quarta-feira, 13 de março de 2024
Qual Brasil queremos ser?
Há uma resposta pronta, repetida vezes sem fim, para a pergunta do título: “queremos um Brasil desenvolvido!” Trata-se, porém, de uma resposta equivocada. A razão do engano é a brutal imprecisão da resposta. Ela carece de clareza: como seria um Brasil “desenvolvido”? O que é um país “desenvolvido”? A Suíça, o Japão, a Espanha, os EUA?
Claro, jamais poderemos ser qualquer desses, todos eles resultados das respectivas histórias. Assim como nós. Queremos ser, todos concordam, um Brasil “melhor”. Mas a incerteza persiste, tantas são as respostas possíveis para qualificar esse país “melhor”. Queremos o paraíso na Terra? Sim, queremos, mas modéstia e realismo são necessários para “melhorar”, progressivamente. Assim, devemos definir “melhor” com os pés na terra, cientes que as grandes caminhadas começam com o primeiro passo. Devemos escolher melhorias passíveis de serem alcançadas em poucos anos e usar a criatividade e a diversidade da população brasileira para experimentar caminhos e encontrar aqueles mais curtos para alcançar as melhorias desejadas.
Acabar a dengue em quatro anos? Desejável, mas talvez impossível. Reduzir a incidência da doença em 50%? Especialistas, embora divergindo, dirão com mais precisão da viabilidade de tal meta, e as ações necessárias para torná-la realidade. Se nos pusermos de acordo que tal fim é desejável, seja ele uma queda de 40% ou 60%, poderemos construir caminhos diversificados para chegarmos lá, uns aprendendo com os outros. E, ainda que nada mais mude, teremos um Brasil melhor (ainda que apenas um pouquinho) em quatro anos!
Claro, não basta um único objetivo, ainda que meritório como o citado acima. E na educação, na limpeza urbana, na pontualidade do transporte coletivo, na habitação, no saneamento, quais os objetivos factíveis no curto prazo de um mandato?
Se elegermos uma bancada legislativa e um, ou uma, presidente, comprometidos com o alcance de um pequeno número de metas claras e objetivas, que de fato melhorem a qualidade de vida dos mais carentes, como exemplificado acima com a dengue, saberemos encontrar os meios para alcançá-las, assim como os norte-americanos encontraram maneiras para levar e trazer uma pessoa à Lua em menos de uma década! E nós mesmos conseguimos construir uma belíssima capital e transformar o Brasil no mandato de JK. Clareza quanto aonde chegar, mas com realismo e sem a pressa inflacionária de então!
Pena que desde então nossas lideranças ficaram míopes correndo atrás da miragem chamada “desenvolvimento”, sem que saibamos qual Brasil queremos ser. Nesse nevoeiro, a confusão prevalece, assim como a dita “bateção de cabeça” entre poderes e no interior de cada um deles. E não saímos do atoleiro em que nos colocaram!
Afinal, não há bom vento para quem não sabe aonde vai!
Claro, jamais poderemos ser qualquer desses, todos eles resultados das respectivas histórias. Assim como nós. Queremos ser, todos concordam, um Brasil “melhor”. Mas a incerteza persiste, tantas são as respostas possíveis para qualificar esse país “melhor”. Queremos o paraíso na Terra? Sim, queremos, mas modéstia e realismo são necessários para “melhorar”, progressivamente. Assim, devemos definir “melhor” com os pés na terra, cientes que as grandes caminhadas começam com o primeiro passo. Devemos escolher melhorias passíveis de serem alcançadas em poucos anos e usar a criatividade e a diversidade da população brasileira para experimentar caminhos e encontrar aqueles mais curtos para alcançar as melhorias desejadas.
Acabar a dengue em quatro anos? Desejável, mas talvez impossível. Reduzir a incidência da doença em 50%? Especialistas, embora divergindo, dirão com mais precisão da viabilidade de tal meta, e as ações necessárias para torná-la realidade. Se nos pusermos de acordo que tal fim é desejável, seja ele uma queda de 40% ou 60%, poderemos construir caminhos diversificados para chegarmos lá, uns aprendendo com os outros. E, ainda que nada mais mude, teremos um Brasil melhor (ainda que apenas um pouquinho) em quatro anos!
Claro, não basta um único objetivo, ainda que meritório como o citado acima. E na educação, na limpeza urbana, na pontualidade do transporte coletivo, na habitação, no saneamento, quais os objetivos factíveis no curto prazo de um mandato?
Se elegermos uma bancada legislativa e um, ou uma, presidente, comprometidos com o alcance de um pequeno número de metas claras e objetivas, que de fato melhorem a qualidade de vida dos mais carentes, como exemplificado acima com a dengue, saberemos encontrar os meios para alcançá-las, assim como os norte-americanos encontraram maneiras para levar e trazer uma pessoa à Lua em menos de uma década! E nós mesmos conseguimos construir uma belíssima capital e transformar o Brasil no mandato de JK. Clareza quanto aonde chegar, mas com realismo e sem a pressa inflacionária de então!
Pena que desde então nossas lideranças ficaram míopes correndo atrás da miragem chamada “desenvolvimento”, sem que saibamos qual Brasil queremos ser. Nesse nevoeiro, a confusão prevalece, assim como a dita “bateção de cabeça” entre poderes e no interior de cada um deles. E não saímos do atoleiro em que nos colocaram!
Afinal, não há bom vento para quem não sabe aonde vai!
O dia em que a Terra parou
Raul Seixas tinha razão. Quando a Terra parar, nenhum de nós vai escapar das consequências. O que o Raul não sabia quando compôs o rock “O dia em que a Terra parou” é que isso vai acontecer quando a corrente meridional do Oceano Atlântico colapsar. Essa corrente de águas marinhas quentes e frias, que circula o mundo de norte a sul, é uma espécie de fábrica de vida no planeta.
Em tradução ligeira, a água quente do Atlântico Sul segue para o Polo Norte por correntes oceânicas superiores, mas sofre um resfriamento ao chegar nas redondezas da Groelândia. Com isso, mergulha e retorna para o sul por correntes profundas, realimentando um ciclo permanente de distribuição de calor, nutrientes e salinidade entre todos os oceanos, estabilizando a temperatura do planeta e as condições de vida marinha e terrestre.
Se esse motor da natureza desacelerar bruscamente, as consequências podem ser, entre outras, o resfriamento extremo do hemisfério norte, calor e secas intensos no hemisfério sul, elevação do nível do mar e até mesmo extinção em massa.
Em 1951, a Terra já havia parado no filme “O dia em que a Terra parou”. A humanidade vivia o auge da ressaca da II Guerra Mundial e começava a sentir a tensão da Guerra Fria, quando Hollywood lança a história da chegada de um robô extraterrestre que ameaçava julgar e castigar a humanidade caso insistíssemos em travar guerras de aniquilação em larga escala.
Uma freada brusca do sistema de correntes do Atlântico também já aconteceu anteriormente, há milhares de anos, mesmo sem a intervenção humana. A diferença agora é que, a partir da revolução industrial, a humanidade afundou o pé no acelerador das emissões de gases efeito estufa e da devastação ambiental, intensificando o aquecimento global e pondo em risco o modo de vida como conhecemos, ao invés de se preparar para amenizar ou se adaptar a esses extremos climáticos.
É o que demonstram estudos científicos publicados nos últimos anos por revistas renomadas como Nature e Science. Os dados sobre o sistema de correntes oceânicas foram submetidos a modelos de simulação em computador que comprovam uma tendência de desaceleração mais rápida do que seria de se esperar naturalmente.
Isso ocorre porque, devido às mudanças climáticas, o derretimento acentuado de geleiras e outros volumes de gelo natural nas últimas décadas aumentou a proporção de água doce desembocada nos mares, catalisando alterações desastrosas na temperatura, velocidade, profundidade e densidade das correntes marítimas planetárias.
Caso voltasse hoje à Terra, quem sabe, o juiz robô alienígena nos impusesse um novo ultimato, dessa vez não apenas contra as guerras, mas principalmente contra nossa obsessão por raspar o tacho dos recursos do planeta. Raul Seixas, rogai por nós.
Em tradução ligeira, a água quente do Atlântico Sul segue para o Polo Norte por correntes oceânicas superiores, mas sofre um resfriamento ao chegar nas redondezas da Groelândia. Com isso, mergulha e retorna para o sul por correntes profundas, realimentando um ciclo permanente de distribuição de calor, nutrientes e salinidade entre todos os oceanos, estabilizando a temperatura do planeta e as condições de vida marinha e terrestre.
Se esse motor da natureza desacelerar bruscamente, as consequências podem ser, entre outras, o resfriamento extremo do hemisfério norte, calor e secas intensos no hemisfério sul, elevação do nível do mar e até mesmo extinção em massa.
Em 1951, a Terra já havia parado no filme “O dia em que a Terra parou”. A humanidade vivia o auge da ressaca da II Guerra Mundial e começava a sentir a tensão da Guerra Fria, quando Hollywood lança a história da chegada de um robô extraterrestre que ameaçava julgar e castigar a humanidade caso insistíssemos em travar guerras de aniquilação em larga escala.
Uma freada brusca do sistema de correntes do Atlântico também já aconteceu anteriormente, há milhares de anos, mesmo sem a intervenção humana. A diferença agora é que, a partir da revolução industrial, a humanidade afundou o pé no acelerador das emissões de gases efeito estufa e da devastação ambiental, intensificando o aquecimento global e pondo em risco o modo de vida como conhecemos, ao invés de se preparar para amenizar ou se adaptar a esses extremos climáticos.
É o que demonstram estudos científicos publicados nos últimos anos por revistas renomadas como Nature e Science. Os dados sobre o sistema de correntes oceânicas foram submetidos a modelos de simulação em computador que comprovam uma tendência de desaceleração mais rápida do que seria de se esperar naturalmente.
Isso ocorre porque, devido às mudanças climáticas, o derretimento acentuado de geleiras e outros volumes de gelo natural nas últimas décadas aumentou a proporção de água doce desembocada nos mares, catalisando alterações desastrosas na temperatura, velocidade, profundidade e densidade das correntes marítimas planetárias.
Caso voltasse hoje à Terra, quem sabe, o juiz robô alienígena nos impusesse um novo ultimato, dessa vez não apenas contra as guerras, mas principalmente contra nossa obsessão por raspar o tacho dos recursos do planeta. Raul Seixas, rogai por nós.
As igrejas neopentecostais e a consolação a varejo
Fato capaz de pôr orelhas em pé é a presença maior de católicos no comício de 25/2 na Paulista, enquanto predomina entre os evangélicos a opinião de que religião não deveria se misturar com política. O paradoxo é que se tratava de organização neopentecostal, portanto, de evento do nicho eleitoral da extrema direita.
É retrato diferente, induzido pela atuação neopentecostal, que trocou nas mentes o todo pela parte. Enriquecida, essa parte tem prosperado no pacto com a entidade anticrística Mamon, citada nos evangelhos de Lucas e Mateus como fetiche do dinheiro. O comício na Paulista foi mais Malafaia do que Bozo.
Religião, definiu Alfred Whitehead, expoente do pensamento inglês, é "aquilo que você faz com a sua solidão". Enunciado amplo, que contempla tanto os indivíduos na privacidade do relacionamento com a transcendência quanto as administrações da fé voltadas para a consolação das múltiplas formas de desamparo. Isso que Marx viu como ópio do povo, mas não é tão simples assim.
Nenhuma teoria da sociedade ou da história esgotou até hoje a atração pela forma platônica do bem ou pela ideia fascinante de um deus onipotente. A existência, movida a crenças, sempre foi diferente do saber racional. E as religiões lidam com isso de maneira diversa, aproximando-se ou afastando-se das intensidades da fé.
Neopentecostalismo é movimento que se expande como desvio da doutrina cristã, relegando a segundo plano o Novo Testamento e trocando o ensino da Cruz de Cristo pela autoajuda. Estimula o privatismo da devoção nos moldes da teologia da prosperidade. Mas contém formas de acolhimento comunitárias, que foram esquecidas pelas igrejas católicas. Isso pode ser popularmente percebido como mais importante do que estabilidade econômica e democracia.
Foi esse o caldeirão colocado sobre o fogo da extrema direita brasileira nos últimos anos. O que se cozinhou até agora em termos públicos foi o enriquecimento escandaloso de igrejas favorecido pelo governo da vez, vulnerável à chantagem do voto e à pressão de bancadas. Trata-se de um projeto escuso de poder, sob uma teologia de domínio, cujo alvo é o Estado, com mandamentos de ódio e guerra: "E lançarei os egípcios contra os egípcios, e cada um lutará contra o seu irmão, e cada um contra o seu próximo; cidade contra cidade e reino contra reino" (Isaías, 19:2).
No comício, aos pulinhos, a ex-primeira-dama rogava ao Senhor pelo advento da teocracia, regime do ódio, repelido pela maioria evangélica. Mas o fenômeno é morboso e contagiante, católicos já aderem. É que, no vácuo privatista de solidariedade, empatia e amor, "ódio é o veneno que se toma e espera que um outro morra" (Santo Agostinho).
É retrato diferente, induzido pela atuação neopentecostal, que trocou nas mentes o todo pela parte. Enriquecida, essa parte tem prosperado no pacto com a entidade anticrística Mamon, citada nos evangelhos de Lucas e Mateus como fetiche do dinheiro. O comício na Paulista foi mais Malafaia do que Bozo.
Religião, definiu Alfred Whitehead, expoente do pensamento inglês, é "aquilo que você faz com a sua solidão". Enunciado amplo, que contempla tanto os indivíduos na privacidade do relacionamento com a transcendência quanto as administrações da fé voltadas para a consolação das múltiplas formas de desamparo. Isso que Marx viu como ópio do povo, mas não é tão simples assim.
Nenhuma teoria da sociedade ou da história esgotou até hoje a atração pela forma platônica do bem ou pela ideia fascinante de um deus onipotente. A existência, movida a crenças, sempre foi diferente do saber racional. E as religiões lidam com isso de maneira diversa, aproximando-se ou afastando-se das intensidades da fé.
Neopentecostalismo é movimento que se expande como desvio da doutrina cristã, relegando a segundo plano o Novo Testamento e trocando o ensino da Cruz de Cristo pela autoajuda. Estimula o privatismo da devoção nos moldes da teologia da prosperidade. Mas contém formas de acolhimento comunitárias, que foram esquecidas pelas igrejas católicas. Isso pode ser popularmente percebido como mais importante do que estabilidade econômica e democracia.
Foi esse o caldeirão colocado sobre o fogo da extrema direita brasileira nos últimos anos. O que se cozinhou até agora em termos públicos foi o enriquecimento escandaloso de igrejas favorecido pelo governo da vez, vulnerável à chantagem do voto e à pressão de bancadas. Trata-se de um projeto escuso de poder, sob uma teologia de domínio, cujo alvo é o Estado, com mandamentos de ódio e guerra: "E lançarei os egípcios contra os egípcios, e cada um lutará contra o seu irmão, e cada um contra o seu próximo; cidade contra cidade e reino contra reino" (Isaías, 19:2).
No comício, aos pulinhos, a ex-primeira-dama rogava ao Senhor pelo advento da teocracia, regime do ódio, repelido pela maioria evangélica. Mas o fenômeno é morboso e contagiante, católicos já aderem. É que, no vácuo privatista de solidariedade, empatia e amor, "ódio é o veneno que se toma e espera que um outro morra" (Santo Agostinho).
Teologia do domínio é o perigo
Trump é Davi, Bolsonaro é Davi, Milei é Davi. Porque Davi aqui é privilegiado, não é o menino que derrota Golias, que vence a força bruta com a inteligência e a astúcia. Aqui é o rei Davi, um modelo do pecador ungido, porque ele é o senhor das armas, ele é o rei de batalhas, ele é o senhor de um império, mas depois ele se arrepende, torna-se outro. Davi é abraçado pela teologia do domínio. Em outras palavras, Trump, Milei e Jair Bolsonaro, pouco importa os pecados que cometam, eles são ungidos.
João Cezar de Castro Rocha
João Cezar de Castro Rocha
Estado laico, amém
A mistura tóxica de religião e política, uma aberração num Estado leigo, é hoje parte do dia a dia dos brasileiros, como indica pesquisa da consultoria Quaest. Segundo o relatório, 42% dos cidadãos identificados como católicos avaliaram positivamente o atual governo e 28%, de forma negativa. Entre os evangélicos, a avaliação positiva ficou em 22% e a negativa, em 48%. O vínculo entre filiação religiosa e opinião política parece claro. Além disso, remete à fala da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro no comício de 25 de fevereiro na Avenida Paulista. “Por um bom tempo, fomos negligentes a ponto de dizer que não poderíamos misturar política com religião. E o mal tomou e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento, agora, da libertação”, disse a oradora, antes de chamar Deus para estabelecer seu reino no Brasil.
Não está claro se o Todo-Poderoso deu alguma resposta ao apelo da ex-primeira-dama nem se está disposto a aliviar a situação legal de seu marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Já inelegível por abuso do aparelho estatal, ele é apontado como envolvido em outras lambanças, como tentativa de venda de joias presenteadas à República, fraude no cartão de vacina, incitação ao vandalismo e ao golpismo de 8 de janeiro e propagação de mentiras sobre a vacina contra a covid-19.
No comício da Avenida Paulista, ele pregou pacificação, falou em passar borracha no passado e pediu anistia aos envolvidos na depredação golpista em Brasília. O discurso foi interpretado imediatamente, e com bons fundamentos, como busca de anistia para si mesmo. Também nesse evento a ex-primeira-dama, além de citar a Bíblia e de pedir o apoio divino, falou de si e de seu marido como vítimas de perseguição.
Os dados da pesquisa Quaest sobre religião e política poderiam ser um interessante detalhe estatístico, sugestivo, talvez, de algum estudo mais profundo ou de uma boa reportagem. Mas o ato na Avenida Paulista, com presença de milhares de evangélicos e católicos e participação dos pastores Silas Malafaia, Marco Feliciano e Magno Malta, evidenciou mais uma vez os vínculos – vigorosamente afirmados pela ex-primeira-dama – entre a fé religiosa e o jogo do poder.
Observados em muitas democracias, esses vínculos podem estar presentes no dia a dia da vida política e na configuração dos valores coletivos, sem afetar, no entanto, a natureza do Estado e a liberdade civil. Essa tem sido a experiência brasileira desde o início da República.
A Constituição imperial, de 1823, ainda consagrou uma religião do Estado, mas garantiu a liberdade religiosa, embora com certas condições. No caso de religiões diferentes do catolicismo romano, o culto deveria ser doméstico ou realizado em casas sem aparência de templo. De modo mais amplo, a liberdade religiosa foi reafirmada, em 1891, na primeira Constituição republicana.
Esse texto, alterado nas décadas seguintes por algumas emendas, estabeleceu a laicidade do Estado, o reconhecimento exclusivo do casamento civil, o caráter secular dos cemitérios e a laicidade do ensino público.
Os fundadores do regime republicano levaram a sério essas ideias, típicas da modernidade e amadurecidas no mundo ocidental principalmente a partir do século 18. No Brasil, o direito a formas diversas de religiosidade tem sido valorizado há mais de um século, embora ainda se observem, de vez em quando, surtos de intolerância, dirigidos principalmente contra religiões de origem africana. Parece inegável o caráter racista dessas manifestações.
A liberdade religiosa foi geralmente respeitada e valorizada, no País, mesmo nos períodos de autoritarismo. Líderes cristãos e não cristãos foram importantes na resistência à ditadura militar, entre 1964 e 1985, ajudando perseguidos políticos, socorrendo pessoas torturadas e combatendo a violência do regime. Esses líderes e seus grupos foram rotulados como comunistas e vigiados como inimigos do poder, mas, de modo geral, as igrejas mantiveram sem limitações as suas atividades habituais de culto, de pregação e de ação sacramental.
Apesar do envolvimento político de bispos, padres, pastores, rabinos, pais de santo e outras figuras ligadas a religiões, nenhum grupo parlamentar assumiu explicitamente uma identificação religiosa. Não houve uma bancada católica, nem evangélica, nem de qualquer outra denominação ligada a culto ou igreja. Sempre se manteve a distinção, pelo menos implícita, entre ação política e filiação a alguma organização eclesiástica. Grupos ideológicos ligados a alguma denominação religiosa se mantiveram como organizações privadas, sem agitar suas bandeiras nas instituições oficiais.
Essa distinção, observada na rotina democrática e também nas fases mais difíceis da vida brasileira, permitiu a manutenção, por mais de um século, do princípio republicano do Estado laico. Crucifixos pendurados em alguns salões de edifícios públicos nunca impediram a afirmação dessa laicidade, garantida também pela Constituição de 1988, embora promulgada, como indica seu preâmbulo, “sob a proteção de Deus”. Que assim seja.
Não está claro se o Todo-Poderoso deu alguma resposta ao apelo da ex-primeira-dama nem se está disposto a aliviar a situação legal de seu marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Já inelegível por abuso do aparelho estatal, ele é apontado como envolvido em outras lambanças, como tentativa de venda de joias presenteadas à República, fraude no cartão de vacina, incitação ao vandalismo e ao golpismo de 8 de janeiro e propagação de mentiras sobre a vacina contra a covid-19.
No comício da Avenida Paulista, ele pregou pacificação, falou em passar borracha no passado e pediu anistia aos envolvidos na depredação golpista em Brasília. O discurso foi interpretado imediatamente, e com bons fundamentos, como busca de anistia para si mesmo. Também nesse evento a ex-primeira-dama, além de citar a Bíblia e de pedir o apoio divino, falou de si e de seu marido como vítimas de perseguição.
Os dados da pesquisa Quaest sobre religião e política poderiam ser um interessante detalhe estatístico, sugestivo, talvez, de algum estudo mais profundo ou de uma boa reportagem. Mas o ato na Avenida Paulista, com presença de milhares de evangélicos e católicos e participação dos pastores Silas Malafaia, Marco Feliciano e Magno Malta, evidenciou mais uma vez os vínculos – vigorosamente afirmados pela ex-primeira-dama – entre a fé religiosa e o jogo do poder.
Observados em muitas democracias, esses vínculos podem estar presentes no dia a dia da vida política e na configuração dos valores coletivos, sem afetar, no entanto, a natureza do Estado e a liberdade civil. Essa tem sido a experiência brasileira desde o início da República.
A Constituição imperial, de 1823, ainda consagrou uma religião do Estado, mas garantiu a liberdade religiosa, embora com certas condições. No caso de religiões diferentes do catolicismo romano, o culto deveria ser doméstico ou realizado em casas sem aparência de templo. De modo mais amplo, a liberdade religiosa foi reafirmada, em 1891, na primeira Constituição republicana.
Esse texto, alterado nas décadas seguintes por algumas emendas, estabeleceu a laicidade do Estado, o reconhecimento exclusivo do casamento civil, o caráter secular dos cemitérios e a laicidade do ensino público.
Os fundadores do regime republicano levaram a sério essas ideias, típicas da modernidade e amadurecidas no mundo ocidental principalmente a partir do século 18. No Brasil, o direito a formas diversas de religiosidade tem sido valorizado há mais de um século, embora ainda se observem, de vez em quando, surtos de intolerância, dirigidos principalmente contra religiões de origem africana. Parece inegável o caráter racista dessas manifestações.
A liberdade religiosa foi geralmente respeitada e valorizada, no País, mesmo nos períodos de autoritarismo. Líderes cristãos e não cristãos foram importantes na resistência à ditadura militar, entre 1964 e 1985, ajudando perseguidos políticos, socorrendo pessoas torturadas e combatendo a violência do regime. Esses líderes e seus grupos foram rotulados como comunistas e vigiados como inimigos do poder, mas, de modo geral, as igrejas mantiveram sem limitações as suas atividades habituais de culto, de pregação e de ação sacramental.
Apesar do envolvimento político de bispos, padres, pastores, rabinos, pais de santo e outras figuras ligadas a religiões, nenhum grupo parlamentar assumiu explicitamente uma identificação religiosa. Não houve uma bancada católica, nem evangélica, nem de qualquer outra denominação ligada a culto ou igreja. Sempre se manteve a distinção, pelo menos implícita, entre ação política e filiação a alguma organização eclesiástica. Grupos ideológicos ligados a alguma denominação religiosa se mantiveram como organizações privadas, sem agitar suas bandeiras nas instituições oficiais.
Essa distinção, observada na rotina democrática e também nas fases mais difíceis da vida brasileira, permitiu a manutenção, por mais de um século, do princípio republicano do Estado laico. Crucifixos pendurados em alguns salões de edifícios públicos nunca impediram a afirmação dessa laicidade, garantida também pela Constituição de 1988, embora promulgada, como indica seu preâmbulo, “sob a proteção de Deus”. Que assim seja.
terça-feira, 12 de março de 2024
O discurso do ódio
Diz-se que “já não há fascismo nem nazismo”. Pois não. Mas a natureza humana não mudou, e os instintos humanos que levaram ao fascismo e ao nazismo continuam a ser os mesmos de sempre.
O partido nazi também começou por ser um partido pequeno e jovem, destemido e sério, populista mas impopular. É ao princípio do partido nazi que temos de ir buscar as comparações com o dia de hoje: quando ainda podia ter sido derrotado.
Os fascistas e nazis eram antidemocratas que aproveitaram a democracia para dar cabo dela: para eles, era delicioso usar as armas do inimigo para o deitar abaixo. Eram contra tudo, excepto eles próprios: é esta a característica mais óbvia.
Na política, o impulso é quase sempre construtivo, optimista e, por defeito, generoso: traça-se um futuro que é melhor para todos, e depois trata-se de lá chegar.
Quando essa esperança falha, como falhou logo à entrada dos anos 1930, há duas reacções: uma é traçar um novo futuro e começar a tentar caminhar para lá, e outra é ir à procura dos culpados por tudo aquilo que correu mal.
Tanto faz serem os judeus, ou os emigrantes, ou os capitalistas, ou os democratas, ou os marxistas. Elegem-se os culpados e depois trata-se de os castigar. É esse o discurso do ódio: a energia é gasta na caça aos bodes expiatórios.
É fácil distinguir as pessoas e os partidos ou organizações políticas que vivem da identificação destes inimigos. Vêem-se como exterminadores de parasitas, como oncologistas, como combatentes. É a violência que os fascina. Basta arranjar uma desculpa, um alvo para essa violência.
O discurso do ódio é negativo, invejoso, vingativo, obsessivo, megalómano, missionário, monocórdico e fantasista. Não é só perigoso – é mesquinho.
Miguel Esteves Cardoso
O partido nazi também começou por ser um partido pequeno e jovem, destemido e sério, populista mas impopular. É ao princípio do partido nazi que temos de ir buscar as comparações com o dia de hoje: quando ainda podia ter sido derrotado.
Os fascistas e nazis eram antidemocratas que aproveitaram a democracia para dar cabo dela: para eles, era delicioso usar as armas do inimigo para o deitar abaixo. Eram contra tudo, excepto eles próprios: é esta a característica mais óbvia.
Na política, o impulso é quase sempre construtivo, optimista e, por defeito, generoso: traça-se um futuro que é melhor para todos, e depois trata-se de lá chegar.
Quando essa esperança falha, como falhou logo à entrada dos anos 1930, há duas reacções: uma é traçar um novo futuro e começar a tentar caminhar para lá, e outra é ir à procura dos culpados por tudo aquilo que correu mal.
Tanto faz serem os judeus, ou os emigrantes, ou os capitalistas, ou os democratas, ou os marxistas. Elegem-se os culpados e depois trata-se de os castigar. É esse o discurso do ódio: a energia é gasta na caça aos bodes expiatórios.
É como diagnosticar um cancro para explicar a pobreza e o desespero de um indivíduo. Ele está pobre porque está a ser comido por um cancro. Temos de encontrar esse cancro e arrancá-lo do corpo dele. Só livre desse cancro é que ele poderá animar e enriquecer.
É fácil distinguir as pessoas e os partidos ou organizações políticas que vivem da identificação destes inimigos. Vêem-se como exterminadores de parasitas, como oncologistas, como combatentes. É a violência que os fascina. Basta arranjar uma desculpa, um alvo para essa violência.
O discurso do ódio é negativo, invejoso, vingativo, obsessivo, megalómano, missionário, monocórdico e fantasista. Não é só perigoso – é mesquinho.
Miguel Esteves Cardoso
Negro morrendo, tô nem aí
Não há como pensar sobre segurança pública no Brasil sem considerar o racismo institucional.
A conclusão deveria ser óbvia para quem acompanha o noticiário nacional. País afora, são reiteradas as situações de abuso e violência cometidos por agentes de forças policiais contra pessoas negras.
Tem jovem tomando tiro pelas costas, no DF; disparo de fuzil a queima roupa contra homem desarmado, no RJ; prisão da vítima no lugar do agressor, no RS; morte por asfixia em viatura oficial, no SE; E por aí vai...
Contudo, na mais importante unidade da federação o governador decidiu dar de ombros, ironizar e assumir que não está "nem aí" para denúncias de abusos contra negros e pobres durante a Operação Verão, da PM, na Baixada Santista, após a morte de um soldado.
Registros oficiais apontam que, em São Paulo, as mortes em decorrência de intervenção policial subiram 94% nos dois primeiros meses de 2024, segundo a Conectas Direitos Humanos e a Comissão Arns, que apresentaram queixa à Organização das Nações Unidas (ONU) na semana passada.
"Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí", disse Tarcísio de Freitas a respeito dessa que é a segunda ação mais letal da história do Estado. Perde só para o massacre do Carandiru.
Impressionante o desrespeito à cidadania e a afronta aos direitos humanos. Mas a história ajuda a lembrar que a origem da nossa polícia militar remonta ao século 19, com a chegada de Dom João 6º, em 1808. À época, foi criada a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia do Rio de Janeiro para proteger os nobres. Um doce para quem adivinhar: proteger de quem?
Segurança pública inclui diversas nuances e é, com certeza, um tema tão importante quanto complexo. Mas é preciso admitir que está atravessado pelo vale tudo colonialista alimentado pelo preconceito e pelo racismo.
A conclusão deveria ser óbvia para quem acompanha o noticiário nacional. País afora, são reiteradas as situações de abuso e violência cometidos por agentes de forças policiais contra pessoas negras.
Tem jovem tomando tiro pelas costas, no DF; disparo de fuzil a queima roupa contra homem desarmado, no RJ; prisão da vítima no lugar do agressor, no RS; morte por asfixia em viatura oficial, no SE; E por aí vai...
Registros oficiais apontam que, em São Paulo, as mortes em decorrência de intervenção policial subiram 94% nos dois primeiros meses de 2024, segundo a Conectas Direitos Humanos e a Comissão Arns, que apresentaram queixa à Organização das Nações Unidas (ONU) na semana passada.
"Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí", disse Tarcísio de Freitas a respeito dessa que é a segunda ação mais letal da história do Estado. Perde só para o massacre do Carandiru.
Impressionante o desrespeito à cidadania e a afronta aos direitos humanos. Mas a história ajuda a lembrar que a origem da nossa polícia militar remonta ao século 19, com a chegada de Dom João 6º, em 1808. À época, foi criada a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia do Rio de Janeiro para proteger os nobres. Um doce para quem adivinhar: proteger de quem?
Segurança pública inclui diversas nuances e é, com certeza, um tema tão importante quanto complexo. Mas é preciso admitir que está atravessado pelo vale tudo colonialista alimentado pelo preconceito e pelo racismo.
'Zona de interesse': os mil sons do terror nazista
Um rumor surdo acompanha o sono da família: zumbidos, bufos, chiados, detonações... os sons de uma fábrica em pleno funcionamento, noite e dia. Só que esta não produz bens, mas cadáveres. A família que esses barulhos acompanham o tempo todo é a de Rudolf Höss, comandante do campo de extermínio Auschwitz.
Sua casa fica logo ao lado dos muros do campo. A partir do jardim idílico, veem-se as chaminés soltando fumaça densa, à noite elas expelem chamas. As crianças brincam no jardim; para além dos muros, cães ladram, guardas berram ordens e insultos, detentos gritam de dor, tiros são disparados. É o verão de 1943, os crematórios de Auschwitz foram instalados poucas semanas antes, e agora operam 24 horas por dia.
Do lado de cá do muro, Hedwig Höss, interpretada pela atriz alemã Sandra Hüller, candidata ao Oscar, cuida de seu jardim florido, mostra as flores a um bebê. Quando a mãe a visita, ela comenta que quer plantar uma trepadeira junto ao muro, "aí não vai se ver tanto assim".
É uma das poucas cenas do filme Zona de interesse, de Jonathan Glazer, em que a vizinhança é mencionada ou comentada. De resto, o que acontece por trás dos muros é ignorado ou descartado como uma banalidade qualquer. Só uma vez o horror chega até a família: ao se banharem no rio, "Papai" Höss e seus filhos são surpreendidos por uma onda de cinzas vinda do crematório. Em seguida as crianças são lavadas e esfregadas na banheira, com quase desespero.
O idílio junto aos muros do campo da morte periga se desfazer quando Höss é transferido para Berlim. Mas Hedwig quer permanecer no paraíso que criou para si e os filhos – em Auschwitz.
Rudolf Höss (Christian Friedel) é um homem tranquilo e consciencioso, que domina perfeitamente as próprias emoções, que cuida, amoroso, de sua família-modelo: lê contos de fadas para as crianças, carrega a filha sonâmbula de volta para a cama, acaricia seu cavalo e sai para cavalgar com o filho mais velho. Até quando começa seu expediente no campo, onde executa o plano de extermínio dos judeus, inabalável, desumano, com eficiência implacável.
Nas memórias que Höss escreveu na prisão, antes de ser executado em 1947, um dos grandes temas é justamente essa eficiência. Cedo aprendeu a não demonstrar qualquer emoção, orgulhava-se de conseguir manter o rosto glacial, implacável, enquanto cometia assassinatos.
"Eu precisava aparentar ser frio e sem coração em procedimentos que fariam o coração se contorcer no corpo de qualquer um que ainda tivesse algum sentimento humano [...] Tinha que observar friamente as mães entrando nas câmaras de gás com os filhos que riam ou choravam."
No entanto estava sempre pensando na própria família. Quando – após supervisionar a incineração dos cadáveres, a extração das próteses dentárias valiosas, a morte nas câmaras de gás, como mandava seu dever – ficava por vezes tão perturbado que não conseguia voltar para a mulher e filhos em casa, ele escrevia sobre seu mundo emocional oculto.
Remorso, porém, o nazista Höss jamais sentiu: o cumprimento do dever em nome de seus comandantes estava acima de tudo. Assim, o genocídio de centenas de milhares de seres humanos era para ele uma atividade profissional incontornável, que não admitia nenhum tipo de questionamento.
Livremente baseado no romance homônimo de Martin Amis de 2014, Zona de interesse não coloca em questão o caráter de Höss. O que ele questiona é como é possível alguém viver nas vizinhanças imediatas de uma fábrica de morte e obliterar qualquer percepção do que está acontecendo por trás dos muros.
O ator Christian Friedel, que representa Höss, comentou à revista online Filmstarts: "É mesmo um fato que as pessoas viveram assim. Acho que essas dimensões do recalque – que seriam possíveis em nós todos, pelo motivo que seja – são exatamente o espelho que o filme quer colocar diante da gente."
Esse mecanismo de recalque se manifesta de forma especialmente crassa nas cenas em que uma das crianças brinca com dentes de ouro arrancados; um prisioneiro aduba as flores do jardim da família com as cinzas dos incinerados; ou Hedwig Höss experimenta o casaco de pele que pertencia a uma judia assassinada. Ao encontrar um batom num dos bolsos, ela se maquia com ele: não lhe importa que a última a aplicá-lo nos lábios tenha sido uma vítima de seu marido.
As rodagens foram inusuais para os participantes: espalhadas pela casa e o jardim, estavam câmeras sem operador. Tudo era observado e controlado a partir de um trailer, o elenco atuava sozinho, sem nunca saber quando e em que posição estava sendo filmado. Também não há praticamente close-ups das personagens, e essa distância proporciona ao filme um caráter quase documental.
Os diálogos parecem em parte improvisados, algumas conversas são incompreensíveis – o que não é uma perda, porque em geral se trata de meras banalidades. A não ser que Hedwig note ser preciso mandar ajustar as roupas das vítimas do campo – de que a família se apoderou como se fosse seu direito: os vestidos são todos estreitos demais.
Já tendo recebido numerosas distinções, entre as quais o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2023, Zona de interesse está indicado para concorrer a cinco Oscars em 10 de março: além de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, os de Direção, Roteiro Adaptado e Som.
O cineasta inglês Jonathan Glazer conseguiu apresentar o Holocausto de modo diferente do que se viu até então, ao intencionalmente abrir mão de mostrar por meios visuais as atrocidades que se cometem atrás dos muros.
Esse trabalho cabe inteiramente à sonografia: os barulhos onipresentes do campo de extermínio dispensam imagens para transportar o horror. Praticamente não há música: empregada com grande parcimônia, a trilha sonora é eletrônica e de brutalidade extrema.
Glazer recrutou como sound designer Johnnie Burn, com quem já colaborara em sua obra anterior, a experimental Sob a pele, de 2013. A dupla considerou cuidadosamente até mesmo a forma como o som chega ao público: renunciando à qualidade imersiva, "sensacionalista", da tecnologia multicanais Dolby Atmos, a trilha é em mono – como num anacrônico preto-e-branco sonoro.
"Foi o que simplesmente deu mais a sensação de documento do que qualquer outra coisa. Deixou aí de ser um lustro em cima do modo como o som era representado", explicou Burn à revista online Filmmaker.
Zona de interesse é uma obra cruel e importante. O ator Friedel comenta: "Quando vejo em que tempo estamos vivendo, como o filme é relevante, eu fico feliz de a gente tê-lo feito." Quando, ao fim, a tela fica preta, irrompe uma espécie de coro, torturantemente alto, dissonante, devastador, brutal: é terror em estado puro – e, no entanto, engendrado por seres humanos.
Sua casa fica logo ao lado dos muros do campo. A partir do jardim idílico, veem-se as chaminés soltando fumaça densa, à noite elas expelem chamas. As crianças brincam no jardim; para além dos muros, cães ladram, guardas berram ordens e insultos, detentos gritam de dor, tiros são disparados. É o verão de 1943, os crematórios de Auschwitz foram instalados poucas semanas antes, e agora operam 24 horas por dia.
Do lado de cá do muro, Hedwig Höss, interpretada pela atriz alemã Sandra Hüller, candidata ao Oscar, cuida de seu jardim florido, mostra as flores a um bebê. Quando a mãe a visita, ela comenta que quer plantar uma trepadeira junto ao muro, "aí não vai se ver tanto assim".
É uma das poucas cenas do filme Zona de interesse, de Jonathan Glazer, em que a vizinhança é mencionada ou comentada. De resto, o que acontece por trás dos muros é ignorado ou descartado como uma banalidade qualquer. Só uma vez o horror chega até a família: ao se banharem no rio, "Papai" Höss e seus filhos são surpreendidos por uma onda de cinzas vinda do crematório. Em seguida as crianças são lavadas e esfregadas na banheira, com quase desespero.
O idílio junto aos muros do campo da morte periga se desfazer quando Höss é transferido para Berlim. Mas Hedwig quer permanecer no paraíso que criou para si e os filhos – em Auschwitz.
Rudolf Höss (Christian Friedel) é um homem tranquilo e consciencioso, que domina perfeitamente as próprias emoções, que cuida, amoroso, de sua família-modelo: lê contos de fadas para as crianças, carrega a filha sonâmbula de volta para a cama, acaricia seu cavalo e sai para cavalgar com o filho mais velho. Até quando começa seu expediente no campo, onde executa o plano de extermínio dos judeus, inabalável, desumano, com eficiência implacável.
Nas memórias que Höss escreveu na prisão, antes de ser executado em 1947, um dos grandes temas é justamente essa eficiência. Cedo aprendeu a não demonstrar qualquer emoção, orgulhava-se de conseguir manter o rosto glacial, implacável, enquanto cometia assassinatos.
"Eu precisava aparentar ser frio e sem coração em procedimentos que fariam o coração se contorcer no corpo de qualquer um que ainda tivesse algum sentimento humano [...] Tinha que observar friamente as mães entrando nas câmaras de gás com os filhos que riam ou choravam."
No entanto estava sempre pensando na própria família. Quando – após supervisionar a incineração dos cadáveres, a extração das próteses dentárias valiosas, a morte nas câmaras de gás, como mandava seu dever – ficava por vezes tão perturbado que não conseguia voltar para a mulher e filhos em casa, ele escrevia sobre seu mundo emocional oculto.
Remorso, porém, o nazista Höss jamais sentiu: o cumprimento do dever em nome de seus comandantes estava acima de tudo. Assim, o genocídio de centenas de milhares de seres humanos era para ele uma atividade profissional incontornável, que não admitia nenhum tipo de questionamento.
Livremente baseado no romance homônimo de Martin Amis de 2014, Zona de interesse não coloca em questão o caráter de Höss. O que ele questiona é como é possível alguém viver nas vizinhanças imediatas de uma fábrica de morte e obliterar qualquer percepção do que está acontecendo por trás dos muros.
O ator Christian Friedel, que representa Höss, comentou à revista online Filmstarts: "É mesmo um fato que as pessoas viveram assim. Acho que essas dimensões do recalque – que seriam possíveis em nós todos, pelo motivo que seja – são exatamente o espelho que o filme quer colocar diante da gente."
Esse mecanismo de recalque se manifesta de forma especialmente crassa nas cenas em que uma das crianças brinca com dentes de ouro arrancados; um prisioneiro aduba as flores do jardim da família com as cinzas dos incinerados; ou Hedwig Höss experimenta o casaco de pele que pertencia a uma judia assassinada. Ao encontrar um batom num dos bolsos, ela se maquia com ele: não lhe importa que a última a aplicá-lo nos lábios tenha sido uma vítima de seu marido.
As rodagens foram inusuais para os participantes: espalhadas pela casa e o jardim, estavam câmeras sem operador. Tudo era observado e controlado a partir de um trailer, o elenco atuava sozinho, sem nunca saber quando e em que posição estava sendo filmado. Também não há praticamente close-ups das personagens, e essa distância proporciona ao filme um caráter quase documental.
Os diálogos parecem em parte improvisados, algumas conversas são incompreensíveis – o que não é uma perda, porque em geral se trata de meras banalidades. A não ser que Hedwig note ser preciso mandar ajustar as roupas das vítimas do campo – de que a família se apoderou como se fosse seu direito: os vestidos são todos estreitos demais.
Já tendo recebido numerosas distinções, entre as quais o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2023, Zona de interesse está indicado para concorrer a cinco Oscars em 10 de março: além de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, os de Direção, Roteiro Adaptado e Som.
O cineasta inglês Jonathan Glazer conseguiu apresentar o Holocausto de modo diferente do que se viu até então, ao intencionalmente abrir mão de mostrar por meios visuais as atrocidades que se cometem atrás dos muros.
Esse trabalho cabe inteiramente à sonografia: os barulhos onipresentes do campo de extermínio dispensam imagens para transportar o horror. Praticamente não há música: empregada com grande parcimônia, a trilha sonora é eletrônica e de brutalidade extrema.
Glazer recrutou como sound designer Johnnie Burn, com quem já colaborara em sua obra anterior, a experimental Sob a pele, de 2013. A dupla considerou cuidadosamente até mesmo a forma como o som chega ao público: renunciando à qualidade imersiva, "sensacionalista", da tecnologia multicanais Dolby Atmos, a trilha é em mono – como num anacrônico preto-e-branco sonoro.
"Foi o que simplesmente deu mais a sensação de documento do que qualquer outra coisa. Deixou aí de ser um lustro em cima do modo como o som era representado", explicou Burn à revista online Filmmaker.
Zona de interesse é uma obra cruel e importante. O ator Friedel comenta: "Quando vejo em que tempo estamos vivendo, como o filme é relevante, eu fico feliz de a gente tê-lo feito." Quando, ao fim, a tela fica preta, irrompe uma espécie de coro, torturantemente alto, dissonante, devastador, brutal: é terror em estado puro – e, no entanto, engendrado por seres humanos.
Gaza hoje
1.
Gaza já foi um campo de concentração, num tempo remoto, há cinco meses. Agora é um campo de extermínio, nos nossos ecrãs. Vi, no meu telefone, uma menina de Gaza pedir ao seu gato, com festas: quando formos mortos, por favor não nos comas. Vi gatos a rondarem gente morta no meio da rua. Cães a desenterrarem valas para comerem gente. Gente que comeu a comida dos cães, dos gatos, fez pão com isso. Que está a comer erva da rua, algas do mar com esgoto.
Milhares a lutar por um saco de farinha da ajuda humanitária. Uma menina com a metade de um limão porque não há pão. Crianças na areia de Rafah a brincar de amassar pão imaginário, cozer pão imaginário, porque estão esfomeadas. Como aquele judeu que cobiçava o pão do vizinho em Auschwitz, e nos perguntou – continua a perguntar – se isto é um homem.
Nunca vimos tantas provas de quem morre. E de quem mata. Soldados dedicam bombas às namoradas antes de carregarem no botão. Mandam pelos ares prédios de Gaza ao melhor estilo PlayStation. Montam vídeos com banda sonora, hits israelitas de guerra, raves de pastilha. Estão só doentes, ou também drogados?
Como aqueles soldados a espancarem coisas já muito destruídas numa loja da Cisjordânia: espancavam e espancavam, eufóricos, com tacos de baseball, com martelos, numa orgia. Um deles urrava, regando tudo com um jacto de espuma.
Muitos grafitam casas e mesquitas, insultos, estrelas de David (fotografei dezenas em Jenin). E agora roubam casas em Gaza por sistema: tapetes, cosméticos, motos. Um dos mais ricos e bem equipados exércitos do planeta, na sua versão gangs de Israel. Comportamentos que eu nunca tinha visto desde a primeira vez que lá estive, há 22 anos. Tal como israelitas com idade para serem pais e avós, sempre amorosos com os seus, e com os seus animais, dizem agora, como nunca antes: “Fuck Gaza”.
Porque para eles é 7 de Outubro. Não passaram 141 dias e 30 mil mortos em Gaza. Toda a compaixão que têm é para os 1000 mortos israelitas, os mais de 100 reféns do Hamas ainda vivos. Gente que merece estar tão viva como toda a gente. Incluindo o milhão e meio de moribundos nas barracas de Rafah, que já não movem esses israelitas laicos. Não os levam às ruas.
2.
E a cada manhã acordo e mais uma estrela da TV em Israel, mais um ministro, por vezes ministra, diz: “Estou orgulhosa das ruínas de Gaza.” Ou: “Não há inocentes em Gaza, as crianças de cinco anos não são inocentes.” Ou: “Vamos matá-los à fome, destruir tudo para partirem voluntariamente.” Ou: “Nunca haverá um Estado palestiniano.” Ou: “Como se atrevem a criticar-nos? Somos os filhos do Holocausto.” Ou: “Ninguém diz a Israel o que fazer”.
Não faltam declarações de intenção, além de comprovativos. Não falta orgulho nisso. Um país mais que narcísico: em grande parte doente.
A brava pequena minoria que combate a ocupação e a guerra, que se nega, por exemplo, a combater, é ostracizada, presa, mesmo. Em 25 de fevereiro, Sofi Orr, 18 anos, enfrenta a prisão. Entrevistei-a em sua casa no começo de janeiro.
3.
Nos últimos dias, multiplicam-se relatos de mulheres em Gaza, até já avós, que foram levadas pelos soldados, obrigadas a ficarem de roupa interior, ameaçadas, interrogadas sobre o Hamas. Na sua guerra “até à vitória final”, Israel está a tentar extrair informações torturando incontáveis multidões de palestinianos. Já acontecia com os homens, e era registado em imagens há meses, mas tudo se agravou, a escala dos detidos, a pressão das torturas, com simulação de afogamento, espancamento com barras de ferro, ferros metidos pela boca. Soldados de elite a humilharem milhares de homens, filmando-os despidos, vendados e amarrados, uns atrás dos outros, de cabeça curvada. O fascismo dos 120 dias de Saló-Sodoma que Pasolini retratou no cinema. Mas agora há 141 dias nos nossos telefones, pela mão armada dos descendentes de Auschwitz.
Então o que havia depois de Auschwitz era Auschwitz-em-direto.
4.
Lula da Silva quebrou um tabu entre líderes democráticos ao comparar o que está a acontecer com o Holocausto. O governo de Israel declarou-o persona non grata. Vi um cartoon em que Benjamin Netanyahu lhe chamava extremista enquanto lhe pingava sangue das mãos. Pois. Fora Israel, e bolsas sionistas aqui, ali, não dei por uma indignação alargada contra Lula. Um sinal de como ele toca em algo verdadeiro. Podemos preferir que algumas palavras dele tivessem sido outras.
Sabemos, como Lula sabe, que nunca antes nem depois seis milhões foram exterminados, com uma “Solução Final” decretada por um homem, e câmaras de gás e fornos adjudicados a toda uma máquina, e burocracia, de morte industrial. O Holocausto dos judeus da Europa tem circunstâncias únicas, e Lula não põe isso em causa. Mas claro que a comparação que ele faz está na mente de toda a gente com memória, com cabeça, com coração.
Masha Gessen, intelectual judia que citei há semanas, também foi criticada por essa comparação, e respondeu que não só ela pode como deve ser feita. Claro que fazê-la perturba, mas devíamos estar todos a perder o sono é com o que se passa em Gaza, diz Masha Gessen. E deve ser feita agora, porque é agora que temos de salvar vidas.
Foi isto que Lula percebeu. Um estadista com a intuição de poucos. Lula liberta os líderes para pressionarem o cessar-fogo, apontando a Israel o espelho que Israel mais teme. E que é o que lhe cabe, sim. Vou mais longe do que dizer que a comparação deve ser feita: essa é “a” comparação. Porque é de Israel que falamos. Da excepção que Israel representa no mundo. Do Holocausto que Israel explorou, transformando-o numa arma apontada para nós até hoje, na maior chantagem política de que há memória. Lula tocou no ponto, na ferida, no horror: que sejam os descendentes do mal maior a fazer isto. E que estejamos nós paralisados na culpa, deixando os vivos de agora morrer.
A comparação não é só incómoda para Israel. É para todos nós. O que diz isso sobre o humano.
Há mais de quatro meses escrevi aqui que travar a morte em Gaza seria honrar enfim a memória do Holocausto. Logo a seguir, que era preciso uma força de interposição em Gaza, e um boicote do mundo ao governo de Israel. Dezenas de milhares de mortos depois, e com milhões em risco de morrerem à fome ou doença, Gaza é o maior campo de extermínio do nosso tempo de vida.
Lula falou. Faltam sanções, boicote e desinvestimento. Israel tem de ser isolado: em nome de Gaza, dos palestinianos, de todos nós, dos judeus em geral. E dos israelitas. Não o fazer será ser parte do crime e da doença. O tabu do Holocausto acabou. Tal como a utopia de Israel.
Saudei que o ainda ministro Cravinho contrariasse as sanções à UNRWA, com um simbólico milhão extra de apoio, e falando no isolamento de Israel. Falta tudo o resto, isolar de facto, espero que também pela mão do próximo governo português.
5.
Israel está em autodestruição há muito. Antes de 7 de Outubro, à beira de uma guerra civil entre os que acreditam que o país é uma democracia e os que querem uma autocracia, ou teocracia. É o grande fosso entre sionistas laicos e religiosos. E o 7 de Outubro, que foi o maior trauma do Estado de Israel, não apaziguou isso. Ao contrário do que tende a acontecer quando um país se sente atacado, Israel não se uniu. A guerra interna segue latente.
Um dos frutos de todas estas décadas, e de todas as contradições. Desde a contradição de origem — querer ser um Estado judaico e uma democracia — a continuar a ocupar e colonizar um povo, depois de o destituir da sua terra, forçar a tornar-se refugiado.
O historiador israelita Ilan Pappé elencou em Janeiro cinco fatores para o que chama “começo do fim do projeto sionista”. O fosso laicos-religiosos é um. Outros quatro: o apoio crescente à Palestina, agora numa lógica anti-apartheid inspirada na África do Sul; a ocupação e a guerra sugarem a economia de Israel (e a Moody’s rebaixou Israel há dias, inédito e muito falado lá); a incapacidade de defesa que o exército demonstrou a 7 de Outubro; e cada vez mais judeus no mundo, sobretudo nos EUA, já não acreditarem que a existência de Israel protege os judeus. Ao contrário, pensarem que os ameaça. Subscrevo tudo.
Israel foi uma utopia a mentir para si mesma coisas como: “Uma terra sem povo para um povo sem terra.” Presa na culpa, a Europa sustentou a utopia. Foi cúmplice, com o dinheiro e as armas americanas. Israel chegou a 2023 mais doente que nunca. A ferida interna mais a gangrena colonial apodrecendo o colonizador. Mais três mil casas nos colonatos anunciadas anteontem (em retaliação a um ataque a colonos à entrada de Jerusalém).
Benjamin Netanyahu é um escroque. Mas não é a origem do mal, é o desfecho, muitos milhões de desalojados e mortos depois. O Hamas cravou uma faca em Israel a 7 de Outubro. A faca veio de fora. A doença vem de dentro. Israel não vai destruir a Palestina. Autodestrói-se.
Alexandra Lucas Coelho
domingo, 10 de março de 2024
Pobre Brasil: é espantoso que não haja condenação clara à trama de um golpe
Há algo muito errado com o Brasil. O contexto histórico da época (o que os alemães chamam de zeitgeist), marcado por diversos escândalos, explica que em 2018 o país tenha escolhido um presidente como Bolsonaro.
É espantoso, porém, para uma nação que pretenda se definir como tal, seguindo as palavras de Ortega y Gasset (“uma nação é um projeto de vida em comum”), que não haja uma condenação clara às barbaridades perpetradas por aqueles que, sem sombra de dúvida, tramaram um golpe de Estado na transição entre 2022 e 2023.
O fato de que, em função do receio de “cancelamento” por parte dos cangaceiros das mídias sociais, uma parte do corpo político do país conserve a ambiguidade diante daquelas manifestações criminosas revela que a nação está, em parte, doente.
Se aquele bando que tentou “virar a mesa”, revertendo o resultado das eleições e subvertendo a ordem constitucional, fez o que fez, foi por entender que forças relevantes do país iriam amparar tais disparates.
Se naquela época o que se tentou já era um despropósito completo, hoje, à luz do que se sabe da famosa gravação daquela reunião indecente, a ambiguidade é um atestado de falta de liderança.
A sociedade brasileira em peso, seus políticos, suas lideranças empresariais, os governadores etc. deveriam deixar cristalinamente claro que não há outra atitude diante daquelas aberrações que não um repúdio veemente. Não nos enganemos: o fato de que isso não tenha ocorrido revela muito sobre nossas deficiências.
O filósofo José Ingenieros, no seu magnífico “El hombre mediocre”, publicado em 1913, qualifica a mediocridade como uma “incapacidade de ideais”, definindo idealistas como aqueles “dispostos a emancipar-se do seu rebanho, procurando uma perfeição que vá além do atual”, reconhecendo que “a Humanidade não chega onde desejam os idealistas, mas sempre chega além de onde teria ido sem os seus esforços.”
Ele marca a devida distinção entre o que se espera de quem tem o dom de se destacar e aqueles que apenas copiam o que entendem que os outros esperam que seja feito, ao afirmar que “a personalidade individual começa no ponto preciso onde cada um se diferencia dos outros.”
Na definição do arquétipo que dá nome ao livro, ele escreve que “o homem medíocre está adaptado para viver em rebanho; sua característica é imitar aqueles que o cercam: pensar com cabeça alheia e ser incapaz de formar ideais próprios.”
E conclui que, no que qualifica de “mediocracia”, ou seja, no “governo dos medíocres”, o que se observa é que “os governantes que não pensam parecem prudentes; os que não roubam resultam exemplares. Ao invés de heróis, declaram-se administradores discretos.”
Ora, o papel de liderança vai muito além de apenas agir da forma que parte da população espera que o político atue e, sim, implica definir um rumo, com base em valores que deveriam ser inegociáveis. Há situações em que um governante — ou aspirante a sê-lo — deve fazer um risco de giz e deixar claro que, em relação a certos pontos, será intransigente.
Não importa se em um primeiro momento ele não tiver a compreensão de todos: com o tempo, ganhará o respeito e a admiração pela sua atitude.
É isso o que se deveria esperar de lideranças: que sinalizem claramente que nunca mais o país deveria assistir a um espetáculo deprimente como o que, desde os mais altos escalões da República, se tentou encenar em 2022.
Por uma ironia, a divulgação desses fatos se deu quando eu estava lendo o livro de Kissinger, “Liderança”. O contraste entre a coragem do general De Gaulle — quando, praticamente sozinho, baseado no que Kissinger descreve como o “senso nato de autoridade pessoal” de um “brigadeiro sem um tostão, exilado numa terra cuja língua não conhecia”, lançou as bases da Resistência francesa — e a atitude dócil dos nossos “caballeros de triste figura”, curvando-se diante do chefe quando estava se tramando uma atrocidade institucional, é a expressão de um país aviltado. Pobre Brasil.
É espantoso, porém, para uma nação que pretenda se definir como tal, seguindo as palavras de Ortega y Gasset (“uma nação é um projeto de vida em comum”), que não haja uma condenação clara às barbaridades perpetradas por aqueles que, sem sombra de dúvida, tramaram um golpe de Estado na transição entre 2022 e 2023.
O fato de que, em função do receio de “cancelamento” por parte dos cangaceiros das mídias sociais, uma parte do corpo político do país conserve a ambiguidade diante daquelas manifestações criminosas revela que a nação está, em parte, doente.
Se aquele bando que tentou “virar a mesa”, revertendo o resultado das eleições e subvertendo a ordem constitucional, fez o que fez, foi por entender que forças relevantes do país iriam amparar tais disparates.
Se naquela época o que se tentou já era um despropósito completo, hoje, à luz do que se sabe da famosa gravação daquela reunião indecente, a ambiguidade é um atestado de falta de liderança.
A sociedade brasileira em peso, seus políticos, suas lideranças empresariais, os governadores etc. deveriam deixar cristalinamente claro que não há outra atitude diante daquelas aberrações que não um repúdio veemente. Não nos enganemos: o fato de que isso não tenha ocorrido revela muito sobre nossas deficiências.
O filósofo José Ingenieros, no seu magnífico “El hombre mediocre”, publicado em 1913, qualifica a mediocridade como uma “incapacidade de ideais”, definindo idealistas como aqueles “dispostos a emancipar-se do seu rebanho, procurando uma perfeição que vá além do atual”, reconhecendo que “a Humanidade não chega onde desejam os idealistas, mas sempre chega além de onde teria ido sem os seus esforços.”
Ele marca a devida distinção entre o que se espera de quem tem o dom de se destacar e aqueles que apenas copiam o que entendem que os outros esperam que seja feito, ao afirmar que “a personalidade individual começa no ponto preciso onde cada um se diferencia dos outros.”
Na definição do arquétipo que dá nome ao livro, ele escreve que “o homem medíocre está adaptado para viver em rebanho; sua característica é imitar aqueles que o cercam: pensar com cabeça alheia e ser incapaz de formar ideais próprios.”
E conclui que, no que qualifica de “mediocracia”, ou seja, no “governo dos medíocres”, o que se observa é que “os governantes que não pensam parecem prudentes; os que não roubam resultam exemplares. Ao invés de heróis, declaram-se administradores discretos.”
Ora, o papel de liderança vai muito além de apenas agir da forma que parte da população espera que o político atue e, sim, implica definir um rumo, com base em valores que deveriam ser inegociáveis. Há situações em que um governante — ou aspirante a sê-lo — deve fazer um risco de giz e deixar claro que, em relação a certos pontos, será intransigente.
Não importa se em um primeiro momento ele não tiver a compreensão de todos: com o tempo, ganhará o respeito e a admiração pela sua atitude.
É isso o que se deveria esperar de lideranças: que sinalizem claramente que nunca mais o país deveria assistir a um espetáculo deprimente como o que, desde os mais altos escalões da República, se tentou encenar em 2022.
Por uma ironia, a divulgação desses fatos se deu quando eu estava lendo o livro de Kissinger, “Liderança”. O contraste entre a coragem do general De Gaulle — quando, praticamente sozinho, baseado no que Kissinger descreve como o “senso nato de autoridade pessoal” de um “brigadeiro sem um tostão, exilado numa terra cuja língua não conhecia”, lançou as bases da Resistência francesa — e a atitude dócil dos nossos “caballeros de triste figura”, curvando-se diante do chefe quando estava se tramando uma atrocidade institucional, é a expressão de um país aviltado. Pobre Brasil.
Autocracia religiosa-nacionalista
Netanyahu e os seus parceiros deixaram claro que o objetivo do seu governo de pura direita é a supressão da liberdade de expressão e o estabelecimento de uma autocracia religioso-nacionalista que proíbe aqueles que pensam de forma diferente da esfera pública.
Israel abusou de detidos de guerra em Gaza
Um relatório interno da ONU visto pela BBC descreveu o abuso generalizado de palestinos que foram capturados e interrogados em centros de detenção israelenses improvisados durante a guerra em curso em Gaza.
O projeto de documento compilado pela Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras (Unrwa), a principal agência da ONU que apoia os palestinianos, inclui testemunhos detalhados de detidos que descrevem uma extensa gama de maus-tratos.
Eles incluem ser despido e espancado, ser forçado a ficar em gaiolas e atacado por cães, forçado a posições de estresse por longos períodos e submetido a "traumas contundentes", incluindo coronhas de armas e botas, resultando em alguns casos em "costelas quebradas, separadas ombros e lesões duradouras".
Afirma que tanto homens como mulheres relataram “ameaças e incidentes de violência e assédio sexual”, incluindo toques inadequados nas mulheres e espancamentos nos órgãos genitais dos homens.
Num comunicado fornecido à BBC, as Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmaram: “Os maus-tratos aos detidos durante o seu tempo de detenção ou durante o interrogatório violam os valores das IDF e contrariam as IDF e são, portanto, absolutamente proibidos”.
Rejeitou alegações específicas, incluindo a negação de acesso a água, cuidados médicos e roupa de cama. As IDF também disseram que as alegações relativas ao abuso sexual eram "outra tentativa cínica de criar uma falsa equivalência com o uso sistemático do estupro como arma de guerra pelo Hamas".
Em declarações anteriores aos jornais New York Times e Guardian, os militares israelitas afirmaram estar cientes das mortes durante a detenção, incluindo aquelas com doenças e ferimentos pré-existentes, e afirmaram que todas as mortes estavam a ser investigadas.
Os relatos da Unrwa coincidem com outros relatos de abusos em centros de detenção israelitas publicados recentemente por grupos de direitos humanos israelitas e palestinianos, bem como com investigações separadas da ONU.
Este último relatório da ONU, que ainda não foi publicado, baseou-se em entrevistas com mais de 100 detidos, parte de um grupo de cerca de 1.000 detidos que a Unrwa conseguiu documentar desde Dezembro, depois de terem sido libertados de três instalações militares israelitas. Eles incluíram pessoas – homens e mulheres – com idades entre seis e 82 anos, incluindo 29 crianças.
A agência explica que esta informação foi obtida durante a sua função de coordenação da ajuda humanitária no ponto de passagem Kerem Shalom entre Gaza e Israel, onde as FDI têm libertado detidos. A informação também teria sido fornecida “de forma independente e voluntária” por palestinos libertados da detenção.
O relatório afirma que muitos palestinos foram detidos no norte de Gaza enquanto se refugiavam em hospitais ou escolas ou quando tentavam fugir para o sul em busca de abrigo. Outros eram habitantes de Gaza com autorização de trabalho para entrar em Israel. Eles ficaram presos em Israel quando a guerra eclodiu e mais tarde foram detidos.
A Unrwa estima que mais de 4.000 palestinianos foram detidos em Gaza desde o início das hostilidades desencadeadas pelo ataque do Hamas a 7 de Outubro, quando quase 1.200 israelitas, a maioria civis, foram mortos e mais de 250 israelitas e estrangeiros foram feitos reféns.
Na guerra que se seguiu, agora no seu quinto mês, mais de 30 mil palestinianos foram mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, gerido pelo Hamas.
A própria Unrwa tem sido o foco da investigação durante esta guerra. Israel acusou-o repetidamente de apoiar o Hamas e de contratar os seus membros.
A agência da ONU, cujos 13 mil funcionários são considerados a espinha dorsal das operações humanitárias em Gaza, negou as acusações. Mas rescindiu imediatamente os contratos dos funcionários acusados num documento israelita de terem desempenhado um papel nos ataques de 7 de Outubro.
As alegações, também investigadas pela ONU, levaram quase 20 países e instituições a suspender o financiamento. Mas a UE retomou recentemente o seu apoio e outros estão supostamente a preparar-se para o fazer.
"A Unrwa está a enfrentar uma campanha deliberada e concertada para minar as suas operações e, em última análise, acabar com elas", disse recentemente o comissário-geral Philippe Lazzarini numa reunião especial da Assembleia Geral da ONU, no meio de apelos em Israel para que a agência fosse desmantelada.
Na introdução do seu relatório interno, a Unrwa destaca que não é um relato abrangente de todas as questões relativas às detenções durante a guerra, incluindo reféns detidos pelo Hamas, ou outras preocupações relativas ao tratamento de reféns em Gaza por grupos armados palestinianos.
O projeto de documento compilado pela Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras (Unrwa), a principal agência da ONU que apoia os palestinianos, inclui testemunhos detalhados de detidos que descrevem uma extensa gama de maus-tratos.
Eles incluem ser despido e espancado, ser forçado a ficar em gaiolas e atacado por cães, forçado a posições de estresse por longos períodos e submetido a "traumas contundentes", incluindo coronhas de armas e botas, resultando em alguns casos em "costelas quebradas, separadas ombros e lesões duradouras".
Afirma que tanto homens como mulheres relataram “ameaças e incidentes de violência e assédio sexual”, incluindo toques inadequados nas mulheres e espancamentos nos órgãos genitais dos homens.
Num comunicado fornecido à BBC, as Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmaram: “Os maus-tratos aos detidos durante o seu tempo de detenção ou durante o interrogatório violam os valores das IDF e contrariam as IDF e são, portanto, absolutamente proibidos”.
Rejeitou alegações específicas, incluindo a negação de acesso a água, cuidados médicos e roupa de cama. As IDF também disseram que as alegações relativas ao abuso sexual eram "outra tentativa cínica de criar uma falsa equivalência com o uso sistemático do estupro como arma de guerra pelo Hamas".
Em declarações anteriores aos jornais New York Times e Guardian, os militares israelitas afirmaram estar cientes das mortes durante a detenção, incluindo aquelas com doenças e ferimentos pré-existentes, e afirmaram que todas as mortes estavam a ser investigadas.
Os relatos da Unrwa coincidem com outros relatos de abusos em centros de detenção israelitas publicados recentemente por grupos de direitos humanos israelitas e palestinianos, bem como com investigações separadas da ONU.
Este último relatório da ONU, que ainda não foi publicado, baseou-se em entrevistas com mais de 100 detidos, parte de um grupo de cerca de 1.000 detidos que a Unrwa conseguiu documentar desde Dezembro, depois de terem sido libertados de três instalações militares israelitas. Eles incluíram pessoas – homens e mulheres – com idades entre seis e 82 anos, incluindo 29 crianças.
A agência explica que esta informação foi obtida durante a sua função de coordenação da ajuda humanitária no ponto de passagem Kerem Shalom entre Gaza e Israel, onde as FDI têm libertado detidos. A informação também teria sido fornecida “de forma independente e voluntária” por palestinos libertados da detenção.
O relatório afirma que muitos palestinos foram detidos no norte de Gaza enquanto se refugiavam em hospitais ou escolas ou quando tentavam fugir para o sul em busca de abrigo. Outros eram habitantes de Gaza com autorização de trabalho para entrar em Israel. Eles ficaram presos em Israel quando a guerra eclodiu e mais tarde foram detidos.
A Unrwa estima que mais de 4.000 palestinianos foram detidos em Gaza desde o início das hostilidades desencadeadas pelo ataque do Hamas a 7 de Outubro, quando quase 1.200 israelitas, a maioria civis, foram mortos e mais de 250 israelitas e estrangeiros foram feitos reféns.
Na guerra que se seguiu, agora no seu quinto mês, mais de 30 mil palestinianos foram mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, gerido pelo Hamas.
A própria Unrwa tem sido o foco da investigação durante esta guerra. Israel acusou-o repetidamente de apoiar o Hamas e de contratar os seus membros.
A agência da ONU, cujos 13 mil funcionários são considerados a espinha dorsal das operações humanitárias em Gaza, negou as acusações. Mas rescindiu imediatamente os contratos dos funcionários acusados num documento israelita de terem desempenhado um papel nos ataques de 7 de Outubro.
As alegações, também investigadas pela ONU, levaram quase 20 países e instituições a suspender o financiamento. Mas a UE retomou recentemente o seu apoio e outros estão supostamente a preparar-se para o fazer.
"A Unrwa está a enfrentar uma campanha deliberada e concertada para minar as suas operações e, em última análise, acabar com elas", disse recentemente o comissário-geral Philippe Lazzarini numa reunião especial da Assembleia Geral da ONU, no meio de apelos em Israel para que a agência fosse desmantelada.
Na introdução do seu relatório interno, a Unrwa destaca que não é um relato abrangente de todas as questões relativas às detenções durante a guerra, incluindo reféns detidos pelo Hamas, ou outras preocupações relativas ao tratamento de reféns em Gaza por grupos armados palestinianos.
O golpista e o assassino
No domingo, 25 de fevereiro, uma multidão de apoiadores convocados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro lotou a principal avenida de São Paulo . Investigado como mentor de um golpe de Estado , o extremista de direita precisava demonstrar que ainda detém uma parte significativa dos corações e mentes dos brasileiros. Como esperado, ele conseguiu. Porém, para compreender mais profundamente o que Bolsonaro representa, é preciso ir muito além das grandes cidades do sudeste do país. É preciso desviar o olhar alguns milhares de quilômetros ao norte de São Paulo e olhar para uma cidade de 27 mil habitantes na rodovia Transamazônica chamada Medicilândia. Ali se instalou Darci Alves Pereira, assassino do ambientalista Chico Mendes . E começou uma nova vida como apoiador de Jair Bolsonaro.
Agora como “Pastor Daniel”, identidade associada às igrejas evangélicas, o autor confesso do crime que chocou o mundo foi empossado como presidente local do Partido Liberal em janeiro. O que permite que o homem que em 1988 executou com um tiro de espingarda no peito o mais renomado defensor da Amazônia assuma a presidência do partido de Bolsonaro – foi demitido após revelações na imprensa – e seja pré-candidato a vereador é exatamente o que mantém vivo o bolsonarismo.
Se para o mundo Chico Mendes foi um “herói”, para uma parte significativa da população da Amazônia, formada por pessoas que vieram de outros Estados para ganhar a vida com a exploração da selva, o líder ambientalista nada mais foi do que um obstáculo que precisava ser eliminado. Seu assassino, portanto, teria prestado um “serviço” que consideram “legítimo”. Estas pessoas não se consideram criminosas, mas sim como “pioneiros”, “defensores do progresso”, “bons cidadãos”. E é assim que são reconhecidos nas cidades amazônicas, onde ladrões de terras, madeireiros e patrões da mineração ilegal ocupam os principais cargos políticos e possuem grande parte dos negócios.
Com a redemocratização do Brasil e a Constituição de 1988, que reconheceu os direitos dos povos indígenas, esses “pioneiros” começaram a ser vistos e tratados como feios, sujos e maus, e seu poder foi parcialmente limitado. Tal como o seu espelho, ao alcançar o poder com os seus votos, Bolsonaro redimiu-os e “libertou-os”, expandindo os limites para além da lei. O sabor desta redenção – e daquilo a que chamam “liberdade” – não será apagado cedo ou facilmente, talvez nunca.
Faltava ainda a redenção religiosa, uma vez que a Igreja Católica na Amazônia estava ligada à Teologia da Libertação e muitos dos atuais líderes da esquerda foram formados nas comunidades eclesiais de base. Com a ascensão e expansão das igrejas evangélicas, que hoje formam a base de apoio mais resiliente de Bolsonaro , elas alcançaram essa outra camada. Tanto é que, como diz o “Pastor Daniel”, o assassino de Chico Mendes costuma pregar sem nenhum pudor: “Em tudo que fazemos, devemos colocar Deus no meio”.
O fato de o assassino ter escolhido esta cidade da região transamazônica para sua redenção oferece um grau adicional de espanto. Medicilancia leva o nome de Emílio Garrastazu Médici, general e presidente do período em que ocorreram mais sequestros, torturas e assassinatos durante a ditadura brasileira, e que também transformou a destruição da Amazônia em um projeto de Estado. Essa é a filiação de Bolsonaro, do bolsonarismo e do “Pastor Daniel”. E sobreviverá até a Bolsonaro.
Agora como “Pastor Daniel”, identidade associada às igrejas evangélicas, o autor confesso do crime que chocou o mundo foi empossado como presidente local do Partido Liberal em janeiro. O que permite que o homem que em 1988 executou com um tiro de espingarda no peito o mais renomado defensor da Amazônia assuma a presidência do partido de Bolsonaro – foi demitido após revelações na imprensa – e seja pré-candidato a vereador é exatamente o que mantém vivo o bolsonarismo.
O que hoje chamamos de bolsonarismo já existia muito antes, mas sem nome e sem rosto que lhe desse coesão e organização. Esta foi a contribuição decisiva de Bolsonaro para o fortalecimento da extrema direita fascista. Na Amazônia Legal, região que abrange nove Estados e mais da metade do território brasileiro, essa mentalidade – aqui entendida como forma de existir, pensar e se movimentar – domina as eleições e o cotidiano.
Se para o mundo Chico Mendes foi um “herói”, para uma parte significativa da população da Amazônia, formada por pessoas que vieram de outros Estados para ganhar a vida com a exploração da selva, o líder ambientalista nada mais foi do que um obstáculo que precisava ser eliminado. Seu assassino, portanto, teria prestado um “serviço” que consideram “legítimo”. Estas pessoas não se consideram criminosas, mas sim como “pioneiros”, “defensores do progresso”, “bons cidadãos”. E é assim que são reconhecidos nas cidades amazônicas, onde ladrões de terras, madeireiros e patrões da mineração ilegal ocupam os principais cargos políticos e possuem grande parte dos negócios.
Com a redemocratização do Brasil e a Constituição de 1988, que reconheceu os direitos dos povos indígenas, esses “pioneiros” começaram a ser vistos e tratados como feios, sujos e maus, e seu poder foi parcialmente limitado. Tal como o seu espelho, ao alcançar o poder com os seus votos, Bolsonaro redimiu-os e “libertou-os”, expandindo os limites para além da lei. O sabor desta redenção – e daquilo a que chamam “liberdade” – não será apagado cedo ou facilmente, talvez nunca.
Faltava ainda a redenção religiosa, uma vez que a Igreja Católica na Amazônia estava ligada à Teologia da Libertação e muitos dos atuais líderes da esquerda foram formados nas comunidades eclesiais de base. Com a ascensão e expansão das igrejas evangélicas, que hoje formam a base de apoio mais resiliente de Bolsonaro , elas alcançaram essa outra camada. Tanto é que, como diz o “Pastor Daniel”, o assassino de Chico Mendes costuma pregar sem nenhum pudor: “Em tudo que fazemos, devemos colocar Deus no meio”.
O fato de o assassino ter escolhido esta cidade da região transamazônica para sua redenção oferece um grau adicional de espanto. Medicilancia leva o nome de Emílio Garrastazu Médici, general e presidente do período em que ocorreram mais sequestros, torturas e assassinatos durante a ditadura brasileira, e que também transformou a destruição da Amazônia em um projeto de Estado. Essa é a filiação de Bolsonaro, do bolsonarismo e do “Pastor Daniel”. E sobreviverá até a Bolsonaro.
sexta-feira, 8 de março de 2024
O que está havendo com o mundo?
Apesar de investigado e provavelmente condenado, Trump aparece como favorito nas eleições americanas. Milei foi eleito na Argentina e continua cometendo erros sobretudo contra a população. Em El Salvador, o recém eleito Bukele, o presidente que se fantasia de jovem, decreta a prisão em massa de supostos milicianos sem se preocupar em envolver nisso pessoas inocentes. E não estou incluindo nem Putin, nem Zelensky e nem Netanyahu. No Brasil, depois das opiniões sensatas sobre o conflito em Gaza, Lula vê sua popularidade entre os evangélicos despencar mais ainda.
Se deixarmos, o Brasil também vai continuar sua trajetória rumo ao fascismo através do seu Congresso conservador e das forças reacionárias que ressurgiram depois do advento do bolsonarismo. Eu até insisto em não chamar de bolsonarismo. Bolsonaro não tem estofo para criar uma ideologia. Fascismo e extrema direita são termos mais apropriados e que apareceram de vez com o favorecimento, aí sim, de Bolsonaro. Tirando alguns países da Europa do norte, e assim mesmo são poucos, e outros em que o nível de desenvolvimento humano já chegou a um bom padrão, são poucos os países que colocam a população trabalhadora como prioridade. “Farinha pouca, meu pirão primeiro” é o ditado mais usado.
Temos a China como contraponto desta situação, mas com uma realidade bem diferente da nossa e com aquela população toda impossível exigir um governo com mais liberdade. Aliás, onde essa liberdade está sendo usada de modo democrático e por todos? É complicada a situação do mundo. Afora as guerras horríveis que vemos com o apoio dos países produtores de armas, assistimos também a espetáculos dantescos nos países bem pobres do Caribe, da América Latina ou da África em que a violência, a ausência do Estado e o abandono do resto do mundo agravam terrivelmente a situação. O que acontece no Haiti, no Sudão, em Gaza mesmo com o silêncio do mundo me deixa perplexo.
Claro que guerras sempre existiram e o ser humano não passou a ser perverso agora. O que mudou foi a comunicação. Ficamos sabendo de tudo imediatamente e sem filtro. E isso também espanta porque em tantos anos, usando como exemplo a minha trajetória de vida, muito pouca coisa mudou. Os ricos continuam mais ricos, os poderosos mais poderosos e explorando os mais fracos, as guerras e a fome matando, a religião oprimindo as pessoas e, a cereja do bolo, as big techs hoje se dando bem e estabelecendo novos padrões de comunicação, entretenimento e conhecimento.
Como sempre, o que sobra é para poucos e o que interessa é a ignorância disfarçada de informação para muitos. Não é por menos que as fake news se estabeleceram com tanto sucesso. A mentira tem mais sabor, é mais glamurosa e nos deixa livre para inventar o que quisermos. A verdade é insossa, apesar de real. Não interessa aos poderosos que ela exista. Espalhar mentiras virou o objetivo dessa gente no mundo. E que mundo este nosso se tornou? Um mundo de mentiras em que a verdade vai acabar determinando o prazo de validade. Esse não há mentira que transforme. Do jeito que está vai sobrar pouco tempo.
Se deixarmos, o Brasil também vai continuar sua trajetória rumo ao fascismo através do seu Congresso conservador e das forças reacionárias que ressurgiram depois do advento do bolsonarismo. Eu até insisto em não chamar de bolsonarismo. Bolsonaro não tem estofo para criar uma ideologia. Fascismo e extrema direita são termos mais apropriados e que apareceram de vez com o favorecimento, aí sim, de Bolsonaro. Tirando alguns países da Europa do norte, e assim mesmo são poucos, e outros em que o nível de desenvolvimento humano já chegou a um bom padrão, são poucos os países que colocam a população trabalhadora como prioridade. “Farinha pouca, meu pirão primeiro” é o ditado mais usado.
Temos a China como contraponto desta situação, mas com uma realidade bem diferente da nossa e com aquela população toda impossível exigir um governo com mais liberdade. Aliás, onde essa liberdade está sendo usada de modo democrático e por todos? É complicada a situação do mundo. Afora as guerras horríveis que vemos com o apoio dos países produtores de armas, assistimos também a espetáculos dantescos nos países bem pobres do Caribe, da América Latina ou da África em que a violência, a ausência do Estado e o abandono do resto do mundo agravam terrivelmente a situação. O que acontece no Haiti, no Sudão, em Gaza mesmo com o silêncio do mundo me deixa perplexo.
Claro que guerras sempre existiram e o ser humano não passou a ser perverso agora. O que mudou foi a comunicação. Ficamos sabendo de tudo imediatamente e sem filtro. E isso também espanta porque em tantos anos, usando como exemplo a minha trajetória de vida, muito pouca coisa mudou. Os ricos continuam mais ricos, os poderosos mais poderosos e explorando os mais fracos, as guerras e a fome matando, a religião oprimindo as pessoas e, a cereja do bolo, as big techs hoje se dando bem e estabelecendo novos padrões de comunicação, entretenimento e conhecimento.
Como sempre, o que sobra é para poucos e o que interessa é a ignorância disfarçada de informação para muitos. Não é por menos que as fake news se estabeleceram com tanto sucesso. A mentira tem mais sabor, é mais glamurosa e nos deixa livre para inventar o que quisermos. A verdade é insossa, apesar de real. Não interessa aos poderosos que ela exista. Espalhar mentiras virou o objetivo dessa gente no mundo. E que mundo este nosso se tornou? Um mundo de mentiras em que a verdade vai acabar determinando o prazo de validade. Esse não há mentira que transforme. Do jeito que está vai sobrar pouco tempo.
Vita brevis?
Não dispomos de pouco tempo, mas desperdiçamos muito. A vida é longa o bastante e nos foi generosamente concedida para a execução de ações as mais importantes, caso toda ela seja bem aplicada. Porém, quando se dilui no luxo e na preguiça, quando não é despendida em nada de bom, somente então, compelidos pela necessidade derradeira, aquela que não havíamos percebido passar, sentimos que já passou. É assim que acontece: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos; dela não somos carentes, mas pródigos. Tal como amplos e magníficos recursos, quando vêm para um mau detentor, são dissipados num instante, ao passo que, por mais modestos que sejam, se entregues a um bom guardião, crescem pelo uso que se faz deles, assim também a nossa existência é bastante extensa para quem dela bem dispõe.
Sêneca, "Sobre a brevidade da vida"
Sêneca, "Sobre a brevidade da vida"
Varsóvia e Gaza: 80 anos depois, dois guetos e o mesmo nazismo
O judeu assassinado e o judeu assassino. Oitenta anos separam essa brutal metamorfose de um povo perseguido em 1943 pela barbárie nazista na Polônia e convertido, em 2023, em um Estado vingativo que bombardeia impiedosamente hospitais, escolas, ambulâncias, mesquitas, mulheres, crianças e dois milhões de civis inocentes no enclave palestino de Gaza. A dramática inversão de papéis dos judeus atacados no Gueto de Varsóvia para os judeus atacantes no Gueto de Gaza – a inacreditável degeneração do judeu perseguido para o papel de judeu perseguidor – marca talvez o pior retrocesso moral e ético dos princípios civilizatórios de um povo no curto espaço das últimas oito décadas da Humanidade.
A impensável conversão de Israel ao horror nazista tem agora um pretexto de sangue e terror. O silêncio da manhã ensolarada de terça-feira, 7 de outubro, foi quebrado pelo silvo de aproximadamente três mil foguetes disparados de Gaza pelo grupo militar islâmico Hamas sobre a fronteira sul e cidades próximas de Israel, incluindo a capital, Tel Aviv, apenas 70 km ao norte. Eram tantos foguetes no ar que o poderoso “Domo de Ferro”, o sistema antimíssil de defesa de Israel que detecta alvos a até 70 km, ficou sobrecarregado e impotente diante de tantas ameaças desabando dos céus.
O pior viria a seguir. Os foguetes ainda fumegavam no ar quando um punhado de 1.500 homens da brigada Al-Qassam, o braço armado e terrorista do Hamas, ultrapassou as cercas da fronteira com tratores, motos e parapentes com duplas armadas de metralhadoras para o maior e mais brutal ataque ao território de Israel desde sua fundação, em 1948. Em poucas horas, em ação abominável, os terroristas massacraram quase 1.200 homens, mulheres e idosos, incluindo 33 crianças, numa operação que tinha como alvo indefesos civis israelenses, não militares. Quando retornaram a Gaza, os atacantes do Hamas levaram 240 reféns, incluindo 40 crianças. Foi o maior atentado terrorista no mundo desde o 11 de setembro de 2001, quando 19 membros da Al-Qaeda de Bin Laden sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos – atingindo entre eles as torres gêmeas de 110 andares do World Trade Center, em Nova Iorque. Naquele dia morreram 2.996 pessoas em quatro ataques, incluindo os 19 terroristas.
A ação da brigada assassina do Hamas destravou a linguagem mais encanzinada da elite governante de Israel, nivelando no fundo do poço a reação desproporcional de quem se move pela vingança, sem arrefecer sua fúria mesmo diante de bebês, crianças, mulheres e idosos palestinos. Líderes notórios máximos de Israel, incluindo generais, jornalistas, celebridades e destaques das redes sociais, se lambuzaram na defesa da punição coletiva em massa. Um constrangedor surto de desmemória para um povo que sempre lembra ao mundo a brutalidade de que foi vítima na barbárie do Holocausto nazista.
O primeiro ministro Benjamin Netanyahu declarou no mesmo dia do ataque um “estado de guerra” em Israel, e esbravejou com a convicção de quem não se envergonha de anunciar seu ímpeto homicida: “Vamos transformar Gaza em uma ilha deserta e mudar o Oriente Médio. O que faremos com nossos inimigos nos próximos dias repercutirá entre eles por gerações”. Rápido no gatilho, o major-general Yoav Galant, ministro da Defesa de Israel, ecoou o chefe anunciando o inferno iminente: “Estamos lutando contra animais humanos, e estamos agindo de acordo. Vamos impor um cerco completo a Gaza. Não haverá eletricidade, nem alimentos, nem água, nem combustível, tudo será cortado”. A mulher de Netanyahu, Sara, embora psicóloga, completou o desatino numa entrevista de rádio em 10 de outubro, 72 horas após o ataque: “Não os chamo de animais humanos porque isso seria um insulto aos animais”. Tsaji Hanegbi, conselheiro de Segurança Nacional, fez uma distinção para defender os bichinhos: “Dizem que terroristas são animais. Mas, quem tem um cão em casa, sabe que eles não são animais. São monstros”.
Yinon Magal, apresentadora do Canal 14 de direita em Israel, trovejou na sua TV, uma semana após o ataque:“Apaguem Gaza. Não deixem ninguém lá”. Na mesma emissora, um especialista militar de um instituto associado à Universidade de Tel Aviv, Eliyhau Yossian, insistiu: “Não existem inocentes em Gaza, apenas dois milhões de terroristas”. O ministro de Segurança Nacional e líder de um partido de extrema-direita, Itamar Ben-Gvir, repetiu na TV o mantra que extravaza o terror dos atacantes: “Qualquer pessoa que apoia o Hamas deve ser eliminada”.
Até o presidente Isaac Herzog, considerado a face moderada do governo mais extremista e ultradireita da curta história de Israel, perdeu a compostura e rotulou toda a população de mais de 2 milhões da Faixa de Gaza como terrorista, dando ao Hamas uma dimensão que ele não tem: “É uma nação inteira lá fora que é responsável. Não é verdade essa retórica de que os civis de Gaza não sabiam, não se envolveram. Absolutamente, não é verdade. Eles poderiam ter se levantado, poderiam ter lutado contra aquele regime maligno que assumiu o controle da Gaza”, protestou Herzog.
O desatino que afundou a cúpula governante de Israel na ideia de “punição coletiva, sem exceções” foi resumido, sem dó, por um dos militares mais influentes do país. Giora Eiland, 71 anos, hoje na reserva, é um paraquedista que chegou ao posto de general-brigadeiro e foi chefe em 2004, no governo linha dura de Ariel Sharon, do Conselho de Segurança Nacional. “Israel deve criar um desastre humanitário sem precedentes em Gaza. Somente a mobilização de dezenas de milhares e o clamor da comunidade internacional criarão a alavanca para que Gaza fique sem o Hamas ou sem pessoas. Estamos em uma guerra existencial”. A elite governante de Israel assumiu, em poucas horas, o discurso do extermínio do povo palestino. O Fake Repórter, um equilibrado grupo israelense que monitora a desinformação e o ódio, anotou apenas 16 apelos para que Gaza fosse “achatada”, “apagada” ou “destruída” nos 45 dias anteriores a 7 de outubro. Depois do ataque terrorista do Hamas, o sentimento de fúria varreu o país. Em poucas horas, o Twitter (atual X) foi invadido 18 mil vezes por expressões genocidas pedindo o apagamento, a destruição, o achatamento de Gaza e seu povo.
Consumado o ataque de 7 de outubro, as duas nações militarmente mais poderosas do Ocidente, Estados Unidos e Reino Unido, se apressaram em dar um “apoio incondicional”, sem meios-tons e sem ressalvas, a qualquer reação de Israel. O presidente Joe Biden e o premiê Rishi Sunak fizeram questão de ir pessoalmente a Tel Aviv para justificar uma irrestrita licença para matar – ao melhor estilo 007 de James Bond – aos militares de Netanyahu: “Israel tem o direito de se defender”, repetiram o americano e o britânico, sem esclarecer se isso incluiria o direito israelense de chacinar populações civis, mulheres e crianças e bombardear hospitais, escolas, ambulâncias e mesquitas.
Resultado sangrento dessa barbaridade retórica de Washington e Londres: em quase quatro meses, até 16 de fevereiro (dia 133 do conflito), Israel usou e abusou de seu matador “direito de defesa” para liquidar 27.238 mil palestinos, incluindo 11.500 crianças e bebês e 8 mil mulheres – um total cerca de 24 vezes maior do que os israelenses mortos. E 66.452 mil palestinos foram feridos, incluindo mais de 8,6 mil crianças e 6,3 mil mulheres – sete vezes mais do que no lado israelense (8.730 feridos). A lista inicial de 1.405 vítimas judias foi revisada para baixo, para 1.139 mortos, por dados consolidados do governo de Gaza, do Exército de Israel, do Crescente Vermelho, do Ministério da Saúde da Cisjordânia e da rede Al Jazeera. O porta-voz da chancelaria de Israel, Lior Haiat, reconheceu em 10 de novembro que o número caiu porque muitos corpos, não identificados, foram incluídos erradamente na contagem de israelenses mortos, mas descobriram depois que eram de “terroristas”.
A curva desproporcional da violência que mata muito mais palestinos fica evidente num quadro montado pelo jornal O Globo para o período de 55 dias entre 7 de outubro, data do ataque, e 1º de novembro. A contagem começa com uma disparidade entre mortos árabes (426) e judeus (677), equilibra rapidamente quatro dias depois (1.126 palestinos e 1.200 israelenses), vira dois dias mais tarde (1.943 árabes mortos contra 1.300), e dispara numa curva ascendente até o primeiro dia de outubro (8.796 contra 1.402, na lista depois rebaixada para 1.200). O detalhe intrigante é que o total de mortos de Israel estabiliza seis dias após o ataque e mantém a regularidade daí em diante, enquanto as vítimas palestinas disparam geometricamente, dia a dia.
A estatística do matadouro produzido por Israel em Gaza se renova e aumenta a cada hora assombrada por 200 ataques aéreos, como na madrugada de segunda-feira, 4 de dezembro. Nos primeiros seis dias de guerra, de acordo com o Exército israelense, foram jogadas em Gaza 42 bombas a cada 60 minutos. Segundo o escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (UNOCHA, na sigla em inglês), esse descomunal poder de fogo mata, por hora, 15 pessoas (seis delas crianças), fere outros 35 indivíduos e destrói 12 prédios. Já Agência para Refugiados Palestinos das Nações Unidas (UNRWA, na sigla em inglês), informou em 6 de novembro que um mês de guerra registrava, a cada 10 minutos, a morte de uma criança e ferimentos em outras duas. No início de dezembro, fontes da ONU calculavam mais de 360 mil residências (60% das moradias de Gaza) destruídas ou danificadas pelas dezenas de bombardeios aéreos diários, que atingiram 386 escolas, 122 ambulâncias, 56 mesquitas destruídas e outras 136 danificadas (matando 53 imãs e pregadores), deixando fora de ação 26 dos 35 hospitais de Gaza. Onze padarias foram demolidas, agravando o drama da fome numa população já privada de luz, de água e de combustível.
A impensável conversão de Israel ao horror nazista tem agora um pretexto de sangue e terror. O silêncio da manhã ensolarada de terça-feira, 7 de outubro, foi quebrado pelo silvo de aproximadamente três mil foguetes disparados de Gaza pelo grupo militar islâmico Hamas sobre a fronteira sul e cidades próximas de Israel, incluindo a capital, Tel Aviv, apenas 70 km ao norte. Eram tantos foguetes no ar que o poderoso “Domo de Ferro”, o sistema antimíssil de defesa de Israel que detecta alvos a até 70 km, ficou sobrecarregado e impotente diante de tantas ameaças desabando dos céus.
O pior viria a seguir. Os foguetes ainda fumegavam no ar quando um punhado de 1.500 homens da brigada Al-Qassam, o braço armado e terrorista do Hamas, ultrapassou as cercas da fronteira com tratores, motos e parapentes com duplas armadas de metralhadoras para o maior e mais brutal ataque ao território de Israel desde sua fundação, em 1948. Em poucas horas, em ação abominável, os terroristas massacraram quase 1.200 homens, mulheres e idosos, incluindo 33 crianças, numa operação que tinha como alvo indefesos civis israelenses, não militares. Quando retornaram a Gaza, os atacantes do Hamas levaram 240 reféns, incluindo 40 crianças. Foi o maior atentado terrorista no mundo desde o 11 de setembro de 2001, quando 19 membros da Al-Qaeda de Bin Laden sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos – atingindo entre eles as torres gêmeas de 110 andares do World Trade Center, em Nova Iorque. Naquele dia morreram 2.996 pessoas em quatro ataques, incluindo os 19 terroristas.
A ação da brigada assassina do Hamas destravou a linguagem mais encanzinada da elite governante de Israel, nivelando no fundo do poço a reação desproporcional de quem se move pela vingança, sem arrefecer sua fúria mesmo diante de bebês, crianças, mulheres e idosos palestinos. Líderes notórios máximos de Israel, incluindo generais, jornalistas, celebridades e destaques das redes sociais, se lambuzaram na defesa da punição coletiva em massa. Um constrangedor surto de desmemória para um povo que sempre lembra ao mundo a brutalidade de que foi vítima na barbárie do Holocausto nazista.
O primeiro ministro Benjamin Netanyahu declarou no mesmo dia do ataque um “estado de guerra” em Israel, e esbravejou com a convicção de quem não se envergonha de anunciar seu ímpeto homicida: “Vamos transformar Gaza em uma ilha deserta e mudar o Oriente Médio. O que faremos com nossos inimigos nos próximos dias repercutirá entre eles por gerações”. Rápido no gatilho, o major-general Yoav Galant, ministro da Defesa de Israel, ecoou o chefe anunciando o inferno iminente: “Estamos lutando contra animais humanos, e estamos agindo de acordo. Vamos impor um cerco completo a Gaza. Não haverá eletricidade, nem alimentos, nem água, nem combustível, tudo será cortado”. A mulher de Netanyahu, Sara, embora psicóloga, completou o desatino numa entrevista de rádio em 10 de outubro, 72 horas após o ataque: “Não os chamo de animais humanos porque isso seria um insulto aos animais”. Tsaji Hanegbi, conselheiro de Segurança Nacional, fez uma distinção para defender os bichinhos: “Dizem que terroristas são animais. Mas, quem tem um cão em casa, sabe que eles não são animais. São monstros”.
Yinon Magal, apresentadora do Canal 14 de direita em Israel, trovejou na sua TV, uma semana após o ataque:“Apaguem Gaza. Não deixem ninguém lá”. Na mesma emissora, um especialista militar de um instituto associado à Universidade de Tel Aviv, Eliyhau Yossian, insistiu: “Não existem inocentes em Gaza, apenas dois milhões de terroristas”. O ministro de Segurança Nacional e líder de um partido de extrema-direita, Itamar Ben-Gvir, repetiu na TV o mantra que extravaza o terror dos atacantes: “Qualquer pessoa que apoia o Hamas deve ser eliminada”.
Até o presidente Isaac Herzog, considerado a face moderada do governo mais extremista e ultradireita da curta história de Israel, perdeu a compostura e rotulou toda a população de mais de 2 milhões da Faixa de Gaza como terrorista, dando ao Hamas uma dimensão que ele não tem: “É uma nação inteira lá fora que é responsável. Não é verdade essa retórica de que os civis de Gaza não sabiam, não se envolveram. Absolutamente, não é verdade. Eles poderiam ter se levantado, poderiam ter lutado contra aquele regime maligno que assumiu o controle da Gaza”, protestou Herzog.
O desatino que afundou a cúpula governante de Israel na ideia de “punição coletiva, sem exceções” foi resumido, sem dó, por um dos militares mais influentes do país. Giora Eiland, 71 anos, hoje na reserva, é um paraquedista que chegou ao posto de general-brigadeiro e foi chefe em 2004, no governo linha dura de Ariel Sharon, do Conselho de Segurança Nacional. “Israel deve criar um desastre humanitário sem precedentes em Gaza. Somente a mobilização de dezenas de milhares e o clamor da comunidade internacional criarão a alavanca para que Gaza fique sem o Hamas ou sem pessoas. Estamos em uma guerra existencial”. A elite governante de Israel assumiu, em poucas horas, o discurso do extermínio do povo palestino. O Fake Repórter, um equilibrado grupo israelense que monitora a desinformação e o ódio, anotou apenas 16 apelos para que Gaza fosse “achatada”, “apagada” ou “destruída” nos 45 dias anteriores a 7 de outubro. Depois do ataque terrorista do Hamas, o sentimento de fúria varreu o país. Em poucas horas, o Twitter (atual X) foi invadido 18 mil vezes por expressões genocidas pedindo o apagamento, a destruição, o achatamento de Gaza e seu povo.
Consumado o ataque de 7 de outubro, as duas nações militarmente mais poderosas do Ocidente, Estados Unidos e Reino Unido, se apressaram em dar um “apoio incondicional”, sem meios-tons e sem ressalvas, a qualquer reação de Israel. O presidente Joe Biden e o premiê Rishi Sunak fizeram questão de ir pessoalmente a Tel Aviv para justificar uma irrestrita licença para matar – ao melhor estilo 007 de James Bond – aos militares de Netanyahu: “Israel tem o direito de se defender”, repetiram o americano e o britânico, sem esclarecer se isso incluiria o direito israelense de chacinar populações civis, mulheres e crianças e bombardear hospitais, escolas, ambulâncias e mesquitas.
Resultado sangrento dessa barbaridade retórica de Washington e Londres: em quase quatro meses, até 16 de fevereiro (dia 133 do conflito), Israel usou e abusou de seu matador “direito de defesa” para liquidar 27.238 mil palestinos, incluindo 11.500 crianças e bebês e 8 mil mulheres – um total cerca de 24 vezes maior do que os israelenses mortos. E 66.452 mil palestinos foram feridos, incluindo mais de 8,6 mil crianças e 6,3 mil mulheres – sete vezes mais do que no lado israelense (8.730 feridos). A lista inicial de 1.405 vítimas judias foi revisada para baixo, para 1.139 mortos, por dados consolidados do governo de Gaza, do Exército de Israel, do Crescente Vermelho, do Ministério da Saúde da Cisjordânia e da rede Al Jazeera. O porta-voz da chancelaria de Israel, Lior Haiat, reconheceu em 10 de novembro que o número caiu porque muitos corpos, não identificados, foram incluídos erradamente na contagem de israelenses mortos, mas descobriram depois que eram de “terroristas”.
A curva desproporcional da violência que mata muito mais palestinos fica evidente num quadro montado pelo jornal O Globo para o período de 55 dias entre 7 de outubro, data do ataque, e 1º de novembro. A contagem começa com uma disparidade entre mortos árabes (426) e judeus (677), equilibra rapidamente quatro dias depois (1.126 palestinos e 1.200 israelenses), vira dois dias mais tarde (1.943 árabes mortos contra 1.300), e dispara numa curva ascendente até o primeiro dia de outubro (8.796 contra 1.402, na lista depois rebaixada para 1.200). O detalhe intrigante é que o total de mortos de Israel estabiliza seis dias após o ataque e mantém a regularidade daí em diante, enquanto as vítimas palestinas disparam geometricamente, dia a dia.
A estatística do matadouro produzido por Israel em Gaza se renova e aumenta a cada hora assombrada por 200 ataques aéreos, como na madrugada de segunda-feira, 4 de dezembro. Nos primeiros seis dias de guerra, de acordo com o Exército israelense, foram jogadas em Gaza 42 bombas a cada 60 minutos. Segundo o escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (UNOCHA, na sigla em inglês), esse descomunal poder de fogo mata, por hora, 15 pessoas (seis delas crianças), fere outros 35 indivíduos e destrói 12 prédios. Já Agência para Refugiados Palestinos das Nações Unidas (UNRWA, na sigla em inglês), informou em 6 de novembro que um mês de guerra registrava, a cada 10 minutos, a morte de uma criança e ferimentos em outras duas. No início de dezembro, fontes da ONU calculavam mais de 360 mil residências (60% das moradias de Gaza) destruídas ou danificadas pelas dezenas de bombardeios aéreos diários, que atingiram 386 escolas, 122 ambulâncias, 56 mesquitas destruídas e outras 136 danificadas (matando 53 imãs e pregadores), deixando fora de ação 26 dos 35 hospitais de Gaza. Onze padarias foram demolidas, agravando o drama da fome numa população já privada de luz, de água e de combustível.
Luiz Cláudio Cunha (íntegra do artigo pode ser lida aqui)
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