domingo, 4 de junho de 2017

No planeta dinheiro, reformas são mais importantes que crise moral do governo

O clima de forte incerteza política que toma conta do país desde a delação premiada dos irmãos Batista, donos da JBS, parece estar longe de tirar o sono de investidores estrangeiros interessados em fazer negócios no Brasil. Na visão de alguns, a crise instalada em Brasília é uma tormenta passageira sem força para alterar os rumos da retomada do crescimento da economia brasileira, que começa a ensaiar alguns pequenos sinais de melhora. “O Brasil não perdeu a década e os fundamentos econômicos também não se perderam”, avalia Hélio Magalhães, presidente do Citibank no Brasil, que participou do Fórum de Investimentos 2017, em São Paulo. Como ele, os executivos ouvidos pelo EL PAÍS durante o evento aponta a crise política como um empecilho no curto prazo, mas as reformas em andamento são garantia de uma mudança bem-vinda. “Há uma solidez econômica e institucional no Brasil, uma certeza de que o país é capaz de lidar com a crise política”, disse a este jornal o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luis Moreno. O BID está ampliando investimentos no Brasil e abriu um segundo escritório no país, de olho em novos projetos.

O resultado do PIB divulgado nesta semana, que apresentou crescimento de 1% no primeiro trimestre, após dois anos de queda, era a prova cabal que o Governo precisava para convencer o mercado de que o futuro será melhor que o passado. Não é o fim da recessão ainda, como o presidente Michel Temer anunciou no Twitter nesta quinta, mas ajuda a fortalecer a narrativa da equipe econômica para convencer as empresas a mudar de postura. Apesar do entusiasmo com as reformas, a taxa de investimentos ainda está em baixa: 15,6% em relação ao PIB no primeiro trimestre deste ano, a mais baixa desde os anos 90.

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Poucos dias após a delação da JBS, o sentimento entre os interessados em investir no Brasil era de tensão, como constatou Andoni Hernández, consultor em direito estrangeiro, do escritório Demarest, que recebe demandas de interessados do exterior, em conhecer as potencialidades do país. “Não vou negar que o clima político causa reticência e que investidores estrangeiros ficam com pé atrás. Mas essa é uma visão generalista”, diz Hernández, que cuida dos clientes ibero-americanos, e tem o pulso de como o Brasil este sendo visto lá fora. Se em 2015 e 2016 a posição era de cautela, diz ele, este ano o interesse voltou com a agenda de infraestruturas do Governo.

David Fleischer, cientista político americano naturalizado brasileiro, diz não ter dúvidas que os investidores estrangeiros estão mais de olho na economia e menos interessados nos problemas domésticos do país. "A crise política afeta menos as decisões deles. Tanto é assim que o investimento estrangeiro direto continua crescendo desde janeiro", argumentou. No acumulado de 2017 até abril, o ingresso de investimentos estrangeiros destinados ao setor produtivo somou 45,44 bilhões de dólares. No mesmo período, em 2016, o investimento estrangeiro alcançou 33,3 bilhões.

Um dos endereços desses recursos são as obras de infraestrutura. As concessões de quatro aeroportos, em março, por exemplo, trouxeram capital da Alemanha, Suíça e França, que vieram pelos grupos Fraport, Zurich e Vinci, respectivamente.

A crise política que colabora com a letargia na economia parece também ter um efeito colateral para os estrangeiros, uma vez que os ‘ativos’ do Brasil estariam a preços convidativos, como sugeriu o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, durante palestra a investidores. “Este é o momento certo de investir, antes que o país esteja mais valorizado. Quem está presente desde o começo do ciclo [de recuperação da economia], serão a se beneficiar”, afirmou.

1984 (abertura)

Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas. Winston Smith, queixo enfado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.

O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Winston avançou para a escada. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo quando tudo ia bem, era raro que funcionasse, e agora a eletricidade permanecia cortada enquanto houvesse luz natural. Era parte do esforço de economia durante os preparativos para a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, com seus trinta e nove anos e sua úlcera varicosa acima do tornozelo direito, subiu devagar, parando para descansar várias vezes durante o trajeto. Em todos os patamares, diante da porta do elevador, o pôster com o rosto enorme fitava-o da parede. Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO E M VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.

No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou um interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. Winston foi para junto da janela: o macacão azul usado como uniforme do Partido não fazia mais que enfatizar a magreza de seu corpo frágil, miúdo. Seu cabelo era muito claro, o rosto naturalmente sanguíneo, a pele áspera por causa do sabão ordinário, das navalhas cegas e do frio do inverno que pouco antes chegara ao fim.

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Fora, mesmo visto através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Lá embaixo, na rua, pequenos rodamoinhos de vento formavam espirais de poeira e papel picado e, embora o sol brilhasse e o céu fosse de um azul áspero, a impressão que se tinha era de que não havia cor em coisa alguma a não ser nos pôsteres colados por toda parte. Não havia lugar de destaque que não ostentasse aquele rosto de bigode negro a olhar para baixo. Na fachada da casa logo do outro lado da rua, via-se um deles. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO E M VOCÊ, dizia o letreiro, enquanto os olhos escuros pareciam perfurar os de Winston. Embaixo, no nível da rua, outro pôster, esse com um dos cantos rasgado, adejava operosamente ao vento, ora encobrindo, ora expondo uma palavra solitária: Socing. Ao longe, um helicóptero, voando baixo sobre os telhados, pairou um instante como uma libélula e voltou a afastar-se a grande velocidade, fazendo uma curva. Era a patrulha policial, bisbilhotando pelas janelas das pessoas. As patrulhas, contudo, não eram um problema. O único problema era a Polícia das Ideias.
George Orwell

sábado, 3 de junho de 2017

Charge O TEMPO 3.6.2017

Michel Temer faz o jogo do contente

A obra é famosa, embora secundária; Poliana, de Eleanor Porter, retrata uma menina de bom coração, que enxerga o mundo com lentes cor-de-rosa; em tudo ressalta o lado positivo, aprendera com o pai a jogar o “jogo do contente”. Ao longo de mais de um século, o título tornou-se adjetivo, expressa o comportamento dos muito ingênuos ou dos muito cínicos — os que se fazem passar por Poliana.

Na quinta-feira, 1º. de junho, Michel Temer resolveu jogar o “jogo do contente”, que, provavelmente, aprendeu com seu marqueteiro de ocasião ou com os estrategistas do desespero que o cerca. Em seu Twitter, o presidente declarou que “acabou a recessão! Isso”, diz ele, “é resultado das medidas que estamos tomando. O Brasil voltou a crescer. E com reformas vai crescer ainda mais”. Viva! O país deve festejar ou ter vergonha alheia de uma manifestação patética?


Embora haja fluidos positivos na economia, o presidente aposta, é certo, num jogo de sinais; precisa de sombras e qualquer biombo lhe serve. Em 133 caracteres, pretende fazer supor que redefiniu a tempestade, transformando-a em bons ventos. É o que lhe resta. Mas, não é bem assim: nem o IBGE — preocupado com a reputação que tem — é capaz de referendar a opinião do chefe. Só falta mesmo agora que Temer lance mão do tal “espetáculo do crescimento”.

O presidente esboça o “deixa o homem trabalhar”, usado por Lula, após a crise do Mensalão; o petista parece ter sido mais original. O que não explica — como também Lula não o fez — é, porém, quem o importuna; quem o impede de desarrolhar todo seu potencial. Certamente, a oposição não é — atarantada que está nas mesmas teias que o governo, a aposição não há — para além do tumulto que tenta despertar.

Tampouco, há um complô de mídia: os jornais, na verdade, se dividem, mas nenhum deles pode ser classificado como instrumento de oposição: retrata-se o que sai tingido na foto cotidiana do governo Temer. Afirmar, por sua vez, que seja o Ministério Público o inimigo que não deixa Temer trabalhar também parece impreciso: promotores reagem aos indícios que recolhem; o fizeram com Dilma e a turma que hoje está no governo afirmava que todas as decisões da Lava Jato eram, ao final, referendadas pela Justiça. O que mudou?

É claro que Michel Temer não é ingênuo; faz o tipo Forrest Gump, mas não é exatamente assim. Menos ainda está para uma inglesinha romântica, de sainha plissada e lencinho cor-de-rosa; na política brasileira, não há lugar para almas assim – talvez, em nenhum lugar do mundo. Menos ainda no PMDB, onde a ingenuidade foi reprovada no berçário. Temer sabe que qualquer melhora do cenário econômico lhe servirá de álibi, de muleta, e é nisso em que se escora. Não se trata de ilusão.

Os inimigos do presidente são, antes, os fatos. Os fatos e mais ninguém. Todo o resto — oposição, aliados, mídia, Ministério Público e Justiça — são pacientes desses fatos, passageiros de sua agonia. Fatos que fazem de Michel Temer esse refém perdido, travestido de Poliana; jogando o “jogo do contente”, buscando parceiros entre os distraídos, os desinformados e os de intenção duvidosa.

Carlos Melo 

O abraço dos afogados

Enquanto aguarda a qualquer momento ordem de prisão, por atos de corrupção numa escala sem precedentes na História, Lula, a bordo de seis inquéritos criminais, finge que quer eleições diretas - e estimula uma falsa hostilidade a Michel Temer.

Nos bastidores, porém, negocia não apenas com ele, mas com outro falso inimigo, o senador tucano Aécio Neves. Os três têm algo em comum: complicações com o Código Penal, que não se resolvem apenas com os contorcionismos jurídicos de seus advogados.

É preciso recorrer à política, atividade em tese voltada à gestão dos interesses da coletividade, mas, nos dias que correm, pretexto às mais variadas formas de truques e heterodoxias.

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Michel Temer, que já havia sofrido escoriações nas delações da Odebrecht, foi atingido em cheio nas da JBF. Não bastasse, seu ex-assessor Rodrigo Loures, flagrado com uma mala de dinheiro – R$ 500 mil em propinas da JBF -, que, segundo os delatores, se destinariam ao próprio presidente, perdeu o foro privilegiado.

Suplente de deputado pelo PMDB do Paraná, teve de devolver a vaga a seu titular, Osmar Serraglio. Este deixou o Ministério da Justiça, substituído por Torquato Jardim, e recusou a manobra de ir para o Ministério da Transparência, para manter o ex-assessor de Temer guarnecido pelo foro privilegiado.

Loures pode ser preso a qualquer momento e, pior, negociar uma delação premiada. Trata-se de alguém que o presidente mencionou como de sua “mais estrita confiança”. Mas há mais: começa a ganhar visibilidade outro personagem que opera no universo paralelo do presidente, o coronel João Baptista Lima Filho.

Segundo Ricardo Saud, executivo-mor de Wesley e Joesley, o coronel, na reta final da campanha de 2014, teria sido receptador de R$ 1 milhão em espécie, entregues na sede de uma de suas empresas, “conforme indicação direta e específica de Temer”.

O dinheiro, segundo o delator, era parte de um acerto de R$ 15 milhões feito com Temer. Os investigadores foram ao escritório do coronel e lá encontraram comprovantes de pagamento e recibos de despesas de familiares e também do próprio presidente.

Em uma caixa, havia recibos de pagamentos de reforma da casa de uma filha de Temer, Maristela, além de planilhas com movimentações bancárias e programação de outros pagamentos.

Juridicamente, a situação se complicou – e o jeito é aprofundar as manobras. No STF, o julgamento de restrições ao foro privilegiado, que não interessava nem a Temer, nem a Lula ou Aécio – e se prenunciava vitorioso -, foi interrompido por um inesperado pedido de vistas do ministro Alexandre de Moraes, o único indicado por Temer e seu ex-ministro da Justiça.

Para conter seus adversários na área sindical, Temer acertou com Lula a manutenção do imposto sindical na reforma trabalhista, que, além de nutrir uma elite milionária de pelegos, provê a máquina petista para manifestações como as da semana passada na Esplanada dos Ministérios, contida apenas pela chegada do Exército.

O PT, ao tempo em que não se opõe à continuidade de Temer, em cujo desgaste e strip-tease político busca salvar sua própria reputação, raciocina também com a hipótese de sua saída.

Nesse caso, mesmo se abstendo de votar no colégio eleitoral, vê com bons olhos a chapa Rodrigo Maia (DEM)-Aldo Rebelo (PCdoB), que está sendo costurada no Congresso para o período de transição até 2018. O “diretas já” não passa de encenação.

Lula sabe que o favoritismo que as pesquisas lhe atribuem é falso e decorre de um truque: a diluição dos votos dos seus adversários em candidaturas hipotéticas como a de Sérgio Moro e Joaquim Barbosa. Com 20% de simpatizantes e 60% de rejeição não vai a parte alguma. Mas sabe que a popularidade do passado recente ainda infunde medo aos adversários – e o explora.

Com isso, busca consolidar a imagem de perseguido político. A realidade, porém, é outra. Faz pouco mais de sete meses que fracassou na tentativa de eleger vereador, em São Bernardo, onde vive há meio século, um enteado. E não impediu que o PT perdesse nada menos que 75% das prefeituras que detinha.

Já Aécio vive a mais incômoda das situações. Administra o choque da quebra de sua imagem, que há três anos empolgou 51 milhões de eleitores, que o supunham paladino do antipetismo.

Mesmo os que não o estimavam não o imaginavam de tal forma mergulhado no mesmo submundo. Afastado da presidência de seu partido e do mandato de senador, com a irmã, Andrea, presa, manobra para sobreviver ao Conselho de Ética do Senado, em cuja composição influiu, sugerindo os nomes de alguns de seus juízes.

Se sobreviver, terá o guarda-chuva do foro privilegiado, que os amigos Temer e Lula se empenham em preservar.

Diretas Já (modo Venezuela)

Essa sessão nostalgia da política brasileira foi uma grande sacada. O episódio das Diretas Já em Copacabana foi emocionante. Você se sente realmente no túnel do tempo, é muito bem feito.

Dizem que estão preparando o do comício da Central do Brasil, o da passeata contra a Guerra do Vietnã e um especial sobre o choro de Maria da Conceição Tavares no Plano Cruzado. Só épicos. Vamos aguardar.

O remake das Diretas foi lindo, só houve um mal-estar. Ao final do episódio — que teve o mesmo elenco das manifestações em defesa da quadrilha simpática de Dilma Rousseff — o cenário estava impecável. Isso não foi legal. Vitrines intactas, ônibus e orelhões idem. Falha elementar de produção, que precisará ser corrigida no próximo capítulo. A família revolucionária brasileira não aceitará essa afronta novamente.

Charge do dia 03/06/2017

Vida de black bloc não é fácil. Você passa uma existência sendo atiçado por freixos e caetanos, e na hora da festa deles não te deixam soltar um mísero rojão na cara de ninguém. Não é justo.

E não é só isso. A parte mais bacana, que é fustigar a boçalidade da polícia para descolar umas bombas de gás e brincar de “Os dias eram assim”, também foi cortada.

É duro ter o seu talento dramático cerceado a esse ponto, e terminar na praia dançando música de protesto. Mas um guerreiro tem que estar preparado para as provações mais duras. Caminhando e cantando e seguindo o cifrão.

O que ninguém pode negar é que, antes dessa genial sacada dramatúrgica, a vida nacional estava caminhando para o marasmo. Inflação e juros caindo, níveis de risco idem, Petrobras saindo das emocionantes páginas policiais para a entediante seção de economia, reformas sendo tocadas por aqueles nerds que fazem tudo certinho e não são candidatos a nada. Uma chatice.

Graças a Deus surgiram roteiros decentes, como a escapada espetacular dos bilionários irmãos Batista para Nova York, depois de uma conversa franca e patriótica com o companheiro Janot. A emoção está de volta.

Morreu mais um pintinho esta noite. A mensagem cheia de compaixão pode parecer linguagem cifrada, neste mundo mau. Mas é verdadeira, porque ainda existe gente com sentimentos, capaz de se importar com os animais. O mensageiro da dor, no caso, é o caseiro do sítio de Atibaia, que não é do Lula. Essas coisas o fascista Moro não vê.

A mensagem sobre a morte no galinheiro foi enviada ao Instituto Lula — e aí as lágrimas brotam: um homem que foi presidente da República se importar com a vida de um pintinho, num sítio que nem é dele... É de cortar o coração.

Hoje sabemos que Lula não se importava só com os pintinhos. Preocupava-se muito com as vaquinhas. Foi por isso que ele mandou o BNDES — um banco até então sem a mínima sensibilidade para com os animais — ajudar na causa, depositando alguns bilhões de reais nas boiadas certas.

Não se pode confiar na Justiça terrena (como se vê pela perseguição implacável a este homem bom), mas a justiça divina não falha: mesmo após a delação demolidora de João Santana (quem se lembra disso?), Lula e Dilma estão em paz, assistindo de camarote ao bombardeio ao inimigo. Deus ajuda quem ajuda os animais.

A falha imperdoável de produção no remake das Diretas Já em Copacabana, felizmente, não ocorreu em Brasília. Ali sim, o episódio da série foi perfeito.

Aqueles ministérios que passaram 13 anos emocionando o Brasil — num enredo eletrizante protagonizado por Erenice Guerra, José Dirceu, Paulo Bernardo, Gleisi Hoffmann e grande elenco — andavam às moscas. Ultimamente, viam-se servidores públicos administrando e até obtendo resultados socioeconômicos — praticamente uma morte em vida.

Aí os revolucionários do povo perderam a paciência que tiveram nesses 13 anos dourados e cercaram a Esplanada. A direção de cena dessa vez foi impecável: os gladiadores da democracia tomaram uma dose redobrada da porção de mortadela e quebraram tudo. Foi bonito de se ver.

O Verissimo até falou que o Exército na rua lembrou a vida em 64! Viram como não é difícil produzir direito?

Dizem que no sensacional episódio “Brasília em chamas” a técnica de produção foi toda venezuelana. É possível, sabendo-se que a junta democrática que está tentando tomar o poder na mão grande (mas sem perder a ternura) inclui simpatizantes de Nicolás Maduro, conhecido como Senhor Diretas (no queixo).

Aliás, se no próximo episódio o pessoal substituir a MPB pela guarda chavista, as Diretas Já passam na hora — não precisa nem de voto.

O Brasil está mudando para melhor. Na época da Dilma era um drama para o Supremo autorizar investigação dos mandatários — mesmo com as obras completas da Lava-Jato transbordando sobre as divinas togas. A denúncia já vinha amortecida, ficava lá estacionada na sombra, e o Brasil ainda tinha que ouvir o despachante Cardozo chorando inocência. Agora, não: Janot mandou, Fachin homologou. Primeiro mundo.

Vai nessa, Brasil. Sem medo de ser feliz. Mas anda logo, que agora o país saiu da recessão (volta, Dilma!) e daqui a pouco vai ficar mais difícil ganhar no grito.

Gente fora do mapa

Shahnewaz Karim

É hora de decidir

Na semana em que se comemorava a elevação do índice de crescimento, após quase três anos de recessão, o Brasil foi surpreendido com a notícia da delação de Joesley Batista, dono da comprometida JBS, com provas avassaladoras de corrupção na República, em especial trazendo uma gravação de conversa do delator com o presidente Temer no porão do Palácio Jaburu, além de relatos de relações nada republicanas entre ambos. No exato instante de a economia do País decolar, surgiu um nevoeiro surpresa em forma de crise política de cunho moral. Como fazer de conta estar o campo aberto para pousos e decolagens, quando não se vê um palmo à frente?

A República cobriu-se de vergonha: o presidente ouvindo, com expressões abonadoras, relatos de empresário bandido sobre obstrução de justiça, além do flagrante de mala de dinheiro colhida por deputado de sua confiança como retribuição por interferência em futuras decisões do Cade. E, ainda, dois ex-presidentes, Lula e Dilma, com milhões de dólares no exterior.

Temer tentou, num lance de roque, mudando as peças do tabuleiro, reforçar sua defesa com a transferência de Torquato Jardim para o Ministério da Justiça, a demonstrar que lutará em todas as frentes para tentar salvaguardar seu mandato, malgrado a enrascada em que se envolveu. Pedido de impeachment foi apresentado pela Ordem dos Advogados do Brasil, mas seu prosseguimento depende de despacho do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

Os partidos que dão sustentação a Temer estão sob pressão das bases: diretórios dos Estados e muitos deputados federais e estaduais advogam o desembarque do governo. Consequência da rejeição aos atos praticados e também uma conduta de cunho pragmático, uma exigência de sobrevivência diante da queda ainda maior da aprovação do presidente, pois nada se lucra em estar com ele abraçado.


Nesse caótico quadro, a data do julgamento no TSE da ação para declarar o abuso do poder econômico da chapa Dilma-Temer nas eleições de 2014 passou a ter um caráter de divisor de águas, como se a Justiça Eleitoral pudesse vir em socorro da crise política para resolver o que os políticos não têm o destemor de fazer. Surgem, também, as soluções mágicas: se antes diziam caber ao TSE preservar o mandato de Temer, considerando haver contas separadas para cassar Dilma, mas não o seu vice, agora, com a crise, o caminho seria cassar também o vice.

Em seguida, cumpriria declarar vago o cargo de presidente e em uma semana estaria tudo resolvido, com a eleição indireta de um nome de “consenso”. Muitos dos implicados nas falcatruas de nossa República – mormente diante da futura delação de Palocci, que faz tremer parte do setor financeiro – acrescentam a essa solução fácil também o milagre de o novo presidente, nome de consenso, vir a conter, dentro de limites aceitáveis, a ação da Operação Lava Jato, que tantos prejuízos econômicos estaria causando ao País!!!

A imaginação dos culpados é fértil para tentar encontrar caminhos quando o do processo penal não é mais suficiente à sua defesa. Surge, então, o discurso de ser necessário lutar contra a corrupção, pero no mucho, tal como ocorreu na Itália, pois o sistema político precisa ser preservado com os temperos que lhe são próprios, o que seria da “nossa cultura”. Assim, ao comportamento medroso de não tomar atitudes, transferindo para o TSE a decisão, soma-se a fala cínica dos “meio éticos”.

Sucede, contudo, não ser essa a realidade que se avizinha. Ministros do TSE poderão pedir vista do processo. Até mesmo decisão por separar a chapa é possível. Havendo condenação de Dilma e de Temer, certamente ambos recorrerão e no recurso ao STF normalmente é concedida liminar para dar efeito suspensivo ao recurso. Aos partidos da base governamental, portanto, não é dado contar com o TSE para efetivar a decisão que eles não têm a força de tomar, qual seja, a de afastar Temer. Essa tarefa é deles, seja ao não lhe concederem condições políticas, desembarcando do governo, seja por darem andamento ao impeachment.

E agora? O que devem fazer os partidos da base governista, diante do desfazimento da data mágica de 6 de junho, que será apenas mais um dia do calendário? Fazer de conta que nada aconteceu no porão do Jaburu? É possível ignorar os atos cometidos, ou seria cabível, em vista da expectativa de melhora da economia, ignorar o nevoeiro e declarar estar o céu claro para pouso e decolagem? Dever-se-ia aguardar o fim do inquérito instaurado no STF para decidir se Temer fica ou sai? Manter um governo fraco, que a tudo cederá?

Em face do decoro e da honra que devem revestir a ação presidencial, não é possível desconhecer a afronta grave à moralidade, com a escusa de se visar a contribuir para a recuperação da economia. Ao contrário, a eleição indireta, segundo a Constituição, de novo presidente dará mais ímpeto ao crescimento econômico, que apenas desponta. E ainda por cima será saudável um presidente não ameaçado de perda do cargo, com popularidade possível de conquistar.

O exemplo de rigor na exigência de comportamento digno e honrado do presidente será positivo para a economia e para o futuro neste instante de moralização da administração pública. O inverso será muito deseducador.

Por outro lado, as redes sociais e as ruas impedem que se tente paralisar a ação de persecução penal desvendada com a Operação Lava Jato contra o desvio do dinheiro público pelos eleitos pelo povo e constrangem a que a escolha do novo mandatário recaia sobre pessoa dotada de firmeza na continuidade da correção dos costumes políticos.

Agora é a hora dos partidos políticos, integrantes da base do governo, decidirem que presente e futuro reservam ao País e a si mesmos. É o momento de esses partidos não contarem a não ser com a própria coragem, se a tiverem.

Malfeitor solto dá nisso

No aconchego da prisão domiciliar graças à complacência da Justiça com malfeitores graduados, José Dirceu sente-se à vontade para fazer ameaças e debochar da cara dos brasileiros decentes. “A coalizão golpista deu origem a um governo abarrotado de históricos corruptos”, afirmou em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo o homem que um dia comandou o PT, foi braço-direito de Lula durante o Mensalão, responde à acusação de ser sócio-fundador do Petrolão e continuou a engendrar manobras obscuras mesmo na cadeia.

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Se um dia se declarou quase convencido da própria inocência, ele agora parece plenamente convencido da credulidade popular. Só parece. Sabe muito bem que apenas devotos de seitas que cultuam corruptos de estimação são capazes de crer que houve um golpe, que ele é um guerreiro do povo brasileiro, que Lula de nada sabia e que a culpa é da Marisa Letícia. Não apenas finge acreditar na reconquista do poder nas urnas, como desdenha disso. “Podemos até vencer, mas sem ilusões: sob quaisquer circunstâncias, nosso norte é o avanço no rumo de uma revolução política e social, democrática”, prossegue em seu delírio o sujeito envolvido na montagem do maior esquema de corrupção da história. “Pela força das ruas, se nossas elites continuarem de costas para a nação”, ameaça o ex-guerrilheiro cujos únicos disparos que experimentou até hoje foram os verbais, desferidos contra a verdade e a lógica.

José Dirceu não reivindica indulgência das vítimas, tampouco a oferece: “Não há espaço para conciliação”, decreta. Malfeitor solto dá nisso.

Cuidado com o andor

O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Senado Federal estão dando andamento a medidas que restringem drasticamente o instituto do foro privilegiado, como se estivessem a apresentar, cada um na sua esfera, uma resposta aos anseios da população por menos impunidade no País. O tema merece, no entanto, uma análise mais serena sobre o sentido da prerrogativa de foro e os bens que ela protege, bem como sobre as reais causas da impunidade dos poderosos. Uma atuação abrupta pela simples abolição da competência especial em razão do cargo público pode expor as autoridades a ilegítimas pressões, além de não contribuir para o combate à impunidade.

Na quarta-feira passada, o STF iniciou o julgamento da ação que trata do alcance do foro privilegiado. Em seu voto, o ministro-relator Luís Roberto Barroso defendeu a tese de que a prerrogativa de foro deve valer apenas para os crimes cometidos durante o exercício do mandato e os fatos que estejam relacionados com as funções desempenhadas no cargo. Barroso também sustentou que, se já estiver na fase das alegações finais, nenhuma ação penal deveria mudar de instância em razão de o réu assumir um cargo que lhe dê foro especial.


Com isso, o ministro Barroso almeja uma drástica redução dos processos penais no STF. Se sua tese prevalecer, disse ele, o Supremo ficaria com apenas 10% das ações penais que atualmente tem. “O sistema é ruim, funciona mal, traz desprestígio ao Supremo, traz impunidade”, afirmou o ministro. O julgamento foi interrompido por pedido de vista.

No mesmo dia do início do julgamento da ação no STF, o Senado aprovou por unanimidade uma emenda à Constituição para acabar com o foro privilegiado, com exceção para o presidente da República, o vice-presidente e os presidentes da Câmara, do Senado e do STF. Deputados e senadores já não teriam mais foro especial em função do mandato parlamentar. Contariam apenas, conforme já prevê a Constituição, com a prerrogativa de que só podem ser presos em caso de flagrante de crime inafiançável e mediante autorização de seus pares na Câmara ou no Senado. Aprovada em segundo turno, a proposta segue agora para a Câmara.

Ainda que atualmente o foro privilegiado não goze de muito prestígio, em tese nada há de pernicioso nesse tratamento especial. Sua finalidade é preservar determinadas autoridades da litigância de má-fé, de injustificadas importunações possibilitadas pelo sistema jurisdicional estabelecido pela Constituição de 1988 e de eventuais perseguições políticas e ideológicas por parte de juízes de primeira instância, o que impossibilitaria o exercício de suas funções públicas, em claro prejuízo para a coletividade.

Sem a prerrogativa de função, a passagem por um cargo público poderia acarretar uma enxurrada de ações judiciais. Além de prejudicar o exercício do trabalho dessas autoridades, o risco desse grave transtorno levaria a que menos pessoas de bem queiram servir ao País em funções públicas.

Como forma de atacar o foro privilegiado, compara-se com frequência o número de autoridades com prerrogativa de foro no Brasil e em outros países, destacando a grande quantidade de casos no Direito pátrio. É, porém, uma comparação inadequada, já que pressupõe uma semelhança entre os sistemas jurisdicionais, e eles são bem diferentes. É simplesmente impensável em outros países a possibilidade, existente no Brasil, de processar um ocupante de cargo público na comarca da residência do cidadão. Por isso, caso se derrube o foro privilegiado, alguns meses dedicados a servir ao País poderão significar anos de infindáveis batalhas judiciais em todo o território nacional.

A simbiose que atualmente se observa entre foro privilegiado e impunidade não é fruto de um erro de sistema, que necessite urgente reforma. A real causa dessa situação é a lentidão com que as instâncias superiores cumprem suas atribuições constitucionais de processar e julgar autoridades públicas. Os tribunais superiores, desde a Proclamação da República, são responsáveis pelo julgamento de casos especiais. Nunca, porém, se prepararam para o desempenho dessa importante tarefa. Mais do que acabar com o foro privilegiado, é preciso que esses tribunais se adaptem ao que mandam a Constituição e a lei. Ou seja, basta que cumpram seu dever para que não haja impunidade.

Imagem do Dia

Eguisheim, Alsácia (França),  Jean-Michel Priaux

A favela é a regra

Não existe política habitacional no Brasil. Não há, nunca houve e não parece que surgirá. Mesmo a moradia sendo a função primordial da cidade e a definição do uso do solo uma regulação essencial do Estado, por ação municipal, nós não prevemos onde morará o trabalhador e o pobre. Logo, esses, pela ausência e pela emergência, inventaram, estão inventando e continuarão a inventar uma solução que foi, é e continuará a ser a favela.

Favela Street by agm  on 500px:
Com diferentes sinônimos ao longo da História, do mais pejorativo até chegar a batizar boate em Paris, a favela converteu-se em um regramento epistemológico. Além de dominar as paisagens urbanas, do Oiapoque ao Chuí, da megalópole paulistana ao menor rincão rural, a favela é o modo como funciona o Estado ao burlar, ele próprio, as metodologias que poderiam produzir melhor ordenação e integração territorial. O vício da velocidade burra e imperiosa sobre a reflexão e o desenho age inclusive em diferentes escalas, da pequena praça às grandes regiões metropolitanas.

A polarização político ideológica atual, ser mortadela ou coxinha, progressista ou conservador, tem origem na vergonhosa segregação espacial que aprisiona ricos e pobres em lugares separados. Cada qual com uma esfera pública para chamar de sua. A Lava-Jato é resultado do urbanismo-favela. Através de obras superfaturadas, alimentamos a exclusão, financiando partidos e políticos, que criam mais obras, lucrando mais o agente econômico, segregando-se mais ainda. É um círculo infernal. E o Judiciário não atua sobre essa causa. Até o direito urbanístico favelizou-se.

A liberdade é uma variável transgressora e bela na equação do planejamento da habitação, pois as pessoas podem morar onde lhe apetece, recusando as previsões de moradia popular pelo zoneamento.

O planejamento visa o interesse público ao promover que a diversidade social compartilhe os mesmos espaços públicos, criando mais harmonia social. Pela convivência entre diferentes educam-se todos. O contato com o mais abastado ou o mais estudado faria com que as crianças mais pobres aspirassem a cenários melhores para si, por exemplo. O contato com o trabalhador ou com o mais pobre faria com que a classe alta percebesse melhor as nuances da realidade cotidiana, acessando compreensão mais ampla para a própria democracia.

Todos se beneficiam desse contato pois ele propicia inspiração mútua.

O lugar da moradia popular no país é definido exclusivamente por uma dinâmica de mercado, ocorrendo onde é mais barato. Contudo, o planejamento absoluto do território é uma utopia, pois cidades já existiam antes dos planos. Quando o planejamento urbano estava indo com o milho, a cidade já estava voltando com o fubá. Assim é na maioria dos assentamentos humanos no mundo. Aquelas integralmente planejadas tentaram organizar-se melhor, mas também falharam pois não conseguiram acomodar os fluxos migratórios vindos do campo ou de outras regiões urbanas.

Piorando o modelo, não dotamos essas regiões afastadas e mais baratas de transporte público. Ou seja, nem no metrô, ou no trem, ou no ônibus nos reunimos. Daí as reclamações dos ricos com abertura de estações em Ipanema, Leblon ou Higienópolis. E por isso falamos tanto, os pobres, em “acesso à cidade”.

Poderíamos então nos encontrar na escola pública? Não. Também educamos nossas crianças de forma segregada. Nos postos de saúde ou hospitais? Cuidamo-nos separadamente.

No espaço público? Lá finalmente nos reuniríamos! Não. Curiosamente, somos perniciosos com a desordem, com ambulantes sem controle, como se compensação fosse pelas outras segregações. Ou licenciamos para um “operador”, por exemplo, 26 quiosques na Orla Conde. Um quiosque a cada 65 metros onde antes havia uma Perimetral. O esforço para criar espaço de convívio é “favelamente” estimulado.

Podemos finalmente encontrar-nos na natureza? Não, pois lá estão as favelas na paisagem, vitoriosas, sobre o escárnio da ausência de política habitacional. Lá estão, mas nem urbanizadas são. A favela é a regra.

Ironicamente, viemos todos do mesmo lugar, os centro urbanos históricos, onde vivemos mais próximos no passado. Vazios, subutilizados, mono-funcionais, precisam ser reocupados urgentemente. São uma deseconomia crescente.

Os movimentos de luta pela moradia estão portanto eticamente, moralmente e ambientalmente corretos ao invadir imóveis abandonados há décadas. As defensorias públicas precisam ir além da proteção dos ocupantes. O Judiciário precisa exigir a implementação de políticas de utilização compulsória, como o IPTU progressivo, em imóveis ociosos. É uma garantia constitucional, pois, na história aqui contada, eles são os únicos que não são favela. São exceção à regra.

Washington Fajardo

Indecência presidencial

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Acho que ele (Rocha Loures) é uma pessoa decente

Michel Temer

Esta hipocrisia

A quantas anda a Justiça dos Homens?

Começo minha resposta pela França: “Justiça asfixiada. Sobrecarga de trabalho, acumulação de processos, dificuldade de aplicar as penas. Os ratos percorrem as salas insalubres dos cartórios, pelos quais transitam milhares de pessoas processadas. Os elevadores foram desligados há cinco meses depois que um operário foi eletrocutado”. Eis aí, sem retoques, a descrição do Tribunal de Bobigny, o segundo maior daquele país, feita pelo sério jornal “Le Monde”.

No Reino Unido, outro jornal estampava na capa: “British Justice - rotten to the core”, algo como “justiça britânica - podre até a medula”. Já na Espanha a queixa é outra: “Apesar de a Justiça ser honesta e tecnicamente boa, seu principal problema é que chega tarde”.

Na Austrália, uma comissão encarregada da reforma das leis chegou à seguinte conclusão: “Todos os sistemas judiciários padecem com problemas sistêmicos associados ao custo dos processos e ao tempo gasto para decidir”. Sobre a Itália, li que “a Associação de Magistrados iniciou ontem uma greve em protesto contra as medidas do governo para reformar a Justiça”. Nos EUA, lá estão as crianças condenadas a prisão perpétua, os doentes mentais condenados à morte e os presos de Guantánamo gritando por justiça.

A conclusão é muito simples: o mundo das leis funciona mal no planeta inteiro. E sempre funcionou. As causas desta surpreendente realidade são muitas. Mas há uma, a principal delas, que reflete talvez o maior desafio da raça humana: a recusa das elites em admitir que a lei deve ser para todos - aos miseráveis, a justiça; aos poderosos, a morosidade do Poder Judiciário.

Sobre este aspecto gosto especialmente de duas frases tão singelas quanto profundas. A primeira vem de Balzac: “as leis são teias de aranha, pelas quais passam as moscas grandes e nas quais ficam presas as pequenas”. A outra, de Bettiol: “direito é a expressão da vontade dos mais fortes”.

Pois é. Quando a hipocrisia ceder lugar à igualdade, o ambiente no mundo das leis será mais sereno, os processos mais simples e o Judiciário mais rápido.

Neste dia, a economia brasileira crescerá em US$ 100 bilhões, o volume de investimentos subirá 10,4%, a produção será elevada em 13,7%, a oferta de empregos será 9,4% maior e todos ganharão. Simples assim.

Pedro Valls Feu Rosa

Quem tolera Aécio não pode gritar 'Fora, Temer'

A denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Aécio Neves transformou a realidade do PSDB em algo inacreditável. O partido vinha se comportando como um ente superior, que fazia ao país o favor de sustentar um presidente precário, em franca deterioração moral. No exato instante em que o tucanato eriça as plumas num debate interno sobre a conveniência de tomar distância de Michel Temer, o procurador-geral Rodrigo Janot informa que a corrupção não diferencia o PSDB do PMDB ou de Temer. Ao contrário, ela os associa.

Nada de novo no ninho. O tucanato repete com Aécio todos os erros que cometeu com outro político mineiro: Eduardo Azeredo. Em 1998, a coligação de Azeredo pleiteou a reeleição financiada por um empréstimo de fancaria obtido pelo operador Marcos Valério no Banco Rural.

Quando as manchetes estamparam a notícia de que o mensalão do PT tinha um DNA tucano, o PSDB se fingiu de morto. Azeredo foi denunciado. E o tucanato não tomou conhecimento. Azeredo renunciou ao mandato de deputado para fugir de uma condenação no Supremo. E nada. Azeredo foi condenado na primeira instância. Nem sinal de uma reprimenda partidária. Expulsão? Nem pensar!

Flagrado em diálogos inadmissíveis com o delator Joesley Batista, da JBS, Aécio foi afastado do exercício do mandato de senador pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal. Viu-se compelido, então, a tirar uma licença da presidência do PSDB. Mas não se deu por achado. Há dois dias, divulgou na internet uma foto sui generis (veja lá no alto). Escreveu na legenda: “Reuni-me na noite desta terça-feira, 30/05, com os senadores Tasso Jereissati, Antonio Anastasia, Cássio Cunha Lima e José Serra. Na pauta, votações no Congresso e a agenda política.”

Quer dizer: Aécio continua sendo o personagem mais limpinho que Aécio já conheceu. Ele avalia que não deve nada a ninguém. Muito menos explicações. Por mal dos pecados, a denúncia contra o presidente informal do PSDB encontra-se nas mãos do ministro Marco Aurélio Mello, um magistrado que se vangloria de não julgar pelo nome estampado na capa, mas pelo conteúdo do processo.

A denúncia do procurador-geral será julgada na Segunda Turma, a mais draconiana do Supremo. São grandes as chances de Aécio ser convertido em réu numa ação penal. Quanto ao PSDB, o partido faria um enorme bem a si mesmo se parasse de enganar a plateia. Quem suportou Eduardo Azeredo e tolera Aécio Neves e otras cositas más não pode gritar ‘fora, Temer.’

Paisagem brasileira

Capela de Nosso Senhor do Bonfim, Santa Luzia, (MG)

Reformas com Temer?

Justo quando, afinal, se detectavam sinais de otimismo sobre a possibilidade de uma travessia exitosa até as eleições de 2018, a pinguela desabou.

Tendo desempenhado papel decisivo na reeleição de Dilma Rousseff — após se abarrotarem de dinheiro público extraído do pervertido capitalismo de compadrio dos governos petistas —, os irmãos Batista deram outra demonstração de força, ao arruinar de vez o mandato do seu sucessor.

Não há como ter ilusões sobre a fragilização do presidente Temer. A percepção de que os danos, além de graves, são irreversíveis impôs ao país colossal choque de incerteza. A apertada corrida contra o tempo com que já se defrontava a agenda de reformas tornou-se bem mais difícil.

Logo após a divulgação da notícia de que a conversa do porão do Jaburu fora gravada, disseminou-se a fantasia de que a crise política seria encurtada pela imediata renúncia do presidente. Não foi o que se viu. Muito pelo contrário. Temer vem deixando a cada dia mais claro que, por mais fragilizado que possa estar, não tem nenhuma intenção de se afastar do cargo.

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Agora, o temor de que o país tenha de voltar a enfrentar longo e penoso processo de impeachment vem dando alento a expectativas, um tanto escapistas, de que haveria ainda outra forma pela qual a crise poderia ser abreviada. Bastaria que, no julgamento agendado para 6 de junho, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidisse, afinal, cassar a chapa Dilma-Temer.

Falta combinar com os russos. Não contavam com a minha astúcia, diria Temer. O Planalto decidiu apostar boa parte das fichas que lhe restam na possibilidade de que o julgamento venha a ser adiado por pedido de vista do processo. E já deixou claro que, caso tal aposta não tenha sucesso e a chapa venha a ser cassada, o presidente não abrirá mão de fazer amplo uso de todos os recursos a que tem direito. O que lhe asseguraria permanência no cargo por meses a fio.

Foi com esse plano de jogo em mente que Temer resolveu transferir o ministro da Transparência para o Ministério da Justiça, tendo em conta sua longa experiência no TSE e sua boa interlocução com os tribunais superiores. E a verdade é que o novo titular da Justiça não tem deixado margem a dúvida sobre o empenho com que pretende levar adiante a missão de que está incumbido.

A esperança de Temer é que, em face das dificuldades de removê-lo do cargo em tempo hábil, o país se convença, ainda que a contragosto, de que só ele poderá assegurar a aprovação das reformas no Congresso, antes que a janela de oportunidade se feche. Fragilizado como está, Temer acalenta o sonho de que a aprovação das reformas poderá lhe assegurar a remissão que lhe permitiria chegar ao final do mandato.

O pior é que não falta quem, entregue à auto-ilusão, venha fazendo grande esforço, mais de torcida do que de análise, para se convencer de que essa história faz sentido. Que Temer tem de ser preservado para que as reformas possam avançar. E que, não obstante todo o desgaste que lhe foi imposto pelas delações dos irmãos Batista, o presidente continua apto a conduzir com sucesso as complexas negociações que a aprovação das reformas deverá exigir.

Para perceber quão infundada é essa avaliação, basta ter em mente as agruras diárias que Temer vem enfrentado para conviver com os desdobramentos das delações. Desde 17 de maio, o Planalto vive um dia a dia de alta tensão. Nesta semana, o leque de atribulações foi do alarme com a possível delação premiada do ex-deputado Rocha Loures a tentativas desesperadas de conseguir que o presidente fosse dispensado de depor em inquérito em que é investigado, no cargo, por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça.

A ideia de que, em meio a dificuldades dessa ordem, o presidente terá condições de mobilizar as amplas coalizões parlamentares requeridas para fazer avançar a agenda de reformas não faz sentido. Trata-se de uma mistificação da qual o país precisa urgentemente se livrar, para poder construir uma saída da crise.

Campeão nacional da bandalha

De perto ninguém é normal, cantou Caetano Veloso. Grampeado, então, nem se fale. Mas Joesley, Aécio, Temer, Zezé Perrella e Ricardo Saud superaram as expectativas mais pessimistas, pela linguagem que os nivela a chefões do tráfico. A arrogância, a pobreza de vocabulário, os palavrões e intimidações, as ameaças e chantagens misturadas às noções de lealdade que remetem à omertà dos mafiosos, é essa gente, que fala essa língua, que manda no Brasil. Por enquanto.

Imaginem as ideias diabólicas, as propostas indecentes, as bravatas e conspirações entre eles, quando os gravadores estão desligados. É melhor não imaginar nada, a realidade já é suficientemente abjeta e revoltante. Foram os políticos e funcionários que comeram na mão de Joesley que facilitaram seu acesso ao dinheiro “barato” do BNDES. Barato para ele, mas caro para o Tesouro Nacional, que pagava juros mais altos do que os que cobrava de Joesley. Com a mamata ameaçada, ele queria tirar Maria Silvia do BNDES. Mas não estava sozinho, é o “Joesley de todos os Joesleys”, um tipo de empresário brasileiro que acumula os defeitos do capitalismo e do socialismo, em causa própria.

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Caricatura grotesca de gângster sertanejo e maior matador de animais do mundo, Joesley simboliza o Brasil de hoje. Ao seu lado, até Marcelo Odebrecht fica menos arrogante, e papai Emílio vira um tiozão boa-praça como os chefões mafiosos sentimentais. Do “fora Dilma” ao “fora Temer” ao “fora todos”, cresceram as legiões de políticos ameaçados pela Lava-Jato, dispostos a tudo para livrar a pele, até mesmo se unir a seus piores inimigos. São eles contra nós, numa guerra mortal que pode arrasar o Brasil, para que esses bandidos travestidos de políticos sobrevivam.

Quando você ouve Joesley exigindo de Temer mudanças no BNDES, no Cade, na Receita Federal e na CVM, nos termos e tons que usa, não precisa ouvir mais nada.

O irônico é que o erro fatal de subsidiar “campeões nacionais”, que vitimou a “direita nacionalista” do governo Geisel, foi repetido pela “esquerda desenvolvimentista” de Lula e Dilma. Só mudaram os nomes nomes dos Joesleys.

Nelson Motta

Prece de um físico

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Ao pasto, às plantas, por me dar o descanso quando estou esgotado. Aos animais, por alegrar-me a cada dia. Graças à Terra, por me ensinar que depois de cair no chão, aprende-se a se levantar. À água, por me ensinar a flutuar, a me ajustar, a me expressar sem medo. Ao ar, aos ventos, por me ensinar que grandes mudanças são originadas por ações pequenas, imperceptíveis, mas constantes. Ao fogo, por me ensinar que nada é mais poderoso que a vontade. E como diz um trecho do poema 'Invictus', atribuído a William Ernest Henley: 'Agradeço a quaisquer sejam os deuses por minha alma inconquistável 
David Sebastián Valenzuela Díaz, deficiente chileno que conseguiu o doutorado em Física

Rejuvenescer a juventude

Há momentos em que as ideias precisam de pleonasmos que as expliquem melhor, tal como precisamos rejuvenescer a juventude. Nossa geração atual de políticos fracassou. Apesar de tirar o Brasil da ditadura, estancar a inflação, fazer a economia crescer, avançar na liberação de costumes, criar programas assistenciais, aumentar o número de universitários, apesar de tudo isso, nós caímos na corrupção, não criamos uma coesão nacional nem definimos um rumo para a evolução nas próximas décadas. Com isso, provocamos um sentimento de desconfiança em relação aos políticos, à política e aos partidos.

Nessas condições, a crise econômica caminha para uma forma de desagregação social, visível na violência generalizada, no descrédito político, na permanência da pobreza e da concentração de renda, na descrença dos jovens, na baixa produtividade e na falta de invenção na economia.

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A política brasileira precisa substituir seus agentes atuais por jovens políticos. A maior dificuldade para essa renovação está na divisão da juventude: os que se recusam à ação política e preferem realizar seus projetos pessoais, e aqueles que militam politicamente com ideias velhas. Os primeiros olham para a frente sem ver o lado, os outros olham para trás sem perceber as mudanças na frente. Assistimos a parte dos jovens frustrados, sem motivação política; e jovens mobilizados, mas sem propostas transformadoras. As recentes ocupações de escolas se mostraram contrárias a pequenos gestos modernizadores na educação. Não tinham o objetivo de defender avanços: o fim do analfabetismo, a garantia de que os filhos dos pobres devem ter o direito de estudar na mesma escola dos filhos dos ricos. Ao não propor novas ideias, a juventude militante passa a impressão de que está contra a modernização, sem perceber a necessidade de mudanças, e não parece sintonizada com o “espírito do tempo” das grandes transformações em marcha. Apenas segue palavras de ordem da geração anterior, que não foi capaz de apresentar ideias compatíveis com o futuro. Por outro lado, a juventude sintonizada com os avanços técnicos parece preferir cuidar de seus projetos pessoais.

Apesar de jovens, são militantes conservadores por omissão política e pela defesa de conceitos superados; alguns não entendem as necessidades de transformações sociais, outros reagem na contramão da rápida marcha rumo ao avanço técnico. O Brasil corre o risco de estancamento se seus jovens ficarem alheios ao progresso social ou contrários ao progresso técnico; submissos às velhas lideranças e a velhos conceitos. O futuro precisa subverter as novas gerações, renovando-as para que se façam contemporâneas.

Um dos maiores desafios dos políticos do país é atrair os jovens para a militância e subverter suas ideias para formular novos pensamentos e novas formas de organização e de militância, livres dos velhos conservadores saudosistas de um progressismo que ficou reacionário.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Charge O TEMPO 1.6.2017

As ilusões perigosas

Foz do Iguaçu, Cascavel, Maringá, Londrina. Tenho discutido a crise brasileira em algumas cidades, a propósito do lançamento de um livro. Nessas conversas, a primeira parte é sempre mais fácil. Trata de uma análise dos fatos e erros que nos jogaram nesta crise e secaram as esperanças inspiradas pelo movimento das Diretas-Já. A segunda parte, que trata de uma saída para a crise, é bem mais nebulosa. Repito a imagem de uma navegação na neblina, com todos os perigos que ela implica, inclusive o risco
de o barco encalhar.

A Constituição é uma bússola, mas segui-la apenas não supera todos os obstáculos do caminho. Não há nada na Constituição, por exemplo, que impeça a escolha de um idiota para o cargo de presidente. Da mesma maneira, a Constituição não nos protege das tentativas do governo de controlar e bloquear as investigações da Polícia Federal (PF). Falta nela um dispositivo que garanta a autonomia da PF, para protegê-la desses ataques.

Dilma trocou o ministro da Justiça duas vezes. Temer, na mesma situação, utiliza a velha tática. Eles nos colocam numa situação delicada. De modo geral, em situações difíceis somos obrigados a contar com a ajuda de desconhecidos.

As escolhas de Dilma e Temer nos obrigam a espancar desconhecidos. Eles escolhem pessoas que mal conhecemos, com a tarefa de enfrentar e neutralizar a Lava Jato.

De acordo com os grampos, Aécio Neves, por exemplo, conspirando com Temer, queria que o ministro da Justiça escolhesse os delegados para os inquéritos envolvendo políticos. Era uma forma de neutralizar as investigações.

Os delegados da PF já perceberam o que está em jogo. Temer, na mesma operação, designou Osmar Serraglio para o Ministério da Transparência. Houve resistência dos próprios funcionários. Como sair chamuscado da Carne Fraca e assumir um cargo vital no combate à corrupção? Serraglio saltou fora.

Os derradeiros movimentos de presidentes em queda costumam ser patéticos. O medo está implícito em suas decisões: é mais importante sobreviver no cargo do que considerar a gravidade e a urgência dos problemas nacionais.

A Constituição prevê a escolha indireta de um novo presidente até 2018. Mas quem teria força para vencer no Congresso? A tendência é escolher o candidato que mais atenda aos anseios dos políticos, e não da sociedade. O programa desse período-tampão não importa tanto, mas, sim, o que fazer para evitar que a polícia os alcance e, mais ainda, que ela não possa deter os futuros processos de corrupção.

A solução desse impasse, para quem gosta de saídas simples, são as eleições diretas. Outro dia ouvi alguém defender diretas para o período até 2018 e diretas de novo em 2018. Num país com 14 milhões de desempregados, duas eleições nacionais quase seguidas são um remédio com grande chance de matar o paciente.

É difícil o Congresso eleger alguém que se comprometa a apoiar a Lava Jato. Assim como nas manobras presidenciais a tendência é procurar um nome que enfrente a polícia e a Justiça. É compreensível que atuem assim. Os presos querem fugir da cadeia, os investigados querem escapar das suspeitas. Mas é uma reação de desespero.

Os danos políticos sobre o sistema político-partidário são indeléveis. O destino legal de cada investigado leva mais tempo para se definir.

As eleições de 2018 podem se tornar uma hecatombe para todos. Há um caso da eleição de 1973 na Dinamarca, que derrotou os principais partidos e abriu caminho para novas forças. Ficou célebre.

Quando escrevo isto, imediatamente me vem à cabeça: o Brasil não é a Dinamarca. Mas os fatos que o País acompanha desde o governo petista são estarrecedores. Não creio que exista nada parecido no mundo.

Nas ruas ouço muito a expressão “não temos para onde correr”. Mas, quem sabe, essa situação se altera, gente da própria sociedade dá um passo adiante e enfrenta a tarefa? No momento, todos têm medo de se confundir com os políticos. Se conseguirem se distanciar deles, talvez o fardo seja menor.

Uma coisa é certa: presidentes e políticos jogam sempre com a possibilidade de deter investigações, trocar delegados, intimidar procuradores.

Não estão conseguindo. Sua escolha é um equívoco. Não percebem que a luta contra a Justiça piora sua situação política. Supõem que, abafando agora, todos se esquecerão num futuro próximo e o tradicional processo de acusações recíprocas nas eleições acabará funcionando como um escudo.

Por isso a sucessão de Temer será um momento decisivo. O Congresso pode querer utilizá-la para entrar em guerra com a Lava Jato e a maioria da sociedade que apoia as investigações. Nesse caso, a instabilidade apenas prosseguirá e não é totalmente descartável que mais um presidente caia antes de 2018.

Lembro-me dos asilados bolivianos na Europa. Eles voltavam para viver um novo governo na Bolívia, mas não jogavam fora o cartão mensal do metrô europeu. Era sempre possível voltar antes do fim do mês.

O cinismo de grande parte dos políticos, sua insistência em impedir que o Brasil faça justiça a quem o lesou são fatores muito delicados. Eles estão muito próximos de um diagnóstico de internação compulsória. Não só representam um perigo para a sociedade, como sua miopia implica também um perigo para a própria vida, em caso de revolta popular.

Lembro-me de um western em que um mexicano pendurava um americano numa corda, apontava a arma para ele e dizia: “Gringo, vou ter de matá-lo para mostrar que gosto de você”. Aqui, vamos precisar interná-los para proteger sua vida.

Eles não andam na rua, não sentem o pulso das mudanças que acontecem no espírito dos brasileiros. Acham que, desmantelando a PF, contratando bons marqueteiros para contar sua história, tudo recomeçará como antes. São ilusões perigosas, devastadoras.

Quem matou a cidadania?

Tal qual um acidente de avião, o assassinato da cidadania não foi obra de uma pessoa só nem produto de uma circunstância apenas. Foi obra coletiva de erros e omissões. Resulta de questões cumulativas que vão se organizando durante anos, décadas, e vão corroendo nosso sistema.

Se tivermos, porém, que apontar um vilão inicial, faremos isso facilmente: a fragilidades dos princípios. O Brasil é um país sem princípios e, em consequência, é movido por interesses específicos. Os princípios são o conjunto das regras explícitas e implícitas que fundamentam o funcionamento de uma sociedade – e o conjunto de nossos princípios é frágil.
Os princípios do bem comum não são apenas ignorados, sequer são percebidos. Já que não existe a cultura do comum, do coletivo, a educação se destina à mínima sobrevivência. Não é orientada para a dignidade, e sim para o salve-se quem puder.

Tudo aqui, para a maioria, é seu ou é de ninguém. Ninguém está comprometido com nada do que não seja absolutamente seu. E o que é de ninguém, como no faroeste, pode ser meu. Mas, o pior de tudo, é não poder consumir. Ser cidadão no Brasil não é fazer política nem votar: é ter um crediário nas Casas Bahia ou na Ricardo Eletro.

Políticos fazem negociatas para enriquecer e/ou sustentar esquemas políticos. Quando o fazem pela política, justificam os meios pelos fins. Só que, no raso, também gostam dos meios. Para um político poderoso, nada melhor do que colocar um potentado de joelhos obrigando-o a dar dinheiro para alimentar os seus caprichos.

O PT e suas esquerdas aceitavam o roubo como parte de um processo de transformação da sociedade. A cidadania é relativizada pelos interesses dos poderosos. E quem são os poderosos? A burocracia corporativista, o empresariado corruptor e os políticos corruptos. Em associação, expoliam e exploram a sociedade. Impedem o progresso.

Outro dia, em um evento social, eu disse que considerava um absurdo a escolha baseada em listas tríplices para a Procuradoria-Geral da República. Um indignado promotor refutou: e a classe? Não é a classe que interessa à cidadania, já que a classe se organiza para explorar os cofres públicos com férias, auxílio-moradia, auxílio-paletó, planos de saúde generosos e aposentadorias escandalosas.

Também acho uma tragédia os sindicatos que financiam o pão com mortadela e os almoços nas churrascarias de Brasília depois de promoverem baderna na Esplanada. Tudo com o generoso imposto sindical pago por trabalhadores que não foram convidados para o churrasco.

Outro horror são os partidos nanicos que compram helicópteros e aviões com a verba do Fundo Partidário ou alugam jatinhos para seus presidentes irem a São Paulo e não terem de enfrentar o desconforto do encontro com a suarenta patuleia cidadã que se aglomera nos aeroportos. O Tribunal Superior Eleitoral deveria, liminarmente, cassar o registro dessas legendas. O que falta para tal?

Quem matou a cidadania? Fomos nós, que não queremos ir para a política. Que queremos aposentadorias especiais e nos tornamos concurseiros profissionais até que a sorte grande de um trabalho bem remunerado e de baixo impacto nos abençoe com uma vida mansa e farta.

Será que odiamos os que correm riscos? Acho que sim. Nossos riscos já estão identificados: obter boa nota no Enem, tirar carteira de motorista, fugir de blitz e passar em um concurso público, já que ser cidadão em um país sem princípios é correr riscos e viver na mão de políticos, burocratas e corporações de interesses. Para muitos, é melhor ficar do lado deles que do lado de cá.

O conforto da fantasia

O lugar escolhido para o lançamento do “Plano Popular de Emergência”, proposto pela Frente Brasil Popular para “restabelecer a ordem constitucional democrática, defender a soberania nacional, enfrentar a crise econômica, reverter o desmonte do Estado e salvar as conquistas históricas do povo trabalhador”, não poderia ser mais apropriado: um teatro.

É difícil encontrar o que não seja ficção ou encenação nos 76 itens do tal plano, apresentado no Tuca, o teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na noite de segunda-feira passada. Mas não havia o menor risco de que alguém ali cometesse a indelicadeza de lembrar que tudo o que consta do plano contraria a realidade. Afinal, a plateia, formada por representantes de diversos movimentos sociais, estava ali para aplaudir a farsa.

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Refugiados nas suas fantasias, os petistas e seus associados, mesmo depois de tudo o que protagonizaram desde 2003, quando Lula da Silva chegou ao poder e deu início a essa era trevosa cujos efeitos ainda se fazem sentir um ano depois de encerrada, consideram-se aptos a apresentar soluções para resolver os graves problemas econômicos, políticos e morais que eles mesmos criaram. Seria uma comédia se não fosse uma tragédia – pois ainda há quem acredite nesse teatro do absurdo.

No “Plano Popular de Emergência” da Frente Brasil Popular – um consórcio de gângsteres sindicais, agitadores profissionais, baderneiros em geral e inocentes úteis a serviço do PT – lê-se que seu objetivo é “inverter, no mais curto espaço de tempo, os indicadores econômicos, sociais e políticos que resultaram do interregno golpista”. Isto é, para esses bufões, a profunda crise em que o País está metido é obra do atual governo, que tem apenas um ano, e não dos governos petistas, que ficaram longuíssimos 13 anos no poder.

Mas a afronta à realidade não termina aí. Depois de ter ajudado o governo petista a arruinar a economia nacional, a trupe que se apresentou naquele palco garante ser capaz de “implementar um projeto nacional de desenvolvimento que vise a fortalecer a economia nacional” e promover “o desenvolvimento autônomo e soberano”. Para isso, em primeiro lugar, eles defendem “a revogação de todas as medidas de caráter antipopular, antinacional e antidemocrático aprovadas durante o governo usurpador” – justamente as ações que reduziram o ritmo de destruição das contas públicas e restituíram um pouco de credibilidade à administração federal, depois de anos de pedaladas, contabilidade criativa e política econômica doidivanas.

No faz de conta da Frente Brasil Popular, tudo é muito simples. Basta adotar “uma nova política econômica, tendo como vetor o desenvolvimento, adequando as taxas de juros, o câmbio e a política fiscal à realidade da economia brasileira e dentro de padrões internacionais, buscando elevar os investimentos a 25% do PIB no prazo de quatro anos”. A menção à “realidade”, aqui, é apenas um “caco” – isto é, uma palavra introduzida pelo ator em sua fala para gerar efeito cômico. Pois todo o resto do tal “plano de emergência” é um compilado da política dolosamente irresponsável de Lula da Silva e de Dilma Rousseff.

Lá estão os mesmos erros fundamentais da “nova matriz econômica” petista, desde “a adoção de um plano de desenvolvimento industrial que articule investimentos estatais, política cambial, créditos de bancos públicos e incentivos à iniciativa privada” até a “expansão e barateamento do crédito para produção e consumo (...) em movimento comandado pelos bancos públicos”, passando pelo “restabelecimento das regras de conteúdo nacional na indústria de petróleo e gás, extensiva ao setor elétrico e minerário”, sem falar, é claro, da “expansão de gastos e investimentos sociais”.

Não se pode subestimar a capacidade que essa trupe tem para angariar simpatia, pois eles sabem muito bem vender suas miragens. Em tempos de crise aguda, como o atual, é muito mais confortável acreditar nos desvarios dessa gente inconsequente do que aceitar a aridez do mundo como ele é.

Editorial - O Estadão

Paisagem brasileira

Criança em Vila Flávia (SP), Nacho Doce

Só há vilões no faroeste a caminho do final felizmente infeliz

Na próxima semana, o Tribunal Superior Eleitoral começará a encenar o desfecho da ação movida pelo PSDB contra a chapa formada em 2014 por Dilma Rousseff e Michel Temer ─ um faroeste à brasileira escrito, produzido, dirigido e protagonizado exclusivamente por vilões. Não há mocinhos nesse filme que começou logo depois da última eleição presidencial, quando o senador Aécio Neves teve a ideia de pedir a cassação da dobradinha vitoriosa, e se aproxima do final felizmente infeliz. Todos os protagonistas sairão perdendo. O país que presta será o vencedor.

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Aécio recorreu à Justiça não por sentir-se vítima de práticas ilegais, nem por acreditar que o resultado fora fraudado: como revelou na conversa gravada por Joesley Batista, queria apenas encher o saco daquela gente que não parava de sacaneá-lo. A molecagem que deu no que deu. Neste começo de junho, Aécio está com o mandato de senador suspenso, corre o risco de ser alojado na gaiola e condenou-se à morte política. Descansará num jazigo semelhante ao que abriga Dilma Rousseff, despejada do Planalto pelo impeachment.

Os adversários que duelaram há dois anos e meio logo terão a companhia de Michel Temer. Antes das delações da Odebrecht e da JBS, o presidente hoje agonizante argumentava que não fazia sentido ser castigado pelo que fizera a parceira de chapa. Depois dos espantos deste outono inverossímil, está claro que o prontuário do vice só não superou em quantidade e qualidade a notável folha corrida de Dilma e a imbatível capivara de Lula. Este sim fez o diabo para desfrutar do poder durante 13 anos, cinco dos quais fazendo de conta que o país era governado pelo poste que fabricou.

Temer teima em prorrogar o prazo de validade de um governo que acabou. Todos os brasileiros sabem que trava uma batalha perdida ─ com exceção dos bebês de colo, das tribos isoladas na selva amazônica, dos doidos de hospício, da família Temer e, claro, do ministro Gilmar Mendes. O Brasil nunca foi para amadores. Começa a tornar-se indecifrável para profissionais.

Temer virou uma ameaça ao sucesso de Temer

Em meio a um cenário de degradação moral, o IBGE pendurou nas manchetes uma boa notícia econômica: o PIB cresceu 1% no primeiro trimestre, em comparação com o quarto trimestre de 2016. Foi o primeiro dado benfazejo depois de dois anos de resultados negativos. Michel Temer apressou-se em levar os lábios ao trombone: “O Brasil saiu da recessão.” O presidente levou à internet um vídeo festivo (assista acima).

Num país em que os desempregados são contados em 14,3 milhões, a notícia do IBGE representa, de fato, uma lufada de ar. Mas Temer talvez devesse moderar a queima de fogos. A própria gerente de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, declarou que é cedo para celebrar o fim da recessão: ''É preciso esperar para ver um pouco o que vai acontecer neste ano. A gente teve crescimento no trimestre, mas foi sobre uma base muito deprimida. E, se olharmos no longo prazo, ainda estamos no mesmo nível de 2010.''

Charge O TEMPO 2.6.2017

Na véspera, o Banco Central anunciara um novo corte de um ponto percentual na taxa básica de de juros. O relatório que expôs a novidade alertou para a “incerteza” em relação ao que está por vir. O texto referia-se claramente à crise política que submete o país ao risco de queda de um presidente da República cuja antecessora foi deposta há menos de dez meses. Na visão do BC, a conjuntura põe em dúvida a aprovação de reformas como a da Previdência —algo que pode envenenar o ambiente econômico e comprometer uma redução dos juros com a rapidez imaginada.

Temer tornou-se uma espécie de personificação do paradoxo. Investigado no Supremo Tribunal Federal sob a suspeita de ter cometido os crimes de corrupção passiva, obstrução de Justiça e formação de organização criminosa, o presidente é, no momento, a principal ameaça à recuperação econômica que atribui a si mesmo: é o “resultado das medidas que estamos tomando”, afirmou, sem levar em conta as providências que deixou de tomar para evitar que o melado escorresse para dentro dos palácios do Planalto e do Jaburu.

Diretas Já do PT é golpe e empulhação

A petezada pirou de vez. Agora vai às ruas pedir diretas já como se o país não vivesse na sua plenitude democrática. Como se o vice tivesse chegado ao poder por via indireta, sem voto, dando um golpe na Constituição. Esses lunáticos petistas acham ruim tudo que não é bom para eles. Quando perderam as eleições, foram às ruas e derrubaram o Collor (Lindbergh estava lá com os caras pintadas). Aceitaram o Itamar como governo de transição. E depois esperaram oito anos para chegar ao poder. Na presidência destroçaram a economia, promoveram o maior escândalo de corrupção do mundo e deixaram um legado de 14 milhões de desempregados.

Mas o pior veio a galope: a Comissão de Constituição e Justiça caiu no conto do paco do senador Lindbergh Faria e aprovou Emenda à Constituição que prevê a realização de eleição direta para presidente e vice-presidente da República se os cargos ficarem vagos nos três primeiros anos de mandato. Atualmente a Constituição determina apenas se a vacância ocorrer nos dois primeiros anos. O único senador que teve coragem de peitar o casuísmo foi o Ricardo Ferraço (PSDB-ES). O resto – que é resto mesmo! – embarcou no conto do vigário do PT e aprovou a emenda. Essa CCJ, sem dúvida, é a mais imbecilizada e corrupta de que se tem notícia na história do Congresso Nacional.

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A PEC, se aprovada no plenário, simplesmente antecipa as eleições. Como a petezada que evitar que o Lula vá para a cadeia, eles agora vão se organizar para tocar fogo no país e sair por aí pregando as diretas já como se as instituições brasileiras estivessem trincadas. Querem porque querem trazer de volta a organização criminosa chefiada por Lula, Palocci e Zé Dirceu para acabar com o que ainda resta do país. Dessa vez – pasmem! – com a conivência de alguns senadores idiotizados que integram essa CCJ desmoralizada.

A petezada e seus lunáticos torcem para o quanto pior melhor. Não se conformam terem sidos banidos do poder como ladrões e chefes de quadrilha, como vem dizendo o juiz Sérgio Moro em suas sentenças e o STF quando julgou o mensalão. Eles acham, por fanatismo, que o Lula é o Messias que veio ao mundo para salvar a humanidade das ovelhas negras. Não querem que o vice que eles mesmo elegeram governe. Provocam movimentos populares para enganar os mais incautos. Tentam parecer democrático quando na verdade não passam de tiranos golpistas que, quando não ganham no voto, tentam incendiar à nação. Não enxergam – porque são ignorantes politicamente e despreparados – que o caminho para sair da crise é ter as instituições fortalecidas. Quebrá-las só interessa aos vândalos, aos déspotas e os oportunistas. Eleições fora de hora é golpe, simplesmente golpe. E mesmo assim, a CCJ deixou-se levar no grito. Alguma coisa esses senadores estão armando, porque boa parte dessa comissão está enrolada na Lava Jato.

O Brasil está acostumado a conviver com vices desde Floriano Peixoto. Na Nova República conviveu com Sarney e Itamar que concluíram seus mandatos sem quebrar a normalidade democrática. Se conseguiram administrar bem o país ou não são outros quinhentos. Terminaram seus mandatos aos trancos e barranco sem ferir os preceitos constitucionais. Ressalve-se, contudo, que Itamar botou o país nos eixos ao criar o Plano Real.

A petezada esconde-se no manto da farsa. Quer trazer de volta os gritos das ruas pelas eleições diretas, a exemplo do que ocorreu nos idos de 1980, como um apelo popular para legitimar os seus atos de vandalismo. Acha que pode arrastar multidões por uma causa que eles consideram nobre, quando, na verdade, não passam de golpistas, oportunistas e incendiários. Por trás de toda essa “pelegância”, o capo tutti capi Luis Inácio que vem tentando evitar a primeira condenação ameaçando tocar fogo no país se isso ocorrer pelas mãos de Sérgio Moro. A própria Polícia Federal já interceptou conversa dele com seu pupilo Lindbergh onde eles tramam levar as centrais e os sindicatos às ruas para provocar badernas e criar um clima de instabilidade política.

O mais triste de tudo isso é assistir um monte de artistas – muitos deles que estiveram engajados na redemocratização do país na época da ditadura – clamando para que o povo se manifeste contra um governo que o PT agora considera ilegal, mas o escolheu como comparsa durante os dois mandatos da Dilma. Gritar diretas já nas ruas é compactuar com a organização criminosa que assaltou a nação, provocou a tragédia do desemprego e destroçou a economia. Mais de trinta anos depois da Direjas Já (com caixa alta), o movimento cívico e pacífico que aglutinou o povo contra a ditadura, surge agora uma quadrilha de criminosos tentando fazer do povo massa de manobra para levá-lo a uma tragédia anunciada.

Se você não quer mais que seu país seja governado por criminosos e assaltantes dos cofres públicos, diga não a essas diretas fajutas, oportunista e golpista. Está provado que o voto, apenas o voto, não livra ninguém de bandidos políticos. Se assim fosse, o país não tinha desmilinguido nas mãos de Lula/Dilma, os mais corruptos e venais presidentes que já governaram o Brasil.

Gente fora do mapa

Dany Krom

Operação Carne Muito Fraca

O Brasil viu o PT criar o monstro JBS e ficou calado. O Brasil viu o monstro emboscar um presidente e depois voar livre para Nova York. Cadeia para o Brasil.


O que os companheiros Janot e Fachin consideraram suficiente para abrir investigação contra Michel Temer é um soluço diante daquilo que, durante dois anos, acharam insuficiente para abrir investigação contra Dilma Rousseff – a presidente do petrolão. A incrível rapidez dessa operação (que poderia se chamar Carne Muito Fraca) fez surgir nas redes sociais os codinomes de Rodrigo Enganot e Edson Facinho. Que gente má.

Antes dessa mão de areia jogada nos olhos da plateia, o espetáculo verdadeiro chegava ao coração do escândalo com as revelações de João Santana e Mônica Moura. Ali ficava claro – mais do que nunca – que o proverbial assalto exposto pela Lava Jato fora regido de dentro do palácio petista, sem intermediários.

O marqueteiro e sua esposa mostraram como o governo (repetindo: o governo, não o partido) agia para embaraçar as investigações da força-tarefa – inclusive tentando preveni-los da prisão e, consequentemente, evitar sua delação. Coisa de máfia. Acusado de atuar nesses vazamentos está o ex-ministro da Justiça – o mesmo que triangulava com o procurador-geral e o STF no longo período em que Dilma, a idônea, era tornada imune a investigações.

Como até os pedalinhos de Atibaia estão cansados de saber, Lula e sua revolução redentora inventaram os irmãos Batista como potência empresarial. Os subterrâneos do BNDES têm muito a revelar sobre essa história de sucesso, mas a Operação Carne Muito Fraca chegou bem na hora para embaçar a cena. O que se viu foi uma homologação tipo fast-food da espionagem de Joesley e da conclusão quase mediúnica sobre uma suposta autorização do presidente da República para a compra do silêncio de Eduardo Cunha.

Tudo muito grave. Ou o presidente tem de ser afastado e preso – e essa investigação não pode parar antes do fim – ou terá sido um erro de psicografia. Aí quem psicografou vai ter de pagar. Na mesma moeda.

Existirá psicografia seletiva? Fica a dúvida. Porque as mesmas mentes que detectaram crime do presidente na conversa com o campeão do Lula parecem não ter notado os crimes do campeão. Na mesma conversa, ele diz ter subornado meio mundo. Mas aí deu um tchau para os supremos companheiros e foi pousar livre como um pássaro na Quinta Avenida. Será que é normal? Ou seria paranormal?

Deixem os irmãos Batista curtir sua fortuna tranquilos em Nova York. O mais indicado mesmo, neste momento, é o Brasil se entregar e negociar uma delação premiada. Conte tudo, Brasil. Confesse que você viu o monstro sendo criado pelo PT e engordando na sua cara. Admita que desde o mensalão você viu (ninguém te contou) Lula e seu Estado-Maior transformando grandes empresas nacionais em anexos do PT para comprar seus melhores sonhos totalitários. E, por favor, não venha agora fingir surpresa com o fato de a política nacional estar contaminada por esses tubarões. Dizem que quem não recebia PC Farias na era Collor caía em desgraça. PC era uma criança perto dos seus sucessores na era Lula.

O Brasil acordou invocado na semana passada, olhou-se no espelho e se descobriu virtuoso. Decidido terminantemente a ser a virgem do bordel. Tudo bem. O que acontecia antes disso era que um presidente antiquado, de um partido fisiológico, abrira as portas do Estado brasileiro para que as melhores cabeças pudessem saneá-lo, salvá-lo do desastre petista. Por que Temer fez isso? Não interessa. O que interessa é que o seu time de ouro iniciou um milagre e virou todos os indicadores na direção certa – a única que interessa à sua vida real, Brasil.

Mas você estava com saudade de ver heróis da resistência como Lindbergh Farias sabotando as reformas, não é verdade? Bem, então está dando tudo certo para você. O lobista de José Dirceu, condenado a 20 anos de prisão na Lava Jato, também já está solto. Siga apoiando o processo de depuração das instituições deflagrado pelos irmãos Batista. Quem sabe eles não se comovem e criam uma Bolsa Brasil? Aí talvez você possa até largar essa vida corrida e ir descansar para sempre no Guarujá.

Guilherme Fiuza

Os mascarados


Alguns tomam a ficção de homens de Estado - a máscara de estadistas - e vão impondo aos crédulos as suas razões e as suas leis

Augusto Frederico Schmidt