sábado, 28 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


A vitória dos néscios

Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o gênio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.

Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles.

Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a atuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.

Giovanni Papini, "Relatório sobre os homens"

Homo sapiens sapiens: Gaza, o fracasso da espécie

Não posso deixar de me espantar. O que ouço e vejo é a razão da irracionalidade. O Egito abre um corredor humanitário em sua fronteira com Gaza para que entrem 20 caminhões com alimentos, água e medicamentos na Palestina, cuja população está bloqueada por decisão de Israel. A comunidade internacional, Nações Unidas, União Europeia, OTAN, demonstra satisfação. Os meios de comunicação comentam tal ato como um triunfo humanitário. Aplaudem e pedem mais trailers autorizados.

Enquanto isso, Israel convida para que a zona norte de Gaza seja abandonada, prolongando seus bombardeios. É o mundo de cabeça para baixo. Membros da espécie humana praticam o extermínio de seus semelhantes, com a anuência de outros seres humanos. Suas razões, sejam quais forem, demonstram o desprezo pela vida. A esta altura, alguém deve estar se perguntando, se já não fez isto, como chegamos até aqui?

Em vez de promover a paz, líderes mundiais estimulam a guerra, exigindo que suas regras sejam respeitadas. É preciso matar sem exagerar. Com argumentos canalhas, clamam que Israel tem o direito de se defender, concedendo uma licença para cometer o genocídio do povo palestino.

O que se diz de Israel serve para o genocídio dos povos originários e para as mais de 30 guerras ativas que sacodem o planeta. Não importa se você é um conservador, liberal, progressista ou da autodenominada esquerda democrática, todos confluem: é preciso salvar o capitalismo a qualquer preço, mesmo que isso signifique o fim da nossa espécie.

Para não cair em duplas ou triplas morais, falo do humano que nos faz humanos. Os milhares de migrantes mortos no Mediterrâneo deveriam ser um exemplo suficiente da desumanização que nos afeta.


Não se conhece espécie social que pratique a guerra, a competitividade, a exploração, estimule o ódio, a inveja e a desigualdade como parte de sua organização social. Também não há evidências de espécies cuja existência resulte no colapso de seu nicho ecológico. As crises de extinção são alheias à vontade dos seres vivos que habitam o planeta.

Agora, se nos atermos ao Homo sapiens sapiens, essa máxima não se aplica. Um ser que sabe que sabe, reflete e tem consciência de seus atos, acaba se esquivando de suas responsabilidades. O humano, a relação ética que une a natureza biológica e social, é negado em prol de justificar seus holocaustos. Refiro-me aos fatos.

Nos últimos 100 anos, o ser humano provocou duas guerras mundiais, lançou bombas atômicas sobre a população civil, desenvolveu armas químicas e biológicas com o objetivo de impor uma vontade, seja a favor de uma raça, de um deus ou uma razão cultural. Aviões, drones, submarinos, porta-aviões, tanques de guerra. Tecnologias de morte criadas para gerar terror, medo e submissão.

Os cidadãos do mundo protestam, levantam a voz, saem às ruas, pedem o fim das guerras, desnudando as vergonhas de seus dirigentes. No entanto, nada muda. Ouvidos surdos. A desumanização avança em ritmo acelerado. O verdadeiro vencedor do processo de desumanização é o complexo financeiro-industrial-militar. Na página digital Estrategias de Inversión, a jornalista Raquel Jiménez publica o atual artigo "As empresas armamentistas, as grandes beneficiadas do conflito entre Israel e Hamas na bolsa".

Desde a escalada do conflito palestino-israelense, dirá, quatro empresas estadunidenses viram subir os seus valores na bolsa e aumentar seus lucros. A Lockheed Martin recebeu mais de 5,7 bilhões de dólares em contratos com Israel. As ações da Raytheon Technologies sobem desde o dia 7 de outubro, 5,5%. A General Dynamics obtém um lucro de 9,3% e a Northrop Grumman, a quinta maior fabricante de armas do mundo, tem uma rentabilidade de 15,5%, em 10 dias.

Junto a isso, deve-se somar os altos retornos da companhia francesa Dassaut Aviation, com 8,3%; a britânica BAE Systems, a segunda maior contratista militar do mundo, com lucros de 9,6%, e as alemãs MTU Aero Engines e Rheinmetall AG, cujas ações demonstram uma alta de 4 e 15%, desde o dia 7 de outubro. Sem nos esquecer do grupo italiano Leonardo, que está com lucros anuais máximos.

A espécie humana fracassou. O que nos torna humanos, o reconhecimento do outro, a empatia diante do sofrimento, enclausurou-se em nome dos poderosos. Primo Levi, em sua Trilogia de Auschwitz, define a desumanização. É assim que o povo palestino deve se sentir hoje:

“Pela primeira vez, então, percebemos que a nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a aniquilação de um homem. Em um instante, por intuição quase profética, a realidade nos foi revelada: chegamos ao fundo. Mais para baixo não é possível: uma condição humana mais miserável não existe, não dá para imaginar. Não temos nada nosso. (…) Vão nos tirar até o nome: e se quisermos mantê-lo, teremos que encontrar dentro de nós a força para tanto, para que, além do nome, algo nosso, algo do que somos, permaneça (…). Na história e na vida, parece-nos, às vezes, vislumbrar uma lei feroz que soa: a quem já tem, será dado, de quem não tem, será tirado”. 

Esse algo é a dignidade. Por isso, luta-se.

Crianças não declaram guerra

Nas duas primeiras semanas de guerra no Oriente Médio, 20 jornalistas foram mortos. Merecem nosso reconhecimento por terem dado a vida fornecendo a matéria-prima para que possamos saber do que se passa no front e tentar entender o futuro deste conflito. Temos mais perguntas do que certezas. Creio que será assim por muito tempo. Não adianta colar nos aparelhos de tevê, ler os principais jornais do mundo, comprar livros – tudo o que conseguimos é uma visão parcial. Mesmo os especialistas que não vivem a realidade cotidiana da região têm dificuldades para interpretá-la fielmente.

Meus avôs vieram do Líbano, no princípio do século passado. Já tinham memória de conflitos religiosos. Minha avó tinha uma cruz tatuada no braço e nem sempre a vida foi fácil para os cristãos libaneses. Uma região de antigos conflitos.


No momento em que Israel se prepara para uma invasão de Gaza, tento me lembrar de outras guerras urbanas. Será como Faluja ou mesmo Mossul, no Iraque, onde o combate ao Isis superou as expectativas em mortos. Em Faluja, morreu tanta gente que os cemitérios não deram vazão e as pessoas eram enterradas nos jardins das casas. Mossul, além de superar tudo, ainda tinha uma enorme barragem com potencial de inundar o país.

Não creio que os exemplos anteriores possam ser avaliados mecanicamente. Gaza tem uma rede de túneis especialmente construída pelo Hamas. Neste momento, as informações indicam que de 15% a 30% das edificações já foram destruídas. A existência desses túneis pode resultar numa destruição que não deixará pedra sobre pedra.

Será o fim do Hamas? Naturalmente, o processo de destruição será explorado e a própria juventude árabe estará mais aberta a organizações violentas. Além do mais, alguns dirigentes do Hamas nem vivem em Gaza, preferem Doha, no Catar, um pequeno país com uma altíssima renda per capita anual, em torno de US$ 60 mil.

Em caso de vitória de Israel e ampla destruição do Hamas, quem governa a região? A Autoridade Palestina teria condição de fazê-lo, enfraquecida pela corrupção e pela falta de consultas eleitorais? O Hamas também não faz eleições desde 2006.

Há dois grandes temas que precisam ser avaliados antes e depois da invasão: a morte de civis e a morte de crianças.

Quando se diz que o Hamas não representa a Palestina, muitos não acreditam nisso em Israel.

Alguns artigos do Jerusalem Post questionam essa afirmativa. Acham que existe uma forte cumplicidade entre palestinos e o Hamas. Ainda que isso fosse verdadeiro, o problema é que 30% dos habitantes de Gaza são crianças e adolescentes. Eles não têm condições de questionar ou muito menos derrubar um governo indesejado.

Numa guerra assimétrica em que a propaganda tem um peso maior que as manobras militares, Israel corre um grande risco com as mortes entre os civis. Além disso, há as crianças. O Brasil fez o que pôde na ONU para atenuar a intensidade do conflito. Não conseguiu. Mas, na voz do presidente Lula, manifestou preocupação com as crianças. Para conseguir alguma coisa, talvez o País tenha de se concentrar num tema: as crianças merecem um enfoque especial.

Para começar, há aquelas que dependem de eletricidade nas incubadoras e podem morrer sem ela. Inúmeras atividades hospitalares dependem da gasolina, que não entra. É necessário abrir um corredor também para o combustível. O Hamas pode sequestrá-lo para fins bélicos? Se o fizer, matará as crianças e terá também de responder por isso. Será uma manobra desesperada e o combustível para tocar hospitais é mínimo, se encarado como suprimento bélico.

Há crianças raptadas pelo Hamas e crianças presas por Israel na Palestina. Surgiu um movimento para que fossem trocadas, e isso pode ser um caminho para que as crianças sejam afastadas do clima de hostilidade.

Mas creio que não bastará. Crianças precisam brincar. E não se brinca com bombas. Inclusive, no passado, uma das mais importantes campanhas contra bombas de fragmentação aconteceu porque ameaçavam as crianças, que as confundiam com brinquedos.

O que é possível fazer na Palestina – na Cisjordânia e em Gaza

– é criar alguns espaços que as crianças possam frequentar com seus pais, espaços protegidos por acordo internacional, com anuência das partes.

A guerra rouba vidas, rouba, em muitos casos, o direito de ir e vir, arrasa com recursos econômicos. Por que a guerra teria também de acabar com a infância de quase 1 milhão de crianças? Por que condená-las à amargura na vida adulta e a alimentar uma predisposição ao ódio e à luta violenta?

Quando o Brasil deixar de ter a responsabilidade de dirigir o Conselho de Segurança da ONU, o que podemos fazer, dentro dos nossos limites, é exatamente uma campanha por todas as crianças que vivem em área de guerra.

Para ter alguma credibilidade, seria interessante também proibir a exportação de bombas de fragmentação – algo que tentei, por meio de projeto de lei, e fracassei diante do argumento de preservar empregos. E, naturalmente, atacar os problemas internos que fazem, por exemplo, as crianças de grande parte do Rio de Janeiro vítimas dos confrontos em áreas dominadas pelo tráfico e pela milícia.

Se não dá para fazer tudo, por que não tentar apenas preservar as novas gerações?

O regresso do antissemitismo

“Se compreender é impossível, conhecer é imperativo, porque o que aconteceu pode acontecer outra vez.” As palavras de Primo Levi, sobrevivente do Holocausto e autor de um dos livros obrigatórios sobre o século XX (Se Isto é um Homem), têm ecoado na minha cabeça nos últimos dias. “Nunca mais”, repetiu-se. Sim, o que aconteceu pode acontecer outra vez. Mas parece que conhecer não basta.

Para os israelitas, os atentados de 7 de outubro são uma segunda Shoá, a palavra hebraica para massacre que recorda o genocídio nazi de cerca de seis milhões de judeus. A carnificina e também as reações de apoio aos palestinianos contra a resposta do governo de Benjamin Netanyahu (excessiva e em violação de várias leis da guerra e do Direito Internacional Humanitário) mudaram drasticamente a forma como os habitantes de Israel, mas também muitos judeus não israelitas – ingleses, norte-americanos, europeus – olham hoje para si próprios e recordam as histórias dos seus antepassados. Muitos, que arquivaram as histórias da Inquisição, da Segunda Guerra Mundial e do Babi Yar num passado que lhes parecia longínquo, dizem que, pela primeira vez, passaram a sentir medo das suas origens e da sua fé. Algo que nunca imaginariam que fosse possível.

Chegam-nos notícias de ataques contra estabelecimentos e casas de judeus fora de Israel, lemos declarações de gente que defende que o Hamas faz resistência e exerce o direito à autodeterminação e que todos os meios são legítimos, vimos fotos de cartazes ofensivos em manifestações, como aquele da rapariga sorridente que pedia uma limpeza no mundo com a estrela de David azul enfiada num caixote de lixo.

Li, com consternação, a carta aberta assinada por historiadores como Simon Schama e Simon Sebag Montefiore, em que se assumem “de coração partido e enojados com a chocante falta de empatia de grande parte da autoproclamada esquerda global” e recordam que as vítimas em Israel também eram civis, que merecem o mesmo respeito que os palestinianos. Impressionou-me a descrição de Sergey Ponomarev, editor sénior da The Atlantic, quando a sua filha de 14 anos lhe perguntou se, para sua segurança, devia tirar o colar oferecido pelos avós, num artigo com o título A Esquerda Abandonou-me. Aquilo a que assistimos hoje é um recrudescer do mais puro antissemitismo, que vem desde os tempos greco-romanos pré-cristãos, em que o monoteísmo era fator de segregação.


Este antissemitismo, que começou por ser teológico e depressa se tornou político e que assumiu ao longo dos tempos formas altamente violentas, nunca desapareceu – muito pelo contrário. Anda, muitas vezes, de mãos dadas com o antissionismo. Está plenamente enraizado, mesmo nas democracias desenvolvidas, em algumas franjas da sociedade – que vão dos conspiracionistas aos radicais anti-imperialistas e antiamericanos, que veem Israel (e, no mesmo saco, os israelitas e os judeus) como uma força do mal. Há uma confusão frequente entre o povo e os seus dirigentes, a crença e a nacionalidade, os antepassados e os cidadãos contemporâneos.

Há dias, foram divulgados os dados do FBI sobre crimes de ódio contra judeus nos EUA: aumentaram em 2022 mais de 37%, atingindo o maior número em quase três décadas. Os judeus representam cerca de 2% da população americana e, no entanto, os incidentes relatados representaram quase 10% de todos os crimes de ódio. Um estudo da Universidade de Chicago mostrou que há uma relação clara entre antissemitismo, violência política e teorias da conspiração antidemocráticas, como a tese do Protocolo dos Sábios de Sião, que defende que os judeus têm um plano para controlar o mundo ocidental, e a tese da grande substituição, que propala que imigrantes e minorias estão a ser intencionalmente introduzidos num país para substituir a população nativa. As redes sociais e alguns populistas exacerbam estas tendências – veja-se como o húngaro Viktor Orbán fez do judeu Soros um inimigo público. Sim, extrema-direita e extrema-esquerda, nisto como noutras coisas, tocam-se.

Tudo isto é triste. E tudo isto parece o fado dos judeus, que volta sempre para os atormentar. Palestinianos e israelitas merecem, de igual forma, a nossa empatia. Os dois povos são vítimas de muitas camadas de História, de tensões geopolíticas globais, de crimes e más opções dos seus dirigentes. Compreender isto será essencial daqui para a frente, enquanto este conflito sangrento continuar a desenrolar-se diante dos nossos olhos.

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

A guerra

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)





Tudo que eles querem é guerra

All we need is love. A guerra é a continuidade de política por outros meios; eles, os políticos e demais governantes, precisam e querem a guerra para prosseguir com seus jogos de poder e dinheiro, na insana, danosa e ilusória corrida para ser o mais rico e poderoso.


A guerra inviabiliza o diálogo, e sem diálogo não há amor, que é all we need e não custa caro nem carece de queimar mais petróleo, nem de crescer o PIB nem, muito menos, de guerras. Pelo contrário!

Fala-se que crer que all we need is love é utópico, ilusório, mas tal crença não é mais irreal que sonhar tornar-se o mais rico e poderoso mediante armas, ouro e domínio sobre pessoas; o primeiro caminho traz esperança, cooperação, harmonia, paz; o segundo desesperança, intriga, ódio, disputa e guerra. Embora semelhantes quanto a serem utópicos ou distópicos, qual é melhor, qual mais promissor?


Imagine que não há mais países, nem religiões, nenhum motivo para matar ou morrer; tal utopia não é menos irreal que a distopia de imaginar que alguém conseguirá poder perene e absoluto, e é preferível a esta última! Temos que superar as ideias herdadas, de que a luta por poder e dinheiro é a única via!

Claro, tal luta existe, como nos mostram as guerras em curso, entre países e entre grupos, assim como a maioria das opções adotadas por políticos e demais governantes. Decisões que beneficiam, entre outros, produtores de armas, destroem a natureza e prejudicam crianças, idosos, jovens e quase todos! Tudo, em busca do sonho irreal de se tornar o mais rico e poderoso, e de tentar resistir aos ventos de mudança que solapam a fugaz e pretensa antiga dominância!

O mundo mudou e, assim, as ideias carecem de alteração. As atividades tradicionais de busca por riqueza, poder e glória já se revelaram o que são: ações a um só tempo genocidas e suicidas. Para que continuar no mesmo rumo, se tal trilha compromete a vida de nossos filhos e netos?

Toda guerra é uma negociata, travestida de (falsas) boas intenções! Há muito dinheiro sendo ganho; follow the money, é recomendação para que se encontrem os beneficiários, que são também os culpados pelos morticínios. Quem ganha com as guerras em curso? Pessoas em busca de poder e dinheiro, psicopatas que não se preocupam em fazer mal a outros e assumem governos e empresas não para promover um mundo sem guerras, cooperativo e fraterno, mas para continuar a minar as chances de sobrevivência da espécie humana e de outras.

Tudo, em busca do ideal não realizável nem sustentável de assumir controle total; melhor optar por caminho que valorize a convivência, a cooperação, a fraternidade. Esta última via, ridicularizada sob a acusação de ser irrealista, não é mais sonhadora que a opção de políticos e outros, que nos condena ao genocídio e ao suicídio. Ainda há tempo para acordarmos e alterarmos o rumo, mas essa janela está se fechando. Lembremo-nos, por mais que muitos evitem dizê-lo para não parecerem ingênuos: all we need is love!

Queridos estadunidenses

Queridos estadunidenses


Imagino-vos exaustos.

Tenho acompanhado as notícias. Vejo-vos atordoados, como pugilistas após um combate, cansados de defender a punho os vossos pensamentos e posicionamentos ideológicos, recolhidos no canto do ringue, com a cabeça a latejar da luta que dura desde o nascimento da América, pelos cálculos dos indígenas norte-americanos e dos descendentes dos povos escravizados. Vejo-vos à procura do norte, entre o ruído de uma multidão de espectadores entusiasmados e outros tantos agitadores profissionais que só vos conhecem dos filmes e livros. Vencedores? Diria que não existem, porque à medida que as posições se extremam, a questão que nos resta fazer é apenas uma: quem realmente sairá beneficiado desse arranca-rabo entre gringos?

“Win or bust.” Temos vindo a interiorizar o mantra dos vitoriosos. Aprendemos que, seja qual for a circunstância, não esperamos nada menos do que o aplicar do esforço máximo para atingir o objetivo declarado, tendo o fracasso total como única alternativa. Os empates são inadmissíveis: ninguém se lembra deles. Não se escrevem canções, a Netflix não compra os direitos nem se vendem jornais com empates. Na política, não é diferente. O empate dói mais do que a derrota porque, ao fim de um par de dias, este desaparecerá da memória coletiva sem pompa, sem direito a placa comemorativa ou página na Wikipedia alusiva ao dia em que o bom senso reinou entre rivais.

Para quem apostou o seu dinheiro ou o seu carácter, ficar a chuchar no dedo sem poder gritar vitória, imagino que seja no mínimo frustrante. Heróis e vilões, precisa-se deles. São úteis para alimentar dogmas e utopias políticas, mesmo que o herói não tenha vocação para tal e o vilão até ajude velhinhas a atravessar a rua. Ver-vos assim acossados mete dó. Devem estar a sentir saudades dos bons velhos tempos. Pena que a Guerra Fria tenha esfriado, que a Cortina de Ferro já não exista e que a Cuba comunista, sem Fidel, já não seja bem a mesma. Nós, as minorias étnicas que conhecemos bem o sabor amargo da derrota, podemos afirmar: há de passar.


Queridos, vos quero bem. Também me virou o estômago ver a bandeira da Confederação desfilar pelos corredores da casa da democracia. Naquele momento, soou dentro de mim a melodia acompanhada dos versos: “Dormia/ A nossa pátria-mãe tão distraída/ Sem perceber que era subtraída/ Em tenebrosas transações”. O samba-exaltação é de Chico Buarque, tão genial e tão merecedor de um Nobel quanto Dylan, por ter também criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição da canção (sul) americana. E falando em canções, por favor, ouçam mais brasileiros, só vos fará bem. Eles, tal como vocês, fazem delas verdadeiras teses poéticas para entendermos a condição humana. Se jazz e blues são a vossa praia, sejam aventureiros e procurem Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha e lavem a alma no chorinho.

Lamento que não tenham resolvido, vocês que puseram o primeiro homem na Lua, essa coisa do racismo. Enquanto não o fizerem, outras nações se desculparão com a ladainha de sempre: nos Estados Unidos da América é pior. Como se existissem Olimpíadas do racismo e o ouro brilhasse sempre nos vossos pescoços. Salvo as menções honrosas para países como o Brasil e os do Leste Europeu, chega a ser poético olhar para a lista do Comité Olímpico: 1 — Estados Unidos, 1022 medalhas de ouro; 2 — Rússia, 395; 3 — Grã-Bretanha, 263; 4 — China, 227; 5 —França, 212.

Sabem, um comentário que proferi no passado e que me deixou na mira dos racistas de plantão que pululam nas redes sociais foi quando disse que todo homem negro, conscientemente ou não, à dada altura da vida, já odiou o homem branco: a sua cultura, a sua língua e o poder que exerce sobre nós, os negros. Já invejou — melhor, continua a invejar-lhe — o maior valor da humanidade, a liberdade de simplesmente existir. Desculpai trazer um assunto doloroso, mas não posso deixar de apontar que o ataque ao Capitólio foi um esfregar nas fuças de todos nós, homens, mulheres e queers que gritam “vidas negras importam”, esse tal de privilégio branco que os afetados por ele insistem em denunciar, mas todos os que dele se beneficiam insistem em negar — ou, ainda, os que sabem exatamente como o mundo funciona insistem em assobiar para o lado, como se não fosse com eles.

A violência perpetuada contra os corpos negros — nas mãos de civis, milícias, organizações racistas, grupos de extrema direita e até do próprio Estado — é a mesma violência que matou Abraham Lincoln e os dois Kennedy e subiu a colina do Capitólio e matou o agente Brian D. Sicknick. Essa raiva alimenta-se acima de tudo da indiferença cúmplice de pessoas do bem. Pagadores de impostos, devotos e amantes da lei e da ordem. Essa violência é também lucrativa, só assim podemos explicar que ainda se mantenha, agarrada ao inconsciente caucasiano onde a ideia de que a maldição divina aponta os africanos como descendentes de Caim, o primeiro homicida da história, é algo real. Eu, como fruto dessa árvore genealógica e solidário para com os irmãos e irmãs das diásporas americanas, rogo a Deus: livrai-nos dessa penitência.

Queridos estadunidenses, continuo a ter-vos afeto. Só isso explica as horas passadas colado ao ecrã a ver o repetir de imagens semelhantes às que me chegaram do norte de África há uma década, quando o jovem Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante formado em engenharia, viu ser-lhe confiscado o ganha-pão pela polícia. Além de lhe quebrarem o espírito, exigindo o jabaculê da praxe, infligiram-lhe humilhações que culminaram na sua autoimolação. Um protesto trágico contra o desemprego e a pobreza na Tunísia que deu início à Revolução de Jasmim e derrubou o ditador Ben Ali. As imagens da insurreição na sede da democracia norte-americana me fizeram lembrar as da Primavera Árabe e de todas as outras revoluções e transformações políticas que direta ou indiretamente tiveram o dedo dos Estados Unidos. Mas o que é chocante é que vós, estadunidenses patriotas, não pedis o fim de ditaduras, mas para que seja instaurada uma no vosso país.

O que a insurreição em Washington expôs não foram só as vossas divisões políticas. Eu, filho da Guerra Fria nascido e criado em Benguela, pendurado nos galhos duma mangueira no meu quintal que me servia de camarote, vi, na conturbada década de 1980, o capitalismo derrotar o socialismo marxista. Eu vi, ninguém me contou. Começou nas matas, depois no mar de Cabinda, passou para cidades e de seguida para dentrodas casas de angolanos como eu. E, de repente, o dólar nos fez confiar no seu poder divino e as kinguilas viram as sacerdotisas da economia paralela em Angola. Por isso, mas não apenas por isso, como não nos sentirmos afetados? Quer se queira, quer não, até o centro do mundo se mudar para Pequim, o vosso Capitólio é um pouco nosso também.

A maior tragédia norte-americana é o negacionismo da sua própria história. Martin Luther King, chamado a comentar a morte de John F. Kennedy, afirmou: “O padrão imperdoável da nossa sociedade foi o fracasso em prender os assassinos [de líderes dos direitos civis assassinados]”. É um julgamento severo, mas inegavelmente verdadeiro, que a causa da indiferença foi a identidade das vítimas. Quase todos eram negros. E assim a praga se alastrou até reivindicar o mais eminente dos norte-americanos, um presidente muito amado e respeitado. A indiferença talvez seja o vosso maior pecado.

Queridos estadunidenses, não vos faltaram vozes que pregassem, dos dois lados do corredor, o que acontece quando não se denuncia e condena a supremacia branca. Ouçam-nas e que Deus vos abençoe, que Deus salve os Estados Unidos da América.
Kalaf Epalanga, "Minha pátria é a língua pretuguesa"

Você que defende o Hamas, já foi à 'Faixa de Gaza' carioca?

Dez anos atrás, visitei por várias vezes o bairro de Varginha (Manguinhos), na Zona Norte do Rio. Aquela região pobre e violenta estava, na época, se preparando para receber a visita do papa Francisco, durante a Jornada Mundial da Juventude. É um bairro da região chamada de "Faixa de Gaza carioca", nome que se refere aos tiroteios entre traficantes rivais e as forças de segurança.

Sempre me pergunto como as pessoas conseguem viver num ambiente desses, de tanta violência. Claro, não há muita alternativa, não há para onde ir. E aparentemente não tem muita gente poderosa interessada em mudar o cenário.

Vivo na Zona Sul carioca, num bairro seguro e próspero. Tenho plena consciência que tal tranquilidade se deve à presença das forças de segurança. As mesmas forças que mataram, no ano passado, mais de 1.300 pessoas no Rio de Janeiro, numa cidade de talvez 7 milhões de habitantes.

Para você ter uma ideia: as forças policiais de todos os Estados Unidos mataram, no mesmo ano, um total de 1.200 pessoas. Em todo o país de 332 milhões de pessoas! E os ataques terroristas do grupo Hamas contra Israel, no dia 7 de outubro, mataram cerca de 1.400 israelenses. Num país de 9 milhões de habitantes.

Espanta-me ver como pessoas intelectuais, na maioria da tal "esquerda", condenam Israel e seus aliados e justificam as ações do Hamas. Principalmente quando se trata de pessoas de classe média e média-alta que também vivem na protegida Zona Sul carioca. Aliás, condenam a brutalidade policial no Rio, e com razão. Mas vivem suas vidas bacanas graças a essa mesma proteção policial.

A mesma polícia mata o traficante que vendeu a maconha para o tal "intelectual". Que, por outro lado, nasceu com uma vacina social que o protege da violência do Estado: ser branco e rico. E se os traficantes entrassem na casa dele para matar ou sequestrar os filhos dele, ele chamaria a polícia ou festejaria a "luta dos oprimidos"?

Sei que é difícil solucionar conflitos, tanto nas áreas pobres do Rio quanto no Oriente Médio. Também sei que há violações por todos os lados. E na falta de soluções, buscamos refúgio na nossa própria hipocrisia. Mas até para ela tem limite, acho. A atual capa da Carta Capital, chamando o presidente americano, Joe Biden, e o primeiro-ministro israelense de "senhores da guerra", que se "unem por um mundo pior", o ultrapassou. "A mídia nativa insiste na tese do terrorismo do Hamas", escreve Mino Carta. Espanto total!

Mais uma vez, parte da intelligentsia se faz de idiota útil para defender terroristas, ditadores e a máfia, como o Hamas. Fazem a mesma coisa com os Putins, Ortegas, Assads e Castros da vida. A América Latina, marcada por sua herança católica, gosta dos seus ditadores, e costumam confundi-los com libertadores.

Acham que os brutais ditadores de países como Síria, Nicarágua ou Irã são heróis por se oporem aos yankee-imperialistas. Defendem países onde feministas e gays são perseguidos e onde a classe dominante tem vida boa enquanto o resto da população foge para os países ocidentais, buscando democracia e Estado de Direito, pois não querem viver num país mafioso ou numa loucura religiosa.

Eu me pergunto se esses mesmos intelectuais que defendem o Hamas aqui nas Zonas Suis brasileiras já pisaram na "Faixa de Gaza carioca".

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

A seguir: milícias nacionais

As milícias nasceram modestas. Eram policiais e bombeiros empenhados em combater por conta própria o tráfico em comunidades da Zona Oeste do Rio. Vendo-se prestigiados pelos cidadãos, dedicaram-se à oferta de "serviços" de combustível, transporte e comunicações. Com a adesão de civis, passaram a vender "proteção" contra violências perpetradas por eles próprios. E, agora, aderiram à venda das drogas que diziam combater. Devido à grande rentabilidade, suas atividades se tornaram de risco, sujeitas a divergências pontuais com milícias concorrentes, traficantes profissionais e até com sua eventual aliada, a polícia.

Tais querelas não são dirimidas ao redor de mesas de mogno, mas em locais ermos e inesperados, ideais para emboscadas, execuções e chacinas. Isso exige a posse de considerável arsenal e, como nos negócios tradicionais, um contato amistoso com o fornecedor, seja quem for. O principal mercado das milícias é o Rio. Mas o Rio não fabrica a matéria-prima que lhes dá sustentação: as armas.


Ao contrário, todos os fabricantes ficam longe. As Forjas Taurus, das maiores do mundo em armas leves e pesadas, têm sede em São Leopoldo (RS). A CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos), que detém o monopólio da produção de munição militar e para segurança pública, em Ribeirão Pires (SP). E a estatal Imbel (Indústria de Material Bélico do Brasil), abastecedora de armas portáteis, munição e explosivos para o Exército, no DF, com sua unidade de produção de grosso calibre em Juiz de Fora (MG).

O Rio, servido por milicianos vindos de todos os estados, é apenas o escoamento disso e sua infeliz vitrine. Mas só por enquanto. Com a facilidade para desviar armas do Exército, tratar as fronteiras estaduais como peneiras e adquirir toda espécie de material bélico sob os narizes oficiais, as milícias descobriram que há um novo e promissor mercado a explorar.

O Brasil.

Milícia no Rio, algumas perguntas

"O crime organizado que não ouse desafiar o poder do Estado", disse Cláudio Castro enquanto 35 ônibus e um trem eram incendiados no Rio de Janeiro. À realidade coube consumar a ironia: é como se os fatos expusessem a inevitabilidade do caos que a falta de política de segurança já anunciara. Lembro de García Márquez em "Cem Anos de Solidão": "O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo"; apontar, sim, mas na cara de quem?

O governador quer que acreditemos que é uma luta de mocinhos contra bandidos; ele, claro, do lado dos primeiros. Quem dera a realidade fosse tão simples quanto sugere o maniqueísmo. Se fosse, a caça à cúpula de milicianos resolveria. Eis algumas questões. 

1: as autoridades fluminenses, de hoje e outrora, precisam explicar como permitiram que as milícias crescessem 387% em 16 anos, ocupando uma área de 64 Copacabanas. A resposta é que milícia lucra a partir e para o Estado. Sem desvendar os laços econômicos e sem controlar acesso a armas, nada será resolvido.

2: o governador precisa explicar por que nomeou, para chefiar a Polícia Civil, um policial influenciador digital homenageado por deputado ligado a miliciano; a resposta é que, em parte, a milícia manda no estado que nem sequer possui uma Secretaria da Segurança Publica.

3: os governos fluminense e federal precisam explicar por que jogar policiais de outros estados no Rio, via Força Nacional, resolveria a questão. Resposta: não resolverá. 

4: o MP-RJ precisa explicar por que, em 2021, extinguiu o órgão que apura má conduta de PMs (Gaesp).

5: Castro precisa explicar por que policiamento ostensivo também é seletivo: em 2019, apenas 6,5% das operações policiais no Rio ocorreram em áreas de milícia. Sem dizer como isso fortalece o mercado imobiliário das milícias, nada será resolvido. A tática de bangue-bangue não combaterá a milícia porque é, ela mesma, uma tática miliciana.
Thiago Amparo

Pelo fim da violência de um Estado sobre um povo sem Estado

Espera-se que a União Europeia (UE) apoie hoje, por unanimidade, um apelo a “pausas humanitárias” nos bombardeios israelenses em Gaza para permitir que alimentos, água, remédios e combustíveis cheguem aos palestinos com mais regularidade.

Quanto aos combustíveis, Israel insiste em dizer que é contra seu fornecimento. O Hamas, que governa Gaza, que se vire para obtê-los. Gaza entra no 20º dia de guerra às escuras. Mais de 100 recém-nascidos mantidos em incubadoras correm o risco de morrer.

Aparentemente, estabeleceu-se o consenso na UE depois do que um diplomata descreveu como “reuniões difíceis” entre os Estados-membros que gastaram dias a discutir sobre que terminologia utilizar em relação ao direito de Israel defender-se.


Rascunhos de uma declaração oficial a ser assinada numa conferência de líderes em Bruxelas, nesta quinta-feira, propunham um apelo a “uma pausa humanitária” para permitir “acesso rápido, seguro e sem entraves à ajuda a ser dada aos necessitados”.

O termo “pausa” foi considerado por vários Estados-membros demasiado próximo da expressão “cessar-fogo”, o que poderia enfraquecer o direito de Israel à autodefesa. Pausa ou pausas? Essa foi a discussão seguinte. Alguns Estados argumentaram:

“Se forem muitas pausas, elas beneficiarão o Hamas. Se forem menos, mas pausam muito longas, beneficiarão do mesmo jeito”.

A abertura permanente de um corredor humanitário talvez fosse pior. Como o direito de Israel ao ataque, em resposta ao ataque que sofreu, poderia conviver com a passagem contínua de ajuda humanitária? Isso equivaleria ao cessar-fogo que Israel não quer.

É dura, como se vê, a vida dos diplomatas, embora luxuoso, confortável e bem equipado o espaço onde se reúnem para debater os desafios da humanidade. Eles de nada carecem. Mas, para que tenham êxito, dependem do ok dos seus empregadores.

A dificuldade em chegar a acordo sobre a língua reflete um dos episódios mais embaraçosos para a UE em muitos anos. Uma fonte disse ao The Guardian que havia “uma variedade muito grande de pontos de vista sobre a crise” no Oriente Médio.

Não deixou de haver, mas o sofrimento dos palestinos impõe algum tipo de entendimento em seu socorro. À guerra entre Israel e Hamas, deve seguir-se de imediato a solução de dois Estados, segundo o presidente Joe Biden.

É tudo o que os palestinos querem desde que perderam para Israel a maior parte de suas terras no fim dos anos 1940, e desde que as maiores potências mundiais lhes asseguraram o direito à criação do próprio Estado.

O que temos hoje? A violência de um Estado sobre um povo sem Estado.

Moral acoberta os crimes

Ah, a palavra “moral”! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confusões que este termo engendrou abarcam quase toda a história das perseguições movidas pelo homem ao seu semelhante. Para além do facto de não existir apenas uma moral, mas muitas, é evidente que em todos os países, seja qual for a moral dominante, há uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo é permitido, tudo é perdoado. Ou seja, tudo o que de abominável e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode expiatório, “não têm moral”.

Pensar-se-á que, se realmente glorificássemos a vida e não a morte, se dessemos valor à criação e não à destruição, se acreditássemos na fecundidade e não na impotência, a tarefa suprema em que nos empenharíamos seria a da eliminação da guerra. Pensar-se-á que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a indústria de material de guerra, material que hoje se tornou indescrivelmente diabólico. Digo “assassinos”, porque em última análise esses homens não são outra coisa. A sangue-frio, anos antes de estalar qualquer conflito, preparam-se para obrigar os outros a obedecer-lhes; enumeram mentalmente todas as formas concebíveis de horror e destruição, e dedicam-se à tarefa calmamente, deliberadamente, implacavelmente, esperando apenas pelo momento certo para levarem à prática os seus planos.

Confrontados com uma nova guerra - porque uma guerra engendra sempre outras - não poderemos esperar que estas “vítimas” se mostrem caridosas e magnânimas. Tendo sofrido contra vontade, exigirão inevitavelmente que os seus filhos e filhas paguem o mesmo tributo... Portanto, o que eu digo é que, se esta escravidão de sacrifício e vingança não é imoral, se não é a forma mais absoluta da imoralidade, então esta palavra não tem sentido. Não estamos a ser destruídos e corrompidos pelos escritos pornográficos ou obscenos; estamos a ser destruídos e condenados, em todos os sentidos, pela guerra e pelo planeamento da guerra.

Henry Miller, "O Mundo do Sexo"

Pensamento do Dia

 


A Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Vinicius de Moraes




Não se deixem cegar pela raiva

Joe Biden tentou refrear a sede de vingança do Estado de Israel pelos ataques do Hamas de 7 de outubro. “Não se deixem cegar pela raiva.” Biden recordou que na reação aos ataques do 11 de setembro foi isso que aconteceu aos Estados Unidos e que, por isso, admitiu, cometeram erros. Nestas palavras está implícito um mea culpa pelas decisões do pós-11 de setembro, que culminaram na invasão do Afeganistão com o apoio das forças aliadas, mas à revelia da ONU.


O Afeganistão foi um banho de sangue. Morreram quase 50 mil civis com a invasão e durante a ocupação. Em nome de quê? Desmantelar a organização terrorista Al Qaeda e tirar do poder o regime talibã. Correu muito mal. Nada foi conseguido. Sobretudo, para o que interessa aqui, os civis afegãos nada sabiam da Al Qaeda e pouco sabiam das duas torres que tinham colapsado. Foram bombardeados e foram vítimas de uma ação militar pensada e organizada sem os considerar como sujeitos de quaisquer direitos, nem sequer do direito à vida.

Robert Fisk foi o jornalista ocidental que ficou no Afeganistão, mesmo depois dos primeiros bombardeamentos. Relatou as mortes, a destruição de aldeias e o total desrespeito pelas vidas daquelas pessoas. Foi o grande defensor do povo afegão. E, por isso, foi penalizado e até ridicularizado publicamente. Fisk, no seu livro A Grande Guerra pela Civilização, relatou em detalhe o que vos estou a contar e relatou até a forma como foi alvo de chacota impiedosa por ter sido o único a sentir empatia pelo sofrimento afegão. Não cedeu à pressão da lógica que estava estabelecida: os Estados Unidos tinham sido vítimas de um ataque terrorista sem precedentes e estavam, por isso, legitimados a agir da forma que entendessem ser a adequada. Robert Fisk deu conta de outros jornalistas que ainda assistiram a ataques aos civis afegãos, mas nenhum deles estava disposto a denunciá-los.

O livro de Robert Fisk é importante para a justiça histórica e para que não esqueçamos tudo aquilo que somos capazes de fazer, de apoiar ou, simplesmente, aquilo a que somos capazes de fechar os olhos. Ficar calado perante uma injustiça é participar nela.

Fiquei surpreendida com o mea culpa de Biden. Não esperava que reconhecesse que a sua nação cegou com a raiva e que aquilo que fez a seguir não deve servir de exemplo para outras nações em situações que possam ser comparadas, como é o caso de Israel agora. Esteve bem Joe Biden. Nada disto é suficiente para fazer pazes com a política externa dos Estados Unidos, nem nada que se pareça, mas o que é justo é justo. Neste caso, Biden fez duas coisas que merecem elogio: deu um bom conselho e fez uma autocrítica.

Metemos a cabeça debaixo da areia quando os nossos aliados violam o direito internacional e a seguir apagamos da memória coletiva que tenha acontecido. Eternizamos o luto pelo sofrimento daqueles que, de alguma forma, nos são próximos e assumimos que é causa legítima para quase tudo.

Não se diga que a nossa seleção daqueles que são próximos assenta em distâncias ou geografia. Os israelitas e os palestinianos estão à mesma distância e na mesma geografia. É outra coisa muito mais inconfessável. Uma coisa que atira os mortos afegãos, iraquianos, palestinianos e tantos outros para um saco sem fundo. Cabem lá imensos e o saco nunca rebenta.

Preço 'barato'


Não tenho a menor ideia de que os palestinos estão dizendo a verdade sobre o número de mortos... Tenho certeza de que inocentes foram mortos, e esse é o preço de se travar uma guerra...
Joe Biden

'Tudo está acabando'

Não há nada em seu rosto que dê sinais sobre as tragédias recentes que ele viu.

Os corpos sem vida de crianças retirados dos escombros; as tendas cheias de mortos envoltos em panos brancos; edifícios indo abaixo pela força devastadora dos ataques aéreos.

O médico Mahmoud Badawi tem visto a humanidade ser destruída diante de seus olhos.


"Há muitas situações difíceis", diz ele. "Como motorista de ambulância, você se acostuma com o que está acontecendo. Quer sejam mãos, cabeças ou corpos cortados... estamos acostumados com isso."

"Não descansamos."


A ambulância em que ele trabalha corre de uma cena de carnificina para outra. Num beco estreito em Gaza, ele recolhe os corpos de duas crianças vítimas de um ataque aéreo. Um homem se aproxima segurando nos braços um menino que foi gravemente ferido.

Badawi chama um amigo que está ajudando a equipe de emergência a socorrer as vítimas e lhe pede que tome cuidado especial com o menino.

"Nasser, a cabeça dele está aberta."

No entanto, Mahmoud mantém a compostura. Não é que ele não se comova diante de tudo o que vê, mas a necessidade exige que ele se concentre naqueles que podem ser salvos.

Enquanto ele fala com um jornalista da BBC, ouve-se o som de um míssil explodindo.

"Não descansamos muito, com tudo o que está acontecendo. A situação está muito ruim. Agora vamos tentar localizar uma área bombardeada para chegar aos feridos e aos mortos."

Questionado sobre qual é a situação dos suprimentos médicos, Mahmoud diz em tom grave: "Tudo está acabando".

De acordo com a autoridade de saúde liderada pelo Hamas em Gaza, mais de 6 mil palestinos foram mortos nas últimas duas semanas. Cerca de 40% seriam crianças.

A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que quase um terço dos hospitais e dois terços dos centros de atendimento primário tiveram de fechar "devido a danos causados pelos ataques ou pela falta de combustível".

A ONU diz que o seu estoque de combustível está se esgotando e que "escolhas difíceis" terão de ser feitas nos próximos dias sobre quais serviços priorizar.

Israel recusa-se a permitir a entrada de combustível na Faixa de Gaza porque afirma que o produto pode ser levado pelo Hamas — grupo que o país acusa também de estar acumulando combustível.

Em Gaza, os dias e as noites misturam-se impiedosamente. A guerra é constante e está por todo lado desta pequena faixa de terra — a área total da Faixa de Gaza é de apenas 365 km².

Israel ordenou que cerca de um milhão de moradores na parte norte de Gaza evacuassem para o sul, para que suas forças ataquem o Hamas. Mas há contínuos ataques aéreos israelenses no sul de Gaza, para onde milhares de pessoas fugiram.

Fugir ou não, para onde fugir, onde se abrigar — todos os dias e noites em Gaza estão repletos de escolhas difíceis.

A situação faz também com que, para os trabalhadores de emergência, não haja como voltar para casa — para um local seguro.

Quando está trabalhando, Mahmoud se preocupa com a esposa e os seis filhos, assim como eles se preocupam com o médico. Quando o bombardeio é intenso, ele tenta ligar de hora em hora. Mas a comunicação telefônica é difícil em meio à guerra.

"A conexão com a família é muito difícil. Mal temos serviço para poder ligar e saber se eles estão bem ou não."

Mahmoud se esforçou para criar uma família com preocupações sociais. Ele tem orgulho de seus filhos. Uma filha está estudando para ser médica — ela se inspira no trabalho do pai e em sua própria experiência de guerra em Gaza quando criança. Há também um filho que é enfermeiro; outro se qualificou como professor.

À medida que a noite chega, há uma pausa no bombardeio. Mahmoud faz também uma pausa e fica entre a ambulância e uma pilha de escombros. Ele segura uma maca na mão esquerda, aguardando a próxima emergência. A adrenalina diminui. Ele fica brevemente imóvel e seus olhos olham para longe.

Estão cheios de tristeza por tudo o que viram.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


O tempo vale muito mais do que o dinheiro

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.

Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.

O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.

As pessoas dizem «time is money» para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.

A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos. Quando penso no meu pai, todas as minhas saudades são de momentos que perdi com ele. Uma noite, numa cabana no Canadá, confessou-me que o único filme de que gostava era «Um Peixe Chamado Wanda«. Todos os outros eram uma perda de tempo. Perdemos a noite inteira a falarmos e a rirmo-nos disso. Ainda hoje tem graça.
Miguel Esteves Cardoso