quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Brasil em seu labirinto

 


As cousas do mundo

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Gregório de Mattos

Privilégios de classe e casta na educação

Educação não é privilégio é o título da obra mais importante do fundador do conceito de escola pública em tempo integral no Brasil, o baiano de Caetité Anísio Teixeira, que, não por homenagem vazia, mas por mérito incontestável, completa o nome do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Ou seja, a repartição pública que administra o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no centro das atenções no momento. Aliás, Enem e Inep são os dois piores exemplos de como a teoria no nome é invertida: entre os privilégios de classe e de casta no País destaca-se o elitista vezo histórico, oposto à intenção benemérita do formulador dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), no Rio, e dos Centros Educacionais Unificados (Ceus), em São Paulo.

Não se trata de imposição da direita ou da esquerda, mas de uma tradição arraigada, que deforma todas as tentativas de corrigir seu rumo. Inspirada em Ruth Cardoso, mulher do então presidente da República Fernando Henrique Cardoso, a pesquisadora de políticas públicas Ana Fonseca criou o programa de Renda Mínima na gestão do tucano José Roberto Magalhães Teixeira, o Grama, em Campinas. À época, o ex-reitor da Universidade de Brasília (UNB) Cristovam Buarque implantou no governo do Distrito Federal o programa Bolsa Escola. A denominação condicionava o desembolso de dinheiro público ao incentivo para lares pobres matricularem a prole. No primeiro governo Lula, do qual Buarque foi ministro da Educação, a ideia original alterou o enfoque educativo para assistencialista com o Bolsa Família, que manteve, mas não priorizou, a necessidade da matrícula para o recebimento do dinheiro. O desgoverno Bolsonaro deixou o programa social finar por inanição e promete substituí-lo por outro, assumido como apenas assistencialista, o tal Auxílio Brasil.

Essa inversão da prioridade educacional para a assistencial direciona, evidentemente, o objetivo social para o político, assumindo a mendicância militante. Seja à esquerda, seja à direita, como sequência natural dos antigos programas paternalistas das obras contra as secas e condicionando a emergência à compra indireta dos votos num populismo contra o povo, como o pratica o atual desgoverno. A história contemporânea produziu a adulteração da denominação dos planos de incentivo à educação básica em muletas sociais para a distância abissal entre as migalhas para a instrução pública inicial e o dispêndio insustentável no nível superior. O exemplo de Inep/enem é de uma clareza absoluta. Criado para avaliar e, em seguida, qualificar o ensino médio, que seria a prioridade evidente de qualquer gestor público bem intencionado, é usado como via de acesso para instituições superiores, substituindo o método tradicional do vestibular. A perenidade dos privilégios de classe e casta é óbvia, cega, muda e surda.

A pretexto de extinguir o inexistente risco da ditadura comunista, o golpe militar de 1964 paralisou as instituições democráticas por 20 anos, mas perdeu, por evidentes limitações intelectuais, a guerra pelo controle ideológico dos câmpus. Quando o regime ruiu sobre os próprios pés de barro, o domínio intelectual do marxismo-leninismo mostrou seu fascínio de corações e mentes e exibiu sua adesão ao elitismo dominante das origens de classe de seus devotos e prosélitos. O Inep deixou de honrar o nome do pedagogo que o batizara. E o Enem sobreviveu à invasão solitária do policial federal na elaboração secreta da prova. Como a intelligentsia socialista manteve as superstições de cátedras intactas após a invasão do câmpus da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo pelos meganhas comandados pelo coronel reformado do Exército Erasmo Dias, em 1977.

Marx, o papa do “socialismo científico”, não compareceu na prova a que o menor número de inscritos desde 2005 foi submetido. Mas seu arrimo de família e sócio minoritário, Friedrich Engels, manteve acesa a luta de classes num quesito esquisito retirado de sua insignificante obra A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Esse texto, obsoleto há 176 anos, desde a publicação, desmoraliza os autores da prova, que podiam ter tratado do desemprego do operariado brasileiro a olho nu na calçada de casa. E também os fracassados interventores Jair Bolsonaro, Milton Ribeiro e Danilo Dupas, vítimas da própria ignorância. Eles na certa conhecem Chico Buarque e Henfil, mas dificilmente terão lido Admirável Mundo Novo, do britânico Aldous Huxley, parodiado em canção pelo sertanejo Zé Ramalho, sucesso na trilha sonora de O Rei do Gado, telenovela de Benedito Ruy Barbosa. Dificilmente terão compreendido que o título da canção, que troca mundo por gado, ironiza a alcunha pejorativa de fanáticos bolsonaristas.

Neste momento em que crianças desmaiam de fome nas classes, desafiando sua exclusão da instrução pela desnutrição, a esquerda resistente e a direita demolidora associam-se na manutenção desumana do elitismo impiedoso que expulsa os pobres da escola e a pandemia do exame escolar. São cúmplices da inanição letal e da repartição da ignorância, único bem repartido na república dos desiguais.

O Bicentenário do blá-blá-blá

O capitão não quer que se trate o 31 de março de 1964 como golpe militar. Prefere falar em revolução. O senador Paulo Paim (PT-RS) quer colocar o nome do marinheiro João Cândido no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria pelo seu papel na Revolta da Chibata, de 1910, mas os comandantes da Marinha objetam. Argumentam que nada justifica uma insurreição.

Os intolerantes de 2021 militam em conflitos do passado, expondo a má qualidade do debate em torno da bela História do Brasil. Até aí, tudo não passaria de um exercício de autoritarismo em torno da memória, mas vai-se aos fatos e se vê que, só na semana passada, a Secretaria de Cultura anunciou a criação de uma linha de crédito de R$ 600 milhões para as comemorações do Bicentenário da Independência. Desde julho, o cineasta Josias Teófilo vinha reclamando dessa inação. Afinal, sabia-se há 199 anos que, no dia 7 de setembro do ano que vem, o Brasil comemoraria seus dois séculos de existência.


Quem quiser chamar o 31 de março de 1964 de golpe, que chame. Quem quiser homenagear João Cândido, que o homenageie. A objeção dos comandantes da Marinha pode ser legítima, mas falta explicar por que se deu o nome do almirante Saldanha da Gama ao lindo navio-escola da Força. Saldanha insurgiu-se contra o governo de Floriano Peixoto, aderiu à Revolta Federalista do Rio Grande do Sul e foi degolado num combate, em 1895. Se os almirantes não tivessem se rebelado contra Floriano, talvez ele não tivesse convocado eleições. Se os marujos de João Cândido não tivessem se rebelado, a chibata não teria sido abolida em 1910.

O Brasil já viveu tempos de tolerância. Em 1860, quando Dom Pedro II viajava pelo Nordeste, os fofoqueiros do Paço contaram-lhe que o almirante Marques Lisboa, comandante do barco que o conduzia, descera na localidade de Tamandaré para visitar o túmulo de seu irmão que morrera combatendo o governo de Pedro I. Pior, queria transladar seus restos para o Rio. O imperador tratou do caso e decidiu dar-lhe o título de barão de Tamandaré. Vinte e nove anos depois, quando um golpe militar destronou e desterrou Dom Pedro II, o então marquês de Tamandaré, que ficara no Paço durante todo o dia 15 de novembro, ajudou a claudicante imperatriz a embarcar.

O que diferencia a intolerância de hoje das outras, passadas, é a laborfobia. O radical quer radicalizar, mas trabalhar que é bom, nada. O Bicentenário vem aí e, pelo que se vê, o governo nada fez. Em 1922, o presidente Epitácio Pessoa celebrou a data com muitas iniciativas, inclusive uma exposição internacional. Em 1972, o general Emílio Médici patrocinou uma patriotada com os restos de Dom Pedro I, mas tomou algumas iniciativas culturalmente relevantes. Agora, de Brasília, só vem silêncio.

Pena, porque o governador João Doria há tempo prepara a reinauguração, em grande estilo, do Museu do Ipiranga. Em setembro de 2022, em plena campanha eleitoral, Doria terá o que mostrar, e Brasília ficará chupando o dedo, repetindo que em 31 de março de 1964 houve uma revolução. Ela cassou o mandato de deputado do pai do governador, que havia batalhado na CPI com seu colega Rubens Paiva, que investigava a corrupção eleitoral do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, cujo guru deixou o Brasil e morreu muito tempo depois, nos Estados Unidos. Rubens Paiva foi assassinado no DOI do Rio de Janeiro.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Pensamento do Dia

 


A cara da destruição

Nenhum brasileiro será capaz de esquecer o grande equivoco de 2018. Depois da ditadura militar, instaurada pós golpe de 64, temos vivido, sem dúvida, os piores momentos de nossa história. Agravados pelos descalabros provocados pela pandemia do Covid, mortes e sofrimentos evitáveis, não fosse o descaso visceral desse governo.

Nem os bolsonaristas mais radicais escaparão às más lembranças da gasolina a quase oito reais, botijão de gás a 120, comércio quebrando, desemprego nas alturas, fome e miséria se espalhando sem dó nem piedade pelas ruas das grandes e pequenas cidades.

Como esquecer?

Está ai, em pleno século XXI, a tragédia que se abate sobre o povo yanomami. Sem remédio para a malária, o único mal comprovadamente combatido pela cloroquina, os índios estão padecendo da doença, fome e desassistência. Velhos e crianças morrendo por inanição do governo.

Como não enxergar o desmatamento em série, boiadas pisoteando as florestas? Impossível não lembrar dos desvios morais e éticos da Fundação Palmares, e de seu presidente racista, fascista, inumano. Lancinante observar as tentativas de esfacelamento da cultura e da educação do País.

Isso sim tem a cara do Governo. Incontáveis infortúnios.

Bolsonaro tem a face da destruição, da ruína. A sua cara, sim, como ele pediu, é a do Enem que não trouxe uma palavra sobre pandemia ou fome. Aplicada nesse domingo, Covid 19 não existiu para os estudantes. Como inserir um tema que não preocupou o governo? Ah.. trouxe Chico Buarque, Raul Seixas, gado marcado, e cinco questões sobre escravidão e racismo. Não basta.

A crise no Enem e a exoneração de 37 servidores são fatos. A interferência do governo nas questões é inquestionável. Está proibida a palavra ditadura, e golpe deve ser substituido por “revolução”. Sim, essa é a cara de Bolsonaro. Cara da história distorcida, contada pelo avesso.

Ainda falta um ano e 38 dias para nos livrarmos dessa sarna. Mas a esta altura, em 2022, já teremos um novo presidente.

Dura missão de resgatar nossa dignidade. Quem sabe recuperar nossa alegria e o famigerado orgulho de ser brasileiro? Num País dilacerado pelo ódio, alforriar nossas almas já será um grande avanço. Com a cara da esperança, depois do flagelo.
Mirian Guaraciaba

Brasil é a democracia com mais aspectos em declínio do mundo

O Brasil é a democracia que registrou piora no maior número de fatores que medem a qualidade do regime democrático nos último cinco anos. Foram retrocessos em oito aspectos, entre eles liberdades civis, independência do Judiciário, integridade da imprensa e liberdade de expressão.

Os dados estão em relatório divulgado nesta segunda-feira pelo Instituto para a Democracia e Assistência Eleitoral (IDEA, na sigla em inglês), sediado em Copenhague. O IDEA é uma organização intergovernamental apoiada por 34 países e dedicada ao estudo e à avaliação da democracia. O relatório se baseia no acompanhamento de 16 fatores relacionados ao funcionamento adequado de regimes democráticos.

Segundo os pesquisadores do IDEA, o Brasil teve melhoria consistente de seus indicadores nas décadas de 1990 e “sobretudo” na de 2000, tendência que começou a apresentar sinais de desgaste em 2013, quando houve as Jornadas de Junho, e entrou em queda em 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff. O relatório afirma que a piora dos indicadores foi “exacerbada” com a posse de Jair Bolsonaro, em 2019.


O documento dá destaque a iniciativas e declarações de Bolsonaro que questionaram o sistema eletrônico de votação e a atuação do Supremo Tribunal Federal. O relatório diz que o presidente “testou explicitamente as instituições democráticas brasileiras, acusando ministros do Tribunal Superior Eleitoral de se prepararem para conduzir atividades fraudulentas relacionadas às eleições de 2022 e atacando a mídia“.

O IDEA registra ainda que o presidente “alegou que as eleições poderiam ser canceladas a menos que ele fosse alterado” e “declarou que não iria obedecer determinações do Supremo Tribunal Federal, que conduz um inquérito contra ele por espalhar notícias falsas sobre o sistema eleitoral no país.”

O relatório informa que o Brasil foi um dos quatro países monitorados que teve declínio na qualidade do controle do seu governo, um dos quesitos importantes para o bom funcionamento de democracias, que reúne os fatores “efetividade do Parlamento”, “independência do Judiciário” e “integridade da imprensa”. Além do Brasil, tiveram piora nesse quesito a Polônia, o Benin e o Iêmen.

O texto ressalta que diversos fatores democráticos do Brasil ainda estão em nível superior ao da média da América Latina, devido aos esforços do país para consolidar sua democracia nas décadas passadas. “Seu bom desempenho anterior torna possível que a qualidade democrática do país se reduza sem que ele perca seu status de democracia. Isso demonstra, por um lado, que a democracia brasileira, apesar de ter sofrido anos de retrocesso democrático e queda acentuada em seus indicadores, é resiliente em muitos aspectos, o que é essencial para a reversão do processo atual”, afirma o texto.

O relatório também aponta melhoria em alguns aspectos, especialmente em termos de inovações democráticas no Brasil, e cita como exemplo a criação de observatórios para monitorar as compras e ações do governo relacionadas ao enfrentamento da pandemia de covid-19.

O processo de erosão democrática enfrentada pelo Brasil é compartilhado por diversas outras nações, em meio ao aumento da desigualdade, da crise de representação partidária e da difusão de notícias falsas em redes sociais.

Desde 1975, quando o IDEA começou a monitorar esses fatores, a década passada foi a que teve o maior de número de países sofrendo deterioração democrática, e a lista de países inclui potências geopolíticas e econômicas como os Estados Unidos e a Índia.

Em 2020, pela segunda vez em vinte anos, o número de países que registrou declínio da qualidade de sua democracia foi maior do que os que registraram melhora.

Um dos aspectos do declínio democrático é o questionamento cada vez maior da lisura de processos eleitorais. As acusações infundadas do então presidente dos Estados Unidos Donald Trump de que as eleições americanas de 2020 teriam sido fraudadas influenciou comportamentos semelhantes em líderes do Brasil, México, Mianmar e Peru, entre outros países, segundo o relatório.

Na União Europeia (UE), três países-membros registraram declínio na qualidade da sua democracia em 2020: a Hungria, comandada pelo primeiro-ministro ultranacionalista Viktor Orbán, a Polônia, governada pelo partido populista Lei e Justiça, que está contestando princípios básicos da UE, e a Eslovênia, cujo primeiro-ministro Janez Janša tem tendências crescentemente autocráticas.

Desde 2015, cinco países perderam o status de democracia, segundo o IDEA: Benin, Costa do Marfim, Honduras, Sérvia e Turquia.

A entidade afirma que “os últimos dois anos desde nosso último relatório não foram bons para a democracia” e que as conquistas alcançadas quando a democracia tornou-se o regime de governança predominante no mundo “agora estão em uma situação precária como nunca antes”. “Esta é a hora para as democracias serem ousadas, inovarem e se revitalizarem”, disse o secretário-geral do IDEA, Kevin Casas-Zamora, em um comunicado.

A imagem do Brasil

Desde os governos militares, os presidentes brasileiros demonstram preocupação com a imagem do Brasil no exterior. Comunicados oficiais alertavam que os inimigos da pátria trabalhavam para prejudicar ou manchar a maneira como estrangeiros enxergavam o país.

Naquela época, os diplomatas brasileiros no exterior mudavam de calçada para evitar encontrar brasileiros no exílio.

Os governos militares, de fato, não tinham grande prestígio nos países europeus, por causa da restrição aos direitos civis, censura à imprensa e tortura de presos políticos. Nos Estados Unidos, a questão era outra: a enorme dívida externa.

O ministro Delfim Netto certa vez disse que dívida não se paga. Ela deve ser rolada. Assim foi feito. O governo brasileiro enviou diversas cartas ao Fundo Monetário Internacional aceitando as exigências de bom comportamento fiscal.

Não cumpriu a maioria delas, até que teve de renegociar com os credores, depois de o país ter entrado em situação falimentar. O Banco do Brasil ficou sem recursos no exterior. O crédito interbancário secou. A negociação com os credores se tornou urgente. E ocorreu de maneira correta.


Hoje o país não tem mais a dívida externa, em compensação possui enorme dívida interna, o que coloca os bancos nacionais em berço esplêndido. Eles têm um único grande cliente que paga as maiores taxas de juro do mundo. É doce ser banqueiro no Brasil.


O governo brasileiro não dispõe dos recursos necessários para financiar o desenvolvimento nacional. É preciso construir estradas, hospitais, escolas, universidades, financiar pesquisas. Por essa razão, os ministros se lançam em viagens pelos principais centros financeiros do mundo, em busca de investidores, que costumam exigir ambiente de paz, confiança, respeito aos contratos e aos pagamentos acertados.

A imagem do Brasil no exterior é requisito essencial para atingir estes objetivos. Quando foi eleito, no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves enviou seu fiel assessor Francisco Dornelles aos centros financeiros internacionais para garantir que o Brasil pagaria os juros da dívida externa.

Em seguida, Tancredo fez uma longa viagem à Europa e aos Estados Unidos. Falou de redemocratização, respeito aos direitos civis e garantia das liberdades, além da convocação da Assembleia Constituinte.

Fernando Collor, após ser eleito, também fez um longo giro pelo mundo, passando por países europeus, depois Japão, Rússia e Estados Unidos.

Fernando Henrique é um scholar, deu aulas no exterior, um homem do mundo. Não hesitou em viajar diversas vezes ao estrangeiro para exibir sua erudição. Ganhou a amizade do ex-presidente Bill Clinton. Passou temporadas em Camp David, casa de campo do primeiro mandatário norte-americano.

Quando presidente, Lula viajou muito ao exterior. Ele coordenou ações, na Europa, com os partidos socialistas democráticos, além de aglutinar a esquerda latino-americana com seu apoio a Cuba, Nicarágua e Venezuela. Lula, hoje, não anda pelas ruas do Brasil. Ele é questionado por atos de corrupção em seu governo, os quais culminaram com a prisão dele, em Curitiba, e de diversos auxiliares, inclusive do então todo poderoso Antônio Palocci, que se transformou em delator. Por intermédio de uma série de manobras jurídicas, foi libertado, mas não absolvido das acusações.

No exterior, ele caminha com desembaraço. Proferiu discurso impactante, em nível de estadista, diante do parlamento europeu. Aplaudido de pé. Falou em universidade em Paris, foi recebido com honras de chefe de estado por Emmanuel Macron, na França. Conversou com Olaf Scholz, possível sucessor de Angela Merkel, na Alemanha, e com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sanchez. Lula faz no exterior o que não faz no Brasil.

Bolsonaro, por sua vez, respondeu com um périplo pelos países árabes, em busca dos petrodólares. No exterior, o chefe do governo trata de assuntos internos. Fala do conteúdo das provas do Enem e comunica o adiamento de seu possível casamento com o PL, presidido por Valdemar Costa Neto, condenado a sete anos de prisão por corrupção.

No exterior, os presidentes brasileiros discutem assuntos internos com mais facilidade. A repercussão interna é garantida. Aos estrangeiros, como no caso dos árabes, agora, resta assistir sem entender ao que faz o presidente naquelas plagas com enorme comitiva.

Lula quer chegar ao Brasil envolto pela boa vontade dos principais líderes europeus. Bolsonaro pode dizer que foi buscar investimentos nos povos do deserto. Mas nem um nem outro, neste momento, têm condições de andar pelas ruas do país sem um poderoso séquito de seguranças.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

E no país dos cheques...

 


Blearghh! em uníssono

Leitores escreveram apoiando uma onomatopeia que usei outro dia (29/10) ao descrever a sensação de asco diante de alguma nova agressão de Jair Bolsonaro ao Brasil. A onomatopeia era "Blearghh!", criada por Jaguar no Pasquim dos anos 70 para identificar o som de um vômito. Jaguar, o maior cartunista brasileiro de todos os tempos e a quem devemos uma edição abrangente de sua obra, fez dela a trilha sonora de seu personagem Gastão, o Vomitador, que assim expressava sua reação ao que acontecia no Brasil da ditadura. O Brasil de Bolsonaro obrigaria Gastão a vomitar de hora em hora.

Não sei de onde Jaguar tirou o "Blearghh!", mas é perfeito. Parece inglês, mas dicionários como o "Webster" e o "Cambridge" não o registram. Donde poderia muito bem ser incorporado ao português, e com mais propriedade do que outras interjeições em inglês que estão indevidamente se impondo por aqui. Ninguém mais fala "Epa!" —fala "Oops!". Ninguém exclama "Pô!" ou "Genial!", mas "Uau!", tradução de "Wow!". E ouço dizer que, nas redes sociais, usa-se "Cof! Cof!" —"Cough! Cough!" mal pronunciado— para insinuar tosse no sentido de ironia.

É verdade que os gibis americanos sempre nos impuseram essas coisas. "Brrr!" é sentir frio. "Gulp!" é engolir em seco. "Boo!" é dar um susto. "Bang!" é um tiro ou explosão. "Hmmm..." é pensar, ponderar. "ZZZ" é dormir. Mas a submissão ao colonizador tem limites. Em breve estaremos gritando "Ouch!" [autch] e não "Ai!" a uma martelada no dedo e fazendo "Atchoo!" em vez de "Atchim!" ao espirrar.

Por que soluções com séculos de eficácia comprovada são substituídas por outras piores? O último brasileiro a se manter fiel a "Rá-rá-rá!" ao rir por escrito é o nosso José Simão. O pessoal hoje prefere "Rsrsrsrsrs", que para mim soa como um rosnado, ou cacareja em uníssono escrevendo "Kkkkkkkkkk!".

O uníssono deveria ser reservado ao "Blearghh!" e dirigido a —você sabe.

Amazônia morre diante de nós

Por mais tempo que eu viva, jamais esquecerei o líder indígena Piraima’á, da Aldeia Juriti, falando em tom aflito. “Eles estão matando as árvores, eles estão nos matando.” Foram 745 milhões de árvores que tombaram em um ano para que o número de 13.235 km2 desmatados fosse possível. No governo Bolsonaro foram derrubados um bilhão e novecentos milhões de árvores. Esse é o projeto Bolsonaro. A simbiose entre árvores e gente que eu ouvi do líder indígena, em 2012, explica o Brasil e sua tragédia. O que está ocorrendo não é tolerável. Diante dos nossos olhos Bolsonaro executa o projeto de destruição e morte. Este governo está matando as árvores, ele está nos matando.

Os cálculos de quantas árvores morreram neste ano e neste governo foram feitos por Tasso Azevedo, do MapBiomas. Assim fica mais fácil entender a imensidão da tragédia que vivemos. A informação da alta de 21,9% no desmatamento em um ano foi, além de tudo, ocultada. O mundo viu o ministro do meio ambiente falar manso na COP, como se fosse diferente do seu antecessor e mentor. O presidente voou para as arábias para mentir melhor no meio de ditadores e afirmar que a floresta está intocada.


A Amazônia sangra e morre diante de nossos olhos. E toleramos. Os indígenas têm as suas terras invadidas por garimpeiros que desmatam e contaminam as águas da maior bacia hidrográfica do mundo. E toleramos. O governo mente em nosso nome para o mundo. E toleramos. Dados são escondidos por ministros. E toleramos. Deputados e senadores legalizam o crime dos grileiros, ladrões da terra nossa. E toleramos. As Forças Armadas vão para dentro da floresta, a um alto custo, para combater o desmatamento, e ele cresce. Toleramos.

O projeto de destruição e morte de Jair Bolsonaro se espalha pelo Brasil e fulmina os seres vivos. Diante da pandemia, o presidente trabalhou para espalhar o vírus mortal. Bolsonaro debochou dos mortos e dos doentes. “Maricas”, ele disse. Conspirou contra a vida usando o aparelho do Estado. E toleramos. Políticos corruptos protegem o presidente porque estão na fila para receber o dinheiro dos nossos impostos em nacos do Orçamento através de emendas que legalizam a corrupção.

Para derrubar tanta mata assim em um ano é preciso ser um projeto de governo, ter a cobertura do Congresso em leis que estimulam isso, demolir o aparato estatal de proteção da floresta e dos indígenas, ter a ajuda de um procurador-geral. O Congresso é cúmplice. O Procurador-Geral da República é cúmplice. Os ministros são cúmplices. Os generais são cúmplices. Eles governam o Brasil para o despenhadeiro moral, ambiental, climático e humano.

As empresas pintam de verde as suas propagandas, mas elas estão neste país da morte da floresta. Se são todas sustentáveis, seriam as partes melhores do que o todo? É preciso que se levantem mesmo que seja em defesa de seus próprios negócios contra o governo que nos tira do mundo e transforma o Brasil em criminoso ambiental. Não haverá mercado para os produtos brasileiros. Uso esse argumento porque talvez funcione com o capital brasileiro. A Europa começou na última semana a se fechar para produtos que não estejam livres de desmatamento e degradação da floresta. Os Estados Unidos e a China assinaram um acordo se comprometendo a também seguir o caminho de banir produtos que venham do crime ambiental. O cerco está se fechando, senhores do capital.

As empresas colorem de preto as suas propagandas, fingindo terem em seus quadros de direção pessoas pretas. E não há uma única mulher negra na direção de qualquer empresa grande brasileira. Os homens negros são uma minoria ínfima. Enquanto isso o governo instala dentro do setor público, exatamente no órgão criado para a promoção da maioria discriminada, pessoa capaz de ofender diariamente os pretos e as pretas do Brasil. E toleramos.

A destruição da Amazônia é parte de um projeto muito maior que mata pessoas e sonhos e valores e árvores. Que exclui e regride. A letra da música “Maninha”, de Chico Buarque, tem um verso assim: “Pois hoje só dá erva daninha no chão que ele pisou.” Isso me lembra o atual governo. Meu irmão Cláudio, na ditadura, costumava me consolar cantando essa música. Em outro verso a música diz: “Se lembra do futuro que a gente combinou.” Não podemos esquecer do futuro que a gente combinou, no qual a floresta e seus povos seriam protegidos. Escrevemos isso na Constituição.

Governar

Os garotos da rua resolveram brincar de Governo, escolheram o Presidente e pediram-lhe que governasse para o bem de todos.


– Pois não – aceitou Martim. – Daqui por diante vocês farão meus exercícios escolares e eu assino. Clóvis e mais dois de vocês formarão a minha segurança. Januário será meu Ministro da Fazenda e pagará meu lanche.

– Com que dinheiro? – atalhou Januário.

– Cada um de vocês contribuirá com um cruzeiro por dia para a caixinha do Governo.

– E que é que nós lucramos com isso? – perguntaram em coro.

– Lucram a certeza de que têm um bom Presidente. Eu separo as brigas, distribuo tarefas, trato de igual para igual com os professores. Vocês obedecem, democraticamente.

– Assim não vale. O Presidente deve ser nosso servidor, ou pelo menos saber que todos somos iguais a ele. Queremos vantagens.

– Eu sou o Presidente e não posso ser igual a vocês, que são presididos. Se exigirem coisas de mim, serão multados e perderão o direito de participar da minha comitiva nas festas. Pensam que ser Presidente é moleza? Já estou sentindo como este cargo é cheio de espinhos.

Foi deposto, e dissolvida a República.
Carlos Drummond de Andrade. "Contos Plausíveis"

O governo Bolsonaro é uma fonte constante de más notícias

O governo Bolsonaro é uma fonte constante de más notícias. Se uma vacina contra a Covid-19 é um bem para todos, pois evita o contágio mesmo dos que não acreditam nele, é um contrassenso que se proíba o passaporte sanitário para aprovação de um projeto na Lei Rouanet. Pobres produtores de cultura do país! Além do desgastante conflito com os homens dos serviços de cultura, ainda terão que enfrentar agora os dispositivos tolos que vão impedir que façam o que desejam fazer com seus filmes, livros, poemas, canções, peças de teatro, novelas e tudo mais.

Como escreveu Gregório Duvivier, hoje não é exagerado dizer que o presidente não suporta os brasileiros. Não só ele nos odeia, como tenta acabar com a gente de todas as formas. É como se passasse o tempo pensando em como cortar nossa onda e zerar nosso entusiasmo, até que nos tornemos um núcleo de pensamento domesticado que não lhe dê mais trabalho como fonte de ideias novas. E essa campanha liderada pelo presidente contra a vacinação é simultânea à sua campanha pelo armamento civil. “O vírus pode estar partindo — os fuzis vão ficar”, diz Gregório Duvivier.


O ódio sem motivo evidente e, claro, típico da direita que se espalha pelo mundo, não é mais resultado de ideologia evidente e clara. Há poucos dias, soubemos de mais uma alegre aventura de jovens Talibãs, que mataram três músicos sem religião que tocavam no casamento de um casal de amigos de escola. Do jeito que estão indo essas ideias pelo mundo afora, temo pelo que pode acontecer no Brasil com o fim da pandemia além, espero!, do fim do governo Bolsonaro, outro criador (às vezes inconsciente) de certos mitos do mal.

Eurípedes Alcântara, aqui mesmo no Globo, escreveu que “temer o outro, maximizar os riscos trazidos pelo desconhecido, é parte de nossa natureza”. Por isso têm tanto valor religiões, filosofias e obrigações trazidas pelo convívio em sociedade quando ajudam a superar esse pecado original da espécie, fazendo da colaboração e não da competição, o grande recurso que nos trouxe até aqui como uma mesma gente.

Depois de uma pandemia em que nos afastamos compulsoriamente uns dos outros, durante tanto tempo, a volta será sempre a de uma magna e dolorosa dúvida sobre como trataremos e seremos tratados pelos seres humanos em volta de nós, mesmo aqueles que já foram nossos amigos de fé. Já escrevi aqui, nessa mesma coluna, que os dois sentimentos humanos que mais desenvolvemos, nesse período longe da ciranda humana que sempre nos cercou e nos tirou para dançar durante tempos “normais”, foram a solidão e a solidariedade. Foi a primeira que nos levou à segunda, como única forma decente de sobrevivência.

Faz parte da tradição utópica da humanidade pensar que, sempre que um galo canta, o sol vai se levantar para que o dia nasça. Porém, o mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer o sol nascer; mas em que seu canto anuncia a existência do sol, que ainda está por nascer. A felicidade vai estar sempre no futuro e nós a encontraremos amanhã. Essa é a ideia básica da vida humana, é isso que nos faz ir em frente. O abraço de Bolsonaro ao casal von Storch, que veio da Alemanha para afagá-lo como novo líder de uma nova direita internacional nascente e vagabunda, é um sintoma desse futuro sem garantias.

Gosto de ler colunas de jornal com notícias do passado, elas podem nos ajudar a compreender o presente. Na primeira página do Correio da Manhã do dia 12 de agosto de 1937, podia-se ler que os fascistas haviam desfilado em Roma, sob cartazes em que Benito Mussolini, o líder do fascismo, declarava: “Só um povo armado é forte e livre”. O mesmo que Bolsonaro disse em Brasília, quando liberou a importação de armas no país.

A vaca do Brasil

 


Bolsonaro cortou despesa com servidor civil e gastou mais com militar

Jair Bolsonaro disse que reajustaria o salário de todos servidores federais. Ministros e governismo em geral disseram que não há dinheiro. Bolsonaro levou invertida até do centrão. Claro: se saísse o aumento, não sobraria nada para financiar emendas parlamentares extras.

Bolsonaro então quer dar aumento pelo menos para militares e policiais federais. Sempre teve mentalidade de vereador das milícias e sindicalista militar.

O gasto federal com salários de servidores civis (na ativa) caiu sob Bolsonaro. Desde o começo de 2020, quanto este governo passou a ter força maior sobre o Orçamento, essa despesa diminuiu 8% em termos reais (descontada a inflação; gasto anualizado), de fato um espanto. A despesa com o pessoal militar na ativa aumentou 5,5%, porém.

A baixa da despesa civil se deve à combinação de redução de quadros com congelamento salarial. Pode até ser que o enxugamento tenha a ver com algum plano de aumento de eficiência, não mero arrocho improvisado (este jornalista não encontrou análise independente que faça balanço do período).

Por que a despesa com o pessoal militar da ativa aumentou? Porque receberam aumento especial de Bolsonaro. Por que não houve enxugamento por outras vias? Cerca de 6 mil militares fazem um extra no governo. Não deve estar faltando gente nas Forças Armadas.

Bolsonaro cumpre partes essenciais de seu programa. Dá dinheiros e boca rica para militares. Faz propaganda da ditadura militar e de torturadores. Quer levar esse revisionismo bárbaro até para provas de vestibular.


Prometeu que ocuparia o governo com os bucaneiros da floresta, sua versão da doutrina militar da "soberania nacional" sobre a Amazônia. Missão cumprida. O país regrediu 15 anos no controle do desmatamento, fora a razia nas instituições de preservação ambiental.

Levou uma década para o país conter parte do bota-abaixo amazônico. Quando Lula da Silva (PT) tomou posse, 2003, iam para o chão 25 mil quilômetros quadrados de floresta por ano. Em 2014, eram 5 mil quilômetros quadrados, ainda um horror, mais que o triplo da área da cidade de São Paulo. Nos últimos 12 meses, se foram 13 mil quilômetros quadrados, outro ano de recorde bolsonarista. De quebra, o governo escondeu os números para Bolsonaro não causar ainda mais revolta na reunião do clima na Escócia.

Isso é coisa de ditadura, como foi coisa de ditadura esconder o número diário de mortes na epidemia por tempo bastante para que não aparecessem no "Jornal Nacional" da Globo, em 2020, ideia dos generais da morte do Planalto e da Saúde. Os meios de comunicação se juntaram e passaram a publicar a estatística, como fazem até hoje.

A educação está sob o comando de obscurantistas e fanáticos que desmontam o ministério e se dedicam a barrar perguntas de vestibular com motivos que parecem os dos censores da ditadura militar. O Ministério Público e o Tribunal de Contas da União enfim vão dar uma olhada nas atrocidades do ministério.

Quando se fala em polícia no governo Bolsonaro, ou se trata de incentivo a motim ou de investigação sobre interferências indevidas. Programa de segurança pública? É um cadáver que Sergio Moro levou consigo quando foi posto para fora do governo. Não nasceu outro.

Os oficiais-generais que ficaram nos quarteis agora se dizem "decepcionados" com Bolsonaro, que não eram bolsonaristas, apesar da esteira que leva generais do Alto Comando do Exército ao Planalto. Agora são moristas.

Sim, este é também um governo do partido militar, na boquinha e na ideologia, sócio do centrão. Os generais ficaram quietos. Tentam sair de fininho da casa que ajudaram a explodir. Levam intactos os aumentos de salário.

Bolsonaro e a extinção da espécie humana

Bolsonaro disse no Oriente Médio que a Amazônia não pega fogo porque é uma floresta úmida. E disse tranquilamente, apesar de tantas evidências colhidas por satélites e depoimentos visuais.

Em vez de repetir que Bolsonaro é cínico e mentiroso, continuo tentando entender como essas barbaridades acontecem.

Quando li “Guerra pela eternidade”, de Benjamin R. Teitelbaum, pensei em articular um roteiro de estudo que pudesse explicar para mim fenômenos como a vitória de Trump e Bolsonaro, para mencionar apenas dois nomes.

A impressão que tenho é que a extrema direita, apesar de ter apenas um milionésimo da capacidade de formulação da esquerda, compartilha com ela, ao que me parece, duas ilusões essenciais: que a História tem um sentido e que há atores predestinados a realizá-la. O sentido e os atores não coincidem, uma vez que uma se dedica a impulsionar o rumo da História; outra, a neutralizar sua trajetória materialista.

Steve Bannon manifestou sua simpatia pelos americanos do interior, como se houvesse nas suas convicções e modo de vida grandes qualidades a valorizar; Olavo de Carvalho, por sua vez, admiração por fervorosos grupos religiosos.</p>
<p>O ex-chanceler Ernesto Araújo defendia abertamente uma espécie de recomeço universal em que os valores espirituais prevalecessem e via em Trump a encarnação do herói que conduziria essa batalha.

Essas ilusões sobre o rumo da História acabaram romantizando o homem comum, marginalizado pela globalização e pela modernidade.

Não vou discutir o sentido da História. Mas a romantização do homem comum, “gente como a gente” que diz besteiras sinceras, é muito perigosa. Acaba confundindo o homem comum com o idiota que diz que a pandemia é uma gripezinha e que a Amazônia não queima porque é úmida.

Recentemente, Ernesto Araújo, numa alusão ao filme “Matrix”, disse que Bolsonaro tomou a pílula azul e se tornou base do Centrão. Tomar a pílula azul significa decidir viver com as ilusões do sistema. O ex-chanceler disse ainda que, nas eleições, a maioria tomou a pílula vermelha, o que significa enxergar a realidade e fazer a grande transformação.

Vermelha, Araújo? Por muito menos, os militares em 1964 mandaram queimar o romance “O vermelho e o negro”, de Stendhal.

Isso serve apenas para confirmar a hipótese que inspirou este texto.

Os que viam em Bolsonaro o líder de uma revolução espiritual que sacudiria as bases do materialismo na verdade não tomaram a pílula vermelha, mas sim um poderoso ácido amarelo, um Califórnia Sunshine, e começam a despertar de sua viagem.

Bolsonaro sempre foi um deputado fisiológico, e seus aliados no mundo religioso são vorazes pastores que, só em Angola, retiraram US$ 120 milhões por ano, transferindo-se para a África do Sul.

Bolsonaro designou um deles para gerir essa fortuna na África do Sul, na condição de diplomata brasileiro. Os sul-africanos simplesmente rejeitaram essa indicação.

Não me agrada criticar sonhadores que vislumbram um futuro luminoso, em que o homem não vai mais explorar o homem. O mesmo vale para aqueles que veem a glória nas tradições do passado, livres das amarras de um materialismo brutal.

Quando muito intensas, essas fantasias produzem aberrações como Kim Jong-un ou Bolsonaro.

É apenas muito preocupante ver tanta gente dançando diante do abismo, no momento em que não perderam o contato com a dura realidade. Lutam, sem grande êxito, não para levar a humanidade a uma dessas visões de paraíso, mas para salvá-la dos próprios erros acumulados.

Os seres humanos sempre foram limitados e não se deram conta dos limites dos próprios recursos naturais. As ilusões que levam idiotas ao poder simplesmente agravam seriamente o perigo real: a extinção de todos nós, sonhadores ou modestos realistas.
Fernando Gabeira

Brasil: a iminência do apocalipse ou a redenção democrática?

Era o segundo governo de Lula. Num almoço de mulheres no Fasano, a dona de uma rede nacional de shopping centers dizia que eles nunca haviam vendido tanto quanto naqueles anos. O governo era criticado pelos seus opositores por favorecer os bancos, e os banqueiros pareciam amar Lula, com quem confraternizavam onde estivessem. A indústria brasileira tinha seu representante na vice-presidência, José Alencar Gomes da Silva, e as federações patronais também pareciam contentes.

Lula não perseguia a mídia, seu governo anunciava, privilegiando os grandes grupos de imprensa, não havia retaliações aos divergentes, como hoje vemos acontecer. Nos governos de Dilma, sequer foi encaminhado ao Congresso o projeto de regulação da mídia, formatado por Franklin Martins ao fim do segundo mandato de Lula, condizente com o que é feito nos países do mundo todo.

Lula é um conciliador por natureza. É altamente considerado pelos chefes de estado do resto do mundo, é admirado, visto como um igual. Semana passada, em Bruxelas, ele mereceu aplausos de pé, longos e sucessivos, em encontro do Parlamente Europeu com lideranças latino americanas. Mereceu recepção de chefe de estado no Elysée, com a marcha da guarda do palácio, e o presidente Macron descendo os degraus para ir busca-lo (e uma hora depois levá-lo) no carro. É bem visto pela mídia internacional, inclusive pelas publicações de economia. Por que esse ódio da mídia corporativa brasileira contra ele? Esse apagamento? Esse silêncio a seu respeito? Por que estavam sendo destinados a ele apenas breves momentos, em canais por assinatura, às altas horas da noite, e quando isso acontecia? E isso só foi revertido no sétimo dia da agenda da viagem de Lula, depois da grande grita nas redes sociais, da indignação, e da chacota feita, comparando a vasta cobertura da visita pelos jornais estrangeiros e a cobertura Zero pela mídia brasileira.

Atribuem a Lula um radicalismo que ele, na prática, nunca demonstrou. Lula não é um radical. Não é comunista. É um liberal, falando francamente. Alguns o identificam como Liberal Periférico. Sua política externa é afinada com as dos demais países. Respeitado por todos. Até George W. Bush gostava dele! Em poucos dias na Europa, foi recebido pelo vencedor das eleições na Alemanha, Olaf Scholz, esteve com o líder da Social Democracia, Martin Schulz, foi aclamado no Parlamento Europeu, elogiado por Zapatero como “o que mais combateu a pobreza”, trocou ideias com o Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, foi recepcionado com batucada brasileira pelos alunos do Instituto SciencesPo, em Paris, onde almoçou com a Prefeita. Depois da França, participa hoje de seminário de Cooperação multilateral e recuperação pós-covid, em Madri, e tem agenda com o primeiro-ministro.

Lula não sai procurando briga, não dá banana e joga a casca no chão, não desanca país dos outros, negocia com todos. Internamente, é bom para o nosso povo, se compadece dos pobres. Não politiza temas sérios, como Saúde, Cultura, Educação. Desenvolveu políticas socais mínimas, sem “exagero”, podia ser muito mais – o Bolsa-Família, como diriam os americanos, eram “peanuts” em nosso orçamento. E mesmo assim suas políticas públicas trouxeram notáveis benefícios sociais e econômicos, foram copiadas em vários países, se tornaram referência.

O saldo de seu Minha Casa Minha Vida foram casas para milhões de brasileiros, e novas grandes fortunas para poucos, como Rubens Menin, dono da MRV Engenharia, proprietário da CNN Brasil, o também mineiro Ricardo Gontijo, dono da Direcional Engenharia, os donos da Construtora Tenda, mineira também, os da Rossi Residencial, alguns desses empresários declarados admiradores de Bolsonaro.

As ditas pautas identitárias, responsabilizadas por parte da rejeição ao PT, foram muito mais de Dilma do que de Lula. Assim como foi o relatório da Comissão da Verdade, que tanto enraiveceu os militares de pijama do Clube Militar.

Lula jamais perseguiu os diferentes, nem exigiu fidelidade ideológica aos que prestam serviços ou vendem serviços ao governo. Muito menos àqueles que recorrem aos financiamentos e incentivos de bancos públicos.

É simplismo achar que essa aversão se deve ao preconceito da burguesia por Lula ter sido um sindicalista, operário, nordestino, de origem muito pobre?


A lenda de que o PT inventou a corrupção no Brasil foi tão repetida que se tornou verdade. Sabemos que os casos de corrupção no Brasil remontam a Pero Vaz de Caminha, quando os portugueses davam espelhinho e recebiam pepitas de ouro. E sabemos que, no ranking da corrupção dos partidos políticos brasileiros, o PT é um dos melhores colocados, isto é, está em penúltimo lugar. Sem esquecer que foi o PT que criou o Portal da Transparência e os mecanismos que permitiram investigações e punições de casos de corrupção. Por que isso é ignorado? Por que as impropriedades, vamos chamar assim, da Lava Jato, de Sergio Moro, do TRF-4 são ignoradas? As delações e provas falsas? Os processos contra Lula, comprovadamente mais ocos do que cheque voador? E ainda a ironia de as notas fiscais das reformas do dito “tríplex do Lula” e do sítio, ambos em São Paulo, serem do comércio de Curitiba…

Sergio Moro se lança como terceira via, fazendo soar as fanfarras de sua fada madrinha, a Globo, com o muito provável respaldo do alto oficialato das Forças Armadas, simpáticas ao ex-juiz sob suspeição e agastadas com Bolsonaro – o embrulho veio muito pior do que a encomenda.

Generais não deverão poupar apoio ao maringaense, até porque nesses casos há acordos de parte a parte. Dos militares, apoio do tipo que Villas Boas deu ao Mito. De Moro, provavelmente, a promessa de não lhes retirar regalias, cargos e rendimentos adquiridos nos últimos anos.

Moro surge na disputa para roubar parte do eleitorado de Bolsonaro, não a fatia dos fanáticos, mas a da burguesia cheirosa, que apertou 17 pela ojeriza ao PT. Todavia, com todo o foguetório global, o “juiz ladrão” (royalties para o deputado Glauber Braga) dificilmente chegará aos dois dígitos no percentual das urnas. E como os generais não são de terceirizar o poder (quando há “clima” para o golpe), quem subiria a rampa seria um deles.

E por que essa eleição de 2022 se reveste de cores dramáticas, como se fosse iminência de um apocalipse ou única possibilidade de redenção democrática para o Brasil?

Porque ainda há, porque nos assombra, a possibilidade de uma reeleição de Bolsonaro. Mesmo que sua popularidade decline, mesmo que ele carregue mais de 600 mil mortes nas costas, mesmo que ele nos submeta a vexames locais, internacionais, interestelares, até. Tudo é tão sem sentido no Brasil de hoje, tão ficcional, que até o impossível é possível. Vide a eleição do completo desconhecido Witzel, no Rio de Janeiro. Que forças subterrâneas se moveram para isso?

A atual polarização direita x esquerda esvaziou o raciocínio político dos brasileiros, tornando simplórias as suas mentes. A razão deu lugar à paixão. Essa radicalização não existia, surgiu a partir de Bolsonaro, fazendo, da escolha política, uma torcida de futebol. Torcem por Bolsonaro, como quem torce pelo Vasco. Ninguém deixa de ser Flamengo porque ele perde um campeonato. Ou dois, ou três, ou 10. A escolha do time “do coração” é um estado de espírito, é aleatória ou é por influência de terceiros. E depois que se decide por ele, esqueçam, porque o torcedor não muda de jeito nenhum.

Daí que os 20 e poucos por cento de fanáticos bolsonaristas não vão mudar de preferência, porque o que está posto não é a ideologia nem a coerência, é a camisa do time. E eles escolheram a da Seleção Brasileira de Futebol!

Não é o projeto de Bolsonaro para o Brasil que conta, porque nem projeto ele tem, jamais apresentou um, sequer isso lhe cobraram. Bolsonaro não precisa cumprir, porque nada prometeu. Nada de bom. Prometeu armar todo mundo, acabar com o horário de verão e retirar os “pardais” do trânsito. Isso ele fez. Declarou que os filhos vinham em primeiro lugar, e que o filet mignon seria pra eles. Isso também tem cumprido ao pé da letra.

Nós nos tornamos um país de ignorantões, liderado por um ignorantão mor. Para quê escolas, se a burrice se tornou padrão? Para quê Enem, se até ele, que é burro, entende mais do que a comissão de mestres? Pra quê verdade, se as fake news são muito mais saborosas? Pra quê livros de História, se livros têm letras demais?

Sabemos das pretensões de Bolsonaro apenas pelas declarações feitas à imprensa nos tempos de deputado. “Se eu fosse presidente da República daria golpe no mesmo dia”. “O Congresso não vale pra nada”. “Sonego tudo que for possível. Se puder não pagar nota fiscal eu não pago, porque o dinheiro vai para o ralo, vai para a sacanagem”. “O voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar quando partirmos para uma guerra civil, fazendo o que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil. Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra, morrem inocentes.”

Podiam ser piores as intenções? Depois da incitação ao uso de armas e da sua liberação, inclusive as de grande porte, em grande quantidade, a última novidade é a aprovação pela Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados de um Projeto de Lei que permite o porte de arma para os praças das Forças Armadas – suboficial, subtenente, sargento, cabo, soldado e marinheiro – representantes de forte extrato de fanatizados pelo Mito. Somem-se a eles os milicianos, os posseiros, os invasores de terras, os garimpeiros ilegais, e agora sabemos que até narcotraficante foragido, o “Grota”, ligado ao PCC, é favorecido pelo Governo Bolsonaro com 18 autorizações para garimpar. Quantos “Grotas” têm merecido favores desse governo? Dezenas? Centenas? Milhares? Quantos chefes de bando? Quantos “Comandos”, facções do crime? Já virou até meme nas redes sociais a quantidade de bandidos, contrabandistas, delinquentes, fraudadores, marginais, ladrões, pilantras flagrados, que, quando conferimos seus perfis nas redes sociais, são bolsonaristas declarados.

Dar um golpe, provocar uma “guerra civil” é declarada obsessão de Bolsonaro, para quem “só Deus” o tira da cadeira. Não é o voto, não são as urnas, não é a preferência da maioria. Só uma força superior. E se não houver nova fakeada? E se ele for obrigado a participar de um debate? E se, mesmo com toda a manipulação dos algoritmos, através das fake News, dos votos de cabresto dos milicianos, das ordens expressas dos padres e pastores aos fiéis ele não consiga ser eleito? E se Lula vencer, como tudo indica? Bolsonaro irá recorrer à “força superior” das armas desse exército de transviados e obcecados, que é de fato dele?

Talvez a saída seja colocar uma imaginária faixa amarela de “interditado”, dividindo a porção do Brasil doente, intoxicado pelo bolsonarismo, da porção do Brasil são, e tocar a vida e a campanha no país real, com propostas verdadeiras e factíveis, com projetos de amanhã. Acreditar que a ordem Democrática pode ser recuperada, as instituições resgatadas, e que o Brasil ainda pode ser reconstruído, sejam seus atuais controladores os milicianos ou o mercado financeiro, o narconegócio ou o agronegócio, a bancada evangélica ou a bancada da bala, os latifundiários grileiros ou as federações patronais com suas pautas anti-trabalhador, a mídia corporativa ou a indústria de fake News, o punitivismo lavajatista de falsos catões ou a esbórnia das malas de dinheiro, os entreguistas de nossa soberania ou os militares impatriotas, o PCC ou o Comando Vermelho.

Vamos colocar nossa energia no candidato de nossas esperanças, conscientes que, mais do que nunca, só sairemos desse impasse em que nos encontramos elegendo um Congresso comprometido com um projeto político que favoreça a Nação brasileira, não apenas as conveniências pessoais, paroquiais, e muito menos os compromissos religiosos obscurantistas de cada um.

O povo brasileiro é aberto e fraterno – a gente até deixou de acreditar nisso. O brasileiro abraça as novidades com ternura e fôlego. Assume agilmente as transformações sociais, tecnológicas, de costumes. O vento renovador que bate leve lá fora, aqui é ventania. Assim, fomos dos primeiros a oficializar as uniões homoafetivas, nosso ensino é aberto e criativo, assim como é a atividade cultural. A contribuição científica brasileira é reconhecida internacionalmente. Nos grupos sociais mais progressistas, caminhamos muito contra o racismo, o machismo, os preconceitos em geral. Nossa capacidade de trabalho é indiscutível.

Todos os dias, aprendemos no manual da sobrevivência. Não vamos mais delegar a uma burguesia preconceituosa, burra, inculta, iletrada até, o leme de nosso futuro. E vamos querer de volta tudo que foi construído pelo povo e vendido na bacia das almas.

sábado, 20 de novembro de 2021

Não me decifraste, devorei-te!

Desde a mais longínqua antiguidade, sempre fomos instados a nos conhecermos – nosce te ipsum, conhece-te a ti mesmo. Mas essa injunção sempre foi dirigida muito mais a indivíduos que à sociedade como um todo.

No mundo atual, pelo menos do ponto de vista econômico, quem quiser conhecer a “totalidade” de um país tem a seu dispor uma quantidade astronômica de informações nos sites do IBGE e do Banco Central, e em entidades internacionais como o Banco Mundial e o FMI. Porém, se pela expressão “totalidade” quisermos designar uma sociedade consciente de si e, em tese, capaz de agir de forma coordenada, precisamos ir além da economia e indagar o que são as elites, nos seus diferentes segmentos. Nesse sentido mais amplo, no Brasil, a responsabilidade de conhecer o todo e suas elites, e de avaliar o quanto estas sabem de si mesmas, cabe basicamente à área de ciências humanas das universidades, cuja qualidade nem sempre corresponde à relevância de tal obrigação.


Abro, aqui, um parêntese para frisar que estou empregando o termo elite no sentido sociológico, sem qualquer conotação com aristocracias com posições fixas na escala social e até mesmo por laços de consanguinidade, como era o caso na Europa durante o século 19. No Brasil atual, o termo elite designa apenas o pequeno número de indivíduos que ocupa os ápices (alta administração, empresariado, etc.) das diversas pirâmides de que é formada a sociedade.

O ponto ressaltado de forma abstrata no parágrafo anterior adquire uma importante relevância prática quando a inconsciência de tais elites diz respeito à aproximação de ameaças gravíssimas, capazes de comprometer o futuro do País por um dilatado período histórico. Peço licença para me referir mais uma vez a um ponto que tenho aqui martelado insistentemente. O Brasil é um exemplo perfeito de país aprisionado no que se tem denominado “armadilha do baixo crescimento”, vale dizer, um país que precisará de muitos anos para duplicar sua renda anual média por habitante, que em nosso caso já é atrozmente medíocre. Se nossa renda atual crescer 3% ao ano – projeção por enquanto delirante –, só conseguiremos duplicá-la num período de quase 25 anos – uma geração inteira. Essa concisa indicação deve ser suficiente para o leitor se dar conta de que estamos num beco quase sem saída, uma vez que o marco institucional de nossa democracia (os Três Poderes) é de uma patética debilidade e não tem, abaixo dele, um universo de elites que o ancore, balize e inspire.

Em 1989, quando vivíamos a intensa expectativa da primeira eleição presidencial direta “após 29 anos”, Amaury de Souza e eu fizemos uma pesquisa com 500 membros da elite, em seus diferentes segmentos. Exploramos extensamente a questão da inflação, à época dominante, dos restos do patrimonialismo, cuja liquidação os entrevistados só podiam conceber por meio de reformas liberais enérgicas, e, em particular, a “dos riscos a que o Brasil estaria exposto se não conseguisse reduzir substancialmente as desigualdades regionais e de renda no prazo de dez anos”. Relembro, aqui, alguns dos resultados da pergunta, levando em conta somente os entrevistados que escolheram a alternativa “muita chance ou quase certeza”: 63% responderam

“um estado crônico de convulsão social” e outros 63% mencionaram a “inviabilização de uma economia de mercado”. É certo que somente 7% – e posso imaginar o alívio dos militares ao constatar quão diminuto era então esse número – preocupavam-se com a “quebra da unidade territorial do País”.

Em 1994, apenas cinco anos após nosso estudo, a Harvard Business School publicou um estudo de notável audácia e grande sucesso, coordenado por Hamish Mcrae, intitulado The World in 2020 – Power, Culture and Prosperity.

A tentativa de antever como seria o mundo 26 anos mais tarde deu ensejo a alguns erros egrégios – inclusive sobre a China, cujo avanço os autores claramente subestimaram – e a alguns acertos dignos de nota. Sobre o Brasil e a Argentina, as 300 páginas do livro fizeram uma única referência, o suficiente para acertarem na mosca. Afirmaram que nós e nuestros vecinos poderíamos usufruir um período de considerável prosperidade, desde que – atenção! – mantivéssemos um nível razoável de estabilidade política, com uma administração pública competente e imune à corrupção. O Brasil, com recursos maiores que os da Argentina, poderia exercer um impacto extraordinário no continente, se, a exemplo da Argentina, conseguisse sustentar uma década de estabilidade, seriedade na máquina pública e corrupção sob controle.

Observem que os autores delinearam um futuro que de fato não se materializou, nem na Argentina nem no Brasil, nos 26 anos decorridos desde a publicação do livro, período por coincidência praticamente igual ao que estimei como necessário para superarmos a nossa “armadilha do baixo crescimento”. Ou seja, é bem possível que mais uma geração viverá patinando no mesmo lugar, ou num lugar bem pior, com mais violência e araçatubas.

O Almirante Negro e os Heróis Nacionais

Não me atrai a consagração de heróis ou heroínas da pátria. O herói de hoje pode ser o vilão de amanhã, haja vista as recentes imagens de monumentos derrubados por manifestantes, revoltados com o brutal assassinato de George Floyd, por um policial branco. Também temo discursos patrióticos emocionados, que procuram um inimigo a ser combatido pelos "filhos" da pátria. A história está repleta de patriotas genocidas e eles ainda estão por aí.

Mas se existe um Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, um campo de disputas deve ser aberto para grupos sociais diversos reivindicarem seus nomes preferidos. Difícil será a unanimidade entre todos, todas e todes.

Mas quem merece o título? E por quê? Posições político-ideológicas, racistas, etnocêntricas, sexistas, religiosas e nacionalistas aparecem nesses momentos em discursos geralmente conflitantes. Daí a importância da democracia na contenção de injustiças.


Em 28 de outubro último, um desses conflitos ocupou o debate que aprovou o PLS n.º 340/2018, na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado. O líder da Revolta da Chibata, João Cândido Felisberto, foi indicado para o Livro de Heróis e Heroínas da Pátria.

Era filho de um ex-escravo e uma escrava, nascido de ventre livre em 1880. Trabalhou na fazenda onde nasceu, perambulou e chegou à Escola de Aprendizes Marinheiros. Formou-se em 1895, logo após oficiais da Marinha comandarem a Revolta da Armada, que destruiu vários prédios e navios da fazenda nacional.

Embora elogiado por superiores, juntou-se a outros marinheiros incomodados com a falta de um projeto coerente e moderno para a Marinha. Faltava educar colegas indisciplinados, aumentar o soldo, punir oficiais violentos e extinguir os castigos corporais, sobretudo a chibata. Daí por diante oficiais passaram a odiá-lo e a persegui-lo até sua morte.

Oficiais se posicionaram contra qualquer lembrança do Almirante Negro, nem sempre de forma "civilizada". Em 1934, o jornalista Aparício Torelly afirmou ter sido sequestrado por "oficiais da Marinha", espancado e largado em lugar remoto. A razão foi publicar matérias enaltecendo a revolta no seu jornal. Caso fossem identificados, aqueles oficiais hoje entrariam na lista dos "Predadores da Liberdade de Imprensa" da organização internacional Repórteres Sem Fronteiras. O almirante Oliveira Bello, anos depois, referiu-se a João Cândido como "criatura imperfeita, por complexos originais [...] individualidade destituída de propriedade e fibras para reagir, lutar e vencer". Perda de tempo, citar outras ações e falas como essas. O certo é que esses oficiais procuravam apagar João Cândido e a Revolta da Chibata da História.

Em 2008, o marinheiro e seus colegas foram anistiados, e um monumento a João Cândido pôde ser instalado em frente a uma base da Marinha no centro histórico do Rio de Janeiro. Mais treze anos se passaram, e o Senado aprovou o PLS n.º 340 de 2018. A Marinha enviou uma nota aos senadores reprovando o Projeto. Argumentou que os marinheiros não haviam esgotado "outras formas de persuasão e convencimento", além de quebrarem a hierarquia e a disciplina militares. Daí, a Marinha não reconhecer "o heroísmo das ações daquele movimento e o [considerar] uma rebelião".

Instituições militares impedem diálogos francos e abertos entre indivíduos de patentes diferentes. Os limites são definidos em regulamentos militares, que ordenam quem inicia e encerra a conversa. Ultrapassar o superior hierárquico pode ser punido por insubordinação.

Havia 22 anos da abolição, em 1910. Muitos oficiais nasceram em casas-grandes ou sobrados com serviçais negros e negras. A formação familiar, os valores e costumes expostos e acionados cotidianamente, e a identidade na cor da pele punham negros e brancos em condições sociais e políticas desiguais.

A cidadania republicana não visou incluir negros e negras no pós-abolição. O recente retrocesso na política de demarcação de territórios quilombolas demonstra que a república não é a mesma para todas as cores.

A cidadania republicana foi racializada para evitar que egressos do cativeiro gozassem dos mesmos espaços de poder que a elite branca e poderosa da época. Impediu marinheiros de votarem, enquanto oficiais militares tornaram-se deputados federais e até presidentes, através do voto ou da bala.

Se havia uma cidadania racializada entre os civis, perseguindo negros com teorias eugênicas, algo ainda mais grave existia na Marinha, na qual milhares de negros ocupavam as patentes mais baixas, não podendo ser oficiais e sendo "corrigidos" por castigos corporais. Um dos revoltosos de 1910 chegou a afirmar que a Marinha parecia uma fazenda de escravos.

João Cândido venceu seus oponentes brancos, tornou-se um Mestre Sala dos Mares nas engenhosas estrofes de João Bosco e Aldir Blanc e tem seu nome cada vez mais lembrado. Vários meninos negros terão mais um herói negro ao lado de Zumbi dos Palmares, caso o projeto de lei seja aprovado na Câmara dos Deputados. Estamos de olho.

O poder e a troça

H
á vários casos de reis que ficaram bobos, mas não há notícia de uma só corte onde o bobo chegasse a rei. É a sua inaptidão para o poder que garante a impunidade do bobo. Quanto mais forte o rei, mais irreverente o bobo. E há uma sutil cumplicidade entre o poder e a troça. Sempre desconfiei das razões de César para ter a seu lado o infeliz cujo único encargo na vida era cochichar ao ouvido do imperador, nos seus momentos de glória, “Não esqueças, és mortal”. Formidável é o reverso do arranjo. Nas suas piores depressões, César tinha este consolo insuperável: pior do que aquele imbecil ao pé de seu ouvido ele nunca seria.

Quanto mais forte o poder, mais impune o bobo. Num sistema que não teme o ridículo o bobo é o homem mais livre e mais inconsequente da corte. Seu único risco ocupacional é o rei não entender a piada. A consciência do império, como o tal que frequentava a orelha de César, é um bobo que subiu na vida. Com pouco mais tempo de serviço chegará a filósofo, um pouquinho mais e se aposenta como oráculo. Cada vez mais longe do poder, portanto. Não foram os sábios epigramas de Hamlet que derrubaram o rei. Que eu me lembre, foi um florete com a ponta envenenada. O que não é piada.

A troça só preocupa o poder bastardo, que tem dúvidas sobre a própria legitimidade. O estado totalitário é uma paródia da monarquia absoluta, e quem denunciar a farsa, denuncia tudo. Nesse caso toda piada tem a ponta envenenada, todo bobo é uma ameaça. O alvo principal da irreverência nunca é o poder, é a reverência em si. Um poder secular que exige respeito religioso está exposto ao ridículo por todos os lados. O rei não está apenas nu, não é nem rei. Não é certo dizer que nenhuma ditadura tem senso de humor. Pelo contrário, têm um senso agudo do ridículo. Entendem todas as piadas. Mil vezes a respeitosa atenção de uma junta de coronéis modernos do que a distraída condescendência das antigas cortes, é o que qualquer bobo lhe dirá, minutos antes de ser fuzilado.

Luis Fernando Verissimo

Quanto custa a pobreza?

A sombria indiferença social de muitos patronos e defensores deste modelo econômico, que arrasta o país para a incerteza e o abismo, justifica as perguntas que se lhes deve fazer. E, também, fazê-las aos cúmplices que, de vários modos, políticos e não políticos, lhes garantem a inacreditável sobrevida. Indiferença que indica a nenhuma preocupação com as vítimas deste subcapitalismo. Vítimas que são potenciais atores de um desenvolvimento econômico e social apenas possível. Aqui a indiferença terá custos históricos muito altos.

Quanto custa um faminto à economia, à sociedade e ao Estado? Não estou falando da ajuda financeira tópica que sequer sacia sua fome. Mas dos desdobramentos da fome e da pobreza nos diferentes âmbitos da realidade por ela afetados.

Quanto custa um desempregado? Um subempregado? Uma pessoa em situação de rua, um desesperançado? Um ser humano indevidamente doente porque não teve os meios para alimentar-se corretamente e evitar doenças e deficiências evitáveis que têm preço a curto e a longo prazo? Quanto custa à economia e à sociedade um doente cuja doença por muito menos poderia ter sido prevenida? Quanto custa à economia e à sociedade o barateamento dos custos do que não pode nem deve ser barato? Por que não poupar no que é desnecessariamente caro para aplicar na vida que é cara mas necessária?


Nesta sociedade tudo tem preço, mesmo o ar expirado dos sem-máscara que pode matar outros. Todos pagamos por esse crime, o da ignorância prepotente. Quanto custa ao país a irresponsabilidade dos que violam as medidas de segurança de todos e, ignorantes, proclamam o que não sabem, a ciência que não conhecem, a medicina que subestimam? Quanto custa ao país e a todos a “medicina” do palpite tolo? Quanto custa à sociedade e à própria economia a vida daqueles em cuja formação a sociedade investiu muito, da amamentação à educação, e que sucumbem quando poderiam ter sobrevivido para devolver ao país o que custaram? Quanto custa ao sistema econômico um morto inadimplente?

Quanto custa a agonia dos que padecem as insuficiências sociais do Estado irresponsável? Quanto custa à sociedade, às famílias e até ao Estado a morte dos que morrem antes do tempo? Quanto custa à condição humana a politicagem matadora? Quanto de subdesenvolvimento econômico é devido aos excessos e desperdícios da política do poder pelo poder, do lucro pelo lucro?

Quanto custam os problemas sociais da subvida na pseudo-habitação que se espalha pelas grandes cidades? Quanto de futuro do país e da sociedade inteira custa o modo de vida de milhões de pessoas que vivem à margem dos padrões normais e civilizados porque carecem dos meios para viver como os demais?

Quanto custa viver sem esperança na ausência de meios para tê-la? Pois é preciso ter ao menos a certeza de um dia de amanhã para ter esperança. No Brasil, não há, para milhões de pessoas, nem mesmo a certeza do dia de hoje. Amanhecer sem o café fumegando na caneca de lata. Sem o pão bíblico da primeira refeição, mesmo que seja o pão duro catado no lixo, o pão que restou do excesso de boca dos que têm mais do nela cabe.

Quanto custa ao país o Estado omisso e perdulário, em relação a essas questões? Quanto custa a todos nós a mamata dos que dispõem mais do que o necessário para legislar e governar?

Somos o oposto de países cuja economia se organiza com base nos pressupostos civilizados de que a vida e o bem-estar são capitais sociais, são lucro quando não são utilizadas para dar prejuízo lucrativo.

Porque todo desvalimento dessa humanidade tem um preço. Não só pelo prejuízo que ela involuntariamente dá, nos custos que de sua situação injusta e anômala decorrem. Mas pela riqueza que não cria, pelos bens que não compra nem consome, pelo ganho que não gera, porque sem emprego produtivo, sem trabalho.

Quanto custa o subcapitalismo brasileiro ao capitalismo que pode ser e não é? Quanto custam às empresas os empresários que não o são porque orientados por ideologias subcapitalistas lucrativas agora e causadoras de prejuízos definitivos amanhã, do agora sem o depois, do lucro sem compromisso social com o próprio futuro e o futuro da imensa maioria? Quanto?

Quanto custará ao Brasil sem futuro o olhar dos olhos arregalados de espanto e incerteza de crianças acomodadas pelas mães desvalidas sobre restos de jornais nos degraus da catedral de São Paulo em noite de garoa e frio? Dos quais não corre nem mesmo a lágrima invisível do choro para dentro da alma, de crianças que já não sabem como é que se chora? Que desse modo se descobrem personagens de pátria nenhuma, de sonho nenhum, os ninguéns do Brasil de hoje e de amanhã? São filhas do Brasil deitado em berço esplêndido.