segunda-feira, 27 de abril de 2015

Corrupção


O regime político da pós-democracia latino-americana
O termo está nas manchetes dos jornais. Descreve a vasta maioria dos governos latino-americanos. Sem dúvida, o vírus em questão não é exclusivo desta parte do mundo, mas a variedade endêmica pareceria ser resistente e estar em fase de propagação. É matéria de epidemiologia, e também acontece na saúde pública: os governos que negam a existência do mal, ao mesmo tempo, se apresentam como os campeões da luta contra ele; neste caso, a tão maldita corrupção.

O problema não são apenas as atividades criminosas, que não são escassas, mas também a reprodução de condutas que nem sequer são consideradas ilegítimas, muito menos delitos. É que, além de afetar o uso dos recursos públicos, esta epidemia modificou o marco cognitivo da elite política latino-americana. Não entendem, por exemplo, a noção de conflito de interesse, tanto quanto a de tráfico de influências. A corrupção se naturalizou, e a linha que separa a legalidade da ilegalidade tornou-se flexível e porosa. Aqueles que ocupam as alturas do poder se eximiram da terrenal obrigação de render contas, de responder pelos atos de seu governo. Com o contágio se generalizou a impunidade.

Na Venezuela, as contas de funcionários em bancos da Suíça e de Andorra, e as cifras delas, são lendárias. Representam vários pontos do produto interno bruto. Qualquer denúncia a respeito é traduzida pelo aparato oficial de propaganda como uma conspiração desestabilizadora. Nesse sentido, têm razão: a informação pública sobre corrupção às vezes pode gerar instabilidade política.


Os governos que negam a existência do mal, ao mesmo tempo, se apresentam como os campeões da luta contra ele; neste caso, a tão maldita corrupção

Na Argentina, o oficialismo e seus testa-de-ferros acumulam dezenas de denúncias por contas sem justificativas, lavagem de dinheiro e negócios ilegais diversos. O rechaço do governo a essas acusações é sistemático, como também, todos os anos, ao aumento patrimonial que é visto nas próprias declarações de impostos de seus mais altos funcionários. A dissonância legal é produto da dissonância cognitiva, precisamente, a derivada do fato de que todos eles se enriqueceram sendo funcionários públicos. Difícil explicar, mas nenhum deles fica envergonhado.

No México, o governo castigou por corrupção a mais de cem funcionários nos últimos dois anos com multas de mais de 22 milhões de dólares. Apesar de benigna a pena, multa em vez de prisão, ninguém pagou um dólar. Isso sublinha um problema mais de fundo. É difícil que um governo corrupto imponha sanções por corrupção e que as mesmas sejam cumpridas. O presidente combate a corrupção em seu discurso enquanto sua esposa e seu Secretário de Fazenda tentam explicar a compra de suas casas de um empreiteiro favorecido pelo governo, que também lhes concedeu a hipoteca.

No Brasil, o caso Petrobras revela a profundidade da corrupção dentro do aparato do Estado e do partido do governo. A informação fala de perda de 2 bilhões de dólares só por corrupção e descreve um sistema institucionalizado de dinheiro ilícito, criado para terminar nas arcas do PT. O círculo completo, esse dinheiro era usado para financiar campanhas eleitorais e comprar votos de deputados no Congresso, o caso Mensalão. Assim se construiu uma organizada máquina financeira para a perpetuação no poder.

Até o Chile, cuja elite política achava que estava imune da corrupção e outras doenças tropicais da região, parece ter sido contagiada. Ao financiamento irregular dos partidos e seus dirigentes, deve-se agregar o escândalo que envolveu a nora da própria presidenta. Sua relação com a então presidenta eleita permitiu que tivesse acesso a informações privilegiadas sobre iminentes mudanças na regulamentação do uso do solo e a um crédito bancário para uma empresa sem trajetória nem garantias. O negócio especulativo de compra-venda de terras teve um lucro de mais de 3 milhões de dólares. Em sua primeira reação, Bachelet cometeu o erro de considerar um negócio entre privados, o que afetou severamente seu índice de aprovação.

Curiosamente, na academia, uma primeira geração de estudos minimizava o problema da corrupção, considerando-a um mecanismo benigno que servia para modernizar a burocracia, uma tarefa essencial de construção estatal sempre inconclusa no mundo em desenvolvimento. Uma segunda geração, no entanto, destacou as perdas de eficiência em sociedades com alta corrupção, postergando o desenvolvimento econômico e social, e criando, além disso, no longo prazo, uma dinâmica especialmente tóxica para o capital social e a credibilidade das instituições democráticas.

A América Latina se encontra neste último cenário, mas também precisa de uma terceira geração de estudos. Ela deverá dar conta da constituição de um novo tipo de regime político, no qual a corrupção é, justamente, o componente central da dominação. Em países onde os partidos políticos se debilitaram e se fragmentaram, além de ter perdido a confiança da sociedade, estão sendo substituídos pela corrupção. A corrupção cumpre as funções básicas da política: selecionar dirigentes, organizar a concorrência eleitoral e exercer a representação – e o controle essencial – territorial. Esta é a nova forma da política na pós-democracia.

Claro que este novo regime é de partido único, já que se baseia na perpetuação. Isso não é por ideologia, mas por sobrevivência. Fora do poder, os riscos são muito altos para os líderes do partido da corrupção. Até agora, os recursos e a retórica funcionaram e continuam no poder, mas isso não será eterno. Então, o grande desafio da América Latina será tirar a corrupção da política para poder reconstruir a democracia.

Héctor E. Schamis

domingo, 26 de abril de 2015

A implacável lógica da mentira


Maioria dos que contestam o PT não é ‘direitista’. São brasileiros que querem que instituições funcionem, em particular a Justiça

A mentira tem uma lógica implacável. Só é possível mantê-la graças a mais mentiras. Essas mentiras a mais vão exigir, para que não sejam descobertas, uma cadeia de novas mentiras. A mentira é um poço sem fundo. Com o tempo, ela invade tudo e passa a alimentar-se a si mesma.

Para o mentiroso, o hábito da mentira acaba por transformá-la na sua verdade. Ele se sente injustiçado quando o acusam de mentir. O impostor que se apresenta como herói sofre quando lhe dizem que ele não é senão um impostor.

Foi essa logica diabólica que enredou o Partido dos Trabalhadores desde que suas lideranças começaram a mentir.

Seus militantes negam as acusações de corrupção sabendo que elas são verdadeiras. Confrontados a provas irrefutáveis, alegam estar a serviço de uma causa nobre — são os únicos que estão verdadeiramente do lado dos pobres — o que, na linha dos fins que justificam os meios, os absolveria. Argumento tragicômico. A causa dos pobres é a primeira vítima dos desvios de dinheiro público.

Protegem-se das críticas repetindo a arenga da “esquerda” contra a “direita”. E a “direita” amalgamaria todos que não compram a versão dos heróis ofendidos.

Que esquerda é essa que o PT estaria encarnando? O que o partido fundado por grandes brasileiros, como Mario Pedrosa e Paulo Freire, fez de si mesmo, seu colapso ético que desrespeitou um passado honroso e o comprometeu com uma corrupção sistêmica, não lhe autoriza a invocar o monopólio da preocupação com os mais pobres e do projeto de assegurar a todos os meios de sua dignidade.

Somos muitos no Brasil os herdeiros de um princípio de solidariedade e de igualdade, que um dia definiu a esquerda. Somos muitos, ancorados em uma consciência democrática, a honrar essa herança sem renunciar à inegociável liberdade.

À esquerda de quem estão os tesoureiros presidiários? O dossiê judiciário que se acumula contra seus dirigentes coloca o partido não à esquerda, porem à margem. Na marginalidade.

Que direita é essa com que nos assombram? A estratégia petista para manter seu poder tem sido promover a radicalização ideológica. Ameaçando as ruas com supostos exércitos do MST, pela provocação acordam fantasmas adormecidos, dando-lhes um protagonismo que já não têm. Esses fantasmas de uma volta ao passado servem então de espantalho e fica mais fácil dizer “quem não está conosco está com eles”. O amálgama desqualifica, por contágio, todos que se opõem aos seus desígnios.

A esmagadora maioria dos que hoje contestam o PT não é “direitista”. São brasileiros que querem que as instituições funcionem bem, em particular a Justiça. São pessoas que ganham a vida com o seu trabalho e a quem, por isso mesmo, a corrupção repugna. Que se preocupam, sim, com políticas que combatem a pobreza e pedem serviços públicos decentes que seus impostos pagam, bem sabendo que a corrupção é o buraco negro que suga os recursos do país.

Não se referem a doutrinas, nem à esquerda nem à direita, referem-se à vida real, querem um governo competente, querem liberdade de expressão para formar livremente sua opinião, querem respeito.

Cansaram da coleção de bonés contraditórios do ex-presidente Lula, da metamorfose ambulante, da farsa dos punhos fechados desses “prisioneiros políticos” de si mesmos, de seu próprio governo. Cansaram das promessas de campanha viradas pelo avesso, dos atos esquizofrênicos em defesa da Petrobras convocados pelos que quase a destruíram. Cansaram da mentira.

Os que se comportaram como donos do Estado quiseram também arvorar-se em donos da sociedade, tentando encapsulá-la nas fronteiras estreitas de movimentos sociais e organizações populares hoje a seu serviço mais do que da expressão autônoma de direitos e identidades. Inútil; a sociedade em sua diversidade é muito mais complexa e insubmissa do que organizações que se tornaram paragovernamentais.

A população brasileira não está dividida pela oposição esquerda e direita. Na nossa democracia cabem todos os atores políticos que se exprimam no marco da legalidade constitucional. O que não cabe mais é a corrupção se intitulando política. E, pior, mais cinicamente, revolucionária. O que não cabe mais é a impostura.

O dicionário “Aurélio” oferece várias definições da impostura, todas em torno da mentira, do embuste, da falsa superioridade. A última a define como o “farrapo que se prende ao anzol para engodar os peixes”. Engodar é seduzir com falsas promessas. O ex-presidente Lula está programando uma viagem pelo Brasil para falar às “bases”. E se os peixes não vierem?

Rosiska Darcy de Oliveira

Quem paga

FIES dilma aponta p diretor e culpa estudantes pelos aumentos nas faculdades

Sísifo chegará ao topo da montanha?

O Brasil vive a maior crise de sua contemporaneidade. Não se trata apenas de uma soma de crises que se imbricam nas teias da economia, da política, da água e da energia, entre outras. Trata-se, sobretudo, de uma crise moral que solapa as bases da credibilidade nas instituições e em seus atores. Daí a dúvida: quando abriremos o ciclo de moralização da vida política no país? Há um fio de esperança? A resposta é sim.


Vejamos as hipóteses. Três vertentes se apresentam como as mais prováveis na esfera das ocorrências futuras: a primeira é de que a atual crise será ultrapassada pela próxima; a segunda, ancorada na banalização, mostra o brasileiro cada vez mais descrente da política; e a terceira, regada a esperança, é capaz de acreditar ser possível uma flor nascer no pântano.

As duas primeiras vertentes são maléficas para o caráter nacional. Comparam-se à maldição de Sísifo. Expliquemos. Condenado a carregar uma pedra sobre os ombros e depositá-la no cume da monta­nha, o matreiro rei de Corinto nunca irá a conseguir o feito. O castigo que os deuses lhe deram no Hades, o mundo dos mortos, era definiti­vo: recomeçar a tarefa todos os dias por toda a eternidade.

Ora, o brasileiro sente que Sísifo está à nossa espreita. Há menos de um ano, as pessoas achavam que a situação começava a melhorar. A pedra poderia chegar ao topo da montanha; hoje, sentem que a coisa está prestes a degringolar. Sísifo, mais uma vez, fracassa. Pois esse é o Brasil do eterno retorno, a repetir o maçante exercício de ver frustradas suas expectativas.

O desalento se instala, sob a banalização de escândalos que abala a confiança social. Daí a indignação, a revolta, a mobilização das ruas, na esteira de uma reação aos desmandos e ilícitos. Críticas ácidas jorram de esquadrões da classe média, cuja repulsa aos eventos da Operação Lava Jato emerge de forma contundente na mídia.

O fio de luz no fim do túnel é a racionalidade fincando suas raízes. Expande-se a locução social com a tuba de resso­nância midiática fazendo eco. As camadas – com acesso à TV e ao rádio – vêem a lama escorrer da arquitetura política e aplaudem as prisões de figuras de alto calibre.

A flor nascerá no lamaçal. A crise que assola o Parlamento deixa os atores atordoados. A mobilização das ruas propaga um sentimento pátrio e uma reação em cadeia. Cristaliza-se a convicção de que a corrupção e a infração a valores morais hão de ser contidos pelas barreiras que a sociedade começa a construir.

Do sentimento de que está sempre vendo as mesmas coisas, o brasileiro extrai a argamassa para construir o edifício do amanhã. Nessa construção, serão plantadas as sementes de reformas fundamentais, a partir da reforma política e de um novo pacto federativo. Já não dá mais para conviver com um modelo político incompatível com uma estrutura racional de Estado e uma gestão moderna de democracia. A continuar a velha modelagem, cairemos fatalmente na ingovernabilidade, com o agravamento das tensões entre insti­tuições e insegurança social.

É possível, até, que não façamos, de imediato, uma reforma política completa. O importante, nesse momento, é tentar reformar o sistema político-eleitoral; modernizar a es­trutura do Estado, a partir de limites sobre competências entre Poderes (pacto federativo) com redefinição de atribuições entre entes; completar a legislação infraconstitucional, que mantém buracos desde 1988; melhorar a qualidade dos serviços públicos; e estancar a escalada tributária.

Acabamos de atualizar os eixos das relações do trabalho com a aprovação na Camara do PL 4330 sobre Terceirização. O Senado não pode e não deve deter esse projeto, sob pena de ser contrário à modernização do país. Precisamos seguir adiante.

Não dá mais para esticar o cordão das crises. O xeque-mate no jogo é a moldura da economia. Diques pontuais para atenuar a onda da recessão, que já dá sinais de vida, só serão eficazes se acompanhados de ajustes em outras frentes. Nunca esteve tão próxima a possibilidade de colhermos uma flor do pântano. A partir das sementes que os centros sociais espalham pelo seu terreno e que deverão chegar até os habitantes da base da pirâmide.

Há um preceito da ciência política pelo qual as grandes mudanças da História são produzidas quando os favorecidos e apa­niguados do poder não têm a capacidade para transformá-lo em for­ça, enquanto os que dispõem de pequeno poderio aproveitam essa capacidade ao máximo para convertê-la em força crescente. Esse é um fenômeno que se instala entre nós. É o que estamos presenciando. Se faltar vontade no andar de cima, sobrará revolta no andar debaixo. No jogo de xadrez, existe a possibilidade de o peão adquirir tanta força quanto o bispo.

De panelas prontas para o 1° de Maio

Diante da corrupção deslavada e de um governo que se comprovou débil, Dilma até deveria ir à telinha no 1º de Maio. Para pedir desculpas. Ainda que tardias
Temerosos de um novo panelaço, os conselheiros de plantão da presidente Dilma Rousseff não querem vê-la em rede de rádio e TV na próxima sexta-feira, 1º de Maio. A inédita ausência seria menos grave do que o desgaste da tradicional presença.

Partido gerado no útero do sindicalismo, o PT preferia não ter de comemorar a data nobre em um ano em que as lambanças de mais de uma década têm de ser corrigidas por um inevitável ajuste fiscal, com peso no bolso do trabalhador. Avalia, então, que é melhor Dilma ficar quietinha.


Foram 9m23s de oba-oba. As obras empacadas do PAC e o Pronatec, com atrasos nos pagamentos e sucessivos adiamentos no início dos cursos – de 7 de maio para 17 de junho e, em seguida, para 27 de julho –, que o digam. O crescimento também não veio.

No ano seguinte, Dilma dedicou boa parte dos 11m12s para escorraçar o lucro abusivo dos bancos privados. Anunciou a redução de taxas nos empréstimos do Banco do Brasil e da Caixa. Hoje, além da alta sucessiva dos juros, agora em 12,65%, não só os bancos estatais pararam de brincar com subsídios como reduziram o volume de crédito. No dia a dia, o cidadão comum, incluindo a tão alardeada nova classe média, está pagando 220% de juros no cheque especial e 345% no cartão de crédito. As taxas mais altas desde 1995.

No 1º de Maio de 2013, com a popularidade batendo em inacreditáveis 79% e apenas dois meses antes das jornadas de junho que a jogou nas cordas, Dilma garantiu que não haveria inflação.

Sempre cheia de si, ela se meteu onde não devia: proibiu aumento dos combustíveis e reduziu em 20% as tarifas de energia. As intervenções desastrosas resultam hoje em aumentos superiores a 40% nas contas de luz, percentual ainda insuficiente para cobrir o rombo que ela provocou, e em gasolina mais cara aqui dentro do que lá fora. Tudo isso para nada. Nos últimos 12 meses a inflação superou os 8%.

Em campanha pela reeleição, o Dia do Trabalho de 2014 serviu para Dilma defender a Petrobras, que já aparecia corroída pelo seu partido desde as primeiras investigações, e para o anúncio de aumento de 10% no benefício do Bolsa Família.

A torrente de dinheiro que jorraria do pré-sal sempre brilhou nos pronunciamentos do Dia do Trabalho. A educação e a saúde seriam salvas pelos royalties do ouro negro que a Petrobras, em modelo de produção partilhada, que substituiu o das concessões e ainda embutiu maior nacionalização no negócio, extrairia do fundo do mar.

O mesmo pré-sal que agora, admite a Petrobras, terá de ter parceiros de risco para sair das profundezas e – se tudo der certo – cobrir parte do prejuízo oficial de R$ 21,5 bilhões por má gestão, R$ 6,2 bilhões surrupiados em prol do PT e dos demais partidos da aliança governista.

Diante da corrupção deslavada e de um governo que se comprovou débil, Dilma até deveria ir à telinha no 1º de Maio. Para pedir desculpas. Ainda que tardias, poderiam reduzir o eco das panelas.

Falou. Não se desculpou


Dilma, como se espera de um poste, não fez nenhum gesto de pedir desculpas ao país. Com a cara de pau de sempre e a imaculada inocência dos culpados, acredita que o balanço da Petrobras jogou para debaixo do tapete a sujeira, o roubo, a falta de administração e principalmente o descaso com a população. Coisa de faxineira, contratada por temporada, não de presidente.

Dizer que a empresa "superou os problemas de gestão ligados à questão da Lava Jato, que ainda estivesse pesando" e agora vai lutar pela "recuperação". Aproveitou para enfiar no saco de cretinice a "reconstrução" como compromisso próprio e do seu governo. Falta de vergonha na cara explícita de quem esquenta o assento.

Logo ela que foi a toda-poderosa na empresa durante mais de uma década, a responsável pelos lucros e prejuízos, corrupção e roubos, vem agora falar em reconstrução por estar em jogo a "soberania nacional" e a "educação brasileira"? Tá de brincadeira ou menospreza a inteligência dos brasileiros para quem diz governar.

Dilma garante não apenas o título de primeira mulher a ocupar a presidência no país, mas exemplo da pior, mais desastrosa, incapaz e corrupta administração da história brasileira. Se sua imagem foi vendida como guerreira logo passou a faxineira, o que nunca no governo deixou de ser.

Tratar com falas de encomenda o desastre que foi a roubalheira na Petrobras – sem falar no que pode explodir, por exemplo, no BNDES – é se lixar para quem trabalha e paga seus impostos, acreditando em governança honesta e séria, no mínimo.

Dilma não pediu desculpas, nem pedirá, porque se acha a tal, cúmplice impune e imune, de um prejuízo que levará anos a ser pago. Sem contar os desastres sociais decorrentes de uma Petrobras quase no fundo do poço: obras paradas sem perspectiva de reinício, cidades abandonadas à própria sorte, desemprego, estagnação.

A história não negará à presidente, como a seu antecessor e criador, o verdadeiro epílogo de suas biografias: desastrados morais sob a faixa governamental.

Cuidado!


Incapazes de decidir mudar o nosso destino como nação, nos entregamos aos mosquitos e aos ratos

O fantasma no Planalto



"Dilma Rousseff está no gabinete, mas não está mais no poder". Está é a nova matéria do The Economist, que pouca repercussão na semana teve. "Menos de quatro meses depois de seu segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff permanece no cargo, mas para muitos efeitos práticos não está mais no poder. E o esquerdista Partido dos Trabalhadores nominalmente governista (PT) já não dá as ordens em Brasília".

Aponta o jornal: "É um revés extraordinário. Durante 12 anos o PT dominou a política do Brasil, graças às políticas sociais e de relacionamento com as pessoas comuns de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente em 2003-10, bem como para o crescimento inesperados de um boom de commodities que agora terminou. Dilma carece de habilidade política de Lula, e suas relações são agora mal cordial. Mas, ainda assim, a elevação dos padrões de vida eram apenas o suficiente para conquistá-la um segundo mandato em outubro passado".

A guerra do PT

O PT julga que está em guerra. É o que está escrito, com todas as letras, nas “teses” apresentadas pelas diversas facções que compõem o partido e que serão debatidas no 5.º Congresso Nacional petista, em junho.

De que guerra falam os petistas? Contra quem eles acreditam travar batalhas de vida ou morte, em plena democracia? Qual seria o terrível casus belli a invocar, posto que todos os direitos políticos estão em vigor e as instituições funcionam perfeitamente?

As respostas a essas perguntas vêm sendo dadas quase todos os dias por dirigentes do PT interessados, antes de tudo, em confundir uma opinião pública crescentemente hostil ao “jeito petista” de administrar o País. O que as “teses” belicosas do partido fazem é revelar, em termos cristalinos, o tamanho da disposição petista em não largar o osso.

“Precisamos de um partido para os tempos de guerra”, conclama a Articulação de Esquerda em sua contribuição para o congresso do partido. Pode-se argumentar que essa facção está entre as mais radicais do PT, mas o mesmo tom, inclusive com terminologia própria dos campos de batalha, é usado em todas as outras “teses”. Tida como “moderada”, a chapa majoritária O Partido que Muda o Brasil avisa que “é chegado o momento de desencadear uma contraofensiva política e ideológica que nos permita retomar a iniciativa”.

A tendência Diálogo e Ação Petista conclama os petistas a fazer a “defesa dos trabalhadores e da nação”, como se o Brasil estivesse sob ameaça de invasão, e diz que as “trincheiras” estão definidas: de um lado, a “direita reacionária”; de outro, os “oprimidos”. A chapa Mensagem ao Partido quer nada menos que “refundar o Estado brasileiro”, por meio de uma “revolução democrática” – pois o “modelo formal de democracia”, este que vigora hoje no Brasil, com plena liberdade política e de organização, “não enfrenta radicalmente as desigualdades de renda e de poder”.

Da leitura das “teses” conclui-se que o principal inimigo dos petistas é o Congresso, pois é lá que, segundo eles dizem, se aglutinam as tais forças reacionárias. O problema – convenhamos – é que o Congresso representa a Nação, o povo. Se o Congresso resiste a aceitar a agenda do PT, então a solução é uma “Constituinte soberana e exclusiva”, cuja tarefa é atropelar a vontade popular manifestada pelo voto e mudar as regras do jogo para consolidar o poder das “forças progressistas” – isto é, o próprio PT.

Uma vez tendo decidido que vivem um estado de guerra e estabelecidos quem são os inimigos, os petistas criam a justificativa para apelar a recursos de exceção – o chamado “vale-tudo”. O principal armamento do arsenal petista, como já ficou claro, é o embuste. O partido que apenas nos últimos dez anos teve dois tesoureiros presos sob acusação de corrupção, que teve importantes dirigentes condenados em razão do escândalo da compra de apoio político no Congresso e que é apontado como um dos principais beneficiários da pilhagem da Petrobrás é o mesmo que diz ter dado ao País “instrumentos inéditos” para punir corruptos. Há alguns dias, o ex-presidente Lula chegou ao cúmulo de afirmar que os brasileiros deveriam “agradecer” ao PT por “ter tirado o tapete que escondia a corrupção”.

É essa impostura que transforma criminosos em “guerreiros do povo brasileiro”, como foram tratados os mensaleiros encarcerados. Foi essa inversão moral que levou o governador petista de Minas, Fernando Pimentel, a condecorar o líder do MST, João Pedro Stédile, um notório fora da lei, com a Medalha da Inconfidência, que celebra a saga libertária de Tiradentes. A ofensiva dos petistas é também contra a memória nacional.

Ao explorar a imagem da guerra para impor sua vontade aos adversários – inclusive o povo –, o PT reafirma seu espírito totalitário. A democracia, segundo essa visão, só é válida enquanto o partido não vê seu poder ameaçado. No momento em que forças de oposição conseguem um mínimo de organização e em que a maioria dos eleitores condena seu modo de governar, então é hora de “aperfeiçoar” a democracia – senha para a substituição do regime representativo, com alternância no poder, por um sistema de governo que possa ser totalmente controlado pelo PT, agora e sempre.

sábado, 25 de abril de 2015

O PT como ele é

Definitivamente, o PT disse adeus à sanidade. Ao que tudo indica, o partido comandado por Lula concluiu de forma irrevogável que recorrer à publicações de resoluções delirantes é o bastante para justificar as falcatruas perpetradas por seus líderes desonestos e purificar o caráter tíbio de seus tesoureiros corruptos. Arrogantes por natureza, suas lideranças menosprezam as consequências de suas decisões e, através de seus lacaios, usam desse expediente para buscar impor a pauta de sua ensandecida jornada contra o regime democrático, elegendo prioridades digamos, pouco republicanas, como:
a) construção de uma frente político-social unindo o partido, os sindicatos e o MST;
b) a convocação da bolivariana constituinte exclusiva destinada a efetuar a reforma política;
c) do alto dos quase 120 milhões de reais que deverão sair dos cofres públicos para abarrotar seus cofres através de recursos repassados pelo fundo partidário, estratégica e pornograficamente triplicado recentemente por decisão da presidente Dilma Rousseff, posa de virgem purificada reforçando a pregação do desgastado discurso defendendo o financiamento público de campanha. Como afirmou o ex-ministro Joaquim Barbosa “com um repasse desses, quem precisa ser financiado por empresas?”.
d) esperto, defende o voto em lista, que na prática cassa dos brasileiros o direito de escolher seus deputados. Populista, aposta na desmoralizada arenga da luta de classes apresentando medidas penalizando aqueles que julgarem ricos. Menos seus líderes e os amigos dos seus líderes, é óbvio;
e) mobilização contra o PL 4330, das terceirizações, o que só é bom para os sindicalistas, e
f) mobilização contra as PECs 371, que trata da redução da maioridade penal e é do interesse, antes de tudo, da bandidagem e 215, que dá ao Legislativo uma participação mais efetiva na demarcação de terras indígenas, que é do agrado dos picaretas.

O desvario petista, salvo engano, retomou, com mais vigor, a temporada de ódio à democracia. Uma leitura mais minuciosa do conjunto da obra do partido estrelado ao longo desses mais de doze anos à frente da política brasileira e do tom sempre belicoso adotado por suas lideranças nos comunicados oficiais, permitem vislumbrar nas entrelinhas uma advertência sombria caso seja apeado do poder, chamando atenção para a possibilidade de uma ruptura marcada por dias de tensão, cujo desenlace poderá desembocar em grave retrocesso democrático. Estampa, ainda, nuances da fragmentação de um partido político que não suportou a grandeza democrática que jamais teve e sobrevive da ética diminuta que sempre o acompanhou. Sua trajetória conturbada fala por si.

Cansada da mesmice política que predominava no período pós-ditadura, e guardando a esperança de que algo inovador se apresentasse, a sociedade brasileira se pegou encantada com a mensagem muito bem articulada de um partido que, comandado por um ex-trabalhador, se intitulava o emissário do Brasil renovado, senhor de todas as virtudes, arauto da magnificência administrativa e cidadela indevassável da retidão. Para convencer os eleitores que a salvação do Brasil passaria inexoravelmente pelo virtuosismo petista, seus dirigentes não desperdiçaram uma única oportunidade de ocuparem os espaços generosos que a mídia lhes proporcionava. Astutos, foram preenchendo o vácuo político que se formou depois da morte do presidente Tancredo Neves entrincheirando-se na mais selvagem oposição que o Congresso já abrigou. A desestabilização a qualquer preço era o mote. E a tática mostrou-se eficaz: em janeiro de 2003, o PT chegou ao poder.

Forjada na têmpera podre da falsidade, a decantada probidade dos petistas não resistiu a mais do que dois anos à frente do governo. Os rastros deixados pelo dinheiro sujo derrubou a máscara que escondia a verdadeira face dos democratas de araque e deu visibilidade a ação devastadora da mais sórdida canalha instalada nos porões da politicalha. Visando perpetuar-se no poder, os companheiros atuaram com a desenvoltura dos cafajestes e arquitetaram um dos mais atrevidos esquemas de corrupção da história republicana cujo sucesso passava necessariamente pela compra do apoio de partidos que porventura estivessem à venda. Talvez até mesmo os próprios petistas tenham se surpreendido com disponibilidade tamanha. Estava inaugurado o mensalão.

A partir desse episódio que manchará sua história para sempre, o partido estrelado experimentou um processo célere de degeneração e o desgaste evidente serviu de justificativa para que seus dirigentes intensificassem uma campanha avassaladora que tinha como objetivo a dominação absoluta. Para atingir tal fim, os meios, liberados, encontraram na receita da promiscuidade o fermento mais indicado para fazer crescer aquela massa indigesta. Sem o menor trauma de consciência, cercaram-se de inimigos viscerais para inaugurar a forma mais abjeta de amizade, trouxeram para debaixo de suas asas parte significativa da imprensa e fizeram da miséria seu maior trunfo eleitoral. Dispostos a percorrer as últimas instâncias da inconsequência, desbravaram os caminhos da corrupção como ninguém jamais ousara.

Num repente, encantaram-se com a biografia de José Sarney e o consagraram como político respeitável. Este, por sua vez, fez do Maranhão uma extensão do palanque petista e da presidência do Senado reduto dos interesses do governo federal. Uma mão suja emporcalha a outra. Defensores intransigentes da liberdade de imprensa a favor, se dispuseram a patrocinar jornais televisivos, principalmente os de alcance nacional, e blogs na internet abrindo os cofres das estatais e dos ministérios.

Embora viesse a ser reconhecido alguns anos depois como projeto embrionário que abriria o caminho para o bilionário esquema de corrupção batizado como Petrolão, evento que feriu com gravidade e enlameou um dos principais símbolos do orgulho nacional, ainda assim o episódio do mensalão serviu para desencadear um vendaval de denúncias envolvendo o partido comandado pelo ex-presidente Lula e aqueles que formavam a base de apoio ao seu governo em um rosário interminável de falcatruas, cujo acúmulo de malfeitos resultou na queda de quase duas dezenas de ministros de Estado em menos de dez anos. Muitos deles exonerados por envolvimento em casos de corrupção. Pelo menos um, condenado e preso.

Em pouco mais de doze anos, o Partido dos Trabalhadores conseguiu transformar o propalado conjunto de políticos notáveis acima de qualquer suspeita que o mantinha em mero ajuntamento de notórios trambiqueiros, abaixo de qualquer moral, que o sustenta. O PT como ele é.

'Errando se aprende'. Aprende?

Estará o Brasil aprendendo com os próprios erros? Aprendem algo os homens públicos observando a história e os fatos do presente? Parece pouco provável. O erro costuma ser a mais perigosa e a menos produtiva forma de aprendizagem. A expressão que dá título a este artigo surge com freqüência, em forma de argumento, por exemplo, nas altercações entre pais e filhos quando estes desejam fazer algo que aqueles afirmam ser errado. A frase se esgotaria na própria insensatez, se a sensatez não fosse qualidade cada vez mais rara na vida social. Por isso, a pedagogia do erro, o "errando também se aprende" ganha dimensão de sabedoria conquistada a duras penas e justifica muita conduta imprópria.

Entendamos bem a questão. Há uma diferença fundamental entre o erro cometido por quem quer acertar e o erro praticado por quem deliberadamente busca o mal. É provável que o primeiro cumpra, sim, uma função didática, não tanto por causa do erro em si mesmo, mas devido ao anterior e posterior desejo de agir bem. Pela razão inversa, aquele que erra sabendo que vai fazer algo incorreto, dificilmente aprenderá qualquer coisa que lhe venha a ser útil porque, tendo buscado intencionalmente o mal, não está animado para uma aprendizagem adequada.


Na maior parte dos casos em que essa expressão costuma ser empregada é importante verificar se não se trata de uma artimanha, coisa de quem, na verdade, já aprendeu, mas está seduzido por algum erro tentador. “Deixem-me errar porque errando se aprende”, pedia a mocinha de certa novela. Ora, “deixem-me errar” implica o prévio reconhecimento de que se vai em direção a um erro e, portanto, quem diz isso já sabe o que é errado e o que é certo. Já aprendeu. E o mais provável é que acabe desaprendendo.

Ademais, o erro não pode ser usado indiscriminadamente como forma de aprendizado pois, como regra, existem outros métodos mais vantajosos, tais como os proporcionados pela observação, pela sadia orientação e pelos bons livros. Em outras palavras: dentre todas as formas de aprender, a pior - a que devemos relegar à posição mais remota - é aquela que o erro pode facultar, principalmente quando dele podem advir graves problemas a quem erra e/ou aos demais. Viu, dona Dilma?

No caso brasileiro, a situação se agrava. Estabeleceu-se, aqui, ativa e até agora dominante, uma pedagogia que dissemina o erro, serve o mal como bem e a mentira como verdade. Interpreta ardilosamente os fatos, muda a história e, por isso, nada aprende sequer das grandes catástrofes políticas e econômicas vividas por outros povos. É uma pedagogia maligna por excelência. Quando se depara com as consequências dos erros a que conduz, jamais faz o mea culpa. Com o ar indignado, gira o dedo indicador para qualquer direção, exceto à do próprio peito.

O Brasil dorme


A presidente Dilma Rousseff, com todo respeito que se deve ao cargo que ela ocupa, é surda, ou teimosa, ou preguiçosa, ou despolitizada, ou amarrada, ou insensível, ou tudo isso junto, porque não é possível que alguém, com as suas responsabilidades, insista nas atitudes que tem ou em não tê-las. Isso é óbvio? É e, lamentavelmente, é a realidade.

Na semana passada foi preso o tesoureiro do PT, partido do qual Dilma é (ou deveria ser) sua maior liderança. Pelo menos protocolarmente, é Dilma quem tem a maior expressão política dentro do partido, embora se saiba que o ex-presidente Lula lá dê as cartas. Mas nem por isso, nunca se soube de ambos, Dilma e Lula, o empenho em retirar de cena o tesoureiro João Vaccari Neto, que todos esperavam que fosse enjaulado a qualquer momento.

Deixaram que se chegasse a essa vergonhosa e tardia exposição, muito embora a própria Dilma já o tivesse impedido de ser o tesoureiro de sua campanha. Não à toa, mas talvez por já reconhecer em Vaccari as habilidades que a Polícia Federal e o Ministério Público, com toda certeza, identificaram e buscarão condenar.

Desde a aposentadoria do ex-ministro Joaquim Barbosa, há oito meses, que está vaga sua cadeira no STF, com flagrante prejuízo às decisões que demandam o escrutínio do pleno, isso é, que todos os ministros examinem e votem as matérias de competência do Supremo Tribunal.

Falou-se insistentemente na perspectiva de indicação pelo Planalto do nome do atual presidente nacional da OAB, Marcos Vinicius Furtado. Senadores avisaram que não passaria na aprovação da Casa nenhum nome com nítidas vinculações partidárias. Dilma, ao contrário de todas as expectativas, indicou para a vaga o jurista Luiz Edson Fachin, respeitado advogado, de inquestionável currículo, reconhecido profissional e estudioso do Direito Civil e de Direito de Família. Dependendo dos fatos políticos da semana, o Senado Federal, varejista e fisiológico como é, vai reprová-lo. Porque esse é o jogo que Dilma deixou que ganhasse corpo e força.

A operação Lava-Jato, que a inteligência do Palácio do Planalto sabia que andava a passos de ganso, não tinha como não ter sido antecedida por uma medida da Presidência, afastando da Petrobras toda a sua diretoria e os conselhos, para que se apurasse com rigor e isenção a real responsabilidade dessa corja hoje presa em Curitiba. Esse pessoal que está em cana no Paraná não é jovem aprendiz. Vários já saíram com tornozeleira eletrônica da maternidade. Não há bandido de primeiro emprego.

A própria relação com as lideranças dos partidos da base aliada, ou mesmo da oposição, os chamados “vacas sagradas” do Congresso, é de uma postura ginasial. Com o poder que tem a Presidência da República, é inaceitável que se tivesse deixado encorpar os tipos a quem o poder político hoje no país está terceirizado.

E nesse diapasão cantam todas as vozes de poder, contagiadas por essa mesma inércia. O Brasil ressente-se da falta de controle, de comando, de um projeto de autoridade. Somos um país com demandas sérias e inadiáveis. Não podemos viver do que será a operação Lava-Jato, das inúmeras CPIs que fazem de conta que investigam alguma coisa, do humor de Sarneys, Aécios, Renans Calheiros e Eduardos Cunha, dessa inércia congelante que nos impõe uma classe política que não sabe onde está parada. Não crescemos econômica e socialmente, o povo está com fome, há desemprego, inflação, favelamento, falta de políticas sérias e atualizadas de educação, segurança, saúde, habitação, financiamento da produção industrial e agrícola. A nação está perdida, sem saber para onde ir.

Corrupção... e algo mais

Problemas da petroleira brasileira vão além do desvio de dinheiro

Dando a volta por cima. A nova direção da Petrobras finalmenteapresentou as contas auditadas da petroleira, algo que não fazia desde agosto de 2014, e revelou a difícil situação da empresa, além da trama de corrupção em que está envolvida a maior empresa pública da América Latina. Mas expor os erros do passado não garante por si só um novo começo.

As contas da Petrobras revelam a existência de uma corrupção sistemática e sistêmica. Os 6,2 bilhões de reais que se declaram perdidos são apenas uma estimativa da nova diretoria, que atribui às 27 empresas que participavam da trama um desvio de 3% do valor dos contratos. Poderia ser assim ou poderia ter funcionado de forma diferente segundo as empresas, o alcance dos contratos, a duração dos mesmos... Ainda não foi esclarecido o funcionamento da rede de corrupção. O Barclays calcula que a investigação sobre a Petrobras continuará nas manchetes durante, pelo menos, os próximos “dois ou três anos”. Assim não é fácil inaugurar uma “nova etapa”, como afirmava o presidente da petroleira, Aldemir Bendine. São necessárias mais medidas.

Apesar dos anos de auge nas matérias-primas, é a empresa com a maior dívida do mundo

Apesar de importante, a corrupção não é o único problema da Petrobras. A empresa reconheceu uma deterioração do valor por 44,6 bilhões de reais, pela queda do preço do petróleo, superfaturamento em vários projetos e mau planejamento. Tudo isso a levou a fechar 2014 com perdas líquidas de quase 21,6 bilhões de reais. No ápice de sua trajetória, o valor de mercado da Petrobras chegou a rondar os 275 bilhões de euros (825 bilhões de reais). Hoje é avaliada em apenas em 53 bilhões de euros.

“Esses dados oferecem a possibilidade de a empresa e a economia brasileira começarem a recuperar certa confiança, mas não acabam com o sentimento negativo do mercado”, resume Neil Sharing, economista chefe para mercados emergentes do Capital Economics em Londres.

Apesar dos anos de glória que viveram as matérias-primas, a Petrobras é a empresa com a maior dívida do mundo, acima dos 120 bilhões de euros. Desde novembro, a petroleira não pode ir aos mercadosem busca de financiamento. Sua volta seria um sinal de confiança do mercado no futuro da companhia e na economia do país, a que está tão estreitamente ligada.

Suíte Peer Gynt, de Edvard Grieg

Saudades do Waldomiro

Da crise das empreiteiras surgiu um peculiar nacionalismo petista: é melhor ser roubado por patrícios do que pagar a estrangeiros por bons serviços

Por onde anda Waldomiro Diniz, braço-direito do Zé Dirceu na Casa Civil e o anjo anunciador do mensalão, flagrado em vídeo pedindo a Carlinhos Cachoeira propina para o PT — e 1% para ele mesmo? O flagrante está comemorando dez anos, os mensaleiros já foram julgados e condenados, mas nunca mais se ouviu falar do histórico Waldomiro. Não escreve, não telefona, não manda WhatsApp, estamos com saudades. Até seu chefe já puxou cadeia, mas ele continua livre, leve e solto. Que borogodó tem Waldomiro? O que ele sabe que não sabemos?



Saudades de Fernando Cavendish e sua pequena Delta, dos Vedoin, da máfia das ambulâncias, dos sanguessugas, desses ladrõezinhos dos tempos pré-petrolão, que disputavam trocados enquanto os profissionais armavam e operavam na Petrobras uma máquina monstruosa de corrupção e um projeto de manutenção do poder que nem canalhas megalomaníacos ousariam imaginar.

A crise das empreiteiras brasileiras fez surgir um peculiar nacionalismo petista: é melhor sermos roubados por compatriotas do que pagar a estrangeiros por serviços (bem) prestados.

Toda vez que Dilma diz que os malfeitos de alguns indivíduos são fatos isolados na devastação da Petrobras, debocha da inteligência alheia, fingindo que não sabe que o petrolão não tinha só ladrões vocacionais, que roubariam em qualquer governo, para qualquer partido e, principalmente, para eles mesmos, mas eram parte de uma organização criminosa formada por empreiteiras, partidos, funcionários e políticos, para saquear a empresa e os seus acionistas — o povo brasileiro — e sustentar um projeto de poder que desmoraliza a democracia e as instituições.

Se fossem só “alguns individuos”, seriam uns Waldomiros, estariam soltos por aí, ninguém repararia. Mas em dez anos a arguta Dilma nunca desconfiou de nada, de como eram feitas as nomeações para diretorias, como funcionavam as concorrências e os aditivos contratuais. Como quem nunca tivesse comido melado, se lambuzava no óleo do pré-sal.

Dos 1% de Waldomiro aos 260 milhões de dólares de Pedro Barusco e Renato Duque, se passaram dez anos. Crescemos muito, mas para baixo.

Lula 2018 já nas ruas

Como antecipou a campanha de 2014, Lula se acha com todo o direito de tratar a política brasileira como a sua "política" e o país como "seu". Com a redução no aperto do governo na última semana e para retomar a "luta guerreira do povo brasileiro", o ex-presidente, através do Instituto Lula,  disparou o modelito de campanha na mídia através de vídeo mostrando a forma aos 69 anos. Típica marquetagem no melhor estilo dos programas de tevê matinais para mulher e saúde.
Veja
Lula na academia    

O que é roubar um partido perto de fundar um partido

No começo do século 18, o dramaturgo inglês John Gay lançou peça ambientada no submundo de prisão londrina. Batizou-a de “A ópera do mendigo” (1728). Era protagonizada por ladrões, prostitutas, policiais corruptos, magnatas do crime. A tragicomédia musical em três atos sobre corrupção, pobreza e injustiça social teve a mais longa temporada teatral da década de 20 daquele século.

Duzentos anos mais tarde, Bertolt Brecht e Kurt Weill inspiraram-se nela para criar “A ópera dos três vinténs” (1928). Os adaptadores alemães mantiveram a trama básica e os nomes das personagens – Macheath, apelidado “Mackie Messer” (“Mac Navalha”), Polly, sr. e sra. Peachum, Jenny. Chico Buarque fez uma adaptação da adaptação com sua excelente “Ópera do Malandro” (1978), na qual Jenny vira Geni, a travesti que todos jogam pedra e bosta.


O criminoso Mac Navalha, em uma das falas da peça de Brecht/Weill, reflete sobre mudar para um ramo de negócios mais fácil e lucrativo: “O que é uma chave-mestra comparada a uma ação da bolsa? O que é o assalto a um banco comparado à fundação de um banco? O que é o assassinato de um homem comparado à contratação de um homem?”.

A política brasileira encontrou na Ópera do Malandro seu ambiente natural. A polêmica questão do aumento do fundo partidário estimula que se jogue bosta para todo o lado, com Genis travestidas de excelências parlamentares. As reportagens a respeito salientam que a presidente Dilma não vetou a proposta de aumento de gasto, que deve atingir agora quase R$ 900 milhões por ano. Poucos foram as menções ao propositor: o senador Romero Jucá (ex-vice-líder do governo tucano, ex-líder do governo petista), que continua onde sempre esteve, no velho PMDB de Roraima.

De janeiro a março de 2015, o PT recebeu R$ 7,8 milhões do fundo partidário. O PSDB levantou R$ 6,4 milhões. O PMDB ganhou R$ 6,2 milhões. O PP, R$ 3,8 milhões; o PSB, R$ 3,7 milhões, o DEM, R$ 2,4 milhões. Outros 26 partidos receberam verbas cujo valor mínimo foram os R$ 100 mil destinados ao PCO. No total, em três meses os partidos receberam R$ 58, 3 milhões para sua manutenção.

Como funciona a distribuição do Dinheiro do Fundo Partidário? 95% dos recursos são distribuídos entre os partidos políticos, proporcionalmente a quantidade de votos obtidos na última eleição a Câmara dos Deputados; 5% são divididos em partes iguais entre todos os partidos políticos que tenham seus estatutos registrados no TSE.

O velho Mac Navalha poderia completar: o que é roubar um partido comparado a fundar um partido?

Aumentar limite do crédito consignado é novo crime


É inaceitável a notícia de que vai ser elevado o limite de endividamento dos empréstimos consignados de 30% para 40% da renda dos tomadores. O consignado já é um dos maiores responsáveis pelo endividamento das famílias. Como é totalmente seguro para os bancos, porque é descontado diretamente do salário ou da aposentadoria do tomador, e este não tem como adiar ou não pagar as prestações, os bancos fazem uma campanha cerrada para que as pessoas contratem estes empréstimos.

Depois que me aposentei, se vou a um caixa eletrônico surge na tela, assim que coloco o cartão, a opção para contratar um empréstimo. Recebo telefonemas de bancos com os quais nunca tive nenhum relacionamento, que se valem dos arquivos do INSS para saber nome e telefone dos aposentados, oferecendo tais empréstimos.

Aumentar este limite num momento destes é mais do que irresponsabilidade, é um crime. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Dona Dilma e o Congresso nos afrontam, ofendem e escarnecem de nossa situação

“Esse fundo não deveria nem existir. Os partidos têm que representar a população, e a população tem que estar engajada”
Miro Teixeira PROS/RJ

Sou contra o impeachment da presidente que ainda não completou quatro meses de mandato. Não creio que seja uma boa solução para os graves problemas do país. Digo isso com singeleza, com o puro sentimento de uma cidadã assustada com o negror que se aproxima.

Mas deixar dona Dilma solta com a caneta na mão é ainda mais assustador. Fica martelando em minha cabeça: como ela teve coragem de chancelar o acréscimo de R$578 milhões ao Fundo Partidário, no momento frágil, economicamente esgarçado que atravessamos, graças aos desmandos de seu primeiro governo?

O PMDB, através de seu senador por Roraima, Romero Jucá, fez a gracinha. Que, numa pirueta, o presidente do Senado, o alagoano Renan Calheiros, também do PMDB, definiu como incompatível com o espírito do ajuste fiscal que paira sobre nossas cabeças.

Com uma sensibilidade mais apurada aos anseios e temores da opinião pública vem o presidente do partido, o paulista que é vice-presidente da República, Michel Temer, e declara, lá de Lisboa, onde está numa missão que bem poderia ter sido exercida de Brasília, que a fantástica verba para o Fundo Partidário poderia ser contingenciada. Como? Baseando o contingenciamento no ajuste fiscal que está por vir.

Mas nada é tão simples quando se trata de dinheiro para a vida política do Brasil.

Michel Temer foi informado que a Lei de Diretrizes Orçamentárias protege o fundo partidário como uma despesa que não pode ser objeto de limitação. Quer dizer: uma vez a Cascais, nunca mais!

Diante disso, o que fez o vice-presidente? Fez o PMDB declarar que vai abrir mão de uma parte desses benditos novos recursos. Só não definiu o quantum...

Até aqui não falamos no partido majoritário, que é o partido da presidente. Qual sua opinião a respeito desse mero pulo de R$289 milhões para R$867 milhões no querido Fundo Partidário, made by Jucá? Pois bem, o senador Walter Pinheiro (PT/BA) defendeu a tese que eu apelidaria de Lei do Menor Esforço: que a presidente Dilma edite uma Medida Provisória alterando a LDO que acabou de sancionar. Na alteração, o Fundo Partidário retornaria ao valor original, ou seja, aos míseros R$ 269 milhões.

Será que ele acredita que isso seria viável? Será que ele não percebeu por que dona Dilma assinou a triplicação da mesada aos nossos representantes no Congresso? Será que ele pensa que ela fez isso pisando nas estrelas, distraída?

Comecei este papo com vocês dizendo que sou contra o impeachment. Não gosto da ideia do PMDB absoluto no poder. Menos ainda da ideia de eleições indiretas, através do Congresso. A Lei 1.079/50 é bem clara. Melhor não bradar por impeachment sem a conhecer bem...

Então, qual seria a solução? Taí, sinceramente? Não sei.

Mas, como está, com dona Dilma e sua caneta cheia de tinta, sem nenhum bom senso, nem remorsos pelos desmandos na Petrobras, é que não dá para ficar.

Brasileiros contra a guerra política

Nos momentos de crise, os verdadeiros estadistas devem proteger a convivência em vez de usar um discurso bélico


Quando o Partido dos Trabalhadores (PT), em documentos recentes, fala de “reconquistar a rua” e convoca seus militantes com slogans de “guerra”, não está fazendo um favor para a democracia nem para um diálogo que abrace todos os brasileiros, muito menos em um momento delicado como este para o país.

Os termos de reconquista e os slogans bélicos soam obsoletos hoje, sobretudo para os jovens que, com a globalização e o colapso de velhas categorias políticas, dialogam com diferentes culturas e ideias.

Quando o PT lança seu slogan para apropriar-se novamente da rua, está insinuando que a rua era sua, propriedade privada, a única com voz política autorizada a falar. A rua, no entanto, é de todos, não tem dono.

Quando um partido convoca seus militantes com vocabulário de guerra, retrocede a um discurso de “nós contra eles”, em vez de se colocar como um representante do diálogo e de uma reconciliação entre todos os cidadãos que, antes de serem de esquerda ou de direita, se sentem, com orgulho, simplesmente brasileiros.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi criticado por ter alertado os membros de seu partido a não pedir o impeachment de Dilma, sem fatos concretos que confirmem sua suposta culpa.

No entanto, nos momentos de crise social ou política de um país, os verdadeiros estadistas não devem jogar lenha na fogueira. Devem ser mais prudentes do que os ativistas para lembrar, no calor da luta política, que não se pode nunca perder de vista os valores da convivência civil.

Não existe rico ou pobre, progressista ou conservador, socialista ou liberal que não deseje ver este país crescendo de novo, em paz, admirado fora de suas fronteiras, com menos violência e desigualdades.

Nada mais prejudicial para a simples convivência pacífica do que incitar as pessoas a um confronto que divide em vez de unir, algo que serve para todos os partidos.

O bom uso do português

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O poste e o presidente

A governanta do Brasil põe as mãos na cintura, com porte militar, e troveja: "Sou 'presidanta' de todos os brasileiros". Quem acredita? Só mesmo puxa-saco com gorjeta garantida.

Nem tem cacoete de dirigente, no máximo, finge por estar no cargo e assim se fantasia. Conhecida pela arrogância de quem sabe de tudo, e na verdade ignora tudo, inclusive a gentileza e a educação pertinente ao cargo. Se alguém pensa que tem presidente, tem mesmo um poste criado pelo deus Lula. E contente-se.

Dilma não aprendeu nem aprenderá nunca mesmo que lições não lhe faltem.

Barack Obama esta semana deu exemplo, a todos os brasileiros, do que é ser presidente, respeitar o cargo e os cidadãos do seu país. Pôs a cara a tapa, e por ser presidente chamou a si a responsabilidade pelo erro militar na morte de dois reféns no Afeganistão. Se a CIA, errou, Obama chamou para si o erro.

Quando se viria Dilma ter um gesto semelhante?

Alguma vez se responsabilizou pelo rombo da Petrobras? E tinha muito mais responsabilidade, o caso, porque há 12 anos é responsável pela empresa. Foi ministra da Energia, ministra da Casa Civil, presidente (não presidenta) do conselho da Petrobras e presidente do país. Mesmo tendo sido tão responsável, nunca se responsabilizou pela péssima gestão, mas procurou sempre encobriu a maracutaia.

Foi e é um poste a serviço do PT e de seus marginais para desespero de um país, desgovernado. Ou não deveria estar quando se tem na maior governança um poste?

Conto do vigário: culpa do ebola, da dengue, e eu não sabia nada do Petrolão


Voltou a moda a satanização de doenças e bichinhos. Conheço pelo menos dez pessoas que contraíram dengue, nos últimos dois meses, em São Paulo. A culpa é do mosquito da dengue, o novo satã.

A culpa não é obviamente do mosquito: é dos governos cuja infraestrutura e saneamento deram condições a que o mosquito se proliferasse.
Esse mesmo filme era “passado” nos cinemas midiáticos da Inglaterra do começo do século 19. Vou colocar alguns números: na Inglaterra daquela época, no início da Revolução Industrial, trabalhava-se16 horas por dia. A média de habitação era de 26 pessoas por casa. Em 1821 um trabalhador lograva 16 shillings por semana, dez anos depois eram apenas 6 shillings. A esperança de vida era inferior a 40 anos.
As condições de saúde e infraestrutura eram abjetas. Veio a tuberculose em massa. O Times londrino satanizava em suas manchetes o Bacilo de Koch: ele era o monstro a gerar tudo aquilo. O Timeslondrino tirava a culpa da falta de condições sociais dadas aos migrantes do campo e metia a culpa no pobre bacilo.
O que estão fazendo com o mosquito da Dengue é o mesmo. Ele é o culpado e ponto final: nada de discutir a torpe estrutura sanitária das grandes cidades…


Na África as coisas não tem sido diferentes. A culpa pelo miserê generalizado foi deslocada para o Ebola.
Governantes, ali, mantem-se no poder alimentando o velho babalaô místico-mágico africano. Tio Freud já havia alertado para isso em seu Totem e Tabu: o barato que o feiticeiro dá a sua clientela não é diferente do folguedo infantil. Crianças inventam jogos que simulam o mundão, e seus personagens, para terem, no folguedo, o protagonismo, o controle da situação. Bruxos simulam o mesmo em seus encantos: dão de barato a ideia de que uma macumbinha nos dará o poder de protagonismo sobre aquilo que nos parece incontrolável: e isso Freud chama de “totalitarismo do pensamento mágico”.
O ebola sobrevive na África porque interessa manter o povão engessado nesse psiquismo macumbeiro. No século 16 Descartes já havia destruído a ideia de que objetos têm alma ( anima mundi). De nada adiantou. O babalaô da varinha de condão ainda grassa solto.
Um aluno me informa que uma vidente sua vizinha já está benzendo contra a dengue. Cuma?



Vamos colocar em perspectiva: o cérebro humano contém aproximadamente dez bilhões de neurônios, cada um fazendo milhares de conexões. Cada neurônio age como o sistema binário de um computador, ligando e desligando. E dessa forma nossos pensamentos, emoções e decisões são transmitidos à vasta rede que somos nós. Neurônios são ligados por aqueles rabinhos, os axônios, que não se tocam. Os sinais passam de axônio para neurônio numa vala de sinapses, no espaço de um milésimo de segundo. Esse impulso tem carga elétrica de 120 milivolts. Se há telepatia, como passar uma informação à outra sem que haja esse complexo de toques, voltagens, axônios?
Como benzer contra o Ebola, Dengue ou o diabo?

O cérebro produz ondas, medidas em ciclos por segundo, ou hertz (Hz). Cérebro relaxado ou em descanso produz um ritmo alfa, entre 8 e 14 hertz. Ritmos beta, que predominam durante o trabalho ou o caminhar, por exemplo, se dão entre 13 e 30 hertz. Durante o sono, produzimos ondas delta, que oscilam entre 1 e 4 hertz. Os ritmos chamados theta, produzidos no transe ou sono profundo, estão entre 4 e 7 hertz. Mestres zen e iogues dizem que podem mudar voluntariamente as ondas de seus cérebros e se curarem.
Século 21 e ainda caímos no conto da benzedeira e da satanização dos bichinhos.
Da mesma forma que caímos no conto do vigário de que 6 bilhões foram desviados da Petrobas sem que Dilma e Lula soubessem de nada…
Da mesma forma que a Igreja jamais soube da pedofilia que corria solta…
E quem chegar por ultimo nessas respostas, é mulher do padre…

Filosofia dos Sibás

Conforme a presidente Dilma já declarou, nenhum de nós viu sinal de corrupção na Petrobrás. Se não vimos sinal de corrupção, a corrupção não existiu. Se a corrupção não existiu, a prisão de nossos companheiros foi por motivação política. Se não houve corrupção, então o dinheiro se autorroubou para nos incriminar.”
Líder do PT na Câmara,Sibá Machado defende que o próprio dinheiro é o culpado por sua subtração

Festa na ilha da fantasia

Nesse caleidoscópio de sonhos, delírios e fugas da realidade, o V Congresso do PT vai sair em busca da legitimação de uma hegemonia que a sociedade recusa conceder-lhe

Decadente e desprestigiado  (Foto: Arquivo Google)

O novo presidente da Petrobras, convenientemente constrangido, pede “desculpas” à população ao apresentar, com 5 meses de atraso, um balanço auditado com 6 bi de buraco por corrupção e 21,6 bi de prejuízo por erros de gestão.

O ministro Joaquim Levy percorre agências de risco prometendo que vai colocar as contas em ordem e pedindo, por favor, para não rebaixar o grau de investimento do Brasil para não atrapalhar ainda mais o que atrapalhado já está. E tenta convencer os condestáveis do Congresso, Cunha e Renan, que sem ajuste o futuro será negro.

O panorama visto da ponte não é nenhum campo de girassóis como aqueles que Van Gogh pintava. O governo ainda rumina os 13% de popularidade, a inflação ameaça, o crescimento fica adiado para quando der, e bomba da Lava Jato não para de espirrar lama.

Isso não impede que o senhor Roarke, com seu prestimoso auxiliar, o simpático anãozinho Tatoo, continuem alimentando a sua particular ilha da fantasia, onde qualquer desejo pode ser realizado.

O senhor Roarke prepara agora para junho, em Salvador da Bahia, o V Congresso do Partido dos Trabalhadores. (Usamos algarismos romanos para dar a devida pátina de respeitabilidade ao evento. Trata-se, nada mais e nada menos, de decidir o futuro do Brasil, e en passant, o da Humanidade. Não é coisa pouca).

Sabe-se Deus de que recantos do Brasil surgirá esse exército de sonhadores, envergando seus estandartes vermelhos, com a missão de construir “um partido para tempos de guerra”. O que os guerreiros pretendem decidir é qual tipo de socialismo estão reservando para guiar nosso futuro rumo ao paraíso na Terra.

Eles vão decidir isso entre 11 e 13 de junho, mas nós, os burguesotes comuns, já podemos ir tomando conhecimento e consultar o menu que nos preparam. Está aqui, é só clicar em cima: as diversas tendências internas do PT exibem as teses que apresentarão no V Congresso.

Ao contrário do Partido Social Democrático Alemão, que renunciou ao marxismo e à luta de classes no longínquo ano de 1959, no Congresso de Bad Godsberg (vocês viram a tragédia que foi para a Alemanha essa infausta decisão, não é?), o PT ainda tem uma vasta coleção de fantasmas para mobilizar as suas tropas.

Com mais ou menos adereços de mão, ressuscitando o linguajar das assembleias estudantis dos anos 60 (“correlação de forças”, “flanco histórico” , “arco de apoios” e outras relíquias retóricas),as diversas tendências do PT caminham juntas na contramão da História, cada uma percorrendo sua via particular de acesso ao luminoso futuro.

Para algumas, como a “Virar à Esquerda-Reatar com o Socialismo”, é preciso meter o pé na porta, demitir ministros “capitalistas”, como Joaquim Levy, Gilberto Kassab, Armando Monteiro e Kátia Abreu e estatizar a rede Globo e, claro, dar um jeito nessa direita “fascista”. (É bom ressaltar; tudo o que não sejam eles, é “fascista”).

Para outras, como “O Partido que Muda o Brasil”, para quem o PT perdeu “o frescor da juventude”, ele precisa “reinventar-se”.

Nesse caleidoscópio de sonhos regressivos, delírios e fugas da realidade, o V Congresso do PT vai sair em busca da legitimação de uma hegemonia que a sociedade recusa conceder-lhe.

Pior para a sociedade, dirão eles.

Aviso


Quem gosta muito de dinheiro tem que estar na indústria, no comércio. Não na política."
José Mujica, ex-presidente do Uruguai
BBC Mundo


Uma fábula da modernidade


Os governantes inauguram bibliotecas, os empreiteiros e a privataria tomam conta. A patuleia que paga, dança

O grande poeta Cacaso (1944-1987) fez um versinho que pareceu datado e revelou-se eterno:
“Ficou moderno o Brasil,
ficou moderno o milagre.
Água já não vira vinho.
vira direto vinagre.”

A modernidade do século XXI tem os velhos toques de arquitetura futurista, mais privataria e terceirizações. Somando-se a isso, cria-se uma boa página da internet e, tchan, o futuro chegou.

Quem passa pela Avenida Presidente Vargas, no Rio, vê um lindo prédio prédio branco. É a Biblioteca Parque, do governo do estado. Foi uma joia da coroa da campanha do candidato Pezão, que prometeu construir mais 11. Inaugurada em 2013, foi entregue à empresa Instituto de Desenvolvimento e Gestão, o IDC. Funcionava ali outra biblioteca pública, resultado de uma iniciativa de Dom Pedro II. Às vezes ia bem, depois ia mal. Darcy Ribeiro remodelou-a, mas no governo Sérgio Cabral decidiu-se passar o Rio a limpo. O velho prédio foi demolido. No lugar, ergueu-se o outro, moderno e lindo (com isso os empreiteiros e fornecedores de serviços faturaram pelo menos R$ 71 milhões). Com o milagre, a água viraria vinho.

Virou vinagre. Um ano depois de sua festiva inauguração, o IDC resolveu reduzir o horário de atendimento. A instituição funcionava das 10h às 20h. Funcionará das 12h às 18h30m, de terça a sexta, e não abrirá mais nos fins de semana. A empresa tem seus motivos, pois Pezão lhe deve R$ 10 milhões. Vale notar que o novo horário exclui todos aqueles que trabalham na região e que o IDC acha problemático abri-la no fim de semana. São muitas as grandes cidades brasileiras que não têm bibliotecas abertas aos domingos, mas se o Rio quiser mudar de patamar, não fecha a sua.

Construir ou reformar bibliotecas rende imediatos faturamentos e cerimônias. Mantê-las é outra história, coisa que depende de recursos e servidores dedicados. Pezão tropeçou nessa ponta dessa equação. Em outros casos, piores, caiu-se na primeira, na qual paga-se parte da obra e deixa-se a instituição à matroca. A Biblioteca Nacional de Brasília, construída em 2002, tornou-se um excelente salão de leitura e centro de exposições, mas biblioteca nacional não é. A Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul está fechada para reformas há oito anos. A Câmara Cascudo, de Natal, e a Pública de Maceió estão em reformas, fechadas há quatro anos. A Biblioteca Municipal de Manaus, fechada há três anos, foi ocupada por moradores de rua e depredada em setembro do ano passado. Isso para não se falar do Museu do Ipiranga, fechado desde 2013, com reabertura prevista para 2022. De tempos em tempos, a cripta onde deixaram Dom Pedro I vira mictório.

Muito mais importante do que construir novos prédios e contratar administradores privados é cuidar direito do que já existe, com os servidores que lá estão. Uma das Bibliotecas Parque do governo do Rio, logo a da Rocinha, foi apanhada num lance de superfaturamento.

Numa trapaça da vida, a única biblioteca criada nos últimos meses funcionou, inclusive aos domingos, na carceragem de Curitiba, onde os empreiteiros presos pela Lava-Jato compartilharam sua leituras de bordo.

Elio Gaspari

Palavras, palavras, palavras...


Na semana passada, quando saía da academia onde sou visto como um velho que inutilmente combate a velhice, topei com o sempre zangado Mario Batalha, e com um jovem com o qual falamos de Brasil (e não apenas do Brasil) entre um e outro exercício.

O treino de compreender (de interpretar com simpatia, como se faz quando se canta uma música ou se lê um poema) esse Brasil pós-moderno, avacalhado pelo lulopetismo, requer um esforço tão intenso quanto se aventurar a correr uma maratona.

"Acho que essas prisões são 'políticas'", disse o moço.

"Mas tudo é 'político'!", retrucou, furioso, Mario Batalha, meu velho amigo de ginástica sueca, revoltas aeróbicas e revoluções políticas planejadas e inevitáveis na praia de Icaraí. Se acabamos com a religião e matamos Deus, só nos resta o idealismo da ética. Isso apreendemos aos 19 anos, ao lado de alguns amigos "conscientizados" - "não alienados", conforme dizíamos cheios de orgulho aos reacionários de todos os calibres que, como nossos pais, seguiam o catecismo capitalista da exploração e não o nosso nobre e ralo materialismo mágico-marxista filtrado pelos russos. Até a decisão de tomar café com leite é política, dizíamos bebendo cerveja (ainda não existia essa frescura dos vinhos) e fumando nossos aristocráticos cigarros Luiz XV.

"Concordo. Não há como defender essa coroa de roubos que refazem o mensalão com a mesma forma e com os mesmos atores, como o Zé Dirceu."

"Ele é uma metáfora do PT. Aliás, eu me pergunto", Mario Batalha olhava para mim com olhos duros como diamantes, "quem ele realmente é. Seria o líder estudantil ou o personagem operado plasticamente em Cuba que volta ao Brasil como um outro. Numa insólita duplicidade, casa-se, constitui família e, na oportunidade exata, reassume-se no que, suponho, seja a sua máscara original e, em seguida, torna-se o 'Capitão do Time' do governo Lula. Dono do 'poder', revela abertamente que o governo petista projetava ficar no Alvorada por décadas. Mas ele é também e, sobretudo, um bem sucedido empresário (de direita ou de esquerda?), cuja empresa faturou R$ 36 milhões enquanto a família, amigos e companheiros arrecadavam mais de R$ 1 milhão numa subscrição pública destinada pagar a multa que lhe fora imposta pelo STF. Revolucionários, reformadores, milenaristas, capitalistas, socialistas, sindicalistas, impostores, biliardários, excelentes atores..."

Quem são esses caras que, entrementes, fazem versos na prisão?


A marca do mundo contemporâneo seria o dinheiro. Tal era a opinião do hoje esquecido ensaísta Erich Fromm, um autor muito lido e amado pela minha geração. Casamentos, filhos, títulos, doenças, paixões. Tudo podia ser monetarizado.

Quanto, pergunto eu, com Fromm, custa uma "revolução"? Essa revolução que foi um destino, um ideal e uma palavra mágica da minha juventude?

Lembro-me de um ensaio clássico, escrito por Richard Moneygrand, o famoso brasilianista, justamente intitulado: "Qual é o preço de uma Revolução?". Revoluções, argumenta o professor, têm um alto custo. Exigem capital monetário e um belo volume de "capital simbólico", conforme ensinava com redundância típica, Pierre Bourdieu, que, na mesma época, descobria uma formidável "teoria da prática".

Eu diria que as revoluções precisam ainda mais de poesia. Seus instrumentos usuais: guilhotinas, fuzilamentos, confiscos, banimentos, tortura e arbítrio são o oposto da tola harmonia da noite com o dia. Daí a necessidade de versos e de música. Despotismo de um lado, festivais da canção de outro. "Se levanta a cabeça/ duro com ele/ Fidel!/ duro com ele." Essa era letra-palavra de ordem de uma sedutora música vinda de uma Cuba carismática. Foi com gosto que ouvi essa barbaridade cantada. A rima musicada aplaina e estimula as agressões sangrentas. Ela é uma fábrica de mártires. Todo radical é, no fundo, um poeta.

No ensaio, Richard Moneygrand pondera: num sistema capitalista globalizado no qual surge uma indesejável interdependência, seria possível planejar e comprar "revoluções"? Mas não vendemos manuais de felicidade e de emagrecimento?

Seria a revolução mais um manual? Ou seria ela, como pondera Moneygrand na sua complicada teoria, um golpe de morte nos manuais? Um manual para acabar com todos os manuais. Exatamente como aquela guerra que iria acabar com todas as guerras. Ou aquele governo que não podia errar e liquidaria a corrupção, a fome e a pobreza no Brasil?

Roberto Damatta