quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Vamos discutir o Brasil

“Tinha razão aquele velho brasileiro que, escandalizado com a futilidade dos nossos debates políticos, lembrava a conveniência de, ao lado do Congresso Nacional, organizar-se uma comissão permanente de brasileiros de boa vontade, sem outra preocupação que a prosperidade e a grandeza da Pátria, para o fim de estudar e resolver os grandes problemas políticos de nossa terra. O Congresso ficaria para as parolagens inúteis, para os bate-bocas apaixonados, para as exibições teatrais (...).” Nada mais atual do que o comentário publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 23 de novembro de 1935.



Nos dias que correm, a divisão e a polarização da sociedade brasileira dificultam e influenciam a discussão e o debate sobre os múltiplos aspectos das questões nacionais. O foco de debate reproduzido pela mídia tradicional e pela mídia social reflete aspectos importantes da economia, da política, das questões sociais, das questões identitárias, as reformas estruturais, a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, as questões ambientais e de mudança de clima, a violência e a corrupção. São raramente analisados os impactos relacionados com o cenário global (guerras, nacionalismo, protecionismo, geoeconomia e uso da força, inovação, inteligência artificial, entre outras) sobre a economia e a política nacionais.


Discute-se tudo, mas pouco ou quase nada sobre o Brasil. É quase inexistente hoje o pensamento sobre o Brasil como país, e não como palco de disputas ideológicas e partidárias. A ausência de lideranças no governo, no Legislativo, no Judiciário, na classe política, nos setores industriais e agrícolas contribui para a discussão fatiada, sem a preocupação mais geral de pensar o Brasil em primeiro lugar, em um mundo em grandes transformações, e sem reconhecer as mudanças ocorridas nas últimas décadas no País e no seu entorno geográfico (América Latina e do Sul), relevantes para uma análise objetiva. Está mudando a economia global, a ordem internacional, a geopolítica, o meio ambiente e a mudança de clima, a inovação tecnológica se acelerou e a inteligência artificial criou desafios na área civil e militar, a geoeconomia e a segurança nacional são as forças do momento. Qual o impacto dessas transformações sobre o Brasil? Quais as decisões estratégicas, internas e externas, que terão de ser adotadas para o Brasil responder a esses desafios?

Como tentar reduzir as vulnerabilidades e aproveitar as oportunidades que se oferecem na nova ordem econômica e mundial? Como enfrentar as novas e as tradicionais ameaças à soberania, ao desenvolvimento e à segurança do País?

A radicalização da política interna, na minha visão, torna difícil, neste momento, a discussão sobre um projeto para o Brasil. Na impossibilidade de se chegar a um acordo em torno de um projeto nacional por diferenças ideológicas e político-partidárias, torna-se necessário preencher essa grave lacuna do ponto de vista estratégico. Não existe nenhum documento oficial (e poucos de origem na academia) que pensem o Brasil no contexto global e que tenha sido discutido com a sociedade civil.

Chegou a hora de começar a discutir o Brasil e tentar colocar os interesses nacionais permanentes acima de visões setoriais, como fazem todos os principais países do mundo, com uma visão de médio e longo prazo. O documento Uma Estratégia para o Brasil – O Lugar do Brasil no Mundo, preparado pelo Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), procura contribuir para um debate que está atrasado, mas que se faz necessário (interessenacional.com.br). Não se trata de um documento elaborado a partir das políticas do governo de turno nem com viés ideológico ou partidário. Necessariamente genérico, sempre com uma visão estratégica e não conjuntural, o trabalho trata dos objetivos nacionais, do lugar do Brasil no mundo, sinaliza as prioridades e vulnerabilidades de uma potência de médio porte emergente que tem um peso no cenário internacional como oitava economia global, com um território continental e mais de 210 milhões de habitantes. O documento vai além da Estratégia Nacional de Defesa e da Política Nacional de Defesa, produzidos pelo Ministério da Defesa, que refletem posições nacionais, mas de um ponto de vista setorial.

Durante o ano de 2025, serão promovidos encontros virtuais e presencias para discutir o trabalho e suscitar o debate sobre uma estratégia para o Brasil, do ponto de vista interno e externo, com uma visão de médio e longo prazo. Com isso, se pretende começar a focalizar o Brasil em primeiro lugar, em um novo mundo, em complemento ao debate interno conjuntural de todos os problemas políticos, econômicos e sociais nacionais.

O Irice, com o apoio do Portal Interesse Nacional, organizará uma série de encontros para sensibilizar a sociedade civil para esse debate. Serão buscadas parcerias com as Comissões de Relações Exteriores e de Defesa, da Câmara e do Senado, com os partidos políticos, com instituições civis e militares, públicas ou privadas, empresariais e acadêmicas, além de formadores de opinião na mídia social que possam se interessar.

Vamos discutir o Brasil acima de interesses ideológicos e partidários.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

'Nós morremos, para que eles possam viver'

Quantas horas você consegue sobreviver sob os escombros da sua própria casa? Duas, três ou até seis horas?

Aqui em Gaza, somos forçados a suportar uma maratona de ficarmos presos sob os escombros.

Lara, Yara e Naama suportaram períodos de tempo inimagináveis: seis, oito e dezesseis horas, respectivamente.

Merecemos ter o peso de nossas próprias casas nos esmagando, nos sufocando enquanto lutamos para sobreviver?

Essas horas são realmente nossas ou ainda estamos presos sob os escombros de nossas próprias vidas?

Em Gaza, quando uma casa é bombardeada, a defesa civil e os civis correm para salvar os sobreviventes.

No entanto, até mesmo a defesa civil foi alvo da ocupação israelense. Como isso foi permitido pelo direito internacional?

Aqueles que ainda estão vivos sob os escombros também não estão morrendo?

Nós nos sacrificamos mil vezes para que outros possam viver. Mas mesmo quando são resgatados, algo dentro deles morreu.


A família Zaqout no campo de Nuseirat foi alvo, e a família inteira ficou presa sob os escombros. Lara, que tem seis anos, e Yara, que tem dezesseis, sobreviveram milagrosamente depois de mais de oito horas sob os escombros.

Yara relembra: “Lara costumava dormir ao meu lado antes do bombardeio. Costumávamos dormir em paz até que o míssil chegou, o que foi como um pesadelo da minha vida.”

Acordei e encontrei o teto da nossa casa sobre meu peito, e tudo o que havia para respirar era ar cheio de poeira.

Tantas perguntas correram na minha cabeça — eu morri? Onde estou? Onde está minha família? Minha mãe, meu pai e Lara?

Gritei, mas não saiu nenhum som, desmaiei e acordei com o corpo todo coberto de sangue e lágrimas.

As vozes da defesa civil, vizinhos e parentes gritavam: “Há sobreviventes?” Como posso responder?

Tentei muito, mas nenhum som saiu. Tentei tocar Lara, mas não a encontrei ao meu lado. No entanto, ouvi-a gemer.

Vozes de fora começaram a sumir e desaparecer.

O som de alguém lá fora dizendo: "Há uma mão se movendo sob o teto", me dá esperança; esta é Lara.

Todos trabalharam incansavelmente para resgatar Lara e, ao verem minha mão, tentaram me puxar para fora, mas sem sucesso.

Eles não conseguiram quebrar o teto porque eu estava embaixo dele. Eles tentaram por horas, e depois de oito horas de pesadelo, eu saí.

Oito horas se rendendo à morte diversas vezes.

Oito horas vivendo um pesadelo que eu queria poder apagar da memória dela.

Sim, fui resgatado e gostaria de não ter sido!

Qual foi o custo?

“Saí com deficiências e uma pélvis quebrada, meu corpo encharcado de sangue e seus ossos quebrados visíveis sob a carne”, disse Yara.

Esse incidente aconteceu meses atrás, mas Yara ainda revive o pesadelo toda vez que fecha os olhos.

Rita, uma mãe de 27 anos, estava morando no Egito, mas veio a Gaza para visitar sua família e seus três filhos apenas dois meses antes da guerra começar.

Eles estavam todos dormindo no meio da casa.

Sua irmã Farah insistiu que eles não dormissem naquele dia e prometeu Nescafé. Eles estavam relembrando suas memórias de infância.

De repente, a casa foi envolta em um brilho alaranjado de um foguete, e suas vozes foram silenciadas quando o prédio de cinco andares desmoronou em um único andar.

“Achei que estava morta e desisti”, diz Rita.

Mas aqueles dedos inocentes e pequenos de seu filho Ryan a tocaram e a trouxeram de volta à vida. “Mãe, acorde, mãe, acorde.”

“Meus irmãos não acordaram”, Ryan grita e pede ajuda.

Os irmãos de Rayan não sobreviveram, mas a voz e o toque inocentes de Ryan lhe deram forças para continuar lutando.

“Não se preocupe, minha pequena, eu estou viva.”

A Defesa Civil conseguiu resgatar Ryan, Rita e sua irmã, Farah, mas o resto da família morreu.

A espera mais longa de nossas vidas foi esperar para sermos resgatados dos escombros, torcendo para sermos encontrados antes que o oxigênio acabasse ou que sucumbissemos aos ferimentos.

Muitos morreram enquanto esperavam por ajuda porque a ocupação israelense tem como alvo a defesa civil e as ambulâncias.

Sem equipamentos adequados, a defesa civil enfrenta um desafio intransponível.
Donya Abu Sitta

Trump e a volta do 'imperialismo ianque'

Por definição, o imperialismo ocorre quando uma nação promove uma expansão territorial, econômica e/ou cultural sobre outra nação pela força. A colonização da África, da Ásia e da Oceania, que se iniciou na segunda metade do século XIX, representou o auge do imperialismo. Em termos atuais, pode ser empregada no caso da invasão da Ucrânia pela Rússia, por exemplo. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, essa forma de neocolonialismo representou a ocupação de 25% das terras do planeta.

O revolucionário russo Vladimir Lênin, que liderou a Revolução de 1917 e fundou a antiga União Soviética, porém, associava o imperialismo ao estágio monopolista do capitalismo. “Essa definição compreenderia o principal, pois, por um lado, o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital das associações monopolistas de industriais e, por outro, a partilha do mundo é a transição de uma política colonial que se estendeu sem obstáculos às regiões não apropriadas por nenhuma potência capitalista para uma política colonial de posse monopolista dos territórios da Terra, já inteiramente repartida.”

Com o fim da antiga União Soviética, que havia se transformado de uma força anticolonialista, sobretudo na Ásia e na África, numa potência imperialista na Europa Oriental, essa visão perdeu relevância. Com o fim do colonialismo, a integração das diversas regiões do globo por meio do desenvolvimento dos transportes e das comunicações ultrapassou os modelos nacional-desenvolvimentistas que nela se baseavam, sobretudo a partir de a China adotar o capitalismo de estado e emergir como nova potência econômica mundial.


A globalização “liquefez” a sociedade industrial e elevou a modernização a um novo patamar, com impacto direto no modo de vida de todas as pessoas. Forçou os governos a adotarem políticas de integração à economia mundial para não apenas arcar com as suas consequências mais danosas. No Brasil, a globalização intensificou-se a partir da segunda metade do século XX, com a maior inserção do país no mercado econômico global, sobretudo a partir do governo Collor de Mello, em 1990. A tentativa de retomar um projeto nacional-desenvolvimentista, durante o governo da presidente Dilma Rousseff, resultou no colapso econômico que a levou ao impeachment, em 2016.

Entretanto, a integração das cadeias produtivas globais e o multilateralismo, que pareciam pautar a globalização, sobretudo a partir da formação da União Europeia, passaram a ser fortemente questionados pelos Estados Unidos, a partir da emergência da China como segunda economia mundial. Quem controlará o comércio global, cujo eixo se deslocou do Atlântico para o Pacífico? Esse tipo de disputa entre o Reino Unido e a Alemanha, uma potência marítima e outra continental, foi uma das causas de duas guerras mundiais no século passado.

O velho “imperialismo yankee” parece estar de volta. No seu primeiro mandato, o presidente Donald Trump deu um cavalo de pau na política externa norte-americana em relação á China e ao multilateralismo, estratégia que foi mantida pelo democrata Joe Biden, que deu sequência à reorganização das suas cadeias de produção.

Agora, às vésperas de tomar posse, Trump choca o mundo com uma visão geopolítica expansionista que vai muito além da “guerra comercial” com a China. Seu America First promove políticas que prioriza a soberania dos EUA e a redução de sua dependência em termos de comércio e manufatura. A OTAN, a ONU e a OMS são estorvos econômicos e políticos. Tratados comerciais como antigos aliados, como a NAFTA, também.

A rivalidade com a China tende a desaguar numa nova corrida armamentista. Trump tudo fará para conter o crescimento da influência tecnológica e econômica chinesa, sobretudo na infraestrutura e nas comunicações. Em contrapartida, tende a se aproximar de líderes autocráticos como Vladimir Putin (Rússia), Kim Jong-un (Coreia do Norte) e Mohammed bin Salman (Arábia Saudita).

Antes mesmo de tomar posse, estressou as relações com a OTAN, com declarações sobre a anexação do Canadá e a compra da Groelândia, ao mesmo tempo em que pressiona os demais países a aumentarem seus gastos com defesa. Trump pretende apoiar a anexação dos territórios Palestinos por Benjamin Netanyahu e forçar uma aproximação de seus aliados árabes com Israel. Ao mesmo tempo, tende a largar de mão o Afeganistão e a Síria.

Sua política em relação à América Latina pode provocar nova crise humanitária, sobretudo no México, com o fechamento da fronteira e a expulsão em massa de imigrantes. As sanções econômicas e políticas contra os regimes da Venezuela, Nicaragua e Cuba serão ampliadas e a ameaça de retomada à força do Canal do Panamá se insere no contexto da disputa com a China pelo controle do comércio do Atlântico com o Pacífico.

A política energética de Trump é uma ameaça ambiental ao planeta, com a exploração doméstica de petróleo e gás por meio da fraturação hidráulica. Os EUA vão se retirar novamente do Acordo de Paris sobre o clima. Tudo isso está associado a um novo complexo tecnológico nas áreas de infraestrutura, comunicações, militar e espacial, num novo ciclo histórico, não apenas conjuntural.

Mudanças na Meta irão instaurar uma tirania da maioria


Imagine um hospital, reconhecido por tratar os casos mais complexos de doenças raras. Até ontem, as decisões sobre diagnósticos e tratamentos eram tomadas por uma equipe de especialistas — médicos, cientistas e profissionais dedicados a estudar cada caso com precisão. Porém, o CEO do hospital decide inovar e substituir a sua equipe técnica por um palanque, onde qualquer visitante pode opinar quais procedimentos adotar com os pacientes. Não importa o nível de conhecimento, experiência ou responsabilidade, cada opinião conta igualmente para definir o que será feito.


A mudança é apresentada como um marco da democracia e inclusão. Afinal, quem melhor para decidir do que “o povo” sobre o que é científico e o que não é? Porém, em menos de um plantão o caos se instala. Pacientes passam a ser tratados com métodos duvidosos e grupos organizados começam a influenciar decisões, combinando de subir no palanque para promover ideias milagrosas e descartar tratamentos comprovados. Os resultados? Diagnósticos errados, tratamentos inadequados e vidas em risco, tudo sob a justificativa de “mais espaço para o debate”.

Apesar de absurdo, é exatamente com a frase de “mais espaço para o debate” que a Meta, companhia de Mark Zuckerberg e controladora do Facebook, WhatsApp, Instagram e Threads, decidiu substituir as agências de checagens especializadas por um mecanismo de “Notas da Comunidade”, onde os próprios usuários decidem o que é verdadeiro ou falso, votando em uma enquete sobre a relevância e veracidade das informações. Agora pense naquele seu conhecido ou parente que discorda totalmente de você, você realmente acha que ela vai deixar a emoção e a polarização de lado para simplesmente dizer que a sua fala é verdadeira e a dele é falsa? E você? Conseguiria deixar a sua visão de mundo de lado para validar friamente a fala de um político que você discorda?

Quando milhões de pessoas, muitas sem qualquer preparo técnico, passam a decidir sobre temas complexos como ciência ou medicina, por exemplo, as decisões deixam de ser guiadas pela busca pela verdade e passam a refletir o que é mais popular ou conveniente. Pior ainda, grupos organizados podem manipular essas Notas para reforçar narrativas falsas, mobilizar um grupo de 10, 20, ou 30 pessoas para moldar a opinião pública ou deslegitimar informações confiáveis.

Em alguns casos, teorias da conspiração e desinformações prometem curas milagrosas, como no caso do uso do dióxido de cloro (ClO2), o qual propõe suposta “cura do autismo”, uma desinformação recorrente e nociva à sociedade e que já resultou em danos letais. Essa mesma mentira, por exemplo, poderia receber um selo de “verdadeira” a partir de uma Nota da Comunidade que contasse com votos suficientes de usuários bancados pelo lobby do dióxido de cloro, ou que fossem parte de um grupo de venda clandestina de produtos químicos no Telegram.

Se seria impensável confiar a vida de pacientes a decisões tomadas sem critério em um hospital, então por que aceitar que a integridade das informações que consumimos seja entregue a um sistema tão vulnerável de enquete pública? Essa mudança, apresentada como progresso, é, na verdade, um convite para uma tirania da maioria, onde o caos e a mentira ganham pelo volume.

Após a aquisição do atual X (antigo Twitter) por Elon Musk, a plataforma implementou, em maio de 2023, as Notas da Comunidade, permitindo que usuários adicionassem contextos a tweets potencialmente enganosos. No entanto, o sistema mostrou-se suscetível à captura por grupos com agendas específicas. Uma investigação revelou que as Notas da Comunidade foram manipuladas por grupos organizados, expondo usuários ao ódio e permitindo o uso político da ferramenta. A falta de transparência sobre quem são os usuários envolvidos no processo de avaliação e a ausência de critérios claros de admissão no programa contribuíram para essa vulnerabilidade.

A implementação das Notas da Comunidade também gerou controvérsia entre perfis públicos e meios de comunicação, os quais frequentemente tiveram suas publicações corrigidas erroneamente por usuários anônimos. Além disso, durante as eleições presidenciais nos Estados Unidos, diversas postagens contendo informações verificadas sobre procedimentos de votação foram alvo de Notas da Comunidade que propagavam teorias da conspiração sobre fraude eleitoral. Essas notas, baseadas em informações falsas ou enganosas, criaram confusão entre os eleitores e minaram a confiança no processo democrático.

E ainda, um estudo revelou que aproximadamente 96% de todas as notas de checagem de fatos contribuídas pela comunidade não foram exibidas ao público por não atenderem aos requisitos de consenso definidos pelo algoritmo, resultando em mais de 30.000 notas não exibidas. Em outras palavras, quem decide qual Nota vale é a própria plataforma, com base em critérios próprios. Um prato cheio para pautar a opinião de acordo com o que quiser. Tais notas omitidas são selecionadas pelo próprio algoritmo do X, o qual utiliza critérios opacos para decidir quais notas são relevantes ou adequadas para publicação. A falta de transparência sobre os parâmetros de elegibilidade das notas gera questionamentos sobre a imparcialidade do sistema e abre margem para potenciais vieses, já que os usuários não têm como verificar ou contestar a lógica por trás das decisões algorítmicas. Esse processo contraria a promessa de um sistema mais democrático e acessível, enfraquecendo a confiança dos próprios usuários na ferramenta.

Em outra frente, um levantamento do MediaWise descobriu que menos de 10% das notas criadas pelos usuários acabaram publicadas em postagens ofensivas. Os números são ainda menores para tópicos sensíveis como imigração e aborto, pois o algoritmo escolhe sem regras explícitas quando permitir ou não as Notas da Comunidade. Pesquisadores descobriram que, mesmo que as Notas da Comunidade viessem a ser democráticas em sua distribuição (o que não são), a maioria das postagens no X recebe a maior parte do tráfego nas primeiras horas, mas pode levar dias para que uma nota do Notas do Comunidade seja aprovada e visível para todos. Em outras palavras, sua resposta não vem a tempo de enfrentar desinformações nocivas às pessoas, especialmente envolvendo saúde pública e perseguições virtuais.

Não bastasse implementar as notas da comunidade, a Meta também anunciou que passará a permitir conteúdos antes proibidos por serem considerados discriminatórios ou potencialmente nocivos. A empresa justificou a decisão sob o argumento de que tais mudanças promovem “mais espaço para o debate” em questões culturais e políticas. Entre as alterações, está a permissão de postagens que classifiquem gays e trans como “doentes mentais”. Além disso, usuários agora poderão defender sem restrição da plataforma, por exemplo, que mulheres não são aptas para alguma profissão intelectual, só por serem mulheres, ou que pessoas trans não devem ser professoras, desde que baseiem essas opiniões em crenças religiosas. A Meta também ampliou o escopo para discussões sobre exclusões baseadas em gênero em contextos como banheiros, escolas e papeis no exército, alegando que essas questões fazem parte de debates sociais amplos.

Essa decisão não apenas contraria avanços históricos na proteção dos direitos humanos, mas também desafia marcos legais de países como o Brasil, onde o Supremo Tribunal Federal (STF) equiparou a homotransfobia ao crime de racismo. Ao ignorar essas legislações, a Meta demonstra desprezo pela dignidade das pessoas afetadas e pela soberania das nações em que opera. A justificativa de que tais discursos podem ser permitidos por se basearem em crenças religiosas apenas transforma dogmas em ferramentas de discriminação. Argumentos como esses, ao invés de enriquecer o debate público, promovem a segregação e reforçam estruturas de poder.

O impacto dessas mudanças transcende o plano digital, alcançando as vidas reais das pessoas que são alvo desses discursos. Permitir que gays, trans e mulheres sejam tratados como sub-humanos inferiores em discussões públicas normaliza práticas de discriminação em todos os níveis da sociedade. Por fim, o argumento de “liberdade de expressão”, frequentemente usado para justificar essas mudanças, revela-se falacioso. Seu uso para justificar ataques e desumanização de minorias viola os princípios de igualdade, dignidade e da própria liberdade de expressão daqueles que nada mais estão fazendo do que expressar a sua identidade. Sob a lógica de que todos os discursos devem ser permitidos, a Meta negligencia o fato de que certos conteúdos possuem o potencial de incitar violência e discriminação, perpetuando violências reais fora das redes.

Por fim, se já haviam banalizado o conceito de “liberdade de expressão” para distorcer a realidade e lucrar com mentiras, agora tentam banalizar até mesmo o conceito de “democracia” para instaurar uma tirania da maioria, reduzindo fatos e conhecimentos científicos a enquetes de um tribunal de anônimos na internet. Ao retirar as agências de checagem de fatos e o jornalismo comprometido dessa atuação especializada, fica no lugar um mecanismo muito menos democrático, em que usuários serão selecionados por um algoritmo oculto para reproduzir a opinião que a própria plataforma quiser dar destaque. Pode parecer The Black Mirror, mas só nos resta refletir: estaremos preparados para uma “IA-Cracia”, onde meia dúzia de big techs decide, com seus algoritmos enviesados, o que é verdade e o que não é?

sábado, 11 de janeiro de 2025

Donald Trump, um imperialista do século 19

Depois de fazer campanha com a política de acabar com as guerras, estabelecer a paz, colocar os EUA em primeiro lugar e isolar o país do mundo, Donald Trump decidiu esta semana ressuscitar o imperialismo do século 19. Em coletiva de imprensa, ele ponderou sobre a possibilidade de tornar o Canadá um Estado e tomar a Groenlândia e o Canal do Panamá, sem descartar o uso de força militar.

Os líderes republicanos, que Trump treinou apenas recentemente para denunciar a antiga política externa de expansionismo e internacionalismo de seu partido, rapidamente mudaram de opinião e adotaram a nova linha, e agora estão elogiando a visão grandiosa e o pensamento de Trump. Onde isso vai parar?

Alguns dizem que estamos de volta à “teoria do louco” da política externa, que postula que é bom para o presidente, às vezes, parecer imprevisível, até mesmo irracional, porque isso deixa os adversários desprevenidos. Vale a pena lembrar que Trump tentou essa jogada em seu primeiro mandato, mais obviamente com Kim Jong-un, da Coreia do Norte.

Ele começou ameaçando-o com uma guerra nuclear (“fogo e fúria como este mundo nunca viu antes”) e depois mudou abruptamente para um romance com cartas de amor. Nada disso funcionou. A Coreia do Norte continuou a construir seu arsenal nuclear, a realizar testes de mísseis (após uma breve pausa) e a ameaçar seu vizinho do sul.


O acadêmico Daniel W. Drezner observa que muitas pesquisas concluíram que o criador da teoria do louco, Richard Nixon, não produziu nenhum resultado positivo em seus esforços para se parecer louco e desequilibrado.

A conversa sobre transformar o Canadá em um Estado parece ser trollagem, direcionada ao primeiro-ministro do país, Justin Trudeau, de quem Trump não gosta. Mas isso forçou até mesmo os políticos trumpistas, como Doug Ford, o primeiro-ministro de Ontário, e o líder do Partido Conservador, Pierre Poilievre, a reagir com firmeza.

Durante a campanha de 2016, a retórica desagradável de Trump sobre o México ajudou o candidato mais antiamericano nas próximas eleições daquele país, Andrés Manuel López Obrador, a subir drasticamente nas pesquisas. Da mesma forma, Trump pode incentivar um maior antiamericanismo no Canadá desta vez.

O foco de Trump no Panamá e na Groenlândia tem algum fundamento. O Canal do Panamá é um dos grandes pontos de estrangulamento marítimo do mundo. Mas as autoridades panamenhas o administraram com responsabilidade e profissionalismo e de forma alguma trataram mal os EUA – como até mesmo o conselho editorial do Wall Street Journal reconheceu recentemente.

Também não há nenhuma evidência direta de influência militar chinesa no canal ou na zona do canal, como afirma Trump. A China está aumentando seus laços econômicos com a América Central e a América Latina, mas a maneira mais fácil de ajudar Pequim a expandi-los ainda mais seria Washington fazer um esforço desastrado para colonizar o lugar. Isso levaria a ataques nacionalistas contra os EUA no Panamá e reavivaria os temores do neoimperialismo americano em todo o continente.

A Groenlândia está se transformando em um lugar crucial, em grande parte devido às mudanças climáticas, que ironicamente Trump chamou de “farsa”. O derretimento das calotas polares abrirá novas rotas marítimas oceânicas entre a Europa e a América do Norte, e a Rússia e a China tentarão ativamente ganhar influência nessas novas vias marítimas.

É – e deve ser – política americana impedir os esforços de ambas as nações rivais para expandir sua presença econômica e militar na região. Mas os EUA não precisam adquirir a Groenlândia para fazer isso. O país já tem todo o acesso à ilha que deseja. Washington tinha uma série de bases durante a 2ª Guerra e a Guerra Fria. Uma delas permanece até hoje e é operada pelas Forças Espaciais.

De fato, a Dinamarca tem ajudado ativamente no novo interesse dos EUA na Groenlândia. Há alguns anos, a ilha (que é governada de forma semiautônoma) quase fez um acordo para aceitar o financiamento chinês para um conjunto de novos aeroportos. O Pentágono pediu à Dinamarca que convencesse os groenlandeses a cancelar o acordo. O governo dinamarquês foi bem-sucedido, substituindo grande parte do financiamento chinês pelo seu próprio.

Trabalhar com a Dinamarca tornou os esforços dos EUA mais eficazes. Da mesma forma, empresas americanas, incluindo uma financiada pelo fundo Breakthrough Energy Ventures, apoiado por Bill Gates e Jeff Bezos, dono do Washington Post, estudam se a Groenlândia poderia ser explorada para obter alguns de seus ricos suprimentos minerais. Isso não mudaria em nada caso a ilha fosse americana.

Os EUA têm sido influentes em todo o mundo porque conseguiram persuadir os outros a agir não apenas em seu interesse próprio, mas em nome de valores mais amplos, como paz, estabilidade, regras e normas que ajudam a todos. É por isso que o governo americano conseguiu fazer com que 87 países condenassem imediatamente a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia. É por isso que muitos dos vizinhos da China se aliaram aos EUA.

Na coletiva de imprensa, Trump propôs se livrar da “linha artificialmente traçada” entre o Canadá e os EUA. É claro que isso é exatamente o que o presidente russo, Vladimir Putin, diz sobre a fronteira entre Rússia e Ucrânia. E aquilo que o presidente chinês, Xi Jinping, fala sobre a divisão entre China e Taiwan. Estamos entrando é um mundo que torna a Rússia e a China grandes de novo.

Fareed Zakaria

Como Odorico Paraguaçu: populistas têm criado realidades alternativas

Odorico Paraguaçu, o prefeito da fictícia Sucupira, sempre de paletó impecável e discurso inflamado, era obcecado por inaugurar um cemitério. A promessa gerava desconfiança, mas também muitos aplausos. O cemitério, contudo, nunca ficava pronto. Entre anúncios e cerimônias frustradas, Odorico mantinha o povo enredado em uma realidade distorcida.

Sucupira, a cidade fictícia de Dias Gomes em O Bem-Amado, é um presságio das dinâmicas que hoje emergem nas redes sociais e suas hipérboles. Anne Applebaum, na revista The Atlantic, ilustrou esse fenômeno com o caso de Calin Georgescu, um ambientalista romeno que trocou o ativismo por uma narrativa populista e conspiratória.



Com vídeos nadando em lagos gelados e invocando Deus, Georgescu alimenta o imaginário do povo romeno. Alegando que a Romênia estava sob controle de potências estrangeiras e elites secretas, galvanizou seguidores que se sentiam marginalizados, transformando-se em um símbolo de resistência contra uma opressão fabricada. Sua força, como a de Odorico, residia em oferecer uma visão alternativa da realidade.

O uso de promessas vazias e narrativas alternativas não apenas perpetuava a liderança de Odorico, mas criava uma realidade paralela que mantinha seu domínio político.

Nem precisamos nos perguntar qual seria o estrago de Odorico hoje, tendo acesso às redes sociais. Estamos sentindo o estrago na pele.

Líderes populistas criam realidades alternativas para deslegitimar elites intelectuais e se blindar da responsabilização política. Nessas realidades, as críticas da mídia ou do Judiciário não corroem sua popularidade. Ao contrário, servem como prova de autenticidade para seus seguidores. Essa inversão de lógica fortalece o líder, enquanto a propaganda amplifica crenças equivocadas, resultando em políticas públicas prejudiciais e corroendo a confiança nas instituições.

Em Sucupira, Odorico utilizava a promessa do cemitério como elemento central dessa mesma estratégia: críticas não o enfraqueciam, mas reforçavam seu domínio. A ficção de Sucupira e a realidade de Georgescu convergem para mostrar como líderes transformam o que deveria ser crítica em ferramenta de autenticidade, substituindo fatos por fantasia e fortalecendo suas posições em um cenário cada vez mais distorcido.

A recente decisão da Meta de interromper programas de checagem de fatos nos EUA mostra que aceitamos realidades fabricadas. Sem checagem de fatos, o realismo fantástico político continuará a florescer.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Você ouve nossos gritos?

À medida que o inverno se instala em Gaza, lembro-me de uma época em que a estação tinha um significado diferente. Naquela época, o inverno era uma época de reuniões familiares — noites longas e aconchegantes, bebendo "sahlab", nossa bebida quente favorita, e nos aconchegando em volta do aquecedor, enrolados em cobertores quentes. Passávamos a noite conversando, jogando UNO e outros jogos de cartas. O som da chuva enchia meu coração de alegria, e eu corria para fora com meus irmãos, correndo sob as gotas de chuva, sentindo o frescor em nossos rostos. O cheiro terroso de petrichor enchia o ar, nos lembrando do frescor da natureza depois da chuva. Aqueles eram momentos simples e queridos — o inverno parecia uma estação de calor, amor e união.

Agora, acordo com o som da chuva, meu coração pesado de tristeza. O inverno chegou completamente em Gaza. O frio já começou. Deitado na cama, vestido com roupas quentes, coberto com dois cobertores e cercado pelas paredes da minha casa, ainda sinto o frio se infiltrando. Meu coração dói enquanto me pergunto: como meu povo, vivendo em tendas, consegue sobreviver a esta estação amarga? Com ​​cada gota de chuva, meus pensamentos estão com eles — encharcados, seu único abrigo é um pedaço frágil de tecido. Muitas dessas tendas são armadas perto do mar de inverno rigoroso e implacável.


Em Gaza, este inverno não é apenas frio; é uma luta pela sobrevivência. As pessoas estão lutando contra o frio cortante, sem roupas adequadas ou aquecimento. Há poucos dias, meus primos — que perderam a casa e agora estão vivendo em uma tenda de refugiados — foram ao mercado em busca de roupas quentes, apenas para voltar de mãos vazias, chocados e desanimados com os preços exorbitantes. Quando um pijama fino e leve custa US$ 95, como alguém pode pagar por aquecimento?

O que pode parecer insignificante em outros lugares — pegar um resfriado ou ficar molhado — é uma ameaça à vida aqui, especialmente para crianças e idosos. Esses grupos vulneráveis ​​sofrem profundamente, sem acesso a tratamento ou medicamentos, pois os hospitais de Gaza mal funcionam. Já sobrecarregados, eles não conseguem oferecer cuidados nem para as doenças mais básicas.

A higiene também se torna quase impossível, aumentando o risco de doenças. Vivendo em tendas sem acesso a água morna, as pessoas não podem tomar banho ou se limpar adequadamente. Para as mães, lavar roupa se torna ainda mais extenuante no inverno, pois as quedas de energia em Gaza — que agora se estendem por mais de 400 dias — as impedem de usar máquinas de lavar. Em vez disso, elas lavam as roupas à mão com água gelada.

Apesar do sofrimento físico, é a dor psicológica que corta mais fundo — a visão de mães assistindo seus filhos chorarem de fome durante noites longas e frias, ansiando por comida que se tornou quase impossível de encontrar. Mesmo enquanto escrevo estas palavras, estou morrendo de fome, não tendo comido nada por muitas horas.

Os moradores de Gaza há muito tempo dependem dos serviços da UNRWA para alimentos e remédios, incluindo cupons de alimentos fornecidos pelo WFP, UNICEF e UNRWA. Mas a proibição imposta por Israel à UNRWA restringiu a entrada de ajuda em Gaza, exacerbando uma situação já terrível.

A fome está se enraizando, e parece um pesadelo sem fim. O preço da pouca comida disponível é inacreditável. Um único saco de farinha agora custa mais de US$ 300. Como alguém pode pagar por isso? Mesmo se pudéssemos, a farinha geralmente está infestada de insetos e gorgulhos, tornando-a inutilizável. As padarias que antes serviam como uma tábua de salvação agora estão fechadas, incapazes de obter suprimentos. O pão — o mais básico dos alimentos — se tornou um luxo que poucos podem pagar. A fome tomou conta de nossas vidas, deixando-nos em desespero, sabendo que amanhã provavelmente trará mais do mesmo, ou pior.

Sobrevivemos com uma refeição por dia, e mesmo isso parece uma bênção. Mas as longas noites de inverno tornam isso mais difícil, pois as pessoas dependem do “Takaya” — uma distribuição de alimentos beneficente — que fornece apenas pequenas porções, mal o suficiente para encher um estômago vazio. Esses Takaya geralmente começam às 11h, deixando as famílias sem nada para alimentar seus filhos pelo resto do dia. O frio nos morde, e a fome torna isso ainda mais difícil de suportar.

Olho para as crianças — pálidas, magras e exaustas de fome e frio. Vejo famílias esperando em filas intermináveis, segurando recipientes vazios, na esperança de encontrar comida. Imagino o quanto mais elas podem suportar, o quanto mais qualquer um de nós pode suportar. Essa realidade brutal é uma luta diária, com famílias buscando alternativas ou contando com ajuda insuficiente para alimentar seus filhos. A escassez de alimentos limpos e acessíveis não é apenas um desafio; é uma crise que ameaça a sobrevivência de uma população já vulnerável.

O inverno em Gaza não é mais uma época de calor e união. É uma estação de solidão e isolamento. A parte mais cruel desse sofrimento é o silêncio de um mundo que observa de longe, mas não faz nada. À medida que as noites frias se estendem, o isolamento também se estende. Os moradores de Gaza não estão apenas lutando contra a fome e o frio, mas contra a dor profunda de estarem isolados, tanto física quanto emocionalmente, do resto da humanidade. Nessa reclusão forçada, nos perguntamos: alguém realmente ouve nossos gritos?

Ritos de ano novo

No período colonial, o ano novo começava no dia 25 dezembro. Documentos oficiais, como as atas das câmaras municipais, mudavam a indicação numérica do ano no dia de Natal. Escrevia-se 24 de dezembro de 1580, por exemplo. E, na ata seguinte, 25 de dezembro de 1581.

Lentamente, concepções relacionadas com a passagem de ano enquanto marcação da passagem do tempo, enquanto tempo litúrgico e histórico, foram sendo corroídas, envelhecendo aos poucos.

Minha geração viveu e sofreu a angústia de mudanças rituais na marcação do tempo, que a colocaram em face da consciência de protagonista de um tempo sem volta, o tempo do fim e da finitude. A criança como personificação do avesso e do invisível, do novo contido no que é velho e morre.


Por isso, o dia de ano novo tinha um significado antropologicamente particular. Foi o que notei até 1947, para minha geração o último ano novo da tradição de que, com a molecada de meu bairro operário e de minha rua, vivi a função reveladora do novo que decorre do fim e último.

Na véspera do ano novo, as famílias se preparavam para o ritual que no dia seguinte, bem cedo, se processaria através das crianças. Aí pelas 7 horas da manhã, a criançada, já de café tomado, saía pela rua de sua casa, eventualmente por trechos iniciais de ruas vizinhas, batendo de portão em portão.

Quando o dono ou a dona da casa aparecia lá no fundo do corredor lateral, o que vinha da cozinha, fingindo surpresa e estranheza, a criança gritava “Feliz ano novo”, mal sabendo ela própria o que aquilo significava. A pessoa lá do fundo devolvia: “Feliz ano novo pra você também”.

Já com a mão no bolso da calça ou do avental, dirigia-se ao portão e dava para a criança uma moeda. Os mais pobres tiravam uma moeda de um tostão (dez centavos) ou de 200 réis, que ainda circulava, e a davam à criança.

A dádiva desapontadora podia ser de alguém que era reconhecidamente pobre. No caso dos que davam pouco porque sovinas, a notícia corria entre a criançada no minuto seguinte. O pão-duro ficava difamado. O azar decorrente viria com certeza. Era só esperar.

Muitos sovinas evitavam expor a sovinice porque o augúrio da criança tinha uma função ritual e mágica, nunca confessada, mas reconhecível nas formalidades que a cercavam.

As crianças eram socializadas na economia moral de definição do valor extraeconômico da economia, do dinheiro e das mercadorias. Uma moeda de 50 centavos era uma dádiva razoável. Já circulava a moeda pesada de 1 cruzeiro, com o mapa do Brasil de um lado e o número 1 bem grande do outro. Era moeda que deixava qualquer um feliz.

As crianças tinham sua própria “teoria econômica” para determinar o tamanho do seu reconhecimento ao doador generoso, que assim criava fama imorredoura, que passava de um ano para outro.

No dia de ano novo, até às 10 horas, com seus votos de porta em porta, na verdade as crianças cumpriam um rito de renovação do caráter comunitário das relações de vizinhança.

Com o tempo, compreendi esse aspecto daqueles procedimentos. No dia a dia meu irmão e eu atravessávamos a rua, abríamos o portão da casa dos avós e íamos diretamente para a cozinha ou para dentro da casa, pedíamos a bênção e lá ficávamos.

No dia de ano novo, não. Agíamos como estranhos à casa e à família. Meu avô, padrinho de meu irmão, dava-lhe uma nota de 10 cruzeiros, coisa que nem sabíamos o que era. Sendo nota de papel-moeda, era coisa de adulto, não de crianças.

Para elas, moeda era coisa para quem ainda não crescera. Aquele valor excepcional da nota desfazia para ele o rito de estranhamento e o integrava num relacionamento de proximidade parental com o avô-padrinho, seu pai putativo.

Para mim, no entanto, uma moeda era dádiva de recompensa simbólica pelos votos propiciatórios. A dádiva era retribuição do adulto à criança, uma troca. Mas negadora do que era próprio do dinheiro porque desigual na função renovadora das relações sociais e do seu caráter comunitário, aquilo que não se compra, apenas de troca.

Diferentemente do que ocorre no mundo da mercadoria e do dinheiro, em que a troca igualiza os desiguais e as desigualdades, a troca do voto pela dádiva no ano novo era rito que confirmava a desigualdade de quem dava e de quem recebia.

Nas diferentes culturas, crianças da primeira infância são o anômalo porque ainda não são membros da sociedade, à espera de quando se integraram no repetitivo das relações sociais.

Como observou Marcel Mauss, em clássico estudo sociológico sobre a magia, as crianças conservam os dons e poderes próprios dos socialmente não integrados. Elas não sabem, mas a sociedade lhes atribui a condição de porta-vozes das incógnitas do novo, do futuro e do diferente. O prenúncio.

Neurociência e Marketing: A urgência de uma ética aplicada

É indiscutível que, enquanto indivíduos, estamos inevitavelmente inseridos na condição de consumidores, sendo grande parte das nossas ações diárias intrinsecamente associadas a práticas de consumo. Essa realidade traduz-se numa constante exposição a um fluxo avassalador de estímulos publicitários, oriundos de múltiplos canais e disseminados numa velocidade vertiginosa.

Surge, assim, uma questão de profunda relevância: de que forma o nosso cérebro processa tamanha quantidade de informações? O que explica a retenção de apenas uma fração diminuta deste conteúdo? E, mais intrigante ainda, quais os fatores que nos levam a privilegiar uma marca em detrimento de outra?

O cérebro humano, inquestionavelmente, representa um dos campos mais desafiantes e insondáveis da ciência contemporânea. A sua complexidade intrínseca reflete-se na singularidade de cada mente, onde padrões de comportamento frequentemente desafiam os princípios da lógica e da racionalidade.


É deste encontro entre a neurociência e o marketing que emerge um novo e promissor domínio científico: o neuromarketing. Esta disciplina, situada na intersecção entre o conhecimento aprofundado do sistema nervoso e as estratégias comerciais, configura-se como uma ferramenta há muito aguardada por profissionais da comunicação e especialistas em comportamento do consumidor.

O cérebro humano, inquestionavelmente, representa um dos campos mais desafiantes e insondáveis da ciência contemporânea. A sua complexidade intrínseca reflete-se na singularidade de cada mente, onde padrões de comportamento frequentemente desafiam os princípios da lógica e da racionalidade

Enquanto campo multidisciplinar, a neurociência dedica-se ao estudo sistemático do sistema nervoso, integrando áreas como anatomia, biologia molecular, genética e psicologia. O progresso alcançado neste domínio tem sido notável e amplamente reconhecido. Simultaneamente, o conceito de neuromarketing, introduzido por Ale Smidts, procura compreender de forma rigorosa as influências neurológicas dos estímulos de marketing no comportamento do consumidor, permitindo uma otimização das estratégias comunicacionais e a conceção de campanhas mais eficazes e direcionadas.

Desde as primeiras explorações realizadas em 2002, o neuromarketing consolidou-se como uma abordagem central no estudo da relação entre estímulos publicitários e decisões de consumo. Contudo, como acontece com muitas áreas emergentes da ciência, este campo não está imune a controvérsias éticas. A utilização imprudente ou oportunista de tais ferramentas levanta sérias preocupações, uma vez que possuem o potencial para manipular o comportamento humano de forma pouco ética ou mesmo prejudicial.

A necessidade de estabelecer limites éticos é incontornável! É imperativo que este campo seja regulado com rigor, promovendo um debate abrangente sobre as implicações dos avanços nas ciências da mente e nas tecnologias associadas ao marketing.

Embora o conhecimento científico sobre o cérebro humano ainda se encontre numa fase incipiente, é crucial que a sua aplicação prática seja guiada por princípios éticos que assegurem o progresso social e a proteção da dignidade humana.

Com o contínuo avanço da neurociência e a expansão do seu âmbito de aplicação, mergirão inevitavelmente novas e complexas questões éticas. É plausível imaginar um futuro em que se obtenha um controlo sem precedentes sobre as preferências, emoções e comportamentos humanos. Tal cenário exige uma reflexão profunda sobre os limites aceitáveis para tais práticas.

O desafio ético que se apresenta é inescapável. É imprescindível que esta temática permaneça no centro de um diálogo interdisciplinar e que se definam fronteiras claras para garantir a liberdade de escolha do consumidor. Apesar das diferenças nos ritmos e objetivos de ciência e sociedade, o progresso sustentável só será alcançado quando ambas se complementarem de forma harmoniosa.
Maria Nascimento Cunha

Sem noção de sua importância ao votar

Na virada de 1999, vários órgãos nos EUA foram convidados a listar os americanos mais admirados, influentes ou importantes do século 20. Saíram centenas de nomes, famosos ou nem tanto, todos dignos de admiração. Mas houve unanimidades, pessoas sobre as quais não restava a menor dúvida, representantes do que de melhor o povo americano poderia produzir. Eis algumas.
O jurista Oliver Wendell Holmes (1841-1935), o advogado Clarence Darrow (1857-1938), o educador John Dewey (1859-1952), o arquiteto Frank Lloyd Wright (1867-1959), a conferencista Helen Keller (1880-1968), o presidente Franklin Roosevelt (1882-1945), o fundador do A.A., Bill W. (1895-71), o dançarino Fred Astaire (1899-1987), o inventor da vacina contra a pólio Jonas Salk (1914-95), o jazzista Louis Armstrong (1901-71), a antropóloga Margaret Mead (1901-78), o pediatra Benjamin Spock (1903-98), a atriz Bette Davis (1908-89), a ativista Rosa Parks (1913-2005), o compositor Stephen Sondheim (1930-2021), o boxeur Muhammad Ali (1942-2016). Sim, eu sei, faltou este ou aquele, favor completar.


São pessoas que nos acostumamos a amar e a identificar com os EUA, e nos fazem perguntar como um país que produziu gente dessa qualidade pode ser tão cruel em política externa, primitivo em relações raciais e dado a metralhar inocentes em escolas. Como se explica? A resposta é: talvez eles não sejam os EUA. Mas, se eles não são, quem será? Uma amiga que, em jovem, morou durante um ano com uma família do Idaho, num programa de intercâmbio, me forneceu a descrição.

Os EUA são exatamente esse homem do Idaho, 40 anos, branco, casado com mulher "do lar", quatro filhos, casa própria, três carros. Planta, compra ou vende batatas, que é o negócio da região. Sai para caçar no sábado e vai com a família à igreja aos domingos. Não lê nada, só vê esportes na TV e às vezes toma cerveja com os amigos. Admite negros ou latinos, mas só na sua lavoura. Nunca saiu do Idaho, exceto para os vizinhos Utah e Wyoming. Não tem a menor ideia de que seu voto para presidente pode afetar o equilíbrio do mundo.

Vota em Donald Trump

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Deserto loteado


Pelo preço de um carro usado, o governo israelense está atualmente distribuindo lotes de terra no deserto de Negev.

Kim Legzie

As ‘big techs’ e o fascismo

Agora ficou escancarado. Depois do pronunciamento que Mark Zuckerberg divulgou na terça-feira, anunciando que cerrará fileiras com Donald Trump para combater os projetos de regulação das plataformas, projetos que ele qualifica de “censórios”, não dá mais para disfarçar. Seguindo o exemplo de Elon Musk, dono do “X”, antes conhecido como Twitter, Zuckerberg subiu na carroceria do caminhão extremista do trumpismo, sem pejo, sem molejo e com sacolejo. A Meta saiu do seu armário de silício para entrar no fanatismo desvairado.

Eram favas contadas? Sim, eram. Mais cedo ou mais cedo ainda, a maquiagem escorreria. E escorreu. Está tudo na cara. Agora, ninguém mais pode alegar que a desinformação e os discursos de ódio propagados industrialmente pelo maquinário da Meta fossem acidentes de percurso. Não. Promover o trumpismo e todo o seu ideário – ou todo o seu bestiário – não foi um efeito colateral, mas a finalidade do conglomerado monopolista global comandado por Mark Zuckerberg. Detalhe: no seu vídeo, que foi manchete ontem em jornais do mundo inteiro, ele aparece de camiseta preta. Ato falho? Ou intencional?


A Meta, detentora do WhatsApp, do Facebook e do Instagram, tem um poder de fogo – a metáfora belicista vai de brinde – considerável, um pouquinho maior do que o deste jornal, por exemplo, ou de todos os diários brasileiros somados, ou mesmo de todos os diários do planeta. Estamos falando de companhias cujo valor de mercado se conta na casa dos trilhões de dólares. São as famigeradas big techs. Uma a uma, elas deixam cair a máscara de isenção, de objetividade e de compromisso com os fatos e mostram sua natureza essencial: são usinas de propaganda e manipulação a serviço do autoritarismo. Não têm e nunca tiveram nada a ver com educação ou conhecimento.

Falando em big techs, as coisas não estão melhores nos domínios da Amazon, de Jeff Bezos. No sábado, a ilustradora Ann Telnaes, ganhadora do Prêmio Pulitzer, anunciou sua demissão do The Washington Post, hoje controlado por Bezos. Ann Telnaes acusou o jornal de censurar um cartum em que ela criticou a subserviência dos bilionários a Donald Trump. Na charge, é possível reconhecer, entre os magnatas que se dobram ao novo presidente dos Estados Unidos, a fisionomia assustadiça do dono da Amazon. O Post vetou. Foi outro sinal tenebrosamente ruim de que os bilionários da maior democracia do mundo deixam para lá os compromissos com os fundamentos do liberalismo e se vergam à truculência.

Truculência é a palavra, embora gasta. Barbárie é a palavra, embora puída. Trump não tem nada a ver com o tal “sonho americano” ou com os chamados “pais fundadores” da federação que, mais de dois séculos atrás, deu origem ao Estado mais poderoso do nosso tempo. Trump é um fascista extemporâneo, tardio e piorado.

O adjetivo “fascista”, que antes os estudiosos procuravam evitar para não incorrer em anacronismos e imprecisões conceituais, acabou se impondo. É preciso dar nome às coisas. Recentemente, o grande historiador americano Robert Paxton, um dos que resistiam a empregar a palavra, reviu sua posição e admitiu: o que está acontecendo nos Estados Unidos precisa, sim, ser qualificado como fascismo, ainda que com as cautelas metodológicas de praxe. O que se passa por lá é mais, muito mais, que um soluço autoritário, e as big techs estão no cerne da inflexão. Mais do que correias de transmissão instrumentais, elas são o laboratório que sintetiza a mentalidade obscurantista, as pulsões violentas, os vetores do ódio, a intolerância, ou, sejamos precisos, o fascismo em suas roupagens pós-mussolínicas.

As ambições de expansionismo territorial em que Donald Trump tem insistido de forma escandalosa vêm confirmar essa caracterização. Lembram, de longe, ou nem tão de longe assim, a velhíssima categoria de “espaço vital”. A promessa de ocupar países vizinhos ou longínquos para ampliar o poder é marca registrada do bonapartismo do século 19, do nazismo do século 20 e, agora, do trumpismo do século 21. Desta vez, as big techs são a alma e a arma do negócio: estão para Donald Trump assim como o cinema e o rádio estiveram para Adolf Hitler. Com uma distinção, apenas: elas são mais determinantes hoje do que o cinema e o rádio foram naquela época.

A partir de agora, o debate sobre “moderação de conteúdo”, “agências de checagem”, “educação midiática” e “combate às fake news” ficará em segundo plano. Ficou patente que as big techs não querem mais falar disso. Com ninguém. Elas querem substituir a era da informação pela era da desinformação, pois sabem que sua única chance de seguir no gigantismo depende da vigência de ordens autoritárias, com viés totalitário. Assim como a imprensa só pode prosperar na democracia, as plataformas sociais só poderão crescer na tirania. É uma questão de vida ou morte. Para elas e para cada um de nós. O que elas precisam garantir para viver no luxo em que se arrancharam, sem prestar contas a ninguém que não seja Trump, é o que nós, cidadãos (ao menos até aqui), precisamos combater para não morrer.

Cinco minutos depois do ataque aéreo

Gaza
Em Pilsen,
na Estrada da Estação, número 26,
ela subiu ao terceiro andar
onde as escadas eram tudo que restava
da casa inteira.

Abriu a porta de par em par
e contemplou o céu,
de pé sobre a borda.

Pois foi naquele lugar
que o mundo acabou.

Depois
trancou tudo com muito cuidado
para que alguém não roubasse

Sírio
ou Aldebarã
da sua cozinha;
desceu para o térreo
e se acomodou
para esperar
que a casa se erguesse de novo
que o marido ressurgisse das cinzas
e que as mãos e os pés das crianças fossem de novo postos no lugar.

Foi achada de manhãzinha,
dura como pedra,
pardais bicando suas mãos.

Miroslav Holub

Dos golpistas à tentativa de golpe

Envelheceram mal as apostas de profetas da democracia risco-zero. Desde 2018, esse grupo de missionários tenta acalmar a cidadania brasileira sobre riscos à democracia, entendida como máquina de contagem de votos independente de qualquer outro atributo que dê a esses votos um lastro genuíno de autogoverno coletivo e liberdade pública.

Desde avaliação da personalidade de Bolsonaro, tarefa que a ciência política nunca autorizou politólogo a fazer em nome dela, ou da afirmação de que "democracia modera", conclusão a que a história política nunca permitiu chegar em nome dela, ou da sacada de que Moro seria um "dique" ao presidente, até a máxima da catatonia analítica "instituições estão funcionando", foram muitas tentativas de apaziguar o "alarmismo".

Sempre equivocadas, o tempo as transformou em caricatas. De golpistas na Presidência à tentativa de golpe e plano de assassinato, os alertas de risco não eram tão extravagantes e clarividentes assim.


A psicanálise foi mais realista e arguta. O psicanalista Luiz Meyer, na Folha de junho de 2020 ("Por que haverá golpe"), antecipava tentativa de golpe não como dúvida de cientista político mergulhado em planilha de dados, mas como determinação psíquica inexorável. Não tratava do golpe como hipótese, nem tinha a ambição sabichona de cálculo de riscos. Quis apenas explicar por que o ímpeto golpista não era brincadeira:

"Não estamos diante de um bufão histriônico que bate bumbo na praça de uma pequena cidade do interior. O número que encena é a expressão da criança intolerante, assombrada pela cadeirinha, que se apresenta como o redentor que vai borrar todos limites e limitações. Encurralado por uma mente que serve a criancinha com quem está identificado, que não aceita nem suporta modalidade alguma de ‘cinto’, ele precisa criar um mundo em que todas as cadeirinhas sejam destruídas".

O dia 8 de janeiro de 2023 serve como alerta simbólico sobre muitas coisas. Primeiro, a fragilidade constitutiva do regime democrático. Mesmo que se possa explicar por que algumas democracias são mais estáveis e longevas que outras, não temos ferramentas tão potentes para determinar riscos com precisão. Porque, em grande medida, são intangíveis.

Segundo, aprendemos outra vez as consequências de se tratar a delinquência militar brasileira pela via da covardia e da leniência. Terceiro, demonstra o poder de corrosão cívica da indústria de desinformação, elevado a patamar desconhecido por tecnologia capaz de individualizar perfis e customizar a manipulação. E tem gente que acha que uma rede gerida por algoritmo determinado por plutocrata equivale a praça pública. E que esse poder corporativo tecnológico agradaria a Adam Smith e Stuart Mill.

Quarto, a imensa confusão sobre o conceito de liberdade de expressão, transformada vulgarmente em arma pré-civil de ataque às precondições sociais da liberdade.

O 8 de janeiro simboliza, finalmente, que o STF tem responsabilidade e oportunidade de corrigir um dos erros constitucionais mais vergonhosos de sua história: o entendimento de que a Lei de Anistia o impede de julgar crimes contra a humanidade. Desde 2011, ação sobre o tema dormita na gaveta de Dias Toffoli (ADPF 153). Flávio Dino começou a enfrentar essa dívida: decidiu que desaparecimento de corpo é crime permanente.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Pensamento do Dia

 


A memória e... o esquecimento

Como todas as coisas do universo, a memória sofre a degradação e a desintegração, o que para ela se chama esquecimento. Como qualquer coisa informacional, ela é submetida à doença que ataca a informação: o boato, que confunde, encobre e entorpece. A diminuição da memória é ininterrupta. A própria memória tende a tornar-se lacunar, incorreta, enganadora. Além disso sofre profundamente o efeito das forças de recalcamento, que expulsam a recordação incómoda, e das forças de transfiguração e mitologização, que legendarizam a recordação.

A perda de memória torna-nos imbecis. A imbecilidade contemporânea, isto é, própria deste tempo fixo no presente, que esquece o passado e receia o futuro é o nosso esquecimento do que caracterizou o último século.

Devemos lutar contra a desmemorização e contra a memória imobilizada. Devemos regenerar constantemente a memória . A regeneração da memória parte justamente das necessidades vivas do presente.
Edgar Morin, " As grandes questões do nosso Tempo"

Para Michael Walzer, liberal não define o que se é, mas como se é

Flanando pelas ruas de Edimburgo, leio nesta Folha o artigo de Deirdre McCloskey sobre os verdadeiros liberais.

Sorrio. Estou no lugar certo: foi aqui, na Escócia, em pleno século 18, que a palavra "liberal" surgiu pela primeira vez em inglês com conotação abertamente política.

Um pormenor, porém, merece ser realçado: "liberal" nasceu como adjetivo antes de se tornar substantivo. Como explica o economista Daniel Klein, que tem estudado essas arqueologias conceituais, foram iluministas escoceses, como Adam Smith, que definiram como liberal um sistema de governo que permite a cada um procurar os seus interesses e fins de vida, desde que respeitando a lei geral.

A palavra acabaria por evoluir até se cristalizar numa ideologia política —o liberalismo— e num substantivo —o liberal. E, como normalmente acontece com ideologias, surgiram escolas, subescolas, sub-subescolas, que se guerreiam e se excomungam.

Mas haverá alguma vantagem em retornar ao adjetivo? E, em caso afirmativo, será possível encontrar espíritos liberais nos lugares mais inusitados?


O filósofo Michael Walzer, em ensaio testamentário, se ocupa dessas questões todas citadas.

O título e o subtítulo resumem o espírito da sua obra: "The Struggle for a Decent Politics: On ‘Liberal’ as an Adjective" (ou em português, a luta por uma sociedade decente: sobre ‘liberal’ como adjetivo, Yale, 184 págs).

Eis a proposta de Walzer: hoje, a palavra liberal deveria ter uma dimensão essencialmente moral. Ser uma pessoa liberal significa, em traços gerais, ter uma mente aberta, ser generoso, ser capaz de aceitar a ambiguidade, condenar o fanatismo e não tolerar a crueldade.

Como escreve o filósofo, "liberal" não define o que se é, mas como se é. É uma forma de estar na vida, de agir em sociedade, de nos relacionarmos com os outros. Com liberalidade.

Isso significa que o número de liberais pode ser bem maior do que Deirdre McCloskey imagina. No seu artigo, McCloskey fala em progressistas, libertários —e liberais "suficientes", como ela.

Mas Walzer é mais generoso (mais liberal?) com a fauna humana. Conservadores liberais, nacionalistas liberais, democratas liberais, até socialistas liberais têm espaço nessa arca de Noé. "Liberal", quando aplicado a cada um desses nomes, é uma forma de evitar que as ideologias degenerem nas suas piores versões, mantendo ainda um respeito primordial pela liberdade e dignidade humanas.

Usando os exemplos de Walzer, um democrata liberal respeita a vontade da maioria. Mas também entende que as maiorias necessitam de limites constitucionais que muitas vezes frustram as pulsões da multidão.

Há quem discorde. Há quem prefira uma democracia "iliberal", como acontece na Hungria de Viktor Orbán. É um desejo arriscado: quando tudo depende da maioria, é melhor você ter a certeza de que nunca estará entre a minoria que participa.

E que dizer de socialistas liberais, esse supremo paradoxo?

Walzer não fala, obviamente, de ideologias totalitárias, como o comunismo. Fala da tradição social-democrata que aceita a "liberdade civil burguesa" como forma de atingir uma sociedade menos desigual.

Um socialista liberal não abandona o seu desejo de igualdade; mas entende que esse destino deve ser trilhado por via democrática, sem atropelo de direitos fundamentais e fazendo uma distinção entre desigualdades toleráveis e intoleráveis.

Ou, como escreve Walzer, é tudo uma questão de convertibilidade: há coisas que o dinheiro pode comprar e outras que não pode. É indiferente se os mais ricos compram artigos de luxo que estão inteiramente vedados à restante população.

Não é indiferente se apenas os mais ricos têm acesso a saúde, justiça ou influência política.

Por último, Walzer dedica algumas linhas aos "professores liberais", esse artigo cada vez mais raro nos departamentos de humanidades. Como reconhecer um?

Muito fácil: um professor liberal é aquele que, apesar das suas convicções mais firmes, não as impinge aos alunos como a última verdade revelada. Ou, então, é aquele que apresenta visões contrárias à dele com a honestidade intelectual possível.

Imagine um professor progressista que apresenta argumentos conservadores sem hostilidade ou caricatura. Ou vice-versa.

Eu não disse que este era um artigo para lá de raro?

Sim, os liberais podem ser divididos em vertentes clássicas, modernas, ordoliberais, libertárias, neoliberais, o diabo.

Mas a questão decisiva é saber primeiro se estamos na presença de liberais liberais.

O 51º estado!

O Canadá, para Trump, é o 51.º estado dos Estados Unidos. Ainda não é, mas tem de ser, diz o 47.º presidente americano. Trump também insiste que 10 milhões de canadianos adorariam ser integrados na União. Ninguém conhece esses números, mas não há mal nenhum em inventar.

A terceira afirmação do próximo presidente diz respeito à demissão do primeiro-ministro Justin Trudeau, após dez anos à frente do Governo em nome dos liberais, por perceber que irá perder as próximas eleições para os conservadores. Trudeau saiu porque o seu ciclo político estava esgotado, e nada disso tem a ver com a insistência do quase presidente.

A primeira grande indelicadeza de Trump foi atribuir o cargo de «Governador» ao primeiro-ministro, depois de se terem encontrado — e não foi apenas mais uma tolice para esquecer. Desde então, e à medida que o dia 20 se aproxima, o presidente eleito e confirmado não abandona a ideia de integrar o Canadá na União americana, sem esquecer a Gronelândia da Dinamarca, talvez o 52º estado.

É bizarro e infantil, mas os Estados Unidos construíram-se através de lutas contra os mexicanos para conquistar território — Texas, Colorado, Novo México e Califórnia — e com a compra do Alasca à Rússia. Trump quer alargar horizontes e, para isso, não hesita em usar as armas que tem: taxas fronteiriças e controlo de pessoas. Canadá, México e Dinamarca são alvos primários. Um dia destes reclama os Açores! Por razões de segurança nacional, como na Gronelândia.

Os sinais que chegam de Mar-a-Lago não são promissores. Corremos o risco de Trump estar pior do que já estava.

Falta o essencial

Coimbra, 22 de Dezembro de 1990 - O mundo com vários abcessos prestes a rebentar. Ainda há pouco exultávamos de esperança, e já ninguém tem paz na alma. É que não há mais tempo de duração. Todas as nossas horas são ofegantes , e cadentes as estrelas anunciadas e anunciadoras. Temos tudo, e falta-nos o essencial. É como se de repente a vida ficasse do avesso e a não soubéssemos vestir.

Miguel Torga, in " Diário XVI"

Nenhum cessar-fogo à vista: Gaza 'parece um inferno'

Nos últimos 14 meses, a família de Zahra mudou-se de um lugar para outro no norte da Faixa de Gaza em busca de maior segurança. Em dezembro, a família de sete pessoas chegou à Cidade de Gaza.

“A guerra tem sido difícil desde o primeiro dia, mas agora parece um inferno”, diz Zahra, que pediu que o seu nome completo não fosse revelado, da Cidade de Gaza. A sua família encontrou refúgio numa casa parcialmente bombardeada no campo de refugiados de Shati. “Não sabemos se sobreviveremos ou morreremos antes que isto acabe”, disse ele à DW por telefone.

Apesar das repetidas ordens das Forças de Defesa de Israel (IDF) para se dirigirem ao sul da Faixa de Gaza, a família de Zahra decidiu ficar no norte, em parte por medo de nunca mais poder regressar a casa.

“Não saímos do norte mais cedo porque sabíamos que estavam  bombardeando por toda parte e esperávamos que a operação militar no norte terminasse logo. No entanto, tornou-se ainda mais insuportável”, explica Zahra. “A nossa casa no campo de Jabalia foi completamente destruída há meses e agora estamos num estado de constante deslocamento.”

Agências internacionais e governos estão a pressionar Israel e o Hamas para concordarem com um cessar-fogo que permita a libertação do resto dos reféns detidos em Gaza em troca do fim da guerra e de ajuda humanitária à população civil. No entanto, o conflito parece não ter fim.

No fim de semana passado, as Forças de Defesa de Israel declararam ter atingido mais de 100 alvos em toda a Faixa de Gaza depois que o Hamas disparou foguetes contra Israel.

Em todo o território, o frio e as chuvas de inverno inundam tendas e outras casas improvisadas. Nas últimas semanas, as organizações humanitárias alertaram repetidamente que não chega ajuda suficiente à população, tanto devido ao bloqueio israelita como aos saques .

No domingo passado, as forças de defesa civil de Gaza relataram que ataques israelitas mataram agentes de segurança que protegiam comboios de ajuda humanitária no sul. As autoridades também alegaram que os militares israelitas bombardeavam bairros e detonavam edifícios residenciais no norte de Gaza, deixando vários mortos e feridos. Mais de 45.800 palestinos foram mortos desde que Israel lançou a sua ofensiva militar após os ataques terroristas liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza.

Jabalia e a área ao norte da Cidade de Gaza são alvo de um novo ataque das FDI que começou em outubro. As Forças de Defesa de Israel dizem que o Hamas e outros grupos militantes estão a reagrupar-se na área e que as suas ordens para evacuar os civis tinham como objetivo mantê-los fora de perigo. Mas os palestinianos e as organizações humanitárias dizem que não há lugar seguro em Gaza e que o deslocamento constante está a agravar a situação.

Gentes é evacuado do campo de refugiados de Jabalia. Gente é evacuada do campo de refugiados de Jabalia.

No final de Dezembro, uma delegação da ONU obteve autorização para viajar ao norte da Faixa de Gaza. Jonathan Whittall, chefe interino do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários em Jerusalém Oriental, disse em um vídeo postado no X que “as pessoas aqui não têm comida, nem água, nem saneamento, nada. para fornecer o básico para a sobrevivência.

Whittall acrescentou que as Nações Unidas apresentaram 140 pedidos de coordenação às FDI para visitar a área nos últimos dois meses, mas todos foram negados.

O Coordenador de Atividades Governamentais nos Territórios, a administração civil-militar israelense responsável pelo acesso a Gaza e pela ajuda humanitária, respondeu em X que “alegações recentes sobre pedidos de coordenação humanitária negados são enganosas”.

As Nações Unidas estimam que entre 10.000 e 15.000 pessoas permaneçam no norte da Faixa de Gaza sitiada, que inclui Beit Lahia, Jabalia e Beit Hanun, mas o número exacto é desconhecido. Acredita-se que grande parte da área tenha sido evacuada e arrasada, alimentando especulações sobre a intenção de Israel de mantê-la como uma zona de segurança fechada quando a guerra terminar.

As Forças de Defesa de Israel negaram estar a implementar o chamado Plano do General, que apela à expulsão dos residentes do norte de Gaza, rotulando todos os civis restantes como alvos militares e bloqueando o fornecimento de alimentos e medicamentos.

Na semana passada, membros do Comité de Negócios Estrangeiros e Defesa do Knesset exigiram, numa carta, que o Ministro da Defesa, Israel Katz, ordenasse a destruição de todas as fontes de água, alimentos e energia na área, queixando-se de que as FDI ainda não derrotaram o Hamas.

Os moradores disseram que já havia uma escassez extrema de alimentos e água, enquanto os constantes bombardeios e tiros tornavam quase impossível qualquer movimento, inclusive chegar aos corredores humanitários em direção ao sul.

Zahra disse que a sua família conseguiu chegar ao campo de refugiados de Shati, a noroeste da cidade de Gaza. Ao longo do caminho, tiveram que passar por um posto de controle israelense. “Permitiram-me passar com as minhas três filhas, enquanto o meu marido e os meus dois filhos tiveram de esperar cinco horas antes de também poderem atravessar”, diz ela.

Matar Zomlot e a sua família permaneceram no campo de refugiados de Jabalia durante a guerra, mas acabaram por ser forçados a abandoná-lo.

“Havia bombardeios e explosões o tempo todo, e o medo era constante”, disse Zomlot à DW por telefone. A família sobreviveu procurando comida em casas abandonadas. me disseram que tinham deixado comida ou conservas".

Em Dezembro, a família conseguiu chegar à vizinha Cidade de Gaza, apesar dos intensos combates.

“Tínhamos medo de que eles atirassem em nós”, continua Zomlot. “No dia em que decidimos partir, saímos à tarde e caminhamos em direção à rua Salah al-Din. Havia um tanque e soldados que nos pararam. Depois de verificarem a nossa identificação, deixaram-nos passar”, acrescenta.

Ele agora mora na Cidade de Gaza com parentes.

Em vez de se mudar para o sul, a família preferiu ficar no norte da Faixa de Gaza. O território está agora dividido pelo corredor Netzarim, uma estrada com postos de controlo militares que vai de leste a oeste.

Uma vez que os palestinianos atravessem para o sul, não poderão regressar ao norte. Uma reportagem investigativa do jornal israelense Haaretz cita soldados na área dizendo que vários palestinos desarmados que se aproximaram da área para retornar ao norte foram mortos a tiros.

Segundo a ONU, cerca de 90 por cento dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza foram deslocados, muitos deles várias vezes, e uma das muitas incertezas é se Israel lhes permitirá regressar às suas casas.

“Não sabemos o nosso destino”, diz Zahra, acrescentando: “Não sabemos o que nos espera. Mas rezamos a Deus para que esta guerra acabe logo e possamos regressar aos nossos bairros e às nossas casas, mesmo que tenham foram reduzidos a escombros."

Tânia Kramer / Hazem Balousha

A IA de 2025 não é como a do ano passado

Dois jogadores podem fazer com que este ano de 2025 seja bem diferente no terreno da inteligência artificial. Um já era conhecido, mas deu mesmo as caras nas últimas semanas de dezembro. O outro, para quem não acompanha esse mundo com a lupa, parecerá ter surgido do nada. É uma IA chinesa, a DeepSeek, que, tendo sido treinada apesar dos muitos limites tecnológicos impostos pelos Estados Unidos, parece que em várias funções é superior ao GPT. Com duas diferenças relevantes: foi treinada com muito menos dinheiro e é livre. Qualquer um pode baixar, usar, sem custos.

Durante o período das festas de fim de ano, se tornaram populares nas redes os videozinhos com Lula e Bolsonaro sorridentes, se abraçando, suéteres natalinos e taças de espumante à mão. Foram várias versões no entorno do mesmo tema e não tiveram só eles como personagens. Elon Musk com Bill Gates, Donald Trump com Joe Biden, Zelensky e Putin — imagine um par improvável, e estavam lá. Essas imagens confessam, evidentemente, um desejo. Tem muita gente cansada da polarização na qual nos metemos. Mas, para além de retratar o Zeitgeist, é preciso haver uma explicação para vídeos assim surgirem às dezenas agora e não antes. A razão é uma só: o Grok.

Do ponto de vista da tecnologia, não há motivo para que Dall-E (OpenAI), Midjourney ou Gemini, as IAs mais populares para geração de imagens estáticas, não possam criar retratos de pessoas famosas nas situações mais mirabolantes. Não fazem isso porque há limites, filtros colocados pelas companhias para evitar deepfakes. As falsificações são tão realistas que podem se confundir com a realidade. O Grok não tem esses filtros por uma decisão do dono da xAI. Musk incorpora à defesa que faz da liberdade de expressão a ideia de que parodiar pessoas públicas é do jogo. O que Grok 2 não faz, ainda, são imagens ultrarrealistas. A promessa era que a versão 3 viria à tona ainda no ano passado. Não aconteceu.


O debate sobre se paródias com pessoas públicas fazem parte do exercício legítimo de expressão numa democracia é antigo. E, em boa parte das democracias, a ideia de que, sim, pode parodiar, está bem consolidada. Mesmo que a paródia seja bastante ofensiva, se os personagens são políticos ou gente muito relevante no debate público, é do jogo. Lula e Bolsonaro aos beijos pode soar de mau gosto para uns, mas é manifestação de um desejo ou de uma ideia. Não sendo ultrarrealista, e a cena sendo absurda o suficiente para que ninguém confunda com fatos, tudo certo. O problema se forma quando a linha é cruzada para além da paródia. Para construir uma imagem falsa, plausível, que sirva para falsificar a verdade. Confundir o debate público. No limite, por conta, fraudar uma eleição ao enganar eleitores em número suficiente.

Deepfakes ainda estavam bastante difíceis de produzir de forma realista. Em 2025, vai ficar mais fácil e periga se tornarem realistas o suficiente para enganar muita gente. Ainda não havíamos lidado com uma IA assim, agora acontecerá com mais frequência. E é aí que entra o dilema apresentado pela IA chinesa DeepSeek.

A empresa foi criada por Liang Wenfeng, um jovem cientista da computação chinês que fez uma grande fortuna ainda antes dos 30 desenvolvendo algoritmos para investir na Bolsa. Com sua fortuna, comprou dez mil microprocessadores para treinar IAs antes de os Estados Unidos criarem limites para exportação dessa tecnologia para a China. Os chineses podem importar os chips, mas não aqueles com a tecnologia necessária para treinar os algoritmos atuais. Ainda assim, a turma da DeepSeek comprou mais chips — mesmo que limitados. E treinou seu modelo de linguagem com menos dinheiro e menos tempo de processamento do que as rivais americanas. Fizeram o que ninguém havia feito antes.

Ciência e tecnologia sempre se moveram com mais originalidade perante a escassez de recursos. Se os testes iniciais se comprovarem, pelo menos uma empresa chinesa saltou os limites impostos pelos americanos e está com uma IA superior na praça. Com a diferença que ela é um modelo de código livre, outras empresas podem baixar e adaptar para usos diversos.

Modelos de IA com código livre podem ter seus filtros extirpados e produzirão tudo aquilo que a imaginação do usuário desejar. Sem limites para criação e com novos desafios para a sociedade. O ano promete.