terça-feira, 1 de outubro de 2024

Pensamento do Dia


 

O conquistador

Para o governo de Netanyahu, o fim da guerra é a guerra

Um outro olhar para o coronelismo

Associamos o coronelismo a toda concentração de poder. A expressão exemplifica a influência política dos donos de terra no Nordeste na metade do século passado, e une Lira, Calheiros, Sarney, se espalhou para todas as análises políticas. Carmén Lúcia, essa semana, falou em “coronelismo digital” ao falar do poder das plataformas e empresas de tecnologia. O antropólogo Jorge Mattar Villela refuta a origem do conceito. Ao invés de um poder centralizador que domina o Estado, ele constrói a ideia de alianças temporárias de famílias, vinculadas a interesses políticos e vinganças.

O jurista Victor Nunes Leal foi quem divulgou a ideia em seu livro “Coronelismo, Enxada e Voto”, de 1948, em que relatou a relação e a influência dos grandes proprietários de terra com o poder público, trabalho e democracia – marcadamente nas eleições, com o voto de cabresto nos currais eleitorais, isto é, gente que sob seu domínio votava no candidato do “coroné”. Legal lembrar que o título militar foi dado aos fazendeiros que apoiaram as ações da Guarda Nacional contra as revoltas populares, entre a Regência e o início da República. A Guarda findou, ficou o prestígio.


Vilela considera uma explicação simplista acreditar no poder centralizado e exclusivista do coronel, do “soba”, do “chefete do baraço e do cutelo”, do “mandão de campanário”. Ele enxerga um poder descentralizado e baseado em alianças familiares temporárias alimentadas por interesses políticos e vinganças de sangue – e muitas vezes essas vinganças, que eram comuns, determinavam as celebrações ou rupturas desses acordos.

“Nas grandes brigas de famílias, havia gente capaz de arregimentar, ou atrair, vários microgrupos de base familiar formando bandos instáveis de mais de cem homens armados, voltados para o ataque a um inimigo”, explica no texto. O antropólogo define que a organização social e a política dessa região era estruturada por essas redes familiares, deixando o Estado em segundo plano.

Em um lugar em todo mundo vestia calça, camisa e um revólver ou espingarda, um “povo em armas”, com ele escreve, existiam altos níveis de autonomia nos conflitos. Como se poderia viver sob esse regime de submissão a um senhor de terras sem que houvesse um episódio de revolta?, pergunta. A gestão municipal ficava à margem ou era tragada por essas intrigas.

Ao invés do coronel, ele destaca o inspetor de quarteirão, um delegado que mantinha a ordem pública onde não havia quadros institucionais de segurança. Eram mediadores que “impediram que uma convivência de conflito iminente escapasse para o conflito permanente” costurando vínculos e resolvendo desavenças sob o manto da violência. Expulsava ladrões, combatia cangaceiros, silenciava embates entre vizinhos, com o auxílio de parentes para formar esse grupo.


Seu trabalho, um mergulho de 20 anos em mais de um século de história social e política, desembocou em três livros e está resumido no artigo A Antropologia do Sertão de Pernambuco. Pajeú e Navio, publicado na Revista de Antropologia da UFSCar.

Ao fazer uma ponte com a política atual, o pesquisador disse à Revista da Fapesp que “de uma certa forma, essas coisas acontecem em qualquer lugar. Podem acontecer, por exemplo, na avenida Faria Lima, em São Paulo. Um escritório lobista da Faria Lima também é power-user da democracia e da economia. Não é uma coisa de gente pobre periférica, é de gente que está colada à obtenção de recursos gerados no Estado nacional. A segmentaridade do voto, as complexas negociações intergrupais, as alianças familiares e locais continuam presentes, e dão o tom ao processo”, conclui.

Onde estão os árabes?

Em meio ao barulho das bombas que nestes dias sacodem Gaza e Beirute, o silêncio dos países árabes é surpreendente. Para além de algumas palavras de condenação e de apelos banais ao diálogo por parte dos seus líderes, não houve medidas significativas contra os excessos cometidos por Israel em resposta ao ataque infame que sofreu há um ano pelas mãos do Hamas. Nem sequer se viram manifestações nas ruas, algo que aconteceu em numerosos países ocidentais e noutros de maioria muçulmana.


Dos sete países árabes que mantêm relações diplomáticas com Israel (excluindo o Sudão, atolado numa guerra civil), apenas a Jordânia, que as estabeleceu em 1994, retirou o seu embaixador. O Egito, o primeiro a assinar um tratado de paz com o Estado Judeu em 1979, tenta um difícil equilíbrio como mediador entre ele e o Hamas. Os Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Marrocos, por sua vez, mantiveram os laços estabelecidos a partir dos Acordos de Abraham (2020). E a Arábia Saudita não fechou a porta à sua adesão no futuro.

Esta atitude entra em conflito com décadas de utilização da causa palestina como elemento unificador. Assim, são feitos alguns gestos de apoio (como a adesão ao caso de genocídio contra Israel levado a cabo pela África do Sul perante o Tribunal Internacional de Justiça ), enquanto são tomadas medidas contra o ativismo pró-palestiniano (como aconteceu na Arábia Saudita, no Egito ou na Jordânia).

A realidade é que os líderes árabes não querem confrontar Israel. Na maioria dos casos, isto deve-se às suas relações com os Estados Unidos, um país do qual dependem para a sua segurança (no caso das monarquias do Golfo) ou para a sua sobrevivência financeira (Egito e Jordânia). Mas nem mesmo alguém como o presidente sírio, Bashar al Assad, um aliado do eixo de resistência liderado pelo Irã, fez até agora qualquer tentativa de se manifestar em apoio ao Hezbollah, a milícia libanesa que salvou o seu regime da revolta popular.

O que todos têm em comum é o medo da mobilização nas ruas devido à falta de legitimidade democrática dos seus governos. E a causa palestina tem sido historicamente um catalisador, primeiro nas mãos dos esquerdistas e, mais recentemente, dos islamitas. Não importa quantos excessos Israel cometa, no fundo está a fazer o trabalho sujo de pôr fim aos islamistas, sejam eles os sunitas do Hamas ou os xiitas do Hezbollah.

Semeiam o descontentamento e a maldade

Dois terços da gente do meu país leem esta espécie de jornal; leem de manhã e à noite coisas escritas neste tom, são trabalhados permanentemente, incitados, açulados; semeiam-se neles o descontentamento e a maldade, e a meta final de tudo isso é outra vez a guerra, a próxima guerra, que já está chegando e que, sem dúvida alguma, será muito mais horrenda do que a última. Tudo isso é claro e simples, qualquer pessoa pode compreendê-lo; com uma hora de meditação todos poderiam chegar ao mesmo resultado. Mas ninguém quer agir assim, ninguém quer evitar a próxima guerra, quer livrar-se nem livrar a seus filhos das mortes aos milhares, nem quer parar por um instante e pensar voluntariamente.

Uma hora de reflexão, um momento de entrar em si mesmo e perguntar pela parte da culpa que lhe cabe nesta desordem e na maldade que impera no mundo… mas ninguém quer fazê-lo! E assim tudo continua como estava e a próxima guerra vai-se preparando a cada dia que passa, com o auxílio de milhares e milhares de pessoas diligentes. Estas coisas sempre me desesperam: para mim não existe “pátria”, não existe “ideal” algum. Tudo isso não passa de frases inculcadas por aqueles que preparam a próxima carnificina. Não tem sentido pensar ou escrever algo que seja humano, de nada vale ter boas ideias na mente… são duas ou três pessoas que agem assim; em compensação, há milhares de jornais, de revistas, de conferências, reuniões públicas ou secretas que, dia após dias insistem no contrário, e acabarão por alcançá-lo.

Hermínia permaneceu ouvindo com interesse.

- Sim - disse em seguida -, você tem razão. Naturalmente, haverá outra guerra; não é preciso ler nos jornais para saber. É certo, embora isso nos entristeça, que o homem, apesar de tudo e de todos, apesar do que possa fazer, o homem tem inevitavelmente de morrer. A luta contra a morte, meu caro Harry, é sempre uma coisa bela, nobre, prodigiosa e digna, da mesma forma que a luta contra a guerra. Mas há de ser sempre uma quixotada sem esperanças.

- Talvez seja verdade - exclamei enérgico -, mas com verdades semelhantes a esta de que temos todos de morrer e que, por conseguinte, tudo é igual é que convertemos a vida em algo monótono e estúpido. Desta forma teremos de renunciar a tudo, ao espírito, às aspirações; teremos de destruir a humanidade, teremos de permitir que reine o egoísmo e o dinheiro e esperar a próxima guerra com um copo de cerveja à mão.

Hermann Hesse, "O Lobo da Estepe"

Todos os tons do setembro amarelo no fim

Começou o outono em Nova York. Estive concentrado na cidade porque os líderes mundiais falariam na ONU. E também porque minha filha Maya estava por lá. O que tem a ver uma coisa com a outra? O trânsito. Ela precisava se deslocar entre um e outro evento sobre defesa do oceano e fez uma curta viagem à Califórnia. Sofreu com as longas viagens de táxi.

Os discursos na ONU se sucediam indiferentes aos pequenos transtornos urbanos. Imagino aquele prédio como um imenso transatlântico com seus oradores navegando num mar tempestuoso, repleto de icebergs.

Ouço uma voz em português de nosso presidente advertindo para a catástrofe climática. Soa sensato, mas, a 8 mil quilômetros de distância, o que sentimos ainda é o calor do fogo, o cheiro de fumaça. Estamos destruindo o planeta com regularidade, sem discriminação.

O outono começa por lá. Por aqui o inverno acabou. Ainda restam algumas folhas de amendoeira não recolhidas na Rua Almirante Saddock de Sá.


O amigo Py, psicanalista, me envia uma rápida fala sobre o setembro amarelo. É o mês da prevenção ao suicídio. Ele alerta sobre o suicídio lento do consumo exagerado de tabaco e álcool. E me pergunta se a agressão ao meio ambiente não é um tipo de suicídio coletivo.

De certa forma, sim, amigo. Não há perigo de o planeta acabar, mas sim de a vida humana tornar-se inviável nele. No entanto não é esse o suicídio que Albert Camus chama de maior problema filosófico em seu célebre “O mito de Sísifo”. Para ele, a questão estava na consciência da falta do sentido da vida e em como responder a essa situação absurda. Atribuir um sentido ou abandonar o mundo.

A destruição ambiental não é uma escolha consciente. Na verdade, é resultado do gozo desenfreado da vida, por meio da produção e do intenso consumo. As pessoas não dizem “adeus, vida cruel!”. Pelo contrário, celebram e querem fruir cada vez mais.

No setembro por aqui, é a primavera que começa. Ainda há folhas secas na Rua Saddock de Sá, que esteve coberta com um colorido tapete de folhas de amendoeira.

Talvez um dado novo em nossa prevenção do suicídio seria observar o avanço das empresas de aposta. Os brasileiros jogam mais de R$ 200 bilhões. Fala-se que há 13 milhões de inadimplentes. Isso é um risco para a estrutura das famílias, para a saúde mental.

As empresas de aposta patrocinam muita coisa, clubes e imprensa. O governo espera recolher imposto para obras sociais. Mas precisamos fiscalizar e definir campanhas educativas. Caso contrário, deixaremos passar em branco o setembro amarelo.

Num artigo que escrevi sobre os discursos da ONU, mencionei também as guerras. Não apenas na Ucrânia ou em Gaza. Agora se alastram pelo Líbano, já existem em lugares que ignoramos, como o Iêmen, a República Democrática do Congo.

Esse foi um dos temas no transatlântico dos grandes discursos, dos grandes pianistas. A semana acabou com mais notícias de guerra. Os líderes voltaram para casa, minha filha voou para a Europa. Restou setembro com seus tons de amarelo. Não faço mais discursos, limito-me a interpretá-los por dever de ofício. A esta altura, sem menosprezar a retórica, prefiro alguma ações concretas: elas andam em falta.

Neste setembro, peço desculpas não só a Camus, como aos existencialistas com suas teses sobre o absurdo da vida, a necessidade de cravar as unhas no abismo e de encontrar um sentido para ela.

Tive a sorte de viver muitos anos, acabei me acostumando, sem grandes inquietações. Reduzi expectativas. Felicidade para mim é apenas um pedaço da Lagoa onde sopra uma brisa: este ligeiro excesso de oxigênio me inebria. E, com perdão dos grandes mestres orientais, meditar para mim é boiar de costas e deixar que os pensamentos flutuem e se tornem tão leves como o corpo.

Por isso, meu amigo Py, não sei se meu argumento é uma blasfêmia no coração do setembro amarelo. Penso nas grandes turbulências aéreas: colocar a máscara de oxigênio e, então, ajudar os outros. Dito isso, continuaremos tentando prevenir suicídios, inclusive o da Humanidade.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Mais de 1 milhão passam fome em São Paulo

Mais da metade da população da cidade de São Paulo possui algum grau de insegurança alimentar. É o que afirma a pesquisa intitulada "I Inquérito sobre a Situação Alimentar do Município de São Paulo", realizada neste ano por duas universidades paulistas, a Unifesp e a UFABC.

Segundo o estudo, divulgado em 20 de setembro, 12,5% dos moradores da cidade, cerca de 1,4 milhão de pessoas, experimentam insegurança alimentar grave. Ou seja, passam fome. A maioria (72%) vive nas periferias e é de trabalhadores informais (52%), principalmente mulheres que trabalham como faxineiras e diaristas (34%).

Já a insegurança alimentar moderada, quando há uma redução quantitativa de alimentos, atinge 13,5% dos moradores, e 24,5% experimentam insegurança alimentar leve, ou seja, não têm certeza se terão acesso a alimentos no futuro próximo.

De acordo com a pesquisa, os moradores da cidade mais rica do país passam mais fome do que o brasileiro médio. Em São Paulo, a insegurança moderada e grave afetaria 38,7% dos lares com rendimentos de até meio salário mínimo per capita, quase o dobro da média nacional, 22%. São dados chocantes.

O alto custo de vida em São Paulo faz com que muitos moradores tenham que tomar decisões difíceis todos os dias. Os entrevistados que passam fome dizem que deixam de comprar alimentos para adquirir passagens de ônibus e metrô ou pagar contas. Mais de um terço dos entrevistados afirmaram ter feito algo que causou vergonha, constrangimento ou tristeza para conseguir comida.

Em termos de políticas públicas, o cenário é extremamente desafiador. Mais de dois terços das pessoas que passam fome (68%) não são beneficiárias do programa Bolsa Família. No entanto, a participação no programa não garante a segurança alimentar. Apenas 27,1% dos domicílios com beneficiários do Bolsa Família possuem segurança alimentar.

Além disso, 89,5% não recebiam auxílio-gás, 76,3% não haviam acessado um restaurante popular ou cozinha comunitária, e 54,5% não haviam recebido doação de alimentos. Isso significa que importantes iniciativas ligadas à formulação e execução de políticas sociais e econômicas, em vários níveis governamentais, ainda são insuficientes para combater a fome na maior cidade do Brasil.

No entanto, em vez de iniciar um necessário diálogo entre pesquisadores e gestores, a pesquisa foi mal recebida pela prefeitura.

De acordo com um comunicado emitido pela Secretaria de Comunicação da gestão municipal, seria irresponsável abordar um assunto tão sério em meio às eleições. Além disso, afirma-se que os dados apresentados contrariam aqueles coletados pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) em 2023, de que 1,37 milhão de pessoas sofrem de insegurança alimentar grave no estado de São Paulo. Na pesquisa produzida pelas universidades, seriam 1,4 milhão de pessoas passando fome apenas na capital paulista.

Se a ideia é justamente impactar atuais e futuros tomadores de decisão, não há melhor momento para divulgar os dados. Contudo, tratar de "um assunto tão sério", e que envolve políticas relacionadas a vários níveis de governo, de fato parece ter pouco espaço em meio a debates eleitorais superficiais e tomados por agressões instagramáveis.

Imoralidade à velocidade de foguete

A defesa deve ser sempre proporcional ao ataque. Quando desproporcional, é evidente que existe uma tendência de dominar que vai além da moralidade. Um país que faz essas coisas — e falo de qualquer país –, essas ações são imorais
Papa Francisco

Política podre incita violência

O Brasil é um país violento, líder em número absoluto de homicídios no ranking de 2023 das Nações Unidas. Ainda que os assassinatos tenham caído 6% neste ano, o país ostenta números horripilantes, com 16,5 mortos por 100 mil habitantes, 18º lugar entre 196 nações. Mata-se por controle do tráfico, dinheiro, poder, ciúme; por motivo torpe ou sem qualquer motivo. Mata-se por desavença política. Por aqui, em vez de solucionar conflitos, a política tem sido combustível para a violência – que só aumenta.

Sete candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador foram mortos durante a campanha eleitoral deste ano. E há registro de 455 casos de violência contra líderes políticos da extrema esquerda e esquerda, direita e extrema direita, e até de centro, incluindo tentativas de assassinato, ameaças à vida e agressões.

Os números do Observatório da Violência Política e Eleitoral da Unirio, que desde 2019 coleta e analisa dados nesta seara, apontam que a disputa municipal de 2024 já é a mais feroz da série histórica. Até setembro de 2020, foram registradas 295 ocorrências; em 2022, 431. Confirmam, assim, que a violência cresce de forma consistente e contínua de eleição em eleição.


As tentativas de explicar essa escalada recaem sobre o ambiente de ódio disseminado pelas redes sociais, que estimulariam agressões, até com “convites” a seguidores para acerto de contas com adversários. A análise é correta, até porque as redes preenchem o sentimento anti-tudo de muitos, criando nichos de conforto dentro de verdadeiras gangues virtuais capazes de absurdos. O 8 de janeiro comprova isso.

Mas o buraco, como sempre, é mais fundo. O domínio das redes é uma ação política, orientada e financiada por políticos, para o bem ou para o mal.

O ex Jair Bolsonaro, o deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL), o mais votado do país, o autointitulado coach Pablo Marçal (PRTB), candidato a prefeito de São Paulo, são alguns exemplos do vale tudo no uso desses canais. Portanto, o problema não são as redes e sim o uso deletério delas.

São os políticos que incitam a violência; pagam por impulsão e engajamento. É o exercício da política que está podre.

Muito antes da cadeirada do tucano de ocasião José Luiz Datena em Marçal, e de o assistente de Marçal socar o marqueteiro de Ricardo Nunes (MDB), ou do prefeito de Teresina, Dr. Pessoa (PRD), candidato à reeleição, dar uma cabeçada ao vivo e em cores no adversário Francinaldo Leão (PSOL), a degradação da política já estava escancarada. No Congresso Nacional o exercício parlamentar está resumido a selfies, as sessões nas comissões ou no plenário têm sido um festival de agressões verbais e até pancadaria com intuito de gerar vídeos para as redes. Reina a política dos likes.

Inventam-se fatos, falam-se impropérios sobre opositores, criam-se vídeos falsos com auxílio de inteligência artificial para obter mais seguidores. É preciso ter milhares, milhões, nem que sejam robôs, em uma corrida alucinada que passou a ditar o voto e, inclusive, sequestrou o jornalismo. Não são poucas as reportagens sobre o sobe e desce de seguidores de políticos, associando o volume à força de A ou B.

Mas o X do problema (desculpem-me pela obviedade barata) talvez resida no sucesso das mentiras nesse ambiente. Cabe aqui citar o levantamento do New York Times apontando que em apenas cinco dias (de 16 a 20/9), um terço das 171 postagens de Elon Musk, dono do X, com 200 milhões de seguidores no ex-Twitter, foram mentiras deslavadas sobre Kamala Harris em favor de Donald Trump, candidato preferido do milionário.

Políticos mentem desde sempre – não foram as redes que inventaram isso. Prometem o que não cumprem, são genéricos e não raro tratam o eleitor como otário. O palanque virtual deu mais eco às mentiras, replicadas a baixo custo e com a facilidade de um clique. Um crime digital indutor de violência real. É o que está posto ao eleitor que vai às urnas daqui a exatos sete dias. Esforço-me por algum otimismo.

O homem e o mundo

Um homem perseguido, quer porque ele próprio fez dos outros perseguidores, quer porque a sua miserável imaginação inventa legiões de inimigos cheios de más intenções, num caso como no outro um homem destes tem, para além da infelicidade, uma falha moral: porque existe uma desonestidade básica na mania da perseguição seja ela qual for. A propósito, é óbvio que o sofrimento, a solidão, os acidentes e a doença atingem mais um homem destes do que outros, ou seja - todos nós. Pela sua própria natureza, o homem desconfiado é mais propício à desgraça. A desconfiança, como o ácido, consome quem a contém e devora o próprio desconfiado: proteger-se noite e dia do género humano, passar a vida a engendrar esquemas a fim de evitar tramoias e intrigas, e que truques usar a fim de farejar de longe a rede estendida aos pés - tudo isto é causa de danos irreparáveis. E são estas coisas que afastam o homem do mundo.

Amos Oz

A palavra incontornável

De vez em quando o povo descobre (ou inventa) uma palavra. Ela começa com um susto-de-novidade, projetando uma luz diferente e interessante na frase onde se instala. “Que maneira legal de dizer isto”, pensam as pessoas, e se danam a usá-la a torto e a direito.

É nova. É diferente. Desperta a atenção de quem ouve, e é sempre bom ter um jeito-de-dizer capaz de arrancar as pessoas do piloto-automático. Tirar as pessoas do transe-zumbiforme em que elas parecem estar mergulhadas, até mesmo quando estão andando, olhando, falando alto.

É o caso atual da palavra “incontornável”. Num efeito curiosamente metalinguístico, ficou difícil contornar essa palavra, que volta e meia insiste em se postar à nossa frente, mãos nos quadris, atitude desafiadora. Não importam as voltas e volteios do nosso discurso verbal, a gente acaba indo na direção dela, tentando contorná-la como um motorista contorna um girador, mas... debalde.

Depois que esbarrei nela cinco vezes seguidas antes das três da tarde, nas redes sociais, fiz uma promessa muda de nunca utilizá-la. Percebi que já estava se fossilizando em clichê, adquirindo as mesmas propriedade anti-pensantes da maioria do nosso vocabulário comum. Estava indo para a mesma prateleira onde já estão, por exemplo, instigante e camadas.

“Camadas” é a besta-sinistra do meu confrade Lira Neto, cuidador do idioma, a quem irrita a onipresença dessa metáfora em tudo quanto é assunto. Tudo hoje em dia se define em termos de “camadas”.

Há, de fato, muitas camadas superpostas no uso desse termo. No começo de tudo, foi útil trazer esse aspecto para o meio da discussão, porque todo mundo começou a admitir que, sim, não só no mundo físico como no mundo das idéias tudo se organiza em películas superpostas. Tudo é constituído de layers, como as cascas geológicas que se recobrem umas às outras em nossos continentes. Por baixo de alguma coisa há sempre uma coisa diferente.

Já disse algum pensador que se arranharmos a superfície de um cínico vamos sempre encontrar um idealista desiludido. E Fausto Fawcett, o Bardo Cibernético de Copacabana, já observou que se a gente raspar um Jetson vai encontrar por baixo um Flintstone. Camadas.

Por que apareceu, de um momento para outro, essa necessidade de definir tudo em termos de camadas? Porque se trata de uma palavra instigante, e aí chegamos a esse outro piercing verbal, penduricalho que, por volta dos anos 1980, todo mundo trazia na ponta da língua.Falei disso aqui.

São palavras que já existiam no idioma mas estavam meio que na despensa ou no freezer, e quando alguém lhes dá uma requentada e as traz para o centro da mesa não chegam pra quem quer.

É longa a lista de palavras atualmente na moda, e já com verniz de clichê, a ponto de franzir a testa de muita gente. Ressignificar. Potente. Território. Narrativa. Imersão. Literalmente. Icônico. Multifacetado. Resiliência. Empoderamento.

Estas palavras são idiotas? De jeito nennhum, são palavras bastante úteis e expressivas, e eu já devo ter usado todas elas. Só que, no momento, faço questão de não usar mais – porque já prevejo as caretas resignadas de muita gente. “Ai meu Deus, de novo essa palavra idiota, não aguento mais.”

As palavras são como um chiclete, começam com um gosto agradável de hortelã ou de cereja, mas esse gosto logo desaparece, vai-se embora o susto-de-novidade que uma palavra invulgar contém. O açúcar se dissolve todo, e fica só a borrachinha. O chiclete vira clichê.

Penso às vezes que isto acontece porque vivemos numa bolha cultural onde é muito rápido, para uma palavra, entrar na moda; e pelas mesmas razões é muito rápido tornar-se lugar-comum. Num país de mais de 200 milhões de usuários do idioma, essas sucessões de modismos e clichês se dão numa bolha minúscula de meio milhão a um milhão de leitores, se tanto.

O ricochete interno nas paredes da bolha (leia-se imprensa eletrônica; leia-se redes sociais) é muito rápido. As palavras viralizam nas redes sociais, com todo seu charme de novidade e potência (êpa) expressiva; e logo viralizam mesmo, literalmente (êpa), como vírus, doença, uma coisa chata que quando a gente vê já contraiu.

Alguns meses de uso intenso, de incômoda reiteração... e pronto, a palavra está puída, desgastada, desvalorizada, eu diria quase prostituída por tantos usos e abusos.

Pobres das palavras, que culpa alguma carregam. Pobre da palavra incontornável, quando descobre que não é indispensável, inevitável, imprescindível. 

'Deixa ele ser rico!'

No Brasil, prolifera a categoria do pobre de direita. Depois que a educação política sumiu das nossas vidas, a direita assumiu um glamour especial que a esquerda não tem. Tudo que é coletivo não tem charme, não atrai a admiração das pessoas, não vira moda. Ser rico, não importa como, passou a ser a grande meta, o grande sonho de todos. Uma pessoa rica é a mais admirada. Não importa como o dinheiro foi obtido, se de modo desonesto, esperto ou enganando muita gente, é ainda mais admirado.


Em um país onde os avanços sociais, que continuam acontecendo, perderam a característica de conquista coletiva, a riqueza desmedida, a ostentação e a prosperidade assumem características individuais de talento, de escolha divina, de mérito planetário, de algo que você tem que continuar perseguindo, de preferência acreditando em Deus.

As prisões de Deolane Bezerra e Gusttavo Lima, ostentadores de primeira, mostram isso através da reação das pessoas. Os fãs foram para a porta do presídio onde a influenciadora foi detida para protestar. No caso de Gusttavo, nem foi preciso. Da sua mansão na Flórida, ele ficou sabendo da revogação da prisão. Ricos não vão presos e, segundo essas pessoas, nem deveriam. Afinal, o dinheiro os coloca em outro patamar, onde lhes é concedido o direito de opinar, mandar, decidir, governar e falar o que lhes vier à cabeça. Quem tem dinheiro tem tudo.

Esse destino que poucos alcançam, para essa gente, é um objetivo atingível, uma espécie de prêmio pela obediência e resignação. Fique quietinho que você será recompensado. Não proteste, não fale alto, não reclame e, sobretudo, não forme grupinhos na esquina para discutir a realidade. Depois, é só votar nesses ricos ou em quem os defende, e esse esquema será garantido.

A riqueza traz uma aura de sucesso, de realização, de capacidade que produz admiração ao invés de inveja. A admiração não gera qualquer reflexão. Ela provoca um estado de letargia que aceita o mundo como ele é. Se eu não consigo, é porque me falta alguma coisa ou Deus assim preferiu. Nada mais cômodo para um sistema que quer exatamente isso: poucos ricos vivendo às custas de muitos pobres sorridentes e passivos. Já vi isso antes e, se não fizermos algo para que a educação política volte, continuaremos a ver.

domingo, 29 de setembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Direita perdida e elite inculta

A direita dividiu-se nessa eleição com conflitos de fazer sombra à sempre dividida esquerda. Jair Bolsonaro em cima de um palanque berrou duas vezes que Ronaldo Caiado é um governador covarde. O sócio de Pablo Marçal deu um soco no publicitário de Ricardo Nunes. Os 20% dos eleitores paulistanos que se dizem bolsonaristas entregam 48% de intenção de votos a Marçal e 39% a Nunes, segundo o último Datafolha. A Faria Lima, que administra o dinheiro poupado da classe média e dos ricos, se inclina por um candidato que não tem uma única ideia de como administrar a maior cidade do país. Um empresário dono de startup de educação para gestores diz que mulher não pode ser CEO. O agro tecnológico nada faz para se separar da lavoura arcaica. Vivem juntos.


Os fatos listados aqui parecem sem conexão, mas mostram a devastação que é a elite brasileira, e o resultado do processo político recente que transformou a direita em satélite da extrema direita antidemocrática e contra a ciência. Ronaldo Caiado é médico, foi a favor da vacina e das medidas protetivas. O xingamento de Bolsonaro foi por esse acerto. O evento revela que mesmo sobre 700 mil mortos, o ex-presidente continua contra a proteção da vida de brasileiros. Nada o demove do seu obscurantismo. Os Caiados têm poder em Goiás desde o começo da República, mas Ronaldo Caiado surgiu como líder do ruralismo de direita no período pós-ditadura. Propunha-se a defender suas ideias sobre o agronegócio dentro da democracia. Contudo ele esteve no palanque da Paulista, no último 25 de fevereiro, bajulando Bolsonaro numa manifestação de defesa do golpismo e dos golpistas.

No mesmo palanque onde se cultuou Bolsonaro como líder maior estava o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que tem sido apresentado como bolsonarista democrático, como se essas categorias fossem conciliáveis. Estava também o prefeito Ricardo Nunes que, nos últimos dias, teve que abjurar a vacinação obrigatória contra Covid, que ele um dia apoiou por causa de Bruno Covas. O neto do grande democrata Mário Covas fez seu papel de líder contra a Covid. Mesmo sendo imunossuprimido, Bruno circulava por hospitais, lutando pessoalmente contra o vírus mortal. É esse legado que Nunes trai para tentar conquistar votos da extrema direita, que prefere Pablo Marçal.

Um acionista de um grande banco me perguntou: como é possível que a Faria Lima se encante por uma pessoa como Pablo Marçal? As escolhas políticas dos operadores de mercado financeiro não os recomendam como gestores do dinheiro alheio, por falta absoluta de visão estratégica. Pense numa cidade de 11 milhões de habitantes sendo administrada por um misto de arruaceiro, curandeiro, farsante, com propostas como fazer teleféricos em áreas planas e mandar os homens para a reciclagem.

Também não se recomenda um curso da G4 Educação. A startup foi fundada por Tallis Gomes e três sócios. A empresa treina gestores para os desafios do mundo atual. Ele ficou famoso por dizer “Deus me livre de mulher CEO” e sustentar que mulher gestora passa por um processo de “masculinização” e deixa o lar em “quarto plano”. Tallis tem 37 anos e carrega ideias medievais sobre a mulher, mas é professor de gestores. Foi afastado, porém permanece sócio de uma empresa que quer educar o mundo corporativo.

O país foi incendiado por criminosos. Em São Paulo, foram atacadas usinas de cana- de- açúcar. O agronegócio foi atingido diretamente. Na Amazônia, os incêndios são provocados para que depois da queima da floresta sejam feitos pastos para a pecuária. Aguarda-se ansiosamente que o agronegócio, que se diz bom, moderno e tecnológico, rompa publicamente com toda a cadeia de produção sustentada pelo crime. É possível fazer a rastreabilidade da produção brasileira e limpá-la do crime ambiental. Passa por mudar a pauta da bancada ruralista. Quem vai começar a ruptura? O primeiro bônus será o acordo com a União Europeia.

Uma democracia precisa de forças políticas de direita, esquerda, centro. Todas comprometidas com os valores institucionais da democracia. O progresso econômico exige gestores e empresários com visão de futuro e capazes de enfrentar desafios climáticos e de inclusão num país desigual. Com a direita capturada pelo autoritarismo, e a elite econômica subserviente ao atraso, o nosso projeto de potência ambiental, inclusiva e democrática fica mais distante.

Joe Biden tira o seu da reta e diz que não sabia de ataques ao Líbano

Na manhã deste sábado, o presidente Joe Biden insistiu em dizer que o governo de Israel não o avisou com antecedência sobre o ataque aéreo de ontem à Beirute, capital do Líbano, para matar os principais líderes do Hezbollah – entre eles todo poderoso sheik Hassan Nasrallah. Biden afirmou em voz baixa:

“Os Estados Unidos não tinham conhecimento ou participação na ação das Forças de Defesa de Israel. Estamos coletando informações”.

Na sexta-feira, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, havia dito em uma entrevista coletiva:

“Israel tem o direito de se defender contra o terrorismo. A maneira como o faz importa. As escolhas que todas as partes fizerem nos próximos dias determinarão qual caminho esta região seguirá, com consequências profundas para seu povo – agora e possivelmente nos próximos anos”.


Matar Nasrallah seria uma grande escalada na campanha de rápida expansão de Israel contra o Hezbollah nas últimas duas semanas, que ameaça se transformar em uma guerra regional total. Cresceram os temores de que o apoiador do Hezbollah, o Irã, possa ser atraído para a luta, desestabilizando o Oriente Médio.

Os ataques aéreos israelenses ocorreram logo após o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fazer um discurso desafiador na Assembleia Geral das Nações Unidas, prometendo continuar a luta contra o Hamas em Gaza e o Hezbollah no Líbano. Derrotar o Hezbollah seria essencial “para a sobrevivência de Israel”.

De acordo com estimativas de oficiais de defesa israelenses, cerca de 300 pessoas foram mortas no ataque da força aérea. Algumas estavam em prédios próximos no centro de Beirute Uma fonte do Hezbollah disse à agência Reuters de notícias que Nasrallah sobreviveu ao ataque que incluiu o uso de armamento pesado.

A porta do inferno

Amigo meu, dono de comércio, comentou que, nos últimos meses, seu movimento caiu sem qualquer explicação razoável. Ele procurou colegas de atividade e descobriu, surpreso, que os grandes estabelecimentos de varejo também apresentaram quedas nos seus números de comercialização em tempos recentes. De novo, nenhuma explicação razoável. Depois de muita discussão e conversa, descobriu-se que o vilão é o sistema de apostas on line, que invadiu os lares de todo o Brasil, prometendo milhões de reais para quem apostar bastante. O convite vem pela televisão, pelas redes sociais, e sua operação ocorre por intermédio do celular.

Os parlamentares, de governo e oposição, que agora questionam a existência desta loteria, votaram em peso a favor do projeto de lei que definiu os termos das legalizações para as apostas online ano passado. A regulamentação deste mercado é responsabilidade do Ministério da Fazenda. Neste momento, estas empresas, se assim puderem ser qualificadas, trabalham em completa liberdade. Não há qualquer regulamentação. E o governo, como sempre, está preocupado apenas em arrecadar mais. A regulamentação entrará em vigor no próximo ano.

A descoberta desta verdadeira sangria na economia nacional levou a Confederação Nacional do Comércio (CNC) a ingressar com Ação direta de Inconstitucionalidade para contestar a Lei 14.790/23, a lei das bets. Seus advogados argumentam que a legislação que regulamenta as apostas no Brasil causa graves impactos sociais e econômicos. Solicitam decisão liminar até que o mérito seja analisado. Estudo da CNC apurou que mais de 1,3 milhão de brasileiros já se encontram inadimplentes devido às apostas em cassinos online.



Até mesmo integrantes do PT dizem, agora, terem subestimado efeitos negativos e o alcance desse mercado nas contas dos brasileiros. Apesar disso, as bets são liberadas no país desde 2018, por meio de lei, e o jogo se desenvolve desde então, com televisões e redes sociais veiculando propagandas de apostas. A lei que liberou as bets no Brasil, foi aprovada no governo Michel Temer (MDB), o governo de Jair Bolsonaro (PL) deveria ter regulamentado o mercado, mas não o fez. No ano passado, o governo Lula editou uma medida provisória sobre o tema, a partir dele, projeto de lei passou a ser discutido no Congresso.

Na votação ocorrida Câmara dos Deputados, em setembro de 2023, o texto, que contemplou a proposta do governo, foi aprovado simbolicamente. Apenas parlamentares do PSOL e do Novo foram contrários. A principal mudança na Câmara foi a inclusão de jogos online, que não constavam no texto original do governo. No Senado, em dezembro do ano passado, o texto base também foi votado simbolicamente, mas dois destaques foram aprovados e o tema voltou à Câmara. Na última sessão do ano, a Casa aprovou por 292 votos favoráveis e 114 contrários. Somente a oposição e a minoria orientaram contra o texto.

Os dados mais recentes sobre o mercado de apostas mostram que o volume em 2024 supera as projeções de referência usadas pelo Ministério da Fazenda. O Banco Central revelou que que o brasileiro destinou, via PIX, entre R$ 18 e 21 bilhões mensais em apostas de janeiro a agosto. O total no ano é de R$ 166 bilhões.

A presidente do PT, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PR) diz que é necessário analisar o tema ainda neste ano. Segundo ela, é preciso fazer uma “avaliação crítica” do que ocorreu. “Subestimamos os efeitos nocivos e devastadores que isso causa à população brasileira. É como se a gente tivesse aberto as portas do inferno, não tínhamos noção do que isso poderia causar”, diz ela.

Este é o pior dos mundos para quem lida com jogos de azar. No mundo inteiro os cassinos são fortemente regulados e fiscalizados. Ninguém se atreve a lavar dinheiro em Las Vegas, porque o autor e o cassino serão descobertos e punidos severamente. Além disto, os cassinos, nos Estados Unidos, pagam tributo aos índios. É a maneira norte-americana de manter as populações originarias. Cassino significa emprego. Seu proprietário tem que construir uma sede, contratar garçons, seguranças, especialistas em contabilidade e uma série de artistas de todos os tipos e tamanhos. Quem quer ver um bom show, deve ir lá. É bom, relativamente barato e os hotéis são ótimos. Tudo gira em torno do jogo.

No Brasil entregaram o negócio do jogo para um punhado de pessoas, que operam fora do país, associados a jogadores de futebol, contratam um ou dois funcionários, compram um sistema na internet e vivem da publicidade nas redes sociais. Fazem muito dinheiro e gastam quase nada no país. Neste momento, não pagam nem imposto. É medida de uma insensatez inimaginável. Melhor legalizar os cassinos. Pagam impostos e criam empregos.

Repulsa e medo


Israelenses devem assistir às filmagens do Líbano com repulsa e medo, não com alegria

Quebrando a lei da selva

No decorrer da História, para a maior parte dos seres humanos a guerra era algo certo, garantido, enquanto a paz era um estado temporário e precário. As relações internacionais eram governadas pela Lei da Selva, segundo a qual, mesmo que duas políticas convivessem em paz, a guerra permanecia como uma opção. Por exemplo, embora em 1913 houvesse paz entre a Alemanha e a França, era óbvio que uma poderia cair no pescoço da outra em 1914. Quando políticos, generais, homens de negócios e cidadãos comuns faziam planos para o futuro, sempre deixavam em aberto a possibilidade de uma guerra. Da Idade da Pedra à era do vapor, do Ártico ao Saara, cada pessoa na Terra sabia que a qualquer momento os vizinhos poderiam invadir seu território, derrotar seu exército, chacinar seu povo e ocupar sua terra.

Durante a segunda metade do século XX, a Lei da Selva finalmente foi quebrada, se é que não foi suspensa. Na maior parte das regiões, as guerras eram mais raras. Enquanto nas antigas sociedades agrícolas a violência humana foi a causa de 15% de todas as mortes, durante o século XX a violência provocou apenas 5% dos óbitos, e no início do século XXI foi responsável por cerca de 1% da mortalidade global. Em 2012, aproximadamente 56 milhões de pessoas morreram no mundo inteiro; 620 mil morreram em razão da violência humana (guerras mataram 120 mil pessoas, o crime matou outras 500 mil). Em contrapartida, 800 mil cometeram suicídio, e 1,5 milhão morreram de diabetes. O açúcar é mais perigoso do que a pólvora.

Mais importante ainda, é perceber que, para um segmento cada vez maior da humanidade, a guerra se tornou inconcebível. Pela primeira vez na História, quando governos, corporações e indivíduos privados avaliam o futuro imediato, muitos não pensam na guerra como um acontecimento provável. As armas nucleares tornaram uma guerra entre superpotências um ato louco de suicídio coletivo e com isso forçaram as nações mais poderosas da Terra a encontrar meios alternativos e pacíficos de resolver conflitos. Simultaneamente, a economia global abandonou as bases materiais para se assentar no conhecimento. Antes, as principais fontes de riqueza eram os recursos materiais, como minas de ouro, campos de trigo e poços de petróleo. Hoje, a principal fonte de riqueza é o conhecimento. E, embora se possam conquistar poços de petróleo na guerra, não se pode conquistar conhecimento dessa maneira. Desde que o conhecimento se tornou o mais importante recurso econômico, a rentabilidade da guerra declinou e as guerras tornaram-se cada vez mais restritas àquelas regiões do mundo — como o Oriente Médio e a África Central — nas quais as economias ainda são antiquadas, baseadas em recursos materiais.


Em 1998, fazia sentido para Ruanda tomar e pilhar as minas de coltando vizinho Congo porque era grande a demanda por esse mineral metálico para a fabricação de smartphones e laptops, e o Congo contava com 80% das reservas mundiais. Ruanda ganhava 240 milhões de dólares por ano com o coltan pilhado. Para um país pobre, como é o caso de Ruanda, era muito dinheiro. 24 Em contrapartida, não faria sentido a China invadir a Califórnia para tomar o Vale do Silício, pois, mesmo que os chineses pudessem ser bem-sucedidos no campo de batalha, não existem minas de silício para pilhar no Vale do Silício. Em vez disso, os chineses ganharam bilhões de dólares como resultado de sua cooperação com gigantes da alta tecnologia, tais como Apple e Microsoft, comprando os softwares dessas empresas e fabricando produtos para elas. O que Ruanda ganhou num ano inteiro de pilhagem do coltan congolês, os chineses ganharam num único dia de comércio pacífico.

Em consequência, a palavra “paz” adquiriu um novo significado. As gerações anteriores pensavam na paz como ausência temporária de guerra. Hoje a vislumbramos como a implausibilidade da guerra. Em 1913, quando se falava que havia paz entre a França e a Alemanha, o que se queria dizer era que, “no presente, não há uma guerra entre esses países, mas ninguém sabe o que nos aguarda no próximo ano”. Quando hoje se afirma que há paz entre a França e a Alemanha, sabe-se que é inconcebível, em quaisquer circunstâncias previsíveis, eclodir uma guerra entre essas duas nações. Uma paz assim prevalece não apenas entre a França e a Alemanha, mas entre a maioria (conquanto não todos) dos países. Não existe um cenário para que uma guerra séria ecloda no ano que vem entre a Alemanha e a Polônia, entre a Indonésia e as Filipinas, ou entre o Brasil e o Uruguai.

Essa nova paz não é apenas uma fantasia hippie. Governos sedentos de poder e corporações gananciosas também contam com ela. Quando a Mercedes-Benz planeja suas estratégias de vendas na Europa Oriental, descarta a possibilidade de que a Alemanha conquiste a Polônia. Uma corporação que importa mão de obra barata das Filipinas não está preocupada com a possibilidade de que a Indonésia invada as Filipinas no ano que vem. Quando o governo brasileiro se reúne para discutir o orçamento do próximo ano, é inimaginável que o ministro da Defesa do país se levante de sua cadeira, dê um soco na mesa e grite: “Esperem um momento! E se quisermos invadir e conquistar o Uruguai? Vocês não levaram isso em consideração. Temos de reservar 5 bilhões de dólares para financiar essa conquista”. Claro que há uns poucos lugares nos quais o ministro da Defesa ainda fala coisas do tipo, assim como há regiões em que a Nova Paz não conseguiu assentar raízes. Falo disso com propriedade, pois vivo em uma dessas regiões. Mas estas são exceções.

Não há garantia, é claro, de que a Nova Paz se mantenha indefinidamente. Assim como as armas nucleares a princípio a tornaram possível, da mesma forma desenvolvimentos tecnológicos podem criar um cenário para formas inéditas de guerra. Em particular, uma guerra cibernética pode desestabilizar o mundo ao conceder a pequenos países e grupos não estatais a capacidade de lutar com eficácia contra superpotências. Quando os Estados Unidos combateram o Iraque em 2003, levaram o caos a Bagdá e a Mossul, mas nem uma única bomba foi lançada sobre Los Angeles ou Chicago. No futuro, no entanto, um país como a Coreia do Norte, ou o Irã, poderia utilizar bombas lógicas para interromper a transmissão de energia na Califórnia, explodir refinarias no Texas e fazer trens colidirem em Michigan (“bombas lógicas” são códigos de software maliciosos plantados em tempos de paz e operados à distância. É altamente provável que esses códigos já tenham sido contaminados em redes que controlam instalações vitais de infraestrutura nos Estados Unidos e em muitos outros países).

Contudo, não se deve confundir capacidade com motivação. Embora introduza novos meios de destruição, a guerra cibernética não cria necessariamente incentivos para que sejam usados. Durante os últimos setenta anos a humanidade quebrou não apenas a Lei da Selva, como também a Lei de Tchékhov. É famosa a declaração de Anton Tchékhov de que, se uma arma aparece no primeiro ato de uma peça, é inevitável que seja disparada no terceiro. E, no decorrer da história, se reis e imperadores adquiriam alguma arma nova, mais cedo ou mais tarde, seriam tentados a usá-la. Desde 1945, entretanto, a humanidade aprendeu a resistir à tentação. A arma que apareceu no primeiro ato da Guerra Fria nunca mais foi disparada. Estamos acostumados a viver em um mundo de bombas que não foram lançadas e de mísseis que não foram disparados e nos tornamos especialistas em quebrar tanto a Lei da Selva como a de Tchékhov. Se essas leis alguma vez funcionarem conosco, a culpa terá sido toda nossa — e não de nosso inexorável destino.

O que dizer então do terrorismo? Mesmo que governos centrais e Estados poderosos tenham aprendido o que é contenção, os terroristas podem não ter escrúpulos quanto a usar armas novas e destruidoras. Essa é uma possibilidade certamente preocupante. No entanto, o terrorismo é uma estratégia de fraqueza adotada por aqueles que carecem de acesso ao poder de fato. Ao menos no passado, seu funcionamento era resultado mais da disseminação do medo do que de danos materiais significativos. Terroristas normalmente não têm o poder de derrotar qualquer exército, de ocupar um país ou de destruir cidades inteiras. Em 2010, enquanto a obesidade e doenças relacionadas a esse mal mataram cerca de 3 milhões de pessoas, terroristas mataram 7697 indivíduos em todo o mundo, a maioria deles em países em desenvolvimento. Para um estadunidense ou europeu mediano, a Coca-Cola representa um perigo muito mais letal do que a Al-Qaeda.

Como, então, terroristas conseguem dominar as manchetes e mudar a situação política em todo o mundo? Provocando nos inimigos uma reação desmedida. Na essência, o terrorismo é um show. Os terroristas encenam um tenebroso espetáculo de violência que captura nossa imaginação e nos transmite a sensação de estar escorregando de volta ao caos medieval. Em consequência, os Estados frequentemente se sentem obrigados a reagir ao teatro do terrorismo com um show de segurança, orquestrando imensas exibições de força, como a perseguição a populações inteiras ou a invasão de países estrangeiros. Na maioria dos casos, essa reação exacerbada representa um perigo muito maior a nossa segurança do que aquele decorrente de atentados terroristas.

Terroristas são como uma mosca tentando destruir uma loja de porcelanas. A mosca é tão fraca que não é capaz de deslocar uma única xícara de chá. Então ela encontra um touro, entra em sua orelha e começa a zunir. O touro fica louco de medo e de raiva — e destrói a loja de porcelanas. Foi isso que aconteceu no Oriente Médio na última década. Os fundamentalistas islâmicos jamais conseguiriam, sozinhos, derrubar Saddam Hussein. Em vez disso, enfureceram os Estados Unidos com o ataque de Onze de Setembro, e os Estados Unidos destruíram a loja de porcelanas médio-oriental para eles. Agora os fundamentalistas florescem nas ruínas. Sozinhos, os terroristas são fracos demais para nos arrastar de volta à Idade Média e restabelecer a Lei da Selva. Podem nos provocar, mas, no fim, tudo depende das reações que apresentamos. Se a Lei da Selva entrar em vigor novamente, não será por culpa de terroristas.
Yuval Noah Harari, "Homo Deus: Uma breve história do amanhã"