quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Pensamento do Dia

 

Uma em cada 11 pessoas entre oito e 18 anos
é viciada em dispositivos eletrônicos

Negacionismo de Trump faz mal à saúde e prejudica clima

O “meme” é mais antigo do que a internet. Surgiu de uma correlação entre a bagagem genética e a bagagem cultural, como um termo criado pelo neodarwiniano britânico Richard Dawkins, na década de 1970, em seu livro O Gene Egoísta (Companhia das Letras). Para ele, a evolução humana não depende apenas de nossa bagagem genética (nossos genes), mas, também, de uma bagagem cultural, uma memória comportamental, que ele batizou como “meme”, palavra derivada de “mimeme” (imitação, no grego).

Um meme poderia ser qualquer ideia, comportamento ou tendência que tem a capacidade de passar de pessoa para pessoa por meio da imitação ou da nossa herança cultural. Com o passar dos anos, o termo ganhou outros significados, tendo se popularizado na internet como qualquer imagem, vídeo, bordão, hashtag ou áudio que sofre modificações e “viraliza” (mais uma comparação com a biologia), prática que mudou de escala com a inteligência artificial (IA).

Segundo Dawkins, “o ‘meme’ é o equivalente cultural de um gene. Então, qualquer coisa que passa do cérebro para o cérebro, como um sotaque, ou uma palavra básica, ou uma melodia. É tudo o que se espalha-se pela população de uma forma cultural, como uma epidemia. Então, uma loucura em uma escola, uma moda de roupas, uma maneira particular de falar, todas essas coisas são ‘memes'”.

Por ironia, Dawkins utiliza os “memes” da internet nas suas redes sociais para combater fake news e o negacionismo. “Se você baseia a medicina na ciência, você cura as pessoas. Se basearmos o design dos aviões na ciência, eles voam… A ciência funciona”, disse certa vez, no Planetário Hayden, em Manhattan, do Museu Americano de História Natural, hoje gerenciado pelo astrofísico Neil de Grasse Tyson.

O gesto de Elon Musk que repetiu uma saudação nazista na posse de Donald Trump, mesmo que não tenha sido intencional, é um “meme”. Sua origem pode estar na ancestralidade do magnata da tecnologia: os bôeres. São os descendentes de colonos calvinistas dos Países Baixos, da Alemanha e da Dinamarca, bem como de huguenotes franceses, que se estabeleceram nos séculos XVII e XVIII na África do Sul, após serem expulsos de Angola por Salvador de Sá, à frente de uma esquadra armada por senhores de escravos do Rio de Janeiro, após os holandeses serem expulsos do Nordeste.


Insulados por mais de 250 anos, os bôeres desenvolveram uma língua própria, o africâner, derivado do holandês com influências limitadas do bantu, do xhosa, do malaio e do alemão. Hoje vivem principalmente na África do Sul e na Namíbia, mas, também, no Botswana.

O Partido Nacional (em africâner: Nasionale Party, NP) foi o grande partido ultraconservador bôer, dominado por ex-simpatizantes do Eixo, que governou a África do Sul de 1948 a 1994 e promoveu o nacionalismo africâner e o apartheid. Os Musk são originários desse caldeirão étnico.

O ultraconservadorismo de Musk tem raízes históricas e culturais. Não tem contradição com reacionarismo de Donald Trump, mas é paradoxal seu apoio ao negacionismo do presidente dos Estados Unidos em relação à ciência. Musk é um homem da física e da tecnologia avançadas. O negacionismo frequentemente se baseia em desinformação, teorias da conspiração ou interesses específicos que buscam manipular o entendimento público, em contradição com as evidências históricas e científicas. Talvez a razão seja a última.

No dia da posse, Trump anunciou a saída do país da Organização Mundial da Saúde (OMS), a agência das Nações Unidas, como já havia feito em junho de 2020, em plena pandemia, indiferente à sua importância para o controle das grandes ameaças à saúde pública — por exemplo: as epidemias já conhecidas ou as que estão por vir. Os EUA colaboravam com cerca de US$ 550 milhões (cerca de R$ 3,3 bilhões) anuais para a OMS, cerca de 18% do seu orçamento.

Também pela segunda vez, Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, que junta quase todos os países do mundo. Assinado durante a COP 21, a 21ª cúpula do clima da ONU na França, o Acordo de Paris tem como principal objetivo manter o aumento da temperatura global abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, com esforços para limitá-lo a 1,5°C.

No entanto, em 2022, a temperatura média global subiu 1,6°C, evidenciando a urgência de ações climáticas. Os EUA, a maior economia mundial, são o segundo maior emissor de gases de efeito estufa, atrás da China, que manteve suas metas de transição energética. Sua decisão enfraquece a COP 30, que se realizará em Belém, em novembro deste ano.

Nova ordem no Planeta Vermelho

Donald Trump tomou posse como presidente de Marte. Elon Musk, o homem mais rico do Universo e com grandes interesses no Planeta Vermelho, será o seu mentor, o cérebro por trás do trono, quase um presidente putativo. Com isso, podemos ter certeza de que Trump cumprirá suas promessas de campanha: "Vamos fazer Marte grande de novo!", "Marte em primeiro lugar!", "Vamos nos orgulhar, vamos ser fortes, vamos vencer como nunca!" Perguntado sobre a sua relação com a Lua, foi taxativo: "Não precisamos dela!"


Com Trump no comando, Marte pode esperar por um governo marcial. Trump vai taxar todo o Sistema Solar. Planetas estéreis, como Saturno, Urano e Netuno, com suas organizações inúteis e parasitárias que vivem às custas de Marte, não perdem por esperar. Trump vai ocupar pela força os vizinhos Mercúrio e Vênus, retomar o Canal de Júpiter —afinal, foram os marcianos que o construíram— e, principalmente, construir um muro para isolar a Terra. Chega de terráqueos bigodudos, traficantes de drogas e cheios de filhos barrigudinhos e de nariz sujo continuando a passar pela fronteira e empesteando Marte. Os que já tiverem entrado serão deportados. Filhos de terráqueos ilegais terão sua cidadania revogada. O slogan oculto é: "Vamos fazer Marte louro de novo!"

Trump promete acabar de furar a Terra por todos os lados em busca de combustíveis fósseis. Se isso provocar mais secas, chuva, tsunamis, incêndios ou terremotos, a culpa será do Partido Democrata, que não trabalhou direito nos últimos quatro anos.

Em Marte só haverá homens ou mulheres, uns ou outros, sem opções extra ou intermediárias. As mulheres serão obrigadas a usar o chapéu do Zorro. As fake news serão a nova verdade, e acredite quem quiser. Com o indulto aos condenados pela invasão do Capitólio em 2021, o Poder Judiciário se tornará mero subscritor das decisões imperiais. Fica liberado dar calços em policiais, roubar-lhes o quepe e passar a mão em suas bundas e sair correndo.

Como todos sabem, Marte, na mitologia, é o deus da Guerra. Portanto, é Marte acima de tudo e Trump, seu marechal, acima de todos.

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É a hora de uivar, porque se nos deixarmos levar pelos poderes que nos governam, e não fazermos nada para contrariar isso, pode dizer-se que merecemos o que temos
José Saramago 

Faça a oligarquia grande novamente

A oligarquia está aqui. Pelo menos durante o primeiro mandato de Trump, ele fingiu evitar conflitos de interesse. Agora, ele está abertamente fazendo um acordo de US$ 500 milhões com o governo de Omã enquanto presidente. Vários bilionários da tecnologia visitaram Mar-a-Lago para pagar para jogar, dando a ele milhões de dólares. Ele está tirando dezenas de milhões do governo saudita para usar seus campos de golfe — novamente, como um presidente em exercício.

A escolha de Trump para Secretário do Tesouro é um CEO de fundo de hedge que quer taxar os ganhos das pessoas mais pesadamente do que os ganhos de capital, o que significa que professores e trabalhadores pagariam mais em impostos do que bilionários que lucram com o mercado de ações sem levantar um dedo. E eles estão trabalhando para estender os cortes de impostos de Trump, que beneficiaram esmagadoramente o 1% mais rico.

Trump está enchendo sua administração com mais milionários e bilionários do que qualquer outra na história. Quem você acha que eles representarão? Esta é uma guerra de classes — socialismo para os ricos e individualismo robusto para o resto de nós.

Trump está ostentando sua intocabilidade. Ele foi considerado culpado de crimes, e o juiz o mandou embora com um desejo de "boa sorte". A Suprema Corte efetivamente disse que ele pode fazer qualquer coisa e sair impune, desde que seja rotulado como um "ato presidencial". Então, quem vai impedi-lo?

Qualquer um que tenha dito que Trump era a favor da classe trabalhadora deveria
ter a boca colada permanentemente.
Daniel Medina

Trump revive imperialismo de presidente de 1897 a 1901

Por causa do frio, a posse de Donald Trump aconteceu na Rotunda do Capitólio. Má ideia. De certa maneira, foi uma revanche. No 6 de janeiro de 2021 aquele lugar foi invadido pela turma que queria melar a vitória eleitoral de Joe Biden. Cenograficamente, é um lugar bonito. Fica embaixo da cúpula dos cartões-postais. Em seu espaço circular estão estátuas de notáveis da História americana. Em 1876, Dom Pedro II lá esteve e definiu-o:

— Fui ver o Capitólio. Aspecto majestosíssimo. Agradou-me muito o todo da arquitetura. Tudo o que é escultura é medíocre.

O mundo teve de aturar a mediocridade das esculturas da Rotunda.


Trump assumiu resgatando a memória de William McKinley (1897-1901) e devolveu-lhe a denominação da montanha mais alta dos Estados Unidos, cassada em 2015.

Não é retórica. Trump promete o início de tempos dourados. McKinley governou no auge de uma era folheada a ouro. Em seu primeiro mandato, o PIB americano cresceu a taxas inéditas. Àquela época, a U.S. Steel era maior que o governo federal. (Em 2025, faltou pouco para que a U.S. Steel fosse absorvida pela japonesa Nippon Steel.)

Trump quer retomar o Canal do Panamá, McKinley anexou o Havaí e, depois de expulsar os espanhóis, transformou Cuba, Porto Rico e Filipinas em protetorados americanos. Trump promete protecionismo, McKinley elevou as tarifas de importação.

Passado mais de um século, a Presidência de McKinley é vista como apogeu dos endinheirados. Os homens mais ricos dos Estados Unidos — John D. Rockefeller e Andrew Carnegie — cacifavam-no. (Ambos haviam saído do nada.) Nenhum dos dois foi à posse de McKinley, mas Elon Musk, o homem mais rico do mundo, não só estava em Washington, como faz parte do governo e quer um cantinho na Casa Branca.

Quando Trump diz que o Golfo do México se chamará Golfo da América, repete a rainha Vitória (1819-1901), que se desentendeu com o ditador da Bolívia e mandou tirar o país do mapa que tinha no palácio. Botar uma bandeira em Marte? Tudo bem, melhor ainda se ela for levada num foguete de Musk. Noves fora o teatro, Trump saiu do Acordo de Paris, apertou o ferrolho da imigração e certamente elevará as tarifas das importações. Assumiu com uma vitalidade que faltava a Joe Biden e antecipou uma Presidência menos sonolenta, mas McKinley ele nunca será.

Trump disse que a América Latina e o Brasil “precisam mais de nós do que nós precisamos deles”. Até aí, ele pode até estar certo. Os regimes de Cuba e da Venezuela viverão anos amargos, mas o Brasil e a América Latina não precisam dos Estados Unidos tanto quanto ele pensa.

Em 1896, quando McKinley tinha um pé na Casa Branca, o barão do Rio Branco escrevia a um amigo:

— Eu prefiro que o Brasil estreite as suas relações com a Europa a vê-lo lançar-se nos braços dos Estados Unidos.

Em 1896 a China estava humilhada e subjugada pelas potências da época. Conta a lenda que, num parque de Xangai, havia uma placa inglesa informando que estava proibida a entrada de “cachorros e chineses”. Em 2025, o ano pode fechar com Pequim chegando a um superávit comercial de US$ 1 trilhão.

O segundo mandato de Trump e o mundo

Que impacto a segunda vinda de Donald Trump terá sobre o mundo? O mundo é imprevisível. Trump também é imprevisível. Seu primeiro mandato transformou os Estados Unidos e o mundo. Seu segundo deverá ter um impacto ainda mais profundo.

“A partir de hoje”, disse Trump em seu discurso de posse, “os Estados Unidos da América serão uma nação livre, soberana e independente”. Estamos tão acostumados a esse tipo de expressão de autopiedade vinda dele e daqueles que o cercam, que elas (quase) deixaram de surpreender. No entanto, ele está falando do país mais poderoso do mundo, que liderou a inovação por um século e meio e moldou o mundo em que vivemos.

O que, afinal, impediu os EUA de serem uma nação livre, soberana e independente? A resposta, ao que parece, são as obrigações autoimpostas e restrições voluntariamente aceitas ao seu próprio poder. Agora, sugere ele, os EUA farão o que quiserem. Os EUA deixarão de ter pretensões de liderança moral e se proclamam outra grande potência sob o antigo lema “o poder faz o direito”.


Como o mundo vê esse evento? Em “Alone in a Trumpian World” (“Sozinho em um mundo trumpista”), o Conselho Europeu de Relações Exteriores acaba de publicar os resultados de pesquisas de opinião pública em todo o mundo. Eles são fascinantes. As pessoas mais perturbadas com o segundo mandato de Trump são os cidadãos de seus aliados mais próximos. Apenas 22% dos cidadãos da União Europeia (UE), 15% dos britânicos e 11% dos sul-coreanos acham que seu retorno é uma coisa boa para o seu país. Enquanto isso, 84% dos indianos, 61% da população da Arábia Saudita, 49% dos russos e 46% dos chineses acham que ele é bom para o seu país.

Isso, segundo o relatório, sinaliza a “aceitação pelos públicos de um mundo mais pragmático e orientado por interesses”. No entanto, para os aliados próximos dos EUA isso marca o fim de laços de confiança nos quais eles sempre se apoiaram. Eles não podem mais ser passageiros gratuitos do poder dos EUA. Talvez isso seja merecido. Mas trata-se mais do que mera dependência. Os europeus do pós-guerra realmente acreditaram na “ordem internacional liberal”. Para eles, seu desaparecimento é uma enorme decepção. Já o chamado “sul global” nunca acreditou plenamente nela e, portanto, sente-se mais à vontade com a abordagem pragmática e baseada em interesses de Trump.

Em duas áreas importantes - o comércio e o meio ambiente global - a postura de Trump criará desafios especiais. Na primeira, havia de fato uma ordem liberal, erguida em torno de instituições globais que promoviam a liberalização do comércio e forneciam uma estabilidade substancial ao ambiente da política comercial. Isso era de particular importância para pequenas economias dependentes do comércio. Como resultado, a proporção do comércio de bens em relação à produção mundial subiu de 5% no fim da Segunda Guerra Mundial para 15% no fim da Guerra Fria e 25% na véspera da crise financeira mundial. Desde então, essa relação estagnou.

Quanto dano as guerras tarifárias lançadas por Trump causarão? O comércio já entrou em colapso antes. Fará isso de novo? Trump tem a ideia (uma de suas muitas ideias tolas) de que os estrangeiros pagarão pelas tarifas. Na verdade, os americanos pagarão: ele não é apenas um valentão, mas um valentão idiota. Pobres Canadá e México. Como então as vítimas devem responder? A retaliação, segundo Dani Rodrik da Universidade Harvard, é custosa para aqueles que a abraçam. Então, seja cauteloso.

Uma segunda área crucial é a mudança climática. Isso, dizem os republicanos da ala Maga, é uma farsa. Então Trump declara que “vamos perfurar, baby, perfurar”. Em 2024, segundo a Nasa, as temperaturas globais ficaram 1,28º C acima da média de 1951-1980, o nível mais alto já registrado. As concentrações de CO2 na atmosfera continuam aumentando. Portanto, será “queimar, baby, queimar”. Essa indiferença com o destino do planeta poderá se mostrar devastadora. Isso também gera enormes preocupações para o resto do mundo.

Enquanto isso, será que o rei Donald será capaz de desfrutar de um renascimento econômico americano? É improvável, especialmente porque a economia que ele herdou está longe do desastre que ele proclama incessantemente. Pelo contrário, a economia dos EUA superou de longe seus pares desde a pandemia. Em sua atualização de janeiro do relatório “World Economic Outlook”, o Fundo Monetário Internacional (FMI) declara que “o crescimento projetado para 2025 é de 2,7%”. Isso é 0,5 ponto porcentual a mais do que sua previsão de outubro e uma taxa com que outras economias de alta renda só podem sonhar. Trump deveria agradecer a Joe Biden por esse legado.

Dado o quão boas as coisas estão, o caminho mais fácil a partir daqui é para baixo. No curto e médio prazo, a combinação de uma política fiscal persistentemente frouxa com desregulamentações radicais, as tarifas e a deportação em massa de imigrantes provavelmente reacenderá a inflação. Isso, então, desencadearia um conflito desestabilizador entre o presidente e o Federal Reserve (Fed).

Combinado com uma nova onda de desregulamentação financeira, isso poderá provocar outra crise financeira. Isso, por sua vez, causaria o colapso de um mercado de ações historicamente supervalorizado, o único indicador com o qual Trump realmente se importa.

Além disso, Trump herda um déficit fiscal previsto pelo Gabinete de Orçamento do Congresso de 6,2% do PIB este ano, com a dívida nas mãos do público em 100% do PIB e aumentando rapidamente. Esse é um caminho insustentável. A esperança parece residir em cortes massivos nos gastos para fechar esse rombo. Contudo, esses cortes não serão grandes o suficiente e inevitavelmente afetarão seus próprios apoiadores políticos. Talvez, em seu segundo mandato, ele não se importe mais. Mas eles, com certeza, irão.

Trump é imprevisível. Talvez ele entregue uma paz justa na Ucrânia e no Oriente Médio. Talvez ele coloque a maioria de suas ameaças e promessas na lixeira do Salão Oval, aproveite seu status e deixe seu país e o mundo em boa forma. Danos substanciais à aliança ocidental, ao comércio mundial, ao meio ambiente global e às instituições americanas e globais parecem mais prováveis. No entanto, ele proclamou em seu discurso: “Meu legado de maior orgulho será o de um pacificador e unificador. Isso é o que eu quero ser”. É o que todos nós queremos que ele seja também.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Projeto por concluir

Todos os anos exterminamos comunidades indígenas, milhares de hectares de florestas e até inúmeras palavras das nossas línguas. A cada minuto extinguimos uma espécie de aves e alguém em algum lugar recôndito contempla pela última vez na Terra uma determinada flor. Konrad Lorenz não se enganou ao dizer que somos o elo perdido entre o macaco e o ser humano. 

Somos isso, uma espécie que gira sem encontrar o seu horizonte, um projeto por concluir. Falou-se bastante ultimamente do genoma e, ao que parece, a única coisa que nos distancia na realidade dos animais é a nossa capacidade de esperança. 

Produzimos uma cultura de devastação baseada muitas vezes no engano da superioridade das raças, dos deuses, e sustentada pela desumanidade do poder econômico. Sempre me pareceu incrível que uma sociedade tão pragmática como a ocidental tenha deificado coisas abstratas como esse papel chamado dinheiro e uma cadeia de imagens efêmeras. Devemos fortalecer, como tantas vezes disse, a tribo da sensibilidade.
José Saramago

Homem vale mais

A política é desumana, porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta. Eu não sou um homem político, justamente porque amo o homem. 
João Guimarães Rosa

Quem poderá deter Donald Trump?

Logo no início de seu mandato, Jair Bolsonaro nomeou José Salim Mattar para o recém-criado cargo de secretário Especial de Desestatização. Fundador da maior locadora de automóveis da América Latina, o empresário se dizia um defensor das ideias liberais e com o tempo se converteu num dos principais doadores de campanha do Brasil - em 2022 ele aportou R$ 2,9 milhões do próprio bolso na eleição, a maioria para candidatos de direita.

A ideia do superministro da Economia, Paulo Guedes, de trazer um empresário de sucesso para comandar a secretaria responsável pelas privatizações era superar as resistências da burocracia, imprimindo ao processo o ritmo e a eficiência próprios do setor privado. Com a venda de estatais e de imóveis da União, Guedes esperava gerar R$ 2 trilhões de caixa até o final do mandato.

Vinte meses depois de tomar posse, contudo, Salim Mattar apresentou sua carta de demissão. Num dos últimos atos de sua fugaz passagem pelo setor público, o dono da Localiza apresentou num powerpoint o fluxograma do processo para a venda de estatais - um emaranhado de caixinhas, cada uma representando um órgão diferente, dentro das quais emergia uma gincana de pareceres jurídicos, avaliações econômico-contábeis e variadas exigências regulatórias e autorizações legislativas.

Acostumado a mandar e desmandar em sua companhia, o empresário sucumbiu diante dos ritos do serviço público, regidos pelos princípios da legalidade, da impessoalidade e da transparência.

Ao tomar posse como o 47º presidente americano, Donald Trump retorna à Casa Branca trazendo como uma das principais novidades a criação do Departamento de Eficiência Governamental, uma espécie de ministério (embora deva funcionar mais como um conselho) destinado a eliminar despesas e regulamentações entendidas como desnecessárias. Para conduzir o órgão, Trump anunciou o empresário e político Vivek Ganapathy e ninguém mais, ninguém menos, que Elon Musk, o homem mais rico do mundo.

Nos últimos anos, Musk se aproximou de Trump e apoiou o Partido Republicano com doações eleitorais que, segundo apuração do jornal Washington Post, passaram de US$ 277 milhões. Com negócios multibilionários nas áreas de inteligência artificial (OpenAI), veículos elétricos (Tesla), exploração espacial (SpaceX) e redes sociais (X), são claros os interesses do empresário sul-africano em estreitar laços com o mandachuva do Salão Oval da Casa Branca.

Por seu turno, ao trazê-lo para sua equipe de governo, Trump acredita na mística de Midas de Elon Musk. Embora herdeiro de uma das famílias mais ricas da África do Sul, Musk multiplicou sua fortuna com inovações disruptivas que, na visão do velho-novo presidente americano, serão fundamentais para reduzir de forma drástica o crônico déficit fiscal do governo e extinguir normas e exigências burocráticas que, na sua visão, são obstáculos à prosperidade do país. Nos “cálculos” de Musk, o novo órgão seria capaz de gerar uma economia de US$ 2 trilhões com o corte de desperdícios, o fechamento de agências governamentais e a demissão de servidores públicos ociosos.

O resultado das eleições americanas veio acompanhado de grandes expectativas, para seus apoiadores e fãs, e muitos temores da parte de todos que não compactuam com suas ideias. Afinal, Trump não apenas volta ao comando da maior potência econômica, bélica e tecnológica do globo, como vem acompanhado de maiorias do Partido Republicano na Câmara e no Senado, além do domínio conservador na Suprema Corte.

Tamanho poder, aparentemente desprovido de contrapesos institucionais, é o que alimenta o ânimo dos trumpistas quanto a uma guinada radical à direita não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo. No lado oposto, seus críticos questionam quem ou o que poderá deter Donald Trump em seu segundo mandato, contendo os potenciais estragos sobre as instituições multilaterais, os esforços contra o aquecimento global, a desigualdade econômica e a própria democracia.

Do ponto de vista político, há quem deposite suas esperanças na reação da sociedade americana caso Trump extrapole os limites do seu cargo, ou até mesmo numa perda da maioria republicana nas eleições de meio de mandato. Na economia, existem aqueles que acreditam que parte do empresariado americano irá se opor a medidas radicais que elevem os custos de seus negócios ou que gerem reações de outros países, como uma elevação drástica de sobretaxas contra importados (sobretudo chineses) ou uma política de deportação em massa que agrave desequilíbrios no mercado de trabalho.

E aqui voltamos a Elon Musk e aos vários outros empresários e executivos que Trump recrutou para postos-chave de sua gestão. Os paralelos com a experiência brasileira não se limitam às doações milionárias e aos trilhões prometidos de cortes nas despesas públicas. A presunção desses homens de negócios, combinada com o desconhecimento da máquina pública, pode emperrar muitas das ações pretendidas por Trump.

A ver se, também no setor público, Musk e seus colegas conseguirão transformar tudo em ouro - ou, como eles preferem, em criptomoedas.
 Bruno Carazza

Trump e a terra de Murici

Em uma cerimônia que será lembrada como o apogeu da reação política conservadora após anos de hegemonia progressista, o presidente empossado Donald Trump prometeu restaurar um mundo destinado aos fortes.

Segurança de fronteiras com uso das forças armadas, protecionismo comercial, expansão da indústria militar, exploração máxima de fontes de energia poluentes e não renováveis, transferência de recursos de outras nações para os Estados Unidos por meio de tarifas, o fim do politicamente correto (que está sendo classificado como uma antítese da liberdade de expressão), controle da inflação e consolidação de uma área de influência no hemisfério ocidental e, mais especialmente, no continente americano.


Foi um discurso direcionado para o que se chama de “América Profunda”, com forte carga emotiva e nostálgica. Mas também um texto com muitos – e duros – recados para o mundo.

Autolegitimado por um discurso de que o mundo se acostumou a obter vantagens injustas dos EUA, Trump sinalizou que a nova administração abrirá inúmeras frentes de renegociação de tratados e acordos comerciais, colocando os países na defensiva.

O “America First”, nesse sentido, é uma força real de motivação de políticas domésticas e de relações exteriores. Para dentro, capitaliza uma energia eleitoral incrível, que lhe deu maioria na Câmara e no Senado e, para fora, promove um novo balanço das forças a partir do abandono de padrões multilaterais e da negociação individual, que valoriza o peso desproporcional dos Estados Unidos.

Para obter mais vantagens, Trump quer fazer acreditar que seu país não tem um rival à altura. A ameaça de sobretaxar países que tentarem substituir o dólar nas suas transações comerciais – cogitado pelo grupo dos Brics –, passa o recado de que nações não alinhadas não têm a quem recorrer e que passar para a zona de influência da China não é uma opção.

Com a oposição enfraquecida, analistas têm escrito que os principais limites à ação de Trump devem vir de rachaduras internas e do resultado de escolhas erradas que podem ser feitas. Como grupo heterogêneo, haverá divergências entre aliados. Um exemplo é a fala de Elon Musk na qual a política migratória deve abrir exceções para trabalhadores altamente qualificados.

Outra discussão é se a combinação de restrição a imigração, a taxação das importações e estímulos dados à economia por meio do corte de impostos não ampliará o problema da inflação. Além disso, pode-se se perguntar se a atitude agressiva dos Estados Unidos em relação às suas áreas vizinhas não estimulará o expansionismo russo ou chinês.

Por ora, no entanto, essas rachaduras não aparecem e o que chama atenção é a imagem de concentração de poder. A presença de praticamente todos os chefes das Big Techs na posse foi a mais simbólica das fotografias tiradas na posse, mostrando uma corte tecnológica e poderosa em torno do Trump.

Curioso que isso ocorre ao mesmo tempo em que começa em Davos o Forum Econômico Mundial. Para inaugurar o encontro, foi divulgado o relatório anual de riscos que elegeu “desinformação e as notícias falsas” como a principal ameaça ao planeta, acima até da emergência climática.

Trata-se de um período conflituoso entre países, entre grupos sociais, empresas e governos. Não que outros tempos não o fossem, mas há uma diferença neste ciclo político inaugurado junto com Trump. Deixa-se de lado o véu típico das disputas diplomáticas e escancara-se que, hoje, o que vale e a regra da terra de Murici, onde cada um cuida de si.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Ocasião faz o tirano


Que a tirania de dez milhões se exerça sobre um indivíduo, que a de um indivíduo se exerça sobre dez milhões, é sempre tirania, é sempre uma coisa abominável.

Alexandre Herculano

Como sobreviver a Trump e big techs

Para evitar compras supérfluas, resolvi consertar algumas roupas velhas. Por meio das redes sociais, consegui uma costureira que veio da Baixada Fluminense com sua máquina, trabalhou algumas horas e resolveu tudo.

Fiquei maravilhado com o fato de as redes sociais, além de terem importância comercial, abrirem fontes de renda para milhares de trabalhadores autônomos. Andei pesquisando, e alguns números indicam que cerca de 10 milhões de pessoas geram parte ou toda a sua renda nas redes. Numa pesquisa de 2023, mais de 60% das pequenas empresas brasileiras retiravam parte ou toda a sua renda de plataformas como Instagram e Facebook.

No momento, temos discutido muito o alinhamento da Meta ao governo Trump e a desmontagem de sua estrutura de checagem do material que veicula. Sem dúvida, um tema importante porque trata de questões políticas, democracia, liberdade de expressão, fake news e respeito à legislação nacional.

Vejo essa posição da Meta como uma ponta do iceberg. O fato principal é a existência de uma coalizão de bilionários donos das big techs com o governo dos Estados Unidos. Elon Musk, X, Mark Zuckerberg estão ao lado de Trump numa aventura inédita na História mundial.

De um ponto de vista econômico, que tipo de resistência é possível oferecer a essa nova coalizão?

Países como a China criaram suas redes sociais próprias: WeChat (semelhante ao WhatsApp, com funções adicionais de pagamento e comércio digital), Weibo (similar ao X) e Douyin (TikTok).

A China tem uma perspectiva de controle político, uma visão mais severa de segurança nacional e muita tecnologia. Não é o modelo.

Mesmo com o risco de parecer ingênuo, estou tentando formular algumas ideias que possam nos tornar menos vulneráveis a esse tremendo poder simbolizado pelo novo governo americano e as big techs.

Confesso que estou tateando. No entanto me arrisco a dizer que alguns fatores da luta contra o aquecimento global convergem diretamente para uma pauta de resistência democrática a essa formidável aliança de extrema direita.

O primeiro ponto que poderá nos fortalecer é uma transição rápida no campo da energia. Energia renovável e abundante é necessária não apenas para o crescimento sustentável, mas para amparar um avanço tecnológico. Centros de dados e a inteligência artificial são vorazes consumidores de energia.

O país precisaria de mais satélites. Servem para monitorar o clima, mas também para basear uma estrutura própria de comunicação.

Aliás, nesse contexto tão delicado, redes de comunicação local, intranets, tecnologias off-line, tudo isso poderia ajudar. Assim como poderia ajudar o investimento em infraestrutura descentralizada, diversificação econômica e inovação tecnológica. O Brasil ficaria mais forte formando mais gente em cibersegurança, engenharia de rede e gestão de crises.

Outro aspecto que reduziria a vulnerabilidade é incentivar a produção local para reduzir a dependência das cadeias globais. Sentimos como na pandemia Índia e China tinham mais produtos médicos; na guerra na Ucrânia, corremos atrás de fertilizantes.

Não sei ainda se isso é um programa sensato para tornar o país menos vulnerável. No momento, o único fator que detém os bilionários das big techs é o lucro. O Brasil é um grande mercado. No entanto, em certos momentos, pode ser que, por motivos políticos, queiram dar um xeque-mate. Aí então, o conceito de soberania nacional transcende ao campo simbólico, não depende tanto de juízes do STF, mas sim da base material para começar uma conversa.

Não é preciso criar uma rede social nacional, mas estar próximo disso é um grande argumento: data centers, internet de alta velocidade, tecnologia de inteligência artificial e algoritmos, muita gente especializada e, sobretudo, recursos — tudo isso se acumulando no tempo acaba sendo um fator de dissuasão.

Trump: Um cão que sempre ataca

A partir desta segunda-feira veremos o quanto morde esse cão que late grosso. Será o dia da posse do novo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, este seguidor do estrategista político da extrema direita (all-right) Steve Bannon, que mandou “atacar sempre”.

Atacar sempre é o que Trump não deixa de fazer, com o objetivo declarado de pôr em prática o lema do aviador Charles Lindbergh, evocado em 1941: “America first”, a América em primeiro lugar.

É postura que implica escolha permanente do inimigo a combater. E o principal é a China, e não mais a extinta União Soviética ou a nova Rússia comandada por Vladimir Putin, hoje tido mais como aliado do que como antagonista.


As ameaças de anexar o Canadá e a Groenlândia, mais a de intervir no Canal do Panamá, por enquanto não parecem mais que latidos estridentes destinados a desviar a atenção de outros alvos prioritários.

Trump alardeia a iminência de uma política fortemente protecionista, que procure cortar as asas da China e dos novos campeões globais.

Será uma política que apresenta lá suas limitações. A China tira, sim, mercado do produtor e emprego do trabalhador dos Estados Unidos quando mantém uma política agressiva de exportações e emplaca um superávit

comercial de quase 1 trilhão de dólares em 12 meses, como em 2024. Mas é esse megasuperávit que também constrói sólida demanda por títulos do Tesouro dos Estados Unidos, a ponto de compor a maior parte das reservas externas chinesas, hoje de US$ 3,2 trilhões. Sem essas compras massivas de treasures pela China, a sustentação da dívida e da política fiscal dos Estados Unidos corre riscos.

Além disso, todas as grandes empresas dos Estados Unidos estão na China e exportam de lá. O poderoso Tycoon da Tesla, de Elon Musk, vem batendo recordes de produção e de exportação de carros elétricos a partir da China. Tirar oxigênio das exportações chinesas acabará por asfixiar também cadeias produtivas em capitais dos Estados Unidos. É mais uma limitação.

Uma política protecionista para valer não prejudicará apenas a China e demais tigres asiáticos. Tenderá a sangrar, também, a produção da União Europeia e dos parceiros comerciais dos Estados Unidos, Canadá e México. Bastará o efeito desse torniquete para lesar a produção e o comércio ao redor do mundo.

Daí os riscos dos efeitos perniciosos da política de Trump também sobre o Brasil. Está para ser avaliado seu impacto sobre as exportações de matérias-primas, especialmente de grãos, petróleo e minérios, que perfazem a maior parte das vendas externas do Brasil.

E deverão aumentar as pressões para que o governo brasileiro ajude a conter a China na expansão da sua Nova Rota da Seda, que conta com a adesão de mais de 145 países.

Enfim, uma coisa é cão que late e outra, cão que morde – e quanto morde.

Posse de Trump é o fim de um mundo

'Estou morrendo. O que peço é que me deixem em paz. Meu ciclo já terminou’, pediu em entrevista ao jornal Búsqueda José “Pepe” Mujica nos primeiros dias de 2025. Dono de uma trajetória que só não comove quem desconhece o significado de pertencer à espécie humana, o uruguaio Mujica sabe estar doente e cansado. Pediu repouso tendo chegado aos 89 anos como fortaleza moral e cívica de um mundo em extinção. E iniciou o merecido retiro poucos dias depois que outra figura de coerência rara — o ex-presidente americano Jimmy Carter — morrera aos 100 anos para só então receber o reconhecimento culposo que lhe fora negado na Casa Branca.

É com esse pano de fundo que assistiremos à volta ao poder de Donald Trump como 47º presidente dos Estados Unidos. Oportuno momento para relembrar um histórico comentário de 111 anos atrás, feito por Sir Edward Grey, à época chanceler do então ainda portentoso Império Britânico. Encostado à janela do palacete que abrigava seu gabinete, profetizou:

— As luzes estão se apagando por toda a Europa. Não voltaremos a vê-las acesas em nosso tempo.

Poucas horas depois, duas divisões do Exército alemão esmagavam a fronteira da Bélgica, dando início à Grande Guerra de 1914-1918, que engoliu cerca de 21,5 milhões de vidas (entre civis e militares). Grey sempre argumentara que a neutralidade não era uma opção viável diante do expansionismo alemão.


Não que o mundo vá acabar a partir de amanhã nas mãos de um triunfal Donald Trump. Mas a posse em Washington pode muito bem servir de data oficial para o fim de “um” mundo — aquele no qual vivíamos, frequentemente às turras, desde o final da Segunda Guerra. Ao complexo militar-industrial de ontem vem se juntar agora o domínio sem fronteiras do complexo tecnoindustrial, cujos plenos poderes ainda estão longe de serem mapeados. E ainda menos, cerceados. Eles lidam com a manipulação e o controle da verdade, este bem cada vez mais fugidio no nosso cotidiano.

Em sociedades decadentes, nas quais a população abre mão de exercer poder político, poder social, interesse cívico ou econômico (outro que o consumismo), a figura do líder de soluções simples parece redentora. Trump prometeu um retorno a uma mítica idade dourada da História americana, que, na realidade, jamais existiu, mas que habita o imaginário de dependentes de redes sociais. Também recebeu consentimento de seus eleitores para descartar grupos destoantes e indivíduos incômodos. Para muitos, inclusive democratas, parte das fulminantes mudanças anunciadas haverá de parecer necessária para desemperrar a ineficiência da máquina do Estado, enquanto a corrosão aos fundamentos do Estado Democrático de Direito permanecerá invisível por largo tempo.

A chacoalhada geral que se inicia encontra terreno fértil neste que já foi batizado de “século antissocial”. O termo — cunhado por Derek Thompson em ensaio na revista The Atlantic — aponta a dissolução da vida comunal pela tecnologia como o fator de maior mudança na sociedade americana no século XXI — uma solidão autoimposta, não a obrigatória dos tempos da Covid-19. Thompson retrata de vários ângulos quanto o cotidiano coletivo foi sendo substituído por “vivências delivery”. Em muitas lanchonetes e restaurantes do país, perdeu-se o contato humano, substituído pela impessoal retirada de pedidos feitos on-line. A socialização vem declinando em níveis que evocam as telas de Edward Hopper. Entre jovens de menos de 25 anos, o declínio de convívio interpessoal fora das redes sociais cresceu em 35%.

Ao contrário das outras espécies, ensina Pepe Mujica, a vida humana, pelo seu próprio desenvolvimento intelectual, permite que tenhamos a consciência de fazer escolhas, de dar um sentido ao viver.

— Sem objetivo, ou uma causa, a sociedade de mercado vai te enquadrar e vais passar o resto da vida pagando contas, pois és essencial para a mecânica do mercado — explicou em entrevista à BBC no ano passado. — Acabas confundindo o ser com o ter.

É nesse terreno fértil a experimentações que Donald Trump assume o poder. O mundo não merecia tamanho retrocesso civilizatório — a era de desagregação social em que vivemos já deveria ser castigo suficiente.

sábado, 18 de janeiro de 2025

De Adolf a Donald

As promessas e ameaças de ­Donald Trump reproduzem episódios já vividos nos labirintos da economia global. Digo reproduzem para exprimir a incompatibilidade do factual imediato com a concepção que advoga a dinâmica das estruturas nas trajetórias das economias de mercado monetário-financeiras capitalistas.

A mais conhecida e dolorosa reestruturação daquilo que, parodiando ­Schumpeter, poderíamos chamar de Ordem Capitalista começou a se desenvolver a partir dos anos 30 e encontrou seu apogeu nas duas primeiras décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Essa reordenação foi uma resposta aos desastres provocados pelas “falhas” do mercado autorregulado, agravadas pelo apego dos governos a políticas fiscais e monetárias conservadoras. Essa miopia liberal-conservadora suscitou violentas reações de autoproteção da sociedade assolada por desgraças como o desemprego em massa, o desamparo, a falência e a bancarrota.


Nesse período, a economia mundial foi palco de rivalidades nacionais irredutíveis, que se desenvolveram sem peias, na ausência de mecanismos de coordenação capazes de conter as desesperadas iniciativas para escapar aos danos da crise. As ações particularistas, tomadas em defesa das economias nacionais ou de grupos sociais, revelaram-se danosas para o conjunto. Este foi o caso, no plano internacional, das desvalorizações competitivas que acabaram provocando uma contração espetacular dos fluxos de comércio e suscitando tensões nos mercados financeiros. Tais forças negativas propagavam-se livremente, sem qualquer providência dos governos, imobilizados pelos fetiches do padrão-ouro e do equilíbrio orçamentário. Assim, a economia global mergulhou numa espiral deflacionária que atingiu indistintamente os preços dos bens e dos ativos. Frações importantes das burguesias europeia e norte-americana tiveram de rever seu patrocínio incondicional ao ideário do livre-mercado e às políticas desastrosas de austeridade na gestão do orçamento e da moeda, diante da progressão da crise social e do desemprego.

Não bastasse, assim que a coordenação do mercado deixou de funcionar, setores importantes das hostes conservadoras aderiram aos movimentos fascistas e à assim chamada “estatização” (sic) impiedosa das relações econômicas como último recurso para escapar à devastação de sua riqueza.

Aqui cabe uma reprodução do artigo já publicado em nossa CartaCapital a respeito do recrutamento dos grandes industriais alemães pela liderança nazista. Reunidos por Hermann Goering no Reichstag, os grandes empresários ouviram o chanceler Adolf Hitler. Disse o führer: há que acabar com um regime fraco de Weimar, afastar a ameaça comunista, eliminar sindicatos e permitir que cada empresário fosse o führer de sua própria empresa. O discurso durou meia hora. Quando Hitler terminou, Gustav ­Krupp levantou-se, deu um passo à frente e, em nome de todos os presentes, agradeceu-lhe por ter finalmente esclarecido a situação política. O chanceler deu uma volta rápida em torno da mesa quando saiu. Eles o parabenizaram cortesmente.

A opinião convencional e conservadora insiste em afirmar a “estatização” da economia alemã na era nazista. Alguém mais atilado poderia argumentar que, na verdade, ocorreu uma brutal privatização da política econômica alemã. Malgrado as diferenças históricas, são inequívocas as semelhanças de inspiração entre o programa de Trump e as políticas econômicas dos regimes nazifascistas dos anos 30 do século XX. As semelhanças abrangem a proclamação da primazia do interesse nacional, a privatização do Estado, ocupado diretamente por um comitê de grupos empresariais, e a politização da economia, administrada despoticamente pelo estatal-privatismo, na contramão da “liberdade de mercado”. A onipresença dos poderosos das plataformas e das finanças no gabinete de Trump mimetiza o poder da Siemens e da Krupp na política econômica do III Reich.

Karl Polanyi, em sua obra A Grande Transformação, escrevendo sobre esse momento da história, mostrou como a revolta contra o despotismo do “econômico” revelou-se tão brutal quanto os males que a economia destravada vinha impondo à sociedade. Estudando o avanço do coletivismo nesta quadra, Polanyi conclui que não se tratava de uma patologia ou de uma conspiração irracional de classes ou grupos, mas da emergência de forças gestadas nas entranhas do mercado destravado.

Com o colapso dos mecanismos econômicos, a superpolitização das relações sociais tornou-se inevitável. O despotismo da mão invisível teria de ser substituído pela tirania visível do chefe. O político e a polícia começaram a invadir todas as esferas da vida social, como se fossem suspeitas quaisquer formas de espontaneidade.

Evento escancara plano de dominação evangélica para o Brasil


“Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice!”
(Chico Buarque / Gilberto Gil)


O que parece um simples evento religioso pode esconder muito mais do que se imagina. É o caso do “2º Congresso Internacional Legado Cristão” que acontece neste fim de semana no Memorial da América Latina, na Barra Funda, bairro da capital paulista. Em pauta, temas como família, educação e liberdade sob uma perspectiva cristã.

Embora o evento se apresente como um fórum para promover valores cristãos, há de forma inequívoca a promoção da chamada “teologia do domínio”, que defende a subordinação das esferas pública e privada aos preceitos religiosos.

A “teologia do domínio” é uma doutrina que prega a necessidade de os cristãos assumirem o controle sobre todas as áreas da sociedade, incluindo governo, educação e cultura, para implementar uma nação sob “princípios bíblicos”. Especialistas alertam que essa ideologia ameaça diretamente a laicidade do Estado e a diversidade religiosa, fundamentais em uma sociedade democrática. A adoção dessa teologia por líderes religiosos e políticos no Brasil tem gerado debates sobre os riscos de uma agenda que busca impor valores religiosos específicos a toda a população.

O evento se apresenta como um “congresso para discussão sobre o papel da família, a essência da educação e o significado da liberdade, tudo sob a perspectiva cristã.” E traz, dentro de suas propostas, “um ambiente dinâmico e inspirador, rodeado por pensadores inovadores e líderes visionários.” Este ano o congresso se reúne sob o tema “Unir propósitos e avançar o Reino”.

A “marca” Legado Cristão é um esforço de vários movimentos, atores da sociedade civil, empresas, ministérios que realizam desde o ano de 2024 um congresso anual, mas mantém seminários que acontecem durantes todos os meses em diversos lugares do país, com um único objetivo: disseminar o projeto de “recolocar o Cristianismo nos debates da nossa sociedade para contornar o status quo das ideias hegemônicas desse mundo” a partir de uma tríade que resume todas as ações do “legado”: Família, Educação e Liberdade.

Logo na página oficial de divulgação do Congresso na internet, os organizadores não fazem a mínima questão de esconder os “compromissos” que serão selados no evento, e apresentam uma série de pontos a serem defendidos e divulgados como essenciais na trajetória e no “legado cristão” que o encontro espera deixar. Analisemos apenas alguns deles (são 15 no total).

Apoiar a candidatura política de cristãos
Leia-se aqui apoiar candidaturas fundamentalistas que defendam pautas moralistas e antiestatais (uma das pautas do Congresso é o “autogoverno”). Duas das principais preleções do evento serão realizadas pelo vereador Gilberto Nascimento, de São Paulo, e a deputada estadual em Santa Catarina Ana Campagnolo, ambos conhecidos pela virulência na defesa de pautas da extrema direita. No 1º Congresso, realizado em 2024, uma das principais falas (que inclusive é exposta na página de divulgação do 2º) foi do ex-procurador e ex-deputado federal Deltan Dallagnol. Dallagnol teve o mandato cassado por uma “fraude” contra a Lei da Ficha Limpa ao pedir exoneração do Ministério Público Federal (MPF) 11 meses antes das eleições, enquanto enfrentava processos internos que poderiam levar à sua demissão — e, em consequência, à sua inelegibilidade.

Incentivar jovens a ingressar em cursos-chaves para ocupar posi9ções de influência
A tática de ocupar os espaços, explícita na “teologia do domínio”, é incentivada principalmente para a juventude e aqui ocorre uma das muitas aparentes incoerências do movimento, mas que se justifica pelo “produto final” que é a doutrinação massiva da população brasileira: apesar de defensores ferrenhos do homeschooling (falaremos sobre isso mais tarde), há um incentivo para que jovens estudem e se formem como professores nas áreas conhecidas como de “humanas”, principalmente história e geografia (geografia mais analítica) afim de reverterem os “ensinos comunistas e errôneos”, tanto como nas ciências biológicas, cujo objetivo é contrapor o “ensino ateu” que vai de encontro ao criacionismo “bíblico”. Além, principalmente, do curso de Direito, que é um dos principais alvos do “legado cristão”.

Buscar uma relevância social e dentro do poder público local, regional e até mesmo nacional
Aqui se apresenta mais uma das aparentes incoerências, mas que se trata de uma estratégia muito bem elaborada: ocupar os espaços de poder público para enfraquecer o próprio poder público. Em diversos documentos e falas nas redes sociais e nos eventos, os promotores do “legado cristão” defendem um Estado mínimo e o “autogoverno”, principalmente no que se refere à educação e à cultura (o que favorece o domínio da manipulação e doutrinação para as quais são treinados incansavelmente). Os proponentes do evento são, em sua maioria, inimigos das políticas públicas, principalmente as que buscam o acolhimento e dignidade das minorias de “diversidade” (principalmente comunidade LGBTQIAPN+).

Fortalecer alianças nacionais e internacionais que defendam as liberdades individuais
Em postagem na página do Instagram do evento, uma das principais líderes do movimento no Brasil apresenta de forma efusiva uma matéria publicada recentemente, onde se apresenta um Fundo Cristão formado nos Estados Unidos que gerencia um montante de 20 BILHÕES de dólares, que tem como principal objetivo lutar contra políticas progressistas e da diversidade. Essa já é uma ideia em desenvolvimento no Brasil, a tirar pelos patrocinadores do evento, que é “gratuito”, ou seja, já existe um forte investimento de empresas, empresários, políticos e organizações para a disseminação e fortalecimento dessas ideias fundamentalistas e de dominação evangélica conservadora da política nacional. Estamos em um momento muito delicado.

Envolver-se na divulgação do que é educação domiciliar, sua defesa como direito humano natural tanto no âmbito estadual como nacional
Essa é uma das principais bandeiras do movimento, abraçada pelos principais organizadores: o chamado homeschooling. Nos últimos anos, o homeschooling – ou educação domiciliar – tem ganhado popularidade em diversos países, incluindo o Brasil. A proposta é educar os filhos em casa, sem a necessidade de frequentar uma escola tradicional, “personalizando” o ensino e “protegendo” as crianças de “influências externas.”

Um dos principais riscos do homeschooling é o isolamento social das crianças. A escola não é apenas um espaço de aprendizado acadêmico, mas também de interação e convivência com outras pessoas, fundamentais para a formação de cidadãos participativos e tolerantes . É nesse ambiente que os alunos desenvolvem habilidades sociais cruciais, como trabalho em equipe, resolução de conflitos e empatia. É sempre bom lembrar o que qualquer estudioso de movimentos sectários e separatistas sabe: uma das principais ferramentas de dominação, manipulação e doutrinação, principalmente de jovens é o isolamento. Isolando-o do convívio social e da diversidade humana, cria-se fanáticos fundamentalistas capazes de quaisquer coisas para defenderem suas “causas”.


Engajar comunidades locais de fé na formação integral do indivíduo, tanto como pessoa, quanto como cidadão. Em cada comunidade, um centro de formação
Preste bem atenção nisso: “em cada comunidade, um centro de formação”. O objetivo é fazer com que cada “comunidade local de fé” (igreja) se transforme num “centro de formação”. Mas para formar o que? Exatamente a multiplicação de defensores desse modelo de Estado mínimo, precursores de um neoliberalismo extremo carregado de fundamentalismo religioso que fará os neopentecostais (e seu projeto de poder) parecerem crianças indefesas perto de um sistema muito mais complexo e entranhado na sociedade.

Fomentar o legado cristão cultural nas mídias sociais demonstrando os resultados de sua aplicação ao longo do tempo
Já estamos experimentando um pouco desse “legado cristão cultural” exatamente nas ações de Elon Musk e Mark Zuckerberg em retirar de suas plataformas e mídias sociais o sistema de checagem de fatos. É a “pós-verdade” levada ao extremo. Valerá a “verdade” do grupo que detiver o poder. A prosperarem as ideias, ideais e projetos do “legado cristão” (aqui as aspas são necessárias, pois o Cristo nunca pregou um projeto de poder), é bom que nos preparemos para a total ausência do contraditório, do debate político e a instauração de uma espécie de teocracia bem piorada dos sistemas já conhecidos.

Quem faz a cabeça dessa gente?

Um dos elementos principais para analisarmos os objetivos e processos que esse evento traz a tona é a simples observância de alguns de seus principais palestrantes/pregadores. Principalmente atrelados aos temas que trarão como projeto de pensamento e execução. Como foi dito anteriormente, no 1º Congresso, em 2024 um dos principais oradores foi Deltan Dallagnol. Em eventos diversos da “rede legado cristão” (o Congresso Internacional é apenas o principal evento – outros em “menor escala” acontecem por todo o Brasil e em todo tempo) temos como pensadores Damares Alves a Aaron Pierce (não, não é o ator), executivo da Christian Halls Brasil, uma espécie de difusora de treinamentos em parceria com escolas em todo o Brasil (já atuam em 17 estados). Quais serão então os/as palestrantes do “Legado Cristão 2025”. Vejamos apenas alguns nomes e seus respectivos temas de abordagem:

Irene Squillaci – O legado cristão e seus inimigos no mundo
Pastora boliviana, advogada, conferencista, assessora política e empresarial, autora de “Vencendo a Batalha Eleitoral” e “Destronando o Estado” – este último livro é, segundo a editora: “para quem deseja compreender como o Estado na América Latina e no mundo destrói a economia das famílias por meio de suas políticas públicas. O livro aborda as 3 mentiras do socialismo que enriquecem o Estado enquanto empobrecem as famílias. Com base nos princípios do governo bíblico, encontraremos os princípios aplicados às políticas públicas para enriquecer e libertar as famílias.”

Ana Campagnolo – Acusações contra o cristianismo (desfazendo falácias e revelando a verdade)
Deputada estadual por Santa Catarina. Se apresenta como mulher antifeminista e dispensa maiores apresentações. É conhecida por defender desde 2018 tanto Jair Bolsonaro quanto o “Escola sem Partido”. Segundo matéria da Revista Fórum, “curiosamente, mesmo como defensora aguerrida da ideia de que nenhum professor pode falar nada e se manifestar em algum sentido ideologicamente nas escolas brasileiras, ela ia dar aula usando uma camiseta com o rosto e o nome do então presidente Jair Bolsonaro (PL), e tirava foto com a indumentária e alunos dentro da sala de aula.”

Guilherme Schelb – Construindo um sistema protegido e protetor do legado cristão
Procurador da República, chegou a ser cogitado por Bolsonaro para ser ministro da Educação. Defende abertamente bandeiras comuns a Bolsonaro e à bancada evangélica, como a proibição de que escolas discutam temas como gênero e sexualidade, um dos eixos do Escola sem Partido. Em 2018, Schelb divulgou em sua página no Facebook, a palestra “Marxismo Cultural: risco iminente as igrejas cristãs.”

Dois “workshops” também chamam a atenção:

Lidiane Castilho – NCFCA: Leve esta ferramenta de defesa da verdade para os seus jovens
Segundo o próprio site: “A NCFCA é uma liga de debates e discursos que treina pessoas, famílias e jovens para debaterem usando ferramentas da educação clássica, desenvolvendo sua retórica através de debates e discursos. O objetivo é que eles possam persuadir com suas ideias, sempre fundamentadas em princípios cristãos.”

“Ajudamos adolescentes a aprender habilidades de comunicação do mundo real que os equipam para a vida. Os alunos que se envolvem conosco se tornam palestrantes equilibrados, pesquisadores curiosos e defensores resilientes de uma cosmovisão bíblica. Eles constroem sabedoria e caráter a partir de feedback construtivo e desenvolvem as habilidades de pensamento crítico necessárias para entender e falar em nossa cultura com compaixão e integridade.”

É isso mesmo: a NCFCA é uma formadora de debatedores e oradores/as voltada especialmente para treinamento/formação de adolescentes para defenderem publicamente a cosmovisão “bíblica”.


Gilberto Celetti – APEC: Instituto Bíblico Infantil- um modelo de treinamento apologético para crianças
Não! Você não leu errado. Este workshop tem como objetivo treinamento “apologético” (defesa da fé) para crianças. E a APEC busca parceria para inserção em escolas públicas/privadas através de professores/professoras treinadas para utilizar materiais da própria editora em suas aulas, “ensinando” às crianças princípios “bíblicos”.

No site da APEC, são apresentadas algumas “justificativas” desse trabalho:

“Poderíamos alistar algumas justificativas para isto:

As crianças são naturalmente predispostas ao ensino e na fase escolar elas todas estão prontas para aprender. A influência dos professores, especialmente nos primeiros 4 anos de estudo, é notória.

A ausência de orientação religiosa por parte de seus pais é bem marcante e a aula bíblica na escola acaba sendo a única ocasião para a criança ouvir verdades preciosas que poderão marcar e influenciar toda a sua vida.

O número de crianças (e de famílias, indiretamente) que podemos atingir com a mensagem de salvação é bem grande, o professor evangélico pode alcançar, na escola pública, muito mais do que toda a sua igreja na Escola Dominical.

Outro fator favorável é que, entrando na sala de aula, já encontramos tudo favorável: as crianças sentadas, as carteiras apropriadas, o quadro de giz, etc., oferecendo ao professor um ambiente próprio para o ensino.

APEC são as iniciais de Aliança Pró- Evangelização das Crianças.

A teologia do domínio e os perigos para a democracia no Brasil

Nos últimos anos, a teologia do domínio tem ganhado espaço em setores religiosos e políticos no Brasil, trazendo sérios riscos à democracia. Essa vertente teológica, originada no meio evangélico, prega que os cristãos têm a missão de governar todas as esferas da sociedade – incluindo política, educação, mídia e economia – para estabelecer os valores cristãos como padrão universal. Embora defensores afirmem que o movimento busca “moralizar” a sociedade, a execução dessa teologia ameça o princípio do Estado laico e pode retirar os direitos de minorias religiosas e sociais.

No Brasil, a crescente presença de líderes religiosos em cargos públicos tem sido acompanhada de pautas que promovem interesses específicos em detrimento do pluralismo. Projetos de lei que buscam restringir direitos reprodutivos, influenciar currículos escolares com visões religiosas e limitar direitos LGBTQIA+ são exemplos citados como reflexos dessa teologia. Além disso, a fusão entre religião e política pode polarizar ainda mais a sociedade, enfraquecendo o diálogo entre diferentes grupos.

A resistência a essa influência tem surgido de diferentes setores, incluindo organizações da sociedade civil, acadêmicos e lideranças religiosas que defendem a separação entre Igreja e Estado. Segundo estes, é fundamental reforçar a educação cívica e a conscientização sobre os valores democráticos para impedir que visões teocráticas comprometam os direitos fundamentais de todos os cidadãos. Para muitos, o desafio está em equilibrar a liberdade religiosa com a necessidade de preservar um Estado laico e inclusivo, garantindo que nenhum grupo imponha suas crenças sobre toda a sociedade.
Zé Barbosa Junior, teólogo, pós-graduado em Ciências Políticas e pastor da Comunidade de Jesus em Campina Grande (PB)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Pobreza atinge metade das crianças e adolescentes no Brasil

Mais da metade das crianças e adolescentes brasileiras vivem em situação de pobreza multidimensional, segundo o estudo Pobreza Multidimensional na Infância e Adolescência no Brasil lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) nesta quinta-feira.

De acordo com o Unicef, 28,8 milhões de crianças e adolescentes até 17 anos viviam nesta situação em 2023, o equivalente a 55,9% do total. O número, porém, é menor do que o observado em anos anteriores. Em 2017, a pobreza atingia 34,3 milhões de crianças e adolescentes, mais de 6 em cada 10.

A pobreza multidimensional extrema também caiu, de 13 milhões (23,8%) de pessoas, em 2017, para 9,8 milhões (18,8%), em 2023.

A análise considera não apenas a renda das famílias, mas também o nível de educação, acesso à informação, água, saneamento, moradia, proteção contra o trabalho infantil e segurança alimentar.

"A pobreza infantil é multidimensional porque vai além da renda. Ela é resultado da relação entre privações, exclusões e vulnerabilidades que comprometem o bem-estar de meninas e meninos", diz Liliana Chopitea, chefe de Políticas Sociais do Unicef no Brasil, em nota publicada no site da instituição.

"Os resultados deste estudo mostram que o Brasil conseguiu avançar nas diversas dimensões avaliadas, reduzindo a pobreza multidimensional e impactando positivamente meninas e meninos em todo o país", conclui.

Segundo o estudo, que se baseia na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a redução dos indicadores de pobreza foi impulsionada principalmente pela ampliação de programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família e o Auxílio Emergencial, instituído em resposta à crise provocada pela pandemia e, a partir de 2022.

Segundo a pesquisa, cerca de 17,9 milhões de famílias eram beneficiárias dos programas no primeiro trimestre de 2022. Esse número aumentou para aproximadamente 21,6 milhões de famílias no primeiro trimestre de 2023.

Em termos absolutos, o estudo mostra que, em 2019, 750 mil crianças e adolescentes saíram da pobreza devido aos programas de transferência de renda. Em 2022, esse número saltou para 2,9 milhões, até crescer mais uma vez para 4 milhões, em 2023.

Com isso, a dimensão renda foi uma das que apresentaram a redução mais significativa de famílias em situação de vulnerabilidade no período analisado. Em 2017, por exemplo, uma a cada quatro crianças e adolescentes de até 17 anos vivia abaixo da linha da pobreza monetária (25,4%), cuja renda familiar era inferior a R$ 355 mensais por pessoa. Em 2023, esse percentual caiu para 19,14%, o que equivale a aproximadamente uma em cada cinco crianças e adolescentes.

O percentual de crianças sem acesso à informação também teve uma mudança drástica no período analisado, caindo de 17,5% para 3,5% no período analisado.

Na dimensão água, o recuo foi de 6,8% para 5,4%. No caso do saneamento o percentual caiu de 42,3% para 38%.

Já em relação a moradia, os valores oscilaram de 13,2% para 11,2% crianças sem condições adequadas de habitação em seis anos.

A insegurança alimentar também teve redução de 50,5% em 2018 para 36,9%, em 2023.

Com relação ao percentual de crianças e adolescentes em trabalho infantil, houve estabilidade, de 3,5% para 3,4%, o que ainda significa que 1,7 milhão de meninos e meninas estão nesta situação.

A organização destaca o impacto negativo da pandemia da covid-19 nesse período. Em 2023, cerca de 30% das crianças entre sete e oito anos de idade não estavam alfabetizadas, em comparação a 14% em 2019, por exemplo.

Apesar das reduções, o país apresenta ainda diversas desigualdades. A pobreza multidimensional entre crianças e adolescentes negros permanece, segundo o estudo, mais alta em comparação com brancos. Enquanto, entre meninas e meninos brancos, 45,2% estão em pobreza multidimensional, entre negros o percentual é de 63,6%.

Há também diferenças geográficas. Dados da pesquisa mostram que a maior parte das crianças e adolescentes que residem em áreas rurais enfrentam privações de direitos. Esse percentual passou de 96,3% em 2017 para 95,3%, em 2023. No caso de áreas urbanas a privação recuou de 55,3% para 48,5%.

A privação ao saneamento básico é o maior destaque, chegando a quase 92% das crianças e adolescentes de áreas rurais, enquanto nas áreas urbanas é de 28%.

"A pobreza afeta mais as crianças e adolescentes justamente porque estão em um momento de desenvolvimento. Qualquer direito que não seja garantido na idade certa pode ter consequências a médio e longo prazo para o desenvolvimento das crianças, e a longo prazo também para a economia de um país", diz Chopitea.
Deutsche Welle

Brasil: um farol para a humanidade na era Trump?

Nos próximos dias Donald Trump assumirá a presidência dos Estados Unidos. O mundo está apreensivo com essa sua volta. O temor não se deve unicamente pelo que aconteceu em seu primeiro mandato (2016/2020), mas principalmente pelas ameaças que ele tem feito nos últimos meses. Entre elas as mais impactantes estão a retirada de seu país do Acordo de Paris para redução das emissões de CO2, o aumento do protecionismo e favorecimento para as empresas norte-americanas dentro dos Estados Unidos, o fim dos controles sobre discursos de ódio e fake news nas redes sociais, a ameaça de invasão da Groenlândia e Panamá e a anexação do Canada.

Os métodos de Trump se caracterizam pela truculência e talvez o mais emblemático seja o que aconteceu em 6 de janeiro de 2021, quando uma turba de mais de 1500 militantes, apoiadores do então presidente, invadiu o Capitólio – o parlamento dos Estados Unidos – para contestar o resultado das eleições do final de 2020, que deu a vitória para Joe Biden. A justiça norte-americana não conseguiu condenar Trump pelo ato, mas condenou sim os invasores, sendo que a maioria destes foi presa. No entanto Trump já anunciou que um de seus primeiros atos como presidente será o de conceder indulto para todos aqueles invasores que ainda estão presos.


Há muito de bravata, mas o fato é que não podemos esperar cenários de paz e tranquilidade pelos próximos anos principalmente porque, ao contrário de seu primeiro mandato, desta vez Trump terá maioria tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado.

O presidente eleito dos EUA em entrevista coletiva recente deixou bem clara a sua insatisfação com o Brasil e manifestou seu desejo em aumentar os impostos sobre os produtos brasileiros vendidos ao seu país. Além disso em dezembro 2023, também Elon Musk, que foi o principal contribuidor da campanha eleitoral de Trump e que irá ocupar um cargo importante em seu governo, teve entreveros com o governo brasileiro e com o STF.

Mas o principal sinal de que nossa vida na era Trump não será fácil foi dada pelo discurso de Mark Zuckerberg no último dia 8. Zuckerberg, que é o CEO da Meta, afirmou que sua empresa não mais fará checagem de fatos em relação ao que é publicado em suas redes sociais, ou seja, Facebook e WhatsApp. Ele segue Elon Musk que, nos Estados Unidos já faz o mesmo com sua rede social, a X, antigo Twitter. Ambos, estão apenas seguindo Donald Trump que há tempos vem dizendo que não vai admitir o que ele chama de “censura nas redes sociais”.

A mudança da postura de Zuckerberg é puramente oportunista e busca a simpatia de Trump, pois em 2018 quando houve uma suspeita de movimentação irregular nas redes sociais às vésperas da eleição para Presidente da República em nosso país, ele próprio colocou a direção do WhatsApp à disposição do STF para que se investigasse o que poderia estar ocorrendo para explicar os milhões de mensagens de ódio contra um dos candidatos.

Nós, brasileiros, também não podemos esquecer que os atentados contra as instituições de nosso país no dia 8 de janeiro de 2023 só aconteceram porque foram insuflados através das redes sociais. E estas agora vêm nos dizer que não deve haver nenhum controle sobre o que publicam! O ministro Alexandre de Moraes diz e reitera que os atentados não teriam ocorrido sem o apoio e suporte dado pelas redes sociais.

Em suma, tempos difíceis se afiguram. Nas questões ambientais, será lamentável a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, mas nós, no Brasil, estamos fazendo a lição de casa combatendo o desmatamento e usando cada vez mais fontes renováveis para gerar nossa energia. Nas questões econômicas temos aliados importantes como a China e parceiros comerciais em todos os continentes.

Nas questões do fluxo livre de informações, somos um exemplo de um país que pelo menos já tem uma boa proposta de regulamentação das redes para impedir disseminação de notícias falsas e discursos de ódio sendo discutida no Congresso, além de que poderemos contar com o apoio e a aliança da Comunidade Europeia. Ou seja, os tempos serão difíceis, mas temos instrumentos e meios para enfrentá-los.

Os invasores não entrarão em nossa casa


Os invasores não entrarão em nossa casa,
Eles não mexerão em nossas roupas velhas,
Eles não quebrarão o porta-retratos da minha mãe,
Eles não rasgarão nosso Alcorão, nossa Bíblia,
Nem derramarão nosso óleo sobre nossa farinha.
Não, os invasores não entrarão em nossa casa.

Naquela noite, vi meu avô,
Suas mãos acariciando gentilmente a terra
Ao redor de uma pequena oliveira.
Ele prometeu que seu óleo iluminaria o céu da Palestina
Por mil anos.
“Os invasores entraram em nossa casa?”
Ele perguntou.
Eu disse: Não.

Mas naquela manhã, os invasores chegaram —
Um vento frio e cortante.
Suas peles traziam as marcas de tribos distantes,
Suas línguas falavam palavras que eu não conseguia entender.
Eu me movi para frente, apenas um ou dois passos,
E gritei para eles:
"Vocês não entrarão em nossa casa."

Mas eles não se viraram.
Seus olhos, como sombras,
Suas palavras, como ventos inquietos.
Eles passaram por mim,
Mas minha voz permaneceu,
Gritando nas paredes,
Gritando na terra:
Os invasores não entrarão em nossa casa.

Quando os invasores partiram,
A casa estava envolta em fumaça.
O túmulo do meu avô profanado,
Suas pedras sagradas profanadas com palavras estrangeiras.
O corpo da minha mãe estava despedaçado,
Fragmentado em mil pedaços.
Minhas memórias, e todos aqueles que as fizeram,
Pereceram.

Mas a oliveira permaneceu.
Ela cresceu mais forte,
Suas raízes alcançando mais fundo na terra.
Seu óleo iluminou o céu—
Por mil anos.
Ramzy Baroud