segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Os tratores do medo

A tradição dos oprimidos nos ensina, diz Giorgio Agamben, que o “estado de exceção em que vivemos” (no cenário mundial) “é a regra”. E segue, na esteira de Walter Benjamin: “devemos chegar a um conceito de história que se corresponda com este fato […] porque o poder não tem hoje outra forma de legitimação do que a situação de perigo grave a que apela em todas as partes de forma permanente e que, ao mesmo tempo, se esforça e o produz secretamente”.[1]

A guerra é a maior tormenta que faz o mundo como ele é. A guerra varre todas as demais tempestades, suprime moralidades, oprime consciências e corpos; altera classes, costumes, revela os passados que estavam mortos e reabre ao mundo novas e piores possibilidades; assim como os homens fazem as guerras ou permitem que as façam, elas – as guerras – também moldam o futuro. Os heróis das guerras não fazem o futuro porque eles foram obrigados a saber matar e quem mata suprime sempre algo de si mesmo, por mais generosa que seja a recompensa da vitória. As guerras deixam poucos verdadeiros heróis na superfície da história.

Bombardeios passaram a ser denominados “explosões”, ação militar de revide contra um atentado terrorista passou a ser qualificado de “guerra contra o Hamas”; as ações humanitárias para salvar crianças e populações civis passaram a ser “ataques à existência de Israel”; e as bombas incendiárias contra hospitais passaram a ser – primeiro – “levemente” justificadas como erros técnicos, depois – pesadamente – como efeitos colaterais de uma guerra contra o terror. A única saída para a guerra, como hoje ela revela, está em voltar a negociar em torno do cumprimento dos acordos de Oslo que, se não for possível, vai implodir o resto do Século XXI.



No 11 de setembro de 2001, o ataque terrorista ao World Trade Center fez 2.996 mortes, comoveu o mundo e reforçou a disposição do Império para a Guerra com a fabricação de armas e com os negócios de reconstrução dos países que seriam destruídos. O século iniciava prometendo barbárie, porém mais de 10 mil mortos por bombas de fósforo jogadas contra hospitais, escolas e contra a população civil na Faixa de Gaza, ainda são leves para dar sentido à consciência do Ocidente democrático e cristão.

Estamos entrando num período em que a novilíngua colonial-imperial, que tudo encobre, desliza suavemente para oficializar a inevitabilidade do genocídio que o Governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu pensa ter o direito divino de fazer. Diz ele que Israel é o “bem” absoluto, que cumpre uma missão divina abrigado num Estado teológico e o povo palestino é o mal diabólico, que pode e deve ser varrido da terra, o que torna justificável transformar todo um povo num povo maldito, sem respeitar a vida de mães, crianças, jovens, civis de todos os tipos e espécies.

É para a justificação desta vontade divina – ou sua aceitação “naturalizadora” – que a maior parte da mídia vem transitando, depois que algumas coberturas equilibradas mostraram uma certa pluralidade perante os horrores de uma nova carnificina no Oriente Médio.

Benjamin Netanyahu diz que cumpre uma missão civilizatória e defende que ali todos os valores do “ocidente” estão em jogo, como ocorreu com o Império no Vietnam, como ocorreu com a busca de armas químicas no Iraque, como se fez verdade absoluta – durante três décadas na América Latina – aquela missão civilizadora dos EUA, com seus instrutores de tortura ensinando interrogatórios para as ditaduras da América Latina.

A fala de Benjamin Netanyahu ao povo judeu – confrontando o “bem” contra o “mal” – a partir de valores religiosos lidos de uma forma sectária e contrangedoramente medieval, não é apenas uma falácia, mas é uma estratégia de poder e de alianças fundadas no medo com todos os fundamentalismos do mundo, inclusive com aqueles governos e países que eventualmente ainda apoiam um Estado palestino.

O que parece ser só uma falácia religiosamente correta, na verdade suprime as categorias políticas da modernidade e assim abre o Estado sagrado para qualquer aliança pragmática, em favor das suas verdades religiosas que não podem ser glosadas pela história.

O resto do Século XXI transita para uma situação de perigos indeterminados, nos quais o Governo de Israel, ao deslegitimar todos os esforços feitos pela ONU, apoiada pelos países vencedores da 2a Guerra Mundial – inclusive pela Rússia soviética – podem ser jogados no lixo. O complexo industrial militar dos EUA, os Bancos Centrais do mundo inteiro, os especuladores das guerras, os agiotas legais e ilegais do sistema financeiro global, podem ser levados para um ou para outro lado, segundos seus interesses imediatos de dominação e sobrevivência. Só não tem capacidade de interferir decisivamente para terminar a guerra aquela parte da humanidade – a maioria dos humanos – que não concorreu para sua eclosão.

Os custos humanos da guerra, até agora aceitos pela grande mídia, que mostram a batalha de Israel contra o Hamas sendo transformada numa guerra contra todo o povo palestino, indica que eles não se importam e não perdoarão ninguém que se atreva a enfrentar o seu sistema de dominação: os tratores mortais deste século acostumarão a humanidade sobrevivente a aceitar que aqueles arados que ceifam crianças, sejam necessários também para alimentar o mercado da morte: a fabricação de bombas, armas, carros de combate, munições, foguetes, mísseis e gases que asfixiam, formam a essência do keinesianismo colonial-imperial, que gera muitos novos ricos, empregos seletivos e mortes coletivas no horizonte do século.

A guerra contra as crianças

Não quero comover, emocionar, levar às lágrimas. Apenas perguntar: Que mundo é este em que 420 crianças são mortas por dia, sem que nada possamos fazer? Que mundo é este em que, entre 20 mil feridos, 7 mil são crianças? Que mundo é este em que crianças não podem dormir com o barulho das bombas, não podem brincar entre ruínas pontilhadas de corpos despedaçados?

Difícil aceitar um mundo em que não se trocam imediatamente crianças sequestradas pelo Hamas e crianças presas em Israel. Uma troca pura e simples, sem considerações aritméticas, do tipo um por um. Todas deveriam voltar para suas casas, no caso de ainda terem uma.

Alguns diriam que é ingenuidade supor que as guerras não sejam destrutivas. Sempre mataram, mutilaram e separaram entes queridos. Mas, ao longo do tempo, evoluímos. Criamos leis internacionais. A Convenção de Genebra tem quatro versões, precisamente porque não só definia crimes de guerra, como também expressava essa evolução civilizatória.


Depois dela, tivemos o Estatuto de Roma e um Tribunal Penal Internacional que alguns países como os Estados Unidos não reconhecem. Pelas leis internacionais, Putin deveria estar preso por deportar à força para a Rússia 16 mil crianças. O único tribunal permanente deveria funcionar. O presidente Lula questionou sua existência, mas não se lembra de que o Brasil assinou o tratado em 2002 e o integrou à Constituição em 2004.

Outro argumento que se usa para justificar guerras sangrentas é a defesa do Estado. Grande parte da humanidade apoia a fórmula de dois Estados independentes e pacíficos no Oriente Médio: Israel e Palestina. Mas vale a pena defender ou criar um Estado a partir do massacre de crianças? Os estrategistas não contam com a morte e mutilação infantil. Mas deveriam avaliar os traumas da guerra e da perda da infância, que definirão a personalidade dos que sobrevivem até a idade adulta. Isso significa que a guerra não está apenas produzindo violência, mas semeando violência por muitas gerações.

Algumas organizações defendem a libertação de todas as crianças e a criação de um espaço e tempo para que possam brincar em segurança. Se eu ainda ocupasse cargo público, tentaria apoiar essa possibilidade articulando contatos internacionais em parlamentos de todo o mundo. “Let the Children Play” seria o tema de uma campanha, que teria até a música de Santana como forma de divulgação.

Claro que isso não é o mesmo que um cessar-fogo. Mas de que adianta aprovar um cessar-fogo que Israel só aceitará quando quiser?

Uma campanha pelas crianças teria mais chance de abrir um pequeno espaço civilizatório numa guerra tão próxima da barbárie. E poderia também abrir uma brecha na polarização que domina o debate. Afinal, apesar do que pensam os mais radicais, nem as crianças palestinas nem as de Israel são responsáveis pelas decisões políticas.

Cada vez que ouço um porta-voz da guerra dizer que não há inocentes do outro lado, a primeira imagem que me vem à lembrança é a de milhões de crianças que não escolheram a tragédia, apenas nasceram dentro dela.

Crianças precisam de oxigênio nos hospitais de Gaza, e as máquinas dependem de geradores, que, por sua vez, dependem de combustível. Por que não deixar entrar o combustível? Apenas porque o Hamas pode roubá-lo? Que peso teriam na guerra alguns litros que poderiam salvar tantas vidas que acabam de vir ao mundo?

Ou o mundo reconquista um mínimo de sanidade ou será muito difícil sobreviver nele, sabendo que quase 20 crianças morrem a cada hora de guerra. Levar em conta essa realidade significa colocar pelo menos um tijolo no improvável edifício da paz.

Neste momento, algumas qualidades infantis, como a fantasia e a ingenuidade, talvez possam abrir um pequeno espaço nessa espessa couraça da guerra que a diplomacia e a articulação internacional não conseguem penetrar.

domingo, 5 de novembro de 2023

Os palestinos enterram seus mortos sem nem mais contá-los

Sabe-se que a primeira vítima da guerra é a verdade. E isso não decorre das redes sociais, coisa recente. Sempre foi assim e sempre será. A última guerra justa que o mundo assistiu foi contra o nazismo em meados do século passado. A última guerra que a imprensa acompanhou In loco foi a do Vietnã.

Entre outras razões, os Estados Unidos saíram do Vietnã derrotados porque as imagens dos soldados mortos exibidas diariamente pela televisão minaram o apoio dos norte-americanos ao seu governo. Nunca mais deixaram que a imprensa pudesse mostrar o que de fato acontece em um campo de batalha.

Se continuasse a mostrar, talvez não existissem mais guerras, e elas são uma fonte extraordinária de lucro para o complexo industrial militar. A cobertura de guerras virou uma espécie de jogo. Foi assim no Afeganistão, atacado pelos Estados Unidos na guerra contra o terror. Foi assim no Iraque de Saddam Hussein.


Os terroristas do 9/11 eram cidadãos sauditas, mas o Afeganistão foi acusado de abrigá-los. Hussein foi capturado e morto sem que o Iraque acumulasse armas de destruição em massa como se dizia. Os talibãs voltaram ao poder no Afeganistão. No Iraque, nasceu mais tarde a organização terrorista Estado Islâmico.

O governo de extrema-direita de Israel aplicou um torniquete na cobertura da guerra que o mundo, alarmado com tanta atrocidade de ambos os lados, acompanha estarrecido. É a guerra de um único exército, o mais poderoso do Oriente Médio, que enfrenta um grupo radical que encarna a ideia de independência dos palestinos.

Apoiado pelas maiores potências do mundo Ocidental, Israel dá-se ao luxo de não ter suas verdades contestadas, e impede que as verdades distribuídas pelo Hamas possam ser verificadas por uma imprensa independente. Os jornalistas estão impedidos de entrar na Faixa de Gaza. Dos que haviam por lá, quase 40 já morreram.

Não só. Entidades de ajuda humanitária e de defesa dos direitos humanos na Faixa de Gaza não podem exercer com segurança suas atividades, uma delas a de documentar, recolher dados e produzir relatórios sobre o que de fato acontece. Não podem sequer manter contato com seus funcionários e colaboradores.

Samir Zaqout, vice-diretor geral do Centro Al Mezan para os Direitos Humanos, diz que ele próprio trocou o norte de Gaza por Rafah, porta de entrada no Egito pelo Sul, dada a força dos ataques de Israel no Norte do enclave. Pesquisadores do Al Mezan perderam parentes ou suas casas devido aos ataques aéreos.

A falta de gás em Gaza e a dificuldade de fornecimento de eletricidade anulam a capacidade dos palestinos de documentar sua desgraça. Observa Shawan Jabarin, diretor da Al-Haq, organização de direitos humanos:

“Não há eletricidade em Gaza para carregar telefones, não há Internet regular e não há lugar seguro para onde eu possa pedir aos meus observadores para irem”.

Problemas de comunicação impedem que trabalhadores do grupo de direitos humanos Gisha conduzam investigações: Diz um dos seus representantes: “Todas as manhãs, esperamos ouvir um sinal de vida do nosso investigador e saber que ele e a sua família, os seus filhos e o seu pai idoso sobreviveram à noite”.

A informação que sai de Gaza e sua confiabilidade é uma das questões mais significativas da guerra. O Ministério da Saúde de Gaza denunciou o bombardeio de ambulâncias que levavam doentes para o Egito. Israel assumiu a autoria, mas disse que as ambulâncias estavam carregadas de combatentes do Hamas.

Quem diz a verdade? Sempre que se refere aos comunicados do Ministério da Saúde de Gaza, a imprensa ocidental faz questão de lembrar que o ministério é comandado pelo Hamas. Quando os comunicados são de Israel não se faz ressalvas. É a informação duvidosa de um lado contra a informação sem restrições do outro.

Shawan Jabarin e Samir Zaqout, que não se identificam com o Hamas, rejeitam as críticas ao Ministério da Saúde em Gaza. Zaqout diz acreditar que a pessoa que duvida do número de mortes adota a versão israelense dos fatos. Mas argumenta:

“Qualquer pessoa que observe a quantidade de bombardeios e a força do fogo entende que isso é destruição. Não há outra maneira de descrevê-lo, e os números nem desempenham mais um papel. Os palestinos estão enterrando seus mortos sem nem mais contá-los.”

Pensamento do Dia

 


Ciclo de violência, múltiplos culpados

Este momento da guerra entre Israel e o Hamas conduz a três perguntas fundamentais. Quais as parcelas de responsabilidade de cada lado no atual sofrimento da população da Faixa de Gaza? Qual o risco de a guerra se expandir? Quanto esta crise inviabiliza ou impulsiona um futuro Estado palestino? As três questões estão interligadas.

Os palestinos têm muitos motivos para frustração e revolta: a ocupação militar e a expansão das colônias judaicas na Cisjordânia; a garantia pelas forças israelenses do acesso de judeus ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa e as frequentes interdições de fiéis muçulmanos; a disseminação da presença judaica no bairro árabe da Cidade Velha de Jerusalém; o bloqueio à Faixa de Gaza.


Entretanto, desde que surgiu, em 1987, o Hamas canaliza esse ressentimento de uma forma que apenas afasta uma solução para esses problemas, proporciona a Israel pretextos para manter essas políticas e reforça as correntes extremistas da política israelense.

Esta é a quinta guerra com Israel que o Hamas provoca desde sua chegada ao poder em Gaza, em 2007, sempre causando enorme sofrimento para os palestinos. O sofrimento impingido por Israel agora é tanto maior quanto a brutalidade das atrocidades cometidas pelo Hamas no dia 7 e a barragem de foguetes desde então.

O Hamas se mistura à população civil com o propósito perverso e covarde de elevar o preço político das respostas israelenses a seus ataques. Eu presenciei em Gaza elementos do Hamas emergindo por um alçapão do subterrâneo do pátio de um hospital. Fui visto filmando foguetes disparados de área residencial e homens encapuzados do Hamas invadiram à meia-noite o apartamento onde eu estava para examinar minha câmera.

A tomada de mais de 200 reféns pelo Hamas, outro ato de perversidade e covardia, também reduz a margem de ação de Israel. Tudo isso é responsabilidade do Hamas.

Por outro lado, é compreensível o desejo de Israel de aniquilar o Hamas, depois do que o grupo fez. Mas Israel tinha um leque de opções militares. A carga explosiva dos mísseis disparados pelos caças israelenses produz necessariamente a morte de grande número de civis. Existem mísseis menores, que permitiriam ações mais cirúrgicas.

Sei que isso soa improvável, diante da incompreensível falha de inteligência e de resposta militar que permitiu as incursões de 7 de outubro do Hamas, mas Israel mantém minuciosa vigilância sobre Gaza, por meio de radares, balões, drones, aviões e satélites.

Os túneis são um imenso complicador, mas Israel estaria realizando bombardeios às cegas se não fosse capaz de acompanhar os movimentos do inimigo. Os porta-vozes militares israelenses garantem que estão disparando contra elementos do Hamas.

Mesmo para perfurar túneis não é necessário abrir crateras tão grandes como as que os mísseis israelenses estão abrindo, matando dezenas de civis. Em alguns casos, tapetes de bombas têm arrasado quarteirões residenciais inteiros. A responsabilidade por essas decisões operacionais é de Israel.

Quanto mais despropositada a resposta, maior a tendência não só dos palestinos mas de todo o mundo árabe-muçulmano de responsabilizar Israel, e não o Hamas, pelo sofrimento dos civis. Isso alimenta a radicalização e diminui ainda mais o espaço para uma solução negociada.

Não interessa ao Irã envolver o Hezbollah em grande escala. A milícia xiita libanesa é o grande ativo dissuasório de eventual ação de Israel para negar a capacidade nuclear do Irã, o grande objetivo estratégico da teocracia em Teerã, que parece próximo de ser alcançado. Provocar Israel, com ajuda americana e britânica, a destruir o Hezbollah agora seria contraproducente.

A brutalidade dos bombardeios de Israel cria o terreno fértil para mais terrorismo, antissemitismo e islamofobia, numa espiral que se retroalimenta. Abre caminho também para mais ataques de grupos externos apoiados pelo Irã, como o Hezbollah no Líbano, milícias árabes e iranianas na Síria e no Iraque e os houthis no Iêmen.

Alguém tem de ser moral e politicamente capaz de romper essa espiral de violência do Oriente Médio

Nada disso significa que Israel seria diretamente responsável pelas ações de todos esses atores. Assim como os militares israelenses respondem por suas decisões táticas e operacionais, também o Irã e esses grupos devem responder pelas deles. Mas alguém tem de ser moral e politicamente capaz de romper essa espiral. Não tem sido essa a tradição do Oriente Médio.

'O nível do nosso medo está além do normal. Pensam em nós?'

16h – Converso com minha irmã quando ela se refere a um incidente ocorrido antes do início da atual situação como “nos bons tempos”. Digo que nunca tivemos “bons momentos”. Mesmo quando as coisas estavam relativamente estáveis, os habitantes de Gaza sofreram. Não tínhamos um fornecimento confiável de eletricidade; não podíamos viajar facilmente, e alguns nunca conseguiam viajar; o desemprego era muito elevado e a vida, longe de ser normal. Acontece que temos circunstâncias ruins e mortais. Posso estar exagerando, mas é assim que vejo as coisas.

Também conversamos sobre quantas coisas compramos desde que evacuamos do Norte para o Sul. Brinco com minha irmã e digo que tudo o que precisamos agora é de um carpinteiro para pôr algumas prateleiras em nosso quarto e nos dar mais espaço.

Minha irmã não riu.

20h – As notícias não são boas. A situação piora – coisas horríveis e aterradoras estão acontecendo. O nível do nosso medo está além do normal. Nenhum sinal de esperança. Digo aos meus amigos que não tenho certeza se nos veremos outra vez amanhã.

22h – Ouço Ahmad lá fora, recitando um poema que adoro. Não tenho certeza do que o motivou, mas ouvir isso aqueceu meu coração:

“Quando preparar o seu pequeno-almoço, pense nos outros / Não se esqueça de alimentar os pombos.

Quando você se envolver em suas guerras, pense nos outros / Não se esqueça daqueles que exigem a paz.

E quando você voltar para sua casa, pense nos outros / Como aqueles que moram em tendas.

Quando você adormecer contando planetas, pense nos outros / Que não conseguem encontrar um lugar para dormir.”


Alguém está pensando em nós? E vamos acabar morando em barracas, ou pior, nos tornarmos um daqueles que não conseguem encontrar lugar para dormir?
Ziad (Transcrito do The Guardian)

O detentor do poder

Um verdadeiro poder não pode ser construído exclusivamente sobre vitórias fáceis. O terror que ele quer despertar, e no qual está propriamente interessado, depende da massa de vítimas.

Todos os conquistadores famosos da história trilharam esse mesmo caminho. Posteriormente, foram-lhes atribuídas virtudes de toda espécie. Após séculos, historiadores ainda comparam conscientemente as qualidades de tais conquistadores, para — como acreditam — chegar a um juízo exato sobre eles. A ingenuidade fundamental dessa empreitada é palpável. De fato, estão ainda sob o fascínio de um poder de há muito ultrapassado. Assim, vivendo numa outra época, tornam-se contemporâneos daqueles que nela viveram, e algo do temor que estes sentiam ante a crueldade do poderoso acaba transferindo-se para eles; não sabem, porém, que se entregam a esses poderosos, enquanto observam honestamente os fatos. Soma-se a isso uma motivação mais nobre, da qual não estiveram livres nem mesmo grandes pensadores: é insuportável ter de afirmar que um número de seres humanos — cada um contendo em si o conjunto das possibilidades humanas — foi massacrado em vão, em prol de absolutamente nada; é por isso que então se passa a buscar um sentido para tais massacres. Como a história prossegue, é sempre fácil encontrar um sentido aparente em sua continuidade: cuidando-se para que tal sentido receba uma certa dignidade. Aqui, porém, a verdade nada tem de dignidade. Ela é tão vergonhosa quanto foi aniquiladora. Trata-se exclusivamente de uma paixão privada do detentor do poder: seu prazer pela sobrevivência cresce com seu poder; este permite-lhe dar rédeas à sua paixão. O verdadeiro conteúdo desse poder é o desejo de sobreviver a massas de seres humanos.

É mais proveitoso para o detentor do poder se suas vítimas são inimigos; de qualquer modo, os amigos produzem resultado semelhante. Em nome de virtudes varonis, exigirá o mais difícil, o impossível, de seus súditos. Não lhe importa que estes sucumbam na execução da tarefa. É capaz de convencê-los de que é uma honra fazê-lo por ele. Através de rapinagens, cujo produto permite-lhes de início desfrutar, ele os ata a si. Servir-se-á então da voz de comando, a qual foi como que talhada para seus objetivos (não podemos, contudo, encetar aqui uma discussão detalhada dessa voz de comando, que é de extrema importância). É assim que, se entende do que faz, fará deles massas belicosas, incutindo-lhes ideias sobre a existência de tantos inimigos perigosos que, por fim, seus seguidores não poderão mais abandonar a massa de guerra que compõem. É claro que não lhes revela sua intenção mais profunda; sabe dissimular muito bem e, para tudo o que ordena, encontra centenas de pretextos convincentes. É possível que se traia, em sua arrogância, no círculo de amigos mais íntimos; mas, se assim for, o fará de forma radical, como fez Mussolini diante de Ciano, ao desdenhosamente chamar seu povo de rebanho, cuja vida, naturalmente, pouco importava.

Mas a real intenção de um verdadeiro detentor do poder é tão grotesca quanto inacreditável: ele quer ser o único. Quer sobreviver a todos, para que ninguém sobreviva a ele. Quer furtar-se à morte a todo custo; assim, não deve haver ninguém, absolutamente ninguém, que possa matá-lo. Jamais se sentirá seguro enquanto homens, quaisquer que sejam, continuarem existindo. Mesmo seu corpo de guarda, que o protege dos inimigos, pode voltar-se contra ele. Não é difícil provar que sempre teme secretamente aqueles a quem dá ordens. Sempre o assalta, também, o medo dos que lhe estão mais próximos
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Elias Canetti, "A consciência das palavras"

Resiliência

Stephan Zweig, um dos mais brilhantes intelectuais da primeira metade do século 20, resolveu dar fim à vida. Fugido do nazismo, morava, em fevereiro de 1942, na cidade serrana de Petrópolis, gostando cada dia mais do Brasil. Contudo, via a Europa destruída, faltando-lhe forças para começar de novo. Desistiu da humanidade, desalentado com a barbárie, malgrado seu otimismo quanto ao Brasil: via um povo de certa brandura, com desejo de conciliação, a viver de maneira amistosa, com possível união de todas as classes. Porém, nem esta visão idílica do Brasil lhe deu condições para insistir em sobreviver diante da violência do nazismo, esgotado por estar sem pátria havia muitos anos.

Houve muitas outras desgraças humanitárias desde 1942, mas, por outro lado, cresceu a consciência de novos direitos que dignificam a pessoa humana e valorizam a igualdade de gênero, o combate a qualquer tipo de discriminação de raça, origem, religião, nacionalidade. São conquistas que deveriam afastar a atrocidade.

Por isso mesmo, neste instante, soma-se à indignação, em face da invasão da Ucrânia, a imensa tristeza diante dos atos de terrorismo deslanchados pelo Hamas, com ataque mortífero contra jovens a dançar, decapitando bebês e sequestrando civis para melar acordo entre Israel e Arábia Saudita. A reação de Israel, todavia, embora justa, está sendo desmedida, desproporcional, atingindo a população pacífica, com a morte de muitas crianças. A desolação com a desumanidade é o sentimento dominante.

E, no Brasil, nada nos socorre neste momento, pois o ufanismo de Zweig era um equívoco, próprio de quem, em busca de um refúgio seguro, ignorava a realidade subjacente.


Pelo contrário, infelizmente, vivemos uma guerra interna assustadora, na qual a população negra é a principal vítima. Facções, milícias e policiais corruptos compõem o poder paralelo, enquanto o poder estatal legítimo se deslegitima ao se aliar aos criminosos ou os extorquir e sendo assustador ao atacar toda uma comunidade indiscriminadamente.

O desânimo em vista da perversidade de nossa guerra interna tem por fonte as tristes operações policial-militares resultantes em chacinas. Assim foram a Operação Exceptis, há pouco mais dois anos em Jacarezinho, no Rio de Janeiro, e recentemente, na Baixada Santista, com a Operação Escudo.

A Operação Exceptis ocorreu entre 6h e 16h do dia 6 de maio de 2021. Contou com 200 agentes policiais a pé, quatro blindados e dois helicópteros. Após dois minutos de seu início, um inspetor da Polícia Civil desceu do blindado e foi morto com um tiro na cabeça. Em represália à morte do companheiro, agentes policiais foram brutais na comunidade, que viveu verdadeiro cenário de guerra.

Mas a chacina de Jacarezinho não é exceção. Ao contrário, em 2021 a letalidade policial aumentou 25,9%, chegando a 35,4% dos homicídios havidos na capital fluminense. As chacinas, neste ano, cresceram 266,7%, totalizando 44 ações, tendo sido notificados 185 mortos, em aumento de 302,2%. As chacinas policiais atingiram, ao longo do tempo, diversas comunidades, sendo vítimas principalmente negros e pobres.

A Operação Escudo, na Baixada Santista, foi represália ao assassinato de soldado, redundando na morte de 28 pessoas provocada pela polícia e na prisão de centenas, tendo sido algumas torturadas. Pior: a glorificação da violência policial pelo governador paulista é grave e consagra a autonomização da polícia, cujo descontrole pelos poderes políticos, conforme estudo de Daniel Hirata, leva à formação de milícias.

Outra fonte de desânimo vem do fato de se já ter instituído no Rio de Janeiro um Poder Judiciário paralelo: bandidos do Comando Vermelho (CV), que assassinaram por engano três médicos, foram justiçados pela organização criminosa que os matou, como pena pelo equívoco cometido. Foi o cumprimento rápido da sentença editada pela justiça de um Estado paralelo eficiente.

Há a tentação de jogar a toalha diante da barbárie que se apresenta lá e aqui. Mas maior é o chamamento pela resiliência em prol da paz, a ser buscada mesmo com sucesso imprevisível. A paz interna depende não só de ações policiais, mas do descortínio de implantação de política criminal de cunho social, seja ocupando os espaços das periferias das grandes cidades com equipamentos sociais (esporte, teatro, cinema, shows), seja levando a justiça ao povo com a presença de juiz, promotor, delegado de polícia nos lugares mais distantes e desassistidos, como sucedeu com os Centros Integrados do Cidadão, os CICs, em São Paulo.

Cumpre fazer de cada bairro periférico a reprodução do que se fez em Jardim Ângela, reocupando o espaço com atividades integradoras, criando oportunidades para os jovens e instalando creches e escolas como centros de convivência.

Dói viver no atual espectro de perversidade, mas o arrependimento será insuperável se não buscarmos a paz, munidos de todas as dúvidas, mas também de muita disposição para reivindicar políticas sociais e denunciar morticínios patrocinados pelo Estado.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Idade da Estupidez

Há quem diga que este período da história da humanidade será conhecido como a Idade da Estupidez. O raciocínio corre sobre o fio da lógica e revela uma contradição. Ao mesmo tempo em que a ciência avança em todas as áreas, no terreno espiritual experimentamos o regresso ao breu da ignorância.

A absoluta maioria dos viventes é beneficiária do avanço, mas não é parte da inteligência que o produziu. Ao contrário, usa os seus resultados para espargir a sua estupidez. A internet é o melhor exemplo. Todas as pessoas podem expor suas ideias, o que é comemorado pelos idiotas da oclocracia com bumbos, trombones e urras à nova democracia. Estudo recente de universidades europeias sobre os conteúdos veiculados nas redes da web informa que 90% dos internautas têm a oferecer apenas sandices, bobagens, preconceitos, pieguices, superstições e todo o tipo de vulgaridade da vida pornográfica. Isso na Europa, onde o padrão intelectual é sabidamente superior ao nosso. Basta comparar a qualificação das nossas universidades no ranking mundial. Perdemos para o Cazaquistão.

O caldo de cultura produzido na internet é espesso em sabedoria extraída do senso comum. Conceitos latrinários de filosofia de boteco adquirem a aura de verdade porque é a verdade da maioria. Os fanáticos de todos os fundamentalismos fazem a festa. Aí incluídos defensores do “politicamente correto”. Gente que insiste em impor à vida pública regras morais e costumes que adotou na vida privada. O que parecia ser parte da luta contra os preconceitos tornou-se instrumento ditatorial de hordas que se organizam contra as liberdades de quem não concorda com suas ideias. Nada mais preconceituoso.

O fenômeno criou um mercado próspero para as teorias de baixa extração intelectual. Os pregadores propõem bobagens absurdas e a maioria, em sua idiotia, repete. A mídia que restou, conformada a esse mercado, reproduz a logorréia que escorre do computador para as manifestações públicas mais deprimentes. Entre elas, essa mania recente de mulheres a mostrar os seios, sendo que algumas deveriam ser proibidas pelo estado de decadência física em que se encontram.

Uma preocupação apresentada no estudo é com a reprodução do lixo cultural por outros meios também poderosos. A pesquisa tomou uma amostra entre professoras do primeiro grau. Todas se mostraram influenciadas por movimentos da ignorância e naturalmente repassam suas ideias aos alunos. Isso indica que teremos uma geração de imbecis bastante fundamentados em teorias estúpidas.

Há salvação? O estudo não é conclusivo. E sabemos que o estúpido é, antes de tudo, um forte, porque sua força se tornou expressão coletiva através da rede mundial da internet. Teremos que conviver com a praga de nosso tempo. O estúpido está em todos os lugares. Seja escabroso, rabelaisiano ou ecológico. Religioso fundamentalista ou acadêmico emérito e laureado. Sacerdote nutricionista, teórico dos gêneros e da liberdade sexual. Há estúpido sumítico e valetudinário, como há estúpido que crê na hierarquia de valores, no patriotismo boçal e no direito de extravasar seus recalques no futebol e no carnaval. Há também os que acreditam nos direitos intocáveis de cães, gatos e de todos os animais irracionais. Talvez por solidariedade e identificação.

Eu, com todo o respeito, não acredito que haja estúpido neófito. Sou pessimista. A vida mostrou-me que não há condição para ser idiota. O idiota é idiota independente de gênero, classe social, idade, escolaridade, opção política, profissão ou religião. O estúpido nasce glorioso. A estupidez se impõe porque é a expressão da maioria que está aí para aplaudi-la. E não duvide, a estupidez, se ainda não chegou, está preparada para assumir o poder em todas as instâncias. Argh!

Fábio Campana (1947|2021)

Notícias de uma guerra que chega até nós

A coisa mais tenebrosa que conheci foram os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau, na Polônia, designados pelo regime nazista de Adolph Hitler como o lugar para a “Solução Final” para os judeus. Entre o começo de 1942 e o fim de 1944, homens, mulheres, crianças e anciãos de toda a Europa foram transportados em trens para serem eliminados em câmaras de gás e crematórios naquele complexo macabro. Cerca de 1,3 milhão e 3 milhões de prisioneiros foram ali exterminados, sendo 90% judeus. Aproximadamente 150 mil poloneses, 23 mil ciganos, 15 mil soldados soviéticos e 400 testemunhas de Jeová também foram executados, morreram de fome, doenças ou em experiências médicas.

Tudo o que já havia visto sobre o Holocausto, em fotos, vídeos e filmes, nem se compara à experiência tenebrosa da visita ao local. O maior espanto é constatar como a racionalidade humana é capaz de banalizar o mal. Por isso mesmo, não estranhei a reação de Dani Dayan, presidente do Centro para a Memória do Holocausto de Israel, ao criticar o uso da Estrela Amarela pelos diplomatas de seu país na reunião do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), na segunda-feira: “O emblema amarelo simboliza o desamparo do povo judeu. Hoje, temos um país independente e um exército forte, somos mestres do nosso próprio destino. Hoje, deveríamos colocar um botton de bandeira branca na lapela, não um emblema amarelo”, disse, sobre o uso indevido da Estrela de Davi.

Ao ostentar a estrela amarela na lapela com o slogan “Nunca Mais”, o embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, afirmara que era um símbolo de orgulho e uma forma de lembrar que juraram se defender, e que o antissemitismo e o ódio aos judeus estão crescendo pelo mundo. No regime nazista na Alemanha e nos países ocupados na II Guerra Mundial, todos os judeus foram obrigados a usar uma estrela amarela costurada na roupa para serem identificados. Depois, nos campos de concentração, foram numerados com uma tatuagem no braço.

O uso da estrela amarela pelos diplomatas era uma remissão ao Holocausto, por causa do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro, no qual 1.400 pessoas foram assassinadas e 250 foram sequestradas em Israel. A retaliação de Israel é legitimada perante a opinião pública mundial não somente com a narrativa da luta contra o terrorismo, mas, também, com a memória dos fatos que mais mexem com corações e mentes dos judeus de todo o mundo, inclusive no Brasil: os campos de extermínio nazistas.


Em contrapartida, o repúdio ao massacre de crianças, mulheres e idosos em Gaza, que somam aproximadamente 75% dos 8,5 mil palestinos mortos pelo exército de Israel, extrapola o mundo árabe e mobiliza todo o Oriente muçulmano. Tornou-se o epicentro da nova “guerra fria” entre Estados Unidos e a Rússia, em lugar do conflito da Ucrânia. Não há o menor sinal de paz no horizonte. Nem mesmo um cessar-fogo humanitário, a não ser que seja aprovada alguma resolução no Conselho de Segurança da ONU, que vive seu maior impasse. A China, que hoje assume a presidência do colegiado, até agora foi espectadora privilegiada. Veremos qual será seu papel.

As notícias são desanimadoras. Há 240 reféns de Israel nas mãos do Hamas. O número de funcionários das Nações Unidas mortos na Faixa de Gaza aumentou para 67, segundo informação divulgada pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente. Um bombardeio no campo para refugiados na cidade de Jabalia, no norte de Gaza, deixou 50 mortos e mais de 300 feridos.

O coronel Richard Hecht, porta-voz do exército de Israel, confirmou que as forças armadas do país atacaram o campo para matar um dos comandantes do Hamas. Os rebeldes Houthis do Iêmen também entraram na guerra, que acontece a mais de 1.600km de sua sede em Sanaa, e lançaram drones e mísseis contra Israel. Continuam as escaramuças entre o Hezbollah e o exército israelense, na fronteira com o Líbano. Na Cisjordânia ocupada, os conflitos de rua com os soldados israelenses se intensificam.

Em 2009, o historiador britânico-judeu Tony Judt, que faleceu no ano seguinte, num antigo intitulado O que fazer?, vaticinou que a opção de deixar “mediocridades incompetentes” à frente de Israel e da Autoridade Palestina teria consequências catastróficas. “Graças ao tratamento abusivo dos palestinos pelo ‘Estado judeu’, o imbróglio israelense-palestino é o motivo mais iminente para o ressurgimento do antissemitismo em todo o mundo. É o fator mais eficiente no recrutamento de agentes para os movimentos islâmicos radicais. E priva de um sentindo as políticas externas dos Estados Unidos e da União Europeia para uma das regiões mais delicadas e instáveis do mundo. Algo diferente precisa ser feito.”

Para Judt, Israel vivia um drama existencial: continuar sendo um Estado judeu e deixar de ser uma democracia liberal, como propõe o premiê Benjamin Netanyahu, ou se tornar uma democracia multiétnica e deixar de ser um Estado judeu, com a anexação dos territórios palestinos ocupados. A terceira opção é empurrar os palestinos de Gaza para o deserto do Sinai e promover uma limpeza étnica nos territórios ocupados da Cisjordânia.

O filho do homem

Houve a guerra e vimos desmoronar muitas casas e agora não nos sentimos mais seguros em casa como antes, quando estávamos quietos e seguros. Há algo de que não se cura, e os anos vão passando, mas não nos curamos nunca. Quem sabe teremos de novo uma luminária sobre a mesa e um vaso de flores e os retratos dos nossos queridos, mas não acreditamos mais em nenhuma dessas coisas, porque antes tivemos de abandoná-las de repente ou as procuramos em vão entre os escombros.

É inútil acreditar que podemos sair curados de vinte anos como aqueles que passamos. Os que foram perseguidos nunca mais reencontrarão a paz. Um toque insistente de campainha à noite não pode significar outra coisa para nós que não a palavra “delegacia”. E é inútil dizer e repetir a nós mesmos que por trás da palavra “delegacia” agora talvez haja rostos amigáveis, a quem poderíamos pedir proteção e assistência. Em nós essa palavra sempre provoca desconfiança e assombro. Se observo meus meninos dormindo, penso com alívio que não precisarei acordá-los no meio da noite para fugir. Mas não é um alívio pleno e profundo. Sempre acho que mais cedo ou mais tarde precisaremos nos levantar de novo na noite e escapar e deixar tudo para trás, quartos quietos e cartas e lembranças e roupas.


Uma vez sofrida, jamais se esquece a experiência do mal. Quem viu as casas desabando sabe muito bem quanto são precários os vasos de flor, os quadros, as paredes brancas. Sabe muito bem de que é feita uma casa. Uma casa é feita de tijolos e argamassa, e pode desabar. Uma casa não é tão sólida. Pode desabar de um momento para outro. Atrás dos serenos vasos de flor, atrás das chaleiras, dos tapetes, dos pavimentos lustrosos de cera há o outro vulto verdadeiro da casa, o vulto atroz da casa caída.

Não nos curaremos nunca desta guerra. É inútil. Jamais seremos gente tranquila, gente que pensa e estuda e modela sua vida em paz. Vejam o que aconteceu com nossas casas. Vejam o que aconteceu com a gente. Nunca vamos ser gente sossegada.

Conhecemos a realidade em sua face mais terrível. Mas já nem sentimos mais desgosto. Ainda há alguns que se queixam de que os escritores se servem de uma linguagem amarga e violenta, que contam coisas duras e tristes, que apresentam a realidade em seus termos mais desolados.

Nós não podemos mentir nos livros, nem podemos mentir em nenhuma das coisas que fazemos. E talvez este seja o único bem que nos veio da guerra. Não mentir e não tolerar que os outros mintam a nós. Assim somos, os jovens de agora, assim é a nossa geração. Os mais velhos ainda são muito apegados à mentira, aos véus e às máscaras que recobrem a realidade. Nossa linguagem os entristece e ofende. Não entendem nossa atitude diante da realidade. Nós estamos perto da substância das coisas. Esse é o único bem que a guerra nos deu, mas só nos deu a nós, jovens. Aos outros, mais velhos que nós, a guerra só trouxe insegurança e medo. E também nós, os jovens, temos medo, também nós nos sentimos inseguros em nossas casas, mas não estamos indefesos diante desse medo. Temos uma dureza e uma força que os outros, antes de nós, jamais conheceram.

Para alguns a guerra só começou com a guerra, com as casas desmoronadas e os alemães, mas para outros ela começou antes, desde os primeiros anos do fascismo, e por isso a sensação de insegurança e de permanente perigo é ainda maior. O perigo, a sensação de precisar se esconder, a sensação de precisar deixar de repente o calor da cama e das casas, começou, para tantos de nós, há muitos anos. Insinuou-se nas diversões juvenis, nos acompanhou nos bancos de escola e nos ensinou a ver inimigos em todo lado. Assim foi para muitos de nós, na Itália e em outros lugares, e se acreditava que um dia poderíamos caminhar em paz pelas ruas de nossas cidades; mas hoje, quando talvez possamos caminhar em paz, hoje nos damos conta de que não nos curamos daquele mal. Assim somos constrangidos a buscar sempre novas forças, sempre uma nova dureza para contrapor a qualquer realidade. Somos impelidos a buscar uma serenidade interior que não nasce dos tapetes e dos vasos de flor.

Não há paz para o filho do homem. As raposas e os lobos têm seus covis, mas o filho do homem não tem onde pousar a cabeça. Nossa geração é uma geração de homens. Não é uma geração de raposas e de lobos. Cada um de nós teria grande vontade de pousar a cabeça em algum lugar, cada um gostaria de ter uma pequena toca enxuta e aquecida. Mas não há paz para os filhos dos homens. Cada um de nós uma vez na vida se iludiu achando que podia dormir sobre qualquer coisa, apossar-se de uma certeza qualquer, de uma fé qualquer, e então repousar o corpo. Mas todas as certezas de antes nos foram arrancadas, e a fé jamais será algo em que enfim se possa mergulhar no sono.

E agora somos gente sem lágrimas. O que comovia nossos pais já não nos comove nada. Nossos pais e as pessoas mais velhas que nos reprovam pelo modo como criamos os meninos. Queriam que mentíssemos aos nossos filhos como eles mentiam a nós. Queriam que nossas crianças se divertissem com bonecos de pelúcia em graciosos cômodos pintados de rosa, com arvorezinhas e coelhos estampados nas paredes. Queriam que cercássemos de véus e de mentiras a infância deles, que lhes ocultássemos cuidadosamente a realidade em sua verdadeira substância. Mas nós não podemos fazer isso. Não podemos fazer isso com crianças que acordamos no meio da noite e vestimos ansiosamente no escuro, para fugir ou nos esconder ou porque a sirene de alarme rasgava o céu. Não podemos fazer isso com crianças que viram o assombro e o horror em nossa cara. Não podemos começar a contar a essas crianças que elas foram trazidas pela cegonha, ou lhes dizer que os mortos partiram numa longa viagem.

Há um abismo intransponível entre nós e as gerações anteriores. Os perigos que eles corriam eram irrisórios, e suas casas só desmoronavam muito raramente. Terremotos e incêndios não eram fenômenos que se verificassem com frequência e para todos. As mulheres tricotavam malhas, ordenavam o almoço à cozinheira e recebiam as amigas em casas que não desabavam. Cada qual meditava e estudava e esperava organizar sua vida em paz. Era um outro tempo, e talvez se vivesse bem. Mas nós estamos atados a esta nossa angústia e, no fundo, satisfeitos com nosso destino de homens.
Natalia Ginzburg, "As pequenas virtudes"

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Embaixador de Israel usa estrela amarela na ONU

O embaixador de Israel nas Nações Unidas exibiu uma estrela amarela em seu peito na segunda-feira ao discursar no Conselho de Segurança da organização, provocando críticas do memorial do Holocausto de Israel, o Yad Vashem, que classificou o ato como uma "desonra às vítimas" judaicas do nazismo.

Ao colocar o emblema durante a sessão plenária, o diplomata Gilad Erdan afirmou que pretende usar a estrela até que os membros do conselho condenem explicitamente as atrocidades cometidas pelo grupo terrorista Hamas contra cidadãos israelenses. "Usaremos essa estrela até que vocês acordem e condenem as atrocidades do Hamas".

A estrela amarela é um dos principais símbolos de perseguição aos judeus, que em diferentes momentos históricos foram obrigados a usá-la como um sinal de identificação. A prática teve início no século 8º, no Califado Omíada, por imposição de governantes muçulmanos. Mais tarde, foi introduzida na era medieval europeia pelos cristãos. Seu uso mais recente e conhecido ocorreu durante o Holocausto, no século 20, quando os nazistas obrigaram os judeus de territórios ocupados a portarem variações da estrela com a palavra "judeu" inscrita no meio.

Além do embaixador Erdan, outros membros da delegação israelense na ONU exibiram a estrela na sessão de segunda-feira. Ao justificar por que havia feito isso aos representantes do Conselho, o embaixador evocou a história do Holocausto: "Alguns de vocês não aprenderam nada nos últimos 80 anos. Alguns de vocês esqueceram por que esse órgão foi criado."

"Portanto, vou lembrá-los. A partir de hoje, toda vez que olharem para mim, vão se lembrar do que significa ficar em silêncio diante do mal", disse o embaixador, referindo-se ao ataque terrorista do Hamas a Israel em 7 de outubro. "Assim como meus avós e os avós de milhões de judeus, de agora em diante minha equipe e eu usaremos estrelas amarelas", disse, levantando-se para afixar no peito de seu terno a insígnia, com a inscrição "Never Again" ("Nunca mais", em inglês). "Usaremos essa estrela até que vocês acordem e condenem as atrocidades do Hamas."

Até o momento, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, formado por 15 membros, não chegou a um consenso sobre um posicionamento unificado em relação à guerra entre Israel e o Hamas, que resultou na morte de 1.400 israelenses e numa dura resposta de Israel, que vem travando operações militares na Faixa de Gaza, enclave palestino controlado pelo grupo fundamentalista. Até o momento, quatro propostas de resoluções naufragaram no conselho por causa de divisões entre os cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França), que têm poder de veto.

Duas propostas russas que eram vagas em mencionar o Hamas foram vetadas pelos EUA ou não conseguiram votos suficientes. Um texto dos americanos, mais explícito no apoio a Israel, por sua vez, foi vetado pela Rússia e China. Um quarto texto, proposto pelo Brasil e que chegou a garantir 12 votos, foi vetado pelos EUA sob a justificativa de que não fazia referência aos direitos de autodefesa dos israelenses.

Até o momento, apenas uma resolução foi aprovada, na Assembleia Geral, que não tem o mesmo poder do Conselho de Segurança para impor decisões. O texto, que pede uma "trégua humanitária" na Faixa de Gaza, atualmente sob cerco de Israel, tem tom similar às propostas russas, evitando mencionar o Hamas.

O gesto de Gilad Erdan de exibir a estrela foi mal recebido por alguns setores da sociedade israelense. O Yad Vashem, o memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto, que pediu que o diplomata usasse a bandeira israelense em vez da estrela.

O presidente do Yad Vashem, Dani Dayan, político e empresário que também teve uma controversa carreira como diplomata, disse "lamentar" a ação da delegação israelense em Nova York. "Esse ato desonra as vítimas do Holocausto, bem como o Estado de Israel", escreveu na rede X, antigo Twitter.

"A estrela amarela simboliza o desamparo do povo judeu e o fato de ele estar à mercê de outros. Agora temos um Estado independente e um exército forte. Somos os donos de nosso próprio destino. Hoje prenderemos em nossa lapela uma bandeira azul e branca, não uma estrela amarela", disse Dayan, que em 2015 chegou a ser indicado como embaixador no Brasil, mas nunca chegou a assumir o posto por causa da oposição de Brasília, que não simpatizava com a associação de Dayan ao movimento de assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada.

A guerra da propaganda: lições do passado

Como estamos em guerra de novo, voltei ao meu manual de propaganda bélica de cabeceira. Que estamos em guerra, creio que ninguém duvidará. Não me refiro, claro, apenas às guerras em sentido estrito —Rússia e Ucrânia, Israel e Palestina—, mas também aos conflitos políticos deflagrados como guerra cultural e guerrilha ideológica, que nem sempre matam, mas arrastam países à destruição e terminam em tentativas de golpes de Estado, como vemos seguidamente desde 2016.

E o manual a que me refiro é, na verdade, um tratado muito bem documentado sobre o uso da propaganda na Primeira Guerra. Chama-se "Propaganda Technique in the World War" e foi publicado por Harold D. Lasswell em 1927. Na guerra, diz ele, desde que a meta a ser alcançada passe por alguma forma de convencimento das pessoas, a propaganda tem que ser considerada.


Nos conflitos, as mentes são tão importantes quantos as armas e as pressões econômicas, pois são elas que mobilizam, motivam ou desmoralizam, recrutam, engajam, justificam, superam ou criam resistências à participação, dão ou retiram superioridades morais, tornam os sacrifícios toleráveis ou inaceitáveis. Por isso, as notícias e boatos da propaganda são tão importantes quantos mísseis, dinheiro e músculos; a propaganda é a guerra por outros meios, é a guerra por meio de ideias, conceitos, cognições, sentimentos e atitudes.

Lasswell dedica um inteiro capítulo à satanização do "outro lado" durante um conflito. Quando a guerra está prestes a iniciar, o trabalho da propaganda consiste em fazer com que se acredite que foi o inimigo quem deu início às hostilidades e que a guerra, a este ponto, não só é inevitável, mas o único recurso possível para se enfrentar o mal. Uma vez, contudo, que a guerra está em curso, é preciso reforçar a motivação para se manter em um conflito que já mostra o seu lado monstruoso e exige sacrifícios. E isso se faz por meio da reiteração de exemplos da depravação do inimigo, que demonstrem que se a guerra é feia, o inimigo é muito pior.

O código moral do público vai determinar os temas e as ênfases nos exemplos de maldade que precisam ser apresentados. De toda forma, ninguém resiste a responder com estupefação e ódio ao inimigo diante de exemplos de atrocidades. E quanto mais vulneráveis e inofensivos forem as suas vítimas, mais serão óbvias razões para odiar o inimigo. O que outro faz ou fez com "mulheres, crianças, idosos, padres e freiras, prisioneiros e não combatentes mutilados" não será esquecido nem perdoado.

A originalidade e a verdade dos relatos estão longe de ser indispensáveis, mas só um inimigo degenerado e cruel é capaz de degolar crianças ou matá-las de fome, de violentar mulheres e sequestrar velhinhas, de bombardear hospitais ou metralhar garotos.

Para rematar a convicção de que o inimigo é sombrio e perverso, a propaganda deve manter ativa uma lista de crimes perpetrados pelo outro lado, o catálogo de infâmias. Desumanidades, genocídio, impiedade, tudo listado e contabilizado. Tudo deve ser fartamente ilustrado com "fotografias de cadáveres mutilados e aldeias devastadas". Se possível, testemunhas oculares devem contar a sua própria história, depoimentos de quem esteve com o inimigo e mudou de lado, enojado com tamanha iniquidade, devem ser publicados, assim como relatórios assinados por pessoas de reputação.

A este pronto, a contrapropaganda do inimigo já estará ativada para a negação: "as histórias de atrocidade em massa e destruição intencional são generalizações maliciosas de alguns exemplos individuais lamentáveis", dirá; o inimigo é vil e falso, não se deve crer em uma palavra da sua boca. É quanto aparecem os exemplos de atrocidades e infâmias realizadas pelo lado que primeiro acusou.

Cem anos antes das invenções das fake news, Lasswell já advertia aos seus leitores que "a propaganda real, onde quer que seja estudada, tem um grande elemento de falsificação. Isso varia desde colocar uma falsa data em um despacho, passando pela impressão de boatos não verificados, chegando até à ‘encenação’ de eventos". Os exemplos são copiosos, vão do uso de imagens, em parte retocadas, do pogrom judeu de 1905 como se fosse uma nova atrocidade inimiga, à falsificação de edições inteiras de jornais do outro país. Ou a invenção pura e simples de fatos.

Nada há de novo sob o sol da propaganda entre as guerras do século 20 e as do século 21. Nem sequer o uso dos horrores como meio de criar animosidade, alimentar o ódio e manter as pessoas em estado permanente de conflito.

Pesadelos para ficar

Que pensam, de nós, crianças, cães, gatos,

quando chovem, sobre eles, infernos,
numa Palestina de insensatos,
que tudo muda em escuros invernos?

Podem as crianças compreender
que seres humanos rebentem casas,
ponham o mundo todo a arder
e, a todos, eles cortem as asas?

Crianças e animais aterrados,
para sempre mutilados e mudos,
porque, subitamente atirados

para o meio da luta, como escudos!
Um horror que irá sempre visitar
os pesadelos dos que vão sobrar!
Eugénio Lisboa

Os nossos criminosos de guerra e os outros


I

Quanto tempo ainda será necessário para que a grande audiência planetária possa perceber a dimensão do massacre que Israel está perpetrando na Palestina? Se é que um dia isso vai acontecer. Porque a verdade é que os vencedores não gostam de revelar seus crimes, têm recursos para impedir que venham à tona e até para fazer com que pareçam atos do mais puro heroísmo.

II

Centenas de milhares de civis foram incendiados vivos em dezenas de cidades alemãs ao final da Segunda Guerra, apenas para que a indústria bélica aeronáutica fizesse dinheiro, demonstrasse seu poderio e aperfeiçoasse sua tecnologia de matar. Quem quiser ter noção da magnitude desses ataques (e da ambição dessa gente) pode ler O Incêndio – Como os aliados destruíram as cidades alemãs do historiador Jorg Friedrich (Ed. Record, 2006). Esquecendo qualquer outro juízo que se possa fazer do recém-lançado Oppenheimer, há pelo menos uma cena digna de imenso louvor, justamente aquela que, ainda antes da metade do filme, registra o gozo orgiástico da pequena plateia que ouve o cientista chefe do projeto Manhattan anunciar a sucesso do lançamento da primeira das bombas. Como sabemos, e sabiam eles, porque era esse o propósito da coisa, o artefacto matou mais de 150 mil civis. A Alemanha havia se rendido três meses antes, no começo de maio. Então, qual era o propósito daquilo? Três dias depois, o gozo certamente terá se repetido (embora o filme do sr. Christopher Nolan não o mostre), com a morte de mais 80 mil pessoas em Nagasaki. E nós, desde criancinhas, aprendemos a celebrar o grande feito dos heróis que derrotaram os cruéis nazistas e seus aliados amarelos. Preto no branco. O bem e o mal. O mocinho e o bandido, como Hollywood nos ensinou.

III

Quando se tratava de Putin, ao primeiro indício já o processaram por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Não faz tanto tempo assim, está ainda bastante fresco na memória para quem quiser lembrar. O russo é atualmente um banido da grande maioria dos foros internacionais e se deixa o seu país é para visitar apenas os mais fiéis aliados, do contrário corre o risco de ser preso. Para Netanyahu, que manda bombardear civis ou os cerca como animais deixando-os à mingua, sem água, comida e energia, toda a condescendência humanitária da civilização ocidental. Pouco importam as evidências de brutalidade e o persistente assassinato de civis, em grande parte crianças, até agora à luz do dia e à vista de todo o planeta – as imagens dessas três semanas do ininterrupto ataque israelense a Gaza fazem com que os supostos crimes que tornaram Putin persona non grata ao Ocidente pareçam estórias da carochinha.

IV

É difícil encontrar na história do mundo moderno um momento no qual a suposta grande criação da modernidade – as tradicionais democracias ocidentais e suas instituições representativas – tenha descido a um patamar tão rasteiro de vileza e indignidade. E dessa debacle moral profundíssima não escapa, senão o contrário, a famigerada instituição que em tese deveria cuidar, em nome do bom público, da fiscalização dos chamados poderes do Estado: a imprensa livre. Será algum dia capaz de se recuperar dessa descida ao esgoto?

(Um parêntesis para registrar a performance absolutamente fora da curva de boa parte do jornalismo da RTVE, ou Radio y Televisión Publica Española.)

V

Desde o princípio, o Estado de Israel não tergiversou por um só instante acerca do ineditismo das medidas de represália que viria a tomar. Já pelas inesquecíveis palavras do primeiro-ministro israelense, as famosas “isso é só começo”, era muito fácil adivinhar o tamanho da retaliação. Dia após dia, semana após semana, sem que nem a Europa, nem aqueles que talvez pudessem injetar uma dose minúscula de inibição na testosterona ultra belicista de Netanyahu, os Estados Unidos, tentassem interpor obstáculos à desproporcional escalada de violência anunciada. Naturalmente, durante essas três semanas, tudo o que vimos foi justamente esse previsível crescendo de brutalidade bélica. Na madrugada de sexta para sábado, 27 para 28 de outubro, um passo a mais em direção às trevas. Quem saberá calcular o alcance desse passo? Como os criminosos preferem atuar sempre às escuras e como, aparentemente, passarão a um novo patamar de violência, ainda que talvez inimaginável para muitos de nós, antes de darem início ao ataque do final de semana cortaram todas as formas de comunicação a partir do interior da Faixa. Nenhuma imagem sairá mais dali, absolutamente nada que não queiram mostrar os perpetradores.

VI

Um amigo recorda para mim uma das cenas do documentário do cineasta sérvio Emir Kusturica sobre Maradona. Nessa cena, assim como se meio ao acaso, ao passar por um edifício bombardeado na cidade de Belgrado, Maradona se dirige ao diretor e pergunta: “Quem fez isso?”. Kusturica, algo poético e cortante, não titubeia: “Javier Solana”. O que faz o cineasta, com seu procedimento poético, é tirar a máscara institucional atrás da qual esses homens tão valorosos gostam de se esconder. Porque afinal são homens e têm nomes e sobrenomes os que afinal ordenam que as bombas sejam lançadas sobre as cidades e sobre as pessoas, chamem-se Netanyahu, Biden ou Javier Solana. O espanhol foi secretário-geral da OTAN entre 1995 e 1999, durante as guerras na extinta Iugoslávia. Semana passada, deixou momentaneamente sua confortável aposentadoria para declarar que a reação de Israel à incursão e aos assassinatos do Hamas era “muito desproporcional”. Ser secretário-geral da OTAN não é o mesmo que ser secretário-geral da ONU. Tem lá suas equivalências simbólicas, mas não é a mesma coisa. Assim que quando um António Guterres abandona a subserviência e num raro momento de crua sinceridade afirma de público que o Hamas “não nasceu do vácuo”, algo de valor deve ser creditado à sua declaração. Mas quando um ex-secretário geral da Armada Ocidental vem a público para condenar a hybris israelense é possivelmente porque todos os limites foram ultrapassados, e foram ultrapassados com sobras.

VII

A manchete no topo da página do El País (imagino que de muitos outros jornais) deve ter deixado escandalizados a todos aqueles que ainda são capazes de se escandalizar: Israel pede a demissão do secretário-geral da ONU e bloqueia os vistos dos representantes do organismo internacional – O embaixador israelense disse que é “o momento de ensinar uma lição” às Nações Unidas depois que António Guterres afirmou que os ataques do Hamas “não vêm do nada”, mas de 50 anos de ocupação asfixiante”. Ou seja, Israel exige que o secretário-geral da ONU seja castigado e sumariamente demitido pelas palavras que havia ousado pronunciar. Que liberdade é essa que toma o moderador-mor das Nações Unidas de dizer uma vírgula que ao Estado de Israel não agrade? Castigado, talvez não da mesma maneira como estão sendo castigados os palestinos de Gaza, mas de todo modo, castigado.

VIII

No meio da tragédia de incomensuráveis dimensões, vemos a farsa de grosso calibre e terrível falta de oportunidade ou senso de tamanho. Num artigo do The Economist de 24 último: “Que frágeis são as forças que tentam manter as coisas unidas. Quinze horas depois da explosão (do hospital em Gaza), aterrizou em Israel o presidente Joe Biden, um ancião com o peso do mundo sobre seus ombros ” – o itálico é de minha responsabilidade, claro.

IX

E, mais uma vez, as devidas proporções. No dia 7 de outubro, o principal diário espanhol dava destaque para uma notícia da AFP que dizia: “Um bombardeio russo matou ontem, sexta-feira, uma criança de 10 anos e sua avó em Jarkov, no noroeste da Ucrânia…”. No vigésimo dia desde o início do bombardeio de Gaza pelo Estado de Israel, a estimativa do Ministério da Saúde de Gaza, reconhecido pela ONU, era de aproximadamente três mil crianças mortas. Também para o tamanho dos interesses que por detrás da cena conduzem os atos e para a pequenez dos chamados homens e instituições do bem deveríamos encontrar uma régua.

X

Uma mui modesta indagação final: por que Netanyahu – e Biden – não foram ainda (e não serão jamais) denunciados ao Tribunal Penal Internacional de Haia?

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Entre o colonialismo e o terrorismo

No filme de Gillo Pontecorvo, “A Batalha de Argel” (1966), sobre a luta pela libertação da Argélia contra o domínio colonial francês, um líder da FLNA (Frente de Libertação Nacional da Argélia) capturado é interrogado pela imprensa sobre as ações do grupo. Os métodos da FLNA incluíam o recrutamento de mulheres para, passando despercebidas pelas forças francesas, depositarem bombas escondidas em cestas, carrinhos de bebê e outras formas de disfarce nos locais públicos da capital frequentados pelos franceses.

– O senhor não acha covarde e imoral usar mulheres portando cestos com bombas para matar inocentes nos cafés e restaurantes?

– Se os franceses me derem os seus helicópteros, podem ficar com os meus cestos.

A cena acima nos convida a uma reflexão necessária sobre o emprego político da violência a partir de duas categorias fundamentais na formação do mundo contemporâneo: colonialismo e terrorismo. Não se trata de justificar, mas de entender a violência, o que nos leva à política. É ela que está por trás da guerra e, paradoxalmente, somente ela pode produzir a paz. Por isso, qualquer avaliação que atribua a violência que ora testemunhamos ao puro ódio interdita uma solução política.

Antes de desbordar o problema, proponho uma reflexão (crucial em nosso tempo): Marx disse que “se aparência e essência coincidissem, toda ciência seria supérflua.” Quando olhamos algo, temos uma impressão. Essa impressão não é capaz de nos revelar a essência do que se vê. Ao observarmos o movimento do Sol, temos a impressão de que é ele que gira ao redor da Terra, e foi a essa conclusão que incontáveis gerações chegaram antes do método científico revelar a verdadeira essência do movimento. Da mesma forma, os fenômenos sociais demandam análise amparada por categorias e método para serem compreendidos.


Dito isso, uma das impressões mais comuns sobre o conflito que inspira esse texto é aquela segundo a qual trata-se de uma guerra religiosa, movida por puro ódio. Nada mais falso.

O objetivo central da política é “produzir” segurança. Isso significa, paradoxalmente, que ela detém a violência em sua essência, já que o preço da segurança é a capacidade de empregar a violência. Assim, quando a diplomacia e a dissuasão falham, a guerra pode se tornar inevitável. Eis, de forma sumária, a fórmula de Clausewitz, cânone da estratégia moderna.

Portanto, à política atribuímos a missão da pacificação indispensável à promoção da vida em sociedade, pois as diversas dimensões dessa vida só podem se realizar após a paz. Esse raciocínio faz da segurança o ativo nº 1 da civilização como a conhecemos (ou como se tornou dominante), e ensejou a formação de Estados capazes de demarcar o que é violência legítima e o que não é.

Passados séculos desde a formação dos Estados, habitamos um mundo dividido entre as regras do Direito Internacional (um dever ser) e a política das grandes potências, que usam a força para transgredir regras. Entre o dever ser e o que a realidade de fato é há um espaço onde operam a diplomacia, a opinião pública e as dimensões econômica, social, jurídica etc. Mas, no limite, o poder decide (ou, pelo menos, tem sido assim).

Segundo a teoria Realista, o sistema internacional pode ser analisado a partir do conceito de estado de natureza hobbesiano, que reitera o paradigma que confere a pretensão do monopólio legítimo da violência aos Estados. Nesse contexto, a guerra continua sendo “um ato de força para obrigar o inimigo a fazer a nossa vontade” (Clausewitz, 2010), e não existe independente da política, mas como outra gramática dela. Por isso, o emprego político da violência tem sido um elemento permanente na política internacional, e nada sugere que o deixará de ser no horizonte tangível.

“A Europa é indefensável”, disse Césaire (2020). O sentido histórico da frase é profundo. O mundo contemporâneo é produto de uma hierarquia de nações que, de modo esquemático, pensamos em dimensões correlatas: centro e periferia. A formação desse esquema geopolítico remonta à projeção de algumas nações europeias, que primeiro consolidaram o Estado Moderno, em busca da exploração de outros continentes e povos. Em fins do século XIX, esse processo havia culminado na dominação de 86% da superfície terrestre pelos europeus (Kennedy, 1989).

E no que consiste o colonialismo? Trata-se, inicialmente, de uma relação. Fanon (1968, p. 26) escreveu: “O colono e o colonizado são velhos conhecidos. (…) É o colono que fez e continua a fazer o colonizado.” Atavicamente ligado ao colonizado, o colonizador não está invulnerável à violência que pratica. Pelo contrário: a barbárie passa a constituí-lo, com impactos dentro da fortaleza colonial.

Ato contínuo, pensemos na original interpretação de Césaire sobre o nazismo. Segundo ele, o nazismo foi o impacto do colonialismo entre os europeus (daí, não parecer casual que campos de concentração tenham aparecido antes em território africano). Então, a diferença entre a violência colonial nas Américas, África, Ásia e Oceania para aquela vivenciada por judeus e outras minorias europeias por mãos nazistas, durante a II GM, é apenas o locus: enquanto o holocausto ocorreu no centro, o colonialismo se deu na periferia. Enquanto o rei belga Leopoldo II, responsável por 10 milhões de mortes no Congo, teria disciplinado “selvagens”, Hitler cometeu o desatino de levar a barbárie ao solo “civilizado”. Depois de Auschwitz, Hitler ilustra as piores páginas escritas pela humanidade, mas Leopoldo segue imponente em estátuas pela Bélgica.

Disso concluímos que há os que devem viver e os que devem morrer (Mbembe, 2018). Essa diferenciação é uma das estruturas vertebrais das relações internacionais e está na raiz do desprezo pelo drama palestino, que também nasce no que Said (2012) classificou como “Orientalismo”: determinar o Oriente (outro) como uma caricatura que consubstancie cultural e moralmente sua subordinação política. Essa caricatura desconstrói sua humanidade e faz dele uma ameaça ao… colonizador! Ou seja: a colonização se dá não apenas pela força, mas pela aniquilação cultural do outro, negando-lhe qualquer existência fora da condição colonial, fazendo dele um sujeito ontologicamente colonizado. E quando ele renega a condição imposta, suscita a reação do colonizador amparada pela legitimidade de quem está devolvendo as coisas ao seu “devido lugar”. É essa a relação política que informa o direito em situações de apartheid e condena uma violência promovendo outra, anterior e maior, emulando da condição sine qua non do Estado, o monopólio da violência, o pretenso direito à aplicação da força contra aquele (o colonizado) que infringe a lei (o apartheid). O apartheid, pois, consiste numa ordem indisfarçadamente violenta.

Pensamento do Dia

 


Concentração de riqueza e racismo no Brasil

Na coluna de hoje trago um pouco sobre o bate-papo com o Fernando Maskobi, consultor financeiro estrategista que aborda a concentração de riqueza no Brasil e como isso está interligado ao racismo. A concentração de riqueza e o racismo são dois problemas interligados que persistem no Brasil, alimentando desigualdades profundas e persistentes na sociedade. Essas questões têm raízes históricas que remontam ao período colonial e à escravidão.

Conforme cita Fernando: “Num país onde a metade mais pobre possui menos de 1% da riqueza, fica difícil esperar um Brasil melhor sem encararmos o tema de concentração de riquezas de frente e com maturidade. De onde nasce a desigualdade social e qual a sua relação com o racismo? Qual o custo de viver numa sociedade com tamanha diferença social?

Vamos voltar um pouco na história. Do ponto de vista social, o Brasil foi um dos, senão o último, país a sair do período escravocrata, em 1888. Naquela época, a abolição foi votada pela elite, evitando a reforma agrária. Portanto, numa população na qual negros e pardos representam mais do que 50%, tivemos um total de 0% dessa etnia com direito a compra de terras.

Sob o prisma econômico, vivemos num sistema monetário baseado no crédito, no qual temos juros em cima de juros. Sem delonga no sistema classista, comitês de diversidade nas empresas e movimentos como o black lives matter (vidas negras importam) são fundamentais. Entretanto, é como ‘colocar de colher enquanto o sistema econômico tira de pá’, como dizia uma antiga chefe minha.

Precisamos ir mais fundo. A conta não fecha e, por isso, mesmo com tanta visibilidade para o tema nos últimos anos, a concentração de riquezas continua ampliando. Se não falarmos do tema com maturidade, continuaremos romantizando o garoto(a) da comunidade que pegava trem sem tênis e conseguiu uma bolsa em Harvard mesmo assim.”

A disparidade racial é igualmente evidente em relação à educação e ao emprego. A taxa de analfabetismo entre negros é consideravelmente mais alta do que entre brancos, e a representatividade de negros em posições de liderança e cargos de alta remuneração ainda é limitada.

Segundo pesquisa do Instituto de Referência Negra Peregum e do Projeto Seta, 81% das pessoas afirmam que o Brasil é um país racista. A coleta de dados foi realizada em 127 municípios em 2023, com participantes acima de 16 anos, num total de 2 mil pessoas. A pesquisa buscou identificar como as pessoas compreendem o racismo.

“Mas vamos entender ainda melhor essa engrenagem socioeconômica. Foram tirados os direitos dos negros de comprarem terras e de terem acesso à educação, logo foram financeiramente e socialmente prejudicados. Sem esse acesso, não participam na formulação e aprovação de leis que ditam as ‘regras do jogo’. Com poder aquisitivo reduzido, são as pessoas que se veem obrigadas a parcelar seus bens em inúmeras vezes pedindo mais crédito aos bancos (aqui incide juros em cima de juros).

Comparado ainda aos Estados Unidos, a criticidade no Brasil e muito maior. Falar de diversidade é considerar que os negros são uma minoria. Porém, no Brasil, estamos falando da maioria. É muito mais que diversidade, é direito de existir.

A cegueira social nos deixa cada vez mais separados e apáticos, nos levando a naturalizar situações que não deveriam ser comuns. Estamos tão identificados com a desigualdade social que sequer conseguimos imaginar a sensação de liberdade que teríamos se vivêssemos numa sociedade equilibrada. Ou será que é tão prazeroso assim viver cercado de seguranças confinados em nossas bolhas?

O atual sistema claramente não funciona para o pobre, que ainda luta todos os dias para sobreviver, mas não funciona para o rico também, que precisa se isolar em suas bolhas. Nosso passado precisa ser encarado e, acima de tudo, reparado. Pode parecer desafiador, mas precisamos refletir e reparar!

Talvez, no mais íntimo, estejamos enfrentando o medo de renunciar a conveniências e privilégios. Afinal, num sistema no qual a competição é incentivada, talvez seja confortável viver em circunstâncias em que a competitividade é baixa e a massa, desqualificada.”

Temos um grande caminho pela frente no caminho da igualdade. Precisamos dar oportunidade, voz e amparo para aqueles que foram discriminados durante toda sua existência. Precisamos lutar por um país equânime.

Preparar a paz


Se é preciso na paz preparar a guerra, como diz a sabedoria das nações, indispensável também se torna na guerra preparar a paz
Romain Rolland

Barbárie tem fonte, mas não tem identidade

Até agora, as sínteses de especialistas sobre o conflito entre Israel e o Hamas acentuam expressões fortes e pessimistas como "abismo de ódio" e "nenhuma porta de saída". Unânime é o reconhecimento enfático da barbárie perpetrada pelo Hamas contra a massa desarmada de mil e quatrocentos israelenses, embora a mesma ênfase arrefeça quanto à morte por bombardeios de mil e novecentas crianças, dentre um total de seis mil palestinos.

Barbárie tem fonte, mas não tem identidade. Nem se avalia por números. O extermínio massivo no Oriente Médio é tão bárbaro quanto o terror semanal na zona oeste ou na Baixada Fluminense, as endêmicas mortes de crianças por balas aleatórias, as execuções de turistas na paisagem carioca. O que assombra a consciência global é o estado de desvario em que a dizimação do outro parece destino irrecorrível. É a condição convulsa da guerra perpétua.


Essa condição foi pressentida por Sigmund Freud numa carta a Chaim Koffler, membro da Fundação para a Reinstalação dos Judeus na Palestina, quando diz não acreditar "que a Palestina possa jamais se tornar um Estado judeu (...) Parece-me mais avisado fundar uma pátria judia sobre um solo historicamente não carregado" (26/2/1930). Ele deplora "que o fanatismo pouco realista dos nossos compatriotas (Volksgenossen) tenha sua parte de responsabilidade no despertar a desconfiança dos árabes".

Judeu, o criador da psicanálise não viveu para ver o Estado de Israel nem as guerras que asseguraram, com apoio norte-americano, o domínio colonial da região. Mas já manifestava regozijo com a prosperidade de "nossos Siedlungen (colonos)". Aqui há um deslize na tradução de "Siedlung", que significa assentamento urbanizado, e não agência de colonização. Os povoamentos a que Freud se refere não tinham nada a ver com as práticas do já findo império colonial alemão.

Mas modernizar implica urbanizar. A modernização do Estado israelense sempre dependeu da urbanização de territórios arrebatados aos palestinos. É a lógica colonial na nova ordem pós-racial (pós-Segunda Guerra) da tomada de terras: constrói-se um Estado de colonizadores brancos à revelia da população nativa.

Método hard, limpeza de terreno pela violência: "Em nossa terra só há lugar para nós. Vamos dizer aos árabes: saiam" (Isaac Rolf, rabino alemão, antes da Segunda Guerra). Método soft, narrativas de exclusividade dos lugares santos lastreadas por uma estatização teocrática. Freud pensava e sentia: pressentia. Daí sua acidez contra "uma piedade mal interpretada, que faz de um pedaço do muro de Herodes uma relíquia nacional". Quanto à barbárie, diz a perversa Lei de Murphy que "se algo pode dar errado, dará". Só que tem piorado.

O fim do mundo e o fim do mês

O combate às alterações climáticas é demasiado importante e decisivo para que, em seu nome, se desperdicem armas e argumentos que pouco ou nada contribuem para a transição energética e para a redução das emissões de gases com efeito de estufa. Este é um combate tão fulcral que, para ser vencido, precisa da colaboração de todos, por implicar mudanças nos hábitos de vida e de consumo, além de uma profunda transformação dos modelos de desenvolvimento económico em que alicerçámos as nossas vidas, nas últimas décadas. Tendo em conta o impacto dos recentes fenómenos climáticos extremos que têm irrompido pelo planeta, este é também um combate cada vez mais urgente e necessário. Precisamos rapidamente de recuperar o tempo perdido, para não entrarmos num caminho irreversível, em que já não será possível evitar a multiplicação de incêndios, de secas e de inundações por causa do aumento da temperatura global. Precisamos de nos proteger e de estancar, na medida em que ainda for viável, a proliferação de ondas de calor em cada vez mais regiões do globo. E temos a obrigação de impedir a redução drástica da biodiversidade, num planeta em que, nesse cenário, as condições de vida serão críticas para a espécie humana.

Estamos naquilo a que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, chamou a “autoestrada para o inferno” – num dos seus muitos alertas que todos aplaudem, mas ninguém verdadeiramente escuta. Contudo, precisamente por isso, não podemos virar na saída errada, nem deixarmo-nos enganar no caminho.


Ao contrário do que tem sido tantas vezes o discurso oficial, a transição energética não vai ser um passeio no parque, rumo a um arco-íris luminoso, onde se esconde um pote de ouro, que nos deixará a todos alegres e felizes. Se é verdade que há muitas oportunidades de negócio e de criação de riqueza nesta transição, também não podemos ignorar que nenhuma transformação deste género será feita sem que existam vítimas e custos que não podem ser negligenciados.

De um modo ou de outro, vai ser preciso, ao longo de todo o processo, penalizar as atividades que prejudicam o ambiente e, em simultâneo, apoiar e beneficiar aquelas que contribuem para formas de energia mais limpa, que promovem um consumo responsável e, por isso, ajudam a criar uma economia sustentável.

Neste contexto, faz todo o sentido a ampliação da chamada fiscalidade verde – a criação de impostos que penalizem quem mais emite carbono para a atmosfera. Mas é necessário que a receita desse tipo de taxas ou de impostos seja, depois, utilizada na criação de alternativas amigas do ambiente, na promoção de atividades e de comportamentos que reduzam efetivamente as emissões nocivas. E ainda é mais necessário que, em simultâneo com o anúncio desse custo adicional que passa a recair sobre os contribuintes, sejam explicadas, ao pormenor e com frontalidade, as razões dessa medida e de como ela, no futuro, pode mudar coletivamente as nossas vidas.

Ora, foi precisamente o contrário disto tudo que o Governo fez em relação à sua proposta de penalização do Imposto Único de Circulação (IUC), nos mais de três milhões de veículos, anteriores a 2007, que circulam em Portugal. Com os resultados que estão à vista: em vez de ser vista como uma medida ambiental, foi lida por todos como uma receita suplementar para o Orçamento do Estado. Em especial quando, ao contrário do que seria desejável numa lógica de redução de emissões, a medida foi apresentada como uma forma de compensação pela diminuição dos preços em seis autoestradas.

Mais grave é o que a medida representa em termos de injustiça social, ao penalizar aqueles que, por falta de recursos, têm menos condições para poder trocar de carro. Isto, ainda por cima, num País que privilegiou o automóvel como sinal de desenvolvimento, com uma aposta total em autoestradas em detrimento do caminho de ferro. Mas também um País onde o automóvel tem estado no centro de grandes movimentos de contestação aos governos, como se viu no bloqueio da ponte em 1994, nos últimos anos do cavaquismo, ou em tantos protestos contra portagens ou más condições de estradas que, ciclicamente, unem populações e são a chama até para boicotes eleitorais.

Quando se confundem as medidas para evitar o fim do mundo climático com aquelas que dificultam às famílias chegar ao fim do mês sem sobressaltos financeiros, fica aberto o caminho para a revolta. Mas fica ainda mais frágil o combate necessário às alterações climáticas: quando se dão tiros nos pés, como este aumento mal direcionado do IUC, quem fica a perder é o ambiente.