segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O Brasil tolera o golpe petista

A entrevista coletiva do prefeito de São Paulo para falar de sua derrota no primeiro turno das eleições municipais honrou as tradições do Partido dos Trabalhadores: uma repórter da Globo News foi hostilizada, acuada e obrigada a se retirar do recinto. Com esse ato revolucionário, os militantes progressistas do PT atingiram dois objetivos ao mesmo tempo: reforçaram sua poética contra a mídia burguesa e deixaram claro, pela enésima vez, que notícia boa é notícia a favor – algo um tanto difícil quando se perde uma eleição.

No dia seguinte, Fernando Haddad (o tal candidato derrotado) pediu desculpas à repórter. E ficou tudo bem. O Brasil é uma mãe.

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Uma mãe especialmente boa para os filhos da... outra. Aceita que eles vandalizem a casa, basta dizerem depois que foi sem querer. Quando Dilma (a outra) ganhou a reeleição em 2014, esses rebentos aloprados fizeram um escarcéu no discurso da vitória. Entre outros cânticos de guerra, entoaram a palavra de ordem “abaixo a Rede Globo” – que provocou a seguinte reação da presidente da República: parou seu discurso e fez coro silencioso ao ataque. Isso depois de condenar a depredação da Editora Abril, atentado perpetrado por seus simpatizantes. Enquanto o Brasil tolerar essa malandragem, os progressistas de circo vão continuar espancando a liberdade de expressão e dizendo que ela é linda.

O mais perfeito retrato da tal democratização dos meios de comunicação, bandeira cifrada do PT e seus genéricos, é o caso Mídia Ninja. A aparição desse movimento – e sua difusão durante os protestos de junho de 2013 – parecia uma boa novidade. Um jornalismo de guerrilha, absolutamente independente, engajado na missão obstinada de cobrir tudo o que a grande imprensa não mostrasse. É assim mesmo que se faz democracia – com a pluralidade das vozes impedindo os monopólios da verdade.

A boa novidade começou a não parecer tão boa quando alguns grandes veículos começaram a ser acusados – especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro – de estar distorcendo a cobertura dos protestos em favor da polícia. Qualquer cobertura jornalística terá suas falhas eventuais, mas havia um problema mais sério com essa versão espalhada pela Mídia Ninja: ela não era verdadeira. Não houve e não há nenhum registro de cobertura tendenciosa pró-polícia pelos principais veículos de comunicação do país em junho de 2013. Ao contrário, o noticiário até tendeu a superestimar os propósitos dos manifestantes – atribuindo uma grandiosidade aos atos que eles, percebeu-se depois, nem sempre tinham.

E passou a surgir outro ingrediente incômodo no front dos protestos: a mídia que não era ninja começou a ser recebida com hostilidade nas ruas, frequentemente cercada e violentamente agredida. Essa prática boçal se tornou corriqueira e teve, entre seus legados, a morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Band – atingido por um rojão na cabeça.

Os responsáveis pela morte de Santiago irão finalmente a júri popular. Mas os políticos que os incentivaram e incentivam seus coleguinhas bestiais estão concorrendo alegremente nas eleições municipais, com discurso de direitos humanos. E a Mídia Ninja foi contratada pelo finado (e obsceno) governo Dilma Rousseff.

O episódio da expulsão da repórter Andrea Sadi da coletiva de Haddad mostra que o Brasil ainda convive bem com a falta de democracia – desde que o ato autoritário parta do pessoal fantasiado de esquerda. É a enésima agressão à liberdade de expressão por parte de um grupo político que já tentou de tudo para transformar a mídia em panfleto particular – inclusive torrando milhões de reais do contribuinte para sustentar blogs de aluguel. Quando o governo Temer tenta mostrar as feridas institucionais deixadas por 13 anos dessas manobras obscuras, surgem vozes na própria grande imprensa denunciando a contrapropaganda... Só rindo.

O que aconteceu na coletiva de Haddad é muito grave e tem a ver com a narrativa do golpe. É a defesa de um sistema de crenças em bandeiras aparentemente belas, que servem a uma prática autoritária de subsistência política, cultural e moral (sic). São os gigolôs da bondade. A impressionante tolerância nacional para com essas figuras explica que Lula, depois de tudo o que fez, ainda possa andar por aí com cara de coitado.

As lições do pleito

O pleito de domingo passado fecha o ciclo do PT como protagonista principal da vida política brasileira. A passagem do 3º lugar para o 10º lugar no arco partidário, tendo obtido apenas 4,39% dos votos do país, é uma leitura que abriga outras: não houve golpe no impeachment de Dilma; Lula deixou de ser o bicho papão do palanque brasileiro; o petismo leva uma tremenda surra nos centros mais desenvolvidos e na própria região Nordeste, onde imperava. Mas o recado maior dos 118 milhões que compareceram às urnas foi este: esqueçam a lengalenga petista de anos a fio – “nós e eles”, responsável pelo apartheid que dividiu o Brasil em duas bandas: uma, a dos mocinhos, que o PT reivindicava como sua, e outra, que dizia ser ocupada pelas  “elites e imprensa burguesa”.

Ao destamparem os dutos da corrupção, o mensalão, do governo Lula, e o petrolão, do governo Dilma, redefiniram os limites do céu e do inferno, jogando neste a cúpula petista que se julgava dona dos espaços celestiais. O rombo nas contas públicas e a devastação na paisagem social acabaram se juntando à trama da roubalheira para dar a mais contundente resposta social do eleitor a um partido político. A cabeça, o corpo e os braços do PT foram estraçalhados pela má condução da economia e pela corrupção. E por que outros partidos flagrados na boca da botija não foram punidos com tanta veemência pelos eleitores? Porque o PT foi o partido que vestiu o manto da ética. Recebeu o troco das urnas com juros e correção monetária.

O artista polonês Pawel Kuczynski realiza desenhos satíricos com o principal objetivo de fazer que o público se auto-questione o porquê de muitas coisas que formam parte do nosso dia-a-dia. Seus temas vão da vida social à política ou a pobreza, e também se você olhar com atenção às obras, irá notar muitas coisas descritas incisivamente e sem palavras…:
 Pawel Kuczynski
Os maiores vencedores foram o PSDB, que obteve 26,81% dos votos, e o PMDB, com 17,38% dos votos. Os tucanos fizeram 791 prefeitos; já os peemedebistas continuam com o maior número de prefeituras, 1029, oito a mais do que o número alcançado em 2012, o que lhe dá a condição de partido mais capilar do Brasil. Os partidos que formam a base do governo ganharam 4.930 prefeituras entre as 5.568 existentes. Portanto, forma-se um gigantesco bloco de centro, com uma vertente mais forte, à direita, e um braço poderoso à esquerda, juntando ao lado do PSDB e do PMDB partidos médios como o PSD, PSB, DEM, PR, PRB, PDT e PTB. O PSOL, à esquerda, tem chances de elevar a cotação com a eventual vitória de Marcelo Freixo, no RJ.  

A curiosidade faz perguntas: o PT será tragado? Não. Transforma-se em um partido dos grotões, pois dos 241 prefeitos que elegeu, mais da metade se localiza em enclaves de menos de 10 mil eleitores. O partido, que entra em profunda depressão, começa a fazer seu balanço, indicando mudanças na cúpula, no discurso e nas formas de operação. Se Lula voltar a comandar a sigla, isso não será proveitoso. Começa a ser contestado. Tarso Genro, da corrente Mensagem ao Partido,  prega profunda mudança no PT, com a atração de jovens, a busca de movimentos sociais e a formação de um vasto bloco de esquerda. Para chegar ao porte de antes, deverá percorrer longa trilha.

Sua militância sofrerá as agruras do desemprego. Dos 25 mil cargos comissionados na área federal, os petistas, mesmo se escondendo como ratos nos porões da administração, estão sendo desalojados. Mais um contingente entre 50 mil a 60 mil sairá das hostes municipais com a derrota dos candidatos petistas. Terão menos 389 prefeituras. Mas não apenas o fator eleitoral devasta a nação petista. Lula está indiciado em  processos. E, a qualquer hora, após condenação sob a toga da primeira instância do juiz Sérgio Moro, poderá ser apenado na segunda instância. Se receber esta condenação, perde a condição para se candidatar em 2008. Seria mais um tremendo golpe no lulopetismo. Nesse caso,  o partido deverá enrolar sua bandeira vermelha e passar longa temporada no limbo, mais próximo ao inferno do que ao céu. 

Expulso até do tradicional cinturão vermelho do ABC, onde tem sua origem, Lula não conseguiu eleger nem seu filho adotivo, Marcos, em São Bernardo. Em Osasco, não elegeu nenhum vereador. Mesmo assim, Luiz Inácio continua confiando em seu verbo roto: o PT sairá vencedor mais adiante, pois o governo Temer, segundo ele, não dará certo e, na esteira do caos, voltará aos braços do povo. Lula deve estar anestesiado para ser tão esperançoso. Nesses últimos dias,  pode ter conversado muito com Deus.

Mas o maior fenômeno da campanha eleitoral foi João Doria, o tucano que ganhou o pleito na maior metrópole nacional, obtendo mais de 53% dos votos, ou 3, 085 mil votos. João vestiu o manto antipetista, expressou um discurso com foco na  gestão, mostrou-se um empresário sem os vícios da velha política, teve a maior mídia eleitoral – em função da parceria entre PSDB e 12 partidos. De cara limpa, discurso apropriado, agenda que incluiu 9 meses de corrida intensa pelos 93 sub-distritos de São Paulo, passou a ser amplamente conhecido e angariou o voto útil contra o PT. Quando o eleitorado percebeu que poderia despachar Fernando Haddad logo no primeiro turno, o fez. Essa corrente se formou em dois dias – sábado e domingo da eleição.

Quem sobe com a vitória inesperada de João é o governador Geraldo Alckmin, que patrocinou sua candidatura. Alckmin apostou na candidatura do empresário e jornalista. João fez um bom programa de TV e rádio, escolheu Haddad como foco, mas foi educado. Não usou linguagem capenga. Saiu-se muito bem nos debates. A lógica da política eleitoral apontava para seu crescimento. Em 3 meses, subiu de 6% para 53,03% dos votos em São Paulo. Alckmin ganha fôlego para caminhar na direção de 2018. São Paulo é o maior colégio eleitoral do país com os seus 33 milhões de votos, o dobro de Minas Gerais.

Mas o Não Voto merece também destaque.  Na média, abstenções, brancos e nulos chegam a 32,5% nas capitais. Só em São Paulo, os votos nulos, brancos e as abstenções somaram 3,096  milhões de votos. No Rio, este índice superou os 38%. Em Ribeirão Preto, chegou a 45%. E em mais de 10 cidades do país, ultrapassou a casa dos 50%. Infere-se, portanto, que este foi também o pleito da contrariedade, da indignação. Daí o recado: urge reformar a política.

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Família pescando no Camboja

Garantir terras para indígenas na Amazônia pode render US$ 1 trilhão ao Brasil

Garantir aos indígenas de países da Amazônia a posse de suas terras poderia gerar benefícios econômicos que, só no Brasil, ultrapassariam US$ 1 trilhão em 20 anos, de acordo com um novo estudo realizado pelo World Resources Institute (WRI), um "think tank" da área ambiental sediado em Washington, nos Estados Unidos.

A pesquisa, divulgada nesta sexta-feira, na capital norte-americana, foi realizada no Brasil, na Colômbia e na Bolívia e revelou que nas áreas indígenas onde a posse da terra é garantida, o desmatamento é consideravelmente reduzido. Entre 2000 e 2012, nessas áreas, a devastação foi 40% menor no Brasil, 50% menor na Colômbia e 35% menor na Bolívia.


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A partir dessa análise comparativa, os autores calcularam o custo-benefício do investimento na proteção de terras indígenas, considerando a economia que seria feita com a redução das emissões de carbono e com a preservação de serviços de conservação do ecossistema, como água limpa, retenção do solo, polinização, biodiversidade, controle de inundações e rendimentos das comunidades com turismo e recreação.

De acordo com Juan Carlos Altamirano, economista do WRI que coordenou o estudo, a análise concluiu que proteger a posse das áreas indígenas é um investimento de baixo custo com altíssimo retorno. Os benefícios econômicos estimados em um período de 20 anos são: de US$ 523 bilhões a US$ 1,1 trilhão para o Brasil, de US$ 123 bilhões a US$ 277 bilhões para a Colômbia, e de US$ 54 bilhões a US$ 119 bilhões para a Bolívia. Os custos chegam ao máximo de 1% dos benefícios totais, segundo o estudo.

"A maior parte desses benefícios econômicos estão relacionados à conservação dos ecossistemas, como controle do clima e da água, polinização e preservação de espécies importantes. Esses benefícios têm imensos impactos nas atividades produtivas - que são muito mais onerosas sem os serviços fornecidos pelos ecossistemas", disse Altamirano.

De acordo com ele, embora os valores estimados pareçam altos, é possível que eles estejam até mesmo subestimados. Os pesquisadores identificaram três tipos de vantagens com a proteção das áreas florestais indígenas: benefícios sociais para as comunidades locais - como criação de empregos e aprimoramento da assistência médica e educação -, benefícios para as ações coletivas - como solução de conflitos nas comunidades - e benefícios para ecossistemas.

"Só consideramos os benefícios ao ecossistema, porque os benefícios coletivos e sociais são difíceis de quantificar. Ainda assim, quando somamos as vantagens econômicas da captura de carbono que seria proporcionada à disponibilidade de água, polinização e outros serviços ecossistêmicos que reduziriam custos para as atividades produtivas, chegamos a esse valor muito alto", explicou o economista.

Pichações, bofetadas na cidade

No dia seguinte ao debate dos candidatos à prefeitura de São Paulo na TV Globo, em que a pichação foi criticada por João Doria (PSDB) e Marta Suplicy (PMDB), o Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, na zona sul, e a Estátua do Borba Gato, em Santo Amaro, na mesma região, amanheceram cobertos de tinta colorida: rosa, verde, amarelo e azul.

A barbárie é ponta do iceberg de algo mais grave: a degradação das cidades e a incompetência arrogante das suas autoridades. A reação do prefeito Fernando Haddad (PT) foi emblemática. Em campanha na zona leste, Haddad disse achar que as pichações podem ser fruto da radicalização criada no debate.
“Acho que tem a ver com o tipo de provocação que foi feito no debate. Quando você instiga as pessoas, desafia as pessoas, como Doria e Marta fizeram, dizendo que ‘não vai acontecer nunca mais’. Não é assim que se fala com as pessoas, se dialoga”, afirmou. Lamentável. É a defesa do diálogo demagógico e transgressor. No episódio, a cidade de São Paulo foi demitida por seu governante.

O centro antigo de São Paulo, por exemplo, está à deriva. Edifícios pichados, prédios invadidos, gente sofrida e abandonada, prostituição a céu aberto, zumbis afundados no crack, uma cidade sem alma e desfigurada pela ausência criminosa do poder público.

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Nós, jornalistas, precisamos mostrar a realidade. Não podemos ficar reféns das assessorias de comunicação e das maquiagens que falam de uma revitalização que só existe no papel. Temos o dever de pôr o dedo na chaga. Fazer reportagem. Escancarar as contradições entre o discurso empolado e a realidade cruel. Basta percorrer três quarteirões. As pautas não estão dentro das redações. Elas gritam em cada esquina. É só pôr o pé na rua e a reportagem salta na nossa frente. Os jornais precisam ter cheiro de asfalto.

Jornalismo é isso: mostrar a vida, com suas luzes e suas sombras. São Paulo, a cidade mais rica do País e um dos maiores orçamentos públicos, é um retrato de corpo inteiro da falência do Estado.

Também o Brasil, um país continental, sem conflitos externos, com um povo bom e trabalhador, está na banguela. Os serviços públicos não funcionam. Basta pensar na educação. A competitividade global reclama crescentemente gente bem formada. Quando comparamos a revolução educacional sul-coreana com a desqualificação da nossa educação, dá vontade de chorar. A assustadora falta de mão de obra com formação mínima é um gritante atestado do descalabro da recente “pátria educadora”.

A sociedade está cansada da inconsistência de alguns governantes, de tanto jogo de faz de conta, de tanto cinismo.

As cicatrizes que desfiguram o rosto de São Paulo e do Brasil podem ser superadas. Dinheiro existe, e muito. Falta vergonha na cara, competência e um mínimo de espírito público.

Saindo do vermelho

As eleições municipais no Brasil deram uma surra no PT e na esquerda. Foram mais de dez anos de voto de confiança no petismo e, enquanto a população estava no azul ou sonhando com o azul, era fácil votar na “esquerda”. Agora, a conta dos escândalos e da ineficiência chegou e o eleitor não perdoou. Lula tentou minimizar o impacto: “Essa é a beleza da democracia. É a alternância de poder. A troca de pessoas que governam”. Estas eleições foram uma punição, numa “beleza de democracia”.

O voto ideológico e partidário já era. É quase impossível analisar o voto da maioria apenas à luz da lógica ou das redes sociais. Pior ainda é tentar desacreditar a maré conservadora à luz das paixões e militâncias. Analista que faz isso é ingênuo ou de má-fé.

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A desilusão mundial com os políticos, pela corrupção e pelas mentiras, leva o eleitor a mandar um recado claro, com voto oculto não detectado pelas pesquisas eleitorais. Ele prefere apostar no desconhecido, por mais arriscado que possa ser. O desconhecido ainda não o decepcionou, ainda não roubou bilhões de verba pública, ainda não faliu estatais. O desconhecido com uma história pessoal de sucesso é um chamariz de voto. Não é por acaso que 23 milionários tenham sido eleitos no primeiro turno prefeitos no Brasil.

Para o eleitor comum, a maior bandeira é seu emprego, seu trabalho, sua chance de mobilidade social. Sua família é a maior preocupação. Saúde, segurança e o futuro de seus filhos são o que lhe tira o sono. O futuro do planeta, a ecologia, a paz, nada disso guia a maioria silenciosa na urna. É sua felicidade e a dos muito próximos o que comanda seu voto. Não vivemos tempos de compaixão ou de solidariedade com imigrantes e refugiados, ou com vizinhos de prédio ou de fronteira, ou com menores carentes ou delinquentes. No Brasil, na Colômbia, na Hungria, na Grã-Bretanha, na Espanha, nos Estados Unidos, o panorama é parecido e individualista. Não é elogio nem crítica, mas uma constatação.

Ninguém esperava que um empresário e apresentador de TV ganhasse no primeiro turno a prefeitura de São Paulo. No Rio de Janeiro, o voto maciço em um pastor evangélico da Universal, sobrinho do bispo Edir Macedo, acompanhado por expressivos 14% de votos no filho de Jair Bolsonaro, revelou que o carioca mudou e mandou o PMDB às favas.

Marcelo Freixo, do PSOL do Rio, é a exceção vermelha que comprova a regra. Quem o garantiu no segundo turno foi o eleitor jovem e de curso superior, a Zona Sul afluente. O povão, em nome de quem Freixo promete governar, o rejeita. A primeira pesquisa Datafolha para o segundo turno mostrou que a maior diferença entre os dois candidatos está nos eleitores apenas com ensino fundamental: 52% para Crivella, 21% para Freixo.

A esquerda desmerecerá o voto da massa? Dirá que não é esclarecida? Ou assumirá que os mais pobres foram os mais afetados pelos desmandos do governo Dilma? Admitirá que o povo brasileiro é religioso, tradicional e tem valores próximos aos da direita militarista que vota em Bolsonaro? A maioria rejeita direito ao aborto, descriminalização de drogas, casamento gay, desarmamento civil e acha que bandido bom é bandido morto. Pode fazer referendo. Vai ver. Pelo mundo afora, é a mesma toada conservadora e de desencanto, que impulsiona um voto oculto ou envergonhado, invisível nas pesquisas. Há nuances segundo o país, mas é possível reconhecer um padrão. Abstenções, votos nulos e em branco estão em alta.

Um dos votos mais surpreendentes foi o do referendo na Colômbia. Era dado como certo que o povo colombiano aprovaria o acordo de paz com os guerrilheiros das Farc, depois de mais de 50 anos de guerra civil e 260 mil mortos. Mas o povo disse “não” no referendo. Rejeitou a anistia aos guerrilheiros.

Na Hungria, 95% rejeitaram em referendo abrigar cotas de refugiados de guerra e imigrantes. Na Grã-Bretanha, o povo decidiu pela Brexit, a saída da Europa. Na Espanha, nenhum partido consegue formar maioria em eleições, e o povo está há quase 300 dias sem um governo nacional – e feliz com isso. “Sem governo, sem ladrões”, dizem os espanhóis. Já nos Estados Unidos, Donald Trump é o ídolo dos nacionalistas, um fenômeno absurdo de ódio, racismo, xenofobia, machismo. Inexplicável?

Ao chegar a Nova York na semana passada, peguei no aeroporto um táxi dirigido por um jovem de Bangladesh, que foi com a família há 20 anos para os Estados Unidos. Perguntei em quem votará para presidente. “Ainda não sei”, disse com sotaque forte. “Não gosto de nenhum dos dois. Será um voto difícil [‘tough’]. Mas, no último dia, vou escolher Trump ou Hillary.” Fiquei boquiaberta. Tive a sensação de que o rapaz de Bangladesh já se decidira por Trump. Um voto oculto e envergonhado, como tantos que acabam por decidir uma eleição.

Ruth de Aquino

Do mundo nada se leva. Muito menos imposto



Dirigido por Frank Capra (1938), "Do mundo nada se leva" ("You Can't Take It with You"), é um clássico da era Roosevelt com farta crítica ao capitalismo desenfreado. No elenco, Jean Arthur, Lionel Barrymore, James Stewart, Edward Arnold.  

O quilombo de Mumbuca

Há meses entreguei um prêmio no Ministério da Educação, em Brasília, para professoras que criaram projetos de incentivo à leitura. Uma das vencedoras me disse, emocionada:

– Comecei a ler por sua causa. E hoje sou professora.

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É o tipo de mensagem que faz a vida de um escritor valer a pena! Ela vinha do quilombo de Mumbuca, no Jalapão, Tocantins. Convidou-me para visitá-lo. Aceitei. Escrevia uma novela na época, esperei terminar. Há semanas, parti. Desci em Palmas, capital do Tocantins. De lá, um guia me levou ao Jalapão, parte pouco conhecida do país, belíssima, com montanhas, areais, dunas, cachoeiras. Quando chegamos à pequena cidade de Mateiros, tivemos a notícia. O quilombo estava inacessível. A ponte que o liga ao resto do mundo sofrera um incêndio criminoso. Pior, justamente na época da colheita do capim-dourado. O artesanato com o capim, que só dá na região, é a base econômica do quilombo. Fazem bijuterias, vasos, chapéus, mandalas. Que têm reflexos dourados, daí o nome do capim. Convenci meu guia a botar o 4x4 no rio. Atravessamos o leito cascalhado. Em certo momento, a água quase entrou no motor, mas conseguimos. Ana, a professora que me convidara, já fora prevenida por telefone e me espera. Chego carregado de livros, de minha autoria, para a biblioteca do quilombo. Poucas vezes fui tão bem recebido. Cantam para mim. Mostram os campos de capim-dourado, lindos! Há um quadro com a árvore genealógica dos habitantes. Hoje são umas 60 famílias, que descendem de dois casais de escravos fugitivos. E... surpresa! É um matriarcado, desde sua formação. A grande mentora foi dona Miúda, falecida, que descobriu o uso do capim-dourado no artesanato. Quem nasce lá tem um profundo senso de comunidade. Pode sair, mas sempre volta.

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– Moro uma parte do tempo em Palmas, onde trabalho, mas volto para a colheita do capim – conta-me Miriam, uma moça bonita. – Aqui é meu lugar.

Ana fez universidade. Mas voltou para seu quilombo. Um rapaz, Maurício, ótimo cantor, faz apresentações pelo Brasil todo. Mas sua casa é lá. A cada turnê, retorna. Uma senhora magra, de 60 anos e porte aristocrático, me recebe em sua casa de chão de areia – no quilombo o piso é esse, areia. É a Dotora, assim mesmo, sem o u. Faz curas com remédios caseiros, à base de buriti, a palmeira da região. Dá ajuda espiritual. Principalmente conselhos para manter a paz entre os moradores. Dona Santinha e dona Laurinda, a parteira, também contribuem com o bem-estar social. São mulheres fortes, experientes. Referências para os moradores. Observo a Dotora sentada na rede, conversando, gesticulando. Penso:

– Nunca vi mulher tão elegante!

A pobreza da cidade grande, com a qual estamos acostumados, é luxo diante da vida no quilombo. As casas têm paredes de tijolos não caiadas e tetos de folhas de palmeira. A sobrevivência é na base do mínimo. O calor, causticante. Há uma escola, mas, fora Ana, os outros professores não vêm há meses. Posto de saúde, nem pensar. Vivem como provavelmente viveram seus antepassados há 200 anos: da floresta, do rio, de uma pequena agricultura e criação doméstica – há galinhas em todas as casas. Há neles um sentido de comunidade que eu não via havia muito tempo: todos se preocupam com a sobrevivência de todos. As vendas do artesanato, concentradas em um salão da associação local, servem ao bem comum. Existe um grande tesouro: a colmeia da mumbuca, abelha que deu nome ao quilombo. Faz sua colmeia dentro da terra, em forma de cone. Seu mel raro só é extraído para a produção de remédios.

Apesar de toda a alegria com minha chegada, ninguém esconde a preocupação. A falta de ponte afastou os turistas na festa da colheita, o grande momento do ano. A época da cheia logo chegará. Nem um 4x4 conseguirá atravessar o rio. Mumbuca ficará definitivamente isolado. O governo do Tocantins alega falta de verba. A responsabilidade passou para o município de Mateiros. Este, embora viva de turismo e tenha no quilombo uma atração importante, também diz não ter como construir a ponte. O autor do incêndio não foi descoberto. Perguntei a um morador o que achava de tudo isso:

– Ficaremos como antes, há 200 anos. Isolados.

A abolição da escravidão aconteceu há muito tempo. Mas os moradores de Mumbuca continuam a enfrentar circunstâncias ruins, que parecem datadas da época em que seus antepassados fugiram de seus senhores. Estão por si mesmos, sozinhos na luta por sua ponte.

Temer, governo sem alma e sem vida, que se olha no retrovisor

Bom dia retrovisor. É assim que o Temer parece que vai atuar daqui pra frente. Com aprovação de apenas 14% dos brasileiros, segundo pesquisa recente, os comunicólogos do Palácio do Planalto tiveram a ideia genial de começar uma campanha para falar mal do governo da Dilma como se ela ainda existisse e incomodasse o país. Como é uma publicidade irrelevante, sem nenhum interesse para a nação, o Ministério Público deveria responsabilizar esses iluminados que encheram os jornais de críticas ao governo do PT que, como se sabe, desapareceu do comando do país com o impeachment da Dilma. É, sem dúvida, um dinheiro jogado no lixo.

A campanha diz que Temer pegou o país no vermelho, uma economia destroçada, um déficit de bilhões de reais nas contas públicas e com as obras de infraestrutura desativadas. Até aí nenhuma novidade. Não é novidade nem mesmo para o PMDB, partido do presidente, que durante doze anos governou o país ao lado dos petistas e da Dilma, portanto, não pode negar a sua cumplicidade com a administração caótica do PT da qual fez parte. Ora, o que se espera desse governo é oxigenar o país com boas ideias, reativar as obras de infraestrutura e retomar o crescimento para gerar emprego e renda e diminuir os 12 milhões de desempregados no país. Gastar milhões de reais em publicidade, numa encomia em frangalhos como a nossa, para mostrar a “herança maldita” do PT, é desperdiçar dinheiro público com peças revanchistas sem nenhum interesse público.

Charge O Tempo 9.10.2016

O governo deveria ser proibido de gastar dinheiro para cultuar a personalidade de seus dirigentes. Isso só ocorre em países subdesenvolvidos como o nosso onde ainda se distribui até fotografia oficial do presidente para as repartições públicas, figuras caricatas que ficam pregadas nas paredes mirando a mesa de trabalho dos seus subordinados como se estivessem a vigiá-los.

O palácio ainda não divulgou os custos desses anúncios nos jornais, radio e televisão, mas as cifras certamente vão ultrapassar os milhões de reais para alegria das agências que têm no governo boa parte das suas receitas publicitárias e também da mídia em geral que vive na pindaíba com a crise econômica. A Dilma, por exemplo, quando alcançou o recorde de apenas 7% de aprovação, gastou, em 2015, quase 500 milhões de reais para melhorar a imagem enquanto as pessoas morriam nas portas dos hospitais por falta de leitos e medicamentos.

Esse dinheiro usado em publicidade o ano passado é café pequeno em relação ao que o PT gastou com as emissoras de televisão nos doze anos de governo para vender uma imagem falsa, truncada e mentirosa, uma propaganda enganosa que ludibriou os milhões de brasileiros. As principais TVs brasileiras engoliram em publicidade nesse período 11,5 bilhões de reais. Isso mesmo, é o que você acaba de ler: 11,5 bilhões de reais. A Globo sozinha embolsou 6,5 bilhões. O resto do bolo foi distribuído assim: Record R$ 2bi, SBT 1,6 bi, Band 1 bi, Rede TV 408 milhões.

Toda essa dinheirama para nada. O Brasil, nessa década, só andou para trás. Prova disso é o PIB negativo dos últimos anos com a economia em declínio. Mesmo assim, seus governantes – federal, estadual e municipal – continuam gastando milhões para promover seus feitos com uma mídia que persegue aqueles que não rezam na sua cartilha.

Essa nova onda publicitária do governo Temer só mostra uma coisa aos brasileiros: nada mudou, os vícios permanecem os mesmos e a população já desconfia que trocou seis por meia dúzia. Governo criativo, doutor Temer, seria acabar com essa farra publicitária, só anunciar o extremamente o necessário, a exemplo de campanha de vacinação e calamidades ou serviço de utilidade pública. Gastar uma fortuna para administrar olhando para o retrovisor é uma demonstração inequívoca de que esse é um governo sem alma e sem vida que já começou velho.

O Brasil não merece isso, andar a passos de caranguejo.

Eles contra eles

É inegável: constrangido a encaminhar-se até as urnas para eleger novos prefeitos e vereadores, há uma semana o brasileiro não poderia ter sido mais eloquente. Como se aproveitasse o pleito para ratificar suas convicções - repúdio ao aparelhamento do Estado e à roubalheira institucionalizada, bem como o apoio ao afastamento de Dilma Rousseff -, impôs uma derrota histórica ao petismo.

Pois, embora a mensagem tenha sido clara, sustentada que foi por estatísticas, e até mesmo previsível, dado o estrago causado pela administração Dilma e a Operação Lava Jato, não têm sido raros os diagnósticos equivocados a seu respeito. Assim como as ginásticas retóricas visando uma salvaguarda partidária.

talking head # 102 - Caulos:
Até faz sentido, por exemplo, decifrar a resposta das urnas como sendo um recado ou mesmo uma vitória da direita. Após tantos anos impregnados pela mitológica dicotomia entre montéquios indignos e capuletos magnânimos, beber no tororó da esquerda compreensivelmente extrapola o cacoete.

Faz sentido, mas está errado.

E está errado, acima de tudo, por inflar a falsa narrativa que sugere uma direita relevante neste país. Infelizmente não é o caso. E este meu lamento, diga-se, nada tem a ver com preferências ideológicas - de espantalhos imaginários já me basta o Fluminense -, mas pela ausência de pluralidade no debate político.

O que o cenário apresenta, isto sim, são matizes do vermelho. Uma miríade de legendas que vão do centro à extrema esquerda e nada além. Por esta razão, é fundamentalmente deseducador alardear uma guinada impossível. E nem vale a pena mencionar o boboca terrorismo embutido no discurso.

Como dizia, cambalhotas argumentativas com o intuito de empanar a voz do povo não deixaram de faltar. A mais ecoada delas tratou de jogar luz sobre o alto percentual de abstenções, em uma tola manobra para manter aceso o discurso do “fora todos” e, de quebra, relativizar o fracasso do PT.

Pois a verdade é que o percentual nacional de abstenções manteve-se alto, deixou clara a descrença geral com a classe política, mas sequer chegou perto de bater o recorde. Esteve abaixo, por exemplo, daquele atingido há 2 anos (17,6% contra 19,4%).

Este país foi embalsamado por um discurso ideologicamente parecido durante grande parte do período pós-redemocratização. Precisamente nos últimos 14 anos, diga-se, a condução esteve nas mãos de um mesmo partido, que por sua vez foi assessorado pelos mesmos parceiros. Apelar para adversários fantasmas ou medos empoeirados, como ficou claro desde domingo passado, ganhou contornos de estratégia vencida.

Os pontos de interrogação que hoje assombram a esquerda, de tão maiúsculos, já não parecem sensíveis à manipulação dos fatos e apenas podem ser respondidos por ela própria.

Enquanto isso, para a grande massa de brasileiros alheia à sua crise existencial, a pergunta que interessa não poderia ser outra: até quando seremos acossados pelo negar-sempre-admitir-jamais, adotado a ferro e fogo e diretamente responsável por inviabilizar um debate maduro?

E, já que estamos aqui, assistiremos a um gesto que seja de arrependimento sincero, não apenas por parte do Partido dos Trabalhadores, mas também daqueles que veladamente o apoiaram sob a malandra chancela da oposição crítica?

O futuro nunca foi tão incerto, precisamos admitir, mas não para os recém-libertos.

domingo, 9 de outubro de 2016

Aposentadoria meireles pedra no meio do caminho tropeco tombo dentro tumulo velho idoso previdencia novas regras fator

A arte de enganar os pobres

Sem ter conseguido seduzir com o discurso do “golpe”, o PT – maior derrotado nas urnas municipais -- tateia em busca de motes para reaglutinar a sua turma. Atira para todos os cantos e, com insistência e determinação, atinge o próprio pé, gangrenando o pouco que restava da biografia do partido e de seus líderes.

Pisam e repisam na tese delirante de conluio entre a elite e a mídia monopolizada. Uma conspiração fantástica capaz de unir na mesma seara a Lava-Jato e os endinheirados que agonizam atrás das grades para manter o poder perpétuo do PT e dos seus. Agora, se fixam na demonização da emenda constitucional que limita gastos públicos, aprovada na comissão especial por ampla maioria – 23 x 7 –, com chances de ser decidida nesta semana pelo plenário da Câmara dos Deputados.


Apelidada pelo PT e o “campo de esquerda” como PEC da Morte, a emenda ganhou versões tão fantasiosas na boca dessa trupe que chegam a ser perigosas. Nas redes sociais, entre críticas engraçadas e mentiras deslavadas, dizem até que o governo Michel Temer acabou com o 13º salário e que na reforma previdenciária os “velhinhos” com menos de 70 anos terão seus benefícios suspensos.

A má-fé oficial não é menor do que a irresponsabilidade anônima ou de perfis falsos e contratados para as redes sociais. Sobre a PEC do Teto, por exemplo, o deputado Henrique Fontana (PT-RS) disse que ela vai aumentar o desemprego e a desigualdade social. “Vai piorar a saúde, a educação, a assistência social e a segurança pública”. Patrus Ananias (PT-MG) foi ainda mais enfático: “Os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres”.

Além de brigar com a lógica de que não se pode gastar mais do que se arrecada, a direção do PT, suas lideranças e admiradores fazem chacota dos pobres que dizem defender. Empenham-se em raciocínios mirabolantes, falseiam números, mentem.

Dados divulgados na quinta-feira informam que, ao contrário do que propala Ananias, os pobres já estão cada vez mais pobres e os ricos mais ricos.

Análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), feitas a partir das declarações de IR de 2014, apontam que a renda do topo da pirâmide cresceu 9% contra 2% dos que recebem até 5 salários mínimos. Pior: ainda no primeiro mandato da presidente deposta Dilma Rousseff, os que receberam até meio salário mínimo comprometeram 1,17% de seus ganhos quase inexistentes com impostos, número escandalosamente maior do que o dos que têm renda superior a 120 salários, que só pingaram 0,03% na boca do Leão.

Os pobres, que na festa do consumo patrocinada pelo ex Lula e por sua pupila parcelaram suas vidas em até 60 prestações, foram os que mais sentiram na pele o tamanho do engodo. Batizados de nova classe média, muitos deles estão sem emprego, na penúria. Respondem por inadimplência crescente, hoje superior a 52%.

Na saúde, setor que segundo o deputado Fontana será arrasado com o equilíbrio das contas, o país amarga crise sem precedentes. De 2010 a 2015, a oferta de leitos no SUS caiu 7,5%, de 50,1 mil para 48,4 mil – 1,6 mil leitos a menos, de acordo com o Conselho Federal de Medicina.

Sem emprego, salário e dinheiro no bolso, o brasileiro superlotou o sistema público de saúde. O SUS, que já não conseguia dar conta da demanda, herdou 1,6 milhão de pacientes que abandonaram os planos de saúde complementar.

Cenário catastrófico se verificou também na educação. Com o acirramento da crise econômica que a presidente deposta fermentou, ela mesma se viu forçada a cortar R$ 10,5 bilhões – 10% da verba do MEC -, enterrando o lema marqueteiro “Pátria educadora”. Na segurança pública, a redução de investimentos foi constante, totalizando mais de R$ 20 bilhões em 13 anos.

Um legado diabólico, dificílimo de ser exorcizado.

Despidos moral e politicamente, flagrados com a mão na botija e enricados com o dinheiro dos pobres que diziam defender, líderes da sigla tentam, com palavrório, driblar a história. Mas quanto mais se mexem mais se enterram. Os resultados do primeiro turno das eleições municipais não deixam dúvidas.

Limpar a...

Houve um tempo, na Grécia, tão recuado que o chamamos “arcaico” e perdemos o contato com ele, em que as diferenças e divergências sérias eram resolvidas, ou pelo menos reduzidas, por composição. Na prática, era como negociar com boas bases e obter acordos de que ninguém precisaria depois se envergonhar. Acordos programáticos, preservando a essência de cada participante. Por exemplo: havia deusas e deuses, homens e mulheres. Tinham, todos, seus interesses próprios. Muitas vezes andavam aos tapas. Mas podiam se aproximar, quando havia suficiente convergência, e até parcialmente se fundir. Semideuses, semideusas eram produtos desses acordos. Como, entre cavalos e homens, os centauros. E as ninfas, entre as águas e as mulheres. Havia violências, claro, porque a vida pode ser violenta. Mas não nos acordos. Esses eram como que naturais. Não eram frankensteins como os que conhecemos na nossa política. Um semideus era um bom acordo. Herdava a astúcia dos deuses e as boas imperfeições humanas. A altivez e a força. — Hércules era um semideus.

Filho do rei dos deuses, Zeus, e da mortal Alcmena, Hércules foi deles todos o que mais vivo ficou para nós depois que o contato com esses tempos míticos se rompeu. Conhecemos seus 12 Trabalhos, desafios que a ciumenta Hera, mulher de Zeus, lhe lançara para testar o filho da infidelidade do marido. Hércules passou nas mãos de Hera o pão que o diabo amassou. Um dos desafios foi limpar as cavalariças de Áugias.

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Áugias era rei da cidade grega de Elis, e possuía estábulos imensos, onde vivia um gado imortal. Isso também quer dizer: estercava um gado imortal, eternamente. As cavalariças de Áugias nunca tinham sido limpas. O desafio era Hércules lavá-las em um só dia. Olhando assim, impossível. Mas para feitos impossíveis é que se faziam semideuses. Em um dia os estábulos do rei brilhavam de limpeza e escorriam água fresca.

O que Hércules fez? Passava por perto um belo rio, o Alfeu. O semideus desviou o curso do rio e o fez passar por dentro das cavalariças. Um gesto ousado e claro. E definitivo. E simples. Água limpa esterco. É natural. Não tem artifícios. Operação perfeita. Não cavou passagens laterais, para deixar vazar um pouco por aqui, um pouco por lá. Não abriu e fechou torneiras. Nem chamou os repórteres do tempo para divulgarem a conta-gotas os feitos de um semideus calculista. Não aprisionou água em alguns lugares, por bastante tempo, para, acumulada, acumulada, estourar de repente em manifestações de raiva e espuma. Não. Foi lá, convocou uma enxurrada de limpeza cirúrgica. Sem adiamentos e surpresas. De uma vez só. Sem etapas infindáveis. Para não agir de modo rápido e seguro, Hércules precisaria ter uma agenda mais ampla do que a já difícil limpeza do entulho fétido. Um programa político, por exemplo. Como o de derrubar Áugias. Se Áugias fosse o objetivo final de Hércules, táticas de esticamento do tempo seriam compreensíveis. Esse desejo político seria uma explicação para retenções de fluxos, vazamentos que não limpam, histórias contadas antes de feitas. E, de fato, Hércules chamou Áugias para a briga. Guerreou com ele e com os filhos. Meteu família no meio. Mas depois. Primeiro, limpou o esterco de séculos. Tudo limpo, foi fazer política, que na época era assim que se fazia. E o fez claramente. Não misturou as coisas. Uma era desafio imposto pela deusa. Precisava urgentemente ser cumprido. Ninguém aguentava mais. A sujeira era uma barbaridade. Contaminava tudo no reino. A outra era ambição. Não tinha nada de divino. Era assunto de Hércules com o seu desejo. Nenhuma desculpa acima disso. De modo que foi lá e guerreou. Pronto. O trabalho estava feito. E o rei desafiado para a guerra.

Mas isso foi no tempo em que havia semideuses. E as coisas se jogavam às claras. As necessárias eram feitas porque eram necessárias. E a guerra, a política, não tinham nada com isso. Depois os semideuses acabaram. Os condutores e “homens providenciais” quiseram tomar o seu lugar — e até, por cúmulo, falar em nome de Deus. Que Ele nos livre dos homens providenciais! Eles se imaginam acima dos valores comuns. E enxergam nessa superioridade um sinal de missão. Atuam com astúcia às vezes, às vezes com brutalidade. Parece que, no fundo, até se sentem meio servos da verdade. Mas em nome dela meio-mentem, meio-escondem, meio-mostram. No fim, as cavalariças estão convulsionadas, os touros berram, e o esterco só foi revirado. Os estábulos imortais continuam sujos. Mas a população do reino se impressiona com a operosidade dos candidatos a semideus.

A ponto de não se dar conta de que eles estão, na verdade, só de olho no rei. Se puderem pegá-lo, danem-se os touros. Quem fez a merda que a limpe.

Marcio Tavares D’amaral

A Lava Jato e o crime desorganizado no Brasil

Ao apresentar recente denúncia contra o ex-presidente Lula, procuradores do Ministério Público Federal acusaram-no de ser comandante de uma “organização criminosa”. O uso dessa expressão forte, que continua causando ruídos no Fla-Flu que o cenário político brasileiro se tornou, merece exame mais atento.

Para ser bem claro, a verdade é que os esquemas de propina investigados pela Lava Jato podem ser muita coisa, mas chamá-los de “organização” não parece correto. Há um sutil erro no uso desse termo que vale a pena analisar.

Os criminologistas italianos Della Porta e Vannucci demonstram que para um esquema corrupto funcionar, quando envolve muitas partes e grandes quantias, a corrupção tem de ser sistêmica. E corrupção sistêmica tem duas características principais. Primeiro, tem de haver regras de jogo claras e respeitadas por todos os envolvidos – por exemplo, estabelecendo que, uma vez combinado o valor da propina, o “prestador do serviço” entrega exatamente o prometido pelo preço acertado.

A outra regra fundamental é a obrigação de sigilo, nunca falar da transação e jamais dedurar os participantes. Esta segunda característica mostra a existência de um sistema de “governança” para garantir a adimplência das regras.

Em termos de dinâmicas organizacionais, esses são nada mais, nada menos que os dois pilares do crime organizado propriamente dito. A obrigação de sigilo é o vínculo de coesão dos envolvidos, de comprometimento mútuo – chamado no Brasil de “rabo preso”. Para entrar no grupo um novo integrante tem de ter o “rabo preso” com seus confrades.

Na Máfia siciliana, o arquétipo de crime organizado, esse processo tem nome, Omertà. Para ser aceito como membro pleno da família o novato deve cometer um assassinato. Assim ele fica comprometido. Não só ele, cada participante está da mesma maneira comprometido com os outros. Cada indivíduo possui informações que podem incriminar os demais. Daí, se todos ficam quietos, todos estão protegidos; se um abre a boca, todos se tornam vulneráveis – e a casa pode cair.

O outro pilar é a contrapartida do primeiro. Toda organização criminosa tem um mecanismo para manter seus membros na linha, o que, na prática, envolve ameaçar e intimidar o potencial violador das regras, até usar da violência física se e quando necessário.

No Brasil, essa parte é conhecida como “queima de arquivo”. Porém aqui esse conceito é mais restrito e tem origem na ditadura, quando se referia à eliminação de provas.

Numa organização criminosa, a destruição de evidências comprometedoras é só um aspecto, nem sequer o mais básico, de seu modus operandi. Mais importante é garantir o cumprimento das obrigações, sendo a mais fundamental a de calar a boca. Isso implica enviar uma mensagem clara a potenciais dissidentes advertindo sobre o que vai acontecer com eles se transgredirem.

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Olhando pelo prisma desses conceitos, o esquema de corrupção investigado pela Lava Jato representa o ápice do crime desorganizado. Para começar, não havia regras claras – e as que havia nem sempre eram cumpridas. Quem pagava propina não tinha certeza se o acordo seria honrado. Os ditos “lobistas” e outros intermediários ofereciam resolver situações, aceitavam de bom grado o dinheiro e nem sempre entregavam o serviço. Ou pediam mais dinheiro e, ainda assim, às vezes não davam o prometido. Pior, alguns exigiam pagamento de propina na caradura, sem nenhuma oferta em troca e sob ameaça de prejudicar o pagador. Extorsão pura.

Isso ocorria porque não havia ninguém para controlar as transações – isto é, para garantir o cumprimento das regras.

O que se percebe agora, com uma certa perspectiva, é que os esquemas revelados pela Lava Jato eram uma mistura de gula, Lei de Gerson e da mais imaculada sensação de impunidade. Quem pagava propina aceitava seu papel de vítima e otário.

Quando a Lava Jato começou, usando prisão preventiva para forçar delação premiada, com base no modelo italiano da Operação Mãos Limpas, a atividade de dedurar virou bola de neve, superando todas as expectativas dos promotores. Trata-se apenas do antigo jogo do dilema do prisioneiro. Nele, dois presos são postos em celas separadas. Se os dois ficam quietos, ambos se salvam. O objetivo dos captores é convencer ao menos um deles de que seu colega abriu a boca. Se ele acredita nisso, tem de falar também para se salvar ou, pelo menos, mitigar sua situação.

Para usar uma dessas metáforas de filme de máfia, no caso da Lava Jato a delação corre solta porque não há uma equipe de gângsteres durões para passar simples mensagem: cale a boca ou você ou sua família serão mortos. Claro, isso é apenas metafórico – mas, como se viu, a existência de algum tipo de controle pela ameaça é condição sine qua non para configurar a organização criminosa.

Chamar de “crime organizado” os esquemas de falcatruas que envolveram Petrobrás, políticos, empreiteiras, agências de publicidade e outros atores, portanto, chega a ser quase ofensivo a “instituições” como a Máfia, esta, sim, organizada.

Talvez o modelo criminoso mais próximo do que ocorreu no Brasil seja o das gangues, nas quais o vale-tudo impera. Ou, caso se queira ficar em terminologia próxima à eleita pelos procuradores federais, bem cabe a expressão “desorganização criminosa”.

Seja qual for a escolha das palavras, isso demonstra que a situação é ainda mais assustadora do que aquela que seria traduzida por uma “organização”. Nesta, ao menos, há regras, ou seja, algum tipo de limite. No vale-tudo, não.

Chamar de organização o vale-tudo do petrolão é ofender ‘instituições’ como a Máfia siciliana.

PT sofreu derrota na urna, mas introduziu Zeitgeist que segue

"Zeitgeist", palavra alemã que, ao contrário do que reza a lenda, Hegel nunca usou, significa o "espírito do tempo" — isto é, as ideias prevalecentes numa época e numa sociedade. Hoje, no Brasil, o zeitgeist pode ser desvendado a partir de três indicadores circunstanciais, entre tantos outros: a Bienal de Arte de São Paulo, o cancelamento da prova específica para ingresso na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) e o movimento que contesta o ensino da norma culta da língua.

"Faltou arte, que é onde realmente nossas certezas são postas em xeque", diagnostica o crítico Rodrigo Naves, depois de um passeio pelas instalações da Bienal, para completar, certeiro: "ideologias são tigres de papel". Numa avaliação paralela, Ferreira Gullar contrasta a "arte de verdade" com a "arte efêmera" montada pelos artistas de uma exposição dedicada, segundo seu curador, a "questões contemporâneas" como a "ecologia", o "multiculturalismo", o "feminismo" e a "descolonização".

A arte engajada, panfletária, conduzida por "novos Timoneiros, os curadores" (Naves) recicla, quase um século depois, o Proletkult soviético, que dissolveu-se na sopa totalitária do realismo socialista. Os artistas-pedagogos contemporâneos almejam, como seus predecessores, indicar o caminho certo ao povo. A diferença é que eles não contam com o amparo do poder de um Estado profético, mas apenas com a leniência intelectual, a preguiça de pensar, das instituições organizadoras.

O zeitgeist manifestou-se também na FAU-USP. Rotulada como "elitista", a prova de Linguagem Arquitetônica não será aplicada no exame de ingresso em 2017. A professora Raquel Rolnik defendeu a suspensão sob o argumento da "necessidade de democratizar o acesso à faculdade, promovendo ações afirmativas para grupos historicamente marginalizados", enquanto seu colega Renato Cymbalista avançou uma justificativa mais ampla: "Nós formamos um 'arquiteto humanista', que pode atuar em diversos campos: na crítica, na teoria, na curadoria, no ativismo e também nas políticas públicas".

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A palavra chave é "ativismo". No desenho, pelo traço, o arquiteto antecipa sua intervenção, testando hipóteses e descortinando possibilidades. Os "antielitistas" querem substituir o traço pelo discurso. Poderiam propor que a FAU, como instituição, seguisse o exemplo de alguns de seus alunos, que criaram o CursinhoLA, um curso gratuito para a prova específica destinado a candidatos de baixa renda. Mas, sem surpresa, preferem imolar o conhecimento, a técnica, no altar do seu "tigre de papel".

A "visão paternalista do povo brasileiro" (Naves, sobre a Bienal) manifesta-se, há anos, na guerrilha contra o ensino prescritivo da língua portuguesa. Tomando como pretexto a crítica moderna, tão necessária, ao ensino tradicional de gramática, os guerrilheiros acusam as escolas e (claro!) a "mídia" de usarem a norma culta escrita como instrumento de "discriminação" e "controle social". Dessa plataforma, suas franjas mais demagógicas propõem a eliminação escolar dos parâmetros unificadores da língua escrita.

Na versão inicial das bases curriculares nacionais, ao lado da abolição da "história ocidental", os demagogos da língua praticamente aboliram a gramática. Assim, escondidos no óbvio, que é o reconhecimento da diversidade no uso da língua, delineiam um programa de oficialização do "apartheid linguístico", condenando os alunos das escolas públicas à incapacidade de apreender o sentido dos textos impressos nos jornais e de apreciar a herança literária portuguesa e brasileira.

"Quando Lula fala, tudo se ilumina", exclamou certa vez Marilena Chaui, formulando uma tese filosófica que, por motivos mais práticos, ganharia a adesão de Marcelo Odebrecht. O PT sofreu uma avassaladora derrota nas urnas, mas o zeitgeist que introduziu segue entre nós.

A África para os brasileiros

Por longos e tristes anos, empresários brasileiros mantiveram lucrativos negócios na África, que só cessaram com o fim da escravidão. Passam-se os tempos e os bons negócios voltam - para alguns brasileiros, para alguns africanos. Até um bom dinheirinho na conta de Eduardo Cunha, lembra-se? foi atribuído à venda de carne moída brasileira, enlatada, para a África.

O Quadrilhão, por enquanto o principal processo da Lava Jato, que envolve Lula, o sobrinho de sua primeira esposa, e a Odebrecht, tem tudo a ver com a África - exceto o dinheiro, que passa por lá e volta para os bolsos já preparados para recebê-lo (e distribuí-lo). A Exergia, empresa energética do sobrinho, foi criada, segundo a Polícia Federal, apenas para receber e destinar corretamente os pixulecos da Odebrecht. O sobrinho tinha metade de uma empresa de fechamento de varandas. Criou a Exergia, que firmou 16 contratos com a Odebrecht, financiados pelo BNDES. E sua vida mudou: viagens, jatinhos, gastos exuberantes, contatos com estadistas.

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Um desses estadistas é o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Seu país é rico, tem petróleo e diamantes; seu povo é pobre, vivendo com cerca de R$ 7 por dia; sua filha é a mulher mais rica da África. E deste relacionamento, diz a investigação, R$ 31 milhões sobram para o sobrinho do homem. Acompanhe o julgamento do Quadrilhão, que pode levar à prisão um ex-presidente e líder popular. Mas tem muito mais.

Os diamantes, pedras pequenas e valiosas, fáceis de esconder, sempre foram as favoritas de quem quer contrabandear dinheiro. E consta que Angola, ainda bem relacionada com Portugal, seu ex-colonizador, e com países como Cuba, faz parte do ciclo de movimentação de valores. Se depósitos bancários são monitorados e arrestados, dinheiro embutido em financiamentos internacionais circula com muito mais segurança e garantia.

O Banco Espírito Santo baseou suas operações no triângulo África, Brasil, Espanha; mas cometeu uma série de irregularidades graves. Na mesma época, uma senhora que costumava viajar no avião presidencial brasileiro sem constar na lista de passageiros foi várias vezes à África, e daí a Portugal. Rumores, até hoje não comprovados, citavam a entrega de pacotes e caixotes, talvez lembranças, a funcionários do banco.

E dizia-se que qualquer problema no Espírito Santo se refletiria no pai e no filho.

Todas as histórias estão narradas no relatório da CPI do BNDES. Veja tudinho em "Como Lula operou na África", de Cláudio Tognolli, É grande, mas fascinante. Compensa ler.

Não faz nexo

A passagem do tempo e as desgraças comprovadas que jorram quase todo santo dia das investigações de corrupção feitas pela Polícia Federal na Operação Lava Jato estão transformando o ex-presidente Lula numa figura cada vez mais absurda. Já se sabe, há pelo menos uns dois anos, que ele está ficando menor a cada escândalo que estoura na sua vizinhança imediata. Também se sabe que sua idade aumenta, como a de todo mundo, mas sua biografia diminui. O que ele apresenta como “obra” vai caindo no esquecimento; o que se lembra, mais e mais, são histórias que parecem compor um prontuário policial. Lula tornou-se o presidente que mais recebeu dinheiro de empreiteiras de obras públicas na história deste país. Enfim, e na frente de todo mundo, vai sumindo velozmente o que ele parece ser — e vai aparecendo o que ele de fato é.

auto_nicolieloNas últimas semanas, como numa vertigem, o ex-presidente se viu denunciado e tornou-se réu sob a acusação de ter praticado crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Os dois ministros da Fazenda que teve em seus oito anos de governo foram presos, também por suspeitas de assaltar o Erário. Está na cadeia há mais de um ano o maior empreiteiro de obras públicas do Brasil, com quem ele mantinha relações íntimas. Foram ou estão presos três tesoureiros do PT, um amigo pessoal que tinha, oficialmente, livre trânsito no Palácio do Planalto e altos diretores da Petrobras, com quem despachava diretamente. Sua mulher tornou-se ré junto com ele. Seus filhos estão sob investigação criminal. Sua própria liberdade física, enfim, depende da sentença de um juiz de direito do Estado do Paraná. É um desastre — e no meio dele Lula pretende convencer o Brasil e o mundo de que é um herói. Está conseguindo ser apenas incompreensível.

Como seria possível compreender alguma coisa, realmente, no meio de tudo o que Lula anda dizendo? O ex-­presidente insiste em exigir que as pessoas acreditem na seguinte enormidade: que, com todas as denúncias, prisões, confissões, condenações, provas e fatos apresentados acima, ele não tem culpa por nada, absolutamente nada, do que aconteceu em matéria de corrupção no Brasil ao longo dos últimos treze anos. Para ficar só na Lava Jato e no quintal da Petrobras, e só nos primeiros dois anos da operação, completados em março, já houve mais de sessenta acordos que resultaram em confissão de crimes, mais de 100 sentenças de condenação, mais de 1 000 anos somados de penas de prisão e quase 3 bilhões de reais de dinheiro roubado que foram recuperados para os cofres públicos; os procuradores da República pedem que seja devolvido um total superior a 20 bilhões de reais.

Lula não diz uma palavra sobre esses números — repete, o tempo todo, que é o homem “mais inocente” do Brasil. Da mesma forma, não admite a mínima responsabilidade pela destruição da Petrobras durante o seu governo, e durante o da sua sucessora. Que lógica pode haver nisso aí?

A verdade, em toda essa cordilheira de misérias, é que Lula vem com a moral antes de contar a fábula. A moral que ele apresenta é algo mais ou menos assim: “No Brasil, um homem que quer governar para os pobres, como o Lula, acaba sendo processado na Justiça”. E a fábula que levaria a essa moral? Ele não conta; ninguém conta. Tudo o que o ex-presidente e seus admiradores têm é uma teoria. Segundo ela, os ricos brasileiros detestam os pobres, por alguma tara patológica; não toleram, sequer, que viajem de avião. Como Lula governa só fazendo o bem para os pobres, a começar pelas viagens de avião, os ricos precisam destruir a sua carreira política. Primeiro derrubaram sua sucessora na Presidência, para que ficasse desmoralizado, e agora querem que ele seja condenado e preso, para que não possa disputar e ganhar as eleições de 2018. Como chamar de “defesa” uma salada dessas? Lula quer ser reconhecido como o campeão dos pobres quando ninguém, em seus dois governos, ganhou como os milionários — sobretudo os odiados “rentistas”, que tanto amam a dívida pública criada por seu “projeto social”. Ameaça jogar o povo contra quem não concorda com ele — e na última manifestação de rua a que compareceu havia menos de 500 pessoas. Apresenta-se como uma força eleitoral invencível — e na mais importante das eleições municipais, a de São Paulo, vê o candidato que escolheu como seu pior inimigo pular do último para o primeiro lugar nas pesquisas em apenas trinta dias. Diz que até ele chegar à Presidência, em 2003, o Brasil vivia no século XVIII — e por aí vamos.

Lula deixou de fazer nexo.

Alegria no domingo


Gene Kelly, filme "It's Always Fair Weather" (1955)

Sugestão de nome para a presidência do PT

Ninguém deveria se meter na vida do PT — ou na morte, considerando-se o comportamento suicida da legenda. O petismo não lida muito bem com avisos. Mal conduzida, uma tentativa de chamar a atenção do partido pode agravar a situação, reforçando seus impulsos autodestrutivos. Mas já que nenhum petista parece disposto a ajudar, o repórter oferecerá uma sugestão de nome para ocupar a presidência do PT, no lugar de Rui Falcão, o ruinoso.

Eis o melhor nome: Luiz Inácio Lula da Silva. Aquele líder sindical da década de 80, estalando de pureza moral, respeitado até pelos adversários, poupado pela imprensa. Esse Lula com cheiro de ABC paulista seria uma referência em meio à falência da política tradicional. Impossível imaginá-lo fechando acordos com Sarneys e Renans ou desfrutando de confortos pouco assépticos, fora dos limites do contracheque.


O grande problema do PT será descobrir o paradeiro de Lula. Como se sabe, o personagem desapareceu misteriosamente nos idos de 2003. Seu sumiço interrompeu uma carreira política promissora. Nunca mais foi visto. Mas não custa procurar. Se ficar comprovado que o Lula da década de 80 morreu, como parece provável, ainda restará pelo menos uma alternativa para o PT. Chama-se Olívio Dutra.

Como Lula, Olívio é fundador do PT. Cultiva os mesmos valores. Com uma diferença: jamais desapareceu. Ao contrário, reaparece nos momentos mais incômodos. Como no domingo passado, dia em que o eleitor rosnou para o PT.

Ao comentar a situação da legenda numa entrevista radiofônica, Olívio declarou coisas assim: ''Não adianta dizer que a culpa é do Judiciário, do adversário, da grande mídia. Existem erros graves pelos quais as pessoas estão sendo julgadas e algumas até presas.''

Olívio tachou de “legítima, consciente e necessária” a reação do eleitorado. ''O PT tem de levar uma lambada forte mesmo porque errou, e errou seriamente.'' Não cogita deixar o partido. Enxerga espaço para “retomar o caminho certo.” Como? ''Evidente que tem de ter conteúdo e prática muito diferentes desses conteúdos e práticas dos discursos dessa maioria que está dirigindo o partido.''

Tomado pelas palavras, Olívio lembra muito aquele Lula dos idos de 80. Distribuindo lambadas, poderia se converter num bom recomeço.

Desobediência cidadã

Pelo que se viu nas análises sobre o resultado das eleições municipais, ficaram todos muito impressionados com o índice de abstenção. Na verdade, quase igual ao registrado em 2012. Na época foi pouco mais de 16% e agora pouco menos de 18%. Isso no cômputo da votação geral do País. Vistos do ponto de vista local, porém, os números são maiores, sendo o Rio de Janeiro o campeão de ausências com algo em torno de 26%. Um quarto do eleitorado.

A julgar pelo que restou de escolha no segundo turno na cidade realmente maravilhosa, capital do Estado de fato em situação falimentar – Marcelo Crivella contra Marcelo Freixo, duas pontas extremas do espectro ideológico – o prezado leitor e a cara leitora não se iludam e preparem-se: o número de ausentes vai aumentar.

Crescerá também a quantidade dos que consideram mais fácil anular ou optar pelo voto branco do que depois ir atrás de um cartório eleitoral para pagar multa irrisória (na média, menos de R$ 3), a fim de não ficar impedidos de tirar passaporte e carteira de identidade.

Não são apenas essas as penalidades. Quem não vota não pode obter qualquer documento no caso de diplomatas e funcionários do Itamaraty; é excluído de participar de concorrências públicas nos âmbitos federal, estadual e municipal; não pode obter empréstimos em entidades direta ou indiretamente ligadas ao governo; é vetado na renovação de matrículas em escolas do ensino oficial e da inscrição em concursos públicos ou da tomada de posse nos cargos. Os funcionários públicos não recebem salários no segundo mês subsequente à eleição e todo e qualquer cidadão está impedido de praticar ato de exija quitações do serviço militar ou do Imposto de Renda.

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Portanto, as sanções não são leves quando faz crer a vã assertiva segundo a qual o voto no Brasil na prática é facultativo. Entre outros e principal motivo em decorrência da multa irrisória. Importante que as pessoas saibam das restrições e dos aborrecimentos decorrentes da abstenção eleitoral para que não se iludam com a ideia de que na prática o voto é facultativo devido a uma penalidade sem maior significado. O Estado castiga pesado quem não vota, exercitando um direito de não ir às urnas. Coisa que na maioria ampla das democracias no mundo é garantida aos cidadãos.

Nelas, o voto é um direito. Aqui é tratado como obrigação. Imposição negada por boa parte do eleitorado que, por isso, é tratada como alienada, boboca, sem noção. Convicção compartilhada por partidos à direita e à esquerda, que na Constituinte de 1988 derrotaram a proposta do voto facultativo sob o argumento (até hoje vigente) de que o voto obrigatório seria uma garantia democrática em país de pouca educação. Por essa ótica, seria necessário esperar que o Brasil e os brasileiros tivessem um grau cultural tido como “razoável” para ter a liberdade de votar. Ou não.

O eleitor que não quer votar é alvo de preconceito. Visto como alienado, não engajado, praticamente um pária da civilidade. Isso porque se convencionou dizer que o voto obrigatório é uma garantia do exercício da cidadania. Bobagem. O cidadão exerce seus direitos na plenitude se tiver liberdade para tal. Conforme ocorre na quase totalidade das democracias de mundo, nas quais neste aspecto o Brasil é exceção.

Posta na mesa e reconhecida a jabuticaba quase que exclusivamente brasileira, resta reconhecer: o eleitor depôs, derrotou no cotidiano a obrigatoriedade do voto, numa das mais belas, contundentes e definitivas rejeições ao voto obrigatório. Só falta o universo dos políticos cair em si, abrir mão da reserva de mercado e se adequar ao mundo real para defender e adotar o voto facultativo já.

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A batalha contra os privilégios

O mamute – um paquiderme pré-histórico com espécies que chegavam a alcançar cinco metros de altura e a pesar até dez toneladas – é considerado um dos maiores mamíferos de todos os tempos. Para efeito de comparação, o elefante, seu parente moderno e o maior animal terrestre existente hoje, pesa, no máximo, seis toneladas e sua altura não supera quatro metros. Talvez, por isso, o Estado brasileiro – gigante, pesado e lerdo – seja frequentemente comparado a um mamute. Mesmo com sua força e seu tamanho, o elefante parece acanhado para simbolizar as proporções extraordinárias adquiridas pelo Estado no País.

O fardo estatal se faz sentir sobre os cidadãos e as empresas de forma implacável. Ele se expressa nos impostos de Primeiro Mundo que os brasileiros têm de pagar, em troca de serviços de Terceiro Mundo, na burocracia que emperra o cotidiano das famílias e o desenvolvimento dos negócios e na corrupção endêmica, que cria dificuldades para vender facilidades. Mas, hoje, talvez, nada simbolize tanto o peso que a sociedade tem de carregar para manter o mamute em pé quanto o funcionalismo e seus privilégios.

Nos últimos anos, impulsionado pelo estatismo pregado nos governos Lula e Dilma, com impacto em todo o País, o número de funcionários públicos deu um salto. Segundo uma pesquisa realizada pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-DAPP), o total de funcionários na ativa passou de 5,8 milhões, em 2001, para quase 9 milhões, em 2014, nos três níveis de governo (federal, estadual e municipal) e nos três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), – um aumento de 54,4%. Isso sem contar os funcionários terceirizados, principalmente nas áreas de limpeza, segurança e manutenção predial, que somam cerca de 18 mil só no governo federal. O maior crescimento do efetivo, de 94%, aconteceu nos municípios, em parte pelas novas atribuições recebidas com a Constituição de 1988, para criar e manter serviços públicos de alcance local. No Executivo federal, embora o crescimento tenha sido um pouco menor – cerca de 30%, – foram contratados 120 mil novos servidores no período, mais que o dobro do total de trabalhadores do Bradesco, um dos maiores bancos do País.

Também contribuiu para o aumento do número de funcionários a criação de novos Estados e municípios após a promulgação da Constituição de 1988. Desde então, o número de municípios cresceu cerca de 40%, de 3.900 para 5.570. Isso levou ao aumento das representações nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional, ao aumento das bases do Judiciário e à criação de estruturas administrativas para dar suporte aos novos entes federativos. “O povo, para sustentar as novas estruturas, continuou o mesmo”, diz o jurista Ives Gandra da Silva Martins, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra.

Com o tsunami de contratações, era inevitável que os gastos com pessoal crescessem em progressão geométrica. Mas eles aumentaram em ritmo ainda mais acelerado que ao das contratações, em decorrência da concessão de aumentos salariais bem acima da inflação para o funcionalismo. O “rombo” existente hoje nos orçamentos do governo federal e de vários Estados e municípios é decorrente, em boa medida, do inchaço da folha de pagamento nesse período. Desde 2001, as despesas com pessoal tiveram um aumento de 127,3%. Passaram de R$ 171,6 bilhões para R$ 390,2 bilhões em 2014, em valores já corrigidos pela inflação. A diferença daria para o governo federal pagar o Bolsa Família, concedido a 13 milhões de beneficiários, de acordo com dados oficiais, por sete anos. A conta das benesses, como sempre, sobrou para os pagadores de impostos. O gasto per capita dos brasileiros para pagar os salários do funcionalismo quase dobrou em 14 anos, de R$ 976 para R$ 1.925, em valores de 2014, também considerando os três níveis de governo e os três Poderes. “A despesa de pessoal do governo é muito grande e tem muita importância na composição de gastos do governo”, afirma o professor Nelson Marconi, coordenador executivo do Fórum de Economia na FGV de São Paulo e um dos responsáveis pela reforma administrativa realizada no governo Fernando Henrique. “O ajuste fiscal tem de passar pela questão de pessoal.”

Enquanto no setor público os salários subiram, em média, cerca de 50% nos três níveis de governo desde 2001, na iniciativa privada o aumento médio ficou em 21,4%, já descontada a inflação do período. O aumento real do funcionalismo, na média, foi mais que o dobro do obtido no setor privado. Essa diferença só encontra paralelo em Portugal, onde alcança 58%, segundo um levantamento feito pelo economista Marcos Köhler, consultor legislativo do Senado. Na Alemanha, os salários do funcionalismo são, em média, 7% menores que no setor privado. Na França, 8%. Mesmo em países em que os salários do setor público são maiores, como Espanha, Grécia e Itália, a diferença fica em torno de 30%, bem aquém do que acontece no Brasil (e em Portugal). “Havia uma grande influência sindical no governo”, diz Köhler. “Isso contribuiu para a obtenção de acordos salariais muito favoráveis pelo funcionalismo no nível federal, que acabaram influenciando o setor público como um todo.”

Obviamente, a média salarial do funcionalismo esconde os casos extremos, tanto na base como no topo da pirâmide. Mas, nos últimos anos, os salários iniciais das diferentes carreiras da administração, em especial na esfera federal, receberam aumentos reais generosos, distanciando-os também dos valores pagos no setor privado. Enquadram-se nessa categoria os motoristas da Câmara Federal, que ganham mais de R$ 12 mil e os garçons do Senado, com salário superior a R$ 17 mil, o menor para servidores efetivos, sem escolaridade, mas com comprovação de “capacidade técnica” para a função. É no andar de cima, porém, que se encontram os casos mais escandalosos, particularmente no Poder Judiciário, onde os valores dos benefícios recebidos “por fora” superam, muitas vezes, os valores dos salários ou chegam bem perto deles, engordando os vencimentos. São tantos os subterfúgios que, em muitos casos, o teto constitucional – que limita os salários do setor público federal aos vencimentos recebidos pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) aos dos governadores nos estados e aos dos prefeitos nos municípios – tornou-se uma peça de ficção.

Mesmo com salários bem acima da média do mercado, custeados pelos contribuintes, o apetite do funcionalismo parece não ter fim. No momento em que o Brasil real enfrenta a recessão interminável, o desemprego recorde e a queda na renda, os servidores federais, protegidos pela estabilidade no emprego e com a aposentadoria garantida com o mesmo salário da ativa, lotam as galerias do Congresso Nacional para reivindicar, sem constrangimento, a aprovação de aumentos reais de salário e a preservação de suas vantagens. “Alguém teria de dizer para eles que nós estamos numa crise fiscal muito grande e que o que estão pedindo não tem nexo com o mundo real”, afirma Marconi.

Ao mesmo tempo, as greves e ameaças de greves em serviços essenciais, como saúde e segurança, sem desconto dos dias parados e sem risco de represálias, tornaram-se uma realidade que afeta de forma dramática o dia a dia da população, em especial nas faixas de menor renda, que dependem quase exclusivamente dos serviços públicos. “No Brasil, há uma classe que se aproveita de todo o setor privado e manda no País”, diz o economista Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura. “O Brasil é vítima do corporativismo estatal que se apropriou de Brasília.” Segundo o advogado Almir Pazzianotto, o ex-ministro do Trabalho e ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), é difícil enfrentar os interesses do funcionalismo, porque os servidores têm intimidade com os deputados, senadores e estão dentro do Congresso, das Assembleias Legislativas e das Câmaras Municipais, que deveriam ser os responsáveis pela aprovação de medidas para restringir os privilégios. “A corporação não está pensando no bem comum, mas em seus próprios benefícios”, diz Pazzianotto. “Nós trouxemos a ideia do corporativismo do fascismo. É uma coisa um pouco medieval também, das velhas corporações de ofício, que se organizavam para proteger as atividades profissionais de seus integrantes”.

Embora o espírito de corpo predomine no funcionalismo, nem todos rezam por essa cartilha, Muitos servidores públicos fazem jus ao título. Trabalham duro para servir à população e se preocupam em efetuar suas tarefas com dedicação e eficiência, muitas vezes sob os olhares enviesados dos colegas. As generalizações quase sempre acabam promovendo injustiças. Feita a ressalva, porém, não dá para negar o que qualquer brasileiro que já entrou numa repartição pública pode observar. Em geral, há um contingente razoável de funcionários que, escudados pela estabilidade, fazem o que se costuma chamar em português claro de “enrolação”. Nos cargos de livre nomeação, que somam cerca de 21 mil, conforme os dados oficiais mais recentes, boa parte dos interessados, de acordo com Pazzianotto, já se aproxima dos políticos mal-intencionada, para obter um privilégio, e não para se tornar um servidor exemplar. “O princípio do privilégio é o não comparecimento ao trabalho, não ter a obrigação de cumprir horário”, diz. “Você sempre tem aquele funcionário faltoso, acumula falta, sempre tem atestado médico e você sabe que ele é apenas um ocioso, não quer trabalhar.”

Pazzianotto afirma que, ao assumir a presidência do TST, encontrou em seu gabinete mais de 200 funcionários comissionados, quando precisava de apenas 20. “Eu tinha até funcionário da presidência em Nova York. O marido foi para lá e a mulher foi atrás, devidamente autorizada.” Ele conta que, na ocasião, chamou um funcionário do TST, que já conhecia, para uma conversa. “Eu disse: ‘Escuta fulano, em todos esses anos que estou aqui, vejo você namorando pelos corredores o dia inteiro, está sempre encostado com uma funcionária, não necessariamente a mesma. Comigo você não vai fazer isso. Você vai ter de trabalhar.”

Embora haja muitas áreas com excesso de pessoal, há outras em que falta gente. De acordo com Nelson Marconi, na área administrativa, é comum haver uma quantidade grande de servidores, com baixa produtividade, porque não há tanta cobrança como na iniciativa privada. “De forma geral, daria para cortar fácil, fácil, pelo menos 10% do pessoal”, diz Nelson Marconi. “Na esfera administrativa, poderia ter um corte até maior, de uns 20%.” Por ora, porém, parece pouco provável que, no atual cenário político e econômico, o presidente Michel Temer esteja disposto a abrir mais essa frente de batalha.

Da minha mesa de trabalho

Passagem do tempo. Quando os bebês nascem é comum os pais saberem o progresso de seus filhos. Engatinham com tantos meses, falam com outros tantos. Sabemos tudo. Quando anda, quando nasce o primeiro dente.

O mesmo não acontece com o envelhecimento. Cada qual envelhece de maneira própria. Uns são grisalhos aos trinta anos, outros só aos sessenta. Engordamos. Rugas se aninham nos olhos. Hormônios desaparecem. Juntas sofrem. Tudo isso em diferentes idades e de maneiras diversas. Somos o resultado das nossas escolhas pregressas, da genética e do acaso.

Estou num momento em que tenho amigas da mesma idade que eu, amigas vinte anos mais velhas e amigas tão jovens que poderiam ser minhas filhas.

Dizem que envelhecer está na cabeça. Não é bem verdade. O corpo envelhece. Há dores. Perde-se audição, visão, um tanto de mobilidade, mesmo para aqueles mais devotos à vida saudável, restrições abundam.. É uma batalha constante o mero sobreviver.

John Holcroft

Envelhecer se reflete também nas atitudes. Hoje temos inúmeras melhorias no envelhecer e desafios incalculáveis. Eletrônicos, internet, ferramentas e aplicativos exigem destreza nas mãos artríticas e são uma barreira entre aqueles que se habilitam e os que resistem a inovações.

Recentemente ajudei uma amiga a instalar alguns aplicativos no seu celular. Ela, já na oitava década de vida, saiu da comunicação por papel à comunicação por celular sem passar pelo email. Nunca dominou a arte de receber e passar emails. Ela não está sozinha. Há ainda muita resistência aos “novos métodos”. A divulgação constante de fraudes na internet não ajuda a quem já fragilizado pela idade, se sente um pária no mundo informatizado. Vulnerável.

A resistência às inovações aumenta a percepção do envelhecimento. Todos nós preferimos o que conhecemos. Mudar requer esforço. Tenho visto muita resistência à entrada nas redes sociais pelas amigas mais idosas. Pena. Perdem a oportunidade de se conectar com netos, sobrinhos, amigos distantes e de fazer novos conhecidos. Já vivem uma vida de grande reclusão, este seria um bom paliativo para o distanciamento. Vejo também resistência ao livro eletrônico. No entanto, ele é de grande ajuda para quem já não enxerga tão bem e para quem não pode levantar muito peso na mão artrítica. Não só o livro ficaria mais fácil de segurar, como o preço reduzido ajudaria no bolso cada vez mais vazio do aposentado.

Produtos eletrônicos poderiam servir melhor a todos, com botões de fácil manejo para dedos imprecisos e explicações claras, beabá, porque nem todos têm um adolescente na família que possa ou queira dar instruções a seus familiares.

Não está fácil essa adaptação ao mundo virtual, para os mais velhos ou para quem resiste a mudanças. Mas assim como temos que nos exercitar e comer equilibradamente, também temos que nos manter em dia com as inovações. Não adianta resistir. O mundo muda, sempre, a toda hora. Mesmo que seja incômodo, temos que ir junto. Seria uma maneira do envelhecimento se tornar um pouco menos restritivo.

Ladyce West

Rodriguiana

Gorongosa, Africa.:
Numa terra de deprimidos, o alegre devia ser carregado na bandeja como um leitão assado
Nelson Rodrigues