quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024
A delícia de ser roubado
Depois de mais um suplício num restaurante caríssimo, a sondar a ementa com um detector de metais, a ver se localizo um tesouro que não se consiga estragar, fitei os olhos do empregado a quem me estava a queixar e vi a resposta: é impossível respeitar quem paga tanto para comer mal.
Respeitam-nos mais nos restaurantes baratos, onde a única coisa difícil de encontrar é a margem de lucro.
Estamos ali para comer bem e o facto de pagarmos pouco por esse serviço não é chamado para o caso. Pelo contrário, amigo: já que só tenho isto para gastar no almoço, ao menos que almoce bem, porra!
Outro nome que dão a esse entusiasmo é “fome” e também a fome dá vontade de comer. Vê-se um pobre a comer e fica-se com a ideia de que estamos na presença da última refeição do século XXI. E lá se vai a dieta.
Vai-se a restaurantes caríssimos por todas as razões excepto comer bem. Uma delas é fingir que não se liga nada à comida: não somos nenhuns animais.
Ser-se desprezado pelos empregados faz parte do prazer. Demonstra fidalguia ser-se odiado por quem nos serve o jantar. É normal que a faca de trinchar o assado faça lembrar a guilhotina. Não há nada a fazer senão ter pena dos pobres desgraçados que nasceram para ser servos da gleba.
Se passarmos a vida a comer comida feita por quem nos odeia, tudo o que for feito com mera indiferença sabe-nos como maná. Querer comer bem num restaurante caríssimo é como ir ver um filme de Dreyer à espera de rir. A comida é apenas um pretexto para pagar uma fortuna, na companhia de outros afortunados.
Mais vale ir almoçado.
Instituições funcionam como uma fossa entupida
Além de defeitos de base, por beneficiar quem tem mais poder ou sustentar hierarquias nefastas, o funcionamento das instituições se tornou ainda pior desde 2013, lama da qual não saímos.
Basta dar uma olhada no noticiário para notar várias instituições funcionando como uma fossa séptica entupida.
A Polícia Federal deu uma batida na casa e em escritórios do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) e de agentes da PF, suspeitos de montarem um centro de espionagem na Abin, a serviço dos Bolsonaro.
Por causa disso e algo mais, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, maior partido da Câmara, chamou o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), de "frouxo".
Costa Neto, velho corrupto, ora bolsonarista, reclama que Pacheco não defende parlamentares de avanços do Supremo, queixa que é um ponto programático do parlamento negocista desde a Lava Jato, um dos motivos do levante contra Dilma Rousseff e mote de projetos de manietar o Judiciário.
A queixinha pega bem no Congresso também porque, de fato, o Supremo faz década e meia mete os pés pelas mãos, em patadas da esquerda à direita; politizou-se por iniciativa própria e com a ajuda de presidentes da República —há bancadas políticas no STF.
É um mafuá institucional.
Reportagens desta Folha têm mostrado como a cúpula militar e a do sistema de Justiça (Judiciário e Ministério Público) abocanham fatia desproporcional e despropositada dos fundos públicos por meio de salários, aposentadorias e pensões exorbitantes e gordos de penduricalhos.
Pacheco, aliás, quer inflar ainda mais os dinheiros do pessoal do sistema de Justiça.
Aqui, uma instituição informal está funcionando. Até onde a vista alcança, desde quando começou a se formar uma burocracia estatal profissional, nos anos 1930 e 1940, as classes médias altas ou altas dão um jeito de legitimar a extração de renda do Estado com a conversa de que precisam de compensação legítima pelos serviços prestados à ordem ou ao progresso nacional.
Precisam, sim, mas a conta foi muito além da que pode pagar este país pobre. Essa instituição informal perverte a instituição do serviço público, que precisa de reforma.
Por falar em rendas estatais, considerem-se as políticas industriais, ditas desenvolvimentistas. A maior parte da esquerda brasileira é engraçada. Faz 70 anos e lá vai fumaça, se dedica a promover a "burguesia nacional" ou apelidos sucedâneos mais modernos.
Muita fortuna foi engordada dos anos 1950 aos 1990 com proteção tarifária, juros de pai para filho, subsídios diretos ou taxas de câmbio amigas, tudo em nome do "desenvolvimento nacional". É um tanto menos agora, mas ainda é. Nunca privatizaram os sócios da Fiesp.
Essa esquerda mal fala de creche e escola para criança pobre, de SUS ou de contribuições da universidade para fomentar a pesquisa para o "desenvolvimento nacional", universidade bancada com dinheiro público e autônoma além da conta.
Logo depois de aparecer a nova política industrial, que até dá para discutir, o governo diz que quer ajudar a indústria naval e criar um fundo de socorro para companhias aéreas falidas.
Com base em quê? Em qual estudo? Qual instituição relativamente autônoma vai controlar o custo, a eficácia e os beneficiários da nova política de desenvolvimento, para não falar da inauguração desse novo hospital de empresas? Não existe uma instituição específica para colocar um cabresto nos favores para empresas e cobrar resultados.
O mau funcionamento do país é institucionalizado.
Há Homens e homens
Há outros que lutam um ano e são melhores.
Há os que lutam muitos anos e são muito bons.
Porém, há os que lutam toda a vida.
Esses são os imprescindíveis.
Bertolt Brecht
A voz da pós-informação
No século 17, o moralista francês La Bruyère descomplicava a questão: "O contrário das notícias que correm costuma ser a verdade" ("le contraire des bruits qui courent, c´est souvent la vérité"). Tempo depois, a lógica pediu a palavra. O inglês Conan Doyle pôs na boca de seu Sherlock Holmes que "quando se elimina o impossível, o que fica, por mais improvável, é a verdade."
Com La Bruyère, notícia era ruído, longe da verossimilhança que a imprensa moderna elevaria a regra profissional. Factoide e boato foram logicamente descartáveis, mas sem abominação moral. A famosa e falsa narrativa radiofônica de invasão alienígena, eticamente condenável, não impediu Orson Welles de despontar para a glória.
A questão atual, complexa como digerir um elefante, não se resolve por fact-checking, um mata-formigas. Falsificam-se as próprias checagens. Problema mesmo é a naturalização do fluxo artificial, em que mentiras e deep-fake são linguagem de outra realidade, superposta ao real-histórico. Na rede, a substância do que se diz não pertence à consciência psicológica, mas à potência lógica da máquina, que a ultrapassa. Verdade é de menos, basta a aderência tátil do sujeito.
O que vigora na empiria científica, assim como no senso comum ilustrado, é a verdade positivista dos fatos. De certo modo, entretanto, a rede refaz o mundinho de La Bruyère, onde bastaria colocar-se a contrário dos rumores para encontrar um evento moralmente plausível.
Hoje, é insuportável a desigual realidade externa, da qual se tenta fugir. Os fatos exaurem a consciência comum, fazendo da mentira droga de escape. Verdade é fumaça offline, cara ao espírito liberal, mas reclame hipócrita na politicagem eleitoral.
Desinformação não é mais palavra-chave: o tempo é de pós-informação, o mais puro e obsceno controle social. Não há limites para a inteligência artificial generativa. Já é banal desconstruir a coerência factual pela fragmentação dos acontecimentos, redefinindo notícia como uma fogueira emocional que cada adicto está livre para alimentar na mídia social com seu pedaço de lenha moral.
Saber que informação online é o caos do sentido ao menos relativiza o falatório, em favor de contramedidas cívicas. Na real, Moraes cobra a regulamentação das redes, Lula derruba as grades da praça.
O preço do desenvolvimento predatório na Amazônia
Esperada com entusiasmo pelo agronegócio, a Ferrogrão é um exemplo clássico dos projetos de infraestrutura que geram danos ambientais e violações de direitos. A ferrovia, que promete impulsionar o escoamento de grãos com um corredor de 933 quilômetros entre Sinop, no Mato Grosso, e Miritituba, no Pará, impactará 48 áreas protegidas, entre terras indígenas e unidades de conservação, e pode levar o Brasil a renunciar à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual é signatário.
O padre e ativista José Boeing, membro do Núcleo de Direitos Humanos e Incidência da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), chama atenção para o modelo de desenvolvimento adotado na região, que desconsidera a natureza e a cultura dos povos da Amazônia. “Essa ferrovia vai formar um corredor de exportação que só trará benefícios para o agronegócio. E o agronegócio não é sustentável”, afirma.
Estão previstos para a região inúmeros projetos minero-metalúrgicos, petroquímicos, hidrelétricos, hidrovias e ferrovias que não priorizam o respeito ao meio ambiente e aos povos e comunidades tradicionais. Essa é disputa entre dois modelos de desenvolvimento: o predatório e o socioambiental, segundo o bispo de Roraima e presidente da Repam, Dom Evaristo Pascoal Splengler. O primeiro, das grandes corporações e do poder financeiro, busca o lucro por meio da exploração exaustiva dos recursos da região. O segundo, considera a convivência harmoniosa com a floresta e os povos originários.
Para padre Dário Bossi, missionário e assessor da Rede Igreja e Mineração, a Amazônia sempre foi considerada como uma terra a ser conquistada e ocupada. “Amazônia foi pensada de fora para dentro, com grandes projetos considerados desenvolvimento, caracterizados pelo viés do extrativismo predatório: retirar matérias prima como látex, madeira, ouro, outros minérios, petróleo, gás, água, os quais necessitam de grandes infraestruturas para o escoamento dos produtos e de mão de obra barata”.
O missionário alerta que as obras de infraestrutura na Amazônia são criadas para atender demandas e produzir riqueza para fora da região, enquanto resta para os povos amazônicos os prejuízos sociais, ambientais e econômicos. “Infelizmente é uma Amazônia pensada de fora para dentro, onde os territórios sagrados, os bens comuns da natureza, a fauna e a flora e a manutenção da vida dos povos da floresta estão em constante ameaça por conta da expansão desses grandes projetos econômicos”, conclui.
O último relatório da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada, divulgado em 2019, apontou que 68% das terras indígenas e áreas naturais protegidas estão sob pressão de estradas, mineração, barragens, perfuração de petróleo, incêndios e desmatamento.
O levantamento citado mostrou que, dos 6.345 territórios indígenas localizados nos nove países amazônicos pesquisados (Brasil, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), 2.042 (32%) estão ameaçados ou pressionados por dois tipos de projetos de infraestrutura, enquanto 2.548 (41%) estão ameaçados ou pressionados por pelo menos um. Apenas 8% não estão em situação de ameaça ou pressão.
O procurador regional da República e assessor da Repam, Felício Pontes, afirma que o primeiro problema desses grandes projetos é que eles não levam em consideração os grupos e comunidades impactadas, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que determina a realização da consulta prévia, livre e informada aos povos atingidos. “Se a consulta fosse realizada, problemas já seriam equacionados antes do início das obras, porque já sabíamos pelas pessoas que moram lá algumas consequências desses projetos que não são normalmente mencionados no Estudo de Impacto Ambiental”, destaca.
“Os projetos afetam como um todo a região, em alguns lugares, por exemplo, no caso de Belo Monte, já estamos vivenciando o ecocídio da volta grande do Xingu. A hidrelétrica mata o próprio ecossistema com a possibilidade de extinção de espécies de peixes e isso traz uma consequência terrível para essas comunidades”, conta o procurador.
Ele cita outros projetos que afetam a região, como é o caso das rodovias, que impactam no desmatamento na Amazônia e no próprio clima do planeta. “Nós já sabemos e é cientificamente comprovado que as estradas são os maiores vetores de desmatamento na Amazônia e isso atinge também aqueles que dependem da floresta para sobreviver”, afirma.
O rastro de destruição começa antes mesmo das obras, pois essas iniciativas costumam valorizar as terras e chamar atenção da especulação imobiliária. “Quando esses projetos são realizados existe uma especulação imobiliária, uma migração que em alguns lugares em até dois anos, a população local dobra. Então você imagina numa cidade em que não existe infraestrutura suficiente para dar conta da população existente no local, em termos de saúde e educação, e essa cidade vê a sua população dobrando rapidamente”, explica Felício.
À medida que se intensificam as pressões na Amazônia, fica claro o preço que se paga pelo “desenvolvimento”, pois a lógica desses grandes projetos leva a impactos ambientais irreversíveis, apresentando grandes mudanças socioambientais, o que inclui o aumento da pobreza, o deslocamento forçado de famílias, a violência e o surto de doenças.
A solução está na promoção das práticas sustentáveis, na fiscalização e aplicação das leis ambientais e no apoio de alternativas econômicas que valorizem a proteção da biodiversidade e dos ecossistemas. A adoção de medidas eficazes, a conscientização global e o compromisso com a sustentabilidade são fundamentais para assegurar que a Amazônia continue desempenhando seu papel vital na manutenção do equilíbrio ambiental.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024
A forretice dos ricos
Este era particularmente forreta. É verdade que me ofereceu um livro, mas era um livro escrito por ele e, mal mo passou para as mãos, pôs-se a discursar sobre quanto custaria num alfarrabista, por estar esgotado e cheio de reproduções caríssimas.
Eis o que apanhei da conversa: sim, os ricos são forretas. Mas isso de ser forreta é coisa de pobre — segundo os ricos.
Um forreta, para um rico, é o que o pobre chama ao rico que não estoura o dinheiro todo. Os ricos são forretas porque têm medo de ficar pobres. Ficar pobre, para um rico, é ficar como nós: obcecados com o dinheiro.
Os ricos contam os cêntimos porque nós não contamos. Nós, para compensar o não sermos ricos, gastamos o dinheiro todo até acabar, e depois ficamos à espera de que venha mais no fim do mês.
Os ricos têm horror a ficar assim, sem dinheiro. E, por isso, são forretas. São mais forretas ainda porque têm muito dinheiro. Têm mais a perder. A angústia é redobrada. Ter muito é ter muito medo de deixar de ter muito. “Mas ainda ficas com muito!”, dizem os pobres, a tentar convencê-los a comer uma lagosta em vez de uma navalheira.
“Sim”, respondem os ricos, “mas já não fico com tanto.”
Nós sabemos que o mundo não acaba quando não temos dinheiro: é apenas interrompido. Mas os ricos têm medo de não conseguir sobreviver. Têm medo de estar completamente dependentes do dinheiro. Podem até odiar o dinheiro. Mas não passam sem ele. Não são como os pobres. São ricos.
Os ricos horrorizam-se com os esquemas que os pobres arranjam para lhes sacar o dinheiro: investe aqui, empresta-me dali, filantropiza-me aquilo.
Nós não descansamos enquanto não forem pobres como nós — até para podermos ser amigos deles a sério. Os ricos pensam que só gostamos deles por causa do dinheiro. E, como querem que gostemos deles, agarram-se ao dinheiro.
Será antissemitismo denunciar coisas como essas?
Quando questionado sobre a nova prática, um comandante do exército disse ao Haaretz que as estruturas são selecionadas para serem queimadas com base em informações. Ao ser questionado sobre um prédio que foi incendiado não muito longe de onde ocorreu a entrevista, o comandante disse:
“Deve ter havido informações sobre o proprietário, ou talvez tenha sido encontrado alguma coisa lá. Não sei exatamente por que aquela casa foi incendiada”.
A emissora de televisão Al-Jazeera noticiou a descoberta, no Norte da Faixa de Gaza, de cerca de 30 corpos que estavam enterrados sob um monte de escombros num pátio de uma escola em Beit Lahia.
Os corpos, em decomposição, tinham “fitas de plástico nas mãos e pernas e panos à volta dos olhos e cabeças”. Não se sabe ainda de quem são, mas a descoberta levanta suspeitas de que possam ter sido mortos depois de detidos.
Em dezembro último, imagens de uma série de detidos na Faixa de Gaza a serem levados sem roupa, algemados e de olhos vendados – o que fora apresentado como uma “rendição em massa” do Hamas – provocaram fortes críticas a Israel, que mais tarde admitiu que apenas 10% a 15% daqueles detidos eram de fato membros do Hamas.
A acusação em relação aos 30 cadáveres surge um dia depois de uma operação de um grupo de militares israelenses num hospital de Jenin. Vestindo batas de pessoal de saúde e outros vestidos de mulher com lenço a cobrir a cabeça, em cerca de dez minutos, o grupo entrou num quarto e matou três palestinos usando armas com silenciador. Israel diz que os mortos faziam parte de uma célula do Hamas. O porta-voz do hospital Ibn Sina, onde ocorreu o ataque, disse que não houve trocas de tiros depois da entrada dos militares disfarçados.
“O que aconteceu é um precedente”, declarou. “Nunca houve um assassinato dentro de um hospital. Houve detenções e ataques, mas não um assassinato.” Israel diz que matou o líder de uma célula terrorista, Muhammad Jalamneh, que era também porta-voz do Hamas no campo de refugiados de Jenin.“Executaram os três homens enquanto eles dormiam no quarto”, descreveu à agência Reuters o diretor do hospital, Naji Nazzal. “Executaram-nos a sangue frio, disparando balas diretamente nas suas cabeças, no quarto onde estavam a ser tratados”.
Dezesseis países, incluindo EUA, Reino Unido, Alemanha e França, anunciaram a suspensão de financiamento da agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA) depois de Israel ter denunciado que funcionários da agência teriam ajudado o Hamas a preparar e a cometer o ataque de 7 de Outubro. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que nove funcionários foram imediatamente identificados e despedidos”.
Em Gaza, 500 mil pessoas passam fome, e morreram, desde o início de outubro, cerca de 24 mil palestinos, metade dos quais crianças.
O todo pela pior parte
Por trás desse pressuposto amplamente difundido, há uma redução do todo à pior parte. O desacordo — e mesmo o desgosto — de progressistas pelos conservadores faz com que procurem seus piores elementos e os tratem como se fossem casos típicos, casos exemplares. Dessa maneira, distorcem e caricaturam o conservadorismo, tratando-o como meio essencialmente machista, obscurantista, antidemocrático e violento. A realidade, porém, é mais complicada.
Os conservadores valorizam a família, querem uma abordagem mais dura contra a criminalidade e são desconfiados de mudanças muito aceleradas nos costumes. Porém, como mostram as pesquisas, a grande maioria é contra a violência doméstica, é contra a perseguição e a discriminação de homossexuais, defende o respeito às escolhas das mulheres e a igualdade salarial entre os sexos.
O reducionismo e a distorção progressista destacam e amplificam no conservadorismo apenas o ridículo, o grotesco e o caricato, seja para atacar o adversário, seja para reafirmar o sentimento de pertencer ao lado “certo”, o lado “anti-eles”. Na imaginação progressista, o comportamento conservador típico não é aquele das igrejas que combatem a violência doméstica, a discriminação e promovem o respeito entre marido e mulher, mas o dos pequenos nichos de coaches de conquista, das tradwives que defendem a submissão aos maridos e dos ultratradicionalistas de toda sorte.
É verdade que esses elementos caricatos, violentos, reacionários e antidemocráticos existem e se abrigam no campo político conservador. Os progressistas podem perguntar por que então são tolerados ali. A resposta pode ser encontrada devolvendo a pergunta aos progressistas e pedindo que façam, eles também, um esforço de autoexame.
Por que nós, progressistas, toleramos em nosso meio apoiadores de ditaduras como Cuba, Nicarágua ou Venezuela? Por que toleramos em nosso meio feministas que dizem que toda relação heterossexual é um estupro? A resposta honesta é que toleramos essas posições nos meios progressistas porque partilhamos com elas alguns pressupostos e valores sobre como a sociedade deveria se organizar. Isso vale também para os conservadores.
O drama de nossa época politicamente polarizada é que essa caricatura que fazemos do adversário termina, no longo prazo, por moldá-lo. Ao reduzirmos o campo adversário a seus piores elementos, sinalizamos que são esses elementos os que mais nos incomodam. No outro lado, o ódio do adversário aparecerá como prestígio. Os grupos odiados pela esquerda se apresentarão na direita como os que mais incomodam, os que são verdadeiramente “anti-eles”. Pouco a pouco, vamos nos transformando na caricatura que o adversário faz de nós. Vamos nos tornando, nos dois lados, monstros.
A saída, um pouco contraintuitiva, é tentar escapar do jogo da polarização e se concentrar em cuidar da própria casa. Nossa principal responsabilidade é evitar que os piores elementos do nosso campo se desenvolvam e prosperem, com o empurrãozinho que recebem do adversário. Em resumo, precisamos de menos polarização e mais autocrítica.
De sapiens a humildes aprendizes
Certa espécie de mamífero se disse e acreditou ser sapiens! Colocou-se, arrogante, acima das demais, cuja extinção em massa tem provocado. No processo, destrói também suas próprias condições de vida!!
O suposto sapiens não aprende! Continua a fazer as mesmas coisas que causam tal destruição, uma forma de genocídio!!! E o faz por quê? Para quê? Se sobressair? O faz sem saber ou recusando-se a saber? Ciente, mas enganando-se? Constrangido a optar por ignorar a realidade? A história oficial diz que é para melhorar a qualidade de vida, mas mantém 70% da sua espécie em abjeta pobreza!
Extinguir ou tentar extinguir povos é crime; exterminar espécies também deveria ser, com agravante! Afinal, em cada espécie há muitos povos.
Mais que sapiens, é necessário que nós os membros dessa espécie nos tornemos “humildes aprendizes”! De Homo Sapiens a Homo Humilis Discipulus! Deixar a arrogância de lado e passar a aprender com as iterações dos diversos elementos da biosfera, de forma a nos tornarmos resilientes como ela é! Ou era, pois as ações daqueles “sábios” estão a detonar as bases da vida!
Parece, dizem os cientistas, que ainda há tempo para evitar o pior, mas é urgente abandonar o mito de sapiens e reconhecermo-nos como aprendizes, com humildade e vontade de aprender! Nas demais espécies, ninguém come além das suas necessidades, tornando-se obesos e de saúde frágil, exceto aqueles indivíduos que viraram animas domésticos dos “sábios”. Raríssimas guerreiam entre si, como fazem os ditos sábios!
É fundamental mudar as cabeças e os estilos de vida não apenas dos nossos dirigentes, mas de muito mais gente, se quisermos que nossos filhos possam evitar viver sob constantes e cada vez mais graves desastres que já não são mais “naturais”. Também não será agradável ver nossos descendentes presos em guetos, mesmo que luxuosos, como fazem hoje muitos europeus e norte americanos, buscando segurança (armada) contra os “outros da mesma espécie” que fogem da vida que sofrem!
Sim, enquanto nos acreditarmos sapiens, acima de todas as demais criaturas, continuaremos a maltratar todas elas, assim como convivemos com a maioria da nossa espécie sendo maltratada em razão das carências que caracterizam suas vidas! Se nos convencermos de que essa coisa de sapiens é uma fake news, que somos na realidade aprendizes que sequer sabemos conservar a nossa única casa, teremos chances de, humildemente, reconhecer o estrago que fizemos na nossa espécie e nos meios necessários para sobrevivermos. E agir para reparar tais
danos!
sábado, 3 de fevereiro de 2024
Por que dão a Bolsonaro uma importância que ele já não tem?
Antes também quando em pelo menos duas ocasiões planejou dar um golpe e não conseguiu, tentou comprar a reeleição gastando além do que tinha e não conseguiu, e por fim fugiu do país.
De longe, assistiu a uma tentativa amadora dos seus devotos de apear Lula do poder mal ele assumiu a presidência, e de perto, amargou a decisão da justiça que o tornou inelegível por oito anos.
Se não bastasse, está no centro do recém-descoberto escândalo de espionagem praticada pela Agência Brasileira de Inteligência (ou de Intimidação) à época em que (des)governava o país.
Ou a Abin, órgão de assessoramento do presidente da República, sob comando do seu cão de guarda, o delegado Alexandre Ramagem, seria capaz de espionar milhares de pessoas sem que Bolsonaro soubesse?
Bolsonaro confessou o crime antes de o crime começar a ser executado. Era preciso dispor de um sistema para evitar que ele, sua família e seus amigos se “fodessem”, foi o que disse e está gravado.
O sistema foi posto em ação, e sabe-se agora que bisbilhotou a vida de adversários do governo, de supostos adversários, e até de aliados que causaram ou poderiam causar incômodos a Bolsonaro.
O “Metrópoles” já revelou alguns nomes. O jornal da BAND, ontem à noite, revelou outros – entre eles, três ex-ministros de Bolsonaro, a saber:
* Abraham Weintraub, da Educação;
* Anderson Torres, da Justiça;
* e Flávia Arruda, da Secretaria de Governo.
O antecessor de Flávia também foi espionado, assim como o general e ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência, Carlos Alberto dos Santos Cruz, amigo há décadas de Bolsonaro.
Santos Cruz foi um dos primeiros-ministros de Bolsonaro a ser demitido por ele. O primeiro foi Gustavo Bebianno, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência.
A Bebianno, Carlos Bolsonaro, chefe do gabinete do ódio no Palácio do Planalto, contou que pretendia criar uma Abin paralela. Por exigência de Carlos, Bebianno e Santos Cruz acabaram desempregados.
Deputados federais que passaram a divergir do governo não escaparam à vigilância da Abin: Kim Kataguiri, Alexandre Frota e Joice Cristina Hasselmann; essa, sequer se reelegeu.
Entre os senadores, há nomes de todos os partidos: Otto Alencar, Rogério Carvalho, Omar Aziz, Humberto Costa, Alessandro Vieira, Renan Calheiros, Simone Tebet e Soraya Thronicke.
Ramagem piscou primeiro. Depois de negar que a Abin tenha espionado quem quer que seja, admitiu em entrevista ao “Metrópoles” que ocorreram por lá “atividades ilícitas”.
Para desviar a atenção de si e de Bolsonaro, Ramagem levantou suspeitas sobre a atuação de Paulo Maurício Fortunato, diretor de Operações da Abin ao longo de sua gestão:
“Foi na casa [de Fortunato] que foram encontrados 170 mil dólares, quase R$ 1 milhão. Fui eu que fiz toda a apuração que gerou a exoneração dele. Por que eu agora estou sendo investigado? É perseguição.”
A Polícia Federal já tem fortes indícios de que Bolsonaro seria um dos destinatários das informações do esquema de espionagem da Abin. Os relatórios da agência eram impressos e entregues a ele.
Dê-se, Bolsonaro, por satisfeito se emplacar o vice de Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo e candidato à reeleição. Mas até isso está difícil. A proximidade com Bolsonaro aumentaria a rejeição de Nunes.
Esse eu conheço!
É um “conhecer cultural” inscrito no nosso inconsciente. Na escondida hierarquia das nossas relações sociais, e no modo como as vivenciamos.
Todos conhecem X, mas nem todos podem dizer com orgulho, revelação ou desprezo: “Esse eu conheço!” — o que equivale a revelar um elo pessoal. Um laço instaurador de um conhecimento íntimo, cotidiano e familiar. Tudo o que socialmente faz diferença, porque afasta o demônio do informal e do impessoal que não sabe quem somos.
Realmente, nossa aversão à impessoalidade chega às raias da repulsa. De tal modo que a regra universal é tida como desgraça ou castigo, jamais como regulador informal de um hábito ou costume.
Como o tal sinal vermelho que fechou justamente “contra” mim! Ouvi esse absurdo numa pesquisa sobre o trânsito, uma esfera social que — como a economia ou o Direito — opera por meio de normas gerais que valem para todos, inclusive para quem tem carro importado ou “se acha” melhor, mais rico, mais importante e, por nobreza autoatribuída, é dispensado de seguir os hábitos “deprimentes” como entrar numa fila (veja-se o livro “Fila e democracia”, Editora Rocco, escrito com Alberto Junqueira).
O vandalismo pode ser visto como um clone perverso dos privilégios abusivos das elites que — para começo de conversa — imaginam não cometer crimes e, se criticadas, sentem-se vítimas de mentiras, tramoias, má-fé e, como bem definiu nosso primeiro mandatário, “mancomunações”.
Aliás, um lado meu quase diz “macumbas”, reveladoras dessa naturalidade de seguir certos costumes, mas achar absurdo cumprir leis que são formalidades reguladoras de costumes, como as normas do trânsito ou as regras de comensalidade ou de controle financeiro. Como não arrotar, roubar o Erário ou, exceto no carnaval, mijar na rua.
Leis e costumes devem ser coerentes, mas temos leis que inutilmente proíbem o avunculato — numa demonstração notória do “esse eu conheço” — e, assim sendo, trago-o de volta, apesar de sua desonestidade ou incompetência.
Eis um conhecer que desmonta qualquer sistema fundado na norma do prêmio ao mais competente e de justiça ao criminoso. Pois a competência — essa inimiga da incapacidade de sanar a pátria desenhada para ser roubada — exclui os que Nélson Rodrigues chamava de “bestas quadradas”, e eu tenho testemunhado como “burros doutores”...
Mas o pior é que todos são “conhecidos” daquele “eu” que é o dono dos donos do poder. Do mandão geral que não erra e de quem todos puxam o saco, naquele cordão que jamais termina, como diz a marchinha de 1945, criada por Roberto Martins e Eratóstenes Frazão. Marchinha definitiva como teoria da esfera política brasileira. Um “marchar” revelador de como o “cordão” ou partido dos puxa-sacos (apadrinhados, compadres, companheiros etc.) dão vivas a seus maiorais e, no outro verso, crava a vergonhosa verdade que estão nos impingindo: a interminável repetição como apagamento da História: Quem está na frente é passado pra trás, e o cordão [seria melhor dizer partidos] dos puxa-sacos [dos esses eu conheço!] cada vez aumenta mais.
Como eu disse — puxa vida — há 45 anos, em “Carnavais, malandros e heróis”, Editora Rocco, o carnaval ritualiza nossas verdades verdadeiras. Pois em sua forma, ritmo e discurso, em sua aliança entre o legal e o impessoal, no consentimento festivo da competição que todos entendem, ele aponta como não conseguimos escapar das repetições que uma estúpida polarização formaliza. E, de quebra e lambuja, desmascara quem são as eminências e excelências que — à direita e à esquerda, em cima e embaixo — reinam entre nós.
Nosso dever
Doris Lessing, "The golden notebook"
Prefiro não saber
As confissões, por muito chorosas, já não convencem ninguém. Os pedidos de desculpa muito menos — então quando cheiram a dedos de advogado… Querem mais. Mais lágrimas.
Já ninguém acredita que houve um tempo em que isto de querer sempre saber tudo era visto como uma obsessão mesquinha, uma curiosidade insana, um caminho certo para a infelicidade.
Lembro-me do meu pai a ler, e a levantar os olhos do livro para registar a realidade da minha interrupção. Num olho meio-amarelo, meio-castanho, estava a consciência do dever de um pai para com um filho. No outro, meio-castanho, meio verde-azeitona, estava a revolta: “Deixa cá ver o que este quer…”
Mal eu me tinha lançado a fazer a minha confissão, aproveitando a frescura do ensaio que um minuto antes tinha feito à frente do espelho da casa de banho, ele dizia estas três palavras, enquanto a cabeça baixava outra vez para o livro: “Prefiro não saber.”
Se eu protestasse, ele apaziguava-me: “Deixa estar, Miguel, eu também já fui novo. Tenho a certeza que aquilo que tens para me dizer é muito importante, mas acredita que assim é melhor para todos, está bem?” E depois lá vinham as três palavras, já com um pingo de nitroglicerina: “Prefiro não saber.”
Hoje dou-lhe razão. Guardemos a nossa curiosidade para as coisas que, uma vez sabidas, nos trazem riso e excitação. Guardemos a nossa curiosidade para as coisas e para as pessoas que se deixam descobrir, sem resistência ou esperteza, ou estratégia, ou manipulação.
Numa vida, só temos tempo para saber tão poucas coisas, porque é que havemos de arranjar espaço para os pormenores que nunca mais acabam, das confissões que outros nos fazem?
Dizem-nos que é por termos direito a saber, mas é mais pelo direito que eles acham que têm, de desabafar. Eles ficam aliviados. Nós ficamos pressionados a reagir. Quem é que ficou a perder? Quem é que ficou a ganhar?
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024
Na mira do araponga
Em algum momento de 2020 ou 21, alguém me soprou: "Fique esperto. Ouvi dizer que estão de olho em você. Tem gente do governo levantando os podres de cada desafeto do Bolsonaro e reunindo num dossiê para ser usado um dia." Não me surpreendi. Eu desconfiava que o então presidente não era grande fã das minhas colunas na Folha, porque, desde o começo de seu mandato, eu apontava para a inevitabilidade do golpe com que ele esperava se perpetuar no poder.
Hoje, com a investigação em curso sobre o uso por Bolsonaro da Abin (Agência Brasileira de Informação) para bisbilhotar os passos de ex-aliados, juízes, advogados, políticos e jornalistas, vejo que a dica fazia sentido. E começo a me dar conta das vezes em que tive a sensação de estar sendo observado e de algo que parecia diferente do que deveria ser.
Por não usar celular, eu estaria fora do alcance do FirstMile, o software de monitoramento que eles acionaram para saber quem estava com quem e onde, e, daí, tirar ilações. Mas os telefones fixos, como o meu, também podem ser arapongados e, em várias ligações, pude ouvir baixinho, sob a voz do interlocutor, "A tonga da mironga do kabuletê", velho sucesso de Toquinho e Vinicius. Era para abafar o ruído do gravador.
Vejo agora também que fui seguido pelo clássico sujeito encostado no poste e fingindo ler jornal à espera de que eu saísse. Lembro-me de que passei por ele e não lhe dei importância. Pois devia ter dado, porque o jornal atrás do qual se escondia era o Correio Braziliense. Ora, como moro no Rio, o normal seria que o jornal fosse a Folha ou O Globo. Significava que ele viera de Brasília para a tarefa e já trouxera de lá o material de trabalho.
Se fizeram meu dossiê, ignoro. Mas o dossiê sobre a arapongagem da quadrilha Bolsonaro a partir desta investigação, assim que publicado, exigirá um lindo segundo volume - para a sentença judicial.
Sem valor
Feridas, famintas e sozinhas – as crianças de Gaza órfãs pela guerra
“Nós apenas a chamamos de filha de Hanna Abu Amsha”, diz a enfermeira Warda al-Awawda, que cuida do pequeno recém-nascido no Hospital al-Aqsa em Deir al-Balah, no centro de Gaza.
No caos causado pelos combates em curso e com famílias inteiras quase exterminadas, os médicos e as equipes de resgate muitas vezes lutam para encontrar cuidadores para as crianças enlutadas.
“Perdemos contato com a família dela”, conta a enfermeira. "Nenhum dos parentes dela apareceu e não sabemos o que aconteceu com o pai dela."
As crianças, que representam quase metade da população de 2,3 milhões de Gaza, tiveram as suas vidas destruídas pela guerra brutal.
Embora Israel diga que se esforça para evitar vítimas civis, incluindo a emissão de ordens de evacuação, mais de 11.500 menores de 18 anos foram mortos, segundo autoridades de saúde palestinas. Ainda mais pessoas sofrem lesões, muitas delas que mudam vidas.
É difícil obter números exactos, mas de acordo com um relatório recente do Monitor Euro-Mediterrânico dos Direitos Humanos, um grupo sem fins lucrativos, mais de 24 000 crianças também perderam um ou ambos os pais.
Ibrahim Abu Mouss, de apenas 10 anos, sofreu graves lesões nas pernas e no estômago quando um míssil atingiu a sua casa. Mas suas lágrimas são pela mãe, pelo avô e pela irmã falecidos.
“Eles ficavam me dizendo que estavam sendo tratados lá em cima, no hospital”, diz Ibrahim enquanto seu pai segura sua mão.
“Mas descobri a verdade quando vi fotos no telefone do meu pai. Chorei tanto que fiquei todo dolorido.”
Os primos da família Hussein costumavam brincar juntos, mas agora sentam-se solenemente junto às sepulturas arenosas onde alguns dos seus familiares estão enterrados numa escola transformada em abrigo no centro de Gaza. Cada um perdeu um ou ambos os pais.
“O míssil caiu no colo da minha mãe e o seu corpo foi feito em pedaços. Durante dias retirámos partes do seu corpo dos escombros da casa”, diz Abed Hussein, que vivia no campo de refugiados de al-Bureij.
"Quando disseram que meu irmão, meu tio e toda a minha família foram mortos, senti como se meu coração estivesse sangrando em chamas."
Com olheiras escuras, Abed fica acordado à noite, assustado com os sons dos bombardeios israelenses e sentindo-se sozinho.
“Quando minha mãe e meu pai eram vivos, eu costumava dormir, mas depois que eles foram mortos não consigo mais dormir. Costumava dormir ao lado do meu pai”, explica ele.
Abed e seus dois irmãos sobreviventes estão sob os cuidados de sua avó, mas a vida cotidiana é muito difícil.
“Não há comida nem água”, diz ele. "Estou com dor de estômago por beber água do mar."
O pai de Kinza Hussein foi morto tentando buscar farinha para fazer pão. Ela é assombrada pela imagem de seu cadáver, trazido para casa para ser enterrado depois que ele foi morto por um míssil.
“Ele não tinha olhos e sua língua estava cortada”, lembra ela.
“Tudo o que queremos é que a guerra acabe”, diz ela. "Tudo está triste."
Quase todas as pessoas em Gaza dependem agora de ajuda para as necessidades básicas da vida. De acordo com dados da ONU, cerca de 1,7 milhões de pessoas foram deslocadas, muitas delas forçadas a deslocar-se repetidamente em busca de segurança.
Mas a agência da ONU para as crianças, a Unicef, afirma que a sua maior preocupação é com cerca de 19 mil crianças que são órfãs ou que acabaram sozinhas, sem nenhum adulto para cuidar delas.
“Muitas destas crianças foram encontradas sob os escombros ou perderam os pais no bombardeamento das suas casas”, disse-me Jonathan Crickx, chefe de comunicações da Unicef Palestina, de Rafah, no sul de Gaza. Outros foram encontrados em postos de controle israelenses, hospitais e nas ruas.
“Os mais novos muitas vezes não conseguem dizer o seu nome e mesmo os mais velhos ficam geralmente em estado de choque, por isso pode ser extremamente difícil identificá-los e potencialmente reagrupá-los com a sua família alargada”.
Mesmo quando é possível encontrar parentes, eles nem sempre estão bem posicionados para ajudar a cuidar das crianças enlutadas.
“Tenhamos em mente que muitas vezes eles também se encontram numa situação muito difícil”, diz Crickx.
“Eles podem ter os seus próprios filhos para cuidar e pode ser difícil, se não impossível, para eles cuidarem destas crianças desacompanhadas e separadas”.
Desde o início da guerra, uma organização sem fins lucrativos, as Aldeias de Crianças SOS, que trabalha localmente com a Unicef, afirma que tem trabalhado para acolher 55 dessas crianças, todas com menos de 10 anos. .
Um membro sénior da equipa SOS contou-me sobre uma criança de quatro anos que foi deixada num posto de controlo. Ela foi trazida com mutismo seletivo, um transtorno de ansiedade que a deixou incapaz de falar sobre o que havia acontecido com ela e sua família, mas agora está progredindo depois de ser acolhida com presentes e brincar com outras crianças com quem mora.
A Unicef acredita que quase todas as crianças em Gaza necessitam agora de apoio à saúde mental.
Com as suas vidas destroçadas, mesmo quando houver um cessar-fogo duradouro, muitos ficarão com perdas terríveis que terão de lutar para superar.
Corajoso mundo real
Nossa referência distópica mais comum é 1984 , de George Orwell , onde a ditadura atinge a perfeição de seus instrumentos de dominação, e o Big Brother, o onipresente líder supremo da Oceania, nos vigia nas telas. É um poder absoluto que cria uma nova realidade que pode ser apagada e reescrita de acordo com as necessidades da ideologia oficial.
A felicidade é imposta à força sob um molde uniforme de comportamento. É isso que nos ensina um romance anterior ao de Orwell, Admirável Mundo Novo , de Aldous Huxley, o admirável mundo novo que Miranda oferece em A Tempestade, de Shakespeare, belas criaturas, bela humanidade. Neste novo mundo reinam a paz e o bem-estar, mas os seres humanos são fabricados em laboratórios e a educação é ensinada através de slogans que se repetem até ficarem fixados na memória.
Ou The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood, que se passa num futuro incerto em Gilead, antigo Estados Unidos, onde uma seita de fanáticos fundamentalistas impõe um regime teocrático de estilo policial. As mulheres só são úteis para dar à luz filhos, sob ameaça de execução ou exílio.
As sociedades que estes romances descrevem, subjugadas por tiranias totais que procuram destruir o indivíduo anulando as suas liberdades, são distopias que permanecem graças a ficção. Longe de funcionarem apenas como parábolas daquilo que rejeitamos como um futuro sistema de vida, foram possíveis no século passado, o século dos grandes modelos totalitários, e continuam a sê-lo no século XXI, quando as ameaças contra a democracia se multiplicam, mesmo onde as suas instituições nos parecem mais firmes.
Os totalitarismos arquetípicos do século XX, tal como descritos por Frank Dikötter no seu livro Ditadores, podem ser vistos como verdadeiras distopias: baseavam-se num único partido e, para funcionarem como máquinas de poder implacáveis, dependiam de um líder supremo e infalível, sua figura onipresente, cultivada com cuidado e perseverança; desde aqueles que surgiram em países onde as democracias liberais estavam em estado de deterioração, Hitler ou Mussolini, até aqueles que foram fruto de cataclismos e guerras revolucionárias, como Stálin e Mao Tsé-Tung, todos rodeados por uma aura mitológica.
Nas distopias imaginadas, e nas reais, o líder único passa a ter uma imagem onipresente na vida dos cidadãos, e sua imagem é divinizada através do aparato de propaganda que insiste em manter vivo o que no marketing totalitário tem sido chamado de culto à personalidade .
Talvez nenhum outro romance distópico recente nos aproxime da realidade atual, e nos coloque no reino do que já vimos e vivenciamos, do que Prophet Song , de Paul Lynch, vencedor do Booker Prize na Inglaterra no ano passado.
Não ocorre em nenhum tempo distante, nem num país mitológico, mas na Irlanda real, no tempo presente. Um partido totalitário chega ao poder, decreta a suspensão das garantias, e sob o estado de emergência desencadeia uma onda de repressão que leva opositores e dissidentes às prisões, reprime manifestações à bala, semeia o terror nos lares, multiplica os desaparecimentos. Cria-se então um estado de rebelião e irrompe a guerra civil.
É um romance de acabamento impecável, escrito em tons sombrios e que nunca descura a tensão, que cresce à medida que avançamos no conhecimento do destino da personagem central, Eilish Stack, mãe de família que vê como o seu mundo é destruído sob o peso da perseguição política implacável levada a cabo pela polícia secreta, a prisão do seu marido Larry, o bombardeio da sua casa, a morte dos seus filhos, a fuga através da fronteira para o Reino Unido, juntamente com milhares de outros que emigram em busca de refúgio, nas mãos de gangues de tráfico de pessoas.
Tudo parece inédito porque acontece num país onde até à véspera existiam regras democráticas, garantias constitucionais, tribunais de justiça, meios de comunicação independentes, todos aqueles fatores da vida quotidiana que são tidos como garantidos. Mas e se de repente aparecer um novo Governo que negue tudo isso? Houve um golpe de Estado, ou pior, o Governo foi eleito livremente pelos próprios cidadãos.
A distopia, como estamos vendo, pode se tornar uma história cotidiana. Não é apenas que tememos que isso possa acontecer. Aconteceu, está acontecendo. É a distopia possível, a distopia real. A distopia que temos às nossas portas. É o anjo da espada flamejante que te expulsa do paraíso democrático.


















