sábado, 13 de março de 2021

Infanticídio: '10 vezes mais mortes de bebês por covid 19 do que os EUA'

Desde o início da pandemia de covid-19, 420 bebês morreram em decorrência do novo coronavírus no Brasil, número aproximadamente dez vezes maior do que o dos Estados Unidos, país com o maior número de óbitos pela doença, de acordo com dados oficiais.


Segundo o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) norte-americano, 45 bebês, ou crianças com menos de um ano, perderam a vida após infecção pelo vírus.

Entre as crianças de um a cinco anos, a discrepância entre os dois países também fica nítida: foram 207 mortes por covid-19 no Brasil contra 52 nos Estados Unidos.

Os números brasileiros também são maiores do que o do Reino Unido, que registrou apenas duas mortes por coronavírus entre bebês (menos de um ano). E superiores aos do México, onde 307 crianças entre zero e quatro anos morreram. Já a França teve apenas quatro mortes entre zero e 14 anos devido ao novo coronavírus.

Bolsonaro não admite concorrência em ajuda aos pobres

É muito engraçado o presidente da República. Reclama do pagamento de auxílio emergencial pelos governadores. Quanto mais pessoas viverem “de favor” do Estado, mais dominadas elas serão, segundo disse ontem, como sempre irritado.

"Você vê que tem governador falando em auxílio emergencial, né, querem fazer o Bolsa Família próprio. Quanto mais gente vivendo de favor de Estado, mais dominado fica este povo", queixou-se Bolsonaro em conversa com um blogueiro dos seus.

Estocada em pelo menos dois governadores: o do Rio, Cláudio Castro (PSC), seu aliado, o do Ceará, Camilo Santana (PT). O programa de Castro prevê o pagamento mensal de até R$ 300 para cerca de 400 mil moradores do estado abaixo da linha da pobreza.

Santana (PT) anunciou na semana passada que pagará um auxílio de R$ 1.000 — duas parcelas de R$ 500— a profissionais de eventos, bares e restaurantes. Haverá também isenção da conta de água de cerca de 490 mil famílias nos meses de abril e maio.

Ora, ora, ora... O governo federal, no ano passado, não pagou um auxílio emergencial a milhões de brasileiros? E não voltará a pagar a partir do próximo mês? Bolsonaro quer faturar sozinho o que agora chama de Bolsa Família dos governadores?

Seu incômodo com a situação que enfrenta é tal que ele passou a criticar seus devotos. Ontem, em resposta a um deles, foi duro:

“Minha senhora, presta atenção em uma coisa. O pessoal tem que reconhecer o sacrifício que a gente faz, tá? Então, o pessoal tem que saber o que que está em jogo, o que que ele pode perder. E não esperar que uma pessoa resolva os seus problemas. Este problema é de todos nós, ok?"

A senhora não respondeu se está ok.

Pensamento do Dia

 


Secretário de Bolsonaro faz analogia absurda entre Holocausto e combate à pandemia

O secretário especial de Cultura do governo federal, Mário Frias, comparou na noite de quinta-feira  as medidas de combate à pandemia impostas por governadores e prefeitos ao Holocausto.

Em uma publicação no Twitter, o ex-ator Frias reproduziu um trecho do filme "A Lista de Schindler" (1993) que mostra trabalhadores judeus sendo assassinados por tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Nas cenas, as vítimas aparecem argumentando que eram "trabalhadores essenciais", mas os carrascos nazistas ignoram os apelos. No fim do vídeo, aparece uma mensagem em português: "Por medo, estamos permitindo políticos decidirem quem é essencial e quem não é. Cuidado. Seu trabalho é essencial. Você é essencial."

"O setor de eventos clama para poder levar o pão para dentro de casa, para poder sustentar a própria família. Até quando um burocrata arrogante irá dizer que ele não é essencial?", completou Frias numa mensagem que acompanha o vídeo.


Dessa forma, o secretário tentou fazer uma falsa analogia entre a matança de milhões de judeus durante o período nazista e os decretos de governadores que estão limitando serviços não essenciais para tentar conter o avanço da pandemia de covid-19, que já deixou mais de 272 mil mortos no Brasil.

No momento, o governo Jair Bolsonaro e seus apoiadores têm protagonizado uma nova ofensiva nas redes e nas ruas contra decretos de isolamento social com o objetivo de manter lojas e serviços abertos, mesmo diante do colapso da rede de saúde em vários estados e recordes consecutivos de mortes diárias por covid-19 no país.

A publicação de mau gosto de Frias provocou uma reação de repúdio do Museu do Holocausto de Curitiba, principal entidade no Brasil de preservação da memória das vítimas da barbárie nazista. Para o museu, Frias prejudica "a construção da memória do Holocausto".

"'A Lista de Schindler', secretário? É desta forma que pretende se opor às medidas de combate à pandemia? Crê que a analogia com esta paródia agressiva não ofende sobreviventes e descendentes? Que não prejudica a construção da memória do Holocausto? Que vergonha, secretário", declarou a administração do museu em resposta à publicação de Frias.

O secretário de Cultura respondeu numa mensagem com um erro grosseiro de português. "Sem duvida é preciso discernimento para se analisar uma postagem. Todos que sofreram desse horror tem meu respeito e solidariedade. O trexo (sic) do filme retrata bem uma situação que estamos vivenciando, guardadas as devidas proporções. Fique com Deus e vá trabalhar", escreveu Frias. Ele posteriormente apagou a publicação quando o erro foi apontado por usuários do Twitter.

Em mensagens publicadas no fim da manhã desta sexta-feira, Frias ainda tentou justificar a publicação do vídeo. "Dizer que essa analogia é uma ofensa ao grande povo judeu, que já experimentou todo esse terror na pele, é apenas um expediente retórico que tenta inviabilizar a devida crítica as nefastas e abomináveis violações às liberdades individuais que estão em andamento."
Histórico de banalização e falsas analogias

Não é a primeira vez que membros do governo Jair Bolsonaro fazem falsas analogias com o Holocausto para promover uma agenda contra medidas de restrição à pandemia ou para reclamar de críticas ao governo.

Em abril de 2020, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, comparou a imposição de medidas de distanciamento social aos campos de concentração nazistas.

Mesmo assim, na semana passada, em viagem a Israel, Araújo reclamou da publicação de um manifesto de intelectuais, sindicalistas e religiosos que comparou a situação dramática da pandemia no Brasil e a falta de ações do governo federal a uma "câmara de gás a céu aberto". Ao lado de membros do governo israelense, o ministro disse que esse tipo de analogia "banaliza" o Holocausto. Os autores do manifesto acabaram retirando esse trecho do texto. Araújo, por rua vez, nunca pediu desculpas pela sua fala de abril passado.

Em maio do ano passado, o então ministro da Educação Abraham Weintraub também usou falsas comparações com o nazismo para reclamar de uma operação da Polícia Federal contra bolsonariatas acusados de propagar fake news e ameaçar ministros do Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, Weintraub disse que as investigações contra os bolsonaristas eram uma "Noite dos Cristais brasileira", em referência à onda de violência patrocinada pelo regime nazista contra judeus alemães em 9 de novembro de 1938. A declaração de Weintraub também provocou repúdio de entidades judaicas e até do consulado de Israel em São Paulo.

Em outra ocasião, Weintraub disse falsamente em 2019 que os nazistas "inventaram a aspirina" numa publicação de mau gosto que sugeria que o educador Paulo Freire seria mais inútil que o nazismo. No entanto, a aspirina foi inventada décadas antes do nazismo e seu desenvolvimento contou com a participação de cientistas alemães de origem judaica.

Outros membros do governo, incluindo o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, também falaram falsamente em diversas oportunidades que o "nazismo é de esquerda", provocando reações de repúdio de historiadores e até da embaixada da Alemanha no Brasil e partidos políticos do país europeu.

Em maio passado, um vídeo publicado pela antiga Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) para divulgar medidas adotadas pelo governo no combate à crise sanitária provocada pelo coronavírus também provocou repúdio de associações judaicas. A gravação mostrava a mensagem "O trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil", no que foi encarado como uma referência direita ao lema "O trabalho liberta" ("Arbeit macht frei", em alemão), inscrita na entrada de vários antigos campos de concentração nazistas.

A secretaria comandada por Frias também tem um histórico perturbador com assuntos envolvendo o nazismo. Um de seus antecessores, o dramaturgo de extrema direita Roberto Alvim, chegou a plagiar um discurso do ministro nazista da propaganda Joseph Goebbels em um vídeo publicado em janeiro do ano passado. A própria estética da gravação remetia ao nazismo, com a reprodução ao fundo do trecho de uma ópera de Richard Wagner, o compositor favorito de Adolf Hitler.

Diante do repúdio maciço, Alvim foi forçado a deixar o cargo. O posto foi posteriormente ocupado por um curto período atribulado pela atriz Regina Duarte. Frias, um ex-ator que ganhou destaque nos anos 1990 pela sua participação na novela adolescente Malhação, assumiu o cargo em junho.

Verdade marcada no chão

Cemitério não mente
Margareth Dalcolmo


Isolamento ou morte

A “imprensa mequetrefe”, deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), tem seu valor. “Mequetrefe” (indivíduo intrometido, dado a meter-se no que não é de sua conta; enxerido), por exemplo, fora o repórter free-lance Gareth Jones, assim tratado pelo governo soviético na década de 1930. Ele tinha 27 anos, havia entrevistado Hitler e viajou para Moscou por conta própria com o firme propósito de entrevistar Stálin. Sem acesso ao líder comunista, rumou clandestinamente para Ucrânia, intrigado com a origem dos recursos investidos na industrialização da antiga União Soviética. Descobriu a “grande fome” provocada pelas coletivizações forçadas de Stálin, presenciando até casos de canibalismo.

A história é contada no filme “Mr. Jones” — A Sombra de Stálin”, na versão brasileira –, exibido no NOW. O roteiro se inspira no documentário “Hitler, Stalin & Mr. Jones”, levado ao ar em 2012 pela BBC. Chantageado para se calar sobre o que viu, Jones foi vítima de uma campanha de difamação, após publicar sua história na imprensa londrina. Fora desmentido por Walter Duranty, jornalista do New York Times e vencedor do Pulitzer, mais preocupado com o acesso às autoridades soviéticas do que com a realidade ao seu redor. A roteirista Andrea Chalupa inclui na trama o escritor George Orwell, autor do romance “A Revolução dos Bichos”, aproveitado o fato de que o dono da fazenda também se chama Mr. Jones. A censura em Moscou justificaria a analogia.

Holodomor é uma palavra ucraniana que significa “deixar morrer de fome”, “morrer de inanição”. Tal palavra passou a ser empregada para definir os acontecimentos que levaram à morte por fome de milhões de ucranianos entre os anos de 1931 e 1933. É óbvio que a intenção de Stálin não era essa, seu objetivo era expropriar os camponeses que haviam enriquecido nos tempos da “Nova Política Econômica” (NEP) do líder bolchevique Vladimir Lenin, que adotara o capitalismo no campo para abastecer as cidades.


As coletivizações forçadas de Stálin foram feitas para financiar a indústria pesada e preparar a União Soviética para a guerra iminente com a Alemanha, porém, resultaram numa tragédia humanitária. Estima-se de 3,3 a 6,3 milhões o número de mortos no Homolodor. Para Stálin, a morte dos camponeses ucranianos foi o efeito colateral da industrialização acelerada e do esforço de guerra contra Hitler.

A história de Mr. Jones não tem nada a ver com o que está acontece no Brasil? Tem, sim. Bolsonaro não está se dando conta do tamanho do desastre que sua atitude contraria às medidas de isolamento social pode provocar. Governadores e prefeitos as estão adotando para conter a expansão da pandemia. Comete um erro atrás do outro com seu negacionismo, darwinismo social e falta de empatia com as vítimas da pandemia. Não se deu conta de que deixar o novo coronavírus se reproduzir e sofrer mutações possibilita reinfecções e uma nova onda ainda mais violenta da pandemia, que está se transformando numa endemia. Não leva em conta os cálculos exponenciais dos sanitaristas sobre o aumento de casos e mortes.

Na avaliação de Bolsonaro, os óbitos são inevitáveis, o mais importante é manter a economia em pleno funcionamento. Entretanto, não é o isolamento que provoca recessão e desemprego, mas a multiplicação dos casos de covid-19, numa velocidade muito maior do que a vacinação da população. Estamos tendo um “apagão” nos hospitais, daqui a pouco teremos um “apagão” nos cemitérios. Não são apenas falta de leitos, faltam insumos e profissionais de saúde; faltarão câmaras frigoríficas.

Bolsonaro não é um desorientado, tem uma estratégia errada mesmo. Erra de conceito, ao apostar na centralidade a qualquer preço da atividade econômica; erra de método, ao desarticular o Sistema Único de Saúde (SUS), opondo o Ministério da Saúde aos governadores e prefeitos; e erra ao pregar desobediência civil às medidas sanitárias, criando um ambiente favorável para o vírus se propagar. Não leva em conta que o colapso sanitário resultará no colapso econômico, com desorganização da cadeia produtiva e crise de abastecimento. Com a velocidade atual de propagação da covid-19, somente um freio de arrumação pode evitar o desastre, ou seja, o lockdown temporário onde for preciso.

Zé Gotinha, do ostracismo sob Bolsonaro ao vexame de fuzil na mão

“Cadê o Zé Gotinha?”, indagou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em discurso realizado na quarta-feira na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo —o primeiro após ter seus direitos políticos restituídos pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. “Cadê o Zé Gotinha? Cadê o nosso querido Zé Gotinha? O Bolsonaro mandou embora porque pensou que ele era petista (...) E cadê o Zé Gotinha? Acabou”, afirmou. Com o país batendo recordes sucessivos de mortos pela covid-19, o mascote, no melhor estilo Arnold Schwarzenegger no filme O Exterminador do Futuro (“I’ll be back”, ou “eu voltarei”) apareceu: e de fuzil na mão.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro foi o responsável por disseminar em suas redes sociais a nova versão do personagem, criado em 1986 pelo artista plástico Darlan Rosa para fortalecer a campanha de vacinação contra a poliomielite. A versão repaginada do Zé Gotinha carrega fuzil M-16, um dos favoritos do Exército israelense, cujo corpo é uma seringa. A bandeira do Brasil como capa completa o figurino, numa tentativa de associação às bandeiras pró-armas do Governo de ultradireita. Em sua conta no Twitter, o filho 03 escreveu na legenda da ilustração que “a nossa arma é a vacina”. Marcelo Freixo (PSOL-RJ), ironizou a transformação do personagem e a mudança de opinião do Governo quanto à imunização: “Depois de sabotar a vacinação e mandar os brasileiros ‘enfiarem a máscara no rabo’, Eduardo Bolsonaro agora transformou o Zé Gotinha em miliciano”. À Folha, o próprio criador Darlan Rosa protestou: “É tudo o que eu não penso. Ele foi concebido como personagem educativo. Não há nada de educativo numa arma”.


Este Zé Gotinha maquinado é mais um capítulo no errático esforço do Governo Bolsonaro de reverter os prejuízos políticos, sanitários e econômicos provocados por um ano de negacionismo com relação à pandemia. Em um momento no qual o país bate recordes sucessivos de mortos pela covid-19, a economia está em parafuso e os índices de popularidade do presidente seguem caindo segundo as últimas pesquisas Atlas e XP/Ipespe, o Planalto avaliou que para continuar com o apoio de parte do empresariado —e manter alguma chance eleitoral em 2022— é preciso vacinar. O problema é que agora o país ainda luta no mercado mundial para conseguir os imunizantes.

O ostracismo vivido por Zé Gotinha até esta semana se traduz em números: de acordo com dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pela agência de dados Fiquem Sabendo, o investimento em campanhas de imunização feitas pelo Governo caiu 36% em dois anos. Em 2018 foi gasto 71,5 milhões de reais, no ano seguinte foram 58 milhões de reais e, no ano passado, 45,7 milhões de reais. Correndo contra o tempo, o Planalto contratou em janeiro uma agência para produzir vídeos publicitários sobre a vacinação contra a covid-19. O material, que ainda está sendo elaborado, deve custar 50 milhões e contar com o mascote Zé Gotinha.

A relação de Bolsonaro com o mascote não é das melhores. Desde o início da pandemia, em março de 2020, o mandatário sempre deixou claro o seu desprezo pelas vacinas, em especial a Coronavac, chamada por ele de forma preconceituosa de “vacina chinesa”, produzida no Instituto Butantan com a chancela de seu rival político João Doria, governador de São Paulo. Antes do retorno do Zé Gotinha de fuzil, alguns internautas tentaram emplacar um novo mascote, o Capitão Cloroquino, personagem que —assim como o presidente fez— defende o uso de medicamentos sem comprovação científica contra a covid-19. Não vingou.

O presidente já esteve cara a cara com o Zé Gotinha. Foi em dezembro de 2020, durante evento de lançamento do Plano Nacional de Imunização em Brasília. De um lado, o presidente negacionista, sem máscara, cercado por seus ministros, todos sem a devida proteção. Do outro, o mascote que ajudou a vacinar gerações de brasileiros. Com máscara. Sorridente, Bolsonaro se aproxima e estende a mão. Cumprindo o protocolo sanitário da Organização Mundial de Saúde, Zé tenta dar o bom exemplo, repele o aperto de mãos e faz um sinal de positivo com o polegar para cima, mantendo assim o distanciamento social e evitando contato físico desnecessário, seguindo as melhores práticas sanitárias. O presidente não se deu por vencido, e abraçou o mascote com um dos braços.

Zé Gotinha é um personagem que coleciona títulos. A caminhada rumo ao primeiro deles começou em 1986. Foram oito anos até que a vitória veio, em 1994, com o certificado de erradicação da doença responsável pela paralisia infantil —representado pelo vilão Monstro Perna de Pau nas propagandas da TV. De lá para cá o boneco alvo e sorridente, símbolo do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, acumulou mais vitórias do que o Canarinho amarelo da seleção brasileira de futebol: foram dezenas de campanhas de imunização ao longo de mais de três décadas, contra gripe, tétano, sarampo, rubéola... Mas aí veio 2020 e Zé Gotinha se viu enredado em disputas políticas e sem poder trabalhar por falta de vacinas contra o novo coronavírus.

Mais do que um mascote, Zé Gotinha se tornou símbolo de um programa de saúde pública forte e eficiente, um caso de sucesso que fez do país uma potência global em coordenação logística e campanhas de vacinação. Com milhares de postos de saúde espalhados pelos municípios brasileiros, a capilaridade do Sistema Único de Saúde faz com que o Brasil tenha a capacidade de vacinar até 60 milhões de pessoas por mês, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. O mascote chegava a aldeias remotas de Roraima, atendia comunidades ribeirinhas isoladas no Amazonas e também levava imunizantes aos menores municípios do interior cearense. Para efeito de comparação, os Estados Unidos, que começaram sua campanha de imunização contra a covid-19 em dezembro, atingiram apenas em março a marca de 82,5 milhões de vacinas aplicadas. Mas sem vacinas, o Brasil ainda engatinha: foram 8,7 milhões de pessoas imunizadas com ao menos uma dose contra o novo coronavírus até a segunda semana deste mês.

O personagem foi criado com o objetivo de aproximar o público infantil do universo das vacinas, frequentemente associado a agulhas, injeções e dor. O imunizante contra a poliomielite foi um dos primeiros a ser aplicado em gotas —daí o formato de coxinha da cabeça do Zé. Seu nome foi escolhido em concurso com crianças de todo o país. Já batizado, o personagem estrelou desenhos animados, estampou cartazes, ganhou música da Xuxa e marcou presença nos postos de vacinação e unidades básicas de saúde do país. Posteriormente ele ganhou uma família de Gotinhas em uma tentativa de ampliar o escopo de sua popularidade para outras parcelas da população, como os idosos, alvo de campanhas de imunização contra a gripe, e as gestantes.

Lula não foi o único saudoso do mascote. Em uma live em fevereiro o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Carlos Eduardo de Oliveira Lula, foi além, e afirmou que o mandatário está “matando” o mascote, como uma metáfora para se referir à inação do Governo no combate à covid-19. “A postura do Bolsonaro vai afetar todo tipo de vacinação. Bolsonaro está matando o Zé Gotinha”, disse. Bom, agora ele está de volta. E armado até os dentes.

Bolsonaro se dispõe a resolver problemas que o brasileiro não sabe que tem

O mundo acha que o problema do Brasil é o vírus, agora vitaminado por uma legião de variantes —uma mais infecciosa que a outra. Submetido a cenas típicas de um colapso hospitalar, o brasileiro avalia que sua prioridade é a vacina. Engano. O problema do país é o risco de cair numa ditadura, informa Bolsonaro.

A característica fundamental da dificuldade de julgamento do brasileiro é ter que ouvir o presidente por mais de uma hora nas noites de quinta-feira para chegar à conclusão de que ele não tem nada a dizer. Na sua penúltima live, o capitão tocou tambores e clarins marciais sob um imenso telhado de vidro.

Já virou rotina. Bolsonaro irrompe numa rede social uma vez por semana. E anuncia que está disposto a resolver problemas que o país não sabe que tem. O roteiro é invariável. O presidente cria fantasmas. Assusta-se com eles. E se oferece para fazer o favor de livrar o Brasil dos riscos fantasmagóricos.


A cabeça de Bolsonaro funciona como um terreno baldio onde ele próprio atira a sujeira que alimenta sua psicose. "Como é fácil impor uma ditadura!", espantou-se. "Usam o vírus pra te oprimir", alertou. "Eu tenho como garantir a nossa liberdade, eu sou o garantidor da democracia", tranquilizou.

Em solenidade realizada na véspera, Bolsonaro usou máscara e defendeu as vacinas. Absteve-se de criticar restrições à circulação e lockdowns. Em timbre sereno, chegou a dizer que, no começo da crise, tais restrições foram adotadas para que os hospitais se equipassem. Ou seja: estava completamente fora de si.

O país não teve nem tempo para respirar aliviado. Horas depois da cerimônia, o general Eduardo Pazuello, suposto ministro da Saúde, divulgou um vídeo de conteúdo esquisito. Nele, assegura que o sistema de saúde, embora "muito impactado", ainda "não colapsou nem vai colapsar".

Nessa versão, o país estaria sendo vítima de um grande complô. Uma trama das filmagens feitas por enfermeiras e médicos mancomunados com a imprensa mequetrefe, e mais de 30 milhões de pessoas que simulam falta de ar em filas metafóricas que se formam nas UTIs de hospitais públicos e privados.

Para não perder o hábito de botar a culpa em alguém, Bolsonaro reiterou na sua live o lero-lero segundo o qual o Supremo Tribunal Federal o impediu de atuar na pandemia. Trata-se de uma lorota. A Suprema Corte apenas reconheceu que todos os entes da federação —União, estados e municípios— têm poder para atuar na área da saúde.

Incapaz de prover vacinas na quantidade necessária, o presidente desqualifica a estratégia paliativa: "Em nome da ciência, da sua vida, você vai ficar em casa mofando. Uma pequena parcela da sociedade até pode ficar em casa mais tempo, mas a grande maioria não pode. Não pode produzir mais nada, todos vão sofrer."

Fazendo pose de São Jorge, o Messias Bolsonaro pega em lanças: "Não podemos deixar isso acontecer. Eu sou a pessoa mais importante nesse momento. Faço o que o povo quiser, devo lealdade ao povo." A certa altura, o capitão renova seu apreço pela ditadura militar.

É como se São Jorge desejasse não salvar a donzela, mas casar-se com o dragão: "Eu sou o chefe supremo das Forças Armadas. As Forças Armadas acompanham o que está acontecendo. As críticas em cima de generais, não é o momento de fazer isso. [...] Nós vivemos um momento de 1964 a 1985, você decida aí, pense, o que que tu achou daquele período. Não vou entrar em detalhe aqui."

Governar o Brasil não é tão difícil quanto Bolsonaro faz parecer. O horário é bom, o salário é razoável, há carro na garagem e jato no hangar. A geladeira está sempre cheia. E a cozinha do Alvorada é full time. De resto, há sempre a possibilidade de demitir o general Pazuello, que deve proporcionar uma ótima sensação.

No limite, há também a hipótese da renúncia do presidente. Não resolveria o problema das vacinas instantaneamente. Mas o Brasil se livraria de um conspirador. E Bolsonaro se libertaria dos seus fantasmas.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Pensamento do Dia

 


Acredite quem quiser

O ex-presidente Lula da Silva, que fez da polarização do “nós” contra “eles” a força motriz de sua seita, agora se apresenta disposto ao “diálogo”. O presidente Jair Bolsonaro, que passou toda a pandemia de covid-19 a maldizer vacinas e máscaras, quer ser reconhecido como campeão da imunização dos brasileiros. Formidáveis metamorfoses, nas quais acredita quem quer.

Que ninguém se engane: a única motivação de ambos, como sempre foi, é eleitoral. Nenhum deles sequer acorda pela manhã se não for por cálculo político. Os interesses nacionais e as aflições dos eleitores são sempre secundários, ou meramente instrumentais, em seus projetos de poder.


O presidente Bolsonaro, de uma hora para outra, protagonizou uma solenidade oficial usando máscara, bem como seus assessores. A imagem exótica espantou os brasileiros em geral, acostumados a ver Bolsonaro não somente sem máscara, mas promovendo aglomerações País afora e estimulando comportamento irresponsável da população em meio a uma pandemia mortal.

Mais do que isso: a solenidade se prestava à assinatura de leis que facilitam a compra de vacinas contra a covid-19. O presidente prometeu que, “até o final do ano, teremos mais de 400 milhões de doses (de imunizantes) disponíveis aos brasileiros”. Não se sabe de onde o presidente tirou esse número, uma vez que o Ministério da Saúde tem sido incapaz de determinar quantas vacinas estarão disponíveis para os brasileiros neste mês, que dirá no resto do ano.

Seja como for, trata-se de uma mudança drástica de atitude, que, se mantida, aliviará um País agoniado com a sabotagem promovida por Bolsonaro e seus camisas pardas contra a vacinação e as medidas de restrição para enfrentar o vírus, em meio à escalada de mortes e o colapso do sistema de saúde. Já não seria sem tempo.

Mas não se pense que Bolsonaro de repente se conscientizou de que não é possível superar a pandemia sem imunização em massa e sem adotar ações preventivas. Ainda está fresco, na memória dos brasileiros que prezam os valores morais, o horror provocado pelas reações grosseiras e desumanas de Bolsonaro sempre que cobrado a assumir suas responsabilidades como presidente. Na mais recente delas, apenas uma semana atrás, mandou o “idiota” que lhe pedia vacinas comprá-las “na casa da tua mãe”.

É evidente que esse é o verdadeiro Bolsonaro, e não o personagem contrito que agora prega a necessidade urgente de uma vacinação nacional. O verdadeiro Bolsonaro só se preocupa com sua reeleição – agora ameaçada pela escalada da crise causada pela pandemia e, principalmente, pela ressurreição de Lula da Silva.

Não parece ter sido um mero acaso o fato de o “novo” Bolsonaro se apresentar aos brasileiros momentos depois que o chefão petista fez seu primeiro pronunciamento após o restabelecimento de seus direitos políticos por decisão judicial. No discurso, Lula da Silva, que apareceu de máscara, atacou vigorosamente a irresponsabilidade do presidente diante da pandemia.

Para fazer o contraponto a Bolsonaro, Lula da Silva vestiu o figurino de estadista. Além de fazer uma defesa enfática da vacinação e das medidas de isolamento, o ex-presidente anunciou sua disposição de “dialogar com todos”, inclusive fora da esquerda, contrastando com a dificuldade de articulação política do presidente. “Não tenham medo de mim”, disse Lula.

Ninguém tem medo de Lula; o que se tem é enfado. O demiurgo de Garanhuns tornou-se previsível. O Lula que mais uma vez promete um amplo diálogo político é o mesmo que construiu sua base parlamentar na base do talão de cheques e é o mesmo que até na esquerda é visto como autoritário.

Ademais, a receita de Lula para a retomada do crescimento – fim das privatizações, freio nas reformas e aumento dos gastos públicos – é a mesma que foi responsável pela profunda crise produzida no governo de Dilma Rousseff, da qual o País ainda não saiu. Não por acaso, Lula esqueceu-se de citar sua criatura no discurso, talvez na expectativa de que os brasileiros não se lembrassem.

Mas os brasileiros lembram bem.

O povo não pode pagar com a própria vida!

Nós, entidades signatárias do Pacto pela Vida e pelo Brasil, sob o peso da dor e com sentido de máxima urgência, voltamos a nos dirigir à sociedade brasileira, diante do agravamento da pandemia e das suas consequências. Nossa primeira palavra é de solidariedade às famílias que perderam seus entes queridos .

Não há tempo a perder, negacionismo mata. O vírus circula de norte a sul do Brasil, replicando cepas, afetando diferentes grupos etários, castigando os mais vulneráveis. Doentes morrem agonizando por falta de recursos hospitalares. O Sistema Único de Saúde - SUS continua salvando vidas. No entanto, os profissionais da saúde, após um ano na linha de frente, estão à beira da exaustão. A eles, nosso reconhecimento.


É hora de estancar a escalada da morte! A população brasileira necessita de vacina agora. O vírus não será dissipado com obscurantismos, discursos raivosos ou frases ofensivas. Basta de insensatez e irresponsabilidade. Além de vacina já e para todos, o Brasil precisa urgentemente que o Ministério da Saúde cumpra o seu papel, sendo indutor eficaz das políticas de saúde em nível nacional, garantindo acesso rápido aos medicamentos e testes validados pela ciência, a rastreabilidade permanente do vírus e um mínimo de serenidade ao povo.

A ineficiência do Governo Federal, primeiro responsável pela tragédia que vivemos, é notória. Governadores e prefeitos não podem assumir o papel de cúmplices no desprezo pela vida. Assim, apoiamos seus esforços para garantir o cumprimento do rol de medidas sanitárias de proteção, paralelamente à imunização rápida e consistente da população. Que governadores e prefeitos ajam com olhos não só voltados para os seus estados e municípios, mas para o país, através de um grande pacto. Somos um só Brasil.

Ao Congresso Nacional, instamos que dê máxima prioridade a matérias relacionadas ao enfrentamento da COVID-19, uma vez que preservar vidas é o que há de mais urgente. Nesse sentido, o auxílio emergencial digno, e pelo tempo que for necessário, será imprescindível para salvar vidas e dinamizar a economia. Ao Poder Judiciário, sob a liderança do Supremo Tribunal Federal, pedimos que zele pelos direitos da cidadania e pela harmonia entre os entes federativos. Que a imprensa atue livre e vigorosamente, de forma ética, cumprindo sua missão de transmitir informações confiáveis e com base científica, sobre o que se passa. Enfim, que a voz das instituições soe muito firme na defesa do povo.

Fazemos ainda um apelo particular à juventude. O vírus está infectando e matando os mais jovens e saudáveis, valendo-se deles como vetores de transmissão. Que a juventude brasileira assuma o seu protagonismo histórico na defesa da vida e do país, desconstruindo o negacionismo que agencia a morte.

Sabemos que a travessia é desafiadora, a oportunidade de reconstrução da sociedade brasileira é única e a esperança é a luz que nos guiará rumo a um novo tempo.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, José Carlos Dias, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, Paulo Jeronimo de Sousa, presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

Vírus que nos governa

A luta contra a covid-19 foi perdida em 2020 e não há a menor chance de reverter esta trágica circunstância no primeiro semestre de 2021. O melhor que podemos fazer é esperar o milagre da vacinação em massa ou uma mudança radical na gestão da pandemia. Hoje, o Brasil é uma ameaça à humanidade e um laboratório ao ar livre onde a impunidade (…) parece ser a regra.
Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz Amazônia 

Lula não é santo mas fez milagre

Nenhum cientista, nenhuma manchete, nenhum general, nenhum empresário, nenhum pastor, nenhuma recessão e nem mesmo os recordes sucessivos de mortos por Covid, nada disso produziu o milagre testemunhado pelo país nesta quarta-feira. Foi Lula quem “obrigou” Bolsonaro a usar máscara, defender vacinas e pedir imunizantes à China.

Nem mesmo a vacinação da mãe, Olinda, com a comunista Coronavac provocou essa transmutação radical de Bolsonaro. Lembram outubro de 2020? “A da China nós não compraremos, é decisão minha, mesmo se for aprovada pela Anvisa”. “Eu não tomo vacina (contra Covid), não interessa se tem uma ordem, seja de quem for, eu não vou tomar a vacina”. Sempre desencorajou uso de máscaras, à revelia do mundo. Citava “efeitos colaterais”. Seu filho Eduardo foi mais grosso em vídeo nas redes: “Enfia (a máscara) no rabo, gente, porra!” Que vergonha, deputado. Que vergonha.

O discurso eleitoral de Lula no sindicato dos metalúrgicos, convocando a população a usar máscaras e se vacinar, mudou tudo. Bolsonaro se apresentou imediatamente depois em um bloco de mascarados. Disse que sempre foi a favor de se imunizar. O milagre estendeu-se aos filhos Flávio e Carlos, tocados com a anulação das condenações de Lula. “Nossa arma é a vacina” passou a ser o slogan da família. Cara de pau. A arma de Bolsonaro sempre foi o trabuco mesmo. Sua arma é a que cospe tiros, palavrões, bacilos e cloroquina. “Vacinaremos dezenas de milhões de brasileiros”. O verbo está no tempo errado. O futuro deveria ser pretérito. É imperfeito e condicional na voz de Pazuello, o general passivo da ativa. Pazuello não via o porquê de “tanta ansiedade e angústia” da nação em dezembro. E hoje? “O sistema de saúde não colapsou nem vai colapsar”. Que vergonha, ministro. Que vergonha.


Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o vice-presidente Mourão afirma que “faltou uma campanha intensiva de conscientização da população”. Não, Mourão, faltou conscientizar Bolsonaro e seu ministro da Saúde. Olhe agora Joe Biden nos Estados Unidos. Cem milhões de doses serão aplicadas nos 50 primeiros dias de governo e quase toda a população adulta estará vacinada até julho. Uma questão de liderança.

O Brasil ficou sem hospitais de campanha, sem leitos, sem oxigênio, sem vacina, limitado a jogar corpos em frigoríficos. Deveríamos vacinar, dia e noite, ao menos 1 milhão de brasileiros. É inadmissível interromper a imunização por falta de doses.

Temos uma em cada quatro mortes por Covid no planeta. Somos o epicentro de uma calamidade sem controle. O STF precisa continuar a cobrar de Bolsonaro o repasse de recursos aos estados. O ministro Lewandowski deu prazo até o fim da semana. O STF precisa também cobrar explicações sem desculpas esfarrapadas. Qual é a culpa do Poder Executivo na tragédia, Supremo Tribunal Federal? Bolsonaro não quis ter vacinas já em dezembro. Semana passada, mandou comprar vacina na casa da tua mãe.

Nunca foi tão fácil fazer oposição. É só ter bom senso. Contra o destempero, recomenda-se cautela. Lula se comparou no discurso a um escravo que leva 100 chibatadas. Disse que foi vítima do maior erro jurídico em 500 anos de história. Menos, Lula. Inspire-se nos líderes autênticos que saíram da prisão com maior estatura e modéstia, como Mujica e Mandela, e não nos populistas que se gabam demais e derrapam em mentiras. Você criticou o fanatismo dos bolsonaristas. Não estimule o fanatismo dos petistas. Não precisamos de santos. Precisamos de presidente.

Bolsonaro repete que é fácil implantar uma ditadura no país

Nunca se viu um presidente chamar de “estado de sítio” o que nem mesmo de lockdown pode ser chamado, e alertar que “estado de sítio” cabe a ele decretar, não a governador. Para completar, nunca se viu um presidente dizer que sua caneta está carregada de tinta e que é muito fácil implantar uma ditadura no país. Nem os presidentes da ditadura militar ameaçaram o país nesses termos.

Não durou 24 horas o ensaio de conversão de Bolsonaro ao uso de máscara e à defesa de providências que barrem o agravamento da pandemia que só faz bater recorde atrás de recorde em número de mortos e de infectados. Foram 2.207 novas mortes e 78.297 novos casos nesta quinta-feira, dia 11 de março. No total até aqui, 273.124 óbitos e 11.284.269 de infectados.

Na última quarta-feira, o Brasil era o país onde mais pessoas morriam da Covid no mundo, com 190 mortes a mais por dia do que os Estados Unidos e à frente de México, Rússia e Itália. Era também o país onde o número de mortes mais subia. Apenas 4,39% da população foi vacinada. O Ministério da Saúde recalcula para baixo o número de doses de vacinas que espera receber.

Auxiliares de Bolsonaro deixaram de fingir que a volta à cena de Lula não abateu seu chefe. E que a eventual candidatura do ex-presidente no ano que vem acabaria por beneficiar Bolsonaro ao aumentar a polarização ideológica. Tanto quanto Bolsonaro, eles estão atarantados. Temem que o avanço da pandemia, a falta de vacinas, a inflação e o desemprego em alta favoreçam Lula.

Esse ser sem rosto e sem nome que a imprensa batizou de mercado teme que Bolsonaro rompa o pacto firmado com ele de fazer as reformas do Estado prometidas pelo ministro Paulo Guedes, da Economia, o ex-Posto Ipiranga cada vez mais vazio de combustível e de quinquilharias. Sempre que Guedes afirma que ruim com ele, pior sem ele, o mercado entende: não vai dar, emperrou.

O mundo era outro e bem mais esperançoso para Bolsonaro e seus apoiadores, entre eles o mercado, até que o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu as condenações de Lula e provocou o furacão que só ganha força. O efeito Lula tirou a centro-direita do seu berço esplêndido e, ao invés de enfraquecer candidaturas ainda adormecidas, poderá fortalecê-las.

Sérgio Moro parecia morto, mas não está. Luiz Henrique Mandetta, em pesquisas que simulam o segundo turno, bate Bolsonaro. Luciano Huck está mais assertivo em suas críticas ao presidente acidental. O PSDB assanhou-se para sair a campo. Esses nomes, ou um nome novo que apareça, só tomarão votos de Bolsonaro. Lula é o dono dos votos do seu pedaço.

O risco para todos é que Bolsonaro tente melar o jogo se concluir que não poderá vencê-lo. Em sua live das quintas-feiras no Facebook, novamente acusou os governadores de quererem quebrar a economia do país e incitou seus seguidores a saírem às ruas em desobediência às ordens de isolamento. Falou em possíveis ataques a supermercados. Tocou horror.

Por ora, os militares empregados no governo e os reclusos em quartéis estão calados. Nenhum se aventurou a lançar nota de advertência ao Supremo com a intenção de pressioná-lo a manter Lula como ficha suja. Mas não se descarte que isso possa ocorrer, é tudo o que Bolsonaro deseja. E aí veremos se a democracia brasileira continua sendo a plantinha tenra que já foi no passado.

Brasil de cara nova

 


As mentiras da elite sobre polarização de Bolsonaro e Lula

Jair Bolsonaro tentou sabotar todas as providências de contenção de gastos da mudança “Emergencial” da Constituição, aquela que vai autorizar também o novo auxílio emergencial. De efeitos práticos maiores nas contas do governo, a PEC Emergencial vai impedir o aumento de gastos com servidores públicos por alguns anos e aumentar alguns impostos. Na verdade, a emenda vai exigir que se cancelem algumas reduções especiais de tributos para indivíduos e empresas, por meio de lei. Se a lei pegar, haverá um aumento de impostos de cerca de 0,2% do PIB por ano.

Bolsonaro queria cancelar tudo isso, mas até a noite desta terça-feira, os deputados haviam decidido deixar a PEC como foi aprovada no Senado (onde já havia sido amputada e lipoaspirada).

Esse é o presidente e futuro candidato à reeleição comprometido com as “reformas” e o “ajuste fiscal”? Esse que não fez abertura comercial. Nenhuma privatização. Quase nenhuma concessão de empreendimento à iniciativa privada que não tivesse sido já preparada no governo Michel Temer. No seu governo, fez-se uma reforma da Previdência (em parte sabotada por Bolsonaro) que era consenso do establishment e que não contou com oposição popular quase nenhuma, nem da esquerda semimorta.


Esse é o candidato de um dos extremos da “polarização” que haverá caso Lula da Silva seja candidato em 2022, diz o clichê de burrice sórdida que escorre da boca dos povos dos mercados desde a segunda-feira.

Bolsonaro não é coisa alguma além de um projeto de tirano. Não é um contraponto ao “esquerdismo” do PT porque, afora o horror, é um vazio. Quem o sustenta no poder, a elite econômica quase inteira, por colaboracionismo, outras ações e omissão, não tem mais desculpa alguma de desilusão quanto ao liberalismo do capitão da extrema direita, ideia que sempre foi grotesca. A elite colaboracionista ou omissa ora está na posição de ter contratado um capanga que saiu do controle, um dos capatazes que chamou para manter o PT longe do poder.

O lulismo-petismo, de resto, foi um projeto suave de incorporação de pobres ao universo do consumo, de chegada minoritária de algumas minorias ao poder, de imobilismo na reforma econômica e social de fundo, combinados a uma vasta distribuição de subsídios e outras proteções ao capital, fundos que financiaram a formação de conglomerados e oligopólios, fora a roubança, parte muito menor do jogo.

Ainda assim, boa parte da elite pagou e talvez ainda pague qualquer preço para manter o PT (ou equivalente) ao largo, mesmo que o custo seja Bolsonaro. Na melhor das hipóteses, gostaria de enfrentar o bolsonarismo com um vazio à esquerda, como se a vaga no segundo turno fosse conquistada por WO (ou por essas decisões escabrosas da Justiça). Mas mesmo quando Lula estava expulso de campo, mesmo a parte melhorzinha dessas elites foi incapaz de articular ou apoiar qualquer candidatura ou movimento político alternativo, o nome fantasia que tivesse, “centro”, “centro direita”. Agora mesmo dá corda para o interesse provisório do centrão, o que por ora dá corda para Bolsonaro.

A direita menos incivilizada do Brasil é incapaz de ganhar eleições nacionais desde 1998 —aliás, foi por isso que começou a apoiar o tumulto odiento em 2013 e, principalmente, depois da derrota de 2014. Desde então e até hoje, criou a situação que, de modo mendaz, chama de intolerável: alimenta o terror de Bolsonaro e faz o que pode para implodir qualquer esquerda. ​

A falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro

Comparações ajudam a um melhor entendimento do mundo. Podem ser usadas ​​para determinar semelhanças e diferenças entre as coisas, que podem então ser melhor compreendidas em suas particularidades. Por exemplo, é possível comparar maçãs e peras. Ambas são pomos e crescem em árvores em climas temperados. Ambas são semelhantes em tamanho e são doces, embora maçãs ácidas também existam. As semelhanças acabam quando se trata de forma, cor e sabor específicos.

Embora nem todas as comparações sejam úteis – comparar uma maçã com um carro é de pouca utilidade –, elas são importantes para entender nosso mundo.

Infelizmente, a comparação analítica está fora de moda. Na discussão política de hoje, a analogia prevalece, ou seja, a equiparação. O nazismo e o comunismo são frequentemente igualados em vez de comparados, o que significa que nenhum dos dois sistemas totalitários pode ser compreendido de maneira adequada. Tudo se torna o mesmo mingau uniforme.


No Brasil, a tendência à analogia é particularmente pronunciada. O retorno de Lula da Silva ao cenário político mostra isso novamente com clareza. Esperando uma disputa pela presidência entre Jair Bolsonaro e Lula no próximo ano, os comentaristas já falam em uma batalha de extremos. "A extrema direita (Bolsonaro) compete com a extrema esquerda (Lula)". Insinua-se que os dois senhores são na verdade farinha do mesmo saco. Ambos são "populistas", diz-se – apequenando Lula e banalizando Bolsonaro.

É como ocorreu nas eleições de 2018. Na ocasião, o Estadão falava em uma "escolha muito difícil" entre o deputado Bolsonaro, que glorificava a violência, ("tem que matar 30 mil", "vamos fuzilar a petralhada", "ter filho gay é falta de porrada", etc.) e o professor universitário, ex-ministro da Educação e esquerdista moderado Fernando Haddad.

A grande mídia do Brasil e grande parte do establishment erraram no cálculo. O plano era derrubar Dilma Rousseff para obter um governo neoliberal de centro-direita. Mas o tiro saiu pela culatra. O golpe constitucional contra Dilma havia aberto a caixa de Pandora, e quem saltou dela foi Bolsonaro. Em vez de escolher a variante democrática, a decisão foi a favor de um homem que esteve no Parlamento por 30 anos e não fez nada além de produzir tiradas de efeito, insultar outras pessoas e colocar seus filhos na lucrativa política brasileira. Para justificar essa decisão fatal, lançaram mão da falsa analogia. "Bolsonaro e PT são iguais, mas Bolsonaro merece uma chance." Foi como oferecer o Brasil para um extremista experimentar.

Claramente, nada se aprendeu, apesar da catástrofe brasileira do coronavírus, com quase 300 mil mortos, que também pode ser atribuída ao maldoso presidente ("só se for na casa da tua mãe!"). Fingem que não há diferença entre a carreira de Lula, suas décadas de luta social e política, e a não exatamente notável carreira do capitão Bolsonaro, que por décadas empanturrou-se na gordura da política brasileira. Negam-se os avanços da área social e econômica no governo Lula e, ao mesmo tempo, fecham-se os olhos para as monstruosidades de Bolsonaro como, por exemplo, seu projeto armamentista ou suas fantasias totalitárias ("Se tudo tivesse que depender de mim, não seria esse o regime que nós estaríamos vivendo").

Logo Rodrigo Maia, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, já reconheceu o absurdo dessa analogia. Ele tuitou: “Você não precisa gostar do Lula para entender a diferença dele para o Bolsonaro. Um tem visão de país; o outro só enxerga o próprio umbigo."

Maia fez, assim, algo que se tornou raro. Em vez de igualar, ele comparou. Porque ao comparar Lula e Bolsonaro, é impossível dizer que os dois são farinha do mesmo saco.

No entanto, na análise – e essa é a beleza das comparações –, chegamos às semelhanças. Por exemplo, que a política ambiental do Bolsonaro é uma catástrofe, mas a do PT também foi devastadora (Belo Monte!). Ou que a política de drogas do PT colocou muitos jovens negros atrás das grades por muitos anos devido a pequenas quantidades de maconha. Por último, mas não menos importante, o PT também criou um clima de intolerância para com as vozes críticas mais à esquerda.

No plano pessoal, Lula e Bolsonaro são semelhantes na medida em que são incapazes de admitir erros. Ambos se consideram infalíveis, e Lula continua a fingir que não houve corrupção em seu governo. Um pedido de desculpas e uma promessa de fazer melhor seriam muito mais convincentes.

Apesar dessas semelhanças parciais, não podemos negar as diferenças fundamentais entre Lula e Bolsonaro, como estão fazendo agora muitos meios de comunicação. É como se afirmassem não haver diferença entre a lenda do Vasco Roberto Dinamite e Ribamar, considerado o pior atacante do Vasco de todos os tempos. Porque ambos usavam a mesma camisa. Eles são comparáveis, mas não são similares. Um fez muitos gols, o outro perdia chances de gol.
Philipp Lichterbeck

Lula candidato

O ministro Edson Fachin sacudiu o coreto das autoridades anulando as sentenças de Curitiba contra o ex-presidente Lula, devolvendo-lhe os direitos políticos. Hoje, Lula pode ser candidato a presidente no ano que vem.

O voto de Gilmar Mendes na Segunda Turma ilustrou a suspeição de Sergio Moro. Com a decisão de Fachin, o caroço migrou para a elegibilidade de Lula e para o previsível desconforto que isso provoca em quem o detesta. Numa frase: “Esse não pode”.

Lula poderá vir a ser condenado por um novo juiz, mas a sentença ficará com cheiro de gol feito durante o replay.


O “esse não pode” já custou caro ao Brasil. Em 1950, o jornalista Carlos Lacerda escreveu:

—O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.

Getúlio foi eleito, tomou posse, governou até agosto de 1954, matou-se e entrou na História. A revolução que Lacerda queria só veio dez anos depois.

Lacerda tinha credenciais para vencer a eleição de 1965. Fazia um governo estelar no falecido Estado da Guanabara, mas deveria disputar com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que dera ao Brasil “50 anos em cinco”. Até os primeiros meses de 1964, circulavam dois tipos de “esse não pode”. A esquerda não queria uma vitória de Lacerda, e uma parte da direita não queria a volta de Kubitschek.

Depois da deposição de João Goulart, a base militar da nova ordem não admitia entregar o poder a JK. Lacerda gostou da ideia, e o ex-presidente foi cassado. Por quê? Corrupção. (A sinopse diária que a Central Intelligence Agency deu ao presidente Lyndon Johnson no dia 13 de junho de 1964 contou que o presidente Castello Branco via na proscrição de JK o caminho para um governo “democrático e honesto”. Ele já havia dito que mostrar as provas “seria embaraçoso para a Nação”.) Não era bem assim.

Dias antes, fritando JK, o general Golbery do Couto e Silva, conselheiro de Castello, dividiu uma folha de papel em colunas e listou as “vantagens” e “desvantagens” da cassação de Juscelino Kubitschek. Intitulou-a com a sinceridade que se dá aos papéis pessoais: “Motivação real — Impedir que JK, fortalecido pela campanha contrária, enfrente a Revolução”. E, assim, Juscelino foi banido da vida pública por dez anos. Quando ele morreu, num acidente de estrada, seu funeral se transformou na maior manifestação popular ocorrida no país desde 1968, quando as ruas foram esvaziadas pelo AI-5.

Sem o “esse não pode”, em 1965 os eleitores brasileiros teriam votado em Lacerda ou JK. Nunca na História republicana o Brasil teve dois candidatos tão qualificados. Nem antes, nem depois. Passados os anos, nas duas turmas do “esse não pode”, muita gente qualificada reconhecia que qualquer um dos dois teria feito melhor do que se fez. (Lacerda, que defendeu a cassação de JK, dormiu preso num jirau de quartel em dezembro de 1968 e tornou-se uma alma penada na política nacional.)

O “PT não” colocou Jair Bolsonaro na Presidência. Os eleitores podiam ter colocado Geraldo Alckmin, Ciro Gomes ou João Amôedo, mas quem teve mais votos foi o capitão.

Falta mais de um ano para a eleição do ano que vem. Bolsonaro quer um novo mandato, e as inscrições estão abertas.

Brazuela, avante!

Aquele Brasil quase civilizado acabou. Não tem volta. Vamos ter de inventar outro. O golpe bolivariano foi lá atrás, com a esculhambação geral do STF. Agora estão só colhendo o que plantaram. A 6ª economia do mundo corre célere e constitucionalmente … para o bolso da privilegiatura. Mas isso não dá manchete. Seremos nós a Índia que a Índia está deixando de ser. 

A ameaça do estado de sítio

Ouvir a expressão estado de sítio da boca de Jair Bolsonaro causa calafrios. Como o presidente parece gostar de causar repulsa nos brasileiros, ele vira e mexe vem com essa de estado de sítio, sempre lembrando, como fez nesta terça-feira, que é sua prerrogativa decretá-lo.

Bolsonaro não fala disso à toa. A nova menção despropositada à medida extrema veio totalmente fora de contexto, como sempre: o presidente a comparou às medidas restritivas adotadas pelos governadores para conter o avanço da mortandade desenfreada da pandemia.

O presidente pode ter sido expulso cedo do Exército e não ser muito versado na Constituição, mas ele sabe muito bem que essas medidas não guardam qualquer semelhança com estado de sítio.

Ao lançar a expressão ao léu e ainda mencionar o artigo 141 da Constituição, que seus seguidores adoram evocar para pregar intervenção militar, distorcendo seu sentido, o presidente lança uma isca para esses fanáticos na linha “quem manda sou eu”, “eu que tenho a caneta Bic”, o tipo de bravata que adora lançar quando está acuado.

E motivos não faltam para que o capitão esteja acuado: ele está a cada dia ficando mais encurralado pela sua própria obra criminosa no curso de um ano de pandemia.


A redução diária do chute travestido de previsão de vacinas feito pelo general Pazuello quanto à quantidade de doses de vacinas que estará disponível neste mês de março de carnificina nacional, a insistência do STF em cobrar, de forma cada vez mais dura, que o governo federal aja na compra desses imunizantes e no suporte aos Estados para enfrentar o colapso iminente do sistema de saúde e a pressão pela CPI da covid-19, que envolve diversos partidos, movimentos de direita antes condescendentes com o bolsonarismo, como o Vem pra Rua, e que já desaguou no mesmo Supremo fazem o sinal de alerta de Bolsonaro pulsar.

Mas o que o atormenta de verdade, e isso está cada vez mais claro, é a volta de Lula ao cenário eleitoral. E aqui é que reside a gravidade da cartada de falar em estado de sítio neste momento.

Num governo coalhado de militares, e diante da indisposição da cúpula sobretudo do Exército com Lula e o PT, expressada em diversas ocasiões, como no tuíte do general Villas Boas advertindo o STF em 2018, esse tipo de exortação irresponsável pode resultar em uma movimentação da caserna em reação à anulação das condenações do petista.

Na mesma fala, Bolsonaro ainda incitou seus malucos, da forma como sempre faz, falando como que a título de preocupação, a promoverem quebra-quebra e saques. O bolsonarismo sempre funciona assim: o “mito" lança a ideia e sempre há malucos para executarem.

Foi assim nos atos antidemocráticos e também quando ele numa live mandou as pessoas invadirem hospitais de campanha para filmar. Parecia da boca para fora, mas sempre há pessoas dispostas a difundir e executar esse tipo de comando golpista que parte do presidente da República.

Os tais quebra-quebras e saques seriam o pretexto que ele quer para falar de estado de sítio de forma menos “teórica”? Ao falar em greve, o presidente também dá uma senha aos caminhoneiros, que têm sido adulados por ele justamente pelo poder que têm de tornar a população refém de seus motins.

Bolsonaro tem de ser levado a sério em seus arroubos, porque sua tendência autoritária não é apenas retórica, ela se manifesta em atos e decisões de governo e os exemplos são inúmeros.

Com espaços importantes do Congresso dominados por fanáticos bolsonaristas, como as comissões, esse tipo de menção a desordem e estado de sítio têm de receber reprimenda imediata, inequívoca e dura por parte dos ministros do STF, da OAB e de todos os que têm compromisso com a preservação da democracia.