quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Policarpo Quaresma, patriota arrependido

Um dia após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subir a rampa do Palácio do Planalto, a ala radical dos apoiadores de seu antecessor, Jair Bolsonaro, que pedia intervenção militar para impedir a posse do petista, levantou o acampamento diante do quartel-general em Brasília. Muitos recolheram as armas após o choque de realidade dos últimos dias.

Na “live” de despedida, Bolsonaro jogou um balde de água fria sobre os bolsonaristas inconformados: condenou a “tentativa de ato terrorista” em Brasília, em alusão à bomba plantada para explodir no aeroporto, alertou que o mundo não vai “acabar no dia 1º ” e rechaçou a ideia de partirem para o “tudo ou nada”.

No dia seguinte, foi a vez do então presidente em exercício, Hamilton Mourão, em rede nacional de televisão, criticar as lideranças cujo silêncio contribuiu para o clima de “caos e desagregação”, em recado velado a Bolsonaro. Observou que a “alternância do poder em uma democracia é saudável” e fez um apelo à paz nacional: “tranquilizemo-nos, retornemos à normalidade da vida”.

As mensagens de Bolsonaro e Mourão estimularam os amotinados na frente dos quartéis a se renderem à democracia. É provável que alguns deles retornaram aos seus lares questionando os excessos de um patriotismo superficial, marcado pelo “slogan” “Deus, pátria e família”, que representa apenas uma parcela da sociedade.



A imagem de um grupo de apoiadores do ex-presidente em conflito com um patriotismo notadamente desvirtuado convida a uma viagem no tempo, ao ano de 1915, quando Lima Barreto publicou o romance “Triste fim de Policarpo Quaresma”. A obra foi considerada pelos críticos como a denúncia de um patriotismo “romântico e artificial” alimentado pelas elites e da frágil democracia no começo da República.

É oportuna a menção ao romance quando acabamos de celebrar o centenário de morte de Lima Barreto, ocorrido em novembro de 2022. O escritor vivenciou os anos da primeira República em que as promessas de igualdade e justiça social converteram-se em mais exclusão e rebeliões no país.

O final do século XIX era o cenário da jornada do Major Policarpo Quaresma, avesso a estrangeirismos, e obcecado pela busca da língua e dos costumes verdadeiramente nacionais. Essa obsessão o levava a situações insólitas, tal qual alguns bolsonaristas expostos ao frio e à chuva, em nome de uma causa ilegal e antidemocrática.

Se alguém estendia a mão para cumprimentá-lo, o Major a recolhia, desatava a chorar e a esgoelar. Alegava que o aperto de mãos é fruto de estrangeirismos e que o cumprimento brasileiro deveria ser como o dos tupinambás, que choravam ao rever os amigos.

Contrário ao “petit-pois”, ele substituía as ervilhas pelo “feijão guandu”. Acreditava que a língua portuguesa era um empréstimo dos portugueses. Por isso, enviou ofício suplicando ao Congresso que decretasse o tupi-guarani como língua oficial. Acabou internado em um hospício.

Após uma audiência com o Marechal Floriano Peixoto, alistou-se no Exército para lutar na Revolta da Armada contra os inimigos da República. Ao fim, desapontou-se com a guerra, foi acusado de traição e terminou os seus dias na cadeia, questionando o patriotismo que o inspirou e o guiou por toda a vida.

A historiadora e escritora Lilia Schwarcz, autora de “Lima Barreto - Triste Visionário”, ressaltou em conversa com a coluna que não é possível comparar o patriotismo do Major Policarpo com o lema “Deus, pátria, família” dos seguidores de Bolsonaro.

“Policarpo era um personagem que acreditava num outro Brasil”, explica a professora da USP. “Ele imaginou que a República traria liberdade, igualdade, mais valores brasileiros e encontrou um país estrangeirado, como Lima Barreto costumava dizer. Um país que viveu um estado de sítio”.

Para a historiadora, o patriotismo de Policarpo, que também era o de Lima Barreto, era “muito positivo”. Ela sublinha que não é contra o “patriotismo”, mas se opõe à “patriotada”, ou seja, “quando a pátria vira um slogan, que representa apenas um grupo da sociedade, que é o que aconteceu no Brasil de 2018 a 2022”.

Lima Barreto já nos anos de 1920 defendia um Brasil “mais amplo e mais plural”. Criticou a discriminação racial no período pós-abolição, era titular da coluna “não as matem”, em defesa das mulheres, e era crítico ao “jornalismo de Estado”. Cunhou o termo “patriotada” nos textos que assinou sobre o centenário da Independência em 1922. Afirmava que os brasileiros foram “contaminados pelo vírus da patriotada”, ao tecer críticas contumazes ao autoritarismo, à intolerância e ao fanatismo.

Questionada sobre o que Lima Barreto diria sobre os grupos de patriotas radicais que seguem Bolsonaro - e que não representam a totalidade dos apoiadores do ex-presidente -, a professora da USP afirma que o escritor seria “um crítico do militarismo do governo Bolsonaro”.

Lilia Schwarcz viajou a Brasília para a inauguração da exposição “Brasil Futuro: as Formas da Democracia”, no Museu Nacional da República, da qual é uma das curadoras. Concebida para dialogar com o governo de transição, a exposição reúne 180 obras de mais de uma centena de artistas, como Adriana Varejão e Ailton Krenak. A mostra propõe-se a apresentar os artistas que foram tão prejudicados “pelo desmonte da cultura e que sofreram com a censura” no atual governo.

Um dos símbolos da exposição o óleo sobre tela “Orixás”, da conceituada artista Djanira, que foi retirada do palácio na gestão Bolsonaro. Os curadores da exposição encontraram “um furo na tela”, provavelmente feito com uma caneta. “Isso mostra o desprezo que esse governo teve aos artistas”, criticou.

Os curadores querem, com a exposição, provocar a emoção e a reflexão sobre as várias faces da democracia. “Eu penso como Mário Pedrosa, nos momentos de crise, o melhor a se fazer é ficar perto dos artistas”. Pedrosa sustentava que a arte e a política são as duas formas mais elevadas da expressão humana. Lima Barreto conciliou ambas ao narrar a triste saga do patriota romântico Policarpo Quaresma.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Pensamento do Dia

 


A direita explosiva quis voltar

As delinquências confessadas por George Washington de Oliveira Sousa, gerente de um posto de gasolina no Pará, militante acampado diante do Quartel General do Exército, em Brasília, mostram que ele pretendia praticar um ato terrorista na capital. Pelo plano, explodiriam um caminhão de combustível nas proximidades do aeroporto. Outra bomba interromperia o fornecimento de energia de Taguatinga. Assim, dariam “início ao caos que levaria à decretação do estado de sítio”.

Bomba num pátio, corte de energia, caos... Mark Twain já ensinou: A História não se repete, mas rima.

Oliveira Sousa está preso e revelou ter articulado o crime com pelo menos três pessoas. Esse atentado, impedido pela ação da polícia civil de Brasília, bem como inúmeras ameaças, injetaram tensão na festa da posse do presidente Lula.



Nos anos 60 e 70 do século passado, o país teve um terrorismo de esquerda, com o sequestro de quatro diplomatas estrangeiros e a morte de dezenas de pessoas. Foram executados um empresário, um delegado, um capitão do exército americano e um major alemão, confundido com um capitão boliviano. A ditadura enfrentou esse surto com desproporcional violência. A tortura tomou-se política de Estado e foi seguida por uma diretriz de extermínio.

Em 1981, extinto o surto terrorista e dois anos depois da anistia, explodiu uma bomba no colo de um sargento do DOI do I Exército (atual Comando Militar do Leste). Ele acompanhava um capitão, seu superior. Era o atentado do Riocentro. Se as coisas corressem como se supõe que havia sido planejado, aquela bomba explodiria no estacionamento enquanto outra, jogada na estação de energia, cortaria a luz do show que se realizava no pavilhão. O episódio do Riocentro provocaria um caos e, quem sabe, levaria à decretação de medidas de emergência.

(A bomba que explodiu no colo do sargento matou-o, ferindo o capitão. A da estação de energia falhou.)

Passaram-se 41 anos, o capitão foi para a reserva como coronel. Na cena da bomba atirada contra a casa de força estava o coronel da reserva Freddie Perdigão Pereira, lotado no Serviço Nacional de Informações. Na tarde de 31 de março de 1964, o então tenente Perdigão foi mandado ao Palácio das Laranjeiras com um tanque, para proteger o presidente João Goulart. Ele morreu em 1996 durante uma cirurgia. Até hoje prevalece a versão de que nenhum militar tinha a ver com as explosões.

A “Explosiva” detonou a direita

A prisão de Oliveira e Sousa e sua confissão recomendam que se revisite o terrorismo de direita. Ele foi beneficiado pela impunidade, mas foi revelado, à fartura, por alguns de seus personagens. Nada melhor que a leitura de “A Direita Explosiva no Brasil”, de José Argolo, Kátia Ribeiro e Luiz Alberto Fortunato. Publicado em 1996, contém uma coleção de depoimentos, com o coronel Alberto Fortunato como um de seus principais personagens.

Fortunato esteve em inúmeros episódios da anarquia militar da segunda metade do século XX. Na década de 1960 ele participou de cerca de 30 atentados. Articulava-se com colegas, empresários e políticos.

Em 1962, Fortunato preparou uma bomba com dez bananas de dinamite, deixadas no pavilhão de São Cristóvão, onde havia uma exposição de produtos da União Soviética. Militares que souberam do plano temeram que morresse gente e avisaram ao governo do Rio. Seis anos depois, o coronel atirou uma bomba na porta do Teatro Glaucio Gil, em Copacabana. Nele realizavam-se assembleias de artistas.

A essa altura Fortunato ligara-se a oficiais que serviam no Centro de Informações do Exército, o CIE, e a Hilário Corrales, um comerciante de madeira do Estácio, que se tornaria um bom amigo do major Freddie Perdigão, então lotado no CIE.

Durante o ano de 1968, antes da decretação do Ato Institucional nº 5, o grupo em que estavam oficiais do CIE explodiu 20 bombas no Rio.

O coronel Luiz Helvécio da Silveira Leite, do CIE, recordou o atentado contra o teatro Opinião:

“Foi tentado deixar uma bomba de retardo dentro do teatro, para explodir após a sessão. Eles estavam com uma vigilância muito aguçada sobre nossos agentes, que nem podiam se mexer. Optou-se então pela destruição total. Numa madrugada de chuva, com algumas cargas ocas e coquetéis molotovs, destruímos o teatro.”

Em 1970, o núcleo terrorista onde estava Fortunato pôs duas bombas na casa onde funcionava a redação do semanário O Pasquim e depois disso adormeceu.

Acordaram em 1976. Sequestraram um bispo, explodiram bancas de jornais, puseram uma bomba na porta da CNBB e outra na casa do jornalista Roberto Marinho, dono das Organizações Globo.

Em 1980, uma carta-bomba matou a secretária do presidente da OAB e, no DOI, alguém teve a ideia de explodir a casa de força do Riocentro. O oficial que chefiava a seção de operações do destacamento vetou o projeto.

Em abril de 1981, a ideia renasceu e, segundo o coronel Fortunato, Hilário Corrales fez a bomba que explodiria no colo do sargento.

Corrales fugiu para São Paulo, voltou ao Rio e morreu em julho do ano seguinte. Seu caixão foi levado por dois generais reformados e um oficial fez um inflamado discurso à beira do túmulo. No fim da vida, Corrales foi assistido pelo coronel Freddie Perdigão

O livro “A Direita Explosiva no Brasil” lista 32 atentados praticados entre 1968 e 1980 pelos grupos do coronel Fortunato e dos oficiais do CIE. Com o do Riocentro, são 33.

Nenhum desses atentados teve a autoria desvendada, mas tratava-se de um segredo de Polichinelo. Em três meses, o detetive particular Bechara Jalkh identificou a origem do explosivo e os autores do atentado à casa de Roberto Marinho. Comandantes militares da época e generais do Palácio do Planalto sabiam quem fazia o que. Uns achavam que lhes convinha, outros acreditavam que aquilo passaria, pois era coisa de “radicais sinceros”. (Uma carta identificando o automóvel do qual saiu o cidadão que explodiu uma banca de jornais foi engavetada.)

As bombas do Riocentro abalaram o regime e a disciplina das Forças Armadas. Foram necessárias décadas para recolocar a imagem dos militares no devido lugar.

Se o primeiro atentado da “Direita Explosiva” tivesse sido investigado e seus autores punidos na letra da lei e dos regulamentos, o Brasil, a Justiça e as Forças Armadas teriam lucrado.

2023

Depois de quatro anos de tensões inúteis e administração errática, o Brasil vive hoje a festa da democracia com a posse do presidente eleito.

A qualidade de um governo só se avalia quando ele começa a funcionar. Como ensina o professor Delfim Netto:

“Hoje começa a lua de mel do novo presidente com o poder. Amanhã, segunda-feira, ele terá que abrir a quitanda às nove da manhã com berinjelas para vender a preço razoável e troco na caixa para atender a freguesia.

Pelos próximos quatro anos a rotina essencial será a mesma: abrir a quitanda, com berinjelas e troco.

Todos os desastres da economia brasileira deram-se quando deixou-se de prestar atenção na economia da loja.”

De que serve a bondade

De que serve a bondade

Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertold Brecht

A despedida inglória do capitão fracassado

Uma fascinante obra-prima renascentista pintada há mais de 500 anos pelo holandês Hieronymus Bosch mora no segundo andar da ala Richelieu do Museu do Louvre, em Paris. Batizado de “Nau dos insensatos”, o quadro a óleo sobre madeira é parte original de um tríptico que acabou separado ao longo dos séculos. Dizem os estudiosos que a “Nau” de Bosch foi inspirada na pena satírica de um humanista alemão do mesmo período, Sebastian Brant, que escrevera em verso uma paródia da Arca de Noé. Na alegoria de Brant, o mundo era a nau, e seus habitantes/viajantes não se importavam para onde eram levados. Agiam desprovidos de razão, inclusive o capitão — se é que havia um a bordo.

Na tela de Bosch há dez passageiros amontoados numa embarcação à deriva, além de dois outros já náufragos. Ninguém parece fazer coisa com coisa: uma freira toca alaúde, um beberrão vomita, outro rema com uma concha de cozinha, uma mulher golpeia um quase afogado com uma jarra. Pendurada na vela mestra, vê-se uma suculenta ave assada, e o mastro em forma de árvore abriga uma coruja, símbolo de maus augúrios na Idade Média. O desenho de uma lua crescente na bandeira da embarcação parece remeter à raiz latina da palavra lunático. Como um todo, a tela exprime o comentário social de Bosch sobre o viver de sua época. Ao retratar um grupo de loucos de esgar atormentado, perdidos no mar da vida, sem freios morais nem rumo, o quadro também poderia ilustrar os bolsões de brasileiros agarrados a pneus e mitos. Como não comparar a “Nau dos insensatos” aos últimos suspiros do governo Jair Bolsonaro?

A última live do presidente, poucas horas antes de sua fuga oficial rumo a Orlando em avião da Força Aérea Brasileira, foi patética. Mas bem ensaiada. Em 52 minutos, ele mentiu quanto quis e omitiu o que pôde. Voltou a questionar o sistema eleitoral e falou em “derrota parcial”. Acovardado pelo cerco judicial que se estreita contra ele e sua família, procurou desvencilhar-se de atos terroristas praticados em seu nome. Justificou o sumiço e a falta de apoio público à nau disposta a abraçar qualquer sinal de golpe militar; e qualificou os apoiadores radicalizados de “pacíficos” e “ordeiros”.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, talvez definisse o teor da derradeira live do presidente em fuga como “momento de cognição incompleta”. Os seguidores mais extremistas do “mito” o tacharam de frouxo, enquanto outros tantos simplesmente inventaram nova teoria conspiratória: na ausência do capitão, o cavernoso general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, assumiria o golpe. Numa outra nau de insanidade bolsonarista, o hasteamento a meio pau da bandeira nacional, decretado como parte do luto nacional pela morte de Pelé, chegou a ser festejado como sinal de que o ansiado golpe militar estava finalmente em marcha. Tristes trópicos.

Para quem, em 1974, assistiu à humilhante partida da Casa Branca do presidente americano, Richard Nixon, obrigado a renunciar para evitar o impeachment, a saída à francesa de Bolsonaro entrará para a História como mais degradante ainda, por comezinha. Nixon teve a hombridade de encarar presencialmente a imprensa que o derrubou e permitiu que a História registrasse seu amargo embarque rumo ao exílio do poder. Bolsonaro, sendo quem é, manda dizer a seus 58 milhões de eleitores que vai dar um tempo — gozará um período sabático no estado trumpista da Flórida. “Sabático” é termo de uso frequente no mundo acadêmico para designar uma pausa no trabalho. É comum aproveitar essa suspensão da rotina para ampliar o conhecimento, engatar novos projetos ou simplesmente pensar melhor. Difícil imaginar que algo de produtivo ao bem comum brote na mente de Jair, agora cidadão comum, durante esse “sabático”. Segundo levantamento da Folha de S. Paulo, em 1.460 dias de mandato presidencial, Bolsonaro trabalhou 73 apenas meio período, participou de 63 motociatas e deu-se o direito de 15 períodos de férias ou feriadões fora de Brasília. Sem falar no abandono das funções por dois meses a partir da derrota eleitoral mal digerida.

É provável que, pelos cânones da necropolítica aplicada por Bolsonaro no Brasil democrático, a perda de poder seja por ele sentida quase como uma condenação à morte. Isso porque o presidente em fuga jamais compreendeu que a política não é uma profissão — ela deveria ser, no mundo ideal, a dedicação temporária de alguém a sua comunidade. Em missas fúnebres celebradas por igrejas cristãs, réquiem é sempre a primeira palavra do ritual dedicado ao repouso da alma de quem partiu. Não houve e não deverá haver réquiem na despedida inglória desse capitão fracassado. Ele deverá, primeiro, acertar suas dívidas com a nação que desmantelou para que o Brasil readquira, a partir deste domingo 1º de janeiro de 2023, o direito de trazer para o presente o futuro a que tem direito.

Posse de Lula simbolizou o resgate do poder civil

A cerimônia de posse de um presidente da República é um rito de passagem, que simboliza na democracia a ideia de um governo do povo para o povo. O papel das percepções sociais e das expectativas tem importância muito grande, porque o poder não deriva apenas da posse e do uso dos recursos do Estado, assegurados no plano institucional. A imagem social do governo exerce influência sobre o poder real. Há muitas leituras possíveis sobre a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ontem. Podemos enumerar as principais, sem grandes dificuldades.

Nesse aspecto, subliminarmente, caracterizou-se uma ruptura entre o governo Bolsonaro, que projetava a tutela das Forças Armadas sobre as instituições da democracia, e o restabelecimento pleno da ordem democrática, com a reencarnação do poder civil pela Presidência. Foram muitas as simbologias. O fato de ter desfilado em carro aberto ao lado da primeira-dama Janja e do vice Geraldo Alckmin, acompanhado da mulher Lu Alckmin, contrariou os que defendiam que fizesse o trajeto da Catedral de Brasília ao Congresso num carro blindado, Lula não renunciou ao calor humano da grande massa de militantes petistas que ocupou a Esplanada.

Venceu o medo de que houvesse um atentado, disseminado pelos bolsonaristas radicais, desde o frustrado atentado a bomba num caminhão tanque cheio de gasolina de aviação, nas imediações do Aeroporto de Brasília. Confiou no planejamento de segurança adotado em sua posse, na qual o Comando Militar do Planalto teve um papel fundamental. Entretanto, a escolta de Lula não foi feita por agentes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), mas pela Polícia Federal. Os batedores que abriram o cortejo presidencial eram motociclistas da Polícia Militar do Distrito Federal, e não do Batalhão de Guarda Presidencial ou do Corpo de Fuzileiros Navais.

No Plenário da Câmara, Lula reafirmou o compromisso com o combate às desigualdades e foi muito claro em demarcar terreno entre o seu governo, que simboliza o resgate do poder civil e a plenitude da democracia, e o projeto autoritário de Bolsonaro, que tinha a simpatia dos seus comandantes militares. Significativa foi ausência dos canhões da histórica Bateria Caiena, na cerimônia de passagem em vista dos destacamentos da Marinha, Exército e Aeronáutica. Os tradicionais tiros de canhão, que abrilhantavam a posse, supostamente não ocorreram para não assustar a cadela Resistência, adotada por Janja durante a vigília feita pelos petistas em Curitiba, em solidariedade a Lula quando estava preso.


Resistência subiu a rampa do Palácio do Planalto com Lula, ao lado de representantes dos movimentos identitários e populares. Mas quem roubou a cena foi o velho cacique kayapó Raoni Metuktire, desafeto de Bolsonaro e reverenciado internacionalmente. A imagem do presidente ao lado do maior líder indígena do país deve correr mundo, destacada pelos jornais e telejornais internacionais. Depois da nomeação de Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente, nada é mais simbólico do compromisso de Lula com a questão ambiental do que a aliança com Raoni.

Além do cacique, mais sete representantes de movimentos sociais subiram a rampa, como a catadora Aline Sousa, que pôs a faixa presidencial em Lula, e o menino negro Francisco, de 10 anos. Aline trabalha recolhendo resíduos para reciclagem desde os 14 anos e é da terceira geração de catadores da família. Foi o momento mais emocionante da posse.

Um capítulo à parte foi o longo discurso do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Confrontado com o discurso de Lula, ambos foram convergentes, mas estabeleceu uma agenda para o Congresso que servirá de balizamento para as relações do novo governo com o Parlamento. Sem dúvida, a principal linha de resistência do presidente à oposição é a base do governo no Senado.

Enquanto Pacheco assume a posição de aliado principal, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), é um adversário à espreita, que pode inviabilizar o governo se Lula errar a mão na relação com o Centrão. Lira não conseguiu emplacar o deputado Elmar Nascimento (União-BA) no Ministério da Integração Nacional e tentou emparedar Lula na votação da PEC da Transição, mas acabou enfraquecido pela decisão do Supremo Tribunal Federal, que acabou com o chamado orçamento secreto. A presidente do STF, Rosa Weber, esbanjou sorrisos na posse, ao contrário do procurador-geral da República, Augusto Aras, aliado de Bolsonaro.

Ontem mesmo, Lula começou a usar a caneta cheia de tinta que ganhou de um petista do Piauí, na campanha eleitoral de 1989. Logo após tomar posse, revogou o decreto que permitia o garimpo em áreas indígenas e de proteção ambiental; suspendeu os sigilos sobre informações e documentos da administração pública na gestão Bolsonaro; e determinou a retirada do processo de privatização de estatais empresas — Empresa Brasil de Comunicação, Correios e Petrobras.

Também adotou medidas de caráter administrativo, como a nova organização da Presidência da República e dos ministérios; a ampliação do pagamento de R$ 600 do Auxílio Brasil (que volta a se chamar Bolsa Família) para as famílias mais pobres; a prorrogação da desoneração sobre os combustíveis; o restabelecimento do Fundo Amazônia e o combate ao desmatamento; e a garantia de inclusão à educação.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Regressando ao século XXI

Hoje, o mundo despede-se de 2022. O Brasil despede-se também de Jair Bolsonaro, algo que a maioria dos habitantes do planeta Terra aplaude forte e alegremente.

Consta que Jair buscará exílio na residência de Donald Trump em Mar-a-Lago. Não consigo imaginar pior castigo para Donald — nem pior castigo para Jair.



O melhor show a que assisti durante o ano que hoje termina, e um dos momentos mais emocionantes de toda a minha vida, aconteceu no passado dia 30 de outubro, em Lisboa, na Fábrica do Braço de Prata, espaço enorme, preparado para acolher todo o tipo de festivais. Naquele fim de tarde estava atulhado de imigrantes brasileiros, que acompanhavam, entre o medo e a esperança, o avanço dos resultados eleitorais, projetados numa enorme tela. No instante em que a contagem virou, Lisboa inteira estremeceu com o grito eufórico da multidão.

Já passava da meia-noite quando, ainda com o coração aos saltos e lágrimas nos olhos, saí da Fábrica do Braço de Prata, na companhia do escritor moçambicano Mia Couto. O taxista que nos foi buscar também era brasileiro, e não estava feliz com o resultado das eleições:

— Os comunistas ganharam. — comentou, mal-humorado. — Vai ser uma desgraça.

— Não discutas. — segredou-me Mia, que, como a maioria dos moçambicanos, abomina brigas. Tentei fazer a vontade ao meu amigo.

— Tem toda a razão. — disse ao taxista, com o tom de voz mais doce e amigável que consegui. — O lado bom é que você não terá de se exilar para fugir do comunismo. Afinal, você já vive num país governado pela esquerdalha, onde o aborto é legal, o consumo de drogas também, e as pessoas de bem nem sequer podem andar armadas pelas ruas, atrás dos negros e dos comunistas. Duvido que o Lula chegue tão longe…

Duvido mesmo. Já ficaria muito feliz se nos próximos quatro anos o novo governo brasileiro conseguisse controlar a venda de armas e a mortandade dos jovens negros às mãos das forças policiais.

O desafio imediato do presidente Lula passa por devolver o Brasil ao território da racionalidade e do mais elementar bom senso. Um ministro pode nem ser muito eficaz, mas convém que acredite na importância da pasta que assumiu. Por exemplo, o ministro responsável pelo meio ambiente deve acreditar na preservação da floresta amazônica, ao invés de estar empenhado na sua destruição; o ministro da Cultura deve gostar de música, literatura e artes em geral, e lutar pelo seu fortalecimento — e assim por diante.

O presidente Lula tem pela frente outro enorme desafio: o da reconciliação nacional. Não me parece tarefa fácil. Exige, primeiro, uma completa desbolsonarização dos espíritos — ou seja: um verdadeiro exorcismo.

Espero que na próxima ceia de Natal as famílias brasileiras já consigam reunir-se, e conversar sobre qualquer assunto, sem pavor de que uma palavra errada dê origem a uma tentativa de assassinato.

Quando visitei o Brasil pela primeira vez, há uns bons 30 anos, fiquei completamente encantado com a simpatia e a hospitalidade dos brasileiros. Durante anos acreditei na excepcionalidade do Brasil — um país vocacionado para a arte do encontro (“embora haja tanto desencontro pela vida”, como escreveu Vinicius). Essa arte do encontro precisa ser recuperada.

Um belíssimo Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
Cor de arco-íris, ou da cor da sua paz
Ano Novo sem comparação
Como todo o tempo já vivido
(Mal vivido ou talvez sem sentido)

Não precisa fazer lista
De boas intenções
Para arquivá-las na gaveta
Não precisa chorar de arrependimento
Pelas besteiras consumadas

Para ganhar um Ano-Novo
Que mereça esse nome
Você, meu caro, tem de merecê-lo
Tem de fazê-lo de novo
Eu sei que não é fácil
Mas tente, experimente, consciente
É dentro de você que o ano novo
Cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Motociata cara

Alexandre de Moraes, presidente do TSE

Final melancólico

Depois de dois meses de silêncio, no último dia útil do seu governo, Bolsonaro falou. Foi elíptico e evasivo sobre os temas importantes e fugiu logo em seguida para os Estados Unidos. Foi um final melancólico para uma aventura perigosa. A democracia brasileira sobreviveu, mas saiu chamuscada. Ganhamos um respiro, mas o risco não foi de todo afastado.

A maior parte do pronunciamento de mais de 50 minutos foi dedicada a celebrar as realizações do governo. Mas, entre louvores ao preço baixo dos combustíveis e à criação do Auxílio Emergencial, surgiram alertas sobre a volta do PT e justificativas para ele não ter atendido aos radicais acampados nos quartéis. Tudo sob uma chuva de comentários de espectadores no YouTube pedindo intervenção militar.

Bolsonaro disse que, nestes dois meses de silêncio estratégico, não ficou parado: “Como foi difícil ficar dois meses calado trabalhando para buscar alternativas!”. As alternativas, sabemos pelas movimentações noticiadas pelos jornais, foram a busca do apoio das Forças Armadas e do Parlamento para uma ruptura autoritária.


Reunindo as menções elípticas, espalhadas pelos discurso, dá para ter uma ideia do que ele quis dizer: “Tem gente chateada comigo, [dizendo] que deveria ter feito alguma coisa, qualquer coisa. Mas, para você conseguir fazer alguma coisa, mesmo nas quatro linhas, você tem que ter apoio”. E se defendeu: “Entendo que fiz a minha parte, estou fazendo a minha parte. Agora, certas medidas têm que ter apoio do Parlamento, de alguns do Supremo, de outros órgãos e instituições”.

Bolsonaro quis atender aos golpistas acampados nos quartéis, mas simplesmente não conseguiu apoio. “Não posso fazer algo que não seja bem feito e que, assim, os efeitos colaterais sejam danosos demais”, concluiu. Bolsonaro não teve ou não conseguiu criar as condições para cumprir seus propósitos autoritários. Mas tentou. Enfrentou, porém, a resistência firme da sociedade civil e da imprensa séria.

Enfrentou também a resistência do Parlamento, principalmente quando esteve sob a liderança política de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. Em nenhum momento o Parlamento sinalizou que daria apoio a um movimento de ruptura, por meio da decretação de Estado de Sítio. O Congresso conteve a ofensiva legislativa na arena dos costumes e moderou os ataques de Paulo Guedes contra os direitos dos trabalhadores. Foi o Parlamento, também, que elevou os programas de transferência de renda a um patamar mais digno, aumentando o valor e ampliando a cobertura. O Parlamento, por meio da CPI da Covid, também desvelou a irresponsabilidade criminosa de Bolsonaro com relação à compra das vacinas.

Bolsonaro enfrentou também a resistência da Justiça. O Supremo Tribunal Federal (STF) anulou alguns dos ataques mais danosos ao sistema de proteção ambiental e deu autonomia aos governadores para que pudessem proteger a população no momento mais crítico da pandemia. Quando as mobilizações golpistas se disseminaram, foi a ação firme do ministro Alexandre de Moraes que as conteve. Sem a mão dura dele, é bem possível que não tivéssemos chegado até aqui.

Servidores públicos no ICMBio, na Polícia Federal e no Ministério Público também desafiaram as orientações políticas dos chefes e batalharam para fazer as instituições cumprir suas funções legais.

Sem os limites impostos pela sociedade civil, pela imprensa, pelo Parlamento, pela Justiça e por corajosos servidores públicos, não teríamos atravessado o deserto. Devemos a cada um desses atores um caloroso “obrigado”.

Durante quatro anos, Bolsonaro repetiu que a “liberdade” deveria valer mais que a própria vida. Mas, agora, quando teria de colocar seus ideais à prova, preferiu fugir para os Estados Unidos, temeroso de que, com a volta do domínio da lei, seus crimes sejam investigados e ele termine devidamente preso. É inevitável comparar a ignomínia de Bolsonaro com a altivez de Lula, que, podendo fugir, se submeteu com dignidade a mais de dois anos de prisão. Bolsonaro não é pequeno, é minúsculo.

A fuga no avião presidencial, deixando seus apoiadores tomando chuva e passando vergonha na porta dos quartéis, é o desfecho patético de um governo medíocre, covarde e autoritário.

Com a fuga para não ser preso, a obra de Bolsonaro está completa

Bolsonaro abandonou o país sem completar seu mandato e deixou os custos de sua fuga para o Tesouro Nacional, alimentado pelo dinheiro de impostos que todos pagamos. Ou melhor: que a maior parte dos brasileiros paga, porque a outra, dos mais ricos e remediados, tem meios e modos de não pagar nada ou quase nada.

Se o preço a pagar para nos livrarmos dele fosse só esse, estaríamos no lucro, mas não. Ele deixa um país mais dividido do que o que recebeu, e com a maioria dos seus problemas agravados. Alguém será capaz de lembrar uma única obra que ele fez? Por não ter feito, passou a dizer que terminou obras inacabadas.

Educação, saúde, meio-ambiente, cultura, saneamento urbano, direitos humanos, assistência social, tudo piorou. Algo como 33 milhões de pessoas passam fome. Há mais de 10 milhões desempregadas. E quando Bolsonaro resolveu gastar dinheiro com os mais pobres foi só pensando em se reeleger.


Deixou um país mais armado, os militares politicamente mais ativos, e uma democracia que sofreu graves abalos, embora tenha triunfado. Ao Poder Judiciário, os méritos de não se acovardar diante de um presidente e de generais que o ameaçaram. Há muito ainda a ser contado sobre os bastidores da peleja farda contra toga.

O maior desafio que o presidente eleito tem pela frente não será governar melhor que o seu antecessor, tarefa fácil por comparação, mas o de pacificar o país como prometeu durante a campanha. Não é sobre esquerda e direita, é sobre os que prezam o Estado de Direito e têm ódio e nojo de ditaduras de qualquer cor.

O PT cometeu muitos pecados nos quase 14 anos em que governou o país, mas nunca pôs as liberdades em risco. Do fim da ditadura de 64 para cá, só se ouviu falar em golpe quando chegou ao poder o ex-capitão afastado do Exército que planejou detonar bombas em quartéis se não recebesse um salário, ao seu gosto, mais decente.

Agora que ele se foi porque sabe muito bem o que fez em todas as estações dos últimos quatro anos e tinha medo de ser preso se permanecesse aqui, o país terá que reconstruir com a celeridade necessária as bases para que nunca mais volte, e para que ninguém igual ou parecido com ele venha um dia a sucedê-lo.

Lula derrotou Bolsonaro na eleição mais comprada por um presidente que já tentou se reeleger, daí porque o resultado foi tão apertado. Alvíssaras pela proeza, mas não basta. O bolsonarismo precisa ser reduzido a pó. É trabalho de todos, não só dele.

A última live de Bolsonaro

Desde o início de seu governo, Jair Bolsonaro fez a opção de se dirigir apenas aos seus apoiadores. O final de sua passagem pelo Planalto não foi diferente.

Após dois meses de recolhimento, sua última live no poder foi dedicada a todas as pessoas que permanecem acampadas nos arredores de quartéis à espera de um golpe militar.

Durante a transmissão ficou claro que tal caminho não será trilhado: "não tem tudo ou nada". Para minimizar o clima de velório face à iminência do despejo, a frase "o Brasil não vai acabar no dia 1° de janeiro" foi repetida várias vezes pelo mandatário.

Tais esforços não são em vão. Afinal, o que importa ao bolsonarismo é manter sua base constantemente mobilizada. Sobretudo nos tempos difíceis que se avizinham, a julgar pelos recentes ataques terroristas e pelo que vem se passando acima da linha do Equador.

No último dia 23, a Comissão de Inquérito da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, responsável por investigar a invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021, chegou a uma decisão final. Donald Trump foi acusado de conspiração. Por essa razão, a Comissão recomendou que o ex-presidente seja indiciado pelo Departamento de Justiça e impedido de se candidatar e ocupar cargos públicos.

Segundo o relatório produzido, Trump pretendia obstruir a vontade do povo e derrubar a democracia americana. Para tanto, teria contado com o apoio de seus advogados, o secretário-geral da Casa Branca e parlamentares, que, por meio de redes sociais, estimulavam uma insurreição para impedir que Joe Biden fosse diplomado como presidente dos Estados Unidos.

Qualquer semelhança com o Brasil não é coincidência. Para o futuro ministro da defesa, José Múcio Monteiro, Bolsonaro "colocou a digital" nos atos golpistas ao se dirigir a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada no dia 9 de dezembro. De acordo com Múcio, antes "a gente não podia dizer ‘está por trás’. Hoje, o presidente falou."
Camila Rocha

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

O pacto de Bolsonaro com os violentos

Enquanto o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) negocia os ministérios que ainda estão vagos com os aliados de centro que o apoiaram no segundo turno — um jogo de xadrez cuja rainha é a senadora Simone Tebet, que concorreu à Presidência da República pelo MDB — aumenta a tensão entre os atores encarregados da segurança de sua posse, principalmente depois de uma bomba ter sido desativada em um caminhão tanque de querosene de aviação, nas proximidades do Aeroporto Internacional de Brasília.

No começo, imaginou-se que era apenas uma provocação, mas o avançar das investigações mostra que estava realmente sendo preparado um atentado terrorista. George Washington de Oliveira Sousa, um empresário de 54 anos, responsável por instalar o “artefato explosivo”, apoiador de Bolsonaro, confessou sua intenção de atentado, na expectativa de que o ato provocasse o caos e uma intervenção militar antes da posse de Lula.

No apartamento que o extremista alugou no Sudoeste, no Distrito Federal, os policiais encontraram um fuzil, espingardas, revólveres, munição e outros artefatos explosivos. A Polícia Civil afirma saber que o homem teve ajuda e atua para identificar e prender os outros envolvidos. George Washington era frequentador de audiências públicas no Congresso e participava do acampamento de bolsonaristas defronte ao Quartel Geral (QG) do Exército, que continua sendo o principal ponto de concentração dos radicais de extrema direita que não aceitam a vitória do candidato petista.

Um outro artefato foi encontrado domingo, no Gama, região administrativa do Distrito Federal, pesando 40kg. Ainda não se sabe quem colocou a bomba no local e se o explosivo, desativado por policiais do Grupo de Operações da Polícia Civil, tem relação com o artefato colocado do empresário no eixo de um caminhão-tanque, abastecido com 63 mil litros de querosene de aviação (28 mil no primeiro compartimento, e 35 mil no segundo), no sábado passado.

Ontem, o blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio foi preso, a pedido da Polícia Federal, com aval da Procuradoria-Geral da República (PGR), por ordem do ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo inquérito das fake news no Supremo Tribunal Federal (STF). A prisão não tem nada a ver diretamente com o fracassado atentado terrorista, a ordem já havia sido dada por Moraes durante a semana. Eustáquio não tem cumprido as medidas cautelares impostas após a revogação de sua prisão. O blogueiro foi preso em junho de 2020, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), também por envolvimento com atos antidemocráticos que pediam o fechamento do Congresso e do STF. Em prisão domiciliar, o blogueiro já foi proibido de usar redes sociais e manter contato com outros investigados por fatos recentes, como o ataque ao prédio da Polícia Federal e a uma Delegacia de Polícia Civil no setor hoteleiro Norte.

O presidente Jair Bolsonaro não fez nenhum comentário sobre ambos os casos e continua alimentando a esperança dos radicais de que ainda vai dar um golpe de Estado. Os seus partidários mais fanáticos continuam à porta dos quartéis, sem que nada seja feito pelas autoridades locais nem pelo Exército. O atual chefe do Executivo tem um pacto com os violentos. Primeiro, com as milícias do Rio de Janeiro, cujo modelo de atuação naturalizou e traduziu para a política. Aproveitando-se dos interesses corporativos de categoriais profissionais embrutecidas pelos riscos da própria atividade, além de atiradores e indivíduos que cultuam a violência por temperamento ou ideologia, o presidente da República formou uma milícia política, armada até os dentes, que começa a dar sinais de que pode recorrer à luta armada e ao terrorismo para tentar fazer valer seus propósitos golpistas.

A democracia é uma conquista civil da qual não se pode abrir mão precisamente porque, onde ela foi instaurada, substituiu a violenta luta pela conquista do poder por uma disputa partidária com base na livre discussão de ideias. Condenar as eleições, esse ato fundamental do sistema democrático, em nome da guerra ideológica, significa atingir a essência não do Estado, mas da única forma de convivência possível na liberdade e por meio da liberdade que até agora conseguimos realizar, na longa história de prepotência e violência da nossa sociedade. O povo resolveu a disputa pelo voto, em eleições pacíficas e ordeiras, mas um grupo de radicais de extrema-direita ainda acredita que os militares, liderados por Bolsonaro, darão um golpe. De certa forma, até que a posse se realize, a existência dos acampamentos alimenta essa esperança.
 Luiz Carlos Azedo

Em que lugar dos Estados Unidos se refugiará Bolsonaro

Conta a lenda que, um dia, duas das maiores raposas da política brasileira se encontraram no aeroporto de Belo Horizonte – José Maria Alckmin, deputado federal muitas vezes, ex-ministro da Fazenda e vice-presidente da República no governo Castelo Branco, e Benedito Valadares, deputado federal, senador e governador de Minas Gerais nos anos 1930, ambos do velho PSD.

Alckmin, então, perguntou a Valadares no cafezinho do aeroporto:

– Você vai para onde, Benedito?

– Vou para o Rio – respondeu Valadares.

Despediram-se. E a um amigo que o acompanhava, Alckmin sussurrou depois:

– Ele disse que vai para o Rio para que eu pense que ele irá para Brasília, mas ele irá para o Rio mesmo.

Bolsonaro está de malas arrumadas para voar aos Estados Unidos, como confidenciam seus principais assessores. Mas nem eles sabiam até ontem qual seria exatamente o destino dele – Miami ou Orlando, na Flórida? Ou outra cidade qualquer? Sob o manto protetor do ex-presidente americano Donald Trump, derrotado como ele, ou por conta própria?


Bolsonaro disse que irá para um lugar onde não possa encontrar brasileiros. Miami e Orlando estão cheias deles. O escalão precursor da viagem decola hoje para onde ele quiser. O Itamaraty será informado em seguida. Quem pagará as despesas da viagem e o exílio que poderá durar de dois a três meses? Talvez Bolsonaro decrete sigilo sobre essas e outras informações.

O mentor do chamado “Gabinete do Ódio”, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), está nos Estados Unidos à espera do pai. De lá, instruiu seus seguidores a espalharem nas redes sociais que Bolsonaro, sua família e os aliados mais fiéis serão alvo de uma “perseguição cruel e implacável” tão logo Lula tome posse. Ele fala na condição de especialista no assunto.

É mais do que certo que Lula suspenderá o sigilo de 50 e de até 100 anos que encobre informações que, se reveladas, causarão profundo incômodo à primeira família presidencial brasileira e aos seus serviçais. Várias delas poderão resultar na abertura de novos processos contra Bolsonaro ou reforçar processos que ele responde por abuso de poder e atos antidemocráticos.

A fuga para outro país se justifica por isso. Distante, ele não será assediado pela imprensa para responder a cada nova acusação e estará a salvo de juízes da primeira instância que poderiam prendê-lo. Falta saber se a primeira-dama Michelle o acompanhará ou não. Michelle e Carlos se detestam. E Carlos acha que ela é culpada em parte pela derrota do pai.

Falta saber também quem o substituirá na presidência. Seu mandato termina à meia-noite de sábado. Lula será empossado a partir das 14h do domingo. O país não pode ficar sem presidente. O vice, general Hamilton Mourão, eleito senador pelo Rio Grande do Sul, deveria assumir, mas não quer. O terceiro na linha de sucessão é o deputado Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Pensamento do Dia

 


Vingança, não, por favor!

A cultura brasileira glorifica duas negações à vingança que geraram grandes obras no teatro e na literatura pelo abandono do velho hábito rural da legenda do talião bíblico do olho por olho, dente por dente. Quando João Suassuna foi assassinado no Rio por um pistoleiro profissional para punir com a morte o chefe político acusado de ter sido o mandante da execução de João Pessoa, em Recife, a matriarca Ritinha Vilar reuniu os filhos e os fez jurarem que jamais vingariam o pai. Desde os três anos, Ariano seguiu a lei dos irmãos mais velhos e se dedicou a honrar a memória paterna em sua vasta obra teatral e romanesca.

Um ano mais novo do que Ariano e nascido no longínquo sertão do mesmo Estado da Paraíba, Francisco Pereira da Nóbrega assumiu compromisso similar com a mãe, Jardelina, e interrompeu o derramamento mútuo de sangue. Assim, rompeu a corrente da vendeta do pai, o cangaceiro Chico Pereira, assassinado pela polícia de seu Estado. Padre, filósofo, membro da Academia Paraibana de Letras, escreveu o primoroso Vingança, não! sobre a saga familiar. A crônica policial é pródiga de exemplos em que a violência da tradição tem sido substituída pelo convívio pacífico de antigos inimigos mortais.

Na vida pública, o talião também pode ser trocado por reconciliação de ex-desafetos. A Paraíba, palco dos fatos narrados, tem bons exemplos disso: em 1950, José Américo de Almeida saiu da União Democrática Nacional (UDN) e foi para o Partido Liberal (PL) para derrotar na eleição para governador o chefão de sua ex-legenda. Teve, então, o apoio do arquiadversário Partido Social Democrático (PSD). Em 1986, os inimigos João Agripino Filho e Ernani Sátiro se uniram para apoiar a indicação de Antônio Mariz, que perdeu a eleição indireta para o indicado de Zé Américo, Tarcísio Burity. Destino inglório também teve a Frente Ampla formada por Juscelino Kubistchek e João Goulart com o ex-rival Carlos Lacerda, em 1966. A iniciativa foi abortada pelos antigos aliados da ditadura militar de 1964.


Caso clássico a ser narrado ainda é o do Partido Popular (PP), fundado pelo udenista Magalhães Pinto e por seu antiquíssimo rival, o pessedista Tancredo Neves, em 1980. Mas só duraria dois anos, após reforma partidária imposta pelos sequazes da ditadura. Ou seja, são exemplos eloquentes, mas nem todos deram certo.

Ainda é cedo para determinar êxito ou fiasco da tentativa de qualificar a Frente Ampla partidária formada para atender ao clamor popular pelo fim do desgoverno nazifascistoide de Jair Messias Bolsonaro. Mas manda a prudência temer pela possibilidade de não dar certo a gestão a ser empreendida pela Frente Amplíssima necessária para dar à chapa eleita pelos Partidos dos Trabalhadores (PT) e Socialista Brasileiro (PSB). Pois há nítidos indícios de que o PT não prioriza o fortalecimento de uma aliança multipartidária e mutiideológica para reconstruir o Estado e dar continuidade ao projeto democrático contido na Constituição de 1988, implodidos pela perversa atuação da extrema direita no poder desde 2019.

O emedebista Michel Temer, duas vezes eleito pela população vicepresidente na chapa de Dilma Rousseff, foi excluído da lista de convidados para a diplomação de Lula e Alckmin. Este é o claro recado de que os petistas não desistiram da vingança do impeachment de Dilma, esquecendo que madame não teria mandatos a cumprir sem os votos do aliado da chapa. E mais: que as eleições não foram fraudadas e, portanto, ele não foi golpista, mas eleito pelo voto popular que a elegeu. Isso é grave, mas não é tudo. Pior ainda é a conformação de um governo que não promete ser de um Lula novo, mas a recuperação de um velho desastre econômico que resultou em grotesco arremedo de Pietá nos jardins do Alvorada abandonado por Jair Messias e Michelle Bolsonaro. O Dilma 2 e meio.

A outra vingança é a volta por cima da temporada do líder máximo na prisão da Polícia Federal em Curitiba. Iniciada com a colaboração do adversário favorito na farsa da transformação de multicondenado em inocente-mor, ela se concretiza na tentativa de tornar o presidente eleito uma versão sindical de Nelson Mandela. Consagrando por evidente a desnecessidade de qualquer tipo de arrependimento. Ou da garantia de que um Lula 3 não repita seu passado oculto nas trevas desse nefando acordo com o Congresso de Arhur Lira e seus nefastos orçamento secreto e PEC da Gastança, aumentos absurdos de vencimentos de maiorais de republiqueta e indulgência absoluta para a mais suprema impunidade.

Diante de tais fatos nefastos resta a esperança que a divisão do País, refletida nas votações dos candidatos a presidente, sirva de alerta contra abusos repetitivos e insuportáveis. O povo brasileiro não suporta mais farsas e avanços absurdos de assaltos ao erário, seja em arrombamentos dos cofres das viúvas, seja no aumento da dívida pública para sustentar sombra, água fresca e luxo nos palácios de ostentação de uma casta indiferente, insensível e insaciável. A história já deu várias demonstrações de que quando a situação chega a esses extremos, uma explosão pode se tornar inevitável. É melhor criar juízo e consertar.

País doente

O fanatismo tirou a consciência da nossa sociedade. Infelizmente o Brasil ficou um país doente. Vamos ver se a gente se recupera dessa pandemia de fake news e de falta de responsabilidade
General Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro-chefe da Secretaria de Bolsonaro

Forças Armadas perdem ao se envolver em disputa política

“O respeito do povo americano por seus militares está despencando. Caiu 22 pontos percentuais nos últimos cinco anos, segundo pesquisas realizadas pela Fundação Reagan”. O texto acima está no artigo “Don’t drag military into politics”, da analista Kori Schake, publicado no site War on the Rocks. Traz um alerta sobre o perigo de envolver militares nas disputas políticas partidárias.

Kori é do Instituto Hoover da Universidade Stanford. Já trabalhou nos departamentos de Defesa e de Estado, foi diretora de estratégia e requisitos de defesa no National Security Council (NSC) e ocupou a cadeira em estudos de segurança internacional de West Point.

Não é um comentário amador, feito por pseudoanalista de Google em busca de likes. Está fundamentado em experiências pretéritas que devem ser avaliadas pelas lideranças americanas neste momento de tamanha divisão em sua sociedade.

Segundo a articulista, e com base na última pesquisa daquela fundação, mais de 60% dos entrevistados disseram que perderam a confiança em suas Forças Armadas porque a liderança militar se tornou excessivamente politizada.

Vaticina Kori que a América, para ter uma força de combate eficaz, precisará corrigir essa percepção pública, isolar os militares, impedindo-os de ser peões em disputas partidárias.

Ela não aponta o dedo seletivamente. A mira de sua metralhadora enquadra opiniões nos extremos da discussão acadêmica e ideológica.

Dos militares, defende que devem lutar para manter as principais funções da profissão perante o Estado — representativa, consultiva e executiva —, esquivando-se das pendengas políticas.

Dos congressistas, critica a postura de se camuflarem atrás dos uniformes (ainda respeitados apesar da queda de confiança) para promulgar políticas impopulares, mesmo as relacionadas aos casos mais relevantes de segurança nacional.

A pesquisa não combina com a avaliação interna dos militares quanto a seu papel. Eles acreditam que são modelos de profissionalismo, apartidários e, consoante com a narrativa, trabalham para massificar essa atitude por meio de uma educação militar estritamente profissional.

Ainda assim, as lideranças castrenses estão preocupadas com o ativismo político dos veteranos, que vem se avolumando e se refletindo sobre a força em serviço ativo.

Lembra a pesquisadora que o endosso dos veteranos aos candidatos presidenciais tem sido uma verdadeira corrida militarista, desde que o ex-comandante da Marinha Paul Kelley apoiou o ex-presidente George H.W. Bush em 1988.

Destaca que os ex-presidentes Barack Obama e Donald Trump nomearam veteranos para altos cargos civis. E que o presidente Joe Biden indicou o general da reserva Lloyd Austin, há pouco aposentado, para o delicado cargo de secretário de Defesa.

Hoje, os comitês eleitorais republicanos ou democratas divulgam ruidosamente listas com nomes de oficiais aposentados de altas patentes que os apoiam vibrantemente e incluem imagens de militares uniformizados em anúncios de campanha. Como elixir, ela exorta os congressistas americanos a resistir à tentação de chamar para dançar a música da política o desengonçado estamento militar, um amador nesse salão de baile.

Kori conclui que a esmagadora maioria dos militares americanos está implorando para ser deixada fora da política pantanosa.

Eles querem o devido reconhecimento por defenderem o povo e seus interesses, a soberania dos Estados Unidos, os valores da cultura americana. Não é pouco.

Num exercício de imaginação, próximo da realidade contemporânea, se o artigo da professora descrevesse outros países, revelaria o mesmo dilema da mistura entre o profissionalismo militar e as artimanhas políticas, variando a intensidade conforme a democracia estivesse mais ou menos madura nessas sociedades.

Para o bem dos países que se vestem da normalidade institucional, a sociedade, os políticos e os militares devem prestar atenção aos apelos da professora doutora Kori Schake. Ela sabe o que diz.

Terroristas que pedem golpe militar estão à procura de um cadáver

Todo cuidado é pouco até o domingo, dia da posse do presidente eleito; e depois também, só que sob nova administração. Já não há governo desde que Bolsonaro perdeu, e ele pode fugir do país a pretexto de descansar, na verdade com medo de ser preso.

No sábado, véspera de Natal, o motorista de um caminhão-tanque que abasteceria os postos de gasolina do aeroporto de Brasília notou que algo estranho se passava. Descobriu que havia um artefato agarrado ao eixo do caminhão; tirou-o e chamou a polícia.

Sabia que arriscava sua vida. O que não sabia, e a polícia só soube depois, é que se tratava de uma bomba mal feita; obra de amador. Acionada para que explodisse, não explodiu. A perícia constatou que alguém antes tentou explodi-la, sem sucesso.

No domingo, um telefonema anônimo deu conta à polícia da existência de outra bomba, desta vez na cidade do Gama, a 3,2 quilômetros de Brasília. Não era uma bomba. Eram bananas de dinamite embrulhadas em panos e jogadas dentro de um matagal.


A equipe de transição do novo governo fez a leitura correta pelo menos até aqui: a bomba que não estourou, e os 40 quilos de explosivos encontrados no matagal do Gama, foram usados para provocar um susto e diminuir o tamanho da festa da posse.

Os terroristas alcançaram seu objetivo. A equipe de transição já registra sinais de desistência de caravanas de ônibus que partiriam de outros Estados para Brasília. Justifica-se o temor: há 15 dias, Brasília foi palco de queima de ônibus e de ataques a prédios.

Os baderneiros agiram sob o olhar cúmplice da polícia. Ninguém foi preso. A maioria deles continua acampada à porta do QG do Exército. E foi ali, segundo o réu confesso George Washington Sousa, que se planejou pôr a bomba no caminhão-tanque.

Hoje, na Esplanada dos Ministérios, haverá o primeiro ensaio do esquema de segurança da festa de posse. O segundo e último ensaio será na próxima sexta-feira. Espera-se que até amanhã estejam preenchidas todas as vagas de ministros de Estado.

O futuro ministro da Justiça, Flávio Dino, diz que o plano da festa será revisto. Se depender dos responsáveis pela segurança, Lula e Janja desfilarão pela Esplanada em carro fechado; se depender do PT, em carro aberto. Lula dará a palavra final só no domingo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Acampamentos perto de quartéis viram incubadoras de terroristas

As impressões digitais do único presidente da República que não conseguiu se reeleger estão na tentativa de um dos seus devotos de explodir uma bomba nas vizinhanças do aeroporto de Brasília, e outra numa subestação de energia em Taguatinga.

A primeira bomba foi instalada em um caminhão cheio de combustível que teria acesso à parte interna do aeroporto. Não explodiu porque o motorista do caminhão descobriu-a a tempo e avisou à polícia. Ontem à noite, a polícia soube da segunda.


Com George Washington de Oliveira Sousa, o terrorista preso, foram encontradas duas escopetas calibre 12, dois revólveres calibre .357, três pistolas, um fuzil Springfield calibre .308, mais de mil munições de diversos calibres e cinco bananas de dinamite.

“O que me motivou a adquirir as armas foram as palavras do presidente Bolsonaro, que sempre enfatizava a importância do armamento civil dizendo o seguinte: ‘Um povo armado jamais será escravizado'” – confessou Sousa à polícia.

Segundo ele, a explosão das bombas em pelo menos dois locais do Distrito Federal daria “início ao caos” que levaria à “decretação do estado de sítio no país”, provocando “uma intervenção das Forças Armadas”. O motorista do caminhão estragou o plano.

Bolsonaro foi excluído do Exército em meados dos anos 1980 porque planejou detonar bombas em quartéis se não lhe pagassem salário mais alto. Candidato a presidente, defendeu o acesso às armas como meio eficaz para enfrentar a violência no país.

De acordo com o Anuário de Segurança Pública, divulgado no dia 28 de junho deste ano, a quantidade de licenças para armas de fogo passou de 117.467 em 2018 para 673.818 em 2022 – um aumento de 473,6% nos quatro anos de governo do ex-capitão.

Existem mais de 2 mil clubes de tiro em atividade no Brasil e praticamente a metade (1.006) foi aberta entre janeiro de 2019 e maio de 2022. No que tudo isso poderia resultar, sem contar o empenho de Bolsonaro em desacreditar o processo eleitoral?

Resultou na rebelião que os ingênuos supunham desarmada de parte dos seguidores de Bolsonaro. Deu nos acampamentos à porta de unidades militares, área de segurança nacional, estimulados por Bolsonaro e tolerados pelos comandantes das Forças Armadas.

Se Lula tivesse perdido a eleição, se parte dos que votaram nele tivessem batido a porta de quartéis pedindo um golpe militar, o que teria acontecido? Ainda estariam por lá a essa altura? Quantas horas teriam ficado? Por que os bolsonaristas ainda estão?

Nada se viu igual nem nos estertores da ditadura militar de 64. Agentes do Serviço Nacional de Informações picharam paredes e distribuíram panfletos em Brasília ligando os comunistas à campanha de Tancredo Neves, candidato da oposição a presidente.

Eleito e internado na véspera da posse para ser operado de emergência, Tancredo temia que os militares não transferissem o poder para seu vice, José Sarney. A transferência se deu. Desde então, jamais se questionou a validade de uma eleição. Até que…

Até que Bolsonaro, eleito com o apoio entusiástico dos militares, sustentado por eles que desejavam vê-lo reeleito, entrou em cena e não queria deixá-la. Será obrigado a fazê-lo até o próximo domingo. Faltam apenas cinco dias. O que mais ocorrerá até lá?