Ainda que seja impotente e sempre perdedora quando colide frontalmente com o poder, a verdade possui uma força que lhe é própria: seja o que possa afirmar e alardear quem detém esse poder, ele sempre será incapaz de descobrir um substituto viável para ela, dizia Hannah Arendt na década de 1950 em um ensaio sobre a verdade e a política escrito. A história revela que a manipulação de informações factuais, a persuasão e a violência podem até destruir a verdade. No entanto, jamais conseguirão substitui-la, concluía.
Quase duas décadas depois, quando o presidente republicano Richard Nixon se envolveu em uma política agressiva e aventureira contra seus adversários democratas e tentou ocultar abusos que o levariam a renunciar ao cargo, Arendt voltaria ao tema. Em seu ensaio sobre a mentira na política, escrito a partir do vazamento de documentos o Pentágono que mostravam como o governo Nixon se preocupava mais com medidas eleiçoeiras do que com o interesse público e o bem seja comum, ela lembrou a Primeira Emenda da Constituição americana de 1787. Esse é o dispositivo que garante a liberdade de expressão, de imprensa e de reunião pacífica e proíbe o estabelecimento de uma religião oficial ou a limitação do exercício de outras religiões.
Quando são efetivas, essas liberdades norteiam as dimensões públicas da vida social. Elas asseguram direitos básicos a todos os cidadãos, abrindo desse modo caminho para que cada pessoa possa usufruir sua cidadania ao máximo. Ao avaliar se a Primeira Emenda da Constituição americana seria suficiente para proteger o direito às informações não manipuladas dos fatos, Arendt afirmou que, sem ela, a liberdade de opinião não passaria de uma “farsa cruel” ou indiciosa.
Com o retorno do republicano Donald Trump à Casa Branca, sua aversão ao pluralismo, seu desprezo a direitos fundamentais e suas pressões sobre reitores começaram a invadir as universidades americanas, em cujo âmbito a liberdade de opinião e o livre debate sempre estiveram na essência de sua legitimidade e de seu papel na formação das novas gerações. Ou seja, o que Hannah Arendt chamou de “farsa cruel” está de volta novamente.
Uma prova disso foi um ofício enviado por um procurador trumpista ao reitor da Georgetown Law School. Criada há 236 anos por padres jesuítas, ela se destaca pela ênfase, em seus cursos, à diversidade, à equidade e à inclusão. Em seu ofício, o procurador disse que esses princípios são inaceitáveis pelo governo Trump e fez duas ameaças. Em primeiro lugar, se a instituição não abandonasse esses princípios, seus formandos seriam proibidos de trabalhar na administração federal. Em segundo lugar, os funcionários públicos federais que nela se graduaram também seriam demitidos, o que já começou a ocorrer.
Dias depois, a ofensiva trumpista contra a liberdade acadêmica e as mentiras invocadas para justificá-la, por um lado, e para tentar a discricionaridade do Executivo em detrimento das prerrogativas dos demais poderes, por outro, aumentaram. Parte do financiamento às pesquisas científicas no campo da medicina foi simplesmente cortada. Verbas de subsídio no valor de US 420 milhões para a Columbia University deixaram de ser transferidas até que ela reformulasse seus programas com base nos valores trumpistas, o que acabou acontecendo, comprometendo assim a imagem da instituição. A University of Pennsylvania e a Johns Hopkins University foram afrontadas. Professores americanos com descendência libanesa e árabe que foram participar de seminários acadêmicos em outros países foram detidos ao retornar e deportados – uma decisão tomada sem qualquer base constitucional. Magistrados de diferentes instâncias judiciais que acolheram recursos judiciais contra as ilegalidades do governo Trump foram por ele classificados como “corruptos”, “ativistas” e “marxistas radicais”. E escritórios de advocacia contratados por adversários ou por simples intelectuais críticos do trumpismo foram ameaçados pelo governo, o que os levou a perder grandes clientes corporativos.
Argumentos como esses, formulados com o objetivo de desafiar ordens judiciais e testar limites constitucionais cada vez que suas decisões são barradas pelos tribunais, mostram o que ocorre quando o poder político entra em guerra com a verdade em todas suas formas, como dizia Arendt nos ensaios acima mencionados. Contudo, mesmo que cada geração tenha o direito de forjar e afirmar sua própria história, em hipótese alguma pode-se admitir que ela tenha o direito de rearranjar fatos de acordo com sua própria perspectiva.
Uma coisa é discutir opiniões inoportunas, rejeitá-las, chegar a um compromisso acerca delas. É compreender o quanto pesquisas acadêmicas e liberdade de pensamento propiciam a conscientização de uma condição social, de um lado, e entender como o trabalho científico se converte em parte realidade como pensamento e prática, de outro lado. Outra coisa é construir narrativas com base em mentiras, sejam elas ardilosas. A marca distintiva da verdade factual consiste em que seu contrário não é o erro ou a ilusão. É, isto sim, a falsidade deliberada, a manipulação de fatos e opiniões – ou seja, a mentira, lembrava Arendt.
Que Trump sempre foi um embusteiro que construiu tanto sua fama com base no fato de que mentiras públicas são mais plausíveis do que a verdade, isso é sabido há muito tempo. Agora, o problema é saber o quanto de estragos ele fará, desafiando o Judiciário, enfraquecendo o império da lei e corroendo a democracia por meio das ameaças, intimidações e mentiras a que vem recorrendo com o objetivo de investir contra as liberdade de pensamento e de expressão que estão essência da vida acadêmica.
A produção sem censura de conhecimento é a função precípua da Universidade enquanto locus autônomo de poder econômico e político; enquanto espaço de liberdade de criação e de pensamento independente e aberto ao diálogo. Conhecimento não é apenas sinônimo de prestígio e autoridade. É, também, instrumento de poder acadêmico e institucional, ora reproduzindo um padrão de organização econômica, ora criticando suas estruturas para tentar torná-las mais justas. Como poder, o conhecimento está na essência das revoluções paradigmáticas da ciência. No campo social, é instrumento para mobilizações e protestos. No campo político, é instrumento para o questionamento contínuo da ordem estabelecida.
Na dinâmica da produção do conhecimento, as heterodoxias muitas vezes são mais importantes do que as ortodoxias na vida acadêmica. Elas viabilizam o avanço do conhecimento ao propiciar críticas às teorias prevalecentes, identificando suas contradições com relação aos fenômenos que pretendem compreender. Ao questionar o senso comum teórico que assegura a reprodução dos valores dominantes e ao modificar procedimentos convencionais de pesquisa, as heterodoxias também ajudam a abreviar os períodos de pobreza científica.
Contudo, elas têm seu preço. No passado, os Estados Unidos tiveram a caça às bruxas promovidas pelo macartismo. Agora, no âmbito da intolerância, do obscurantismo e da imoralidade trumpistas, esse preço implica o desprezo à tentativa de exercitar uma imaginação criadora capaz de habilitar os americanos a decifrar o sentido dos acontecimentos e a pensar o futuro como história. Ao investir contra instituições acadêmicas de ponta que formam as elites intelectuais, produzem ideias, geram inovações e desenvolvem pesquisas que alargam as fronteiras da ciência, sob o pretexto de que elas constituem um locus de reprodução de conhecimentos adversos e de propagação ideológica, o trumpismo – e sua versão borrada entre nós, o bolsonarista – não são apenas toscos e cruéis. Pecam, também, pela ausência de escrúpulos e pela sordidez moral.
quinta-feira, 10 de abril de 2025
Também somos natureza
Se a natureza não estiver próspera, as pessoas como espécie vão ter mais problemas físicos, mentais e emocionais. Em termos de alimentação, é a mesma coisa, tal como economia. Sem natureza, não temos todas as coisas de que as pessoas gostam e que querem consumir, ou seja, falta fazer a ligação com a espécie humana. Demonstrar que nós também somos natureza.
Ângela Morgado, diretora-executiva da WWF Portugal
Confissões de um iluminista céptico
Eu sou um iluminista céptico, umas vezes mais iluminista, muitas mais vezes mais céptico. O que é que isto significa? Significa que, em matéria de saber se os homens nascem bons ou maus, se sou mais do lado de Hobbes ou de Rousseau, sou mais do lado de Hobbes – ou seja, nascem maus. Na verdade, nascem animais, ou seja, feitos para se comerem uns aos outros, prática que, sob múltiplas formas, explica o egoísmo, a ganância, o desprezo pelos mais fracos, o espezinhar os que não têm defesa, a indiferença face à pobreza e a miséria, a violência e a aceitação reverente do poder porque é poder, o medo. Ou seja, o “homem é de facto o lobo do homem”.
Parte-se a frágil película daquilo a que chamamos “civilização”, “democracia”, “solidariedade”, respeito pelos outros, o shakespeariano “milk of human kindness” e aí vem o animal, com os dentes de fora, ou o rebanho, ou a alcateia. Aqui é que entra o iluminista, a ideia de que o único antídoto para esta animalidade é aquilo a que chamamos “cultura” no sentido mais lato do termo, ou seja, a tentativa na sociedade de criar uma mediação para a violência da animalidade natural, ou seja, a única possibilidade de encontrar em sociedade o modo de materializar os contravalores da violência, o equilíbrio, a educação, o conhecimento, o bem-estar social, para a felicidade terrestre, mas também dos valores da resistência, da revolta contra a injustiça, da equidade e da paz.
Nesta perplexidade contraditória, penso que Hobbes ganha sempre a longo prazo, mas Rousseau dá-nos momentos frágeis em que a humanidade, quase sempre parte da humanidade, pode atravessar o seu período de vida melhor do que no passado. Na minha vida já conheci alguns desses momentos, a paz europeia desde 1945 até ao início do conflito jugoslavo, a melhoria das condições de vida em quase todo o mundo, melhor medicina, maior conhecimento do Universo, a ida à Lua, a queda do Muro de Berlim, o 25 de Abril, a democracia em Portugal, a diminuição de algumas violências históricas: a tortura, a pena de morte, a violência contra as mulheres, etc. Repare-se que escrevi “diminuição”.
Em 2025, tudo isto está a desabar, e Hobbes a ganhar. Personagens como Trump, Musk, Milei, Orbán, Erdogan, Putin, Bibi são os homens do momento, os que estão com a “seta da história”. Ao lado deles, a senhora Le Pen é uma figurinha. Os EUA mudaram de campo e a sua democracia está a desaparecer, a mentira tornou-se tão comum que a verdade está no exílio. Nas guerras injustas, como a da Ucrânia invadida pela Rússia, o nome orwelliano da rendição imposta pela traição e pela força é “paz”. Na Palestina, assiste-se quase sem comoção a todas as violências e crueldades, enredados em frágeis acusações de antissemitismo para matar habitualmente velhos, mulheres e crianças e, de vez em quando, um terrorista do Hamas. A democracia está a erodir-se por dentro entre deslumbramentos tecnológicos e lucros mais amorais do que é habitual. Todas as mediações tradicionais que funcionavam ao lado das democracias, família, igreja, partidos, sindicatos, mídia de referência, saber científico, primado da lei, estão a ser substituídas pela selvajaria das redes sociais, pela desinformação e pelo espelho do mal, muito mais poderoso do que o bem. As novas gerações têm como modelo os brutos e as bonequinhas com batom aos saltos no Tik-Tok.
Nada disto é novo na história, e sempre deu aos milhões de homens e mulheres que viveram nesses tempos uma vida miserável, dura e cruel. É possível resistir? Claro que é, mas com mais coragem, determinação, astúcia e intransigência. E aceitar viver com mais riscos, mais dificuldades, mais sacrifício pessoal e colectivo, e acima de tudo sem saber se se vai ganhar. Até porque, nunca como hoje, apesar da cloaca das redes, é mais importante o método de influência dos anarquistas nas aldeias da Estremadura e Andaluzia: a propaganda pelo exemplo.
As Luzes iluminam, mas não garantem nada e é sempre mais difícil resistir sem ter qualquer garantia de se poder travar a Besta que somos nós. A mediação da “cultura”, no sentido lato de uma visão da vida e do mundo que canalize os conflitos para a lei e as instituições, que eduque para se conhecer e defender direitos, que mobilize para a solidariedade e não para o egoísmo, que produza leis e práticas que protejam os mais fracos, com a sanção dos abusos dos mais fortes, que perceba a força e a necessidade de igualdade, tudo isto é o caminho. O problema principal é que tudo isto é artificial, feito pelos homens e mulheres, contra o que é natural, a brutalidade.
Parte-se a frágil película daquilo a que chamamos “civilização”, “democracia”, “solidariedade”, respeito pelos outros, o shakespeariano “milk of human kindness” e aí vem o animal, com os dentes de fora, ou o rebanho, ou a alcateia. Aqui é que entra o iluminista, a ideia de que o único antídoto para esta animalidade é aquilo a que chamamos “cultura” no sentido mais lato do termo, ou seja, a tentativa na sociedade de criar uma mediação para a violência da animalidade natural, ou seja, a única possibilidade de encontrar em sociedade o modo de materializar os contravalores da violência, o equilíbrio, a educação, o conhecimento, o bem-estar social, para a felicidade terrestre, mas também dos valores da resistência, da revolta contra a injustiça, da equidade e da paz.
Nesta perplexidade contraditória, penso que Hobbes ganha sempre a longo prazo, mas Rousseau dá-nos momentos frágeis em que a humanidade, quase sempre parte da humanidade, pode atravessar o seu período de vida melhor do que no passado. Na minha vida já conheci alguns desses momentos, a paz europeia desde 1945 até ao início do conflito jugoslavo, a melhoria das condições de vida em quase todo o mundo, melhor medicina, maior conhecimento do Universo, a ida à Lua, a queda do Muro de Berlim, o 25 de Abril, a democracia em Portugal, a diminuição de algumas violências históricas: a tortura, a pena de morte, a violência contra as mulheres, etc. Repare-se que escrevi “diminuição”.
Em 2025, tudo isto está a desabar, e Hobbes a ganhar. Personagens como Trump, Musk, Milei, Orbán, Erdogan, Putin, Bibi são os homens do momento, os que estão com a “seta da história”. Ao lado deles, a senhora Le Pen é uma figurinha. Os EUA mudaram de campo e a sua democracia está a desaparecer, a mentira tornou-se tão comum que a verdade está no exílio. Nas guerras injustas, como a da Ucrânia invadida pela Rússia, o nome orwelliano da rendição imposta pela traição e pela força é “paz”. Na Palestina, assiste-se quase sem comoção a todas as violências e crueldades, enredados em frágeis acusações de antissemitismo para matar habitualmente velhos, mulheres e crianças e, de vez em quando, um terrorista do Hamas. A democracia está a erodir-se por dentro entre deslumbramentos tecnológicos e lucros mais amorais do que é habitual. Todas as mediações tradicionais que funcionavam ao lado das democracias, família, igreja, partidos, sindicatos, mídia de referência, saber científico, primado da lei, estão a ser substituídas pela selvajaria das redes sociais, pela desinformação e pelo espelho do mal, muito mais poderoso do que o bem. As novas gerações têm como modelo os brutos e as bonequinhas com batom aos saltos no Tik-Tok.
Nada disto é novo na história, e sempre deu aos milhões de homens e mulheres que viveram nesses tempos uma vida miserável, dura e cruel. É possível resistir? Claro que é, mas com mais coragem, determinação, astúcia e intransigência. E aceitar viver com mais riscos, mais dificuldades, mais sacrifício pessoal e colectivo, e acima de tudo sem saber se se vai ganhar. Até porque, nunca como hoje, apesar da cloaca das redes, é mais importante o método de influência dos anarquistas nas aldeias da Estremadura e Andaluzia: a propaganda pelo exemplo.
As Luzes iluminam, mas não garantem nada e é sempre mais difícil resistir sem ter qualquer garantia de se poder travar a Besta que somos nós. A mediação da “cultura”, no sentido lato de uma visão da vida e do mundo que canalize os conflitos para a lei e as instituições, que eduque para se conhecer e defender direitos, que mobilize para a solidariedade e não para o egoísmo, que produza leis e práticas que protejam os mais fracos, com a sanção dos abusos dos mais fortes, que perceba a força e a necessidade de igualdade, tudo isto é o caminho. O problema principal é que tudo isto é artificial, feito pelos homens e mulheres, contra o que é natural, a brutalidade.
quarta-feira, 9 de abril de 2025
As tarifas de Trump vão prejudicar o mundo
Agora sabemos qual economia é a maior ameaça aos Estados Unidos depois da China: Lesoto. Atualmente, a China tem uma tarifa combinada de 54% sob o novo plano de Donald Trump. Mas, aparentemente, Lesoto merece uma tarifa "recíproca" de 50% sobre suas exportações para os EUA, logo à frente dos 49% sobre o Camboja e 46% sobre o Vietnã, seguidos por 32% sobre a Indonésia e Taiwan, 26% sobre a Índia e 20% sobre a UE. O Reino Unido escapa com 10%.
O que talvez seja mais extraordinário sobre a derrubada de quase um século de política comercial é que ninguém, aparentemente, informou ao presidente que um procedimento que coloca Lesoto no degrau mais alto faria os EUA parecerem ridículos. Mas fez —e fez isso porque esse procedimento era ridículo.
Não houve uma análise sutil de todas aquelas supostas barreiras tarifárias e não tarifárias das quais, diz Peter Navarro, ecoando seu chefe, os EUA explorados têm sofrido tão terrivelmente. Não, foi muito mais simples e estúpido. As tarifas propostas são proporcionais ao déficit comercial bilateral dividido pelas importações bilaterais.
A suposição implícita é que, em um mundo justo, o comércio se equilibraria com cada parceiro individual. Isso é uma completa loucura. No entanto, agora se tornou a base intelectual da política comercial do país mais poderoso do mundo —infelizmente, pobre coitado, aparentemente vítima de uma conspiração comercial global.
Não é apenas loucura. É perversidade. Pense na história do envolvimento dos EUA no Vietnã. No entanto, agora, os EUA decidiram tentar interromper seu desenvolvimento econômico. O Vietnã não está sozinho em buscar explorar os benefícios da abertura. De fato, a política comercial convergiu para o liberalismo nas economias emergentes de forma bastante ampla. Eles estavam respondendo a uma promessa que os EUA agora retiraram.
Isso não é nem mesmo todo o trabalho de Trump. Canadá e México ainda são vítimas de suas "tarifas de fentanil". Há uma tarifa de 25% sobre automóveis e as tarifas sobre aço e alumínio também foram aumentadas.
No entanto, as tarifas não fecharão os déficits comerciais. Nos anos 1970, trabalhei na economia indiana, então uma das economias mais protegidas do mundo. Ela tinha grandes superávits comerciais? Não. Sim, tinha uma proporção pequena de importações em relação ao PIB. Mas tinha uma renda ainda menor de exportações. Isso se devia ao impacto adverso da proteção na competitividade das exportações.
Isso agora acontecerá com os EUA: as importações encolherão, mas as exportações também. Os déficits, determinados pela renda e pelo gasto, permanecerão praticamente inalterados. O mundo apenas acabará mais pobre. Como argumenta o Instituto Kiel da Alemanha, os maiores efeitos negativos provavelmente recairão sobre os EUA: a proteção geralmente é um tiro no próprio pé.
As pessoas que fundaram o sistema de comércio global nas décadas de 1930 e 1940 experimentaram os resultados do protecionismo empobrecedor nas décadas de 1920 e 1930. O sistema que criaram foi baseado, por boas razões, nos princípios de não discriminação, liberalização através de negociações recíprocas, vinculação de tarifas e adjudicação imparcial de qualquer uso das cláusulas de escape no sistema.
Tudo isso foi projetado para criar um regime comercial previsível, transparente e liberal. Ao longo de oito rodadas de negociações concluídas, o resultado se tornou uma economia mundial aberta e dinâmica. Isso foi um produto da diplomacia dos EUA. Trump não apenas trouxe a proteção dos EUA a níveis não vistos em um século, mas destruiu tudo o que seus predecessores buscaram alcançar. Isso é um ato de guerra contra o mundo inteiro.
O debate sobre se devemos levar Trump a sério acabou. Ele agora aprendeu a ser o tirano que sempre desejou ser. Isso levou um tempo. Mas, com a ajuda que recebeu, ele chegou lá. Sua administração está engajada em um ataque abrangente à república americana e à ordem global que ela criou. Sob ataque doméstico estão o Estado, o Estado de direito, o papel do Legislativo, o papel dos tribunais, o compromisso com a ciência e a independência das universidades.
Todos esses eram os pilares sobre os quais a liberdade e a prosperidade dos EUA repousavam. Agora, ele está destruindo a ordem internacional liberal. Em breve, presumo, Trump estará invadindo países, enquanto prossegue para restaurar a era dos impérios.
A aplicação de todas essas tarifas é um símbolo perfeito do que Trump representa. Ele apelou para uma "emergência" inexistente, permitida por um Legislativo tolo, para impor um aumento de impostos altamente regressivo que pesará particularmente sobre sua própria base política, em parte para financiar uma extensão que estoura o orçamento de seu próprio corte de impostos altamente regressivo de 2017.
Parece inevitável que essas tarifas, além da incerteza criada pelo novo ambiente político não ancorado e, portanto, imprevisível, prejudicarão o mundo e os EUA tanto agora quanto a longo prazo. Nossas economias estão muito mais abertas do que nunca.
Aumentos enormes e repentinos na proteção terão efeitos econômicos correspondentes maiores do que antes. Os mercados de ações estão certamente certos ao supor que uma boa parte do estoque de capital produtivo de hoje se tornará sucata: a contínua turbulência do mercado é provável.
Isso oferece um tipo perverso de esperança. A tentativa de Trump e seus associados de minar a república levaria tempo. Agora é mais provável que ele fique sem tempo. Imagine que, como resultado de toda essa turbulência, a economia realmente vacile e, assim, os republicanos sejam derrotados nas eleições de meio de mandato. Isso tornaria o projeto Maga muito mais difícil de realizar. Quem sabe? As instituições dos EUA podem começar a mostrar um pouco de coragem. Acima de tudo, a próxima eleição presidencial pode realmente ser justa.
Enquanto Maga dominar a direita americana, o potencial dos EUA para um comportamento imprevisível, irracional e pernicioso permanecerá. Isso é, infelizmente, um grande presente para a China. Mas quanto pior ficar agora, mais provável é que Maga seja um interlúdio, não o destino da América. Isso é um consolo e uma esperança.
O que talvez seja mais extraordinário sobre a derrubada de quase um século de política comercial é que ninguém, aparentemente, informou ao presidente que um procedimento que coloca Lesoto no degrau mais alto faria os EUA parecerem ridículos. Mas fez —e fez isso porque esse procedimento era ridículo.
Não houve uma análise sutil de todas aquelas supostas barreiras tarifárias e não tarifárias das quais, diz Peter Navarro, ecoando seu chefe, os EUA explorados têm sofrido tão terrivelmente. Não, foi muito mais simples e estúpido. As tarifas propostas são proporcionais ao déficit comercial bilateral dividido pelas importações bilaterais.
A suposição implícita é que, em um mundo justo, o comércio se equilibraria com cada parceiro individual. Isso é uma completa loucura. No entanto, agora se tornou a base intelectual da política comercial do país mais poderoso do mundo —infelizmente, pobre coitado, aparentemente vítima de uma conspiração comercial global.
Não é apenas loucura. É perversidade. Pense na história do envolvimento dos EUA no Vietnã. No entanto, agora, os EUA decidiram tentar interromper seu desenvolvimento econômico. O Vietnã não está sozinho em buscar explorar os benefícios da abertura. De fato, a política comercial convergiu para o liberalismo nas economias emergentes de forma bastante ampla. Eles estavam respondendo a uma promessa que os EUA agora retiraram.
Isso não é nem mesmo todo o trabalho de Trump. Canadá e México ainda são vítimas de suas "tarifas de fentanil". Há uma tarifa de 25% sobre automóveis e as tarifas sobre aço e alumínio também foram aumentadas.
No entanto, as tarifas não fecharão os déficits comerciais. Nos anos 1970, trabalhei na economia indiana, então uma das economias mais protegidas do mundo. Ela tinha grandes superávits comerciais? Não. Sim, tinha uma proporção pequena de importações em relação ao PIB. Mas tinha uma renda ainda menor de exportações. Isso se devia ao impacto adverso da proteção na competitividade das exportações.
Isso agora acontecerá com os EUA: as importações encolherão, mas as exportações também. Os déficits, determinados pela renda e pelo gasto, permanecerão praticamente inalterados. O mundo apenas acabará mais pobre. Como argumenta o Instituto Kiel da Alemanha, os maiores efeitos negativos provavelmente recairão sobre os EUA: a proteção geralmente é um tiro no próprio pé.
As pessoas que fundaram o sistema de comércio global nas décadas de 1930 e 1940 experimentaram os resultados do protecionismo empobrecedor nas décadas de 1920 e 1930. O sistema que criaram foi baseado, por boas razões, nos princípios de não discriminação, liberalização através de negociações recíprocas, vinculação de tarifas e adjudicação imparcial de qualquer uso das cláusulas de escape no sistema.
Tudo isso foi projetado para criar um regime comercial previsível, transparente e liberal. Ao longo de oito rodadas de negociações concluídas, o resultado se tornou uma economia mundial aberta e dinâmica. Isso foi um produto da diplomacia dos EUA. Trump não apenas trouxe a proteção dos EUA a níveis não vistos em um século, mas destruiu tudo o que seus predecessores buscaram alcançar. Isso é um ato de guerra contra o mundo inteiro.
O debate sobre se devemos levar Trump a sério acabou. Ele agora aprendeu a ser o tirano que sempre desejou ser. Isso levou um tempo. Mas, com a ajuda que recebeu, ele chegou lá. Sua administração está engajada em um ataque abrangente à república americana e à ordem global que ela criou. Sob ataque doméstico estão o Estado, o Estado de direito, o papel do Legislativo, o papel dos tribunais, o compromisso com a ciência e a independência das universidades.
Todos esses eram os pilares sobre os quais a liberdade e a prosperidade dos EUA repousavam. Agora, ele está destruindo a ordem internacional liberal. Em breve, presumo, Trump estará invadindo países, enquanto prossegue para restaurar a era dos impérios.
A aplicação de todas essas tarifas é um símbolo perfeito do que Trump representa. Ele apelou para uma "emergência" inexistente, permitida por um Legislativo tolo, para impor um aumento de impostos altamente regressivo que pesará particularmente sobre sua própria base política, em parte para financiar uma extensão que estoura o orçamento de seu próprio corte de impostos altamente regressivo de 2017.
Parece inevitável que essas tarifas, além da incerteza criada pelo novo ambiente político não ancorado e, portanto, imprevisível, prejudicarão o mundo e os EUA tanto agora quanto a longo prazo. Nossas economias estão muito mais abertas do que nunca.
Aumentos enormes e repentinos na proteção terão efeitos econômicos correspondentes maiores do que antes. Os mercados de ações estão certamente certos ao supor que uma boa parte do estoque de capital produtivo de hoje se tornará sucata: a contínua turbulência do mercado é provável.
Isso oferece um tipo perverso de esperança. A tentativa de Trump e seus associados de minar a república levaria tempo. Agora é mais provável que ele fique sem tempo. Imagine que, como resultado de toda essa turbulência, a economia realmente vacile e, assim, os republicanos sejam derrotados nas eleições de meio de mandato. Isso tornaria o projeto Maga muito mais difícil de realizar. Quem sabe? As instituições dos EUA podem começar a mostrar um pouco de coragem. Acima de tudo, a próxima eleição presidencial pode realmente ser justa.
Enquanto Maga dominar a direita americana, o potencial dos EUA para um comportamento imprevisível, irracional e pernicioso permanecerá. Isso é, infelizmente, um grande presente para a China. Mas quanto pior ficar agora, mais provável é que Maga seja um interlúdio, não o destino da América. Isso é um consolo e uma esperança.
Conflitos globais estimulam o garimpo na América Latina
Com o aumento das incertezas econômicas pela guerra entre Israel e Hamas, um velho conhecido voltou a aparecer como investimento seguro: o ouro. Justamente quando o metal vinha de uma queda nos preços, o conflito deu novo impulso às cotações, que subiram cerca de 10% desde os ataques de 7 de outubro. Os reflexos desta alta ultrapassam o setor financeiro e chegam até garimpos da América Latina.
Além das chamadas compras físicas, que vão de barras de ouro a joias, muitos investidores buscam os chamados ETFs, ou fundos de índices, que replicam as movimentações do metal no mercado internacional. A principal cotação nos mercados é a da chamada onça-troy na New York Mercantile Exchange (NYMEX), onde o ouro é negociado em dólares. Nos últimos dias, o metal vem rondando os 2.000 dólares (R$ 9.746) por onça-troy, um valor próximo de seu recorde histórico.
Até 2019, o ouro vinha sendo cotado próximo de 1.300 dólares. A chegada da pandemia, porém, impulsionou os preços. Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o metal teve outro estímulo, em parte devido ao aumento da procura pela commodity por bancos centrais. Após as sanções contra Moscou, o ouro passou a ser visto como mais seguro por muitos governos, o que estimulou a demanda pelas autoridades monetárias, que, no primeiro semestre de 2023, foi a maior já registrada.
"A compra pelos bancos centrais é um elemento que tem apoiado os preços do ouro. Vemos isso principalmente como uma declaração política a Washington, sinalizando desconforto com a política internacional dos EUA", afirma Carsten Menke, líder de pesquisa do banco Julius Baer.
"O gatilho mais importante foi o congelamento dos ativos russos, levando os países que não estão alinhados com o Ocidente a diversificar algumas das suas reservas monetárias em ouro", afirma o analista. China e Turquia estão entre os grandes compradores recentes, por exemplo. "Esperamos que as aquisições de ouro pelos bancos centrais permaneçam fortes no futuro próximo, apoiando os preços", projeta.
Já o aumento do preço do ouro desde os ataques do Hamas foi, acima de tudo, impulsionado por uma mudança de humor entre os comerciantes especulativos, avalia Menke. Em sua visão, o aumento nos preços do metal, maior do que em conflitos anteriores, ocorre também por um pessimismo geral com a economia global antes dos ataques.
Para Carsten Fritsch, analista de commodities do Commerzbank, é "evidente que o ouro está lucrando com o seu papel de porto seguro em tempos de maior incerteza e aversão ao risco".
A relação entre a alta nos preços do metal e o avanço do garimpo na América Latina já foi citada por um relatório da Interpol, em 2022. "Há uma relação direta entre o aumento do ouro nos mercados globais e o preço dos mercados locais, ainda que de maneira ilegal", reforça Daniel Bonilla Calle, professor de negócios internacionais da Fundação Universitário CEIPA, acrescentando que os preços da mineração ilegal se comportam e têm o mesmo movimento da exploração legal.
"Quando há picos internacionais, se produz o que se chama de bonanças de ouro nos mercados locais. Isso atrai mineradores ilegais e grupos armados, além de outros atores que queiram entrar na atividade", resume Bonilla.
O especialista destaca que um dos motivos que movimenta o mercado ilegal é o valor entre 20% e 30% mais barato do ouro desta origem. No Brasil, estimativas são de que cerca de metade do metal exportado pelo país tenha origem ilegal. Na Colômbia, os cálculos são de que 80% dos envios de ouro ao exterior não tenham origem legal.
"Há uma cadeia complexa, e muitas vezes os compradores finais não têm uma visão de 100% de onde o material veio", afirma Livia Wagner, chefe de governança da Global Initiative, organização civil que estuda o crime organizado internacional. De acordo com a especialista, o metal no exterior é buscado não apenas na joalheria, mas também para a produção de equipamentos eletrônicos.
Um consenso entre especialistas é o de que a maior lucratividade do garimpo atraiu o crime organizado para a atividade, especialmente na Amazônia. Os criminosos buscam, principalmente, lavar dinheiro com a mineração ilegal, e o avanço da violência é um resultado.
"A valorização expressiva do ouro nos últimos anos teve um impacto significativo nas áreas de garimpo na Amazônia. Entre as diversas consequências, a alta resultou em um aumento nos investimentos em maquinários, como balsas e escavadeiras hidráulicas", afirma Bruno Manzollli, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que monitora o tema. Ele aponta que tais equipamentos, que podem custar mais de R$ 1 milhão, aceleram o processo de desmatamento e de retirada do material do solo.
"Assim, novas frentes de lavra são abertas com maior rapidez, a partir de práticas predatórias, sem controle ambiental. Outro fator relevante é que a partir do momento que o preço do ouro sobe, depósitos que até então não apresentavam viabilidade econômica passam a ser explorados", afirma Manzolli. Além do desmatamento, o uso do mercúrio é outro problema observado.
Em alguns casos, a atração da atividade fez com que criminosos deixassem de lado outros negócios. Segundo Bonilla, o ouro compete com o cultivo da coca, base para a cocaína, e, em algumas regiões, os mesmos grupos podem comandar ambas as atividades. Assim, pessoas migram de um mercado para outro que "paga melhor", afirma. Com uma baixa nos preços internacionais da coca, há registros na Colômbia de cultivos abandonados e sem mão de obra.
Melhor fonte de renda e soluções
"Comunidades empobrecidas veem o garimpo como uma oportunidade mais fácil para gerar renda", afirma Wagner. Segundo Manzollli, mesmo sendo abordados pela fiscalização, seja ela ambiental ou trabalhista, é comum o garimpeiro desejar voltar para a atividade, devido à falta de oportunidades na cidade ou à melhor remuneração em comparação ao salário recebido em alguns empregos na área urbana.
Para ele, no Brasil, a legislação deve ser atualizada para a nova realidade do garimpo, exigindo planos que contemplem desde a fase anterior à exploração até o fechamento das minas e plano de recuperação da área. "E os garimpeiros não podem ser deixados de lado, é preciso um plano de capacitação para que essas pessoas encontrem oportunidades em outras atividades econômicas, a fim de reduzir a dependência do garimpo", afirma.
Duas mudanças recentes endureceram as regras para o garimpo. Em junho, o plenário do Supremo Tribunal Federal suspendeu uma norma que presumia a legalidade do ouro adquirido e a boa-fé da empresa que comprava o metal. No mesmo mês, o governo enviou ao Congresso propondo um novo marco legal para o mercado de ouro no país. Em julho, entrou em vigor uma instrução normativa da Receita que passou a exigir a emissão de nota fiscal eletrônica para negócios que envolvam ouro como ativo financeiro ou como instrumento cambial.
Outro meio que pode ser buscado é a ampliação da certificação de legalidade internacional do ouro. Segundo Wagner, há casos de sucesso da medida, incluindo a Colômbia. "É importante buscar fazer isso em menor escala, não somente nos comerciantes finais. É necessário que todos os passos da cadeia de fornecimento sejam verificados", afirma.
Matheus Gouvea de Andrade
Além das chamadas compras físicas, que vão de barras de ouro a joias, muitos investidores buscam os chamados ETFs, ou fundos de índices, que replicam as movimentações do metal no mercado internacional. A principal cotação nos mercados é a da chamada onça-troy na New York Mercantile Exchange (NYMEX), onde o ouro é negociado em dólares. Nos últimos dias, o metal vem rondando os 2.000 dólares (R$ 9.746) por onça-troy, um valor próximo de seu recorde histórico.
Até 2019, o ouro vinha sendo cotado próximo de 1.300 dólares. A chegada da pandemia, porém, impulsionou os preços. Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o metal teve outro estímulo, em parte devido ao aumento da procura pela commodity por bancos centrais. Após as sanções contra Moscou, o ouro passou a ser visto como mais seguro por muitos governos, o que estimulou a demanda pelas autoridades monetárias, que, no primeiro semestre de 2023, foi a maior já registrada.
"A compra pelos bancos centrais é um elemento que tem apoiado os preços do ouro. Vemos isso principalmente como uma declaração política a Washington, sinalizando desconforto com a política internacional dos EUA", afirma Carsten Menke, líder de pesquisa do banco Julius Baer.
"O gatilho mais importante foi o congelamento dos ativos russos, levando os países que não estão alinhados com o Ocidente a diversificar algumas das suas reservas monetárias em ouro", afirma o analista. China e Turquia estão entre os grandes compradores recentes, por exemplo. "Esperamos que as aquisições de ouro pelos bancos centrais permaneçam fortes no futuro próximo, apoiando os preços", projeta.
Já o aumento do preço do ouro desde os ataques do Hamas foi, acima de tudo, impulsionado por uma mudança de humor entre os comerciantes especulativos, avalia Menke. Em sua visão, o aumento nos preços do metal, maior do que em conflitos anteriores, ocorre também por um pessimismo geral com a economia global antes dos ataques.
Para Carsten Fritsch, analista de commodities do Commerzbank, é "evidente que o ouro está lucrando com o seu papel de porto seguro em tempos de maior incerteza e aversão ao risco".
A relação entre a alta nos preços do metal e o avanço do garimpo na América Latina já foi citada por um relatório da Interpol, em 2022. "Há uma relação direta entre o aumento do ouro nos mercados globais e o preço dos mercados locais, ainda que de maneira ilegal", reforça Daniel Bonilla Calle, professor de negócios internacionais da Fundação Universitário CEIPA, acrescentando que os preços da mineração ilegal se comportam e têm o mesmo movimento da exploração legal.
"Quando há picos internacionais, se produz o que se chama de bonanças de ouro nos mercados locais. Isso atrai mineradores ilegais e grupos armados, além de outros atores que queiram entrar na atividade", resume Bonilla.
O especialista destaca que um dos motivos que movimenta o mercado ilegal é o valor entre 20% e 30% mais barato do ouro desta origem. No Brasil, estimativas são de que cerca de metade do metal exportado pelo país tenha origem ilegal. Na Colômbia, os cálculos são de que 80% dos envios de ouro ao exterior não tenham origem legal.
"Há uma cadeia complexa, e muitas vezes os compradores finais não têm uma visão de 100% de onde o material veio", afirma Livia Wagner, chefe de governança da Global Initiative, organização civil que estuda o crime organizado internacional. De acordo com a especialista, o metal no exterior é buscado não apenas na joalheria, mas também para a produção de equipamentos eletrônicos.
Um consenso entre especialistas é o de que a maior lucratividade do garimpo atraiu o crime organizado para a atividade, especialmente na Amazônia. Os criminosos buscam, principalmente, lavar dinheiro com a mineração ilegal, e o avanço da violência é um resultado.
"A valorização expressiva do ouro nos últimos anos teve um impacto significativo nas áreas de garimpo na Amazônia. Entre as diversas consequências, a alta resultou em um aumento nos investimentos em maquinários, como balsas e escavadeiras hidráulicas", afirma Bruno Manzollli, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que monitora o tema. Ele aponta que tais equipamentos, que podem custar mais de R$ 1 milhão, aceleram o processo de desmatamento e de retirada do material do solo.
"Assim, novas frentes de lavra são abertas com maior rapidez, a partir de práticas predatórias, sem controle ambiental. Outro fator relevante é que a partir do momento que o preço do ouro sobe, depósitos que até então não apresentavam viabilidade econômica passam a ser explorados", afirma Manzolli. Além do desmatamento, o uso do mercúrio é outro problema observado.
Em alguns casos, a atração da atividade fez com que criminosos deixassem de lado outros negócios. Segundo Bonilla, o ouro compete com o cultivo da coca, base para a cocaína, e, em algumas regiões, os mesmos grupos podem comandar ambas as atividades. Assim, pessoas migram de um mercado para outro que "paga melhor", afirma. Com uma baixa nos preços internacionais da coca, há registros na Colômbia de cultivos abandonados e sem mão de obra.
Melhor fonte de renda e soluções
"Comunidades empobrecidas veem o garimpo como uma oportunidade mais fácil para gerar renda", afirma Wagner. Segundo Manzollli, mesmo sendo abordados pela fiscalização, seja ela ambiental ou trabalhista, é comum o garimpeiro desejar voltar para a atividade, devido à falta de oportunidades na cidade ou à melhor remuneração em comparação ao salário recebido em alguns empregos na área urbana.
Para ele, no Brasil, a legislação deve ser atualizada para a nova realidade do garimpo, exigindo planos que contemplem desde a fase anterior à exploração até o fechamento das minas e plano de recuperação da área. "E os garimpeiros não podem ser deixados de lado, é preciso um plano de capacitação para que essas pessoas encontrem oportunidades em outras atividades econômicas, a fim de reduzir a dependência do garimpo", afirma.
Duas mudanças recentes endureceram as regras para o garimpo. Em junho, o plenário do Supremo Tribunal Federal suspendeu uma norma que presumia a legalidade do ouro adquirido e a boa-fé da empresa que comprava o metal. No mesmo mês, o governo enviou ao Congresso propondo um novo marco legal para o mercado de ouro no país. Em julho, entrou em vigor uma instrução normativa da Receita que passou a exigir a emissão de nota fiscal eletrônica para negócios que envolvam ouro como ativo financeiro ou como instrumento cambial.
Outro meio que pode ser buscado é a ampliação da certificação de legalidade internacional do ouro. Segundo Wagner, há casos de sucesso da medida, incluindo a Colômbia. "É importante buscar fazer isso em menor escala, não somente nos comerciantes finais. É necessário que todos os passos da cadeia de fornecimento sejam verificados", afirma.
Matheus Gouvea de Andrade
Receita de homem novo
(Os sábios que me perdoem, mas a piedade é essencial)
Com um pouco de Freud
Envolto em celuloide
Um tanto de marxismo
Embrulhado em jornalismo
Bastante violência
Alguma inteligência
Desprezo da verdade
E alma bem fria
Se faz a humanidade
Do robô da ideologia.
Millôr Fernandes
Tarifaço de Trump é sintoma do vigarista com paranoia de ser otário
Dizer, como tenho feito repetidamente nesta coluna, que não há nenhuma estratégia sofisticada por trás das ações de Donald Trump não é o mesmo que dizer que tudo é burrice e ignorância. Também não é o mesmo que dizer que as suas ações primam pela irracionalidade, o que no fundo seria pressupor que elas fossem meramente táticas, como defendem aqueles que acreditam que as tarifas de Trump são absurdas a não ser como tática negocial.
Nada disso. A minha tese é a seguinte: existe uma lógica simples que explica as ações de Trump. Essa lógica é a do vigarista com medo de ser otário.
Para quem é vigarista, como Trump tem demonstrado ser em toda a sua carreira desde que começou por não pagar a fornecedores e a tentar despejar inquilinos nos seus tempos de magnata do mercado imobiliário, todo o mundo é otário.
Com o tempo, porém, o vigarista começa forçosamente a questionar-se: "se eu ganho fazendo assim, por que é que os outros não fazem o mesmo a mim?" Aí o mundo do vigarista começa a distinguir entre duas categorias de pessoas: os otários e os que poderiam ser vigaristas como ele.
Como é natural nestes casos, o vigarista fica obcecado pela projeção. Medindo os outros com sua própria régua, ele desenvolve a paranoia de que em todas as transações só há dois resultados possíveis: ou ele ganha, vigarizando com sucesso os outros; ou, se não ganha, isso é sinal de que foi vigarizado pelos outros. Na sua mente não cabem os jogos que não sejam de soma nula. Se alguém está a ganhar, é porque ele está a perder.
Esta lógica simples explica-nos a visão que Trump tem do comércio global. Para ele, o mero fato de que um país tenha com os Estados Unidos uma balança comercial positiva é uma injustiça. Pior, é sinal de que alguém tirou vantagem dos Estados Unidos e os vigarizou. Para Trump também só há dois tipos de jogos: aqueles em que ele ganha e aqueles em que os outros jogaram sujo.
De caminho, esta explicação ajuda a entender a fórmula que o governo Trump utilizou para definir as suas "tarifas adicionais". Como vários especialistas apontaram, elas não fazem qualquer sentido macroeconômico. Mas fazem todo o sentido psicológico para a mente do vigarista que ficou obcecado com ser otário.
Se eu estiver certo, há uma conclusão inquietante a retirar de tudo isso: é que não vale a pena negociar com Trump. Nada o convencerá a reintroduzir justiça num jogo cujas regras ele não aceita, a não ser que a vitória lhe seja dada à partida. A única saída é os países que ainda reconhecem as regras do jogo reforçarem os laços comerciais entre si, deixando a birra de Trump passar sozinha.
Nada disso. A minha tese é a seguinte: existe uma lógica simples que explica as ações de Trump. Essa lógica é a do vigarista com medo de ser otário.
Para quem é vigarista, como Trump tem demonstrado ser em toda a sua carreira desde que começou por não pagar a fornecedores e a tentar despejar inquilinos nos seus tempos de magnata do mercado imobiliário, todo o mundo é otário.
No início, o vigarista está embevecido com o superpoder que descobriu em si mesmo. Se não seguir as regras comuns da honestidade e do respeito mútuo, se não tiver vergonha na cara, se estiver disposto a tirar vantagem de todas as relações, o mundo é seu. Como qualquer psicopata, o vigarista não ganha apenas pela sua capacidade de violar limites; ele ganha pela nossa boa educação, pelos nossos escrúpulos, ou seja, pela nossa incapacidade de violar esses mesmos limites.
Com o tempo, porém, o vigarista começa forçosamente a questionar-se: "se eu ganho fazendo assim, por que é que os outros não fazem o mesmo a mim?" Aí o mundo do vigarista começa a distinguir entre duas categorias de pessoas: os otários e os que poderiam ser vigaristas como ele.
Como é natural nestes casos, o vigarista fica obcecado pela projeção. Medindo os outros com sua própria régua, ele desenvolve a paranoia de que em todas as transações só há dois resultados possíveis: ou ele ganha, vigarizando com sucesso os outros; ou, se não ganha, isso é sinal de que foi vigarizado pelos outros. Na sua mente não cabem os jogos que não sejam de soma nula. Se alguém está a ganhar, é porque ele está a perder.
Esta lógica simples explica-nos a visão que Trump tem do comércio global. Para ele, o mero fato de que um país tenha com os Estados Unidos uma balança comercial positiva é uma injustiça. Pior, é sinal de que alguém tirou vantagem dos Estados Unidos e os vigarizou. Para Trump também só há dois tipos de jogos: aqueles em que ele ganha e aqueles em que os outros jogaram sujo.
De caminho, esta explicação ajuda a entender a fórmula que o governo Trump utilizou para definir as suas "tarifas adicionais". Como vários especialistas apontaram, elas não fazem qualquer sentido macroeconômico. Mas fazem todo o sentido psicológico para a mente do vigarista que ficou obcecado com ser otário.
Se eu estiver certo, há uma conclusão inquietante a retirar de tudo isso: é que não vale a pena negociar com Trump. Nada o convencerá a reintroduzir justiça num jogo cujas regras ele não aceita, a não ser que a vitória lhe seja dada à partida. A única saída é os países que ainda reconhecem as regras do jogo reforçarem os laços comerciais entre si, deixando a birra de Trump passar sozinha.
Elon Musk: O reformador radical à beira do colapso?
Elon Musk – bilionário, showman e conselheiro governamental – estaria prestes a deixar o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), criado por Donald Trump , segundo a mídia dos EUA. Trump teria sugerido sua retirada em uma reunião de gabinete, afirmando que Musk desempenharia apenas um "papel de apoio" de agora em diante. No entanto, a Casa Branca está minimizando: nenhuma decisão foi tomada oficialmente. Musk, por sua vez, fala em "notícias falsas".
O que está claro é que o papel de Musk foi limitado desde o início: como um “Funcionário Especial do Governo ” , ele só pode trabalhar no máximo 130 dias por ano para o governo sem estar sujeito a regras éticas mais rígidas ou obrigações de transparência (como divulgação detalhada de ativos e renda), desde que tenha uma isenção prévia.
Até o momento, não há registro público de que tal isenção tenha sido concedida. Esse limite será atingido, no máximo, no início de junho. Portanto, sua saída oficial do DOGE parece ser apenas uma questão de tempo, principalmente porque, segundo pesquisas, Musk está se tornando uma figura cada vez mais controversa entre a população americana. A maioria já rejeita seu curso de reformas radicais.
Musk não era apenas um conselheiro, mas quase o "homem sombra" do presidente americano. Poucas pessoas na comitiva de Trump eram tão visíveis, tão influentes e tão presentes. Seja no Salão Oval, em visitas de Estado ou jogando golfe nos fins de semana, Musk estava sempre lá.
Trump até mesmo apresentou novos modelos da Tesla no gramado da Casa Branca como um incentivo às relações públicas da empresa em dificuldades.
Mas, por trás dos bastidores da camaradagem, há tensões. Vozes críticas dentro do Partido Republicano têm aumentado. O secretário de Estado Marco Rubio e o ex-assessor Steve Bannon acusam Musk de ter um estilo egocêntrico e exposição excessiva. No entanto, Sascha Lohmann, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), em Berlim, não acredita em uma divergência entre Trump e Musk:
"Trump às vezes criticou Musk por certos comportamentos e o instou a agir com mais cautela. Mas, fundamentalmente, na ideia de desmantelar o aparato administrativo por meios radicais, mesmo além dos limites constitucionais, eles sempre concordaram."
DOGE foi a resposta de Trump à sua promessa de campanha de "drenar o pântano de Washington". Em Musk, ele ganhou um aliado cuja abordagem empresarial prometia reformas abrangentes. Em pouco tempo, Musk implementou medidas de longo alcance: mais de 20.000 empregos foram eliminados em agências federais, e outros 75.000 funcionários receberam pacotes de indenização voluntária. Fusões estruturais, como a dos Correios dos EUA com o Departamento de Comércio, estão em andamento.
O exemplo mais espetacular até agora: a eliminação da USAID, a agência estatal de ajuda internacional ao desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, processos administrativos importantes foram digitalizados. Um projeto histórico, porém controverso, foi a digitalização dos registros de pensão da Pensilvânia e das folhas de pagamento de mais de 270.000 funcionários federais. O DOGE afirma ter gerado economias de mais de US$ 100 bilhões. No entanto, auditorias independentes ainda não foram realizadas, e alguns meios de comunicação já revelaram inconsistências nos números oficiais.
"O procedimento foi eficiente e rápido, mas também arriscado, pois os mecanismos tradicionais de controle foram sistematicamente contornados", alerta o especialista norte-americano Lohmann.
Donald Trump reiterou que o DOGE continuará existindo sem Musk. Ao mesmo tempo, ele minimizou um pouco a importância do empreendedor, ressaltando que, no final, são as agências as responsáveis por alcançar as economias.
O que Musk planeja após sua possível aposentadoria permanece incerto. Ele provavelmente voltará a se concentrar mais em seus negócios. No entanto, não está descartado que ele continue sua carreira política.
O que está claro é que o papel de Musk foi limitado desde o início: como um “Funcionário Especial do Governo ” , ele só pode trabalhar no máximo 130 dias por ano para o governo sem estar sujeito a regras éticas mais rígidas ou obrigações de transparência (como divulgação detalhada de ativos e renda), desde que tenha uma isenção prévia.
Até o momento, não há registro público de que tal isenção tenha sido concedida. Esse limite será atingido, no máximo, no início de junho. Portanto, sua saída oficial do DOGE parece ser apenas uma questão de tempo, principalmente porque, segundo pesquisas, Musk está se tornando uma figura cada vez mais controversa entre a população americana. A maioria já rejeita seu curso de reformas radicais.
Musk não era apenas um conselheiro, mas quase o "homem sombra" do presidente americano. Poucas pessoas na comitiva de Trump eram tão visíveis, tão influentes e tão presentes. Seja no Salão Oval, em visitas de Estado ou jogando golfe nos fins de semana, Musk estava sempre lá.
Trump até mesmo apresentou novos modelos da Tesla no gramado da Casa Branca como um incentivo às relações públicas da empresa em dificuldades.
Mas, por trás dos bastidores da camaradagem, há tensões. Vozes críticas dentro do Partido Republicano têm aumentado. O secretário de Estado Marco Rubio e o ex-assessor Steve Bannon acusam Musk de ter um estilo egocêntrico e exposição excessiva. No entanto, Sascha Lohmann, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), em Berlim, não acredita em uma divergência entre Trump e Musk:
"Trump às vezes criticou Musk por certos comportamentos e o instou a agir com mais cautela. Mas, fundamentalmente, na ideia de desmantelar o aparato administrativo por meios radicais, mesmo além dos limites constitucionais, eles sempre concordaram."
DOGE foi a resposta de Trump à sua promessa de campanha de "drenar o pântano de Washington". Em Musk, ele ganhou um aliado cuja abordagem empresarial prometia reformas abrangentes. Em pouco tempo, Musk implementou medidas de longo alcance: mais de 20.000 empregos foram eliminados em agências federais, e outros 75.000 funcionários receberam pacotes de indenização voluntária. Fusões estruturais, como a dos Correios dos EUA com o Departamento de Comércio, estão em andamento.
O exemplo mais espetacular até agora: a eliminação da USAID, a agência estatal de ajuda internacional ao desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, processos administrativos importantes foram digitalizados. Um projeto histórico, porém controverso, foi a digitalização dos registros de pensão da Pensilvânia e das folhas de pagamento de mais de 270.000 funcionários federais. O DOGE afirma ter gerado economias de mais de US$ 100 bilhões. No entanto, auditorias independentes ainda não foram realizadas, e alguns meios de comunicação já revelaram inconsistências nos números oficiais.
"O procedimento foi eficiente e rápido, mas também arriscado, pois os mecanismos tradicionais de controle foram sistematicamente contornados", alerta o especialista norte-americano Lohmann.
Donald Trump reiterou que o DOGE continuará existindo sem Musk. Ao mesmo tempo, ele minimizou um pouco a importância do empreendedor, ressaltando que, no final, são as agências as responsáveis por alcançar as economias.
O que Musk planeja após sua possível aposentadoria permanece incerto. Ele provavelmente voltará a se concentrar mais em seus negócios. No entanto, não está descartado que ele continue sua carreira política.
Donald Trump e o seu populismo tarifário com cara de antigo faroeste
Não sou capaz de opinar sobre a racionalidade econômica por trás da guerra tarifária em que Trump empenhou seu governo nos últimos dias. Deixo a dor de cabeça para quem entende de comércio internacional. Mas gostaria de examinar essa confusão do ponto de vista da política ou, mais precisamente, da comunicação política. Mesmo porque tenho a impressão de que Trump entende tanto quanto eu sobre comércio e tarifas —e é na arena das narrativas e dos imaginários que está, de fato, jogando o seu jogo.
E se tudo parece desconcertante sob a ótica econômica, talvez no campo da comunicação política as coisas se esclareçam. Trump é um populista de direita, é essa a sua persona pública —e ele ainda não saiu do personagem. O contrato que o populista estabelece com seus seguidores é simples: ele é o campeão do povo contra a exploração e a traição das elites.
O povo, neste caso, é a nação em seus estratos mais profundos: o americano médio, trabalhador e empobrecido por ser vítima, ao mesmo tempo, de um Estado que mete a mão no seu bolso e do globalismo que se aproveita do país. O populismo opera com uma equação sem variações: há um povo bom, uma elite exploradora e um líder vinculado organicamente ao povo, que busca o poder para reparar essa injustiça.
Por isso, Trump estrutura sua retórica sobre três pilares centrais: o vitimismo (nacionalista), a exigência de compensações e, agora com nitidez, a punição exemplar dos culpados. O primeiro inverte os papéis: os EUA, vistos como potência imperial, aparecem como nação humilhada por seus aliados e adversários. O segundo transforma a reparação em questão de justiça histórica. E o terceiro —o mais brutal e eficaz— promete fazer os exploradores sofrerem.
Esse tripé retórico esteve escancarado no discurso do chamado Liberation Day, na semana passada. Trump declarou que "por décadas, nosso país foi saqueado, pilhado, estuprado e explorado" e que "trabalhadores americanos assistiram, impotentes, à destruição do sonho americano enquanto líderes estrangeiros roubavam seus empregos e fábricas". O mais absoluto vitimismo: a nação como vítima passiva da pilhagem mundial, enquanto uma elite nacional cúmplice a tudo assistia.
A resposta vem sob a forma de uma vingança organizada e institucional. "Este é o Dia da Libertação", declarou Trump, com pompa e vaidade. "É a nossa declaração de independência econômica." E, com isso, anunciou tarifas punitivas sobre automóveis estrangeiros e novas exigências para países que desejem acesso ao mercado americano: "Se quiser tarifa zero, construa aqui".
Aqui entra a lógica da compensação —mas com um detalhe central: essas tarifas não são apenas uma medida econômica, são castigo. Um mecanismo de correção simbólica que faz os supostos culpados —os países que "nos exploraram"— sentirem na pele o peso da justiça retributiva.
As tarifas, nesse registro, pouco têm a ver com racionalidade econômica. Podem ser um absurdo técnico —e os analistas de mercado quase unânimes as tratam como tal—, mas fazem sentido no campo da retórica política. Para Trump, elas são o chicote que desce no lombo dos que "por muito tempo se aproveitaram de nós", um prazer punitivo que o povo americano merece ver e saborear. Afinal, o que importa é o espetáculo da restituição, da revanche e da punição dos que "nos humilharam". "Eles vão pagar um preço alto", prometeu. "E, pela primeira vez em muito tempo, o povo americano vai vencer."
Essa retórica —que ora se vitimiza, ora agride— alterna dois modos populistas clássicos. No modo vitimista, Trump apresenta o povo americano como explorado por uma elite global e traído por suas próprias lideranças políticas e culturais. No modo valentão, encarna o macho alfa que chegou para limpar a cidade: o novo xerife do Velho Oeste do comércio internacional, disposto a restaurar a decência nem que seja à base de balas e murros.
Trump talvez não entenda nada de comércio internacional. Mas entende tudo de ressentimento, espetáculo e gozo punitivo. E é nisso que aposta: na satisfação que a vingança política oferece aos que se sentem derrotados, empobrecidos e esquecidos por um sistema que, ao longo das décadas, os transformou em número, estatística e dano colateral.
No fundo, o que ele oferece não é uma política comercial. É o roteiro de um western moral: o povo foi roubado, o herói chegou e alguém vai pagar com sangue por cada lágrima derramada. Se vai dar certo, não sei, mas o enredo é esse.
Falta só combinar com a realidade.
E se tudo parece desconcertante sob a ótica econômica, talvez no campo da comunicação política as coisas se esclareçam. Trump é um populista de direita, é essa a sua persona pública —e ele ainda não saiu do personagem. O contrato que o populista estabelece com seus seguidores é simples: ele é o campeão do povo contra a exploração e a traição das elites.
O povo, neste caso, é a nação em seus estratos mais profundos: o americano médio, trabalhador e empobrecido por ser vítima, ao mesmo tempo, de um Estado que mete a mão no seu bolso e do globalismo que se aproveita do país. O populismo opera com uma equação sem variações: há um povo bom, uma elite exploradora e um líder vinculado organicamente ao povo, que busca o poder para reparar essa injustiça.
Por isso, Trump estrutura sua retórica sobre três pilares centrais: o vitimismo (nacionalista), a exigência de compensações e, agora com nitidez, a punição exemplar dos culpados. O primeiro inverte os papéis: os EUA, vistos como potência imperial, aparecem como nação humilhada por seus aliados e adversários. O segundo transforma a reparação em questão de justiça histórica. E o terceiro —o mais brutal e eficaz— promete fazer os exploradores sofrerem.
Esse tripé retórico esteve escancarado no discurso do chamado Liberation Day, na semana passada. Trump declarou que "por décadas, nosso país foi saqueado, pilhado, estuprado e explorado" e que "trabalhadores americanos assistiram, impotentes, à destruição do sonho americano enquanto líderes estrangeiros roubavam seus empregos e fábricas". O mais absoluto vitimismo: a nação como vítima passiva da pilhagem mundial, enquanto uma elite nacional cúmplice a tudo assistia.
A resposta vem sob a forma de uma vingança organizada e institucional. "Este é o Dia da Libertação", declarou Trump, com pompa e vaidade. "É a nossa declaração de independência econômica." E, com isso, anunciou tarifas punitivas sobre automóveis estrangeiros e novas exigências para países que desejem acesso ao mercado americano: "Se quiser tarifa zero, construa aqui".
Aqui entra a lógica da compensação —mas com um detalhe central: essas tarifas não são apenas uma medida econômica, são castigo. Um mecanismo de correção simbólica que faz os supostos culpados —os países que "nos exploraram"— sentirem na pele o peso da justiça retributiva.
As tarifas, nesse registro, pouco têm a ver com racionalidade econômica. Podem ser um absurdo técnico —e os analistas de mercado quase unânimes as tratam como tal—, mas fazem sentido no campo da retórica política. Para Trump, elas são o chicote que desce no lombo dos que "por muito tempo se aproveitaram de nós", um prazer punitivo que o povo americano merece ver e saborear. Afinal, o que importa é o espetáculo da restituição, da revanche e da punição dos que "nos humilharam". "Eles vão pagar um preço alto", prometeu. "E, pela primeira vez em muito tempo, o povo americano vai vencer."
Essa retórica —que ora se vitimiza, ora agride— alterna dois modos populistas clássicos. No modo vitimista, Trump apresenta o povo americano como explorado por uma elite global e traído por suas próprias lideranças políticas e culturais. No modo valentão, encarna o macho alfa que chegou para limpar a cidade: o novo xerife do Velho Oeste do comércio internacional, disposto a restaurar a decência nem que seja à base de balas e murros.
Trump talvez não entenda nada de comércio internacional. Mas entende tudo de ressentimento, espetáculo e gozo punitivo. E é nisso que aposta: na satisfação que a vingança política oferece aos que se sentem derrotados, empobrecidos e esquecidos por um sistema que, ao longo das décadas, os transformou em número, estatística e dano colateral.
No fundo, o que ele oferece não é uma política comercial. É o roteiro de um western moral: o povo foi roubado, o herói chegou e alguém vai pagar com sangue por cada lágrima derramada. Se vai dar certo, não sei, mas o enredo é esse.
Falta só combinar com a realidade.
terça-feira, 8 de abril de 2025
Celebridades, ovos e drogas
De um lado, o brilho e a fama – quase sempre bem remunerados – das celebridades e seu glamuroso universo paralelo. De outro, a vida real com suas muitas dificuldades e crescentes ameaças. No meio, espantosas notícias. “No México, atualmente, o contrabando de ovos supera o de drogas”.
Não há IA que suavize e enfeite esta nossa realidade. Ou, ao menos, consiga reduzir a peste da multidão de celebridades e suas bizarrices.
Tão antigas quanto Noé, celebridades (com suas veleidades) já mereceram crônica de Fernando Pessoa, que dispensa apresentações. Escrito para O Jornal, de Lisboa – e então não publicado – o texto é 1915, 110 anos atrás. Também em um começo de século conturbado e ameaçador.
Perdoados conceitos, diferenças na grafia e na gramática, além de preconceitos assentados na época, ainda vale?
Não há IA que suavize e enfeite esta nossa realidade. Ou, ao menos, consiga reduzir a peste da multidão de celebridades e suas bizarrices.
Tão antigas quanto Noé, celebridades (com suas veleidades) já mereceram crônica de Fernando Pessoa, que dispensa apresentações. Escrito para O Jornal, de Lisboa – e então não publicado – o texto é 1915, 110 anos atrás. Também em um começo de século conturbado e ameaçador.
Perdoados conceitos, diferenças na grafia e na gramática, além de preconceitos assentados na época, ainda vale?
“Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas ações — ridiculamente humanas às vezes — que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espetaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.
Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele — próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz.
E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto (…) de querer dar nas vistas e nos ouvidos.
Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que «homem de génio desconhecido» é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos.
Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista, descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida eterna, o elixir da vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da coisa transcendental que criaram, maiores do que os génios todos da evidência humana. Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da nossa pequenez.
Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas — e quem sabe a que ponto reais? — que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade”.
(Publicado pela editora Ática, de Lisboa, em 1966, no livro Páginas Íntimas e de Auto Interpretação, com inéditos de Fernando Pessoa, selecionados e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho)Tânia Fusco
A extrema-direita não gosta de 'lightsabers'
Bilionários, líderes radicais, pessoas ultraconservadoras com algum poder e seus defensores acham que são a “Resistência”. Mas resistência a quê? Ao próprio poder quem têm? Aos milhões e milhões que faturam? Às milhares de visualizações e partilhas que os seus vídeos têm?
Quem não gosta de um bom blockbuster? De um bom filme de ação ou ficção científica – Margaret Atwood, a autora de The Handmaid’s Tale, prefere o termo “ficção especulativa” e com bons motivos – que transcende os efeitos especiais e movimentos de câmara rápidos para fazer comentário social? Há quem não goste, claro. E há quem adore. E há quem, apesar de gostar, não perceba o que está a ver.
Parece que Elon Musk, considerado por alguns um génio dos nossos tempos, pertence a esse grupo de pessoas que se perdem na história de um filme quando veem um lightsaber ou um Capitólio cheio de gente com roupas coloridas e cabelos peculiares.
É óbvio que não é o caso, porém, um tweet que escreveu há algum tempo – mas que reverbera e reverberá para sempre na internet – podia enganar os mais ingénuos:
Musk sabe o que está a fazer. Não fosse, aliás, um move com intenções tão vis, podia ser genial.
Hunger Games não podia ser mais claro na sua mensagem anti-capitalista e anti-ditatorial, ao mostrar os excessos de uma sociedade burguesa predatória que gamifica a pobreza. Star Wars, e isto já foi explicado pelo próprio George Lucas, criador do franchise, é uma história anti-colonialista e anti-imperialista que tem por uma crítica à política externa dos Estados Unidos da América. Matrix, um filme super citado pelas comunidades incel, é, no seu, core, um apelo à humanidade contra uma realidade virtual opressiva que se alimenta da vida humana. Divergent tenta abordar a questão da governança por via da seleção genética da população, das supostas qualidades intrínsecas de grupos sociais. E o V for Vendetta, um filme absolutamente incrível, não podia ser mais evidente: a história de um anarquista que atormenta o governo fascista do seu país.
Musk sabe isto. Apesar de radicalizado pela própria rede social que comprou, o dono da Tesla não é ignorante.
A extrema-direita global – sim, existe – conseguiu criar uma narrativa em que é vítima e alvo de um sistema que tenta, com toda a força, silenciar e bloquear as suas ações. Esta distorção perversa da realidade permitida pelas redes sociais desreguladas, por vezes semelhantes a uma no man’s land, nomeadamente o Facebook, Twitter – não chamarei X, perdoe-me, leitor – e TikTok, fez-nos chegar a este ponto: bilionários, líderes radicais, pessoas ultraconservadoras com algum poder e seus defensores acham que são a “Resistência”. Mas resistência a quê? Ao próprio poder quem têm? Aos milhões e milhões que faturam? Às milhares de visualizações e partilhas que os seus vídeos têm? Não. Este grupo político criou, artificialmente, inimigos: “wokes”, comunidade LGBTQ+, minorias étnicas, emigrantes, académicos e universitários. Colocou-os a todos no mesmo saco, dizendo que se apoiam, se ajudam e têm missões em comum: “marxismo cultural”, “endoutrinação”, a “invasão”, a “substituição”. Nonsense. Criações artificiais para suscitar reações orgânicas. Uma tentativa de guerra cultural cheia de fogo de artifício e show off, opiniões simples e controversas que não dão muito trabalho à cabeça e por isso propagam-se a velocidades que nem os fãs de Fórmula 1 compreendem.
Como fã de todos os filmes que Musk citou, deixo aqui um apelo aos leitores: vejam ou revejam os filmes. Tentem, com tudo o que têm, perceber onde o bilionário favorito de Trump – por pouco tempo… – foi buscar a ideia de que ele pertence a uma qualquer resistência. O que diria Luke Skywalker desta pessoa?
Luís G. Rodrigues
Quem não gosta de um bom blockbuster? De um bom filme de ação ou ficção científica – Margaret Atwood, a autora de The Handmaid’s Tale, prefere o termo “ficção especulativa” e com bons motivos – que transcende os efeitos especiais e movimentos de câmara rápidos para fazer comentário social? Há quem não goste, claro. E há quem adore. E há quem, apesar de gostar, não perceba o que está a ver.
Parece que Elon Musk, considerado por alguns um génio dos nossos tempos, pertence a esse grupo de pessoas que se perdem na história de um filme quando veem um lightsaber ou um Capitólio cheio de gente com roupas coloridas e cabelos peculiares.
É óbvio que não é o caso, porém, um tweet que escreveu há algum tempo – mas que reverbera e reverberá para sempre na internet – podia enganar os mais ingénuos:
“Você assistiu Jogos Vorazes e ficou do lado da resistência.
Você assistiu Star Wars e ficou do lado da resistência.
Você assistiu Matrix e ficou do lado da resistência.
Você assistiu Divergente e ficou do lado da resistência.
Você assistiu V de Vingança e ficou do lado da resistência.
Quando é ficção, você entende. Mas você se recusa a ver quando é a realidade em que você está vivendo.
Selvagem.”
Musk sabe o que está a fazer. Não fosse, aliás, um move com intenções tão vis, podia ser genial.
Hunger Games não podia ser mais claro na sua mensagem anti-capitalista e anti-ditatorial, ao mostrar os excessos de uma sociedade burguesa predatória que gamifica a pobreza. Star Wars, e isto já foi explicado pelo próprio George Lucas, criador do franchise, é uma história anti-colonialista e anti-imperialista que tem por uma crítica à política externa dos Estados Unidos da América. Matrix, um filme super citado pelas comunidades incel, é, no seu, core, um apelo à humanidade contra uma realidade virtual opressiva que se alimenta da vida humana. Divergent tenta abordar a questão da governança por via da seleção genética da população, das supostas qualidades intrínsecas de grupos sociais. E o V for Vendetta, um filme absolutamente incrível, não podia ser mais evidente: a história de um anarquista que atormenta o governo fascista do seu país.
Musk sabe isto. Apesar de radicalizado pela própria rede social que comprou, o dono da Tesla não é ignorante.
A extrema-direita global – sim, existe – conseguiu criar uma narrativa em que é vítima e alvo de um sistema que tenta, com toda a força, silenciar e bloquear as suas ações. Esta distorção perversa da realidade permitida pelas redes sociais desreguladas, por vezes semelhantes a uma no man’s land, nomeadamente o Facebook, Twitter – não chamarei X, perdoe-me, leitor – e TikTok, fez-nos chegar a este ponto: bilionários, líderes radicais, pessoas ultraconservadoras com algum poder e seus defensores acham que são a “Resistência”. Mas resistência a quê? Ao próprio poder quem têm? Aos milhões e milhões que faturam? Às milhares de visualizações e partilhas que os seus vídeos têm? Não. Este grupo político criou, artificialmente, inimigos: “wokes”, comunidade LGBTQ+, minorias étnicas, emigrantes, académicos e universitários. Colocou-os a todos no mesmo saco, dizendo que se apoiam, se ajudam e têm missões em comum: “marxismo cultural”, “endoutrinação”, a “invasão”, a “substituição”. Nonsense. Criações artificiais para suscitar reações orgânicas. Uma tentativa de guerra cultural cheia de fogo de artifício e show off, opiniões simples e controversas que não dão muito trabalho à cabeça e por isso propagam-se a velocidades que nem os fãs de Fórmula 1 compreendem.
Como fã de todos os filmes que Musk citou, deixo aqui um apelo aos leitores: vejam ou revejam os filmes. Tentem, com tudo o que têm, perceber onde o bilionário favorito de Trump – por pouco tempo… – foi buscar a ideia de que ele pertence a uma qualquer resistência. O que diria Luke Skywalker desta pessoa?
Luís G. Rodrigues
'Um lugar aterrorizante'
Com dois livros aclamados sobre o fascismo do século XX em seu currículo, o acadêmico judeu-americano John Stanley traça paralelos diretos. "Fascismo é o que o governo Donald Trump está fazendo agora", disse o filósofo sobre o segundo mandato do magnata.
No final de março, Stanley anunciou sua decisão de deixar a Universidade de Yale e se mudar para o Canadá, onde trabalhará na Munk School of Global Affairs and Public Policy da Universidade de Toronto. Assim, ele segue os passos de Timothy Snyder e Marci Shore, dois professores de história que também deixaram Yale para viver em Toronto após a eleição de Trump.
"Tenho medo de ser alvo do governo", diz Stanley sobre sua decisão de deixar os Estados Unidos . Referindo-se à vulnerabilidade dos acadêmicos imigrantes que podem ser deportados por expressar opiniões críticas sobre o governo, ele observa: "Estou saindo porque meus colegas não cidadãos não podem discutir política nas redes sociais; caso contrário, seus vistos podem ser revogados."
Em seu livro de 2018 Como o fascismo funciona: a política de nós e eles (publicado em espanhol como "Facha: cómo funciona el fascismo y cómo ha enterdo en tu vida" ), Stanley descreve como o fascismo "desumaniza segmentos da população" para justificar "tratamento desumano, da repressão ao encarceramento em massa e à expulsão".
Agora, ele ressalta que o governo Trump, que foi acusado de deportar imigrantes desafiando ordens judiciais e restringindo a liberdade de expressão ao reter financiamento de universidades ou agências federais que promovem políticas de diversidade, igualdade e inclusão, não pode mais ser simplesmente chamado de "populista".
Essa definição, ele argumenta, acaba "escondendo a ameaça" e reitera sua visão de que a intolerância de Trump é de natureza fascista, um ponto que ele desenvolve em seu livro de 2024, Erasing History: How Fascists Rewrite the Past to Control the Future .
Trump está usando o antissemitismo para atacar universidades?
O governo Trump está retendo financiamento de universidades que têm sido palco de protestos contra o conflito armado entre Israel e o Hamas , alegando que as instituições promovem o antissemitismo. No entanto, Stanley argumenta que "os estudantes judeus de Yale eram um dos maiores grupos de identidade que participavam dos acampamentos e protestos. Este regime está fazendo uma distinção entre bons judeus e maus judeus, e já conhecemos a história disso."
A distinção entre "judeus pró-Israel" de direita e "judeus como eu e muitos dos meus alunos em Yale que criticam as ações de Israel em Gaza" também apela a um "estereótipo antissemita muito perigoso" que afirma falsamente que "os judeus americanos controlam as instituições", diz Stanley.
O acadêmico afirma que a Universidade de Yale não cedeu às exigências do governo Trump e "protegeu os professores". No entanto, ele está preocupado que universidades como a Columbia estejam cedendo à pressão. Este último prometeu investigar manifestantes pró-palestinos para evitar cortes multimilionários em seu financiamento.
"Se você aceitar essas exigências, você não será mais uma universidade", diz o filósofo. "Uma universidade é um lugar de pensamento livre e crítico. E nos Estados Unidos, dada nossa relação com Israel, é perfeitamente legítimo ter um movimento de protesto exigindo o fim do financiamento militar para Israel."
Por que não ficar e lutar?
Stanley, assim como Snyder e Shore, foi frequentemente questionado sobre o motivo de terem decidido deixar os Estados Unidos em um momento de necessidade. "Bem, é muito mais fácil defender o Canadá do que defender Yale", diz Stanley. "Os Estados Unidos estão se tornando um lugar assustador", acrescenta. "A Universidade de Toronto pode ser um refúgio: podemos trazer acadêmicos e jornalistas para cá e protegê-los melhor do que podemos nos Estados Unidos", observa ele.
No final de março, Stanley anunciou sua decisão de deixar a Universidade de Yale e se mudar para o Canadá, onde trabalhará na Munk School of Global Affairs and Public Policy da Universidade de Toronto. Assim, ele segue os passos de Timothy Snyder e Marci Shore, dois professores de história que também deixaram Yale para viver em Toronto após a eleição de Trump.
"Tenho medo de ser alvo do governo", diz Stanley sobre sua decisão de deixar os Estados Unidos . Referindo-se à vulnerabilidade dos acadêmicos imigrantes que podem ser deportados por expressar opiniões críticas sobre o governo, ele observa: "Estou saindo porque meus colegas não cidadãos não podem discutir política nas redes sociais; caso contrário, seus vistos podem ser revogados."
Em seu livro de 2018 Como o fascismo funciona: a política de nós e eles (publicado em espanhol como "Facha: cómo funciona el fascismo y cómo ha enterdo en tu vida" ), Stanley descreve como o fascismo "desumaniza segmentos da população" para justificar "tratamento desumano, da repressão ao encarceramento em massa e à expulsão".
Agora, ele ressalta que o governo Trump, que foi acusado de deportar imigrantes desafiando ordens judiciais e restringindo a liberdade de expressão ao reter financiamento de universidades ou agências federais que promovem políticas de diversidade, igualdade e inclusão, não pode mais ser simplesmente chamado de "populista".
Essa definição, ele argumenta, acaba "escondendo a ameaça" e reitera sua visão de que a intolerância de Trump é de natureza fascista, um ponto que ele desenvolve em seu livro de 2024, Erasing History: How Fascists Rewrite the Past to Control the Future .
Trump está usando o antissemitismo para atacar universidades?
O governo Trump está retendo financiamento de universidades que têm sido palco de protestos contra o conflito armado entre Israel e o Hamas , alegando que as instituições promovem o antissemitismo. No entanto, Stanley argumenta que "os estudantes judeus de Yale eram um dos maiores grupos de identidade que participavam dos acampamentos e protestos. Este regime está fazendo uma distinção entre bons judeus e maus judeus, e já conhecemos a história disso."
A distinção entre "judeus pró-Israel" de direita e "judeus como eu e muitos dos meus alunos em Yale que criticam as ações de Israel em Gaza" também apela a um "estereótipo antissemita muito perigoso" que afirma falsamente que "os judeus americanos controlam as instituições", diz Stanley.
O acadêmico afirma que a Universidade de Yale não cedeu às exigências do governo Trump e "protegeu os professores". No entanto, ele está preocupado que universidades como a Columbia estejam cedendo à pressão. Este último prometeu investigar manifestantes pró-palestinos para evitar cortes multimilionários em seu financiamento.
"Se você aceitar essas exigências, você não será mais uma universidade", diz o filósofo. "Uma universidade é um lugar de pensamento livre e crítico. E nos Estados Unidos, dada nossa relação com Israel, é perfeitamente legítimo ter um movimento de protesto exigindo o fim do financiamento militar para Israel."
Por que não ficar e lutar?
Stanley, assim como Snyder e Shore, foi frequentemente questionado sobre o motivo de terem decidido deixar os Estados Unidos em um momento de necessidade. "Bem, é muito mais fácil defender o Canadá do que defender Yale", diz Stanley. "Os Estados Unidos estão se tornando um lugar assustador", acrescenta. "A Universidade de Toronto pode ser um refúgio: podemos trazer acadêmicos e jornalistas para cá e protegê-los melhor do que podemos nos Estados Unidos", observa ele.
Stanley pretende ajudar a promover um ambiente acadêmico mais inclusivo em sua nova função. Ele diz que a Monk School planeja "criar o principal centro mundial de defesa da democracia" e receberá jornalistas de países democráticos e autoritários, como Rússia e Estados Unidos.
Shore e seu marido, Snyder, se concentraram na história do fascismo na Europa Oriental, uma perspectiva pela qual traçam paralelos com o governo Trump. "Eu podia sentir o terror crescendo", disse Shore ao jornal Kyiv Independent sobre sua decisão de deixar os Estados Unidos. "Meu impulso foi pegar meus filhos e escapar de uma situação que parecia muito sombria e assustadora para mim."
Stanley diz que continuará lutando. "Vou lutar pela democracia americana onde quer que eu esteja", diz ele.
Shore e seu marido, Snyder, se concentraram na história do fascismo na Europa Oriental, uma perspectiva pela qual traçam paralelos com o governo Trump. "Eu podia sentir o terror crescendo", disse Shore ao jornal Kyiv Independent sobre sua decisão de deixar os Estados Unidos. "Meu impulso foi pegar meus filhos e escapar de uma situação que parecia muito sombria e assustadora para mim."
Stanley diz que continuará lutando. "Vou lutar pela democracia americana onde quer que eu esteja", diz ele.
segunda-feira, 7 de abril de 2025
Protesto do batom escancara estratégia de u m Bolsonaro pré-condenado
A manifestação deste domingo, na Avenida Paulista, em São Paulo, ganhou a maquiagem, carregada no batom, de um ato a favor da anistia aos condenados de 8 de janeiro. Mas, por baixo da camada de tinta, a mensagem central dos discursos, principalmente os de Jair Bolsonaro e de sua esposa, Michelle, foi outra: preparem-se para o sacrifício do seu líder e lembremse de que vocês também estão ameaçados.
O projeto de anistia não resolve o problema de Bolsonaro, pois o STF pode impedir sua aplicação. A direita bolsonarista precisa manter o assunto em voga, contudo, por dois motivos. Primeiro, para justificar a narrativa de que o Brasil vive uma ditadura do Judiciário que persegue a direita. Segundo, para reforçar o vínculo de lealdade entre Bolsonaro e seus seguidores. Ele precisa que seus apoiadores estejam convencidos de que sua liberdade, seus bens e até mesmo suas vidas estão em risco, e que, se seu líder vai se sacrificar para salvá-los, devem estar preparados para fazer o mesmo por ele.
Bolsonaro sintetizou as duas ideias, ditadura e perseguição, em uma fala: “Se eu estivesse no Brasil (em 8 de janeiro de 2023), estaria apodrecendo na cadeia ou teria sido assassinado pelos mesmos que colocaram esse vagabundo na Presidência”.
Ele quer que sua condenação e sua prisão despertem um grande clamor popular. O pastor Silas Malafaia, organizador dos atos pró-Bolsonaro, deu a dica: “Se os senhores (ministros do STF) prenderem Bolsonaro, o que pode acontecer no Brasil? Pode não acontecer nada, ou pode acontecer tudo!” Não é por acaso que o protesto do batom ganhou contornos religiosos tão acentuados. Bolsonaro, disse Michelle, é o “escolhido” por Deus para enfrentar a “maldade de alguns do STF”. O ato deste domingo, apesar de toda a fanfarra em torno da ideia de aprovação de uma anistia para os “inocentes” do 8 de Janeiro, representou, isso sim, o início da incitação de uma futura revolta contra a condenação de Bolsonaro.
O círculo próximo do expresidente está convencido de que a condenação e a prisão são favas contadas. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara dos Deputados, chegou a dizer, antes mesmo da aceitação, pelo STF, da denúncia por tentativa de golpe de Estado, que Bolsonaro “já é um pré-condenado”. Os discursos deste domingo serviram ao propósito de preparar o terreno para a reação à condenação de Bolsonaro.
O projeto de anistia não resolve o problema de Bolsonaro, pois o STF pode impedir sua aplicação. A direita bolsonarista precisa manter o assunto em voga, contudo, por dois motivos. Primeiro, para justificar a narrativa de que o Brasil vive uma ditadura do Judiciário que persegue a direita. Segundo, para reforçar o vínculo de lealdade entre Bolsonaro e seus seguidores. Ele precisa que seus apoiadores estejam convencidos de que sua liberdade, seus bens e até mesmo suas vidas estão em risco, e que, se seu líder vai se sacrificar para salvá-los, devem estar preparados para fazer o mesmo por ele.
Bolsonaro sintetizou as duas ideias, ditadura e perseguição, em uma fala: “Se eu estivesse no Brasil (em 8 de janeiro de 2023), estaria apodrecendo na cadeia ou teria sido assassinado pelos mesmos que colocaram esse vagabundo na Presidência”.
Ele quer que sua condenação e sua prisão despertem um grande clamor popular. O pastor Silas Malafaia, organizador dos atos pró-Bolsonaro, deu a dica: “Se os senhores (ministros do STF) prenderem Bolsonaro, o que pode acontecer no Brasil? Pode não acontecer nada, ou pode acontecer tudo!” Não é por acaso que o protesto do batom ganhou contornos religiosos tão acentuados. Bolsonaro, disse Michelle, é o “escolhido” por Deus para enfrentar a “maldade de alguns do STF”. O ato deste domingo, apesar de toda a fanfarra em torno da ideia de aprovação de uma anistia para os “inocentes” do 8 de Janeiro, representou, isso sim, o início da incitação de uma futura revolta contra a condenação de Bolsonaro.
Não foi sobre anistia. Foi sobre provocar a revolta dos bolsonaristas
Em Paris, a líder da ultradireita Marine Le Pen disse no que vai se inspirar no pastor Martin Luther King Jr., assassinado em 1968 por lutar contra a segregação racial nos Estados Unidos, para enfrentar a Justiça que a tornou inelegível por cinco anos.
Há quase uma semana, Le Pen foi condenada por desviar fundos do Parlamento Europeu para o caixa de seu partido, a Reunião Nacional (RN), e impedida de concorrer a cargos públicos – medida que entrou em vigor imediatamente apesar de ainda ser passível de recursos.
Na Avenida Paulista, o líder da ultradireita Jair Bolsonaro disse que “algo o avisou”, porque se ele estivesse no Brasil no dia do golpe de 8 de janeiro de 2023, “teria sido preso e estaria apodrecendo até hoje ou até assassinado”. Bolsonaro e Le Pen são dois contraventores.
Le Pen ainda tem chances de disputar a presidência da França em 2027. Bolsonaro, inelegível até 2030, não tem, de vez que foi condenado duas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral. Em breve, o Supremo Tribunal Federal o condenará por golpe de Estado.
É remota a possibilidade de Le Pen ser presa. A de Bolsonaro é mais do que certa, a não ser que fuja. Há poucos dias, ele admitiu que conversou com chefes militares sobre a adoção de medidas de exceção que impediriam a posse do presidente eleito, Lula.
Bolsonaro sabe melhor do que ninguém que o Congresso não aprovará a anistia que o beneficiaria. E que se a aprovasse, ela seria barrada pelo Supremo por ferir a Constituição. Só lhe resta, pois, estimular seus seguidores à revolta caso ele seja preso.
O pastor Silas Malafaia, um dos promotores do comício na Avenida Paulista, disse aos manifestantes:
“Se os senhores [ministros do STF] prenderem Bolsonaro, o que pode acontecer no Brasil? Pode não acontecer nada, ou pode acontecer tudo!”
O que seria “acontecer tudo”? Baderna, estradas bloqueadas por caminhoneiros, acampamentos à porta de quarteis, invasões de prédios públicos, milhares de pessoas a clamarem por um golpe? Esse filme já passou, e no fim os bandidos morrem.
De resto, segundo pesquisa da Quaest, a maior parte dos brasileiros (49%) acredita que Bolsonaro participou de uma tentativa de golpe, contra 36% que não acreditam; e 52% concordam que o Supremo Tribunal foi justo ao tornar Bolsonaro réu no inquérito do golpe.
Patética a cena de Bolsonaro ao tentar ler em inglês uma mensagem dirigida ao mundo. Bolsonaro sugeriu que a perseguição a ele é parte de uma conspiração internacional contra a direita, e citou Le Pen, os processos contra Trump e a oposição venezuelana.
Bolsonaro criou o bordão que espera ver repetido por todos os seus asseclas:
“O que os canalhas querem é me matar!”
Fazia parte do golpe que Bolsonaro quis aplicar o assassinato de Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. Esqueci algum nome?
Baderna não é golpe, em alguns casos é crime. Tentativa de golpe é crime, como tentativa de homicídio também é.
Golpe mata. Mata a democracia. Mata e tortura pessoas. Enterra sonhos de gerações inteiras.
Há quase uma semana, Le Pen foi condenada por desviar fundos do Parlamento Europeu para o caixa de seu partido, a Reunião Nacional (RN), e impedida de concorrer a cargos públicos – medida que entrou em vigor imediatamente apesar de ainda ser passível de recursos.
Na Avenida Paulista, o líder da ultradireita Jair Bolsonaro disse que “algo o avisou”, porque se ele estivesse no Brasil no dia do golpe de 8 de janeiro de 2023, “teria sido preso e estaria apodrecendo até hoje ou até assassinado”. Bolsonaro e Le Pen são dois contraventores.
Le Pen ainda tem chances de disputar a presidência da França em 2027. Bolsonaro, inelegível até 2030, não tem, de vez que foi condenado duas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral. Em breve, o Supremo Tribunal Federal o condenará por golpe de Estado.
É remota a possibilidade de Le Pen ser presa. A de Bolsonaro é mais do que certa, a não ser que fuja. Há poucos dias, ele admitiu que conversou com chefes militares sobre a adoção de medidas de exceção que impediriam a posse do presidente eleito, Lula.
Bolsonaro sabe melhor do que ninguém que o Congresso não aprovará a anistia que o beneficiaria. E que se a aprovasse, ela seria barrada pelo Supremo por ferir a Constituição. Só lhe resta, pois, estimular seus seguidores à revolta caso ele seja preso.
O pastor Silas Malafaia, um dos promotores do comício na Avenida Paulista, disse aos manifestantes:
“Se os senhores [ministros do STF] prenderem Bolsonaro, o que pode acontecer no Brasil? Pode não acontecer nada, ou pode acontecer tudo!”
O que seria “acontecer tudo”? Baderna, estradas bloqueadas por caminhoneiros, acampamentos à porta de quarteis, invasões de prédios públicos, milhares de pessoas a clamarem por um golpe? Esse filme já passou, e no fim os bandidos morrem.
De resto, segundo pesquisa da Quaest, a maior parte dos brasileiros (49%) acredita que Bolsonaro participou de uma tentativa de golpe, contra 36% que não acreditam; e 52% concordam que o Supremo Tribunal foi justo ao tornar Bolsonaro réu no inquérito do golpe.
Patética a cena de Bolsonaro ao tentar ler em inglês uma mensagem dirigida ao mundo. Bolsonaro sugeriu que a perseguição a ele é parte de uma conspiração internacional contra a direita, e citou Le Pen, os processos contra Trump e a oposição venezuelana.
Bolsonaro criou o bordão que espera ver repetido por todos os seus asseclas:
“O que os canalhas querem é me matar!”
Fazia parte do golpe que Bolsonaro quis aplicar o assassinato de Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. Esqueci algum nome?
Baderna não é golpe, em alguns casos é crime. Tentativa de golpe é crime, como tentativa de homicídio também é.
Golpe mata. Mata a democracia. Mata e tortura pessoas. Enterra sonhos de gerações inteiras.
Os derrotados
Somente os vencedores têm a sua história contada. Não existe tempo nem espaço na memória dos homens para a história dos que perderam, dos que ficaram pelo meio do caminho, dos que tentaram e não conseguiram. São a cara da humanidade; mas a própria humanidade os despreza. São a parte submersa do iceberg da história, do qual forçamo-nos a ver somente o que se eleva e se destaca, e fingimos que por baixo nada mais existe. Cadê a biografia dos que nunca subiram ao pódio, dos que perderam todas as eleições, dos que foram passados-no-rodo nas batalhas, dos que ficaram em décimo-primeiro lugar nas listas dos dez melhores, dos que buscados no Google dão zero hits?
Toda história de sucesso é praticamente a mesma coisa, mas cada derrota e cada tragédia é mais individualizada, mais pessoal e mais de-carne-e-osso do que o mero triunfo. Perguntem a Dante Alighieri, que já respondeu. É uma verdadeira assimetria filosófica que um escritor que publicou dez livros receba uma biografia e um pretendente a escritor que pensou em escrever dez livros e não o fez não receba sequer dez linhas de wiki. Sem falar naqueles que escreveram livros trabalhosíssimos e deixaram a única cópia datilografada no banco traseiro de um táxi ou numa maleta esquecida na plataforma de um trem.
O sucesso tem uma função meramente ampliadora, mas as histórias que conta não têm um grama sequer a mais do que as catástrofes de subúrbio, os naufrágios de piscina de quintal, os apocalipses em plena adolescência, os hindemburgs que colecionamos na interminável infância. Mandem parar a van em qualquer estrada lateral de qualquer interiorzão brabo, e detenham o primeiro transeunte que for passando, como faziam aqueles califas e vizires das mil e uma noites. Ele lhes contará uma história pessoal que bem escrita deixaria um bilhão de mentes estremecendo mundo afora.
A vitória é um cheque pré-datado de imortalidade, mas sem fundos. A derrota é o destino cósmico do universo: a extinção da humanidade, indivíduo por indivíduo, ou seja, a demissão da espécie por justa causa. O derrotado é aquele a quem coube receber em nome da espécie esse incômodo recado e essa ainda mais desconfortável eliminação. Toda vitória é um adiamento; uma história só se conclui de fato quando atinge sua derradeira derrota, que para uns é a morte, para outros é a não-existência de alguma coisa depois dela. Humilhados, ofendidos, condenados da terra, desvalidos, quixotes visionários, drogados incorrigíveis, missionários que em oitenta anos deixam um resíduo de estalactite e cedem lugar ao próximo, artistas jamais ouvidos, vidas que encontraram uma linha reta na direção do fim.
Toda história de sucesso é praticamente a mesma coisa, mas cada derrota e cada tragédia é mais individualizada, mais pessoal e mais de-carne-e-osso do que o mero triunfo. Perguntem a Dante Alighieri, que já respondeu. É uma verdadeira assimetria filosófica que um escritor que publicou dez livros receba uma biografia e um pretendente a escritor que pensou em escrever dez livros e não o fez não receba sequer dez linhas de wiki. Sem falar naqueles que escreveram livros trabalhosíssimos e deixaram a única cópia datilografada no banco traseiro de um táxi ou numa maleta esquecida na plataforma de um trem.
O sucesso tem uma função meramente ampliadora, mas as histórias que conta não têm um grama sequer a mais do que as catástrofes de subúrbio, os naufrágios de piscina de quintal, os apocalipses em plena adolescência, os hindemburgs que colecionamos na interminável infância. Mandem parar a van em qualquer estrada lateral de qualquer interiorzão brabo, e detenham o primeiro transeunte que for passando, como faziam aqueles califas e vizires das mil e uma noites. Ele lhes contará uma história pessoal que bem escrita deixaria um bilhão de mentes estremecendo mundo afora.
A vitória é um cheque pré-datado de imortalidade, mas sem fundos. A derrota é o destino cósmico do universo: a extinção da humanidade, indivíduo por indivíduo, ou seja, a demissão da espécie por justa causa. O derrotado é aquele a quem coube receber em nome da espécie esse incômodo recado e essa ainda mais desconfortável eliminação. Toda vitória é um adiamento; uma história só se conclui de fato quando atinge sua derradeira derrota, que para uns é a morte, para outros é a não-existência de alguma coisa depois dela. Humilhados, ofendidos, condenados da terra, desvalidos, quixotes visionários, drogados incorrigíveis, missionários que em oitenta anos deixam um resíduo de estalactite e cedem lugar ao próximo, artistas jamais ouvidos, vidas que encontraram uma linha reta na direção do fim.
A maré montante da autocracia
A prisão em 19 de março do prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu, principal líder da oposição e candidato à presidência da Turquia, mostra que o regime de Recep Tayyip Erdogan dá mais um passo no sentido de se tornar uma autocracia plena. Membro fundador da Otan, a Turquia tem papel importante na geopolítica global, pela região em que se situa e pelo papel ambivalente que joga entre as grandes potências.
A decisão de Erdogan de dar um passo decisivo na direção da autocracia é parte do novo contexto global que se vai delineando com rapidez desde a posse de Donald Trump. Mais um sinal claro de que as transformações das políticas interna e externa dos Estados Unidos terão graves consequências para a democracia no plano internacional. A erosão deliberada dos pilares da democracia norte-americana caminha de mãos dadas com o completo abandono pelos Estados Unidos da ordem liberal cuja construção o país liderou após a Segunda Guerra Mundial.
Nem a democracia americana nem a chamada ordem liberal podem ser idealizadas. Entre outros defeitos, a primeira ainda hoje preserva uma relíquia do século 18, o Colégio Eleitoral, que impede a eleição direta do presidente da república. Já a ordem internacional erguida depois de 1945, seja na sua concepção, seja na sua aplicação, jamais representou um obstáculo suficiente para que os Estados Unidos exercitassem o seu poder de potência dominante ou hegemônica, à sua conveniência.
Ainda assim, quando essa ordem desmorona, importa reconhecer o que estamos perdendo e os imensos riscos que essa perda acarreta. É inegável que sem o Plano Marshall e a Otan a Europa ocidental teria enfrentado dificuldades muito maiores, talvez intransponíveis, para consolidar regimes democráticos avançados, na segunda metade do século 20. Mais provável teria sido o domínio soviético se estender para além da Cortina de Ferro (contido, paradoxalmente, facilitou a formação dos Estados de bem-estar na Europa ocidental). Vale lembrar que a Europa do leste só se livrou de regimes autocráticos e Estados policiais pouco antes do colapso final da União Soviética, quase 50 anos depois do fim do conflito mundial.
No mesmo período, em outras regiões do mundo, os Estados Unidos apoiaram golpes de Estado e ditaduras amigas, enquanto durou a guerra fria.
Porém, junto com a Europa, eles desempenham papel importante na chamada “terceira onda democrática”, iniciada ao fim da década de 1970, seja por não interferir, como no caso da América Latina, seja por apoiar, como no caso do leste da Ásia e da Europa do leste, processos de transição para a democracia.
Em resumo, em matéria de democracia e direitos humanos, o mundo que conhecemos nos últimos 80 anos teria sido bem pior se o desprezo pelas instituições multilaterais e pelos valores democráticos, típicos do que Trump representa, tivesse orientado a política externa americana.
A ruptura interna e externa dos Estados Unidos com a chamada ordem liberal se dá num momento em que ela já se encontrava gravemente enfraquecida. O espectro de um sistema internacional dividido em esferas de influência dominadas por grandes potências autocráticas (Estados Unidos, China e Rússia) ronda o mundo.
Engana-se quem acredita que, com Trump, os Estados Unidos serão menos intervencionistas. Ele e seus aliados se mexem para apoiar forças de extrema direita na Europa e na América Latina, valendo-se do governo americano e de grandes oligarcas, como Elon Musk, uma fusão entre poder político e econômico que ameaça a democracia e a economia de mercado nos Estados Unidos e em outros países.
O pesadelo de uma ordem global autocrática despertou a Europa da sua letargia. O fortalecimento da União Europeia é indispensável para reverter a maré montante da autocracia. O desafio do Velho Continente está em compatibilizar o aumento dos gastos em defesa e a adoção de políticas de competitividade, tais como as recomendadas pelo Relatório Draghi, com a preservação/atualização do Estado de bem-estar social. Para vencer esse desafio, os membros da União Europeia precisam agir em conjunto, com objetivos e mecanismos de financiamento comuns. O que era muito difícil antes de Trump se tornou mais provável em resposta ao abandono da aliança atlântica pelo novo ocupante da Casa Branca. As forças democráticas da centro-direita à centroesquerda europeia parecem dispostas à convergência.
Para a América Latina, em geral, e para o Brasil, em particular, interessa o fortalecimento da União Europeia. Temos atritos comerciais, mas temos complementaridade econômica e, não menos importante, um lastro comum no compromisso com a defesa da democracia e a proteção dos direitos humanos. Cá, como lá, as lideranças políticas democráticas, da centro-direita à centro-esquerda, precisam entender o que está em jogo. Na política interna, é preciso isolar a extrema direita. Na externa, o indispensável pragmatismo deve se aliar a uma orientação valorativa que reforce a nossa identidade democrática.
Sergio Fausto
A decisão de Erdogan de dar um passo decisivo na direção da autocracia é parte do novo contexto global que se vai delineando com rapidez desde a posse de Donald Trump. Mais um sinal claro de que as transformações das políticas interna e externa dos Estados Unidos terão graves consequências para a democracia no plano internacional. A erosão deliberada dos pilares da democracia norte-americana caminha de mãos dadas com o completo abandono pelos Estados Unidos da ordem liberal cuja construção o país liderou após a Segunda Guerra Mundial.
Nem a democracia americana nem a chamada ordem liberal podem ser idealizadas. Entre outros defeitos, a primeira ainda hoje preserva uma relíquia do século 18, o Colégio Eleitoral, que impede a eleição direta do presidente da república. Já a ordem internacional erguida depois de 1945, seja na sua concepção, seja na sua aplicação, jamais representou um obstáculo suficiente para que os Estados Unidos exercitassem o seu poder de potência dominante ou hegemônica, à sua conveniência.
Ainda assim, quando essa ordem desmorona, importa reconhecer o que estamos perdendo e os imensos riscos que essa perda acarreta. É inegável que sem o Plano Marshall e a Otan a Europa ocidental teria enfrentado dificuldades muito maiores, talvez intransponíveis, para consolidar regimes democráticos avançados, na segunda metade do século 20. Mais provável teria sido o domínio soviético se estender para além da Cortina de Ferro (contido, paradoxalmente, facilitou a formação dos Estados de bem-estar na Europa ocidental). Vale lembrar que a Europa do leste só se livrou de regimes autocráticos e Estados policiais pouco antes do colapso final da União Soviética, quase 50 anos depois do fim do conflito mundial.
No mesmo período, em outras regiões do mundo, os Estados Unidos apoiaram golpes de Estado e ditaduras amigas, enquanto durou a guerra fria.
Porém, junto com a Europa, eles desempenham papel importante na chamada “terceira onda democrática”, iniciada ao fim da década de 1970, seja por não interferir, como no caso da América Latina, seja por apoiar, como no caso do leste da Ásia e da Europa do leste, processos de transição para a democracia.
Em resumo, em matéria de democracia e direitos humanos, o mundo que conhecemos nos últimos 80 anos teria sido bem pior se o desprezo pelas instituições multilaterais e pelos valores democráticos, típicos do que Trump representa, tivesse orientado a política externa americana.
A ruptura interna e externa dos Estados Unidos com a chamada ordem liberal se dá num momento em que ela já se encontrava gravemente enfraquecida. O espectro de um sistema internacional dividido em esferas de influência dominadas por grandes potências autocráticas (Estados Unidos, China e Rússia) ronda o mundo.
Engana-se quem acredita que, com Trump, os Estados Unidos serão menos intervencionistas. Ele e seus aliados se mexem para apoiar forças de extrema direita na Europa e na América Latina, valendo-se do governo americano e de grandes oligarcas, como Elon Musk, uma fusão entre poder político e econômico que ameaça a democracia e a economia de mercado nos Estados Unidos e em outros países.
O pesadelo de uma ordem global autocrática despertou a Europa da sua letargia. O fortalecimento da União Europeia é indispensável para reverter a maré montante da autocracia. O desafio do Velho Continente está em compatibilizar o aumento dos gastos em defesa e a adoção de políticas de competitividade, tais como as recomendadas pelo Relatório Draghi, com a preservação/atualização do Estado de bem-estar social. Para vencer esse desafio, os membros da União Europeia precisam agir em conjunto, com objetivos e mecanismos de financiamento comuns. O que era muito difícil antes de Trump se tornou mais provável em resposta ao abandono da aliança atlântica pelo novo ocupante da Casa Branca. As forças democráticas da centro-direita à centroesquerda europeia parecem dispostas à convergência.
Para a América Latina, em geral, e para o Brasil, em particular, interessa o fortalecimento da União Europeia. Temos atritos comerciais, mas temos complementaridade econômica e, não menos importante, um lastro comum no compromisso com a defesa da democracia e a proteção dos direitos humanos. Cá, como lá, as lideranças políticas democráticas, da centro-direita à centro-esquerda, precisam entender o que está em jogo. Na política interna, é preciso isolar a extrema direita. Na externa, o indispensável pragmatismo deve se aliar a uma orientação valorativa que reforce a nossa identidade democrática.
Sergio Fausto
Trump tenta coibir uso de quase 200 palavras. Pode um governante legislar sobre a linguagem?
No começo de março, deu no New York Times que 197 palavras e expressões vêm sendo excluídas do léxico do governo americano e devem ser evitadas em documentos e na comunicação oficial. Entre elas: “antirracismo”, “energia limpa”, “orientação”, “historicamente”, “mulheres”, “transexual”, “pronomes”, “trauma”, e até “Golfo do México”. Todas pertencem ao vocabulário “woke”, isto é, são utilizadas por determinada militância progressista deplorada pelo presidente Donald Trump. Ou se referem a obsessões do republicano, como renomear o Golfo do México como Golfo da América (nos Estados Unidos, mapas do Google e da Apple já adotaram o topônimo trumpista).
O dicionário de expressões indesejáveis foi compilado a partir da consulta de documentos que ordenam sua remoção de sites do governo e de outros materiais, como currículos escolares. Quando não há proibição explícita, recomenda-se cautela do uso de certas palavras. O NYT supõe que a lista de palavras banidas seja ainda maior. A presença desses termos pode resultar na revisão de contratos e na reprovação do financiamento de pesquisas científicas, afirmou o jornal.
Mas, afinal, pode um governante legislar sobre a linguagem? O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) acreditava que sim. Em “O cidadão”, ele afirma que cabe ao soberano impor o significado das palavras, pois “uma denominação incorreta pode levar à revolta e à sedição”, ou seja, a divisões sociais que abalem o poder político. Hobbes é um teórico da soberania e, embora admita leituras mais democráticas, sua obra é mais comumente associada a uma defesa do poder ilimitado do monarca. Leitor de Hobbes, o professor de filosofia e ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro explica que o problema não é os governantes criarem um vocabulário próprio, mas como eles definem certos conceitos.
— A palavra “povo” é outro exemplo. “Povo” é o conjunto da população ou são só aqueles que apoiam determinado político? Essa definição tem consequências — afirma o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, acrescentando que “o significado das palavras está sempre em disputa”.
No dicionário trumpista, termos como “homem” e “mulher” se referem ao “gênero atribuído a uma pessoa ao nascer”, o que exclui homens e mulheres trans. Há uma semana, um repórter perguntou a Trump: “O que é uma mulher?” “É alguém que pode ter um bebê”, ele respondeu. A expressão “Pessoas gestantes”, que inclui homens trans que engravidam, também foi banida.
Em “Eles em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI” (Record), Idelber Avelar analisa diferentes forças políticas e adoção de figuras de linguagem. A hipérbole (exagero), por exemplo, é usada para fomentar o nacionalismo e a fé no desenvolvimento econômico. Já o oxímoro (contradição insolúvel, como um círculo quadrado) aparece nos discursos de políticos que tentam unir forças sociais opostas, ignorando de propósito as diferenças inconciliáveis. Em alguns casos, nota o autor, algumas palavras desparecem paulatinamente do discurso público, como “latifundiário”, substituído nas últimas décadas por “ruralista”.
— A concentração de terras no Brasil não diminuiu, ainda existem latifúndios, mas o termo para designar essa realidade mudou de tal forma que o abismo social entre ricos e pobres no país ficou menos visível. A substituição de “latifundiário”, um termo essencial da historiografia e da sociologia brasileira, por “ruralista” amaciou nossa percepção da desigualdade — diz o professor da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos.
O abandono de determinados termos, diz Avelar, aponta para tentativas de apagar a realidade que eles nomeiam. A linguista Jana Viscardi concorda:
— Se não é mais possível nomear a existência de uma pessoa transexual, como pensar em políticas públicas para essa população? — questiona ela.
Autora de “Escrever sem medo” (Planeta), Viscardi diferencia o que considera propostas “autoritárias” da linguagem que é cunhada por militâncias progressistas e de tentativas de banir estrangeirismos (como a encampada pelo ex-deputado Aldo Rebelo no fim do século passado), que estão fadadas ao fracasso dada à própria dinâmica da língua.
— Uma coisa é questionar como o preconceito se dá por meio do uso da língua. Outra é proibir palavras que incluem a descrição de seres humanos com o intuito de apagar um conjunto de existências e práticas — diz ela.
Para o historiador americano Robert Darnton, o objetivo de Trump é atacar o vocabulário de uma certa elite ligada a universidades de prestígio e à militância progressista. Estudioso do Século das Luzes, ele lembra que a Revolução Francesa também ousou intervir diretamente na linguagem: mudou os nomes dos meses do ano e incentivou a adoção de “citoyen” (cidadão) no lugar de “monsieur” (senhor) e “madame” (senhora) para solidificar a identidade da nação sob os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
No livro “Censores em ação: como os estados influenciaram a literatura” (Companhia das Letras), Robert Darnton conta que, na Alemanha Oriental, a repressão às ideias era tamanha que, no limite, a fiscalização se tornou desnecessária, pois os próprios intelectuais internalizaram as restrições. Ele não descarta que algo ocorra nos EUA. Acadêmicos talvez pensem duas vezes (ou mais) antes de escrever e submeter projetos que contemplem iniciativas de diversidade, equidade e inclusão (DEI, na sigla em inglês).
— Um amigo matemático brincou que não sabe mais se vai poder usar a palavra “igual” — diz ele. — Acho que vai haver muita autocensura. Tenho editores na China e na Rússia e sempre sou muito cuidadoso nos e-mails, não escrevo nada que eu imagino que possa causar problemas para eles. Talvez eu comece a tomar esse cuidado aqui também.
O escritor, tradutor e linguista Caetano Galindo lembra que são raríssimos os casos em que governantes de fato conseguem alterar um idioma. Uma exceção é Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938), o pai da Turquia moderna, que impôs reformas para expurgar a influência do árabe e do persa na língua pátria. O alfabeto árabe foi substituído pelo latino. Em vez de proibir vocábulos estrangeiros, Atatürk patrocinou a criação de novas palavras, legitimamente turcas, que eram publicadas no jornal para o conhecimento dos falantes. Deu certo, mas o caso turco é quase a exceção que confirma a regra.
— A tentativa de intervir sobre o vocabulário só toca a superfície da superfície da língua. O idioma é muito maior do que isso. Se você proíbe um termo, em dois dias a sociedade começa a usar outro que cumpre um papel parecido — afirma o autor do recém-lançado “Na ponta da língua: o nosso português da cabeça aos pés” (Companhia das Letras). — O idioma é a nossa realidade mais premente, mais constante, ele é comum a todos e impossível de controlar. Ninguém legisla sobre um idioma. Quem determina como ele vai ser é o coletivo dos falantes, que vive num permanente cabo de guerra.
Em “Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português” (Companhia das Letras), Galindo escreve que a maneira própria como se dá a “mudança linguística”, alterando implacavelmente idiomas impostos de cima, “pode ser uma curiosa lição de democracia”.
O dicionário de expressões indesejáveis foi compilado a partir da consulta de documentos que ordenam sua remoção de sites do governo e de outros materiais, como currículos escolares. Quando não há proibição explícita, recomenda-se cautela do uso de certas palavras. O NYT supõe que a lista de palavras banidas seja ainda maior. A presença desses termos pode resultar na revisão de contratos e na reprovação do financiamento de pesquisas científicas, afirmou o jornal.
Mas, afinal, pode um governante legislar sobre a linguagem? O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) acreditava que sim. Em “O cidadão”, ele afirma que cabe ao soberano impor o significado das palavras, pois “uma denominação incorreta pode levar à revolta e à sedição”, ou seja, a divisões sociais que abalem o poder político. Hobbes é um teórico da soberania e, embora admita leituras mais democráticas, sua obra é mais comumente associada a uma defesa do poder ilimitado do monarca. Leitor de Hobbes, o professor de filosofia e ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro explica que o problema não é os governantes criarem um vocabulário próprio, mas como eles definem certos conceitos.
— A palavra “povo” é outro exemplo. “Povo” é o conjunto da população ou são só aqueles que apoiam determinado político? Essa definição tem consequências — afirma o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, acrescentando que “o significado das palavras está sempre em disputa”.
No dicionário trumpista, termos como “homem” e “mulher” se referem ao “gênero atribuído a uma pessoa ao nascer”, o que exclui homens e mulheres trans. Há uma semana, um repórter perguntou a Trump: “O que é uma mulher?” “É alguém que pode ter um bebê”, ele respondeu. A expressão “Pessoas gestantes”, que inclui homens trans que engravidam, também foi banida.
Em “Eles em nós: retórica e antagonismo político no Brasil do século XXI” (Record), Idelber Avelar analisa diferentes forças políticas e adoção de figuras de linguagem. A hipérbole (exagero), por exemplo, é usada para fomentar o nacionalismo e a fé no desenvolvimento econômico. Já o oxímoro (contradição insolúvel, como um círculo quadrado) aparece nos discursos de políticos que tentam unir forças sociais opostas, ignorando de propósito as diferenças inconciliáveis. Em alguns casos, nota o autor, algumas palavras desparecem paulatinamente do discurso público, como “latifundiário”, substituído nas últimas décadas por “ruralista”.
— A concentração de terras no Brasil não diminuiu, ainda existem latifúndios, mas o termo para designar essa realidade mudou de tal forma que o abismo social entre ricos e pobres no país ficou menos visível. A substituição de “latifundiário”, um termo essencial da historiografia e da sociologia brasileira, por “ruralista” amaciou nossa percepção da desigualdade — diz o professor da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos.
O abandono de determinados termos, diz Avelar, aponta para tentativas de apagar a realidade que eles nomeiam. A linguista Jana Viscardi concorda:
— Se não é mais possível nomear a existência de uma pessoa transexual, como pensar em políticas públicas para essa população? — questiona ela.
Autora de “Escrever sem medo” (Planeta), Viscardi diferencia o que considera propostas “autoritárias” da linguagem que é cunhada por militâncias progressistas e de tentativas de banir estrangeirismos (como a encampada pelo ex-deputado Aldo Rebelo no fim do século passado), que estão fadadas ao fracasso dada à própria dinâmica da língua.
— Uma coisa é questionar como o preconceito se dá por meio do uso da língua. Outra é proibir palavras que incluem a descrição de seres humanos com o intuito de apagar um conjunto de existências e práticas — diz ela.
Para o historiador americano Robert Darnton, o objetivo de Trump é atacar o vocabulário de uma certa elite ligada a universidades de prestígio e à militância progressista. Estudioso do Século das Luzes, ele lembra que a Revolução Francesa também ousou intervir diretamente na linguagem: mudou os nomes dos meses do ano e incentivou a adoção de “citoyen” (cidadão) no lugar de “monsieur” (senhor) e “madame” (senhora) para solidificar a identidade da nação sob os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
No livro “Censores em ação: como os estados influenciaram a literatura” (Companhia das Letras), Robert Darnton conta que, na Alemanha Oriental, a repressão às ideias era tamanha que, no limite, a fiscalização se tornou desnecessária, pois os próprios intelectuais internalizaram as restrições. Ele não descarta que algo ocorra nos EUA. Acadêmicos talvez pensem duas vezes (ou mais) antes de escrever e submeter projetos que contemplem iniciativas de diversidade, equidade e inclusão (DEI, na sigla em inglês).
— Um amigo matemático brincou que não sabe mais se vai poder usar a palavra “igual” — diz ele. — Acho que vai haver muita autocensura. Tenho editores na China e na Rússia e sempre sou muito cuidadoso nos e-mails, não escrevo nada que eu imagino que possa causar problemas para eles. Talvez eu comece a tomar esse cuidado aqui também.
O escritor, tradutor e linguista Caetano Galindo lembra que são raríssimos os casos em que governantes de fato conseguem alterar um idioma. Uma exceção é Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938), o pai da Turquia moderna, que impôs reformas para expurgar a influência do árabe e do persa na língua pátria. O alfabeto árabe foi substituído pelo latino. Em vez de proibir vocábulos estrangeiros, Atatürk patrocinou a criação de novas palavras, legitimamente turcas, que eram publicadas no jornal para o conhecimento dos falantes. Deu certo, mas o caso turco é quase a exceção que confirma a regra.
— A tentativa de intervir sobre o vocabulário só toca a superfície da superfície da língua. O idioma é muito maior do que isso. Se você proíbe um termo, em dois dias a sociedade começa a usar outro que cumpre um papel parecido — afirma o autor do recém-lançado “Na ponta da língua: o nosso português da cabeça aos pés” (Companhia das Letras). — O idioma é a nossa realidade mais premente, mais constante, ele é comum a todos e impossível de controlar. Ninguém legisla sobre um idioma. Quem determina como ele vai ser é o coletivo dos falantes, que vive num permanente cabo de guerra.
Em “Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português” (Companhia das Letras), Galindo escreve que a maneira própria como se dá a “mudança linguística”, alterando implacavelmente idiomas impostos de cima, “pode ser uma curiosa lição de democracia”.
O drama das cobaias humanas em Gaza
Na semana passada, mais que em qualquer momento anterior, nosso planeta viu-se forçado a mudar de órbita e girar em torno de Donald Trump, autoproclamado rei-sol do desvario tarifário em curso. Consequências e reverberações da medida têm sido dissecadas em todos os quadrantes, exceto na estreita faixa de terra, sangue e história chamada Gaza. Ali não há o que taxar. Ali uma vida humana vale menos que a de um cachorro.
Foi em agosto de 2024 que se ouviu a primeira referência ao termo shawish, empregado no contexto da guerra desencadeada por Benjamin Netanyahu em retaliação ao atentado terrorista do Hamas de outubro de 2023. A palavra de origem turca significa “sargento”, mas, segundo revelou à época o jornalista investigativo Yaniv Kubovich, passou a ser usada como sinônimo de “escravo” ou “escudo humano” pelas Forças de Defesa de Israel (FDI). A longa reportagem de Kubovich publicada no jornal de oposição Haaretz causou incômodo. Ela deu voz a soldados e oficiais da frente de combate que denunciaram o uso de civis palestinos como cobaias em operações militares.
A prática, também conhecida como Protocolo Mosquito, consiste em pinçar algum jovem ou idoso entre civis palestinos, vesti-lo com uniforme das FDI, amarrar-lhe as mãos pelas costas, afixar uma câmera ao colete à prova de balas e obrigá-lo a entrar em túneis do Hamas ou imóveis semidestruídos. Com dez minutos de antecedência em relação à tropa. Se o local estiver minado, o “escudo” civil explode primeiro. Caso contrário, ele tem a promessa de ser libertado uma vez cumprida a missão. Em tese, são recrutados à força por apenas 24 horas, mas há relatos de shawishes sendo usados ao longo de uma semana inteira. Para tanto, recebem rações militares e água.
Segundo a reportagem original, houve instâncias em que unidades de combate chegaram a questionar seus superiores sobre a legalidade do procedimento, inquiriram sobre a origem e a necessidade da ordem recebida. Recebiam respostas impacientes:
— Você concorda que é melhor seus amigos continuarem vivos e não estraçalhados por algum explosivo, e que eles ‘se explodam’ no nosso lugar, certo?
— Um soldado não deve se interessar por leis de guerra. Vocês precisam pensar nos valores da nossa defesa.
A proteção à unidade canina militar Oketz também era ressaltada — vários cães farejadores haviam morrido ou saído horrendamente feridos desse tipo de incursão, enquanto outros, apesar de sobreviver, perdiam seus sentidos operacionais. Era preciso protegê-los. Melhor, portanto, usar cobaias humanas. Leia-se, palestinos inocentes.
Dias atrás, foi a vez de um oficial israelense (não identificado nominalmente, por motivos óbvios) publicar seu desabafo diante da normalização do procedimento. Entre as primeiras denúncias e hoje, a Divisão de Investigações Criminais das FDI abriu apenas seis inquéritos referentes ao uso de palestinos como escudos.
— Hoje, praticamente todo pelotão mantém um shawish de prontidão. Isso significa quatro escudos palestinos por companhia, 12 por batalhão e pelo menos 36 numa brigada. Estamos operando com um subexército de escravos — escreveu o militar.
O signatário do desabafo serviu por nove meses no inferno de Gaza e testemunhou várias ações do gênero. O procedimento não exige tecnologia — é mais barato e simples que o uso de robôs ou drones. Relatos de combatentes coletados pela ONG Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio) sustentam que pelo menos dois oficiais do mais alto escalão das FDI tinham conhecimento da prática ilegal.
— Não sei o que é pior — escreve o autor da denúncia — Se os comandantes não saberem o que ocorre nas fileiras subalternas ou saberem e ignorarem.
Ele acredita que os seis inquéritos em curso visam somente a aplacar a consciência nacional e mundial pinçando alguns bodes expiatórios.
Enquanto isso, prosseguem o fatiamento e a ocupação de Gaza, a expansão da operação militar, a criação de mais “zonas de segurança” para as FDI, o enxotamento de mais de 140 mil para a nova “zona humanitária”. Ganho territorial parece ter se tornado a prioridade única de Netanyahu. O cessar-fogo inicial de 42 dias expirou em fevereiro e, desde então, vigora a suspensão de qualquer ajuda humanitária para o enclave. Um diretório especial israelense já começou a ser formado para supervisionar a “saída voluntária” de palestinos do enclave e, segundo revelou o site Axios, agentes do Mossad iniciaram o trabalho de “convencimento” de países africanos como Somália e Sudão do Sul para que aceitem receber esses excluídos à força.
Quantos shawishes mais precisarão ser usados para limpar Gaza de sua vida palestina?
— Estremeço ao pensar no dano causado à psique de quem é obrigado a entrar numa casa como cobaia, sozinho, desarmado e aterrorizado. Também estremeço ao pensar no dano que isso causa a nossos jovens soldados israelenses que prepararam a vítima — escreveu o oficial no Haaretz. — Não apenas falhamos na proteção de nossas tropas, como também corrompemos suas almas. Não há como saber o que será de nós, como sociedade, quando eles retornarem da linha de frente.
Foi em agosto de 2024 que se ouviu a primeira referência ao termo shawish, empregado no contexto da guerra desencadeada por Benjamin Netanyahu em retaliação ao atentado terrorista do Hamas de outubro de 2023. A palavra de origem turca significa “sargento”, mas, segundo revelou à época o jornalista investigativo Yaniv Kubovich, passou a ser usada como sinônimo de “escravo” ou “escudo humano” pelas Forças de Defesa de Israel (FDI). A longa reportagem de Kubovich publicada no jornal de oposição Haaretz causou incômodo. Ela deu voz a soldados e oficiais da frente de combate que denunciaram o uso de civis palestinos como cobaias em operações militares.
A prática, também conhecida como Protocolo Mosquito, consiste em pinçar algum jovem ou idoso entre civis palestinos, vesti-lo com uniforme das FDI, amarrar-lhe as mãos pelas costas, afixar uma câmera ao colete à prova de balas e obrigá-lo a entrar em túneis do Hamas ou imóveis semidestruídos. Com dez minutos de antecedência em relação à tropa. Se o local estiver minado, o “escudo” civil explode primeiro. Caso contrário, ele tem a promessa de ser libertado uma vez cumprida a missão. Em tese, são recrutados à força por apenas 24 horas, mas há relatos de shawishes sendo usados ao longo de uma semana inteira. Para tanto, recebem rações militares e água.
Segundo a reportagem original, houve instâncias em que unidades de combate chegaram a questionar seus superiores sobre a legalidade do procedimento, inquiriram sobre a origem e a necessidade da ordem recebida. Recebiam respostas impacientes:
— Você concorda que é melhor seus amigos continuarem vivos e não estraçalhados por algum explosivo, e que eles ‘se explodam’ no nosso lugar, certo?
— Um soldado não deve se interessar por leis de guerra. Vocês precisam pensar nos valores da nossa defesa.
A proteção à unidade canina militar Oketz também era ressaltada — vários cães farejadores haviam morrido ou saído horrendamente feridos desse tipo de incursão, enquanto outros, apesar de sobreviver, perdiam seus sentidos operacionais. Era preciso protegê-los. Melhor, portanto, usar cobaias humanas. Leia-se, palestinos inocentes.
Dias atrás, foi a vez de um oficial israelense (não identificado nominalmente, por motivos óbvios) publicar seu desabafo diante da normalização do procedimento. Entre as primeiras denúncias e hoje, a Divisão de Investigações Criminais das FDI abriu apenas seis inquéritos referentes ao uso de palestinos como escudos.
— Hoje, praticamente todo pelotão mantém um shawish de prontidão. Isso significa quatro escudos palestinos por companhia, 12 por batalhão e pelo menos 36 numa brigada. Estamos operando com um subexército de escravos — escreveu o militar.
O signatário do desabafo serviu por nove meses no inferno de Gaza e testemunhou várias ações do gênero. O procedimento não exige tecnologia — é mais barato e simples que o uso de robôs ou drones. Relatos de combatentes coletados pela ONG Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio) sustentam que pelo menos dois oficiais do mais alto escalão das FDI tinham conhecimento da prática ilegal.
— Não sei o que é pior — escreve o autor da denúncia — Se os comandantes não saberem o que ocorre nas fileiras subalternas ou saberem e ignorarem.
Ele acredita que os seis inquéritos em curso visam somente a aplacar a consciência nacional e mundial pinçando alguns bodes expiatórios.
Enquanto isso, prosseguem o fatiamento e a ocupação de Gaza, a expansão da operação militar, a criação de mais “zonas de segurança” para as FDI, o enxotamento de mais de 140 mil para a nova “zona humanitária”. Ganho territorial parece ter se tornado a prioridade única de Netanyahu. O cessar-fogo inicial de 42 dias expirou em fevereiro e, desde então, vigora a suspensão de qualquer ajuda humanitária para o enclave. Um diretório especial israelense já começou a ser formado para supervisionar a “saída voluntária” de palestinos do enclave e, segundo revelou o site Axios, agentes do Mossad iniciaram o trabalho de “convencimento” de países africanos como Somália e Sudão do Sul para que aceitem receber esses excluídos à força.
Quantos shawishes mais precisarão ser usados para limpar Gaza de sua vida palestina?
— Estremeço ao pensar no dano causado à psique de quem é obrigado a entrar numa casa como cobaia, sozinho, desarmado e aterrorizado. Também estremeço ao pensar no dano que isso causa a nossos jovens soldados israelenses que prepararam a vítima — escreveu o oficial no Haaretz. — Não apenas falhamos na proteção de nossas tropas, como também corrompemos suas almas. Não há como saber o que será de nós, como sociedade, quando eles retornarem da linha de frente.
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