sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Uma proposta de paz na Palestina e muitas desconfianças

Será Donald Trump, o mesmo presidente que disse que transformaria Gaza na “Riviera do Oriente Médio” e que comanda o país que é de longe o principal fornecedor de armas para Israel, quem trará paz à região? O governante que persegue imigrantes nos Estados Unidos, que taxa arbitrariamente outros países e que ameaça a própria democracia interna será o responsável por colocar fim ao genocídio do povo palestino?

A proposta ainda vem acompanhada de uma ameaça explícita: “Se o Hamas não aceitar o plano de Trump, vamos terminar o serviço”, afirmou Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Qual é o serviço? Matar indiscriminadamente a população e continuar seu processo de colonização. A proposta não inclui a participação dos palestinos e, segundo a Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), apenas reforça a ocupação ilegal.

“Ao invés de oferecer uma perspectiva real para uma solução política justa e duradoura para a Questão Palestina, o ‘Plano de Trump’ aprofunda a ocupação ilegal da Palestina, mantém Gaza sob o bloqueio genocidário israelense, restando aos palestinos passar as próximas décadas tentando retirar seus familiares dos escombros, sob uma administração de fome e condições subumanas.”, afirma, em nota, a FEPAL.

Não podemos esquecer que, na última proposta de cessar-fogo, os palestinos foram atraídos de volta à Palestina para sofrer um ataque cada vez mais covarde e brutal. Israel nunca respeitou o acordo e mensagens desencontradas já começam a surgir após a nova proposta. Paz ou mais uma armadilha?

Enquanto o acordo não vem, sabemos que Israel, com apoio estadunidense, continua a quebrar tratados internacionais, incluindo a interceptação da Flotilha Global, em áreas internacionais, que tentava levar ajuda humanitária para Gaza. Cerca de 500 ativistas, incluindo médicos, parlamentares e jornalistas, foram detidos. Mais uma violação do direito internacional para manter o bloqueio, a fome e o projeto expansionista de Israel.

Enquanto crianças palestinas passam fome, são mutiladas, perdem familiares e, muitas vezes, a própria vida, os EUA e Israel projetam as terras sem palestinos. Trump chegou a afirmar, sem nenhum pudor, que pretende transformar Gaza na “Riviera do Oriente Médio”.


A ofensiva de Israel é um processo histórico de colonização. Para entender as raízes históricas e geopolíticas dessa barbárie é indispensável observar os mapas que mostram a expansão do Estado de Israel ao longo das décadas e como os palestinos foram ficando em territórios cada vez menores. Isso já em 2020, antes do atual conflito.

Esses dados deixam explícito: o que estamos presenciando é um processo de colonização. Embora possua características específicas do momento histórico em que vivemos, ele carrega elementos comuns a outros processos coloniais: invasão de território, roubo de riquezas, desumanização e o extermínio da população.

Além da apropriação de terras, há outros interesses econômicos em jogo. Os territórios palestinos possuem vastas reservas de petróleo e gás natural, como apontado pelo relatório da Agência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad). A bacia próxima à Faixa de Gaza contém cerca de 122 trilhões de pés cúbicos de gás natural, avaliados em 453 bilhões de dólares. Israel é o único a explorar esses campos.

Dados do próprio Exército de Israel mostram que pelo menos 83% dos mortos em Gaza são civis. De acordo com as autoridades de saúde da Palestina, são mais de 65 mil pessoas mortas pelo exército israelense desde outubro de 2023. Esta contagem pode ser muito maior. Organizações internacionais apontam que tanto Israel quanto autoridades palestinas subestimam o número real de mortos no conflito. Em janeiro, uma pesquisa publicada na prestigiada revista The Lancet estimou que as perdas podem ser pelo menos 40% maiores.

Enquanto o massacre segue em curso, outra guerra é desenvolvida: a disputa da narrativa e o controle da informação. Ecoando o discurso israelense que chama de “guerra” o genocídio e justifica os crimes cometidos por Israel por um suposto enfrentamento ao terrorismo, está boa parte da mídia ocidental, inclusive no Brasil. No meio digital, o modelo de negócio das big techs, que privilegia discursos de ódio e conteúdos virais – sejam verdadeiros ou falsos – alimenta uma narrativa que relativiza a vida do povo palestino.

Na geopolítica da barbárie, a desordem informativa também é uma arma poderosa. Na internet, são milhares de mentiras que circulam e incentivam o ódio aos palestinos. Entre elas, foram desmentidas as informações de que o Hamas decapitou dezenas de bebês. Também é falsa a informação de que um bebê foi assado no forno, ou que um outro foi arrancado à faca do útero da mãe. A desinformação que circula pelas redes, reforçada pelos algoritmos desenhados pelas grandes plataformas digitais, é apenas uma das violações do direito à informação e à comunicação identificadas no conflito atual e antes dele. 

O Observatório Palestino de Violações de Direitos Digitais, coordenado pela organização 7amleh – The Arab Center for the Advancement of Social Media, possui uma plataforma online para monitorar, documentar e acompanhar as violações dos direitos digitais dos palestinos. De 2021 a 2025, a plataforma recebeu e encaminhou cerca de 10.200 denúncias de violações. A maior parte se refere à incitação à violência contra palestinos por parte de contas existentes nas redes sociais (40,44%), seguido de censura de conteúdo palestino por parte das plataformas (35,34%), discurso de ódio (10,05%), remoção de conteúdo (3,70%), campanha difamatória (3,34%), fake news (2,66%), hackeamento (1,90%), violência baseada em gênero (1,76%), entre outros.

Relatório lançado pela organização, em setembro de 2024 documenta mais de 5.100 casos de censura digital e disseminação de conteúdo prejudicial em grandes plataformas como Meta e X, em outubro de 2023 e setembro de 2024. As plataformas digitais também lucraram financeiramente com conteúdo publicitário prejudicial, como mostra o relatório: “O Facebook, de propriedade da Meta, veiculou anúncios direcionados incitando o assassinato de indivíduos e defendendo a expulsão forçada de palestinos da Cisjordânia para a Jordânia. Além disso, as políticas de publicidade do YouTube foram consideradas não compatíveis com os padrões de direitos humanos. O Ministério das Relações Exteriores de Israel promoveu anúncios sobre a guerra em andamento em Gaza no YouTube, refletindo sua ideologia para públicos na França, Alemanha e Reino Unido, com um orçamento de US$ 7,1 milhões em duas semanas após 7 de outubro de 2023, em violação às próprias políticas da plataforma”.

Além das violações de direitos por parte das plataformas digitais, o documento cita ainda o uso extensivo de tecnologia nas violações de direitos humanos pelo governo israelense, como o emprego de inteligência artificial para atingir os palestinos e a promoção de apagões de internet e comunicação sem fio como uma tática de guerra ilegal durante a campanha militar de Israel em Gaza. O ataque a jornalistas e às infraestruturas de telecomunicações e a interrupção de serviços de internet e comunicação geraram um grande obstáculo para registrar violações ou mesmo salvar vidas. Além de afetar a liberdade de expressão e o acesso a informações, os ataques prejudicam as ajudas humanitárias, que já são dificultadas por Israel.

A guerra informativa não se limita às redes sociais. Casos amplamente divulgados pela grande mídia ocidental, mesmo que categoricamente desmentidos, são comuns e assustam pela força que se espalham, apesar da inconsistência.

No artigo Uma avalanche de censuras e notícias falsas, o filósofo Murilo Seabra aponta a tendenciosa cobertura da mídia ocidental sobre a pauta. Mostra, por exemplo, como o New York Times reanimou uma notícia cuja falsidade já havia sido comprovada: a de que os membros da brigada Al-Qassam cometeram “estupros em massa”. A matéria foi desmentida pela família da suposta vítima.

Em outro texto publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, o comunicador Alex Hercog, do Intervozes, destaca que os veículos brasileiros também produzem uma cobertura enviesada ao invisibilizar o debate sobre o “apartheid” existente em Gaza, ignorando o contexto histórico do conflito e encobrindo os crimes cometidos por Israel. O texto A contribuição da mídia para o ciclo de violência, do jornalista Igor Ojeda, também traz exemplos dessa parcialidade, como o uso predominante de fontes israelenses nas matérias.

Em resposta a esse contexto, no Brasil, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) publicou, em novembro de 2024, recomendação sobre a cobertura da ofensiva israelense. O texto pede que os jornais impressos, digitais e, principalmente, TVs e rádios, que administram concessões públicas de radiodifusão, garantam maior diversidade de vozes e equilíbrio de fontes na cobertura do conflito.

A recomendação alerta para o risco de uso de expressões que possam aumentar o preconceito a religiões ou grupos étnicos, como o qualificativo “extremista” ou “terrorista”. Apesar das recomendações, parte importante da cobertura jornalística no país segue enviesada.

Após o anúncio do possível cessar-fogo anterior, que não aconteceu, veículos da mídia brasileira e internacional têm destacado como as “duas partes” irão cumprir acordos. Nesse contexto, sempre se referiram ao Hamas como responsável por “reféns” e a Israel como detentor de “prisioneiros”. O termo “refém” carrega uma conotação pejorativa, enquanto “prisioneiro” sugere algo mais aceitável dentro de parâmetros legais do que seria uma guerra e ganha aparência de moral e civilizado. Contudo, como considerar razoável o fato de Israel deter pessoas de forma arbitrária, sem sequer prestar informações sobre os motivos de sua prisão e ainda usá-las como garantia para acordos futuros!?

Outro fator que contribui para essa “guerra” por meio das informações é a violência contra jornalistas e comunicadores que se tornaram alvo e vítimas de Israel. Segundo o Comitê de Proteção a Jornalistas, desde o começo do conflito, 166 jornalistas foram mortos em Gaza. Outras fontes indicam mais de 200 mortes. A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) classificou o conflito como um dos mais letais para jornalistas.

“A terra dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens?”

A pergunta tirada de poema de Mahmoud Darwish, poeta palestino falecido em 2008, provoca que é preciso seguir lembrando e questionando o genocídio e a barbárie. A invasão e a disputa territorial ganham contornos ainda mais desumanos quando as crianças viram alvo. Os ataques indiscriminados de Israel contra civis palestinos transformaram as crianças em suas principais vítimas.

Caminhando ao lado desse genocídio estão as principais plataformas digitais. A imagem de representantes das poderosas big techs participando da posse de Trump é mais que simbólica. É a demonstração contundente da aliança tecnopolítica de podres poderes no rumo a uma humanidade desumanizada. O anúncio de Mark Zuckerberg de novas políticas de moderação de conteúdo explicitamente favorecedoras da difusão de ainda mais ódio a grupos vulnerabilizados também vem nessa toada e coloca os palestinos em risco.

“Um número extremamente elevado de crianças em Gaza continua a morrer, a ser mutilado, ferido, desaparecido, deslocado, a ficar órfão e ser vítima da fome, da desnutrição e de doenças”, diz o Comitê dos Direitos da Criança das Nações Unidas. Além dos assassinatos e da fome, usada por Israel como estratégia de guerra, organizações do mundo inteiro denunciam as prisões ilegais.

A ONU e a Save the Children denunciam que entre 500 e 700 crianças palestinas entram anualmente no sistema de detenção militar israelense. Mesmo antes da escalada do atual conflito, os palestinos já eram tratados como reféns. Nem o termo “refém”, nem denúncias sobre o tratamento dado por Israel em suas prisões costumam aparecer nas mídias comerciais. Enquanto que nas redes sociais, a política de algoritmos e os interesses econômicos das grandes plataformas impedem um debate franco, com informações transparentes.

Em meio aos escombros reais e digitais, emerge Donald Trump, evocando para si o personagem de salvador dos problemas do mundo. Impossível prever a estratégia do presidente estadunidense e seus acordos para promover um cessar-fogo. Histórico aliado de Israel e beneficiário do genocídio, os movimentos dos Estados Unidos trazem desconfiança. E ainda que o exército israelense seja temporariamente freado, é difícil acreditar em um futuro em que o povo palestino tenha o direito de reconstruir suas casas, ocupar seu território e viver sem ameaçadas.

Gaza, dois anos depois: A humanidade sob escombros

Dois anos após o início da guerra em Gaza, o conflito consolidou-se como uma das mais severas catástrofes humanitárias do século XXI e como um símbolo incontornável da falência ética e política da ordem global.

O que começou como um confronto localizado evoluiu para uma espiral de devastação contínua — um processo de degradação moral que desafia os próprios fundamentos do direito humanitário. A cada dia, acumulam-se as vítimas, expandem-se as ruínas e cristaliza-se o silêncio diplomático — como se a dor palestiniana tivesse tornado rotina.

O prolongamento da ofensiva, assente em bombardeamentos incessantes, deslocações forçadas e no colapso das infraestruturas civis, revela o esgotamento da diplomacia global e a impotência das grandes potências para conter a lógica da violência. Gaza transformou-se no espelho mais implacável da apatia coletiva: uma sociedade sitiada onde sobreviver é o último exercício de dignidade.


Segundo as Nações Unidas, mais de dois terços das habitações foram destruídas ou gravemente danificadas, deixando cerca de 1,7 milhão de pessoas sem abrigo. Os hospitais operam à beira do colapso, dependentes de geradores e sem medicamentos essenciais; os abrigos, outrora refúgios, converteram-se em novos alvos de ataques.

A água potável escasseia, a eletricidade rareia e a fome alastra em silêncio, atingindo sobretudo crianças e idosos. De acordo com dados recentes da OMS e da Unicef, cerca de 1,2 milhão de menores necessitam de apoio psicológico urgente, e mais de 23 mil sofreram ferimentos físicos graves — muitos com amputações ou sequelas permanentes.

Estudos indicam que mais de 90% das crianças exibem sintomas de trauma, desde insónias e pesadelos a crises de ansiedade e mutismo seletivo. Em Gaza, a infância converteu-se na primeira vítima do colapso humanitário, e o trauma colectivo é hoje a herança mais devastadora da guerra.

A destruição das escolas — com mais de 80% das instalações educativas danificadas — e o encerramento das universidades mergulharam uma geração inteira num vazio sem futuro, num limbo entre a sobrevivência e a desesperança.

Enquanto a tragédia humana se aprofunda, a comunidade internacional oscila entre a inação e a dissimulação. O Conselho de Segurança das Nações Unidas permanece bloqueado por vetos, reduzido à emissão de comunicados sem efeito.

Os Estados Unidos sustentam o discurso do “direito à autodefesa” de Israel, ignorando a desproporção abissal entre as partes e a destruição sistemática de infraestruturas civis. A União Europeia, dividida entre a culpa histórica e o cálculo político, hesita em adotar uma posição firme, permitindo que a prudência diplomática se confunda com complacência.

O resultado é uma neutralidade que, sob o pretexto da moderação, normaliza o horror. No mundo árabe, o imobilismo também domina: o Egito gere Rafah como quem controla o fluxo de uma ferida aberta; a Jordânia e o Líbano enfrentam as suas próprias crises, e as monarquias do Golfo preferem o silêncio conveniente à solidariedade efetiva. A causa palestiniana, outrora símbolo de unidade, tornou-se um incómodo político.

A guerra desenrola-se igualmente no domínio simbólico. O Ocidente alimenta-se de uma linguagem de eufemismos — “danos colaterais”, “operações cirúrgicas”, “zonas seguras” — que dilui a brutalidade dos factos. As redes sociais, saturadas de imagens de destruição, banalizam o horror e anestesiam a empatia: quanto mais se vê menos se sente.

A repetição da tragédia converte a dor em ruído, e o sofrimento deixa de comover. A paralisia moral global é hoje tão letal quanto as bombas. Gaza não é apenas um palco de guerra, mas o ponto de fratura de uma civilização que se habituou a assistir à morte sem reagir.

A persistência do conflito expõe o colapso das instituições multilaterais e o uso seletivo do direito internacional — implacável com os fracos, condescendente com os poderosos. Quando a justiça se transforma numa moeda política, o seu valor evapora-se.

Passados dois anos, Gaza já não é apenas um território devastado: é o retrato mais nítido da decadência ética do nosso tempo. Cada ruína, cada criança órfã, cada hospital em cinzas denuncia a contradição de um mundo que proclama os direitos humanos enquanto observa a sua violação diária.

O que se destrói não é apenas uma cidade, mas a própria ideia de humanidade. Se o século XXI começou com a promessa de uma ordem baseada em valores universais, Gaza demonstra o inverso: a erosão silenciosa da compaixão e a indiferença erigida em norma. Talvez essa seja a ferida mais profunda — a certeza de que, diante do abismo, o mundo preferiu desviar o olhar.

Resumos de IA estão destruindo a internet

A mídia está em perigo. Isso não é exagero: como quase todo mundo já sabe, o Google introduziu resumos automáticos ( visão geral de IA , como eles os chamam) em seus resultados de pesquisa. Esses resumos exibem um trecho de conteúdo de várias fontes diretamente na página de resultados, sem que o usuário precise clicar para ler o artigo completo. De acordo com muitos veículos de comunicação ( The Economist abriu as comportas há dois meses com um artigo fantástico intitulado AI is killing the web . Can anything save it ? ), esses resumos estão causando quedas significativas nas taxas de cliques para os artigos originais. Não é apenas a mídia digital que está passando por esse declínio: fóruns, redes sociais e sites como a Wikipédia também estão passando por esse declínio. Estudos mostram que apenas 1% dos usuários de resumos realmente chegam à fonte original. Agora que mudamos a maneira como trabalhamos para nos adaptar ao Google, ele está mudando as regras do jogo novamente.

Em última análise, os leitores, ao encontrarem o que procuram diretamente no resumo, não sentem mais a necessidade de visitar a página de origem. E para os veículos de comunicação, isso representa um duplo problema: por um lado, uma perda de receita de publicidade ou assinatura, porque a falta de tráfego gerado pelos mecanismos de busca reduz a monetização. Por outro lado, há uma preocupação com a visibilidade de suas marcas: se os usuários consomem conteúdo sem ver o artigo original, o reconhecimento do veículo de comunicação é enfraquecido. Alguns já levaram o assunto aos órgãos reguladores, exigindo transparência do Google e de outros mecanismos de busca sobre os critérios usados para compilar seus resumos, como selecionam as fontes e quais dados possuem sobre esse tráfego. Iniciativas também estão sendo desenvolvidas para compensar veículos de comunicação e sites porque, caso contrário, a internet aberta como a conhecemos hoje pode desaparecer para sempre, atolada na endogamia de grandes corporações.

Pode parecer exagero, mas faça o teste hoje. Às 13h, será anunciado o Prêmio Nobel de Literatura. Quantas pessoas irão a um site confiável (por exemplo, este) para descobrir quem é o novo ganhador, e quantas pessoas ignorarão um site respeitável (por exemplo, este) e se contentarão com as 10 frases que o Google oferece? Descobriremos em breve.

Há uma anedota curiosa sobre o Prêmio Nobel de Literatura: uma hora antes do poeta Tomas Tranströmer receber o feliz telefonema da Academia Sueca em 2011, um site que reproduzia o Prêmio Nobel, criado por um grupo de ativistas sérvios, anunciou que o vencedor era um compatriota: o escritor nacionalista Dobrica Ćosić. A mídia local (e internacional, como o The Guardian ) reproduziu a notícia falsa. O que os resumos de IA do Google teriam dito se tivessem perguntado naquela época? Bem, o vencedor foi Ćosić, é claro. Não porque leram em um veículo de prestígio, mas porque a verdade tem peso, e a maioria dos veículos de comunicação comemorou a vitória fugaz do sérvio. Essa é a desvantagem dos resumos: hoje em dia eles perdem mais do que uma espingarda de parque de diversões. Não é corporativismo, é a verdade.

Sejam os resumos mentirosos ou não, a verdade é que a imprensa não sabe como lidar com essa queda no tráfego dos mecanismos de busca. E o pior é que, mesmo que consiga superar esse obstáculo, os donos da internet mudarão novamente as regras do jogo da noite para o dia, neste Dia da Marmota da degradação da qualidade da informação (e da democracia) que começou no dia em que a mídia entregou a autopista da informação e iniciou um processo de degeneração progressiva (e imparável?) do ecossistema virtual. Aliás, esse fenômeno enferrujado do ambiente digital é cada vez mais conhecido como “merdação “. Nenhuma IA teria inventado um termo tão apropriado.
Jorge Morla

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Pensamento do Dia

 


Pandemia deixou mais de 1,3 milhão de crianças órfãs

Mais de 1,3 milhão de crianças brasileiras perderam pais ou responsáveis nos dois primeiros anos da pandemia de covid-19, segundo artigo publicado na Lancet Regional Health – Americas. O estudo, coassinado pela professora Lorena Barberia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, combinou modelagem estatística e dados do registro civil para estimar o impacto da mortalidade entre adultos que cuidavam de crianças.
Desigualdades e perfis afetados

De acordo com a professora, a maior parte dos casos envolve a perda de um único cuidador, frequentemente idosos com mais de 60 anos, grupo mais vulnerável à doença. “Em muitas famílias brasileiras, o principal responsável era uma pessoa idosa, o que ampliou a magnitude da orfandade”, explica. O levantamento também mostra que adolescentes entre 12 e 17 anos foram os mais afetados, faixa etária em que o impacto emocional tende a ser ainda mais sensível.

Entre as mais de 1,3 milhão de crianças órfãs, aproximadamente 280 mil tiveram perdas diretamente associadas à covid-19 — 149 mil perderam pais e 135 mil, avós ou outros cuidadores idosos. A orfandade, porém, variou bastante pelo território nacional: Roraima apresentou as maiores taxas proporcionais, enquanto Santa Catarina registrou as menores.
Falta de políticas e legado da pandemia

Para Lorena Barberia, o Brasil se destaca por ter dados que permitem vincular crianças a adultos falecidos nas declarações de óbito, o que ajudou a validar as estimativas. Apesar disso, ela alerta para a falta de políticas públicas específicas. “Houve um trauma muito grande, e ainda não temos mecanismos para identificar e atender essas crianças de forma adequada”, afirma.

O estudo reforça que compreender a dimensão da orfandade é essencial para orientar políticas sociais e educacionais. “Precisamos garantir que essas crianças não fiquem desamparadas. É um legado silencioso da pandemia que o País ainda precisa enfrentar”, conclui a especialista.

É tempo para nova humanidade

Ainda há tempo de sermos humanos. E o tempo é agora de cultivarmos uma nova humanidade.
Sri Prem Baba

Verdade e completude: entre Gödel e as fake news

Nos primeiros anos da década de 1990, frequentei assiduamente o Grupo de Ciências Cognitivas do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP) que se formara sob a liderança do professor Newton da Costa (1929-2024), importante protagonista nos estudos de Lógica, com trabalhos de notória abrangência científica.

A liderança do professor Newton da Costa dava o tom das discussões que, frequentemente, versavam sobre as implicações dos trabalhos de Kurt Gödel (1906-1978), matemático popularmente lembrado como o companheiro de caminhadas de Albert Einstein (1879-1955) pelo campus da Universidade de Princeton.

O que Gödel e Einstein conversavam sempre foi objeto de curiosidade. O livro Incompleteness: The Proof and Paradox of Kurt Gödel, de Rebecca Goldstein, além de recriar essas caminhadas, traz uma discussão acessível dos consagrados teoremas de Gödel, componentes da espinha dorsal da lógica matemática e fundamentais para a teoria da computação.

As exposições sobre lógica do professor Newton e do professor Henrique Schützer Del Nero (1959-2008) que, na época, coordenava o Grupo de Ciências Cognitivas do IEA-USP, invariavelmente remetiam meus pensamentos para o ano de 1965, quando eu cursava a terceira série ginasial (hoje oitavo ano do ensino fundamental) que previa, no programa de Matemática, o estudo da Geometria Euclidiana no plano.

Naquele tempo, fiquei maravilhado com a estrutura lógica apresentada pelo professor de Matemática da minha turma de ginásio, Edmir Jonas Braga, cujos dados biográficos, infelizmente, não tenho.

Postulados e axiomas considerados verdadeiros sobre pontos, retas e planos permitiam deduzir propriedades de ângulos, triângulos, quadriláteros e polígonos com maior número de lados.

Na minha inocência, mantida até as palestras do professor Newton, passei a acreditar no projeto concebido por David Hilbert (1862-1943), considerado um dos maiores matemáticos do século 20, a respeito do formalismo matemático, versando sobre a possibilidade da demonstração de toda afirmação matemática verdadeira.

De maneira geral, é como a Matemática é vista no dia a dia, recebendo a qualificação de “Ciência Exata” e tida como infalível quando requisitada para a análise de qualquer tipo de problema.

É o pensamento que conduz o projeto de Hilbert: verdades matemáticas são sempre logicamente demonstráveis. É esse pensamento que, talvez, afaste os estudiosos das Humanidades, estes obrigados a conviver com complexidade, imprevisibilidade e diversidade, aparentemente distantes da vida da Matemática, vista como intrincada e com caminhos traçáveis pela lógica determinística.

A visão crítica do projeto de Hilbert, devida primordialmente a Gödel, leva ao conceito de Incompletude e a seus teoremas que estão bem explicados no artigo: Os trabalhos de Gödel e as denominadas ciências exatas, do professor Carlos Ventura D’Alkaine (1935-2021), publicado pela Revista Brasileira de Ensino de Física em 2006.

Tentando dar uma ideia resumida, o Teorema da Incompletude (Primeiro Teorema de Gödel) afirma que um sistema formal consistente contendo a aritmética elementar é incompleto, isto é, contém sentenças verdadeiras indemonstráveis.

O entendimento do conceito de Incompletude não é, entretanto, uma refutação do projeto de Hilbert para os fundamentos da Matemática. É, apenas, uma condição limitante para possíveis sistemas matemáticos formais.

Tentando trazer essa discussão para nossa vida, observamos que mesmo as verdades matemáticas têm suas condições limitantes e requerem análise cuidadosa e responsável para serem aceitas e demonstradas.

O progresso da tecnologia e da ciência computacional, com algoritmos em parte devidos a Gödel, trouxe uma inundação de fatos, interpretações e ideias muito pouco verificáveis e que, em muitos casos, passam a dirigir o pensamento e as ações das pessoas.

É comum encontrarmos receitas de medicamentos milagrosos, de modos de vida saudáveis e, até, de como gerir a carreira profissional, todas com fundamentos altamente duvidosos e de origem desconhecida.

Viralizam pelas redes sociais notícias sobre economia, guerras e políticas, fabricadas por pessoas sem qualquer compromisso com a verdade e, muito menos, com a preservação da espécie humana e do planeta.

Até mesmo a medida de credibilidade de notícias, documentários e palestras passou a ser o número de seguidores, sem questionamentos sobre origem, intenção ou possíveis consequências de sua propagação.

O aumento assustador de golpes, crimes econômicos, episódios de pedofilia originados pelo mau uso das redes precisa ser, de alguma forma, contido. Não se trata de censura e de ideologia e sim, de respeito ao ser humano e ao planeta.

Questiona-se sobre como olhar e evitar os possíveis males. Sugiro olhar, como Gödel fez com a lógica, para a vida no planeta com redobrada atenção para a consistência e completude daquilo que se propaga sob o rótulo de informação.

Além disso, profissionais de ciência da computação têm, fundamentados nos trabalhos de Gödel, Alan Turing (1912-1964) e dos prêmios Nobel, John Joseph Hopfield (1933-) e Geoffrey Everest Hinton (1947-), capacidade para criar ferramentas aptas a prover nosso novo mundo digitalizado das devidas ações preventivas e corretivas.

Assim, acredito no bom uso da alta capacidade de conectividade à nossa disposição nas redes. Tudo depende de os seres humanos serem capazes de combinar o conhecimento com a ética e a generosidade.

Dois anos de genocídio em Gaza, 77 anos de negação

Após a revolta dos sitiados contra seus carcereiros em 7 de outubro de 2023, a máquina sionista de hasbara se mobilizou pelo mundo para impor uma narrativa falsa. Seu objetivo era claro: apagar a história, distorcer a realidade e apresentar Israel como a eterna vítima. De acordo com essa estrutura, Israel era uma entidade pacífica surpreendida por um ataque não provocado que supostamente surgiu do nada.


O dia 7 de outubro não caiu do céu. Foi o ápice de décadas de desapropriação, cerco e desumanização sistemática. Muito antes de outubro de 2023, Gaza foi descrita por observadores internacionais como a maior prisão a céu aberto do mundo . Foi submetida a um bloqueio de dieta de fome por mais de 16 anos, ou 5.800 dias. Muito antes disso, seus 2,3 milhões de habitantes, dos quais 1,3 milhão são refugiados ou seus descendentes, foram expulsos de suas casas e aldeias em 1948 durante a Nakba, uma catástrofe criada por milícias terroristas sionistas que realizaram limpeza étnica nos palestinos nativos para criar um estado para os judeus escaparem do ódio europeu.

Para compreender o dia 7 de outubro, é preciso situá-lo no continuum do sofrimento palestino. Aquele único dia não foi uma aberração. Foi um dos quase 28.000 dias de ódio sionista e opressão israelense desde 1948. Cada dia carregava o peso do exílio, do cerco, da humilhação, da pobreza e da desesperança. No entanto, a hasbara quer apagar essas décadas da memória registrada, os 28.000 dias de apatridia palestina, e reduzir a história a um único dia, dissociado do contexto.

O "primeiro 7 de outubro" não foi em 2023; foi em 1948, quando milícias terroristas sionistas, transformadas no atual exército israelense, cometeram massacres, arrasaram aldeias e expulsaram palestinos em massa. Esse ato fundamental de limpeza étnica continua até hoje. Os bombardeios diários, a fome, a negação da dignidade humana básica ao povo de Gaza são extensões desse pecado sionista original.

A maior arma da hasbara é controlar a mídia, reformulando a narrativa e a memória seletiva. Ela busca descontextualizar a memória e ocultar a violência estrutural que tornou o 7 de outubro inevitável. Recordar os 28.000 dias que o precederam é expor a injustiça contínua no cerne desta suposta guerra: um povo colonizado e sitiado lutando pela sobrevivência contra uma potência ocupante que insiste em sua subjugação permanente.

Dois anos se passaram desde que Israel desencadeou seu plano de genocídio. Uma estratégia de destruição sistemática de lares, hospitais, escolas, infraestrutura e da própria vida. Gaza, hoje, não é uma zona de guerra. É o cemitério de um povo sufocado diante dos olhos de um mundo que perdeu sua humanidade.

Dois anos, vinte e quatro meses, setecentos e trinta dias a mais do que aquele dia 7 de outubro. Por mais medida que seja, a vida desde outubro de 2023 tem sido uma eternidade de sofrimento para o povo de Gaza. Uma crônica de genocídio transmitida ao vivo pela TV. A medida mais fundamental deste holocausto é a destruição e a perda impressionante de vidas. Gaza, hoje, é o lugar mais implacavelmente bombardeado da história: em termos de explosivos por metro quadrado, Israel lançou quase setenta vezes mais bombas sobre Gaza do que os Aliados sobre a Alemanha na Segunda Guerra Mundial e cem vezes mais do que os EUA lançaram sobre o Vietnã do Norte durante a Operação Rolling Thunder.

Em setembro de 2025, mais de 66.000 pessoas foram assassinadas, entre elas pelo menos 19.424 crianças . Milhares mais estão "desaparecidos", enterrados anonimamente sob os escombros de suas próprias casas. Vidas jovens foram apagadas; milhares de histórias terminaram antes de começar. O número total de feridos ultrapassou 167.500 , deixando um número esmagador de sobreviventes com ferimentos que mudaram suas vidas. Desde que Israel quebrou um cessar-fogo em março de 2025, 12.956 almas foram perdidas. No total, os feridos e mortos representam mais de 10% da população de Gaza. Estas não são baixas colaterais; são as vítimas intencionais de uma campanha deliberada de apagamento da existência palestina.

Além de bombas e balas, outra arma insidiosa está ceifando vidas: a fome. Uma fome planejada pelos sionistas, declarada pela Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC), apoiada pela ONU. Mais de 500.000 pessoas vivem em condições de Fase 5 — o nível mais alto, caracterizado por "fome, miséria e morte". Pelo menos 440 pessoas morreram de fome, incluindo 147 crianças, e centenas de milhares ficaram sem comida ou água potável. O Comitê Internacional de Resgate relata que uma em cada três crianças pequenas passou pelo menos 24 horas sem comida.

Cada um dos 625.000 estudantes de Gaza está fora da escola há dois anos. Mais de 18.000 estudantes e 972 professores foram mortos. Quase 92% das escolas estão danificadas ou destruídas; todas as universidades estão em ruínas completas . A OMS relata que mais de 2.300 profissionais de saúde e ajuda humanitária foram mortos e, dos 36 hospitais de Gaza, apenas 14 estão funcionando parcialmente .

Para encobrir seus crimes, Israel fechou Gaza para a mídia internacional e visou jornalistas locais que trabalhavam em Gaza. Segundo a Universidade Brown, Israel matou mais jornalistas em Gaza desde outubro de 2023 do que na Guerra Civil Americana, na Primeira e Segunda Guerras Mundiais, na Guerra da Coreia, na Guerra do Vietnã, nas guerras na ex-Iugoslávia e na guerra pós-11 de setembro no Afeganistão – juntas. Israel assassinou 278 jornalistas com pouco ou nenhum protesto do "mundo livre" ou da "imprensa livre". Ao se recusar a confrontar a censura israelense às reportagens de Gaza, eles traem os próprios princípios de verdade e liberdade que afirmam defender.

Isto não é guerra; é um genocídio premeditado, segundo a letra da lei. A Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, de 1948, define genocídio como atos cometidos com “a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. O Artigo II lista cinco atos:


Matando membros do grupo: 66.000 e contando.

Causando danos físicos ou mentais graves: milhares de crianças amputadas.

Imposição deliberada de condições de vida calculadas para causar destruição física: bloqueio de ajuda alimentar, destruição de terras agrícolas, 92% das casas destruídas.

Imposição de medidas destinadas a prevenir nascimentos: visando clínicas de fertilidade.

Transferência forçada de crianças.

Israel cometeu pelo menos os quatro primeiros — de forma indiscutível, sistemática e pública. Os assassinatos em massa, a mutilação de dezenas de milhares de pessoas e a fome de civis se enquadram perfeitamente no requisito da Convenção.

A Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio (IAGS) anunciou, em 31 de agosto de 2025, que as ações de Israel em Gaza se enquadram na definição de genocídio prevista na Convenção da ONU. O Artigo III da Convenção estende a responsabilidade não apenas aos perpetradores, mas também aos facilitadores do genocídio. Isso inclui Washington, Londres, Berlim e Paris. Após a acusação contra líderes israelenses pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), qualquer país que financie e arme criminosos de guerra indiciados é responsável, nos termos do Artigo III, e pode ser levado ao TPI.

Na última fase do holocausto na Cidade de Gaza, em 1º de outubro, o ministro da guerra sionista, Israel Katz, autorizou, ou tornou kosher, o ataque aos 250.000 civis restantes na Cidade, quando os classificou como "terroristas". Civis que não têm meios físicos ou financeiros ou aqueles que se recusam a deixar suas casas e não se tornam estatísticas de refugiados em uma nova Nakba feita por Israel.

Este genocídio não é exclusivo de Israel; é o fracasso moral coletivo da chamada civilização ocidental. Ao facilitar a ação de criminosos de guerra indiciados, fornecendo-lhes as ferramentas para o genocídio e proteção diplomática, os governos ocidentais expuseram o sistema de valores seletivo que defendem. Seu silêncio ostensivo, mesmo com um ministro da Guerra rotulando 250.000 civis de "terroristas", revela que os "valores ocidentais" nada mais são do que uma fachada cínica que mascara sua hipocrisia e hierarquia racial.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Pensamento do Dia

 


Da atrocidade do 7 de Outubro à abominação em Gaza

Mas porque é que eles não se entendem? Essa é a pergunta que por vezes se faz a partir do conforto e da distância. Nós, que dormimos descansados nas nossas camas. Nós, que temos casas que não foram destruídas pelas bombas. Nós, que não temos reféns na família. Perguntamo-nos, candidamente, porque não podem eles entender-se.

E nós? Será que nós entendemos? Basta ler as redes e os comentários, que têm sido um espetáculo de desumanização e polarização nos últimos anos. À distância segura de milhares de quilômetros insultamos, agredimos, ofendemos —e depois acreditamos ser moralmente superiores àqueles que, lá longe, não se entendem.

E no entanto a coerência não é difícil. Ela implica saber que uma violação de direitos é uma violação de direitos humanos, ponto. Que o assassinato em massa de civis inocentes é sempre condenável. Que a morte provocada de crianças, a quem nenhuma culpa por qualquer conflito pode ser atribuída, e que não escolheram de que lado nascer, nunca pode ser justificada.

Desse ponto de partida, o mundo —e em particular as potências ocidentais, com as suas responsabilidades históricas— poderia ter sabido ajudar a que a tragédia inominável que estamos vivendo não se tivesse produzido. Isolando e excluindo tanto quanto possível os irredentistas de parte a parte. Condenando os ataques do Hamas e precavendo-se logo de seguida para a desproporcionalidade da ofensiva de Israel sob a liderança do governo de Netanyahu. Reconhecendo o Estado da Palestina de forma a deixar claro que não aceitaria uma política de fatos consumados no terreno. Embargando as exportações de armas, suspendendo acordos comerciais, implementando sanções, processando em tribunais internacionais crimes contra a humanidade e de genocídio. E fazendo-o, tanto quanto possível, a uma só voz, para ser mais forte, audível e eficaz.

Especialmente a Europa teria de ter desempenhado um papel de árbitro honesto e imparcial. Falhou. E com isso perdeu credibilidade e enterrou a sua narrativa moral. Se há coisa que a Europa pode especializar-se em transmitir ao mundo é a narrativa da sua própria reconciliação depois de séculos de matanças recíprocas. Se foi possível aqui, pode ser possível entre Israel e Palestina. Mas para isso é preciso deixar claro que o destino tem de ser o da solução de dois Estados, da rejeição de toda a limpeza étnica ou genocídio.

Em vez disso houve cumplicidade e passividade. E dois anos ainda há reféns presos. E dezenas de milhares de palestinos mortos. Da atrocidade do 7 de outubro de 2023 à abominação do que se está a passar em Gaza, o mundo falhou o teste. Não soubemos conter os perpetradores, defender as vítimas e apontar o futuro.

Não teria sido impossível, nem sequer difícil, ter sido coerente. Mas não temos grande moral para lhe perguntar porque não se entendem eles.
Rui Tavares

O homem mais perigoso do mundo quer ganhar o Nobel da Paz…

No final de 2019, numa sala lotada do Comité Olímpico de Portugal, assisti àquela que foi uma das últimas intervenções públicas de Adriano Moreira. A abrir um dia de debates, organizado pelo saudoso José Manuel Constantino, sobre Migrações, Desporto e Religiões – um tema agora ainda mais atual –, o velho professor de Ciência Política e Relações Internacionais, então já com 97 anos, aproveitou todo o seu conhecimento e a sua intuição para traçar um retrato dos problemas e riscos que pairavam sobre o mundo. Fê-lo numa época em que ainda ninguém imaginava que, poucas semanas depois, um coronavírus desconhecido iria paralisar meio planeta, e que, após nos livrarmos da pandemia, entraríamos numa espécie de regresso a um passado que já pensávamos ultrapassado, com múltiplas guerras, intensa polarização política, declínio democrático, limitação das liberdades e um ambiente geral que parece só estar à espera de um fósforo incauto para fazer tudo explodir. Mas antes de isto começar a ser visível, já Adriano Moreira tinha então identificado o risco principal que se encontrava à espreita. E sintetizou-o numa frase: “A maior ameaça atual ao mundo é a incultura e a leviandade do Presidente dos EUA, Donald Trump.”

Cinco anos depois, de regresso à Casa Branca, Donald Trump tem feito tudo para demonstrar o acerto da convicção de Adriano Moreira. E, em simultâneo, lembrar a justeza de um ensinamento do antigo chanceler alemão Otto von Bismarck, a quem é atribuída a frase “uma simples leviandade pode desencadear um desastre”.

Desde janeiro, Donald Trump tem utilizado essa ameaça de “leviandade” como a sua principal arma política.


Sem outra racionalidade que não seja a de provocar a incerteza e fomentar o caos, o Presidente dos EUA usa todos os momentos para lembrar à maioria do resto do mundo (não todo…) que qualquer pormenor numa negociação de tarifas ou uma discordância de pontos de vista sobre um assunto, até porventura menor, pode ser o suficiente para fazer escalar a sua posição e endurecer o tom das suas ameaças. Ou seja: provocar o tal desastre. E fá-lo sempre escudado no imenso poder militar da maior e mais experimentada máquina de guerra do mundo. Como que a avisar que, em última opção, não hesitará um segundo em esmagar quem lhe mostrar a mais pequena oposição.

Donald Trump quer ganhar o Prémio Nobel da Paz, mas é atualmente o homem mais perigoso para a paz. Quando se vangloria, num discurso provocador na Assembleia Geral das Nações Unidas, de já ter acabado com sete conflitos nos primeiros oito meses deste seu segundo mandato, ele não está só a efabular e a deixar-se levar pelo seu exagero habitual. O que ele está a dizer, sem o nomear, é algo muito aterrador. É isto: “Não me contrariem, se não…”

A verdade é que são cada vez menos os que o contrariam. Prova disso é o facto de aqueles que, ainda há poucos anos, se riram ruidosamente com as diatribes de Trump nas Nações Unidas terem agora optado pelo silêncio, perante um ataque verbal quase sem precedentes às instituições globais, à ciência e a um conceito de Humanidade que tenha os direitos humanos no seu centro, e não o poder da força.

Donald Trump quer acabar com as Nações Unidas por uma única e exclusiva razão: porque quer ocupar esse espaço no centro do mundo, poder impor a sua decisão e não precisar de dialogar com mais ninguém. É essa a cartilha que está a exportar para os outros países.

Neste contexto, o mais grave nem sequer é o facto de os populistas de todo o mundo terem passado a copiar o estilo e os argumentos de Trump. Nada de diferente seria de esperar, a esse respeito. O pior de tudo é o grau de silêncio e de tolerância, nalguns momentos a roçar a submissão, com que tantos líderes de países democráticos passaram a encarar as ameaças e as diatribes emanadas de Washington, nomeadamente na Europa, que deveria ser o farol dos valores de democracia, da liberdade e da justiça social.

Por mais que deseje o Nobel da Paz, o que Donald Trump está a fazer é a tornar o mundo mais perigoso. Um mundo em que cresce a intolerância, se reprimem as liberdades e se controlam os negócios sempre para a defesa exclusiva dos interesses de quem detém o poder e a força. O que ele quer é exportar o caos e promover a ascensão de ditadores em cada país, com quem pode dialogar no mesmo comprimento de onda.

Assim, ao continuarem a mostrar-se submissos e resignados perante essa forma de estar de Trump, com medo de o enfurecer, os líderes europeus não só se tornam cada vez mais irrelevantes no plano internacional, como acabam por ser cúmplices da Administração dos EUA com os contínuos ataques à democracia e aos direitos humanos. E, com isto, ficam à mercê das consequências de uma qualquer leviandade.

'Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará'

Um artigo do John Burn-Murdoch, no Financial Times, de dia 27 de setembro, aborda um estudo do economista político Laurenz Guenther sobre a diferença de visões em questões de imigração e integração entre os políticos ditos mainstream – do centro-esquerda e do centro-direita – e o público em geral.

A pergunta-base é se se acha que os imigrantes devem adaptar-se aos costumes do país para onde vêm, mas a análise de Guenther vai muito mais além.

O cientista verifica que há um alinhamento muito razoável entre os políticos e o eleitorado nas questões económicas, de impostos ou intervenção do Estado, mas uma distância muito significativa em temas como imigração e justiça criminal.



Guenther conclui que foi através dessa falha entre eleitores e representantes que a extrema-direita populista se instalou.

Com a exceção da Dinamarca, a tal diferença de visão dos problemas da imigração e da integração entre os políticos, digamos, clássicos e o público varia pouco de país para país. Portugal, porém, destaca-se: nós somos um dos países em que essa falha é mais pronunciada.

Dando assim como boa a referida tese, está encontrada a razão do tão rápido crescimento da nossa extrema-direita e tudo leva a crer que não fique por aqui. Aliás, eram poucos os que desconheciam que sentimentos que o Chega agora exprime estavam presentes na nossa comunidade e que apenas precisavam de quem os corporizasse.

A tese dominante é simples e o autor do artigo do FT parece defendê-la: os políticos do centro-direita e do centro-esquerda têm de se aproximar das convicções dos eleitores nos temas da imigração e da integração.

Há, no entanto, algumas questões prévias que quem defende esta posição se esquece frequentemente de abordar: as convicções que as pessoas têm sobre imigração partem de factos? Como chegaram a elas?

Falo do meu país. Não há outra forma de o dizer: todo o discurso sobre imigração que a extrema-direita berra e que, pelos vistos, vai de encontro às convicções de uma grande franja da população é uma descabelada mentira.

Nunca houve uma política de portas escancaradas; os imigrantes vieram porque deles dependem em larguíssima medida o nosso crescimento económico, a Segurança Social e as contas públicas; o nosso país pararia se os imigrantes se fossem embora e o facto é que precisamos de mais; os imigrantes geram emprego e não tiram emprego, na verdade nunca tivemos tanta gente empregada e não há desemprego; não há qualquer acréscimo de crime, pelo contrário: a imigração económica vem para trabalhar; não há qualquer problema de integração, já que os imigrantes respeitam a nossa Constituição e as nossas leis; a crise de habitação que atravessamos resulta de péssimas políticas públicas e não da vinda de imigrantes, basta pensar que se a economia exige que pessoas trabalhem, seriam estas ou outras. Por fim, é também mentira que os imigrantes causem pressão para baixo nos salários; ao preencher empregos que não seriam ocupados de outra forma, a imigração leva é a que os empregos mais qualificados sejam mais bem remunerados e com isso aos aumentos do salário médio no nosso país.

Sei bem que a lista é longa, mas ficaram outros factos por elencar. Contra eles contrapõem-se sensações, perceções, preconceitos. Não duvido de que ver gente na rua com roupas, religiões, cores e cheiros diferentes acorda o nosso irracional medo do desconhecido, do diferente – sendo que em Portugal 70% da imigração é de gente com a nossa raiz cultural e fala a nossa língua – e isso, claro, tem impacto.

Como se chega ao ponto de as pessoas se deixarem guiar por mentiras não cabe em milhões de páginas. Diga-se que não é novidade, a história da Humanidade é uma sucessão de episódios onde a mentira venceu a verdade com as consequências que daí advieram.

Há fenómenos de sempre: queremos razões diretas e facilmente percetíveis para explicar o nosso descontentamento, o medo do diferente. Claro que agora temos as redes sociais que não só permitem a rápida disseminação de mentiras, como substituíram todo o tipo de mediação, até a científica. É verdade que a extrema-direita financiada pelos novos donos do mundo teria sempre uma enorme vantagem sobre os defensores da democracia, mas ninguém duvide que custa mais explicar a verdade em problemas complexos do que contar uma mentira que vá de encontro aos nossos instintos básicos.

Em Portugal, o PS (que assobia para o lado) e principalmente o PSD mais não têm feito do que alimentar isso. E, dada a evolução do Chega, parece que não resulta. O original é sempre melhor do que a imitação.

Voltemos então à tese de que, no fundo, o melhor para parar o crescimento das forças antidemocráticas é alinhar em mentiras, perceções erradas, sensações e preconceitos. No fundo, e dando-a como bem-intencionada, defende-se que a melhor forma de parar a extrema-direita e o que ela fará à democracia se tomar o poder é comprar o seu discurso e as suas medidas nas questões culturais, sobretudo na imigração.

As grandes questões contra essa linha são pragmáticas e sobretudo éticas.

Uma política que se baseie em dados falsos nunca terá bom resultado. É, por definição, um contrassenso. Exemplo: querer integrar imigrantes e proibir a vinda das suas famílias obviamente não promove a integração. E, claro, compromete objetivos mais vastos, como dar uma melhor vida às populações: bloquear a imigração produzirá uma crise económica.

Até onde iremos se deixarmos que a mentira seja base para a decisão política? É um caminho sem fim. A aceitação da mentira como pressuposto viável para a implementação de políticas públicas tornará a nossa comunidade dependente de quem melhor conseguir espalhar mentiras, quaisquer que sejam os objetivos que os seus promotores queiram prosseguir. Melhor, tem um fim: a total descredibilização do poder democrático e o fim completo da confiança nos eleitos.

A mais importante guerra que as democracias hoje têm de travar é a da verdade. Tudo o que acontecer no futuro nas nossas comunidades depende dela. 

Trump quer que militares sejam guerreiros à moda antiga

Há dois meses, neste espaço, mencionei um livro que poderia ajudar a compreender Trump. O livro é “Male fantasies” (“Fantasias masculinas”), de Klaus Theweleit. É um estudo profundo sobre a psicologia dos Freikorps, um exército voluntário que esmagou o movimento operário, integrando-se mais tarde às tropas nazistas.

Constato que exagerei nas expectativas. Mais de um século é tempo suficiente para muitas mudanças. Essa é a conclusão que tiro do encontro de 800 oficiais de alta patente com Trump, na base da Marinha em Quantico, Virgínia.


Mesmo assim, confesso que aprendi um pouco. Os Freikorps eram uma espécie de milícia que se funde com o Exército. No caso de Trump, ele pede exatamente o contrário a seus generais. Quer que se exercitem nas cidades americanas para combater, sem uniforme, o inimigo interno: traficantes e estrangeiros não documentados.

Fico imaginando generais que se preparam para guerras sofisticadas terem de rever seus planos para estourar bocas de fumo ou perseguir uma pobre família guatemalteca sem documentos.

O ministro da Guerra, Pete Hegseth, definiu o padrão masculino, investindo contra os generais gordos que viu no Pentágono. Todos devem fazer exercícios físicos e perder peso. Essa é uma novidade que não combina com a época. A guerra moderna é feita com computadores e drones. Um general gordo que domine essa tecnologia pode derrotar facilmente seu rival esbelto.

Ele proibiu também barba e cabelos longos, embora não existam indicações de que esses itens possam atrapalhar um guerreiro. Os Freikorps excluíam mulheres porque detestavam seus corpos e sexualidade. Mesmo a maternal figura da enfermeira no front era considerada uma intrusão no unissexual mundo da guerra.

Hegseth aceita mulheres desde que confirmem sua capacidade física, tenham desempenho no nível da força masculina. A exclusão de gays é um ponto comum, relativamente. No Exército alemão, ser afeminado era vergonha suprema. Bertolt Brecht, numa entrada em seu diário em 27 de maio de 1942, escreveu:

— Passando uma hora da tarde com Feuchtwanger em seu belo jardim. Ele disse que, agora, há injeções de hormônio no Exército que removem quaisquer traços de homossexualidade. Elas têm de ser renovadas no prazo de alguns meses, mas agora o Exército não terá nenhuma graça mesmo para homossexuais.

Brecht se abstém de dizer alguma coisa simpática aos gays. Parece que acreditou mesmo que todos os traços de homossexualidade seriam removidos por essa intervenção médica.

Contudo na fala de Pete Hegseth há algo novo. Ele diz que não quer mais homens vestidos de mulher. Uma clara alusão às mulheres trans. As transições assistidas pela medicina são um fenômeno moderno.

Dessa forma, usando homem vestido de mulher, Pete Hegseth lançou um anátema a uma forma da luta num exército que tem bombas nucleares, mísseis e drones: a luta de espada. No mundo trans, a luta de espadas é uma metáfora frequente, e qualquer derrota para um soldado seria também a grande vergonha de ocupar o lugar de mulher.

Muita coisa mudou nestes cem anos, mas o tema de estudo sobre os Freikorps permanece de pé: como a produção do desejo se transforma na produção da morte.

Hegseth tomou a primeira providência: não é mais ministro da Defesa, mas sim da Guerra.

A história que se repete

Se há duas coisas que se repetem na História, uma é a ideia de que os tempos presentes são importantíssimos para o futuro. A outra é de que isto nunca esteve tão mau.

O resto são acrescentos. Pensávamos há uns anos que tínhamos batido no fundo, mas mal sabíamos a sorte que tínhamos: ainda estávamos no ar, a dançar o minueto com as borboletas.

Os jovens já não respeitam os velhos. E dantes? Dantes, sim, respeitavam: que remédio! Quem não respeitasse ia para as masmorras.

Mas se, de repente, voltássemos ao ano 2000 ou a 1970 ou a 1315 ficaríamos horrorizados. Ficaríamos horrorizados com o pouco que tínhamos, o pouco que sabíamos, o pouco que nos importávamos.


A verdade imutável é só uma: o ser humano é descontente. É vaidoso: quer viver num tempo importante. Quer assistir, quer fazer parte, quer lamentar. É ambicioso: quer deixar a marca, quer melhorar, quer intervir, quer que digam que valeu a pena ele viver.

A pessoa descontente passa por séria, passa por preocupada, passa por filosófica. Mas ver os defeitos é a coisa mais fácil à face da Terra. O que é difícil é detectar, no meio de tanta desgraça habitual, as qualidades.

A ideia de que isto vai de mal a pior é que é a ideia dominante da cultura. Muitos veem uma oportunidade de tentar melhorar as coisas, mas todos concordam que os tempos são maus e que as pessoas não querem saber.

Quem é que se safa desta desgraça multifacetada? O opinador. O contemplador. Ou seja, cada um de nós quando opina ou contempla, depois de ter passado 30 segundos a pensar nos problemas da humanidade.

É esse o problema: a criança que grita que o imperador vai nu é considerada um herói. Já fez o que tinha a fazer.

Mas apenas disse o que viu. Não pensou. Não criou. Não ajudou ninguém. Nem sequer se pode dizer que foi honesto – apenas que não colaborou na decepção.

Somos todos como esse menino. Dizemos que isto está mal e dão-nos o passe para continuar exatamente como estávamos.

É bom negócio.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Pensamento do Dia

 


É obrigatório chorar os mortos na internet

Uma das melhores coisas de usar apenas socialmente as redes sociais — além de dar uma folga aos haters, claro — é não ter de fazer o obituário de cada celebridade que “nos deixa”.

Essa é uma das leis não escritas da internet: morreu alguém relevante, torna-se quase mandatório exibir algum vínculo com o famoso que nunca soube da nossa existência — mas, depois do último suspiro, é como se fosse o padrinho que nos pegou no colo, a tia de consideração que todo Natal mandava meias de presente.

Em cada um que morre, morremos um pouco. Vai com o morto parte da nossa história, da nossa memória afetiva. Estivemos vivos juntos — nós aqui, em Coxiporé do Norte, ele lá em Los Angeles ou no Leblon. Sob o mesmo sol — nós, na canícula; ele sob um ombrelone — e respirando o mesmo ar — vá lá, a atmosfera do mesmo planeta: a nossa com o monóxido de carbono da Avenida Brasil, a dele com a lavanda da Provença. Mas a morte nos irmana.


Claudia Cardinale, no auge da beleza, apareceu em inúmeros tributos on-line, inclusive na página de quem nem imaginava que ainda estivesse viva. Seu memorial virtual terá vindo poucas postagens depois do pesar pelo passamento de Robert Redford, inesquecível como Butch Cassidy (ou seria o Sundance Kid?), que os mais jovens só conhecem como o barbudo que acena, num meme. Pouco antes, no pesar por Terence Stamp, ora a foto do General Zod de “Superman”, ora a de Bernadette, em “Priscilla, a rainha do deserto”, quase nunca a do visitante sem nome de “Teorema”. Não nos iludamos: cada um de nós enterra um morto diferente, ainda que sob o mesmo nome.

Lamentar que Hermeto ou Arlindo Cruz “se foram” (dá-lhe eufemismo nessa hora!) supre o fato de nunca termos tido um único disco deles. Que o último filme do Gene Hackman que vimos tenha sido “Os imperdoáveis” ou “Operação França” (era ele, não?) é o de menos. Seu trágico fim é a chance de que precisamos para nos redimir de tê-lo esquecido esse tempo todo.

Por menos que se conheça a obra de alguém, a rede social impelirá a um panegírico post mortem, em sinal de pertencimento à tribo. Fará parte do luto, real ou performático, uma breve citação ao amor, meu grande amor, por Angela Ro Ro, ao insensato coração de Nana Caymmi ou, entregando a idade, um verso descontextualizado de “Rock’n’roll lullaby” por Francisco Cuoco.

Morremos muitos (você, eu, Ed Mort, Dora Avante, a velhinha, o analista, as cobras, as palavras) com o Veríssimo. Morre um tanto do que eu sei, mas não devia, e da implosão da verdade, com Marina Colasanti e Affonso Romano. No Facebook e no Instagram, com usuários cada vez mais velhos, lamentamos na dos outros nossa morte antecipada. É por nós que os sinos virtuais dobrariam, caso existissem; é a nós que todos os obituários se referem.

Se Françoise Hardy, Alain Delon e Rita Lee morreram, então é provável que ninguém escape da iniludível. E, cada vez mais solitários, será com a plateia amorfa e anônima das redes que compartilharemos a angústia de perceber que os da nossa idade não precisam mais dos artifícios de acidentes ou de overdoses para ir estudar a geologia dos campos santos.

Larguei de mão as redes sociais porque não me faz bem ser odiado e prefiro não odiar ninguém. Mas ando com uma paradoxal síndrome de abstinência desse velório virtual promovido cada vez que morremos um pouco. E como temos morrido ultimamente!

Ministro da Guerra é o perigo de Trump duplicado

Ninguém precisou jurar nada em Quantico. Pelo menos não de público. Os 800 oficiais de alta patente convocados inopinadamente à base de Fuzileiros Navais pelo ministro da Guerra americano, Pete Hegseth, puderam fazer cara de paisagem. Nada que lembrasse o famoso juramento pessoal exigido de cada integrante das Forças Armadas alemãs em agosto de 1934, prenunciando a hecatombe que se seguiu:

— Faço o sagrado juramento de que prestarei obediência incondicional a Adolf Hitler, Führer do Reich e do povo alemão, Comandante Supremo da Wehrmacht.

A imposição de 90 anos atrás, etapa crucial para a nazificação do aparato militar germânico, estabeleceu o fatídico vínculo rijo entre Hitler e o estamento. A lealdade ao país e à sua base constitucional foi transmutada em fidelidade direta ao líder único. Recusar o juramento passou a ser crime grave, e a obediência ao Führer precisava ser irrestrita — até para cometer os crimes de guerra que se seguiriam.


Em Quantico, sentados no auditório feito colegiais ouvindo palestra que vale nota no final do ano, generais e almirantes multicondecorados responderam ao que ouviram com polido aplauso ao final. Nada lhes foi exigido de forma explícita, além de perder peso, cortar cabelo e barba e ser macho. Mesmo assim, fica uma baita esquisitice no ar.

— Chega de regras de engajamento politicamente corretas e excessivamente restritivas — comunicou Hegseth.

Ele frisou que a missão militar da era trumpista é “desatar as mãos dos nossos combatentes para intimidar, desmoralizar, caçar e matar os inimigos” e que considerava frouxo o “etos guerreiro” das Forças Armadas atuais, apegadas a “regras de engajamento estúpidas” para quem vai à guerra. Esqueceu que a Convenção de Genebra e as regras de engajamento bélico não se destinam a impedir que combatentes matem inimigos. Elas se destinam, entre outros objetivos, a responsabilizar soldados que fuzilam cinco crianças e dois adultos assustados dentro de um carro em Bagdá, apenas porque o motorista estava nervoso — uma das inúmeras aberrações criminosas praticadas por G.I.s americanos ou terceirizados durante a guerra no Iraque.

Hegseth, catapultado aos 45 anos para chefiar o Departamento de Defesa da superpotência, goza de apreço zero junto a boa parte do oficialato de carreira. Sua desqualificação para o cargo é vista como ofensiva por ombros estrelados, e não deve ter sido suave receber lição de liderança militar de quem não tem mais do que oito meses de experiência no front (oficial de Infantaria do Iraque e Afeganistão), mais alguns anos na Guarda Nacional e o resto da carreira como comentarista na Fox News. Ele acabara de ser incorporado à 3ª Brigada da 101ª Divisão Aerotransportada quando soldados daquela unidade foram denunciados por matar a sangue-frio três prisioneiros iraquianos na invasão daquele país. O atual secretário não teve qualquer participação no episódio, mas dele teve conhecimento à época. E parece se servir de uma falsa dicotomia — letalidade ou profissionalismo — para alicerçar a doutrina de guerra exposta em Quantico: segundo ele, as derrotas militares dos Estados Unidos desde 2001 se devem às restrições impostas às regras de engajamento. Todos os presidentes da época foram frouxos. Trump não é nem será.

O exercício de musculatura verbal durou 45 minutos e foi mais coreografado do que uma palestra TED. Hegseth trafegou pelo palco com o torso malhado estourando pelo paletó (nas comemorações do 81º aniversário do Dia D, já se fizera fotografar em exercícios com uma unidade de Rangers em Omaha Beach) e deve ter se inebriado com a telegenia do próprio desempenho. Tinha a seus pés, silencioso, o top brass que efetivamente comanda as operações militares da superpotência mundial em terra, mar e ar, no espaço e no ciberespaço. O motivo para tamanha encenação declaratória e de sublimação do desempenho físico como atributo moral? Segundo Tom Nichols, da revista The Atlantic, foi “para botar todos os cavalos no estábulo e chicoteá-los até entrarem em forma”.

O deslocamento simultâneo e múltiplo de todo o comando militar americano para um mesmo local fartamente divulgado foi um risco que Hegseth tomou sem pestanejar. Por que transtornar o trabalho e a rotina de centenas de funcionários graduados?

— Porque eu posso — costuma responder Trump quando indagado sobre alguma de suas medidas aberrantes.

Para o historiador Timothy W. Ryback, diretor do Instituto de Justiça Histórica e Reconciliação, em Haia, Hegseth emula o líder.

— Ele parece ter a mesma necessidade de fazer coisas que outros consideram insanas como forma de demonstrar força — diz Ryback, autor de “Takeover: Hitler’s final rise to power”.

Um perigo, em suma. Ou melhor, dois perigos.

Símbolo de resistência global: Israel teme as flotilhas de Gaza

Basta examinar as ações e a retórica do governo israelense para compreender plenamente a profunda importância das flotilhas de solidariedade com destino a Gaza. Com a partida da mais recente e significativa dessas iniciativas, a Flotilha da Solidariedade Global, o discurso hostil de Israel se intensificou, articulado com a maior veemência pelo Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir.

O ministro extremista declarou ameaçadoramente que todos os voluntários a bordo da Flotilha são "terroristas", prometendo que serão tratados como tal. Para compreender o significado assustador de tratar ativistas não violentos como terroristas, é preciso considerar uma investigação recente do jornal The Guardian. A reportagem expôs que, dos 6.000 palestinos detidos em Gaza durante os primeiros 19 meses do genocídio, todos estavam sob uma lei que os classifica como "combatentes ilegais", ou seja, terroristas, o que permite prisão por tempo indeterminado.

Esta investigação revelou que a grande maioria dos encarcerados por Israel são, na verdade, civis, incluindo profissionais de saúde, professores, jornalistas, funcionários públicos e crianças. O fato de Israel estender essa mesma definição draconiana a ativistas internacionais, cuja missão declarada é romper o cerco a Gaza, ressalta fortemente o valor político e estratégico dessas missões aos olhos de Israel.

O medo profundo de Israel do envolvimento da sociedade civil em sua ocupação militar e na guerra contra o povo palestino não é um acontecimento recente. O genocídio em curso apenas evidenciou o fracasso total do sistema jurídico e político internacional e, por sua vez, a crescente importância da sociedade civil.

Quando o primeiro barco de solidariedade, enviado pelo Movimento Gaza Livre, chegou a Gaza em 2008, Israel ficou indignado. Os ativistas atuaram como embaixadores cruciais, educando suas comunidades sobre o cerco israelense à Faixa de Gaza. A resposta de Tel Aviv à Flotilha da Liberdade de Gaza de 2010, que incluía o MV Mavi Marmara, foi letal. Comandos israelenses mataram 10 ativistas, enviando uma mensagem severa de que Israel não toleraria qualquer interferência, mesmo de instituições de caridade ocidentais conhecidas e respeitadas, em sua guerra contra os palestinos.

Desde então, tratar ativistas como criminosos tornou-se um procedimento operacional padrão, reforçado pelo fato de que nenhum israelense jamais foi responsabilizado pela violência ultrajante contra civis. Isso, no entanto, não desanimou os ativistas solidários, que tentaram navegar repetidas vezes – em 2011, 2015 e 2018. A eventual infrequência dessas missões não se deveu à falta de interesse, mas sim ao fato de que alguns países europeus, em coordenação com Israel, fizeram tudo ao seu alcance para impedir que os ativistas zarpassem.

Essa dinâmica mudou drasticamente com o atual genocídio. A solidariedade com os palestinos em Gaza aumentou e agora domina muitas sociedades europeias, conquistando o apoio de vários governos, incluindo o espanhol, de onde embarcou a mais recente Flotilha da Solidariedade Global. Partindo de Barcelona, ​​os barcos foram acompanhados por outros ao longo do caminho. Eles transportarão coletivamente suprimentos vitais para Gaza, sabendo muito bem que suas chances de serem interceptados e apreendidos, juntamente com sua carga vital, são muito maiores do que suas chances de chegar à Faixa costeira sitiada.

Essa dura realidade foi reforçada por eventos recentes. A flotilha Conscience, por exemplo, foi alvo de drones na costa de Malta em maio passado. Enquanto isso, o Madleen e o Handala foram apreendidos e confiscados em junho e julho. Antes do ataque ao Madleen, o Ministro da Defesa Israel Katz descreveu Greta Thunberg, a renomada ativista internacional que se juntou à flotilha, como "antissemita". Ele emitiu um alerta: "É melhor vocês voltarem... porque não chegarão a Gaza. Israel agirá contra qualquer tentativa de romper o bloqueio ou de ajudar organizações terroristas."

Essa fúria ecoa a linguagem irada e as ações violentas consistentemente usadas pelos governos israelenses contra qualquer pessoa ou entidade que ouse desafiar o cerco israelense a Gaza. Mas por que tanta fúria? Essas iniciativas aparentemente pequenas e subfinanciadas, por si só, dificilmente são suficientes para romper o cerco a Gaza ou para alimentar os dois milhões de pessoas que estão sofrendo genocídio e fome.

Israel tem plena consciência da poderosa eficácia da ação da sociedade civil no caso da Palestina. De fato, a maior parte da defesa dos direitos palestinos em todo o mundo não se origina daqueles que se dizem representantes do povo palestino, mas da sociedade civil em geral. Isso inclui uma ampla gama de ações: advocacy política que pressiona governos, advocacy jurídica que responsabiliza os Estados perante o direito internacional, pressão econômica por meio de iniciativas de desinvestimento e boicote, boicotes culturais e acadêmicos e mobilização popular massiva.

As flotilhas de solidariedade são, portanto, uma expressão poderosa de até onde a sociedade civil está disposta a ir para realizar o trabalho que deveria ser de responsabilidade de governos e instituições internacionais. A ameaça explícita de Ben-Gvir de tratar ativistas como "terroristas" é um reflexo direto dos temores israelenses e, paradoxalmente, um forte reconhecimento da crescente influência do movimento de solidariedade internacional.

Embora, em última análise, seja o povo palestino, sua sumud (firmeza) e resiliência que derrotarão o estratagema israelense, não se deve subestimar o papel crucial da solidariedade internacional. As flotilhas da liberdade não são atos isolados a serem julgados com base em sua capacidade de chegar a Gaza. Em vez disso, são uma peça vital de um intrincado processo global que, em última análise, levará ao profundo isolamento de Israel no cenário internacional — um processo que já começou com considerável sucesso.

Trump e seu sistema de ponta cabeça

O presidente Trump está botando os Estados Unidos e o mundo de ponta cabeça. Está fazendo pouco caso da ONU. Pulverizou a política neoliberal e, em seu lugar, instaurou o protecionismo tosco. Destruiu o regime de livre comércio e, em seu lugar, implantou o tarifaço. A partir daí, vai escanteando a Organização Mundial do Comércio (OMC), a instituição xerife do comércio global. Não tem o menor escrúpulo em intervir nos países cujos governos não se ajustam a seus interesses. Avisou que pretende incorporar o Canadá e a Groenlândia. Despeja, sem dó nem piedade, imigrantes que não contam com a documentação em dia. Pressiona o quanto pode o Federal Reserve (Fed, banco central) para enquadrar sua política de juros a seus próprios desígnios. Força o uso de leis para cumprimento dos seus interesses, como é o caso da lei Magnitsky. E vai manobrando para controlar o poder Judiciário local.

Seu objetivo declarado é restabelecer a antiga hegemonia dos Estados Unidos e refortalecer a indústria, que vinha sendo desidratada. Para isso, manobra para obter uma desvalorização controlada do dólar e, assim, ajudar a indústria a restabelecer a competitividade perdida.

Enfim, é uma política em flagrante contradição com a história econômica e política dos últimos 100 anos, que leva o risco


O tarifaço parece não levar em conta que cerca de 80% do PIB dos Estados Unidos, ocupado pelo setor de serviços, tem pouca reação à imposição de taxas alfandegárias. Além disso, a desvalorização do dólar solapa sua condição de reserva de valor.

A questão mais importante não são os efeitos dessa reviravolta na condução da política.

Está em que não há reação consistente a ela pelas instituições democráticas de Estado, nem pela ação dos políticos, nem pela opinião pública. Tudo se passa como se a sociedade dos Estados Unidos esteja satisfeita com o novo rumo de Trump.

O norte-americano médio se sente vítima de um longo processo perdedor e sabotador do consagrado sonho americano. E agora entende que, finalmente, seu governo está atendendo a suas expectativas.

Na Alemanha dos anos 20 e 30, não foram apenas as imposições humilhantes do Tratado de Versailles que criaram as condições para a incubação do ovo da serpente. Foi, principalmente o sentimento do alemão médio de que suas expectativas haviam sido arruinadas.

Por enquanto, não há substituto para o dólar nem para o título de dívida de alta liquidez como o do Tesouro dos Estados Unidos. No entanto a dívida dos Estados Unidos vai atingindo níveis preocupantes, tanto que sua qualidade já foi objeto de rebaixamento pelas agências de avaliação de risco.

A insatisfação geral do cidadão dos Estados Unidos é o atual caldo de cultura que sabota o atual sistema de pesos e contrapesos, a garantia da solidez do sistema democrático, e propicia a propagação do jogo autoritário ao redor do mundo.

Contra a violência

Imagine-se que durante uns dias deixássemos de poder ler o que se escreve. As letras esvaíam-se e só ficava um borrão. Mesmo assim, seríamos capazes de ver a intensidade do que estava escrito: a temperatura, por assim dizer.

Sem poder saber se uma coisa era portuguesa ou não, ou de esquerda ou de direita, ou de um amigo ou inimigo – ou se concordávamos ou não com o que dizia –, apenas sobressairiam as principais características de cada discurso.

Estou convencido de que a principal característica seria a violência.

É a violência do que se propõe, mas também a violência com que é proposto.


Os leitores gostam de violência. Gostam de ver os maus a levar na cabeça. Pelam-se por isso. Acham que se fez justiça.

Claro que a ideia de quem são os maus é que muda de pessoa para pessoa, mas a sensação de injustiça e o gosto pela violência são dificílimos de desligar – sobretudo numa sociedade em que os mecanismos legais não funcionam como todos desejariam.

Ao falar de uma violência, a percepção dessa violência difere (é justa ou injusta?), mas de ambos os lados a reacção é expressa com a mesma violência.

Não é só nos EUA: é em todo o Ocidente. De repente, até os mais moderados começaram a falar com violência, a tratar os adversários com violência verbal, subindo o tom com a maior das naturalidades, sempre com a desculpa de ter de ser assim, “porque senão ninguém repara”

Sempre houve gente zangada. Mas agora exige-se que se zanguem. Já ninguém finge sequer que respeita os adversários: os adversários são para “abater”, são para “arrasar”.

À violência da expressão, que embrutece tudo, e obriga toda a gente a arrumar-se segundo as mais toscas “polarizações”, acresce a violência de nunca ter uma dúvida, de nunca pensar duas vezes, de ser incapaz de se pôr no lugar de quem ataca ou de quem o ataca.

O gosto da violência é um vício que apanha toda a gente, e que precisa de se ir intensificando para manter o sabor.

Faz medo.

Como é que se volta atrás?

O silêncio dos generais

O silêncio com que generais e almirantes receberam Donald Trump, num encontro inédito, na Base do Corpo de Fuzileiros Navais de Quantico, Virgínia, parece ter surpreendido o próprio orador.

— Nunca tinha entrado numa sala tão silenciosa — confessou Trump, antes de cometer mais um delírio verbal, no qual afirmou pretender usar cidades americanas como “campos de treinamento” para as forças armadas.

O estranho encontro ficou também marcado pelas palavras do secretário da Guerra, Pete Hegseth, que, entre outras bizarrias, se insurgiu contra os generais gordos. A partir de agora, caso Hegseth consiga impor a sua vontade, não haverá mais generais gordos, nem barbudos, nas forças armadas americanas. Também não haverá mulheres.


A História mostra-nos como, tantas vezes, líderes poderosos acabam derrotados, não por inimigos externos, mas pela insidiosa erosão daquilo a que se costuma chamar a seriedade do cargo. A autoridade não reside apenas na força das leis e das armas. Depende também da representação simbólica — gestos, contenção, gravidade. Ao expor-se ao ridículo, degradando esse capital invisível, um chefe de Estado cava seu próprio túmulo político.

“Passa-se sete vezes uma gargalhada em volta de uma instituição e a instituição alui-se”, alertava Eça de Queirós.

O caso do imperador romano Cômodo é um bom exemplo. Filho do imperador Marco Aurélio, que se distinguiu não só nos campos de batalha e na diplomacia, mas também na filosofia — as suas “Meditações” são consideradas essenciais para a compreensão da filosofia estoica —, Cômodo parecia predestinado a uma vida sóbria e sábia. Aconteceu o contrário. Contrariando o exemplo e a filosofia do pai, o jovem imperador entregou-se a todo tipo de excentricidades, vícios e palhaçadas. Fantasiava-se de Hércules; renomeou os meses do calendário romano com os seus próprios títulos e epítetos, e chegou a rebatizar Roma com o nome de Colônia Comodiana. Também gostava de se apresentar nas arenas como gladiador, e, sem surpresa, vencia todos os combates.

Aqueles tristes espetáculos corroíam a dignidade imperial. Não era apenas um homem de quem todos troçavam. Ao rir-se dele, a população escarnecia também do trono de Roma. Para muitos, na aristocracia, e no exército romano, a situação tornou-se intolerável. Os guardas que deviam defendê-lo acabaram asfixiando-o no banho.

A política moderna exige idênticos rituais de responsabilidade. Presidentes podem ser populistas, irônicos, até mesmo brutais — mas convém que não ridicularizem de forma sistemática a função que ocupam.

Donald Trump tem vindo a repetir, em versão contemporânea, a trágica farsa de Cômodo. Transformou a Casa Branca, agora forrada de ouro falso, num circo romano, e os encontros com altos dignatários estrangeiros em combates de gladiadores, nos quais achincalha os adversários, enquanto os seus cortesãos aplaudem. A democracia americana virou um deprimente reality show.

Há quem não consiga rir. O silêncio que Trump enfrentou, na sua reunião com os generais, estava carregado de cólera e de rancor. No lugar dele teria cuidado na hora do banho.