sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O 'gado humano' que Bolsonaro leva ao matadouro

O Brasil superou as 100.000 mortes por covid-19 e, na velocidade atual em torno de 1.000 mortos por dia, poderá chegar aos 200.000 ainda em outubro. E então a Folha de S.Paulo estampa na manchete de 15 de agosto a conclusão da pesquisa do Datafolha: “para 47% dos brasileiros, Bolsonaro não tem culpa pelas 100 mil mortes por covid-19”. Nenhuma culpa. O Brasil tem 21 novos casos/dia por 100.000 habitantes, quando a média global é 3. Mesmo vilões como os Estados Unidos de Donald Trump têm 17 novos casos/dia por 100.000 e a Índia de Narendra Modi, 5. Mesmo com as evidências de negligência intencional e deliberada na relação com a pandemia, que já motivou três petições de crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional, a mesma pesquisa já tinha mostrado que Bolsonaro alcançou sua melhor aprovação desde o início do mandato: 37% de ótimo ou bom. A melhora é puxada especialmente pelos mais pobres e pelo Nordeste do Brasil, região onde ele teve menos votos em 2018. A rejeição caiu enquanto o número de mortos explodiu. Por que quase metade dos brasileiros se comportaria como “gado humano”, como tem sido chamada, e aceitaria Bolsonaro conduzi-la alegremente para o matadouro?

A conclusão mais fácil, amplamente difundida nas redes sociais, é a de que as pessoas são burras. E também mal informadas. O auxílio emergencial de 600 reais por mês para os mais pobres devido à pandemia teria feito com que Bolsonaro fosse visto momentaneamente como o capitão dos pobres. A desinformação seria por conta de que o Governo federal foi obrigado pelo Congresso a pagar 600 reais. Bolsonaro não queria passar dos 200. O campo da esquerda, que quase dois anos depois da eleição ainda não foi capaz de fazer oposição efetiva a Bolsonaro, apavora-se porque o Governo emite sinais de que o Bolsa Família do lulismo pode virar o Renda Brasil do bolsonarismo. E, se isso acontecer, Bolsonaro tem mais chances de se reeleger em 2022.

O que é ser burro e o que é ser inteligente, porém, não é uma definição fácil, muito menos simples. Grande parte da população brasileira vive apenas o dia de hoje. Para a maioria, o mês seguinte já é longe demais. A ideia de futuro é considerada um privilégio dos mais ricos, e este é um dado muito importante, porque emancipação política só é possível com pessoas que têm acesso à ideia de futuro. Quando o futuro se torna um privilégio dos mais ricos, e não um direito assegurado a todos, a maioria é condenada ao presente. E o presente é movido por comer ou não comer, ter um lugar para dormir ou ser despejado, manter-se respirando.

A realidade é que os 600 reais do auxílio emergencial garantiram uma renda inédita a pelo menos 65 milhões de brasileiros e suas famílias. E, quando o benefício acabar, o que pode acontecer em seguida, voltarão a ter que se virar com muito menos, num país com um número ainda maior de desempregados e com a recessão se ampliando. Segundo artigo de Mauro Paulino e Alessandro Janoni, diretor-geral e diretor de Pesquisas do Datafolha, “dos cinco pontos de crescimento da taxa de avaliação positiva [de Bolsonaro], pelo menos três vêm dos trabalhadores informais ou desempregados que têm renda familiar de até três salários mínimos, grupo alvo do auxílio emergencial pago pelo governo”.

Vale a pena ressaltar que o que se chama de classe média no Brasil, assim como aqueles que se entendem como classe média, nada têm de média. Em São Paulo, por exemplo, segundo a tabela preparada pelo Nexo, se você ganha 12.000 reais por mês já faz parte do seletíssimo clube do 1% mais rico do Brasil. A tabela tem suas limitações, mas cada um pode calcular sua renda em comparação com o restante da população e ter uma ideia muito aproximada da situação.



O Brasil tem a segunda pior concentração de renda do mundo, conforme o Relatório de Desenvolvimento da ONU: o 1% mais rico concentra 28,3% da renda total do país. Só perde por muito pouco para o Catar, onde a concentração de renda chega a 29%. Este é o tamanho do abismo da desigualdade brasileira. Vale a pena lembrar ainda que os bilionários não são 1%, como se costuma dizer no senso comum —e sim 0,00003% da população global. Mais especificamente 2.153 pessoas como eu e você, que concentram 60% mais riqueza material que quase 7,8 bilhões de pessoas da mesma espécie.

O mundo tem uma pessoa bilionária para cada 3,7 milhões de outras. No Brasil, segundo o último ranking da Forbes, há 45 pessoas bilionárias. Quarenta e cinco. Enquanto isso, a metade mais pobre da população brasileira, cerca de 104 milhões de pessoas, vivia em 2018 com 413 reais de renda mensal. Não há futuro para a maioria com essa desigualdade monstruosa. Só um presente vergonhosamente precário. E o presente vergonhosamente precário é, neste momento, ainda absurdamente precário, mas menos precário com o auxílio emergencial de 600 reais —composto por recursos públicos, mas interpretado como uma benemerência de Bolsonaro.

A redução da miséria e da pobreza, conquistada nos anos dos Governos do PT (e, antes dele, em níveis consideravelmente menores, nos governos do PSDB de FHC), foi imensamente importante, mas suficiente apenas para reduzir a fome e garantir melhorias pontuais, como acesso a bens básicos como geladeira e fogão. Isso, é necessário assinalar, não é pouca coisa. A questão, que já era apontada na primeira década deste século, é que jamais foi suficiente para criar cidadãos, no sentido daquilo que é definido como sujeitos de direitos. Para criar cidadãos é necessário reduzir a desigualdade, o que nunca foi feito de forma significativa no Brasil.

Para diminuir a desigualdade é preciso fazer mudanças estruturais capazes de reduzir os privilégios da minoria mais rica e taxar pesadamente as grandes fortunas. Só assim se garante uma redistribuição mais igualitária da riqueza existente. O Governo mais próximo de um ideário social de esquerda no Brasil, o de Lula, era um governo de conciliação. Lula e principalmente Dilma Rousseff sacrificaram a Amazônia e o Cerrado, assim como bandeiras históricas como a da reforma agrária, para garantir a massiva exportação de matérias-primas durante um momento de crescimento da economia global, especialmente da China. Era a fórmula —limitada, como se viu— para os pobres ficarem menos pobres e, ao mesmo tempo, os ricos mais ricos.

Há muitas definições de cidadania. Eu gosto daquela que define o cidadão como aquele que pode ter a certeza do básico —alimentação, transporte, saúde e educação— e então pode ser capaz de imaginar e criar futuros onde quer viver porque o seu tempo não é devorado pela estrita manutenção do corpo, mas para desenvolver seu potencial para a ampliação do bem comum. Se o mundo é hoje extremamente desigual, o Brasil, com seu tamanho continental e 210 milhões de habitantes, é o exemplo mais eloquente da violência representada pelo sequestro do futuro da maioria da população, reduzida ao esgotamento cotidiano dos corpos para manter-se respirando.

Diante das condições de vida absolutamente precárias da maioria dos brasileiros e do súbito aumento da renda com o auxílio emergencial, o surpreendente não é que a aprovação de Bolsonaro suba durante a pandemia. O surpreendente é que isso seja uma surpresa. Se a reação previsível e lógica dos mais pobres é uma surpresa para parte da população, especialmente no campo da esquerda, quem então são os burros e os mal-informados sobre o que se passa no país?

O boicote intencional de Bolsonaro ao enfrentamento da covid-19 pode ser comprovado por atos documentados no Diário Oficial da União, além de uma comunicação feita deliberadamente para desinformar a população. As pesquisas também provam que são os mais pobres, e a maioria dos mais pobres no Brasil é negra, que morrem mais de covid-19. No Campo Limpo, um dos bairros com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos de São Paulo, a letalidade da covid-19 por 100.000 habitantes é altíssima —52%. Já nos bairros mais ricos, com IDH mais alto, como Pinheiros, a taxa é de 5%. Na maior cidade do Brasil, há 10 vezes mais letalidade por covid-19 nos bairros mais pobres quando comparados aos mais ricos.

Como então é possível que a melhoria nos índices de aprovação do antipresidente seja justamente puxada pelos mais pobres? A resposta também pode ser buscada na precarização da vida. O que chamamos de povo brasileiro é composto, em sua maioria, por pessoas que só vivem porque teimam. A história do Brasil é uma trajetória de espoliação de matérias-primas extraídas da natureza e, no caso da maioria da população, de corpos escravizados e depois brutalmente explorados. O que se transmite de pai e mãe para filhos e filhas é que a sobrevivência não é garantida, ela é arrancada. A morte é normalizada.

A história das famílias mais pobres é uma história em que os filhos mortos são contados junto com os vivos. As mulheres sabem que parte da sua prole pode morrer pelas condições precárias da vida, pela falta de acesso à saúde, à água, a saneamento básico e também a alimentos. Também sabem que morrer por violência é uma probabilidade, especialmente se seu filho for negro, seja pelas balas da polícia, da milícia ou por assalto. Há periferias do Brasil em que você pode bater aleatoriamente em uma fileira de portas e todos terão uma morte ou mais para contar, por violência e/ou por falta de condições de saúde.

A tragédia crônica do Brasil é ter um povo para quem a morte por doenças evitáveis e por violência é normalizada porque foram colocados na condição de matáveis e de morríveis desde a formação do país. Não é um povo, é uma massa de desesperados extremamente criativos que vem resistindo há séculos contra todas as formas de extermínio.

O que quero explicitar é que os brasileiros mais pobres vivem sujeitados a aceitar a perda dos que amam. Esta é uma das faces mais horrendas da desigualdade, mas o horror desta face nunca a impediu de ser aceita como normal, em especial pelos mais ricos, inclusive os que se consideram classe média. Neste sentido, a covid-19 é mais uma forma de morte. Se as outras mortes não são evitadas, por que esperar que um governante evitasse esta?

Para suportar o horror de estar na condição dos que podem morrer por aquilo que não mata os brancos e os mais ricos —ou pelo menos que mata muito menos os brancos e os mais ricos—, uma parcela significativa dos brasileiros atribui seu destino à vontade divina. Pelo menos, neste caso, podem rezar, pagar o dízimo para o pastor, tentar reverter o destino ou, pelo menos, encontrar um sentido para suas tantas perdas numa vontade superior. Numa realidade que parece imutável, o que não se pode entender, como a vontade de um deus, pode ser mais suportável do que a explicação de que a sua vida pouco importa para quem tem seu destino terreno nas mãos.

Assim, a covid-19, tanto quanto as outras doenças, também é considerada culpa de ninguém. Nem mesmo de Bolsonaro, apesar dos seus vômitos públicos de irresponsabilidade. O “E daí?” de Bolsonaro é apenas um degrau a mais, por ter sido dito em voz alta, para o grande “e daí?” histórico, permanente e persistente vivido pelos mais pobres ao longo de gerações e de Governos. Para alguns fiéis de determinadas igrejas neopentecostais, pragas do gênero já estão inclusive previstas na Bíblia. As doenças são em geral uma alegoria com muita ressonância numa população cada vez mais evangélica. A pergunta do Datafolha pode nem fazer muito sentido para uma parcela da população: como assim um presidente vai ter culpa por uma doença? Doença acontece, é fatalidade, quando não enviada por Deus para castigar a imoralidade reinante.

Isso é ignorância? Pode ser. Mas é principalmente sobrevivência, inclusive psicológica. Se você aceitou que a perda e a morte fazem parte do seu lugar no mundo, como fizeram parte antes do destino de seus pais e avós, o que importa é garantir a comida, o gás, o puxadinho para quem sobrar. Garantir os 600 reais. E quando os 600 reais acabarem? O amanhã é longe. Não há futuro para quem foi reduzido ao hoje. Se a maior parte da população está na condição de matável e de morrível —e isso nunca mudou, nem nos melhores anos do governo Lula—, qual é a surpresa no fato de que os 100.000 mortos não impactem negativamente na aprovação de Bolsonaro e que os 600 reais impactem positivamente? De novo, quem são os burros e os mal-informados?

Neste momento, há um debate sobre as variáveis. Bolsonaro cada vez mais se descola da agenda neoliberal de Paulo Guedes, com a qual de fato nunca se importou, era apenas seu passaporte para ter o apoio dos representantes do que chamam de “mercado” na eleição. Rifou meses antes Sergio Moro e a classe média que ele representava, isso quando o próprio Moro já tinha rifado antes sua reputação e levado para o esgoto um pedaço da Operação Lava Jato. A Bolsonaro interessa o poder e a proteção da sua família. E se o poder é o único princípio, nenhum problema em se unir ao Centrão no momento em que se vê acuado pela aproximação cada vez maior das investigações envolvendo Fabrício Queiroz, as rachadinhas no gabinete do filho zeroum e o envolvimento com as milícias do Rio. Há chances consideráveis de que em algum momento próximo Bolsonaro possa mesmo rifar Guedes e se tornar o novo pai dos pobres, fazendo a migração do auxílio emergencial para o Renda Brasil, mirando seus dedos de arminha na reeleição de 2022.

E a oposição? Bem, é preciso entender que quem fez a oposição mais efetiva à extrema direita de Bolsonaro foi a direita. O presidente do Câmara, Rodrigo Maia (DEM), assim como governadores até ontem aliados, como João Doria (PSDB), em São Paulo, e Wilson Witzel (PSC), no Rio de Janeiro. Hoje, com Bolsonaro fazendo os giros necessários para agradar a uma parcela dessa direita, Rodrigo Maia está confortavelmente sentado sobre a pilha de quase 60 pedidos de impeachment e chegou a dizer em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, que não vê Bolsonaro praticando crime nenhum que justifique a abertura de processo de impedimento no Congresso.

No Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, o ministro mais ligado à política partidária de direita e de centro-direita, passou meses batendo duramente no governo. Recentemente, alertou os generais de Bolsonaro sobre o risco de serem atingidos por denúncias de genocídio relacionadas à atuação deliberadamente catastrófica do Governo na covid-19. Dias atrás, porém, assinou uma decisão liminar considerando que Fabrício Queiroz, ex-PM e assessor do senador Flávio Bolsonaro, e sua mulher, Márcia Aguiar, têm o direito de cumprir prisão em casa em vez de na cadeia. Decisão bastante incomum dada a trajetória do casal, ele escondido por meses e ela foragida. Por coincidência —ou não—, a decisão vem num momento em que as investigações por corrupção e envolvimento com milícias chegam mais perto de Bolsonaro, mas ele faz acenos a partidos como o MDB de Michel Temer, seu mais recente conselheiro, que chegou a ser enviado em missão oficial ao Líbano pelo novo amigo.

E a esquerda partidária? Esta não conseguiu fazer oposição efetiva até hoje. Enquanto parte da direita dá sinais de estar se acertando com a extrema direita bolsonarista, o PT não consegue se acertar com a esquerda nem para disputar a Prefeitura de São Paulo nas próximas eleições municipais. Com a ameaça de o Renda Brasil substituir o Bolsa Família na memória da população, os petistas se moveram para estimular a memória do povo. A realidade mostra, porém, que memória curta é questão de sobrevivência para grande parte da população. Num país em que uma renda de 600 reais por mês é a maior alcançada por dezenas de milhões de pessoas numa vida inteira, o que se pode esperar? Vivem como se não houvesse amanhã porque há mesmo grandes chances de não haver.

Se a direita se acertar com a extrema direita, ainda que momentaneamente, o Brasil vai viver uma situação inédita: no pior Governo da história da República, com quatro petições por crimes contra a humanidade perpetrados por Bolsonaro no TPI e mais de 110.000 mortos de covid-19 não haverá nenhuma oposição partidária. Sim, porque a esquerda está ocupada brigando entre si e fazendo oposição a si mesma.

Quando uma parte significativa da população aprova Bolsonaro e diz que ele não tem culpa nenhuma pela covid-19, essa parcela está fazendo a única política que conhece. Graças a essa adesão, Bolsonaro vislumbrou um caminho para ser reeleito e, pela primeira vez, cogita garantir sua popularidade distribuindo renda para os mais pobres. Justo ele, que foi o único presidente da redemocratização que não citou a redução da pobreza num discurso de posse, está revendo sua posição. Quem conseguiu esse feito? Não foi a oposição nem foi a esquerda. De novo e pela última vez: quem são os burros e os mal-informados?

É claro que se trata de Bolsonaro. Se ele vislumbrar outro caminho para garantir a reeleição, salvar sua família —e a si mesmo— das investigações ou para consumar o golpe de forma mais clássica, o Renda Brasil pode desaparecer do horizonte das possibilidades em um segundo. Da mesma forma, se ele mudar de conveniência, os novos amigos podem virar inimigos de novo em menos de 24 horas. No momento, porém, sem combinar entre si, mas combinados pela experiência dos séculos, os que só têm o dia de hoje para viver elogiam o coronel da ocasião, neste caso um capitão reformado que gosta de armas e de bombas, e o absolvem de todos os pecados. Esse cenário de adesão também pode mudar da noite para o dia, caso não exista algum tipo de continuidade do auxílio emergencial.

O mais surpreendente na pesquisa do Datafolha é justamente o outro lado: que, neste Brasil precarizado e povoado por desesperados, 52% da população ache que Bolsonaro tem alguma culpa pelos 100.000 mortos —a maioria— ou toda a culpa —uma minoria. Sinal de que as forças emergentes dos Brasis que seguem avançando pelas fissuras e pelas bordas têm se movido —e muito— por um país em que futuro não seja coisa de rico. Sinal também de que há muitos entre os mais pobres que, contra todas as estatísticas, se recusam a seguir reduzidos à exaustão dos corpos e vêm lutando ferozmente pelo exercício da solidariedade, pela responsabilidade coletiva e pelo direito ao futuro. E esta é uma notícia incrível, que aponta para a resistência.

Ainda um acréscimo: para quem chama os bolsonaristas e também os brasileiros pobres, que neste momento aprovam Bolsonaro, de “gado humano”, um aviso. A boiada, quando é brutalmente empurrada para o matadouro, sofre horrores, esperneia, os olhos parecem saltar das órbitas, se mija de pavor. Tenta desesperadamente escapar.

O que pode salvar o Rio e o Brasil


O telejornal Bom Dia Rio abre minhas manhãs quando quero me informar sobre a cidade e o estado. As notícias exigem estômago forte no desjejum. Fachel, o apresentador, se indigna, cobra, se solidariza com o povo. As denúncias, em cascata pestilenta, obrigam autoridades a se pronunciar. Não conheço bom dia assim em cidade nenhuma do mundo. Vamos rever os destaques.

Preso homem acusado de agredir modelo trans. Lucas Brito Marques, de 24 anos, conheceu a modelo num bar em Copacabana, foram para a casa dela e ali começaram as agressões. Ela ficou com o rosto desfigurado, fratura no maxilar e no nariz, hematomas. Lucas também roubou dinheiro da modelo. 

Filha descobre que pai internado com suspeita de coronavírus no Hospital Salgado Filho morreu há 50 dias e já foi até enterrado. Família diz que recebia mensagens do hospital de que o pai estava bem e estável. “Meu pai morreu no dia primeiro de julho e foi enterrado no dia 5 de agosto. Quem enterrou? Como enterrou, se os documentos dele estão comigo?”. O hospital diz que mandou telegrama para a família. 

Rapaz se queixa de que o tio morreu de AVC no Salgado Filho e a família só foi informada no dia seguinte. “Só agora estou recebendo a notícia da morte de meu tio, que ficou numa gaveta dois dias. A partir do momento em que alguém entra naquela porta (de emergência), nós não temos mais informação. Isso é um absurdo. É revoltante. Paciente tem uma família. Cada um desses brasileiros tem família. E a vida de cada um importa sim”. 


Família de bebê de seis meses, em tratamento de meningite no Hospital Getulinho, em Niterói, diz que a criança sofreu queimaduras dentro do hospital. As imagens chocam. A mãe foi avisada por uma amiga de que havia algo errado com a filhinha Juliana. “Vi que ela estava toda enfaixada. Perguntei a um e outro, ninguém falava. Um disse que eram umas bolhas que foram se alastrando. Aí a médica de plantão disse que contaram uma história bizarra, foi na hora do banho”. 

Do hospital vamos para a favela. Repórter: “A gente está sobrevoando Parque das Missões, em Duque de Caxias. Pessoal acordando, saindo para trabalhar. Olha o que o morador encontra no caminho até o ponto de ônibus. Barricadas e homens fortemente armados com fuzis, armas de guerra, só o porte já é considerado crime hediondo. Veja o rapaz à direita do vídeo. E não tem operação policial. Virou rotina”. Fachel: “Ao cidadão desavisado, prazer, Rio de Janeiro, prazer, cidadão. Não é só Pão de Açúcar, Cristo Redentor, calçadão de Copacabana. Essa é a parte do cartãozinho postal. Rio de Janeiro verdadeiro é isso aí. Todo dia na tela do Bom Dia Rio”.

Idoso preso por pedofilia. Homem de 65 anos organizava orgias com menores. Repórter: “Roberto Sardinha Oliveira foi preso em Campo Grande. Num imóvel em que funcionava um bar. Ele aliciava crianças para praticar relações sexuais em troca de presentes, roupas e dinheiro. Preso em flagrante com uma menina de 13 anos”. 

Homem de 60 anos preso por estuprar menina de 7 anos em Guaratiba. Era o marido da avó da menina. A cena de sexo oral foi flagrada pelo tio. O estuprador negou, disse que a menina escorregou e a cena “acabou acontecendo”. Quem denunciou foi a mãe. Repórter: “Chega a ser difícil noticiar um caso assim tão bárbaro mas isso é crime muito grave”. 

Volta às aulas. Governo do estado já decidiu: rede particular retorna 14 de setembro e pública em 5 de outubro. Pais e professores acham prematura a reabertura. Infectologista alerta que a letalidade no Rio, 86 mortos por 100 mil, é uma das maiores do mundo. “O Rio nunca fez o isolamento social necessário. É ilusão começar a comemorar, porque o patamar de contaminados e mortos só caiu de muito alto para alto”. Na China, a letalidade é de 0,40 por 100 mil e no Rio, 86 por 100 mil! 

Fraude no auxílio emergencial em Campos. Repórter: “Um condenado por tráfico de drogas, preso, já está na quarta parcela do auxílio. Outro, preso por homicídio, recebeu a segunda parcela”. Vinte e sete mil foragidos, condenados por roubos e homicídios, receberam o benefício da pandemia. Um prejuízo mensal de R$ 26 milhões para o povo. 

E ... para terminar... cadê o drone? O Hotel Copacabana Palace reabre com medidas de segurança, higiene. Luxo top no hotel das estrelas. 

Tá tudo errado, gente. Vamos zerar e recomeçar. Que tal uma oposição decente, séria e comprometida? Até os Estados Unidos do abominável Trump têm os democratas Biden e Kamala, apoiados pelo casal Obama e por republicanos antitrumpistas. Que inveja da consciência civil dos americanos. O joelho assassino de um policial no pescoço de um negro provoca a insurreição que o mundo viu. E aqui, nada.

Em nenhum lugar do mundo vejo esse desfile diário de horrores cotidianos. E olha, não adianta desligar a TV. O Bom Dia Rio é realidade na veia. Não só do Rio, mas de todo o Brasil. Tem saída? Sim. Passa por Educação e Saúde, não pelo Ministério da Defesa. Passa por saneamento, infraestrutura, arte e cultura, democratização da tecnologia. Não por mordomias imorais nos Três Poderes. Nossa guerra é pela dignidade de crianças e velhos. Só não enxerga quem não quer mesmo ver. Essa é a nossa única salvação. Vade retro, Damares.

Achamos que caetanear nos redime. É lindo, é odara, eu queria viver no Brasil do Caetano, mas é só uma bolha. Esse país estapeia e desfigura nossa cara. Todo dia. Vamos deixar?

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Brasil vesgo

 

Que interesse têm os pobres em distinguir Bolsonaro e Lula?

As elites econômicas e os mais pobres não costumam ter ideologia. As primeiras têm somente interesses, e os segundos, fome e desconfiança em todos os poderes. A diferença é que os mais pobres têm a riqueza e o desperdício diante dos olhos, enquanto os satisfeitos colocaram um véu sobre esse mundo da miséria para não vê-la. Eles o anulam dentro de si mesmos para não ter de ouvir seus gritos de raiva e se manchar com suas lágrimas.

Por isso, nem as elites da ganância nem os pobres de tudo costumam ter ideologia. Os poderosos porque estão bem com qualquer política que lhes permita manter seus privilégios. Os pobres porque a única coisa importante para eles é sobreviver. Qualquer Governo, de qualquer cor, será bem visto por eles se lhes fizer chegar as sobras da opulência e do desperdício. Ou será que conheciam a ideologia de Lula e hoje conhecem a de Bolsonaro? Basta-lhes a dor de cada dia.

Assim, os vários populismos de direita e de esquerda estão interessados em que a pobreza não acabe para poder oferecer, em troca de votos, os restos do banquete. Assim os mais necessitados não mostrarão as garras nem terão vontade ou tempo de se rebelar.


Por que acreditam que hoje, diante da pandemia, as classes altas têm mais medo do que as necessitadas, embora sejam estas as que mais morrem? Porque a vida para os mais pobres conta pouco. Estão acostumados a ser sempre os mais sacrificados e esquecidos à própria sorte. Existe um ditado que me espantou quando cheguei ao Brasil, que ouvi de um trabalhador pobre e semianalfabeto: “Pobre tem que morrer”.

Esses pobres estão anestesiados por tanta violência e discriminação acumulada ao longo da vida. Os ricos e os mercados estão interessados nas massas apenas como consumidoras. É por isso que os Governos mais populistas preferem lhes dar eletrodomésticos em vez de cultura e educação. Os supermercados os anestesiam.

Às vezes nos queixamos de que os pobres são passivos, que não se rebelam contra a injustiça. Sem dúvida, se aqueles que vivem apinhados nos guetos das grandes cidades, esmagados entre a violência do tráfico e do Estado, decidissem descer à planície, à cidade da riqueza e das casas blindadas, fariam tremer o sistema. Mas estão ocupados demais em poder colocar comida nos pratos de seus filhos todos os dias.

Do tempo dos romanos até hoje os pobres são acusados de se contentar com “pão e circo”. Será que o Estado de bem-estar social lhes oferece algo mais? Garante-lhes, pelo menos, conforme exige a Constituição, trabalho, habitação, saúde e educação de qualidade?

Assim, ocupados como estão com a sobrevivência, muitos não têm tempo nem forças para as batalhas políticas e sociais. O que a liberdade ou a democracia significa para eles? O que mais entendem é sobre escravidão. E o capitalismo cada vez mais feroz que domina nossa sociedade os entretém e os compra com pedaços de espelho como fizeram os primeiros colonizadores com os nativos ou os traficantes negreiros com os escravos.

Passam os séculos, a tecnologia avança e o homem começa a conquistar o cosmos, mas os pobres continuam sendo o alvo do atraso e da violência. Todo o resto: ideologia, democracia ou ditadura escorrega sobre seus ombros curvados pela ignomínia das escravidões e por tantas violências acumuladas.

Como escreveu com lucidez há poucos dias Carla Jiménez, responsável por esta edição brasileira do EL PAÍS, em uma doída análise da situação atual, para muitos dos milhões à margem da sociedade a diferença entre ideologias opostas é apenas “um risco de giz no chão que se apaga a cada invasão policial injustificada, ou nos soterramentos de barracos improvisados”.

Para os mais pobres, Bolsonaro ou Lula podem ser igualmente os novos deuses daqueles que esperam alívio ao seu inferno ou dois políticos corruptos como todos. Sabemos que não é verdade, mas para quem tem fome e sofre violência e desprezo há séculos, nossas categorias políticas não servem. Eles vivem mais olhando para o chão do que para as estrelas, com medo de perder as sobras que lhes jogam do alto do poder.

Que não se esqueçam disso os políticos, que nas horas dramáticas como as que o Brasil vive tentem mais uma vez envenená-los com falsas promessas, porque os pobres têm boa memória e saberão, na hora certa, unir suas forças, suas frustrações e injustiças atávicas e fazer ouvir sua voz. E poderiam fazer tremer nossa frágil segurança burguesa bordada sobre os escombros de uma civilização cada vez mais cruel que dá as costas à tragédia vivida por todos os discriminados. Eles são tristemente a grande maioria deste país rico e criativo que deveria ser de todos e que um punhado de poderosos sequestrou e colocou de tapete a seus pés.

Rumo ou deriva?

Os brilhantes almirantes junto a Jair Bolsonaro podiam explicar ao capitão do Exército que um azimute constante em relação a um obstáculo (outro navio, por exemplo, que também está se movendo) vai dar em colisão. O presidente quer gastar para manter a popularidade, e está encantado com as vozes (do ministro do Desenvolvimento Regional, mas não só) que lhe dizem que estaria unindo o útil (reeleger-se) ao agradável (fazer o bem para pessoas ainda mais necessitadas

O obstáculo é o formidável rochedo fiscal, que está aumentando de tamanho. À medida que 2021 se aproxima, fica próximo do irresistível esse canto da sereia de que a excepcionalidade atual imposta pela calamidade pública podia ser esticada um pouquinho mais, só um pouquinho mais, só para algumas obras já orçadas, já iniciadas, necessárias até por razões humanitárias (como levar água para o Nordeste, por exemplo).


Sim, esse argumento procede, tem sólidos fundamentos num país miserável no qual metade da população nem esgoto tem. Sim, as circunstâncias da dupla crise de saúde e economia obrigam a mudar os cálculos (políticos, sobretudo), alteram prioridades (como reforma do Estado ou privatizações) e impõem gastar sem olhar para o fundo do cofre. Afinal, não é o que uma Angela Merkel está fazendo? Deixem os economistas debatendo entre si se esse “novo normal” jogou por terra tudo o que aprenderam na vida acadêmica, pautada ou não pela ortodoxia.

O problema no caso brasileiro, no qual Bolsonaro é uma expressão perfeita de mentalidades e atitudes generalizadas, é o conceito de excepcionalidade. Não há nada de novo no fato de a sociedade brasileira conviver com gastos públicos muito acima da capacidade do nosso espaço econômico de financiá-los. Ao contrário, é o que estamos fazendo há décadas. Também não é novidade alguma o fato de que nos acostumamos a acomodar interesses setoriais e regionais espalhando pela nação inteira os custos dessas acomodações – traduzindo: benefícios, renúncias, incentivos, proteções, privilégios, regimes especiais, a gritante diferença entre o emprego público e o privado.

Circulam no Congresso, e no Planalto, números dando conta de que mais da metade dos 60 milhões de brasileiros que recebem ajuda emergencial acredita que ela será permanente e que a quase totalidade dessas pessoas não está preparada para o momento em que essa ajuda cessar. Para montar já para o ano que vem um grande programa social para Bolsonaro chamar de seu o ministro da Economia, Paulo Guedes, precisa sentar com o Congresso e decidir no que mexer nos R$ 350 bilhões de isenções tributárias – ou seja, onde cortar nas “acomodações” tão ao gosto de nossa sociedade.

Com TCU, STF e o presidente da Câmara dos Deputados avisando que puxadinho no teto de gastos não passa, e que a abertura de créditos extraordinários via MP também não, é com o Centrão que Bolsonaro terá de se entender. O começo dessa relação parece auspicioso: as “novas” lideranças políticas abraçadas pelo presidente garantem a ele governabilidade e a agradável sensação de que o pior da crise ficou para trás, agora que vamos gastar. Convenientemente, ignora-se o fato de que o fisiologismo, que azeita o que for necessário em Brasília, é dono de insaciável apetite (o que isso tem de excepcional?).

Some-se a isto um fator subjetivo muito elucidativo quando se considera a rapidez com que nos acostumamos ao número de mortos na pandemia (um horror em escala mundial): é a de que estamos aparentemente confortáveis dentro da excepcionalidade. Esses tempos “excepcionais” se parecem tanto à normalidade, deixando de lado a chateação das máscaras e as escolas fechadas, com as crianças azucrinando em casa.

Na ponte de comando em Brasília, muitas vezes paralisada por tantas mãos do Executivo, Legislativo e Judiciário mexendo no leme, traçar um rumo é notoriamente uma questão de alta complexidade e mantê-lo também, ainda mais com um “skipper” errático. Que está correndo o risco de confundir rumo com deriva.

Apagar o passado

A consciência demanda organizar o passado. Há muitas formas de lidar com o tempo. Em sociedades sem escrita, nas quais a morte de um velho seria equivalente à perda parcial de muitos fatos e mitos — algo próximo da destruição de uma biblioteca nacional —, trata-se de um desastre inafiançável. 

Será que um dia vamos conhecer nosso passado milenar? Ou existem passagens que simplesmente sumiram, como a poeira das galáxias e das nossas invisíveis almas?

O leitor pode se sentir incomodado pelo assunto. Eu, cronista enviesado, que, se não estou, devo ingressar na cavilosa lista dos antifascistas convictos, apenas reitero que muito do que fizemos é esquecido, senão propositadamente apagado, porque seria prova de incoerências, crimes, projetos hediondos e contradições incontornáveis, sobretudo em coletivos fundados na autoridade do pai, do rei, do supremo sacerdote ou do juiz.

Investigando nossas vidas, descobrimos coisas que apagamos e muitas outras que programamos esquecer. Quando esquecemos de boa-fé e eventualmente ferimos alguém, acertamos o mal-estar por meio de pedidos de desculpa ou perdão. No mundo jurídico-político anistiamos, formalmente suprimindo fatos passados. Reinterpretações desfazem e mudam o passado. Pedir desculpas, perdoar e anistiar “lavam a alma” e são passaportes para recomeços. Mas, para apagar ou esconder o passado debaixo do tapete, como é comum no Brasil, é necessário um penoso, discutível e complexo refazer histórico-social — tipo, como esquecer a ditadura militar. É preciso o autoritarismo forte presente para controlar, conforme sabia o Grande Irmão de George Orwell, o passado.

Eis dois episódios que agasalhei na memória. Ambos ocorreram com um professor, inglês até a alma, que havia programado um jantar de sexta-feira com a esposa e, ao chegar em casa, com ela desentendeu-se. Algo banal, como uma toalha suja, despertou ressentimentos e, com eles, um inesperado ódio expresso em memórias amargas e frases agressivas. Em meio à tempestade, porém, o marido abriu um parêntese similar a uma desculpa e denunciou o mal-entendido. “Querida”, disse, “isso não está acontecendo. Eu vou sair e entrar novamente em casa e nós vamos jantar conforme combinado”. E assim foi feito.



Um outro evento com o mesmo professor confirma, quem sabe, essa capacidade humana de desconstruir, cujo melhor e mais dramático exemplo é o elo entre paz e guerra. Depois de uma impecável conferência em impecável estilo britânico para uma plateia encantada numa universidade do sul dos Estados Unidos, fomos jantar com um colega que hospedou o conferencista. Na manhã seguinte, fui tomar café com o anfitrião, que perguntou ao professor num misto de curiosidade e provocação: “Eu acho”, disse, “que fui muito ofensivo ontem, não?” Ao que, com notável elegância, o professor retrucou: “O que ocorreu ontem foi tão desagradável, mas tão desagradável, que eu simplesmente apaguei da minha memória”.

Se fazemos, podemos desfazer. Democracias podem desandar em regimes policialescos que trazem do passado escravocrático um viés semelhante ao dos nazifascismos e estalinismos. 

Vivemos um momento no qual se acende um alerta de apagão político-moral que suspende o bom senso. A direita bolsonarista tem como simbólico um inacreditável terraplanismo — um contrassenso indicativo de uma postura, digamos o mínimo, radicalmente irracional. Na política, não há dúvida de que se quer um presidencialismo absolutista. Uma outra contradição que, ao lado de um patológico familismo presidencial, completa a negação de solenes promessas de campanha. 

Em suma: testemunhamos tentativas de apagar o dito que se transforma num não dito, incompatível com uma necessária estabilidade capaz de minar a autoestima e o respeito internacional, sobretudo em tempos de pandemia num mundo globalizado.

Se esquecemos as implicações morais da escravidão e as obrigações igualitárias da República, por que, como adverte o jornalista Carlos Alberto Sardenberg no GLOBO, não livramos, por meio de um apagão legal, o principal condenado da Lava-Jato, avocando que o magistrado foi parcial? 

Mas, se isso for admitido, como o plano da lei e o caráter dos magistrados ficam perante todos os condenados na mesma operação anticorrupção que ainda está em curso?

Para quem duvida que o autoritarismo protofascista nacional é avesso ao igualitarismo, seria cabível livrar somente o ex-presidente, quando todos os seus asseclas foram investigados por um mesmo magistrado? Para os leigos em jurisprudência, tal livramento seria mais um “Você sabe com quem está falando?” na área criminal. Sabemos que a realidade pode ser manipulada, mas, por isso mesmo, temos consciência de limites. Um deles é a morte ou, no caso, o supremo suicídio da estrutura jurídica nacional. Esse instrumento que sustenta o regime republicano num simples ideal: o de que todos são iguais perante a lei, no caso, os julgados e condenados...

Resta candidamente avisar que apagar passados impede construir futuros.
Roberto DaMatta

Pensamento do Dia

 

Sem caráter, como toda nuvem

A frase é conhecida: “Política é como nuvem —você olha e ela está de um jeito; olha de novo e já mudou”. Deve ter sido inventada na Europa do século 18, mas, no Brasil, é atribuída ao mineiro Magalhães Pinto (1909-1996). Em março de 1964, como governador de Minas Gerais, ele se passava por aliado do presidente João Goulart. No dia 31, sentindo a mudança na nuvem, partiu para derrubá-lo. Mas, ao contrário do que esperava, não ganhou nada com isso. Bem feito, quem o mandou estar com a cabeça nas nuvens?



Há políticos que mudam tanto que nem as nuvens os acompanham. Vide Jair Bolsonaro. Só os papalvos o acreditavam diferente, mas de hora em hora se parece mais com os políticos que fingia combater. Ao sentir, por exemplo, que suas bravatas o estavam isolando, fez como todos os governos antes dele —comprou o centrão, com ministérios, bancos e verbas. Uma das moedas dessa compra foi passar o pano em Michel Temer e mandá-lo oficialmente ao Líbano.

A Lava Jato, em nome da qual Bolsonaro se elegeu, tornou-se a inimiga a destruir, no que ele se juntou a Lula, José Dirceu, Gleisi Hoffmann, Temer, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Renan Calheiros, Romero Jucá e, agora, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, todos, por acaso, políticos cujas contas não fecham.

Há dias, José Sarney insinuou que deseja uma aproximação —que Bolsonaro, se for esperto, aceitará. Sarney é indispensável para qualquer governo que queira se garantir, motivo pelo qual Lula e Dilma Rousseff se deram tão bem com ele durante 14 anos. Bolsonaro, aliás, refreou seu desprezo pelo Nordeste e, como Lula, também decidiu garantir lá os votos para sua reeleição. Mas, para isso, terá de gastar dinheiro que não tem, no que ameaça ser acusado de irresponsabilidade fiscal, como Dilma.

Os bolsonaristas não elegeram um mito, como eles acreditam, mas uma nuvem —sem caráter, como toda nuvem.

A guilhotina do cancelamento

Devemos ao iluminismo do século 18 o direito ao dissenso e ao livre pensamento. Antes, as divergências de ideias eram resolvidas pela via da eliminação física. Basta lembrar os tempos da Santa Inquisição em que os hereges iam para a fogueira. Ou que em 1616 Galileu Galilei, cientista, físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano, entrou para o index da Congregação do Santo Ofício e foi ameaçado de pena de morte ao comprovar e defender a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico, segundo a qual a Terra e os planetas giravam em torno do sol. Teve de se desdizer publicamente, mas não deixou de estar certo.

A Revolução Francesa, com seus valores de liberdade, igualdade e fraternidade, abriu uma nova era, a idade da razão, produto do século das luzes. Os pensadores do iluminismo, John Locke, Montesquieu, Rousseau, Adam Smith, nos deixaram um legado inestimável.

Nem por isso, a sociedade moderna deixou de viver momentos de supressão das discordâncias das ideias pela via da violência, da eliminação física e da destruição de reputações. O nazismo alemão, a ditadura soviética, a revolução cultural chinesa, o macarthismo dos anos 50 nos Estados Unidos são exemplos disto. Ao final do século 20, com a derrocada do “socialismo real”, o ciclo do totalitarismo parecia ter se encerrado e os valores liberais pareciam ser os grandes vitoriosos.

Como a história não é linear, voltamos a viver novos retrocessos no século 21. A fogueira onde os “hereges” contemporâneos são queimados não é mais a do Santo Ofício. Nem a guilhotina que serviu para decapitar "inimigos da Revolução" em Paris. Hoje quem desempenha este papel são as redes sociais, onde o fenômeno da cultura do cancelamento reina livre, leve e solto.

Por meio dele, ataca-se a sobrevivência econômica de empresas e pessoas, destrói-se reputações de forma irreversível. Pratica-se um revisionismo histórico que ignora as circunstâncias de cada era, como se fosse possível analisar fatos acontecidos há mais de cinco séculos com a métrica e valores de hoje. Figuras históricas como Cristóvão Colombo, Monteiro Lobato e Princesa Isabel são submetidas ao crivo da nova inquisição.

Do ponto de vista ideológico, a cultura do cancelamento é pluralista. Identitaristas de esquerda e de direita a praticam exaustivamente. Um artigo da antropóloga Lilia Schwarcz sobre o álbum visual Black is King, da cantora Beyoncé, foi o suficiente para uma campanha de difamação deflagrada por movimentos negros, furibundos porque a antropóloga criticou o álbum por glamourizar a negritude. Levada ao pelourinho, teve de fazer o “mea culpa”, muito embora não haja uma só vírgula de racismo em sua análise.

Caso semelhante aconteceu com a autora da série Harry Porter, J.K Rowling, execrada nas redes sociais por ter dado uma declaração na qual dizia que havia diferenças biológicas entre o homem e a mulher. Não deu outra, foi acusada de machista e teve de se explicar publicamente.

A tática de atacar a sobrevivência das pessoas tem se mostrado eficaz. A influenciadora digital Gabriela Pugliesi teve prejuízo de 2 milhões de reais depois de ser cancelada por ter dado uma festa durante a pandemia. Nos Estados Unidos, um pesquisador contratado por uma consultoria progressista foi demitido por ter divulgado no twitter um estudo no qual mostrava que, nos anos 60, protestos antirracistas violentos aumentavam o percentual de votos nos candidatos republicanos e quando aconteciam de forma pacífica favoreciam os democratas nas eleições.



Em vez de refletir sobre o estudo, militantes da causa antirracista usaram as redes sociais para exigir a demissão do pesquisador, por ver em seu estudo uma crítica às manifestações em protesto ao bárbaro assassinato de George Floyd.

Uma frase infeliz, um gesto mal interpretado, são motivos para destruir reputações construídas ao longo de toda uma vida. O médico Drauzio Varella deveria ser uma unanimidade nacional. Em vez disso, foi vítima de uma campanha difamatória por ter dado um abraço numa transexual presa por assassinar e estuprar uma criança.

A cultura do cancelamento reproduz o que o macarthismo fazia nos anos 50. O clima de intolerância, de supressão do contraditório, tornou-se irrespirável. É preciso abrir as janelas para os ventos da liberdade reoxigenar a humanidade.

A carta de 150 intelectuais americanos das mais variadas tendências políticas, divulgada no mês passado, foi um sopro de esperança. Entre seus signatários estão personalidades de esquerda como o linguista Noam Chomsky, escritores como o consagrado Salman Rushdie, autor de Os Versos Satânicos e vítima da intolerância do fundamentalismo islâmico, ou a autora e roteirista de Harry Porter, J. K. Rowling.

Diz a Carta: “A livre troca de informações e ideias, força vital de uma sociedade liberal, tem diariamente se tornado mais restrita. Enquanto esperávamos ver a censura partir da direita radical, ela está se espalhando também em nossa cultura: uma intolerância a visões opostas, um apelo à vergonha pública e ao ostracismo e a tendência de dissolver questões políticas complexas com uma certeza moral ofuscante".

Os autores tocam num ponto nevrálgico. Não está em questão a justeza da causa dos direitos da mulher, dos negros, da diversidade de gênero, dos índios. Mas uma visão distorcida dessas causas findam por desservi-las ao segregar, em vez de unir. De certa forma, essa crítica já foi feita por Mark Lilla, em seu livro “O progressista de ontem e o de amanhã”. O antropólogo e historiador Antônio Risério também pôs o dedo na ferida ao apontar que movimentos que nasceram inclusivos se tornaram excludentes ao caírem no identitarismo.

O grande mal da cultura do cancelamento é seu reducionismo. O mundo é bem mais complexo do que o simplismo das redes sociais e suas guilhotinas.

O projeto conservador

Há 100 anos, o livro de um autor até então desconhecido, com 37 anos, fez estrondoso sucesso literário e político: Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. Escrito entre 1916 e 1918, levou dois anos para ser publicado, pela livraria José Olympio. Somente um intelectual da época ousou contestá-lo, Astrojildo Pereira, um dos grandes biógrafos de Machado de Assis, jornalista, crítico literário e anarquista, que se converteria ao marxismo e, dois anos depois, fundaria o Partido Comunista. O que dizia Viana? Ele definia três arquétipos para o povo brasileiro: o sertanejo, o matuto e o gaúcho, os quais pretendia analisar, desenvolvendo um projeto de pesquisa ambicioso, ao qual deu sequência com a publicação meteórica de mais quatro ensaios: O Idealismo da Constituição (1920), Pequenos Estudos da Psicologia Social (1921), Evolução do Povo Brasileiro (1923) e O Ocaso do Império (1924). O primeiro volume de Populações Meridionais do Brasil dedicou aos paulistas, fluminenses e mineiros; o segundo, ao campeador rio-grandense. Partia do homem para criticar as instituições da época.

“O sentimento das nossas realidades, tão sólido e seguro nos velhos capitães gerais, desapareceu, com efeito, das nossas classes dirigentes: há um século vivemos praticamente em pleno sonho. Os métodos objetivos e práticos de administração e legislação desses estadistas coloniais foram inteiramente abandonados pelos que têm dirigido o país depois da independência. O grande movimento democrático da Revolução Francesa; as agitações parlamentares inglesas; o espírito liberal das instituições que regem a república americana, tudo isto exerceu e exerce sobre nossos dirigentes, políticos, estadistas, legisladores, publicistas, uma fascinação magnética que lhes daltoniza completamente a visão nacional dos nossos problemas. Sob esse fascínio inelutável, perdem a noção objetiva do Brasil real e criam para uso deles um Brasil artificial e peregrino, um Brasil de manifesto aduaneiro, made in Europa, sorte de Cosmorama extravagante. Sobre o fundo de florestas e campos, ainda por descobrir e civilizar, passam e repassam cenas e figuras tipicamente europeias.”


Oliveira Viana faz um ataque frontal aos liberais brasileiros, corroborado pela iniquidade social que havia sido desnudada por Euclides da Cunha, ao descrever a Guerra de Canudos, n’Os Sertões. Concluía que era preciso “coragem infinita” para “contravir ostensivamente às ideias de liberdade e construir um poderoso Estado centralizado, capaz de impor-se a todo o país pelo prestígio fascinante de uma grande missão nacional”. Ao dizer que era impossível reproduzir aqui no Brasil o parlamentarismo inglês, o liberalismo democrático à francesa, ou o federalismo e descentralização republicana ao estilo americano, como lembra o falecido jornalista e cientista político Gildo Marçal Brandão, em Linhagens do Pensamento Político Brasileiro (Hucitec), Oliveira Viana recomendava uma intervenção radical pelo Estado, destinado a promover a industrialização e criação de bases sociais aptas a sustentar governos liberais, o que alguns viram como uma espécie de “autoritarismo instrumental”.

Música para a jovem oficialidade do Exército, que daria início às rebeliões tenentistas, e para o castilhismo gaúcho, o suprassumo do nosso republicanismo positivista mais autoritário, que desaguariam na Revolução de 1930. A consagração das ideias antissistema de Oliveira Viana viria com o Estado Novo, do qual foi o grande ideólogo, e a “Polaca”, a Constituição de 1937, redigida por Francisco Campos e outorgada pelo ditador Getúlio Vargas. Ironicamente, Jorge Caldeira, em História da Riqueza no Brasil (Estação Brasil), destaca que o colapso político da República Velha interrompe mudanças importantes que estavam em curso, alavancadas por nosso mercado interno e a economia do sertão, como o aumento de rentabilidade da exportação de café, a grande acumulação de capital dos cafeicultores paulistas, que apostaram na industrialização, e não no patrimonialismo, ao contrário das oligarquias rurais que Viana enaltecera.

Segundo Caldeira, em 1920, o Brasil tinha 30 milhões de habitantes, 13,3 mil indústrias, 275 mil operários, produzia 775Gwh de energia elétrica. O Correio transportava 642 milhões de itens. Havia 28,5 mil quilômetros de ferrovias, que transportavam 16,5 milhões de toneladas. Os investimentos, estagnados durante a guerra, eram de 1,1 milhão de libras esterlinas e chegariam a 2,8 milhões, em 1929. Exportava-se 11,5 milhões de sacas de café, cujo rendimento era de 40,4 milhões de libras esterlinas. O percentual da população alfabetizada chegava a 28,8%. Era uma época em que o Estado arrecadava 6% do PIB, ou seja, o setor privado ficava com 94%. A União era responsável por 3,5% desse montante, os Estados com 2,% e os municípios com 0,5%. O país crescia graças ao desenvolvimento capitalista, a conexão entre a economia do sertão e a economia de exportação financiava a industrialização.

Entretanto, o Centenário da Independência desencadearia o questionamento de quase tudo, com a Semana de Arte Moderna, a criação do Partido Comunista, as rebeliões tenentistas, como a Revolta Paulista de 1924 e a Coluna Prestes, no mesmo ano. Qual seria o projeto de país para os 100 anos seguintes? À época, esse debate foi hegemonizado pelas ideias de Oliveira Viana, que tiveram sua grande recidiva após o golpe de 1964, no Sesquicentenário da Independência, no auge “milagre econômico” do regime militar. Agora, no governo Bolsonaro, a dois anos do bicentenário da independência, elas parecem renascer das cinzas, como fênix, diante da grande interrogação: que país seremos daqui a 100 anos?

'A revolução dos bichos' de Orwell: quem são os porcos?

A fábula de George Orwell se passa numa fazenda: "O Sr. Jones, proprietário da Granja do Solar, fechou o galinheiro à noite, mas estava bêbado demais para lembrar-se de fechar também as vigias".

É com palavras simples que o britânico George Orwell (1903-1950), cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair, começa sua narrativa sobre os animais de uma fazenda que planejam uma revolução contra o proprietário explorador. O mestre da crítica social jamais poderia imaginar que A revolução dos bichos se tornaria um clássico da literatura política.

Orwell escreveu o livro entre fins de 1943 e 1944. Em seu país natal, porém, ele não encontrou nenhuma editora que o publicasse, pois o que a princípio parecia uma história infantil inofensiva era, na verdade, uma sátira sombria e uma dura acusação contra a ditadura de Stalin na União Soviética.

E como a URSS era aliada do Reino Unido contra a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial ainda em curso, a publicação de tal história não parecia nada oportuna. Em 1945, Animal Farm foi finalmente lançada pela Secker & Warburg.

E de que trata a fábula? Com um discurso impressionante, o idoso e respeitado javali Velho Major abre os olhos dos animais da fazenda para a incompetência do proprietário Sr. Jones, um fazendeiro constantemente bêbado, e classifica os humanos como exploradores que precisavam ser expulsos por uma revolução. Mas ele também adverte sobre o risco de se tornar igual aos humanos: "Todos os animais são iguais, independentemente de sua força ou inteligência."

Quando o Velho Major morre logo após o discurso, os animais aproveitam a oportunidade para expulsar o fazendeiro Jones da fazenda, sob a liderança dos porcos Napoleão e Bola de Neve. No começo, todos os animais governam juntos e tudo fica melhor: eles trabalham duro porque trabalham para si próprios e são solidários uns com os outros.

A Granja do Solar é então rebatizada Granja dos Bichos. Os espertos porcos, porém, logo assumem o comando e gradualmente transformam sua supremacia em ditadura, ofuscando tudo aquilo de que os animais queriam se livrar. Os porcos justificam seu poder com o slogan: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros".

As diferenças entre humanos e porcos como governantes se diluem no final do romance – também de forma visual. Os outros animais da fazenda não conseguem mais reconhecer quem é gente e quem é porco, ou quem é capitalista e quem é socialista.

A revolução dos bichos descreve o curso de uma revolução condenada ao fracasso. Orwell acreditava que as revoluções são capazes de mudar o poder de mãos. As estruturas sociais básicas, entretanto, permanecem intocadas: os poucos poderosos continuam a explorar uma maioria sem direitos.



A revolução dos bichos foi estritamente proibida na União Soviética e seus Estados-satélites. E no entanto George Orwell era um esquerdista convicto: membro do Partido Trabalhista Independente inglês, que na Guerra Civil Espanhola chegou a lutar nas fileiras do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), um grupo comunista visto como concorrência pelo stalinismo soviético.

A primeira tradução alemã do livro apareceu em 1946. Na República Democrática da Alemanha (RDA), no entanto, o livro extremamente desconfortável permaneceu censurado até a queda do Muro de Berlim e a dissolução da Alemanha Oriental, em 1989, assim como outra obra de Orwell, 1984.

Após a morte de Orwell, em 1950, o serviço americano de inteligência CIA comprou os direitos do filme para ganhar vantagem contra a União Soviética na Guerra Fria. O desenho animado A revolução dos bichos foi produzido no Reino Unido entre 1951 e 1954 por John Halas e Joy Batchelor.

Embora guiando-se basicamente pelo original, o enredo desemboca numa segunda revolução contra o domínio dos porcos. Afinal, em plena Guerra Fria, a CIA dificilmente deixaria capitalistas e socialistas em condição de pé de igualdade, como Orwell fez no final do romance.

Na adaptação cinematográfica de 1999, John Stephenson mudou o enredo consideravelmente ao incorporar o colapso da União Soviética em 1989 e terminar com um final feliz próprio para crianças: após anos sob o domínio dos porcos, novos humanos reassumem o controle da fazenda. Os animais gritam: "... e finalmente ficamos livres!"

Com seus livros, o jornalista e escritor britânico George Orwell queria chamar a atenção para as mazelas políticas, muitas vezes empregando para tal a forma de sátira. A revolução dos bichos e 1984, publicado em 1949, estão entre suas obras mais famosas. Neste último, ele também demonstrou o que significa viver num Estado autoritário em que há vigilância total e onde os cidadãos são manipulados pela propaganda.

A revolução dos bichos é uma fábula que se encaixa em qualquer sistema totalitário. E que, apesar de seus 75 anos de existência, permanece tristemente atual.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Pensamento do Dia

 

Em defesa do livro

A proposta de incluir a taxação do livro na reforma tributária, como quer o ministro Paulo Guedes, encarecendo em até 20% o preço de capa do exemplar, continua provocando reações. Para Ricardo Ramos Filho, presidente da UBE (União Brasileira de Escritores), a medida conspira contra os objetivos de desenvolver e aumentar a competitividade do país no cenário internacional.

O êxito nessas metas depende substancialmente da formação cultural e técnica que é impossível sem o acesso amplo à leitura, que não deve ser um privilégio, mas uma prerrogativa de toda a população.


Mais grave do que a própria proposição é a justificativa do ministro, de que “livros são artigos para a elite”, e o governo “os dará de graça aos pobres”. Ricardo Ramos conclama o poder público em todas as instâncias e a sociedade a se conscientizarem de que o valor dos livros diz respeito também à construção da cidadania. Além disso, a aparente generosidade oficial traz embutida uma sutil forma de doutrinação: o governo doa não só os livros, como o que se deve ler.

Mas eis que o colunista Lauro Jardim descobriu que as editoras têm um aliado de peso para não deixar que a reforma tributária de Paulo Guedes acabe com a isenção de impostos dos livros — a bancada evangélica. Ele explica: “em suas várias versões, a Bíblia continua sendo um dos livros mais vendidos do país, ano após ano”.

Não por acaso, ele classificou essa ajuda de “divina”.

Já o documento oficial da União Brasileira de Escritores, depois de considerar essas questões, termina manifestando sua “indignação” ante a proposta de tributação dos livros, que ameaçaria de modo grave a sobrevivência do setor, afetando editoras, livrarias e gráficas, em especial as pequenas, atingindo de modo contundente o mercado de trabalho e a renda de autores e demais profissionais.

Trata-se de um governo coerente: assim como nega a ciência e despreza a cultura, valoriza as armas e taxa os livros.

Confissão do latifúndio

Por onde passei,
plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.

Por onde passei,
plantei
a morte matada.


Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada…

Por onde passei,
tendo tudo em lei,
eu plantei o nada.
Pedro Casaldáliga 

O integralismo no poder

Culto à personalidade. Estímulo à compreensão messiânica da liderança. Forja de inimigos artificiais. Discurso autocrático, antiliberal e anticomunista, de fé nacionalista, embocadura cristã e musculatura miliciana para o confronto. Fetiche com a projeção fálica de uma intervenção militar. Constituição de uma máquina panfletária para difundir teorias conspiratórias. Críticas doutrinárias à democracia, propositalmente confundida com o (criminalizado) establishment e entendida mesmo como empecilho; sendo necessário — em nome de uma nova política — destruir os padrões viciados da atividade político-partidária.

A que me refiro? Estarei incorrendo em repetição, mais uma vez esmiuçando o caráter da revolução reacionária bolsonarista? Sim e não.

Sim; porque esses elementos compõem o sistema de crenças do bolsonarismo, com sua pulsão de morte e a incapacidade de lidar com a liberdade senão como condição para impor os próprios modos. E não; porque me dediquei a listar somente estandartes do “Estado integral” segundo a doutrina do integralismo — o maior movimento de extrema-direita da História do Brasil até hoje, cuja influência tem assento no governo Bolsonaro e integra o pensamento do dito grupo ideológico, que prefiro chamar de sectário, aquele, poderoso, olavista, que toca a tal guerra contra o tal marxismo cultural.



Integralismo em 1932: algo novo — atraente para a juventude — numa sociedade intolerante (pautada pelo autoritarismo de Vargas) e amedrontada; o clima de medo (o perigo vermelho) impulsionando a adesão e o financiamento ao movimento. O ideal “Deus, pátria e família” encarnado no chefe nacional Plínio Salgado; o líder para o exercício do que seria uma democracia orgânica — que prescindiria das intermediações da democracia representativa.

Bolsonarismo em 2018: algo novo — sedutor para os jovens — numa sociedade intolerante (condicionada pelo espírito do tempo lavajatista) e amedrontada; o clima de medo (o Foro de São Paulo à espreita) impulsionando a adesão e o financiamento ao fenômeno. O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” encarnado no mito Bolsonaro; aquele que fala diretamente ao povo, líder para o exercício do que seria uma democracia plebiscitária — que tornaria desnecessária qualquer mediação político-institucional.

Em 1969, o integralismo — obcecado pelo controle das formações individuais — seria o agente político que implementaria a disciplina de Educação Moral e Cívica no país. Em 2020, o integralismo domina — não à toa, como base estratégica para a reconstituição de uma fantasiosa civilização brasileira —o Ministério da Educação; e também a pasta dos Direitos Humanos.

O mais antigo alerta — ao menos para este escriba — sobre as semelhanças entre o bolsonarismo e a tradição integralista foi do publicitário Alexandre Borges, notável conhecedor da dinâmica política dos anos 1930, cuja natureza autoritária desaguaria na ditadura do Estado Novo. Ele me chamava a atenção para o caráter militarista do integralismo — aliás, muito aderente entre militares — e para a importância, no esquema do movimento, da milícia integralista, que conjugava serviço de informações e planejamento para operações policiais; que, na prática, resultaram em ações armadas tanto quanto nos fundamentos do que seria a Lei de Segurança Nacional.

Ainda no final de 2017, diante do fosso de oportunidades aberto pela depressão política que nutria discursos que costuravam elogio à autoridade e desprezo à atividade político-partidária, Borges informava que estudar apenas a emergência do nacional-populismo nos EUA e na Europa, embora necessário, não bastaria; e que seria mesmo preciso olhar para dentro, para a história do integralismo, a experiência fascista brasileira, com seu ímpeto para o golpismo, se quiséssemos compreender o conjunto de valores reacionários — cultura enraizada em quase século — que anima e lastreia o bolsonarismo. (E que não nos enganemos sobre a guinada circunstancial — com objetivo em 2022 —que leva Bolsonaro a uma quadra mais populista que autoritária.)

Há dois livros novos a respeito na praça. “O fascismo em camisas verdes”, de Leandro Pereira Gonçalves e Odilon Caldeira Neto, publicado pela FGV Editora. E, pela Planeta, “Fascismo à brasileira”, de Pedro Doria. São trabalhos fundamentais, muito bem pesquisados (o de Doria, ademais, um thriller), que tiram da estante do exotismo, como se passagem irrelevante de nossa história, um movimento que — desde a década de 1930 — nunca deixou de estar entre nós; muito articulado, por exemplo, tanto à TFP quanto aos skinheads brasileiros, cujo tripé misoginia, racismo e homofobia é facilmente identificado no DNA do que se convencionou chamar de nova direita no Brasil.

Duas obras que retratam o integralista como uma espécie de soldado de Deus e da pátria, responsável pela construção de uma grande nação; o que seria destino indesviável deste país. Não é uma fotografia de época.

Justiça alemã decide que recolher comida do lixo é roubo

Após meses de disputas judiciais, o Tribunal Constitucional da Alemanha decidiu nesta terça-feira  que a prática de recolher comida do lixo pode ser punida como roubo.

O caso em questão teve início em 2019, quando duas estudantes foram apanhadas recolhendo alimentos do contêiner de lixo de um supermercado da Baviera. Como o recipiente estava trancado e pronto para a coleta, a Corte Suprema do estado classificou a ação como roubo.


As jovens, Caro e Franzi, foram condenadas a cumprir oito horas de serviços à comunidade em liberdade condicional e receberam multa de 225 euros. Em novembro, elas recorreram junto ao Tribunal Constitucional. "Não prejudicamos ninguém", alegaram, ressaltando que o supermercado não tinha mais interesse nos itens, que simplesmente apodreceriam no lixo.

As duas ganharam o apoio da ONG Sociedade para os Direitos de Liberdade (GFF, na sigla em alemão), que se propõe a defender nos tribunais casos referentes a direitos e liberdades individuais. De seu ponto de vista, coletar comida jogada fora não representa prejuízo para a sociedade.

O contêiner estava numa zona de entregas do supermercado, pronto para ser recolhido. Segundo os juízes, as estudantes o abriram usando uma chave de boca que haviam trazido.

As acusadas alegaram que o supermercado não tinha interesses digno de proteção na comida descartada, portanto seria inadequado criminalizar a retirada dos alimentos. Além disso, seria necessário o manejo responsável e sustentável dos alimentos, com vistas ao bem comum. O desperdício maciço e, em muitos casos, evitável, é nocivo à sociedade, argumentaram.

O Tribunal de Karlsruhe não aceitou a apelação apresentada pelas duas jovens. Segundo os juízes, a legislação deve "proteger os direitos fundamentais de propriedade civil previstos na lei, mesmo em termos de itens sem valor econômico".

O supermercado em questão, como proprietário dos alimentos, pretendia que os itens fossem destruídos pela empresa de coleta de lixo "de modo a excluir qualquer risco de responsabilização pelo consumo de alimentos parcialmente expirados e possivelmente também estragados", segundo a decisão da corte. Portanto, esse interesse do estabelecimento de não ser exposto a deveres de diligência adicionais pela segurança dos alimentos deve ser fundamentalmente aceito.

Os juízes sugeriram que deveria haver meios de lidar com o desperdício de comida de maneira diferente, mas ressalvou não caber à Justiça avaliar o melhor modo de fazê-lo, e sim ao Legislativo.

A Sociedade para os Direitos de Liberdade em Berlim declarou que "a decisão deixa claro que os políticos devem agir" para mudar as leis. Punir "quem resgata alimentos comestíveis do lixo" iria de encontro ao objetivo declarado do governo federal de evitar o desperdício de alimentos, criticou a entidade.

Sobre o horror

Não sei o que é mais assustador: as linhas em branco ou a escuridão absoluta. Talvez seja uma questão do momento. Abro o computador e leio sobre a confusão em frente ao hospital em que uma menina de 10 anos está internada. Ela está lá para fazer um aborto legalmente amparado, ressalto, embora não devesse ter a necessidade em tempos novos. Ela foi estuprada pelo tio por quatro anos, ou seja, desde os 6 anos de idade. A confusão se deu pois grupos foram protestar contra o procedimento. Chamaram a menina e os médicos de assassinos e houve tentativa de invasão ao local. Uma menina de 10 anos grávida após anos de abuso sexual. Quem lê estas linhas provavelmente já está ciente do caso. Repito, porque a atrocidade, a vileza que empesteia a mente e os atos dos que se julgam guardiões da moral me choca a quase um nível de incredulidade. Não deveria me espantar em tempos reacionários, mas ainda é difícil. É duro acordar para este mundo.



Encaro a esperança como uma página vazia. Algo que devemos preencher e ser preenchidos de volta. É inútil desejar uma melhoria sem pôr a cara a tapa. Sem ter a força para permanecer em pé enquanto apanhamos das dificuldades. É preciso ter muita presença de espírito, casca grossa e um par de sapatos de corrida confortáveis. A realidade em meio a ódio e incerteza testa, e clama por nosso pior lado. Que quer desistir, que quer bater sem saber o motivo, que deita em posição fetal. Qual é o manual de condicionamento mental para proteger da loucura alheia, que sussurra para a sua loucura de estimação? Se só acaba quando termina, como saberemos que este é o fim, meu belo amigo? Santo Rocky Balboa, rogai por nós.

Revi “Apocalypse Now”. A versão “redux”, de 3h22, que considero mais imersiva em seu tema. Mais do que um filme de guerra, é uma alegoria para o enlouquecimento em seu estado mais selvagem. A fala do destruído coronel Kurtz ecoa: “O horror… O horror…”. A cena real é paralela à encenação fílmica. Um ambiente de caos, em que líderes absolutos brotam de dentro da selva e sacrificam os seus por causas pessoais. O horror e o terror moral são amigos, em que o coração é usado para amar e matar. É impossível descrever de forma adequada o horror. Talvez daí minha reação estática, de congelamento, quando me deparo com aqueles que preferem estupro e a morte de uma criança em nome de um propósito escuso. O exército de Kurtz se transfigurou nesses que acamparam em frente a um hospital em busca de sangue. A tela escurece.

A crônica inicia o último round. Escrever é dar uma mão em uma terra desesperada. A quem, não sei. A zona de guerra que habitamos são linhas em branco que formam a narrativa humana. O autor preenche a página com letras e espaços. Como o ser humano o faz? A comoção instantânea ou parcial não tapa sequer os buracos entre os dentes. Hoje a tragédia da menina comove, com razão. Entretanto, há o mesmo sentimento quando uma mulher mais velha é abusada e desacreditada? O ato é o mesmo. As reações, no entanto, divergem. Enquanto não se há empatia, se pôr no papel de quem sofre, apenas explodimos bombas retóricas a esmo e acertamos inocentes. Como a crônica, terá uma função de ser preencher um espaço e sumir. Seu único amigo é o fim, assim como este o é para a tristeza e a raiva. O que assusta é preenchimento pela escuridão absoluta. O momento de ocupar de outra forma os espaços não deve se restringir ao agora. Deve ser sempre.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Brasil infanticida

 

Mais armas, menos livros

O governo quer gastar mais com militares do que com estudantes em 2021. O plano é coerente com a trajetória de Jair Bolsonaro. O capitão foi para a reserva há 32 anos, mas nunca tirou os pés do quartel. Na política, sempre atuou como um sindicalista da farda.

O Brasil não está em guerra e não tem motivos para se preocupar com as fronteiras. Mesmo assim, o Planalto pretende aumentar as verbas do Ministério da Defesa em 49% na comparação com o projeto de Orçamento enviado ao Congresso no ano passado.

Segundo o jornal “O Estado de S.Paulo”, a pasta deverá receber R$ 5,8 bilhões a mais do que o Ministério da Educação. Isso não ocorre há uma década, quando o investimento nas salas de aula ultrapassou as despesas com a caserna.

Desde que vestiu a faixa, Bolsonaro mima as Forças Armadas com vantagens e privilégios. Os militares foram poupados na Reforma da Previdência, ocuparam dez ministérios e abocanharam mais de seis mil cargos civis. Em julho, ganharam reajuste de até 73% num penduricalho incorporado ao contracheque.


O presidente não desgruda da tropa. É arroz de festa em posses, aniversários e formaturas de cadetes. Na última viagem ao Rio, ele visitou três quartéis e inaugurou uma escola cívico-militar. Em todos os compromissos, levou a tiracolo o ministro da Educação, Milton Ribeiro.

Na sexta-feira, capitão e pastor se deixaram fotografar diante do escudo do Bope. O emblema é composto de uma caveira, uma faca e dois revólveres. A simbologia perfeita do bolsonarismo, que exalta as armas e despreza o conhecimento.

Nem a pandemia convenceu o governo a dar prioridade à educação. Ontem o MEC anunciou um plano para levar internet a alunos de universidades e institutos federais. Levou cinco meses para notar que estudantes pobres não têm banda larga em casa.

Agora o Ministério da Economia quer taxar a venda de livros, isenta de impostos desde 1946. O novo encargo ameaça sufocar editoras e livrarias. Paulo Guedes não se importa. Em debate com parlamentares, ele sugeriu que ler é passatempo de rico.

O efeito bumerangue da reeleição

O pobre é aquele desamparado ser humano que mais transfere seu poder ao político. As maquinações que a política faz com seus sentimentos são dramáticas. Seu maior inimigo no Brasil é a reeleição. Originária da década de 1990, como o Plano Real, se este mirou longe como um telescópio, a reeleição é sombria como um microscópio.

Cada vez que alguém se reelege, tudo piora. Como outra vez agora, que depois de injetar 1.3 trilhões na economia e de enterrar mais de 100 mil eleitores em cinco meses, sobe três pontos nas pesquisas e conta com a reeleição para fazer pior por mais quatro anos.

Sustentada pela preguiça de nossos costumes, a reeleição esgotou todas as possibilidades de a política pretender servir ao bem comum por meios melhores. E fantasiosamente transformou pesquisa de opinião, em qualquer época, em fator de reeleição. Porque é tal a super cobertura do fenômeno que qualquer situação inelegível é incluída na análise.

Fabrique o exótico, amplie o familiar. O conjuntural virou estrutural e o oportunismo das coalizões virou jogada de mestre, escondendo a corrupção de costumes embaixo da cooptação eleitoral do governante no poder.

As consequências metodológicas disso nas ciências sociais e políticas foram terríveis. Acertar o que vai acontecer passou a devorar qualquer análise de fatos e realidade. E a imagem que os institutos de pesquisa passaram a ter de si mesmo passou a ser a de ator político reduzindo tudo a explicação psicológica e fatores de ordem pessoal.

Reeleição então é um conjunto aquiescente de respostas de entrevistados não querendo decepcionar entrevistadores para fixar o valor apurado do eleitor. Pura e facciosa especulação.



O fato sucessório, como única experiência comum que interessa à análise política, introduziu um erro padrão no acompanhamento da gestão governamental que é analisar o desempenho do Executivo pelo viés eleitoral. Como se bom para o país fosse o sujeito que planeja outro filho, sem ter sido capaz ainda de criar bem o que já tem.

Reeleição é regra artificial cuja importância é a auto-importância que a política se dá, um esteio que se sobrepõe a todos os outros. Nascida como um viés pessoal do governante, não é um aspecto essencial da história ou da genética brasileira. O modelo consolidou-se como uma deficiência imposta ao país por grupo político inábil para conduzir sua sucessão e logo entrelaçou todas as nossas outras deficiências.

O princípio nasceu como expediente privado e se mantém com sua natureza de erro, um reino objetivo de atraso, comodidade e corrupção de costumes e valores governamentais. O que se obtém de bom com a reeleição? Para o país, nada.

Instituída por emenda constitucional em junho de 1997 com a desculpa de proteger o Plano Real (julho 1994) dos seus adversários, se tornou a razão da agonia e morte da prosperidade econômica. Vendo assim, a reeleição funcionou como um antídoto contra a economia liberal. Uma conspiração política do governo que criou o Real contra a lógica do Real.

Assim, o plano econômico impulsionador do processo histórico de independência para todo o povo foi trocado pela criação e desenvolvimento de uma comunidade política baseada na solidariedade corporativa (fisiologismo, base do governo, centrão) que bloqueou o diálogo livre entre o Estado e a Sociedade.

A reeleição resolveu para o patrimonialismo brasileiro uma contradição histórica do país: o Estado conseguiu finalmente centralizar, pela via política, seu caráter disperso e de grupos. A política feudal dos partidos passou a dirigir a economia da elite tradicional. Todos os três presidentes que se beneficiaram da reeleição fizeram campanhas economicamente absurdas para se reelegerem e um segundo governo desastroso para suas biografias e o horizonte do país.

Estão aí as consequências desse acúmulo de erros. É ela que desencoraja a sociedade para a autonomia e induz o eleitor à hipocrisia. Quando a elite é tão sem juízo não adianta pedir ao povo para ser melhor.

Contraditoriamente, subproduto de um plano econômico idealista, técnica e materialmente sustentado, aceito e compreendido, a reeleição foi usada como um freio político para remediar arranjos circunstanciais de interesse de grupos, vetar a circulação de líderes e dar segurança de vitória eleitoral antecipada. Até hoje este é o seu motor de arranque, a sua única razão de ser.

O Plano Real, com a autoridade cívica e profissional de sua brilhante equipe de formuladores, era um pensamento e uma ordem econômica para transformar brasileiros em cidadãos. O princípio da reeleição foi acoplado a ele como um contra pensamento de desordem, uma regra de solidariedade interna de grupos políticos e comodidade governamental responsável por desfazer os sonhos do cidadão e o reduzir a suas necessidades imediatas.

É infalível, quem mais paga tributo à reeleição é a verdade e a estabilidade econômica e o progresso do país. E a coisa é feita ardilosamente pondo a culpa na pobreza e desigualdade social. Porque desde então a principal desculpa para rejeitar qualquer regra de austeridade ou responsabilidade fiscal do Estado é a necessidade de atender emergencialmente os eleitores pobres.

É o velho laço entre a ambição e a inércia. Uma dualidade ilógica: a reverência aos pobres anunciada como irreverência ao que poderia retirá-los da pobreza que é a boa e previsível ordem econômica do país.

Mergulhe fundo na alma dos dois personagens, o candidato e o eleitor, e assim então se compreende: qualquer mudança significativa na vida de um não depende de esforços humanos e boas e estáveis regras socioeconômicas, mas de ser dócil, crédulo e obediente ao outro.

A reeleição congela na cabeça do povo o modo moderno de mudar de vida. A política, e sua inclinação contra a riqueza legal e legítima, tomou a direção oposta da estabilidade econômica, a única maneira de acabar com a pobreza que se tornou o combustível da má democracia eleitoral que praticamos.

Pensar, isolada e emocionalmente, em qualquer política distributivista de benefícios sociais compensatórios sem enfrentar a necessidade de abolir a reeleição é blefar com os fatos. Veja valor na população e refaça o tempo do mandato, mas arrebente com a cerca do curral eleitoral que é a reeleição para que as ideias circulem e o país tenha acesso a outra realidade política.

Evitar o tema é não querer reduzir as repugnantes influências da reeleição na manutenção da pobreza confirmando a negligência e a hipocrisia da política diante das ideias igualitárias.

A estabilidade econômica favorece o impulso para a independência, a reeleição consolida o costume de depender. Ela dissolve os antagonismos de opinião, endossa o despotismo dos braços fortes do Estado, favorece o dirigismo moral contra os que estão em desvantagem na sociedade.

A tirania da reeleição é um moinho triturador da mobilidade social e do rejuvenescimento das práticas políticas. Uma pilha de pedras para contenção da mudança erguida pelos políticos para seus próprios fins. A reeleição impôs ao país tal apatia moral que não nos permite reavaliar a ignorância que tal princípio propaga.

Bolsa Família e Bolsonaro

“O voto do idiota é comprado pelo Bolsa Família”, disse Jair Bolsonaro, certa vez. Ele já definiu esse programa como a forma de “tirar dinheiro de quem produz para dar para quem se acomoda”, e pediu que fosse extinto. Em 2017, em Barretos, afirmou que “para ser candidato a presidente tem que falar que vai ampliar o Bolsa Família”. No mundo inteiro, o Bolsa Família sempre foi elogiado por ter foco, baixo custo, e porque através dele foi criada uma rede de proteção social aos mais vulneráveis no Brasil. Esse presidente, que tem tal desprezo por essa política social, fará agora o Renda Brasil. Seu objetivo é um só: o de se reeleger.


Todas as ações anteriores de Bolsonaro negam qualquer compreensão da importância de políticas de transferência de renda. Em março, foram cortados 158 mil beneficiários do Bolsa Família, 61% eram no Nordeste. Os governadores, então, foram ao Supremo, que na semana passada confirmou a decisão do ministro Marco Aurélio de proibir novos cortes enquanto durar a pandemia. Em junho, o governo tentou tirar dinheiro do Bolsa Família para gastos com publicidade do Planalto. Na quinta-feira passada, o ministro Paulo Guedes, em entrevista a um instituto espanhol, revelou que haverá um acréscimo de seis ou sete milhões de beneficiários. No dia da reunião sobre o teto, Guedes gastou um bom tempo falando no Alvorada que o Renda Brasil será criado. Era uma forma de dizer para o presidente que cortaria gastos, mas daria para ele o Bolsa Família com outro nome.

O mais popular e mais bem-sucedido programa social do Brasil foi tecnicamente bem feito, resultou de estudos de especialistas e nasceu dos programas definidos como Bolsa Escola. Algumas vezes, foi usado nas campanhas, quando se disseminavam boatos de que um determinado candidato acabaria com ele. No caso de Bolsonaro, parecia possível porque ele sempre fez críticas. Mas hoje o programa foi incorporado ao rol das políticas públicas que permanecerão. O que se quer agora é reempacotá-lo para servir à reeleição de Bolsonaro. A equipe econômica tem trabalhado com esse objetivo declarado.

Num vídeo postado por Bolsonaro na segunda-feira, o presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), Pedro Guimarães, está no aeroporto, faz uma chamada de vídeo para o presidente e diz: “Tem uma história interessante da dona Maria José aqui.” E, pelo celular, mostra o presidente à mulher. Ela diz que é “apaixonada, louca” por ele. E agradece “tudo o que você tem feito por nós, principalmente os amapaenses”. Pedro Guimarães, no papel de garoto-propaganda, pergunta: “E quanto você vai receber hoje aqui?” Ela diz que são duas parcelas. “Eu vendo bombom trufado aqui no Amapá e tem me ajudado muito a sua ajuda”, ela fala se dirigindo ao presidente. Conta que é evangélica. No encerramento do vídeo, Guimarães, em voz bem alta, em local público, para confirmar com quem está falando, diz: “E aí presidente tudo bem?” Tudo foi filmado por um outro celular, talvez de um assessor de Guimarães. Bolsonaro postou o vídeo com o texto: “Auxílio de R$ 600 salvando vidas.”

Dona Maria José está gerando renda com o auxílio que recebeu, ao fazer o bombom trufado. Um caso realmente interessante, mas Bolsonaro e Guimarães mostram que estão interessados em propaganda eleitoral, em tirar proveito da história dela. O uso político da CEF supera os abusos do passado.

O país precisará de uma ampliação do Bolsa Família. E seria bom que ele ocorresse dentro de um planejamento técnica e fiscalmente bem feito, para continuar sendo sustentável. O palanque, contudo, vai desvirtuar o programa. A pesquisa do Datafolha mostra que o auxílio emergencial, que era de fato necessário, reduziu sua rejeição e aumentou a aprovação.

Bolsonaro é um populista. E tem um projeto autoritário. Como no chavismo, que distribuía o dinheiro do petróleo para se perpetuar. Bolsonaro esqueceu o que dizia do Bolsa Família e usará qualquer programa social que for formatado como alavanca eleitoral. Não é possível deixar os pobres sem proteção. Não é aceitável ver um candidato a ditador usando recursos públicos como se fosse dinheiro dele doado aos pobres, como Bolsonaro e Pedro Guimarães quiseram fazer crer à dona Maria José.