quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Brasil da Justiça


Criminologia

A cada ano, os pesticidas químicos matam pelo menos três milhões de camponeses.

A cada dia, os acidentes de trabalho matam pelo menos dez mil trabalhadores.

A cada minuto, a miséria mata pelo menos dez crianças.

Esses crimes não aparecem nos noticiários. São, como as guerras, atos normais de canibalismo.


Os criminosos andam soltos. As prisões não foram feitas para os que estripam multidões. A construção de prisões é o plano de habitação que os pobres merecem.

Há mais de dois séculos, se perguntava Thomas Paine: “Por que será que é tão raro que enforquem alguém que não seja pobre?”

Texas, século XXI: a última ceia delata a clientela do patíbulo. Ninguém pede lagosta ou filé mignon, embora esses pratos apareçam no menu de despedida. Os condenados preferem dizer adeus ao mundo comendo hambúrguer e batata frita, como de costume. 
Eduardo Galeano

Insulto supremo à miséria

A sessão sindical do Senado (aumento para os ministros do Supremo) foi ofensiva e assustadora. Insultou porque tripudiou sobre o drama dos 12,7 milhões de brasileiros que estão no olho da rua. Espantou porque a União está quebrada
Josias de Souza

Tubarões no formol

Para quem está perplexo com o título do artigo, explico: andei assistindo, pela terceira vez, a entrevista de Mario Vargas Llosa concedida ao programa Roda Viva em maio de 2013. Maio de 2013, um mês antes dos protestos que se alastraram pelo Brasil, os protestos que jamais receberam resposta adequada dos políticos. Como outros, vejo na falta de resposta dos partidos brasileiros, sobretudo dos maiores, o início dessa trajetória turbulenta que nos levou à escolha de Sofia de 2018. Por que os tubarões? Porque na entrevista para o Roda Viva, o grande escritor fala sobre a degradação das artes plásticas e utiliza como exemplo a obra de Damien Hirst, artista britânico famoso por várias obras esquisitas, inclusive a do tubarão dissecado, suas partes expostas dentro de imensos tanques de formol.

Dizia então Vargas Llosa que a política estava passando por imenso desprestígio no mundo, e apontava o quanto isso poderia ser perigoso. Falava o escritor sobre a política alijada da literatura, sintoma desse desprestígio, do sentimento de que a política passara a ser algo degradante para as pessoas, a ponto de ser banida das artes, da expressão cultural. O desaparecimento do espírito crítico das artes plásticas capturado pelo tubarão no formol de Hirst seria sinal de tempos sombrios. Enfatizava o autor que consequências atrozes viriam da ausência da cultura e das artes como instrumentos de fiscalização do poder político. “Podemos vir a ter sociedades aparentemente democráticas e livres, que na realidade serão sociedades de zumbis”. Até aí nem se havia falado das redes sociais.

“Na música, nas artes, estamos chegando a um ponto em que já não sabemos do que gostamos e do que não gostamos”, advertira Vargas Llosa. Na política, sua presciência arrepia. Na política brasileira, essa frase expressaria com precisão o caminho que nos levou à terrível polarização do segundo turno. Sem saber direito do que gostávamos ou não, deixamo-nos levar pelos anseios não de gente decente e inteligente na política, mas pela visão de corruptos e tontos.

Há tontos de todos os lados. Gente confusa que usa e abusa do termo fascismo. Gente confusa que vê risco de uma Revolução Comunista no Brasil. Gente nem tão confusa que vê no vácuo ambiente propício para uma escalada ao poder. Teve pouca repercussão na imprensa o manifesto “O Brasil para os Brasileiros”, o programa de governo elaborado pela bancada evangélica do Congresso. Muito bem redigido em várias partes, sobretudo nas propostas econômicas – sim, a bancada evangélica apresenta uma pauta econômica detalhadíssima – o documento é repleto de espantalhos quando se chega ao final. Lá estão os alertas sobre a doutrinação comunista a qual estariam sujeitos nossos jovens e crianças nas escolas.

Para quem não sabe, Vargas Llosa – que chegou a ser candidato a presidente no Peru – é político. Como político, é defensor do capitalismo, rechaça a ditadura venezuelana, tem horror ao chavismo-madurismo. Vargas Llosa é um liberal clássico, um liberal britânico. Há uma distância muito grande entre o liberalismo de raiz e o ideário libertário de botequim que tomou conta do debate brasileiro antes e depois das eleições.

O Brasil não está entrando nos trilhos do liberalismo. O liberalismo verdadeiro exige abertura e diversidade, se molda às necessidades contemporâneas como se moldou ao defender as respostas econômicas à Grande Depressão. Cede espaço aos direitos e às vozes de todos. O liberalismo verdadeiro não dita o que deve ou não fazer um professor em sala de aula, não se intromete nas escolhas individuais, reconhece a existência de desigualdades e prega a necessidade de reduzi-las da forma mais eficiente possível. No liberalismo verdadeiro cabe a social-democracia virtuosa, aquela que bem alinha o tamanho da rede de proteção social à prudência fiscal. No liberalismo verdadeiro não cabe a ultra-ortodoxia que reza pela primazia dos mercados sobre a sociedade. Essa ultra-ortodoxia asfixia as mesmas redes de proteção que o liberalismo verdadeiro reconhece como prementes. Ao asfixiá-las, alija da sociedade expressivos segmentos que carecem de representatividade política, tornando-os cidadãos de segunda classe. Não há nada mais antiliberal do que isso.

Não precisamos tirar os tubarões do formol, tampouco lá colocá-los. Precisamos estar atentos a eles para não transformarmos um País já degradado em algo irreconhecível.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Gente fora do mapa


Sabe quem você está lendo?

A pergunta é impertinente. Ler um livro sagrado no qual só há o certo e o errado é uma coisa, ler um ensaio político de um partido onde coisa semelhante ocorre, mas, ter a liberdade de escolher qualquer leitura, é algo moderno e ser por ela informado, é democrático. Thomas Mann dizia que o romance (essa gigantesca criação do mundo burguês) é fruto do “democratismo”: do dialogo permanente de liberdade com igualdade.

O jornal que vai para o lixo amanhã embrulhando o fato extraordinário de hoje, é – sem nenhuma dúvida – o símbolo maior da leitura aberta e individualista. Num sentido preciso, o periódico é, para muitos, um farol que ilumina um vasto oceano e, para outros, revela apenas uma nesga de luz.

Temos muitos jornais, mas, paradoxalmente, falamos pouco deles porque – diferentemente dos livros e relatórios oficiais e científicos – o jornal fala de tudo. Ele é um informante daquilo que ocorre nos grande centros urbanos e, antes dos telefones celulares, era um balizador de comportamentos: um importante mapa comportamental. Nele, encontramos estampados nossas vergonhas, heroísmos e sofrimentos; nossas conquistas e atrasos. Hoje, o jornal tem balizado os fatos maquiados (fake news) e nele temos prova dos rompimentos impensáveis com as rotinas (crimes, escândalos, acidentes, aventuras, etc...) à sua reafirmação como fazem prova os “cadernos” sobre a cidade, a política, a alta sociedade, as artes, a economia e o esporte. Em suma, “o que vai pelo mundo”, dividido nas categorias pelas quais a nós, como um sistema cosmológico, tomamos como fundamental para o nosso modo de pensar.

O jornal e o jornalismo rotineiro ou de ocasião são um importante instrumento de orientação sociopolítica e seus profissionais são fundamentais com observadores de nossas percepções do mundo. Alguns presumivelmente atados aos fatos (repórteres que descrevem abrindo mão do interpretar); outros, com a obrigação de interpretar mais do que narrar. A esta simplória divisão interna, contudo, intromete-se a incapacidade humana de escapar de si mesma de modo que, mesmo quando descrevemos, interpretamos e, mesmo interpretando, descrevemos.

É impossível não tomar partido. O velho e sábio adágio atribuído ao historiador romano Caio Cornélio Tácito – “sine ira et studio” (sem ódio ou condescendência) – foi proclamado justo pela nossa disposição em tomar partido. Quando se diz que não há raiva ou pressuposto, já estamos tomando um partido a ser visto como a busca da neutralidade, das terceiras margens dos rios acentuadas por Guimarães Rosa. Coisa complexa nas guerras, mas igualmente estruturantes da nossa capacidade de compreender e perdoar.

Exprimindo sem querer, mas querendo, os valores que os engendraram, os jornais diários acabam nos mostrando “quem estamos lendo”. Se vamos ao seu editorial, lemos a sua opinião. Se vamos às páginas que fazem o jogo do poder, temos em pílulas informações irônicas sobre os poderosos; se, porém, vamos aos seus cronistas, encontramos tentativas de distanciamento dos becos sem saída do mundo diário ao lado de muitas maluquices, como é o meu caso.

É quando sabemos quem estamos lendo, pois, na crônica, há o espaço para o reflexão que permite consenso, dissenso ou recusa. Ali há também o sermão e o conselho, que as páginas do próprio periódico, precisamente por ser periódico, têm dificuldade em aquilatar. No fundo, o jornal procura acasalar a seu modo evento e estrutura, algo que as sociedades humanas se obrigam a fazer desde que se descobriram os contrastes entre o acreditar e o observar, o sentir e o explicar...

Viva os jornais que falam de tudo. Não é por acaso que sua supressão é o sinal mais óbvio dos despotismos. O jornal nos ajuda a saber quem estamos lendo. Tal como ocorre com o sabe com quem estamos falando. Um assunto para outro dia...

Um enigma chamado Governo Bolsonaro

Por menosprezar o adversário, o PSDB amargou 16 anos de frustrações, em quatro derrotas eleitorais consecutivas perdeu oito turnos, e tende a continuar fora do poder por muito tempo. Definiu-se pela típica arrogância da aristocracia e se deu mal. Já em 2002, os tucanos enxergavam o candidato Lula como um simplório que havia perdido duas eleições para Fernando Henrique, no primeiro turno. Além da derrota para Fernando Collor, em 1989. Lula era um cabra marcado para perder.

Não perceberam ou não quiseram enxergar que o petista se reinventara, passando ao largo de conflitos que arrastaram José Serra e Ciro Gomes. Por certo despeito, passaram a crer que o ex-metalúrgico não conseguiria governar; anunciavam o desastre. E não foi bem assim. Quando deu certo, desdenhavam que Lula apenas “dava sequências aos acertos de FHC”. Na época, lhes perguntava: “e vocês acham errado?”

Seguindo esse soberbo instinto, em 2006 deram Lula como morto, em virtude do mensalão. A eleição de Geraldo Alckmin seria um passeio. Passeio, porém, foi a vitória do petista, que entrou em campo apenas na reta final e fez com que Alckmin tivesse no segundo turno menos votos do que obtivera no primeiro. Uma extravagância digna do Guinness Book.

E assim perseveraram supondo que a candidata inventada por Lula não resistisse à campanha eleitoral, pois perderia a paciência, a estribeira, a eleição. O mesmo pensaram em relação ao que chamaram de poste, Fernando Haddad, em 2012; o que se repetiu em 2014, novamente com Dilma, tendo Lula entrado em campo apenas na última semana do segundo turno.

Cópia da Esfinge, made in China
Isto tudo serve para dizer que o mesmo erro pode se repetir na avaliação que a esquerda e os setores progressistas fazem de Jair Bolsonaro. A tendência desde sempre foi menosprezá-lo, sem considerar as circunstâncias que o cercavam e favoreciam. Bolsonaro venceu a eleição. Agora, o autoengano quase geral é de que o presidente eleito não reúne capacidades políticas e intelectuais para governar. Pode ser. Mas, também pode ser um equívoco, um erro crasso.

O primeiro argumento em favor de Bolsonaro se usava também em defesa de Lula: ninguém chega à presidência da República em vão. Na política, idiotas morrem cedo. A Bolsonaro cabem vários tipos de crítica, menos a de que seja bobo. Afinal, venceu pleito concorridíssimo, aparentemente sem recursos e superou diversas barreiras. Jogou e se deu bem, sendo a sensação do primeiro turno e pautando palanques estaduais no segundo. Gostem ou não, deu o tom da eleição.

“Circunstâncias”, “espírito do tempo”, “sorte”… Não importa. O fato é que, tendo por base uma mensagem direta e o sentimento antissistema, Bolsonaro e seu exército brancaleone operaram extraordinariamente bem as condições e as oportunidades que os cercaram.

O mesmo pode ocorrer durante o governo. Não se trata de torcer a favor ou contra, mas de possibilidade que não pode ser descartada.

À parte dos sinais desencontrados e aparentes erros cometidos nesses dias de transição e das inúmeras frentes de conflito que tem aberto, o certo é que ao projetar um Superministério da Justiça e convidar para ele o juiz Sérgio Moro, Bolsonaro parece alçar mira em objetivos muito claros, que ultrapassam o combate à corrupção e ao crime organizado. Com o propósito de pacificar o país, o eleito se pinta para guerra. Seu símbolo é Caxias, que se fez herói pelo enfrentamento de revoltosos, não pela contemplação de interesses.

No esforço para construir a governabilidade de seu mandato, o arranjo da Justiça com Moro parece fazer sentido, seja entregando a seu eleitor as promessas da campanha — o que lhe elevaria a popularidade —, seja dissuadindo adversários por meio dos instrumentos legais que terá em mãos.

Ao invés de negociar e ceder ao fisiologismo, Bolsonaro pode estar em vias construir um mandato cuja estratégia tenho chamado “governabilidade coercitiva”. Alto impacto.

Até aqui, o embate eleitoral foi jogo de damas, um come-come. A dinâmica da alternância de poder, na tentativa de instalação de um novo ciclo, é diferente, mais sutil: jogo de xadrez. A atenção a todos os lances, movimentos diversionistas, performáticos, e movimentos de fundo é imprescindível.

Qualquer objeto requer que os atores sejam compreendidos e, por isso, respeitados — sem preconceitos ou desdém. Este o papel do analista: “nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento”, como diz Spinoza. Já à oposição, até para não ser devorada como tucanos, caberá observar, intuir, compreender e decifrar os enigmas do próximo governo. Eis a tarefa e o esforço para os próximos meses.
Carlos Melo

'É a sociedade digital, estúpido!'

Após vencer a Guerra do Golfo, Bush era favorito absoluto para ganhar as eleições de 1992 contra o desconhecido governador de Arkansas, Bill Clinton. O marqueteiro de Clinton, James Carville, apostou que, com a economia em recessão, Bush não era invencível e cunhou a frase que explicou o resultado: “É a economia, estúpido!”.

Bolsonaro é um case de marketing. Candidato pelo então minúsculo PSL, sem apoio dos partidos tradicionais, sem dinheiro, criticado de forma contundente pela maioria dos acadêmicos, artistas e veículos de comunicação (nacionais e internacionais), com acesso ínfimo ao horário eleitoral e, ainda, em claro confronto com a “ordem” vigente (ideológica, econômica e política), venceu com 57,8 milhões de votos.


O sociólogo espanhol Manuel Castells, estudioso dos movimentos sociais na era da internet, diz, há anos, que o modelo democrático conservador está esgotado. A indignação começa nas redes sociais e transborda para as ruas e urnas. De fato, em 2013, cerca de 1,3 milhão de pessoas protestaram no asfalto externando a insatisfação popular que já era evidente na internet. O reflexo nas urnas demorou, mas chegou...

À época, inúmeras raposas da política brasileira disseram que os interesses eram difusos e que faltava uma “causa” aos manifestantes. Ignoraram grande parte das infinitas razões do descontentamento. Bolsonaro — até então um deputado inexpressivo, com posições e frases polêmicas —, ao contrário, viajou pelo Brasil e pelo mundo virtual, personificando a insatisfação social “contra tudo e contra todos”. Conforme pesquisa da FGV, 78% dos brasileiros não confiavam nos políticos e nos partidos. Por outro lado, a sociedade confiava nos militares (45,8%) e na Igreja (61,5%). O capitão cristão fortaleceu-se na internet como oposição ao “sistema” enquanto os políticos discutiam como distribuir verbas dos fundos partidário e eleitoral, tempo de televisão e palanques nos estados. Alguns ainda defenderam colegas corruptos, que já estavam presos ou que deveriam estar.

A carcomida estrutura política brasileira desprezou a era digital: o Facebook do maior partido brasileiro em número de filiados, o MDB, é curtido por apenas 79.659 pessoas, enquanto o do Nas Ruas, criado pela sociedade civil, tem 770.075 curtidas. O PSDB coligou-se com o Centrão para tornar-se o “campeão” de minutos no horário eleitoral, mas morreu longe da praia. O seu Facebook tem 1,3 milhão de curtidas, enquanto o do movimento Vem Pra Rua Brasil possui mais de dois milhões. O PT, recriminado pelo rapper Mano Brown por “não falar a língua do povo”, também não se destaca na linguagem virtual.

O seu Facebook tem 1,5 milhão de curtidas, praticamente a metade das 3,1 milhões do Movimento Brasil Livre, que se insurgiu contra o aumento das passagens em São Paulo. A título de comparação, o Facebook de Jair Bolsonaro é curtido por 8,7 milhões de pessoas...

Nas outras redes, não é muito diferente. O Twitter de Bolsonaro tem 2,3 milhões de seguidores contra 1,1 milhão de Haddad. No Instagram, os 6,8 milhões de seguidores de Bolsonaro superam a soma dos que seguem todos os outros recém-candidatos a presidente.

Os dados são relevantes, pois, no ano passado, em pesquisa da FGV, quase a metade dos entrevistados (49,5%) disse que se informa sobre política no Facebook, Twitter, WhatsApp, blogs e sites.

Nas campanhas eleitorais, nada será como antes de 2018. O país possui 139 milhões de internautas e 120 milhões de contas de WhatsApp. Existem 220 milhões de smartphones para 209 milhões de habitantes.

Na Grécia Antiga, a sociedade se reunia na Ágora, a praça do povo, para debater com os arcontes, embaixadores e generais. A cidadania agora é tratada nas redes sociais, às vezes à revelia do que desejam os partidos políticos, seus dirigentes e muitos dos que pensavam ter ingerência sobre o pensamento da sociedade brasileira.

Para os que ainda não entenderam como Bolsonaro venceu, sugiro adaptarem a frase do marqueteiro de Clinton, James Carville. É a sociedade digital, estúpido!
Gil Castello Branco

Paisagem brasileira

Rua de Barbacena, Wim van Dijk (1969)

Festa no Congresso escancara a falta de líderes

Reuniram-se no plenário do Congresso nesta terça-feira as principais autoridades da República. Foram festejar o aniversário de 30 anos da Constituição. A solenidade ocorreu num instante em que o país vive tempos extraordinários. Tempos assim costumam produzir líderes extraordinários. Onde estão eles agora?, poderia perguntar qualquer brasileiro que lançasse um olhar em direção à mesa de autoridades. Lá estavam:

1. Michel Temer, um presidente da República em fim de linha, precedido por um rastro pegajoso que imprime nos salões do poder as marcas de duas denúncias por corrupção e dois inquéritos criminais.

2. José Sarney, um ex-presidente da República que frequenta os livros de história como campeão do atraso na política brasileira —tanto por antiguidade quanto, sobretudo, por merecimento.

3. Eunício Oliveira e Rodrigo Maia, presidentes do Senado e da Câmara, o “Índio” e o “Botafogo” das planilhas da Odebrecht. Ambos protagonistas de inquéritos criminais.

4. Dias Toffoli, o magistrado que chegou ao Supremo cavalgando um currículo tisnado por reprovações em concursos públicos para juiz federal. Na Suprema Corte, compõe a turma dos adeptos da política de celas vazias.

5. Raquel Dodge, a procuradora-geral da República que deveria fazer das perversões ao redor a matéria-prima para um trabalho mais profícuo.

6. Jair Bolsonaro, o grande beneficiário de toda a barafunda, um capitão exótico que o eleitorado brasileiro transferiu do baixíssimo clero da Câmara para os píncaros do Planalto.

Todos renderam homenagens à Constituição. Uns, como Toffoli e Dodge, cobraram respeito ao livrinho. Bolsonaro acorrentou-se aos texto constitucional. “Na democracia há só um norte: o da nossa Constituição”, disse o personagem que comandará a nação a partir de 1º de janeiro.

Pronunciadas por um orador que já utilizou os microfones do Parlamento para enaltecer um torturador e pregar o “fechamento temporário do Congresso”, as palavras de Bolsonaro valem como uma espécie de conversão. Uma conversão do mesmo nível da que sucedeu na estrada de Damasco, no século 1, com o soldado Saulo.

Implacável perseguidor de cristãos, Saulo, de repente, foi paralisado por uma luz ofuscante. Caiu do cavalo e ouviu uma voz vinda do céu: “Saulo, por que me persegues?” Por algum tempo, Saulo ficou cego, tamanha a claridade que o invadiu. Consumou-se assim, em circunstâncias espetaculares, a conversão de São Paulo, um dos pilares do cristianismo.

Nas rapidíssimas palavras que pronunciou na festa dedicada à Constituição, Bolsonaro escorou-se no Todo Poderoso. Em dois minutos, referiu-se a Deus cinco vezes. De fato, precisará Dele para operar o milagre de retirar o Brasil do precipício em que o enfiaram.

Indicado para o Supremo por Lula, Toffoli deu uma ideia do que pode ocorrer com o capitão se Deus não corresponder à sua devoção. ''Temos passado por episódios turbulentos”, discursou Toffoli, antes de enumerar as turbulências mais recentes:

“A investigação de políticos, o impeachment de uma presidente da República (Dilma), a cassação de um presidente da Câmara dos Deputados (Cunha) e a prisão de um ex-presidente (Lula). No entanto, olho para o futuro com otimismo, pois todos os impasses foram resolvidos de maneira institucional e com respeito às leis brasileiras.”

Quem ouviu Toffoli pode ter caído na tentação de fazer uma leitura menos otimista dos fatos. Se eles comprovaram alguma coisa foi o seguinte: a democracia brasileira, que a Constituição de 1988 consolidou, tornou-se um regime que saiu pelo ladrão. Apodrecido, o sistema político revelou-se incapaz de se auto-depurar. A lama exposta pelo rodo da Lava Jato estimulou o eleitorado a chutar o balde de onde saiu Bolsonaro.

Encerrada a solenidade no Congresso, Bolsonaro foi para o compromisso seguinte: um encontro com o ministro da Defesa, general Silva e Luna, seu companheiro de armas. Aos repórteres que estranharam a coincidência, o capitão respondeu: “Os militares terão um papel importante no governo.” Com tantos políticos civis em estado penoso, os militares voltaram à moda 33 anos depois de terem caído em descrédito.

Retorne-se, por oportuno, à pergunta do primeiro parágrafo: nesses tempos extraordinários, onde estão os líderes extraordinários? Na era do poder pulverizado, o grande líder, ou o suposto grande líder, já não existe. Faltam líderes tanto quanto sobram incertezas.

O poder do Estado, hoje, é partilhado com empresários, movimentos sociais, igrejas e outros focos de influência paraestatal. Desde 2013, o principal foco de poder é o asfalto. No limite, o grande líder é você.

Cotonetes, o maior perigo dos oceanos?

Se, como dizem os cínicos, o que importa na política é simbologia e grandes gestos, então a União Europeia está no caminho certo. Pois a anunciada proibição de talheres descartáveis, canudinhos e cotonetes de plástico certamente fará o mundo melhor. Já a contribuição disso para a limpeza nos oceanos – que deveria ser o objetivo, na verdade – deverá ser, antes, marginal. Mas o mais importante é que nós, na Europa, vamos nos sentir bem, pois fizemos alguma coisa.

Não há como negar: há cada vez mais plástico à nossa volta. Verduras, frutas, carne, embutidos ou queijo no supermercado: tudo vem embalado. Cada livro no livraria é selado em plástico. A senhora que me vende pãezinhos usa luvas de plástico.

E de praticamente cada mochila no metrô há uma garrafa PET de água espiando – como se não houvesse torneiras suficientes nos escritórios, escolas ou universidades alemães. As quais, aliás, fornecem água perfeitamente potável e muitas vezes fresca e saborosa – mas esse é um outro assunto.

Então quer dizer que todo esse luxo de artigos descartáveis e dispensáveis vai parar automaticamente no mar? Claro que não. Pois em toda a Europa há sistemas abrangentes de eliminação de lixo, em parte até mesmo separado por material e com elevadas taxas de reaproveitamento.

E quem frequenta regularmente as praias europeias ou veleja no Mediterrâneo sabe que, na realidade, cotonetes, canudinhos e garfos de plástico não são o maior problema. O que mais se encontra sobre a água e à beira dela são garrafas d'água, sacolas plásticas, restos de rede de pescar e frascos de óleo para motor e xampu.

Ninguém quer proibir fundamentalmente nenhuma dessas coisas. Entretanto, com sistemas de depósito impostos por lei ou preços mínimos, o problema se reduziria radicalmente. Aqui está a chance de a UE mostrar serviço!

No entanto, os verdadeiros focos de poluição marinha não se situam na Europa. Oito dos dez rios que diariamente despejam o maior número de toneladas de plástico se situam na Ásia, e os outros dois, na África. Então, o que pode fazer a Europa? Nada além de compartilhar imagens alarmantes nas redes sociais e lamentar a miséria do mundo?

Não, é claro que a Europa dispõe de opções bem diferentes. Por exemplo ajudar as regiões nas bacias desses rios mais sujos a construírem sistemas decentes de coleta e reciclagem, a fim de que o lixo não seja mais despejado na água corrente. Para tal, empresas europeias, e em especial alemãs, oferecem excelentes projetos e instalações altamente eficientes. Só que nos países em questão ninguém quer ou pode pagar por isso.

Portanto, se a questão é realmente tão importante para nós, europeus, não há alternativa senão meter a mão no próprio bolso e lançar projetos de desenvolvimento nesse sentido. Essa, pelo menos, seria uma política eficaz e sustentável. Mas, claro, bem mais cara do que proibir talheres descartáveis e cotonetes.

Felix Steiner

O que o capitão deveria prender com Caxias

As circunstâncias impõem que revisitemos a Revolução Liberal de 1842. Naquela ocasião, o povo rebelou-se em Minas Gerais e São Paulo contra a centralização do poder político, promovida pelos conservadores, em 1840, em favor da Corte imperial, por meio do chamado Ato de Interpretação do Ato Adicional de 1834. Contavam também com o apoio dos Farrapos, que ainda resistiam no Rio Grande do Sul. Em Minas Gerais, eram liderados por Teófilo Otoni. Seus correligionários − e ele próprio − foram derrotados em uma batalha ocorrida num local denominado Muro de Pedra, nos arredores de Santa Luzia. Quem conduzia as tropas imperiais era Luís Alves de Lima e Silva, o então barão de Caxias. Preso, Teófilo Otoni foi conduzido a Ouro Preto. Seria julgado em Mariana por crime de lesa-majestade, correndo o risco de ser condenado à morte.

Perto de Sabará, Caxias ficou sabendo que Teófilo Otoni estava sendo conduzido, de Santa Luzia a Ouro Preto, a pé, com pernas e braços atados. Determinou que lhe fosse dada montaria e que as correntes fossem retiradas. Assegurou-lhe, ainda, que teria direito a um julgamento imparcial. No tribunal, Teófilo Otoni assumiu sua própria defesa e foi absolvido. Sua fama espalhou-se. A partir daí, os membros do Partido Liberal, no Segundo Reinado, passaram a ser conhecidos como os “luzias”. Anistiado em 1844, Teófilo Otoni foi eleito para a Câmara dos Deputados, lá permanecendo até 1850. Afastou-se da política por uma década, período em que fundou uma colônia agrícola e uma companhia de comércio e navegação no vale do Mucuri. Construiu, ainda, a famosa estrada de ferro Bahia-Minas.

Nos anos 60 do século XIX, os eleitores mineiros colocaram-no como o primeiro da lista tríplice da qual o imperador deveria escolher um senador. Após muita relutância, d. Pedro II o alçou ao Senado, no limiar da Guerra do Paraguai. Teófilo Otoni havia se formado, com louvor, como oficial da Marinha no Primeiro Reinado. Fora o melhor aluno de sua turma. Acinte: na cerimônia de colação, negou-se a beijar a mão de d. Pedro I, por se considerar republicano. Já no Senado, em famoso discurso, quando o Brasil se encontrava na defensiva contra as tropas de Solano López, propôs que os militares brasileiros fossem conduzidos por um combatente que conhecia bem. Tratava-se de um adversário político, do Partido Conservador: o senador Luís Alves de Lima e Silva, agora, marquês de Caxias. Sob o comando de Caxias, os brasileiros ganhariam a guerra, em 1869. No mesmo ano, Teófilo Otoni, o Senador do Povo, morreria. Seu enterro reuniu, até então, a maior multidão que se aglomerou nas ruas do Rio de Janeiro.

O capitão eleito diz que seguirá os passos de Caxias, o Pacificador. Seria bom que alguém lhe narrasse a relação do “Patrono do Exército” com o Senador do Povo. Ali se vê como a política pode ser exercida de forma altaneira entre oponentes que se respeitam e que não veem o adversário como o inimigo subversivo a ser varrido deste país.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Imagem do Dia

Tóquio, Ian Ramsey

Por que não te calas, Bolsonaro?

Apenas nas últimas 24 horas a tomar-se a meia-noite como limite, Bolsonaro torpedeou a reforma da Previdência, deixou mal seus ministros cinco estrelas Paulo Guedes e Sérgio Moro, voltou a irritar os países árabes, desgostou Israel, pôs em risco a credibilidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e estimulou o denuncismo de alunos contra os professores.

Em entrevistas a emissoras de televisão, Bolsonaro deixou o mercado financeiro em sobressalto ao dizer que ainda não “está batido o martelo” sobre a reforma da Previdência. Ele não só vê com desconfiança a ideia de substituir o modelo atual por um que pressuponha uma poupança individual do trabalhador, como não parece convencido sobre a própria reforma em si.


“Nós temos um contrato com o aposentado, você vai mudar uma regra no meio do caminho?”, perguntou o presidente eleito há pouco mais de uma semana. Para ele mesmo responder: “Não pode mudar sem levar em conta que tem um ser humano que vai ter a vida que será modificada”, disse. Bolsonaro descarta qualquer modelo de reforma que atinja os militares.

Do laboratório onde futuros auxiliares deles testam fórmulas para financiar gastos públicos havia saído a ideia de se recriar um tipo de novo imposto em tudo semelhante à antiga Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), vulgarmente conhecida como “imposto do cheque”. Bolsonaro voltou a repetir que isso jamais acontecerá.

Bolsonaro afirmou ter dado “carta branca” ao juiz Sérgio Moro para tocar o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, mas em seguida admitiu que não será bem assim. No que ele e Moro divirjam, os dois terão que fazer concessões. Bolsonaro, por exemplo, não abre mão de favorecer a posse de arma “pelos brasileiros de bem”. Moro não está alinhado com ele.

Sobrou para o IBGE. “Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil. O que está aí é uma farsa”, disparou o capitão. A metodologia do IBGE baseia-se em outras adotadas universalmente e no conhecimento acumulado pelo instituto desde sua fundação. Só desperta dúvidas em quem pouco ou nada entende do assunto.

Sobrou também para os professores. Em defesa do controverso projeto Escola Sem Partido, preste a ser enterrado em breve por decisão do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro aconselhou os estudantes a gravarem às aulas que assistirem para, se for o caso, denunciar professores que tentem ensiná-los a pensar politicamente assim ou assado.

A propósito de sua decisão anunciada de mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, e no dia em que o Egito, em retaliação, cancelou a visita ao Cairo do ministro Aloysio Nunes, das Relações Exteriores, Bolsonaro aparentemente recuou. “Não é uma questão de honra”, disse. Mas voltou a defender o direito de Israel sobre Jerusalém.

O recuo incomodou o governo de Israel. Apenas os Estados Unidos e a Guatemala já decidiram transferir seus embaixadas de Tel Aviv para Jerusalém. O Brasil seria o terceiro país. A defesa feita por Bolsonaro do direito de Israel sobre Jerusalém aumentou a revolta dos países árabes, mercado próspero para produtos brasileiros.

A governar sem descer do palanque de candidato, o capitão reformado Jair Bolsonaro arranjará mais encrencas para seu lado do que possa imaginar.

Bolsonaro no buraco

Aconteceu numa segunda-feira de 55 anos atrás, na Manhattan de um mundo em Guerra Fria, quando Jair Bolsonaro era apenas um garoto nas ruas descalças de Ribeira (SP), a oito mil quilômetros de distância.

Cinco homens e uma mulher entraram no 112-Oeste da Rua 48, Nova York. Há meses Astrud Gilberto (voz), Antonio Carlos Jobim (piano), Tião Neto (baixo), Milton Banana (bateria), João Gilberto (violão) e Stan Getz (sax) lutavam para apresentar a bossa nova ao público.

Nos ensaios faltou sintonia entre Getz e João, relata Ruy Castro em “Chega de saudade”. O baiano explodiu: “Tom, diga a esse gringo que ele é burro.” O carioca Jobim virou-se para o americano e traduziu: “Stan, o João está dizendo que o sonho dele sempre foi gravar com você.”

Foi um dos grandes momentos da diplomacia brasileira: o disco “Getz/Gilberto” abriu o mercado dos EUA e da Europa para a bossa nova.


Bolsonaro não possui átomo da genialidade diplomática de Jobim, mas seria um poeta se falasse menos sobre política externa no seu mandato.

Em uma semana (lapso de tempo em que os seis de Nova York lapidaram um revolucionário Made in Brazil), Bolsonaro e equipe conseguiram semear tensões e incertezas sobre o futuro do Brasil com Argentina, Paraguai e Uruguai (sócios no Mercosul), China, Cuba, União Europeia, países árabes e muçulmanos.

Presidente eleito de um país desesperado para ampliar exportações e receber investimentos estrangeiros, Bolsonaro resolveu desprezar um quarto do mercado global, com três bilhões de consumidores. Semana passada a China advertiu, publicamente, que uma ruptura vai “custar caro” ao Brasil. Ontem, o Egito recusou-se a receber o chanceler brasileiro, em reação ao alinhamento do Brasil ao governo Trump na mudança da embaixada para Jerusalém.

Bolsonaro pode não gostar da melodia de Tom e preferir o punk-brega de Trump, mas deveria ouvir o conselho grátis do bilionário Warren Buffet, um conservador: “Se você está num buraco, a coisa mais importante a fazer é parar de cavar.”

Bolsonaro defende ideia de filmar os professores

Jair Bolsonaro concedeu uma longa entrevista a José Luiz Datena, da Band. Conversaram por quase duas horas. A certa altura, o repórter quis saber a opinião do novo presidente sobre a ideia de filmar professores que façam suposta “doutrinação” política em sala de aula. Bolsonaro aprovou e estimulou a iniciativa: “Não tem problema nenhum, pode filmar.”

Deve-se a proposta de gravar professores à deputada estadual eleita Ana Caroline Campagnolo (PSL), de Santa Catarina. Ela pediu nas redes sociais que estudantes catarinenses filmem e denunciem professores que façam “queixas político-partidárias em virtude da vitória do presidente Bolsonaro”.

A Justiça mandou a deputada eleita pelo partido do presidente retirar da internet as mensagens que incitavam os alunos a realizar filmagens em sala de aula. Para Bolsonaro, porém, “o professor tem que se orgulhar e não ficar preocupado” com a hipótese de ser gravado. “Só o mau professor é que se preocupa com isso daí”, declarou.

A posição de Bolsonaro é lamentável e promissora. Deve ser lamentada porque não fica bem um presidente da República jogar alunos contra professores, estimulando a adoção de uma espécie de ‘macarthismo’ escolar. Pode ser uma boa promessa pelas perspectivas que se abrem.

Considerando-se que Bolsonaro acha que “não tem problema nenhum” filmar servidores públicos no exercício de suas funções, decerto instalará uma câmera no gabinete presidencial. O exemplo, como se diz, vem de cima.

Os contribuintes em dia com a Receita Federal adorarão acompanhar os despachos presidenciais em tempo real. E Bolsonaro se orgulhará de ser levado à vitrine, pois só um mau presidente da República se preocuparia com isso daí.

Os grandes e os pequenos

Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande
Padre António Vieira

Estamos todos no mesmo barco

No templo batista Atitude, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, pediu a união de todos os brasileiros, argumentando que “estamos todos no mesmo barco”. A união é necessária e estarmos, de fato, todos no mesmo barco é tão evidente como água molha e fogo queima. Cabe-lhe governar para todos os brasileiros, e não apenas para os 57.797.456 eleitores que votaram nele no segundo turno da eleição presidencial de 2018, em 28 de outubro. É o que prometeu resta saber se cumprirá. O “para todos” não exclui minorias, cujos direitos humanos – ou será “humanos direitos”, como exige seu futuro ministro da Defesa, general Augusto Heleno? – têm de ser respeitados pelo governo da maioria e pela própria maioria. Vale para mulheres, negros, índios, pardos, homossexuais e “vermelhos”, que não são a turma do cordão encarnado, mas a esquerda sempre insultada por Bolsonaro, desde que eles aceitem a mesma regra de tolerância que vale para os adversários. Vale também para os telespectadores, ouvintes de rádio e leitores de jornais e revistas que preferem se abrigar na garantia de verdade que o mercado lhes oferece, fora do território pantanoso das fake news da terra de ninguém que é a internet, à qual o presidente eleito pode continuar recorrendo, mas que não deveria adotar como se fosse outra forma do verbo divino na Terra.

Nada disso aí é fácil. Aceitar o outro, diferente, sem que ele seja o “inferno”, como definiu Jean-Paul Sartre na peça Huis Clos (Entre Quatro Paredes), é norma básica de convívio social e condição sine qua nonpara o exercício do governo democrático em nome do povo, com o povo e para o povo, como manda a Constituição. Quem detém o poder tem a obrigação da iniciativa: é quem estende a mão. Afinal, o poder político numa República (res publica, coisa do povo em latim) dita representativa não pode ser exercido de forma indiscriminada, de cima para baixo, como nas tiranias. Mas, sim, com o respeito à Constituição, em primeiro lugar, e às leis e instituições em geral. Em nosso específico caso, pelo menos em teoria, o monopólio da força em mãos do Estado, sob a chefia do mandatário-mor, escolhido pelos cidadãos aptos a votar, não é absoluto, mas relativo. Na moderna escola institucional, estabelecida desde os tempos da Revolução Francesa, em 1792, há equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário, como imaginou Montesquieu. O primeiro governa e executa as leis, criadas pelo segundo e sob julgamento do terceiro. E aí é que está o que padre Bernardo, meu inesquecível professor de Latim e Lógica (e a Matemática é uma ciência do raciocínio lógico) no seminário redentorista de Bodocongó, em Campina Grande, chamava de busílis.

Por falar em Campina Grande, na Paraíba, onde passei minha adolescência, a turminha que se reunia todas as noites, depois da sessão de cinema no Capitólio, proseava na praça do Rotary, bem em frente, e criou um jargão particular. Chamava, por exemplo, de Belém-Brasília qualquer mulher alta, magra e desprovida de curvas nas ancas, como a estrada que ainda gozava as famas das primícias. O mesmo vale para essa palavra imensa, caquética e feiosa que é governabilidade. Por mais desacunhada (desajeitada, como se dizia naquela roda implacável) que ela seja, tem caprichos de formosa donzela e poder de sedução de beleza ímpar. Sem governabilidade, na República de Montesquieu, ninguém governa, com o perdão do trocadilho infame e pleonástico. Em nosso caso, costuma-se exigir isso apenas do chefe do governo, principalmente, como é o caso de Jair Bolsonaro, eleito por maioria de 10 milhões de votos sobre seu adversário, o presidiário Lula, representado pelo boneco de ventríloquo Haddad, como se só a ele coubesse a obrigação da moderação e da humildade: estender uma mão à outra e abraçar quem tenta apunhalá-lo.


Não é bem assim. A obrigação é de todos, a começar das instituições representativas do poder republicano. A primeira delas é o Congresso. O mostrengo do presidencialismo de coalizão, gerado e cevado pelo tucano Fernando Henrique em seus oito anos de dois mandatos e seguido à risca pelos sucessores petistas,Lula e Dilma. Este, em que se compra apoio e se combate a oposição ferozmente, acabou virando mais propriamente “de colisão”. E pode explodir como bomba nas mãos que Bolsonaro estendeu na igreja apropriadamente intitulada Atitude, no domingo 4 de novembro, no Rio. No caso dele, a barroada (sinônimo vulgar de abalroamento) promete aparecer atravessando o sinal fechado na esquina.

Do ponto de vista ideológico, o carro desgovernado na contramão é conduzido por uma esquerda feroz, impiedosa, mentirosa, rapace, irresponsável, leviana e impatriótica. Ela já se manifesta na intolerância com que se apresenta ao transe, corruptela de transição, termo mais suave para definir a travessia do ex-governo em extinção para o futuro. E sob a mira dos snipers que não aceitam a derrota no voto, com que pretendia consagrar a impunidade de seu líder-mor, Lula, ladrão e lavador de dinheiro, assim definido por definitiva decisão da segunda instância do Judiciário, um dos Poderes autônomos da República. André Singer, professor da USP e ex-porta-voz do corrupto, no artigo A hora mais escura, não deixa por menos: “A maioria nas urnas dá mais poder aos antidemocratas do que os tanques de 1964”, Cumpre-se, segundo o titular de Ciência Política na mais venerada escola superior pública do País, a profecia de sua colega filósofa Marilena Chaui, que, em entrevista à revista Cult falou de uma ditadura mais nociva às instituições do que a militar. Parece piada de mau gosto, mas é sério. Trêfegos discípulos aloprados estenderam em seus câmpus, no País inteiro, faixas com paródias de Sílvio Santos: “O fascismo vem aí”.

A mídia, que a esquerda e Bolsonaro execram, não noticiou, contudo, presença de tropas de assalto,pogroms em bairros judeus nem noites dos cristais, com quebra-quebra de vidraças de lojas dos herdeiros de Abraão. Isso aconteceu na Alemanha de Weimar, prenúncio do nazismo de Adolf
Hitler, personalidade política favorita de Lula, quando era líder sindical, em entrevista à Playboy. Mas o PT não faz oposição e, sim, “resistência”, como se opuseram os franceses à invasão alemã na 2.ª Guerra. E a palavra golpe voltou a ser usada, como se o partido sob cuja égide foi promovido o maior saque ao erário da História tivesse o direito sagrado de representar o povo, mesmo quando este se manifesta, como aconteceu, contra essa contrafação de monarquia populista. Eis a oposição que o presidente eleito enfrentará daqui a dois meses, após ser empossado.

E há outra, sub-reptícia, sibilina e ao abrigo da mais que poderosa Câmara dos Deputados. Em 5 denovembro passado, o Estado publicou em manchete de primeira página: 1/3 do Congresso eleito responde a processos na Justiça. Esse terço é o remanescente reduzido da maioria silenciosa que resiste ao combate à corrupção pela banda sadia da polícia, do Ministério Público e da Justiça e, protegida pelo foro privilegiado, não entregará ao inimigo a rapadura, que não é mole, mas é doce.

Para tanto contará com a cumplicidade da cúpula do Poder Judiciário, em especial do Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente deste, ministro Dias Toffoli, prega um pacto, mais bem definido no título da chamada de primeira página do Estado de domingo 4: STF prevê protagonismo maior em novo governo. São sete os profetas da “nova aliança”: além do presidente, o decano Celso de Mello, o indefectível Marco Aurélio Mello e mais quatro embuçados em sua fantasia de morcego máximo. Sob o selo Jurisprudência, a manchete do Globo de segunda-feira 6 é mais explícita: STF resiste a propostas de Bolsonaro sobre prisões.

O deputado federal reeleito pelo PSL de São Paulo com 1.843.735 votos, a maior votação para a Câmara da História, disse ao Globo: “A gente fez um pacto: a gente não vai para a cadeia. A gente não vai cair na mão do Sergio Moro nem da Lava Jato. Se o partido colocar a faca no pescoço: ‘O partido tal vota se tiver o ministério tal’, sinto muito, mas não vai ter. Será que eles conseguem aprovar o impeachment de um presidente recém-chegado? Olha para o Collor e para a Dilma. Como estava a popularidade deles quando receberam o impeachment?”. Gente, se a promessa for cumprida, este será o bom primeiro passo na direção desejada para o novo governo, mas não será tudo. A governabilidade dependerá de paciência, tolerância e disposição infinita para o diálogo. Sem essas preliminares será difícil vencer “resistências” no Congresso e no STF.

José Nêumanne

Paisagem brasileira

Corumbá (MS)

O subemprego está em alta na Alemanha

Novos dados do governo federal da Alemanha revelam que um em cada cinco cidadãos trabalha nos chamados "mini-empregos", nome dado no país a trabalhos informais que pagam salários de até 450 euros por mês.

O levantamento da Agência Federal de Empregos da Alemanha, divulgado no sábado pelo jornal Rheinische Post, demonstra que o número de alemães que recorrem a subempregos aumentou em 50 mil em apenas um ano. O estudo foi realizado a pedido de parlamentares do partido A Esquerda.


Na Alemanha, um país que se orgulha de seu baixo índice de desemprego, a quantidade de pessoas que possuem trabalhos regulares mas recorrem aos "mini-empregos" para complementar seus rendimentos aumenta em número significativo.

Na última quarta-feira, um relatório divulgado pelo Departamento Federal de Estatísticas da Alemanha (Destatis) afirmava que 20% dos alemães estão ameaçados pela pobreza, enquanto o custo de vida aumenta em ritmo bem mais rápido do que os salários.

A reportagem do Rheinische Post afirma que, apesar da introdução do salário mínimo na Alemanha em 2015, os empresários continuam a obter vantagens com a isenção tributária sobre os trabalhos de remuneração menor do que 450 euros mensais.

Em março deste ano, 7,5 milhões dos 32,7 milhões de empregos que pagam contribuições para o sistema de bem-estar social foram classificados como subempregos. Isso representa um aumento de 35% em comparação com os números registrados há 15 anos. Além disso, cerca de 8,5% (2,8 milhões) das pessoas que possuem emprego em tempo integral também recorrem aos "mini-empregos", o que corresponde a um milhão a mais do que há 10 anos.

Os subempregos prevalecem especialmente entre os aposentados, cujos rendimentos mal cobrem suas despesas. Nos últimos seis anos, o número de pessoas nessas condições aumentou em 27%.

"O número de mini-empregos aumenta enquanto os trabalhos regulares estão sendo substituídos", afirmou a parlamentar Susanne Ferschl, do partido A Esquerda, cuja bancada de parlamentares no Bundestag (Parlamento alemão) requisitou a realização da pesquisa.

"As pessoas com nível de educação mais alto e que trabalham em subempregos não conseguem viver de seus rendimentos e dependem da ajuda do governo. O Estado, então, subsidia empresas que economizam em salários através dos mini-empregos", afirmou Ferschl.

Atualmente, o salário mínimo na Alemanha é de 8,84 euros por hora trabalhada, devendo ser aumentado para 9,35 euros em 2020. O ministro alemão do Trabalho, Hubertus Heil, defende que, após o novo valor passar a valer, o mínimo deve ser aumentado para 12 euros por hora num prazo mais curto.

Deutsche Welle