sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Brasil de Bolsonaro

 


Bolsa Família mais gordo é uma batalha política final para Bolsonaro

O aumento do Bolsa Família deve ser a grande batalha da contraofensiva de Jair Bolsonaro. Grande e talvez última, no universo das providências racionais, pois se sabe que o tipo pode muito bem apelar para a explosão de alguma bomba no país.

Não se tem dado a devida atenção ao confronto, pois os “formadores de opinião” ou “influencers” não ligam muito para pobres e talvez porque, no caso, a conversa envolva uma solução para os precatórios que não derrube o teto de gastos ou o avacalhe em excesso. Só de ouvir as palavras “precatório” e “teto” as pessoas comuns caem no torpor único do enfado. No entanto, essa decisão deve definir o ambiente socioeconômico e político em que Bolsonaro e seus apaniguados no Congresso devem dar as próximas tacadas.

O prestígio de Bolsonaro foi talhado porque perdeu o apoio dos mais pobres, como é meio óbvio em um país de pobreza bem piorada pela desigualdade, como o Brasil. A diferença maior é que quase qualquer outro governante, pelo menos um com características parecidas com a da humanidade média, poderia ter algum outro recurso de convencimento e simpatia: esperança, caridade, uma tentativa mínima de governar.

O pico da popularidade de Bolsonaro foi em dezembro de 2020, segundo as pesquisas do Datafolha. Tinha 37% de nota “ótimo ou bom” e 32% de “ruim ou péssimo”. Entre os mais pobres, pessoas de famílias com renda de dois salários mínimos ou menos, era mais ou menos a mesma coisa: 37% de aprovação, 27% de desaprovação. No Datafolha desta semana, 17% dos pobres aprovavam o governo; 52% desaprovavam. Entre os mais “ricos” (renda familiar igual ou maior do que dez salários mínimos), ficou na mesma.

Em dezembro, a diferença entre aprovação e desaprovação era de 5 pontos positivos no total da população e 10 pontos positivos entre os mais pobres; agora, é de 37 pontos negativos no geral e de 50 pontos negativos entre os mais pobres.

Bolsonaro precisa iludir alguns pobres a fim de sobreviver política ou eleitoralmente. Para tanto, não sobra muito mais que um Bolsa Família. Assim, precisa de apoio de Congresso e Supremo a fim de aprovar uma gambiarra nos precatórios: de algum modo, deixar de pagar essa dívida a fim de sobrar dinheiro para o auxílio para os pobres. Se não der certo, terá de recorrer a uma gambiarra legal ainda mais audaciosa, como aprovar um crédito extraordinário em 2021 e, mais aberrante, em 2022.

Um Bolsa Família custa cerca de R$ 35 bilhões por ano, com o que se chega a cerca de 14 milhões de famílias com um benefício médio de uns R$ 190 por mês. A fim de dar alguma mexida significativa no programa, chegando a mais gente ou também transferindo mais dinheiro, precisa de pelo menos uns R$ 30 bilhões.

Talvez nem isso resolva. Talvez muito pobre tenha tomado nojo definitivo de Bolsonaro. Por outro lado, ele pode conseguir uns pontos de popularidade porque haverá mais gente empregada ou com algum tipo de rendimento do trabalho. Se Bolsonaro parasse de explodir a economia, melhor ainda; mas é perverso, demente e incapaz. Também por causa disso, contribui para que a inflação não caia. É possível que o efeito da inflação sobre os pobres que ainda tenham alguma renda do trabalho seja tão negativo que a melhoria do emprego não seja suficiente para compensar essa desgraça.

Seja como for, de menos especulativo, com possível efeito real, há a engorda do Bolsa Família. Ainda que dê certo, não é o passaporte para Bolsonaro subir nas pesquisas a ponto de virar o jogo eleitoral. Mas pode bem ser um caminho para manter apoio político-parlamentar para tentar outras tacadas —e sufocar de vez a “terceira via”.

Antropofagia liberada


Existe uma coisa a nos devorar, Marina, sem que possamos fazer nada, a não ser contemplar o esvaziamento até nos transformarmos em uma carcaça. Você também tem a sensação de que estamos todos enlouquecendo serenamente neste Brasil?
Ignácio de Loyola Brandão

Bolsonaro demole a si mesmo e suas criaturas

Se houver amanhã no horizonte do Brasil que está sendo semeado hoje, a pátria que sobrar não terá como não erguer, ainda que às gargalhadas, um monumento de gratidão a quem a governou de 2018 até quase 2022.

Despistado, infiltrado no movimento autoritário e direitista chamado bolsonarismo, ninguém percebeu, nem eu, que Jair Messias, na ação demolidora das instituições democráticas, foi demolindo a si mesmo e suas criaturas. Nas irracionalidades politicamente destrutivas de seus atos, Bolsonaro é consequência e avesso do bolsonarismo. De outro modo, seus próprios cúmplices disseram isso após seus atos do dia seguinte ao do dia da pátria.

Nesse avesso, seu perfil revelou não caber na política de seu tempo. Versão tropical e invertida de Procusto, foi cortando as pernas alheias para não cortar as próprias, a fim de que coubessem no desconforto do corpo redutivo do Estado pessoal e condominial, imaginário, de suas limitações autoritárias.


Política em mãos erradas é uma faca de dois gumes. Isso quer dizer que nesse governo, de amadores, sem o saber e sem a mínima consciência política, Bolsonaro é um importante aliado das oposições. Sua governança errática e aparentemente desorientada, rentista e anticapitalista, sua palavra autoritária e sem sentido, tem aberto brechas e rombos nas toscas concepções civis e militares que são o fundamento ideológico de seu regime anômalo. É desafio a suas vítimas a tomarem a palavra e a tomarem decisões para desconstruir o opressor.

Cada incongruência, cada ato irracional, cada gesto politicamente imprudente, cada bobagem dita e feita, acorda as consciências para as consequências políticas de votar no desconhecido com a intenção de votar contra alguém conhecido.

Nas manifestações de 12 de setembro, numerosos participantes que pediam o impedimento de Bolsonaro haviam sido ativistas dos procedimentos que, na eleição de 2018, o levaram ao poder.

Fatos políticos têm conexões invisíveis, a alguma distância dos atores que estão no palco das encenações. Pequenos fatos podem se tornar causa de grandes consequências, ainda que lentas. Se retornarmos ao espetáculo acabrunhante da reunião de governo de 22 de abril de 2020, poderemos constatar, nas quedas em cascata de gente presunçosa e supostamente poderosa, o quanto os donos do poder não são necessariamente donos da verdade política do que fazem. Seus efeitos se desdobram antagonicamente.

O desencontro entre as intenções governistas das manifestações do dia 7 e a reação de governistas ao que foi dito e ao que resultou do que dito pôs em evidência alguns dos limites das cumplicidades antipolíticas e desinformadas.

Esse tipo de alienação política é decorrência dos mecanismos de reprodução das relações sociais, de recriação da ordem e do que lhe é próprio e reiterativo. Mas lhe é própria, também, a acumulação de contradições que tornam a descontinuidade e a ruptura inevitáveis e necessárias.

Bolsonaro, em todos os seus atos anômalos e anti-históricos, é a personificação irremediável de nossas contradições. O que ele faz não é o que ele pensa estar fazendo. Seus pronunciamentos, seus inimigos imaginários, são expressões das falsas certezas do poder.

Não obstante, nas relações sociais e no poder que lhes corresponde, sempre há vontades e protagonismos não capturados. Insubmissos porque a situação social dos que ficam à margem não se encaixa nas soluções dos que marginalizam e disso se beneficiam. É o que estamos vivendo intensamente e é o que desmonta o presente e o futuro do bolsonarismo.

Essas situações sociais tendem a se agrupar e a se identificar antagonicamente aos fatores de continuidade e reprodução social e política. São irredutíveis aos requisitos de dominação dos grupos e das categorias que de sua cumplicidade precisam.

São situações que podem se desdobrar na consciência de que suas necessidades colocadas à margem são necessidades radicais, cujo atendimento pede inovações sociais e políticas, e não repetições e reiterações. O que depende de uma coalizão política insurgente desses resíduos, demonstrou-o Henri Lefebvre.

Sua viabilidade depende, por sua vez, de mediações políticas que lhe traduzam o querer social em querer político e em projeto que lhe abra espaço e lugar numa nova estrutura de poder, o da diferença compartilhada e das carências próprias reconhecidas.

Diferentes expressões desse inconformismo residual ganharam visibilidade justamente nesses dias à margem da teatralização do ensaio totalitário de um golpe de Estado proclamado. Manifestações de diferentes sujeitos que falam movidos por valores históricos que se tornam motivação de insurgência em relação a valores redutivos, amorais e antissociais.

O bolsonarismo e as cobaias humanas

O governo Bolsonaro já produziu um imitador de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda do nazismo. Agora faz lembrar Josef Mengele, o médico que fazia experimentos macabros em Auschwitz.

O doutor ficou conhecido por usar prisioneiros como cobaias. Tratava seres humanos como ratos de laboratório, sob inspiração de uma ideologia que pregava a “higiene racial”.

Associada à barbárie nazista, a expressão “cobaias humanas” é citada no relatório da comissão de juristas que aconselha a CPI da Covid. O documento defende que o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Eduardo Pazuello sejam denunciados ao Tribunal Penal Internacional pela prática de crimes contra a humanidade.

Os juristas classificam a gestão da pandemia como um ataque à população civil. O governo sabotou medidas sanitárias, negou assistência a indígenas, retardou a compra de vacinas e apostou na tese da imunidade de rebanho, que acelerou a circulação do vírus.

O relatório descreve a crise de Manaus como um “caso exemplar de desprezo à vida”. Afirma que a cidade virou palco de um “experimento pseudocientífico” com a distribuição de remédios ineficazes. Em janeiro, os hospitais entraram em colapso e dezenas de pacientes morreram asfixiados.

As investigações da CPI indicam que o governo não foi o único a tratar doentes como cobaias. Um dossiê enviado aos senadores afirma que a seguradora Prevent Senior ocultou mortes de pacientes que participaram, sem saber, de um estudo com as mesmas drogas.

A pesquisa foi repassada a Bolsonaro, que a usou para fazer propaganda do “tratamento precoce”. A empresa negou as acusações, reveladas ontem pela GloboNews, e disse ser vítima de “denúncias infundadas”.

A professora Deisy Ventura, da Faculdade de Saúde Pública da USP, lembra que o envolvimento do setor privado é uma constante na história dos crimes contra a humanidade. “Empresas que têm afinidade com o governo costumam se prestar a este papel”, afirma.

Depois da rendição dos nazistas, Mengele fugiu para a América do Sul. Terminou seus dias no Brasil, escondido sob identidade falsa. Se voltasse hoje ao país, o doutor teria chance de conseguir um emprego em Brasília.
Bernardo Mello Franco 

Pensamento do Dia

 


Sair das trevas, derrotar a barbárie

Os últimos meses do ansiado 2022 serão ainda mais trágicos? Não sabemos se os manifestantes antidemocráticos do dia 7 de setembro vão sair às ruas com uma arma nas mãos e uma ideia criminosa na cabeça; tampouco sabemos como vão se comportar as instituições, principalmente as Forças Armadas, que, numa democracia, têm o dever constitucional de garantir a posse do próximo presidente.

Jair Messias Bolsonaro atribuiu sua fala golpista no Dia da Pátria ao “calor do momento”. Esse calor causa calafrios e não é nada momentâneo, pois os discursos autoritários de Jair datam de seus verdes anos. Será que algum dia essas falas infames terão fim? Ou o “calor do momento” seria uma tradução muito livre, quase metafórica da frase latina memento mori? Um lembrete: não me refiro à morte física, e sim à morte política do chefe e de seus filhos, igualmente antidemocráticos e fãs ardorosos de fake news.

Suposições à parte, tudo indica que falta pouco mais de um ano para o fim do pesadelo. Não foi um péssimo sonho, e sim a noite mais longa e pavorosa desde o fim da ditadura civil-militar, fonte inspiradora do atual governo, capitaneado por um sujeito totalmente desqualificado para qualquer cargo, e não apenas público.


Oxalá o tempo – essa abstração ingovernável – avance como um louco, dando longas e rápidas passadas a fim de alcançar logo o 2 de outubro de 2022. Mas o anseio por um tempo veloz, contrário a seu ritmo próprio, não impede que o STF e o Poder Legislativo ajam com rigor para conter não apenas a enxurrada de políticas públicas destrutivas, mas também o fluxo ininterrupto de ilícitos, arbítrios, falácias, provocações, ameaças e imprecações brutas deste governo e seus seguidores extremistas. Já estamos vivendo em pleno caos, e a distância entre o caos e a anomia é mínima.

Terão sido quatro anos de angústia, desemprego, miséria e luto para milhões de brasileiros. Governos anteriores acertaram em algumas áreas, erraram feio em outras, foram razoáveis aqui e ali; mas este foi desastroso, para não dizer destruidor, em todas. E, vale lembrar, com a cumplicidade de muitos deputados federais e senadores, chefiados pelos presidentes da Câmara e do Senado. Parece que este último, dotado de uma frieza intensa e de uma tibieza estranha, alimenta o sonho de ser presidente do País. Por enquanto, ele e Lira são cúmplices deste Brasil caótico.

Aliás, a lista de cúmplices – diretos e amoitados – só caberia num imenso volume, intitulado Os Comparsas do Opróbrio. Não seria um livro de ficção. Pelo menos, não agora, neste clima melancólico de luto e angústia. E ficção convém ser escrita quando o presente – o tempo das tragédias e de seus traumas – já se distanciou.

Que primavera nos espera? Ou: o que esperamos quando ela chegar? Apagões? Carestia e desemprego crescentes? Mais incêndios e tristeza neste luto prolongado? Primavera será prenúncio de um verão sufocante?

Em 2018, milhões de brasileiros já sabiam – e agora outros milhões sabem – como e por que entramos nesta escuridão. Resta-nos saber como encontrar as sendas e a sabedoria para sairmos das trevas.

Sair das trevas significa derrotar a ignorância e a barbárie. Se isso não acontecer, vale perguntar, parafraseando o grande poeta: nossos olhos vão reaprender a chorar um segundo dilúvio?

Golpe militar dá trabalho, e Bolsonaro não gosta de trabalhar

O pastiche que se seguiu às sérias e graves ameaças proferidas por Jair Bolsonaro em cima de dois palanques no 7 de Setembro não permite que analistas e tomadores de decisões se equivoquem quanto à natureza golpista do presidente brasileiro, mas é um exemplo lapidar da ojeriza que ele tem a trabalho, planejamento, estudo e articulação.

Dar um golpe exige afinco, obstinação e capacidade gerencial. Qualquer que seja a natureza da virada de mesa que fazem postulantes autoritários de qualquer cepa política, de Putin a Maduro, para ficar nos atuais, requer que se tenha um plano com começo, meio e fim e um grupo — militares, políticos, burocratas, ou de preferência todos esses alinhados — a lhe dar apoio e seguimento.

A quartelada desastrosa de Bolsonaro não tinha nada disso. Quando Luiz Fux chamou o comandante militar do Planalto à fala diante da investida de caminhoneiros e outros arruaceiros bolsonaristas em direção à Praça dos Três Poderes, na noite da véspera das manifestações, já saiu da conversa com a constatação de que as Forças Armadas não estavam embarcadas em nenhum roteiro golpista minimamente esquadrinhado. E não estavam dispostas a avançar aquele sinal.

Da mesma forma, as Polícias Militares, que estão sendo cevadas pelo bolsolavismo à base de lavagem cerebral e promessa de casa própria, também não tinham, àquela altura, um grau de adesão suficiente para fazer com que alguns ou muitos motins estourassem Brasil afora num sinal de alerta para os governadores.

Um antigo aliado que hoje acompanha de longe os passos claudicantes do governo do capitão é testemunha do completo desinteresse de Bolsonaro por tudo o que exija um mínimo de trabalho.

Lembra que, na campanha, Paulo Guedes preparava extensos calhamaços de material sobre economia para ele, que Bolsonaro largava displicentemente em cima da mesa onde estivesse e ia embora fazendo alguma piada de tio do pavê. Essa rotina segue no governo, vivida por ministros que tentam, em vão, despachar temas complexos com o chefe.

O presidente do Brasil ocupa sua mente com o lixo da internet, que tenta proteger revogando marcos legais que impedem sua propagação e sua monetização, com as obsessões de sempre e com a campanha de 2022. Toda a agenda do governo orbita em torno dessa pauta pobre, que condena o país à estagnação geral que atravessa, da economia à educação, da saúde às artes.

Graças à aversão do mito por fazer aquilo para o que foi eleito em 2018 — ou seja, administrar o país —, mais de 200 milhões de pessoas atravessam dias, semanas, meses atadas a uma discussão insana de problemas inexistentes enquanto os reais não são encaminhados.

Uma análise acurada da agenda diária de Bolsonaro dá conta de sua completa inapetência pelas questões de Estado e do dia a dia do Executivo.

Sai do Alvorada calmamente para conversar com os desocupados que vão lhe puxar o saco no cercadinho, concede entrevistas a emissoras de rádio sobre os temas distópicos que dominam sua cabeça, despacha com um ou dois ministros e cedo já volta para casa.

A coisa muda de figura quando pinta alguma viagem para inaugurar obra ou pelo menos lançar uma placa de obras vindouras, eventos que o presidente brasileiro gosta de promover para dar a falsa ideia de que sua gestão tem entregas a fazer.

Não nos esqueçamos, claro, de seu compromisso mais frequente como presidente. Reuniões ministeriais? Encontros com a base aliada? Não, não. É a tradicional live das quintas-feiras, com direito a sanfoneiro cafona e muita mentira, com uso de recursos públicos (servidores, equipamentos, palácio e o que mais vier) para fazer campanha antecipada.

Alguém assim, avesso ao batente, só poderia achar que bastava subir num caminhão de som para o golpe acontecer. Não foi assim. Mas que os que tiram sarro dele não se enganem: a incompetência não fará Bolsonaro desistir do intento golpista. Ele é da sua natureza, assim como a aversão ao trabalho.

Aplicar drogas em humanos sem sua autorização lembra Mengele

Nada se compara aos horrores nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, nada. Mas feita a ressalva, alguns casos guardam uma remota e preocupante semelhança.

Josef Mengele foi um oficial alemão da SS, organização paramilitar do Partido Nazista, e médico no campo de concentração de Auschwit onde foram mortos milhares de judeus.

Ele escolhia as vítimas a serem mortas nas câmaras de gás, separando-as das outras que seriam submetidas a experimentos humanos e que depois acabariam mortas também.



Nunca foi preso. Fugiu para a Argentina, o Paraguai, e de lá para o Brasil onde entrou em 1960 e morreu 19 anos depois por afogamento de uma praia de Bertioga, cidade do litoral paulista.

Senadores se lembraram dele ao receber documentos sobre o uso de pacientes como cobaias em pesquisa realizada pela Prevent Senior para testar a eficácia da cloroquina contra a Covid.

A Prevent Senior é uma das maiores operadoras de saúde do Brasil. A cloroquina foi aplicada a pacientes sem que eles ou suas famílias soubessem. Mortes foram ocultadas.

A CPI recebeu um farto material com denúncias para questionar o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior quando ele comparecesse para depor, mas ele não compareceu.

Entre as denúncias está a prescrição indiscriminada de cloroquina, azitromicina e ivermectina, o chamado Kit Covid, para pacientes que tinham o plano da empresa.

O senador Otto Alencar (PDS-BA) revelou que os médicos da operadora que se recusaram a prescrever o Kit Covid foram ameaçados de demissão.

Até hoje, segundo reportagem da GloboNews, a indicação para a prescrição de remédios do Kit Covid é mantida no guia da Prevent, contrariando uma recomendação do Ministério da Saúde.

A Prevent fez, na capital paulista, um estudo com 636 pacientes diagnosticados com casos leves e graves de Covid. O estudo começou em março do ano passado.

Na ocasião, o diretor da Prevent, Fernando Oikawa, deu uma ordem aos médicos que contraria as normas éticas: “Não informar o paciente ou familiar, sobre medicação e nem sobre o programa”.

Segundo uma planilha interna da Prevent Senior, nove pacientes monitorados morreram e seis deles haviam tomado hidroxicloroquina e azitromicina.

Em 18 de abril, citando o CEO da Prevent Senior, Fernando Parrillo, o presidente Bolsonaro publicou que, entre os pacientes que optaram pelo medicamento, “o número de óbitos foi zero”.

Na época, o coordenador do estudo, Rodrigo Esper, mandou um áudio para um grupo de médicos:

“A gente está revisando todos os 636 pacientes do estudo, já tem mais ou menos uns 140 revisados, mas a gente precisa fazer a força-tarefa para acabar amanhã. Esses dados vão mudar a trajetória da medicina nos próximos meses no mundo. Está bom? Didier Raoult, eu entrei em contato com ele ontem, ele citou o nosso trabalho no Twitter, eu respondi a ele e então a gente precisa ser perfeito o dado, tá? Até o presidente da República citou a gente. Esse áudio tem que ficar aqui, não pode sair.”

Didier Raoult é o médico francês que pregava o uso da hidroxicloroquina no combate à Covid. Ele já admitiu que estava errado e que a medicação não reduz o agravamento da doença.

Mesmo depois do recuo de Raoult, Bolsonaro seguiu insistindo no uso da cloroquina. Em junho último, no Espírito Santo, disse:

“Fui acometido do vírus e tomei a hidroxicloroquina. Talvez eu tenha sido o único chefe de Estado que procurou remédio para esse mal. Tinha que aparecer alguma coisa. Ouvi pessoas que tinham conhecimento sobre o caso, mas quando falei que aquilo poderia ser bom, a oposição abriu uma guerra contra a gente.”

Brasil sofre com abismo em nível de leitura entre jovens de alta e baixa renda

A renda e a posição socioeconômica têm grande influência sobre a capacidade de leitura e aprendizado dos jovens - e essa desigualdade é mais acentuada no Brasil do que em grande parte do mundo, aponta a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em seu relatório Education at Glance, divulgado nesta quinta-feira.

Por sua vez, a capacidade de leitura e interpretação de textos afeta a habilidade dos jovens em se desenvolverem social e profissionalmente e exercerem sua cidadania.

A OCDE usa como base comparativa os resultados de leitura do Pisa 2018, o exame internacional aplicado pela entidade em jovens de 15 anos nos 38 países-membros do grupo e em Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia, Rússia, Arábia Saudita e África do Sul.


A habilidade de leitura é definida pela OCDE como a "capacidade de entender, usar e refletir sobre textos escritos de modo a conquistar objetivos, desenvolver conhecimento e potencial e participar da sociedade".

Em uma escala de 1 a 6, o nível de leitura considerado básico é o 2 - estágio em que os estudantes "começam a demonstrar competências que vão lhes permitir participar de modo efetivo e produtivo na vida como estudantes, trabalhadores e cidadãos".

No Pisa 2018, os alunos brasileiros pontuaram, em média, 413 em leitura (para efeitos comparativos, a China, que encabeça o ranking, pontuou 555 nesse quesito), mantendo-se praticamente estagnado na última década.

E essa média esconde disparidades sociais, que foram exploradas no relatório apresentado nesta quinta.

No Brasil, diz a OCDE, a proporção de jovens da camada mais pobre que conseguiu alcançar o nível 2 em leitura do Pisa foi 55% menor do que a de jovens brasileiros de renda mais alta.

Essa disparidade é 26 pontos percentuais superior à média dos países da OCDE, de 29%, onde também se observa desigualdade em leitura entre alunos ricos e pobres.

"Entre os fatores que influenciam o desempenho na educação, o status socioeconômico tem o maior impacto nas habilidades de literacia dos jovens de 15 anos, mais do que seu gênero ou país de origem", diz o relatório Education at Glance.

No Brasil, porém, observou-se "uma das maiores disparidades de performance entre os países que têm dados disponíveis", prossegue o texto.

O tema havia sido abordado pela OCDE em maio deste ano, quando a entidade divulgou que, no Brasil, apenas um terço (33%) dos estudantes havia sido capaz de distinguir fatos de opiniões em uma das perguntas aplicadas no Pisa.

Na ocasião, o diretor de educação da OCDE, Andreas Schleicher, também se disse preocupado com o aumento no "abismo cultural" entre estudantes de classes sociais mais avantajadas e os mais pobres em todo o mundo.

Enquanto entre os estudantes mais ricos o número de livros em casa se manteve estável entre 2000 e 2018, esse número caiu consideravelmente entre os estudantes mais pobres globalmente.

O status socioeconômico segue tendo impacto na vida dos jovens ao diminuir seu acesso ao ensino superior e, desse modo, deixá-los mais vulneráveis ao desemprego, prossegue o relatório.

O relatório lançado pela OCDE nesta quinta aborda diferentes aspectos da desigualdade na educação global, desde questões de gênero até os impactos da pandemia no ensino.

No caso do Brasil, um dos pontos destacados é o fato de as mulheres terem, em média, mais tempo de educação que os homens, mas enfrentarem barreiras adicionais no mercado de trabalho.

Embora mais mulheres brasileiras de 25 a 34 anos tenham diplomas do ensino superior do que homens (27% contra 20%, segundo dados de 2018), elas têm mais probabilidade de estarem desempregadas do que eles.

A OCDE cita que, enquanto 85% dos homens com ensino superior estavam empregados no Brasil em 2018, entre as mulheres com a mesma qualificação essa taxa era de 77%.

Essa disparidade foi acentuada na pandemia, conforme um estudo recente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que apontou que mulheres estavam, junto a negros e jovens, entre os grupos mais vulneráveis ao desemprego no país.

No que diz respeito a gastos na educação, segundo os dados de 2018, o Brasil gastou porcentagem do PIB (5% na época) semelhante à média da OCDE.

No entanto, quando se observa o gasto por aluno (da educação básica até o ensino superior), ele é de apenas um terço da média gasta pelos países da OCDE: US$ 3,2 mil por estudante anualmente, contra US$ 10 mil por estudante na média da OCDE.

Os dados mais recentes apontam uma redução nos investimentos na educação básica pública do país: segundo o Anuário do setor, produzido pela entidade Todos Pela Educação, Estados e municípios brasileiros gastaram R$ 21 bilhões a menos em 2020 em relação ao ano anterior - e essa redução de gastos ocorreu justamente durante a pandemia, quando o setor enfrentou desafios sem precedentes.

Nesta quarta-feira, o Senado aprovou em primeiro turno uma PEC (proposta de emenda constitucional) que isenta de responsabilidade gestores públicos que não tenham investido o percentual mínimo de 25% de receitas com educação em 2020, por conta da pandemia. O texto da ainda precisa ser votado em segundo turno e seguir à Câmara dos Deputados.

Defensores alegam que o ajuste é necessário por conta da queda de arrecadação e desequilíbrio fiscal na pandemia; críticos, porém, afirmam que a proposta abre perigosos precedentes, traz retrocessos a um setor já duramente abalado pelo tempo de aula perdido durante o fechamento das escolas e "premia" gestores que não se dedicaram à educação em um momento crítico como o da implementação do ensino remoto.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Democracia da jabuticaba

Novo relatório da Reforma Administrativa apresentado hoje pelo Dep. Arthur Maia traz incontáveis retrocessos anulando qualquer impacto fiscal e incluindo inúmeras concessões às corporações. Repito, estamos numa Democracia Jabuticaba Brasileira!
Salim Mattar, ex-secretário de Desestatização do governo de Jair Bolsonaro

Você banca Bolsonaro e não chia

Não olhe agora, mas Jair Bolsonaro, como se não bastasse, vive às custas de você desde 1973. Foi quando, aos 18 anos, ele entrou para o Exército e, como todo soldado, passou a ganhar o soldo que sustenta os militares, extraído dos nossos impostos. Enxotado da força em 1988, transferiu-se para o outro lado da vida mansa, a política. Elegeu-se vereador em 1989 e deputado federal em 1991, ambos pelo Rio, e, durante 30 anos de mamata —nunca tapou um buraco ou aprovou um projeto—, construiu notável patrimônio imobiliário.

E não apenas com seu salário e infinitos benefícios parlamentares —um deles, apartamento pago em Brasília, que ele nunca dispensou mesmo tendo imóveis lá, e que usou para “comer gente” (mulheres, presume-se). Donde você pagou por cada bimba que Bolsonaro levou para a cama no período. Não contente, Bolsonaro elegeu três filhos para eternizar a quadrilha e, entre ex-mulheres, vigaristas e laranjas, todos parentes entre si, empregou 102 pessoas, de quem, dizem, ele e os seus extorquiam 80% do salário. Dinheiro este igualmente drenado dos impostos que você deixou na fonte.


Presidente desde 2019, Bolsonaro usa todos os dias de seu mandato para nunca mais passar a faixa, e tudo pago por você. Ponha nisso a compra de políticos, PMs e juízes e as já quase mil viagens de campanha pelo país, o que exige o deslocamento da equipe que prepara sua chegada e estadia, comitiva pessoal, convidados e, por baixo, cem seguranças (aqueles sujeitos de terno mal cortado e óculos escuros, olhando para os lados, que se veem ao seu redor). Você paga por tudo isso e não chia. Paga também pela gasolina que alimenta os aviões, motos e lanchas que ele cavalga.

Ciente de que não se reelegerá, Bolsonaro precisa agora de um golpe —cujas tentativas é você também quem banca.

Um dia, Bolsonaro será preso e terá sua cadeia igualmente custeada por nós. Aí, sim.

Você foi o garçom no jantar que comemorou o acordão

O jantar comemorativo do acordão costurado pelo ex-presidente Michel Temer, que conseguiu mais uma vez manter isso aí, viu, teve como anfitrião o senhor Naji Nahas, que quebrou a Bolsa do Rio de Janeiro em 1989, acusado de comandar um esquema especulativo que usava mais de 100 laranjas para inflar os preços de ações que eram do seu interesse. O americano Bernard Madoff morreu na cadeia, com o nome enxovalhado depois que a sua bilionária pirâmide financeira desabou; o libanês-brasileiro Naji Nahas será enterrado em túmulo esplêndido, pranteado por poderosos brasileiros que com ele dividiram mesa para salvar o Brasil da honestidade e da decência.


Engana-se quem pensa que foi Jair Bolsonaro que foi feito de bobo no jantar que teve como sobremesa uma imitação do presidente da República feita por um jovem humorista, filho de um velho de guerra. Os brasileiros é que, mais uma vez, foram feitos de bobos: o acordão que salvou a pele do atual presidente da República, a pretexto de nos preservar de uma crise institucional, como se crise já não houvesse, prolonga a tragédia de um país que hoje tem renda per capita menor do que a da República Dominicana, terá perdido 600 mil vidas por causa da pandemia e conta com uma massa de desempregados e miseráveis jamais vista. Prolonga porque, para além de continuarmos a ter de suportar um energúmeno no Palácio do Planalto, a permanência de Jair Bolsonaro abre uma avenida para Lula ser eleito presidente da República em 2022, enquanto João Doria rebola na avenida Paulista, para meia dúzia de gatos pingados que se acham muito politizados ao chamar Bolsonaro de “corno”.

Com Lula, se tudo der certo, teremos um crescimento medíocre, numa casa minha vida que não tinha teto, não tinha nada, com crediários a perder de vista e um economista como Marcio Pochmann no comando do espetáculo. O sujeito quer reprisar o Brasil de “projetos grandiosos”, que nunca teve final feliz, e acha que o país tem de conquistar o “espaço sideral” para sair do atoleiro. Ele disse isto ontem, em entrevista ao UOL: “Brasil não tem GPS. Como podemos dizer que Brasil é país autônomo quanto todo o seu sistema de informação e comunicação vinculado ao espaço sideral, portanto à internet, depende de empresas que não são brasileiras?”. Estaremos perdidos também no espaço, depois de furarmos o teto com fogos de artifício.

A tragédia brasileira já está com a próxima temporada contratada, e a outra, e a outra. Quem ganha com ela é esse tipo de gente que se reuniu na casa do probo Naji Nahas, para festejar o acordão. Gente que quer o povo brasileiro apenas uniformizado de garçom, para lhe servir vinhos de 30 mil reais a garrafa — escolhidos por um especulador e pagos sempre pelo garçom.

Você é o garçom.

Por que julgamos mais duramente as decisões dos pobres

“Para vocês seria porcaria, para estes pais não era porcaria. Quando falam assim, não me ofendem, ofendem a eles.” Quando Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madri, defendeu com essas palavras os menus da Telepizza para crianças vulneráveis, talvez o debate subjacente não fosse sobre a qualidade dos alimentos. Porque os especialistas não tinham dúvidas. Um estudo recentemente divulgado pela Universidade Harvard mostra que talvez o debate não fosse, na realidade, sobre o que consideramos aceitável para famílias pobres. Esse limite do aceitável é mais baixo para pessoas com menos recursos? Pesquisadoras da universidade dos EUA queriam responder a essa pergunta e as conclusões de seu trabalho são reveladoras: “Temos um padrão duplo preocupante”.


Por meio de 11 experimentos, as pesquisadoras mostram que pessoas de baixa renda são julgadas de modo mais negativo por consumirem os mesmos itens do que outras com renda mais alta, o que acrescenta uma pressão social extra às restrições materiais que já enfrentam. Mas não é por terem menos para gastar, mas porque se considera que suas despesas deveriam ser mais parcimoniosas. “Descartamos a explicação de que pessoas com renda mais alta podem consumir socialmente mais simplesmente porque podem pagar mais; pelo contrário, observamos que para as pessoas de baixa renda se considera socialmente que tenham de consumir menos porque se supõe que necessitam de menos”, diz Serena Hagerty, principal autora do artigo. Segundo Hagerty, o estudo revela que as necessidades básicas têm que ser mais básicas para os pobres.

Em um dos testes, a história de Joe é apresentada a dois grupos diferentes: para um, esse personagem tem baixa renda, para outro, tem uma boa renda. Joe ganhou 200 dólares (1.070 reais) em um sorteio, tudo bem se gastar o dinheiro em uma nova televisão? Se Joe é de baixa renda, isso é muito mais malvisto do que se tem um bom padrão de vida. Curiosamente, há um terceiro grupo, o de controle, ao qual não se conta nada sobre a situação financeira de Joe. Para este grupo, é tão admissível que o Joe neutro compre a TV como para o grupo do Joe rico. Só é malvisto pelo que tem como referência o Joe pobre.

À medida que o estudo, publicado na PNAS, vai mais fundo, os experimentos se tornam mais complexos para delinear melhor os mecanismos pelos quais as pessoas são julgadas de acordo com seus recursos. Por exemplo, em outro teste a pergunta é que cartão-presente dariam ao Joe pobre ou ao Joe rico, um de 100 dólares para comprar comida ou outro de 200 dólares para uma TV? O pobre Joe recebe principalmente o cartão da comida, enquanto o Joe rico ganha o que lhe permite comprar uma TV, ou seja, o dobro do dinheiro. No cômputo final, em média, o Joe pobre recebe 125 dólares e o rico, 152. Ou seja, mesmo quando se trata de um presente, quem tem mais, merece mais, e quem tem menos, ganha um presente inferior. Mesmo que saibam que Joe disse expressamente que gostaria de uma nova TV, os participantes do estudo dão muito menos TVs ao Joe pobre do que ao rico.

“Uma implicação desse duplo padrão é que as pessoas parecem mais confortáveis dirigindo e limitando as decisões de gastos dos pobres”, resume Hagerty. Este estudo é muito revelador no contexto atual, como indicam essas pesquisadoras, em que se discute a promoção da renda mínima em países como a Espanha. “Uma crítica potencial à renda vital mínima pode ser que as pessoas de baixa renda gastarão o dinheiro em coisas erradas”, diz Hagerty sobre o caso espanhol. “No entanto, é provável que esse medo resulte em primeiro lugar de uma visão limitada de quais produtos são considerados ‘necessários’ para pessoas de baixa renda”, diz ela.

É algo claro em outro de seus experimentos, como o que mostra 20 objetos de consumo cotidiano que uma família poderia comprar: jornais, móveis, relógios, computadores, equipamentos esportivos, etc. Em todos é mais malvista sua compra por uma família de baixa renda, exceto em um item: produtos de higiene corporal. Com essa mesma abordagem propuseram 20 critérios a serem levados em consideração por uma família que procure uma nova casa: garagem, ar-condicionado, bairro barulhento, proximidade de áreas de lazer, etc. A aquisição de todos esses itens é mais malvista quando se considera uma família de baixa renda, exceto em dois deles: que a casa esteja perto de um supermercado e do transporte público. O mais revelador é que se considera supérfluo que uma família pobre procure uma casa perto de um hospital ou em um bairro seguro, o que implica que, mesmo com pouca renda, até buscar segurança é considerado um capricho desnecessário.

A segurança como um luxo para famílias sem recursos também aparece em outro experimento do estudo, no qual se propõe a compra de um carro com um sistema de câmera traseira. Mesmo quando se explica aos participantes que é um item adicional importante para a segurança do veículo, isso é considerado menos necessário para uma família de poucos recursos. É malvisto que os pobres comprem um objeto que para os ricos é fundamental para sua segurança. De novo, não é que o rico tenha mais condição, é que os vulneráveis não merecem tanto, mesmo que esteja em jogo sua saúde.

“A principal contribuição deste estudo é que definimos as necessidades a partir dos recursos que as pessoas têm, porque o que definimos como necessário ou supérfluo muda de acordo com a renda da pessoa”, afirma o economista Luis Miller, pesquisador do CSIC. E acrescenta: “Isso tem implicações importantes, sobretudo no que chamamos de armadilha da pobreza, esse círculo vicioso que nega os recursos necessários para se ter acesso a mais recursos”.

Quando alguém critica um sem-teto ou um refugiado por ter um smartphone é porque isso é considerado um capricho desnecessário, embora para todos seja uma ferramenta imprescindível para nos relacionarmos com nossos familiares, empregadores ou clientes. Sem esse tipo de recurso, é impossível romper o círculo de que Miller fala: sem uma casa, chuveiro, telefone celular etc., é impossível conseguir um emprego que permita sair da armadilha da pobreza.

“Há a ideia de que, se você ajuda uma família, faz com que ela trabalhe menos. Um projeto de monitoramento analisou isso, e não é assim”, disse recentemente Esther Duflo, ganhadora do Prêmio Nobel de Economia. “Isso não os torna mais preguiçosos, como também lhes proporciona o bem-estar e a segurança que os tornam mais produtivos “. Todas as pessoas precisam sair da “visão de túnel” imposta pelas carências, essas penúrias que as impedem de tomar decisões calmas, como explicaram Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir em seu livro Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações (Editora Best Business): “A escassez arrebata nossa atenção e Isso nos proporciona um benefício muito estreito: temos um desempenho melhor ao nos ocuparmos das necessidades mais prementes. Mas, de modo mais amplo, pagamos um custo: negligenciamos outros assuntos e somos menos eficientes no resto de nossos afazeres cotidianos”. Dar uma TV ao Joe pobre talvez lhe proporcione um estímulo emocional que lhe permita acordar mais animado pela manhã. Ou não. Mas, em geral, pensamos que ele deveria se contentar com o que tem e se concentrar em comprar o imprescindível para subsistir.

Miller acredita que esses mecanismos ocorrem na Espanha de uma maneira mais sutil, porque lá as pesquisas mostram claras preferências pela redistribuição e não há com tanto peso “a figura do libertário dos EUA, aquele que diz que cada um tem o que merece”. E acrescenta: “Aqui esses mecanismos têm mais a ver com a necessidade de nos diferenciarmos dos pobres”. Segundo explica Hagerty por e-mail, a renda dos participantes do estudo não influenciou em suas opiniões: independentemente de sua renda, todos reduziam o círculo das compras aceitáveis para o Joe pobre, mesmo que pusessem em risco sua saúde, como uma cadeirinha para as crianças no carro, um bairro sem criminalidade ou acesso próximo a um posto de saúde, que são vistos quase como caprichos somente quando a pessoa tem pouca renda. “O fato de darmos menos margem de manobra às decisões dos economicamente desfavorecidos parece expressar noções mais básicas de mérito e autonomia”, diz a pesquisadora.

Voltando ao menu da Telepizza, Hagerty tem uma resposta clara à luz de seu trabalho: “Essa visão parcial da necessidade também pode explicar por que deram comida porcaria às crianças de baixa renda [em Madri], quando a mesma comida pode não ser adequada para crianças de alta renda”. E ela ressalta que suas descobertas sugerem que debates como esse estão na realidade fazendo duas perguntas diferentes que terão duas respostas substancialmente diferentes: O acesso a alimentos saudáveis é necessário? O acesso a alimentos saudáveis é necessário para as pessoas de baixa renda? “Isso precisa ser levado em consideração no debate político: como são feitas as perguntas relevantes em política e que preconceitos implícitos podem influir nas respostas?”.

Brasil do bem comemora desgraça

 


Inconstitucionalissimamente

Menino, aprendi que esta seria a maior palavra da língua portuguesa. Ao crescer, foi curioso constatar que os “palavrões” eram curtos e careciam de explicação. O inconstitucionalissimamente, porém, exigia um habitual legalismo — uma tintura de “classe” — para ser entendido. O pior é vê-lo em prática, ao vivo e em cores, pelo supremo mandatário da nação!

Para ser inconstitucional, há que, primeiro, ser constitucional. Mandamentos codificam pecados, mas as redundantes falsidades políticas são reguladas por Constituições que governam governos.

Num regime de igualdade de todos perante a lei, há também imperativo: a fidelidade ao cargo e ao programa eleitoral. A eleição é um contrato coletivo a cumprir, jamais a sabotar.


Constituir é ordenar. Um leão é símbolo da realeza porque a realeza precisa do constitucionalismo inato e fixo da fera. Um rei está para um leão, assim como a altivez e a fidelidade constitucional da fera estariam para o rei.

Foi Deus inconstitucional quando nos puniu com o dilúvio? É um caso para teólogos. Bolsonaro não é o primeiro. Pois, quando um rei trai ou abandona seu reino, como foi o caso da fuga da Corte lusa para o Brasil, há uma violenta inconstitucionalidade. A fuga de quem personificava o povo tem consequências práticas, políticas, econômicas, religiosas e morais — ou melhor, imorais para os portugueses abandonados por seu sagrado rei.

O palavrão jurídico me fez descobrir que insultos sem remédio são claros; do mesmo modo que um presidente constitucionalmente eleito que abusa dos privilégios e do imenso simbolismo do seu cargo para subvertê-lo em nome de coisa alguma atua inconstitucionalissimamente.

Bolsonaro, ao fazer cabo de guerra com o STF e o TSE, produz uma insegurança que, num mundo globalizado, pode arruinar o Brasil. Tem de ser detido ou banido do papel por — como tenho afirmado aqui — incapacidade e recusa a desempenhá-lo com o devido respeito e a obrigatória compostura demandados pelo cargo.

Em sistemas eleitorais meritocráticos e competitivos, a renúncia à Presidência é um trauma, que vivemos na triste figura de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961 — quando eu, moço, realizava trabalho de campo entre os índios gaviões numa desconhecida Amazônia paraense, e os ministros militares impediram a posse do vice-presidente João Goulart, houve um procedimento inconstitucional. Romperam deliberadamente com a Constituição e introduziram um desvio pela força das armas, abandonando o campo legal-burocrático. Um “você sabe com quem está falando?” dado contra o Brasil.

O golpe é um desfecho quando dois princípios entram em choque. Um deles é “constitucional” — se morre o rei, ele é sucedido por um descendente; se o presidente abdica pela maluquice das “forças ocultas”, o vice-presidente assume o cargo. Foi exatamente isso que ocorreu em novembro de 1963, quando John Kennedy foi assassinado. A viela do golpe é a distorção de um critério constitucional, algo plausível nesta sociedade em que seguir normas é sinal de inferioridade.

Tal viés é uma sedução para ser o dono absoluto do poder. E para não aceitar a interdependência de Poderes de natureza diversa, essa essência do regime republicano. Por isso, corremos o risco de desmontar a República quando o presidente usa um “você sabe com quem está falando?” representado pela massa convocada a participar de um teatro de traição, que, felizmente, virou um blefe.

As reações ao comício golpista do dia 7 foram, digamos, cavalheirescas. Destaco como mais duras as dos ministros Fux e Barroso, diretamente ofendidos. Barroso, ademais, acentuou tanto a falta de compostura quanto a irracionalidade que um presidente eleito usa para desmoralizar o papel que desempenha.

É triste ver tanta gente golpeando um regime democrático tão duramente conquistado nesta terra de nanobarões.

P.S.: A mediação pessoal, esse ponto-chave dos sistemas republicano-familísticos, esvaziou — graças ao generoso viés poético-político do ex-presidente Michel Temer — o mal-estar do comício golpista. No Brasil, a “ação entre amigos” é, como diria Enylton de Sá Rego, o emplastro de Brás Cubas...

A covardia do pseudo macho alfa

Nada politicamente correto. Nada de bom remete a Bolsonaro. Por mais que me esforce, só vêm à mente palavras chulas, expressões torpes. Não ouso definir o modo de ser Bolsonaro, biltre que permitimos chegar à Presidência da República. Mas há uma expressão que se encaixa perfeitamente ao atual momento de capitão do mato: covarde.

Em meio à pandemia, à fome, à miséria e ao crescimento da inflação e do desemprego, Bolsonaro destinou hoje R$ 100 milhões para “o primeiro imóvel” de policiais de todas as variantes e gradações. Em suas alucinações golpistas, o capitão quer agradar aqueles que pode recrutar para protegê-lo ou assombrar as ruas.

Covarde. Bolsonaro está acuado, sabe que o cerco está se fechando. Ele, seus filhos e ex-mulher correm risco de ver escancarados escândalos de corrupção, bandeira molambenta do capitão. A CPI da Covid vai exibir mensagens sobre estreitas relações entre o lobista mór da Precisa Medicamentos, Marconny Albernaz de Faria, e boa parte da família do presidente.

Há muito mais. Novos fatos serão revelados pela CPI, e outros agentes (ex-funcionário da família falou até em traição de Ana Cristina com um bombeiro, ainda casada com Jair). Seu líder na Câmara, Ricardo Barros, enrolado até o pescoço com a Precisa e outras tramoias do Ministério da Saúde, contou com o silêncio de Bolsonaro. Crime de prevaricação.

Bolsonaro está acuado. Depois de atacar ferozmente o STF, rastejou pela Praça dos Três Poderes e publicou carta de desculpas, redigida com a caneta golpista de Temer. O arrego (ou seja lá o que for) provocou um barata voa entre seus seguidores. Estão procurando até agora o pseudo macho alfa que chamou Alexandre de Moraes de “canalha”, do alto de um palanque na avenida Paulista.

O rescaldo não podia ser pior. Segundo Índice de Popularidade Digital, medido pela Quaest e publicado pela Folha de SPaulo, a nota de Bolsonaro empurrou sua popularidade ladeira abaixo. Saiu de 81,8 pontos, após a verborragia do dia 7, e bateu 37,1 pontos, no dia 10, pior marca de 2021.

Não deu pra comemorar o fiasco do MBL. Fracasso retumbante em prol da chamada terceira via, a manifestação quis comparar Bolsonaro a Lula. Discurso repetido pelos nossos colunistas de plantão. Que perda de tempo! Nos palanques, ex-bolsonaristas, oportunistas de carteirinha. Tão covardes quanto. Tão pseudo machos alfa.
Mirian Guaraciaba

Como funciona o golpe de Bolsonaro

No golpe de Jair Bolsonaro, as instituições seguem funcionando sem funcionar contra ele. Uma Suprema Corte que, em vez de cumprir a Constituição quando o presidente a afronta em praça pública, faz mais um discurso. Uma Câmara de Deputados cujo presidente, Arthur Lira, está sentado sobre 130 pedidos de impeachment porque Bolsonaro garante a ele e a sua turma dinheiro público à vontade. Uma Procuradoria-Geral da República cujo procurador-geral, Augusto Aras, é um colaboracionista que espera ser premiado por Bolsonaro com uma cadeira no Supremo. Para que ter o trabalho de promover cenas de golpe clássico, que chamam a atenção do mundo, se é mais efetivo contar com a covardia de uns e a corrupção de outros?

O golpe usado por Bolsonaro desde que assumiu o poder, em 2019, é o da corrosão por dentro. Bem semelhante ao que sua base na Amazônia fazia ao desmatar a floresta quando ainda havia fiscalização. Em vez de fazer o que se chama de corte raso, aquele em que tudo é derrubado e vira terra arrasada —um similar aos tanques nas ruas ou aos caminhões arrebentando as portas do Supremo Tribunal Federal—, a opção é derrubar apenas as árvores nobres e manter a cobertura florestal intacta na aparência. Quem olha por cima, de um helicóptero, por exemplo, ou de uma aeronave pequena, só enxerga verde, mas por baixo a floresta está totalmente degradada. Ou, usando um exemplo urbano, mais familiar à maioria, Bolsonaro está fazendo da democracia o mesmo que acontece com alguns prédios antigos, em que a fachada neoclássica é mantida, mas o miolo foi colocado abaixo.

Bolsonaro já tinha aplicado estratégia semelhante com o Ministério do Meio Ambiente. Antes de assumir o poder, em 2018, lançou a notícia de que seu Governo não teria Ministério do Meio Ambiente. Era uma espécie de boi de piranha. Protestos surgiram de todos os lados. Ele então manteve o ministério, simulando acatar o clamor global, e colocou como ministro Ricardo Salles, um condenado por crime ambiental que promoveu a maior devassa da história da pasta, responsável pelo aumento do desmatamento e dos fogos na Amazônia. O mesmo acontece agora. Bolsonaro incita seus seguidores a se insurgir contra as instituições e especialmente contra o Supremo, mas descobre que vale mais a pena deixar funcionando o que não funciona contra ele.

Se em plena avenida Paulista, em manifestação convocada por ele no feriado de 7 de Setembro, Bolsonaro afirmou que não cumpriria decisões do Supremo Tribunal Federal e saiu impune, as instituições já dobraram os joelhos. Discurso “duro”, como fez Luiz Fux, o presidente do Supremo que depois andou por aí confraternizando com empresários golpistas, qualquer um faz. Eu mesma faço facilmente. Do Supremo se espera que faça valer a Constituição. Se não faz, já era. Bolsonaro testou e venceu. Rasgou a Constituição na Paulista e nada aconteceu. Mais uma vez, Bolsonaro pôde contar com a impunidade que o tornou presidente apesar de sua longa sequência de crimes contra o país.



Tem muita gente empenhada em dar uma aparência decente ao que aconteceu no pós-7 de Setembro. Mas o que aconteceu foi um golpe na democracia e uma vergonha do tipo vexame máximo. De uma Câmara de Deputados liderada por Arthur Lira, que vai chantagear Bolsonaro com o impeachment até não sobrar um real nos cofres públicos, nada se esperava. De Augusto Aras, o envergonhador-geral da República, também já nada se espera. Pelo menos não enquanto ele achar que tem chance de ser recompensado com uma cadeira no STF por sua traição aos princípios que criaram o Ministério Público Federal.

A tragédia que conta a destruição de uma democracia que nunca chegou aos mais pobres ganhou tons de comédia com a carta assinada por Bolsonaro dias depois, mas escrita pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), aquele que, por sua vez, deu o golpe em Dilma Rousseff (PT). Na carta, Bolsonaro-Temer, a nova criatura missivista, dizia mais ou menos o seguinte: “Desculpa aí, pessoal. Me empolguei”.

Ávidos por seguir lucrando com Bolsonaro, políticos e empresários concluíram ao ler a carta que o presidente tinha subitamente se convertido em estadista. A maior parte dessa gente que chamam de “PIB do Brasil” são uns cretinos tão sem caráter que não consegui encontrar nenhuma palavra disponível no dicionário capaz de abarcar a grandiosidade de sua decadência. E, assim, no último domingo, uma manifestação de oposição botou apenas 6.000 pessoas na mesma avenida em que Bolsonaro tinha colocado 125.000 dias antes. Organizada pela direita e por aqueles que decidiram que agora são centro, grandes responsáveis pela ascensão de Bolsonaro ao poder, o protesto foi boicotado pelo PT, partido de Lula, e pela maior parte da esquerda. Resultado: não vingou, e os bolsonaristas rolaram de rir, no que não lhes tiro a razão. O presidente rasga a Constituição e toda a oposição que o Brasil consegue colocar nas ruas na primeira manifestação de oposição que se segue, e isso na maior cidade do país, são 6.000 gatos pingados.

É duro para a esquerda apoiar movimentos de direita que lideraram as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff . No caso da milícia digital chamada Movimento Brasil Livre, que no momento tenta fazer um greenwashing, é ainda mais difícil, já que o MBL destruiu reputações usando fake news, fechou exposições de arte e colocou artistas em risco de vida ao usá-los para açular seus seguidores. É duro, mas é o que temos para o momento. Sem o impeachment de Bolsonaro, não há nem como discutir divergências de fundo —ou mesmo de raso. Todo o noticiário, as ações e os debates públicos e privados foram sequestrados pelo bolsonarismo. Nada de importante se faz ou se discute no país desde que ele assumiu e, principalmente, neste último ano. Mas a destruição da legislação ambiental e dos direitos humanos e trabalhistas, ao contrário, avança velozmente.

É claro que não é apenas por exigência de companhias de mais qualidade e por bons princípios que grande parte da esquerda se recusa a se misturar com a direita nas ruas. Parte do PT e aqueles que apoiam a candidatura de Lula já calcularam que as chances de o ex-presidente ganhar em 2022 são maiores se a disputa for com Bolsonaro. Tem gente que chama isso de estratégia política, eu acho só triste, dado o fato de que o bolsonarismo mata gente. Também me parece um tremendo equívoco. Bolsonaro só pode agradecer por essa estratégia: tem mais um ano para exterminar toda a credibilidade do processo eleitoral e das urnas eletrônicas, executando com mais êxito o manual de seu ídolo Donald Trump.

Quero lembrar que, na Amazônia, e em vários outros biomas, a base de Bolsonaro está incendiando casas de camponeses e indígenas como rotina e várias lideranças estão escondidas para não morrer. Essa é a tática para manter os opositores apavorados, mas na prática, já quase não é mais necessária. O Congresso está legalizando toda a ilegalidade, e logo será possível apenas chamar a polícia contra aqueles que protegem a floresta, porque grileiros e outros destruidores serão os cidadãos dentro da lei. Este também é o golpe. E ele avança aceleradamente enquanto Bolsonaro faz pirotecnias públicas e autoridades dão vexame com suas palavras “duras”.

O século 21 trouxe a expansão da internet e suas redes sociais e várias outras mudanças na forma como tudo e também o autoritarismo operam. Não é necessário fechar o Supremo com caminhões —ou “com um cabo e um soldado”. Basta que não funcione contra o presidente. Não é necessário fechar o Congresso, basta ter um parlamentar da estirpe de Arthur Lira como presidente da Câmara de Deputados, com poderes para barrar o impeachment. Enquanto Bolsonaro tiver dinheiro público para abastecer Lira e o Centrão, nada acontece. O mesmo vale para a imprensa. Parte da imprensa liberal tem feito um trabalho razoável para documentar o que hoje acontece no Brasil, mas quem se importa? A credibilidade da imprensa está destruída no bolsonarismo. Os seguidores de Bolsonaro não acreditam em nada do que está escrito nos jornais. Assim, não é necessário censura, como nas clássicas ditaduras do século 20.

O bolsonarismo e seus assemelhados pelo mundo destruíram a própria linguagem, tanto que fizeram o 7 de Setembro em nome da “liberdade” e da “defesa da Constituição”. É assim que se enlouquece —e se perverte— todo um povo. Seguir compreendendo o século 21 com os instrumentos de interpretação que serviam para o século 20 não vai funcionar.

As instituições mostraram, por sua falta de reação à manifestação golpista de 7 de Setembro, que estão dominadas —seja por lucro ou seja por covardia. Só vão reagir se os opositores de Bolsonaro, venham de onde venham, se juntarem nas ruas. É impeachment ou impeachment.

Bolsonaro segue a cartilha de Donald Trump, num país institucionalmente muito mais fraco que os Estados Unidos e já tendo aprendido com os erros de seu ídolo. Se Bolsonaro não for barrado, até a disputa eleitoral de 2022 tudo o que constitui a democracia, inclusive as próprias eleições, correm o risco de se tornar irrelevantes. Tanto quanto a Amazônia, a democracia poderá já ter chegado ao ponto de não retorno.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Em jantar em homenagem a Temer, Bolsonaro vira piada de salão, o que é um erro grave

Um jantar na casa do investidor Naji Nahas em São Paulo nesta segunda-feira em homenagem ao ex-presidente Michel Temer foi a mostra mais eloquente e risonha de que o impeachment de Jair Bolsonaro não sairá.

Em torno da mesa e de vinhos estrelados se reuniram políticos, advogados, empresários, jornalistas, médicos e um humorista, André Marinho, que imitou o homenageado e o capitão, para gáudio da plateia. Mas será prudente, ou mesmo inteligente, tratar Bolsonaro como piada de salão? Não parece.


Estavam no jantar, entre outros, o ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro de Temer Gilberto Kassab, o empresário Paulo Marinho, o advogado José Rogério Tucci, o médico Raul Cutait e o empresário de comunicações Johnny Saad.

Vídeo que foi feito pelo marqueteiro de Temer, Elsinho Mouco, e enviado a jornalistas, viralizou nas redes sociais. Nele, André Marinho imita um abobalhado Bolsonaro reclamando da capitulação a que Temer o teria obrigado diante do Supremo Tribunal Federal, mas agradece ter tido a pele salva.

O ex-presidente, vermelho, foi quem mais gargalhou, satisfeito da própria relevância. No jantar, houve agradecimentos a ele por ter "salvado" o país de uma crise mais grave. Temer contou que só aceitou ir a Brasília e intermediar a conversa com Alexandre de Moraes quando Bolsonaro se comprometeu, com antecedência, a assinar uma carta.

Os presentes demonstraram ceticismo quanto à moderação de Bolsonaro. Acham que outros arroubos virão. Mas viram na desmoralização do avanço golpista do capitão um sinal de que ele não logrará êxito em conspurcar a democracia.

A primeira impressão da cena pode mostrar um presidente humilhado, desacreditado, carta fora do baralho. Afinal, seu antecessor, que foi chamado às pressas para socorrê-lo quando houve risco real de que sua pregação golpista inviabilizasse sua permanência na Presidência, estava lá se dobrando de rir da situação.

Mas tratar Bolsonaro como café com leite mostra profunda incompreensão do mix de fatores que o levou à Presidência, do enraizamento de seu discurso golpista e autoritário em grandes setores da sociedade e, sobretudo, da força que a máquina, principalmente o Orçamento, tem num regime presidencialista com reeleição.

Ainda resta mais de um ano para as eleições. Bolsonaro está disposto a implodir o teto e o que mais precisar para voltar a ser competitivo. E vai continuar minando o Judiciário, Poder que se mostrou minimamente disposto a contê-lo, daqui até o pleito, investindo principalmente contra a credibilidade do sistema eleitoral.

Esse discurso que pode parecer insano aos olhos de quem está acostumado, como os comensais, a analisar a política pela régua tradicional, levou centenas de milhares às ruas num feriado.

Está nos almoços de família a desconfiança na urna eletrônica, algo impensável apenas alguns anos atrás. A fala de que o STF pratica uma "ditadura branca" está na boca da tia do interior, ou do cunhado de muitos de nós.

Não é pouca coisa e não deveria ser tratado como entretenimento para homens endinheirados, muitos dos quais têm responsabilidade política de ajudar o Brasil a superar essa crise que, na base da pirâmide social, está provocando mortes (por covid-19 ou não), miséria, fome e desemprego.

Temer, o homenageado, prestou um desserviço ao ajudar a acomodar as abóboras na carroça golpista de Bolsonaro. Para ficar numa piada ao gosto do capitão, adaptada para este texto, mas que cairia bem na imitação talentosa de André Marinho, Bolsonaro é do tipo que se faz de morto para atingir o coveiro.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Vale gastar o que pode e o que não pode para permanecer no poder

Acostumem-se, e também o ministro Paulo Guedes, da Economia, e outros ao seu redor que insistem em se preocupar com déficit fiscal e teto de gastos, coisas capazes de tirar o presidente Jair Bolsonaro do sério logo no momento em que ele está mais fraco.

Daqui para frente vai ser assim: gaste-se o que for permitido e o que não for para reeleger o ex-capitão ameaçado de aposentar-se antes do tempo. Seria o primeiro presidente da República, desde a introdução da reeleição por aqui, a só governar por quatro anos.

O programa Casa Verde e Amarela, substituto do Minha Casa Minha Vida, não decolou? A entrega de novas casas está abaixo da média dos últimos anos, e até agora zero moradia foi regularizada ou alvo de reformas? E daí? O que isso importa?


Sigam o dinheiro! E ele irá para uma nova linha de financiamento de casas com juros baixos voltada exclusivamente para policiais e bombeiros, base de apoio do presidente, que quer porque quer, só não se sabe para fazer o quê, reeleger-se no ano que vem.

O novo programa, batizado de Habite Seguro, terá R$ 100 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública. Serão contemplados policiais federais, rodoviários federais, agentes penitenciários, peritos, papiloscopistas e guardas municipais, entre outros.

As condições vantajosas, que incluem desconto no valor de contratação do financiamento e no quanto é preciso dar de entrada para o empréstimo, não serão estendidas a outras categorias. O programa foi lançado por Bolsonaro em cerimônia ontem à tarde.

“Entendemos que [o programa] pode, sim, atingir grande parte deste efetivo da segurança, que arrisca a sua vida em defesa da nossa vida e do nosso patrimônio”, disse ele. Poderia ter acrescentado: em defesa também da sua reeleição em 2022.

Em reunião ministerial em abril do ano passado, Guedes não disse que chegara a hora de fazer “o discurso da desigualdade e gastar mais para eleger o presidente”? Aguente o tranco. Haverá mais inflação. E daí? Passada a eleição, será feito um duro ajuste fiscal.