domingo, 13 de setembro de 2020

É bom sempre lembrar


Vista dos confins mais distantes do espaço, a Terra não é maior do que uma partícula de poeira. Lembre-se disso a próxima vez que escrever a palavra "humanidade"

Paul Auster, "Viagens no scrptorium"

Pode piorar

Não é preciso entender de economia para saber que o Brasil está empobrecendo. Não importa se espantosos 1,1% foram acrescentados ao PIB; qualquer pessoa de bom senso e com o mínimo de sensibilidade já entendeu que a miséria voltou ao Brasil e que os festejados 1,1% talvez represente apenas outro pequeno aumento do poder aquisitivo dos mais ricos. Na outra ponta da desigualdade crescente, observamos que desde 2019 o número de famílias morando nas ruas subiu muito mais do que o PIB. Não sei se essas famílias entram nas estatísticas que medem o desenvolvimento econômico. Mas a constatação é empírica. Quem passa por essas pessoas a pé, percebe logo que são recém-chegados à vida de sem teto: além do velho colchão e do cobertor surrado, os novos mendigos ainda se apegam a outros objetos domésticos resgatados do despejo, a arremedar uma espécie de lar ao ar livre. Um fogãozinho de quatro bocas, sem botijão de gás ou acompanhado do botijão vazio. Uma pequena estante com livros escolares das crianças que talvez, na nova vida sem teto, não possam mais ir à escola. A tigela de comida dos cachorros, pois todos os moradores de rua possuem ao menos um, muito bem tratado por sinal. Não são pets. São os melhores amigos pulguentos de seus pobres proprietários.


Estes, com frequência pedem ao passante que comprem uma marmita de comida. Tentei, na primeira vez, dar em dinheiro o preço da marmita, mas o rapaz não aceitou: “dona, não adianta eu ter dinheiro. Estou muito sujo, ninguém vai me deixar entrar pra comprar a comida. Compra uma refeição pra mim?”. Demanda irrecusável. A partir desse dia, sempre que alguém se diz com fome – e cada vez mais pessoas passam fome pelas ruas – prefiro comprar uma marmita do que dar uns trocados. Quando me pedem compro um saco de ração também. Me fazem lembrar o lambe-lambe que vi colado num poste perto de casa: “o estômago roncava, mas dividiu a marmita de ovo e arroz com aquele cão sarnento que era a desgraça de sua vida”.

No metrô é proibido dar esmolas – ou seja, é proibida a entrada de pessoas que incomodem os usuários, a pedir dinheiro. A questão, para o metrô, é proteger os pagantes de eventuais constrangimentos durante a viagem. Mesmo assim, pessoas entram em um vagão, contam um pedaço da triste história que as levou àquela condição e pedem ajuda. Na estação seguinte descem correndo e vão tentar outro vagão. Eu, apesar de ter sido educada na teologia da libertação durante a adolescência – “não dê um peixe ao homem, ensine-o a pescar” – guardo todas as notas de 2 e 5 reais para não deixar nenhum pedinte de mãos abanando. Para evitar constrangimento, os pagantes que viajam no metrô evitam olhar nos olhos dos pedintes, o que só piora as coisas para eles. Não se trata apenas do dinheiro: o mais doloroso é observar, ou imaginar, a humilhação a que a pessoa se expõe a apresentar sua carência ao respeitável público e se deparar com a indiferença geral. Meu pai, que não seguia nenhuma religião, costumava nos dizer, diante de pedintes: “ele precisa mais que você”. E não acredito que seja preciso abandonar as pessoas ao estado de maior desamparo à espera de que elas se rebelem e “façam a revolução”. Desde Marx já sabemos que o lumpesinato não faz revolução nenhuma. Gastam seu tempo, energia e imaginação na difícil tarefa de sobreviver.

Nas crises do capitalismo, percebemos que milhões de pessoas perdem não só seus empregos, mas sua dignidade. Mesmo que conservem carteira de trabalho, RG e títulos de eleitores, são tratados como restos. Mesmo que eventualmente ainda não vivam nas ruas, já estão sem lugar. A sociedade não precisa deles; o país não precisa deles. Nada valem. A não ser…

…É aí que entra Deus. Nada valem a não ser para Deus. E quanto mais sofredores (isto é o cristianismo católico), mas amados pelo Pai. Ou então: quanto mais dinheiro cederem à igreja para a glória de sua fé (esta é a face empreendedora do calvinismo) mais premiados pelo Pai. Ou ainda, na versão moderna do mesmo calvinismo: quanto mais gigantesca for o templo que o pastor construir com a tua ajuda, mais importante hás de ser aos olhos D’ele. O templo gigantesco e horrendo dos seguidores de Edir Macedo atesta o empenho dos pobres fiéis. Quem sabe o leitor, ou algum companheiro colaborador da Carta Maior, me ajude a acreditar que haja uma saída a vista para essa monstruosa combinação de fanatismo religioso com apologia da violência. Pois foi o governador evangélico do Rio que apregoou o método infalível de se combater a criminalidade: a PM deve atirar, de cima dos helicópteros, “na cabecinha” de supostos bandidos. Para os ladrões, pena de morte. Fora da lei. Os inocentes atingidos serão computados como danos colaterais, inevitáveis em toda luta do bem contra o mal.

Acomodados

É difícil e pode causar indisposição, mas, se for possível ignorar aspectos morais quando se registra o perdão de dívidas concedido pelos deputados a igrejas, percebe-se que o ocorrido nada tem de anormal. Ao contrário: é o jeitão característico da nossa sociedade, acostumada a acomodar interesses setoriais pendurando a conta nos cofres públicos, quer dizer, em quem paga impostos.

As igrejas compõem um desses “interesses setoriais” e constituíram-se nas últimas quatro décadas num lucrativo negócio graças a uma profunda transformação cultural (associada à perda de valores tradicionais e ao recuo da Igreja Católica, mas este não é o objeto deste texto). Desenvolveram-se também como importantes fatores da política, não apenas pela capilaridade (base de seu poder econômico), mas, principalmente, por terem se tornado muito relevantes na “guerra cultural”, que é uma luta política.

É bastante óbvio que o poder político e econômico explica a maior ou menor capacidade de “interesses setoriais” de obter a acomodação que pretendem. Excelente exemplo está no debate sobre a reforma tributária, um verdadeiro tratado antropológico sobre a realidade brasileira, na qual o privado tem predominância sobre o público.

Existe uma espécie de consenso social segundo o qual esse estado de coisas, do ponto de vista moral inclusive, surge como perfeitamente adequado.

A essência desse debate, em meio ao enorme sufoco fiscal, é estabelecer quais interesses setoriais terão de renunciar ao que consideram seus direitos adquiridos.

A desoneração de folhas de pagamento, por exemplo, abrange pelo menos 17 setores ou segmentos da economia, que já consideram essa renúncia como uma espécie de “direito”. O mesmo ocorre com incentivos, proteções, subsídios a juros, manutenção de programas especiais de fomento.

A força política de cada setor interessado criou um equilíbrio na estagnação, pois o resultado geral (entendido como capacidade de expansão da economia do País) acaba sendo medíocre, mas cada um se defende bem no seu pedaço.

Pode-se seguir adiante nesse raciocínio e ampliá-lo para a questão da reforma do Estado via reorganização do funcionalismo público, cujo peso nas contas públicas é célebre. Os “interesses setoriais” nesse caso estão na elite dos servidores do Estado, naquilo que os sociólogos da velha escola chamariam de “estamentos burocráticos” com inigualável peso nas instituições e formidável capacidade de defender o que consideram “seu”.

Não há lideranças capazes no momento de compor todos os interesses ou de fazê-los convergir para qualquer coisa que se possa chamar de “bem comum”.

Não deixa de ser curioso notar que a defesa do perdão das dívidas das igrejas com a União alega que a Receita Federal teria se colocado acima da Constituição e desprezado a imunidade que essas entidades desfrutam quanto ao pagamento de impostos (mas não de contribuições como a previdenciária). Implícita está a noção de que os agentes do Estado brasileiro se comportam de forma autônoma, isto é, eles fazem as leis. Tenham ou não razão em seu pleito (é evidente quem, neste caso, não tem), os representantes das igrejas apenas engrossam um coro muito amplo.

Há mais um paralelo irônico com a mais recente fase da Operação Lava Jato, voltada contra escritórios de advocacia que, segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público, recebiam dinheiro do Sistema S (sustentado por dinheiro público) para “azeitar” decisões em várias instâncias de órgãos de controle e do Judiciário relativas a interesses setoriais. Quando se fala em corrupção sistêmica no Brasil, na verdade está se falando de uma forma de acomodação.

À qual, é triste ter de dizer isso, estamos acostumados.

O fim do mundo era um incêndio

A Hora Final era um filme australiano de ficção científica de 1959, lançado em plena Guerra Fria quando a possibilidade de um conflito atômico entre as grandes potências que afundaria o mundo no inverno nuclear estava bem longe de ser uma fantasia. O filme relata a história de um grupo de sobreviventes abandonados em uma praia após a destruição do planeta pela nuvem radioativa e foi muito citado no ano passado, quando uma onda de incêndios devastadora queimou 11 milhões de hectares na Austrália e matou 33 pessoas. Como em A Hora Final, 4.000 habitantes da cidade costeira de Mallacoota, no Estado de Victoria, acabaram passando o Ano Novo em uma praia, encurralados entre o mar e o fogo.

Fast-food na cidade de Monrovia, na Califórnia, 
Os incêndios da Oceania no ano passado e os atuais da Califórnia e do Oregon têm muitos pontos em comum. Aparecem os mesmos céus vermelhos e o odor de fumaça, a penumbra apocalíptica ao meio-dia em cidades como San Francisco e Sidney. Alguns incêndios, além disso, são muito grandes e poderosos para ser apagados não importa a quantidade de bombeiros e meios aéreos mobilizados. As altas temperaturas também foram determinantes nos dois casos: Los Angeles ficou uma semana rondando os 50 graus, enquanto em 17 de agosto o Vale da Morte, entre Califórnia e Nevada, chegou à que certamente é a temperatura mais alta já registrada na Terra: 54,4 graus.

O jornalista norte-americano David Wallace-Wells descreveu esse tipo de incêndio em seu recente livro "A terra inabitável: Uma história do futuro". Sua tese é que os desastres provocados pelo aquecimento global não pertencem ao futuro, já estão acontecendo. A Califórnia, o Oregon e a Austrália demonstram que tem razão. “Os incêndios estão entre os melhores e mais horríveis propagandistas da mudança climática: apavorantes e imediatos, não importa o quão distante você viva de uma região, causam cicatrizes que são lidas como presságios de futuros pesadelos, ainda que documentem os horrores atuais”, escreveu na revista New York Magazine quando começaram os incêndios na Califórnia.

Naquele Ano Novo, quando milhares de pessoas estavam refugiadas em uma praia, se multiplicavam os casos de pneumonia de origem desconhecida em Wuhan. E se trata de uma trágica coincidência porque todos os cientistas alertam que a pandemia está relacionada ao aumento da pressão humana sobre a natureza, que causa o salto de patógenos entre espécies. O mesmo acontece com os incêndios no Oeste americano e na Austrália: são regiões em que o fogo faz parte da natureza, como regulação estacional da floresta. A pressão demográfica, entretanto, faz com que os seres humanos estejam onde não deveriam e fiquem presos pelo fogo. Os céus avermelhados de San Francisco nos falam de um futuro aterrorizante, mas também de um presente cada vez mais ameaçador.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Governo pega a estrada velha

O Brasil já conhece os passos dessa estrada, sabe que não vai dar em nada. Sabe de cor os desvios, desvãos, delírios que podem levar à ideia de que algum ente governamental possa intervir em formação de preços de supermercados. Não dá para acreditar que o ministro Paulo Guedes não tenha tido força para explicar o básico ao governo Bolsonaro. A notícia de que o Ministério da Justiça notificou os supermercados pela alta dos alimentos seria cômica se não fosse séria. A inflação está baixa, não há uma elevação generalizada do índice. E, mesmo que houvesse, o Brasil sabe há 30 anos que não é por aí.

Na economia nada há de mais obsoleto do que isso que nos assombrou na segunda metade dos anos 1980, a tentativa de controle de preços e a acusação a supermercados. Depois de várias tentativas que sempre deram errado, o Plano Real escolheu um outro caminho, novo e elegante, que enfim derrotou a hiperinflação no Brasil. Houve derrapagens no meio do caminho, como o congelamento da gasolina no governo Dilma e a intervenção na energia. Deu errado. Na sucessão de retrocessos que nos atinge no governo Bolsonaro, só faltava mesmo essa, o Ministério da Justiça dar prazo para supermercado explicar o preço do arroz porque o presidente da República reclamou. Eu até lembraria que o ministro da Economia é liberal, mas isso nem importa a esta altura. Não se trata de incoerência em relação a uma escola econômica. É uma questão de bom senso e saber — palidamente que seja — a história do Brasil.


Então vamos lá voltar à quadra um, porque o terraplanismo atacou agora a economia. Três fatores elevaram os preços dos alimentos: entressafra, auxílio emergencial e exportações puxadas pelo dólar alto e pela demanda chinesa. A execução do benefício teve muitos defeitos, mas quando chegou aos mais pobres fez uma enorme diferença. Imagine uma mulher chefe de família que recebia R$ 190 de Bolsa Família e que de repente recebeu do governo R$ 600 ou até R$ 1.200. O efeito multiplicador foi forte, como expliquei ontem aqui, fenômeno que ouvi bem explicado dentro do próprio governo. Isso é bom, porque atenuou a recessão, mas por outro lado pressionou a demanda de alguns produtos. Alimentos e material de construção.

Esse fenômeno é temporário porque nos últimos quatro meses do ano o valor do benefício vai cair. Mesmo assim, a inflação de alimentos em domicílio, que subiu 11,39% em 12 meses, deve continuar pressionada. E alimentos têm mesmo oscilações fortes. A cebola, que subiu 81% nos primeiros sete meses do ano, no oitavo mês caiu 17,81%. Contudo, o índice geral do IPCA continua baixo, chegou a 0,70% o ano. Menos de 1%.

Nesse índice de agosto, a educação foi a âncora, explica o professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio. Houve a concessão de descontos pelas escolas, e o item caiu 3,47%. Se tivesse sido zero, calcula Cunha, a inflação do mês seria de 0,45%, em vez de 0,24%. Os preços continuarão oscilando naturalmente. Não há uma conspiração entre donos de supermercados e arrozeiros. Reduzir a tarifa é uma boa ideia, até porque as barreiras são tão altas que deveriam ter sido reduzidas há mais tempo.

No segundo semestre a sazonalidade da carne é de alta, e além disso está acontecendo com esse e outros produtos uma demanda externa maior, com preço competitivo por causa do dólar alto. Isso torna mais caro o importado. Houve uma queda de 42% na importação de trigo, os preços da farinha até subiram 12%, mas macarrão está com alta zero de preço. Deve ser isso que fez o presidente da associação de supermercados, ao sair da reunião com o presidente Bolsonaro, parafrasear Maria Antonieta. Em vez de “dê-lhes brioches” sugeriu que as pessoas trocassem o arroz por macarrão.

Meses atrás houve quem dissesse que o presidente do Banco Central teria que escrever uma carta para explicar por que não atingiu a meta de inflação. Não por ficar acima, mas porque o risco era de ficar abaixo do piso da meta. Agora o que está acontecendo é uma alta localizada de preços, fácil de entender, e difícil de reverter artificialmente. Qualquer intervenção distorce, como os ruídos dos últimos dias: declarações, reuniões, ameaças e notificações. Quando Jair Bolsonaro dizia nada entender de economia, estava falando sério. Quando disse que entregaria tudo a Paulo Guedes, não estava falando sério.

Acomodados

É difícil e pode causar indisposição, mas, se for possível ignorar aspectos morais quando se registra o perdão de dívidas concedido pelos deputados a igrejas, percebe-se que o ocorrido nada tem de anormal. Ao contrário: é o jeitão característico da nossa sociedade, acostumada a acomodar interesses setoriais pendurando a conta nos cofres públicos, quer dizer, em quem paga impostos.

As igrejas compõem um desses “interesses setoriais” e constituíram-se nas últimas quatro décadas num lucrativo negócio graças a uma profunda transformação cultural (associada à perda de valores tradicionais e ao recuo da Igreja Católica, mas este não é o objeto deste texto). Desenvolveram-se também como importantes fatores da política, não apenas pela capilaridade (base de seu poder econômico), mas, principalmente, por terem se tornado muito relevantes na “guerra cultural”, que é uma luta política.

É bastante óbvio que o poder político e econômico explica a maior ou menor capacidade de “interesses setoriais” de obter a acomodação que pretendem. Excelente exemplo está no debate sobre a reforma tributária, um verdadeiro tratado antropológico sobre a realidade brasileira, na qual o privado tem predominância sobre o público. Existe uma espécie de consenso social segundo o qual esse estado de coisas, do ponto de vista moral inclusive, surge como perfeitamente adequado.



A essência desse debate, em meio ao enorme sufoco fiscal, é estabelecer quais interesses setoriais terão de renunciar ao que consideram seus direitos adquiridos. A desoneração de folhas de pagamento, por exemplo, abrange pelo menos 17 setores ou segmentos da economia, que já consideram essa renúncia como uma espécie de “direito”. O mesmo ocorre com incentivos, proteções, subsídios a juros, manutenção de programas especiais de fomento. A força política de cada setor interessado criou um equilíbrio na estagnação, pois o resultado geral (entendido como capacidade de expansão da economia do País) acaba sendo medíocre, mas cada um se defende bem no seu pedaço.

Pode-se seguir adiante nesse raciocínio e ampliá-lo para a questão da reforma do Estado via reorganização do funcionalismo público, cujo peso nas contas públicas é célebre. Os “interesses setoriais” nesse caso estão na elite dos servidores do Estado, naquilo que os sociólogos da velha escola chamariam de “estamentos burocráticos” com inigualável peso nas instituições e formidável capacidade de defender o que consideram “seu”. Não há lideranças capazes no momento de compor todos os interesses ou de fazê-los convergir para qualquer coisa que se possa chamar de “bem comum”.

Não deixa de ser curioso notar que a defesa do perdão das dívidas das igrejas com a União alega que a Receita Federal teria se colocado acima da Constituição e desprezado a imunidade que essas entidades desfrutam quanto ao pagamento de impostos (mas não de contribuições como a previdenciária). Implícita está a noção de que os agentes do Estado brasileiro se comportam de forma autônoma, isto é, eles fazem as leis. Tenham ou não razão em seu pleito (é evidente quem, neste caso, não tem), os representantes das igrejas apenas engrossam um coro muito amplo.

Há mais um paralelo irônico com a mais recente fase da Operação Lava Jato, voltada contra escritórios de advocacia que, segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público, recebiam dinheiro do Sistema S (sustentado por dinheiro público) para “azeitar” decisões em várias instâncias de órgãos de controle e do Judiciário relativas a interesses setoriais. Quando se fala em corrupção sistêmica no Brasil, na verdade está se falando de uma forma de acomodação.

À qual, é triste ter de dizer isso, estamos acostumados.

Sofrimento do povo vira piada

Uma porção de gente comprando porque o dinheiro que o governo injetou na economia foi muito acima daquilo que as pessoas estavam acostumadas. Tanto que está tendo grande compra de alimentos e material de construção. Então, as pessoas estão se alimentando melhor e estão melhorando as suas casas

Hamilton Mourão, general vice-presidente 

O sequestro do Brasil

O Brasil continua refém de uma disputa retórica entre o ruim e o pior, que nada tem a ver com a construção de um país democrático e moderno. O presidente Jair Bolsonaro e seu antípoda, o petista Lula da Silva, aproveitaram o Dia da Independência para terçar as conhecidas armas do autoritarismo e do atraso, reiterando a miséria ideológica produzida pelo lulopetismo e pelo bolsonarismo.

“No momento em que celebramos essa data tão especial, reitero, como presidente da República, meu amor à Pátria e meu compromisso com a Constituição e com a preservação da soberania, democracia e liberdade”, discursou Bolsonaro em rede de rádio e TV. Ora, o respeito à Constituição e à democracia é obrigação precípua de todas as autoridades do País, aliás de todo e qualquer brasileiro, e não deveria ser necessário o presidente da República vir a público para confirmar sua disposição de cumpri-la. No caso de Bolsonaro, contudo, é mais que necessário, pois seu histórico de ataques às instituições republicanas, de apoio a movimentos golpistas e de agressão sistemática ao decoro indica profundo desrespeito à Constituição e à democracia.

Assim, o anunciado compromisso de Bolsonaro com a democracia e a Constituição foi bem recebido em parte do meio político – seria mais uma prova de sua disposição de abandonar a truculência que lhe é característica. Mas, como tudo no bolsonarismo, um movimento de natureza intrinsecamente autoritária, as palavras “democracia” e “liberdade” ganham significado bastante diverso daquele consagrado no léxico democrático.



No discurso, Bolsonaro disse que “o sangue dos brasileiros sempre foi derramado por liberdade”. Citou, como exemplos desse heroísmo, a Guerra do Paraguai, a ação da FEB na 2.ª Guerra e, pasme o leitor, o golpe militar de 1964. Ou seja, o presidente equiparou a mobilização militar do País contra inimigos externos à instalação de um regime de força no Brasil para combater inimigos internos – a “sombra do comunismo”, em suas palavras. Isso é o bolsonarismo em seu estado puro: a “liberdade” e a “democracia” que o presidente diz defender são restritas aos brasileiros que andam na linha – os demais, como Bolsonaro mesmo já disse em outros tempos, deveriam ser “fuzilados”.

Enquanto isso, o chefão petista Lula da Silva gravou um pronunciamento em que tratou de relembrar aos brasileiros por que razão o PT foi varrido do poder. A título de denunciar o descaso de Bolsonaro a respeito da pandemia, o ex-presidente recitou todo o abecedário do subdesenvolvimentismo militante. Criticou, por exemplo, a determinação de “pagar juros ao sistema financeiro” com o lucro cambial do Banco Central, dizendo que esses recursos “poderiam estar sendo usados para salvar vidas” na pandemia. Essa afirmação, em si falsa, apenas reitera a rançosa hostilidade esquerdista aos investidores que financiam o governo. Na mesma toada, criticou o teto de gastos, “que deixa o Estado brasileiro de joelhos diante do capital financeiro nacional e internacional”.

Como se fosse líder de chapa estudantil, Lula também atacou o acordo para o uso norte-americano da Base de Alcântara, visto pelo petista como “submissão do Brasil aos interesses militares de Washington”.

Além disso, Lula atacou o “furor privatista” de Bolsonaro, algo que nem os próprios funcionários do governo estão vendo – alguns inclusive pediram demissão recentemente, frustrados com a lentidão do prometido processo de venda de estatais.

Por fim, acusou uma aliança das “forças conservadoras do Brasil” com “interesses de outras potências” para sabotar “os avanços que fizemos”. Até sua prisão Lula atribuiu a uma “criminosa colaboração secreta de organismos de inteligência norte-americanos”.

Enquanto estiver cativo do duelo anacrônico entre lulopetismo e bolsonarismo, repleto de inimigos ocultos, conspirações e imposturas, o Brasil terá enorme dificuldade de identificar seus reais problemas e de arregimentar forças para enfrentá-los. O futuro do País depende da superação, o quanto antes, desse ruinoso embate.

Pensamento do Dia

 


Supermercados alemães pedem que Berlim pressione Bolsonaro


Duas das maiores cadeias de supermercados da Alemanha, Edeka e Lidl, manifestaram preocupação com o desmatamento no Brasil e pediram que o governo alemão pressione o governo do presidente Jair Bolsonaro a conter a devastação ambiental.

"Tendo em vista o aumento da demanda global por soja e os desenvolvimentos na região amazônica, compartilhamos suas preocupações", diz uma carta da Lidl enviada à eurodeputada alemã Anna Cavazzini, uma crítica ferrenha da política ambiental de Bolsonaro.

"A rede Edeka está observando os acontecimentos no Brasil com grande preocupação", diz a outra rede, também em carta enviada à eurodeputada.

No documento, a Edeka também afirma que pediu que produtores de soja brasileiros se comprometam a atuar para que áreas do Cerrado não sejam destruídas e convertidas em zonas de cultivo.

A Edeka afirmou ainda que, enquanto membro da Federação Alemã do Comércio de Alimentos (BVLH), pediu que o governo da chanceler federal alemã, Angela Merkel, pressionasse o governo Bolsonaro a agir para conter o desmatamento e dar prioridade à proteção florestal.

A rede Lidl também é membro da federação que apresentou o pedido ao governo alemão. "Na nossa visão, o desmatamento não é o único aspecto problemático, mas também o fato de que monoculturas em larga escala e uso intenso de pesticidas empobrece o solo e favorece a erosão", disse o conglomerado.

Ambas as redes ainda afirmaram que estão comprometidas com a adoção de "cadeias de abastecimento sem desmatamento". A Lidl, por sua vez, afirmou que o grupo prefere soja da União Europeia (UE) e incentiva a mudança para um cultivo de soja mais sustentável no Brasil.

De acordo com o jornal alemão Taz, que publicou uma reportagem sobre o posicionamento das duas redes, a declaração dos dois conglomerados pode aumentar a pressão para que o governo alemão reavalie seu rumo em relação ao Brasil.

No mês passado, Merkel acenou retirar seu apoio à retificação do acordo de livre comércio da UE com o Mercosul, referindo-se ao desmatamento da Amazônia. Entretanto, ela ainda não desistiu de modo definitivo do tratado.

Em maio, as principais redes de supermercados do Reino Unido ameaçaram boicotar produtos brasileiros se o Congresso Nacional aprovasse a polêmica lei de regularização fundiária, conhecida a "MP da grilagem", posteriormente convertida em projeto de lei.

A carta aberta tem cerca de 40 signatários, incluindo algumas das redes de supermercados mais importantes do Reino Unido, como Tesco, Sainsbury's, Morrisons e Marks & Spencer, além da rede Burger King, do fundo público de pensões sueco AP7 e de outras empresas de gestão de investimentos.

Deutsche Welle |

Coitadinhos...


Acho um absurdo os salários da alta administração brasileira. Acho que são muito baixos (R$ 39 mil )
Paulo Guedes, ministro da Economia

Verde, amarelo, branco, azul anil

Tivemos um inédito Dia da Independência sem desfiles militares, por causa da pandemia. O presidente Jair Bolsonaro desfilou em carro aberto, cercado de crianças, no velho Rolls-Royce presidencial, comprado pelo presidente Getúlio Vargas em 1952, em si uma atração à parte. A Esquadrilha da Fumaça, como sempre, riscou o céu de Brasília. Estamos a dois anos do Bicentenário da Independência. Quem tiver mais certezas do que dúvidas sobre o futuro estará errado. São tempos de mudanças vertiginosas em meio a grandes adversidades.

Olhando para metade do caminho percorrido, a década de 1920, houve um turbilhão de coisas que deixaram de pernas para o ar a chamada República Velha. O mundo saía da maior carnificina até então ocorrida na História, a I Guerra Mundial. Pode-se dizer que tudo o que ocorreu depois, no século passado, de alguma forma, foi marcado pelo conflito. Há 110 anos, havia uma grande inquietação cultural e artística, além da radicalização ideológica na qual se confrontaram o comunismo e o fascismo, como alternativas à social-democracia e ao liberalismo, respectivamente. A II Guerra Mundial foi quase uma consequência inevitável, cujo grande ensaio no teatro europeu foi a Guerra Civil espanhola.

No Brasil, havia uma profunda crise de identidade; as instituições republicanas, que constituíam um sistema federativo e a nossa democracia representativa, eram contestadas. Dizia-se que eram estruturas artificiais, não se coadunavam com a realidade social e cultural do país. A Semana de Arte Moderna questionaria os padrões culturais tradicionais, impostos por uma elite formada por ex-senhores de escravos e seus descendentes, propunha a busca de uma identidade nacional moderna, “digerindo” as novas correntes filosóficas e artísticas europeias para produzir uma cultura nacional autêntica. O tenentismo eclodiria com o heroísmo dos 18 do Forte Copacabana, questionando o coronelismo, as fraudes eleitorais, o sistema político. Na mesma época, surgia o Partido Comunista, formado por intelectuais e operários de origem anarquista, cristãos-novos do marxismo. Eram prenúncios de uma crise que iria desaguar na Revolução de 1930 e no Estado Novo.


Olhando para o futuro, o que nos aguarda nos próximos dois anos? É difícil a resposta, já mergulhamos num turbilhão das incertezas. Qualquer análise precisa partir da constatação de que estamos vivendo uma crise múltipla, cuja origem difere de todas as anteriores, em razão da pandemia da covid-19: contabilizamos até ontem 126 mil óbitos e 4,137 milhões de casos desde o início da pandemia, com uma taxa de 60,5 mortos por 100 mil habitantes. Estado mais rico e mais populoso, com o melhor sistema de saúde, São Paulo registra 855.722 casos e 31.353 mortes, o que explica a profundidade da recessão econômica, com a queda na produção industrial de 17,7% no segundo trimestre, em relação a igual período de 2019. O único setor com resultado positivo foi o agronegócio, que cresceu 1,2% no trimestre passado, por causa da recuperação chinesa e do aumento do consumo de alimentos, cujos preços dispararam.

Ninguém sabe quanto tempo a pandemia permanecerá, pois há sinais de uma segunda onda na Itália e na Espanha, mas há esperança de que quatro das vacinas em desenvolvimento no mundo estejam liberadas para aplicação em massa até o final do ano: a americana, a inglesa, a russa e uma das chinesas. O Brasil corre atrás delas, mas é improvável que possamos imunizar a população em menos de um ano. Enquanto a vacina não vem, é melhor ter juízo e manter o isolamento social; porém, não é o que acontece no Brasil. O mau exemplo vem de cima. O presidente da República naturaliza a pandemia e mantém uma ocupação militar no Ministério da Saúde que entrará para os anais da nossa história sanitária, repetindo o triste papel que tiveram na epidemia de meningite, durante o regime militar.

Crise sanitária, recessão econômica, crise fiscal, desemprego em massa e sinais da volta da inflação nos preços da cesta básica. Entretanto, Bolsonaro está cada vez mais populista, para desespero da equipe econômica, que agora lida com uma anistia fiscal no valor de R$ 1 bilhão para as igrejas evangélicas, que o presidente da República quer sancionar. Ou seja, todos os contribuintes terão de pagar o calote dos pastores na Receita Federal. Na política, Bolsonaro só pensa na eleição; nos bastidores, trabalha para liquidar com a Operação Lava-Jato, moeda de troca para livrar os filhos das investigações sobre o caso Fabrício Queiroz. Com o ministro Luiz Fux na presidência do Supremo (tomará posse na quinta-feira), será muito difícil.

Pasmem! A anulação da condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silvia, que ontem fez um pronunciamento nas redes sociais com pompa de estadista e cara de candidato, para emular com o de Bolsonaro em cadeia de radio e tevê, passou a ser vista com bons olhos pelos estrategistas do Palácio do Planalto. Já consideram os petistas fregueses de carteirinha e sonham com uma polarização com o petista Lula para reeleger Bolsonaro, sem risco de ter de enfrentar uma candidatura de centro no segundo turno. Até o Bicentenário da Independência, teremos dois anos emocionantes. Oremos!
Luiz Carlos Azedo

Ao Deus dará

Dois meses depois da posse do ministro Milton Ribeiro, pouca coisa mudou. É verdade que a retirada de Abraham Weintraub da sala tornou o ar mais respirável. Nem por isso a Educação deixou de padecer da ausência de uma liderança capaz de criar um amplo consenso nacional em torno da prioridade que a ela deve ser dada. Em especial, nesses tempos de pandemia. 

O pastor Milton está mais preocupado com as 900 ovelhas de sua igreja presbiteriana em Santos, como mostrou reportagem recente do jornal Folha de S.Paulo, do que com o rebanho de milhões de crianças e jovens que podem ter seu futuro comprometido se não houver forte apoio da União aos estados e municípios, na volta às aulas.



Negligência oficializada pelo presidente Jair Bolsonaro ao vetar a previsão de apoio técnico e financeiro aprovada pelo Congresso na Medida Provisória sobre a flexibilização do ano letivo. A MP tinha sido aprimorada pelos parlamentares, o que permitia um aporte estimado em R$ 5 bilhões tanto para o ensino remoto como para o retorno das aulas presenciais.

A prioridade absoluta do MEC deveria ter sido evitar o veto porque a suspensão desse suporte prejudica 39 milhões crianças e jovens que estudam nas creches e no ensino básico das redes estaduais e municipais. Por outro lado, o Ministério da Educação acenou com a possibilidade de abrir mão de R$ 55 milhões para o Ministério da Defesa, dobrando o orçamento das escolas cívicos-militares.

Do ponto de vista educacional, estas escolas já são ilhas de excelência dentro do setor público e não dar prioridade aos setores mais carentes só encontra explicação no desejo incontido do ministro de agradar ao presidente.

No lugar de prescindir de recursos, o MEC deveria lutar por mais verbas para a educação. E concentrar a batalha no orçamento de 2021. É na peça orçamentária que se concretizam as prioridades de um governo. 

As projeções já divulgadas não são nada animadoras. Elas apontam perda de 13% da verba do setor, quando comparadas ao orçamento de 2020. 

Há muito se sabe da falta de compromisso do governo com o ensino no Brasil. Agora escolhe contemplar a Defesa com orçamento maior do que o da Educação. Em tempos normais, a inversão de prioridades já seria uma absurdo. Em um quadro de pandemia, onde quase 72% temem que a volta às aulas agrave a crise sanitária, chega a ser crime. Será necessário dar segurança às famílias e aos jovens de que poderão retornar às escolas sem correr risco. Isso requer recursos, empenho e articulação.

Educação e saúde deveriam ser as prioridades para o Brasil ingressar no novo normal. Mas o corporativismo do presidente o leva a ter foco no orçamento militar.Essa tendência já se manifestou nos investimentos de 2019, cujo ranking foi liderado pela Defesa, e, em plena pandemia, a Saúde está em quarto lugar em relação aos investimentos do primeiro semestre, segundo a ONG Contas Abertas.

Ao ministro Milton Ribeiro caberia a missão de lutar no interior do governo para reverter essa distorção. Mas em vez de ser protagonista do processo, recolhe-se a um silêncio tumular. 

Com todo mal que causou a Educação, Weintraub pelo menos reclamou quanto a possibilidade de cortes da verba do seu Ministério. Já o pastor Milton não dá um pio. Até agora também não explicitou suas ideias e metas.

Repete-se na batalha do orçamento o que aconteceu com o Fundeb. O MEC foi o grande ausente, abdicou de seu papel de protagonista. Na linha de frente pelos interesses da Educação estão educadores, parlamentares e organismos da sociedade civil, como o Todos pela Educação e o Contas Abertas.

O ministro pode arguir em seu favor que contraiu a Covid 19, embora isto não o tenha impedido de acompanhar o presidente em visitas a quartéis ou de subir no púlpito virtual de sua igreja.

Mesmo quando tem um ativo a apresentar, como o programa de levar internet para 400 mil alunos carentes do ensino superior, Ribeiro se furta a se comunicar com a sociedade e de mobilizar o setor em torno do grande objetivo de propiciar as condições materiais para a volta às aulas. Sua presença na entrevista coletiva à imprensa no anúncio da medida se deu como no discurso de posse: de forma ligeira e superficial, durante cinco minutos.

Como pastor, tudo bem que zele pelos fiéis de sua igreja, mas como ministro deveria cuidar de nossas crianças, até porque delas é o Reino dos Céus, ou melhor, o futuro do Brasil.
Hubert Alquéres

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Brasil predador

 


Ele é o golpe

A receita para o desmonte da democracia por Jair Bolsonaro, de infiltrar-se nos poderes para miná-los e dominá-los, está-lhe saindo melhor do que ele esperava.

O Executivo nunca foi problema. Como presidente, ele já lhe pertencia, bastando-lhe desmontar o aparelhamento anterior e instalar o seu —o que tem sido feito à custa até dos quadros mais neutros e técnicos, substituídos por jagunços estranhos às funções. É um desastre para o país, mas, para Bolsonaro, e daí?

O Legislativo, por sua vez, pode ser comprado —como ele bem sabe por ter feito parte dele durante 30 anos— e efetivamente já o foi, com a distribuição de cargos e verbas. Cargos e verbas, aliás, com que, aproveitando o carrinho entre as gôndolas, Bolsonaro tirou também o Exército da prateleira e o jogou no meio das margarinas.



Por fim, o poder mais resistente, o Judiciário, logo estará igualmente sob seu controle, com as nomeações de mais alguns togados decisivos e a adesão de outros. Nesse caso, o interesse de Bolsonaro não é mais blindar-se contra as investigações sobre as promíscuas negociatas de seus filhos, mulheres, ex-mulheres, noras e mães uns dos outros. O que lhe importa agora é garantir-se nas várias instâncias da lei em suas investidas contra a Constituição.

Para isto, Bolsonaro conta com o acoelhamento definitivo do Supremo —o mesmo que, num vídeo, ele comparou às hienas, invadiu seu recinto com uma galera, omitiu-se quando um de seus filhos ameaçou mandar um soldado e um cabo para fechá-lo, protegeu os terroristas que dispararam contra o seu prédio e apoiou um esbirro que chamou os ministros de “vagabundos”. O que falta ainda? Só mesmo Bolsonaro, em pessoa, sair à noite, munido de spray, e pichar-lhe a fachada.

Ou não mais. A historiadora Lilia Schwarcz disse esta semana no programa de TV “Roda Viva” que Bolsonaro já não precisa dar o golpe —“Ele é o golpe”.

Que país seria esse?

O que a administração republicana de Trump fez nesses quatro anos foi desmantelar o governo de maneira sistemática.

As agências que supostamente fiscalizam o país foram destroçadas. Temos uma Agência de Proteção Ambiental que reverteu regulações, porque o governo agora fomenta a contaminação. Temos uma secretária da Educação (cargo equivalente ao de um ministro brasileiro) que não acredita em escolas públicas, uma secretária do Trabalho que vai contra os interesses dos trabalhadores, um Departamento de Estado que tem postos vagos ao redor do mundo, um Departamento de Justiça que se converteu em ferramenta de Trump e dos republicanos.

Mais quatro anos disso e acredito que não sobrará nada. Absolutamente nada. E nos tornaremos um país autoritário, algo que acredito que ninguém poderia imaginar que seria possível quatro anos atrás.

Mas estamos indo muito rápido nessa direção.
Paul Auster, escritor norte-americano autor de vários best-sellers como Timbuktu, O Livro das Ilusões, A Noite do Oráculo e A Música do Acaso

O carioca parece gostar de ser enganado

O teleférico do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi inaugurado em 2011. Uma nova era havia começado, dizia-se na época. A promessa era de que, com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos chegando, a cidade finalmente se tornaria mais moderna. Deixaria de ser relativamente provinciana, para se tornar uma metrópole. Com melhor transporte público, mais segurança, menos pobreza e menos poluição.

O teleférico custou R$ 253 milhões. E, ainda que houvesse problemas mais urgentes no complexo de favelas (como saneamento básico), ele facilitou a vida de milhares de moradores. Transportava, em média, 10 mil pessoas por dia, nas 152 gôndolas que percorriam seis estações. Mas em setembro de 2016 – poucos dias após o fim dos Jogos Olímpicos – o teleférico teve suas atividades suspensas. O motivo alegado foi de que o equipamento passaria por uma manutenção que levaria meio ano e que estava faltando uma peça que viria do estrangeiro.

Mas o teleférico nunca mais voltou a funcionar, e está desde então apodrecendo e enferrujando. As estações estão abandonadas, viraram casa para pombos e outros animais, como pude ver durante uma visita ao Alemão. Foram R$ 253 milhões de dinheiro de impostos pagos pelos cidadãos jogados pelo ralo.

O teleférico do Morro da Providência, no Centro do Rio, custou R$ 76 milhões e foi inaugurado em 2014, durante a Copa do Mundo. Funcionou durante dois anos, até que, em dezembro de 2016, apenas quatro meses após o fim dos Jogos Olímpicos, o contrato para a administração do teleférico venceu e não foi renovado. Desde então, as gôndolas estão paradas, e não há previsão de que a operação seja retomada. Foram R$ 76 milhões de impostos pelo ralo.



A ciclovia Tim Maia foi inaugurada em janeiro de 2016. Custou R$ 45 milhões e tem o nome do músico que escreveu a canção Do Leme ao Pontal. Mas por essa ciclovia não se chega nem à metade do caminho, porque, três meses após a abertura, um pedaço dela desabou e matou duas pessoas. O motivo: negligência, erro de cálculo, corrupção. Em fevereiro e em abril de 2019, outras partes da ciclovia desmoronaram.

Responsável pela construção era a empreiteira Concremat. Ela foi fundada e era presidida, respectivamente, pelo avô e pelo tio do então secretário municipal de Turismo do Rio, Antônio Pedro Figueira de Mello. O Ministério Público denunciou 16 pessoas por homicídio culposo, sendo nove funcionários da Geo-Rio, empresa da prefeitura responsável pelo projeto da ciclovia. Em fevereiro de 2018, um dos citados foi nomeado presidente da RioUrbe pelo prefeito Marcelo Crivella.

Hoje, a ciclovia Tim Maia está interditada em grande parte. Mesmo assim alguns ciclistas continuam a usá-la. Quando eu fui de bicicleta do Aterro do Flamengo até a Barra de Tijuca, trocando várias vezes entre a ciclovia e a rua, reparei vários trechos em São Conrado e na Barra depredados e perigosos. Mas ninguém parece ligar.

A ciclovia e os teleféricos já cumpriram o papel deles: encher os bolsos de políticos, funcionários e empreiteiras. O Rio não tem memória, o Rio não tem cura, o Rio está condenado a cometer os mesmos erros para sempre.

E para que não haja engano: isso é um problema especificamente carioca (ou brasileiro). Há outras cidades com teleféricos na América Latina, como La Paz (Bolívia), Medellín (Colômbia) e Santo Domingo (na pequena República Dominicana). Lá as gôndolas funcionam desde a inauguração e transportam milhares de pessoas, principalmente pobres, todos os dias. Nenhuma dessas cidades é rica. A diferença é que a classe política lá é menos podre e inescrupulosa.

Posso dar vários outros exemplos. Tem o caso da Baía de Guanabara, que virou sinônimo de poluição e de desperdício de dinheiro público. Nos últimos 24 anos, foram gastos mais que 2,5 bilhões de reais para "tentar” a despoluição. Mas até hoje, no Rio de Janeiro, menos de 47% do esgoto coletado é tratado. O governo estima que ainda serão necessários 12 bilhões de reais para concluir a limpeza. Seria para rir, se não fosse para chorar.

Outros exemplos de falta de respeito das elites para com os cidadãos: a Cedae, que abastece a população do Rio com água contaminada com esgoto doméstico e poluição industrial. Esgoto doméstico tem alta quantidade de fezes. Mesmo assim, a Cedae cobra um valor mais alto pela água do que muitos fornecedores na Alemanha, onde a água da torneira é potável.

O preço da eletricidade no Rio é aproximadamente o mesmo que na Alemanha. A diferença é que na Alemanha a eletricidade nunca cai – diferentemente do que ocorre aqui em casa, quando chove ou venta um pouco mais forte. Nunca o fornecedor de eletricidade me concedeu uma redução de preço por essas quedas de luz, muito menos pagou qualquer compensação nas vezes em que tive que passar a noite à luz das velas.

Meu provedor de internet também não se importa se o meu sinal cai de vez em quando, especialmente com o mau tempo. A empresa cobra uma multa se eu pagar minha conta com atraso, mas não me oferece um desconto se eu ficar sem internet por várias horas. Minhas medições também mostraram que minha velocidade de internet flutua consideravelmente e raramente atinge constantemente o nível prometido (e pelo qual eu pago).

Parece que os cariocas gostam de ser enganados. Eles consideram normal a corrupção, a fraude e um serviço ruim, mas caro. Atualmente, ninguém representa melhor as estruturas podres do Rio do que Marcelo Crivella, ainda prefeito da cidade. Ele paga capangas com dinheiro dos impostos para assediar, insultar e ameaçar os cidadãos em frente a hospitais públicos. Estes são métodos conhecidos de ditaduras e máfias.

O que em cidades normais levaria a revoltas populares, processos judiciais e demissões, o carioca aceita dando de ombros – e reelege os mesmos senhores e senhoras nas próximas eleições.

Mas nem todos os cidadãos são igualmente atingidos pela calamidade pública. Os ricos se abrigam num mundo privado que não tem mais nada a ver com a realidade da maioria das pessoas: compram boa educação, saúde, segurança e conforto, sem se importar com assuntos públicos. Eles podem até se beneficiar das máquinas mafiosas que redistribuem o dinheiro dos impostos de baixo para cima.

Em março deste ano, o prefeito do Rio, Crivella, prometeu reabrir a ciclovia Tim Maia dentro de seis meses. Mas é provável que virará mais um monumento carioca para o desperdício de dinheiro público. O governador afastado do Rio, Wilson Witzel, disse que colocaria o teleférico do Complexo do Alemão novamente em funcionamento nos primeiros 180 dias de seu mandato. Isso foi há mais de 600 dias. Bem vindo à cidade das promessas vazias.
Philipp Lichterbeck

Desigualdades e desacertos

Informações recém-divulgadas da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do IBGE sinalizam pequenos avanços e recuos do SUS — e a persistência do fosso entre quem mais precisa de cuidados e o acesso. Os dados são essenciais para diagnosticar a situação de saúde, captar tendências e orientar as políticas públicas. Entre os dois inquéritos, realizados com intervalo de seis anos, a cobertura para atendimento médico cresceu: era 71,2% em 2013 e passou para 76% em 2019. No mesmo período, o total de pacientes internados aumentou de 6% para 6,6%, revelando pequeno aumento na capacidade do sistema.

 Mas persistem desigualdades nas chances de realizar determinados procedimentos odontológicos e médicos. Em 2019, a proporção de consulta com dentista foi de 36% para quem se situa na menor faixa (menos de um quarto de salário mínimo) e 76% para pessoas da classe mais alta de renda (acima de cinco salários mínimos). A oportunidade para realizar internações e cirurgias foi duas a três vezes maior para quem está vinculado a planos privados de saúde. Consequentemente, o padrão do atendimento na rede hospitalar do SUS difere do organizado pelo setor privado; o público tem maior proporção de casos clínicos, e a assistência suplementar, de pacientes cirúrgicos. 

Os inquéritos sobre saúde realizados pelo IBGE também permitem avaliar o desempenho de políticas públicas específicas. Houve incremento no cadastramento dos domicílios pelas equipes de saúde da família; contudo as visitas de agentes comunitários diminuíram. Os programas públicos de acesso a medicamentos permitiram que 30,5% dos atendidos pelo SUS em 2019 obtivessem ao menos um dos medicamentos prescritos. Esse panorama da aquisição de remédios fica mais bem delineado pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). As despesas com remédios pesam 4% no bolso das famílias com menor renda e representam 1,4% para as que contam com orçamentos maiores. O conjunto de dados fornecidos pelas pesquisas oficiais contém evidências sólidas para orientar decisões sobre prioridades e investimentos públicos.


 Entretanto essas relevantes informações são pouco consultadas pelas autoridades políticas. Basta dedicar um olhar ligeiro às pesquisas para verificar o porquê das imensas filas para cirurgia no SUS, bem como o alcance e as limitações da efetividade de equipes de saúde da família e cobertura de medicamentos. 

Ideias apresentadas como geniais, definitivas, como as organizações sociais, mostraram-se frágeis para superar desigualdades exigentes de políticas que incidam sobre a formação e alocação de recursos humanos, a oferta de serviços e os gastos com saúde. É pura falácia propor “zerar filas”, “ampliar horários de atendimento” sem considerar a precarização dos vínculos dos profissionais de saúde e a diferença entre os valores de remuneração do SUS e dos planos de saúde. Enquanto médicos e enfermeiros tiveram reconhecimento e aumento de salário na maioria dos países, o projeto de reforma administrativa apresentado pelo governo prevê a contratação provisória e salários baixos para os servidores públicos do Poder Executivo, incluindo aqueles que estão na linha de frente do enfrentamento da Covid-19. O crescente gasto direto com saúde, considerado catastrófico, parece não preocupar o governo federal. Em agosto, o ministro da Economia cogitou restringir o acesso ao programa Farmácia Popular para viabilizar o financiamento do Renda Brasil. Retrocedeu, mas insiste no corte de despesas para o SUS.

Ao longo da história houve governos que conferiram maior destaque à saúde e aqueles que levaram adiante políticas incrementais. Essa trajetória, intercalada pela inscrição do SUS na Constituição de 1988, nos assegurou sucesso no controle de riscos e doenças. 

O cancelamento da saúde como política governamental, na gestão Bolsonaro, é um fato inédito. A macabra cerimônia de glorificação da cloroquina “Vencendo a Covid”, no mês passado, e a ausência dos mortos pela pandemia no discurso presidencial no Dia da Independência afirmam o empenho do governo contra a “sombra dos comunistas” e a radical indiferença perante doentes e mortes. Ao contrário de Juscelino Kubitschek, reconhecido pela dedicação para reverter a acepção nacional e internacional do “Brasil, país doente”, o atual presidente será lembrado pela insensibilidade ao sofrimento causado pelas doenças e ao combate a espectros. 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

'O país ideal do bolsonarismo é o mesmo dos integralistas dos anos 30'

Pouco mais de dois anos atrás, quando o diretor da Editora Planeta no Brasil, Cassiano Elek Machado, propôs ao jornalista Pedro Doria que este escrevesse um livro sobre o movimento integralista brasileiro, Jair Bolsonaro – então deputado federal, conhecido por suas posições reacionárias – era apenas um pré-candidato à Presidência da República.

Durante o processo de pesquisa e redação, Doria observou as semelhanças entre o ascendente bolsonarismo e aquelas ideias fascistas do Brasil dos anos 1930. Foi quando o experiente jornalista – autor de outros três livros de história do Brasil, fundador da startup Canal Meio e colunista dos jornais O Estado de S. Paulo, O Globo e da rádio CBN – se viu, em suas palavras, tendo de enfrentar seus "próprios fantasmas".

"Foi ficando claro que Bolsonaro iria ser presidente da República, e eu tive meio que um bloqueio", diz à DW Brasil. "Eu estava imaginando como explicar a atração de algo como o fascismo. Porque hoje é evidente que aquilo foi uma coisa horrorosa, mas na década de 1930 aquilo era extremamente sedutor para a juventude. De repente, tudo o que começou a ocorrer ao nosso redor foi esse espírito agressivo, aquele jeito tão encantado com a morte de fazer política estava ressurgindo."

Assim, segundo o autor, o recém-lançado livro Fascismo à Brasileira foi escrito "sobre um espírito de tempo tão complicado" e, ao mesmo tempo, "vivendo um espírito de tempo muito similar". "Para mim, foi muito angustiante e mexeu comigo", comenta.



O livro trata da Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento ultranacionalista, conservador e de extrema direita fundado pelo jornalista Plínio Salgado (1895-1975) em 1932 e dissolvido em 1937. Mas acabou ganhando um subtítulo que resume suas muitas reflexões sobre os tempos atuais: "como o integralismo, maior movimento de extrema direita da história do país, se formou e o que ele ilumina sobre o bolsonarismo".

"O reacionarismo brasileiro remete às suas características: um país de base agro, a organização familiar nuclear – o homem manda, a mulher rege a casa, os filhos obedientes –, a relação forte com a Igreja. Quando Plínio Salgado fala de um Brasil ideal, essas coisas estão profundamente presentes. [...] Nesse sentido, o ideal do bolsonarismo é o mesmo de Plínio. Eles estão falando com o mesmo estereótipo de brasileiro, que na essência podemos chamar de mais puro reacionarismo brasileiro", afirma em entrevista à DW Brasil.

Logo no prefácio do livro Fascismo à Brasileira, você afirma que a AIB foi o maior movimento popular de direita da nossa história, "ao menos até o surgimento de Jair Bolsonaro". Já é possível afirmar que o bolsonarismo superou o integralismo?

Existe uma razão fundamental para podermos dizer que Bolsonaro é maior que a AIB: Jair Bolsonaro chegou ao poder, Plínio Salgado não conseguiu. Plínio era um cara muito mais sofisticado do que Bolsonaro. Mas ele calhou de viver em um tempo em que existia Getúlio Vargas, e Getúlio é provavelmente o político mais completo, mais talentoso que o Brasil já teve. A AIB era muito mais organizada, muito mais estruturada do que esse movimento do Bolsonaro.

Você afirma que uma diferença basilar entre o integralismo e o bolsonarismo é justamente a falta de base intelectual-filosófica do segundo em relação ao primeiro. De certa forma, ao conferirem uma "formação" aos bolsonaristas, figuras como Olavo de Carvalho e seus seguidores não se configurariam a base de pensamento da nova direita brasileira?

O Olavo de Carvalho é justamente o braço fascista do bolsonarismo. Plínio Salgado, quando estava negociando com Getúlio a sua entrada no governo do Estado Novo, queria o MEC – o Ministério da Educação e da Cultura. Quais são as áreas que o olavismo quis quando foi entrar no governo Bolsonaro? O Ministério da Educação e a Secretaria da Cultura. Por que essas duas? Porque a lógica fascista é uma lógica de doutrinação. Você tem de literalmente doutrinar crianças, adolescentes e mesmo adultos a respeito de uma determinada visão de país, de história. Você tem de impor aquela filosofia.

Mas é preciso destacar o fato de que eles [os de hoje] são muito atrapalhados, incompetentes e, nesse sentido, são muito diferentes dos fascistas anteriores. Quando você pega, por exemplo, todo mundo que passou pela Secretaria da Cultura ou mesmo o [ex-ministro da Educação, Abraham] Weintraub, não fizeram nada, absolutamente nada. Nem essa máquina de doutrinação eles conseguiram sequer chegar próximos de empregar, provavelmente porque não sabem fazer mesmo.

Quais são as principais semelhanças entre o bolsonarismo e o integralismo, o fascismo brasileiro dos anos 1930?

O movimento fascista tem essa característica muito peculiar que é de ser simultaneamente revolucionário e reacionário. Plínio Salgado cria esse passado épico brasileiro a partir das suas raízes, um homem do interior de São Paulo. Baseia-se nos bandeirantes, os homens que desbravaram o Brasil. O reacionarismo brasileiro remete às suas características: um país de base agro, a organização familiar nuclear – o homem manda, a mulher rege a casa, os filhos obedientes –, a relação forte com a Igreja. Quando Plínio Salgado fala de um Brasil ideal, essas coisas estão profundamente presentes. Como é o Brasil ideal de Jair Bolsonaro? Percebe-se que seu olhar está muito mais para o agronegócio do que para o Brasil das grandes cidades. Quando vemos figuras como o ministro [do Meio Ambiente, Ricardo] Salles dizendo que é preciso explorar a Amazônia, ele está falando essencialmente de um Brasil bandeirante. Nesse sentido, o ideal do bolsonarismo é o mesmo de Plínio. Eles estão falando com o mesmo estereótipo de brasileiro, que na essência podemos chamar de mais puro reacionarismo brasileiro.

No Brasil dos anos 1930, o "inimigo comunista" era usado para justificar um discurso de extrema direta. No mundo contemporâneo, contudo, o que baliza tais discursos?

O discurso é criado em cima de uma explicação paranoide de realidade. Para eles, existe o perigo comunista. E o que eles chamam de comunismo e de marxismo cultural é a ampliação dos direitos civis, dos direitos individuais. Estamos falando de uma sociedade que se preocupa em tratar de forma equivalente todos os seus cidadãos e, por isso, usa o Estado para interferir de certa forma nas regras do jogo para corrigir distorções, para fazer com que todo mundo tenha direitos iguais. Só que aí há essa confusão ideológica, e o que termina por acontecer é que esse troço começa a ser chamado de esquerda. Só que essa história de certa forma colou, e o ponto é que cada vez menos pessoas enxergam a realidade como ela é.

Em seu livro, você detalha o encontro ocorrido entre Plínio e Benito Mussolini e como isso mudou a vida do brasileiro. Pelo que se tornou Bolsonaro hoje, acredita que podemos apontar um episódio da vida dele que também tenha significado uma consolidação de seu rumo?

Não apontaria um episódio específico, mas a biografia de Jair Bolsonaro. Ele nasceu no interior de São Paulo, de família humilde, trabalhou desde cedo, tem muito esse ethos do interior paulista, de que homem é homem, mulher é mulher. Isso é muito claro na maneira como ele fala, inclusive.

Então, ele se formou no Exército em meados dos anos 1970, no auge dos anos de chumbo. Mas dentre as pessoas que se formaram no auge dos anos de chumbo, ele não foi um cara que cresceu para se tornar um major, um coronel, um general. Não, ele teve a carreira interrompida e passou para a reserva no posto de capitão. Assim, não estamos falando de alguém que tenha se desenvolvido intelectualmente dentro do Exército. A formação dele é no pico da paranoia do Exército com a ameaça comunista. Ele vê comunista por tudo quanto é parte. Na reabertura, ele acha que o Exército está afrouxando quando começa a arrumar para a democracia.

Desde o início, a gente percebe que ele não é alguém que acredita na democracia, sempre deixou isso muito claro. Quando chega a leitura meio paranoide do Olavo de Carvalho a ele, aquela leitura de que os comunistas perderam nas armas mas conquistaram na cultura, a gente vê nitidamente que o Bolsonaro era o cara pronto para comprar aquela história. É o caso de toda a formação dele. Ele se tornou a peça que se encaixa com muita facilidade nesse esquema paranoide de ver o mundo que vem dessa nova direita mundial.

Imagem do Brasil

 


O movimento Real Resiste, de ocupação com cartazes das ruas do Rio, está espalhando este outdoor, de 2x3 metros, de um caixão de defunto com o agouro de que 130 mil mortes pela Covid-19 vão puxar o pé do presidente, A obra é do artista Marcos Chaves

Crime sem castigo

Teve um tempo em que acreditei na Justiça. Ou melhor, nas justiças, na dos homens e na divina. Parecia-me razoável que cada pecado cometido fosse devidamente punido. Que cada desobediência implicasse algum castigo. Claro que isso me custou muito sofrimento. Aquele dia em que me isolei no quarto alegando necessidade de estudar e fiquei jogando botão (quem nem botão era, mas plásticos rijos que cobriam relógios de pulso) a tarde toda, e no dia seguinte me saí muito mal na prova de latim. O outro em que briguei com um colega de escola, rolei com ele na terra aos socos e pontapés, entrei quietinho em casa, me lavei, joguei a camisa rasgada e encardida no cesto de roupa suja e fui almoçar sem contar nada aos meus pais (desta vez não tive muita sorte, o olho roxo e as escoriações no joelho me traíram miseravelmente). Os castigos me pareceram razoáveis: uma semana passa depressa, embora eu adorasse jogar bolinha de gude com a turma da Vila Gagliardi, rua sem saída, nosso empoeirado parque e praça esportiva improvisada.

A vida, à época, fazia sentido: a cada pecado, uma punição. Uma das coisas que eu fazia, esporadicamente, era dar uns sopapos no meu irmão “do meio” (éramos três meninos) sempre que ele, sob qualquer pretexto, agredia o caçula. Quando eu me entusiasmava nos sopapos e o chorão abria o berreiro, o cinto do meu pai fazia o papel de juiz, entrava na contenda e meu traseiro ganhava algumas faixas avermelhadas. Meu pai averiguava, julgava e aplicava o castigo, sem delongas. Já o castigo divino... Desse eu tinha mais medo, mas devo reconhecer, por outro lado, e à distância, que era bem menos eficiente. Eu me lembro até hoje da vez que fiquei um tempão tentando espiar uma freguesa, quando ela provava blusas na loja do meu pai. A moça ficou muito tempo experimentando cores, modelos e tamanhos diferentes, enquanto eu, nos meus heroicos nove anos, rondava a porta do provador improvisado. Um pirralho como eu certamente não representava ameaça alguma ao pudor dela.


Mesmo assim, e mesmo não tendo tido nenhum sucesso na minha precoce atividade de voyeur, eu sabia que havia pecado. Talvez o sexto mandamento, ou outro qualquer, mas alguma lei de Deus. Esperei conformado o castigo, ficando em troca apenas com o azul-claro do enorme sutiã que vislumbrara. Mas o castigo nunca veio. Bem diferente de um colega de colégio, que ao confessar ao padre a prática da masturbação, foi aconselhado a se autopunir para ficar limpo. O resultado da queimadura que J.B. provocou em si próprio o acompanhou até sua morte precoce.

Já adulto me dei conta de que a Justiça tem cor, sexo e leva em conta fatores que, anteriormente, nunca imaginei que pudessem influenciar na decisão de quem julga. Algumas pessoas são julgadas logo, outras nunca. Alguns têm ótimos defensores em todas as numerosas instâncias, outros mal conseguem defensores razoáveis e se dão mal por erros técnicos, esquecimento de prazos legais para apresentar a defesa, má vontade dos cartórios e até dos próprios juízes. A lei, embora nominalmente coloque todos os cidadãos no mesmo patamar de direitos e obrigações, é muito mais generosa com uma parte da população, os que têm poder. Um complexo e lento sistema de defesa composto de numerosas etapas tem a função de protelar qualquer julgamento definitivo e respectiva punição. Recursos infindáveis, muito bem apresentados por equipes afiadas, lideradas por advogados muito hábeis, fazem com que o medo de punição não atemorize criminosos conhecidos. E, se algum juiz do andar de baixo comete a “irresponsabilidade” de sugerir prisão a um figurão, corre o risco de cair em desgraça. Não importa o que diz a constituição sobre igualdade de direitos. Temos uma cultura estabelecida e ai de quem ousar questioná-la.

Uma amiga, promotora em São Paulo, me disse uma vez que a justiça de classe no Brasil nunca permitiria que tivéssemos um verdadeiro país de cidadãos. Ela tinha razão. Olhamos os iguais, ou supostos iguais, de modo distinto do que fazemos com pessoas “diferentes”, seja por sua origem social, cor da pele, religião, grau de instrução, tipo de roupa que usam. Isso é uma flagrante violação à letra e ao espírito da Constituição Brasileira, à democracia e à cidadania. Deixar o tempo passar para que os crimes prescrevam, colocar ricos em prisão domiciliar, mesmo quando cometeram crimes horríveis, enquanto abandonamos dezenas de milhares de pobres presos sem julgamento, é comum por aqui.

Aos iguais tudo, aos demais a força da lei.
Jaime Pinsky

A hipocrisia do amor ao povo

Estes amam o povo, mas não desejariam, por interesse do próprio amor, que saísse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as superstições e as lendas; vêem-se generosos e sensíveis quando se debruçam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; é muito interessante o animal que examinam, mas que não tente o animal libertar-se da sua condição; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posição; em nome da estética e de tudo o resto convém que se mantenha.

Há também os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir é o domínio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um coração de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o vão desejo de mandar; nestes não encontraremos a frase preciosa, a afetada sensibilidade, o retoque literário; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, é o som do oco tambor retórico o último que se ouve.


Só um grupo reduzido defende o povo e o deseja elevar sem ter por ele nenhuma espécie de paixão; em primeiro lugar, porque logo reprimiriam dentro em si todo o movimento que percebessem nascido de impulsos sentimentais; em segundo lugar, porque tal atitude os impediria de ver as soluções claras e justas que acima de tudo procuram alcançar; e, finalmente, porque lhes é impossível permanecer em êxtase diante do que é culturalmente pobre, artisticamente grosseiro, eivado dos muitos defeitos que trazem consigo a dependência e a miséria em que sempre o têm colocado os que mais o cantam, o admiram e o protegem.

Interessa-nos o povo porque nele se apresenta um feixe de problemas que solicitam a inteligência e a vontade; um problema de justiça econômica, um problema de justiça política, um problema de equilíbrio social, um problema de ascensão à cultura, e de ascensão o mais rápida possível da massa enorme até hoje tão abandonada e desprezada; logo que eles se resolvam terminarão cuidados e interesses; como se apaga o cálculo que serviu para revelar um valor; temos por ideal construir e firmar o reino do bem; se houve benefício para o povo, só veio por acréscimo; não é essa, de modo algum, a nossa última tenção.
Agostinho da Silva

'Criança, não verás reforma alguma num país como este!', diria Olavo Bilac, decepcionadíssimo

Recordar é viver! No caso do jornalista, escritor e poeta carioca Olavo Bilac, ele merece ser eternamente lembrado pelos brasileiros, não só pelos versos inesquecíveis que deixou, mas também pelo nacionalismo, que o levou a defender a criação do serviço militar obrigatório e o aprimoramento do ensino público. Entre um verso e outro, o jornalista preocupava-se com a qualidade da educação, como está marcado em seu poema infantil mais famoso, “A Pátria”.

Bilac viveu em outra época, em que se podia sonhar. Certamente estaria muito decepcionado com a realidade de hoje, que transformou o Brasil num país antes lembrado por suas belezas, mas hoje caracterizado por uma insana disputa de poder que desconhece os verdadeiros interesses nacionais.

A nação que Olavo Bilac antevia e ansiava é hoje conhecida como o pais da impunidade das elites. É o único no mundo, entre os 193 membros da Organização das Nações, onde réus de corrupção, lavagem de dinheiro, improbidade administrativa, peculato e enriquecimento ilícito têm liberdade garantida até a quarta instância (Supremo), enquanto na maioria dos países nem existe quarta instância.

O que realmente revoltaria Bilac era saber que no Congresso, no Planalto e no Supremo não há a menor movimentação para mudar esse estado de coisas, graças a um pacto tácito existente entre os três Poderes da República.


Bilac lutou pela República como poucos, jamais poderia imaginar que a proclamação fosse transformar o Brasil no reino da criminalidade.

O brilhante jornalista e poeta também não conseguiria entender que um país rico como o Brasil tivesse se tornado um dos mais endividados, a ponto de um banqueiro ter se tornado ministro da Fazenda para dar um basta nos empréstimos ao governo, criando a “regra de ouro”, que está prestes a se tornar uma lei vacina, daquelas que não “pegou”.

Com raras e honrosas exceções, como se dizia nos tempos de Bilac, os governos federal, estaduais e municipais estão quebrados, tornaram-se impotentes, impassíveis e indiferentes, com o povo abandonado em suas necessidades de habitação, saneamento, educação e saúde.

Não há pudor, reina a desfaçatez, Bilac se revoltaria ao ver que o Brasil é um dos países de maior desigualdade social, onde a riqueza total tenta conviver com a miséria absoluta, enquanto a classe média se esconde atrás das grades e dos muros da hipocrisia.

É uma país que necessita desesperadamente de reformas, precisa economizar os gastos públicos para enfim conseguir atender ao cidadão.

Mas é tudo uma farsa, um conchavo entre as classes dominantes e a nomenklatura do serviço público, para manter os privilégios de cada categoria, pois não se fala em reduzir nenhum benefício de magistrado, parlamentar, governante, dirigente de estatal e servidor civil ou militar de primeira linha.

E o notável Olavo Bilac, no desespero, pensará que está bêbado, como naquela tarde em que perdeu o controle de seu carro na Estrada da Tijuca, saiu da pista e bateu numa árvore, no primeiro acidente de automóvel no Brasil. Revoltado, modificará seu mais famoso poema, para alertar às crianças que não vai haver reforma alguma.