sábado, 10 de julho de 2021
Espuma tóxica
Reza o catastrofismo engajado que a democracia brasileira se encontra em via de extinção. Por essa cartilha, o golpe de Estado está em marcha e apenas os ingênuos não percebem. O mesmo manual ensina tratar-se de teoria vã a constatação de que as instituições funcionam.
Felizmente, a realidade desmente tal conjunto de ideias, cujos autores têm razão num ponto: o presidente Jair Bolsonaro adoraria estar no comando de um Brasil institucionalmente tão frágil que lhe permitisse materializar seus devaneios autoritários, mas não é assim que a banda vem tocando.
Se as tentativas presidenciais obtiveram êxitos pontuais — mas nem por isso menos importantes —, a maioria das investidas foi barrada ou rechaçada. E aqui falamos das instituições, considerando o conjunto, não atitudes individuais: Supremo Tribunal Federal, Congresso Nacional, Tribunal de Contas da União, Ministério Público, Polícia Federal, imprensa profissional e, mãe de todas, a opinião pública.
Há muita espuma no que se propõe o presidente. Não é fácil dissipar o fervo eivado de artificialismo devido ao seu caráter tóxico, mas não é impossível. O exemplo mais recente de espuma tóxica produzida pelo presidente e que vem sendo debelada a golpes de institucionalidade é a ameaça de arruaça pós-eleitoral travestida de preocupação com a confiabilidade do voto eletrônico.
Não há notícia de fraudes ocorridas desde a adoção dessa ferramenta de votação. Na história recente houve três de repercussão nacional: em 1982, 1990 e 1994. Todas da era da cédula de papel.
Impresso, “auditável”, confiável, seja lá o nome que se dê ao tipo de voto defendido por Bolsonaro e companhia, a ideia não é atuar em prol da confiança no resultado da votação. A intenção é disseminar a desconfiança no sistema a fim de fazer da suspeita de fraudes um antídoto para eventual derrota.
Pois muito bem. Tanto o Tribunal Superior Eleitoral — nas figuras do atual e do futuro presidente, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, respectivamente — quanto o STF e um conjunto significativo de partidos e lideranças políticas já desvendaram a tramoia.
Poderiam ter relegado o vaticínio sobre a ocorrência de “comoção social”, se não houver voto impresso, ao campo da vã perturbação mental. Mas os acontecimentos de 2018 para cá já mostraram que não se deve menosprezar (nem temer) o potencial de risco do fator Bolsonaro. Donde, organizou-se a reação.
No âmbito do Judiciário, Barroso e Moraes dedicam-se a uma cruzada constante para explicar à sociedade e aos congressistas que terão de decidir se aprovam ou desaprovam emenda constitucional para impressão dos votos, o benefício das urnas eletrônicas e os malefícios da mudança do sistema. No STF o tema já foi rejeitado duas vezes, em 2018 e 2020.
O norte político foi dado na recente manifestação de onze partidos, entre os quais três integrantes da base governista (PP, PL e Republicanos), contrários à PEC em tramitação na Câmara dos Deputados. E para que não restasse a menor dúvida sobre a clareza de propósito, as legendas trocaram seus representantes na comissão especial que examina o assunto, a fim de alterar a correlação de forças e matar no nascedouro a proposta que vinha avançando sob patrocínio da tropa bolsonarista.
O jogo dentro do Congresso está feito. No Supremo e na Justiça Eleitoral as barreiras estão postas. Resta convencer a sociedade para tornar a tese da confiabilidade de voto tão minoritária que o país consiga se precaver do que vem adiante. Sim, porque Jair Bolsonaro não vai desistir. Seguirá no confronto alegando a existência de um complô nas altas esferas da República para lhe subtrair a reeleição.
Alimentará para além de qualquer limite a impressão do forrobodó inevitável. Busca produzir desde já um terceiro turno antecipado. Faz isso com antecedência para dar tempo de repetir a mentira sobre a urdidura da fraude tantas vezes e com tal assertividade que um expressivo contingente de brasileiros passe a ver a lorota como verdade.
Nisso, seria fundamental a participação dos pretendentes à Presidência da República, venham eles a ter ou não confirmadas suas candidaturas, pois serão os principais personagens da cena política de 2022, à qual Jair Bolsonaro procura atribuir a faculdade de um ato de má-fé, com o intuito de semear a desordem e colher daí o retrocesso.
Felizmente, a realidade desmente tal conjunto de ideias, cujos autores têm razão num ponto: o presidente Jair Bolsonaro adoraria estar no comando de um Brasil institucionalmente tão frágil que lhe permitisse materializar seus devaneios autoritários, mas não é assim que a banda vem tocando.
Se as tentativas presidenciais obtiveram êxitos pontuais — mas nem por isso menos importantes —, a maioria das investidas foi barrada ou rechaçada. E aqui falamos das instituições, considerando o conjunto, não atitudes individuais: Supremo Tribunal Federal, Congresso Nacional, Tribunal de Contas da União, Ministério Público, Polícia Federal, imprensa profissional e, mãe de todas, a opinião pública.
Há muita espuma no que se propõe o presidente. Não é fácil dissipar o fervo eivado de artificialismo devido ao seu caráter tóxico, mas não é impossível. O exemplo mais recente de espuma tóxica produzida pelo presidente e que vem sendo debelada a golpes de institucionalidade é a ameaça de arruaça pós-eleitoral travestida de preocupação com a confiabilidade do voto eletrônico.
Não há notícia de fraudes ocorridas desde a adoção dessa ferramenta de votação. Na história recente houve três de repercussão nacional: em 1982, 1990 e 1994. Todas da era da cédula de papel.
Impresso, “auditável”, confiável, seja lá o nome que se dê ao tipo de voto defendido por Bolsonaro e companhia, a ideia não é atuar em prol da confiança no resultado da votação. A intenção é disseminar a desconfiança no sistema a fim de fazer da suspeita de fraudes um antídoto para eventual derrota.
Pois muito bem. Tanto o Tribunal Superior Eleitoral — nas figuras do atual e do futuro presidente, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, respectivamente — quanto o STF e um conjunto significativo de partidos e lideranças políticas já desvendaram a tramoia.
Poderiam ter relegado o vaticínio sobre a ocorrência de “comoção social”, se não houver voto impresso, ao campo da vã perturbação mental. Mas os acontecimentos de 2018 para cá já mostraram que não se deve menosprezar (nem temer) o potencial de risco do fator Bolsonaro. Donde, organizou-se a reação.
No âmbito do Judiciário, Barroso e Moraes dedicam-se a uma cruzada constante para explicar à sociedade e aos congressistas que terão de decidir se aprovam ou desaprovam emenda constitucional para impressão dos votos, o benefício das urnas eletrônicas e os malefícios da mudança do sistema. No STF o tema já foi rejeitado duas vezes, em 2018 e 2020.
O norte político foi dado na recente manifestação de onze partidos, entre os quais três integrantes da base governista (PP, PL e Republicanos), contrários à PEC em tramitação na Câmara dos Deputados. E para que não restasse a menor dúvida sobre a clareza de propósito, as legendas trocaram seus representantes na comissão especial que examina o assunto, a fim de alterar a correlação de forças e matar no nascedouro a proposta que vinha avançando sob patrocínio da tropa bolsonarista.
O jogo dentro do Congresso está feito. No Supremo e na Justiça Eleitoral as barreiras estão postas. Resta convencer a sociedade para tornar a tese da confiabilidade de voto tão minoritária que o país consiga se precaver do que vem adiante. Sim, porque Jair Bolsonaro não vai desistir. Seguirá no confronto alegando a existência de um complô nas altas esferas da República para lhe subtrair a reeleição.
Alimentará para além de qualquer limite a impressão do forrobodó inevitável. Busca produzir desde já um terceiro turno antecipado. Faz isso com antecedência para dar tempo de repetir a mentira sobre a urdidura da fraude tantas vezes e com tal assertividade que um expressivo contingente de brasileiros passe a ver a lorota como verdade.
Nisso, seria fundamental a participação dos pretendentes à Presidência da República, venham eles a ter ou não confirmadas suas candidaturas, pois serão os principais personagens da cena política de 2022, à qual Jair Bolsonaro procura atribuir a faculdade de um ato de má-fé, com o intuito de semear a desordem e colher daí o retrocesso.
Exército: a serviço de quem?
A democracia liberal em crise no mundo – no Brasil que degrada de forma planejada o Estado Social – agora faz uma paródia de si mesma. Nesta degradação, a relação do fascismo societal, racista e escravocrata, com o escárnio da República promovido pelo Presidente Bolsonaro, chega ao momento da sua potência máxima. E este máximo – o inferno tão temido, como no conto de Onetti – ainda está incompleto. Não se sabe, ainda, se o nosso destino está tolhido pela última manifestação da Caserna ou se ele vai ser reaberto pelo que nos resta de vergonha republicana.
A nota do Ministro da Defesa, firmada pelos demais Comandantes das Forças Armadas, não tem a finalidade principal de atemorizar, mas tem um objetivo muito mais complexo: tirar a dúvida dos políticos tradicionais sobre “de quem” é o Exército: se é de Bolsonaro ou da República, como determina a Constituição.
Esta dúvida, no pensamento tutelador que a escreveu, deve ser expurgada da mente do corpo político (deve ter pensado o Ministro da Defesa) porque se ela prosperar, um militar fracassado que é Presidente, pode deixar de contaminar a caserna, que então absorverá – finalmente – que o Exército não é uma guarda pretoriana a serviço de uma família, mas uma instituição a serviço da Constituição e da Soberania Nacional.
O excelente livro de Marcia Tiburi, Complexo de vira-lata (Civilização Brasileira, 2021) é um conjunto invejável de ideias sobre a dominação e a humilhação dos brasileiros – de antes da República e de agora- que tem vários momentos de brilho. A obra ajuda na compreensão da tragédia nacional em andamento e em alguns momentos – como quando a autora discorre sobre o que designa como “Complexo de Colombo” – ilumina toda uma época. Este complexo seria no plano da subjetividade popular o modo de criar consensos, através de uma adesão formatada pela violência.
Esta seria a “matriz subjetiva fundamental que constitui o sujeito do surgimento das Américas” (…) “padrão de dominação que envolve Estado, Igrejas” (…) processo “reiterado por séculos” (…) “que é um padrão de relação com o outro, no qual não se pode dizer que haja comunicação”, (…) no qual “não se promovem trocas”, senão “a reprodução da invasão e da violência”. Nesse padrão, os indígenas e os escravos são primariamente os “outros” desconhecidos, invadidos e violentados – nas suas mentes e corpos – para serem desalojados das terras mercantilizadas e dos seus corpos tornados mercadorias.
Este padrão de dominação no capitalismo moderno envolve desde o controle da informação pelos oligopólios da mídia, a reprodução da ignorância e do charlatanismo pelas religiões fundamentalistas do dinheiro, até a eterna tutela das Forças Armadas sobre os processos políticos da democracia liberal. Esta tutela se explicita em momentos de crise, nos quais ela não informa, nem pretende intercambiar opiniões, mas quer ordenar o estado de coisas e advertir dos perigos identificáveis.
Mas quais seriam estes perigos, na paródia atual? Seria a possibilidade de que quadros militares em funções civis podem ser identificados como corruptos e tal fato poderia ferir a corporação tuteladora? Se este era o “perigo” a ser superado, o que fez a Nota – na verdade – foi promover o aumento do perigo e o esvaziamento da Constituição: os atos criminosos de militares em funções civis, se ocorreram, deveriam promover o expurgo legal destes militares e a sua punição por delitos cometidos naquelas funções civis, onde desonraram a farda e agrediram a honra das Forças Armadas e das instituições civis do Estado.
A afirmação do modo de dominação nas crises se serve, sempre, de “homens-bomba” para concentrar as culpas e simular a superação das mazelas da velha democracia liberal, que há mais de 200 anos não renova as suas instituições. Na sua etapa ultraliberal, porém, ela satisfaz as identidades pessoais dos cidadãos pelos fetichismos da igualdade no mercado, não pelo direito de participar de uma comunidade de destino na formação da nação. É o momento em que a democracia tateia em busca de uma luz, que não seja um trem no fundo do túnel, que venha tutelar as promessas da República.
Esta Nota dos militares foi o trem do momento. Tomara seja apenas uma ficção das trevas que a Constituição cidadã tentou sepultar para sempre. Pensar que os militares do país possam se conceber como guardiões do bolsonarismo demente é matar toda a esperança e acolher a possibilidade de que o “Haiti é aqui!”. Ou que estamos vivendo a entrada do Inferno de Dante, ou que o fantasma de Hitler se firme num horizonte de sangue, como um Vampiro da história, encarnando o “Complexo de Colombo”.
Neste, a humilhação deixa de ser uma tática fundamental e passa a ser a estratégia estatal da morte. Ninguém acreditava que isso fosse possível na Alemanha dos anos 1920, mas hoje estamos começando a aprender que a História pode se repetir, tanto como tragédia pura, mas também como farsa e paródia coexistindo com ela.
Fora Bolsonaro, antes que seja tarde!
A nota do Ministro da Defesa, firmada pelos demais Comandantes das Forças Armadas, não tem a finalidade principal de atemorizar, mas tem um objetivo muito mais complexo: tirar a dúvida dos políticos tradicionais sobre “de quem” é o Exército: se é de Bolsonaro ou da República, como determina a Constituição.
Esta dúvida, no pensamento tutelador que a escreveu, deve ser expurgada da mente do corpo político (deve ter pensado o Ministro da Defesa) porque se ela prosperar, um militar fracassado que é Presidente, pode deixar de contaminar a caserna, que então absorverá – finalmente – que o Exército não é uma guarda pretoriana a serviço de uma família, mas uma instituição a serviço da Constituição e da Soberania Nacional.
O excelente livro de Marcia Tiburi, Complexo de vira-lata (Civilização Brasileira, 2021) é um conjunto invejável de ideias sobre a dominação e a humilhação dos brasileiros – de antes da República e de agora- que tem vários momentos de brilho. A obra ajuda na compreensão da tragédia nacional em andamento e em alguns momentos – como quando a autora discorre sobre o que designa como “Complexo de Colombo” – ilumina toda uma época. Este complexo seria no plano da subjetividade popular o modo de criar consensos, através de uma adesão formatada pela violência.
Esta seria a “matriz subjetiva fundamental que constitui o sujeito do surgimento das Américas” (…) “padrão de dominação que envolve Estado, Igrejas” (…) processo “reiterado por séculos” (…) “que é um padrão de relação com o outro, no qual não se pode dizer que haja comunicação”, (…) no qual “não se promovem trocas”, senão “a reprodução da invasão e da violência”. Nesse padrão, os indígenas e os escravos são primariamente os “outros” desconhecidos, invadidos e violentados – nas suas mentes e corpos – para serem desalojados das terras mercantilizadas e dos seus corpos tornados mercadorias.
Este padrão de dominação no capitalismo moderno envolve desde o controle da informação pelos oligopólios da mídia, a reprodução da ignorância e do charlatanismo pelas religiões fundamentalistas do dinheiro, até a eterna tutela das Forças Armadas sobre os processos políticos da democracia liberal. Esta tutela se explicita em momentos de crise, nos quais ela não informa, nem pretende intercambiar opiniões, mas quer ordenar o estado de coisas e advertir dos perigos identificáveis.
Mas quais seriam estes perigos, na paródia atual? Seria a possibilidade de que quadros militares em funções civis podem ser identificados como corruptos e tal fato poderia ferir a corporação tuteladora? Se este era o “perigo” a ser superado, o que fez a Nota – na verdade – foi promover o aumento do perigo e o esvaziamento da Constituição: os atos criminosos de militares em funções civis, se ocorreram, deveriam promover o expurgo legal destes militares e a sua punição por delitos cometidos naquelas funções civis, onde desonraram a farda e agrediram a honra das Forças Armadas e das instituições civis do Estado.
A afirmação do modo de dominação nas crises se serve, sempre, de “homens-bomba” para concentrar as culpas e simular a superação das mazelas da velha democracia liberal, que há mais de 200 anos não renova as suas instituições. Na sua etapa ultraliberal, porém, ela satisfaz as identidades pessoais dos cidadãos pelos fetichismos da igualdade no mercado, não pelo direito de participar de uma comunidade de destino na formação da nação. É o momento em que a democracia tateia em busca de uma luz, que não seja um trem no fundo do túnel, que venha tutelar as promessas da República.
Esta Nota dos militares foi o trem do momento. Tomara seja apenas uma ficção das trevas que a Constituição cidadã tentou sepultar para sempre. Pensar que os militares do país possam se conceber como guardiões do bolsonarismo demente é matar toda a esperança e acolher a possibilidade de que o “Haiti é aqui!”. Ou que estamos vivendo a entrada do Inferno de Dante, ou que o fantasma de Hitler se firme num horizonte de sangue, como um Vampiro da história, encarnando o “Complexo de Colombo”.
Neste, a humilhação deixa de ser uma tática fundamental e passa a ser a estratégia estatal da morte. Ninguém acreditava que isso fosse possível na Alemanha dos anos 1920, mas hoje estamos começando a aprender que a História pode se repetir, tanto como tragédia pura, mas também como farsa e paródia coexistindo com ela.
Fora Bolsonaro, antes que seja tarde!
Bolsonaro, a vida como desgraça
Quando Bolsonaro fez aquele discurso dizendo que a vida dele era uma desgraça, possivelmente ainda não estava consciente do que o esperava. Suas queixas eram prosaicas, como não poder tomar um caldo de cana do outro lado da rua.
À medida que o tempo passa, sua situação fica cada vez mais difícil. Não diria que a vida de Bolsonaro seja uma desgraça porque a vida, por definição, é uma graça. Mas nunca ele foi acossado por uma constelação de problemas tão sérios. A fase de negacionismo, que pode ter provocado a morte de milhares de brasileiros, já está documentada satisfatoriamente pela CPI da pandemia.
Da mesma forma, a política de estimular a destruição dos principais biomas brasileiros tornou-se um fato reconhecido no mundo. E com a queda do então ministro Ricardo Salles, o que parecia apenas uma posição retrógrada se tornou suspeita também de ser corrupção. E exatamente nesse terceiro capítulo, o da corrupção, o governo agora se move num pântano de desculpas e evasivas que não convencem ninguém.
O contrato para a compra da vacina Covaxin, conforme o próprio Tribunal de Contas acentua, começou tratando de um preço de US$ 10 a dose e terminou em US$ 15. Além disso, o negócio foi acertado com uma empresa chamada Precisa, que em outra encarnação já deu calote no Ministério da Saúde. Empresa que manda uma nota fiscal de US$ 45 milhões para ser paga a uma offshore em Cingapura e, distraidamente, cobra US$ 1 milhão por frete que, pelo contrato, deveria ser pago por ela. E, finalmente, produz documentos com erros em número de doses que jamais entregaria ao País.
Ao ser informado de tanta confusão, Bolsonaro limitou-se a dizer que aquilo era um rolo do deputado Ricardo Barros. Acontece que é um rolo de seu governo: ele próprio escreveu ao primeiro-ministro da Índia manifestando interesse na vacina, o que não fez com nenhum outro imunizante. Ao contrário, Bolsonaro desqualifica a Coronavac e insinua que a Pfizer nos transforma em jacarés.
O resultado de tudo isso é uma substancial perda de apoiadores. E mais: o surgimento de um movimento popular que ganha corpo nas ruas. Inicialmente era um movimento marcadamente de esquerda e agora se amplia para o centro e para a própria direita.
Bolsonaro aproveitou algumas ações violentas para desqualificar a presença da oposição nas ruas. Mas foram atos de violência muito suspeitos de terem sido cometidos por elementos infiltrados.
Repercutiu também uma ação do PCO, o Partido da Causa Operária, contra um grupo do PSDB que defende a diversidade. É algo também explicável: o PCO não consegue eleger ninguém e nos editoriais de seu jornal defende as manifestações homofóbicas das torcidas de futebol como liberdade de expressão. Qualquer pessoa sensata vai compreender que, na verdade, manifestações de sectarismo e homofobia não representam uma ampla frente contra Bolsonaro.
Neste momento, em que Bolsonaro está acuado, surge a discussão: pedir o impeachment ou deixá-lo sangrar? Esses termos não são contraditórios. O pedido de impeachment é um instrumento que agrega forças e ele significa um desgaste constante. Há quem afirme que o impeachment enfraquece o governante quando ele o supera no Parlamento. Mas não foi isso que aconteceu com Trump.
Quando se está num movimento descendente, quase tudo empurra para baixo. O famoso caso das rachadinhas, por exemplo, não tem efeito jurídico sobre Bolsonaro. Mas recentes gravações divulgadas pela colunista Juliana Dal Piva no site UOL mostram que Bolsonaro também contratava parentes para receber parte de seu salário. Na verdade, tudo indica que seja ele o pioneiro familiar dessa técnica, posteriormente ensinada aos filhos parlamentares.
Tudo isso serve para confirmar a tese de que Bolsonaro, ao longo de sua longa carreira, não participou de grandes esquemas de corrupção porque criou a sua própria fonte de financiamento, destinada a manter campanhas e aumentar o patrimônio pessoal, principalmente por meio da compra de imóveis.
Enfim, os dados estão na mesa, o movimento nas ruas e o prestígio de Bolsonaro declinando nas pesquisas. Tudo aponta para uma nova época cujos contornos exatos ainda não estão desenhados. O que se sabe é que futuro exclui um presidente que devastou vidas, matas e a imagem internacional do Brasil.
Chega-se a um momento em que a habilidade da oposição se torna o fator decisivo. Só uma sucessão de erros gigantescos pode tornar viável Bolsonaro nas eleições de 22. Ao menos essa é a leitura que o momento permite. Daqui para a frente ele poderá até tomar um caldo de cana do outro lado da rua. Mas sua vida política será uma desgraça.
De qualquer forma, abre-se um tempo de discussão sobre as causas da ascensão de Bolsonaro, o pensamento de seus apoiadores. Em função disso será possível descortinar um horizonte mais amplo que sua simples derrota: um esforço para que isso não mais se repita na História do Brasil .
Essa seria a prova de que, apesar de tanto sofrimento humano e destruição ambiental, pelo menos sabemos fazer a lição de casa.
À medida que o tempo passa, sua situação fica cada vez mais difícil. Não diria que a vida de Bolsonaro seja uma desgraça porque a vida, por definição, é uma graça. Mas nunca ele foi acossado por uma constelação de problemas tão sérios. A fase de negacionismo, que pode ter provocado a morte de milhares de brasileiros, já está documentada satisfatoriamente pela CPI da pandemia.
Da mesma forma, a política de estimular a destruição dos principais biomas brasileiros tornou-se um fato reconhecido no mundo. E com a queda do então ministro Ricardo Salles, o que parecia apenas uma posição retrógrada se tornou suspeita também de ser corrupção. E exatamente nesse terceiro capítulo, o da corrupção, o governo agora se move num pântano de desculpas e evasivas que não convencem ninguém.
O contrato para a compra da vacina Covaxin, conforme o próprio Tribunal de Contas acentua, começou tratando de um preço de US$ 10 a dose e terminou em US$ 15. Além disso, o negócio foi acertado com uma empresa chamada Precisa, que em outra encarnação já deu calote no Ministério da Saúde. Empresa que manda uma nota fiscal de US$ 45 milhões para ser paga a uma offshore em Cingapura e, distraidamente, cobra US$ 1 milhão por frete que, pelo contrato, deveria ser pago por ela. E, finalmente, produz documentos com erros em número de doses que jamais entregaria ao País.
Ao ser informado de tanta confusão, Bolsonaro limitou-se a dizer que aquilo era um rolo do deputado Ricardo Barros. Acontece que é um rolo de seu governo: ele próprio escreveu ao primeiro-ministro da Índia manifestando interesse na vacina, o que não fez com nenhum outro imunizante. Ao contrário, Bolsonaro desqualifica a Coronavac e insinua que a Pfizer nos transforma em jacarés.
O resultado de tudo isso é uma substancial perda de apoiadores. E mais: o surgimento de um movimento popular que ganha corpo nas ruas. Inicialmente era um movimento marcadamente de esquerda e agora se amplia para o centro e para a própria direita.
Bolsonaro aproveitou algumas ações violentas para desqualificar a presença da oposição nas ruas. Mas foram atos de violência muito suspeitos de terem sido cometidos por elementos infiltrados.
Repercutiu também uma ação do PCO, o Partido da Causa Operária, contra um grupo do PSDB que defende a diversidade. É algo também explicável: o PCO não consegue eleger ninguém e nos editoriais de seu jornal defende as manifestações homofóbicas das torcidas de futebol como liberdade de expressão. Qualquer pessoa sensata vai compreender que, na verdade, manifestações de sectarismo e homofobia não representam uma ampla frente contra Bolsonaro.
Neste momento, em que Bolsonaro está acuado, surge a discussão: pedir o impeachment ou deixá-lo sangrar? Esses termos não são contraditórios. O pedido de impeachment é um instrumento que agrega forças e ele significa um desgaste constante. Há quem afirme que o impeachment enfraquece o governante quando ele o supera no Parlamento. Mas não foi isso que aconteceu com Trump.
Quando se está num movimento descendente, quase tudo empurra para baixo. O famoso caso das rachadinhas, por exemplo, não tem efeito jurídico sobre Bolsonaro. Mas recentes gravações divulgadas pela colunista Juliana Dal Piva no site UOL mostram que Bolsonaro também contratava parentes para receber parte de seu salário. Na verdade, tudo indica que seja ele o pioneiro familiar dessa técnica, posteriormente ensinada aos filhos parlamentares.
Tudo isso serve para confirmar a tese de que Bolsonaro, ao longo de sua longa carreira, não participou de grandes esquemas de corrupção porque criou a sua própria fonte de financiamento, destinada a manter campanhas e aumentar o patrimônio pessoal, principalmente por meio da compra de imóveis.
Enfim, os dados estão na mesa, o movimento nas ruas e o prestígio de Bolsonaro declinando nas pesquisas. Tudo aponta para uma nova época cujos contornos exatos ainda não estão desenhados. O que se sabe é que futuro exclui um presidente que devastou vidas, matas e a imagem internacional do Brasil.
Chega-se a um momento em que a habilidade da oposição se torna o fator decisivo. Só uma sucessão de erros gigantescos pode tornar viável Bolsonaro nas eleições de 22. Ao menos essa é a leitura que o momento permite. Daqui para a frente ele poderá até tomar um caldo de cana do outro lado da rua. Mas sua vida política será uma desgraça.
De qualquer forma, abre-se um tempo de discussão sobre as causas da ascensão de Bolsonaro, o pensamento de seus apoiadores. Em função disso será possível descortinar um horizonte mais amplo que sua simples derrota: um esforço para que isso não mais se repita na História do Brasil .
Essa seria a prova de que, apesar de tanto sofrimento humano e destruição ambiental, pelo menos sabemos fazer a lição de casa.
Meio milhão
Meio milhão de qualquer coisa é muita coisa, umas a gente nem nota, outras a gente vai levando, algumas se atura. Meio milhão de vidas perdidas é tragédia insuportável.
Meio milhão de atestados de óbito é papel tamanho ofício que não acaba mais. Milhares e milhares de resmas que um dia foram celulose que um dia foram árvores que um dia foram matas. Meio milhão de documentos que ocuparam centenas e centenas de cartórios com milhares e milhares de tabeliães durante meses e meses.
Meio milhão de caixões é caixão pra desolar. Cada caixão precisa de uns 4m2 de madeira, aí já vão 2 milhões de m2 de madeira. Que um dia foi árvore que um dia foi floresta e que agora é um desmatamento mais doloroso que os tristes desmatamentos de sempre. E cada caixão leva uns 100 pregos, vários ornamentos e seis puxadores, feito por milhares de marceneiros que um dia tiveram muito menos trabalho.
Meio milhão de velórios, apesar de breves e quase sem presença, é velório inimaginável. Para tanto serviço fúnebre, milhares de funerárias nos 5.568 municípios brasileiros e no distrito federal atenderam dia e noite, semana após semana, mês após mês. Funerárias que nem sempre tiveram tantos clientes e faturamento tão alto em tão curto prazo.
Meio milhão de enterros é cova das mais profundas, é como desenterrar uma montanha de terra e depois ter que aterrar de novo. São sete palmos de esforço e suor de milhares e milhares de coveiros que um dia tiveram dias de folga. E muitos coveiros tiveram que enterrar corpos que um dia foram seus parentes, amigos e conhecidos. O que também vale para os crematórios, em câmaras ardentes com milhares de cerimônias semi desertas que em dias sem protocolo sanitário foram lotadas. Crematórios que consumiram gás como jamais foi consumido, que um dia foi fóssil que um dia foram animais vivos como foram os entes queridos cremados, agora cinzas e nada mais.
Meio milhão de defuntos é cadáver que não tem onde meter. Foram corpos acumulados, amontoados, empilhados nos IMLs por todo o país, atulhados em contêineres refrigerados nas maiores cidades. Tantos corpos que as 24h de cada dia foram insuficientes para infindáveis autópsias e tão exaustos legistas, embora a multiplicação funcional de milhares deles.
Meio milhão de mortos em ano e meio é falecimento incompreensível: é como se o Brasil não tivesse o SUS, a maior assistência pública à saúde no mundo. Como se a rede hospitalar não fosse tão competente e nem a medicina tão adiantada. Como se as exauridas equipes médicas e assistentes fracassassem na sua incansável dedicação 24h. É como se sacrificar no trabalho em um país onde a saúde pública foi negligenciada por um governo omisso em plena pandemia, como de fato é isso mesmo.
Meio milhão de vidas perdidas é o mesmo que um super terremoto devastasse uma cidade inteira. Como nossa geografia não tem nada com a nossa tragédia, é dor e lágrimas sem fim, sofrimento impensável para qualquer nação. Mas é também a gota d´água para a incapacidade administrativa e a desumanidade do deprimente da república. Ou o genocida cai ou não demora muito vamos chegar a um milhão de brasileiros mortos pela covid.
Meio milhão de atestados de óbito é papel tamanho ofício que não acaba mais. Milhares e milhares de resmas que um dia foram celulose que um dia foram árvores que um dia foram matas. Meio milhão de documentos que ocuparam centenas e centenas de cartórios com milhares e milhares de tabeliães durante meses e meses.
Meio milhão de caixões é caixão pra desolar. Cada caixão precisa de uns 4m2 de madeira, aí já vão 2 milhões de m2 de madeira. Que um dia foi árvore que um dia foi floresta e que agora é um desmatamento mais doloroso que os tristes desmatamentos de sempre. E cada caixão leva uns 100 pregos, vários ornamentos e seis puxadores, feito por milhares de marceneiros que um dia tiveram muito menos trabalho.
Meio milhão de velórios, apesar de breves e quase sem presença, é velório inimaginável. Para tanto serviço fúnebre, milhares de funerárias nos 5.568 municípios brasileiros e no distrito federal atenderam dia e noite, semana após semana, mês após mês. Funerárias que nem sempre tiveram tantos clientes e faturamento tão alto em tão curto prazo.
Meio milhão de enterros é cova das mais profundas, é como desenterrar uma montanha de terra e depois ter que aterrar de novo. São sete palmos de esforço e suor de milhares e milhares de coveiros que um dia tiveram dias de folga. E muitos coveiros tiveram que enterrar corpos que um dia foram seus parentes, amigos e conhecidos. O que também vale para os crematórios, em câmaras ardentes com milhares de cerimônias semi desertas que em dias sem protocolo sanitário foram lotadas. Crematórios que consumiram gás como jamais foi consumido, que um dia foi fóssil que um dia foram animais vivos como foram os entes queridos cremados, agora cinzas e nada mais.
Meio milhão de defuntos é cadáver que não tem onde meter. Foram corpos acumulados, amontoados, empilhados nos IMLs por todo o país, atulhados em contêineres refrigerados nas maiores cidades. Tantos corpos que as 24h de cada dia foram insuficientes para infindáveis autópsias e tão exaustos legistas, embora a multiplicação funcional de milhares deles.
Meio milhão de mortos em ano e meio é falecimento incompreensível: é como se o Brasil não tivesse o SUS, a maior assistência pública à saúde no mundo. Como se a rede hospitalar não fosse tão competente e nem a medicina tão adiantada. Como se as exauridas equipes médicas e assistentes fracassassem na sua incansável dedicação 24h. É como se sacrificar no trabalho em um país onde a saúde pública foi negligenciada por um governo omisso em plena pandemia, como de fato é isso mesmo.
Meio milhão de vidas perdidas é o mesmo que um super terremoto devastasse uma cidade inteira. Como nossa geografia não tem nada com a nossa tragédia, é dor e lágrimas sem fim, sofrimento impensável para qualquer nação. Mas é também a gota d´água para a incapacidade administrativa e a desumanidade do deprimente da república. Ou o genocida cai ou não demora muito vamos chegar a um milhão de brasileiros mortos pela covid.
sexta-feira, 9 de julho de 2021
Comandante da Aeronáutica chama de advertência o que foi ameaça
Um alerta do poder armado às instituições não é qualquer alerta, como disse em entrevista ao jornal O Globo o comandante da Força Aérea Brasileira, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior. Não é pelo simples fato de que o poder armado detém a força e as demais instituições são desarmadas.
O brigadeiro é um bolsonarista de raiz, a ler-se o que publica ou reproduz em suas contas nas redes sociais. Ele diz que os militares estão incomodados com o que chama de tentativa de associação, por parte da CPI da Covid-19, entre a corporação (as Forças Armadas) e as suspeitas de corrupção apuradas pelos senadores.
Critica o tratamento dado a colegas alvo das investigações, como o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, e o coronel Elcio Franco, ex-secretário-geral do ministério. Mas afirma que as Forças Armadas não tolerarão casos comprovados de militares corruptos: “Não protegeremos quem está à margem da lei”.
Segundo ele, os militares se mantêm “dentro das linhas da Constituição”. E cita um trecho da nota assinada pelos comandantes das três armas e pelo ministro da Defesa: “As Forças Armadas não aceitarão ataques levianos”. Quanto a elas poderem embarcar numa aventura golpista, observou:
“Homem armado não ameaça”.
O que quis dizer com a frase “homem armado não ameaça”, sabe-se lá. Isso não lhe foi perguntado. Sabe-se que um homem armado pode ser uma ameaça, sim, desde que disposto a impor sua autoridade por meio do possível uso da arma. Não precisa sequer exibi-la ou sacá-la, muito menos dispará-la. Arma faz diferença.
Não é a CPI quem promove a associação entre as Forças Armadas nem as suspeitas de corrupção que mancham a reputação de militares investigados – são os fatos. Este é um governo eleito com o apoio maciço do poder militar, que governa com o apoio maciço do poder militar e que emprega um número gigantesco de militares.
Como já admitiu o presidente da República, nunca na história do Brasil, nem mesmo durante os 21 anos da ditadura de 64, um governo empregou tantos militares. Os militares ganharam uma reforma da Previdência só para eles. Dinheiro reservado para a compra de vacinas comprou equipamentos militares.
O presidente vive a adulá-los, é visto mais em cerimônias militares do que nas demais promovidas por órgãos do próprio governo. Não esconde o desejo de implantar no país um regime autoritário com o apoio das Forças Armadas. E são cada vez mais tênues os sinais dados por elas de que recusarão tal apoio.
Para lidar com “ataques levianos”, a Justiça oferece vários meios a quem pessoalmente ou como corporação se sinta ofendido. Só o presidente da República, como Comandante Supremo das Forças Armadas, pode falar por elas sobre temas de ampla repercussão política – os comandantes não podem, nem o ministro da Defesa.
E tem mais: cabe à Justiça, e somente a ela se provocada, atestar a natureza leviana dos ataques. Isso, naturalmente, quando a pessoa ou a instituição procede de acordo com o que diz a Constituição. A nota de “advertência” dos chefes militares, por mais que eles digam que só foi dirigida à CPI, ultrapassou os limites da lei.
A CPI é um instrumento da minoria parlamentar assegurado pela Constituição. Por parlamentar, é um instrumento do Congresso, um dos três poderes da República juntamente com o Executivo e o Judiciário. A Constituição não prevê a existência de um quarto poder, muito menos armado. Os militares é que se veem assim.
O tempo é o senhor da razão. Em nome da defesa da democracia, por duas vezes de 1930 para cá, os militares golpearam a Constituição e sustentaram ditaduras. A história do país está pontilhada de tentativas de golpes militares que fracassaram. As eleições do ano que vem estão logo ali na esquina.
Veremos então se seus resultados, sejam quais forem, serão de fato respeitados pelos que se apresentam como os pais legítimos da República, aqui instalada por um golpe militar.
O brigadeiro é um bolsonarista de raiz, a ler-se o que publica ou reproduz em suas contas nas redes sociais. Ele diz que os militares estão incomodados com o que chama de tentativa de associação, por parte da CPI da Covid-19, entre a corporação (as Forças Armadas) e as suspeitas de corrupção apuradas pelos senadores.
Critica o tratamento dado a colegas alvo das investigações, como o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, e o coronel Elcio Franco, ex-secretário-geral do ministério. Mas afirma que as Forças Armadas não tolerarão casos comprovados de militares corruptos: “Não protegeremos quem está à margem da lei”.
Segundo ele, os militares se mantêm “dentro das linhas da Constituição”. E cita um trecho da nota assinada pelos comandantes das três armas e pelo ministro da Defesa: “As Forças Armadas não aceitarão ataques levianos”. Quanto a elas poderem embarcar numa aventura golpista, observou:
“Homem armado não ameaça”.
O que quis dizer com a frase “homem armado não ameaça”, sabe-se lá. Isso não lhe foi perguntado. Sabe-se que um homem armado pode ser uma ameaça, sim, desde que disposto a impor sua autoridade por meio do possível uso da arma. Não precisa sequer exibi-la ou sacá-la, muito menos dispará-la. Arma faz diferença.
Não é a CPI quem promove a associação entre as Forças Armadas nem as suspeitas de corrupção que mancham a reputação de militares investigados – são os fatos. Este é um governo eleito com o apoio maciço do poder militar, que governa com o apoio maciço do poder militar e que emprega um número gigantesco de militares.
Como já admitiu o presidente da República, nunca na história do Brasil, nem mesmo durante os 21 anos da ditadura de 64, um governo empregou tantos militares. Os militares ganharam uma reforma da Previdência só para eles. Dinheiro reservado para a compra de vacinas comprou equipamentos militares.
O presidente vive a adulá-los, é visto mais em cerimônias militares do que nas demais promovidas por órgãos do próprio governo. Não esconde o desejo de implantar no país um regime autoritário com o apoio das Forças Armadas. E são cada vez mais tênues os sinais dados por elas de que recusarão tal apoio.
Para lidar com “ataques levianos”, a Justiça oferece vários meios a quem pessoalmente ou como corporação se sinta ofendido. Só o presidente da República, como Comandante Supremo das Forças Armadas, pode falar por elas sobre temas de ampla repercussão política – os comandantes não podem, nem o ministro da Defesa.
E tem mais: cabe à Justiça, e somente a ela se provocada, atestar a natureza leviana dos ataques. Isso, naturalmente, quando a pessoa ou a instituição procede de acordo com o que diz a Constituição. A nota de “advertência” dos chefes militares, por mais que eles digam que só foi dirigida à CPI, ultrapassou os limites da lei.
A CPI é um instrumento da minoria parlamentar assegurado pela Constituição. Por parlamentar, é um instrumento do Congresso, um dos três poderes da República juntamente com o Executivo e o Judiciário. A Constituição não prevê a existência de um quarto poder, muito menos armado. Os militares é que se veem assim.
O tempo é o senhor da razão. Em nome da defesa da democracia, por duas vezes de 1930 para cá, os militares golpearam a Constituição e sustentaram ditaduras. A história do país está pontilhada de tentativas de golpes militares que fracassaram. As eleições do ano que vem estão logo ali na esquina.
Veremos então se seus resultados, sejam quais forem, serão de fato respeitados pelos que se apresentam como os pais legítimos da República, aqui instalada por um golpe militar.
Preparando o tapete
Se houve algum desvio de conduta pontual, isso não pode ser generalizado e, por outro lado, acobertado. Não dá para jogar para debaixo do tapeteACM Neto, prefeito de Salvador e presidente do DEM
Quem é você no golpe do Jair?
Jair Bolsonaro já avisou que tentará dar um golpe no ano que vem caso não vença as eleições. Mais: afirmou que, por ele, não haverá sequer eleições caso elas não sejam da maneira como quer, com o tal voto impresso.
Portanto, neste assunto, ninguém pode se fazer de desentendido. “Ah, mas o presidente está blefando”, dirão aqueles sempre dispostos a contemporizar com o inadmissível. Não está. Assim como não blefou durante toda a sua vida pública a respeito dos absurdos que pregou, pelos quais trabalhou, que prometeu em campanha e que tenta, aos trancos e barrancos, implementar na Presidência.
Portanto, essa muleta de se dizer pego de surpresa quando Bolsonaro sair da retórica para a tentativa de ação ninguém poderá usar. Eleitores, empresários e, sobretudo, os agentes com responsabilidades públicas e institucionais.
Arthur Lira. Até aqui, o presidente da Câmara é aquele que tenta comer tudo o que pode na churrascaria rodízio para fazer valer o que pagou. Sustenta Bolsonaro à custa de lautos nacos da picanha sangrenta do Orçamento. Na lógica de Lira, vale uma crise institucional em nome do poder que o presidente lhe franqueia.
Augusto Aras. Preterido para o Supremo Tribunal Federal (STF), o procurador-geral da República se recolheu a um silêncio dúbio. Já não se esforça para bajular o presidente, como quando ainda esperava ser contemplado com uma das cadeiras que vagaram no STF, mas também não cumpre seu papel de fiscalizar o Executivo, porque quer ser reconduzido. O risco para Bolsonaro: a decisão sobre a recondução de Aras será, agora, anterior à conclusão da CPI da Covid, que será prorrogada. Quem será o Aras reconduzido e, portanto, não mais devedor de Bolsonaro? A ver.
Luiz Fux. Também soa tímida em excesso a nota de repúdio do presidente do STF diante das tentativas diárias do presidente de desmoralizar a mais alta Corte da Justiça e seus integrantes. As insinuações criminosas de Bolsonaro em relação a Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes e Edson Fachin, seus alvos preferenciais, deveriam motivar um basta do presidente do Supremo, e não lamentos cheios de dedos e punhos de renda.
General Walter Braga Netto. Espécie de interventor bolsonarista nas Forças Armadas, patrono da inédita troca simultânea de todos os comandantes militares por capricho do presidente, vem seguindo os desígnios que o ocupante de turno do Planalto espera dos militares. Vai com ele até o fim? Até a tentativa verde-amarela da “invasão do Capitólio”? É preciso que as alas das três armas comprometidas com a democracia cobrem sensatez e contenção por parte do comando. E o vice-presidente, general Hamilton Mourão, entra aqui neste verbete: em sua tentativa de dissipar as desconfianças de Bolsonaro para consigo, Mourão calará até quando diante desse festival de absurdos?
É importante que esses homens, todos eles investidos de poderes, mas também de deveres, pela Constituição tenham em mente desde já de que lado da História estarão quando o presidente tentar seu golpe de fancaria, caso se mantenha seu derretimento apontado pelas pesquisas diante das múltiplas falências do regime de descalabros que implementou.
Portanto, neste assunto, ninguém pode se fazer de desentendido. “Ah, mas o presidente está blefando”, dirão aqueles sempre dispostos a contemporizar com o inadmissível. Não está. Assim como não blefou durante toda a sua vida pública a respeito dos absurdos que pregou, pelos quais trabalhou, que prometeu em campanha e que tenta, aos trancos e barrancos, implementar na Presidência.
Portanto, essa muleta de se dizer pego de surpresa quando Bolsonaro sair da retórica para a tentativa de ação ninguém poderá usar. Eleitores, empresários e, sobretudo, os agentes com responsabilidades públicas e institucionais.
Vamos, então, escalar o time dos que serão cobrados caso o país viva uma tentativa de ruptura democrática.
Arthur Lira. Até aqui, o presidente da Câmara é aquele que tenta comer tudo o que pode na churrascaria rodízio para fazer valer o que pagou. Sustenta Bolsonaro à custa de lautos nacos da picanha sangrenta do Orçamento. Na lógica de Lira, vale uma crise institucional em nome do poder que o presidente lhe franqueia.
Rodrigo Pacheco. O presidente do Senado se acovardou nos últimos dois dias diante de uma ameaça nítida das Forças Armadas ao Legislativo, um Poder da República. Aos poucos, os militares vão se espalhando na interpretação fake da Constituição segundo a qual têm um certo poder moderador em caso de impasse entre os Poderes. Não têm, e cabe aos chefes do Judiciário e do Legislativo dizer isso em voz alta e clara, sob pena de amanhã terem de se ver diante de algo mais grave que uma nota com saudade dos anos 1960 da parte dos fardados.
Augusto Aras. Preterido para o Supremo Tribunal Federal (STF), o procurador-geral da República se recolheu a um silêncio dúbio. Já não se esforça para bajular o presidente, como quando ainda esperava ser contemplado com uma das cadeiras que vagaram no STF, mas também não cumpre seu papel de fiscalizar o Executivo, porque quer ser reconduzido. O risco para Bolsonaro: a decisão sobre a recondução de Aras será, agora, anterior à conclusão da CPI da Covid, que será prorrogada. Quem será o Aras reconduzido e, portanto, não mais devedor de Bolsonaro? A ver.
Luiz Fux. Também soa tímida em excesso a nota de repúdio do presidente do STF diante das tentativas diárias do presidente de desmoralizar a mais alta Corte da Justiça e seus integrantes. As insinuações criminosas de Bolsonaro em relação a Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes e Edson Fachin, seus alvos preferenciais, deveriam motivar um basta do presidente do Supremo, e não lamentos cheios de dedos e punhos de renda.
General Walter Braga Netto. Espécie de interventor bolsonarista nas Forças Armadas, patrono da inédita troca simultânea de todos os comandantes militares por capricho do presidente, vem seguindo os desígnios que o ocupante de turno do Planalto espera dos militares. Vai com ele até o fim? Até a tentativa verde-amarela da “invasão do Capitólio”? É preciso que as alas das três armas comprometidas com a democracia cobrem sensatez e contenção por parte do comando. E o vice-presidente, general Hamilton Mourão, entra aqui neste verbete: em sua tentativa de dissipar as desconfianças de Bolsonaro para consigo, Mourão calará até quando diante desse festival de absurdos?
É importante que esses homens, todos eles investidos de poderes, mas também de deveres, pela Constituição tenham em mente desde já de que lado da História estarão quando o presidente tentar seu golpe de fancaria, caso se mantenha seu derretimento apontado pelas pesquisas diante das múltiplas falências do regime de descalabros que implementou.
Bolsonaro é mito, sim
Bem antes da eleição de 2018, ao ouvir pela primeira vez a massa de crentes políticos ovacionar Jair Messias Bolsonaro como “mito”, minha primeira reação foi horror. Horror por testemunhar que havia gente —muita gente— disposta a chamar aquele homem violento, obsceno e estúpido de “mito”. Tentei entender o porquê, mas sempre pensando na nomeação de “mito” como um tremendo equívoco. Agora, que o “mito” tornou-se o maior responsável pelo extermínio de mais de 525 mil brasileiras e brasileiros, percebo que Bolsonaro é, sim, um mito. E é por ser mito que está tão difícil fazer o impeachment mais do que justificado e mais do que urgente, o impeachment que é a melhor chance de evitar a ampliação da semeadura de cadáveres. É por Bolsonaro ser mito que (ainda) não conseguimos impedi-lo de seguir nos matando.
Não olho para o “mito” dos crentes políticos que seguem Bolsonaro, este que vem da popularização do termo nas redes sociais, pela palavra “mitou”, quando alguém faz ou diz algo considerado incrível. Ou “divou”. Também não olho pela lente do mito pop, como seria Marilyn Monroe ou Elvis Presley, por exemplo, parte da mitologia que alicerça o soft power dos Estados Unidos pela produção de Hollywood. Olho para o mito como a narrativa/imagem/enredo que explicam uma sociedade, povo, país. Bolsonaro é criatura-mito.
Neste exercício de interpretação, Bolsonaro inverte o percurso, ao realizar-se no plano que chamamos realidade para então nos levar a origens brutalmente reais, mas encobertas por mistificações como “país da democracia racial” ou “nação miscigenada” ou “povo cordial”, entre outras que nos falsificaram para nos formar —ou deformar.
Precisamos compreender que Bolsonaro é um mito para poder destruí-lo como mito. Parto dos gritos de “mito” da massa embrutecida para interpretar Bolsonaro como uma criatura mitológica feita de todos os nossos crimes. Ele é rigorosamente isto. Se fôssemos enumerar todas as violências que constituíram e constituem o que chamamos de Brasil, elas estão todas representadas e atualizadas em Bolsonaro. Este Messias é feito de cinco séculos de crimes, esta humana monstruosidade é constituída por todo o sangue criminosamente derramado.
Em Bolsonaro estão o os indígenas quase tão “humanos como nós”, estão os negros que “nem para procriadores servem mais”, estão as mulheres paridas nem da costela de Adão, mas de uma “fraquejada” do macho sujeito homem na cama, está a homofobia que prefere “um filho morto em um acidente de trânsito a um filho gay”, está a execução de todos aqueles que não são feitos a sua imagem e semelhança por “uma guerra civil, fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil”.
Bolsonaro contém a trajetória completa. Da fundação do Brasil pela destruição dos povos originários ao último país das Américas a abolir a escravidão negra. Da política de branqueamento da população, executada desde o Império pela importação de europeus, à República fundada por um golpe militar e abalada ciclicamente por golpes ou tentativas de golpes militares. Se Bolsonaro é filho de seu pai e de sua mãe, ele é também e muito mais filho de todas as políticas que fizeram de um território não circunscrito, intensamente povoado por populações originárias humanas e não humanas, o estado-nação circunscrito que chamamos Brasil.
Bolsonaro realiza em seu corpo-existência todas as políticas que fizeram do Brasil o que ele é —todos os crimes que fizeram do Brasil o que ele é. E os afirma como valor, como origem e como destino. Seu DNA é Brasil. Se todas as políticas que alicerçaram os genocídios indígenas e negros, assim como as grandes violências, fossem convertidas em carne, elas seriam Bolsonaro. Elas são. Que essa criatura mitológica tenha irrompido no momento em que os negros ampliavam sua participação e sua demanda por participação, a população indígena crescia apesar de todos os processos de extermínio e as mulheres ocupavam as ruas com seus corpos não é, obviamente, coincidência. A criatura irrompe para interromper, barrar, interditar uma disputa que ameaça sua própria gênese.
Quando Bolsonaro invoca para si a “verdade”, neste sentido, o do mito, ele está rigorosamente afirmando a verdade. Ele é a verdade sobre o Brasil. Não toda a verdade, nunca toda a verdade, mas uma parte substancial da verdade da nação fundada sobre corpos humanos e não humanos, sobre a violação e esgotamento da natureza, sobre a corrupção dos corpos e do patrimônio comum. Nação fundada e ativamente assim mantida até hoje. O grande mentiroso mente sobre tudo, mas não sobre o que é —nem sobre o Brasil.
Quando Bolsonaro simula uma arma com os dedos, ou um de seus rebentos, ele está apontando para onde? Para a população. Para nós. E atira, como a pandemia nos mostrou. O que pode ser mais explícito? A criatura mitológica do país que mata parte do seu povo de forma sistemática só pode ser um matador compulsivo.
Eu, que gosto de literatura de fantasia, cinema de fantasia, séries de fantasia, fico imaginando um blockbuster. Um país que torturou e matou por cinco séculos de repente é assombrado por uma criatura humanamente monstruosa que passa a torturar e a matar à luz do dia, no centro da República. Em algum momento, passa a matar também as elites que a engendraram em suas igrejas, o “mercado” entre elas. Como ficção, Bolsonaro é um personagem ruim, plano e inverossímil. Como realidade, porém, é mais aterrador do que qualquer personagem de ficção.
Penso que precisamos criar ficção para enfrentar a realidade de Bolsonaro. Em 21 de abril, por exemplo, o movimento #liberteofuturo, que invoca a imaginação do futuro como instrumento de ação política no presente, fez o julgamento de Bolsonaro por genocídio numa plataforma de manifestação virtual (manifão). O artista Mundano criou o troféu “genocida”: uma escultura à base de lama de Brumadinho (80%) e resina (20%), com acabamentos usando óleo do vazamento do Nordeste, spray e um pedaço de luva emborrachada amarela. Imaginávamos o que lutamos para que aconteça, mas não acontece, imaginávamos justiça. Ao imaginar e realizar, interviemos no presente. Ao mesmo tempo, denunciávamos, por meio de um julgamento real, que produz realidade embora não possa colocar Bolsonaro na cadeia, a omissão tanto das cortes brasileiras quanto das internacionais diante do extermínio e do genocídio liderados por Bolsonaro usando a covid-19. Mais do que ficção, precisamos de arte para retomar o presente.
A dificuldade de fazer o impeachment de Bolsonaro, assim como a dificuldade de julgá-lo por seus crimes, é justamente porque Bolsonaro é mito. O que ele explica do Brasil está ativo, absolutamente ativo, no processo de impeachment. Arthur Lira (PP) tem o supertraseiro sentado sobre o superpedido de impeachment e escorado pelos parlamentares de aluguel do Centrão. Entre os líderes da CPI que investiga a atuação de Bolsonaro e de seu Governo na pandemia, despontam Renan Calheiros (MDB) e Omar Aziz (PSD). Se a citação dos nomes não for autoexplicativa, basta fazer um Google. Assim, mesmo quando Bolsonaro, o homem, é investigado e enfraquecido, como está acontecendo agora, Bolsonaro, o mito, se fortalece, porque é o Brasil encarnado por Bolsonaro que está em ação. É o Brasil sendo Brasil, é um acerto entre semelhantes.
Bolsonaro precisa ser impedido dentro da Constituição, e quanto antes for, menos mortos haverá. Defendo o impeachment há muito tempo. Mais. Quero vê-lo no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional, em Haia, julgado por extermínio contra a população não indígena e por genocídio contra os indígenas, ambos crimes contra a humanidade. Sem estes dois atos formais, não haverá justiça. Mas tudo isto se refere ao homem Bolsonaro. Para o mito, é muito mais complicado. E ainda mais importante.
O que está em curso hoje é (mais) um rearranjo. Um dos grandes, porque este é um dos grandes momentos da história do Brasil. Bolsonaro, o homem, levou a extremos a devoração da Amazônia e de outros enclaves da natureza, fez a ponte entre as milícias de cidades como Rio de Janeiro e as milícias da Amazônia, converteu parte das polícias militares em milícias autônomas. E, finalmente, o que não estava no programa, usou a covid-19 como arma biológica para matar —e matar muito mais os indígenas e os negros que estão mais expostos ao vírus. Matar os indígenas para eliminar a principal resistência à exploração predatória da floresta, os negros porque o racismo os declara como “a carne mais barata (e abundante) do mercado”.
Bolsonaro, o homem, usou a pandemia para levar a extremos a matança “normal” do Brasil, criando um “novo normal” de assassinatos em massa cometidos sem máscaras —em todos os sentidos— desde o centro do poder. E, assim, superou extasiado sua própria profecia: não 30 mil numa guerra civil, mas mais de 525 mil numa pandemia. O plano de disseminação do vírus para alcançar “imunidade de rebanho”, supostamente para manter a economia ativa, já está amplamente demonstrado. As últimas denúncias de corrupção na compra de vacinas mostram também que Bolsonaro pode ter atrasado a imunização da população para faturar e/ou deixar outros faturarem propinas. Puramente Brasil. Assassinato e corrupção amalgamados.
Bolsonaro, o homem, serve a Bolsonaro, o mito. Ele vem com a praga, é a própria praga gestada desde dentro. Mas, quando se torna praga, é apenas o homem a serviço do mito. Ao levar a matança declarada a extremos, Bolsonaro converte os protagonistas da destruição continuada, aquela que é tratada como “normal”, em lideranças “equilibradas”, “sensatas”, “respeitadoras da Constituição”. Democratas, até humanistas. Este serviço de lavanderia feito pelo homem é a melhor oferenda ao mito.
É a relação entre Ricardo Salles, até o mês passado ministro do meio ambiente, e Tereza Cristina, que segue sendo ministra da Agricultura. Salles fazia o serviço sujo de forma espetaculosa para que Tereza Cristina posasse como agronegócio moderno, costurando os ataques aos suportes naturais de vida em diligência silenciosa e persistente, como o recorde absoluto de aprovação de agrotóxicos. Esta estratégia é espichada até quase além de seus limites, e então Salles cai —não para mudar, mas para que a política de fundo não mude. O chanceler Ernesto Araújo foi mantido até quase além do possível, e então, quem o derruba? Katia Abreu, símbolo do ruralismo, articuladora importante das relações com a China, a grande potência mundial emergente, principal parceira comercial do Brasil, consumidora de mercadorias que antes eram natureza, potência que busca ampliar sua presença na Amazônia e no setor energético do Brasil.
Até aqui, eu cometi uma violenta imprecisão neste texto. Ela está no uso do “nós”. Não existe no Brasil esta unidade chamada “nós”. Nunca existiu. Há uma maioria massacrada e uma minoria que massacra. Esta é a história que Bolsonaro, o mito, nos conta. Em diferentes episódios, parte dos massacrados adere a seus próprios algozes na expectativa de faturar alguma sobra ou por acreditar que este é o único caminho possível para mudar de lugar. Como, em parte, aconteceu na eleição de 2018.
Em algum momento, que esperamos seja logo, o homem Bolsonaro será sacrificado para que o mito permaneça ativo. E mesmo aqueles que enxergam o tabuleiro inteiro precisam, devem ir às ruas pelo impeachment, para que menos morram. É preciso ter presente, porém, que quando Bolsonaro cair, seguiremos governados pelo mito e declaradamente por aqueles que só mudam de nome na história do Brasil. É preciso ter presente que não será possível respirar nem por um segundo.
A luta será então muito mais complexa, mais difícil e mais acirrada porque alguns dos mais nefastos jogadores, antes reconhecidos como nefastos jogadores, agora posam de democratas e até de humanistas. Não é outra coisa que Renan Calheiros, Omar Aziz, Tereza Cristina, Katia Abreu e até mesmo Luiz Henrique Mandetta fazem, entre muitos, muitos outros. Ou, pegando os novos nomes do velho sistema, que alquimia extraordinária Bolsonaro fez ao converter em democratas equilibrados figuras como Kim Kataguiri e outros milicianos digitais do MBL, que apenas ontem destruíram reputações com fake news, perseguiram professores de escola pública e levaram artistas a ser ameaçados de morte. Ou ainda a alquimia de tornar Joice Hasselmann e Alexandre Frota defensores da ética na política. Sem contar alguns expoentes da imprensa que colaboraram ativamente para que Bolsonaro fosse eleito e hoje se “horrorizam”, antirracistas e feministas desde o nascimento.
As diferenças fundamentais, hoje pasteurizadas pela cortesia de Bolsonaro ao prestar este serviço de lavanderia inestimável aos donos do país, ressurgirão. E a carnificina elevada a outro padrão seguirá sendo executada. O mito nasce da realidade. Só é possível destruir um mito alterando radicalmente a realidade que ele ecoa e representa. Sem a realidade, o mito se esvazia.
O que quero dizer é que devemos assumir o “nós”, mas sem perder a perspectiva das diferenças vitais, e lutar para derrubar —pela Constituição, sempre pela Constituição— o homem Bolsonaro. Aqueles que podem devem se insurgir nas ruas com vacina no braço, máscaras bem ajustadas no rosto e distância física rigorosa, se insurgir para que o Brasil não chegue a um milhão de mortos pela covid-19 propagada por Bolsonaro e pelo seu Governo. Mas o impeachment de Bolsonaro não é o fim. É só recomeço. Uma ruptura prevista na Constituição para a continuidade da luta de fundo. Porque só será possível derrubar o homem. O mito seguirá.
Para destruir o mito precisaremos refundar o Brasil. Os massacrados de cinco séculos, que são também a encarnação de uma capacidade de resistência monumental, porque sobrevivem mesmo depois de cinco séculos de destruição sistemática de seus corpos, devem tomar o centro que a eles legitimamente pertence para criar uma sociedade capaz de bem viver sem destruir os suportes de vida do planeta, as outras espécies e a si mesma. Só destruiremos o mito criando outra realidade, um Brasil que não negue sua origem de sangue, mas seja capaz de se inventar de outro jeito.
Esta é a luta. Porque não há tempo, ela precisará ser feita junto com o luto dos mortos e com a documentação da memória dos mortos. Ao destruir a floresta amazônica, o Brasil se tornou um dos líderes da corrosão do planeta. Estamos em emergência climática. O tempo está contra nós. A derrubada do homem Bolsonaro é um pequeno passo, a destruição do mito é o caminho. E ela é estratégica para que este planeta ainda possa ser uma casa.
Não olho para o “mito” dos crentes políticos que seguem Bolsonaro, este que vem da popularização do termo nas redes sociais, pela palavra “mitou”, quando alguém faz ou diz algo considerado incrível. Ou “divou”. Também não olho pela lente do mito pop, como seria Marilyn Monroe ou Elvis Presley, por exemplo, parte da mitologia que alicerça o soft power dos Estados Unidos pela produção de Hollywood. Olho para o mito como a narrativa/imagem/enredo que explicam uma sociedade, povo, país. Bolsonaro é criatura-mito.
Neste exercício de interpretação, Bolsonaro inverte o percurso, ao realizar-se no plano que chamamos realidade para então nos levar a origens brutalmente reais, mas encobertas por mistificações como “país da democracia racial” ou “nação miscigenada” ou “povo cordial”, entre outras que nos falsificaram para nos formar —ou deformar.
Precisamos compreender que Bolsonaro é um mito para poder destruí-lo como mito. Parto dos gritos de “mito” da massa embrutecida para interpretar Bolsonaro como uma criatura mitológica feita de todos os nossos crimes. Ele é rigorosamente isto. Se fôssemos enumerar todas as violências que constituíram e constituem o que chamamos de Brasil, elas estão todas representadas e atualizadas em Bolsonaro. Este Messias é feito de cinco séculos de crimes, esta humana monstruosidade é constituída por todo o sangue criminosamente derramado.
Em Bolsonaro estão o os indígenas quase tão “humanos como nós”, estão os negros que “nem para procriadores servem mais”, estão as mulheres paridas nem da costela de Adão, mas de uma “fraquejada” do macho sujeito homem na cama, está a homofobia que prefere “um filho morto em um acidente de trânsito a um filho gay”, está a execução de todos aqueles que não são feitos a sua imagem e semelhança por “uma guerra civil, fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil”.
Bolsonaro contém a trajetória completa. Da fundação do Brasil pela destruição dos povos originários ao último país das Américas a abolir a escravidão negra. Da política de branqueamento da população, executada desde o Império pela importação de europeus, à República fundada por um golpe militar e abalada ciclicamente por golpes ou tentativas de golpes militares. Se Bolsonaro é filho de seu pai e de sua mãe, ele é também e muito mais filho de todas as políticas que fizeram de um território não circunscrito, intensamente povoado por populações originárias humanas e não humanas, o estado-nação circunscrito que chamamos Brasil.
Bolsonaro realiza em seu corpo-existência todas as políticas que fizeram do Brasil o que ele é —todos os crimes que fizeram do Brasil o que ele é. E os afirma como valor, como origem e como destino. Seu DNA é Brasil. Se todas as políticas que alicerçaram os genocídios indígenas e negros, assim como as grandes violências, fossem convertidas em carne, elas seriam Bolsonaro. Elas são. Que essa criatura mitológica tenha irrompido no momento em que os negros ampliavam sua participação e sua demanda por participação, a população indígena crescia apesar de todos os processos de extermínio e as mulheres ocupavam as ruas com seus corpos não é, obviamente, coincidência. A criatura irrompe para interromper, barrar, interditar uma disputa que ameaça sua própria gênese.
Quando Bolsonaro invoca para si a “verdade”, neste sentido, o do mito, ele está rigorosamente afirmando a verdade. Ele é a verdade sobre o Brasil. Não toda a verdade, nunca toda a verdade, mas uma parte substancial da verdade da nação fundada sobre corpos humanos e não humanos, sobre a violação e esgotamento da natureza, sobre a corrupção dos corpos e do patrimônio comum. Nação fundada e ativamente assim mantida até hoje. O grande mentiroso mente sobre tudo, mas não sobre o que é —nem sobre o Brasil.
Quando Bolsonaro simula uma arma com os dedos, ou um de seus rebentos, ele está apontando para onde? Para a população. Para nós. E atira, como a pandemia nos mostrou. O que pode ser mais explícito? A criatura mitológica do país que mata parte do seu povo de forma sistemática só pode ser um matador compulsivo.
Eu, que gosto de literatura de fantasia, cinema de fantasia, séries de fantasia, fico imaginando um blockbuster. Um país que torturou e matou por cinco séculos de repente é assombrado por uma criatura humanamente monstruosa que passa a torturar e a matar à luz do dia, no centro da República. Em algum momento, passa a matar também as elites que a engendraram em suas igrejas, o “mercado” entre elas. Como ficção, Bolsonaro é um personagem ruim, plano e inverossímil. Como realidade, porém, é mais aterrador do que qualquer personagem de ficção.
Penso que precisamos criar ficção para enfrentar a realidade de Bolsonaro. Em 21 de abril, por exemplo, o movimento #liberteofuturo, que invoca a imaginação do futuro como instrumento de ação política no presente, fez o julgamento de Bolsonaro por genocídio numa plataforma de manifestação virtual (manifão). O artista Mundano criou o troféu “genocida”: uma escultura à base de lama de Brumadinho (80%) e resina (20%), com acabamentos usando óleo do vazamento do Nordeste, spray e um pedaço de luva emborrachada amarela. Imaginávamos o que lutamos para que aconteça, mas não acontece, imaginávamos justiça. Ao imaginar e realizar, interviemos no presente. Ao mesmo tempo, denunciávamos, por meio de um julgamento real, que produz realidade embora não possa colocar Bolsonaro na cadeia, a omissão tanto das cortes brasileiras quanto das internacionais diante do extermínio e do genocídio liderados por Bolsonaro usando a covid-19. Mais do que ficção, precisamos de arte para retomar o presente.
A dificuldade de fazer o impeachment de Bolsonaro, assim como a dificuldade de julgá-lo por seus crimes, é justamente porque Bolsonaro é mito. O que ele explica do Brasil está ativo, absolutamente ativo, no processo de impeachment. Arthur Lira (PP) tem o supertraseiro sentado sobre o superpedido de impeachment e escorado pelos parlamentares de aluguel do Centrão. Entre os líderes da CPI que investiga a atuação de Bolsonaro e de seu Governo na pandemia, despontam Renan Calheiros (MDB) e Omar Aziz (PSD). Se a citação dos nomes não for autoexplicativa, basta fazer um Google. Assim, mesmo quando Bolsonaro, o homem, é investigado e enfraquecido, como está acontecendo agora, Bolsonaro, o mito, se fortalece, porque é o Brasil encarnado por Bolsonaro que está em ação. É o Brasil sendo Brasil, é um acerto entre semelhantes.
Bolsonaro precisa ser impedido dentro da Constituição, e quanto antes for, menos mortos haverá. Defendo o impeachment há muito tempo. Mais. Quero vê-lo no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional, em Haia, julgado por extermínio contra a população não indígena e por genocídio contra os indígenas, ambos crimes contra a humanidade. Sem estes dois atos formais, não haverá justiça. Mas tudo isto se refere ao homem Bolsonaro. Para o mito, é muito mais complicado. E ainda mais importante.
O que está em curso hoje é (mais) um rearranjo. Um dos grandes, porque este é um dos grandes momentos da história do Brasil. Bolsonaro, o homem, levou a extremos a devoração da Amazônia e de outros enclaves da natureza, fez a ponte entre as milícias de cidades como Rio de Janeiro e as milícias da Amazônia, converteu parte das polícias militares em milícias autônomas. E, finalmente, o que não estava no programa, usou a covid-19 como arma biológica para matar —e matar muito mais os indígenas e os negros que estão mais expostos ao vírus. Matar os indígenas para eliminar a principal resistência à exploração predatória da floresta, os negros porque o racismo os declara como “a carne mais barata (e abundante) do mercado”.
Bolsonaro, o homem, usou a pandemia para levar a extremos a matança “normal” do Brasil, criando um “novo normal” de assassinatos em massa cometidos sem máscaras —em todos os sentidos— desde o centro do poder. E, assim, superou extasiado sua própria profecia: não 30 mil numa guerra civil, mas mais de 525 mil numa pandemia. O plano de disseminação do vírus para alcançar “imunidade de rebanho”, supostamente para manter a economia ativa, já está amplamente demonstrado. As últimas denúncias de corrupção na compra de vacinas mostram também que Bolsonaro pode ter atrasado a imunização da população para faturar e/ou deixar outros faturarem propinas. Puramente Brasil. Assassinato e corrupção amalgamados.
Bolsonaro, o homem, serve a Bolsonaro, o mito. Ele vem com a praga, é a própria praga gestada desde dentro. Mas, quando se torna praga, é apenas o homem a serviço do mito. Ao levar a matança declarada a extremos, Bolsonaro converte os protagonistas da destruição continuada, aquela que é tratada como “normal”, em lideranças “equilibradas”, “sensatas”, “respeitadoras da Constituição”. Democratas, até humanistas. Este serviço de lavanderia feito pelo homem é a melhor oferenda ao mito.
É a relação entre Ricardo Salles, até o mês passado ministro do meio ambiente, e Tereza Cristina, que segue sendo ministra da Agricultura. Salles fazia o serviço sujo de forma espetaculosa para que Tereza Cristina posasse como agronegócio moderno, costurando os ataques aos suportes naturais de vida em diligência silenciosa e persistente, como o recorde absoluto de aprovação de agrotóxicos. Esta estratégia é espichada até quase além de seus limites, e então Salles cai —não para mudar, mas para que a política de fundo não mude. O chanceler Ernesto Araújo foi mantido até quase além do possível, e então, quem o derruba? Katia Abreu, símbolo do ruralismo, articuladora importante das relações com a China, a grande potência mundial emergente, principal parceira comercial do Brasil, consumidora de mercadorias que antes eram natureza, potência que busca ampliar sua presença na Amazônia e no setor energético do Brasil.
Até aqui, eu cometi uma violenta imprecisão neste texto. Ela está no uso do “nós”. Não existe no Brasil esta unidade chamada “nós”. Nunca existiu. Há uma maioria massacrada e uma minoria que massacra. Esta é a história que Bolsonaro, o mito, nos conta. Em diferentes episódios, parte dos massacrados adere a seus próprios algozes na expectativa de faturar alguma sobra ou por acreditar que este é o único caminho possível para mudar de lugar. Como, em parte, aconteceu na eleição de 2018.
Em algum momento, que esperamos seja logo, o homem Bolsonaro será sacrificado para que o mito permaneça ativo. E mesmo aqueles que enxergam o tabuleiro inteiro precisam, devem ir às ruas pelo impeachment, para que menos morram. É preciso ter presente, porém, que quando Bolsonaro cair, seguiremos governados pelo mito e declaradamente por aqueles que só mudam de nome na história do Brasil. É preciso ter presente que não será possível respirar nem por um segundo.
A luta será então muito mais complexa, mais difícil e mais acirrada porque alguns dos mais nefastos jogadores, antes reconhecidos como nefastos jogadores, agora posam de democratas e até de humanistas. Não é outra coisa que Renan Calheiros, Omar Aziz, Tereza Cristina, Katia Abreu e até mesmo Luiz Henrique Mandetta fazem, entre muitos, muitos outros. Ou, pegando os novos nomes do velho sistema, que alquimia extraordinária Bolsonaro fez ao converter em democratas equilibrados figuras como Kim Kataguiri e outros milicianos digitais do MBL, que apenas ontem destruíram reputações com fake news, perseguiram professores de escola pública e levaram artistas a ser ameaçados de morte. Ou ainda a alquimia de tornar Joice Hasselmann e Alexandre Frota defensores da ética na política. Sem contar alguns expoentes da imprensa que colaboraram ativamente para que Bolsonaro fosse eleito e hoje se “horrorizam”, antirracistas e feministas desde o nascimento.
As diferenças fundamentais, hoje pasteurizadas pela cortesia de Bolsonaro ao prestar este serviço de lavanderia inestimável aos donos do país, ressurgirão. E a carnificina elevada a outro padrão seguirá sendo executada. O mito nasce da realidade. Só é possível destruir um mito alterando radicalmente a realidade que ele ecoa e representa. Sem a realidade, o mito se esvazia.
O que quero dizer é que devemos assumir o “nós”, mas sem perder a perspectiva das diferenças vitais, e lutar para derrubar —pela Constituição, sempre pela Constituição— o homem Bolsonaro. Aqueles que podem devem se insurgir nas ruas com vacina no braço, máscaras bem ajustadas no rosto e distância física rigorosa, se insurgir para que o Brasil não chegue a um milhão de mortos pela covid-19 propagada por Bolsonaro e pelo seu Governo. Mas o impeachment de Bolsonaro não é o fim. É só recomeço. Uma ruptura prevista na Constituição para a continuidade da luta de fundo. Porque só será possível derrubar o homem. O mito seguirá.
Para destruir o mito precisaremos refundar o Brasil. Os massacrados de cinco séculos, que são também a encarnação de uma capacidade de resistência monumental, porque sobrevivem mesmo depois de cinco séculos de destruição sistemática de seus corpos, devem tomar o centro que a eles legitimamente pertence para criar uma sociedade capaz de bem viver sem destruir os suportes de vida do planeta, as outras espécies e a si mesma. Só destruiremos o mito criando outra realidade, um Brasil que não negue sua origem de sangue, mas seja capaz de se inventar de outro jeito.
Esta é a luta. Porque não há tempo, ela precisará ser feita junto com o luto dos mortos e com a documentação da memória dos mortos. Ao destruir a floresta amazônica, o Brasil se tornou um dos líderes da corrosão do planeta. Estamos em emergência climática. O tempo está contra nós. A derrubada do homem Bolsonaro é um pequeno passo, a destruição do mito é o caminho. E ela é estratégica para que este planeta ainda possa ser uma casa.
quinta-feira, 8 de julho de 2021
Por que os militares apoiam e apoiarão Bolsonaro até o fim
O que diz sobre a capacidade de avaliação dos comandantes militares brasileiros o apoio que deram a Jair Bolsonaro para que se elegesse presidente, e que dão para que governe?
Eles conheciam o candidato melhor do que ninguém. Como soldado, ele se distinguiu nas atividades atléticas, especialmente em corridas de curta distância. Ganhou o apelido de “Cavalão”.
Uma vez salvou um colega de morrer afogado. Foi garimpeiro enquanto vestia a farda, o que era proibido. Planejou atentado à bomba em quartéis para reclamar por melhores salários.
Processado no Superior Tribunal Militar, negociou seu afastamento do Exército em troca da patente de capitão. Não pôde mais frequentar ambientes militares, e nem seus filhos podiam.
Em depoimento ao núcleo de pesquisas da Fundação Getulio Vargas, o general Ernesto Geisel, o terceiro presidente da ditadura de 64, classificou Bolsonaro de “um mal militar”. Foi o que ele foi.
Limitado intelectualmente, sem nunca ter lido um livro como admitiu e disso se orgulha, entrou para a política como um lobista informal das Forças Armadas que não o reconheciam como tal.
Elegeu-se e se reelegeu sete vezes como deputado federal do baixo clero. Na Câmara, jamais ocupou posição de destaque, ou presidiu alguma comissão ou aprovou um único projeto.
Treze candidatos disputaram a eleição presidencial de 2018 – entre eles, três que haviam governado Estados, três ex-ministros, um ainda senador e outro empresário.
Por que os comandantes militares, liderados à época pelo general Eduardo Villas Bôas, preferiram apoiar Bolsonaro a qualquer outro nome? Logo Bolsonaro, que conheciam tão bem?
Simples. Porque ele tinha mais chances de impedir a volta da esquerda (Lula-Haddad) ao poder, e também da centro-esquerda (Ciro Gomes). Porque com Bolsonaro, eles voltariam ao poder.
Era um despreparado? Sempre souberam que sim. Jamais imaginaram outra coisa. Mas ele seguiria suas ordens, supunham; abriria espaço para eles no governo; privilegiaria suas pautas.
Generais veem soldados e oficiais como pessoas que lhes devem obediência. Missão dada, missão cumprida. A missão dada a Bolsonaro resumia-se a isto: esquerda, nunca mais!
Não há militares de esquerda em nenhuma das três armas. Houve até 64 quando os poucos acabaram expurgados. A formação dos militares é pela direita, sempre foi, não é de hoje.
De resto, sentem-se superiores aos civis e julgam-se donos da última palavra quando enxergam ameaças à República que proclamaram por meio de um golpe. São patriotas, os civis menos.
Alguns entre eles começam a reconhecer que fizeram uma má escolha ao apoiarem o capitão anarco-sindicalista – mas são poucos os que batem no peito em sinal de sincero arrependimento.
Se no ano que vem, Bolsonaro despontar como nome capaz de vencer outra vez, esquecerão seus clamorosos crimes e o seguirão em massa como boas e pacíficas ovelhas com porte de arma.
Eles conheciam o candidato melhor do que ninguém. Como soldado, ele se distinguiu nas atividades atléticas, especialmente em corridas de curta distância. Ganhou o apelido de “Cavalão”.
Uma vez salvou um colega de morrer afogado. Foi garimpeiro enquanto vestia a farda, o que era proibido. Planejou atentado à bomba em quartéis para reclamar por melhores salários.
Processado no Superior Tribunal Militar, negociou seu afastamento do Exército em troca da patente de capitão. Não pôde mais frequentar ambientes militares, e nem seus filhos podiam.
Em depoimento ao núcleo de pesquisas da Fundação Getulio Vargas, o general Ernesto Geisel, o terceiro presidente da ditadura de 64, classificou Bolsonaro de “um mal militar”. Foi o que ele foi.
Limitado intelectualmente, sem nunca ter lido um livro como admitiu e disso se orgulha, entrou para a política como um lobista informal das Forças Armadas que não o reconheciam como tal.
Elegeu-se e se reelegeu sete vezes como deputado federal do baixo clero. Na Câmara, jamais ocupou posição de destaque, ou presidiu alguma comissão ou aprovou um único projeto.
Treze candidatos disputaram a eleição presidencial de 2018 – entre eles, três que haviam governado Estados, três ex-ministros, um ainda senador e outro empresário.
Por que os comandantes militares, liderados à época pelo general Eduardo Villas Bôas, preferiram apoiar Bolsonaro a qualquer outro nome? Logo Bolsonaro, que conheciam tão bem?
Simples. Porque ele tinha mais chances de impedir a volta da esquerda (Lula-Haddad) ao poder, e também da centro-esquerda (Ciro Gomes). Porque com Bolsonaro, eles voltariam ao poder.
Era um despreparado? Sempre souberam que sim. Jamais imaginaram outra coisa. Mas ele seguiria suas ordens, supunham; abriria espaço para eles no governo; privilegiaria suas pautas.
Generais veem soldados e oficiais como pessoas que lhes devem obediência. Missão dada, missão cumprida. A missão dada a Bolsonaro resumia-se a isto: esquerda, nunca mais!
Não há militares de esquerda em nenhuma das três armas. Houve até 64 quando os poucos acabaram expurgados. A formação dos militares é pela direita, sempre foi, não é de hoje.
De resto, sentem-se superiores aos civis e julgam-se donos da última palavra quando enxergam ameaças à República que proclamaram por meio de um golpe. São patriotas, os civis menos.
Alguns entre eles começam a reconhecer que fizeram uma má escolha ao apoiarem o capitão anarco-sindicalista – mas são poucos os que batem no peito em sinal de sincero arrependimento.
Se no ano que vem, Bolsonaro despontar como nome capaz de vencer outra vez, esquecerão seus clamorosos crimes e o seguirão em massa como boas e pacíficas ovelhas com porte de arma.
É o poder, o poder que move os homens. Poder de mandar e de ser atendido. Poder de vir a ter seus desejos satisfeitos.
De militares a milicos
Os militares devem estar na caserna, nos quartéis. Eles são militares do Estado e não do governo. Onde vamos parar?Marco Aurélio Mello, ministro do STF
A superação dos generais
O Exército não puniu Pazuello. Qual a surpresa? O governo é militar. Surpreendente seria se punisse o que lhe dá dentes para intimidar inimigos. O governo é militar, e é Bolsonaro, indistinta e personalissimamente, o que ladra. Surpreendente seria punir-se com a banguelice.
O governo é militar e é daquele que ergueu bem-sucedida empresa familiar nas bordas do Estado. O governo é militar e é de patriotas como general Braga Netto, ministro da Defesa, cujo salário — sob regra editada pelo mito — aumentou 58% e para mui além do teto remuneratório constitucional. O governo é militar e é do capitão, o velho líder corporativista fã de Hugo Chávez. Não cortará na própria carne — e isso não se aplica somente a privilégios de contracheque.
Não há mais fronteira entre Planalto e Exército. No Ministério da Saúde ou sobre o palanque, Pazuello servia — obedecia — a Bolsonaro, um chefe supremo das Forças Armadas cuja ascendência sobre as tropas já não deriva da Carta, mas da lógica personalista que fundamenta as relações entre o cabeça miliciano e seus homens.
O governo é militar. Militar e golpista. E não chegou a 2021 sem que a estrada fosse pavimentada por badaladíssimos quatro estrelas da moderação. Em 2018, o então comandante do Exército, dito moderado, foi a uma rede social para emboscar o Supremo. Era o general Villas Bôas, padrinho do Bolsonaro presidente e patrono da multiplicação dos generais Ramos — aquele para quem Pazuello, general da ativa, subiu ao carro de som como civil, aquele mesmo Ramos que, diante da série de atos antidemocráticos com a presença do presidente, compareceu “só no da rampa”. (Ramos, outro fura-teto: 69% de aumento salarial.)
Foi de rampeiro em rampeiro que chegamos até aqui. E não sem covardes. Os códigos militares são diretos: a participação do ex-ministro general na manifestação bolsonarista infringiu as regras. O Exército tinha a mais fácil desculpa para repreendê-lo: a clareza dos estatutos. Optou, porém, pela submissão. Ou melhor: teria optado, se não estivesse submisso havia muito. No último 27 de maio, o comandante da Força, Paulo Sérgio Nogueira, aceitou viajar com Bolsonaro ao Amazonas para inaugurar uma ponte erguida pela engenharia militar — isso à véspera de ter de decidir sobre Pazuello. Lá, previsivelmente, ouviu o presidente declarar que “somos todos seres políticos”, generais inclusive, e que caberia aos fardados decidir “como o povo viverá”.
Fala-se que teria recebido diretamente de Bolsonaro uma carga para que não penalizasse Pazuello. Não penalizou.
Na semana passada, circulou a versão de que o comandante do Exército assim agira sob cálculo. Temeria que a punição causasse um conflito entre a cúpula do Exército e o presidente; caso em que haveria o risco de Bolsonaro lhe sustar a decisão, o que o obrigaria a renunciar, abrindo terreno para que um bolsonarista chegasse ao comando. Uma conta que não fecha, senão para fantasiar a existência de algum brio militar no episódio. Ora! Desde quando Bolsonaro precisa de um bolsonarista — um explícito — na liderança da Força para ter o Exército a seu absoluto dispor?
Está muito bom com Nogueira mesmo, cujo caminho tomado — ainda que tivesse a intenção de evitar uma crise institucional — resultaria, como resultou, em algo muito mais grave: na mensagem de vale-tudo transmitida ao guarda da esquina.
Em português castiço: para o inferno o eventual choque entre cúpula do Exército e Bolsonaro. Ao comandante, só caberia aplicar o regulamento e disciplinar a tropa. Seu papel. Esse universo corrompido em que o comando da Força tem de fazer ponderação política só existe porque os generais escolheram se misturar, até a indistinção, ao governo de turno.
Aí está. Para que os sócios — parceiros fiéis neste projeto autoritário de poder — não se estranhassem pontualmente por cima, difundiu-se um salvo-conduto imprevisível para baixo, um convite ao estado de amotinamento; o que representaria a superação desta etapa de pazuellização para o estabelecimento de um Exército afinal bolsonarizado, em que todo militar, de qualquer grau, estaria autorizado, estimulado, a se comportar como Bolsonaro quando na Força: malandro, desagregador, conspirador, com planos atentatórios. É o que ele quer. O Exército como milícia. Status em que — fica a dica — não seriam necessários generais.
O governo é militar e é daquele que ergueu bem-sucedida empresa familiar nas bordas do Estado. O governo é militar e é de patriotas como general Braga Netto, ministro da Defesa, cujo salário — sob regra editada pelo mito — aumentou 58% e para mui além do teto remuneratório constitucional. O governo é militar e é do capitão, o velho líder corporativista fã de Hugo Chávez. Não cortará na própria carne — e isso não se aplica somente a privilégios de contracheque.
O governo é militar. E o Exército está pazuellizado: submetido à dissolução de sua essência impessoal, degradada a natureza de instituição de Estado, a serviço incondicional do governante de turno e independentemente do que limita a Constituição. Um manda, o outro obedece — qualquer que seja a ordem, depauperado também, confundido com falta de vergonha, o senso de hierarquia. O governo é militar, e o Exército vai bem alimentado.
O governo é militar e a pazuellização do Exército, fato consumado. Pazuello fez a aposta correta. Acreditou na acomodação, em que nem sequer seria advertido, e saiu premiado, com cargo no governo. Saiu mais que premiado, encarnando uma espécie de habeas corpus preventivo, extensivo a todos os militares: pode tudo, rapaziada.
Pôde tudo, anos atrás, o vice Mourão: general punido de mentirinha por discursos agitadores, deslocado — sob os holofotes que lhe dariam existência pública — a uma função burocrática desde a qual encontrou as condições ideais para sua escalada à política.
O governo é militar e a pazuellização do Exército, fato consumado. Pazuello fez a aposta correta. Acreditou na acomodação, em que nem sequer seria advertido, e saiu premiado, com cargo no governo. Saiu mais que premiado, encarnando uma espécie de habeas corpus preventivo, extensivo a todos os militares: pode tudo, rapaziada.
Pôde tudo, anos atrás, o vice Mourão: general punido de mentirinha por discursos agitadores, deslocado — sob os holofotes que lhe dariam existência pública — a uma função burocrática desde a qual encontrou as condições ideais para sua escalada à política.
Não há mais fronteira entre Planalto e Exército. No Ministério da Saúde ou sobre o palanque, Pazuello servia — obedecia — a Bolsonaro, um chefe supremo das Forças Armadas cuja ascendência sobre as tropas já não deriva da Carta, mas da lógica personalista que fundamenta as relações entre o cabeça miliciano e seus homens.
O governo é militar. Militar e golpista. E não chegou a 2021 sem que a estrada fosse pavimentada por badaladíssimos quatro estrelas da moderação. Em 2018, o então comandante do Exército, dito moderado, foi a uma rede social para emboscar o Supremo. Era o general Villas Bôas, padrinho do Bolsonaro presidente e patrono da multiplicação dos generais Ramos — aquele para quem Pazuello, general da ativa, subiu ao carro de som como civil, aquele mesmo Ramos que, diante da série de atos antidemocráticos com a presença do presidente, compareceu “só no da rampa”. (Ramos, outro fura-teto: 69% de aumento salarial.)
Foi de rampeiro em rampeiro que chegamos até aqui. E não sem covardes. Os códigos militares são diretos: a participação do ex-ministro general na manifestação bolsonarista infringiu as regras. O Exército tinha a mais fácil desculpa para repreendê-lo: a clareza dos estatutos. Optou, porém, pela submissão. Ou melhor: teria optado, se não estivesse submisso havia muito. No último 27 de maio, o comandante da Força, Paulo Sérgio Nogueira, aceitou viajar com Bolsonaro ao Amazonas para inaugurar uma ponte erguida pela engenharia militar — isso à véspera de ter de decidir sobre Pazuello. Lá, previsivelmente, ouviu o presidente declarar que “somos todos seres políticos”, generais inclusive, e que caberia aos fardados decidir “como o povo viverá”.
Fala-se que teria recebido diretamente de Bolsonaro uma carga para que não penalizasse Pazuello. Não penalizou.
Na semana passada, circulou a versão de que o comandante do Exército assim agira sob cálculo. Temeria que a punição causasse um conflito entre a cúpula do Exército e o presidente; caso em que haveria o risco de Bolsonaro lhe sustar a decisão, o que o obrigaria a renunciar, abrindo terreno para que um bolsonarista chegasse ao comando. Uma conta que não fecha, senão para fantasiar a existência de algum brio militar no episódio. Ora! Desde quando Bolsonaro precisa de um bolsonarista — um explícito — na liderança da Força para ter o Exército a seu absoluto dispor?
Está muito bom com Nogueira mesmo, cujo caminho tomado — ainda que tivesse a intenção de evitar uma crise institucional — resultaria, como resultou, em algo muito mais grave: na mensagem de vale-tudo transmitida ao guarda da esquina.
Em português castiço: para o inferno o eventual choque entre cúpula do Exército e Bolsonaro. Ao comandante, só caberia aplicar o regulamento e disciplinar a tropa. Seu papel. Esse universo corrompido em que o comando da Força tem de fazer ponderação política só existe porque os generais escolheram se misturar, até a indistinção, ao governo de turno.
Aí está. Para que os sócios — parceiros fiéis neste projeto autoritário de poder — não se estranhassem pontualmente por cima, difundiu-se um salvo-conduto imprevisível para baixo, um convite ao estado de amotinamento; o que representaria a superação desta etapa de pazuellização para o estabelecimento de um Exército afinal bolsonarizado, em que todo militar, de qualquer grau, estaria autorizado, estimulado, a se comportar como Bolsonaro quando na Força: malandro, desagregador, conspirador, com planos atentatórios. É o que ele quer. O Exército como milícia. Status em que — fica a dica — não seriam necessários generais.
A estreita visão do governo
O presidente Jair Bolsonaro editou medida provisória no início desta semana prorrogando o pagamento do auxílio emergencial por três meses. Cerca de 39 milhões de brasileiros receberão entre R$ 150 e R$ 375 até outubro. A nova rodada de pagamentos, portanto, segue os moldes da anterior, tanto em valores como em público-alvo.
Com o País ainda devastado pelos efeitos da pandemia de covid-19, prorrogar o auxílio emergencial era o mínimo a fazer, até mesmo por imposição humanitária. A taxa de desemprego beira os 15%, a inflação acima do teto da meta corrói a renda dos que ainda a têm e o espectro da fome ronda os lares de milhões de brasileiros. O grande problema é que Bolsonaro é um presidente do tipo que se contenta com o mínimo a fazer, especialmente quando este mínimo é o que ele precisa para tentar estancar a vertiginosa queda de sua popularidade.
A esta altura, já está claro para a maioria dos brasileiros – como pesquisas de opinião sobre o governo podem atestar – que o bem-estar da população passa ao largo do rol de preocupações do presidente da República. Bolsonaro só tem olhos para a eleição de 2022. Neste sentido, prorrogar o auxílio emergencial não se pauta por outra coisa que não o mero cálculo eleitoral. Caso estivesse genuinamente preocupado com a situação periclitante de milhões de brasileiros, Bolsonaro teria dedicado tempo e energia para melhor formular e implementar seu plano de transferência de renda, uma reformulação do programa Bolsa Família que o governo pretende chamar de Renda Brasil.
“Estamos prorrogando o auxílio emergencial por mais três meses enquanto acertamos o valor do novo Bolsa Família para o ano que vem”, disse o presidente durante breve cerimônia em seu gabinete. Por sua vez, o ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a prometer o lançamento do Renda Brasil ainda neste ano. Já o ministro da Cidadania, João Roma, afirmou que o programa será lançado em novembro próximo. Bolsonaro fala em 2022, Guedes é impreciso e Roma promete o Renda Brasil para daqui a cinco meses. Uma conversa entre os três poderia resolver ao menos o problema de comunicação.
A prorrogação do auxílio emergencial, repita-se, era o certo a fazer. Mais certo, porém, teria sido o governo compreender, ainda em 2020, o sentido da palavra “emergencial” e ter planejado a transição para o novo Bolsa Família, reformulado. Não o fez porque só planeja quem tem um plano a executar. A ausência de um programa de governo claro e exequível é um vício fundamental deste governo. Igualmente, a visão estreita. Basta lembrar que o ministro da Economia, não faz muito tempo, falou em “surpresa” pela irrupção da segunda onda de covid-19 no País, ainda mais mortal do que a primeira. Não foram poucos os epidemiologistas que alertaram para este risco.
Um programa de transferência de renda, seja como for chamado, é imperativo em um país tão desigual como o Brasil. Mas não deve ser um fim em si mesmo. É dever do governo planejar uma política econômica que propicie as condições para o crescimento da atividade, este, sim, capaz de mudar a vida das pessoas de forma consistente. A política econômica há de vir acompanhada por uma política de educação igualmente bem elaborada e implementada. No Brasil sob Jair Bolsonaro, não há uma coisa nem outra.
Ao presidente, ao que parece, interessa mais lançar mão de políticas pontuais de claro viés eleiçoeiro do que atacar os problemas que pairam sobre sua mesa de trabalho com mais responsabilidade. Bolsonaro não mobilizou seu governo para mudar profundamente a realidade que submete milhões de seus concidadãos à pobreza, ao desemprego e à fome. Agora, acossado que está por graves denúncias de corrupção na aquisição de vacinas, pela acusação da prática de “rachadinhas” e, como se não bastasse, pelos achados de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que tem lançado luz sobre o descalabro que é a resposta federal à crise sanitária, tenta de qualquer forma se manter de pé do ponto de vista eleitoral, dado que a atual conjuntura política lhe é flagrantemente desfavorável.
Com o País ainda devastado pelos efeitos da pandemia de covid-19, prorrogar o auxílio emergencial era o mínimo a fazer, até mesmo por imposição humanitária. A taxa de desemprego beira os 15%, a inflação acima do teto da meta corrói a renda dos que ainda a têm e o espectro da fome ronda os lares de milhões de brasileiros. O grande problema é que Bolsonaro é um presidente do tipo que se contenta com o mínimo a fazer, especialmente quando este mínimo é o que ele precisa para tentar estancar a vertiginosa queda de sua popularidade.
A esta altura, já está claro para a maioria dos brasileiros – como pesquisas de opinião sobre o governo podem atestar – que o bem-estar da população passa ao largo do rol de preocupações do presidente da República. Bolsonaro só tem olhos para a eleição de 2022. Neste sentido, prorrogar o auxílio emergencial não se pauta por outra coisa que não o mero cálculo eleitoral. Caso estivesse genuinamente preocupado com a situação periclitante de milhões de brasileiros, Bolsonaro teria dedicado tempo e energia para melhor formular e implementar seu plano de transferência de renda, uma reformulação do programa Bolsa Família que o governo pretende chamar de Renda Brasil.
“Estamos prorrogando o auxílio emergencial por mais três meses enquanto acertamos o valor do novo Bolsa Família para o ano que vem”, disse o presidente durante breve cerimônia em seu gabinete. Por sua vez, o ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a prometer o lançamento do Renda Brasil ainda neste ano. Já o ministro da Cidadania, João Roma, afirmou que o programa será lançado em novembro próximo. Bolsonaro fala em 2022, Guedes é impreciso e Roma promete o Renda Brasil para daqui a cinco meses. Uma conversa entre os três poderia resolver ao menos o problema de comunicação.
A prorrogação do auxílio emergencial, repita-se, era o certo a fazer. Mais certo, porém, teria sido o governo compreender, ainda em 2020, o sentido da palavra “emergencial” e ter planejado a transição para o novo Bolsa Família, reformulado. Não o fez porque só planeja quem tem um plano a executar. A ausência de um programa de governo claro e exequível é um vício fundamental deste governo. Igualmente, a visão estreita. Basta lembrar que o ministro da Economia, não faz muito tempo, falou em “surpresa” pela irrupção da segunda onda de covid-19 no País, ainda mais mortal do que a primeira. Não foram poucos os epidemiologistas que alertaram para este risco.
Um programa de transferência de renda, seja como for chamado, é imperativo em um país tão desigual como o Brasil. Mas não deve ser um fim em si mesmo. É dever do governo planejar uma política econômica que propicie as condições para o crescimento da atividade, este, sim, capaz de mudar a vida das pessoas de forma consistente. A política econômica há de vir acompanhada por uma política de educação igualmente bem elaborada e implementada. No Brasil sob Jair Bolsonaro, não há uma coisa nem outra.
Ao presidente, ao que parece, interessa mais lançar mão de políticas pontuais de claro viés eleiçoeiro do que atacar os problemas que pairam sobre sua mesa de trabalho com mais responsabilidade. Bolsonaro não mobilizou seu governo para mudar profundamente a realidade que submete milhões de seus concidadãos à pobreza, ao desemprego e à fome. Agora, acossado que está por graves denúncias de corrupção na aquisição de vacinas, pela acusação da prática de “rachadinhas” e, como se não bastasse, pelos achados de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que tem lançado luz sobre o descalabro que é a resposta federal à crise sanitária, tenta de qualquer forma se manter de pé do ponto de vista eleitoral, dado que a atual conjuntura política lhe é flagrantemente desfavorável.
Não é negacionismo, é só picaretagem
Em 22 de junho, Júlia Affonso relatou no Estadão o negócio suspeitíssimo de R$ 1,6 bilhão na compra da vacina indiana Covaxin, enquanto ficavam sem resposta propostas sem intermediário algum de empresas com compliance. Jair Bolsonaro atribuiu a demora à falta de autorização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de uso dos imunizantes vendidos por Pfizer, Johnson e Moderna. E à exigência dele de assumirem despesas de tratamento médico de eventuais efeitos colaterais na imunização. Na série Nêumanne Entrevista no Blog do Nêumanne, no portal do Estadão, o ex-encarregado de negócios no exterior do Banco do Brasil por 31 anos Luiz Geraldo Dolino disse que é ingênuo atribuir isso a negacionismo, terraplanismo ou obscurantismo da direita estúpida, que apoia incondicionalmente o presidente.
Conforme os fatos, listados no que ele batizou de “cronologia macabra”, a “ideologia” é cortina de fumaça para negociatas escusas no Ministério da Saúde (MS) por burocratas indicados para cargos de confiança pela gentalha política do Centrão. Em conluio com militares, que ocupam cargos de comando na pasta. Segundo Brenno Pires, que revelou neste jornal o escândalo do “tratoraço” ou “bolsolão”, documento oficial do MS confirma que “o valor da dose era US$ 10 por unidade, de acordo com reunião realizada em 20 de novembro entre representantes do governo e das empresas. Porém o preço fechado no contrato foi de US$ 15, um porcentual 50% maior. O valor global do contrato, de R$ 1,614 bilhão (já convertida a moeda), saiu R$ 534 milhões mais caro do que o preço original”. O próprio Brenno Pires e Lorenna Rodrigues informaram que o orçamento secreto destinou R$ 2,1 bilhões para fundos municipais de saúde.
Na sexta 25, o deputado federal Luís Miranda e seu irmão Luís Ricardo de Miranda revelaram à comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Senado para apurar crimes e omissões da União no combate à pandemia que narraram a Bolsonaro a pressão sobre o segundo para liberar R$ 225 milhões para pagar pela Covaxin comprada. O adiantamento não era previsto em contrato e a vacina fabricada pela Barhat Biotech fora autorizada pela Anvisa, mas com muitas restrições. Ao receber os irmãos em casa, o que não negou, Bolsonaro prometeu tomar providências. Mas nada fez.
Ao contrário, fiel ao estilo “Mateus, primeiro os meus”, o chefe do desgoverno operante mandou seu anspeçada Onyx Lorenzoni, secretário-geral da Presidência, denunciar os denunciantes à Polícia Federal, à Controladoria-Geral da União, à Advocacia-Geral da União e ao Ministério Público Federal por “denunciação caluniosa”. E pela “falsificação” do “invoice”. Mas a tal fatura é autêntica e consta do acervo disponível no sistema do próprio MS. Ninguém pediu desculpas pela infâmia. Ao contrário, com base em informações da Precisa, de Francisco Emerson Maximiano, o papel foi “corrigido”. Sempre disposto a trocar velha vergonha por outra mais recente, o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, apresentou na CPI a terceira versão: Bolsonaro teria pedido informações ao então ministro Eduardo Pazuello no domingo 21 de março. Este teria mobilizado o secretário executivo, Elcio Franco, exonerado em seguida e, depois, abrigado no valhacouto do Planalto. Na segunda 22, este teria dito que nada havia. Na terça 23, Pazzuello caiu. Um primor de presteza: investigação administrativa feita por um dos acusados e arquivada em 24 horas. Digna de figurar no Guinness Book of Records.
Na sexta 2 de julho, a CPI foi criticada por ter ouvido o cabo PM de Minas Luiz Paulo Dominguetti, que acusara o diretor de Logística (!) do MS, Roberto Ferreira Dias, de ter cobrado propina de US$ 1 (R$ 5,07) por cada uma de 400 milhões de doses de Astrazenica (sic). A AstraZeneca é parceira na vacina envasada pela Fiocruz. Chamado de “cavalo de Troia” pelos senadores da CPI, ele teve o celular apreendido e nele apareceu que cobrava US$ 0,25 (R$ 1,25) de comissão. Octávio Guedes, da GloboNews, reduziu-o a pangaré. Mas seu depoimento é peça importante no quebra-cabeças de atravessadores, propinas e comissões que emporcalham o combate federal à pandemia por um armada Brancaleone com cabo PM da ativa, coronéis do Exército, burocratas, chefões partidários e um pastor capelão. O líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros, segundo os interlocutores de 20 de março, foi dado como autor do “rolo”, o que não foi desmentido, e recorreu ao Supremo Tribunal Federal exigindo depor na CPI. Não se sabe se escolherá o relator ou se exigirá o direito de se calar, dado por Roberto Barroso ao milionário Carlos Wizard, flagrado rindo dos 524 mil mortos pela covid.
Na guerra dos picaretas pés de chinelo que a direita estúpida forneceu ao desgoverno Bolsonaro, só morrem inocentes. Os criminosos contam com o aval dos chefões da politicagem. O presidente da Câmara, Arthur Lira, debocha. O do Senado, Rodrigo Pacheco, fala em banalização do impeachment do nosso Napoleão de hospício. No mínimo, são cúmplices do genocídio doloso.
Conforme os fatos, listados no que ele batizou de “cronologia macabra”, a “ideologia” é cortina de fumaça para negociatas escusas no Ministério da Saúde (MS) por burocratas indicados para cargos de confiança pela gentalha política do Centrão. Em conluio com militares, que ocupam cargos de comando na pasta. Segundo Brenno Pires, que revelou neste jornal o escândalo do “tratoraço” ou “bolsolão”, documento oficial do MS confirma que “o valor da dose era US$ 10 por unidade, de acordo com reunião realizada em 20 de novembro entre representantes do governo e das empresas. Porém o preço fechado no contrato foi de US$ 15, um porcentual 50% maior. O valor global do contrato, de R$ 1,614 bilhão (já convertida a moeda), saiu R$ 534 milhões mais caro do que o preço original”. O próprio Brenno Pires e Lorenna Rodrigues informaram que o orçamento secreto destinou R$ 2,1 bilhões para fundos municipais de saúde.
Na sexta 25, o deputado federal Luís Miranda e seu irmão Luís Ricardo de Miranda revelaram à comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Senado para apurar crimes e omissões da União no combate à pandemia que narraram a Bolsonaro a pressão sobre o segundo para liberar R$ 225 milhões para pagar pela Covaxin comprada. O adiantamento não era previsto em contrato e a vacina fabricada pela Barhat Biotech fora autorizada pela Anvisa, mas com muitas restrições. Ao receber os irmãos em casa, o que não negou, Bolsonaro prometeu tomar providências. Mas nada fez.
Ao contrário, fiel ao estilo “Mateus, primeiro os meus”, o chefe do desgoverno operante mandou seu anspeçada Onyx Lorenzoni, secretário-geral da Presidência, denunciar os denunciantes à Polícia Federal, à Controladoria-Geral da União, à Advocacia-Geral da União e ao Ministério Público Federal por “denunciação caluniosa”. E pela “falsificação” do “invoice”. Mas a tal fatura é autêntica e consta do acervo disponível no sistema do próprio MS. Ninguém pediu desculpas pela infâmia. Ao contrário, com base em informações da Precisa, de Francisco Emerson Maximiano, o papel foi “corrigido”. Sempre disposto a trocar velha vergonha por outra mais recente, o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, apresentou na CPI a terceira versão: Bolsonaro teria pedido informações ao então ministro Eduardo Pazuello no domingo 21 de março. Este teria mobilizado o secretário executivo, Elcio Franco, exonerado em seguida e, depois, abrigado no valhacouto do Planalto. Na segunda 22, este teria dito que nada havia. Na terça 23, Pazzuello caiu. Um primor de presteza: investigação administrativa feita por um dos acusados e arquivada em 24 horas. Digna de figurar no Guinness Book of Records.
Na sexta 2 de julho, a CPI foi criticada por ter ouvido o cabo PM de Minas Luiz Paulo Dominguetti, que acusara o diretor de Logística (!) do MS, Roberto Ferreira Dias, de ter cobrado propina de US$ 1 (R$ 5,07) por cada uma de 400 milhões de doses de Astrazenica (sic). A AstraZeneca é parceira na vacina envasada pela Fiocruz. Chamado de “cavalo de Troia” pelos senadores da CPI, ele teve o celular apreendido e nele apareceu que cobrava US$ 0,25 (R$ 1,25) de comissão. Octávio Guedes, da GloboNews, reduziu-o a pangaré. Mas seu depoimento é peça importante no quebra-cabeças de atravessadores, propinas e comissões que emporcalham o combate federal à pandemia por um armada Brancaleone com cabo PM da ativa, coronéis do Exército, burocratas, chefões partidários e um pastor capelão. O líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros, segundo os interlocutores de 20 de março, foi dado como autor do “rolo”, o que não foi desmentido, e recorreu ao Supremo Tribunal Federal exigindo depor na CPI. Não se sabe se escolherá o relator ou se exigirá o direito de se calar, dado por Roberto Barroso ao milionário Carlos Wizard, flagrado rindo dos 524 mil mortos pela covid.
Na guerra dos picaretas pés de chinelo que a direita estúpida forneceu ao desgoverno Bolsonaro, só morrem inocentes. Os criminosos contam com o aval dos chefões da politicagem. O presidente da Câmara, Arthur Lira, debocha. O do Senado, Rodrigo Pacheco, fala em banalização do impeachment do nosso Napoleão de hospício. No mínimo, são cúmplices do genocídio doloso.
Politizadas, Forças Armadas mordem a CPI e assopram as fardas sob suspeição
Na CPI da Covid, quando alguém menciona numa rodinha de conversa o envolvimento de militares no escândalo das vacinas é impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de suspeito. Entre oficiais da ativa e da reserva, frequentam o rol dos encrencados meia dúzia de patentes: um general, três coronéis e dois tenentes-coronéis.
Incomodado com o surgimento de fardas ineptas ou com fins lucrativos, o presidente da CPI, Omar Aziz, lastimou: "Os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo."
Abespinhados, o Ministério da Defesa e os comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica disseram que Aziz atacou as Forças Armadas de forma "vil", "leviana", "infundada" e, sobretudo, "irresponsável". Em nota oficial, a cúpula militar escreveu: "As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..." A resposta é tardia, desonesta e presunçosa.
A reação chega tarde porque o silêncio das Forças Armadas diante da perversão já havia consolidado a sensação de cumplicidade com oficiais que grudaram na farda um código de barras. É desonesta porque desconsidera o apreço de Aziz pelo pedaço limpo das forças militares. "Quando a gente fala de alguns oficiais do Exército, é lógico, nós não estamos generalizando", declarou o senador. "De forma nenhuma, nós estamos entrando aqui no mérito que as Forças Armadas têm", acrescentou.
A nota da cúpula militar é presunçosa porque ameaça o Legislativo —"As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..."— no pressuposto de que a democracia brasileira aceitaria desaforos. O presidente da CPI foi a tréplica: "Pode fazer 50 notas contra mim, não me intimida." O que farão agora os comandantes militares?
Não podendo estacionar seus tanques na entrada do Congresso, fariam um bem a si mesmos e às corporações que representam se utilizassem sua ira para condenar quem enlameia a farda. A alternativa seria aderir à retórica do capitão, que chama os rivais da CPI de "pilantras", "patifes", "picaretas".
Depois, bastaria pendurar uma placa na entrada dos quarteis: "Diretório do PMB, Partido dos Militares do Bolsonaro". Não resolveria o problema. Mas diminuiria a taxa de cinismo.
Incomodado com o surgimento de fardas ineptas ou com fins lucrativos, o presidente da CPI, Omar Aziz, lastimou: "Os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo."
Abespinhados, o Ministério da Defesa e os comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica disseram que Aziz atacou as Forças Armadas de forma "vil", "leviana", "infundada" e, sobretudo, "irresponsável". Em nota oficial, a cúpula militar escreveu: "As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..." A resposta é tardia, desonesta e presunçosa.
A reação chega tarde porque o silêncio das Forças Armadas diante da perversão já havia consolidado a sensação de cumplicidade com oficiais que grudaram na farda um código de barras. É desonesta porque desconsidera o apreço de Aziz pelo pedaço limpo das forças militares. "Quando a gente fala de alguns oficiais do Exército, é lógico, nós não estamos generalizando", declarou o senador. "De forma nenhuma, nós estamos entrando aqui no mérito que as Forças Armadas têm", acrescentou.
A nota da cúpula militar é presunçosa porque ameaça o Legislativo —"As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..."— no pressuposto de que a democracia brasileira aceitaria desaforos. O presidente da CPI foi a tréplica: "Pode fazer 50 notas contra mim, não me intimida." O que farão agora os comandantes militares?
Não podendo estacionar seus tanques na entrada do Congresso, fariam um bem a si mesmos e às corporações que representam se utilizassem sua ira para condenar quem enlameia a farda. A alternativa seria aderir à retórica do capitão, que chama os rivais da CPI de "pilantras", "patifes", "picaretas".
Depois, bastaria pendurar uma placa na entrada dos quarteis: "Diretório do PMB, Partido dos Militares do Bolsonaro". Não resolveria o problema. Mas diminuiria a taxa de cinismo.
Dia de conflito da CPI com militares
As Forças Armadas e o ministro da Defesa reagiram de forma exagerada e fora do tom a uma declaração do presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM). E assim deram mais um passo na sua politização. Na sessão que terminou com a prisão de Roberto Dias houve tanta referência a militares que o senador disse que “os bons das Forças Armadas” deviam estar com vergonha dos “membros do lado podre”. Mais tarde, ele fez elogios às Forças Armadas, atenuando o que dissera. Os três comandantes e o general Braga Netto fizeram uma ameaça implícita. Disseram que “não aceitarão qualquer ataque leviano”. Omar, diante de um plenário em silêncio, deu sua resposta. “Podem fazer 50 notas contra mim, só não me intimidem."
Foi um dia de muitas revelações, apesar das mentiras, lacunas, inverossimilhanças de Roberto Dias. Seu depoimento deixou elementos para se concluir que há uma divisão no Ministério, de grupos com esquemas diferentes, querendo tirar vantagens na compra de imunizantes. O ex-secretário-executivo coronel Élcio Franco — aquele que usa o broche de uma caveira esfaqueada — estava no lado oposto ao de Ricardo Dias. Enquanto brasileiros morriam, vacina passara a ser uma moeda de troca numa disputa de poder.
O que o ex-diretor do Departamento de Logística falava não ficava de pé porque ele mesmo tratava de derrubar o que acabara de dizer. Segundo Dias, ele não negociou a compra de vacinas, mas aceitou marcar uma reunião no Ministério no dia seguinte ao do encontro no restaurante com o cabo Luiz Paulo Dominguetti. E nessa reunião tratou de vacinas. Ou seja, negociou.
Roberto Dias afirmou inúmeras vezes que toda a negociação de vacinas estava centralizada no secretário-executivo Élcio Franco. Se era assim, por que ele aceitou marcar uma reunião com Dominguetti e o coronel Marcelo Blanco para tratar da oferta de 400 milhões de doses? Se o assunto era vacina da Astrazeneca, porque ele nunca pensou — nem Franco — em chamar para essa conversa a Fiocruz, que tinha acordo com a própria Astrazeneca?
Na versão do ex-sargento Roberto Dias, o encontro com Dominguetti foi casual. Ele marcou um chopp com seu amigo às cinco da tarde. E apareceram por lá o coronel Marcelo Blanco, com quem havia trabalhado no Ministério, e o cabo Dominguetti. Numa hora daquelas, numa quinta-feira, no meio de uma pandemia que só naquele dia matou mais de 1.500 brasileiros, o diretor de logística do Ministério da Saúde de um país sem vacinas vai beber com um amigo. Encontra casualmente um ex-assessor que abriu uma empresa de medicamentos e um cabo da PM de Minas Gerais que diz representar uma empresa que teria 400 milhões de doses. O Ministério que foi tão fechado para a Pfizer, tão hostil ao Butantan, tão lerdo, fica de repente ágil e na tarde do dia seguinte estava recebendo em sua sala o cabo que agora ele define como picareta, aventureiro e mentiroso.
O senador Eduardo Braga (MDB-AM) deu chance para Dias se explicar. Lembrou que ele havia sofrido várias retaliações. Fora indicado para a Anvisa, mas a indicação fora retirada. Fora exonerado pelo general Eduardo Pazuello, mas sua demissão fora revista na Casa Civil. E após ser acusado, por Dominguetti, de cobrar a propina de um dólar por dose, ele foi exonerado. Além disso, assessores seus foram demitidos contra a sua vontade, e nomeados dois militares, um deles o tenente-coronel Alex Lial Marinho, já citado na CPI. Diante de todos esses sinais da luta interna no Ministério, Dias dizia não se lembrar dos eventos ou não ter ideia dos motivos. “Desconheço”, repetia.
Omar Aziz tentou dissuadi-lo. Pediu que ele falasse a verdade. Lembrou que ninguém ali era tolo. Na confusão que se formou após o presidente da CPI dar a ordem de prisão em flagrante por falso testemunho, a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) foi ao ponto:
— O senhor tentou infantilizar esta comissão. Todo mundo sabe que o seu encontro não foi casual. Pelo amor de Deus, o senhor está sendo preso, contribua com esta comissão. O senhor não está vendo que os integrantes do governo lhe jogaram para as cobras?
A CPI ontem deixou claro que o Ministério da Saúde do país que já perdeu 528 mil pessoas para a Covid dedica-se à guerra interna entre esquemas de poder. Militares da ativa ou da reserva, políticos do centrão se misturam nesse cenário de horror que é o governo Jair Bolsonaro.
Foi um dia de muitas revelações, apesar das mentiras, lacunas, inverossimilhanças de Roberto Dias. Seu depoimento deixou elementos para se concluir que há uma divisão no Ministério, de grupos com esquemas diferentes, querendo tirar vantagens na compra de imunizantes. O ex-secretário-executivo coronel Élcio Franco — aquele que usa o broche de uma caveira esfaqueada — estava no lado oposto ao de Ricardo Dias. Enquanto brasileiros morriam, vacina passara a ser uma moeda de troca numa disputa de poder.
O que o ex-diretor do Departamento de Logística falava não ficava de pé porque ele mesmo tratava de derrubar o que acabara de dizer. Segundo Dias, ele não negociou a compra de vacinas, mas aceitou marcar uma reunião no Ministério no dia seguinte ao do encontro no restaurante com o cabo Luiz Paulo Dominguetti. E nessa reunião tratou de vacinas. Ou seja, negociou.
Roberto Dias afirmou inúmeras vezes que toda a negociação de vacinas estava centralizada no secretário-executivo Élcio Franco. Se era assim, por que ele aceitou marcar uma reunião com Dominguetti e o coronel Marcelo Blanco para tratar da oferta de 400 milhões de doses? Se o assunto era vacina da Astrazeneca, porque ele nunca pensou — nem Franco — em chamar para essa conversa a Fiocruz, que tinha acordo com a própria Astrazeneca?
Na versão do ex-sargento Roberto Dias, o encontro com Dominguetti foi casual. Ele marcou um chopp com seu amigo às cinco da tarde. E apareceram por lá o coronel Marcelo Blanco, com quem havia trabalhado no Ministério, e o cabo Dominguetti. Numa hora daquelas, numa quinta-feira, no meio de uma pandemia que só naquele dia matou mais de 1.500 brasileiros, o diretor de logística do Ministério da Saúde de um país sem vacinas vai beber com um amigo. Encontra casualmente um ex-assessor que abriu uma empresa de medicamentos e um cabo da PM de Minas Gerais que diz representar uma empresa que teria 400 milhões de doses. O Ministério que foi tão fechado para a Pfizer, tão hostil ao Butantan, tão lerdo, fica de repente ágil e na tarde do dia seguinte estava recebendo em sua sala o cabo que agora ele define como picareta, aventureiro e mentiroso.
O senador Eduardo Braga (MDB-AM) deu chance para Dias se explicar. Lembrou que ele havia sofrido várias retaliações. Fora indicado para a Anvisa, mas a indicação fora retirada. Fora exonerado pelo general Eduardo Pazuello, mas sua demissão fora revista na Casa Civil. E após ser acusado, por Dominguetti, de cobrar a propina de um dólar por dose, ele foi exonerado. Além disso, assessores seus foram demitidos contra a sua vontade, e nomeados dois militares, um deles o tenente-coronel Alex Lial Marinho, já citado na CPI. Diante de todos esses sinais da luta interna no Ministério, Dias dizia não se lembrar dos eventos ou não ter ideia dos motivos. “Desconheço”, repetia.
Omar Aziz tentou dissuadi-lo. Pediu que ele falasse a verdade. Lembrou que ninguém ali era tolo. Na confusão que se formou após o presidente da CPI dar a ordem de prisão em flagrante por falso testemunho, a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) foi ao ponto:
— O senhor tentou infantilizar esta comissão. Todo mundo sabe que o seu encontro não foi casual. Pelo amor de Deus, o senhor está sendo preso, contribua com esta comissão. O senhor não está vendo que os integrantes do governo lhe jogaram para as cobras?
A CPI ontem deixou claro que o Ministério da Saúde do país que já perdeu 528 mil pessoas para a Covid dedica-se à guerra interna entre esquemas de poder. Militares da ativa ou da reserva, políticos do centrão se misturam nesse cenário de horror que é o governo Jair Bolsonaro.
quarta-feira, 7 de julho de 2021
O Brasil em voo cego
Evidências crescentes da gravíssima crise climática levam o mundo, apesar do atraso, a ampliar esforços para mitigá-la. Mas, para quase todos os políticos brasileiros, o assunto inexiste! Autoridades negam o fenômeno e atrasam providências. Sobre a questão climática, as oposições não se manifestam.
Nos últimos dias, fatos ligados ao aquecimento global pouco repercutiram no Brasil, mas devem ser lembrados.
No normalmente gelado Canadá, moradores da pequena cidade de Lytton, perto da costa oeste, sofreram 49,60C, temperatura mais elevada da história no país e mais alta que Dubai. Na vizinha Seattle o termômetro ficou em 420C, acima do recorde de Miami! Portland, próxima, superou em 50C o recorde de Houston!
E não só lá. No Japão, nos três primeiros dias deste julho, mais chuvas do que o esperado para todo o mês causaram deslizamento de terra e mortes; em partes do Paquistão e no golfo Pérsico ondas de calor elevaram a temperatura acima do que pessoas saudáveis podem suportar ao ar livre! No Brasil, a crise hídrica ameaça com falta d’água!
Isso tudo está se tornando o “novo normal”, e nem chegamos ainda à elevação de 20C referida no acordo de Paris; mantido nosso comportamento atual, projeções indicam aumento da temperatura média da Terra acima de 40C nas próximas décadas!
Também na semana passada a contida rainha Elizabeth II, visitando centro de pesquisa climática, afirmou que “enfrentar a mudança climática significará mudar a maneira como fazemos as coisas”. Com isso, ela rompeu a barreia posta pelo ex-presidente George Bush quando, às vésperas da Rio 92, disse “nosso estilo de vida é inegociável”. Mudar a maneira como fazemos as coisas, isto é, nosso estilo de vida, com apoio em novas políticas, tecnologias e valores, é a única forma de evitarmos que se generalizem – ainda mais em países tropicais – temperaturas mais elevadas do que humanos podem suportar!
Enquanto isso, no tropical Brasil, o número de focos de incêndio continua crescendo, o governo destrói agências ambientais e cria uma comissão inoperante! Sem gerar resultados condizentes com a construção do futuro, como afirmar que as instituições estão funcionando?
Não há dúvidas: as aceleradas mudanças climáticas agravarão ainda mais nossos problemas de saúde, saneamento, habitação, segurança, educação e outros, ampliando as desigualdades. É essencial e urgente enfrentá-las e mitigá-las, caminhar rumo a novos estilos de vida, com novas tecnologias, minimizando, com urgência, a queima de combustíveis fósseis, a geração de lixo e a ocupação descontrolada do solo. Enfim, alterando “a vida como ela é”! Não é fácil mas é indispensável!
Ao ideologizar esses temas, vê-los como frutos de conspirações contra nós e descartar enfrentá-los, o governo nos condena à retaguarda da história e a sofrimentos ainda maiores. Mais grave e preocupante: não se conhece manifestação dos ditos presidenciáveis sobre a questão climática!!!!
Eduardo Fernandez Silva
Nos últimos dias, fatos ligados ao aquecimento global pouco repercutiram no Brasil, mas devem ser lembrados.
No normalmente gelado Canadá, moradores da pequena cidade de Lytton, perto da costa oeste, sofreram 49,60C, temperatura mais elevada da história no país e mais alta que Dubai. Na vizinha Seattle o termômetro ficou em 420C, acima do recorde de Miami! Portland, próxima, superou em 50C o recorde de Houston!
E não só lá. No Japão, nos três primeiros dias deste julho, mais chuvas do que o esperado para todo o mês causaram deslizamento de terra e mortes; em partes do Paquistão e no golfo Pérsico ondas de calor elevaram a temperatura acima do que pessoas saudáveis podem suportar ao ar livre! No Brasil, a crise hídrica ameaça com falta d’água!
Isso tudo está se tornando o “novo normal”, e nem chegamos ainda à elevação de 20C referida no acordo de Paris; mantido nosso comportamento atual, projeções indicam aumento da temperatura média da Terra acima de 40C nas próximas décadas!
Também na semana passada a contida rainha Elizabeth II, visitando centro de pesquisa climática, afirmou que “enfrentar a mudança climática significará mudar a maneira como fazemos as coisas”. Com isso, ela rompeu a barreia posta pelo ex-presidente George Bush quando, às vésperas da Rio 92, disse “nosso estilo de vida é inegociável”. Mudar a maneira como fazemos as coisas, isto é, nosso estilo de vida, com apoio em novas políticas, tecnologias e valores, é a única forma de evitarmos que se generalizem – ainda mais em países tropicais – temperaturas mais elevadas do que humanos podem suportar!
Enquanto isso, no tropical Brasil, o número de focos de incêndio continua crescendo, o governo destrói agências ambientais e cria uma comissão inoperante! Sem gerar resultados condizentes com a construção do futuro, como afirmar que as instituições estão funcionando?
Não há dúvidas: as aceleradas mudanças climáticas agravarão ainda mais nossos problemas de saúde, saneamento, habitação, segurança, educação e outros, ampliando as desigualdades. É essencial e urgente enfrentá-las e mitigá-las, caminhar rumo a novos estilos de vida, com novas tecnologias, minimizando, com urgência, a queima de combustíveis fósseis, a geração de lixo e a ocupação descontrolada do solo. Enfim, alterando “a vida como ela é”! Não é fácil mas é indispensável!
Ao ideologizar esses temas, vê-los como frutos de conspirações contra nós e descartar enfrentá-los, o governo nos condena à retaguarda da história e a sofrimentos ainda maiores. Mais grave e preocupante: não se conhece manifestação dos ditos presidenciáveis sobre a questão climática!!!!
Eduardo Fernandez Silva
Falou, Spike!
Este mundo é governado por gângsteres, O Agente Laranja [Trump], o cara do Brasil [Bolsonaro] e [Vladimir] Putin. Eles são gângsteres e farão o que quiserem. Eles não têm moral nem escrúpulos. Este é o mundo em que vivemos, e nós temos que falar publicamente contra gângsteres como essesSpike Lee, cineasta americano que preside o júri da 74ª edição do Festival de Cannes
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