quarta-feira, 14 de maio de 2025
Pepe Mujica - Para Pensar
*É hora de o crescimento econômico não ser o único parâmetro com que medimos a vida humana. É preciso começar a pensar em paradigmas que tenham a ver com a felicidade do homem.
*Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade.
*Ocupamos o templo com o deus mercado que nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade. O deus mercado organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos frustração, pobreza e autoexclusão.
*Todos os seres vivos são feitos para lutar pela vida: desde uma erva daninha, um sapo e até nós. Chega-se à conclusão de que isso serve para dar sabor à vida, pois, como dizia o velho Aristóteles: tudo o que a natureza faz é bem feito.
*Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.
*Tem gente que adora o dinheiro, se envolve em política, se eles adoram tanto o dinheiro que se envolvam no comércio, na indústria, deixem eles fazerem o que quiserem, não é pecado, mas política é para servir ao povo. Não é que alguém possa ser altruísta; não existe ser vivo que seja altruísta. Existe uma certa quantidade dentro de nós que nos ordena que sejamos assim. A vida é um jogo de solidariedade e fraternidade. Os políticos de alto escalão estão interessados no afeto do povo, algo que se transmite, que não tem preço e que não se compra no supermercado.
Currículo de hostilidades
As classes governantes têm nas suas mãos as tropas, o dinheiro, a escola, a religião, a imprensa. Nas escolas atiçam nas crianças o patriotismo, com histórias que descrevem o seu povo como o melhor de todos os povos e sempre justo; atiçam nos adultos esse mesmo sentimento por meio de espetáculos, solenidades, monumentos, de uma imprensa patriótica mentirosa; acima de tudo, atiçam o patriotismo praticando toda a espécie de injustiças e brutalidades contra outros povos, despertam neles a hostilidade contra o seu próprio povo e usam depois essa hostilidade para excitar a hostilidade no seu próprio povo.
Lev Tolstoi, "Os Últimos Escritos"
Lev Tolstoi, "Os Últimos Escritos"
'Almas digitais' e os limites da IA
Uma irmã enlutada decidiu recriar, digitalmente, o seu irmão falecido e trazê-lo “de volta à vida” para falar no julgamento do homem acusado de tê-lo assassinado. Durante mais de dois anos, reuniu conteúdos em vídeos, fotografias e áudios. Com a ajuda da inteligência artificial (IA), criou um vídeo e projetou-o naquele que, sem dúvida, foi um dos dias mais difíceis da sua vida.
O que poderia ser apenas mais um episódio da série britânica Black Mirror aconteceu, na verdade, na semana passada, num tribunal dos Estados Unidos. Christopher Pelkey, veterano do Exército norte-americano, assassinado num episódio de fúria no trânsito em 2021, “falou” diretamente ao seu assassino durante a audiência de sentença, por meio de um vídeo gerado por IA.
A iniciativa foi da sua irmã, Stacey Wales, que, em busca de uma forma de expressar a perda, decidiu criar uma cópia digital do irmão. Com o apoio do marido e de um amigo, produziram um vídeo em que Pelkey, na sua versão artificial, expressa perdão ao assassino, Gabriel Horcasitas, e reflete sobre a tragédia que os uniu.
No vídeo, Pelkey diz: “Noutra vida, provavelmente poderíamos ter sido amigos. Acredito no perdão e em Deus que perdoa. Sempre acreditei, e continuo a acreditar.” A apresentação emocionou o juiz Todd Lang, que afirmou: “Adorei este vídeo gerado por IA. Obrigado por isso. Senti que foi genuíno.” Em consequência, o juiz sentenciou Horcasitas a 10 anos e meio de prisão por homicídio culposo, excedendo a recomendação da promotoria, que era de nove anos e meio.
A defesa, no entanto, manifestou preocupações quanto ao uso do vídeo, argumentando que a representação digital de Pelkey poderia ter influenciado indevidamente a decisão judicial. O advogado de Horcasitas afirmou não ter sido informado previamente sobre o vídeo e que este será um dos pontos abordados no recurso, segundo reportagens publicadas pela CNN e pela BBC.
Como pesquisadora, dediquei os últimos cinco anos a estudar a intersecção entre o luto, a morte e as tecnologias digitais. Na minha tese de doutorado, analisei os impactos e os riscos do uso de tecnologias emergentes para recriar a identidade de pessoas falecidas. Entrevistei pessoas em processo de luto e perguntei-lhes se aceitariam conversar com um ente querido já falecido por meio de IA. Surpreendentemente, os entrevistados responderam afirmativamente, mesmo que com alguma relutância inicial.
Segundo o filósofo italiano Luciano Floridi, professor na Universidade de Oxford, os dados digitais são como órgãos informativos, uma extensão do nosso corpo biológico. Ou seja, fotografias, vídeos, áudios e todos os dados que produzimos são parte da nossa existência e devem ser preservados mesmo após a morte. E não devem ser alterados, duplicados ou distribuídos sem o nosso consentimento. Para Floridi, infringir a privacidade informativa de uma pessoa é uma violação da sua dignidade humana. Tal como os vivos, também os mortos têm direito à propriedade e ao controle da sua “viagem ao mundo”.
Sob uma perspectiva filosófica, ninguém tem o direito de recriar a identidade digital de alguém que já morreu. Delegar a uma IA o poder de falar em nosso nome representa um risco grave de distorção da nossa narrativa de vida. Por mais fiel que seja a reprodução da voz, imagem, gestos ou palavras, nunca será realmente a pessoa. A existência online após a morte levanta questões antigas sobre a busca pela imortalidade, quando, através de avatares e mind uploads, é nos dada a possibilidade de ser imortais. No entanto, nenhuma tecnologia conseguirá (ainda) representar genuinamente a “alma e a essência”, ou que a sua crença vai determinar como norma.
Só quem perdeu alguém sabe o quão doloroso é lidar com a ausência de quem amamos. Ainda assim, o uso de tecnologias para recriar identidades digitais póstumas deve ser tratado com extrema cautela e requer reflexão profunda. A inovação tecnológica pode oferecer consolo, como a possibilidade de “falar” com um ente querido falecido, mas os seus impactos ainda estão a ser investigados pela ciência, desde a psicologia ao direito.
Vivemos em um cenário de incerteza. E mesmo gestos aparentemente inofensivos, como publicar imagens de um ente querido nas redes sociais, podem ir contra a vontade da própria pessoa, se ela estivesse viva. Talvez não gostasse daquela imagem, talvez nunca quisesse ser exposta. Qual é, afinal, o limite do direito das pessoas em luto ao gerirem os legados digitais de quem partiu?
Por outro lado, o caso de Christopher Pelkey levanta sérias questões éticas e legais quanto ao uso de tecnologias emergentes no sistema judicial. Especialistas alertam para o risco de manipulação emocional e desigualdades, sobretudo, se tais ferramentas estiverem acessíveis apenas a quem tem mais recursos.
E eu iria mais longe: será que o verdadeiro Pelkey perdoaria o seu assassino? O que ele sentiria? Ou aquele vídeo refletia apenas o desejo da sua família? Nunca saberemos.
Por mais mórbido ou desconfortável que seja falar sobre a morte nas culturas ocidentais, é cada vez mais importante que deixemos claro, junto dos nossos familiares e amigos, o que desejamos que seja feito com os nossos legados digitais depois da nossa partida. É uma conversa que nunca queremos ter, mas de todos os seres vivos, nós, seres humanos, são os únicos que sabem que vão morrer.
Ionara Silva
O que poderia ser apenas mais um episódio da série britânica Black Mirror aconteceu, na verdade, na semana passada, num tribunal dos Estados Unidos. Christopher Pelkey, veterano do Exército norte-americano, assassinado num episódio de fúria no trânsito em 2021, “falou” diretamente ao seu assassino durante a audiência de sentença, por meio de um vídeo gerado por IA.
A iniciativa foi da sua irmã, Stacey Wales, que, em busca de uma forma de expressar a perda, decidiu criar uma cópia digital do irmão. Com o apoio do marido e de um amigo, produziram um vídeo em que Pelkey, na sua versão artificial, expressa perdão ao assassino, Gabriel Horcasitas, e reflete sobre a tragédia que os uniu.
No vídeo, Pelkey diz: “Noutra vida, provavelmente poderíamos ter sido amigos. Acredito no perdão e em Deus que perdoa. Sempre acreditei, e continuo a acreditar.” A apresentação emocionou o juiz Todd Lang, que afirmou: “Adorei este vídeo gerado por IA. Obrigado por isso. Senti que foi genuíno.” Em consequência, o juiz sentenciou Horcasitas a 10 anos e meio de prisão por homicídio culposo, excedendo a recomendação da promotoria, que era de nove anos e meio.
A defesa, no entanto, manifestou preocupações quanto ao uso do vídeo, argumentando que a representação digital de Pelkey poderia ter influenciado indevidamente a decisão judicial. O advogado de Horcasitas afirmou não ter sido informado previamente sobre o vídeo e que este será um dos pontos abordados no recurso, segundo reportagens publicadas pela CNN e pela BBC.
Como pesquisadora, dediquei os últimos cinco anos a estudar a intersecção entre o luto, a morte e as tecnologias digitais. Na minha tese de doutorado, analisei os impactos e os riscos do uso de tecnologias emergentes para recriar a identidade de pessoas falecidas. Entrevistei pessoas em processo de luto e perguntei-lhes se aceitariam conversar com um ente querido já falecido por meio de IA. Surpreendentemente, os entrevistados responderam afirmativamente, mesmo que com alguma relutância inicial.
Segundo o filósofo italiano Luciano Floridi, professor na Universidade de Oxford, os dados digitais são como órgãos informativos, uma extensão do nosso corpo biológico. Ou seja, fotografias, vídeos, áudios e todos os dados que produzimos são parte da nossa existência e devem ser preservados mesmo após a morte. E não devem ser alterados, duplicados ou distribuídos sem o nosso consentimento. Para Floridi, infringir a privacidade informativa de uma pessoa é uma violação da sua dignidade humana. Tal como os vivos, também os mortos têm direito à propriedade e ao controle da sua “viagem ao mundo”.
Sob uma perspectiva filosófica, ninguém tem o direito de recriar a identidade digital de alguém que já morreu. Delegar a uma IA o poder de falar em nosso nome representa um risco grave de distorção da nossa narrativa de vida. Por mais fiel que seja a reprodução da voz, imagem, gestos ou palavras, nunca será realmente a pessoa. A existência online após a morte levanta questões antigas sobre a busca pela imortalidade, quando, através de avatares e mind uploads, é nos dada a possibilidade de ser imortais. No entanto, nenhuma tecnologia conseguirá (ainda) representar genuinamente a “alma e a essência”, ou que a sua crença vai determinar como norma.
Só quem perdeu alguém sabe o quão doloroso é lidar com a ausência de quem amamos. Ainda assim, o uso de tecnologias para recriar identidades digitais póstumas deve ser tratado com extrema cautela e requer reflexão profunda. A inovação tecnológica pode oferecer consolo, como a possibilidade de “falar” com um ente querido falecido, mas os seus impactos ainda estão a ser investigados pela ciência, desde a psicologia ao direito.
Vivemos em um cenário de incerteza. E mesmo gestos aparentemente inofensivos, como publicar imagens de um ente querido nas redes sociais, podem ir contra a vontade da própria pessoa, se ela estivesse viva. Talvez não gostasse daquela imagem, talvez nunca quisesse ser exposta. Qual é, afinal, o limite do direito das pessoas em luto ao gerirem os legados digitais de quem partiu?
Por outro lado, o caso de Christopher Pelkey levanta sérias questões éticas e legais quanto ao uso de tecnologias emergentes no sistema judicial. Especialistas alertam para o risco de manipulação emocional e desigualdades, sobretudo, se tais ferramentas estiverem acessíveis apenas a quem tem mais recursos.
E eu iria mais longe: será que o verdadeiro Pelkey perdoaria o seu assassino? O que ele sentiria? Ou aquele vídeo refletia apenas o desejo da sua família? Nunca saberemos.
Por mais mórbido ou desconfortável que seja falar sobre a morte nas culturas ocidentais, é cada vez mais importante que deixemos claro, junto dos nossos familiares e amigos, o que desejamos que seja feito com os nossos legados digitais depois da nossa partida. É uma conversa que nunca queremos ter, mas de todos os seres vivos, nós, seres humanos, são os únicos que sabem que vão morrer.
Ionara Silva
A aversão da extrema direita pela Universidade
A exemplo do que ocorreu com o nazismo e o fascismo, na década de 1930, e com o bolsonarismo e o trumpismo entre os anos de 2017/2018 e 2021/2022, as instituições acadêmicas continuam suscitando um desafio para governos autoritários e iliberais, como se vê no início do segundo mandato de Donald Trump, à frente do governo dos Estados Unidos.
Por um lado, Trump vê as universidades como ameaça aos valores tradicionais, motivo pelo qual seu governo só decidiu oferecer subsídios e financiar as atividades de ensino e pesquisa às universidades que se submetem à sua visão de mundo. Para se ter ideia do alcance dessa medida, em 2023 foram repassados pelo governo Biden a essas universidades US$ 60 bilhões para atividades de pesquisa e desenvolvimento – e, das 25 instituições que mais obtiveram recursos federais, 16 passaram a ser investigadas após o governo Trump tê-las acusado de desprezar os tais valores tradicionais.
Por outro lado, o governo Trump e a extrema direita que o apoia têm consciência de que precisam das inovações propiciadas pelas instituições acadêmicas para assegurar aquilo que ele persegue: o domínio absoluto nos campos da tecnologia, da economia e da força militar. No entanto, é possível conciliar as duas coisas? Se a resposta for afirmativa, como promover essa conciliação?
Esta discussão não é nova. A história moderna e contemporânea sempre evidenciou como as relações entre Estado e financiamento de universidades – especialmente no que se refere à formação de quadros técnicos e desenvolvimento da ciência e tecnologia de ponta – tendem a converter saber eficaz muitas vezes é sinônimo de poder econômico e político. Também mostrou como, num determinado momento, a extrema direita americana alargou o conceito de inimigo político interno, com o objetivo de incluir nele professores e intelectuais com pensamento crítico.
Os Estados Unidos, por exemplo, obtiveram a hegemonia econômica, política e militar em termos mundiais quando passaram a atrair as elites científicas europeias depois da primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918. E, a partir do momento em que sucessivos governos americanos se tornaram um dos principais financiadores de pesquisa científica, inovação e desenvolvimento, eles impuseram a chamada pax americana a partir do final da segunda guerra mundial, ocorrida entre 1939 e 1945.
Agora, num período da história contemporânea em que os problemas sociais, econômicos e políticos mais importantes exigem a produção e o processamento de um alto grau de conhecimento científico inovador, o mundo assiste a ofensiva da extrema direita liderada por Trump contra a autoridade científica, à liberdade de expressão e à liberdade acadêmica, chegando até mesmo ao ponto de tentar intervir no Departamento de Estudos sobre Oriente Média da Harvard University e de tentar obrigá-la a reformular o processo seletivo de estudantes estrangeiros para impedir a matrícula de alunos hostis aos valores americanos.
Trata-se de uma iniciativa que retira isenções fiscais, subsídios e financiamentos às universidades americanas que se negam a ser submissas. E a justificativa – baseada em falsidades e mentiras – é que essas universidades não estariam combatendo o antissemitismo, seriam palco de um ativismo excessivamente progressista e enfatizariam a tríade diversidade, a equidade e a inclusão, pondo assim o ativismo à frente do conhecimento e, por consequência, deixando de formar “melhores cidadãos”.
Na realidade, o que se está vendo são dois fatos preocupantes – ambos ligados ao que a filósofa Hannah Arendt chamava de mentiras públicas. De um lado, destaca-se o risco de erosão da autoridade do establishment científico americano contemporâneo. De outro, a corrosão dos próprios os valores políticos americanos, baseados numa democracia multicultural.
Quando governantes mentirosos mascaram a verdade que desejam esconder paras se manter no poder, dizia Arendt, eles vão muito além do oportunismo e da má fé. Isto porque, quando têm sucesso, destroem tradições sociais, políticas e jurídicas, o que lhes abre caminho para transferir o poder democrático para a política, para o exército e para a massa alienada que os apoia.
Mentiras são mais clamantes à razão do que a realidade, pois os políticos mentirosos sabem, de antemão, o que a plateia ou o auditório quer ouvir. “A negação deliberada da verdade dos fatos – isto é, a capacidade de mentir – e a faculdade de mudar os fatos – a capacidade de agir – estão interligadas, devendo sua existência a uma mesma fonte. Trata-se da imaginação”, dizia Arendt. Publicado há quase seis décadas, seu ensaio sobre a mentira na política prima por uma preocupante atualidade. Um dos meios mais eficazes de deter o avanço da mentira e da manipulação da verdade quase sempre passa pela independência e pela autoridade dos espaços acadêmicos – concluía. Por isso, fica claro porque políticos como Trump e sua versão tupiniquim, Jair Bolsonaro, jamais hesitaram em investir contra o saber científico, contra as liberdades de expressão e de pesquisa, contra os processos vigentes de contratação de docentes e de seleção de estudantes e contra a autonomia universitária em didática e administrativa.
Para eles, o desprezo pela ciência e a compulsão pela mentira são as armas que têm para ascender ao poder e tentar nele se manter, independentemente do que dizem as constituições de seus países. São os meios que utilizam para reduzir a autonomia universitária e acabar com a auto-organização da ciência. São os instrumentos de que se valem ao destinar recursos financeiros apenas às instituições de ensino superior que substituem debates abertos – mas teórica e analiticamente bem fundamentados – pelo princípio do magister dixit e pelo culto ao líder.
Para aqueles de minha geração que entraram na universidade na segunda metade dos anos de 1960, nada do que vemos hoje nos Estados Unidos surpreende. Naquela época, a ditadura brasileira cassava, torturava e exilava professores e intervinha nos programas acadêmicos, vetando determinados autores. Para aqueles de minha geração que seguiram a carreira universitária, também não surpreendeu o lançamento, pelo Instituto General Villas Bôas, meses antes das eleições presidenciais de 2022, de um “projeto de nação” formulado por militares vinculados ao bolsonarismo, no qual pregavam a luta contra “a ideologização radical do ensino”, o combate “práticas comportamentais distorcidas que afetam as atividades de ensino superior, prejudicando a formação do cidadão” e mudanças no “processo de escolha de reitores das universidades públicas com o objetivo de restringir as influências de grupos de interesses políticos, ideológicos e outros que não voltados ao bem comum”.
A verdade é que não há muita diferença entre o que Trump vem fazendo nos Estados Unidos, comprometendo o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da inovação, e o que já ocorreu no Brasil por iniciativas decorrentes de golpes militares. É assim que a extrema-direita trata a universidade: como um locus em que os horizontes de vida e as ideias de alunos e professores são encarados pelo poder político dominante tão perigosos que não têm direito a salvaguardas constitucionais.
Se na década de 1930 nazistas e fascistas promoviam queimas públicas de livros como parte da sua política de perseguição a intelectuais e acadêmicos, na década de 2020 a extrema direita promove a asfixia financeira da universidade.
Por um lado, Trump vê as universidades como ameaça aos valores tradicionais, motivo pelo qual seu governo só decidiu oferecer subsídios e financiar as atividades de ensino e pesquisa às universidades que se submetem à sua visão de mundo. Para se ter ideia do alcance dessa medida, em 2023 foram repassados pelo governo Biden a essas universidades US$ 60 bilhões para atividades de pesquisa e desenvolvimento – e, das 25 instituições que mais obtiveram recursos federais, 16 passaram a ser investigadas após o governo Trump tê-las acusado de desprezar os tais valores tradicionais.
Por outro lado, o governo Trump e a extrema direita que o apoia têm consciência de que precisam das inovações propiciadas pelas instituições acadêmicas para assegurar aquilo que ele persegue: o domínio absoluto nos campos da tecnologia, da economia e da força militar. No entanto, é possível conciliar as duas coisas? Se a resposta for afirmativa, como promover essa conciliação?
Esta discussão não é nova. A história moderna e contemporânea sempre evidenciou como as relações entre Estado e financiamento de universidades – especialmente no que se refere à formação de quadros técnicos e desenvolvimento da ciência e tecnologia de ponta – tendem a converter saber eficaz muitas vezes é sinônimo de poder econômico e político. Também mostrou como, num determinado momento, a extrema direita americana alargou o conceito de inimigo político interno, com o objetivo de incluir nele professores e intelectuais com pensamento crítico.
Os Estados Unidos, por exemplo, obtiveram a hegemonia econômica, política e militar em termos mundiais quando passaram a atrair as elites científicas europeias depois da primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918. E, a partir do momento em que sucessivos governos americanos se tornaram um dos principais financiadores de pesquisa científica, inovação e desenvolvimento, eles impuseram a chamada pax americana a partir do final da segunda guerra mundial, ocorrida entre 1939 e 1945.
Agora, num período da história contemporânea em que os problemas sociais, econômicos e políticos mais importantes exigem a produção e o processamento de um alto grau de conhecimento científico inovador, o mundo assiste a ofensiva da extrema direita liderada por Trump contra a autoridade científica, à liberdade de expressão e à liberdade acadêmica, chegando até mesmo ao ponto de tentar intervir no Departamento de Estudos sobre Oriente Média da Harvard University e de tentar obrigá-la a reformular o processo seletivo de estudantes estrangeiros para impedir a matrícula de alunos hostis aos valores americanos.
Trata-se de uma iniciativa que retira isenções fiscais, subsídios e financiamentos às universidades americanas que se negam a ser submissas. E a justificativa – baseada em falsidades e mentiras – é que essas universidades não estariam combatendo o antissemitismo, seriam palco de um ativismo excessivamente progressista e enfatizariam a tríade diversidade, a equidade e a inclusão, pondo assim o ativismo à frente do conhecimento e, por consequência, deixando de formar “melhores cidadãos”.
Na realidade, o que se está vendo são dois fatos preocupantes – ambos ligados ao que a filósofa Hannah Arendt chamava de mentiras públicas. De um lado, destaca-se o risco de erosão da autoridade do establishment científico americano contemporâneo. De outro, a corrosão dos próprios os valores políticos americanos, baseados numa democracia multicultural.
Quando governantes mentirosos mascaram a verdade que desejam esconder paras se manter no poder, dizia Arendt, eles vão muito além do oportunismo e da má fé. Isto porque, quando têm sucesso, destroem tradições sociais, políticas e jurídicas, o que lhes abre caminho para transferir o poder democrático para a política, para o exército e para a massa alienada que os apoia.
Mentiras são mais clamantes à razão do que a realidade, pois os políticos mentirosos sabem, de antemão, o que a plateia ou o auditório quer ouvir. “A negação deliberada da verdade dos fatos – isto é, a capacidade de mentir – e a faculdade de mudar os fatos – a capacidade de agir – estão interligadas, devendo sua existência a uma mesma fonte. Trata-se da imaginação”, dizia Arendt. Publicado há quase seis décadas, seu ensaio sobre a mentira na política prima por uma preocupante atualidade. Um dos meios mais eficazes de deter o avanço da mentira e da manipulação da verdade quase sempre passa pela independência e pela autoridade dos espaços acadêmicos – concluía. Por isso, fica claro porque políticos como Trump e sua versão tupiniquim, Jair Bolsonaro, jamais hesitaram em investir contra o saber científico, contra as liberdades de expressão e de pesquisa, contra os processos vigentes de contratação de docentes e de seleção de estudantes e contra a autonomia universitária em didática e administrativa.
Para eles, o desprezo pela ciência e a compulsão pela mentira são as armas que têm para ascender ao poder e tentar nele se manter, independentemente do que dizem as constituições de seus países. São os meios que utilizam para reduzir a autonomia universitária e acabar com a auto-organização da ciência. São os instrumentos de que se valem ao destinar recursos financeiros apenas às instituições de ensino superior que substituem debates abertos – mas teórica e analiticamente bem fundamentados – pelo princípio do magister dixit e pelo culto ao líder.
Para aqueles de minha geração que entraram na universidade na segunda metade dos anos de 1960, nada do que vemos hoje nos Estados Unidos surpreende. Naquela época, a ditadura brasileira cassava, torturava e exilava professores e intervinha nos programas acadêmicos, vetando determinados autores. Para aqueles de minha geração que seguiram a carreira universitária, também não surpreendeu o lançamento, pelo Instituto General Villas Bôas, meses antes das eleições presidenciais de 2022, de um “projeto de nação” formulado por militares vinculados ao bolsonarismo, no qual pregavam a luta contra “a ideologização radical do ensino”, o combate “práticas comportamentais distorcidas que afetam as atividades de ensino superior, prejudicando a formação do cidadão” e mudanças no “processo de escolha de reitores das universidades públicas com o objetivo de restringir as influências de grupos de interesses políticos, ideológicos e outros que não voltados ao bem comum”.
A verdade é que não há muita diferença entre o que Trump vem fazendo nos Estados Unidos, comprometendo o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da inovação, e o que já ocorreu no Brasil por iniciativas decorrentes de golpes militares. É assim que a extrema-direita trata a universidade: como um locus em que os horizontes de vida e as ideias de alunos e professores são encarados pelo poder político dominante tão perigosos que não têm direito a salvaguardas constitucionais.
Se na década de 1930 nazistas e fascistas promoviam queimas públicas de livros como parte da sua política de perseguição a intelectuais e acadêmicos, na década de 2020 a extrema direita promove a asfixia financeira da universidade.
terça-feira, 13 de maio de 2025
Ninguém ousa chamar pelo nome essa aristocracia?
Parte de nossa elite especializou-se na arte da simbiose com o Estado. Quando não está no poder, está ao lado dele. E quando perde uma eleição, ganha uma licitação. O país é um exemplo de como a herança de uma elite aristocrática pode atravessar gerações sem jamais sair de cena.
Diferentemente das elites europeias, que aprenderam a ceder espaço sob a pressão de revoluções e guilhotinas, a brasileira adaptou-se aos novos tempos refinando seu controle. Tornou-se banqueira, tecnocrata, lobista e acionista do próprio privilégio. Tornou-se tudo, mas raramente republicana. Mudou de nome sem mudar sua natureza.
É uma dinastia não coroada, pois o trono é o próprio Estado. Um Estado que, longe de ser um árbitro neutro, costuma atuar como um sócio discreto das castas do topo, oferecendo infraestrutura legal, institucional e legitimação ideológica para garantir sua longevidade.
O primeiro pilar que a sustenta é a riqueza herdada, que assegura a concentração de capital nas mãos de um número ínfimo de famílias, tornando o poder econômico menos resultado de acúmulo produtivo e mais expressão de um traço genético.
Trata-se de um capital que não precisa disputar o presente, porque já venceu no passado. E, ao ser transmitido aos herdeiros, torna-os vencedores por antecipação, financiados por um passado que continua lucrando no presente, sem que seja feito um esforço equivalente.
O segundo são os mecanismos institucionais de autopreservação. Um sistema composto por engrenagens jurídicas, tributárias e políticas, desenhadas para proteger esse patrimônio. Isso se materializa, por exemplo, em subsídios para os ricos e em um imposto sobre heranças muito abaixo da média da OCDE.
Por fim, há o encobrimento ideológico das regalias da nobreza... e, acreditem, talvez seja o mais insidioso dos pilares. Trata-se de um discurso meritocrático sedutor, capaz de transformar vantagens em façanhas pessoais, e trajetórias previsíveis em sinais de genialidade.
É uma narrativa bem organizada, que vende raras histórias de sucesso como se fossem acessíveis a todos, enquanto normaliza o favorecimento de quem nasceu no topo. No entanto, ao romantizar o sucesso dos bem-nascidos, ela oculta o roteiro hereditário que a perpetua.
Permite que herdeiros encenem o papel de "self-made men", ocultando que suas vitórias começaram muito antes do ponto de partida dos demais. É um encobrimento ideológico muito eficiente, que ensina os de cima a parecer merecedores e os de baixo a acreditar nisso.
Romper esse ciclo exige mais do que indignação episódica. Exige uma revisão corajosa das engrenagens institucionais que nauralizam a reprodução de dinastias. Trata-se de reconhecer que a hereditariedade camuflada de competência não é uma distorção de nosso país, mas uma parte essencial de seu funcionamento.
Enquanto isso não ocorrer, o Brasil continuará sendo uma República de papel. Na prática, seguirá operando como um regime hereditário disfarçado, onde o berço pesa mais que o mérito. Onde poucos governam, muitos obedecem e poucos ousam chamar essa aristocracia pelo nome.
Este texto é uma continuação da série que tenho feito sobre as elites e uma homenagem à música "Beasts of No Nation", de Fela Kuti.
Diferentemente das elites europeias, que aprenderam a ceder espaço sob a pressão de revoluções e guilhotinas, a brasileira adaptou-se aos novos tempos refinando seu controle. Tornou-se banqueira, tecnocrata, lobista e acionista do próprio privilégio. Tornou-se tudo, mas raramente republicana. Mudou de nome sem mudar sua natureza.
É uma dinastia não coroada, pois o trono é o próprio Estado. Um Estado que, longe de ser um árbitro neutro, costuma atuar como um sócio discreto das castas do topo, oferecendo infraestrutura legal, institucional e legitimação ideológica para garantir sua longevidade.
O primeiro pilar que a sustenta é a riqueza herdada, que assegura a concentração de capital nas mãos de um número ínfimo de famílias, tornando o poder econômico menos resultado de acúmulo produtivo e mais expressão de um traço genético.
Trata-se de um capital que não precisa disputar o presente, porque já venceu no passado. E, ao ser transmitido aos herdeiros, torna-os vencedores por antecipação, financiados por um passado que continua lucrando no presente, sem que seja feito um esforço equivalente.
O segundo são os mecanismos institucionais de autopreservação. Um sistema composto por engrenagens jurídicas, tributárias e políticas, desenhadas para proteger esse patrimônio. Isso se materializa, por exemplo, em subsídios para os ricos e em um imposto sobre heranças muito abaixo da média da OCDE.
Por fim, há o encobrimento ideológico das regalias da nobreza... e, acreditem, talvez seja o mais insidioso dos pilares. Trata-se de um discurso meritocrático sedutor, capaz de transformar vantagens em façanhas pessoais, e trajetórias previsíveis em sinais de genialidade.
É uma narrativa bem organizada, que vende raras histórias de sucesso como se fossem acessíveis a todos, enquanto normaliza o favorecimento de quem nasceu no topo. No entanto, ao romantizar o sucesso dos bem-nascidos, ela oculta o roteiro hereditário que a perpetua.
Permite que herdeiros encenem o papel de "self-made men", ocultando que suas vitórias começaram muito antes do ponto de partida dos demais. É um encobrimento ideológico muito eficiente, que ensina os de cima a parecer merecedores e os de baixo a acreditar nisso.
Romper esse ciclo exige mais do que indignação episódica. Exige uma revisão corajosa das engrenagens institucionais que nauralizam a reprodução de dinastias. Trata-se de reconhecer que a hereditariedade camuflada de competência não é uma distorção de nosso país, mas uma parte essencial de seu funcionamento.
Enquanto isso não ocorrer, o Brasil continuará sendo uma República de papel. Na prática, seguirá operando como um regime hereditário disfarçado, onde o berço pesa mais que o mérito. Onde poucos governam, muitos obedecem e poucos ousam chamar essa aristocracia pelo nome.
Este texto é uma continuação da série que tenho feito sobre as elites e uma homenagem à música "Beasts of No Nation", de Fela Kuti.
A pior distopia: quando ler e escrever viram luxos
Há poucos dias, foi noticiado um fato que, mesmo não sendo novo, é sempre digno de lamentação: cerca de um terço da população brasileira não tem acesso à escrita, à leitura e a cálculos básicos com uma qualidade mínima. O chamado analfabetismo funcional difere do analfabetismo, pois, no caso do analfabetismo funcional, as pessoas sabem ler e escrever, sendo que, no entanto, os atos de saber ler e saber escrever não ultrapassam a barreira de uma atividade meramente mecânica. Em outras palavras: as pessoas que se enquadram neste dado estatístico não exercem um domínio da leitura, da escrita e da matemática básica de modo que tais conhecimentos sirvam como ferramentas para que tais pessoas possam conduzir suas vidas cotidianas. É como se faltasse algo que não poderia, em hipótese alguma, faltar.
Diante da tarefa, aqui assumida, de buscar as raízes do problema e de apontar para possibilidades, gostaria de começar com um exemplo verídico de um professor que, ao longo de seus estudos na pós-graduação, acabou por se deparar com a obra de Antonio Gramsci, o famoso escritor de Cadernos do Cárcere e Cartas do Cárcere. Pelos títulos, podemos deduzir que o autor foi preso. Ele foi preso, ficou detido ao longo do regime fascista que assolou a Itália e, durante o tempo na prisão, produziu sua obra. A começar pelo fato de o professor estudioso sequer conseguir pronunciar o nome do pensador italiano, posso acrescentar o fato de o docente não ter uma vida nada compatível com o que pregava o intelectual que ele dizia estudar, na medida em pequenos escândalos carimbam o currículo do aspirante a intelectual gramsciano. Trata-se do típico caso da pessoa que lê sem entender o que está lendo. É uma leitura mecânica, rasa, sem a devida compreensão daquilo que o texto nos fornece. Isso é o analfabetismo funcional. Por sorte, é um caso excepcional, um caso que jamais representaria o universo docente brasileiro. No entanto, uma pessoa com tais requisitos formando centenas de outras pessoas é uma bomba-relógio para a sociedade.
Com isso, essa coluna possui a seguinte ossatura: em primeiro lugar, tentarei explicar de que modo o analfabetismo funcional avançou, considerando causas históricas, sociais e territoriais. Em segundo lugar, algumas possibilidades serão oferecidas. É de modo antecipado que afirmo ser impossível combater o problema sem que políticas que busquem a igualdade sejam efetivadas pelo ou /para o povo.
Considerando as causas históricas, em primeiro lugar, é importante lembrar que a educação escolar não era para todos. A educação formal era bem restrita em termos quantitativos. Poucas eram as pessoas por ela atendidas. Em termos espaciais, é seguro afirmar que as escolas emergem, no caso brasileiro, como fenômeno urbano. Até 1940, a maior parte da população vivia no campo, isso deve ser dito. Além de uma restrição espacial propriamente dita, a instituição escolar atendia a poucas crianças, fato que só passa a sofrer uma reversão por volta dos anos 1930. Aí passamos a contar com uma ideia de povo e uma ideia de escola responsável por formar o povo que passa a se identificar, pela via da educação formal, com uma ideia de nação.
Essa restrição socioespacial – a má distribuição de escolas em um país gigantesco com maioria populacional vivendo no campo, além de uma escola que então desempenhava a função de formar as elites – leva alguns historiadores da educação a afirmar que houve um descompasso entre uma escola que deveria manter certa qualidade pedagógica e uma escola que, então, passava a receber mais e mais pessoas. Isto não quer dizer que o povo, ao adentrar a escola, gerou uma queda de qualidade. Isso tem a ver com um sistema escolar que, por questões de planejamento, de concepções de políticas públicas e por uma visão elitista de cidadania não se projetou para que as massas fossem bem recebidas como sempre mereceram ser. Indo além, não é necessário dizer que muitos dos que conseguiam adentrar o espaço escolar para estudar não saíam com os estudos concluídos. Havia peneiras internas, como o exame de admissão. A regra era não concluir os estudos.
Para além da questão das desigualdades territoriais e de renda, não se pode esquecer que a função da escola – e a forma como tal função foi desempenhada ao longo do tempo, mudou. A instituição escolar não se dissocia da sociedade, pelo contrário. Cabe a ela sistematizar, a partir da contribuição das variadas ciências e campos do conhecimento, a vida e o cotidiano dos e /das estudantes. É aí que reside a história da educação; é sobre essas mudanças que a história da educação se debruça.
Historicamente, os dados não são animadores: temos um sistema escolar que se abriu às massas há menos de um século e, ainda que “aberto”, várias eram as barreiras que acabavam por excluir a maioria. O primeiro resultado, então, é um país escravocrata em que as camadas mais pobres naturalizam a exclusão escolar, que deve ser entendida como a total falta de acesso à escola ou como uma falta parcial decorrente das dificuldades impostas.
Nos dias atuais, temos um neoliberalismo sádico – que vem para afetar os que já eram afetados – que, dentro de sua psicopatia mercantil, busca transformar tudo que há de mais básico em mercadoria e em lucro (para alguns poucos). Essa mercantilização totalitária acaba por esgarçar, ou mesmo romper, vínculos básicos. É fundamental ter ciência de que qualquer vínculo precisa de tempo para que seja constituído. A partir do momento em que o tempo vira mercadoria, os vínculos acabam por sofrer rupturas. A fluidez, a velocidade, o trabalho (precário) por aplicativos, o mito do “faça seu horário”, tudo isso tira o tempo do vínculo. E qual a importância deste vínculo, afinal? O que ele tem a ver com o analfabetismo funcional que presenciamos? O vínculo, no fim das contas, significava uma breve fiscalização, por parte dos adultos, para ver se as crianças e jovens estavam estudando e aprendendo algo na escola.
Como fazer com que os índices melhorem, como fazer com que as pessoas leiam e escrevam bem, se muitos sites de notícias indicam o tempo previsto de leitura de determinada reportagem? Já não basta o livro ter se tornado artigo de luxo? Então a pessoa decide se vai ler, não pelo assunto ser interessante, mas pelo menor tempo de leitura? Soma-se a isso a inteligência artificial. Soma-se a isso, também, uma extrema direita apaixonada pela estupidez e que busca colocar toda e qualquer instituição produtora e difusora de conhecimento em situação de descrédito.
Todos esses apontamentos mostram que o caminho para resolver tal questão não é fácil. Foram muitos anos de destruição, privação e exclusão, o que exige, também, muitos anos de reconstrução. Estímulo à leitura, obrigatoriedade de bibliotecas boas em todas as escolas com amplos horários de funcionamento e com profissionais qualificados, estímulo à escrita e ao uso da criatividade, políticas públicas voltadas à valorização e divulgação da literatura nacional, um sistema público de ensino que acolha a criança e sua família para além de afazeres burocráticos e obrigatórios. Enfim, muitas são as possibilidades. Porém, tal empreitada não deve ser assumida por quem ora para pneu, nem para quem rumina ódio e nem para quem acha que está fazendo muito ao andar, no auge de sua cafonice, com a bandeira do Brasil sobre seu paletó puído.
Sobre os 29%: não é apenas uma questão de índice, é uma questão de dignidade, de tentar reconstituir uma ideia de povo e de gente, que em tempos de neoliberalismo, individualismo e uma falsa, muito falsa sensação de liberdade, acabou por desaparecer.
Giam C. C. Miceli
Diante da tarefa, aqui assumida, de buscar as raízes do problema e de apontar para possibilidades, gostaria de começar com um exemplo verídico de um professor que, ao longo de seus estudos na pós-graduação, acabou por se deparar com a obra de Antonio Gramsci, o famoso escritor de Cadernos do Cárcere e Cartas do Cárcere. Pelos títulos, podemos deduzir que o autor foi preso. Ele foi preso, ficou detido ao longo do regime fascista que assolou a Itália e, durante o tempo na prisão, produziu sua obra. A começar pelo fato de o professor estudioso sequer conseguir pronunciar o nome do pensador italiano, posso acrescentar o fato de o docente não ter uma vida nada compatível com o que pregava o intelectual que ele dizia estudar, na medida em pequenos escândalos carimbam o currículo do aspirante a intelectual gramsciano. Trata-se do típico caso da pessoa que lê sem entender o que está lendo. É uma leitura mecânica, rasa, sem a devida compreensão daquilo que o texto nos fornece. Isso é o analfabetismo funcional. Por sorte, é um caso excepcional, um caso que jamais representaria o universo docente brasileiro. No entanto, uma pessoa com tais requisitos formando centenas de outras pessoas é uma bomba-relógio para a sociedade.
Com isso, essa coluna possui a seguinte ossatura: em primeiro lugar, tentarei explicar de que modo o analfabetismo funcional avançou, considerando causas históricas, sociais e territoriais. Em segundo lugar, algumas possibilidades serão oferecidas. É de modo antecipado que afirmo ser impossível combater o problema sem que políticas que busquem a igualdade sejam efetivadas pelo ou /para o povo.
Considerando as causas históricas, em primeiro lugar, é importante lembrar que a educação escolar não era para todos. A educação formal era bem restrita em termos quantitativos. Poucas eram as pessoas por ela atendidas. Em termos espaciais, é seguro afirmar que as escolas emergem, no caso brasileiro, como fenômeno urbano. Até 1940, a maior parte da população vivia no campo, isso deve ser dito. Além de uma restrição espacial propriamente dita, a instituição escolar atendia a poucas crianças, fato que só passa a sofrer uma reversão por volta dos anos 1930. Aí passamos a contar com uma ideia de povo e uma ideia de escola responsável por formar o povo que passa a se identificar, pela via da educação formal, com uma ideia de nação.
Essa restrição socioespacial – a má distribuição de escolas em um país gigantesco com maioria populacional vivendo no campo, além de uma escola que então desempenhava a função de formar as elites – leva alguns historiadores da educação a afirmar que houve um descompasso entre uma escola que deveria manter certa qualidade pedagógica e uma escola que, então, passava a receber mais e mais pessoas. Isto não quer dizer que o povo, ao adentrar a escola, gerou uma queda de qualidade. Isso tem a ver com um sistema escolar que, por questões de planejamento, de concepções de políticas públicas e por uma visão elitista de cidadania não se projetou para que as massas fossem bem recebidas como sempre mereceram ser. Indo além, não é necessário dizer que muitos dos que conseguiam adentrar o espaço escolar para estudar não saíam com os estudos concluídos. Havia peneiras internas, como o exame de admissão. A regra era não concluir os estudos.
Para além da questão das desigualdades territoriais e de renda, não se pode esquecer que a função da escola – e a forma como tal função foi desempenhada ao longo do tempo, mudou. A instituição escolar não se dissocia da sociedade, pelo contrário. Cabe a ela sistematizar, a partir da contribuição das variadas ciências e campos do conhecimento, a vida e o cotidiano dos e /das estudantes. É aí que reside a história da educação; é sobre essas mudanças que a história da educação se debruça.
Historicamente, os dados não são animadores: temos um sistema escolar que se abriu às massas há menos de um século e, ainda que “aberto”, várias eram as barreiras que acabavam por excluir a maioria. O primeiro resultado, então, é um país escravocrata em que as camadas mais pobres naturalizam a exclusão escolar, que deve ser entendida como a total falta de acesso à escola ou como uma falta parcial decorrente das dificuldades impostas.
Nos dias atuais, temos um neoliberalismo sádico – que vem para afetar os que já eram afetados – que, dentro de sua psicopatia mercantil, busca transformar tudo que há de mais básico em mercadoria e em lucro (para alguns poucos). Essa mercantilização totalitária acaba por esgarçar, ou mesmo romper, vínculos básicos. É fundamental ter ciência de que qualquer vínculo precisa de tempo para que seja constituído. A partir do momento em que o tempo vira mercadoria, os vínculos acabam por sofrer rupturas. A fluidez, a velocidade, o trabalho (precário) por aplicativos, o mito do “faça seu horário”, tudo isso tira o tempo do vínculo. E qual a importância deste vínculo, afinal? O que ele tem a ver com o analfabetismo funcional que presenciamos? O vínculo, no fim das contas, significava uma breve fiscalização, por parte dos adultos, para ver se as crianças e jovens estavam estudando e aprendendo algo na escola.
Como fazer com que os índices melhorem, como fazer com que as pessoas leiam e escrevam bem, se muitos sites de notícias indicam o tempo previsto de leitura de determinada reportagem? Já não basta o livro ter se tornado artigo de luxo? Então a pessoa decide se vai ler, não pelo assunto ser interessante, mas pelo menor tempo de leitura? Soma-se a isso a inteligência artificial. Soma-se a isso, também, uma extrema direita apaixonada pela estupidez e que busca colocar toda e qualquer instituição produtora e difusora de conhecimento em situação de descrédito.
Todos esses apontamentos mostram que o caminho para resolver tal questão não é fácil. Foram muitos anos de destruição, privação e exclusão, o que exige, também, muitos anos de reconstrução. Estímulo à leitura, obrigatoriedade de bibliotecas boas em todas as escolas com amplos horários de funcionamento e com profissionais qualificados, estímulo à escrita e ao uso da criatividade, políticas públicas voltadas à valorização e divulgação da literatura nacional, um sistema público de ensino que acolha a criança e sua família para além de afazeres burocráticos e obrigatórios. Enfim, muitas são as possibilidades. Porém, tal empreitada não deve ser assumida por quem ora para pneu, nem para quem rumina ódio e nem para quem acha que está fazendo muito ao andar, no auge de sua cafonice, com a bandeira do Brasil sobre seu paletó puído.
Sobre os 29%: não é apenas uma questão de índice, é uma questão de dignidade, de tentar reconstituir uma ideia de povo e de gente, que em tempos de neoliberalismo, individualismo e uma falsa, muito falsa sensação de liberdade, acabou por desaparecer.
Giam C. C. Miceli
País rico
Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.
Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico…
Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.
Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:
-Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?
O governo responde:
– Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.
E o Brasil é um país rico, muito rico…
As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não tem cavalos, etc; etc.
– Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?
O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:
– Não há verba; o governo não tem dinheiro
– E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.
O Brasil é um país rico…
Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico…
Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.
Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:
-Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?
O governo responde:
– Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.
E o Brasil é um país rico, muito rico…
As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não tem cavalos, etc; etc.
– Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?
O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:
– Não há verba; o governo não tem dinheiro
– E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.
O Brasil é um país rico…
Lima Barreto, "Marginália" (8-5-1920)
Índice denuncia o racismo ambiental no país
O racismo ambiental é uma realidade que atravessa o Brasil. Ignorar ações que protejam comunidades negras da poluição e das mudanças climáticas é comum a governos e à iniciativa privada. Falamos sobre o caso da Ilha da Maré, na Bahia. Nesse cenário, uma parceira do Instituto de Ciência e Ecologia da UNESP (Universidade Estadual Paulista) de Sorocaba e do Instituto DACOR desenvolveu um Índice de Racismo Ambiental que pode ajudar a pautar políticas públicas em todo país.
O trabalho abrangeu cinco regiões metropolitanas: Cuiabá, Curitiba, São Luís, Manaus e Sorocaba(SP). A escolha das cidades deu-se, segundo os pesquisadores, pelo acesso a dados oficiais mais sistematizados. Em uma escala de 0 a 100, o IRA mais alto foi da região metropolitana de Manaus (20,84), seguido por São Luís (20,21) e Cuiabá (19). Os mais baixos foram registrados em Curitiba (6,88) e Sorocaba (11,16). A cidade de Autazes (AM), que obteve o IRA mais alto (41,11), apresenta uma alta porcentagem de população racializada, o que evidencia o racismo ambiental, segundo a pesquisa, que integra o programa de pós-graduação em Ciências Ambientais da UNESP.
O texto afirma que a vulnerabilidade das populações racializadas é determinante para o índice, sobretudo em regiões com menores PIBs, onde a falta de saneamento e moradia adequada predominam. “A questão começa a ser discutida na primeira Conferência de Meio Ambiente, em 1972, em Estocolmo, na Suécia, que apontou a necessidade de uma ecologização das nossas sociedades, que o capitalismo pode ser ecologizado. Sob forte influência do movimento negro nos EUA, o conceito de racismo ambiental se espalha pelo mundo nos anos 1980, chegando ao Brasil, onde negros e grupos minoritários sempre foram expostos à poluição”, explica Vidal Mota, cientista social, sócio-fundador do Instituto DACOR e um dos integrantes do estudo.
Mota considera que o intuito da pesquisa é encontrar interfaces que possam acrescentar nuances nas análises, sejam elas sociais ou ambientais. “A gente procurou quantificar melhor para depois qualificar essa análise”, sintetiza. Através da metodologia fuzzy, o índice usa o saneamento básico (acesso à água e esgoto), moradia e racialização como variáveis.
O pesquisador disse que ficou surpreendido com o resultado em cidades do Sul e Sudeste. “Elas têm um índice de desenvolvimento humano bom, o PIB dessas regiões é alto, com orçamentos robustos, e elas ainda têm, mesmo que marginal, um percentual de racismo ambiental que, ao meu ver é, injustificável”.
A lógica do racismo ambiental define que a ameaça à saúde de uma população vai impactar sua expectativa de vida, sua capacidade de trabalho e aprendizado. “As pessoas que moram mal nesse país são de maioria negras ou indígenas. E aí nós temos uma série de doenças que irão superlotar os serviços públicos. Tudo isso é uma dimensão do racismo. Moradia e saneamento são condições básicas para a equidade”, atesta.
O cientista social alerta que, apesar do desenvolvimento do país nos últimos 20 anos, as condições são distantes do ideal, com cerca de 45% do esgoto sem receber tratamento, o que se traduz em condições precárias para 100 milhões de pessoas – destes, 70% são negros.
Os pesquisadores pretendem adaptar o IRA para outras regiões metropolitanas do Brasil e realizar uma análise mais detalhada, segmentada por bairros. Posteriormente, incluir outras variáveis, como renda, segurança, escolaridade, mobilidade e áreas verdes.. Em julho, a parceira apresentará novos resultados.
O trabalho abrangeu cinco regiões metropolitanas: Cuiabá, Curitiba, São Luís, Manaus e Sorocaba(SP). A escolha das cidades deu-se, segundo os pesquisadores, pelo acesso a dados oficiais mais sistematizados. Em uma escala de 0 a 100, o IRA mais alto foi da região metropolitana de Manaus (20,84), seguido por São Luís (20,21) e Cuiabá (19). Os mais baixos foram registrados em Curitiba (6,88) e Sorocaba (11,16). A cidade de Autazes (AM), que obteve o IRA mais alto (41,11), apresenta uma alta porcentagem de população racializada, o que evidencia o racismo ambiental, segundo a pesquisa, que integra o programa de pós-graduação em Ciências Ambientais da UNESP.
O texto afirma que a vulnerabilidade das populações racializadas é determinante para o índice, sobretudo em regiões com menores PIBs, onde a falta de saneamento e moradia adequada predominam. “A questão começa a ser discutida na primeira Conferência de Meio Ambiente, em 1972, em Estocolmo, na Suécia, que apontou a necessidade de uma ecologização das nossas sociedades, que o capitalismo pode ser ecologizado. Sob forte influência do movimento negro nos EUA, o conceito de racismo ambiental se espalha pelo mundo nos anos 1980, chegando ao Brasil, onde negros e grupos minoritários sempre foram expostos à poluição”, explica Vidal Mota, cientista social, sócio-fundador do Instituto DACOR e um dos integrantes do estudo.
Mota considera que o intuito da pesquisa é encontrar interfaces que possam acrescentar nuances nas análises, sejam elas sociais ou ambientais. “A gente procurou quantificar melhor para depois qualificar essa análise”, sintetiza. Através da metodologia fuzzy, o índice usa o saneamento básico (acesso à água e esgoto), moradia e racialização como variáveis.
O pesquisador disse que ficou surpreendido com o resultado em cidades do Sul e Sudeste. “Elas têm um índice de desenvolvimento humano bom, o PIB dessas regiões é alto, com orçamentos robustos, e elas ainda têm, mesmo que marginal, um percentual de racismo ambiental que, ao meu ver é, injustificável”.
A lógica do racismo ambiental define que a ameaça à saúde de uma população vai impactar sua expectativa de vida, sua capacidade de trabalho e aprendizado. “As pessoas que moram mal nesse país são de maioria negras ou indígenas. E aí nós temos uma série de doenças que irão superlotar os serviços públicos. Tudo isso é uma dimensão do racismo. Moradia e saneamento são condições básicas para a equidade”, atesta.
O cientista social alerta que, apesar do desenvolvimento do país nos últimos 20 anos, as condições são distantes do ideal, com cerca de 45% do esgoto sem receber tratamento, o que se traduz em condições precárias para 100 milhões de pessoas – destes, 70% são negros.
Os pesquisadores pretendem adaptar o IRA para outras regiões metropolitanas do Brasil e realizar uma análise mais detalhada, segmentada por bairros. Posteriormente, incluir outras variáveis, como renda, segurança, escolaridade, mobilidade e áreas verdes.. Em julho, a parceira apresentará novos resultados.
Um golpe contra a esperança
O Brasil de hoje me entristece. Macunaíma sentiria apenas preguiça. Os grandes escândalos de corrupção se sucedem. É triste ver os velhos roubados por entidades-fantasmas, com descontos em sua aposentadoria, roubados nos empréstimos consignados, cartão de crédito e quase roubados com a promessa de devolução rápida do dinheiro roubado.
Viramos o paraíso do estelionato. Neste momento, recebo ligações com a voz da assistente digital do banco, falando de uma absurda compra numa loja de construção. Disque 1 para confirmar, dois para rejeitar. Disco coisa nenhuma porque sei que é golpe. Nas cadeias e nas ruas, centenas de golpistas inventam formas de lesar. Tenho amigos que perderam suas economias. Os bancos são implacáveis, não devolvem 1 centavo.
O espectro de golpes é tão amplo que há listas deles na internet, desde as falsas centrais de atendimento até falsos motoboys. Eu mesmo já comprei um tênis para presentear a filha: jamais chegou.
Leio que a indústria hoteleira está alarmada com os golpes de falsas reservas em hotéis. Só em São Paulo foram R$ 25 bilhões perdidos, diz a notícia. Isso sem contar as passagens de avião baratas que você compra e não vai a lugar nenhum: golpe.
O Congresso maneja bilhões em emendas, e muitas delas são ainda secretas. Os juízes ganham mais que o teto legal de salários, e o presidente viaja com volumosas comitivas pelo mundo. Nos últimos dias, esteve ao lado de Putin, que invadiu e massacra a Ucrânia, que envenena opositores, que persegue gays, que apoia os partidos de extrema direita na Europa.
Há um lado positivo a consignar: o ministro Haddad tenta atrair centrais de dados para o Brasil, oferecendo energia barata e sustentável. Haddad fala num futuro verde e digital, felizmente.
Subimos cinco posições na pesquisa sobre IDH no mundo. Ainda estamos atrás de México, Colômbia, Chile, Peru, Argentina e Uruguai. Batemos Bolívia e Venezuela. Estamos estagnados no quesito educação.
A política em Brasília, esta entristece e dá preguiça. Lula trocou um desconhecido ministro das Comunicações por outro desconhecido. O primeiro era conhecido demais pela polícia. Trocou o Lupi acusado de omissão na Previdência pelo secretário executivo do Ministério, encarregado de executar a omissão.
Às vezes, penso em me tornar cronista esportivo, apesar da idade. Mas há escândalos na CBF, golpes nas apostas, e o futebol brasileiro me parece pouco intenso e burocrático. Não há para onde escapar. A direita, com tantos erros do governo, pode ganhar força e reassumir. Uma terceira força dificilmente quebra a polarização. O mais provável é que Lula continue até 2030, tem recursos políticos e saúde para isso.
Eu é que não tenho. Não suporto ver o país tão distante de seu potencial. Analisar a política é tirar leite das pedras. Não há o que analisar, exceto contar segredinhos de bastidores. Não me interessa a intimidade de pessoas que, na maioria, considero tediosas e pouco inspiradas.
Com tantos golpes, ainda não roubaram totalmente minha esperança. Resta a poesia capaz de fazer nascer uma flor no asfalto. Meio profeticamente, antes das eleições, previ que nos livraríamos do horror e cairíamos na mediocridade.
Os governistas não precisam comer meu fígado por essa profecia. O Brasil se configura de tal forma, são tantas as seduções do poder que é fácil se julgar realizando uma tarefa histórica, quando se está apenas navegando no pântano.
Quem vencer em 2026 encontrará todos estes probleminhas pela frente: a Justiça continuará muito dispendiosa, o Congresso se perpetuará apoiado nos bilhões das emendas, a educacão continuará empacada, o crime organizado mais forte e a epidemia de golpes revitalizada pela inteligência artificial.
Ainda bem que não desistimos nunca.
Viramos o paraíso do estelionato. Neste momento, recebo ligações com a voz da assistente digital do banco, falando de uma absurda compra numa loja de construção. Disque 1 para confirmar, dois para rejeitar. Disco coisa nenhuma porque sei que é golpe. Nas cadeias e nas ruas, centenas de golpistas inventam formas de lesar. Tenho amigos que perderam suas economias. Os bancos são implacáveis, não devolvem 1 centavo.
O espectro de golpes é tão amplo que há listas deles na internet, desde as falsas centrais de atendimento até falsos motoboys. Eu mesmo já comprei um tênis para presentear a filha: jamais chegou.
Leio que a indústria hoteleira está alarmada com os golpes de falsas reservas em hotéis. Só em São Paulo foram R$ 25 bilhões perdidos, diz a notícia. Isso sem contar as passagens de avião baratas que você compra e não vai a lugar nenhum: golpe.
O Congresso maneja bilhões em emendas, e muitas delas são ainda secretas. Os juízes ganham mais que o teto legal de salários, e o presidente viaja com volumosas comitivas pelo mundo. Nos últimos dias, esteve ao lado de Putin, que invadiu e massacra a Ucrânia, que envenena opositores, que persegue gays, que apoia os partidos de extrema direita na Europa.
Há um lado positivo a consignar: o ministro Haddad tenta atrair centrais de dados para o Brasil, oferecendo energia barata e sustentável. Haddad fala num futuro verde e digital, felizmente.
Subimos cinco posições na pesquisa sobre IDH no mundo. Ainda estamos atrás de México, Colômbia, Chile, Peru, Argentina e Uruguai. Batemos Bolívia e Venezuela. Estamos estagnados no quesito educação.
A política em Brasília, esta entristece e dá preguiça. Lula trocou um desconhecido ministro das Comunicações por outro desconhecido. O primeiro era conhecido demais pela polícia. Trocou o Lupi acusado de omissão na Previdência pelo secretário executivo do Ministério, encarregado de executar a omissão.
Às vezes, penso em me tornar cronista esportivo, apesar da idade. Mas há escândalos na CBF, golpes nas apostas, e o futebol brasileiro me parece pouco intenso e burocrático. Não há para onde escapar. A direita, com tantos erros do governo, pode ganhar força e reassumir. Uma terceira força dificilmente quebra a polarização. O mais provável é que Lula continue até 2030, tem recursos políticos e saúde para isso.
Eu é que não tenho. Não suporto ver o país tão distante de seu potencial. Analisar a política é tirar leite das pedras. Não há o que analisar, exceto contar segredinhos de bastidores. Não me interessa a intimidade de pessoas que, na maioria, considero tediosas e pouco inspiradas.
Com tantos golpes, ainda não roubaram totalmente minha esperança. Resta a poesia capaz de fazer nascer uma flor no asfalto. Meio profeticamente, antes das eleições, previ que nos livraríamos do horror e cairíamos na mediocridade.
Os governistas não precisam comer meu fígado por essa profecia. O Brasil se configura de tal forma, são tantas as seduções do poder que é fácil se julgar realizando uma tarefa histórica, quando se está apenas navegando no pântano.
Quem vencer em 2026 encontrará todos estes probleminhas pela frente: a Justiça continuará muito dispendiosa, o Congresso se perpetuará apoiado nos bilhões das emendas, a educacão continuará empacada, o crime organizado mais forte e a epidemia de golpes revitalizada pela inteligência artificial.
Ainda bem que não desistimos nunca.
segunda-feira, 12 de maio de 2025
O choque de realidade das contas 'certas'
As campanhas eleitorais são propícias a exageros. É o momento em que se prometem sonhos, mesmo que todos saibam à partida que não podem ser realizados – como acontece, aliás, com a maioria dos melhores devaneios que temos. Mas não há mal no exagero, desde que as promessas sejam sinceras e percetíveis na sua justa dimensão: a de que, embora sendo exageradas, indicam o caminho para se poder alcançar um futuro melhor, mais justo, mais solidário e, preferencialmente, mais feliz e próspero. É aquilo a que se chama sonhar alto, seguindo o exemplo do velho slogan popularizado nas ruas de Paris em Maio de 68, com um apelo transcendental e provocador: “Sejamos realistas, exijamos o impossível.”
Nada contra os sonhos nem contra os exageros, portanto. Se há algo que falta na política atual, na verdade, é essa urgência antiga de perseguir utopias, de sonhar com um mundo melhor, mesmo que, realisticamente, possamos reconhecer que se trata de um sonho impossível. Se virmos bem, o debate político era muito mais rico e estimulante quando estavam em confronto modelos ideológicos de sociedade, quase sempre utópicos e impossíveis. E, por isso, as campanhas conseguiam ser muito mais excitantes, aguerridas e, porventura, enriquecedoras e memoráveis, do que as discussões centradas a discutir percentagens do défice ou a esgrimir estatísticas de saúde, sem que se perceba, tantas vezes, a sua associação com a realidade ou o que isso implica na experiência quotidiana de milhões de pessoas.
Com as utopias atiradas para o canto das velharias e, por isso, ausentes do debate, temos assistido a uma campanha eleitoral demasiado centrada em promessas apenas exageradas e tantas vezes irrealistas. Não porque prometam o impossível, mas porque se baseiam numa realidade que, porventura, não existe agora e será até muito diferente, para pior, dentro de alguns meses, dada a conjuntura internacional em que mergulhámos.
De uma forma ou de outra, quase todos os principais organismos têm estado a rever em baixa as previsões de crescimento económico para o que resta do ano. Em todas as análises, leva-se em linha de conta o impacto das tarifas quase universais decretadas pela maior economia do planeta, liderada por Donald Trump, e as ondas de choque que elas estão a causar em todo o mundo. E acumulam-se os avisos sobre a necessidade de fazer previsões mais de acordo com a realidade que se adivinha e menos com a que se deseja.
Em tempo de campanha eleitoral, ninguém parece preocupado com esses avisos. E, como se aparentemente nada tivesse acontecido em Washington, continuamos a ouvir as mesmas promessas, baseadas em projeções que já se percebem ser irrealistas. Os sinais e a realidade aconselhavam prudência – mesmo que essa não seja uma “habilidade” que os diretores de campanha considerem útil para “caçar” votos. A verdade, no entanto, é que o FMI reviu em baixa as previsões de crescimento económico para Portugal (à semelhança do que fez para o resto do mundo) e os dados do Instituto Nacional de Estatística relativos ao primeiro trimestre confirmam o abrandamento da atividade económica no País. Apesar disso, o Governo enviou para Bruxelas uma estimativa de crescimento do PIB de 2,4%, bem superior aos 2,1% que tinha incluído, há poucos meses, na sua proposta de Orçamento do Estado, e que até o Conselho das Finanças Públicas considerou “provável, mas não prudente”.
Vale a pena brincar com o fogo? E prometer aquilo que o agravamento da situação internacional vai impedir de ser cumprido? Há muitas perguntas que precisam de ser feitas numa campanha eleitoral que decorre num momento demasiado volátil e imprevisível para o mundo. Mas quando não se prometem utopias nem grandes sonhos, o mínimo que devemos exigir é o compromisso de se falar verdade e com rigor. Não basta prometer “contas certas”. É preciso que as promessas estejam devidamente quantificadas, tanto no custo como no benefício. No fim, faremos as contas: quantas promessas vão resistir ao choque da realidade?
Nada contra os sonhos nem contra os exageros, portanto. Se há algo que falta na política atual, na verdade, é essa urgência antiga de perseguir utopias, de sonhar com um mundo melhor, mesmo que, realisticamente, possamos reconhecer que se trata de um sonho impossível. Se virmos bem, o debate político era muito mais rico e estimulante quando estavam em confronto modelos ideológicos de sociedade, quase sempre utópicos e impossíveis. E, por isso, as campanhas conseguiam ser muito mais excitantes, aguerridas e, porventura, enriquecedoras e memoráveis, do que as discussões centradas a discutir percentagens do défice ou a esgrimir estatísticas de saúde, sem que se perceba, tantas vezes, a sua associação com a realidade ou o que isso implica na experiência quotidiana de milhões de pessoas.
Com as utopias atiradas para o canto das velharias e, por isso, ausentes do debate, temos assistido a uma campanha eleitoral demasiado centrada em promessas apenas exageradas e tantas vezes irrealistas. Não porque prometam o impossível, mas porque se baseiam numa realidade que, porventura, não existe agora e será até muito diferente, para pior, dentro de alguns meses, dada a conjuntura internacional em que mergulhámos.
De uma forma ou de outra, quase todos os principais organismos têm estado a rever em baixa as previsões de crescimento económico para o que resta do ano. Em todas as análises, leva-se em linha de conta o impacto das tarifas quase universais decretadas pela maior economia do planeta, liderada por Donald Trump, e as ondas de choque que elas estão a causar em todo o mundo. E acumulam-se os avisos sobre a necessidade de fazer previsões mais de acordo com a realidade que se adivinha e menos com a que se deseja.
Em tempo de campanha eleitoral, ninguém parece preocupado com esses avisos. E, como se aparentemente nada tivesse acontecido em Washington, continuamos a ouvir as mesmas promessas, baseadas em projeções que já se percebem ser irrealistas. Os sinais e a realidade aconselhavam prudência – mesmo que essa não seja uma “habilidade” que os diretores de campanha considerem útil para “caçar” votos. A verdade, no entanto, é que o FMI reviu em baixa as previsões de crescimento económico para Portugal (à semelhança do que fez para o resto do mundo) e os dados do Instituto Nacional de Estatística relativos ao primeiro trimestre confirmam o abrandamento da atividade económica no País. Apesar disso, o Governo enviou para Bruxelas uma estimativa de crescimento do PIB de 2,4%, bem superior aos 2,1% que tinha incluído, há poucos meses, na sua proposta de Orçamento do Estado, e que até o Conselho das Finanças Públicas considerou “provável, mas não prudente”.
Vale a pena brincar com o fogo? E prometer aquilo que o agravamento da situação internacional vai impedir de ser cumprido? Há muitas perguntas que precisam de ser feitas numa campanha eleitoral que decorre num momento demasiado volátil e imprevisível para o mundo. Mas quando não se prometem utopias nem grandes sonhos, o mínimo que devemos exigir é o compromisso de se falar verdade e com rigor. Não basta prometer “contas certas”. É preciso que as promessas estejam devidamente quantificadas, tanto no custo como no benefício. No fim, faremos as contas: quantas promessas vão resistir ao choque da realidade?
No horizonte
A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso:
para que eu não deixe de caminhar.
Eduardo Galeano
Mamã, o que é um massacre?
Abraço os meus filhos, com força. Aperto-os e beijo-os muitas vezes. Fingem que fogem. Riem-se enquanto lhes faço cócegas, pedem-me que os tape com os lençóis e que fique mais um pouco antes de ir dormir. Fico. Não me sai da cabeça a imagem de uma menina palestiniana que vi umas horas antes na internet. Os olhos encovados, os ossos espetando-se nos ombros. “Só queria que tudo voltasse a ser como antes”. Foi tudo o que tive coragem de a ouvir dizer. Ela terá mais ou menos a idade dos meus filhos e suporta horrores que eu nem consigo imaginar. Fome, sede, medo. Mas foi a mim que me falharam as forças para a ouvir falar. E agora cresce-me no peito um aperto, enquanto deito os meus filhos e penso em todas as crianças que em Gaza não têm a mesma sorte.
“A lista de Schindler” estreou quando eu era miúda. Nesse filme também havia uma menina. Estava vestida de vermelho, quando tudo à sua volta era a preto e branco. Schindler vê-a ao longe, cambaleante, com passos hesitantes de criança pequena, atravessando as ruas por onde os soldados nazis vão matando a tiro homens que passam, saqueando casas, atirando objetos pelas janelas. A menina caminha até entrar num prédio. Sobe as escadas, entra numa casa abandonada e esconde-se debaixo de uma cama. Vemos-lhe, então, a cara de frente e acreditamos que vai sobreviver. Mas o casaco vermelho identifica-a numa pilha de cadáveres, umas cenas mais à frente. A fuligem dos corpos judeus incinerados, acumulando-se sobre o seu carro, não era mais do que um incómodo para Schindler, até ele perceber que a menina estava entre os mortos.
Cresci a ouvir dizer que o “Davim” vinha de uma trisavó judia. E não sei se foi por isso, mas passei parte da adolescência a ler e a ver tudo o que era possível sobre o Holocausto. Nessa altura, as atrocidades nazis pareciam uma suspensão da humanidade, impossível de compreender. “Never again”, dizia-se. E os filmes mostravam como os bons combatiam os maus.
Percebi muito mais tarde que a maldade extrema do nazismo sobre os judeus não foi um episódio isolado de extermínio. Na verdade, foi uma prática reiteradamente usada por regimes colonialistas, nomeadamente no séc. XIX em África, enquanto Adolf Hitler era ainda uma criança. É uma prática de aniquilação que só é possível quando deixamos de ver o exterminado como humano. É, por isso, que a menina de casaco vermelho é tão importante para acordar Schindler do torpor moral que o deixava assistir quase sem reação à perseguição dos judeus. Ela força-o a entender que os perseguidos são humanos.
É por isso que, por todo o mundo ocidental, têm sido cada vez mais reprimidas as manifestações contra o genocídio em Gaza. Os que nos querem lembrar a humanidade dos palestinianos são amordaçados, detidos, afastados com canhões de água, acusados de antissemitismo.
Há, porém, nas fileiras dessas manifestações muitos judeus. Alguns deles são mesmo sobreviventes do Holocausto ou descendentes diretos de quem passou por esse horror.
Stephen Kapos é um deles. Tinha apenas sete anos quando a Alemanha nazi invadiu a Hungria em março de 1944. Em abril de 2024 fez um discurso no Hyde Park, em Londres, para falar de como os nazis deportaram 400 mil judeus para Auschwitz e dos seus 15 familiares, incluindo o seu pai, que passaram por campos de concentração. “Nós, judeus, que sobrevivemos a toda esta dor, mortes, humilhação e destruição, estamos contra a utilização da memória do Holocausto pelo Governo de Israel como cobertura e justificação para o genocídio em curso contra o povo palestiniano em Gaza e na Cisjordânia”, disse, então, perante uma multidão que o ouviu em silêncio e o aplaudiu entusiasticamente no fim.
Quase um ano depois, Stephen Kapos foi detido para interrogatório pela Polícia em Londres para ser ouvido por ter participado noutro protesto pela paz em Gaza. Apesar dos seus 87 anos e de andar titubeante apoiado numa bengala, Kapos foi acusado de tentar furar uma barreira policial. Mas será mais difícil acusá-lo a ele ou aos milhares que fazem parte da Jewish Voice for Peace de antissemitismo. E é também por isso que os que agora gritam “never again for anyone” são tão importantes.
“O que é um massacre?”, perguntou a minha filha, da primeira vez que viu um outdoor onde se apela ao “fim do massacre na Palestina”. Vacilei na resposta. Como é que se explica a maldade a quem ainda nunca a viu? Não sei há quanto tempo foi isso. Mas foi há demasiado. Porque, agora, quando passamos pelo cartaz, ela pergunta, ansiosa: “O massacre ainda não acabou?”.
Envergonha-me dizer-lhe que não, mas tenho ainda mais medo que vá acabar em breve da pior forma possível, quando vejo nas notícias que há um plano de ocupação total de Gaza por Israel.
A “solução final” que os aliados travaram na Segunda Guerra Mundial, avança agora perante a indiferença quase generalizada dos que assistem a um conflito que – quaisquer que sejam as razões invocadas de um e de outro lado – está na prática a deixar milhares de civis encurralados, sem acesso a água, nem comida, nem medicamentos ou qualquer tipo de ajuda. Empurrados para uma morte certa, cruel e silenciosa. Enquanto nós fingimos não ver.
“A lista de Schindler” estreou quando eu era miúda. Nesse filme também havia uma menina. Estava vestida de vermelho, quando tudo à sua volta era a preto e branco. Schindler vê-a ao longe, cambaleante, com passos hesitantes de criança pequena, atravessando as ruas por onde os soldados nazis vão matando a tiro homens que passam, saqueando casas, atirando objetos pelas janelas. A menina caminha até entrar num prédio. Sobe as escadas, entra numa casa abandonada e esconde-se debaixo de uma cama. Vemos-lhe, então, a cara de frente e acreditamos que vai sobreviver. Mas o casaco vermelho identifica-a numa pilha de cadáveres, umas cenas mais à frente. A fuligem dos corpos judeus incinerados, acumulando-se sobre o seu carro, não era mais do que um incómodo para Schindler, até ele perceber que a menina estava entre os mortos.
Cresci a ouvir dizer que o “Davim” vinha de uma trisavó judia. E não sei se foi por isso, mas passei parte da adolescência a ler e a ver tudo o que era possível sobre o Holocausto. Nessa altura, as atrocidades nazis pareciam uma suspensão da humanidade, impossível de compreender. “Never again”, dizia-se. E os filmes mostravam como os bons combatiam os maus.
Percebi muito mais tarde que a maldade extrema do nazismo sobre os judeus não foi um episódio isolado de extermínio. Na verdade, foi uma prática reiteradamente usada por regimes colonialistas, nomeadamente no séc. XIX em África, enquanto Adolf Hitler era ainda uma criança. É uma prática de aniquilação que só é possível quando deixamos de ver o exterminado como humano. É, por isso, que a menina de casaco vermelho é tão importante para acordar Schindler do torpor moral que o deixava assistir quase sem reação à perseguição dos judeus. Ela força-o a entender que os perseguidos são humanos.
É por isso que, por todo o mundo ocidental, têm sido cada vez mais reprimidas as manifestações contra o genocídio em Gaza. Os que nos querem lembrar a humanidade dos palestinianos são amordaçados, detidos, afastados com canhões de água, acusados de antissemitismo.
Há, porém, nas fileiras dessas manifestações muitos judeus. Alguns deles são mesmo sobreviventes do Holocausto ou descendentes diretos de quem passou por esse horror.
Stephen Kapos é um deles. Tinha apenas sete anos quando a Alemanha nazi invadiu a Hungria em março de 1944. Em abril de 2024 fez um discurso no Hyde Park, em Londres, para falar de como os nazis deportaram 400 mil judeus para Auschwitz e dos seus 15 familiares, incluindo o seu pai, que passaram por campos de concentração. “Nós, judeus, que sobrevivemos a toda esta dor, mortes, humilhação e destruição, estamos contra a utilização da memória do Holocausto pelo Governo de Israel como cobertura e justificação para o genocídio em curso contra o povo palestiniano em Gaza e na Cisjordânia”, disse, então, perante uma multidão que o ouviu em silêncio e o aplaudiu entusiasticamente no fim.
Quase um ano depois, Stephen Kapos foi detido para interrogatório pela Polícia em Londres para ser ouvido por ter participado noutro protesto pela paz em Gaza. Apesar dos seus 87 anos e de andar titubeante apoiado numa bengala, Kapos foi acusado de tentar furar uma barreira policial. Mas será mais difícil acusá-lo a ele ou aos milhares que fazem parte da Jewish Voice for Peace de antissemitismo. E é também por isso que os que agora gritam “never again for anyone” são tão importantes.
“O que é um massacre?”, perguntou a minha filha, da primeira vez que viu um outdoor onde se apela ao “fim do massacre na Palestina”. Vacilei na resposta. Como é que se explica a maldade a quem ainda nunca a viu? Não sei há quanto tempo foi isso. Mas foi há demasiado. Porque, agora, quando passamos pelo cartaz, ela pergunta, ansiosa: “O massacre ainda não acabou?”.
Envergonha-me dizer-lhe que não, mas tenho ainda mais medo que vá acabar em breve da pior forma possível, quando vejo nas notícias que há um plano de ocupação total de Gaza por Israel.
A “solução final” que os aliados travaram na Segunda Guerra Mundial, avança agora perante a indiferença quase generalizada dos que assistem a um conflito que – quaisquer que sejam as razões invocadas de um e de outro lado – está na prática a deixar milhares de civis encurralados, sem acesso a água, nem comida, nem medicamentos ou qualquer tipo de ajuda. Empurrados para uma morte certa, cruel e silenciosa. Enquanto nós fingimos não ver.
Abracadabramarajá
Em política, palavras e símbolos podem assumir dimensões mágicas. Principalmente quando são usadas no calor do clima eleitoral. A história está cheia de sugestivos exemplos.
Não custa recordar as eleições presidenciais de 1945, ocorridas oito anos após a ditadura estadonovista. Na época, os dois candidatos com chances efetivas de vitória eram o general Eurico Gaspar Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes.
O brigadeiro representava o novo. Já ostentava uma aura legendária de heroísmo marcada pelo episódio dos 18 de Copacabana (eram na verdade 12) e de esperança em relação aos novos tempos de liberdade e democracia que se descortinavam no horizonte político. Era apoiado pela UDN, partido que defendia o ideário liberal, congregava grande parte da elite pensante do país e se apropriava das inquietações de um Brasil urbano emergente. Era um candidato com charme e, teoricamente, com mais possibilidades do que Dutra.
Dutra, com seu ar carrancudo e destituído de maiores dotes estéticos, representava o velho regime de qual fora Ministro da Guerra e, depois, ao derrubá-lo, o seu próprio algoz. Curiosamente, tinha como base partidária o PTB de Getúlio, o ditador deposto, desde então recolhido em exílio voluntário na fazenda Itu (Município de Itaqui, RGS), e do PSD que, com o passar do tempo, transformou-se em escola política de pragmatismo e vocação para a conciliação e para o poder.
A opacidade do candidato, junto com o que representava, não estimulava previsões eleitorais otimistas. Pois bem, o brigadeiro, num arroubo retórico diante de entusiasmada plateia do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cometeu um erro de consequências desastrosas quando disse: “Não necessito, para me eleger, desta malta de desocupados que apoia o ditador Vargas”.
A frase teve um efeito devastador. Em Campinas, habilmente, Hugo Borghi decodificou-a para o povo num grande comício, imputando ao brigadeiro o que, mais tarde, soaria como uma sentença: “O brigadeiro disse que, para se eleger, não precisava dos marmiteiros desempregados”.
“Marmiteiro” teve um competente uso semântico e semiótico contra o candidato da UDN. Passou a ser sinônimo de povo rude, trabalhador, uma espécie de boia-fria e, ao mesmo tempo, constituiu-se no símbolo da campanha de Dutra.
O brigadeiro amargou uma derrota que se repetiria nas eleições de 1950.
No Brasil, ao se falar neste assunto, não se pode passar ao largo das artes demoníacas de Jânio Quadros, sem dúvida, o político que mais eficazmente manipula palavras e símbolos.
Aliás o ex-presidente se comunica como o eleitorado predominante com símbolos. Um símbolo para cada conceito
Para o conceito de autoridade usava a reprimenda dos bilhetinhos, como presidente, ou o estardalhaço das multas de trânsito, como prefeito de São Paulo.
Para o conceito de moralidade, a famosa vassoura. Para o conceito de identificação popular, Jânio dispunha de um arsenal de símbolos, que ia do sanduíche que comia ostensivamente nos comícios, após fartas refeições, passando pelo desalinho dos cabelos polvilhados de caspas produzidas, até a adoção de uma farda presidencial que fez sucesso na década de sessenta: o blujânio.
O prestidigitador Jânio Quadros ainda é personagem da vida política. E que personagem!
Em 89, a história pode se repetir. E como repetição é, inevitavelmente, uma farsa. Está na praça, estourando a boca do balão e os percentuais das pesquisas, um jovem bruxo chamado Fernando Collor, com impecável acabamento da mídia eletrônica.
O ex-governador de Alagoas, embora inconsistente como algodão-doce e empostado como galã de novela das oito, descobriu uma palavra mágica como combustível da campanha: marajá, que também é símbolo do clientelismo, do privilégio odioso, da mutretagem e da esperteza, expedientes que irritam o cidadão comum.
O candidato do PRN descobriu o filão.
E pelo menos, por enquanto é o xodó do eleitor e a tábua de salvação do oportunismo cego dos profissionais do poder.
Sua cintilante imagem de justiceiro dos tempos românticos, montado no alazão televisivo, tem conseguido seduzir uma parcela da população que pode, perigosamente, trocar a aparência pela essência.
É certo que falta muito tempo para o dia do juízo eleitoral. No entanto, corre-se o risco real de o eleitor gritar na urna a palavra mágica: abracadabramarajá! e sair de dentro dela um Presidente da República. Logo depois, quando o eleitor descobrir que o presidente é obra do feitiço, será tarde demais.
Gustavo Krause
*Este artigo foi publicado na edição do Diário de Pernambuco de 25 de maio de 1989. O Primeiro turno foi disputado por 22 candidatos no dia 15 de novembro de 1989. Em abril, as pesquisas revelavam um empate técnico entre Brizola (PDT),13%, Lula (PT), 12% e Collor (PRN) 14%. Collor e Lula passaram para segundo turno com 30,47% e 17,18% dos votos válidos. A primeira eleição presidencial sob as regras da Constituição de 5 de outubro foi vencida por Collor com 53,03% e Lula com 46,97% dos votos válidos, em 17 de dezembro de 89. Na época, exercia o mandato de Vereador pela cidade do Recife. No primeiro turno votei em Aureliano Chaves candidato PFL e, no segundo turno, faço parte da lista dos votos em branco (1.793.224, 2,59% dos votos totais)
Não custa recordar as eleições presidenciais de 1945, ocorridas oito anos após a ditadura estadonovista. Na época, os dois candidatos com chances efetivas de vitória eram o general Eurico Gaspar Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes.
O brigadeiro representava o novo. Já ostentava uma aura legendária de heroísmo marcada pelo episódio dos 18 de Copacabana (eram na verdade 12) e de esperança em relação aos novos tempos de liberdade e democracia que se descortinavam no horizonte político. Era apoiado pela UDN, partido que defendia o ideário liberal, congregava grande parte da elite pensante do país e se apropriava das inquietações de um Brasil urbano emergente. Era um candidato com charme e, teoricamente, com mais possibilidades do que Dutra.
Dutra, com seu ar carrancudo e destituído de maiores dotes estéticos, representava o velho regime de qual fora Ministro da Guerra e, depois, ao derrubá-lo, o seu próprio algoz. Curiosamente, tinha como base partidária o PTB de Getúlio, o ditador deposto, desde então recolhido em exílio voluntário na fazenda Itu (Município de Itaqui, RGS), e do PSD que, com o passar do tempo, transformou-se em escola política de pragmatismo e vocação para a conciliação e para o poder.
A opacidade do candidato, junto com o que representava, não estimulava previsões eleitorais otimistas. Pois bem, o brigadeiro, num arroubo retórico diante de entusiasmada plateia do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cometeu um erro de consequências desastrosas quando disse: “Não necessito, para me eleger, desta malta de desocupados que apoia o ditador Vargas”.
A frase teve um efeito devastador. Em Campinas, habilmente, Hugo Borghi decodificou-a para o povo num grande comício, imputando ao brigadeiro o que, mais tarde, soaria como uma sentença: “O brigadeiro disse que, para se eleger, não precisava dos marmiteiros desempregados”.
“Marmiteiro” teve um competente uso semântico e semiótico contra o candidato da UDN. Passou a ser sinônimo de povo rude, trabalhador, uma espécie de boia-fria e, ao mesmo tempo, constituiu-se no símbolo da campanha de Dutra.
O brigadeiro amargou uma derrota que se repetiria nas eleições de 1950.
No Brasil, ao se falar neste assunto, não se pode passar ao largo das artes demoníacas de Jânio Quadros, sem dúvida, o político que mais eficazmente manipula palavras e símbolos.
Aliás o ex-presidente se comunica como o eleitorado predominante com símbolos. Um símbolo para cada conceito
Para o conceito de autoridade usava a reprimenda dos bilhetinhos, como presidente, ou o estardalhaço das multas de trânsito, como prefeito de São Paulo.
Para o conceito de moralidade, a famosa vassoura. Para o conceito de identificação popular, Jânio dispunha de um arsenal de símbolos, que ia do sanduíche que comia ostensivamente nos comícios, após fartas refeições, passando pelo desalinho dos cabelos polvilhados de caspas produzidas, até a adoção de uma farda presidencial que fez sucesso na década de sessenta: o blujânio.
O prestidigitador Jânio Quadros ainda é personagem da vida política. E que personagem!
Em 89, a história pode se repetir. E como repetição é, inevitavelmente, uma farsa. Está na praça, estourando a boca do balão e os percentuais das pesquisas, um jovem bruxo chamado Fernando Collor, com impecável acabamento da mídia eletrônica.
O ex-governador de Alagoas, embora inconsistente como algodão-doce e empostado como galã de novela das oito, descobriu uma palavra mágica como combustível da campanha: marajá, que também é símbolo do clientelismo, do privilégio odioso, da mutretagem e da esperteza, expedientes que irritam o cidadão comum.
O candidato do PRN descobriu o filão.
E pelo menos, por enquanto é o xodó do eleitor e a tábua de salvação do oportunismo cego dos profissionais do poder.
Sua cintilante imagem de justiceiro dos tempos românticos, montado no alazão televisivo, tem conseguido seduzir uma parcela da população que pode, perigosamente, trocar a aparência pela essência.
É certo que falta muito tempo para o dia do juízo eleitoral. No entanto, corre-se o risco real de o eleitor gritar na urna a palavra mágica: abracadabramarajá! e sair de dentro dela um Presidente da República. Logo depois, quando o eleitor descobrir que o presidente é obra do feitiço, será tarde demais.
Gustavo Krause
*Este artigo foi publicado na edição do Diário de Pernambuco de 25 de maio de 1989. O Primeiro turno foi disputado por 22 candidatos no dia 15 de novembro de 1989. Em abril, as pesquisas revelavam um empate técnico entre Brizola (PDT),13%, Lula (PT), 12% e Collor (PRN) 14%. Collor e Lula passaram para segundo turno com 30,47% e 17,18% dos votos válidos. A primeira eleição presidencial sob as regras da Constituição de 5 de outubro foi vencida por Collor com 53,03% e Lula com 46,97% dos votos válidos, em 17 de dezembro de 89. Na época, exercia o mandato de Vereador pela cidade do Recife. No primeiro turno votei em Aureliano Chaves candidato PFL e, no segundo turno, faço parte da lista dos votos em branco (1.793.224, 2,59% dos votos totais)
domingo, 11 de maio de 2025
Grande mal
A ignorância dos que detêm o poder é perigosa por si só — e a do povo pode piorar as coisas. A ignorância fortalece regimes autoritários e enfraquece a democracia. Sem saber o suficiente sobre os problemas do país ou o que diferencia os partidos políticos, o eleitor pode fazer escolhas imprudentes e se arrepender depois.
Peter Burke
Peter Burke
Gaza está sozinha no mundo
Poucos meses atrás, o poeta palestino Mosab Abu Toha se declarou dilacerado. Preso e libertado pelas forças israelenses na sua Gaza natal em 2023, obteve salvo-conduto para sair do enclave. Bons tempos aqueles em que salvo-condutos ainda eram fornecidos. Do Egito, ele migrou para os Estados Unidos. E foi dessa terra estrangeira que refletiu sobre seu estado d’alma em entrevista ao canal Al-Jazeera. O salto entre o “ontem” e o “agora”, disse, fora brutal. “Imagine estar num abrigo em Gaza com seus pais, irmãos, filhos, sem conseguir proteger nenhum deles. Você é incapaz de prover comida, água, medicamentos, nada. E agora você se vê nos Estados Unidos, justamente o país que financia o genocídio. É desesperador”, resumiu ele.
Nesta semana o poeta de 31 anos recebeu o prestigioso prêmio Pulitzer por ensaios publicados na revista The New Yorker sobre os efeitos físicos e emocionais da carnificina em curso. Em paralelo, também recebeu ameaças de grupos da extrema direita americana que exigem sua depo1]rtação. Acabou cancelando palestras agendadas em diversas universidades do país.
Mesmo que quisesse ser deportado para seu chão, Abu Toha não conseguiria. A Faixa de Gaza está selada por terra, mar e ar. Ninguém entra nem sai desde que o governo israelense de Benjamin Netanyahu, em 22 de março último, rompeu a trégua acordada numa tentativa extrema de obter a capitulação do Hamas.
Difícil não ver ironia nas comemorações, nesta semana, dos 80 anos do final da Segunda Guerra. A vitória das Forças Aliadas e da União Soviética contra o nazismo não parece ter produzido uma humanidade menos cínica. Moscou comemora com razão a quase sobre-humana resistência da antiga Leningrado (hoje São Petersburgo) ao histórico cerco militar de 872 dias. Hitler havia ordenado que não seria dada a opção de rendição à cidade. Ela deveria simplesmente cessar de existir, destruída por bombardeios, fome, doenças, apagamento de vida. Ainda assim, Leningrado resistiu, defendida até a última unha pelo Exército Vermelho e por uma população civil comparável à da Faixa de Gaza hoje (mais de 2 milhões). Estima-se que perto de 1,5 milhão de civis não tenham sobrevivido ao cerco.
Pergunta: para que serve o colossal aparato militar russo exibido na Praça Vermelha se ninguém, ali, é capaz ou está interessado em salvar uma única criança a minguar em Gaza?
Também vem à mente o bloqueio de Berlim Ocidental, já em plena Guerra Fria. Em junho de 1948, os soviéticos interromperam todo e qualquer trânsito de pessoas, mercadorias, fornecimento de eletricidade e água à população sob tutela de França, Grã-Bretanha e Estados Unidos. A medida ordenada por Stálin visava ao isolamento da vida naquele setor, para obter controle total sobre a cidade dividida. Como é sabido, os aliados ocidentais reagiram, montaram uma complexa logística aérea e abasteceram as necessidades dos quase 2,5 milhões de berlinenses ilhados (novamente, população próxima aos 2,3 milhões de palestinos de Gaza). Durante 321 dias, conseguiram despejar mais de 1,5 milhão de toneladas de suprimentos aos sitiados. Foram tão eficientes que Stálin desistiu do bloqueio e foi tratar de ampliar seu império alhures.
Hoje, os Estados Unidos apoiam a erradicação da vida civil em Gaza, enquanto Reino Unido e França desviam o olhar para não parecer cúmplices. Dos “países-irmãos” árabes muçulmanos, já se falou aqui — historicamente, pouco a esperar.
E a ONU? Nada fez no mais longo cerco da História da guerra moderna — o de Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegovina, que durou quase quatro anos da década de 1990. Vivia-se então a desintegração da antiga Iugoslávia, e a Sérvia pretendia criar uma continuidade territorial na Bósnia, por meio da limpeza étnica dos muçulmanos. Ao longo do cerco, 64% da população da cidade não sobreviveu às privações. Sem falar no massacre de Srebrenica, enclave muçulmano em território sérvio declarado “zona de segurança” pela ONU, também no âmbito da desintegração iugoslava. Ali, o horror foi fulminante — durou apenas 11 dias em julho de 1995. O bastante para se tornar o maior massacre cometido na Europa desde a Segunda Guerra.
É claro que cada matança, bloqueio ou cerco histórico reflete as dinâmicas militar, política e humanitária de seu tempo. Não é diferente em Gaza. Mas nem por isso deixa de ser horrendo que continuemos a assistir calmamente a mais um estrangulamento de povo. Gaza está sozinha no mundo. Solidariedade não basta para mudar a história.
Nesta semana o poeta de 31 anos recebeu o prestigioso prêmio Pulitzer por ensaios publicados na revista The New Yorker sobre os efeitos físicos e emocionais da carnificina em curso. Em paralelo, também recebeu ameaças de grupos da extrema direita americana que exigem sua depo1]rtação. Acabou cancelando palestras agendadas em diversas universidades do país.
Mesmo que quisesse ser deportado para seu chão, Abu Toha não conseguiria. A Faixa de Gaza está selada por terra, mar e ar. Ninguém entra nem sai desde que o governo israelense de Benjamin Netanyahu, em 22 de março último, rompeu a trégua acordada numa tentativa extrema de obter a capitulação do Hamas.
Difícil não ver ironia nas comemorações, nesta semana, dos 80 anos do final da Segunda Guerra. A vitória das Forças Aliadas e da União Soviética contra o nazismo não parece ter produzido uma humanidade menos cínica. Moscou comemora com razão a quase sobre-humana resistência da antiga Leningrado (hoje São Petersburgo) ao histórico cerco militar de 872 dias. Hitler havia ordenado que não seria dada a opção de rendição à cidade. Ela deveria simplesmente cessar de existir, destruída por bombardeios, fome, doenças, apagamento de vida. Ainda assim, Leningrado resistiu, defendida até a última unha pelo Exército Vermelho e por uma população civil comparável à da Faixa de Gaza hoje (mais de 2 milhões). Estima-se que perto de 1,5 milhão de civis não tenham sobrevivido ao cerco.
Pergunta: para que serve o colossal aparato militar russo exibido na Praça Vermelha se ninguém, ali, é capaz ou está interessado em salvar uma única criança a minguar em Gaza?
Também vem à mente o bloqueio de Berlim Ocidental, já em plena Guerra Fria. Em junho de 1948, os soviéticos interromperam todo e qualquer trânsito de pessoas, mercadorias, fornecimento de eletricidade e água à população sob tutela de França, Grã-Bretanha e Estados Unidos. A medida ordenada por Stálin visava ao isolamento da vida naquele setor, para obter controle total sobre a cidade dividida. Como é sabido, os aliados ocidentais reagiram, montaram uma complexa logística aérea e abasteceram as necessidades dos quase 2,5 milhões de berlinenses ilhados (novamente, população próxima aos 2,3 milhões de palestinos de Gaza). Durante 321 dias, conseguiram despejar mais de 1,5 milhão de toneladas de suprimentos aos sitiados. Foram tão eficientes que Stálin desistiu do bloqueio e foi tratar de ampliar seu império alhures.
Hoje, os Estados Unidos apoiam a erradicação da vida civil em Gaza, enquanto Reino Unido e França desviam o olhar para não parecer cúmplices. Dos “países-irmãos” árabes muçulmanos, já se falou aqui — historicamente, pouco a esperar.
E a ONU? Nada fez no mais longo cerco da História da guerra moderna — o de Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegovina, que durou quase quatro anos da década de 1990. Vivia-se então a desintegração da antiga Iugoslávia, e a Sérvia pretendia criar uma continuidade territorial na Bósnia, por meio da limpeza étnica dos muçulmanos. Ao longo do cerco, 64% da população da cidade não sobreviveu às privações. Sem falar no massacre de Srebrenica, enclave muçulmano em território sérvio declarado “zona de segurança” pela ONU, também no âmbito da desintegração iugoslava. Ali, o horror foi fulminante — durou apenas 11 dias em julho de 1995. O bastante para se tornar o maior massacre cometido na Europa desde a Segunda Guerra.
É claro que cada matança, bloqueio ou cerco histórico reflete as dinâmicas militar, política e humanitária de seu tempo. Não é diferente em Gaza. Mas nem por isso deixa de ser horrendo que continuemos a assistir calmamente a mais um estrangulamento de povo. Gaza está sozinha no mundo. Solidariedade não basta para mudar a história.
Ansiolítico para a politização da vida
A democracia deveria ser chata. O tédio indica que as coisas funcionam bem, políticos e partidos circulam pelas posições de poder quase aleatoriamente e sem solavancos, juízes de que não se sabe o nome fazem o seu trabalho com tranquilidade, e os demais serviços públicos acontecem como o dia sucede a noite. As pessoas tocam a vida sem se ocupar muito do que ocorre nos palácios e nas assembleias.
Há mais de dez anos esse padrão se alterou num punhado de países democráticos. Simulacros de batalhas de vida ou morte impregnaram o cotidiano. Tornou-se hábito denunciar as agendas ideológicas de cientistas, artistas, professores, magistrados, empresários, sacerdotes, esportistas, diplomatas, jornalistas e inseri-las no grande jogo da política. Ganhar eleição virou credencial para bagunçar o coreto institucional e sabotar contratos sociais profundos e longevos.
Como a autoajuda ainda não saiu de moda, arrisco algumas sugestões para atravessar esse período tempestuoso minimizando, quem sabe, as avarias no casco mental.
Brasília é Brasil. Não caia no conto do vigário de que a política se transformou num clube fechado de privilegiados imorais dedicados a esfolar os bons cidadãos na planície. Se você for eleito presidente e seus amigos virarem deputados, senadores e ministros do Supremo, a situação não melhora.
O radical é o conservador de amanhã. A história universal dos agitadores mostra que o espírito da abertura à novidade é espancado tão logo o demagogo molda o governo à sua feição e se cerca de bajuladores. Na oposição a gente faz bravata, disse um sábio político brasileiro. Acredite nele.
Político não é salvador nem exterminador da pátria. A paixonite por um candidato deveria ser encarada e tratada como síndrome aditiva. O ódio mortal também. Em regimes democráticos o pior canalha acerta aqui e ali, e o melhor estadista de vez em quando apronta uma cabeluda. Venere e execre entidades sobrenaturais, não seres humanos.
Política nacional nem sempre salva a lavoura. É mais importante preocupar-se com a instrução que as crianças recebem num raio de 5 km de você do que esgoelar-se pela anistia em Brasília. Governos e burocracias locais fazem diferença em temas cruciais.
Politizar e moralizar tudo é artimanha de preguiçosos e néscios. A despeito das opiniões políticas de García Márquez, Vargas Llosa, Nana Caymmi e Aldir Blanc, um universo estético e artístico com códigos próprios envolve as suas obras. Navegar por ele e nele desenvolver afinidades e críticas faz bem à alma, propicia elevação e gozo. O crápula pode ser sublime, e a vestal, cantar como uma gralha. O que uma celebridade afirmou sobre eleições e candidatos não tem valor especial. Ignore.
Há menos conspirações do que imagina nossa vã ideologia. Maquinações de vilões para destruir o planeta só abundam nos filmes da Marvel. Empresas farmacêuticas não planejam controlar nossos corpos ou evitar que a natureza sozinha nos cure e nos fortaleça. Falta de vacina e de antibiótico pode matar mesmo, e a melhor opção não estará nos florais de Bach, no leite cru, na cloroquina nem na homeopatia.
Valorize o saber, não os sabichões. Procure ser menos conclusivo e mais especulativo ao abordar um campo de conhecimento que mal arranha. Amplie suas informações, aprenda sobretudo a fazer as boas perguntas e a tomar distância de quem posa de profeta para anunciar novidades radicais.
Política é teatro cívico. Os papéis se invertem, inimigos viscerais se tornam aliados, as derrotas e as vitórias nunca são totais nem irreversíveis. Faça como um político, não odeie a ponto de não negociar; não ame a ponto de não contrariar.
Converse com quem você acha que detesta. Teclar é fácil, quero ver dizer barbaridades de uma pessoa na frente dela, num papo individual. Provavelmente vocês descobrirão que estão mal informados sobre as convicções de cada um, que há preocupações e defeitos comuns e que não vale a pena gastar tanta energia com política. Ouça, repense, proponha.
Há mais de dez anos esse padrão se alterou num punhado de países democráticos. Simulacros de batalhas de vida ou morte impregnaram o cotidiano. Tornou-se hábito denunciar as agendas ideológicas de cientistas, artistas, professores, magistrados, empresários, sacerdotes, esportistas, diplomatas, jornalistas e inseri-las no grande jogo da política. Ganhar eleição virou credencial para bagunçar o coreto institucional e sabotar contratos sociais profundos e longevos.
Como a autoajuda ainda não saiu de moda, arrisco algumas sugestões para atravessar esse período tempestuoso minimizando, quem sabe, as avarias no casco mental.
Brasília é Brasil. Não caia no conto do vigário de que a política se transformou num clube fechado de privilegiados imorais dedicados a esfolar os bons cidadãos na planície. Se você for eleito presidente e seus amigos virarem deputados, senadores e ministros do Supremo, a situação não melhora.
O radical é o conservador de amanhã. A história universal dos agitadores mostra que o espírito da abertura à novidade é espancado tão logo o demagogo molda o governo à sua feição e se cerca de bajuladores. Na oposição a gente faz bravata, disse um sábio político brasileiro. Acredite nele.
Político não é salvador nem exterminador da pátria. A paixonite por um candidato deveria ser encarada e tratada como síndrome aditiva. O ódio mortal também. Em regimes democráticos o pior canalha acerta aqui e ali, e o melhor estadista de vez em quando apronta uma cabeluda. Venere e execre entidades sobrenaturais, não seres humanos.
Política nacional nem sempre salva a lavoura. É mais importante preocupar-se com a instrução que as crianças recebem num raio de 5 km de você do que esgoelar-se pela anistia em Brasília. Governos e burocracias locais fazem diferença em temas cruciais.
Politizar e moralizar tudo é artimanha de preguiçosos e néscios. A despeito das opiniões políticas de García Márquez, Vargas Llosa, Nana Caymmi e Aldir Blanc, um universo estético e artístico com códigos próprios envolve as suas obras. Navegar por ele e nele desenvolver afinidades e críticas faz bem à alma, propicia elevação e gozo. O crápula pode ser sublime, e a vestal, cantar como uma gralha. O que uma celebridade afirmou sobre eleições e candidatos não tem valor especial. Ignore.
Há menos conspirações do que imagina nossa vã ideologia. Maquinações de vilões para destruir o planeta só abundam nos filmes da Marvel. Empresas farmacêuticas não planejam controlar nossos corpos ou evitar que a natureza sozinha nos cure e nos fortaleça. Falta de vacina e de antibiótico pode matar mesmo, e a melhor opção não estará nos florais de Bach, no leite cru, na cloroquina nem na homeopatia.
Valorize o saber, não os sabichões. Procure ser menos conclusivo e mais especulativo ao abordar um campo de conhecimento que mal arranha. Amplie suas informações, aprenda sobretudo a fazer as boas perguntas e a tomar distância de quem posa de profeta para anunciar novidades radicais.
Política é teatro cívico. Os papéis se invertem, inimigos viscerais se tornam aliados, as derrotas e as vitórias nunca são totais nem irreversíveis. Faça como um político, não odeie a ponto de não negociar; não ame a ponto de não contrariar.
Converse com quem você acha que detesta. Teclar é fácil, quero ver dizer barbaridades de uma pessoa na frente dela, num papo individual. Provavelmente vocês descobrirão que estão mal informados sobre as convicções de cada um, que há preocupações e defeitos comuns e que não vale a pena gastar tanta energia com política. Ouça, repense, proponha.
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