segunda-feira, 4 de maio de 2020

Jair, Judas e o talismã

Ninguém criou, impôs ou usou em causa própria, mas o talismã existe e conduz nossa história. O clima é de não acelerar nada, mas também de não deixar parar qualquer coisa. É difícil ser simples, mas seu modelo é muito simples. É um dom nacional. Dar tempo ao tempo.

Enigma de racionalização não subordinado a qualquer paixão neste país colonizado por interpretações econômicas, políticas, ideológicas. Como entre nós a palavra não tem poder, a mágica cria as saídas. Estamos, outra vez, com velório na política. Abracadabra resolverá. Este o ofício do talismã.

Um paradoxo ver a pátria, essa mãe culpada, governada por um filho indiferente aos sentimentos humanos. Um privilegiado dando tão inconsistente e alta valorização aos seus atos – quais atos? Um crítico de tudo com baixa tolerância às frustrações pelas críticas que recebe.

Por sua inexpressividade nacional suas ações parlamentares sempre tiveram baixo custo político. Mas o talismã não achou justo vetar um, pois nunca achou ridícula a boa-fé do povo com demagogos. E deixou passar: de tanto encher linguiça, o homem sem imagem, que somente culpa os outros em busca transtornada por admiração, venceu a eleição. O povo nunca age preventivamente à má pronúncia da palavra. É apenas um troca-letras que fará mais um governo descoordenado.


Eis que ocorre o inesperado: uma crise de saúde mundial sincroniza com uma crise econômica geral agravada no Brasil somente porque ele, um sodado, quer transformá-la em guerra política particular. Encontra um economista dogmático, que também não sabe fazer curva. Dois caranguejos, bizarros e simétricos, capa dura, em linha reta para o muro.

O talismã então se movimenta. Como a autoridade faz o gênero traquina-insensível-às-conveniências, seu fim não prevê combate. A pátria tem outras finalidades que não as dele. O isolamento social mudou a história da polarização vazia da política, a força agora é a solidariedade, a ciência, a valorização dos sérios e bons de fato.

O talismã sabe que com os partidos e as instituições tecendo um círculo de artimanhas em torno da política eleitoral desde os anos 1990, chegamos em 2018 com o motor da insensatez no giro mais alto. De tanto ouvir não-é-esse-não-pode-ser-aquele, o iconoclasta virou ídolo. E assim, sentindo a negação da negação o povo jogou o jogo sem querer explicação. É do contra que eles são, é o contra que terão.

O tempo passa, e às apalpadelas, o talismã vai se esfregando no meio dos que estão na rua da amargura em desvantagem, os mais pobres de todo o gênero humano, os ricos enganados, os juízes engomados, os políticos anestesiados, e os faz continuar a acreditar nas coisas, sem por elas se interessar.

Vem o vírus. Logo abre conta na Caixa e a faz dar um show para frear a comoção. Empurra em poucos dias 600 reais na vida de 55 milhões de ocupados, desocupados e invisíveis e os encontra, 90% pela internet. Só o povo pré-pago vive no presente, sem futuro ou passado. Os incrédulos apertam a mão do presidente que simula estar bem.

Felizmente o talismã nutre nosso povo com qualidades singulares de passividade e não-cooperação ostensiva. Toca sua vida desemparado sem preocupação com a sociedade que o limita em sua mobilidade. Não quer ser inserido nada – ele já está muito mal inserido – o que quer é não ser pobre. Pesquisado, diz o que a pesquisa quer saber. Com esta particular forma de paz no coração desmascara a hipocrisia e deixa nua a retórica das frases que falam em poder do povo e interesse nacional.

>No Congresso, no Supremo chovem denúncias. Assentam em cima, deixa o outro Poder avançar, suspender nomeação, testar positivo, freia ou acelera o tempo. Um velho toga dá entrevista para remoer ferida. Outros, a favor/contra/não sei não. O decano manda limpar logo o ouvido. O militar, no dispositivo, não gosta. Quer descer devagar, no andar do caranguejo. Golpe nimim não dá, choraminga o líder dislalias de sua alma.

A reportagem ao vivo aperta, solta, não encara o burlesco, respeita o desrespeitador. É o bolero de Ravel do talismã preparando o povo para esquecer devagarinho o desamor que lhe é dedicado por quem fala uma coisa na campanha e faz outra depois de eleito.

Pode até existir uma crença nos extremos da violência como forma redentora de desobediência civil. Porém, observando as saídas brasileiras para enfrentar a embromação e o caos provocado pela elite institucional, a calma não acordada contém muito mais sabedoria do que os que desdenham do Brasil conseguem captar.

É verdade que nossa ordem e progresso avança devagar e cheia de pendências. Mas aos trancos e barrancos o Brasil conseguiu em paz o que nenhum país conseguiu sem guerra. Este o nosso talismã, que sabe que a guerra é a pior doença.

Não é crime a frieza do coração. Ainda mais quando veste de poder um homem nulo e consegue revelar as formas desagradáveis que esconde. Mas o presidente se desesperou de fato quando o talismã informa que na linha de frente da batalha não há soldado. São enfermeiros, médicos, farmacêuticos, balconistas, entregadores, motoristas de taxis, governadores e prefeitos.

A pandemia desmilitarizou o patriotismo, tirou o monopólio do presidente armado, que passou a praticar tiro ao alvo nos ministros populares.

A ambição desmedida do poder combate-se com a ambição pelo ato mínimo, o fiador da justiça. E o mínimo é aplicar a lei, demovê-lo para investigação, pois quem o acusa é que o fez presidente. Não é traidor, pois, em política, Judas é quem não desconfia. A confiança absoluta é da ética das relações privadas, familiares.

Nos últimos anos quem se enforcou na política o fez com corda que ele próprio teceu. O talismã dos brasileiros é sonhador, não age com fins materiais. Nem acredita na consistência das declarações dos que não querem fazer a vigília do fim que se anuncia.

Imagem do Dia


Inflada por Bolsonaro, polarização ganha novo fôlego

No quinto domingo de quarentena em Brasília (19 de abril), Jair Bolsonaro, de 64 anos, participou de uma manifestação contra as medidas de isolamento pelo coronavírus. Bolsonaro se mantém firme como o único presidente de uma democracia que nega a gravidade da ameaça, insistindo que uma hecatombe econômica será muito mais letal do que esta crise sanitária. Já não repete que a covid-19 é uma gripezinha nem que qualquer brasileiro sobrevive a um mergulho em esgoto. Ignorando as recomendações sanitárias mais básicas, saudado por centenas de seguidores aglomerados sem máscaras que gritavam “mito, mito”, o presidente discursou para eles a distância, entre tosses que tentou conter colocando a mão na boca. O chefe do Estado mais populoso da América Latina disse que ninguém cercearia seu direito de ir e vir como quisesse.

O Brasil foi o primeiro país do mundo a ver manifestações de rua a favor desse direito e da reabertura do comércio. São caravanas de carros dirigidos por bolsonaristas, porque a polarização brasileira se adaptou ao coronavírus. Enquanto o presidente falava em cima de uma caminhonete em Brasília, Tomé Abduch, de 44 anos, porta-voz do movimento Nas Ruas, está prestes a pegar seu carro para liderar em São Paulo, epicentro da doença no Brasil, o protesto que seu movimento convocou por todo o país. Os mobilizados são na maioria homens, quase todos brancos de classe média alta. “É fácil manter todo mundo em casa quando você tem a geladeira cheia e sua casa é segura, mas a desnutrição vai causar inúmeras mortes. É importante um equilíbrio”, afirma o empresário, engenheiro civil e ativista anticorrupção formado nas grandes manifestações que levaram à destituição da ex-presidente Dilma Rousseff.

Agora o campo da batalha política são as quarentenas decretadas pelos governadores e a cloroquina, um remédio que Bolsonaro considera muito mais promissor do que o que foi demonstrado pela ciência até agora. A cisão é entre os que defendem o isolamento social para evitar o colapso hospitalar e salvar vidas, embora o dano econômico seja enorme, e aqueles que querem que só sejam isolados os mais vulneráveis, para evitar uma crise que afetará principalmente os mais pobres. Uma batalha travada nas instituições, na mídia e nas redes sociais.

O Brasil realizou um número ínfimo de testes (300 por milhão de habitantes) devido à falta de análise e de reagentes para processá-los. Embora o país tenha o sistema de saúde pública mais robusto da América do Sul, 15% da população vive em regiões sem unidades de terapia intensiva. O Ceará já está com todas as suas UTIs ocupadas, enquanto em São Paulo a ocupação é de cerca de 70%.

Abduch diz que não duvida da gravidade da doença. Seus pais estão isolados, mas ele argumenta que as pessoas que não são idosas e são saudáveis, como ele e sua esposa, deveriam poder abrir seus negócios e sair para trabalhar. Ele, como Bolsonaro, limitaria o isolamento aos maiores de 60 anos, aos que têm doenças crônicas e aos que convivem com eles. Além da Organização Mundial da Saúde, o Ministério da Saúde e inclusive as Forças Armadas do Brasil insistem que reduzir o contato entre as pessoas é, por enquanto, a melhor maneira de frear os contágios. Quando a crise evidenciou que Bolsonaro estava de um lado e seu ministro da Saúde do outro, o presidente o demitiu para nomear um mais afinado com ele. O novo ministro prometeu cuidar da saúde e da economia. A maioria da população apoia as medidas de isolamento social, mas o respaldo vai diminuindo com o passar das semanas.


Antes da carreata, Abduch garantia na cozinha de sua mansão que as quarentenas seriam, na verdade, parte de um plano orquestrado pelos outros poderes para quebrar o Brasil e se livrar de Bolsonaro. “Se fizermos uma projeção, veremos que a queda do emprego e da economia vai matar muito mais do que o coronavírus. Por isso, deveria haver preocupação com as duas coisas. E os governadores estão fazendo o contrário. Consideram que o Governo federal tem de dar dinheiro sem nenhuma contrapartida. E o que acontece? Que o Governo federal não tem esse dinheiro. Quebra”, afirma. “Estão claramente dando um golpe para que o Governo federal fique sem dinheiro e aí pedir o impeachment de Bolsonaro, assim como fizeram com Dilma. Para mim, isso é uma estratégia para derrubar o Governo, um Governo que tenta mudar nosso país”, acrescenta. Aqueles que saem agora às ruas contra as quarentenas consideram Bolsonaro o garantidor da mudança radical de que, em sua opinião, o sistema político necessita. E veem os líderes dos outros poderes como esquerdistas perigosos.

Para o analista Oliver Stuenkel, da Fundação Getulio Vargas e articulista do EL PAÍS, os protestos são fruto de “uma estratégia sofisticada” adotada por outros populistas, como o venezuelano Hugo Chávez e o húngaro Viktor Orbán: “Nas democracias saudáveis não há manifestações pró-regime. São produto de um líder conclamando seus seguidores a atacar um inimigo escolhido”.

Abduch ressalta que não se considera bolsonarista. Apoia o presidente porque é inovador e porque sua chegada ao Palácio do Planalto foi um tapa na cara do sistema corrupto. “Pode ser que as formas [de agir de Bolsonaro] não sejam as melhores, mas o conteúdo é”, afirma. No vídeo da convocação, Abduch insistiu para que os motoristas da carreata lavassem as mãos, usassem máscara e não saíssem de seus carros, mas, quando chegou o dia, ninguém pareceu se preocupar em passar um tempo conversando em pequenos grupos. Da mesma forma, ninguém ergueu nenhuma sobrancelha ante um caminhão com uma enorme faixa que dizia: “Exigimos uma intervenção militar já”.

Muitos brasileiros com trabalho fixo e algumas economias começaram a se confinar, assustados com as imagens que chegavam da Europa, antes que as autoridades estaduais fechassem as escolas, as lojas, os estádios, as igrejas e os shoppings. A Grande São Paulo, com mais de 20 milhões de habitantes, está irreconhecível sem o habitual trânsito infernal. Mas, em um país tão desigual, uma minoria pode trabalhar de casa e fazer pão à noite enquanto dezenas de milhões de pessoas precisam sair para ganhar o pão de cada dia e não podem manter a distância mínima porque vivem aglomeradas. Os contágios e as mortes continuam aumentando, mas num ritmo mais lento do que o inicialmente previsto pelos especialistas. “Acredito que não vai ser tão grave como em países frios e com populações maiores”, diz Elisabet Andrade, de 56 anos, uma vendedora de produtos Avon e Natura que participa do protesto com uma máscara com a bandeira do Brasil. Ela afirma que todo mundo deveria se proteger com máscara e gel e diz que as lojas deveriam abrir por turnos, mas principalmente que é preciso sair às ruas para derrubar o governador e os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, para que deixem de atrapalhar Bolsonaro, que, com sua família, “vai resolver os problemas do Brasil”.

Contra a 'governabilidade pirata'

Os limites que existem são os da Constituição, e valem para todos, inclusive e sobretudo para o presidente. A única paciência que chegou ao fim, legitimamente e com razão, é a paciência da sociedade com um governante que negligencia suas obrigações, incita o caos e a desordem, em meio a uma crise sanitária e econômica
Felipe Santa Cruz, presidente da OAB

O Brasil testou positivo para a tristeza

Na nova linguagem do coronavírus, é como se um país inteiro tivesse testado positivo para a tristeza, vítima de uma pandemia de desumanidade em que homens cospem na cara de enfermeiras. A comorbidade tomou conta também da língua e, como esta não consegue ficar parada, como esta se mexe gostoso sempre à procura de novidades, não se fala de outro jeito. Estamos infectados pelo vírus vernacular – e daí?

Todo dia, da janela lateral de um quarto em que alguém tenta dormir e obnubilar esse palavrório do dicionário corona, ouve-se a voz de Milton Nascimento gritando “Que tragédia é essa que cai sobre todos nós”. Faltam respiradores para os últimos civilizados, vacinas com plasma de resistência civil para os que não se conformam com a escalada de vermes e demais pestes afins.

Há quem, tomado por um achatamento da curva de sanidade mental, vá até a porta dos hospitais e tenta asfixiar, com buzinas e palavras de desordem em megafones, as derradeiras chances de um doente sobreviver. A razão foi intubada.

O “coronês” é a semântica de emergência que agora entra no hospital das comunicações verbais e, contaminando verbos, sujeitos e todos os insumos da frase, ajuda a desentender o que se passa. A empatia entrou em lockdown. Muitas palavras e poucos fármacos, a crônica em tempos de corona assim é.

Há “lives” por todos os lados, mortos mais ainda e uma enorme subnotificação dos que diariamente adquirem anticorpos contra tamanhos despropósitos. Esses sobreviventes querem permissão para deixar o desolamento social por um instante e ir ali, onde ele estiver, no escritório do germe, no gabinete do sódio, no covil da Covid, e devolver na cara os 600 perdigotos da tosse com que o coveiro adoeceu o país.

É o horror hoje, o sufoco amanhã e a confirmação do colapso do apocalipse a qualquer momento, em edição nem tão extraordinária assim. É UTI, é CTI, é EPI, é isso daí e mais a síndrome de angústia pelo golpe que está por vir aí.

Nesse pandemônio da pandemia, a blogueira abriu a champanhe e gritou “foda-se a vida”. O embaixador chamou o vírus de comunista. Os amantes, confinados na quarentena de suas sensações, não dizem nada.

Eles esperam que vaguem os leitos de terapia intensiva e aí então, novamente as máscaras arriadas, os lençóis de fio egípcio esticados, poderão contrariar as recomendações sanitárias de até anteontem. Deixarão para trás as janelas imunológicas. São socorristas do afeto ostensivo, do oxigênio fundamental, voluntários da pátria, e voltarão a dedicar suas vidas aos carinhos e pós-calipsos de sempre.

Até a abertura do protocolo deste penúltimo parágrafo, ninguém sabe como se livrar do patógeno maldito. Enquanto a cloroquina não se casa com o remdesivir para pôr ponto final nesse texto doloroso, não haverá álcool gel suficiente para apagar as palavras feias que agora contaminam o cotidiano. O período de incubação na fala é cada vez mais rápido.

Songamongas, as palavras do dicionário corona fingem-se assintomáticas. Escondem-se entre as vírgulas. Ao mesmo tempo que tiram o oxigênio do leitor, atrapalham os ventiladores mecânicos de inspiração do redator. Elas têm transmissão comunitária, destroem as células da gramática e, pior, misturam-se a um exército verde e amarelo de fanáticos. Eles se infectam uns aos outros, descerebrados em mostrar que o Brasil não detém só a exclusividade da jaboticaba. É também o único país do mundo capaz de produzir defensores da morte e - no velho sentido da palavra - testar negativo para as boas causas.

Pensamento do Dia


Bolsonaro propaga o vírus da anarquia institucional

Não é verdade que Jair Bolsonaro sofra de insanidade. Ele usufrui dela com extraordinário prazer. O problema não está no gozo que a falta de senso proporciona ao personagem. O insuportável é que, sendo o insano momentaneamente presidente, ele queira impor ao Brasil a sua loucura.

O país foi convertido em zona de guerra. Os brasileiros são torpedeados em duas frentes. Numa, o coronavírus mata em escala pandêmica. Noutra, o Brasil sofre ataques do seu próprio presidente. Bolsonaro diz "e daí?" para os milhares de mortos e propaga o vírus da anarquia institucional.

No exercício cotidiano do seu descaso sanitário, Bolsonaro tomou gosto pelas aglomerações, especialmente as de conteúdo golpista. É como se o presidente de 57,7 milhões de votos sonhasse com uma democracia sem Legislativo e sem Judiciário, na qual ele comandaria o governo civil mais militar que o país já conheceu.

Por sorte, Bolsonaro ainda não realizou o seu sonho. Ao contrário, conspira a favor da realização dos seus piores pesadelos. Há duas semanas, discursando para um ajuntamento de golpistas na frente do QG do Exército, Bolsonaro proclamou: "Não queremos negociar nada."

Neste domingo, Bolsonaro ornamentou outro ato antidemocrático. A pauta da manifestação sofreu dois acréscimos. Além das pauladas retóricas no Congresso e no Supremo, houve pancadaria contra jornalista e xingamento a Sergio Moro, o mais novo "comunista" dos devaneios bolsonaristas.

Dessa vez, Bolsonaro afirmou que não vai mais "admitir interferências" no seu governo. "Chegamos no limite", disse. "Acabou a paciência." Ele espera não ter problemas durante a semana. Do contrário, "não tem mais conversa". A Constituição "será cumprida a qualquer preço.".

Bolsonaro esclareceu que não está só. Enxerga do seu lado "o povo", "as Forças Armadas" e "Deus". Quer dizer: a era bolsonarista transcorre em dois mundos: o de Bolsonaro e o real.

No mundo de Bolsonaro, uma aglomeração de adoradores se confunde com "o povo". Generais que fracassam na tentativa de presidir o presidente simbolizam o "apoio" dos quarteis. E o populismo místico do presidente estimula nas almas mais ingênuas a crença em uma aliança do governo com o plano celestial.

No mundo real, ouve-se nas janelas e nas varandas o som das panelas. Escuta-se ao fundo o silêncio constrangido dos comandantes militares. De resto, a conversão de personagens como Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto em heróis da resistência revela que Deus está acima de todos mas terceirizou ao Tinhoso as negociações com o centrão.

No mundo de Bolsonaro, o presidente "chegou no limite". No mundo real, Bolsonaro ultrapassou todos os limites. Contra o coronavírus não há outro remédio que não seja o isolamento social que Bolsonaro desrespeita. Por sorte, contra o vírus da anarquia institucional há vacina disponível. Chama-se Constituição.

Bolsonaro ainda não notou, mas o país vem se imunizando contra o vírus presidencial. A despeito dos seus arroubos, o presidente manda cada vez menos. Suas decisões são refeitas e desfeitas ora no Congresso, ora no Supremo. Cresce nos poderes vizinhos a impressão de que talvez seja necessário aumentar a dose da vacina.

A 'gripezinha'

O biólogo e escritor britânico Richard Dawkins, professor emérito do New College da Universidade de Oxford — autor de O Gene Egoísta e Evolução, entre outras obras —, num comentário no Twitter, chama a atenção para um artigo da revista Science Magazine, da Associação Americana para Avanço da Ciência (AAAS), intitulado Como o coronavírus mata?, publicado no dia 17 deste mês. De autoria dos médicos Meredith Wadman, Jennifer Couzin-Frankel, Jocelyn Kaiser, Catherine Matacic, é um dos melhores textos sobre a pandemia, segundo Dawkins: “Se as pessoas na administração entenderem isso ou se importarem com isso, haveria um resultado melhor para a sociedade”, avalia.

Tratar desse assunto pode parecer chover no molhado, pois não se fala de outra coisa, mas o artigo realmente é muito bom. Ele faz um relato de como o novo coronavírus ataca o corpo humano e seus efeitos devastadores, “do cérebro aos pés”, ultrapassando o senso comum do diagnóstico de que é apenas uma síndrome resporatória aguda. “Pode atacar quase tudo no corpo, com consequências devastadoras”, segundo o cardiologista Harlan Krumholz, da Universidade de Yale e do Hospital Yale-New Haven, que lidera vários esforços para reunir dados clínicos sobre a Covid-19. “Sua ferocidade é de tirar o fôlego e é humilhante.”

O artigo corrobora o relato dos sobrevientes da doença e o testemunho dos médicos e de outros profissionais da saúde que atuam nas unidades de terapia intensiva aqui no Brasil. Muitas vezes esses últimos são duplamente derrotados: além de perderem pacientes, acabam adoecendo também e, em alguns casos, até morrem. Já passou da hora de o presidente Jair Bolsonaro ir a Manaus para ver o que é um colapso do Sistema Único de Saúde (SUS) em meio à pandemia e parar de falar bobagens sobre a “gripezinha”. Tudo o que os profissionais de saúde precisam neste momento dramático é de mais apoio (equipamentos de proteção, respiradores, medicamentos) e distanciamento social.

Médicos e patologistas de todo o mundo estão lutando para entender os danos causados pelo coronavírus no corpo humano. Embora os pulmões sejam o ponto zero, o alcance do patógeno pode se estender a muitos órgãos, incluindo o coração e os vasos sanguíneos, rins, intestino e cérebro, o que explica a grande subnotificação do número de mortos, inclusive aqui no Brasil, devido às dificuldades de diagnóstico e falta de autópsias.

O vírus age como nenhum patógeno que a humanidade jamais viu. Quando uma pessoa infectada expele gotículas carregadas de vírus e outra pessoa as inala, o novo coronavírus (Sars-CoV-2) encontra um lar bem-vindo no revestimento do nariz, cujas células são ricas em uma enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), assim como na traqueia. Em todo o corpo, a presença de ACE2, que normalmente ajuda a regular a pressão sanguínea, marca os tecidos vulneráveis à infecção, porque o vírus entra nessa célula receptora. Uma vez dentro, o vírus sequestra as máquinas da célula, fazendo inúmeras cópias de si mesmo e invadindo novas células.

À medida que o vírus se multiplica, uma pessoa infectada pode lançar grandes quantidades dele, principalmente durante a primeira semana. Os sintomas podem estar ausentes neste momento. Ou a nova vítima do vírus pode desenvolver febre, tosse seca, dor de garganta, perda de olfato e paladar ou dores de cabeça e corpo. Se o sistema imunológico não repelir o Sars-CoV-2 durante esta fase inicial, o vírus marcha pela traqueia para atacar os pulmões, onde pode se tornar mortal. Mas o vírus, ou a resposta do corpo a ele, pode ferir muitos outros órgãos: cérebro, olhos, fígado, coração e vasos sanguíneos, rins e intestinos.

Alguns médicos suspeitam de que o ataque vertiginoso do coronavírus no organismo seja uma reação exagerada e desastrosa do sistema imunológico conhecida como “tempestade de citocinas”, na qual os níveis de certas citocinas sobem muito além do necessário, e as células imunológicas começam a atacar tecidos saudáveis. Pode ocorrer vazamento de vasos sanguíneos, queda de pressão arterial, formação de coágulos e falência catastrófica de órgãos. Mas o pior dos mundos, com a presença de vírus no trato gastrointestinal, pode ser a possibilidade inquietante de que ele seja transmitido pelas fezes, ainda mais num país como o nosso, no somente uma parcela da populaçao tem, esgoto tratado. A sorte, porém, é de que ainda não está claro se as fezes contêm vírus infecciosos intactos ou apenas o seu RNA (ácido ribonucleico), uma molécula responsável pela síntese de proteínas das células do corpo.

Armas no Poder

Temos as Forças Armadas ao lado do povo, pela lei, pela ordem, pela democracia, pela liberdade
Jair Bolsonaro

Em meio à pandemia, o desmatamento dispara na Amazônia

A pandemia se tornou uma cortina de fumaça para o avanço do desmatamento na Amazônia. Com os olhos do Brasil — e do mundo — voltados para a crise do coronavírus, madeireiros, garimpeiros e grileiros multiplicaram ações criminosas, aproveitando-se do momento para avançar sobre a floresta com motosserras e retroescavadeiras. Os alertas de áreas devastadas bateram o recorde no primeiro trimestre deste ano, totalizando 796 quilômetros quadrados, o que representa um aumento de 51% em relação ao mesmo período de 2019, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Informações preliminares mostram que aumentou ainda mais o ritmo de estragos entre março e abril, justamente quando boa parte do Brasil entrou em quarentena.

Enquanto a supressão da mata segue em ritmo acelerado, as ações de fiscalização e os autos de infração vêm caindo. Desmoralizado desde o ano passado pelo discurso de um governo que fala em incentivar a exploração em áreas protegidas, o Ibama sofreu um baque adicional com a Covid-19. Calcula-se que quase um terço do efetivo de seus profissionais de campo tenha sido afastado por pertencer a grupos de risco. Se não bastasse, as equipes que continuam em ação vêm encontrando dificuldades para atuar em certas regiões, como o Norte do país, porque algumas prefeituras determinaram que elas devem passar por um período de quarentena. O pretexto é de que isso evitaria trazer de fora para dentro a doença. Um completo absurdo, é claro, pois acaba com o efeito surpresa de quem está lá para fazer um flagrante. “Seria importante que vocês reavaliassem essa conduta (...). Talvez esperar passar esse período de pandemia”, argumentou o prefeito de Uruará, Gilson Brandão, em áudio obtido por VEJA, no último dia 20, a fiscais do Ibama, que haviam determinado a saída de invasores e a retirada de gado da terra indígena de Cachoeira Seca, no interior do Pará.

O estado foi palco de um caso que exemplifica bem a situação atual de descalabro. No início de abril, uma equipe do Ibama, com o apoio da Força Nacional, realizou uma megaoperação em reservas indígenas no sul do Pará — área onde o sistema identificou o maior território derrubado da floresta. Orientados por indígenas, os agentes flagraram, ao longo de duas semanas de investigação, serrarias, pontes e aeroportos clandestinos no meio da mata que deveria ser fechada, conforme relatório interno obtido por VEJA. Escondidos com galhos e folhas de árvores para escapar do radar dos helicópteros foram encontrados também tratores, galões de combustível e dezenas de armas. Depois, os fiscais incendiaram cerca de setenta equipamentos dos invasores, conforme manda a lei no caso de impossibilidade de realizar o transporte e a apreensão desses materiais.

O trabalho dos agentes na região continuou nos últimos dias, mas a equipe sofreu baixas importantes. Responsáveis por coordenar a megaoperação, dois diretores de fiscalização do órgão, Renê de Oliveira e Hugo Loss, foram exonerados na última quinta-feira, dia 30. O chefe deles, o diretor de Proteção Ambiental, Olivaldi Azevedo,já havia sido destituído no dia 14. A interlocutores, os profissionais disseram que não houve nenhuma determinação formal para interromper a fiscalização. Segundo eles, no entanto, ficou claro que a forma de trabalho “não agradou” à cúpula do Ministério do Meio Ambiente. Em 21 de abril, dezesseis analistas ambientais do Ibama saíram em defesa dos companheiros, enviando um documento de protesto à chefia do órgão ambiental. Já o Ministério Público Federal abriu uma ação civil pública para apurar se houve “improbidade administrativa e violação aos princípios da moralidade e legalidade” na demissão de Olivaldi. O Ministério do Meio Ambiente não justificou as demissões. Apesar de as ações no Pará estarem amparadas na lei, o presidente Jair Bolsonaro é um crítico contumaz desse tipo de operação. “Não é para queimar nada”, disse ele em abril do ano passado, criticando o ocorrido em um caso semelhante. O presidente também é um ferrenho defensor da exploração de minérios em áreas indígenas — desde fevereiro tramita no Congresso um projeto de lei do Executivo que autoriza essas atividades.

Quase um consenso entre os especialistas, o enfraquecimento da fiscalização por causa da Covid-19 pode levar a Amazônia a novos recordes de desmatamento. “É preocupante, porque ainda estamos na época das chuvas. A partir de maio a tendência é aumentar com as queimadas”, diz Carlos Souza Junior, pesquisador do instituto Imazon. No dia 23, a força-tarefa da Procuradoria na Amazônia moveu um processo na Justiça para cobrar a ação imediata do governo para conter a “destruição da floresta”. Diante dos alertas, a preocupação internacional com o tema voltou a aparecer. No dia 26, a consultoria global Eurasia alertou os investidores para o fato de que a pandemia aceleraria o desmatamento. O assunto ganhou destaque em jornais como o britânico The Guardian. A volta das manchetes internacionais acusando o Brasil de descaso com esse patrimônio ambiental é outra péssima notícia para a imagem do país, cujo governo já vem sendo retratado no exterior como um dos líderes do discurso negacionista em relação ao risco do coronavírus. O pior é que, em ambas as situações, as críticas são pertinentes.
Eduardo Gonçalves

E daí? A pulsão da morte

"Entre mortos e doentes/ No meio dessas bananas/ Os meus ódios e os meus medos? E daí?”

Essa poderia ser uma versão sinistra de Bolsonaro para a bela cancão de Milton Nascimento “E daí?”.

Sua reação diante dos mortos pelo coronavírus não me surpreende. Creio que posso entendê-la, pois, de certa forma, venho falando dela desde o princípio do governo. Eu a chamei nos meus artigos de namoro com a morte. Era uma forma de sistematizar minhas críticas.

Umberto Eco afirma com razão que por trás de um regime e sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. É essa pulsão de morte que contesto na política de armas, na retirada dos radares das estradas, no afrouxamento das regras de transporte de crianças nos carros.


No mesmo dia em que foi treinar tiro ao alvo, Bolsonaro disse sua frase histórica diante dos mortos na pandemia. Creio que entendo o que há por trás disso. Ele acredita na tese da imunização do rebanho. Nela, a saída é a inevitável contaminação da maioria para que se resolva de uma vez o problema.

Muitos cientistas afirmam isso. Pode ser que tenham razão. No entanto, o isolamento social torna espaçada essa contaminação, permite que os sistemas de saúde não entrem em colapso: salva vidas.

Bolsonaro até que compreende essa tese. Mas responde com outra: necessidade do crescimento econômico.

A pandemia coloca hoje em discussão o crescimento pelo crescimento. Amsterdã prepara-se para buscar modelos sustentáveis, depois da crise, com o argumento de que o crescimento pelo crescimento é, na verdade, a filosofia da célula cancerosa.

Durante a pandemia, manifestantes contra o isolamento social fizeram buzinaços diante de hospitais em São Paulo. A mensagem que queriam passar era da volta ao trabalho. Assim como não importava o conforto dos doentes hospitalizados, também não importavam as mortes que viriam de uma suspensão prematura da quarentena.

Nesse clima nacional, uma influenciadora digital dá uma festa em plena quarentena e lança o grito: “foda-se a vida”, uma versão tupiniquim do “viva a morte”.

Trabalho com essas resistências no cotidiano. Outro dia, resenhei o artigo de um médico americano que falava do avanço silencioso da pneumonia em pessoas atacadas pelo vírus. Para evitar tantas mortes, ele sugeria que se usasse um oxímetro para medir constantemente o nível de oxigênio no organismo.

Uma leitora reagiu furiosa a esse texto. Nunca mais me leria pois, segundo ela, não compreendo como o Brasil é pobre e não tem condições de pensar nesses instrumentos.

O oxímetro custa em torno de R$ 100. O que ela queria dizer é que estamos condenados pelas circunstâncias a um grande número de mortes.

As pessoas que não se resignam diante das mortes com a pergunta “e daí?” são vistas como personagens trágicas que se rebelam contra o destino.

É nesse contexto de namoro com a morte que se dá também a petrificação do pensamento, a recusa à modernidade, a negação de fenômenos planetários que podem nos inviabilizar como espécie.

Insisto nesse ponto porque a história nunca estará completa se nos detemos apenas no aquecimento global e deixamos de lado os hábitos culturais e as pulsões que o nutrem.

Quando escrevermos a história da passagem dessa peste pelo Brasil, não poderemos esquecer que ela foi politizada, tratada como um vírus comunista, e uma nuvem de suspeição se ergueu contra os que queriam combatê-la de frente.

Com um tempo e alguma pesquisa, talvez possamos estabelecer um paralelo com a chegada dos colonizadores ao continente. Um conjunto de mitos impediu que fossem vistos na sua dimensão real. E isso precipitou a ruína das civilizações aqui existentes.

Ao longo do caminho, tenho enfatizado algumas ideias. Uma delas é a necessidade de uma ampla frente pela vida para se opor à política da morte.

A outra é a confiança de que as pessoas mudam, nem todas é verdade, mas mudam. Quantos não concluíram, depois de atingidos, que o coronavírus não é apenas uma gripe comum?

Outros, certamente, começarão a respeitar a ciência, podem chegar ao ponto de admitir que a Terra é redonda, que vacina garante a sobrevivência e que a humanidade está realmente ameaçada pela degradação ambiental.

Uma aliança pela vida pressupõe uma tática diferente da radicalização que produziu Bolsonaro.

domingo, 3 de maio de 2020

Politização das Armas dá errado

A politização das Forças Armadas não é boa para as Forças Armadas por um lado - não é à toa que o Castelo Branco fez as reformas que fez - e por outro lado não é boa para o País, pois ele perde um instrumento eficaz de defesa
Francisco Doratioto, autor de "Maldita Guerra", a ser relançado, depois de 19 anos sobre a Guerra do Paraguai
Nota: O bolsonarismo militarizou o Governo com 106 integrantes da ativa e da reserva do primeiro ao terceiro escalão. Praticamente se igualou aos governos bolivarianos de Hugo Chavez e Nicolás Maduro

Cabresto virtual

Depois de criticar o ministro Alexandre de Moraes e afirmar que a suspensão da posse de Alexandre Ramagem na diretoria-geral da Polícia Federal quase criou um “incidente institucional”, o presidente Jair Bolsonaro atribuiu sua reincidente descompostura a um “desabafo”. Mas estava dada a senha. No feriado da sexta-feira, as redes foram pilhadas freneticamente por xingamentos a Moraes e ao decano Celso de Mello - que teria privilegiado o ex-ministro Sérgio Moro -, com a repetição da frase “O STF opera em modo golpe de estado” e a hashtag #GolpedeEstado.

Difícil atribuir ao acaso.

Tática idêntica fora aplicada há duas semanas contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, algoz quase esquecido pelo bolsonarismo depois da crise provocada pela saída de Moro. No caso de Maia, Bolsonaro abriu a artilharia no dia 17 de março, em entrevista à CNN Brasil, quando acusou o deputado de agir em parceira com o governador de São Paulo, o desafetíssimo João Doria. “Parece que a intenção é me tirar do governo”, disse. Bastou para que o #ForaMaia virasse emergência e batesse recordes nas redes. Dois dias depois, as faixas Fora Maia eram vistas em manifestações contra o Legislativo e o Judiciário, inclusive em Brasília, em frente ao QG do Exército, local em que Bolsonaro improvisou palanque para aderir ao protesto.

Doria e o governador do Rio Wilson Witzel já tinham sido alvos da mesma prática, nos mesmos moldes. Primeiro o presidente fala, preferencialmente em entrevista a veículos com credibilidade, para depois a máquina de trituração de reputações agir. Ontem, dia de seu depoimento à PF, Moro virou o Judas da vez." 

Mas não há nada tão ruim que não possa ser pior.


Essa robusta rede - real ou robótica - opera da mesma forma na desinformação sobre a pandemia. Bolsonaro fala que o surto é uma gripezinha, um resfriadinho, e isso se multiplica em likes. Defende a cloroquina e o medicamento some das farmácias; diz que “esse problema do vírus está acabando” e milhares reproduzem a fala.

Difusor oficial de fake news, o presidente prejudica o combate à Covid-19 e estimula toda sorte de comportamentos condenáveis. Incentivou o relaxamento da quarentena, errando em todas as pontas: eliminou a chance de fôlego à rede pública de saúde, sem que isso aliviasse os prejuízos à economia. Uma insanidade.

E ainda tem o desplante de dizer que o isolamento social não funcionou, quando sabe – e o seu Ministério da Saúde assegura – que sem ele a pane no SUS já estaria instalada há semanas.

Insiste em sair às ruas. Ontem, repetiu o desatino em oposição às instruções do ministro da Saúde que ele demitiu, Luiz Henrique Mandetta, e do novo, Nélson Teich. Com isso, ainda que em número muito inferior do que seus fãs dizem arrebanhar, carros desfilam disparando buzinas em frente a hospitais, como se vê em São Paulo, epicentro da crise sanitária no país. Mais do que alienação aos ditos da ciência, uma atitude desumana e cruel com doentes e seus familiares.

Cenas de militantes que se acham guardiões da Praça dos Três Poderes, embandeirados e empoderados, agredindo profissionais de saúde que, em silêncio, reverenciavam seus mortos, ou de trabalhadores de Campina Grande, na Paraíba, forçados por seus patrões a pedir, de joelhos, a reabertura do comércio – uma tirania imperdoável – são consequências das leviandades em série do presidente.

Todo líder de uma seita tem responsabilidade sobre a crença que dissemina. Para o bem ou para o mal. Mas quando se prega o ódio, os danos são graves, por vezes irreparáveis.

Messias só no nome, Bolsonaro, ao contrário do que disse, parece crer que é fazedor de milagres. Terá agora de convencer que a manjada banda podre da política é composta por gente honesta, por cidadãos do bem. De novo, apostará no cabresto virtual.

Passa da hora de o Brasil real mostrar que está muito além dos devotos digitais que o presidente manipula ou dos incivilizados fanáticos que se apresentam em atos antivida.

Pensamento do Dia


Sérias decisões a serem tomadas nesta crise

A crise excita o espírito populista que existe no Congresso. Se ele é sempre avesso a fazer contas, neste momento a aversão aumenta e se mistura com a louvável mas desinformada intenção de se fazer “justiça social” não importa como, e que vai na contramão da lógica, por vias que estrangulam a única fonte de geração de empregos em uma situação como esta, a empresa privada. São feitas propostas que podem ser bem-intencionadas, como “empréstimo compulsório” e aumento da carga tributária sobre as pessoas jurídicas, mas justo quando as empresas veem seus caixas se esgotarem na queda em parafuso das receitas dragadas pela recessão. Não faz sentido.

O mergulho na recessão, com o fechamento de empresas, aumento de desemprego e toda uma série de malefícios que estrangulam também os cofres públicos, causa uma corrida no setor público em busca de novas receitas — mesmo que a base a ser taxada por aumento de impostos ou novos gravames esteja sendo estreitada pela redução da renda e da receita de pessoas físicas e jurídicas. Com o estrangulamento desta fonte de receitas do Estado, repete-se a piada do cavalo acostumado pelo dono a comer cada vez menos, até que um dia morre. Dentro da tradição nacional, não se fala em corte de gastos para ajudar no reequilíbrio das finanças públicas.


Reflete bem a excitação populista o número de projetos que se acumulam no Congresso há anos para a taxação de “grandes fortunas”, sempre vendida como a solução para todos os déficits fiscais. O mais conhecido dos autores de um desses projetos, o ainda senador tucano Fernando Henrique Cardoso, ele mesmo se convenceu da ineficácia da iniciativa. Assim como aconteceu com países europeus, que tentaram explorar este suposto rico filão e apenas incentivaram a fuga de patrimônios e ficaram com o prejuízo da queda de receita e da geração de empregos. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que em 1990 o bloco tinha 12 dos seus membros, países desenvolvidos, com este imposto; em 2017, apenas quatro: França, Noruega, Espanha e Suíça. Haviam extinto a taxação Alemanha, Áustria, Dinamarca, Holanda, Finlândia, Islândia, Luxemburgo e Suécia. Não compensava. O Nobel de Economia Milton Friedman foi certeiro: “Um dos maiores erros é julgar as políticas e programas por suas intenções, em vez de julgá-los por seus resultados.”

Se os políticos querem defender os eleitores e a sociedade, precisam cobrar um ajuste no setor público à altura desta crise, a maior desde a Grande Depressão de 1929/30. Devem trabalhar contra o fato muito injusto de trabalhadores do setor privado serem forçados pelas circunstâncias a abrir mão de parte do salário, com redução da jornada, para manter empregos e empregadores — uma coisa não existe sem a outra —, enquanto o funcionalismo se mantém como uma das maiores rubricas de gastos da Federação, sem que contribuam para o ajuste de que todos são levados a participar. Os servidores vivem num país à parte, sob a blindagem de fortes corporações no Congresso. E depois políticos denunciarão que a renda se concentrou ainda mais na crise. Precisam ter consciência das causas.

Executadas medidas de emergência, é preciso atacar de reformas estruturais, contornando o varejo de propostas tópicas impulsionadas por ideologia, sem uma visão de sistema. Em vez de mudanças oportunistas em impostos, deve-se realizar a reforma tributária. Também a do Estado. Mudanças como estas farão com que o país saia da crise em outras bases. Uma falha histórica será o enfrentamento da crise sem se fazerem as correções de que o país precisa.

Parece que parte dos políticos ainda não enxergou o Brasil que a paralisação abrupta do sistema produtivo no mundo e no país, devido ao coronavírus, colocou à mostra: a miséria no entorno e dentro de grandes capitais, a falta de saneamento básico —35 milhões de brasileiros não têm água tratada, e quase 100 milhões não dispõem de coleta de esgoto —, as dezenas de milhões sem emprego formal, sem fonte regular de renda, também por falta de instrução. Trata-se de uma população sem acesso a benefício previdenciário sustentável. Não terá qualquer segurança financeira na velhice. Milhões deverão continuar a constituir uma nação de pobres e, no futuro, de idosos miseráveis. Não se pode esquecer que o governo lançou o auxílio de R$ 600 e esperava atender 54 milhões. Poderão ser 70 milhões. Os tais “invisíveis” têm o tamanho de um país. Estão nas favelas, nos sinais fazendo malabarismo, pedindo esmola, trabalhando como “flanelinhas”, vendendo amendoim nos bares etc. Ficaram à vista.

A pergunta é se os políticos e a sociedade querem manter o Brasil depois da crise da mesma forma como está agora. Com renda e riqueza concentradas, sem infraestrutura condizente com um país de 220 milhões de pessoas, do tamanho de um continente e com um PIB entre os dez maiores do mundo — pelo menos era antes da epidemia —, e também um dos mais violentos. Muito pode ser feito agora contra isso.

Ministério da Morte

Se nada for feito nos próximos dias, os pronunciamentos do Ministério da Saúde se resumirão a informar o número de mortos.

Portanto, é fundamental que a população se sinta amparada e possa ouvir uma voz uníssona que reforce essas diretrizes, assumindo uma conduta única, em consonância com o que os cientistas de todo mundo pregam. Ainda não atingimos o pico da epidemia e o número de vítimas fatais continua em ascensão vertiginosa
Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciências (SBPC), cobrando em carta um plano de ação para o combate à Covid-19.ao ministro da Saúde, Nelson Teich

A 'gripezinha'

O biólogo e escritor britânico Richard Dawkins, professor emérito do New College da Universidade de Oxford — autor de O Gene Egoísta e Evolução, entre outras obras —, num comentário no Twitter, chama a atenção para um artigo da revista Science Magazine, da Associação Americana para Avanço da Ciência (AAAS), intitulado Como o coronavírus mata?, publicado no dia 17 deste mês. De autoria dos médicos Meredith Wadman, Jennifer Couzin-Frankel, Jocelyn Kaiser, Catherine Matacic, é um dos melhores textos sobre a pandemia, segundo Dawkins: “Se as pessoas na administração entenderem isso ou se importarem com isso, haveria um resultado melhor para a sociedade”, avalia.

Tratar desse assunto pode parecer chover no molhado, pois não se fala de outra coisa, mas o artigo realmente é muito bom. Ele faz um relato de como o novo coronavírus ataca o corpo humano e seus efeitos devastadores, “do cérebro aos pés”, ultrapassando o senso comum do diagnóstico de que é apenas uma síndrome resporatória aguda. “Pode atacar quase tudo no corpo, com consequências devastadoras”, segundo o cardiologista Harlan Krumholz, da Universidade de Yale e do Hospital Yale-New Haven, que lidera vários esforços para reunir dados clínicos sobre a Covid-19. “Sua ferocidade é de tirar o fôlego e é humilhante.”

O artigo corrobora o relato dos sobreviventes da doença e o testemunho dos médicos e de outros profissionais da saúde que atuam nas unidades de terapia intensiva aqui no Brasil. Muitas vezes esses últimos são duplamente derrotados: além de perderem pacientes, acabam adoecendo também e, em alguns casos, até morrem. Já passou da hora de o presidente Jair Bolsonaro ir a Manaus para ver o que é um colapso do Sistema Único de Saúde (SUS) em meio à pandemia e parar de falar bobagens sobre a “gripezinha”. Tudo o que os profissionais de saúde precisam neste momento dramático é de mais apoio (equipamentos de proteção, respiradores, medicamentos) e distanciamento social.


Médicos e patologistas de todo o mundo estão lutando para entender os danos causados pelo coronavírus no corpo humano. Embora os pulmões sejam o ponto zero, o alcance do patógeno pode se estender a muitos órgãos, incluindo o coração e os vasos sanguíneos, rins, intestino e cérebro, o que explica a grande subnotificação do número de mortos, inclusive aqui no Brasil, devido às dificuldades de diagnóstico e falta de autópsias.

O vírus age como nenhum patógeno que a humanidade jamais viu. Quando uma pessoa infectada expele gotículas carregadas de vírus e outra pessoa as inala, o novo coronavírus (Sars-CoV-2) encontra um lar bem-vindo no revestimento do nariz, cujas células são ricas em uma enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), assim como na traqueia. Em todo o corpo, a presença de ACE2, que normalmente ajuda a regular a pressão sanguínea, marca os tecidos vulneráveis à infecção, porque o vírus entra nessa célula receptora. Uma vez dentro, o vírus sequestra as máquinas da célula, fazendo inúmeras cópias de si mesmo e invadindo novas células.

À medida que o vírus se multiplica, uma pessoa infectada pode lançar grandes quantidades dele, principalmente durante a primeira semana. Os sintomas podem estar ausentes neste momento. Ou a nova vítima do vírus pode desenvolver febre, tosse seca, dor de garganta, perda de olfato e paladar ou dores de cabeça e corpo. Se o sistema imunológico não repelir o Sars-CoV-2 durante esta fase inicial, o vírus marcha pela traqueia para atacar os pulmões, onde pode se tornar mortal. Mas o vírus, ou a resposta do corpo a ele, pode ferir muitos outros órgãos: cérebro, olhos, fígado, coração e vasos sanguíneos, rins e intestinos.

Alguns médicos suspeitam de que o ataque vertiginoso do coronavírus no organismo seja uma reação exagerada e desastrosa do sistema imunológico conhecida como “tempestade de citocinas”, na qual os níveis de certas citocinas sobem muito além do necessário, e as células imunológicas começam a atacar tecidos saudáveis. Pode ocorrer vazamento de vasos sanguíneos, queda de pressão arterial, formação de coágulos e falência catastrófica de órgãos. Mas o pior dos mundos, com a presença de vírus no trato gastrointestinal, pode ser a possibilidade inquietante de que ele seja transmitido pelas fezes, ainda mais num país como o nosso, no somente uma parcela da populaçao tem, esgoto tratado. A sorte, porém, é de que ainda não está claro se as fezes contêm vírus infecciosos intactos ou apenas o seu RNA (ácido ribonucleico), uma molécula responsável pela síntese de proteínas das células do corpo.

A fila única para a Covid está na mesa

O médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto defendeu a instituição de uma fila única para o atendimento de pacientes de Covid-19 em hospitais públicos e privados. Nas suas palavras:

“Dói, mas tem que fazer. Porque senão brasileiros pobres vão morrer e brasileiros ricos vão se salvar. Não tem cabimento isso”.


Ex-diretor da Agência de Vigilância Sanitária e ex-superintendente do Hospital Sírio-Libanês, Vecina tem autoridade para dizer o que disse. A fila única não é uma ideia só dele. Foi proposta no início de abril por grupos de estudo das universidades de São Paulo e Federal do Rio. Na quarta-feira, o presidente do Conselho Nacional de Saúde, Fernando Zasso Pigatto, enviou ao ministro Nelson Teich e aos secretários estaduais de Saúde sua Recomendação 26, para que assumam a coordenação “da alocação dos recursos assistenciais existentes, incluindo leitos hospitalares de propriedade de particulares, requisitando seu uso quando necessário, e regulando o acesso segundo as prioridades sanitárias de cada caso.”

Por quê? Porque a rede privada tem 15.898 leitos de UTIs, com ociosidade de 50%, e a rede pública tem 14.876 e está a um passo do colapso.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (ex-diretor de uma Unimed) jamais tocou no assunto. Seu sucessor, Nelson Teich (cuja indicação para a pasta foi cabalada por agentes do baronato) também não. Depois da recomendação do Conselho, quatro guildas da medicina privada saíram do silêncio, condenaram a ideia e apresentaram quatro propostas alternativas. Uma delas, a testagem da população, é risível, e duas são dilatórias (a construção de hospitais de campanha e a publicação de editais para a contratação de leitos e serviços). A quarta vem a ser boa ideia: a revitalização de leitos públicos. Poderia ter sido oferecida em março.

Desde o início da epidemia os barões da medicina privada se mantiveram em virótico silêncio. Eles viviam no mundo encantado da saúde de griffe, contratando médicos renomados como se fossem jogadores de futebol, inaugurando hospitais com hotelarias estreladas e atendendo clientes de planos de saúde bilionários. Veio a Covid, e descobriram-se num país com 40 milhões de invisíveis e 12 milhões de desempregados.

Se o vírus tivesse sido enfrentado com a energia da Nova Zelândia, o silêncio teria sido eficaz. Como isso era impossível, acordaram no Brasil, com 60 mil infectados e mais de seis mil mortos.

A Agência Nacional de Saúde ofereceu aos planos de saúde acesso aos recursos de um fundo se elas aceitassem atender (até julho) clientes inadimplentes. Nem pensar. Dos 780 planos, só nove aderiram.

O silêncio virótico provocou-lhes uma tosse com a recomendação do Conselho Nacional de Saúde. A fila única é um remédio com efeitos laterais tóxicos. Se a burocracia ficar encarregada de organizá-la, arrisca só ficar pronta em 2021. Ademais, é discutível se uma pessoa que pagou caro pelo acesso a um hospital deve ficar atrás de alguém que não pagou. Na outra ponta dessa discussão, fica a frase de Vecina: “Brasileiros pobres vão morrer e brasileiros ricos vão se salvar.” Os números da epidemia mostram que o baronato precisa sair da toca.

A Covid jogou o sistema de saúde brasileiro na arapuca daquele navio cujo nome não deve ser pronunciado (com Leonardo DiCaprio estrelando o filme). O transatlântico tinha 2.200 passageiros, mas nos seus botes salva-vidas só cabiam 1.200 pessoas: 34% dos homens da primeira classe salvaram-se; na terceira classe, só 12%.

Sinal dos tempos estranhos

Um dia alguém vai estudar o Brasil de 2020 durante a pandemia.

Enquanto a rede pública de saúde dava sinais de colapso, o presidente da Federação Brasileira de Hospitais, guilda de 4.200 instituições privadas, informava que a ociosidade média dos leitos de UTIs de seus associados estava em 50%.

O diretor do Sírio-Libanês, o hospital das celebridades (Lula, Dilma e companhia), explicava o efeito dessa ociosidade, provocada pela suspensão dos procedimentos eletivos para clientes de planos de saúde dos abonados:

“Todos os nossos hospitais nesse momento que estão com ocupação baixa têm custos fixos que têm que ser pagos. Essas empresas vão ficar numa situação econômica difícil. Já neste mês há instituições com dificuldade de pagar a folha de pagamento. Outros vão aguentar de dois a três meses. Mas se essa situação persistir por muito tempo, vão ter problema de solvência.”

Se esse darwinismo econômico é irredutível, vale o que disse o doutor Paulo Guedes: “É da vida ser abatido, é do mercado. Uma economia de mercado de vez em quando é atingida”. Quem acha que é da vida ser abatido pelo coronavírus deve entender que também é da vida que sua empresa pegue o vírus da insolvência.

Madame Natasha

Natasha adora as entrevistas do ministro Nelson Teich. Suas platitudes permitem que ela tire sonecas vespertinas.

Por acaso ela ainda não tinha adormecido quando o doutor disse o seguinte:

“O que tem que ficar claro é que é um número que vem crescendo”.

Naquele dia haviam morrido 473 pessoas (durante todo o ano em que combateu o exército alemão na Itália, a Força Expedicionária Brasileira perdeu 474 pracinhas).

Como o ministro havia visto sinais de que a epidemia estava contida, deveria ter dito o seguinte:

“Ficou claro para mim que o número vem crescendo.”

Na mesma entrevista, o ministro apontou para o fato de que o aumento das mortes estava restrito a alguns estados, como São Paulo, Rio e Amazonas.

Em agosto de 1945, os militares japoneses aloprados diziam em Tóquio que havia um problema restrito às cidades de Hiroshima e Nagasaki.

Chavismos

A deputada Joice Hasselmann, ex-líder do governo de Jair Bolsonaro no Congresso, disse à repórter Julia Chaib que o Brasil corre o risco de cair “num chavismo de verdade, com sinal trocado”.

Em 2018, durante a campanha eleitoral, o general Hamilton Mourão, que foi adido militar na Venezuela, explicou a essência do poder chavista:

“Existe uma corrupção muito grande nas Forças Armadas venezuelanas. Elas perderam a mão em relação à missão que têm no país.”

Vargas tentou

Quando o ministro Alexandre de Moraes bloqueou a nomeação de um delegado amigo da família Bolsonaro para a direção da Polícia Federal, mostrou que o bom funcionamento das instituições acaba protegendo os presidentes.

Na manhã de 29 de outubro de 1945, Getulio Vargas decidiu nomear seu irmão Benjamin para a Chefatura de Polícia do Rio, um dos cargos mais importantes da República. À noite, estava deposto.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e garante:


Essa epidemia é uma gripezinha, o programa Pró-Brasil era apenas um estudo e o amigo inglês de Paulo Guedes está pronto para oferecer 40 milhões de testes para o coronavírus.

A verdadeira herança maldita no Brasil


Pandemônio

Em entrevista ao programa Câmera Aberta, da Band, em 1999, Bolsonaro, indagado se, caso fosse presidente, fecharia o Congresso, respondeu: “Não há a menor dúvida. Daria golpe no mesmo dia”. Nessa entrevista defendeu a tortura e disse que o Brasil “só vai mudar, infelizmente, quando partirmos para uma guerra civil (...) matando uns 30 mil (...). Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra morrem inocentes”.

Ao votar no impeachment, ele o fez em homenagem ao torturador coronel Brilhante Ustra, “o pavor de Dilma Rousseff”, disse.

Pela segunda vez, em plena pandemia, dia 19/4, Bolsonaro foi à manifestação dominical contra o Congresso Nacional e a favor da ditadura. Antes da fala de Bolsonaro, circunstantes gritavam “Fora Maia”, “AI-5”, “Fecha o Congresso”, “Fecha o STF” e carregavam faixas pedindo “intervenção militar já com Bolsonaro”, que em seu discurso falou: “Eu estou aqui porque acredito em vocês. Vocês estão aqui porque acreditam no Brasil” – adotando como seu, portanto, o teor do encontro.

A identificação com essa reunião se comprova ao pretender interferir a favor dos manifestantes, com a mudança do diretor da Polícia Federal: na mensagem enviada a Moro, ministro da Justiça, Bolsonaro reproduz nota do site O Antagonista segundo a qual a PF está “na cola” de 10 a 12 deputados bolsonaristas.

O presidente, então, escreveu: “Mais um motivo para a troca”. Patente, destarte, que buscava intervir no inquérito determinado pelo ministro Alexandre de Moraes instaurado para verificar “a existência de organizações e esquemas de financiamento de manifestações contra a democracia e a divulgação em massa de mensagens atentatórias ao regime republicano”. A nomeação de pessoa íntima para a diretoria da PF, cuja posse foi obstada pelo STF, é prova do interesse de demissão do então dirigente para se imiscuir nas investigações.


A atitude de Bolsonaro em face da pandemia, “uma gripezinha”, mostra indiferença pelo que poderia acontecer se desrespeitadas as normas de isolamento e quarentena determinadas pela OMS e pelo ex-ministro Mandetta.

Na última terça-feira, indagado sobre o aumento do número de mortes, o presidente deu resposta agressiva: “E daí? Lamento. Eu sou Messias, mas não faço milagres”. A soberba, todavia, revela-se no uso das expressões “eu sou a Constituição”, “tenho a caneta”, “o presidente sou eu”, “quem manda sou eu”.

Tais comportamentos indicam possível anormalidade de personalidade, a merecer análise médica acurada.

Já opinei ser a interdição um caminho eventual para Bolsonaro. Não estava a fazer blague. As atitudes habituais permitem supor possível transtorno de personalidade, falha profundamente estudada por Odon Ramos Maranhão, titular de Medicina Legal (Psicologia do crime, 2.ª ed. Malheiros, 1995, cap. 7) e objeto de classificação pela CID-10, a Classificação Internacional de Doenças da OMS, em livro específico sobre doenças mentais (Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento, editor Artes Médicas, pág. 199).

Nessa classificação, o transtorno de personalidade antissocial tem por características a “indiferença insensível face aos sentimentos alheios; uma atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito a regras; a baixa tolerância à frustração; a incapacidade para experimentar culpa e propensão a culpar os outros”.

Poderia haver, eventualmente, transtorno de personalidade paranoide, cujos sintomas seriam, por exemplo, “combativo e obstinado senso de direitos pessoais; tendência a experimentar autovalorização excessiva e preocupação com explicações conspiratórias”.

Outra publicação respeitada é o DSM-5, da Associação Psiquiátrica Americana, que em http://www.niip.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Manual-Diagnosico-e-Estatistico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5-1-pdf.pdf, nas páginas 645 e seguintes, estuda os tipos de transtornos da personalidade, cabendo destacar: “1- paranoide, caracterizado por desconfiança e suspeita tamanhas que as motivações dos outros são interpretadas como malévolas; 2- antissocial, cujo padrão é desrespeito e violação dos direitos dos outros; 3- narcisista, que apresenta sentimento de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia”.

Atentemos para o comportamento reiterado de Bolsonaro, ao longo do tempo, em favor de situações que geram dor, em apoio a manifestações pelo fechamento do Congresso e do STF, chegando a agir, como presidente, para não se apurar devidamente a organização do ato de domingo 19 de abril; em campanha contra o isolamento social, única medida possível para reduzir mortes; usando a trágica expressão, “e daí?” acerca do aumento do número de mortes; no gosto pelo aplauso popular, pois, no domingo 15 de março, ao ser ovacionado em frente ao Planalto falou: “Isso não tem preço”.

São esses os sinais indicativos de possível enquadramento nas categorias psiquiátricas acima lembradas, o que cumpre ser verificado por experts em medida adotada em defesa do País.

No meio da pandemia, um pandemônio.

Exemplo do vírus delivery

Cerimônia de posse dos novos ministros da
Justiça, André Luiz Mendonça, e da AGU, José Levi
 O leitor desavisado e incrédulo olha para esses registros e até desconfia se não foram feitos em uma época passada, tamanho o absurdo e o descaso com a saúde pública e com o compromisso de se dar o exemplo para a sociedade. Milhares de pessoas mortas por causa de uma pandemia ainda sem cura, países chorando por seus falecidos, médicos desesperados longe de suas famílias e os representantes dos poderes brincando com a vida. O mundo vê isso e deve pensar que tipo de ignorantes moram neste país,  já que os seus próprios mandatários andam na contramão cotidianamente e chutam todas as recomendações para escanteio. Dá vergonha. Dá medo. Marcelo Copelli 

Os vivos e os mortos

1.

Estendendo as mãos para fora da cama, admirou-se de não encontrar nada. "Ora essa", pensou, "as formigas devem ter comido a parede", e voltou a dormir. Pouco depois, a mulher o sacudiu: "Olha, seu preguiçoso", disse ela, "enquanto você estava dormindo, roubaram a nossa casa". O céu intacto espraiava-se por todos os lados. "Bem, o que está feito, está feito", pensou ele.

Pouco depois, ouviu-se um barulho. Era um trem que se aproximava deles a toda velocidade. "Com tanta pressa", pensou, "vai chegar com certeza antes de nós", e voltou a dormir. Depois, o frio o despertou. Estava banhado em sangue. Alguns pedaços da sua mulher jaziam junto dele. "Com o sangue", pensou ele, "surgem sempre muitos contratempos; se aquele trem não tivesse passado eu seria feliz. Mas, uma vez que já passou...", e tornou a adormecer.

Nos últimos anos, sonâmbulos como o homem pacífico de Henri Michaux pulularam por estas terras. Liberais com deficiência de aprendizado, juristas de palanque e articulistas do chefinho distraíram-se dos ímpetos totalitários do asno que alçaram ao poder com o simples objetivo de apear um governo levemente trabalhista.

Quando confrontados, disseram: "O poder irá moderá-lo...", e voltaram a dormir.


2.

Hoje, as instituições estão sequestradas por milícias fascistas. A cada dia mais frágeis, adiam o momento em que terão que finalmente combater ou capitular. Indecisos entre o cálculo político e a defesa da Constituição, a desonra e a guerra, congressistas, senadores e presidentes das duas casas assistem, lívidos, a corrosão do que nos sobrava de Estado Democrático de Direito. Sem perceber que, um a um, todos estão virando sombras.

Antes de cair no sono, soltarão outra nota de repúdio.

3.

As intrigas palacianas com ramificações em grupos de extermínio que testemunhamos no meio de uma pandemia só podem acabar em (mais) tragédia. Não haverá renúncia ou acordo. Haverá tiroteio, assassinato, suicídio. Este governo miliciano sabe que, fora do poder, será encarcerado.

Entre a inocência e a impotência, a oposição democrática descobre a cada dia novos buracos para enfiar o pescoço. Enquanto nós, os últimos ilustrados, inventamos novas formas de conversar com o espelho. Sempre um pouco acima do chão, um pouco revolucionários – ligeiramente subversivos. Mas não muito.

Talvez por isso, nós, que ainda estamos vivos, fomos – e seguimos – incapazes de estar a altura do desafio histórico que temos diante dos olhos. A esperança que nos resta é outra.

4.

Quantos zeros precisam estar à direita para que a pilha de corpos torne-se (ou deixe de ser) uma abstração? Qual é o limite do aceitável? Qual o grau de parentesco? A aritmética da compaixão? Qual será a imagem, o cadáver exposto na calçada, a cova coletiva, que irá riscar uma linha a partir da qual um "e daí?" seja respondido com a guilhotina que merece?

Logo uma tempestade pesada cairá em cada trecho do Planalto Central, nas secas colinas, sobre os mangues e as florestas. Cairá, também, sobre os cemitérios, em rajadas nas cruzes e lápides, nas pontas dos portões, nos espinheiros e jardins, na grama, na lama. Ouviremos essa chuva cair na terra, como se encontrasse seu pouso definitivo, sobre todos os vivos e todos os mortos.

Talvez nesse dia, os últimos falem mais alto que os primeiros.

J.P. Cuenca

Com o Centrão revigorado por Jair Bolsonaro, vêm aí uma enorme Farra do Boi

Vem aí uma enorme Farra do Boi. É o Centrão revigorado, com a mão na botija de ouro. Bolsonaro já combinou com Valdemar Costa Neto – este exemplo de honestidade – a área de vigilância da Saúde. Na área está ainda o epidemiologista Wanderson Oliveira, que ficou (por enquanto) da gestão Mandetta.

Por que o PL mira a vigilância? É a área das grandes compras do Ministério da Saúde. Dá para faturar um dindim formidável.

 O PL levará também a presidência do Banco do Nordeste, outra teta do dindim na região.

Para o PP – um partido de homens probos – irão o FNDE e o DNOCS. Dois centros de grandes compras do governo. O FNDE toca programas da educação básica – a merenda e o transporte escolar e o Programa Nacional do Livro Didático.Já pensou o tamanho do bufê da festa?

O PSD ficará com a Funasa, outro foco de faturamento extra. O Republicanos (???) levará uma secretaria na Agricultura e a Secretaria de Mobilidade Urbana. O PTB de Roberto Jefferson quer influir no Dnit (ex-DNER).


Vamos destrinchar o caso como se fosse um frango assado sobre a mesa. Moro diz que Bolsonaro lhe falou que precisa “interagir” com o diretor da PF, ter informações sobre investigações da PF.

Pergunta: há inquéritos da PF que interessam diretamente a Bolsonaro? Sim. As investigações do STF sobre as fake-news visam ao “gabinete do ódio”, operado por Carlos Bolsonaro.

Sim. As investigações sobre rachadinha e relações com a milícia de Rio das Pedras (incluindo assassinato de Marielle) visam a Flávio Bolsonaro.

Sim. As investigações sobre financiamento de manifestações anticonstitucionais, contra o Congresso e o STF, visam a Eduardo Bolsonaro.

Faz lógica, não faz?

Este post é dedicado aos ingênuos que votaram em Bolsonaro para acabar com a corrupção no Brasil.

A corte de Bolsonaro

Na extinta monarquia brasileira, conforme o artigo 99 da Constituição de 1824, “a pessoa do imperador é inviolável e sagrada” e “ele não está sujeito a responsabilidade alguma”. Ou seja, o imperador não respondia pelos seus atos, sendo estes, em si mesmos, a expressão da lei. Essa figura do Poder irresponsável, acima de todos os outros, foi extinta com a Proclamação da República, em 1889. A primeira Constituição republicana, de 1891, estabelece a “responsabilidade do presidente” (Capítulo V) e os diversos crimes de responsabilidade pelos quais o presidente poderia ser acusado (artigo 54), como desrespeito à Constituição e improbidade administrativa.

O presidente Jair Bolsonaro age como se ainda estivéssemos sob a Constituição de 1824 e como se ele fosse o imperador. “Quem manda sou eu”, disse recentemente Bolsonaro, invocando, pela enésima vez, um poder que ele considera ilimitado. Neste caso específico, Bolsonaro quer ter poder de nomear amigos para dirigir a Polícia Federal (PF) e fazê-la trabalhar para atender a seus interesses e aos de seus filhos, que aparecem em investigações da PF.


Bolsonaro não se conforma que outros Poderes limitem o seu, como aconteceu na quarta-feira passada, 29, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem, amigo da família presidencial, para chefiar a PF, em razão de evidente desvio de finalidade. “No meu entender, uma decisão política. Política!”, esbravejou Bolsonaro, tentando desqualificar a decisão do ministro Alexandre de Moraes.

Com espírito imperial, Bolsonaro avisou que vai insistir na nomeação, desautorizando a Advocacia-Geral da União (AGU), que havia informado que não recorreria da decisão. O problema, como explicou a própria AGU, é que não há mais do que recorrer, já que a nomeação de Alexandre Ramagem foi tornada sem efeito pelo próprio Bolsonaro. Se quiser insistir nisso, o presidente terá que reeditar a nomeação, em franca afronta ao Supremo.

O presidente disse que “desautorizar um presidente da República com uma canetada”, em referência ao ato do ministro Alexandre de Moraes, pode levar a uma “crise institucional”, e rogou: “Eu apelo a todos que respeitem a Constituição”.

Ora, o respeito pela Constituição deve começar pelo presidente da República, cujas nomeações devem observar os princípios da impessoalidade, da moralidade e do interesse público. Bolsonaro, ao contrário, não quer que seus ministros e assessores trabalhem pelo País, e sim como despachantes de interesses privados, tanto os de sua família como os dos amigos.

O presidente vive a infernizar ministros e assessores que não se curvam a suas vontades – os ex-ministros da Saúde e da Justiça que o digam –, enquanto favorece os sabujos que, malgrado sua incrível incompetência, não lhe economizam encômios. Na corte bolsonarista, em breve quase não haverá ministros, apenas amigos do rei.

Aos cortesãos, não faltarão prebendas. Como mostrou recentemente uma reportagem Estado, o presidente Bolsonaro cobrou da Receita Federal uma solução para as dívidas tributárias de igrejas evangélicas, cujos líderes são seus entusiasmados apoiadores. A Receita descobriu que as igrejas estavam usando a remuneração de pastores, também chamada de “prebenda”, que é isenta de tributos, para distribuir participação nos lucros e pagar remuneração variável, ou seja, de acordo com o número de fiéis. Bolsonaro não viu nenhum problema em exigir pessoalmente do secretário da Receita, José Barroso Tostes Neto, que alivie as multas.

Esse caso ilustra bem o tipo de influência que Bolsonaro quer exercer nos órgãos da República, que, ao contrário do que pensa o presidente, devem atuar nos limites da lei e conforme o interesse público. É com esse espírito que Bolsonaro ainda pretende colocar um funcionário de sua estrita confiança na chefia da PF para transformá-la em polícia particular. Sabe-se lá onde isso vai parar, razão pela qual o Supremo vem tomando seguidas decisões que mostram ao presidente que o tempo do soberano irresponsável já passou faz mais de um século.</p>