são só números, estatísticas… e votos.
O que une os atentados em Israel, ataques americanos no Caribe e a operação do Bope no Rio?
A chacina de israelenses em outubro de 2023, as execuções sumárias de palestinos pelo Hamas, a campanha militar de Israel na Faixa de Gaza, o bombardeio americano de embarcações no Caribe e no Pacífico e a operação da polícia no Rio de Janeiro têm um propósito político comum: saciar a sede de sangue do público.
Desde a Antiguidade, quando imperadores romanos punham gladiadores para lutar, os políticos lançam mão desse truque: entreter o povo com violência explícita. O Taleban promovia execuções nos intervalos das partidas de futebol. Pessoas agitadas pelo medo e pela raiva são fáceis de manipular.
Vídeos dos bombardeios de lanchas no Caribe, que já mataram dezenas, são publicados no X pelo secretário da Guerra americano, Pete Hegseth. Assassinatos feitos para serem exibidos. Sua eficácia policial é nula.
A forma correta de conter o narcotráfico é abordar as embarcações com lanchas da Guarda Costeira, confiscar e examinar a droga, deter e interrogar os traficantes, para investigar a complexa cadeia que vai da sua produção à venda. Mas esse é um trabalho sigiloso, que não produz imagens semelhantes a videogame.
Em 2002, a Comuna 13 de Medellín era ocupada por traficantes, paramilitares e guerrilheiros. Em outubro daquele ano, o então presidente Álvaro Uribe ordenou a Operação Orión, que resultou na morte de 17 pessoas pela Polícia Nacional e 71 pelos paramilitares, equivalentes colombianos dos milicianos cariocas.
Diante do caos, moradores de Medellín criaram o Comitê Universidade-Empresa-Estado, que passou a discutir soluções para a cidade. Cada um saía da reunião com uma tarefa. Daí nasceram planos integrados de segurança, transporte, urbanismo, meio ambiente, empreendedorismo, empregabilidade e inovação.
A taxa de homicídios por 100 mil habitantes caiu de 160 em 2000 para 85 em 2010 e 14 em 2020. Fui a Medellín em 2006 e 2017 fazer reportagens sobre a transformação. Sucessivos prefeitos deram continuidade aos planos, vinculados a consensos construídos na cidade, não a disputas políticas.
A lógica binária faz pensar que ou se fica de braços cruzados ou se parte para a violência indiscriminada. O uso tecnicamente incorreto de “guerra” e “terrorismo” para definir o crime organizado é parte do ilusionismo. Passei a vida cobrindo guerra e terrorismo de verdade, assim como a criminalidade no Brasil. São fenômenos diferentes, que precisam ser combatidos de formas diferentes. É fácil recorrer à violência. Dá trabalho construir soluções efetivas. Mas vale a pena.
Desde a Antiguidade, quando imperadores romanos punham gladiadores para lutar, os políticos lançam mão desse truque: entreter o povo com violência explícita. O Taleban promovia execuções nos intervalos das partidas de futebol. Pessoas agitadas pelo medo e pela raiva são fáceis de manipular.
Vídeos dos bombardeios de lanchas no Caribe, que já mataram dezenas, são publicados no X pelo secretário da Guerra americano, Pete Hegseth. Assassinatos feitos para serem exibidos. Sua eficácia policial é nula.
A forma correta de conter o narcotráfico é abordar as embarcações com lanchas da Guarda Costeira, confiscar e examinar a droga, deter e interrogar os traficantes, para investigar a complexa cadeia que vai da sua produção à venda. Mas esse é um trabalho sigiloso, que não produz imagens semelhantes a videogame.
Em 2002, a Comuna 13 de Medellín era ocupada por traficantes, paramilitares e guerrilheiros. Em outubro daquele ano, o então presidente Álvaro Uribe ordenou a Operação Orión, que resultou na morte de 17 pessoas pela Polícia Nacional e 71 pelos paramilitares, equivalentes colombianos dos milicianos cariocas.
Diante do caos, moradores de Medellín criaram o Comitê Universidade-Empresa-Estado, que passou a discutir soluções para a cidade. Cada um saía da reunião com uma tarefa. Daí nasceram planos integrados de segurança, transporte, urbanismo, meio ambiente, empreendedorismo, empregabilidade e inovação.
A taxa de homicídios por 100 mil habitantes caiu de 160 em 2000 para 85 em 2010 e 14 em 2020. Fui a Medellín em 2006 e 2017 fazer reportagens sobre a transformação. Sucessivos prefeitos deram continuidade aos planos, vinculados a consensos construídos na cidade, não a disputas políticas.
A lógica binária faz pensar que ou se fica de braços cruzados ou se parte para a violência indiscriminada. O uso tecnicamente incorreto de “guerra” e “terrorismo” para definir o crime organizado é parte do ilusionismo. Passei a vida cobrindo guerra e terrorismo de verdade, assim como a criminalidade no Brasil. São fenômenos diferentes, que precisam ser combatidos de formas diferentes. É fácil recorrer à violência. Dá trabalho construir soluções efetivas. Mas vale a pena.
domingo, 2 de novembro de 2025
Ainda há tempo para investigar o massacre de Cláudio Castro
Décadas de experiência demonstram que o uso estratégico da inteligência é o caminho mais eficaz para enfrentar o tráfico de drogas e as milícias. Operações baseadas em informações precisas reduzem riscos para a população e para os agentes de segurança. Apesar desse consenso, o Brasil insiste em ações espetaculosas e militarizadas, incapazes de desarticular redes criminosas ou atingir os fluxos financeiros que as sustentam.
A recente operação no Rio de Janeiro é exemplo trágico dessa lógica. Com cerca de 2.500 agentes mobilizados, resultou em 117 óbitos —muitos com sinais de execução, tortura e queima de corpos, além da morte de 4 policiais. Essa ação altamente letal, lembrou o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, indica que já é tempo de "fazer cessar um sistema que perpetua racismo, discriminação e injustiça".
É intolerável que a governança democrática não consiga garantir que forças de segurança cumpram padrões internacionais de uso da força. Mais de 30 anos depois do Carandiru, onde cheguei com a Comissão Teotônio Vilela na manhã seguinte ao massacre de 111 mortes, também é intolerável que governos estaduais continuem a recorrer a extermínios como luta contra o crime. E mais aterrorizante ainda é constatar que parte da população brasileira vibre com a brutalidade e a desumanização dos moradores das comunidades vulneráveis perpetradas por sucessivos governos.
O governo do Rio agora tenta apagar as evidências de crimes inscritas nos corpos dos mortos. Não há nenhuma expectativa realista de que o governador Cláudio Castro (PL) promova laudos de necropsia independentes. Cabe ao Ministério da Justiça e à Polícia Federal assumir a investigação de possíveis crimes: execuções sumárias, torturas, fraudes processuais e abuso de autoridade. O Ministério Público Federal já cobrou providências.
O ministro do STF, Alexandre de Moraes —relator da ADPF 635 (arguição de descumprimento de preceito fundamental), que regula as operações policiais no Rio e que Castro desrespeitou— determinou que o governador preste informações apresentando um relatório circunstanciado da operação, a justificativa para o grau de força empregado e a identificação das forças envolvidas.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, cobrou das autoridades brasileiras pronta investigação, assim como relatores especiais de direitos humanos do órgão, reforçando a proteção aos familiares das vítimas. Organizações civis brasileiras, como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, fizeram um apelo ao demandarem uma apuração independente e rigorosa.
Apesar desse clamor nacional e internacional, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, manteve um silêncio constrangedor diante dessas cobranças iniciais. No dia seguinte, contudo, ao lado de Castro anunciou a criação de um escritório emergencial para o combate ao crime organizado, unindo as forças federais e estaduais de segurança pública.
Embora a cooperação entre as esferas federativas seja, em geral, positiva, há preocupações sobre sua efetividade e possíveis riscos, especialmente se for comprovado que o governador autorizou ou incentivou a operação policial ilegal. Neste caso, ele poderá ser responsabilizado criminalmente.
O massacre no Rio deve ser compreendido dentro de um contexto político mais amplo, articulado por Castro e outros governadores de extrema direita. Após a condenação e prisão de seu líder máximo e de seus aliados, esses atores políticos buscam utilizar o discurso da guerra contra o tráfico de drogas para desestabilizar o Estado federal e melhorar suas perspectivas nas próximas eleições. Além disso, tentam alinhar-se à narrativa continental de combate ao narcotráfico, atualmente liderada pelos EUA.
Para enfrentar essa ofensiva da extrema direita, é fundamental que haja uma resposta firme das instituições democráticas: uma investigação federal rigorosa, transparente e independente sobre o massacre de Castro.
Esse passo é essencial para garantir a responsabilização dos envolvidos e reforçar o Estado de Direito. Ainda há tempo para que tal resposta seja dada.
A recente operação no Rio de Janeiro é exemplo trágico dessa lógica. Com cerca de 2.500 agentes mobilizados, resultou em 117 óbitos —muitos com sinais de execução, tortura e queima de corpos, além da morte de 4 policiais. Essa ação altamente letal, lembrou o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, indica que já é tempo de "fazer cessar um sistema que perpetua racismo, discriminação e injustiça".
É intolerável que a governança democrática não consiga garantir que forças de segurança cumpram padrões internacionais de uso da força. Mais de 30 anos depois do Carandiru, onde cheguei com a Comissão Teotônio Vilela na manhã seguinte ao massacre de 111 mortes, também é intolerável que governos estaduais continuem a recorrer a extermínios como luta contra o crime. E mais aterrorizante ainda é constatar que parte da população brasileira vibre com a brutalidade e a desumanização dos moradores das comunidades vulneráveis perpetradas por sucessivos governos.
O governo do Rio agora tenta apagar as evidências de crimes inscritas nos corpos dos mortos. Não há nenhuma expectativa realista de que o governador Cláudio Castro (PL) promova laudos de necropsia independentes. Cabe ao Ministério da Justiça e à Polícia Federal assumir a investigação de possíveis crimes: execuções sumárias, torturas, fraudes processuais e abuso de autoridade. O Ministério Público Federal já cobrou providências.
O ministro do STF, Alexandre de Moraes —relator da ADPF 635 (arguição de descumprimento de preceito fundamental), que regula as operações policiais no Rio e que Castro desrespeitou— determinou que o governador preste informações apresentando um relatório circunstanciado da operação, a justificativa para o grau de força empregado e a identificação das forças envolvidas.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, cobrou das autoridades brasileiras pronta investigação, assim como relatores especiais de direitos humanos do órgão, reforçando a proteção aos familiares das vítimas. Organizações civis brasileiras, como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, fizeram um apelo ao demandarem uma apuração independente e rigorosa.
Apesar desse clamor nacional e internacional, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, manteve um silêncio constrangedor diante dessas cobranças iniciais. No dia seguinte, contudo, ao lado de Castro anunciou a criação de um escritório emergencial para o combate ao crime organizado, unindo as forças federais e estaduais de segurança pública.
Embora a cooperação entre as esferas federativas seja, em geral, positiva, há preocupações sobre sua efetividade e possíveis riscos, especialmente se for comprovado que o governador autorizou ou incentivou a operação policial ilegal. Neste caso, ele poderá ser responsabilizado criminalmente.
O massacre no Rio deve ser compreendido dentro de um contexto político mais amplo, articulado por Castro e outros governadores de extrema direita. Após a condenação e prisão de seu líder máximo e de seus aliados, esses atores políticos buscam utilizar o discurso da guerra contra o tráfico de drogas para desestabilizar o Estado federal e melhorar suas perspectivas nas próximas eleições. Além disso, tentam alinhar-se à narrativa continental de combate ao narcotráfico, atualmente liderada pelos EUA.
Para enfrentar essa ofensiva da extrema direita, é fundamental que haja uma resposta firme das instituições democráticas: uma investigação federal rigorosa, transparente e independente sobre o massacre de Castro.
Esse passo é essencial para garantir a responsabilização dos envolvidos e reforçar o Estado de Direito. Ainda há tempo para que tal resposta seja dada.
A chacina do Rio como clímax das narrativas da extrema-direita
A operação policial que deixou mais de cem mortos no Rio de Janeiro é o absolutamente trágico clímax de duas narrativas construídas pela extrema-direita recentemente. De um lado, a defesa da “bukelização” do Brasil, de um Estado policial inspirado no modelo autoritário de Nayib Bukele, em El Salvador.
De outro, a ideia do “narcoterrorismo”, que funde o crime organizado à esquerda política, retratando o PT, Alexandre de Moraes e seus aliados como cúmplices de organizações criminosas. Essas duas histórias se entrelaçam e culminam no que vimos no Complexo da Penha e no Alemão: a legitimação da barbárie como espetáculo moral.
Desde 2021, a extrema direita vem cultivando a imagem Bukele, o líder jovem, fiel ao que se vem chamando de cristianismo cultural, autoritário e símbolo de eficiência.
Bukele sustenta um estado de exceção que já foi prorrogado dezenas vezes desde que o Congresso o aprovou pela primeira vez, em março de 2022, impondo toques de recolher e retirando garantias constitucionais em resposta a chacinas atribuídas às principais gangues salvadorenhas.
Em maio de 2021, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) usou suas redes sociais para demonstrar apoio a uma decisão que sempre foi sonhada pelo bolsonarismo no Brasil: a destituição abrupta de magistrados da Suprema Corte salvadorenha, manobra encomendada à época pelo presidente do país. Já em maio deste ano, Nikolas Ferreira (PL-MG), em audiência pública com o Ministro da Justiça, sobre a PEC da segurança, reclamou de a proposta não autorizar a execução de suspeitos por policiais e clamou: “precisamos bukelizar o Brasil”.
Os governadores Cláudio Castro e Tarcísio de Freitas tentam encarnar esse arquétipo. A operação no Rio de Janeiro não teria ocorrido desta forma se tivessem sido colocadas as câmeras nos uniformes dos agentes – o que o governador sempre rejeitou.
Freitas e seu então secretário de Segurança, por sua vez, após a Operação Verão na Baixada Santista, foram denunciados no Tribunal de Haia por crimes contra a humanidade – mesma corte onde tramita processo contra Bukele. A chacina ocorrida no Rio é defendida por Castro e pelos governadores de direita que foram apoiá-lo como encenação do Estado forte, prova de que o bem está vencendo o mal.
Enquanto a “bukelização” exalta o herói, o “narcoterrorismo” constrói o inimigo. Como vêm apontando colegas pesquisadores, a extrema-direita tenta associar o PT e o governo Lula às facções criminosas. Perfis bolsonaristas reproduzem uma versão tropical da retórica trumpista: assim como o presidente dos Estados Unidos acusa os democratas de conivência com cartéis mexicanos, aqui acusa-se a esquerda de ser o braço político do tráfico.
Ao mesmo em que Trump deu nova ênfase ao narcoterrorismo para justificar as investidas na Venezuela, o senador Flávio Bolsonaro chegou a pedir publicamente ação norte-americana no Rio de Janeiro, “ajudando a combater essas organizações terroristas”. Logo na sequência, Lula teve a infelicidade de dizer um que “traficante também é vítima”, reforçando o estereótipo do governante fraco, cúmplice, complacente com o mal. O cenário estava montado.
O resultado político é evidente: a narrativa se fecha. O herói age, o vilão relativiza, e a violência se converte em virtude.
A operação – filmada, noticiada e defendida como um ato de coragem – teve como efeito fazer a extrema-direita, que estava acuada e sem narrativa diante os afagos de Trump a Lula, recuperar o protagonismo.
O principal argumento do Executivo Federal foi a Operação Carbono Oculto, contra o PCC, que de fato demostra que o crime é combatido perseguindo-se os canais de financiamento, e não exterminando pobres aos roldões. (Aliás, o Governo do Rio parece fazer o contrário: a Procuradoria do Estado tem trabalhado no Judiciário contra interdição de refinaria envolvida na Cadeia de Carbono, desdobramento da Carbono Oculto.)
Lula padece ainda da pecha da esquerda, acusada pelo povo de “pensar que bandido é coitado” (frase retirada de pesquisa de autoria da cientista social Luciana Girelli). E, como dias antes havia comparado traficantes e usuários, ficou nas cordas. Não condenou a chacina – como esperava uma parte relevante da sociedade – nem prestou solidariedade aos agentes mortos – como queria outra parte.
O presidente, com atraso, postou um texto com tom de quem reivindica (“não podemos mais aceitar o crime organizado”), e não com a autoridade de quem está em seu terceiro mandato como chefe de Estado.
Os dois grandes campos políticos têm seus mártires. De um lado, cidadãos sem envolvimento com o crime, que têm o azar de serem negros e morarem numa favela, como registrou a deputada Benedita da Silva em discurso viral. Tanto é assim que dias depois das execuções ainda não se sabe de quem são os corpos, de modo que evidentemente não se trata apenas de faccionados. E mesmo a morte dos “suspeitos” indignou – lembremos que não existe pena de morte no Brasil.
De outro, quatro policiais. Um deles disse para a esposa antes de morrer: “continue orando”. Imagem poderosíssima e incontestável do martírio militarista cristão.
Chama a atenção notícia veiculada pela Folha de S.Paulo: na decisão que fundamentou a operação, dizia-se que o Comando Vermelho promovia “expansão violenta do tráfico em áreas dominadas por milícias”. Diante disso não é descabido suspeitar que o espetáculo de força seja um episódio de uma guerra entre uma facção que ameaça um grupo criminoso rival com fortes ligações políticas e amparo no Estado.
A eficácia da Operação no sentido de combate ao crime foi nenhuma: o número dois do Comando Vermelho, alvo declarado, conseguiu escapar. A operação se mostrou uma tragédia em sua letalidade e um fracasso em seu objetivo declarado. Mas um sucesso de propaganda, no Rio de Janeiro e no Brasil.
O arco narrativo é perfeito. Cria-se o inimigo: o “narcoterrorismo vermelho”. Apresenta-se o herói: o “Bukele brasileiro”, moral, cristão e armado. Entrega-se o clímax: uma chacina televisada, apresentada como guerra justa. Constrói-se o mito: a morte como purificação do país, a salvação pela bala. A megaoperação com mais de 120 mortos é a cerimônia máxima dessa fé punitiva.
Mas como são vidas de pessoas reais e não de personagens, todos nós deveríamos lamentar todas essas mortes. Política pública de segurança não se faz com execução em massa. Com certeza há um caminho que não seja o de romantizar o crime, e tampouco de transformar o combate em liturgia de poder.
De outro, a ideia do “narcoterrorismo”, que funde o crime organizado à esquerda política, retratando o PT, Alexandre de Moraes e seus aliados como cúmplices de organizações criminosas. Essas duas histórias se entrelaçam e culminam no que vimos no Complexo da Penha e no Alemão: a legitimação da barbárie como espetáculo moral.
Desde 2021, a extrema direita vem cultivando a imagem Bukele, o líder jovem, fiel ao que se vem chamando de cristianismo cultural, autoritário e símbolo de eficiência.
Bukele sustenta um estado de exceção que já foi prorrogado dezenas vezes desde que o Congresso o aprovou pela primeira vez, em março de 2022, impondo toques de recolher e retirando garantias constitucionais em resposta a chacinas atribuídas às principais gangues salvadorenhas.
Em maio de 2021, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) usou suas redes sociais para demonstrar apoio a uma decisão que sempre foi sonhada pelo bolsonarismo no Brasil: a destituição abrupta de magistrados da Suprema Corte salvadorenha, manobra encomendada à época pelo presidente do país. Já em maio deste ano, Nikolas Ferreira (PL-MG), em audiência pública com o Ministro da Justiça, sobre a PEC da segurança, reclamou de a proposta não autorizar a execução de suspeitos por policiais e clamou: “precisamos bukelizar o Brasil”.
Os governadores Cláudio Castro e Tarcísio de Freitas tentam encarnar esse arquétipo. A operação no Rio de Janeiro não teria ocorrido desta forma se tivessem sido colocadas as câmeras nos uniformes dos agentes – o que o governador sempre rejeitou.
Freitas e seu então secretário de Segurança, por sua vez, após a Operação Verão na Baixada Santista, foram denunciados no Tribunal de Haia por crimes contra a humanidade – mesma corte onde tramita processo contra Bukele. A chacina ocorrida no Rio é defendida por Castro e pelos governadores de direita que foram apoiá-lo como encenação do Estado forte, prova de que o bem está vencendo o mal.
Enquanto a “bukelização” exalta o herói, o “narcoterrorismo” constrói o inimigo. Como vêm apontando colegas pesquisadores, a extrema-direita tenta associar o PT e o governo Lula às facções criminosas. Perfis bolsonaristas reproduzem uma versão tropical da retórica trumpista: assim como o presidente dos Estados Unidos acusa os democratas de conivência com cartéis mexicanos, aqui acusa-se a esquerda de ser o braço político do tráfico.
Ao mesmo em que Trump deu nova ênfase ao narcoterrorismo para justificar as investidas na Venezuela, o senador Flávio Bolsonaro chegou a pedir publicamente ação norte-americana no Rio de Janeiro, “ajudando a combater essas organizações terroristas”. Logo na sequência, Lula teve a infelicidade de dizer um que “traficante também é vítima”, reforçando o estereótipo do governante fraco, cúmplice, complacente com o mal. O cenário estava montado.
O resultado político é evidente: a narrativa se fecha. O herói age, o vilão relativiza, e a violência se converte em virtude.
A operação – filmada, noticiada e defendida como um ato de coragem – teve como efeito fazer a extrema-direita, que estava acuada e sem narrativa diante os afagos de Trump a Lula, recuperar o protagonismo.
O principal argumento do Executivo Federal foi a Operação Carbono Oculto, contra o PCC, que de fato demostra que o crime é combatido perseguindo-se os canais de financiamento, e não exterminando pobres aos roldões. (Aliás, o Governo do Rio parece fazer o contrário: a Procuradoria do Estado tem trabalhado no Judiciário contra interdição de refinaria envolvida na Cadeia de Carbono, desdobramento da Carbono Oculto.)
Lula padece ainda da pecha da esquerda, acusada pelo povo de “pensar que bandido é coitado” (frase retirada de pesquisa de autoria da cientista social Luciana Girelli). E, como dias antes havia comparado traficantes e usuários, ficou nas cordas. Não condenou a chacina – como esperava uma parte relevante da sociedade – nem prestou solidariedade aos agentes mortos – como queria outra parte.
O presidente, com atraso, postou um texto com tom de quem reivindica (“não podemos mais aceitar o crime organizado”), e não com a autoridade de quem está em seu terceiro mandato como chefe de Estado.
Os dois grandes campos políticos têm seus mártires. De um lado, cidadãos sem envolvimento com o crime, que têm o azar de serem negros e morarem numa favela, como registrou a deputada Benedita da Silva em discurso viral. Tanto é assim que dias depois das execuções ainda não se sabe de quem são os corpos, de modo que evidentemente não se trata apenas de faccionados. E mesmo a morte dos “suspeitos” indignou – lembremos que não existe pena de morte no Brasil.
De outro, quatro policiais. Um deles disse para a esposa antes de morrer: “continue orando”. Imagem poderosíssima e incontestável do martírio militarista cristão.
Chama a atenção notícia veiculada pela Folha de S.Paulo: na decisão que fundamentou a operação, dizia-se que o Comando Vermelho promovia “expansão violenta do tráfico em áreas dominadas por milícias”. Diante disso não é descabido suspeitar que o espetáculo de força seja um episódio de uma guerra entre uma facção que ameaça um grupo criminoso rival com fortes ligações políticas e amparo no Estado.
A eficácia da Operação no sentido de combate ao crime foi nenhuma: o número dois do Comando Vermelho, alvo declarado, conseguiu escapar. A operação se mostrou uma tragédia em sua letalidade e um fracasso em seu objetivo declarado. Mas um sucesso de propaganda, no Rio de Janeiro e no Brasil.
O arco narrativo é perfeito. Cria-se o inimigo: o “narcoterrorismo vermelho”. Apresenta-se o herói: o “Bukele brasileiro”, moral, cristão e armado. Entrega-se o clímax: uma chacina televisada, apresentada como guerra justa. Constrói-se o mito: a morte como purificação do país, a salvação pela bala. A megaoperação com mais de 120 mortos é a cerimônia máxima dessa fé punitiva.
Mas como são vidas de pessoas reais e não de personagens, todos nós deveríamos lamentar todas essas mortes. Política pública de segurança não se faz com execução em massa. Com certeza há um caminho que não seja o de romantizar o crime, e tampouco de transformar o combate em liturgia de poder.
O que acontece quando ouvimos as vítimas
Mesmo décadas antes da fundação do Estado de Israel, em 1948 – e até antes das duas guerras mundiais –, o sionismo, isto é, a ideia de que deveria existir um Estado étnico exclusivamente para o povo judeu, já havia sido formulado por pensadores como Theodor Herzl e Ze’ev Jabotinsky.
Com essa ideologia em mãos, grupos terroristas europeus de extrema direita invadiram a Palestina, passando a abusar, deslocar, torturar, estuprar e massacrar palestinos para tomar posse de suas terras e recursos. Esses grupos alegavam que seu objetivo – e direito divino – era estabelecer o Estado étnico judeu sionista. Na realidade, porém, esse projeto serviu para oferecer às potências ocidentais uma base militarista e imperialista na Ásia Ocidental e no Norte da África.
Esses grupos contavam com amplo apoio e financiamento das superpotências ocidentais, que assim “matavam dois coelhos com uma cajadada só”: livravam-se dos “judeus incômodos” enviando-os para outra terra – já que o sionismo, ironicamente, é uma ideologia antissemita – e, ao mesmo tempo, estabeleciam uma fortaleza militar estratégica para ampliar a exploração do Oriente Médio.
A Grã-Bretanha, os Estados Unidos e os sionistas trabalharam juntos, ao longo de anos, para desestabilizar a região e promover um genocídio lento, até conquistarem terras e recursos suficientes para estabelecer o Estado de Israel. Os líderes terroristas sionistas passaram então a compor o governo e as forças armadas israelenses – as IDF (Forças de Defesa de Israel), chamadas pelos resistentes de “IOF” (Força de Ocupação Israelense), já que não defendem nada, mas sim ocupam ilegalmente a Palestina.
Desde então, o terrorismo de Estado de Israel segue incontestado. O país jamais reconheceu sua história de violência, ocupação e roubo de terras; em vez disso, sustenta a narrativa de que aquela terra seria seu direito de nascença. Paralelamente, promove a ideia de um suposto “sionismo liberal” – segundo o qual, se os palestinos simplesmente deixassem de resistir e aceitassem a ocupação, todos poderiam viver em “paz”.
Ao longo da história, inúmeras tentativas pacíficas dos palestinos de protestar contra o terrorismo de Estado de Israel foram recebidas com violência e com o assassinato de manifestantes. Diante disso, os palestinos formaram grupos de resistência armada para se defender.
Nelson Mandela escreveu certa vez:
“A lição que tirei da campanha para pôr fim ao apartheid na África do Sul foi que, no fim, não tínhamos alternativa senão a resistência armada e violenta. Repetidamente, utilizamos todas as armas não violentas em nosso arsenal – discursos, delegações, ameaças, marchas, greves, boicotes, prisão voluntária –, tudo em vão, pois tudo o que fizemos foi recebido com mão de ferro. Um lutador pela liberdade aprende, da forma mais dura, que é o opressor quem define a natureza da luta, e o oprimido muitas vezes não tem outro recurso senão empregar métodos que refletem os do opressor. Em determinado momento, só se pode combater fogo com fogo.”
Desde 7 de outubro, os meios de comunicação israelenses e ocidentais têm promovido incansavelmente a narrativa de que os “selvagens árabes/muçulmanos” seriam os verdadeiros “terroristas”, enquanto varrem para debaixo do tapete sua própria história de ações violentas, imperialistas e colonialistas – inclusive contra manifestações pacíficas. Convenientemente, omitem uma parte essencial da definição de terrorismo: ele não se limita a provocar medo ou terror, mas constitui uma relação de poder – na maior parte das vezes, a de um governo que impõe sua vontade aos civis por meio da violência e da opressão.
O objetivo declarado do governo israelense, ao longo de sua história, tem sido a limpeza étnica, a colonização e a apropriação de terras na Ásia Ocidental e no Norte da África, com o propósito de criar uma “Grande Israel”. Isso implica, por definição, o uso sistemático do terror contra as populações indígenas que habitam esses territórios – e, portanto, caracteriza-se como terrorismo.
Os povos indígenas que resistem a seus opressores não estão cometendo “terrorismo”, mesmo quando recorrem à resistência armada; estão, sim, defendendo-se dele. A violência dos oprimidos contra os opressores nunca é equivalente à violência dos opressores – e, de fato, é legalmente reconhecida como forma legítima de resistência.
Assim, as superpotências israelenses e ocidentais distorceram intencionalmente a definição de “terrorismo” para justificar sua ocupação ilegal da região e convencê-lo de que são, na verdade, os “mocinhos” da história.
Mas a verdade é bastante simples: Gaza há muito tempo é descrita por especialistas em direitos humanos como um “campo de concentração a céu aberto”. Mesmo antes de 7 de outubro, Israel controlava rigorosamente a quantidade de água, alimentos, eletricidade, medicamentos e outros recursos permitidos em Gaza em cada momento. Israel decide quem pode – ou não – entrar e sair da região. Gaza está literalmente cercada por muros, e postos de controle israelenses se espalham por todo o território, impedindo arbitrariamente a circulação entre cidades.
Não há aeroporto. Não há exército palestino. Embora existam partidos políticos, Israel é a única entidade com poder real e controle sobre a área porque se trata de uma ocupação, de um regime de apartheid.
Israel é um Estado étnico, terrorista e de apartheid. Ponto final. Não é tão complicado assim.
Impérios como Israel e os Estados Unidos buscam manter o monopólio da violência. Segundo a própria lógica que impõem, têm o “direito” de matar, estuprar, torturar, bombardear e destruir como bem entenderem, mas Deus nos livre que aqueles a quem oprimem ousem revidar. Na sua narrativa, os guerrilheiros que tentam proteger suas famílias e suas terras são os verdadeiros vilões.
É o mesmo discurso que os colonos usaram contra os povos indígenas da Ilha da Tartaruga (atual América do Norte), chamando-os de “primitivos”; o mesmo que os ingleses repetiram sobre os irlandeses “incivilizados” durante a colonização da Irlanda; o mesmo que a Europa proferiu – e ainda profere – sobre a África “selvagem”, desde os tempos do tráfico de escravos.Crédito: Jaber Jehad Badwan
A acusação de “terrorismo”, como tantas outras feitas pelos opressores, é uma projeção. São os invasores e os colonizadores que, por definição, praticam o terror, mas cooptaram o termo para criminalizar e silenciar os movimentos de libertação.
Israel e seus aliados – as superpotências ocidentais – já tomaram essa decisão por todos nós, queiramos ou não: para eles, as vidas palestinas valem menos do que as vidas israelenses.
Você, consciente ou inconscientemente, acaba reforçando essa lógica quando repete o argumento aparentemente neutro da Hasbara de que “ambos os lados são culpados” mesmo que apenas um lado venha cometendo genocídio há quase um século.
Aqueles que detêm o poder intencionalmente ocultam a história completa de Israel e do movimento sionista, para que, em vez de reconhecer a injustiça, você enxergue apenas a versão contada pelo opressor.
É óbvio que um agressor não permitirá que você conheça o ponto de vista de suas vítimas. Eles sabem que, no instante em que você ouvir os palestinos, não será mais possível ignorar a realidade. Essa cortina, uma vez erguida, não se abre apenas por um instante, ela se desfaz para sempre, é arrancada e rasgada em pedaços.
Rachel Corrie era uma jovem americana de 23 anos que, em 2003, viajou com outros ativistas à Palestina para protestar pacificamente contra a apropriação de terras e a limpeza étnica promovidas por Israel. Durante uma manifestação, ela se colocou diante de uma escavadeira israelense que tentava demolir uma casa palestina, empunhando um megafone e vestindo um colete de segurança laranja. Mesmo assim, os soldados avançaram com a máquina, atropelando-a e quebrando sua coluna – matando-a instantaneamente.
Os soldados alegaram depois que “não a viram”, e ninguém jamais foi
Com essa ideologia em mãos, grupos terroristas europeus de extrema direita invadiram a Palestina, passando a abusar, deslocar, torturar, estuprar e massacrar palestinos para tomar posse de suas terras e recursos. Esses grupos alegavam que seu objetivo – e direito divino – era estabelecer o Estado étnico judeu sionista. Na realidade, porém, esse projeto serviu para oferecer às potências ocidentais uma base militarista e imperialista na Ásia Ocidental e no Norte da África.
Esses grupos contavam com amplo apoio e financiamento das superpotências ocidentais, que assim “matavam dois coelhos com uma cajadada só”: livravam-se dos “judeus incômodos” enviando-os para outra terra – já que o sionismo, ironicamente, é uma ideologia antissemita – e, ao mesmo tempo, estabeleciam uma fortaleza militar estratégica para ampliar a exploração do Oriente Médio.
A Grã-Bretanha, os Estados Unidos e os sionistas trabalharam juntos, ao longo de anos, para desestabilizar a região e promover um genocídio lento, até conquistarem terras e recursos suficientes para estabelecer o Estado de Israel. Os líderes terroristas sionistas passaram então a compor o governo e as forças armadas israelenses – as IDF (Forças de Defesa de Israel), chamadas pelos resistentes de “IOF” (Força de Ocupação Israelense), já que não defendem nada, mas sim ocupam ilegalmente a Palestina.
Desde então, o terrorismo de Estado de Israel segue incontestado. O país jamais reconheceu sua história de violência, ocupação e roubo de terras; em vez disso, sustenta a narrativa de que aquela terra seria seu direito de nascença. Paralelamente, promove a ideia de um suposto “sionismo liberal” – segundo o qual, se os palestinos simplesmente deixassem de resistir e aceitassem a ocupação, todos poderiam viver em “paz”.
Ao longo da história, inúmeras tentativas pacíficas dos palestinos de protestar contra o terrorismo de Estado de Israel foram recebidas com violência e com o assassinato de manifestantes. Diante disso, os palestinos formaram grupos de resistência armada para se defender.
Nelson Mandela escreveu certa vez:
“A lição que tirei da campanha para pôr fim ao apartheid na África do Sul foi que, no fim, não tínhamos alternativa senão a resistência armada e violenta. Repetidamente, utilizamos todas as armas não violentas em nosso arsenal – discursos, delegações, ameaças, marchas, greves, boicotes, prisão voluntária –, tudo em vão, pois tudo o que fizemos foi recebido com mão de ferro. Um lutador pela liberdade aprende, da forma mais dura, que é o opressor quem define a natureza da luta, e o oprimido muitas vezes não tem outro recurso senão empregar métodos que refletem os do opressor. Em determinado momento, só se pode combater fogo com fogo.”
Desde 7 de outubro, os meios de comunicação israelenses e ocidentais têm promovido incansavelmente a narrativa de que os “selvagens árabes/muçulmanos” seriam os verdadeiros “terroristas”, enquanto varrem para debaixo do tapete sua própria história de ações violentas, imperialistas e colonialistas – inclusive contra manifestações pacíficas. Convenientemente, omitem uma parte essencial da definição de terrorismo: ele não se limita a provocar medo ou terror, mas constitui uma relação de poder – na maior parte das vezes, a de um governo que impõe sua vontade aos civis por meio da violência e da opressão.
O objetivo declarado do governo israelense, ao longo de sua história, tem sido a limpeza étnica, a colonização e a apropriação de terras na Ásia Ocidental e no Norte da África, com o propósito de criar uma “Grande Israel”. Isso implica, por definição, o uso sistemático do terror contra as populações indígenas que habitam esses territórios – e, portanto, caracteriza-se como terrorismo.
Os povos indígenas que resistem a seus opressores não estão cometendo “terrorismo”, mesmo quando recorrem à resistência armada; estão, sim, defendendo-se dele. A violência dos oprimidos contra os opressores nunca é equivalente à violência dos opressores – e, de fato, é legalmente reconhecida como forma legítima de resistência.
Assim, as superpotências israelenses e ocidentais distorceram intencionalmente a definição de “terrorismo” para justificar sua ocupação ilegal da região e convencê-lo de que são, na verdade, os “mocinhos” da história.
Mas a verdade é bastante simples: Gaza há muito tempo é descrita por especialistas em direitos humanos como um “campo de concentração a céu aberto”. Mesmo antes de 7 de outubro, Israel controlava rigorosamente a quantidade de água, alimentos, eletricidade, medicamentos e outros recursos permitidos em Gaza em cada momento. Israel decide quem pode – ou não – entrar e sair da região. Gaza está literalmente cercada por muros, e postos de controle israelenses se espalham por todo o território, impedindo arbitrariamente a circulação entre cidades.
Não há aeroporto. Não há exército palestino. Embora existam partidos políticos, Israel é a única entidade com poder real e controle sobre a área porque se trata de uma ocupação, de um regime de apartheid.
Israel é um Estado étnico, terrorista e de apartheid. Ponto final. Não é tão complicado assim.
Impérios como Israel e os Estados Unidos buscam manter o monopólio da violência. Segundo a própria lógica que impõem, têm o “direito” de matar, estuprar, torturar, bombardear e destruir como bem entenderem, mas Deus nos livre que aqueles a quem oprimem ousem revidar. Na sua narrativa, os guerrilheiros que tentam proteger suas famílias e suas terras são os verdadeiros vilões.
É o mesmo discurso que os colonos usaram contra os povos indígenas da Ilha da Tartaruga (atual América do Norte), chamando-os de “primitivos”; o mesmo que os ingleses repetiram sobre os irlandeses “incivilizados” durante a colonização da Irlanda; o mesmo que a Europa proferiu – e ainda profere – sobre a África “selvagem”, desde os tempos do tráfico de escravos.Crédito: Jaber Jehad Badwan
A acusação de “terrorismo”, como tantas outras feitas pelos opressores, é uma projeção. São os invasores e os colonizadores que, por definição, praticam o terror, mas cooptaram o termo para criminalizar e silenciar os movimentos de libertação.
Israel e seus aliados – as superpotências ocidentais – já tomaram essa decisão por todos nós, queiramos ou não: para eles, as vidas palestinas valem menos do que as vidas israelenses.
Você, consciente ou inconscientemente, acaba reforçando essa lógica quando repete o argumento aparentemente neutro da Hasbara de que “ambos os lados são culpados” mesmo que apenas um lado venha cometendo genocídio há quase um século.
Aqueles que detêm o poder intencionalmente ocultam a história completa de Israel e do movimento sionista, para que, em vez de reconhecer a injustiça, você enxergue apenas a versão contada pelo opressor.
É óbvio que um agressor não permitirá que você conheça o ponto de vista de suas vítimas. Eles sabem que, no instante em que você ouvir os palestinos, não será mais possível ignorar a realidade. Essa cortina, uma vez erguida, não se abre apenas por um instante, ela se desfaz para sempre, é arrancada e rasgada em pedaços.
Rachel Corrie era uma jovem americana de 23 anos que, em 2003, viajou com outros ativistas à Palestina para protestar pacificamente contra a apropriação de terras e a limpeza étnica promovidas por Israel. Durante uma manifestação, ela se colocou diante de uma escavadeira israelense que tentava demolir uma casa palestina, empunhando um megafone e vestindo um colete de segurança laranja. Mesmo assim, os soldados avançaram com a máquina, atropelando-a e quebrando sua coluna – matando-a instantaneamente.
Os soldados alegaram depois que “não a viram”, e ninguém jamais foi
responsabilizado. Em um ato de crueldade e desumanização, israelenses chegaram a tirar fotos zombando de sua morte e a fazer “panquecas Rachel
Corrie”, em alusão ao seu corpo esmagado.
Esta citação é de uma mensagem que Rachel Corrie escreveu para sua família pouco antes de ser assassinada:
“Se algum de nós tivesse sua vida e bem-estar completamente sufocados, vivesse com crianças em um lugar cada vez menor, onde sabíamos, por experiência anterior, que soldados, tanques e tratores poderiam vir atrás de nós a qualquer momento e destruir todas as estufas que cultivávamos há tanto tempo, e fizesse isso enquanto alguns de nós fossem espancados e mantidos em cativeiro com outras 149 pessoas por várias horas – você acha que poderíamos tentar usar meios um tanto violentos para proteger os fragmentos que restassem? Penso nisso especialmente quando vejo pomares, estufas e árvores frutíferas destruídos – anos de cuidados e cultivo. Penso em você e em quanto tempo leva para fazer as coisas crescerem e que trabalho de amor é esse. Eu realmente acho que, em uma situação semelhante, a maioria das pessoas se defenderia da melhor maneira possível. Acho que o tio Craig faria isso. Acho que provavelmente a vovó faria isso. Acho que eu faria isso.”
Rachel Corrie também descreveu as ações de Israel como “genocídio”, muito antes de 7 de outubro de 2023. Seus e-mails, ensaios e poemas podem ser lidos em Let Me Stand Alone, uma coletânea póstuma de seus diários e escritos publicada por seus pais.
Quando palavras como “terrorismo” são lançadas pela mídia convencional, é seu direito – e seu dever – pesquisar o conflito por conta própria, além dos limites da mídia ocidental; avaliar a dinâmica de poder para identificar quem é o verdadeiro opressor e posicionar-se ao lado da justiça.
É perfeitamente legítimo dizer: “Ainda não sei o suficiente sobre esse assunto para formar uma opinião, mas vou me empenhar em aprender.” O essencial é não permitir que a propaganda pense por você. Não deixe que os propagandistas definam como deve ser a revolução.
Esta citação é de uma mensagem que Rachel Corrie escreveu para sua família pouco antes de ser assassinada:
“Se algum de nós tivesse sua vida e bem-estar completamente sufocados, vivesse com crianças em um lugar cada vez menor, onde sabíamos, por experiência anterior, que soldados, tanques e tratores poderiam vir atrás de nós a qualquer momento e destruir todas as estufas que cultivávamos há tanto tempo, e fizesse isso enquanto alguns de nós fossem espancados e mantidos em cativeiro com outras 149 pessoas por várias horas – você acha que poderíamos tentar usar meios um tanto violentos para proteger os fragmentos que restassem? Penso nisso especialmente quando vejo pomares, estufas e árvores frutíferas destruídos – anos de cuidados e cultivo. Penso em você e em quanto tempo leva para fazer as coisas crescerem e que trabalho de amor é esse. Eu realmente acho que, em uma situação semelhante, a maioria das pessoas se defenderia da melhor maneira possível. Acho que o tio Craig faria isso. Acho que provavelmente a vovó faria isso. Acho que eu faria isso.”
Rachel Corrie também descreveu as ações de Israel como “genocídio”, muito antes de 7 de outubro de 2023. Seus e-mails, ensaios e poemas podem ser lidos em Let Me Stand Alone, uma coletânea póstuma de seus diários e escritos publicada por seus pais.
Quando palavras como “terrorismo” são lançadas pela mídia convencional, é seu direito – e seu dever – pesquisar o conflito por conta própria, além dos limites da mídia ocidental; avaliar a dinâmica de poder para identificar quem é o verdadeiro opressor e posicionar-se ao lado da justiça.
É perfeitamente legítimo dizer: “Ainda não sei o suficiente sobre esse assunto para formar uma opinião, mas vou me empenhar em aprender.” O essencial é não permitir que a propaganda pense por você. Não deixe que os propagandistas definam como deve ser a revolução.
Brasil, violência do crime, terror de Estado
O Brasil mostrou mais uma vez ao mundo a face mais brutal de sua guerra contra o crime. Mais de cem corpos apareceram esta semana a 15 quilômetros do centro do Rio de Janeiro , após uma operação policial que o governo regional, liderado por Cláudio Castro, aliado de Bolsonaro, apresentou como um golpe exemplar contra a organização criminosa Comando Vermelho. Na realidade, foi mais um dia de horror. Os corpos, retirados do mato por moradores e empilhados na rua; os relatos de execuções; e o silêncio do Estado diante das famílias são a imagem exata de um fracasso recorrente: a crença de que a violência pode ser erradicada com balas.
Os números são estarrecedores, mas não surpreendentes. Durante décadas, o terror do narcotráfico foi combatido com uma estratégia que só multiplica os danos : a militarização da segurança, operações massivas e a legitimação da morte como instrumento de ordem. Jair Bolsonaro ascendeu politicamente como um defensor ferrenho dessa estratégia. Seus sucessores políticos seguem seu exemplo : após a operação, Castro afirmou que os quatro policiais mortos foram “as únicas vítimas” do massacre.
O narcotráfico no Brasil não é um corpo estranho que possa ser erradicado, mas sim um sistema que prospera na desigualdade, na impunidade e na conivência política. Nas periferias das grandes cidades, grupos criminosos preenchem os vácuos deixados pelas instituições públicas.
O crime organizado não é uma anomalia que possa ser eliminada com uma incursão armada. Onde o Estado falha em garantir justiça ou serviços básicos, os grupos criminosos oferecem proteção, crédito ou emprego . Combater essa estrutura exige inteligência financeira, instituições fortes e uma política social que restaure a presença do Estado em territórios onde, por décadas, prevaleceu apenas a lei do medo.
O Brasil precisa de uma política de segurança democrática, capaz de proteger sem destruir. Não se trata de negar o poder corrosivo do crime organizado, que extorque, assassina e desafia o Estado, mas de reconhecer que sua derrota não virá de uma guerra sem fim, e sim de uma profunda transformação institucional. Cada massacre celebrado como vitória enfraquece ainda mais a legitimidade da democracia e reforça a ideia de que a violência é a única linguagem aceitável. A segurança não se conquista com pilhas de cadáveres, mas com um Estado que retoma sua autoridade por meio do Estado de Direito, e não pelo medo.
Os governos da região parecem presos em um falso dilema: entre o populismo punitivo — a promessa de mão pesada que oferece resultados imediatos ao custo de vidas humanas — e a paralisia daqueles que denunciam os abusos, mas não conseguem construir alternativas. Em ambos os casos, o vácuo é preenchido por organizações criminosas. O Brasil não precisa de mais mortes para demonstrar força; precisa de um Estado que não confunda autoridade com força bruta.
Os números são estarrecedores, mas não surpreendentes. Durante décadas, o terror do narcotráfico foi combatido com uma estratégia que só multiplica os danos : a militarização da segurança, operações massivas e a legitimação da morte como instrumento de ordem. Jair Bolsonaro ascendeu politicamente como um defensor ferrenho dessa estratégia. Seus sucessores políticos seguem seu exemplo : após a operação, Castro afirmou que os quatro policiais mortos foram “as únicas vítimas” do massacre.
O narcotráfico no Brasil não é um corpo estranho que possa ser erradicado, mas sim um sistema que prospera na desigualdade, na impunidade e na conivência política. Nas periferias das grandes cidades, grupos criminosos preenchem os vácuos deixados pelas instituições públicas.
O crime organizado não é uma anomalia que possa ser eliminada com uma incursão armada. Onde o Estado falha em garantir justiça ou serviços básicos, os grupos criminosos oferecem proteção, crédito ou emprego . Combater essa estrutura exige inteligência financeira, instituições fortes e uma política social que restaure a presença do Estado em territórios onde, por décadas, prevaleceu apenas a lei do medo.
O Brasil precisa de uma política de segurança democrática, capaz de proteger sem destruir. Não se trata de negar o poder corrosivo do crime organizado, que extorque, assassina e desafia o Estado, mas de reconhecer que sua derrota não virá de uma guerra sem fim, e sim de uma profunda transformação institucional. Cada massacre celebrado como vitória enfraquece ainda mais a legitimidade da democracia e reforça a ideia de que a violência é a única linguagem aceitável. A segurança não se conquista com pilhas de cadáveres, mas com um Estado que retoma sua autoridade por meio do Estado de Direito, e não pelo medo.
Os governos da região parecem presos em um falso dilema: entre o populismo punitivo — a promessa de mão pesada que oferece resultados imediatos ao custo de vidas humanas — e a paralisia daqueles que denunciam os abusos, mas não conseguem construir alternativas. Em ambos os casos, o vácuo é preenchido por organizações criminosas. O Brasil não precisa de mais mortes para demonstrar força; precisa de um Estado que não confunda autoridade com força bruta.
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