segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Pensamento do Dia ( o 51° estado dos EUA)

 


Mídia miúda

Mão anônima escreveu num muro do bairro de San Telmo, em Buenos Aires, neste tempo de crise atroz:; "Nos mijam e os jornais dizem chove"

Eduardo Galeano, "O teatro do bem e do mal"

Por que essa estratégia não dá certo?

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (ou a COP30) toma todas as atenções no Brasil em 2025. A ser sediada em Belém – PA, em novembro deste ano, é esperado que o evento receba entre 50 e 60 mil pessoas, entre delegações oficiais, observadores e participantes da sociedade civil. Esse expressivo número de atores envolvidos não é à toa: falar em justiça climática e no papel dos países em desenvolvimento exige lidar com interesses diversos e enormes contradições.

A escolha de Belém como cidade-sede dá ainda mais peso a esse discurso: realizar a conferência no coração da Amazônia é estratégico, pois coloca o maior bioma tropical do planeta no foco das discussões sobre futuro climático e sustentabilidade global. Mas não é só estratégia, é também um gesto simbólico. A floresta carrega significados diversos: abriga povos que a percebem e vivem de formas distintas, tecendo relações que vão muito além da ideia de recurso natural. Para o evento, esse simbolismo se traduz na grandiosidade do bioma em si –afinal, trata-se da região que concentra mais da metade das florestas tropicais remanescentes do planeta e uma das maiores reservas de biodiversidade conhecidas.

Mais do que isso, a Amazônia funciona como um verdadeiro regulador climático: ajuda a estabilizar temperaturas globais, influencia o regime de chuvas na América do Sul e até em outras partes do mundo, e armazena toneladas de carbono que, se liberadas, acelerariam ainda mais o aquecimento global. Não à toa, é chamada de “pulmão do planeta” – embora, na prática, cumpra um papel muito mais complexo do que essa metáfora simplifica. O próprio governo brasileiro1 diz tratar-se de uma oportunidade histórica para reafirmar o protagonismo do país nas negociações climáticas, destacando esforços em energias renováveis, biocombustíveis e agricultura de baixo carbono – lembrando, claro, o currículo diplomático que vai da Eco-92 à Rio+20.

A conferência deverá colocar em pauta desde a redução das emissões de gases de efeito estufa e a adaptação aos impactos já visíveis das mudanças climáticas, até debates sobre financiamento climático e os caminhos para uma transição energética baseada em fontes renováveis. Também ganha centralidade a preservação das florestas, não apenas como reservas de biodiversidade e estoques de carbono, mas como elementos vitais para a regulação climática em escala planetária. Nesse contexto, a participação de povos indígenas e comunidades tradicionais deveria se tornar imprescindível: são eles que historicamente conservam os territórios, detêm saberes ancestrais fundamentais para o que os cientistas denominam de “sustentabilidade” e que, ao mesmo tempo, sofrem de forma mais direta os efeitos da destruição ambiental e estão mais vulneráveis aos riscos decorrentes da mudança climática.


Porém, por trás do entusiasmo oficial, a COP30 também expõe contradições incômodas: afinal, são mesmo essas pautas ambientais e sociais que movem o Brasil para a frente? Ou estaremos diante de mais uma encenação verde, enquanto, nos bastidores, o “progresso” continua a ser sinônimo de devastação, lucro rápido e exploração das riquezas da floresta? Essa é a encruzilhada que a conferência nos obriga a encarar: que tipo de futuro estamos construindo quando o desenvolvimento ainda significa sacrificar a natureza e silenciar os povos que a defendem? 

Essa contradição não é nova. O Brasil há décadas se equilibra entre o discurso de liderança ambiental e a prática de um modelo econômico que insiste em chamar de “desenvolvimento” aquilo que, na realidade, tantas vezes se traduz em destruição. Não por acaso, os grandes projetos sempre aparecem revestidos de promessas sedutoras: emprego, renda, infraestrutura e cidadania pelo consumo. É nesse ponto que entramos no cerne da questão – o que significa, afinal, desenvolver? “Emprego, renda e desenvolvimento” são os pilares que ancoram as promessas dos grandes projetos desenvolvimentistas. Tal qual ocorreu com Brumadinho, Mariana ou Belo Monte. Quem, em sã consciência, poderia negar essas coisas tão desejáveis? Essa é, afinal, a parte bela do capitalismo – a promessa de progresso material, de ser cidadão por meio da capacidade de consumir.

O Produto Interno Bruto (PIB) de um país mede os bens e serviços finais produzidos no território. É o maior indicador de desempenho econômico das nações. Seu cálculo engloba desde a produção de automóveis até um corte de cabelo. Falar do PIB reforça a importância do dinheiro enquanto moeda, do comércio, da circulação de produtos. O PIB per capita, por sua vez, traduz esse índice em relação à quantidade de habitantes de determinado território.

Estes, junto com a expectativa de vida e os anos de escolaridade, compõem o IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano. O PIB é utilizado para definir se um país é rico ou pobre; o IDH identifica se o mesmo é desenvolvido ou não. Contudo, algumas questões não são traduzidas no IDH nem no PIB: quando você colhe uma fruta da árvore e come, essa ação não entra no PIB. Agora, se você vai ao mercado e compra uma fruta – mesmo que não a coma, mesmo que ela apodreça em sua fruteira, movimentou o PIB e gerou, em uma escala muito pequena, aumento da renda e do desenvolvimento do seu país.

Sob essa ótica, é inevitável questionar até que ponto o IDH consegue refletir o desenvolvimento de territórios sustentados pelo autoconsumo, pela economia circular e por uma menor dependência da moeda. Nada disso aparece nos tradicionais indicadores de emprego, renda e crescimento econômico. Quando essas métricas se tornam a régua principal, tudo o que foge delas acaba invisibilizado – tratado como menor, periférico, relegado às margens. Essa limitação fica ainda mais evidente na Amazônia, onde projetos como Belo Monte escancaram o abismo entre estatísticas oficiais e modos de vida tradicionais.

São modos de vida que não têm no dinheiro sua base de existência. Comunidades agroextrativistas, quilombolas e indígenas constroem o “existir” e o bem-viver sem depender necessariamente do comércio ou da lógica da compra e venda. Belo Monte é um retrato dessa ruptura: pescadores foram removidos de suas margens e levados a cerca de 7 km do rio. Como garantir a continuidade desse modo de vida quando a distância do território e a escassez de peixes inviabilizam a fartura que antes assegurava alimento e dignidade?

“Como é que você vai levar um pescador, que mora na beira do rio, que só sabe pescar, ou um peconheiro que apanha açaí, que vive daquilo, tu vais levar o açaí junto com ele pro asfalto? Vai levar o rio onde o pescador pesca para lá também? ”. O questionamento de Daniela Silva Araújo, moradora de Pirocaba, uma comunidade agroextrativista em Abaetetuba, Pará, traduz a indignação perante o desenvolvimento irracional que ‘os de fora’ insistem em impor.

No Brasil de 2025, a questão de Daniela é ainda mais complexa. As questões ambientais continuam sendo coadjuvantes ‘do real problema’. Inclusive, estas têm se mostrado, historicamente, como obstáculos ao enfrentamento do desemprego e da superação da pobreza. Aqui, não se sabe como dar legitimidade às questões ambientais, o caminho parece mais árduo. Mas, desde o milagre econômico, a resposta e solução para o desemprego e pobreza tem sido o “desenvolvimento”, este que atropela o meio ambiente e os corpos que dele dependem.

A pergunta de Daniela não se dá num vácuo: a Cargill tinha planos de construir um porto em Abaetetuba, a cerca de 120 quilômetros de Belém. A empresa comprou um terreno em área sobreposta a um assentamento da reforma agrária, o Assentamento Santo Antônio. Essa operação, é importante ressaltar, está sendo investigada por suspeita de grilagem pelo Ministério Público Federal (MPF).

A região em que o porto da Cargill pretendia se instalar apresenta um modo de vida muito específico e diverso: ali, vivem mais de 7 mil famílias ribeirinhas, com forte vínculo com a natureza local e dependem dos recursos hídricos para manutenção da família e sobrevivência. Em uma reunião com os representantes da empresa, a Daniela questionou: “o que farão com as pessoas afetadas?” Elas seriam remanejadas, foi a resposta que recebeu do representante da empresa. O espaço físico para assentamento das famílias já estava sendo construído, longe do rio, ignorando a dinâmica dos ribeirinhos – tal qual aconteceu com os ribeirinhos afetados pela hidrelétrica.

Belo Monte era a proposta de um mundo novo e desenvolvido para diversas famílias, mas, na verdade, foi o fim, assim como a Transamazônica na década de 1970 e pode ser atualmente com a Ferrogrão e o Porto da Cargill. Todas essas são propostas de promoção do desenvolvimento do país, seja para escoar grãos, tornar o agronegócio mais lucrativo, levar os benefícios do desenvolvimento em áreas não agraciadas por ele. Esse desenvolvimento, pelo menos no Brasil e em outros países do sul global, tem criado um ganho satisfatório para alguns, contudo, não vem sem custo: o ônus recai principalmente para aqueles que seriam “salvos”. O revés recai, sempre, sobre os moradores tradicionais do território. Pessoas essas que sequer são consultadas no processo que envolve a mudança dos seus próprios territórios.

Belo Monte foi vendida como a promessa de fornecer energia sustentável ao Brasil, mas desde o início já se sabia que sua produtividade seria baixa diante da sazonalidade do rio Xingu. Apesar da capacidade instalada de 11.233 MW, a geração média efetiva não passa de 4.500 MW – cerca de 40% do projetado. Em 2024, por exemplo, a usina entregou apenas 2.581 MW, míseros 23% de sua capacidade3.Uma escolha que, além de ineficiente do ponto de vista energético, mostrou-se um erro estratégico: para viabilizar a hidrelétrica, o curso do rio foi alterado, agravando a instabilidade natural de cheias e secas e comprometendo ainda mais o equilíbrio do próprio Xingu. Ou seja, Belo Monte não apenas falhou em cumprir sua promessa de geração de energia, como deixou o rio e as comunidades que dele dependem em situação ainda mais frágil.

Marcelo Camargo, geógrafo, corrobora essa afirmação. Ele afirma: “o Xingu passa seis meses em estiagem total, inviabilizando o funcionamento de uma estrutura como Belo Monte”. Além disso, a obra custou praticamente o dobro do previsto inicialmente. Ela foi orçada em R$16 bilhões, mas o custo final chegou a R$30 bilhões. Sobre essa questão, Camargo adiciona: “com as previsões de redução da capacidade de produção e os custos de operação, é impossível que Belo Monte, ao longo desses 30 anos, supere o valor do seu próprio custo”.

Em concordância com Daniela Araújo, Maria Cristina Alves da Costa, que vivia em uma comunidade que não existe mais para que Belo Monte pudesse ser construída, afirma: “O que eu sei fazer é pescar. Como vou pegar peixe no asfalto?”. Ela comprou uma casa em Altamira, com uma carta de crédito oferecida pela usina, buscando melhores condições de vida para si e para os filhos. Depois de nove meses sem qualquer tipo de renda ou alternativas, Maria optou por voltar para as margens do rio Xingu.

Vale ressaltar, ainda, que tanto a Ferrogrão quanto o Porto da Cargill são propostas para melhorar o escoamento de grãos oriundos do agronegócio, do Centro-Oeste brasileiro. Este, tal qual os grandes projetos de desenvolvimento que o cercam, anunciam-se como solução dos problemas vinculados à fome no mundo. Agora, quando a gente olha como ele de fato se estabelece no território, é possível perceber que o sistema alimentar explicita grande parte das contradições que ele se propõe a combater: ele está associado à concentração de terras e renda, exploração da mão de obra – principalmente a feminina, que recebe salários menores e está mais suscetível ao trabalho sazonal e ao assédio sexual. O agronegócio está vinculado, também, ao aumento da insegurança alimentar nos territórios em que ele é desenvolvido. Tal qual, novamente, os grandes projetos de desenvolvimento.

Esses grandes projetos são a promessa de emprego, renda e desenvolvimento. Eles representam uma maior integração ao capitalismo, mas de forma marginal: levam o pescador para morar longe do rio, o agroextrativista para morar longe da floresta. A ideia de um grande projeto de desenvolvimento funciona de forma circular: com a justificativa de regiões apresentarem PIB e IDH baixos – ou abaixo da média – eles são instalados. Geram uma integração periférica ao capitalismo e, ao não atingirem seus objetivos de trazer ‘desenvolvimento, emprego e renda’ justificam a implementação de um novo grande projeto.

Foi assim pelas chapadas do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, quando o desenvolvimento alcançou a região por meio da implementação massiva da monocultura do eucalipto na década de 1970, posteriormente com a Usina Hidrelétrica de Irapé em 2006 e agora com as mineradoras de lítio. Três projetos em décadas diferentes com a mesma pretensão, gerar emprego e renda.

Já na Amazônia, sede da COP 30 e objeto do olhar da conferência, vemos uma região marcada pelas veias abertas, pelos projetos alheios, pelas definições de quem acha que sabe o que é desenvolvimento (sobre os outros). Essa é a Amazônia que traz, historicamente, desenvolvimento, emprego e renda. Se tem dado certo ou não cabe a cada um e a nós, enquanto sociedade, buscarmos entender. O progresso esperado é esse em que a Amazônia vira a periferia de um país periférico, que se orgulha em ser “celeiro do mundo”? Ou é a Floresta Tropical que nos ensina como habitar esse planeta de modo a não saturar os recursos naturais? É a Amazônia, escolhida como sede do maior evento sobre sustentabilidade no mundo que vai nos ensinar? Então cabe a nós aprendermos com ela, entender que o centro do mundo é a Amazônia, e não impor a nossa visão capitalista de desenvolvimento sobre a floresta e seus habitantes.

Enquanto a Amazônia é anunciada como o centro do mundo no discurso oficial da COP30, no cotidiano político do Brasil seguem avançando projetos que caminham na direção oposta. A prova disso veio na calada da noite de 16 de julho, quando o chamado “PL da Devastação” foi aprovado. A contradição salta aos olhos: de um lado, a promessa de aprender com a floresta; de outro, a abertura de novas frentes para o agronegócio e a mineração, setores historicamente responsáveis por feridas profundas no território amazônico e no país.

O presidente Lula sancionou a lei com vetos parciais, mas o texto segue em tramitação no Congresso. Na prática, abre-se ainda mais espaço para que o agronegócio e a mineração avancem sobre territórios sensíveis, aumentando o risco de repetirmos tragédias como as de Brumadinho e Mariana. O paradoxo é evidente: em nome de um suposto “desenvolvimento sustentável”, multiplicam-se projetos de extração de lítio, cobalto, níquel e terras raras – minerais essenciais para carros elétricos e torres eólicas – enquanto a floresta e os povos que nela habitam pagam a conta dessa corrida verde.

A transição energética corre o risco de se tornar um novo colonialismo. O Brasil poderia assumir a dianteira em uma guinada realmente sustentável, mas os discursos oficiais insistem em reforçar velhas lógicas de espoliação ambiental. Sobre a exploração de petróleo na foz do Amazonas, o presidente Lula afirma: “A Petrobras é uma empresa responsável. Tem a maior experiência de exploração de petróleo em águas profundas. Vamos cumprir todos os ritos necessários para que a gente não cause estrago na natureza. Até porque é dessa riqueza que a gente vai ter dinheiro para construir a sonhada transição energética4”.

A contradição é gritante: como apostar em combustíveis fósseis – que são uma das raízes da crise climática – para financiar a transição que supostamente deveria superá-los? Essa justificativa ecoa a velha narrativa do “sacrifício necessário” em nome do progresso, mas ignora que as populações locais e os ecossistemas são os primeiros a pagar o preço. Se não questionarmos esse modelo, corremos o risco de trocar uma dependência por outra, mantendo a lógica de exploração predatória sob o verniz de “energia limpa”.

Os “ritos necessários” também foram seguidos em Mariana e em Brumadinho. A barragem da Samarco, em Mariana, era classificada como de médio impacto ambiental – tecnicamente enquadrada dentro da normalidade e autorizada pelos órgãos competentes. Ainda assim, foi justamente essa estrutura que deu origem, em 2015, ao que o Ministério Público Federal descreve como “o maior desastre ambiental do Brasil – e um dos maiores do mundo”.

Se tais desastres puderam ocorrer sob o manto da legalidade e do “cumprimento de requisitos”, o que nos garante que novos projetos, agora ainda mais ambiciosos e arriscados, não reproduzirão as mesmas tragédias? A questão central não é apenas cumprir protocolos, mas reconhecer que esses protocolos já se mostraram insuficientes diante de um modelo econômico que normaliza o risco e transfere seus custos humanos e ambientais para comunidades inteiras. Ainda mais quando iniciativas como o PL da Devastação avançam no Congresso, enfraquecendo salvaguardas socioambientais e tornando a aprovação de empreendimentos de alto impacto ainda mais simplificadas. Nesse cenário, a legalidade deixa de ser uma barreira de proteção para se tornar um atalho que facilita a reprodução da destruição.

Diante de tudo isso, fica evidente que a retórica oficial da sustentabilidade muitas vezes camufla uma continuidade do modelo predatório: protocolos e leis funcionam mais como aparências de proteção do que como barreiras reais contra a destruição. Se desastres como Mariana e Brumadinho ocorreram sob o ar da legalidade, e se agora se flexibilizam regras para o agronegócio e a mineração, a urgência deixa de ser apenas ambiental ou econômica, torna-se cultural e ética. O verdadeiro desafio não está em celebrar discursos verdes, mas em repensar nossas práticas, modos de produção e a forma como nos relacionamos com a natureza.

Talvez ainda não seja tarde para aprender com as populações que há séculos convivem de maneira equilibrada com o meio ambiente, e talvez isso custe bem menos do que insistir em modelos de desenvolvimento predatórios. Percebemos que a mudança cultural e de sistema econômico seja a única salvação para o Antropoceno. É tempo de retomada: nossas bases, sejam elas produtivas ou culturais precisam ser repensadas, e devemos observar com atenção e integrar aos debates os povos originários e as comunidades tradicionais, que praticam a sustentabilidade muito antes de o conceito sequer existir. No contexto do Brasil, país-sede da COP30, a reflexão se torna ainda mais urgente, pois a sustentabilidade, na prática, parece seguir em segundo plano diante das pressões do agronegócio, da mineração e de interesses econômicos de curto prazo.

Talvez, pensar que o desenvolvimento não seja o caminho. Como diz Nego Bispo: “vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las. E vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las. Por exemplo, se o inimigo adora dizer desenvolvimento, nós vamos dizer que o desenvolvimento desconecta, que o desenvolvimento é uma variante da cosmofobia. Vamos dizer que a cosmofobia é um vírus e botar para ferrar com a palavra desenvolvimento. Porque a palavra boa é envolvimento”.

O discurso da COP30 sobre desenvolvimento muitas vezes se ancora na promessa de conciliar crescimento econômico com sustentabilidade, mas a realidade mostra que essas estratégias pouco se traduzem em mudanças efetivas. Ao colocar o Brasil como protagonista das negociações climáticas, enfatizando energias renováveis, agricultura de baixo carbono e biocombustíveis, o evento corre o risco de transformar o país em uma vitrine de boas intenções, sem lidar com as contradições estruturais do modelo econômico que historicamente explora os biomas e águas de forma verdadeiramente insustentável.

O problema central está na própria concepção de “desenvolvimento” que orienta essas políticas: métricas como emprego, renda e crescimento econômico são usadas como indicadores absolutos, invisibilizando modos de vida sustentáveis baseados no autoconsumo, na economia circular e na convivência harmoniosa com a natureza. Projetos de mineração, grandes hidrelétricas e expansão do agronegócio seguem avançando sob a justificativa de gerar emprego, renda e progresso, enquanto comunidades locais e ecossistemas pagam o preço mais alto. Assim, as populações indígenas, quilombolas e agroextrativistas permanecem à margem, enquanto o que realmente determina decisões políticas e econômicas é o lucro imediato sobre os recursos naturais.

A transformação climática e social que o planeta precisa exigir mais do que metas de emissão e painéis de energia renovável: exige repensar os conceitos de progresso e riqueza, valorizar modos de vida sustentáveis, reconhecer os saberes ancestrais de comunidades tradicionais e integrar essas perspectivas nas decisões políticas e econômicas. Sem essa mudança de paradigma, a conferência pode, mais uma vez, acabar reforçando o mesmo sistema que provoca desastres ambientais, desigualdade e crises socioambientais, transformando o que deveria ser um ponto de virada em mais um episódio de “greenwashing” global. Até essa virada de chave, todo o brilho da COP30 corre o risco de servir apenas como fachada, enquanto a floresta, seus povos e o futuro do planeta pagam o preço da continuidade de velhos padrões de exploração.

Manifestação de guerra nos EUA

Até a semana passada, o Pentágono ainda atendia pela denominação com que fora rebatizado no mundo devastado pela Segunda Guerra Mundial: Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Naquele conflito, o planeta conhecera o poder da bomba atômica, e a corrida nuclear das superpotências recomendava adequar a agência à nova condição não binária de “guerra” ou “paz”. Algo que englobasse um conceito mais amplo de segurança e defesa nacional. Assim, em 1947, o presidente Harry Truman trocou o nome do Departamento de Guerra, que existia desde os idos da Revolução Americana, por Departamento de Defesa. Com aprovação do Congresso, como manda a lei.

Dos 13 presidentes que sucederam a Truman na Casa Branca, apenas Donald Trump cismou em fazer um rebranding do mamute militar. Pretende ressuscitar a denominação Departamento de Guerra por ato executivo.

— Todo mundo adora lembrar nosso histórico de vitórias incríveis quando o Pentágono tinha esse nome — explicou, com a lógica que lhe é própria. — Defesa soa muito defensivo, precisamos de mais ataque. Departamento de Guerra soa melhor.

O titular da pasta, Pete Hegseth, de apenas 45 anos e melenas televisivas, já se intitula secretário de Guerra nas plataformas sociais.

— Para nós, palavras, nomes e títulos importam. Vamos TORNAR A AMÉRICA LETAL NOVAMENTE — postou, com a originalidade de um trumpista raiz.

Em entrevista à Fox News, emissora em que se tornou personalidade midiática como comentarista, explicou:

— Queremos criar um etos de guerreiros no Pentágono (trocar burocratas de uniforme por combatentes de guerra), gente que sabe como trucidar o inimigo.

Alguém deve ter-lhe soprado o pitaco proferido pelo general George Patton em 1943, citado na revista The Atlantic, segundo o qual nenhum idiota jamais venceu uma guerra indo morrer por seu país — ele a vence fazendo outro pobre idiota morrer pelo país dele.

Por ora, ainda vigora a limitação constitucional à mudança antes de sua aprovação pelo Congresso. Mas Trump pode autorizar o uso paralelo do novo nome, assim como passou a usar a denominação “Golfo da América” (no lugar do tradicional Golfo do México) em todos os documentos de governo. Sem falar no custo de imprimir a marca de sua mais recente obsessão com nomenclaturas. A troca do nome em todas as placas, prédios, documentos, selos, brasões, medalhas, uniformes, etiquetas, publicações e instalações do Pentágono mundo afora ultrapassaria de longe os oito dígitos — em dólar. Na era Joe Biden, antecessor de Trump, a mudança de nome de apenas seis bases militares que homenageavam heróis confederados custou US$ 60 milhões, segundo levantamento do portal Axios. Dinheiro jogado fora com a posse de Pete Hegseth, que reverteu tudo ao estado original. No caso atual, a troca seria pantagruélica. O Departamento de Defesa emprega cerca de 1,3 milhão de militares ativos ou quase 3 milhões de pessoas, somando integrantes da Guarda Nacional, reservistas e civis. Dispõe de pelo menos 750 instalações militares mundo afora (120 só no Japão), e o rebranding de tudo isso retrataria a megalomania do autor da ideia.

Sem falar que Trump é autodeclarado candidato ao Nobel da Paz, honraria que combinaria pouco com a instituição de um presidente de guerra. Tampouco avançou um átimo para um cessar-fogo na Ucrânia, nem levanta um só dedo para cortar a máquina israelense de moer palestinos em Gaza.

À primeira vista, a troca de nome do departamento federal que consome mais de 12% dos gastos do governo não deverá afetar sua autoridade legal nem sua estrutura organizacional. É na retórica da mudança que reside o veneno. A intensificação do uso da Guarda Nacional como força de ordem doméstica, a caça e deportação desenfreadas de imigrantes, estudantes e estrangeiros indesejados em território americano, somadas a ataques frontais contra vozes dissonantes do próprio país, podem sugerir um futuro Departamento de Guerra dedicado, também, a combater inimigos internos. A militarização — ou “miliciarização” — dos agentes do ICE, o temido Departamento de Imigração e Alfândega, que não se identificam, nada explicam, usam máscaras no rosto e operam ao arrepio da lei (mas em nome dela), é um mau presságio.

Na juventude, Trump conseguiu dispensa médica para se evadir do serviço militar que despejou uma geração inteira no front vietnamita. Talvez por isso fantasie o que é estar numa guerra. Líderes tão imaturos são perigosos.

O voto da barata no chinelo

Indaga um leitor: por que, na eleição de Donald Trump, a barata votou no chinelo? A pergunta resume a perplexidade de milhões com o fato de que latinos, negros, mulheres brancas (negras, não) ajudaram a instalar no poder a sua Nêmesis, entidade de vingança e ressentimento, fonte de terror e medo. E votaram cientes do paradoxo temerário, desde sempre transparente nas ameaças do autocrata-laranja.


A questão amplia-se até nós quando pesquisas recentes atestam a existência de um "bolsonarismo-raiz" de 12% no eleitorado (Instituto Ideia). Nenhuma surpresa em 26%, de não-bolsonaristas, que votam na direita. A persistência da "raiz", porém, é tão intrigante quanto os milhões simbolizados pela barata. Após exposição a céu aberto da quinta-coluna antipatriótica, o clã ex-presidencial, o réu Bolsonaro mantém-se cabo eleitoral da direita. De cada ato de traição, vexame nenhum repercute na "raiz" e seus rizomas: doença autoimune, "mente defensiva, como um condomínio fechado" (Luis Fernando Veríssimo).

No conceito de classe social e suas diferenças, nascido da racionalidade da produção, não cabe explicação razoável para a insanidade extremista emergente das máquinas de desamparo e solidão. É mais delírio de pensamento, ao modo da distorção barroca (uma perversão da forma) do que loucura como doença mental. Daí a figura do idiota, não como oligofrênico, mas sujeito de uma razão privada, distorcida.

Por mais inatual que seja a filosofia, dela partem sugestões para a iluminação do fenômeno, a saber, a idiotia como personagem conceitual (Gilles Deleuze e Félix Guattari em "O que é Filosofia?"). O idiota permitiria a inclusão na política dos indivíduos alienados da vida pública pelo elitismo de pensamento. Não exatamente o doido, portanto, mas o produto imbecilizado de uma relação difícil com o plano da existência. Na frase "a internet deu voz aos imbecis" (Umberto Eco) ressoa essa lógica. Imbecilidade, idiotia são estratégias de rejeição ao "penso, logo existo" em favor de verdades prontas e acabadas, os dogmas.

Dessa forma, uma cômoda ignorância torna-se motivo de orgulho pessoal e de ódio às ciências, artes e educação emancipadora.

Não significa que uma cultura elevada ou com grandes ideias sobre as contradições históricas tenham gerado um homem fraterno, aberto à diversidade. O nazismo contou com renomados intelectuais.

Himmler, o mentor dos campos de concentração, vangloriava-se de buscar métodos de matar que não ofendessem a tradição humanista. Sem mediação compreensiva, o sol do Iluminismo pode cegar, como hoje acontece com os sistemas de conhecimento e seus algoritmos impermeáveis às massas. O fechamento em dogmas religiosos e formas de vida regressivas funciona como autodefesa dos alienados. E grito de alerta: cristalizada em doença social, a idiotia faz o trânsito natural para as perversões facinorosas da extrema direita. Tonta de inseticida histriônico, a barata arrisca-se a atravessar o galinheiro ou vota no chinelo.

'Se morrermos, que seja na casa do Senhor'


Ramez Al-Souri mora na Igreja Ortodoxa de São Porfírio, na Cidade de Gaza.

Ele perdeu 12 pessoas na família, incluindo três de seus filhos, no mesmo local, em 19 de outubro de 2023, após um ataque aéreo israelense que teve como alvo a terceira igreja mais antiga ainda em uso — atrás apenas da Igreja da Natividade, em Belém, e a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém.

Ainda assim, o pai enlutado insiste em permanecer no local e não ser deslocado, apesar das ordens de evacuação emitidas recentemente pelo exército de Israel a todos os moradores da cidade.

"Estamos aqui, entre familiares, amigos, entes queridos. Juntos, enfrentamos todos os atos de violência a que fomos expostos desde o começo da guerra. As igrejas foram atacadas diretamente, o que provocou o martírio de muitos dos meus familiares, inclusive meus filhos", afirmou ao programa de rádio Middle East Diaries (Diários do Oriente Médio), da BBC.

"Falo com vocês apesar da minha doença, da minha dor e da perda dos meus filhos, porque as cenas de destruição sem precedentes nos bairros de Sabra e Zeitoun não são um bom presságio", afirmou.

Igreja de São Porfírio é uma das que abriga cristãos de Gaza

"Certamente, todos nós, como cristãos e deslocados na igreja, tememos que ela volte a ser atacada. Mas acataremos a decisão tomada pelo Conselho Supremo da Igreja para os Cristãos em Jerusalém de não sermos removidos da Cidade de Gaza."

Al-Souri enfatizou que a igreja é quem toma as decisões corretas para os cristãos, e que todos os membros da comunidade cristã estão comprometidos com as decisões eclesiásticas mais importantes tomadas pelo Patriarcado Ortodoxo Grego e o Patriarcado Latino em Jerusalém.

Ao fim de agosto, o exército israelense ordenou a evacuação da Igreja Ortodoxa Grega de São Porfírio e de seu complexo na Cidade de Gaza, segundo o jornal The Times of Israel.

Esses acontecimentos ocorrem enquanto o exército israelense se prepara para iniciar uma evacuação em grande escala de civis na Cidade de Gaza, como preparação para uma ofensiva militar mais ampla destinada a dominar a maior cidade da Faixa.

O padre Issa Musleh, porta-voz oficial do Patriarcado Grego Ortodoxo de Jerusalém, declarou que a decisão de não se deslocar foi tomada diretamente pelo patriarca Teófilos 3, patriarca de Jerusalém, de toda a Palestina e da Jordânia, e pelo patriarca Latino de Jerusalém.

O padre Musleh destacou que o comunicado de imprensa emitido por ambos os patriarcados tem como objetivo "prevenir o deslocamento dos cristãos em particular, e dos palestinos em geral, de Gaza", para frustar o que ele chamou de "tentativas israelenses de se apoderar da terra e varrer seus habitantes".

Os patriarcados Grego Ortodoxo e Latino de Jerusalém declararam, em um comunicado conjunto publicado em 26 de agosto que "abandonar a Cidade de Gaza e tentar fugir para o sul equivaleria a uma sentença de morte para eles".

Por essa razão, os religiosos decidiram ficar e continuar cuidando de todos os que permanecerem nos dois complexos.

O padre Musleh disse, em seu discurso, que "apesar da decisão do exército de Israel de expulsar os cristãos do Mosteiro de São Porfírio e da Igreja de Santa Porchina, o clero ortodoxo, junto com as comunidades cristãs, se negou categoricamente a sair, insistindo que seu dever era cuidar do povo palestino, já que esses mosteiros e igrejas acolhem palestinos deslocados, tanto muçulmanos quanto cristãos".

O clero ortodoxo decidiu, de forma unânime, permanecer nos mosteiros e igrejas para "frustrar o plano de deslocamento e preservar o valioso patrimônio herdado de seus pais e avós".

O padre Musleh descreveu a tentativa de expulsá-los de seus locais de culto como um "crime atroz contra a humanidade" e concluiu seu discurso dizendo:

"Acompanhamos de perto a situação porque estamos realmente preocupados com a situação em Gaza, mas, por mais difíceis que sejam as circunstâncias, não os abandonaremos. É a nossa decisão final."

Já o padre Abdulla July afirmou que "os cristãos na Palestina e no Oriente Árabe, em geral, não são seitas, mas parte integral do povo árabe palestino e dos povos árabes da região".

"Partindo dessa perspectiva, nós, como pastores, devemos ajudar os cristãos a sobreviver, porque a sobrevivência e perseverança são uma forma de resistência contra o objetivo que o exército israelense pretende impor, que é se apoderar da terra sem seu povo."

O padre July alertou que, sem os árabes cristãos na região, as igrejas e os mosteiros seriam meros museus e santuários para lamentar entre as ruínas, um povo deslocado.

Elias al-Jida, deslocado da igreja e membro do Conselho de Representantes da Igreja Ortodoxa Árabe de Gaza, destacou:

"Permanecer é uma realidade. A realidade é que há centenas de deslocados neste lugar que não podem ser abandonados, além de várias crianças com deficiência que não poderão ser transferidas se a decisão de deslocamento for implementada."

Segundo Al-Jilda, a maioria das pessoas que se encontram nos templos cristãos da Cidade de Gaza são mulheres, idosos e crianças com deficiência, que foram deslocados de suas casas há cerca de dois anos e buscaram refúgio nessas igrejas após destruição de seus lares.

"A igreja decidiu que não sairíamos daqui, porque é impossível ir e abandonar as pessoas, especialmente as pessoas com deficiência e os idosos. Não é nem religioso e nem humano deixá-los sozinhos para enfrentar o desconhecido. Isso equivale a uma sentença de morte", acrescentou.

Como cristão palestino, Al-Jilda afirmou que nunca considerou ir embora, porque se deslocar ao sul significaria partir para o desconhecido e para um mundo de perdas insuportáveis.

"Nascemos na Cidade de Gaza e estamos acostumados a viver aqui. Não conhecemos outro lar que não seja a Cidade de Gaza."

"Se a morte é inevitável, que seja dentro da igreja. Não escolhemos entre a vida e a morte, mas entre a morte e a morte."

Essa firmeza cristã em Gaza não representa apenas um repúdio ao deslocamento.

É uma mensagem clara ao mundo de que a presença cristã na Terra Santa é parte integrante do tecido social palestino e, que as igrejas não são meros edifícios, mas refúgios e símbolos da humanidade.

domingo, 7 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Não chega?

O mundo já foi por tempo demais um hospício

Friedrich Nietzsche

'Meu coração chora por Gaza'

Fadel al-Otol acompanha as notícias de sua cidade natal 24 horas por dia. "Meu coração chora por Gaza . Não sei que destino a aguarda", disse o renomado arqueólogo por telefone, de Genebra.

Ele conseguiu deixar a Cidade de Gaza há apenas alguns meses, mas, como muitos outros moradores de Gaza no exterior, vive grudado nas notícias de sua terra natal. O arqueólogo está profundamente preocupado com sua filha e família, bem como com os outros parentes que ficaram para trás. Ele também se preocupa com os inúmeros sítios arqueológicos que tentou preservar nas últimas décadas, enquanto o ataque israelense à Cidade de Gaza, a maior cidade da Faixa de Gaza, continua.

"Gaza é uma terra de cultura e o berço da civilização", afirma. Mas não são apenas "as antiguidades de uma cidade que existe desde 3500 a.C. que estão sendo destruídas". Ele teme que bairros inteiros e sua história, como o antigo bairro de Zaytoun, em Gaza, com sua antiga mesquita Al Omari e duas igrejas, estejam sendo destruídos.

A Cidade de Gaza é uma das cidades mais antigas do mundo e tem uma longa história de conquistas e ocupação. Hoje, muitos temem que a invasão israelense desta outrora movimentada metrópole mediterrânea possa destruí-la e levar ao deslocamento permanente de sua população.

Grandes áreas da Faixa de Gaza já estão demarcadas como "zonas vermelhas", que o exército israelense ordenou que os palestinos evacuassem. Segundo as Nações Unidas, mais de 80% da área não é mais acessível aos palestinos. Na quinta-feira, o exército israelense anunciou que agora controla 40% da Cidade de Gaza e pretende aumentar a pressão sobre o Hamas, considerado uma organização terrorista por Israel e outros países, incluindo os Estados Unidos, a União Europeia e alguns países muçulmanos. Seus ataques terroristas em 7 de outubro de 2023 desencadearam a atual campanha militar israelense. Agora, os militares estão atacando os últimos arranha-céus remanescentes da cidade.

Na Cidade de Gaza, Amjad Shawa, diretor da PNGO, a rede de ONGs palestinas, avalia a situação diariamente. "As pessoas estão enfrentando decisões impossíveis sobre para onde ir e quando partir", diz ele por telefone, enquanto uma forte explosão ecoa ao fundo.

Shawa e sua família foram deslocados para o sul no início da guerra, em outubro de 2023, quando Israel emitiu suas primeiras ordens de deslocamento. Eles só puderam retornar durante o breve cessar-fogo de janeiro.

"É um momento aterrorizante. Acho que é a pior situação pela qual Gaza já passou. Uma situação deplorável", disse ele, acrescentando que os ataques israelenses vinham de todas as direções. Nos últimos dias, o exército israelense intensificou seus ataques, em uma aparente tentativa de expulsar cerca de um milhão de moradores da cidade, antes de enviar tropas terrestres e avançar para os bairros do norte e do leste, destruindo mais casas ao longo do caminho.
Fome declarada em Gaza

Pelo menos 63.500 palestinos morreram, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, e muitos outros provavelmente estão soterrados sob os escombros. O número é do exército liderado pelo Hamas, mas organizações internacionais como a ONU o consideram confiável.

Um número crescente de grupos e especialistas em direitos humanos afirma que Israel está cometendo genocídio em Gaza, incluindo recentemente até autoridades europeias , como o vice-presidente da Comissão. Embora o Tribunal Internacional de Justiça (CIJ) ainda possa levar anos para emitir uma decisão formal sobre o assunto, em 2024 o tribunal decidiu que a alegação de que Israel cometeu atos em Gaza que violavam as Convenções de Genebra sobre genocídio era "plausível".

Enquanto isso, a situação continua a se deteriorar. Trabalhadores humanitários como Shawa dizem que fornecer ajuda se tornou quase impossível, embora cozinhas comunitárias ainda estejam funcionando — às vezes. "Temos capacidade muito limitada para ajudar, pois são principalmente ONGs nacionais trabalhando no local", disse ela.

Isso ocorre depois que o grupo de vigilância global contra a fome, o CPI, apoiado pela ONU, declarou uma situação de fome "totalmente provocada pelo homem" na província de Gaza no final de agosto, devido ao bloqueio israelense e às restrições prolongadas à distribuição de ajuda. Isso também torna a evacuação a pé extremamente difícil devido à exaustão, e ainda mais difícil para crianças, idosos ou pessoas com necessidades especiais.

Quase toda a população de Gaza foi deslocada, muitas vezes várias vezes. "Em termos de abrigo e coisas do tipo, não temos nada a oferecer às pessoas", disse Shawa. "Milhares de famílias estão nas ruas, sem nem mesmo barracas."

Nenhuma das opções é boa, conta Sham Mahmoud, mãe de dois filhos, à DW por telefone. Ela mora atualmente em um bairro no norte da Cidade de Gaza, depois de ter sido deslocada por um ano no sul. Ela não sabe para onde terão que se mudar em seguida. "Alugar uma casa no sul seria impossível", diz ela. "Meu marido não consegue pagar o aluguel, nem mesmo de um quarto individual, que custa pelo menos 1.000 shekels israelenses [US$ 297, 255 euros] por mês."

"Meus filhos vivem aterrorizados, especialmente à noite, com o som das explosões. Mas os bombardeios estão por toda parte, até mesmo no sul", disse o palestino de 30 anos. "Não quero expô-los ao perigo ou à morte."

Nas últimas semanas, muitos evacuaram áreas do norte a oeste da cidade, como Rimal, e montaram acampamentos ou construíram casas improvisadas. Antes da guerra, este bairro exclusivo, que faz fronteira com a longa costa mediterrânea de Gaza, abrigava vários hotéis e restaurantes. Nada resta de sua vibrante vida noturna, que servia de refúgio para as dificuldades após quase duas décadas de governo autoritário do Hamas e o fechamento rigoroso das fronteiras. Nem sua popular praia, agora repleta de barracas.

Não está claro o que acontecerá com aqueles que se recusarem a deixar a Cidade de Gaza. Alguns meios de comunicação israelenses sugerem que aqueles que permanecerem poderão ser vistos como combatentes e, portanto, alvos. Após quase dois anos de guerra, instalou-se uma sensação geral de desesperança e exaustão.

"Ficarei aqui na Cidade de Gaza o máximo que puder. Não quero voltar a viver numa tenda. Os bombardeios estão por toda parte, não há muita diferença", disse Ezzedine Mohammed à DW de lá. O homem de 41 anos foi deslocado à força com sua família para o sul da Faixa de Gaza quando a guerra começou. Eles retornaram ao norte em janeiro.

"A vida é aterrorizante em todos os sentidos. Todos os dias há morte, há medo da morte, e a destruição de lares continua", disse Mohammed.

Amjad Shawa concorda. "Gaza já é um cemitério para nossos entes queridos, nossas memórias e nossos sonhos", lamenta. "Pessoalmente, nunca desistirei. Gaza é Gaza para mim", disse ele. "Mas o que será da próxima geração, dessas crianças que suportaram tanto sofrimento que jamais deveriam ter experimentado?"

Para o arqueólogo Fadel al-Otol, não há dúvida de que ele quer retornar. Mas ele sabe que nada jamais será como antes. "Gaza será uma cidade triste mesmo se for reconstruída", diz ele. "Pedras podem ser reconstruídas, mas construir uma civilização leva muitos anos."

Pandemia de Covid-19: o julgamento que Jair Bolsonaro não enfrentou

Foram 693.853 mortos. Esse era o número de vítimas fatais da pandemia de Covid-19 no Brasil em 31 de dezembro de 2022, último dia do governo de Jair Bolsonaro (PL). Se os planos golpistas do ex-presidente o levaram para o banco dos réus do Supremo Tribunal Federal (STF), o mesmo não pode se dizer de seu comportamento negacionista durante a maior tragédia sanitária do século.

Nenhum dos crimes pelos quais o ex-presidente é acusado no julgamento iniciado na última terça-feira, 2 de setembro, tem relação com as quase 700 mil mortes por Covid-19 que ocorreram ao longo de seu governo, e nenhuma das decisões adotadas pelo ex-mandatário na pandemia foi alvo de processo judicial, mesmo após especialistas e uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) apontarem uma série de crimes.

Relatório final da CPI da Covid, realizada em 2021, imputou dez crimes a Jair Bolsonaro;

Sete indicações de infrações do ex-presidente ao Código Penal também fazem parte do mesmo documento.

Para quem foi diretamente impactado pela condução de Bolsonaro durante a emergência sanitária, o julgamento por tentativa de golpe não aplaca a frustração pela impunidade ainda vigente em relação ao negacionismo pandêmico, não somente do político de extrema direita, mas de seus aliados e de outros atores públicos e privados.

“O ex-presidente está sendo acusado agora de outras questões, mas ele tem uma responsabilidade direta e decisória na condução da pandemia. Eu acho de suma importância que aqueles que foram negligentes, que muitas vezes zombaram da população, sejam responsabilizados”, afirma Rosângela Silva, presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico Brasil), que destaca a permanência da inação do Estado brasileiro em relação às vítimas fatais e com sequelas, mesmo após a troca de governo.

Servidora pública da área de saúde, Silva foi infectada pelo vírus em 2020, mesmo ano em que perdeu o pai, em decorrência da doença.


Do início da pandemia até o final da gestão Bolsonaro, o Brasil registrou quase 3,3 mil mortes a cada um milhão de habitantes, a 16ª pior taxa do mundo entre países com mais de 1 milhão de habitantes, segundo a organização Our World in Data. Se o Brasil tivesse se mantido na média mundial, o número de mortos no país teria sido quase quatro vezes menor, com mais de 500 mil vidas poupadas.

“Houve uma estratégia sistemática e coordenada de disseminação da doença no Brasil”, afirma Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e pesquisadora do Centro de Pesquisas em Direito Sanitário (Cepedisa) da USP, que ainda em 2021 traçou uma linha do tempo do comportamento do governo federal na pandemia.

“Se existisse uma investigação, tenho certeza que nós chegaríamos a centenas de pessoas envolvidas nessa estratégia federal de disseminação da Covid-19”, diz a pesquisadora, que ressalta a permanência do impacto na área saúde do comportamento negacionista do governo Bolsonaro, inclusive em relação às vacinas.

A falta de responsabilização de Jair Bolsonaro e seus aliados não foi por falta de tentativa. A CPI da Covid-19, que durou entre março e outubro de 2021, justamente no auge da pandemia, imputou ao ex-presidente uma extensa lista de crimes. Epidemia com resultado morte, infração de medida sanitária preventiva, charlatanismo, incitação ao crime, falsificação de documento particular, emprego irregular de verbas públicas, prevaricação, crimes contra a humanidade, violação de direito social e incompatibilidade com dignidade, honra e decoro do cargo.

O relatório do senador Renan Calheiros (MDB/AL), com quase 1.300 páginas, implicou Bolsonaro e outras 77 pessoas, além de duas empresas. A lista inclui os ex-ministros da Saúde Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga e servidores do alto escalão da pasta, além de outros ministros, parlamentares, médicos, empresários e jornalistas bolsonaristas.

O material foi entregue no final de outubro de 2021 ao chefe da Procuradoria-Geral da República (PGR), à época, Antônio Augusto Brandão de Aras. Parte dos apontamentos foi encaminhada para o Ministério Público Federal (MPF) nos estados e outra parte resultou em 10 petições apresentadas ao STF, envolvendo 35 dos implicados pela CPI, a maioria deles com foro privilegiado.

Augusto Aras, no entanto, afirmou que a CPI não havia entregado provas e as petições foram ignoradas. A vice-procuradora-geral naquele momento, Lindôra Araújo, requereu o arquivamento de nove das petições, alegando “ausência de justa causa para a deflagração de ação penal”. A outra petição segue sob sigilo no STF. Também não ocorreram condenações nas ações movidas nos estados.

Parte dos delitos apontados pela CPI contra Bolsonaro se enquadra como crimes contra a humanidade, e a própria PGR apontou que seria da jurisdição do Tribunal Penal Internacional, corte sediada em Haia, nos Países Baixos. Outras dez pessoas também foram implicadas pela CPI por crimes contra a humanidade, incluindo ex-ministros bolsonaristas e médicos da Prevent Senior. Houve denúncia ao órgão apenas em relação a Bolsonaro, mas o caso não avançou.

Outras ações apresentadas perante o STF contra agentes com foro privilegiado também não resultaram em processo judicial. Segundo um estudo do Cepedisa/USP, com dados de dezembro de 2023, das 58 petições do universo amostral, a PGR havia requerido arquivamento em 46. Ninguém foi condenado por nenhuma delas.

Para Calheiros, relator da Comissão, “as conclusões foram alicerçadas em provas irrefutáveis, que reuniram, nada mais, nada menos, que 9,4 terabytes de documentos”, mas Aras agiu para blindar Bolsonaro. “Tínhamos, à época, um procurador que é um prevaricador e sabotou o relatório final da CPI de olho em uma vaga do STF que nunca veio. A promiscuidade de Aras com o governo anterior era tanta que o delator Mauro Cid informou que ele tinha agendas secretas com o ex-presidente e passava dados sigilosos aos investigados”, afirma o senador alagoano.

Em março do ano passado, ele e outros senadores que participaram da CPI solicitaram ao atual procurador-geral da República, Paulo Gonet, o desarquivamento dos pedidos de indiciamento contra o ex-presidente Bolsonaro e outros agentes públicos e privados que foram implicados pelo relatório. “Nenhum crime contra a humanidade prescreve e, a todo momento, surgem fatos novos que podem reabrir as investigações e eliminar este cenário de impunidade”, diz o senador.

Até o momento, no entanto, não houve movimentação da PGR para desarquivar as petições. A Agência Pública questionou o órgão sobre o assunto, mas não houve resposta até a publicação.

O ex-procurador-geral da República também foi procurado pela reportagem por e-mail, mas não respondeu ao contato.

Para Deisy Ventura, do Cepedisa/USP, é difícil compreender “que não tenha havido a investigação desses crimes”. “Do ponto de vista técnico – não vou nem entrar na questão política –, os pedidos de arquivamento são absolutamente falhos, não se filiam às teses majoritárias do direito penal, não levam em consideração a legislação sanitária. Se prevalecer a técnica, a atual PGR vai tomar providência”, afirma.

Em outubro do ano passado, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e o Conselho Nacional de Saúde (CNS), ligados aos ministérios de Direitos Humanos e da Saúde, respectivamente, apresentaram à PGR uma nova representação criminal sobre o tema, ressaltando não haver nenhuma iniciativa de responsabilização criminal pelos crimes cometidos durante a pandemia em andamento na PGR.

“O número exorbitante de casos e óbitos por Covid-19 notificados, sem contar aqueles que não o foram, é notoriamente o resultado da política sanitária adotada pelo governo do ex-presidente da República Jair Messias Bolsonaro, que se posicionou na contramão das orientações da comunidade científica [e] da OMS [Organização Mundial da Saúde]”, afirma a peça.

A representação demanda que o órgão denuncie Bolsonaro, seu ex-ministro da Defesa Walter Braga Netto (atualmente preso por conta da tentativa de golpe) e os ex-ministros da Saúde Marcelo Queiroga e Eduardo Pazuello.

Segundo a assessoria de imprensa do CNS, a representação está em segredo de Justiça e não há informações sobre avanços. A Pública também questionou a PGR sobre a representação, mas não obteve resposta até a publicação.

“No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.

A frase dita por Jair Bolsonaro em pronunciamento transmitido em rede nacional, em 24 de março de 2020, minimizando os riscos da Covid-19, foi apenas uma entre as muitas manifestações negacionistas do então presidente. Ele também acumulou declarações “polêmicas”, chegando a afirmar que ‘não era coveiro’ e que o Brasil era ‘um país de maricas’.

Quando os casos e as mortes em decorrência da doença começaram a se acumular e as orientações de especialistas passaram a se centrar no isolamento social e no uso de máscara, Bolsonaro dobrou a aposta, se posicionou contra as medidas e defendeu que “a economia não pode parar”.

“Tivemos a propagação da ideia de imunidade de rebanho, como se a Covid-19 fosse uma doença muito branda, que não mataria pessoas e, por isso, elas poderiam se imunizar se expondo ao vírus – e quando se falava em imunidade de rebanho já se tinha evidência suficiente para saber que poderíamos ter reinfecções”, relembra Letícia Sarturi, pesquisadora de pós-doutorado do Centro de Estudos SoU_Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Além de criticar o isolamento social e praticamente todas as medidas de contenção preconizadas por especialistas, Bolsonaro e seu grupo político apostaram no “tratamento precoce”, um kit de medicamentos sem eficácia comprovada, que incluía cloroquina, ivermectina e azitromicina. Movimentos como o “Médicos pela Vida” e outros atores políticos, posteriormente implicados pela CPI da Covid, também se engajaram na defesa do “kit covid”.

Quando o desenvolvimento de vacinas se consolidou, o ex-presidente se aliou a movimentos antivacina, atrasando a compra e, depois, desincentivando a aplicação. Bolsonaro chegou a associar o uso da vacina à Aids e a “virar jacaré”.

O vasto material negacionista produzido por Jair Bolsonaro e seus aliados está reunido no Acervo da Pandemia de Covid-19, uma iniciativa do SoU_Ciência/Unifesp em parceria com a Avico Brasil, o Cepedisa/USP e os grupos de mídia independentes Medo e Delírio em Brasília e Camarote da República.

“O Acervo cumpre o papel de preservar a memória. Mas o mais importante é que haja responsabilização, porque só assim vamos conseguir prevenir que, em novas pandemias, o Estado ou agentes privados abusem do seu poder para criar uma estrutura de desinformação que acaba gerando a morte das pessoas, como a gente viu na pandemia de Covid-19”, afirma Sarturi.

Jair Bolsonaro não é a única figura que escapou de qualquer responsabilização pelas ilegalidades cometidas durante a pandemia. Vários dos implicados pela CPI não só saíram ilesos, como ingressaram na carreira política ou fortaleceram seu capital político.

O ex-ministro da Saúde, general da reserva Ricardo Pazuello, se safou de encarar o Judiciário por sua atuação durante a pandemia, e se tornou o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro em 2022. Concorrendo pelo PL de Bolsonaro, foi eleito com mais de 117 mil votos.

Na oposição do governo Lula, Pazuello fez poucos discursos no plenário da Câmara (nenhum em 2025) e aprovou somente um projeto, uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) apresentada em conjunto por deputados da situação e da oposição, que permite destinar emendas para catástrofes e emergências naturais. Boa parte de suas emendas não impositivas e proposições legislativas são relacionadas às Forças Armadas e à Segurança Pública.

A presença de Pazuello na Câmara passaria quase despercebida se até março do ano passado, seu gabinete não abrigasse um outro general da reserva, esse sim prestes a enfrentar a Justiça. Trata-se do ex-assessor de Bolsonaro e integrante dos “kids pretos” Mário Fernandes, que admitiu ter arquitetado plano para matar Lula (PT), o seu vice Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro do STF Alexandre de Moraes. Preso preventivamente, ele é parte do “núcleo 2” da trama golpista que está sendo julgada pelo STF. Até a investigação da tentativa de golpe vir à tona, Fernandes ocupava “cargo de natureza especial” no gabinete.

Outro ministro da Saúde de Bolsonaro também escapou de responsabilização por sua conduta na pandemia e tentou alçar voos políticos, mas obteve menos sucesso. Marcelo Queiroga se candidatou a prefeito de João Pessoa (PB) no ano passado, mas acabou derrotado no segundo turno. Pré-candidato a senador na Paraíba, ele é presidente estadual do PL.

Wilson Lima (União), governador do Amazonas durante a crise em Manaus, quando pessoas morreram por falta de oxigênio, chegou a ser denunciado, mas uma das ações foi rejeitada, enquanto a outra ainda aguarda julgamento de mérito, quatro anos depois do caso. Lima foi reeleito com mais de 56,6% dos votos no segundo turno.

Uma ação civil pública movida pelo MPF no Amazonas, por outro lado, conseguiu decisão parcialmente favorável. Em junho, a Justiça Federal determinou que a União, o estado do Amazonas e a prefeitura de Manaus investiguem as violações de direitos humanos ocorridas durante a crise e garantam, entre outras medidas, atenção médica e psicológica para as vítimas. O pedido de indenização de R$ 4 bilhões ainda aguarda julgamento.

Também buscaram carreira política as médicas Nise Yamaguchi, que fazia parte do “gabinete paralelo” que assessorava o governo Bolsonaro durante a pandemia, e Mayra Pinheiro (a “capitã Cloroquina”), que teve cargo no Ministério da Saúde e era uma das mentes por trás do TrateCov, aplicativo que o governo desenvolveu para estimular o uso do “tratamento precoce”. Ambas foram implicadas pela CPI.

Yamaguchi tentou se eleger deputada federal por São Paulo em 2022 pelo PROS e vereadora pelo União Brasil em 2024, mas não conseguiu se eleger.

Já Pinheiro, que havia tentado ser deputada federal e senadora no Ceará pelo PSDB em 2014 e 2018, buscou uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo PL em 2022. Recebeu mais de 71 mil votos e ficou com uma suplência, chegando a assumir o cargo por quatro meses, durante a licença do bolsonarista André Fernandes (PL).

Um dos mais destacados membros do “gabinete paralelo” e disseminadores de desinformação durante a pandemia, o deputado federal gaúcho Osmar Terra (PL) não apenas escapou de qualquer responsabilização como também conseguiu a reeleição para seu sexto mandato na Câmara, com mais de 103 mil votos.

Outro deputado federal implicado pela CPI, Ricardo Barros (PP/PR) saiu ileso e conseguiu a reeleição para a Câmara, com 107 mil votos. Barros foi citado no caso da vacina indiana Covaxin, alvo da CPI por conta de denúncias sobre pressões para liberar a transação, que não se efetivou.

Se Barros escapou de responsabilização, a empresa e alguns dos envolvidos na negociação de 20 milhões de doses da vacina indiana receberam punições cíveis ou administrativas.

A Precisa Medicamentos foi multada pela Controladoria-Geral da União (CGU) em R$ 3,8 milhões por fraude (depois reduzida para R$ 2,5 milhões). Dois servidores da alta gestão do Ministério da Saúde envolvidos no caso, Antônio Élcio e Roberto Ferreira Dias, foram destituídos de seus cargos pela CGU, mas escaparam de responsabilização criminal.

Os 11 empresários e médicos ligados ao plano de saúde Prevent Senior também não sofreram condenações até o momento. Segundo um dossiê, o plano teria forçado profissionais de saúde a utilizar o “kit covid” e feito testes sem autorização. A Prevent também foi alvo de CPI na cidade de São Paulo e de denúncia do MPF-SP, mas os processos não avançaram.

Não foram processados criminalmente os médicos e cientistas implicados pela CPI da Covid como disseminadores do “tratamento precoce”. A lista inclui o virologista Paolo Zanotto, o anestesista Luciano Dias Azevedo e o oftalmologista Antônio Jordão, do “Médicos pela Vida”. O movimento pró-“kit covid” coordenado por Jordão, porém, foi condenado em primeira instância a pagar indenização de R$ 55 milhões por danos coletivos.

O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) à época da pandemia, Mauro Ribeiro, implicado pela CPI por conta da postura do órgão na pandemia, não foi levado à Justiça e se elegeu novamente para a diretoria do CFM, desta vez como tesoureiro.

O relatório da CPI também cita o nome de outro médico, Anthony Wong, como um dos membros do “gabinete paralelo”. Wong, no entanto, não foi implicado pela CPI oficialmente porque morreu em janeiro de 2021. A causa da morte, ocultada por meses, até ser revelada pela revista piauí, foi Covid-19.

O tempo da Maria Cachucha não é para nós

Há dois homens em primeiro plano. Chapéus de abas na cabeça, rostos vincados. Mas são as duas mulheres logo atrás deles que chamam a atenção. Uma traz três dedos sobre a cara, a mão apoiando o rosto. A face, com a boca contorcida num esgar e os olhos encovados e sombrios, mal se vê. Toda ela está coberta por um manto escuro. Atrás dela há outra mulher, mais jovem, também ela toda tapada com o mesmo tipo de véu preto. Todas as outras mulheres que aparecem na imagem têm a cabeça coberta por lenços. Esta fotografia é de 1975 e foi tirada no Baleizão, no Alentejo, para mostrar uma das filas que se formaram por todo o País naquelas que foram as primeiras eleições livres da História.


Era muito fácil, sem o saber, dizer que a fotografia tinha sido tirada num qualquer país muçulmano. Mas foi assim que a democracia encontrou as mulheres em Portugal. Tapadas, caladas, sem direitos, submissas aos maridos ou aos pais. Diminuídas nas escolhas, tolhidas nas vontades, oprimidas nos desejos. Até ao 25 de Abril, as portuguesas não podiam viajar para fora do País sem a autorização do marido ou do pai (se fossem solteiras) e era mesmo possível terem de deixar de trabalhar, caso o marido ou o pai entendessem que elas não deviam fazê-lo. Bastava-lhes ir ao local de trabalho dizer que não concordavam com a contratação.

Não era uma singularidade portuguesa. Em 1951, Encarna tinha acabado de se casar, trabalhava e estava a montar casa. Um dia, dirigiu-se a um armazém para comprar um sofá. Escolheu o que lhe parecia melhor e que podia pagar e dirigiu-se ao balcão. Do outro lado, perguntaram-lhe se tinha autorização do marido para o comprar. “Como assim? Tenho aqui o dinheiro. Eu trabalho”, respondeu, incrédula. “É a lei”, ripostaram do outro lado. E era. A história está contada num episódio do podcast Un Tema Al Día”do jornal espanhol El Diário, que serve para lembrar que até 1975 as espanholas não podiam fazer grandes compras, abrir contas no banco ou trabalhar sem o que por lá se chamava “licencia marital”.

Esta semana, tropecei num vídeo, gravado talvez no final dos anos 70, inícios dos 80, em Itália, onde são entrevistados marido e mulher. O homem diz que a mulher deve obedecer-lhe e, apesar da muita insistência do entrevistador – que lhe lembra que há uma igualdade à luz da lei –, não consegue explicar porque é que a mulher deve aceitar e perdoar as infidelidades do homem, mas nunca pode acontecer o contrário. “É uma coisa que não se consegue digerir.”

Cada um sabe aquilo que consegue engolir. Mas a nós, mulheres, andaram milhares de anos a enfiar-nos coisas pela goela abaixo. E agora são os mesmos que querem convencer-nos da grande superioridade do Ocidente em relação aos direitos das mulheres que nos explicam (cheios de boas intenções) que “a energia da mulher não combina com o trabalho” ou que o feminismo nos oprime e persegue os homens (coitados). “Eu cá não sou feminista”, dizem algumas, horrorizadas com a ideia de um movimento que nunca retirou direitos a nenhum ser humano nem procura impor a superioridade de um género sobre o outro. Não, minhas senhoras, o movimento que faz isso chama-se “machismo”. O feminismo serve para outra coisa: serve para que haja direitos iguais, respeitando as diferenças, para que haja escolhas, para que cada um e cada uma encontre as formas de vida que mais lhe convêm, em liberdade e respeito mútuo.

Os mesmos que se horrorizam com a ideia da opressão do feminismo, os que querem “proteger as nossas mulheres”, os que se indignam com as burkas, ficam num silêncio estranho enquanto na televisão e nas redes sociais se repetem uma e outra vez as imagens de um homem enfurecido a espancar a mulher em frente ao filho de 9 anos, no Machico, na Madeira.

“Vi umas mensagens e fiquei cego, foi isso que aconteceu”, disse ele ao Diário de Notícias da Madeira. Os homens não digerem, já se sabe. E deixam de ver, diz este. São uns seres superiormente racionais, a quem a lei em tempos já serviu para isentar de culpas quando ficam tomados pelas emoções. Era o tempo dos crimes “passionais”. Lembram-se? Mas é ela quem, segundo as notícias, pode mesmo ficar cega para sempre, na sequência das agressões. E sou eu que não tenho estômago para ouvir os gritos da mulher e as súplicas da criança, enquanto ele a desfazia a murros e pontapés, porque viu “umas mensagens” e ficou “cego”.

Ainda cresci a ouvir a minha mãe contar como lhe mediam com uma régua o comprimento da saia no colégio ou a proibiam de usar calças. Lembro-me de como lhe foi ensinado que “uma senhora não anda pelos cafés”. E tenho muito presente o momento em que, com 13 ou 14 anos, entrei num café de uma freguesia rural de Gaia e os olhares masculinos me atingiram como pedras, até me fazerem recuar por aquele não ser o meu lugar.

O lugar das mulheres é conquistado a cada instante. Não nos é dado. Nem em casa, nem na rua, nem no trabalho. E o que é preciso não esquecermos é que cada uma das coisas que hoje nos parece normal, como o direito de viajar, trabalhar, gerir as próprias finanças e ter uma palavra nas escolhas que afetam as vidas dos nossos filhos, são conquistas ganhas a custo e sempre precárias.

A civilização ocidental viveu muito bem, durante milhares de anos, com o apagamento, a opressão, a exploração das mulheres. Se não tivessem sido as próprias a lutar para se libertarem, provavelmente ainda hoje estaríamos de lenços sobre a cabeça, fechadas em casa, sem outra função que não procriar e cuidar da casa e dos filhos. Temos de ter consciência disso para não nos deixarmos enredar nas conversas dos que querem salvar-nos de nós próprias ou dos que acham que estávamos mesmo a pedi-las.

Nós andamos a fazer corridas de obstáculos, para conseguir ser tudo o que se espera de nós. Mas a culpa não é do feminismo, que nos derrubou muros. É de um sistema feito para funcionar com todo o trabalho que fazemos em casa sem recebermos nada em troca, um sistema que precisa dos filhos que geramos, mas que nos priva de usufruir deles sem culpa. Um sistema que quer pôr-nos a consumir aquilo de que não precisamos e nos deixa sozinhas e exaustas a responder às exigências da família e do trabalho.

Do que precisamos é de dar as mãos umas às outras e deixar bem claro que aqui ninguém está disponível para andar para trás. O tempo da Maria Cachucha não é para nós. E também não será para as nossas filhas.

Salvou a sexta

Há dias que o trabalho é inaceitável, faz jus à etimologia da palavra, tortura, um mal-estar que atravessa a mente e ataca os músculos com indignação e desânimo. Mas as contas começam a levitar frente aos olhos, em uma realidade aumentada que nada tem de virtual. A sobrevivência e o medo, essa força incomum, impera. Ligo o computador. Quando o mundo acabar, só sobrarão baratas e boletos.

Vejo os melhores momentos da vitória da seleção brasileira contra o Chile. Vejo a despedida de Messi em jogos oficiais na Argentina. Vejo as semifinais femininas do US Open. O esporte é minha fofoca, minha página de celebridades onde pouco sei de vida pessoais, pois me concentro nesse itinerário de vitórias e derrotas que tanto ensinam sobre a vida e negócios bilionários. Escrevo um texto e vou à cozinha fazer mais um café.

Uma lâmpada queimada na sala desata um desejo de zelo, e mergulho no clichê de quem cuida de sua casa, cuida de si mesmo. Poderia concluir que é mais um adiamento, mas essa pequena ação aquece o peito, lavo a louça, troco os lixos e limpo o banheiro, cuja saudade de desinfetantes já envergonhava. Faço uma pesquisa e organizo uma entrevista domado por certa dopamina.

Acelero, termino o possível e sem arrependimento corro até o Cinesesc, tradicional cinema de rua na Augusta, em São Paulo. Fica até o dia 11 de setembro a 4a. edição do OJU – Rodas de Cinema Negro. Confira a programação em várias unidades do Sesc. Vou assistir a Três Obás de Xangô, documentário de Sérgio Machado sobre a amizade entre Carybé, Jorge Amado e Dorival Caymmi, suas artes, suas visões de mundo e seus abraços ao Candomblé.

A obra começa essa reflexão: “Liturgia significa o poder do povo enquanto consenso; política significa o poder do povo enquanto diferença. Os Obás de Xangô são um ordenamento político-litúrgico” Instituído por Mãe Aninha, o corpo de Obás (que os três amigos integravam) mediava a relação entre o terreiro de candomblé e a sociedade. Em trinta segundos, já oferece uma hora e meia de debate no boteco.

A narrativa entrelaça a história do Candomblé em Salvador, os personagens do Pelourinho presentes na obra de Jorge Amado, o mar, os barcos, os pescadores e o vento amados por Caymmi, essa cidade, essas pessoas, um mistura de invenção e fotografia da Bahia cujos traços de Carybé parecem sintetizar. Engraçadíssimas as troças entre os três. Amado repete algumas vezes: “A amizade é sal da vida”. Não vou me alongar, só recomendar o longa.

Tomei uma cerveja para me preparar para o filme seguinte: “Brasiliana: o musical negro que apresentou o Brasil ao mundo”, do fundamental Joel Zito Araújo. Dissidência do Teatro Experimental do Negro e capitaneada por Haroldo Costa (o Brasil precisa render mais homenagens a esse homem), a companhia de dança celebrava as matrizes africanas de nossa cultura e era composta por músicos e dançarinos negros. A música sob a batuta do maestro José Prates, outro ilustre desconhecido para mim. Destaque para os arranjos do musical Navio Negreiro.

Joel Zito fez uma escolha arriscada ao decidir celebrar a trajetória desses artistas. Ficam em segundo plano o racismo, a exploração da imagem sexualizada de homens e mulheres negras que resumiu o Brasil for Export, o enriquecimento do empresário Miécio Askanasy, que comandou o grupo após um racha com Haroldo Costa, em detrimento dos baixos salários dos artistas – só o café e o transporte eram garantidos, o que obrigava a almoços e jantares improvisados em quartos de hotel.

O diretor está mais preocupado em mostrar a história das pessoas, artistas que, apesar dos problemas, viram na companhia a oportunidade de uma vida, viajar, ao se apresentar e fazer sucesso nos palcos europeus entre os anos 1960 e 1970, deixando um Brasil que pouco valor e espaço oferecia para seus talentos. A obra apresenta também as idiossincrasias do machismo e do racismo para essa geração.

Os dois filmes salvaram minha sexta. Saí do Cinesesc ávido para pesquisar sobre tudo, ler mais Amado, ouvir mais Caymmi e José Prates. É isso que muitas vezes faz a Cultura, faz da busca um sentido para a vida.

Veredito sobre o futuro

Na trajetória de tentativas e de golpes executados que acossa o Brasil desde a inauguração da República, todos foram agraciados com o perdão. Por ato presidencial ou por negociação política avalizada pelo Congresso.

A hipótese de anistia agora ronda o julgamento de um ex-presidente e de parte da cúpula do governo de Jair Bolsonaro (PL), nela incluídos militares de altas e médias patentes.


Repetiremos a história ou colocaremos um ponto final naquele itinerário, sinalizando que daqui para frente tudo será diferente? Eis uma questão a ser sopesada por aqueles que se utilizam do argumento da página virada em nome de uma aludida pacificação.

A tese é compartilhada por uma minoria de desavisados e pela maioria dos mal-intencionados que se travestem de cordeiros no intuito de deixar aberta a porta para novas sedições. Vitoriosos, voltarão à refrega.

Perdoar os já condenados pelo 8 de Janeiro, mais os que vierem a ser sentenciados pela urdidura da trama, equivalerá a dizer-lhes que as instituições estavam erradas ao reagir com rigor, que fiquem à vontade para repetir, pois não damos valor ao Estado de Direito. Podem agredi-lo sem receio, porque aqui tudo haverá de ser como antes.

O pior é ver governadores que se acham aptos a presidir a República envolvidos num acordo que distorce o conceito de anistia, condicionando-o a acertos eleitorais de natureza puramente casuística. Defendem o perdão a Jair Bolsonaro em troca do apoio dele às suas candidaturas.

Posição em que se coloca o governador de São Paulo, na prática desmentindo as próprias palavras em prol da reeleição. Tarcísio de Freitas (Republicanos) promete indulto ao ex-presidente caso ascenda ao Planalto, mas antes disso precisaria passar pelo crivo do eleitorado que talvez não concorde com essa bandeira na campanha.

O trato com Bolsonaro pode lhe garantir a simpatia da direita extremada, mas implicará compromissos que devem lhe custar a rejeição dos moderados, sem os quais ninguém ganha a eleição.

sábado, 6 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


O 'patriota'


O patriotismo é o último refúgio do patife

Samuel Johnson

Anistia deve dar com os burros n'água

Nossa Câmara assinará atestado de burrice se pautar e aprovar a anistia a Bolsonaro e outros mandantes do golpe de Estado antes que o Supremo termine o julgamento. Julgar anistia antes de julgar crime é confissão precoce de culpa.

Esses deputados da direita agem atabalhoadamente, como vândalos. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) já disse que não vai pautar essa discussão por ser inconstitucional. Ou seja, a tal anistia ampla, geral e irrestrita para os golpistas não teria como chegar a ser votada no Senado. O adulto no parquinho acabará sendo Alcolumbre.

Além de agir contra os interesses da população – o que já se tornou um hábito –, a Câmara também seria desmoralizada pelo Supremo se aprovasse essa anistia, por atentar contra a Constituição. Não temos como exigir do Centrão um compromisso com a democracia, só com a blindagem e o fisiologismo.

Nem se pode exigir coerência do governador de SP, Tarcísio de Freitas, que joga todas as fichas e seu futuro político numa lealdade oportunista a Bolsonaro. O tal “Punhal verde e amarelo” pode virar bumerangue. Um haraquiri. Tarcísio buscava o disfarce da moderação, mas acabou rasgando as vestes.

Se existe um mérito na cruzada de Tarcísio, é revelar ao Brasil quem é quem. Ao deixar São Paulo para trás e correr a Brasília, alardeando que seu primeiro ato como eventual presidente da República seria perdoar o atual réu, o governador compra o apoio da família Bolsonaro. E se coloca como cúmplice de uma tentativa de golpe. Quem votar nele em 2026 já sabe o que pode esperar. Não tem isentão aí.

Procuro encarar o alvoroço por esse ângulo positivo. Hugo Motta ganhou um presentão. Está nas suas mãos colocar o Poder Legislativo no lado certo da História. Caso ceda à pressão, recue de sua posição anterior e coloque em votação a anistia, simultaneamente ao julgamento no Supremo, a Câmara se arrisca a afundar junto.

Porque até as defesas dos generais confirmam a tentativa de golpe. A estratégia dos advogados dos réus é culpar o mensageiro Cid, anular a delação e se desvencilhar de Bolsonaro. O ex-presidente se tornou uma companhia tóxica para militares e ministros.

Ninguém tem nada a ver com medidas de exceção nem minutas golpistas nem planos para assassinar Lula e Moraes. Tudo não teria passado de desejos íntimos expressos em mensagens entre camaradas. Foram só conjecturas, pensamentos, estudos. E Bolsonaro foi “dragado” para a trama, segundo seu advogado.

A turba acampada em Brasília estava ali só para desfrutar de churrascos gratuitos e do ar seco da Capital. Os extremistas aproveitaram as viagens aos EUA, de Bolsonaro e do ministro da Justiça, para fazer uma farra na Praça dos Três Poderes. Depredaram os Palácios do Planalto, do Supremo e do Congresso.

Quem diz que “tentativa de golpe não é crime” ignora deliberadamente um fato. Se o golpe de estado tivesse acontecido, não estaríamos aqui falando nada, escrevendo nada, julgando nada. Os golpes bem sucedidos instalam ditaduras que censuram, silenciam, torturam, matam, exilam.

O Poder Legislativo não legisla nada em ditaduras. Motta e Alcolumbre não vão querer essa mancha na biografia. A tentativa de aprovar em regime de urgência uma anistia ampla e irrestrita na Câmara, confrontando o Judiciário antes do fim do julgamento no STF, vai dar com os burros n’água. E saberemos quem são os burros.

Ruth de Aquino


A nossa bela língua bastarda

O linguista português Marco Neves tornou-se conhecido ao publicar nas redes sociais vídeos sobre a origem das palavras, e outros temas ligados aos mistérios da nossa língua comum. Marco publicou um número impressionante de ensaios sobre os mesmos temas, entre os quais “Queria, já não quer? — Mitos e disparates da língua portuguesa”. Na quarta-feira passada conversei com ele, em Lisboa, durante um evento organizado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, APEL, para refletir sobre o “futuro da leitura”.

O crescimento da extrema direita portuguesa trouxe para as ruas uma guerra cultural que não poupa nada nem ninguém. Também a língua se transformou num confuso campo de batalha. Os ultranacionalistas portugueses mostram-se muito irritados com a suposta “colonização” do seu país pelo português brasileiro. Ficam desorientados, e ainda mais enraivecidos, sempre que alguém lhes chama a atenção para as inúmeras contradições — como podem orgulhar-se da força global da língua, e, ao mesmo tempo, desprezar as variedades brasileiras, sabendo-se que há hoje 212 milhões de brasileiros e apenas dez milhões de portugueses?

Quem quer que ame e se interesse pela língua portuguesa tem de se interessar por todas as suas variedades e por todos os seus sotaques.


Sempre que, num dos seus vídeos, Marco Neves chama a atenção para a etimologia árabe de uma determinada palavra — na nossa língua há largos milhares de palavras originárias do árabe — surgem logo dezenas de pessoas tentando negar essa evidência, ou acusando-o de “ser obcecado” pelos arabismos.

Existem mesmo extremistas defendendo que se “depure” a língua portuguesa de arabismos, brasileirismos e africanismos. Gostaria de escutar essas pessoas tentando falar português sem recorrer a todas essas palavras. Deve ser algo parecido com jogar tênis sem utilizar raquetes — e nem as mãos.

Cada palavra da nossa língua tem uma história para contar. Histórias de encontros, de viagens, de violências, de paixões, de amores e desamores. Cada uma dessas histórias constitui um capítulo de um vasto romance, no qual estão representados todos os povos do vasto mundo onde se vem inventando a língua portuguesa — além dos crioulos de matriz portuguesa. Esses crioulos guardam verdadeiras joias linguísticas, arcaísmos, palavras que se extinguiram no português do Brasil e de Portugal, mas que ali se mantêm vivas, vibrantes e luminosas.

Num episódio recente, uma deputada do partido de extrema direita Chega, Rita Cid Matias, queixou-se no Parlamento de que nas escolas portuguesas há cada vez mais crianças com nomes árabes.

— O seu nome também é árabe — lembrou-lhe uma outra deputada. — Cid vem do árabe Said. Significa chefe.

Rita negou, horrorizada. O episódio diz muito sobre a pobreza intelectual da extrema direita. Seria até bom se estes extremistas concretizassem o propósito de expurgar do seu português todos os arabismos, africanismos e brasileirismos — ficariam mudos!

Oportunidade única

Jair Bolsonaro é um veterano frequentador de tribunais superiores na figura de réu. Ele está acostumado ao fugaz estrelato, seguido de acusações e julgamentos. Ainda militar, jovem, impetuoso, ameaçou jogar bombas na escola militar que frequentava por causa de baixos salários. Criou muita confusão, fez discursos em porta de quartel, tentou sublevar seus colegas de farda e acabou punido pela instituição com prisão e, posteriormente, julgamento, que deveria conduzi-lo à expulsão do Exército. Fez acordo com oficiais graduados e conseguiu ser colocado na reserva remunerada com a patente de capitão. Essa vida militar, rápida e tumultuada, o levou a descobrir as delícias da política.


Ele percebeu que, apesar de sua loucura, era ouvido por militares e civis desgostosos com os rumos do país. Há malucos de todos os calibres soltos na sociedade brasileira. Uns até juram receber o espírito do saudoso Ulysses Guimarães. E há quem acredite. Mas Bolsonaro ficou no plano terreno. Ele disse que os militares deveriam ter matado mais de 30 mil brasileiros para restabelecer a ordem dentro do país. Fez reiterados elogios à tortura e aos torturadores. Pleiteou o retorno do país aos tempos de AI-5 e da censura da imprensa. E foi um presidente da República singular: não defendeu seu povo na pandemia. Dizia que a covid era uma "gripezinha", que não o afetaria porque tinha perfil de atleta. E, além disso, não tinha nada a ver com a morte de milhares de brasileiros porque "não era coveiro".

Como um cometa da política, atravessou o cenário brasileiro e desapareceu no horizonte das medidas judiciais. Um dia as provocações contra os poderes institucionais deixaram de assumir o caráter irresponsável para se transformar em pesadelo. Conheceu os limites. Disse que não mais cumpriria decisões judiciais. Mas terminou sentado no banco dos réus. Naquele instante, o Brasil deixou de pertencer ao reino do realismo fantástico da América Latina para emergir como sociedade razoavelmente organizada sob o controle das leis. Bolsonaro é um veterano frequentador de tribunais. Para ele, é apenas mais um degrau no caminho do esquecimento. A Ação Penal 2.668 abre uma nova página na história do país. Tempo novo, desconhecido e ainda por ser explorado. As reações serão fortes, a começar pela obtusidade do atual governo norte-americano.

Ele está inelegível, preso em casa e com tornozeleira eletrônica à espera da condenação. Haverá esforço contrário, de forças políticas que se sentem prejudicadas pelo simples fato de que, no Brasil, existem leis que devem ser aplicadas a qualquer cidadão. Há uma antiga tentativa de votar algum tipo de anistia para os que participaram do movimento de 8 de janeiro de 2023. Quem esteve por perto viu que não foi um passeio no parque, nem uma brincadeira de bêbados no domingo. Foi algo profissional, como o arrombamento do teto do Congresso, que dá acesso ao Salão Verde e foi alcançado graças a uma escada de cordas. Coisa de profissional. Antes ocorreu o episódio da bomba no Aeroporto de Brasília. Os fatos foram largamente expostos. Fugir deles é covardia. Eles são de uma clareza capaz de afetar até olhos menos sensíveis.

O fato é que a República brasileira é, desde seu primeiro dia, uma cascata de crises institucionais, que sempre opuseram civis a militares. Há uma sucessão incrível de golpes, tentativas de golpes e contragolpes ao longo dos anos republicanos no Brasil. O sistema presidencialista é uma fábrica de crises. A Ação Penal 2.668 abre a perspectiva única de que haja uma inflexão na história política do Brasil e o país se encontre com suas realidades. A presença de generais de alta patente no banco dos réus é mais relevante que o eventual destino de Jair Bolsonaro. O país, afinal, coloca-se diante de seu verdadeiro problema institucional. Militares e civis precisam aprender a conviver no mesmo ambiente político.

O inimigo brasileiro é externo. Não está dentro do país, embora sempre existam traidores de todos os matizes. A moderna questão nacional é o tráfico internacional de drogas, armas e de dinheiros suspeitos que frequentam altas rodas da sociedade. O acordo entre União Europeia e Mercosul, que está na véspera da aprovação, terá força para modificar e modernizar a economia dos países do continente. Nele há uma cláusula democrática. O Brasil precisa se livrar do passado autoritário e se preparar para o novo tempo, que exige do governante decisões rápidas e precisas. A missão da geração que realizou a Constituinte de 1988 se concluiu no julgamento da Ação Penal 2.668. A partir de agora, há um mundo inexplorado à frente dos políticos brasileiros. Compete a eles aproveitar ou não essa oportunidade única.