domingo, 5 de janeiro de 2025
O tempo passa rápido
Às vezes, quando me encontro com velhos amigos, lembro-me da rapidez com que o tempo passa. E isso faz-me pensar se temos utilizado o nosso tempo de forma adequada ou não. A utilização adequada do tempo é tão importante. Enquanto tivermos este corpo e especialmente este cérebro humano incrível, eu acho que cada minuto é algo precioso. O nosso dia-a-dia é muito vivido à base de esperança, embora não exista a garantia do nosso futuro. Não há garantia de que amanhã a esta hora estejamos aqui. Mas estamos sempre na expectativa de que isso aconteça, puramente na base da esperança. Por isso, precisamos de fazer o melhor uso possível do nosso tempo. Acredito que a utilização adequada do tempo é a seguinte: se você puder, esteja disponível para as outras pessoas, ou para outros seres sensíveis. Se não, pelo menos, abster-se de os prejudicar. Eu acho que esta é toda a base da minha filosofia.
Concluindo, precisamos de refletir no que é realmente de valor na vida, o que dá sentido às nossas vidas, e definir as nossas prioridades com base nisso. O propósito da nossa vida precisa de ser positivo. Nós não nascemos com o propósito de causar problemas, prejudicando outros. Para que a nossa vida seja de valor, acho que devemos desenvolver boas qualidades humanas básicas – o calor, a bondade, a compaixão. Então, a nossa vida torna-se significativa e mais pacífica, mais feliz.
Dalai Lama, "A Arte da Felicidade"
Malditos sejam os pecadores
No idioma aramaico, que Jesus e seus apóstolos falavam, uma mesma palavra significa dívida e pecado.
Dois milênios depois, os pobres do mundo sabem que a dívida é um pecado que não tem expiação. Quanto mais você paga, mais você deve; e no Inferno está a sua espera o castigo dos credores.
Eduardo Galeano, "Os filhos dos dias"
Dois milênios depois, os pobres do mundo sabem que a dívida é um pecado que não tem expiação. Quanto mais você paga, mais você deve; e no Inferno está a sua espera o castigo dos credores.
Eduardo Galeano, "Os filhos dos dias"
Para que serve o jornalismo?
Quando entrei naquela casa, o chão tinha acabado de ser lavado. A tijoleira cheirava a detergente e tudo estava impecavelmente limpo e arrumado, cada coisa no seu sítio e no meio um vazio gigante. Aquela mãe tinha acabado de ficar sem os seus sete filhos menores e abria-me a porta para que lhe contasse a história. Nas semanas seguintes, recebi cartas, e-mails e até visitas na redação de pessoas que tinham histórias parecidas. Cheguei a ir a uma casa, longe de tudo, num bairro muito pobre e periférico, aonde não chegavam transportes públicos, e onde uma mãe me abriu as gavetas de uma cómoda para me mostrar as roupinhas de um bebé que nunca conseguiu trazer da maternidade para casa, por ter já outros dois filhos adolescentes sinalizados.
Eu duvidava. Mas ouvia e escrevia. Ouvir é sempre a primeira coisa que se pode fazer por alguém que precisa de ajuda e já perdeu toda a esperança. Quando nos dispomos a ouvir quem está desesperado, começamos a ajudar. Porque lhes parece que já mais ninguém os ouve e que aquele problema sem solução começa a ser invisível para todos e, por isso, impossível de partilhar. À medida que tomava notas, ia sentido que uma parte daquele fardo se desfazia. Era como se começássemos a partilhar o peso.
Então, atirava-me ao computador e escrevia. Sentia-lhes a impaciência. “Quando é que sai? Quando vai ser publicado?” A dúvida sempre era uma distração para alguns, para outros mais uma ansiedade. “Nunca vai sair, pois não? Desistiu da história?”
E então, às vezes muito tempo de depois, lá aparecia em letra impressa sobre papel de jornal ou revista ou num ecrã, debaixo de um título sempre demasiado pequeno para conter todo o problema, o texto. Estava cá fora. E a ansiedade de quem me tinha passado a história estava agora em mim. Agora, era eu quem sustinha a respiração à espera das reações.
Às vezes, não acontecia nada. Outras vezes, alguma coisa se resolvia. Quase sempre me agradeciam. Mas também havia quem se esfumasse para sempre sem me chegar a dizer se o meu texto tinha servido para alguma coisa. Raramente, alguém se queixava. E eu ficava sempre na dúvida: teria mesmo feito a diferença?
Há muitas maneiras de fazer jornalismo. Mas esta é aquela que mais se parece com um serviço. E é uma que tende a ser esquecida. Poucas pessoas param para pensar na importância que pode ter contar a história de alguém.
Raramente, a história de alguém é só dessa pessoa. Na maior parte das vezes, o que fazemos é dar uma cara e um nome a um problema em que até aí ninguém reparou. É esse corpo que torna visível aquilo que tendíamos a ignorar coletivamente.
Foi quando escrevi pela primeira vez o nome de Odair Moniz que ele deixou de ser o “suspeito” anónimo que vinha descrito no auto policial. E foi quando lhe vimos a cara que nos interrogámos sobre como se pode acabar morto depois de ter desrespeitado uma ordem da polícia. Cada um pode ter tirado conclusões diferentes sobre essa interrogação, mas foi quando o jornalismo contou essa história que descobrimos a estatística segundo a qual uma pessoa negra tem 21 vezes mais probabilidades de ser morta pela polícia em Portugal do que uma pessoa branca.
Contar as histórias, procurar as causas, revelar os números, explicar os mecanismos, expor versões contraditórias, confrontar quem tem poder. É isso que faz o jornalismo. É isso que torna o jornalismo diferente de qualquer outra forma de comunicação.
Escrevo este texto em dias de grande perturbação para a redação da VISÃO. Vivemos numa enorme incerteza. E haverá quem culpe o mercado, quem nos diga que é o futuro inexorável que aí vem, com os seus algoritmos e inteligências artificiais, quem ache que não faremos falta e quem se regozije com a possibilidade de ver desaparecer quem interroga, quem incomoda, quem escrutina e expõe. A todos gostaria de pedir que parassem para pensar e imaginassem esse futuro sem jornalismo.
Não é um exercício difícil. É só voltar atrás. Ao passado em que as atrocidades se cometiam em silêncio, os povos eram comandados sem questionar, as verdades eram divinas e o poder uma coisa obscura.
Foram precisos séculos, revoluções e muitas lutas para fugir a essa escuridão. No que me toca, vou tentar não deixar que a luz se apague.
Como não sabia fazer outra coisa, escrevia. Escrevi sempre as histórias, na esperança de que contá-las ajudasse alguma coisa. Sabia que quem me procurava esperava isso de mim. Vinham ter comigo quando tudo o resto tinha falhado. Os que se sentiam injustiçados, os que não tinham a quem recorrer, os que estavam indignados, os que queriam travar a corrupção. Todos, cada um à sua maneira, viam em mim uma parte da salvação.
Eu duvidava. Mas ouvia e escrevia. Ouvir é sempre a primeira coisa que se pode fazer por alguém que precisa de ajuda e já perdeu toda a esperança. Quando nos dispomos a ouvir quem está desesperado, começamos a ajudar. Porque lhes parece que já mais ninguém os ouve e que aquele problema sem solução começa a ser invisível para todos e, por isso, impossível de partilhar. À medida que tomava notas, ia sentido que uma parte daquele fardo se desfazia. Era como se começássemos a partilhar o peso.
Então, atirava-me ao computador e escrevia. Sentia-lhes a impaciência. “Quando é que sai? Quando vai ser publicado?” A dúvida sempre era uma distração para alguns, para outros mais uma ansiedade. “Nunca vai sair, pois não? Desistiu da história?”
E então, às vezes muito tempo de depois, lá aparecia em letra impressa sobre papel de jornal ou revista ou num ecrã, debaixo de um título sempre demasiado pequeno para conter todo o problema, o texto. Estava cá fora. E a ansiedade de quem me tinha passado a história estava agora em mim. Agora, era eu quem sustinha a respiração à espera das reações.
Às vezes, não acontecia nada. Outras vezes, alguma coisa se resolvia. Quase sempre me agradeciam. Mas também havia quem se esfumasse para sempre sem me chegar a dizer se o meu texto tinha servido para alguma coisa. Raramente, alguém se queixava. E eu ficava sempre na dúvida: teria mesmo feito a diferença?
Há muitas maneiras de fazer jornalismo. Mas esta é aquela que mais se parece com um serviço. E é uma que tende a ser esquecida. Poucas pessoas param para pensar na importância que pode ter contar a história de alguém.
Raramente, a história de alguém é só dessa pessoa. Na maior parte das vezes, o que fazemos é dar uma cara e um nome a um problema em que até aí ninguém reparou. É esse corpo que torna visível aquilo que tendíamos a ignorar coletivamente.
Foi quando escrevi pela primeira vez o nome de Odair Moniz que ele deixou de ser o “suspeito” anónimo que vinha descrito no auto policial. E foi quando lhe vimos a cara que nos interrogámos sobre como se pode acabar morto depois de ter desrespeitado uma ordem da polícia. Cada um pode ter tirado conclusões diferentes sobre essa interrogação, mas foi quando o jornalismo contou essa história que descobrimos a estatística segundo a qual uma pessoa negra tem 21 vezes mais probabilidades de ser morta pela polícia em Portugal do que uma pessoa branca.
Contar as histórias, procurar as causas, revelar os números, explicar os mecanismos, expor versões contraditórias, confrontar quem tem poder. É isso que faz o jornalismo. É isso que torna o jornalismo diferente de qualquer outra forma de comunicação.
Escrevo este texto em dias de grande perturbação para a redação da VISÃO. Vivemos numa enorme incerteza. E haverá quem culpe o mercado, quem nos diga que é o futuro inexorável que aí vem, com os seus algoritmos e inteligências artificiais, quem ache que não faremos falta e quem se regozije com a possibilidade de ver desaparecer quem interroga, quem incomoda, quem escrutina e expõe. A todos gostaria de pedir que parassem para pensar e imaginassem esse futuro sem jornalismo.
Não é um exercício difícil. É só voltar atrás. Ao passado em que as atrocidades se cometiam em silêncio, os povos eram comandados sem questionar, as verdades eram divinas e o poder uma coisa obscura.
Foram precisos séculos, revoluções e muitas lutas para fugir a essa escuridão. No que me toca, vou tentar não deixar que a luz se apague.
O inconfesso sonho teocrático da América
Nos EUA, o novo ano tem o mesmo número de um plano conservador chamado "Projeto 2025", ainda mal conhecido entre nós. Elaborado pela Heritage Foundation e por gente que auxilia Trump desde seu primeiro mandato, o plano visa a um regime autocrático, por meio do debilitamento da Constituição, com abolição de direitos femininos que vão do aborto ao voto. É projeto explícito de um "revival" dos anos 50, quando uma patriarquia protestante dirigia o país.
Não se trata, portanto, de mais uma bizarrice trumpista. A retrospecção parte do período em que despontou com força entre nacionalistas cristãos, bilionários e a John Birch Society, a ideia de um Estado teocrático. Isso foi corroborado nos anos 80 pelo presidente Reagan, que estimulou a politização dos grupos cristãos de extrema direita e a penetração extremista em alas republicanas. Depois, as presidências dos Bush, pai e filho, fizeram avançar esse movimento com a introdução de ensino religioso em escolas públicas (cerca de 30% da população é secular, não adere a nenhuma religião) e fundos públicos para escolas privadas cristãs.
As preocupações liberais com as inclinações teocráticas dessa tendência política estão bem delineadas no livro "Terror Sagrado", de Jim Siegelman e Flo Conway, aclamado nos anos 80, quando Reagan deu sinal verde para os batistas do Sul e os evangélicos de um modo geral. É o mesmo dado por Trump aos nacionalistas cristãos, os bilionários e o republicanos do Maga, empenhados numa "América novamente grande".
Entende-se assim por que gente como Elon Musk e figurões corporativos de menor porte pairam sobre o aparelho estatal trumpista. Uma teocracia tecnológica permitiria, acima dos entraves constitucionais, uma mega desregulamentação suscetível de manter os EUA como principal competidor no mercado mundial.
Esse pano de fundo é uma sombra ominosa que torna nada risíveis as conhecidas bizarrices de Trump. Não tem mesmo nenhum motivo para sorrir a classe trabalhadora que o apoiou na última eleição. O que Musk, os tecnocratas e agora Trump privilegiam são imigrantes altamente treinados para ingresso nas indústrias competitivas. Essa clivagem tem algum potencial para cindir a base republicana, mas sem relevância na ótica do Projeto 2025, lastreado por uma ideologia religiosa que nivela "god" a "gold".
Resta determinar a natureza dessa religião, em que cristianismo é só um "branding" de mercado. Nada a ver com espiritualidade, e sim com o fetiche de uma prosperidade ilusória, além de protocolos rasteiros de conduta. Em vez da negatividade implícita nos mandamentos cristãos (a dialética do "não"), o livre trânsito empreendedor.
Para tanto conflui uma mistura de coaching e autoajuda, que não ajuda ninguém, mas atenua a angústia com fragmentos verbosos de mitos consoladores. É espantoso o relato de um imigrante brasileiro marcado para a deportação, mas que ainda assim apoia Trump. Outra versão da síndrome do torturado que ama o torturador.
Tudo isso já reverbera entre nós há muito tempo. Não serve a grandes tecnocratas empreendedores, que aqui não existem. Mas agrada a um tipo novo de capitalismo, que não precisa se assustar com fantasmas do passado como a teologia da libertação. E é um maná pastoral para a extorsão predatória de manés.
Muniz Sodré
Não se trata, portanto, de mais uma bizarrice trumpista. A retrospecção parte do período em que despontou com força entre nacionalistas cristãos, bilionários e a John Birch Society, a ideia de um Estado teocrático. Isso foi corroborado nos anos 80 pelo presidente Reagan, que estimulou a politização dos grupos cristãos de extrema direita e a penetração extremista em alas republicanas. Depois, as presidências dos Bush, pai e filho, fizeram avançar esse movimento com a introdução de ensino religioso em escolas públicas (cerca de 30% da população é secular, não adere a nenhuma religião) e fundos públicos para escolas privadas cristãs.
As preocupações liberais com as inclinações teocráticas dessa tendência política estão bem delineadas no livro "Terror Sagrado", de Jim Siegelman e Flo Conway, aclamado nos anos 80, quando Reagan deu sinal verde para os batistas do Sul e os evangélicos de um modo geral. É o mesmo dado por Trump aos nacionalistas cristãos, os bilionários e o republicanos do Maga, empenhados numa "América novamente grande".
Entende-se assim por que gente como Elon Musk e figurões corporativos de menor porte pairam sobre o aparelho estatal trumpista. Uma teocracia tecnológica permitiria, acima dos entraves constitucionais, uma mega desregulamentação suscetível de manter os EUA como principal competidor no mercado mundial.
Esse pano de fundo é uma sombra ominosa que torna nada risíveis as conhecidas bizarrices de Trump. Não tem mesmo nenhum motivo para sorrir a classe trabalhadora que o apoiou na última eleição. O que Musk, os tecnocratas e agora Trump privilegiam são imigrantes altamente treinados para ingresso nas indústrias competitivas. Essa clivagem tem algum potencial para cindir a base republicana, mas sem relevância na ótica do Projeto 2025, lastreado por uma ideologia religiosa que nivela "god" a "gold".
Resta determinar a natureza dessa religião, em que cristianismo é só um "branding" de mercado. Nada a ver com espiritualidade, e sim com o fetiche de uma prosperidade ilusória, além de protocolos rasteiros de conduta. Em vez da negatividade implícita nos mandamentos cristãos (a dialética do "não"), o livre trânsito empreendedor.
Para tanto conflui uma mistura de coaching e autoajuda, que não ajuda ninguém, mas atenua a angústia com fragmentos verbosos de mitos consoladores. É espantoso o relato de um imigrante brasileiro marcado para a deportação, mas que ainda assim apoia Trump. Outra versão da síndrome do torturado que ama o torturador.
Tudo isso já reverbera entre nós há muito tempo. Não serve a grandes tecnocratas empreendedores, que aqui não existem. Mas agrada a um tipo novo de capitalismo, que não precisa se assustar com fantasmas do passado como a teologia da libertação. E é um maná pastoral para a extorsão predatória de manés.
Muniz Sodré
Genocídio em Gaza não merece celebrações
Enquanto imagens brilhantes exibindo fogos de artifício em várias capitais do mundo marcavam o início de 2025, as manchetes de notícias sobre o genocídio em andamento em Gaza apontam para um contraste horrível na vida dos palestinos:
* Nos acampamentos lotados de Gaza, as mulheres lutam com uma vida sem privacidade;
* Ataque aéreo israelense atinge zona humanitária em Gaza;
* Ataques israelenses em Gaza matam pelo menos 50 pessoas, incluindo várias crianças;
* Nascidos no calor da guerra, mortos pelo frio: as crianças de Gaza estão morrendo de frio.
Portanto, não é surpresa que, em seu último apelo urgente, o chefe da Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina (UNRWA) tenha mais uma vez enfatizado a necessidade de um cessar-fogo.
O comissário-geral Philippe Lazzarini enfatizou que nenhum lugar e ninguém em Gaza está seguro desde o início da guerra em outubro de 2023.
“No início do ano, recebemos relatos de mais um ataque a Al Mawasi com dezenas de pessoas mortas e feridas”, disse ele, chamando isso de “outro lembrete de que não existe zona humanitária, muito menos uma 'zona segura'”.
Ele alertou que “cada dia sem cessar-fogo trará mais tragédia”.
Além disso, para destacar o destino desesperador da vulnerável população civil de Gaza, dois especialistas independentes nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU pediram o fim do "flagrante desrespeito ao direito à saúde em Gaza" após o ataque da semana passada ao Hospital Kamal Adwan, no norte, e a prisão e detenção arbitrárias de seu diretor.
O Dr. Tlaleng Mofokeng, Relator Especial sobre o direito à saúde física e mental, e Francesca Albanese, Relatora Especial sobre a situação dos direitos humanos no Território Palestino Ocupado, expressaram suas preocupações em uma declaração.
“Por mais de um ano de genocídio, o ataque flagrante de Israel ao direito à saúde em Gaza e no resto do território palestino ocupado está atingindo novos patamares de impunidade”, disseram eles.
A declaração acrescenta que eles ficaram “horrorizados e preocupados” com os relatos do Norte de Gaza, “especialmente o ataque aos profissionais de saúde, incluindo o último dos 22 hospitais agora destruídos: o Hospital Kamal Adwan”.
E ecoando a condenação de um número crescente de profissionais de saúde, Mofokeng e Albanese expressaram grande preocupação com o destino do diretor do Hospital Kamal Adwan, Dr. Hussam Abu Safiya, descrevendo-o como "mais um médico a ser assediado, sequestrado e arbitrariamente detido pelas forças de ocupação, em seu caso por desafiar ordens de evacuação para deixar seus pacientes e colegas para trás".
Eles disseram que tal ação “faz parte de um padrão de Israel para bombardear, destruir e aniquilar completamente a realização do direito à saúde em Gaza”.
Em contraste com o clima de celebração em muitas partes do mundo e, estranhamente, em países árabes como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, a dura realidade é que os palestinos em Gaza estão tendo que enterrar bebês que morreram congelados.
Um fato que parece não incomodar a chamada “Comunidade Internacional”, que efetivamente é composta pelos EUA e pela OTAN, é que Israel, como potência ocupante, tem uma obrigação moral e legal, sob o Direito Internacional, de respeitar e proteger o direito à vida e à saúde em Gaza e no resto do Território Palestino Ocupado.
Entretanto, regimes desonestos liderados por criminosos de guerra que têm mandados de prisão emitidos pelo Tribunal Penal Internacional contra eles não dão atenção às convenções globais, como é evidente no genocídio em andamento em Gaza.
Mofokeng e Albanese nos lembram que mais de 1.057 profissionais de saúde e médicos palestinos foram mortos até agora e muitos foram presos arbitrariamente.
“As ações heroicas dos colegas médicos palestinos em Gaza nos ensinam o que significa ter feito o juramento médico. Elas também são um sinal claro de uma humanidade depravada que permitiu que um genocídio continuasse por bem mais de um ano”, disseram.
Salientando que o pessoal médico goza de proteções especiais sob o direito internacional humanitário, os especialistas em direitos humanos disseram que “eles não são alvos legítimos de ataque, nem podem ser legitimamente detidos por exercerem sua profissão”.
A anomalia é que, enquanto Netanyahu continua se gabando de ter derrotado o Hamas e alegremente afirmando que ele não é uma ameaça, seu exército assassino de bandidos continua sua matança sob suas ordens.
Prolongar o genocídio para proteger seu destino político egoísta é a avaliação feita por muitos analistas, incluindo especialistas israelenses.
Dan Perry está entre eles que alega que Netanyahu bloqueou qualquer esforço para pôr fim ao conflito em Gaza.
“Ele usa o fato – de que se Israel se retirasse hoje, o Hamas provavelmente ainda manteria o poder na faixa – como sua desculpa para prolongar a guerra.”
Perry ressalta que uma retirada completa de Israel em troca dos reféns — um acordo oferecido pelo Hamas e desejado por mais de 70% dos israelenses — é contestada pela extrema direita, o que ameaça derrubar o governo de Netanyahu.
Relacionado ao ritual diário e gratuito de matança de palestinos inocentes em Gaza e na Cisjordânia ocupada, está a supressão da liberdade de imprensa.
A proibição da mídia internacional de operar e noticiar dentro de Gaza pelo regime de Netanyahu foi e continua sendo uma grande violação dos direitos que os jornalistas possuem, consagrados em inúmeras convenções relacionadas à liberdade de imprensa.
O fato de tal acesso a jornalistas internacionais ser negado demonstra os esforços desesperados de Israel para manter o controle de uma narrativa que está de acordo com seus objetivos políticos e militares enganosos.
A Autoridade Palestina (AP) também não está excluída da censura por seguir servilmente os ditames de Israel, liberando suas forças de segurança para caçar qualquer forma de resistência contra a colônia ilegal de colonos, mas também para fechar a rede da Al Jazeera.
A linguagem usada pela AP para justificar suas ações contra a agência de mídia não é diferente da de Israel: transmitir “materiais incitantes” que “enganam e provocam conflitos”.
A supressão da liberdade de opinião e expressão, juntamente com a crueldade infligida aos palestinos por um regime auxiliado e apoiado pelos Estados Unidos, pela OTAN e por regimes clientes árabes, certamente não é digna de comemoração.
* Nos acampamentos lotados de Gaza, as mulheres lutam com uma vida sem privacidade;
* Ataque aéreo israelense atinge zona humanitária em Gaza;
* Ataques israelenses em Gaza matam pelo menos 50 pessoas, incluindo várias crianças;
* Nascidos no calor da guerra, mortos pelo frio: as crianças de Gaza estão morrendo de frio.
Portanto, não é surpresa que, em seu último apelo urgente, o chefe da Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina (UNRWA) tenha mais uma vez enfatizado a necessidade de um cessar-fogo.
O comissário-geral Philippe Lazzarini enfatizou que nenhum lugar e ninguém em Gaza está seguro desde o início da guerra em outubro de 2023.
“No início do ano, recebemos relatos de mais um ataque a Al Mawasi com dezenas de pessoas mortas e feridas”, disse ele, chamando isso de “outro lembrete de que não existe zona humanitária, muito menos uma 'zona segura'”.
Ele alertou que “cada dia sem cessar-fogo trará mais tragédia”.
Além disso, para destacar o destino desesperador da vulnerável população civil de Gaza, dois especialistas independentes nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU pediram o fim do "flagrante desrespeito ao direito à saúde em Gaza" após o ataque da semana passada ao Hospital Kamal Adwan, no norte, e a prisão e detenção arbitrárias de seu diretor.
O Dr. Tlaleng Mofokeng, Relator Especial sobre o direito à saúde física e mental, e Francesca Albanese, Relatora Especial sobre a situação dos direitos humanos no Território Palestino Ocupado, expressaram suas preocupações em uma declaração.
“Por mais de um ano de genocídio, o ataque flagrante de Israel ao direito à saúde em Gaza e no resto do território palestino ocupado está atingindo novos patamares de impunidade”, disseram eles.
A declaração acrescenta que eles ficaram “horrorizados e preocupados” com os relatos do Norte de Gaza, “especialmente o ataque aos profissionais de saúde, incluindo o último dos 22 hospitais agora destruídos: o Hospital Kamal Adwan”.
E ecoando a condenação de um número crescente de profissionais de saúde, Mofokeng e Albanese expressaram grande preocupação com o destino do diretor do Hospital Kamal Adwan, Dr. Hussam Abu Safiya, descrevendo-o como "mais um médico a ser assediado, sequestrado e arbitrariamente detido pelas forças de ocupação, em seu caso por desafiar ordens de evacuação para deixar seus pacientes e colegas para trás".
Eles disseram que tal ação “faz parte de um padrão de Israel para bombardear, destruir e aniquilar completamente a realização do direito à saúde em Gaza”.
Em contraste com o clima de celebração em muitas partes do mundo e, estranhamente, em países árabes como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, a dura realidade é que os palestinos em Gaza estão tendo que enterrar bebês que morreram congelados.
Um fato que parece não incomodar a chamada “Comunidade Internacional”, que efetivamente é composta pelos EUA e pela OTAN, é que Israel, como potência ocupante, tem uma obrigação moral e legal, sob o Direito Internacional, de respeitar e proteger o direito à vida e à saúde em Gaza e no resto do Território Palestino Ocupado.
Entretanto, regimes desonestos liderados por criminosos de guerra que têm mandados de prisão emitidos pelo Tribunal Penal Internacional contra eles não dão atenção às convenções globais, como é evidente no genocídio em andamento em Gaza.
Mofokeng e Albanese nos lembram que mais de 1.057 profissionais de saúde e médicos palestinos foram mortos até agora e muitos foram presos arbitrariamente.
“As ações heroicas dos colegas médicos palestinos em Gaza nos ensinam o que significa ter feito o juramento médico. Elas também são um sinal claro de uma humanidade depravada que permitiu que um genocídio continuasse por bem mais de um ano”, disseram.
Salientando que o pessoal médico goza de proteções especiais sob o direito internacional humanitário, os especialistas em direitos humanos disseram que “eles não são alvos legítimos de ataque, nem podem ser legitimamente detidos por exercerem sua profissão”.
A anomalia é que, enquanto Netanyahu continua se gabando de ter derrotado o Hamas e alegremente afirmando que ele não é uma ameaça, seu exército assassino de bandidos continua sua matança sob suas ordens.
Prolongar o genocídio para proteger seu destino político egoísta é a avaliação feita por muitos analistas, incluindo especialistas israelenses.
Dan Perry está entre eles que alega que Netanyahu bloqueou qualquer esforço para pôr fim ao conflito em Gaza.
“Ele usa o fato – de que se Israel se retirasse hoje, o Hamas provavelmente ainda manteria o poder na faixa – como sua desculpa para prolongar a guerra.”
Perry ressalta que uma retirada completa de Israel em troca dos reféns — um acordo oferecido pelo Hamas e desejado por mais de 70% dos israelenses — é contestada pela extrema direita, o que ameaça derrubar o governo de Netanyahu.
Relacionado ao ritual diário e gratuito de matança de palestinos inocentes em Gaza e na Cisjordânia ocupada, está a supressão da liberdade de imprensa.
A proibição da mídia internacional de operar e noticiar dentro de Gaza pelo regime de Netanyahu foi e continua sendo uma grande violação dos direitos que os jornalistas possuem, consagrados em inúmeras convenções relacionadas à liberdade de imprensa.
O fato de tal acesso a jornalistas internacionais ser negado demonstra os esforços desesperados de Israel para manter o controle de uma narrativa que está de acordo com seus objetivos políticos e militares enganosos.
A Autoridade Palestina (AP) também não está excluída da censura por seguir servilmente os ditames de Israel, liberando suas forças de segurança para caçar qualquer forma de resistência contra a colônia ilegal de colonos, mas também para fechar a rede da Al Jazeera.
A linguagem usada pela AP para justificar suas ações contra a agência de mídia não é diferente da de Israel: transmitir “materiais incitantes” que “enganam e provocam conflitos”.
A supressão da liberdade de opinião e expressão, juntamente com a crueldade infligida aos palestinos por um regime auxiliado e apoiado pelos Estados Unidos, pela OTAN e por regimes clientes árabes, certamente não é digna de comemoração.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2025
A saga do Papai Noel de Brasília
Todos os setores, governo, STF e Parlamento, têm dificuldade para chegar ao nível de austeridade de que o País precisa.
Um pouco ofuscado pelas festas de fim de ano, Brasília viveu mais um drama em torno das emendas parlamentares. O ministro Flávio Dino bloqueou um lote de R$ 4,2 bilhões em emendas por não cumprirem os requisitos básicos de transparência e rastreabilidade. Para finalizar, Dino pediu à Polícia Federal (PF) que abrisse um inquérito sobre o tema. O maior suspeito é Arthur Lira, que articulou a aprovação das emendas e destinou grande parte do dinheiro para Alagoas.
O que se sucedeu foi um vaivém de notas e reuniões entre os Poderes, encerrando o ano com uma autêntica reprise do que vivemos ao longo desses últimos meses. O Parlamento se apossou de uma parte substancial do Orçamento e a utiliza de forma que nem as instituições nem a sociedade possa controlá-la.
Na verdade, os eleitores acompanham tudo isso por alguns pequenos escândalos na imprensa, mas parecem cansados e desiludidos a ponto de não mais reagirem. Avião cheio de dinheiro, notas de reais jogadas pela janela, cidades onde todo mundo fez radiografia da mão, enfim, uma série de irregularidades, algumas vezes descobertas pela PF. Mas apenas algumas vezes para nos dar a falsa impressão de que tudo está sob controle.
E não está. Desde o chamado orçamento secreto a roubalheira parece estar sendo combatida. Mas, desde aquela época, é visível como o triângulo Supremo Tribunal Federal (STF), governo e Parlamento se move de forma a nos dar a entender que afinal isto é um país sério e a Constituição será respeitada.
A ministra Rosa Weber proibiu o orçamento secreto. A tese essencial é a de que o dinheiro público tem de ser gasto com transparência. A proibição foi driblada de várias maneiras, inclusive com a criação de novas modalidades como as chamadas emendas Pix.
O próprio ministro Flávio Dino, quando retoma a tarefa de fazer cumprir o texto da lei, reconhece que existem inúmeras tentativas de driblar o STF.
Nessa história toda, a ponta do triângulo, o Executivo, tem uma posição ambígua. A ele interessa disciplinar as emendas porque sobra mais dinheiro para executar seus projetos, de certa forma, prometidos durante o período eleitoral.
No entanto, o governo não pode bater de frente com o Parlamento. Sua tática é de demonstrar interesse para que as emendas sejam pagas, ora questionando o STF ora encontrando um caminho para driblar a proibição.
Foi o que fez agora no apagar das luzes, tentando liberar, excepcionalmente, R$ 2,5 bilhões, movimento que acabou sendo vazado para a imprensa.
Minha hipótese é a de que o Supremo sozinho não consegue segurar essa onda. Por debaixo do pano, o governo tem de ceder para conseguir aprovar seus projetos no Parlamento. E a sociedade, que poderia dar o apoio a essa óbvia defesa da Constituição, parece viver um momento de cansaço, esses muitos momentos em que se diz: o Brasil é isto mesmo, não vale a pena protestar.
Na verdade, a Justiça também tem uma retaguarda vulnerável quando se trata de garantir o mínimo de austeridade. São muitos os supersalários nos seus quadros, além de pequenos escândalos do tipo que aconteceu no Mato Grosso, onde uma desembargadora que ganha R$ 130 mil mensais determinou uma ajuda natalina de R$ 10 mil para os funcionários do tribunal. Um auxílio-peru que poderia não ter tanta repercussão se fosse mesmo um caso isolado.
Mas a verdade é que todos os setores, governo, STF e Parlamento, têm dificuldades de cortar gastos e chegar a um nível de austeridade compatível com as necessidades do País.
É algo muito forte e talvez culturalmente enraizado. Pode ser que se explique por nossas origens católicas. A cisão que deu origem ao protestantismo criticava prédios suntuosos e a vida luxuosa de parte do clero. Combatia a venda de indulgências, pois o perdão não se compra. Martinho Lutero defendia uma vida religiosa mais próxima das pessoas, marcada pela simplicidade e foco nas escrituras.
É possível até tentar explicações histórico-culturais, mas isso não impede de julgar o que se passa nas esferas do poder: é injusto com um país tão necessitado gastar dinheiro sem controle e eficácia, como fazem com as emendas parlamentares, assim como é constrangedor ver a ostentação na alta burocracia estatal.
Ultimamente, o chamado mercado faz uma pressão por economia. Mas ele se interessa em preservar as aplicações financeiras que administra. Não tem critério de valor sobre os cortes, que acabam sendo eficazes apenas quando atingem os mais pobres. Temas como supersalários, subsídios – tudo isso fica para as calendas.
Na verdade, assistimos à farsa em que se repetem os gestos, a movimentos de correção que apenas ajustam a engrenagem que esmaga não só a esperança dos mais pobres, como também a aspiração de todos por um país mais solidário e justo.
É um enredo tão pouco inspirado e monótono que acabará sendo tocado por ventos de renovação. Os eleitores precisam se convencer de que é possível algo melhor e, o que é mais importante, precisam acertar quando acharem que estão escolhendo algo melhor. O caminho continua aberto para aventureiros.
Um pouco ofuscado pelas festas de fim de ano, Brasília viveu mais um drama em torno das emendas parlamentares. O ministro Flávio Dino bloqueou um lote de R$ 4,2 bilhões em emendas por não cumprirem os requisitos básicos de transparência e rastreabilidade. Para finalizar, Dino pediu à Polícia Federal (PF) que abrisse um inquérito sobre o tema. O maior suspeito é Arthur Lira, que articulou a aprovação das emendas e destinou grande parte do dinheiro para Alagoas.
O que se sucedeu foi um vaivém de notas e reuniões entre os Poderes, encerrando o ano com uma autêntica reprise do que vivemos ao longo desses últimos meses. O Parlamento se apossou de uma parte substancial do Orçamento e a utiliza de forma que nem as instituições nem a sociedade possa controlá-la.
Na verdade, os eleitores acompanham tudo isso por alguns pequenos escândalos na imprensa, mas parecem cansados e desiludidos a ponto de não mais reagirem. Avião cheio de dinheiro, notas de reais jogadas pela janela, cidades onde todo mundo fez radiografia da mão, enfim, uma série de irregularidades, algumas vezes descobertas pela PF. Mas apenas algumas vezes para nos dar a falsa impressão de que tudo está sob controle.
E não está. Desde o chamado orçamento secreto a roubalheira parece estar sendo combatida. Mas, desde aquela época, é visível como o triângulo Supremo Tribunal Federal (STF), governo e Parlamento se move de forma a nos dar a entender que afinal isto é um país sério e a Constituição será respeitada.
A ministra Rosa Weber proibiu o orçamento secreto. A tese essencial é a de que o dinheiro público tem de ser gasto com transparência. A proibição foi driblada de várias maneiras, inclusive com a criação de novas modalidades como as chamadas emendas Pix.
O próprio ministro Flávio Dino, quando retoma a tarefa de fazer cumprir o texto da lei, reconhece que existem inúmeras tentativas de driblar o STF.
Nessa história toda, a ponta do triângulo, o Executivo, tem uma posição ambígua. A ele interessa disciplinar as emendas porque sobra mais dinheiro para executar seus projetos, de certa forma, prometidos durante o período eleitoral.
No entanto, o governo não pode bater de frente com o Parlamento. Sua tática é de demonstrar interesse para que as emendas sejam pagas, ora questionando o STF ora encontrando um caminho para driblar a proibição.
Foi o que fez agora no apagar das luzes, tentando liberar, excepcionalmente, R$ 2,5 bilhões, movimento que acabou sendo vazado para a imprensa.
Minha hipótese é a de que o Supremo sozinho não consegue segurar essa onda. Por debaixo do pano, o governo tem de ceder para conseguir aprovar seus projetos no Parlamento. E a sociedade, que poderia dar o apoio a essa óbvia defesa da Constituição, parece viver um momento de cansaço, esses muitos momentos em que se diz: o Brasil é isto mesmo, não vale a pena protestar.
Na verdade, a Justiça também tem uma retaguarda vulnerável quando se trata de garantir o mínimo de austeridade. São muitos os supersalários nos seus quadros, além de pequenos escândalos do tipo que aconteceu no Mato Grosso, onde uma desembargadora que ganha R$ 130 mil mensais determinou uma ajuda natalina de R$ 10 mil para os funcionários do tribunal. Um auxílio-peru que poderia não ter tanta repercussão se fosse mesmo um caso isolado.
Mas a verdade é que todos os setores, governo, STF e Parlamento, têm dificuldades de cortar gastos e chegar a um nível de austeridade compatível com as necessidades do País.
É algo muito forte e talvez culturalmente enraizado. Pode ser que se explique por nossas origens católicas. A cisão que deu origem ao protestantismo criticava prédios suntuosos e a vida luxuosa de parte do clero. Combatia a venda de indulgências, pois o perdão não se compra. Martinho Lutero defendia uma vida religiosa mais próxima das pessoas, marcada pela simplicidade e foco nas escrituras.
É possível até tentar explicações histórico-culturais, mas isso não impede de julgar o que se passa nas esferas do poder: é injusto com um país tão necessitado gastar dinheiro sem controle e eficácia, como fazem com as emendas parlamentares, assim como é constrangedor ver a ostentação na alta burocracia estatal.
Ultimamente, o chamado mercado faz uma pressão por economia. Mas ele se interessa em preservar as aplicações financeiras que administra. Não tem critério de valor sobre os cortes, que acabam sendo eficazes apenas quando atingem os mais pobres. Temas como supersalários, subsídios – tudo isso fica para as calendas.
Na verdade, assistimos à farsa em que se repetem os gestos, a movimentos de correção que apenas ajustam a engrenagem que esmaga não só a esperança dos mais pobres, como também a aspiração de todos por um país mais solidário e justo.
É um enredo tão pouco inspirado e monótono que acabará sendo tocado por ventos de renovação. Os eleitores precisam se convencer de que é possível algo melhor e, o que é mais importante, precisam acertar quando acharem que estão escolhendo algo melhor. O caminho continua aberto para aventureiros.
Tranquilidade da Alma
1. Passemos agora à consideração do patrimônio, essa fonte mais fértil das dores humanas: se compararmos todos os outros males de que sofremos – mortes, enfermidades, medos, arrependimentos, dores e fadigas – com as misérias que o nosso dinheiro nos inflige, este último pesará muito mais do que todos os outros.
2. Reflita, pois, quanto menos dor é nunca ter tido dinheiro do que tê-lo perdido: assim entenderemos que quanto menos a pobreza tem a perder, menos tormento tem com que nos afligir: pois você está enganado se supõe que os ricos suportam suas perdas com maior espírito do que os pobres: uma ferida causa a mesma quantidade de dor ao maior e ao menor corpo.
3. Foi um belo ditado de Bion, “que dói aos carecas tanto quanto aos cabeludos terem seus cabelos arrancados”: você pode estar certo de que o mesmo se aplica aos ricos e aos pobres, de que seu sofrimento é igual: pois seu dinheiro se agarra a ambas as classes e não pode ser arrancado sem que eles o sintam: no entanto, é mais suportável, como já disse, e mais fácil não ganhar propriedade do que perdê-la, e, portanto, verá que aqueles sobre os quais a Fortuna nunca sorriu são mais alegres do que aqueles sobre os quais ela desertou.
4. Diógenes, um homem de espírito infinito, percebeu isso e impossibilitou que lhe fosse tirado qualquer coisa. Chame isso de precariedade, miséria, carência, necessidade ou qualquer nome desdenhoso que lhe agrade: Considerarei tal homem feliz, a menos que você me encontre outro que não possa perder nada. Se não me engano, é um atributo real entre tantos avarentos, malfeitores e ladrões, ser o único homem que não pode ser ferido.
5. Se alguém duvida da felicidade de Diógenes, duvida se a posição dos deuses imortais é de felicidade plena, pois eles não têm fazendas ou jardins, não têm propriedades de valor arrendadas a inquilinos desconhecidos, nem grandes títulos de crédito no mercado monetário. Não se envergonha de si mesmo, você que olha as riquezas com admiração estupefata? Olhe para o universo: você verá os deuses totalmente desprovidos de propriedade, e não possuindo qualquer coisa, ainda que deem tudo.
6. Você acha que esse homem que se despojou de todos os acessórios fortuitos é um pobre, ou um semelhante aos deuses imortais? Você considera Demétrio, o libertado de Pompeu, um homem feliz, aquele que não tinha vergonha de ser mais rico do que Pompeu, que era diariamente munido de uma lista com o número de seus escravos, como um general faz com o do seu exército, embora há muito merecesse que todas as suas riquezas consistissem num par de subordinados, e numa cela mais espaçosa do que os outros escravos?
7. Mas o único escravo de Diógenes fugiu dele, e quando foi apontado para Diógenes, ele não achou que valesse a pena buscá-lo de volta. “É uma vergonha”, disse ele, “que Manes possa viver sem Diógenes, mas que Diógenes não possa viver sem Manes”. Ele me parece ter dito: “Fortuna, não se intrometa: Diógenes não tem mais nada que lhe pertença. O meu escravo fugiu? Não, ele se afastou de mim como um homem livre”.
8. Uma casa cheia de escravos requer comida e roupa: as barrigas de tantas criaturas famintas têm que ser preenchidas: temos que comprar roupas para eles, temos que vigiar suas mãos mais ladras, e temos que fazer uso dos serviços de pessoas que nos lamentam e nos execram. Quão mais feliz é aquele que não deve nada a ninguém, a não ser o que se pode privar com a maior facilidade!
9. Mas, como não temos tal força de espírito, devemos, em todo caso, diminuir a extensão dos nossos bens, para estarmos menos expostos aos ataques da sorte: aqueles homens cujos corpos podem estar dentro do abrigo de suas armaduras, estão mais aptos para a guerra do que aqueles cujo enorme tamanho se estende por toda parte para além dela, e os expõe a feridas: a melhor quantidade de bens a ter é aquela que é suficiente para nos afastar da pobreza, mas que ainda não nos deixei muito distante dela.
Sêneca
Sêneca
Desejo amor ao Brasil
Neste primeiro dia do ano, desejo que meu país seja descoberto por seus cidadãos. Isso deveria ter ocorrido há décadas, ou séculos, para que o Brasil tivesse seu berço: um sistema nacional único de educação com qualidade e equidade para todas as nossas crianças, independentemente de renda e endereço. Mas não aconteceu. Por isso, apesar de tardio, agora é ainda mais necessário o desejo de que os brasileiros coloquem o Brasil acima dos interesses de grupos corporativos.
Desde o início, somos divididos socialmente entre escravos e senhores, ricos e pobres, doutores e analfabetos, favelas e condomínios e, politicamente, em sindicatos, partidos, igrejas, municípios, estados, cada um se colocando acima do país. No último mês, esse divisionismo se mostrou descaradamente diante da constatação de que esgotamos os recursos fiscais do país. Mas, quando o ministro da Fazenda apresenta proposta para equilibrar as contas, cada setor da sociedade se levanta e diz: "Não no meu pedaço do orçamento".
Os donos de salários astronômicos não aceitam tocar em qualquer um dos penduricalhos que lhes permite romper o teto constitucional para saquear o Tesouro Nacional. A corporação militar, que deveria dar exemplo de patriotismo, não aceitou abrir mão da aposentadoria, nem mesmo para integrantes cuja carreira se passa quase toda em escritórios e sem riscos de vida. Dentro do próprio governo, surgiram sugestões para desidratar a proposta inicial do seu ministro. Em nome de votos e de interesses que defende, o partido do ministro adotou a regra "no meu pedaço não".
Os agentes do mercado — investidores, especuladores, consumidores, vendedores — não fizeram gestos para colocar o Brasil acima do lucro individual, com sacrifícios de todos para manter a confiança necessária nas nossas finanças, sem o que ameaçamos o valor do real e aumentamos a taxa de juros. Os parlamentares chantagearam o governo ao condicionarem só votar na necessária redução dos gastos estatais se houvesse aumento no valor destinado a suas emendas para comprar votos com dinheiro público; e, irresponsável e desastradamente, fizeram pedaladas jurídicas para burlar a lei e enganar a população.
Nós, brasilienses, unimos-nos contra a proposta do ministro. Pela primeira vez em décadas, partidos que, até a véspera, digladiavam-se, agora tiveram uma só voz: "No valor do Fundo Constitucional do DF não se toca". Não levamos em conta nossa responsabilidade com os demais 200 milhões de brasileiros aos quais servimos como a capital federal e, por isso, devem nos financiar. Não pedimos desculpas pelo fato de que a Secretaria de Segurança, financiada pelo Brasil, participou da tentativa de golpe do 8 de janeiro, ao ser comandada por golpistas que estão em julgamento; tampouco nos desculpamos pelo fato de não sabermos até hoje onde estava nosso governador naquele dia.
Não explicamos aos brasileiros porque nossa educação, que eles financiam com mais recursos do que usam para suas próprias crianças, não é mais um exemplo de qualidade. Tampouco explicamos como recebemos recursos dos brasileiros para cuidarmos da saúde na capital deles, e, no ano passado, fomos campeões em casos de dengue, ao ponto de ameaçar o bom funcionamento da máquina do governo federal e das embaixadas; não explicamos aos irmãos goianos o porquê de eles financiarem nosso sistema de saúde e doentes nossos buscarem apoio médico em suas cidades. Corretamente, defendemos a absoluta necessidade da manutenção do fundo — que a proposta do ministro nunca ameaçou — mas raros entre nós propuseram uma auditoria para que nossa Câmara Legislativa e nosso Tribunal de Contas indicassem se e onde seria possível haver maior eficiência, menos desperdício, menos corrupção, para reduzir o sacrifício do resto do Brasil e ajudar no necessário ajuste nas contas públicas do país.
Não importou o tamanho da crise, o bolso individual continuou na frente do Tesouro Nacional, todo saque aceito, desde que não se toque no interesse pessoal de cada um. O sentimento "no meu pedaço do orçamento não" foi usado pelos que têm poder para vitimar 50 milhões de crianças, porque o Fundeb será reduzido; aos milhões que recebem salário mínimo, porque seus reajustes serão menores; milhões de pobres perderão porque parte dos seus benefícios serão cortados; aos que recebem até R$ 5 mil por mês, porque a isenção que receberiam foi postergada para algum momento no futuro. Em uma atitude suicida, porque o câncer de um país é sua divisão em pedaços que não abrem mão de interesses específicos e imediatos em favor do conjunto do país e seu futuro.
Desde o início, somos divididos socialmente entre escravos e senhores, ricos e pobres, doutores e analfabetos, favelas e condomínios e, politicamente, em sindicatos, partidos, igrejas, municípios, estados, cada um se colocando acima do país. No último mês, esse divisionismo se mostrou descaradamente diante da constatação de que esgotamos os recursos fiscais do país. Mas, quando o ministro da Fazenda apresenta proposta para equilibrar as contas, cada setor da sociedade se levanta e diz: "Não no meu pedaço do orçamento".
Os donos de salários astronômicos não aceitam tocar em qualquer um dos penduricalhos que lhes permite romper o teto constitucional para saquear o Tesouro Nacional. A corporação militar, que deveria dar exemplo de patriotismo, não aceitou abrir mão da aposentadoria, nem mesmo para integrantes cuja carreira se passa quase toda em escritórios e sem riscos de vida. Dentro do próprio governo, surgiram sugestões para desidratar a proposta inicial do seu ministro. Em nome de votos e de interesses que defende, o partido do ministro adotou a regra "no meu pedaço não".
Os agentes do mercado — investidores, especuladores, consumidores, vendedores — não fizeram gestos para colocar o Brasil acima do lucro individual, com sacrifícios de todos para manter a confiança necessária nas nossas finanças, sem o que ameaçamos o valor do real e aumentamos a taxa de juros. Os parlamentares chantagearam o governo ao condicionarem só votar na necessária redução dos gastos estatais se houvesse aumento no valor destinado a suas emendas para comprar votos com dinheiro público; e, irresponsável e desastradamente, fizeram pedaladas jurídicas para burlar a lei e enganar a população.
Nós, brasilienses, unimos-nos contra a proposta do ministro. Pela primeira vez em décadas, partidos que, até a véspera, digladiavam-se, agora tiveram uma só voz: "No valor do Fundo Constitucional do DF não se toca". Não levamos em conta nossa responsabilidade com os demais 200 milhões de brasileiros aos quais servimos como a capital federal e, por isso, devem nos financiar. Não pedimos desculpas pelo fato de que a Secretaria de Segurança, financiada pelo Brasil, participou da tentativa de golpe do 8 de janeiro, ao ser comandada por golpistas que estão em julgamento; tampouco nos desculpamos pelo fato de não sabermos até hoje onde estava nosso governador naquele dia.
Não explicamos aos brasileiros porque nossa educação, que eles financiam com mais recursos do que usam para suas próprias crianças, não é mais um exemplo de qualidade. Tampouco explicamos como recebemos recursos dos brasileiros para cuidarmos da saúde na capital deles, e, no ano passado, fomos campeões em casos de dengue, ao ponto de ameaçar o bom funcionamento da máquina do governo federal e das embaixadas; não explicamos aos irmãos goianos o porquê de eles financiarem nosso sistema de saúde e doentes nossos buscarem apoio médico em suas cidades. Corretamente, defendemos a absoluta necessidade da manutenção do fundo — que a proposta do ministro nunca ameaçou — mas raros entre nós propuseram uma auditoria para que nossa Câmara Legislativa e nosso Tribunal de Contas indicassem se e onde seria possível haver maior eficiência, menos desperdício, menos corrupção, para reduzir o sacrifício do resto do Brasil e ajudar no necessário ajuste nas contas públicas do país.
Não importou o tamanho da crise, o bolso individual continuou na frente do Tesouro Nacional, todo saque aceito, desde que não se toque no interesse pessoal de cada um. O sentimento "no meu pedaço do orçamento não" foi usado pelos que têm poder para vitimar 50 milhões de crianças, porque o Fundeb será reduzido; aos milhões que recebem salário mínimo, porque seus reajustes serão menores; milhões de pobres perderão porque parte dos seus benefícios serão cortados; aos que recebem até R$ 5 mil por mês, porque a isenção que receberiam foi postergada para algum momento no futuro. Em uma atitude suicida, porque o câncer de um país é sua divisão em pedaços que não abrem mão de interesses específicos e imediatos em favor do conjunto do país e seu futuro.
Todo peso do seu mundo
Carrego nos ombros o peso dos escombros da minha casa e dos meus livros transformados em cinzas
Mosab Abu Toha, poeta do sofrimento de Gaza
Vila de férias de Israel em Gaza
A verdadeira notícia do dia não é que o exército israelense montou uma vila de férias para soldados cansados na costa de Gaza, não muito longe de Jabaliya, que esses mesmos soldados vêm destruindo metodicamente nos últimos três meses.
A vila é apenas um lembrete grotesco de quão longe o estado de Israel e a maioria de seu povo se distanciaram da humanidade comum.
As verdadeiras notícias são a morte de mais palestinos, a destruição final do hospital Kamal Adwan em Beit Lahia, o assassinato ou sequestro de funcionários e pacientes e a remoção dos gravemente feridos para outros hospitais, que até mesmo a grande mídia admite que não estão mais funcionando.
A equipe médica foi levada para um destino desconhecido, possivelmente a prisão de Sde Teiman, onde outro médico sequestrado, Dr. Adnan al Bursh, um cirurgião ortopédico e graduado do King's College, foi assassinado. De acordo com Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, ele foi estuprado até a morte.
O heroísmo dos palestinos está resumido na pessoa do Dr. Hussam Abu Safiya, diretor do Hospital Kamal Adwan, que foi espancado com cassetetes e pedaços de pau enquanto era levado embora.
Em outubro, o filho do Dr. Abu Safiya, Ibrahim, foi morto pelos israelenses. O Dr. Abu Safiya foi ferido em um ataque de drone, mas ficou com sua equipe e pacientes até o fim. Seu paradeiro não é conhecido, mas sua vida está obviamente em perigo de ser encerrada da mesma forma que a de Adnan al Bursh.
A vila de férias de Israel para soldados estressados serve café da manhã com café expresso gelado, torradas, bebidas saborizadas e shakes. O café da manhã é seguido por um almoço e jantar de churrasco, com waffles belgas, pretzels frescos e merengues servidos com café no café depois.
Há salas de massagem para corpos cansados e clínicas médicas e odontológicas móveis para check-ups. Há chuveiros, internet, suprimentos ilimitados de pipoca, doces e água fresca, pufes para relaxar, consoles PlayStation para entretenimento e frutas e sorvete "quando o tempo está quente".
A distância de Tel Aviv a Gaza é de pouco menos de 80 quilômetros. Os mesmos prazeres estão disponíveis em Tel Aviv dia e noite, mas a destruição não pode ser vista e os gritos dos feridos e moribundos não podem ser ouvidos em Tel Aviv.
A vila de férias fica perto de Jabaliya, que os soldados que tiravam um tempo para se recuperar de suas tarefas onerosas passaram os últimos três meses destruindo. Dois dias depois do Natal, eles invadiram o hospital Kamal Adwan, destruíram suas unidades especializadas, assassinaram cinco funcionários médicos, marcharam outros para longe em suas roupas íntimas e levaram 350 pessoas para o frio. Cinquenta pessoas que se abrigavam foram mortas em um ataque aéreo a um prédio no terreno do hospital.
O jornalista Gideon Levy comparou esta vila de férias a 'The Zone of Interest', o filme de Jonathan Glazer sobre a vida levada logo depois do muro de Auschwitz pelo comandante do campo, Rudolf Hoss, sua esposa e filhos. Gritos distantes, tiros e a chegada de trens podem ser ouvidos enquanto as crianças brincam no jardim e a esposa cuida das plantas e conversa com os visitantes. O cenário é idílico, as crianças se divertindo muito.
Não muito longe da vila de férias dos soldados israelenses em Gaza, não muito longe dos cafés da manhã de qualidade de hotel, churrascos e suspiros servidos com o café, crianças estão morrendo de frio e fome, sendo baleadas por atiradores e despedaçadas por mísseis e granadas de tanques.
Gaza há muito tempo se transformou em uma reserva de caça humana, com soldados israelenses capturando suas presas e agora indo para suas aldeias para se recuperar do estresse com uma massagem ou relaxando em um pufe.
Israel está comemorando a sequência de "vitórias" do ano, como chama o genocídio em Gaza e a matança de milhares de civis no Líbano. Ele explorou a crise na Síria para roubar mais terras sírias, está lançando ataques com mísseis no Iêmen e está se preparando para um ataque ao Irã.
Netanyahu está vivendo uma fantasia, como um guerreiro judeu que se iguala aos maiores entre eles, quando a história se lembrará dele como um desprezível criminoso de guerra e um covarde assassino em massa de mulheres e crianças.
Há a causa e há a batalha. A Palestina é a causa e Israel nunca a destruirá. Gaza é a batalha, mas, apesar de todo o seu poderio armado, Israel não conseguiu derrotar o Hamas mesmo depois de 15 meses. A outra batalha que perdeu, de forma abrangente e decisiva, é pela opinião pública global. Este é um terreno que nunca recuperará, por mais tempo que consiga manter seu controle sobre a Palestina.
Mesmo que o Hamas não consiga disparar outro tiro, a causa continuará pelas próximas gerações. Os jovens palestinos que sobreviveram a Gaza e seus descendentes não produzirão outro Arafat ou o desprezado Mahmoud Abbas. Nenhum outro tempo será desperdiçado em outro "processo de paz" que foi criado como uma armadilha mortal. O modelo das próximas gerações será Yahya Sinwar e seu slogan é o retorno a um antigo, "o que foi tomado pela força só pode ser tomado de volta pela força".
O mundo não pode pagar um estado como Israel mais do que poderia pagar a Alemanha nazista, uma lição que aprendeu tarde demais. A fúria sem lei de Israel ao longo da história o coloca na mesma categoria e, como nos anos 1930, parece que o mundo ocidental, pelo menos, só vai aprender a lição tarde demais.
Ehud Barak, o ex-primeiro-ministro israelense, disse uma vez que Israel era a vila na selva. Claro, Israel não é uma vila, mas um estado genocida de apartheid. A "selva" é aquela que ele criou e a "lei da selva", não as leis da humanidade, a lei pela qual Israel escolheu viver.
A 'villa' é a vila de férias montada em Gaza e a selva é o apocalipse que os soldados israelenses criaram a uma curta distância. Crianças estão morrendo de fome e frio enquanto comem waffles belgas.
Este exemplo atual da "banalidade do mal" de Hannah Arendt repete o enredo de "Zona de Interesse", com Rudolf Hoss olhando pela janela de sua vila para as crianças brincando no jardim e sua esposa colhendo flores enquanto, do outro lado do muro, os internos do campo estão sendo destruídos.
No discurso de aceitação do Oscar, que ele ganhou pelo filme, o diretor, Jonathan Glazer, disse que na produção de 'The Zone of Interest', "todas as nossas escolhas foram feitas para refletir e nos confrontar no presente, não para dizer 'olhe o que eles fizeram então', mas sim 'olhe o que fazemos agora'. Era Gaza que ele tinha em mente como um exemplo atual de mostrar 'onde a desumanização leva, na pior das hipóteses'.
Rudolf Hoss foi enforcado por seus crimes. Netanyahu foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, mas quando falou perante o Congresso dos EUA em julho de 2024, foi interrompido por aplausos quase a cada minuto e recebeu várias ovações de pé, que é certamente como Hoss teria sido recebido se estivesse falando em um comício do partido nazista.
Por trás das fantasias da "única democracia no Oriente Médio" e do "exército mais moral do mundo", o Ocidente vem humanizando o desumano há décadas. Nunca chamado a prestar contas de seus crimes, Israel tem sido livre para continuar cometendo-os, a ponto de jogar o genocídio na cara do mundo, como se estivesse confiante de que pode escapar mesmo com isso. Protegido pelos EUA, talvez consiga. O que é revelado por trás de uma fachada moral desmoronada é a evidência de "onde a desumanização leva na pior das hipóteses".
Como se estivessem lendo o que estava escrito na parede, estima-se que meio milhão de israelenses tenham partido desde 7 de outubro de 2023. Muitos provavelmente nunca retornarão, pois nenhuma pessoa "normal" gostaria de viver em um ambiente de conflito permanente e risco para si e suas famílias.
Eles estão se separando de uma população que quer o inimigo completamente erradicado e sua terra tomada. Os meios – massacres, atiradores de elite, ataques com mísseis, bombardeios de hospitais, queima de mulheres e crianças vivas e estupros por soldados nas prisões de Israel – não importam. Só o fim importa.
Tal sociedade é "normal" apenas no sentido de que as mesmas visões são compartilhadas por quase todos. Essa é a "normalidade" de pessoas totalmente doutrinadas que são continuamente incitadas pelos fanáticos racistas violentos que se sentam no Knesset e ocupam posições críticas no governo israelense.
Aqueles que não são normais nesse cenário, que estão revoltados com os crimes cometidos em seu nome, estão concluindo que não têm lugar nem futuro para si e suas famílias em Israel.
À medida que o fluxo de emigração aumenta, Israel, em guerra interna e ameaçado externamente, encolherá ainda mais para um reduto teocrático fascista – outra Massada – insultado pelo mundo e condenado ao colapso.
É isso que o futuro parece reservar, a menos que haja algum tipo de reviravolta interna dramática na direção que Israel vem tomando há décadas, e agora isso parece não estar à vista.
Os "sucessos" do ano passado de fato convenceram a camarilha dominante de que a vitória total sobre todos os inimigos de Israel está próxima.
Deve ser mencionado, no entanto, que o parceiro de Israel no crime, os EUA, pode mudar a perspectiva sempre que decidir. Pode eventualmente perder a paciência com Israel, mas isso acontecerá quando e se Israel não servir mais aos seus interesses estratégicos.
A vila é apenas um lembrete grotesco de quão longe o estado de Israel e a maioria de seu povo se distanciaram da humanidade comum.
As verdadeiras notícias são a morte de mais palestinos, a destruição final do hospital Kamal Adwan em Beit Lahia, o assassinato ou sequestro de funcionários e pacientes e a remoção dos gravemente feridos para outros hospitais, que até mesmo a grande mídia admite que não estão mais funcionando.
A equipe médica foi levada para um destino desconhecido, possivelmente a prisão de Sde Teiman, onde outro médico sequestrado, Dr. Adnan al Bursh, um cirurgião ortopédico e graduado do King's College, foi assassinado. De acordo com Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, ele foi estuprado até a morte.
O heroísmo dos palestinos está resumido na pessoa do Dr. Hussam Abu Safiya, diretor do Hospital Kamal Adwan, que foi espancado com cassetetes e pedaços de pau enquanto era levado embora.
Em outubro, o filho do Dr. Abu Safiya, Ibrahim, foi morto pelos israelenses. O Dr. Abu Safiya foi ferido em um ataque de drone, mas ficou com sua equipe e pacientes até o fim. Seu paradeiro não é conhecido, mas sua vida está obviamente em perigo de ser encerrada da mesma forma que a de Adnan al Bursh.
A vila de férias de Israel para soldados estressados serve café da manhã com café expresso gelado, torradas, bebidas saborizadas e shakes. O café da manhã é seguido por um almoço e jantar de churrasco, com waffles belgas, pretzels frescos e merengues servidos com café no café depois.
Há salas de massagem para corpos cansados e clínicas médicas e odontológicas móveis para check-ups. Há chuveiros, internet, suprimentos ilimitados de pipoca, doces e água fresca, pufes para relaxar, consoles PlayStation para entretenimento e frutas e sorvete "quando o tempo está quente".
A distância de Tel Aviv a Gaza é de pouco menos de 80 quilômetros. Os mesmos prazeres estão disponíveis em Tel Aviv dia e noite, mas a destruição não pode ser vista e os gritos dos feridos e moribundos não podem ser ouvidos em Tel Aviv.
A vila de férias fica perto de Jabaliya, que os soldados que tiravam um tempo para se recuperar de suas tarefas onerosas passaram os últimos três meses destruindo. Dois dias depois do Natal, eles invadiram o hospital Kamal Adwan, destruíram suas unidades especializadas, assassinaram cinco funcionários médicos, marcharam outros para longe em suas roupas íntimas e levaram 350 pessoas para o frio. Cinquenta pessoas que se abrigavam foram mortas em um ataque aéreo a um prédio no terreno do hospital.
O jornalista Gideon Levy comparou esta vila de férias a 'The Zone of Interest', o filme de Jonathan Glazer sobre a vida levada logo depois do muro de Auschwitz pelo comandante do campo, Rudolf Hoss, sua esposa e filhos. Gritos distantes, tiros e a chegada de trens podem ser ouvidos enquanto as crianças brincam no jardim e a esposa cuida das plantas e conversa com os visitantes. O cenário é idílico, as crianças se divertindo muito.
Não muito longe da vila de férias dos soldados israelenses em Gaza, não muito longe dos cafés da manhã de qualidade de hotel, churrascos e suspiros servidos com o café, crianças estão morrendo de frio e fome, sendo baleadas por atiradores e despedaçadas por mísseis e granadas de tanques.
Gaza há muito tempo se transformou em uma reserva de caça humana, com soldados israelenses capturando suas presas e agora indo para suas aldeias para se recuperar do estresse com uma massagem ou relaxando em um pufe.
Israel está comemorando a sequência de "vitórias" do ano, como chama o genocídio em Gaza e a matança de milhares de civis no Líbano. Ele explorou a crise na Síria para roubar mais terras sírias, está lançando ataques com mísseis no Iêmen e está se preparando para um ataque ao Irã.
Netanyahu está vivendo uma fantasia, como um guerreiro judeu que se iguala aos maiores entre eles, quando a história se lembrará dele como um desprezível criminoso de guerra e um covarde assassino em massa de mulheres e crianças.
Há a causa e há a batalha. A Palestina é a causa e Israel nunca a destruirá. Gaza é a batalha, mas, apesar de todo o seu poderio armado, Israel não conseguiu derrotar o Hamas mesmo depois de 15 meses. A outra batalha que perdeu, de forma abrangente e decisiva, é pela opinião pública global. Este é um terreno que nunca recuperará, por mais tempo que consiga manter seu controle sobre a Palestina.
Mesmo que o Hamas não consiga disparar outro tiro, a causa continuará pelas próximas gerações. Os jovens palestinos que sobreviveram a Gaza e seus descendentes não produzirão outro Arafat ou o desprezado Mahmoud Abbas. Nenhum outro tempo será desperdiçado em outro "processo de paz" que foi criado como uma armadilha mortal. O modelo das próximas gerações será Yahya Sinwar e seu slogan é o retorno a um antigo, "o que foi tomado pela força só pode ser tomado de volta pela força".
O mundo não pode pagar um estado como Israel mais do que poderia pagar a Alemanha nazista, uma lição que aprendeu tarde demais. A fúria sem lei de Israel ao longo da história o coloca na mesma categoria e, como nos anos 1930, parece que o mundo ocidental, pelo menos, só vai aprender a lição tarde demais.
Ehud Barak, o ex-primeiro-ministro israelense, disse uma vez que Israel era a vila na selva. Claro, Israel não é uma vila, mas um estado genocida de apartheid. A "selva" é aquela que ele criou e a "lei da selva", não as leis da humanidade, a lei pela qual Israel escolheu viver.
A 'villa' é a vila de férias montada em Gaza e a selva é o apocalipse que os soldados israelenses criaram a uma curta distância. Crianças estão morrendo de fome e frio enquanto comem waffles belgas.
Este exemplo atual da "banalidade do mal" de Hannah Arendt repete o enredo de "Zona de Interesse", com Rudolf Hoss olhando pela janela de sua vila para as crianças brincando no jardim e sua esposa colhendo flores enquanto, do outro lado do muro, os internos do campo estão sendo destruídos.
No discurso de aceitação do Oscar, que ele ganhou pelo filme, o diretor, Jonathan Glazer, disse que na produção de 'The Zone of Interest', "todas as nossas escolhas foram feitas para refletir e nos confrontar no presente, não para dizer 'olhe o que eles fizeram então', mas sim 'olhe o que fazemos agora'. Era Gaza que ele tinha em mente como um exemplo atual de mostrar 'onde a desumanização leva, na pior das hipóteses'.
Rudolf Hoss foi enforcado por seus crimes. Netanyahu foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, mas quando falou perante o Congresso dos EUA em julho de 2024, foi interrompido por aplausos quase a cada minuto e recebeu várias ovações de pé, que é certamente como Hoss teria sido recebido se estivesse falando em um comício do partido nazista.
Por trás das fantasias da "única democracia no Oriente Médio" e do "exército mais moral do mundo", o Ocidente vem humanizando o desumano há décadas. Nunca chamado a prestar contas de seus crimes, Israel tem sido livre para continuar cometendo-os, a ponto de jogar o genocídio na cara do mundo, como se estivesse confiante de que pode escapar mesmo com isso. Protegido pelos EUA, talvez consiga. O que é revelado por trás de uma fachada moral desmoronada é a evidência de "onde a desumanização leva na pior das hipóteses".
Como se estivessem lendo o que estava escrito na parede, estima-se que meio milhão de israelenses tenham partido desde 7 de outubro de 2023. Muitos provavelmente nunca retornarão, pois nenhuma pessoa "normal" gostaria de viver em um ambiente de conflito permanente e risco para si e suas famílias.
Eles estão se separando de uma população que quer o inimigo completamente erradicado e sua terra tomada. Os meios – massacres, atiradores de elite, ataques com mísseis, bombardeios de hospitais, queima de mulheres e crianças vivas e estupros por soldados nas prisões de Israel – não importam. Só o fim importa.
Tal sociedade é "normal" apenas no sentido de que as mesmas visões são compartilhadas por quase todos. Essa é a "normalidade" de pessoas totalmente doutrinadas que são continuamente incitadas pelos fanáticos racistas violentos que se sentam no Knesset e ocupam posições críticas no governo israelense.
Aqueles que não são normais nesse cenário, que estão revoltados com os crimes cometidos em seu nome, estão concluindo que não têm lugar nem futuro para si e suas famílias em Israel.
À medida que o fluxo de emigração aumenta, Israel, em guerra interna e ameaçado externamente, encolherá ainda mais para um reduto teocrático fascista – outra Massada – insultado pelo mundo e condenado ao colapso.
É isso que o futuro parece reservar, a menos que haja algum tipo de reviravolta interna dramática na direção que Israel vem tomando há décadas, e agora isso parece não estar à vista.
Os "sucessos" do ano passado de fato convenceram a camarilha dominante de que a vitória total sobre todos os inimigos de Israel está próxima.
Deve ser mencionado, no entanto, que o parceiro de Israel no crime, os EUA, pode mudar a perspectiva sempre que decidir. Pode eventualmente perder a paciência com Israel, mas isso acontecerá quando e se Israel não servir mais aos seus interesses estratégicos.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2025
A nossa avidez infinita
Todos nós sofremos de uma avidez infinita. As nossas vidas são-nos preciosas, estamos sempre alerta contra os desperdícios. Ou talvez fosse melhor chamar a isso Sentido de Destino Pessoal. Sim. Creio que é melhor do que avidez. Deverá a minha vida perder um milésimo de polegada da sua plenitude? É uma coisa diferente avaliar-se a si próprio ou vangloriar-se loucamente. E há então os nossos planos, os nossos ideais. Também eles são perigosos. Podem consumir-nos como parasitas, comer-nos, sorver-nos e deixar-nos exangues e prostrados. E no entanto estamos constantemente a convidar os parasitas, como se estivéssemos ansiosos por sermos sorvidos e comidos. Isto porque nos ensinaram que não há limites para o que um homem pode ser.
Há seiscentos anos um homem era o que o seu nascimento demarcava para ele. Satanás e a Igreja, representante de Deus, lutavam por ele. Ele, pela sua escolha, decidia em parte qual seria o resultado. Mas quer fosse, depois da morte, para o céu ou para o inferno, o seu lugar entre os vivos estava marcado. Não podia ser contestado. Desde então o palco foi novamente arranjado e os seres humanos apenas passeiam nele e, sob este novo ponto de vista, temos uma história à qual responder. Éramos outrora suficientemente importantes para que as nossas almas fossem objeto de luta. Agora cada qual é responsável pela sua própria salvação, que está na sua grandeza. E isso, essa grandeza, é a rocha sobre a qual se fere o nosso coração. Rodeiam-nos grandes inteligências, grandes belezas, grandes amantes e criminosos. Da grande tristeza e desespero dos Werthers e dos Don Juans passámos para as grandes figuras dominantes dos Napoleões; desses passámos para os assassinos que tinham que tinham esse direito sobre as vítimas; aos homens que se sentiam privilegiados por se aproximarem dos outros com um chicote; aos rapazes das escolas e aos funcionários que rugem como leões enfurecidos; a esses proxenetas e outras criaturas dos bas-fond oradores nas cafetarias noturnas que acreditavam que poderiam ser grandes na traição e que poderiam torcer o pescoço daqueles que sentiam ser puros e bons com o laço da sua morbidez; aos sonhos de sombras lindíssimas que se abraçavam num ecrã impecável. Odiamo-nos terrivelmente e punimo-nos por causa destas coisas. O medo de ficar para trás persegue-nos e enlouquece-nos. O medo está em nós como uma nuvem. Forma um clima interior de escuridão. E há ocasionalmente uma tempestade, e ódio, e chuva que fere, a brotar de nós.
Saul Bellow, "Na Corda Bamba"
Há seiscentos anos um homem era o que o seu nascimento demarcava para ele. Satanás e a Igreja, representante de Deus, lutavam por ele. Ele, pela sua escolha, decidia em parte qual seria o resultado. Mas quer fosse, depois da morte, para o céu ou para o inferno, o seu lugar entre os vivos estava marcado. Não podia ser contestado. Desde então o palco foi novamente arranjado e os seres humanos apenas passeiam nele e, sob este novo ponto de vista, temos uma história à qual responder. Éramos outrora suficientemente importantes para que as nossas almas fossem objeto de luta. Agora cada qual é responsável pela sua própria salvação, que está na sua grandeza. E isso, essa grandeza, é a rocha sobre a qual se fere o nosso coração. Rodeiam-nos grandes inteligências, grandes belezas, grandes amantes e criminosos. Da grande tristeza e desespero dos Werthers e dos Don Juans passámos para as grandes figuras dominantes dos Napoleões; desses passámos para os assassinos que tinham que tinham esse direito sobre as vítimas; aos homens que se sentiam privilegiados por se aproximarem dos outros com um chicote; aos rapazes das escolas e aos funcionários que rugem como leões enfurecidos; a esses proxenetas e outras criaturas dos bas-fond oradores nas cafetarias noturnas que acreditavam que poderiam ser grandes na traição e que poderiam torcer o pescoço daqueles que sentiam ser puros e bons com o laço da sua morbidez; aos sonhos de sombras lindíssimas que se abraçavam num ecrã impecável. Odiamo-nos terrivelmente e punimo-nos por causa destas coisas. O medo de ficar para trás persegue-nos e enlouquece-nos. O medo está em nós como uma nuvem. Forma um clima interior de escuridão. E há ocasionalmente uma tempestade, e ódio, e chuva que fere, a brotar de nós.
Saul Bellow, "Na Corda Bamba"
Vencer o pessimismo
Os tempos são propícios ao pessimismo. Em especial quando o discurso público está dominado pelas indignações permanentes, as redes sociais ficaram cada vez mais transformadas em ringues de boxe – mas de rua, sem regras nem cavalheirismos – e os debates deixaram de ser centrados na realidade para se debruçarem sobre as perceções, em que apenas as negativas são valorizadas e dissecadas até muito para lá da exaustão.
O pessimismo é, ainda por cima, acentuado quando olhamos para o mundo e parece que o caos está instalado um pouco por todo o lado. Os sinais são evidentes: cresce o individualismo e perderam-se noções básicas de solidariedade. O humanismo ficou reservado para algumas raras ocasiões – mais para quando “fica bem” do que para quando seria necessário e até urgente.
Muita da raiva que tem sido canalizada para os partidos extremistas e radicais nasce precisamente deste desencanto latente que se vai manifestando entre quem considera que foi ficando para trás, com dificuldades no acesso à habitação, sem perspetivas de melhoria salarial e, pior do que tudo, com a sensação de que o seu papel na sociedade é menos valorizado e, por isso mesmo, mais dispensável.
O pessimismo é, ainda por cima, acentuado quando olhamos para o mundo e parece que o caos está instalado um pouco por todo o lado. Os sinais são evidentes: cresce o individualismo e perderam-se noções básicas de solidariedade. O humanismo ficou reservado para algumas raras ocasiões – mais para quando “fica bem” do que para quando seria necessário e até urgente.
Muita da raiva que tem sido canalizada para os partidos extremistas e radicais nasce precisamente deste desencanto latente que se vai manifestando entre quem considera que foi ficando para trás, com dificuldades no acesso à habitação, sem perspetivas de melhoria salarial e, pior do que tudo, com a sensação de que o seu papel na sociedade é menos valorizado e, por isso mesmo, mais dispensável.
À custa de ouvirmos e lermos que “está tudo pior” e que “nada funciona”, vamos destruindo, aos poucos, o pilar essencial de qualquer sociedade: a confiança em nós próprios, enquanto comunidade. Não é por acaso que os inimigos da democracia e das liberdades são, precisamente, os que mais gostam de espalhar o caos e a desconfiança nos serviços e instituições que deveriam representar-nos e proteger-nos. Aproveitam todos os motivos para desmoralizar espíritos. E usam o pessimismo para destruir aquilo que, no fundo, sempre foi o motor do progresso: a esperança.
É nestes momentos de caos e de pessimistas encartados que se torna mais importante não perder a esperança. E acreditar que o futuro, como tantos exemplos do passado demonstraram, pertence aos otimistas, aos que acreditam no progresso, aos que não desistem de melhorar a vida e as sociedades.
Neste mundo cada vez mais habitado por líderes carrancudos e de ar zangado, em que o sorriso passou até a ser menosprezado por muitas máquinas de campanhas eleitorais, não podemos deixar-nos ceder pelo pessimismo.
Vários trabalhos científicos já identificaram uma relação direta entre o otimismo e a longevidade, por exemplo. Um estudo realizado, em 2019, com base em inquéritos feitos em 15 hospitais dos EUA, revelou que os indivíduos com níveis mais altos de otimismo tinham um risco 35% menor de sofrer de doenças cardiovasculares, bem como uma menor taxa de mortalidade. Por outro lado, outros estudos indicaram que as pessoas mais pessimistas tendem a ter hábitos de vida menos saudáveis e a importar-se menos com o seu bem-estar. Além de que o pessimismo patológico pode ser, muitas vezes, uma autoestrada para a depressão – um fator de risco também para as doenças cardiovasculares.
Da mesma maneira que as perceções erradas devem ser combatidas com factos, também o pessimismo só pode ser atenuado se, a cada motivo de desânimo, conseguirmos apresentar um dado ou uma realidade que incuta esperança. E é nesses momentos em que nos vemos rodeados de guerras, de convulsões e de incertezas, que devemos recordar-nos de que, apesar de tudo, o mundo está melhor do que tantas vezes nos parece ou é difundido pelos agentes do caos.
Mais do que nos concentrarmos nas perceções, temos de regressar ao tempo em que confiávamos, naturalmente, nos factos. E acreditar nos indicadores fornecidos pelas instituições válidas e de trabalho comprovado. Deixar de pensar que cada estudo ou estatística que contrarie a nossa perceção – própria ou induzida por outros – teve origem numa qualquer conspiração, de motivos ocultos. A realidade é bem mais transparente. E a verdade é que, por exemplo, apesar de todos os problemas nos serviços de saúde, a esperança média de vida continua a aumentar em Portugal, as vacinas reduziram a mortalidade infantil em 40% a nível mundial, nos últimos 40 anos, e que, nas décadas recentes, mais de 1,2 mil milhões de pessoas do planeta escaparam à pobreza extrema. E mesmo que ainda esteja muito por fazer no domínio das alterações climáticas, convém ter a noção de que, atualmente, por cada dólar investido em petróleo, gás e carvão, é gasto o dobro na produção de energias renováveis. O mundo precisa de mais otimismo.
Sem vergonha!
Invadem o nosso espaço, ignoram os nossos limites, matam o bom senso. Sem constrangimento, sem pudor. Agem como se o mundo fosse palco para as suas vontades, e as suas exigências.
Gritam alto, gritam tolices, confundindo liberdade de falar com o exibicionismo.
O insulto e a mentira é a norma. A falta de respeito é a nova etiqueta. Insistem, persistem, assediam.
Causam incómodo, constrangimento. Acham-se impunes. Sem vergonha.
Até um dia. Um dia destes. Há limites a impor, e respeito a exigir. Que falta de noção. Que prepotência. Que abuso. Que cinismo.
De quem se fala aqui? De tantos e de tantas, mas de Trump certamente.
Gritam alto, gritam tolices, confundindo liberdade de falar com o exibicionismo.
O insulto e a mentira é a norma. A falta de respeito é a nova etiqueta. Insistem, persistem, assediam.
Causam incómodo, constrangimento. Acham-se impunes. Sem vergonha.
Até um dia. Um dia destes. Há limites a impor, e respeito a exigir. Que falta de noção. Que prepotência. Que abuso. Que cinismo.
De quem se fala aqui? De tantos e de tantas, mas de Trump certamente.
Fim dos tempos
Um dia ainda vamos lembrar dos tempos difíceis de hoje e sentir saudades deles, e vamos chamá-los, com nostalgia, “o tempo em que tínhamos tudo”. Porque já estaremos num tempo em que vai ser mais importante ter uma arma e munição à cabeceira do que comida no refrigerador. A humanidade gosta de correr riscos, ou se não gosta pelo menos dá essa impressão, a julgar pelos riscos desnecessários que corre. Um futuro tipo Mad Max 2 não é mais impossível do que um futuro sem guerras, e ainda existe tanta gente que luta por um mundo sem guerras. “Pobrema”, diria o coronel Galdino, “é que guerra engorda mais o putufu”.
Se a vida é de fato um sonho, como queria o poeta, talvez não seja o sonho de algum redator de Hollywood, e sim o pesadelo de algum professor de filosofia lituano da década de 1930. Em seu mundo paralelo, ele usou, para descrever o mundo industrial pós-moderno, a expressão “cobra que se devora a si mesma deixando apenas matéria negativa em seu lugar”. A imagem o deixou tão fascinado que ele foi o primeiro humano em mais de dois séculos a dar uma guinada na História pela mera intensidade de um pensamento. O mundo em que vivemos é o que ele vem pensando desde então, numa dimensão onde não existe morte.
O parágrafo acima é a sugestão para um começo de conto fantástico, mas seria possível torná-lo mais FC. Digamos que essa imagem mitogeométrica foi divulgada por um grupo de cientistas em experimentos quânticos, e foi ela que sugeriu, a certa altura, a formulação relativamente simples de algum abstruso entrelaçamento infratômico. A descoberta desencadeou, entre outros efeitos medianos, a criação de um videogame simulacrônico onde cada um de nós é apenas um algoritmo ensinado a pensar como cada um de nós. Nós, a Terra, nosso universo, somos um videogame para alienígenas ociosos e com uma dimensão a mais que nós. Jogam conosco com a mesma sede de rejuvenescimento que fazia os deuses do Olimpo descerem aos bailes rurais da Grécia.
O Universo é um “Show de Truman” onde Truman somos sete bilhões de inadvertidos, quebrando a cabeça com os problemas daqui, esquentando o sangue com as patifarias daqui, perdendo o sono por causa das incertezas daqui. E o tempo todo, como naqueles contos do tempo do romantismo, “era tudo um sonho”. Tudo um jogo, não menos honroso que um xadrez, não menos desfrutável do que se fosse um futebol. O mundo não é real? Que seja, mas cada hipótese do Real é um conjunto de regras. É só tê-las em mente e aplicá-las a uma pseudo-existência qualquer. O jogo é para ser jogado, a vida é para ser vivida, mesmo que a gente descubra que é de mentira.
Se a vida é de fato um sonho, como queria o poeta, talvez não seja o sonho de algum redator de Hollywood, e sim o pesadelo de algum professor de filosofia lituano da década de 1930. Em seu mundo paralelo, ele usou, para descrever o mundo industrial pós-moderno, a expressão “cobra que se devora a si mesma deixando apenas matéria negativa em seu lugar”. A imagem o deixou tão fascinado que ele foi o primeiro humano em mais de dois séculos a dar uma guinada na História pela mera intensidade de um pensamento. O mundo em que vivemos é o que ele vem pensando desde então, numa dimensão onde não existe morte.
O parágrafo acima é a sugestão para um começo de conto fantástico, mas seria possível torná-lo mais FC. Digamos que essa imagem mitogeométrica foi divulgada por um grupo de cientistas em experimentos quânticos, e foi ela que sugeriu, a certa altura, a formulação relativamente simples de algum abstruso entrelaçamento infratômico. A descoberta desencadeou, entre outros efeitos medianos, a criação de um videogame simulacrônico onde cada um de nós é apenas um algoritmo ensinado a pensar como cada um de nós. Nós, a Terra, nosso universo, somos um videogame para alienígenas ociosos e com uma dimensão a mais que nós. Jogam conosco com a mesma sede de rejuvenescimento que fazia os deuses do Olimpo descerem aos bailes rurais da Grécia.
O Universo é um “Show de Truman” onde Truman somos sete bilhões de inadvertidos, quebrando a cabeça com os problemas daqui, esquentando o sangue com as patifarias daqui, perdendo o sono por causa das incertezas daqui. E o tempo todo, como naqueles contos do tempo do romantismo, “era tudo um sonho”. Tudo um jogo, não menos honroso que um xadrez, não menos desfrutável do que se fosse um futebol. O mundo não é real? Que seja, mas cada hipótese do Real é um conjunto de regras. É só tê-las em mente e aplicá-las a uma pseudo-existência qualquer. O jogo é para ser jogado, a vida é para ser vivida, mesmo que a gente descubra que é de mentira.
terça-feira, 31 de dezembro de 2024
Pensamentos do Dia
Escusa fazer o balanço do ano. O tempo é contínuo, e a divisão em meses, convencional. Por que ter esperanças no ano próximo e desacreditar o que passou? Eu é que passei não ele.Carlos Drummond de Andrade
Ano ímpar
Por curiosidade, perguntei à IA Gemini como será 2025. E ela disse: Tecnologia em alta. Metaverso em expansão. Sustentabilidade em foco. Economia dinâmica. Obrigado, disse eu!
Não sou de tentar adivinhar o ano de 2025. Gosto, no entanto, de anos ímpares. Porque são ímpares. Únicos. Sem igual. Mas daí a pensar que será inimitável ou excecional, vai uma distância impossível de percorrer.
O que sabemos, por antecipação e pelo calendário, é que Trump regressa à Casa Branca no dia 20 de janeiro, que no final de fevereiro haverá eleições na Alemanha e que a paz na Ucrânia e no Médio Oriente continuará difícil de concretizar. Haverá muitas tréguas, eventualmente, mas as hostilidades não se dissiparão em 2025.
2025 será o que tiver de ser, na verdade. Como todos os outros anos passados e futuros. Num segundo, ultrapassamos a barreira formal e psicológica de 24 para 25. Não dói, não espanta, não atemoriza. É uma festa, um foguete, um desejo.Bebês de Gaza morrem de frio com queda nas temperaturas do inverno
Sila tinha menos de três semanas quando sua mãe, Nariman, percebeu que ela não estava se mexendo.
"Acordei de manhã e disse ao meu marido que o bebê não se mexia há algum tempo. Ele descobriu o rosto dela e a encontrou azul, mordendo a língua, com sangue saindo da boca", diz Nariman al-Najmeh.
Em sua tenda situada na praia no sul de Gaza, Nariman está sentada com seu marido, Mahmoud Fasih, e seus dois filhos pequenos - Rayan, de quatro anos, e Nihad, de dois anos e meio.
A família diz que foi deslocada mais de 10 vezes durante os 14 meses de guerra.
"Meu marido é pescador, somos do norte e ficamos sem nada, mas fizemos isso pelos nossos filhos", diz Nariman em uma entrevista com um cinegrafista freelancer que trabalha com a BBC. Israel impede que a mídia internacional entre e trabalhe livremente em Gaza.
"Quando eu estava grávida, eu pensava em como eu ia comprar roupas para o bebê. Eu estava realmente preocupada porque meu marido não tem trabalho."
A mãe de Sila, Nariman, estava preocupada sobre como cuidaria do bebê durante a gravidez
Durante seus 20 dias de vida, a casa de Sila era o pequeno e superlotado acampamento na "área humanitária" de al-Mawasi, para onde centenas de milhares de palestinos deslocados de outras partes do território receberam ordens do exército israelense para se mudar.
A área sofre com infraestrutura e saneamento precários, além de inundações causadas tanto pela chuva quanto pelas ondas do Mar Mediterrâneo.
"O frio é cortante e severo. A noite toda, por causa do frio, nos amontoamos, nos enrolando um ao lado do outro", diz o pai de Sila, Mahmoud.
"Nossa vida é um inferno. É um inferno por causa dos efeitos da guerra, minha família foi martirizada, e nossa situação é insuportável."
Apesar de dizer aos civis para irem para a área, o exército israelense atacou al-Mawasi repetidamente durante sua campanha contra o Hamas e outros grupos armados em Gaza.
A morte de Sila não foi por bombardeio, mas sim pelas condições punitivas que a guerra está impondo aos civis.
Ela é uma dos seis recém-nascidos que morreram de hipotermia em um período de duas semanas em Gaza — onde as temperaturas noturnas caíram para 7°C (45°F) — de acordo com as autoridades de saúde locais, que também relataram que milhares de tendas foram danificadas pelo clima.
Há pesadas restrições de Israel sobre entregas de alimentos e outras ajudas para Gaza, diz a ONU, agravando a crise humanitária da guerra. Israel nega que esteja restringindo ajuda.
Nariman diz que Sila nasceu em um hospital de campanha britânico estabelecido na área de Khan Younis.
"Depois que dei à luz... comecei a pensar em como poderia garantir o leite dela, fraldas. Tudo o que consegui, consegui com muita dificuldade."
"Eu nunca pensei que daria à luz vivendo em uma tenda, em condições tão frias e congelantes, com água pingando em nós. A água vazava para dentro da tenda, caindo sobre nós. Às vezes, tínhamos que correr para escapar da água - pelo bem do bebê", diz Nariman.
Ainda assim, Sila nasceu sem complicações.
"A saúde dela estava boa, graças a Deus. De repente, ela começou a ser afetada pelo frio", diz Nariman. "Notei que ela estava espirrando e parecia ficar doente por causa do frio, mas nunca imaginei que ela morreria por causa disso."
Sila foi internada na quarta-feira passada no hospital Nasser em Khan Younis, onde o Dr. Ahmad al-Farra, diretor do departamento pediátrico, disse que ela sofreu de "hipotermia grave, levando à cessação dos sinais vitais, parada cardíaca e, eventualmente, morte".
"[No dia anterior] também, dois casos foram trazidos: um era um bebê de três dias e o outro tinha menos de um mês. Ambos os casos envolveram hipotermia grave, resultando em morte", diz o Dr. Farra.
Bebês têm um mecanismo subdesenvolvido para manter sua própria temperatura corporal e podem desenvolver hipotermia facilmente em um ambiente frio. Bebês prematuros são especialmente vulneráveis, e o Dr. Farra diz que os médicos de Gaza observaram um aumento no número de nascimentos prematuros durante a guerra.
As mães também sofrem de desnutrição, o que as deixa incapazes de amamentar seus bebês o suficiente. Há também uma escassez de fórmula infantil devido às entregas de ajuda humanitária serem restritas, de acordo com o Dr. Farra.
Então, no domingo, outro caso trágico.
Do lado de fora do hospital de al-Aqsa, no centro de Gaza, um segundo cinegrafista local trabalhando com a BBC encontrou Yehia al-Batran, que não conseguia conter sua angústia enquanto carregava seu filho bebê morto, Jumaa. Assim como Sila, ele também tinha apenas 20 dias de vida e estava azul de frio.
"Toque nele com sua mão, ele está congelado", disse Yehia. "Nós oito, não temos quatro cobertores entre nós. O que posso fazer? Vejo meus filhos morrendo na minha frente."
"Essas mortes evitáveis expõem as condições desesperadoras e deteriorantes enfrentadas por famílias e crianças em Gaza", disse o diretor regional da Unicef, Edouard Beigbeder, em um comunicado na quinta-feira.
"Com a previsão de que as temperaturas cairão ainda mais nos próximos dias, é tragicamente previsível que mais vidas de crianças sejam perdidas devido às condições desumanas que estão enfrentando."
Sob o som de drones israelenses voando à frente, o pai de Sila, Mahmoud, carregou seu corpo sem vida do hospital Nasser para um cemitério improvisado em Khan Younis. Lá, ele cavou uma pequena cova na areia.
Depois de colocar Sila para descansar, Mahmoud confortou Nariman.
"Os irmãos dela estão doentes, exaustos. Estamos todos doentes. Nossos peitos doem, e temos resfriados por causa do frio e da chuva", diz Nariman. "Se não morrermos da guerra, estamos morrendo de frio."
"Acordei de manhã e disse ao meu marido que o bebê não se mexia há algum tempo. Ele descobriu o rosto dela e a encontrou azul, mordendo a língua, com sangue saindo da boca", diz Nariman al-Najmeh.
Em sua tenda situada na praia no sul de Gaza, Nariman está sentada com seu marido, Mahmoud Fasih, e seus dois filhos pequenos - Rayan, de quatro anos, e Nihad, de dois anos e meio.
A família diz que foi deslocada mais de 10 vezes durante os 14 meses de guerra.
"Meu marido é pescador, somos do norte e ficamos sem nada, mas fizemos isso pelos nossos filhos", diz Nariman em uma entrevista com um cinegrafista freelancer que trabalha com a BBC. Israel impede que a mídia internacional entre e trabalhe livremente em Gaza.
"Quando eu estava grávida, eu pensava em como eu ia comprar roupas para o bebê. Eu estava realmente preocupada porque meu marido não tem trabalho."
A mãe de Sila, Nariman, estava preocupada sobre como cuidaria do bebê durante a gravidez
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| Mahmoud leva o corpo da filha para enterrar na areia |
Durante seus 20 dias de vida, a casa de Sila era o pequeno e superlotado acampamento na "área humanitária" de al-Mawasi, para onde centenas de milhares de palestinos deslocados de outras partes do território receberam ordens do exército israelense para se mudar.
A área sofre com infraestrutura e saneamento precários, além de inundações causadas tanto pela chuva quanto pelas ondas do Mar Mediterrâneo.
"O frio é cortante e severo. A noite toda, por causa do frio, nos amontoamos, nos enrolando um ao lado do outro", diz o pai de Sila, Mahmoud.
"Nossa vida é um inferno. É um inferno por causa dos efeitos da guerra, minha família foi martirizada, e nossa situação é insuportável."
Apesar de dizer aos civis para irem para a área, o exército israelense atacou al-Mawasi repetidamente durante sua campanha contra o Hamas e outros grupos armados em Gaza.
A morte de Sila não foi por bombardeio, mas sim pelas condições punitivas que a guerra está impondo aos civis.
Ela é uma dos seis recém-nascidos que morreram de hipotermia em um período de duas semanas em Gaza — onde as temperaturas noturnas caíram para 7°C (45°F) — de acordo com as autoridades de saúde locais, que também relataram que milhares de tendas foram danificadas pelo clima.
Há pesadas restrições de Israel sobre entregas de alimentos e outras ajudas para Gaza, diz a ONU, agravando a crise humanitária da guerra. Israel nega que esteja restringindo ajuda.
Nariman diz que Sila nasceu em um hospital de campanha britânico estabelecido na área de Khan Younis.
"Depois que dei à luz... comecei a pensar em como poderia garantir o leite dela, fraldas. Tudo o que consegui, consegui com muita dificuldade."
"Eu nunca pensei que daria à luz vivendo em uma tenda, em condições tão frias e congelantes, com água pingando em nós. A água vazava para dentro da tenda, caindo sobre nós. Às vezes, tínhamos que correr para escapar da água - pelo bem do bebê", diz Nariman.
Ainda assim, Sila nasceu sem complicações.
"A saúde dela estava boa, graças a Deus. De repente, ela começou a ser afetada pelo frio", diz Nariman. "Notei que ela estava espirrando e parecia ficar doente por causa do frio, mas nunca imaginei que ela morreria por causa disso."
Sila foi internada na quarta-feira passada no hospital Nasser em Khan Younis, onde o Dr. Ahmad al-Farra, diretor do departamento pediátrico, disse que ela sofreu de "hipotermia grave, levando à cessação dos sinais vitais, parada cardíaca e, eventualmente, morte".
"[No dia anterior] também, dois casos foram trazidos: um era um bebê de três dias e o outro tinha menos de um mês. Ambos os casos envolveram hipotermia grave, resultando em morte", diz o Dr. Farra.
Bebês têm um mecanismo subdesenvolvido para manter sua própria temperatura corporal e podem desenvolver hipotermia facilmente em um ambiente frio. Bebês prematuros são especialmente vulneráveis, e o Dr. Farra diz que os médicos de Gaza observaram um aumento no número de nascimentos prematuros durante a guerra.
As mães também sofrem de desnutrição, o que as deixa incapazes de amamentar seus bebês o suficiente. Há também uma escassez de fórmula infantil devido às entregas de ajuda humanitária serem restritas, de acordo com o Dr. Farra.
Então, no domingo, outro caso trágico.
Do lado de fora do hospital de al-Aqsa, no centro de Gaza, um segundo cinegrafista local trabalhando com a BBC encontrou Yehia al-Batran, que não conseguia conter sua angústia enquanto carregava seu filho bebê morto, Jumaa. Assim como Sila, ele também tinha apenas 20 dias de vida e estava azul de frio.
"Toque nele com sua mão, ele está congelado", disse Yehia. "Nós oito, não temos quatro cobertores entre nós. O que posso fazer? Vejo meus filhos morrendo na minha frente."
"Essas mortes evitáveis expõem as condições desesperadoras e deteriorantes enfrentadas por famílias e crianças em Gaza", disse o diretor regional da Unicef, Edouard Beigbeder, em um comunicado na quinta-feira.
"Com a previsão de que as temperaturas cairão ainda mais nos próximos dias, é tragicamente previsível que mais vidas de crianças sejam perdidas devido às condições desumanas que estão enfrentando."
Sob o som de drones israelenses voando à frente, o pai de Sila, Mahmoud, carregou seu corpo sem vida do hospital Nasser para um cemitério improvisado em Khan Younis. Lá, ele cavou uma pequena cova na areia.
Depois de colocar Sila para descansar, Mahmoud confortou Nariman.
"Os irmãos dela estão doentes, exaustos. Estamos todos doentes. Nossos peitos doem, e temos resfriados por causa do frio e da chuva", diz Nariman. "Se não morrermos da guerra, estamos morrendo de frio."
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