Um gênio não convence ninguém, o idiota simNelson Rodrigues |
domingo, 14 de abril de 2024
Mídias sociais produzem geração ansiosa
Acaba de sair nos Estados Unidos o novo livro do psicólogo social Jonathan Haidt, “The anxious generation”, pela editora Penguin. No livro, Haidt argumenta que o uso intensivo de mídias sociais rouba das crianças e dos jovens tempo de experimentação e de convívio, causa imediata da atual epidemia de ansiedade e depressão. Mas as raízes do problema, segundo ele, estão nas mudanças culturais que levaram os pais da Geração X a superproteger os filhos.
O livro de Haidt começou como blog na plataforma Substack. Lá, ele propôs a tese —naquele momento controversa —de que o grande aumento nos indicadores de depressão, ansiedade, automutilação e suicídio entre os jovens nos anos 2010 estava ligado ao uso de mídias sociais.
No blog, Haidt nota que, na literatura anterior correlacionando a incidência de problemas mentais ao uso de telas pelos jovens, as evidências eram fracas e contraditórias. Propõe então que não olhássemos para telas em geral (incluindo televisão, computador e videogame), mas apenas para as mídias sociais. Com o novo recorte, a correlação que surge é muito mais forte, especialmente se os dados forem filtrados por gênero, evidenciando o tamanho do problema entre as meninas.
No livro, Haidt desenvolve o argumento, sugerindo relação causal entre uso de mídias sociais nos smartphones e a epidemia de doenças mentais entre os jovens. Essa causalidade é reforçada pela coincidência temporal entre a difusão do uso de smartphone e a explosão nos indicadores de problemas mentais, pela forte correlação entre uso de mídias sociais e a incidência de depressão e ansiedade e pela ausência de uma explicação alternativa. Para Haidt, o uso intensivo de mídias sociais limita as interações sociais presenciais que produzem laços afetivos fortes e estimula comparações com padrões estéticos inalcançáveis, gerando ansiedade e depressão.
A segunda parte do livro tem como ponto de partida a inquietação explorada noutra obra de Haidt, escrita em parceria com Greg Lukianoff, “The coddling of the American mind” (Penguin, 2018). Nela, Lukianoff observa a consolidação de certa cultura universitária “segurista”. Por um lado, diz ele, a proibição nos campi de literatura acadêmica considerada ofensiva (por ser racista ou machista) e a criação de espaços seguros superprotegem os jovens, que não são mais expostos à diversidade e à pluralidade de pensamento. Além disso, a valorização de pequenas ofensas e microagressões pelos movimentos sociais funciona como uma espécie de terapia reversa — enquanto a função da terapia é minorar o trauma, os movimentos sociais terminam supervalorizando ofensas menores e, com isso, involuntariamente, amplificam traumas. É essa última intuição que instiga Haidt a investigar as raízes mais antigas deste etos superprotetor.
Haidt aponta uma mudança cultural significativa: os pais da Geração X (como o autor desta coluna) criaram seus filhos de maneira diferente daquela como eles mesmos foram educados. Nos anos 1980 e 1990, fomos criados com muita liberdade, brincando livremente, sem supervisão, desde os 7 ou 8 anos. Nossos filhos, porém, são superprotegidos, permanecem sob cuidadosa supervisão adulta praticamente até a adolescência.
Isso faz com que as crianças de hoje não desenvolvam a autonomia e não aprendam a lidar com riscos e perigos — habilidade essencial para enfrentar desafios maiores que surgem na vida adulta. Dados mostram que crianças mais velhas e adolescentes pararam de quebrar braços e pernas — pararam de explorar seus limites, desenvolvendo autonomia e senso de perigo. Qualquer um de nós consegue lembrar como jogávamos bola, brincávamos de pega e saíamos à rua sem a presença de adultos a partir da segunda infância. Nossos filhos, porém, só podem brincar e se locomover sob a supervisão constante de um adulto, ou nos sentimos negligentes.
O tempo que os adultos dedicam ao cuidado das crianças disparou na segunda metade dos anos 1990. Outros dados mostram acentuado declínio desde os anos 1990 na experimentação de atividades adultas pelos adolescentes — coisas como sexo, trabalho, consumo de álcool e direção de veículos. As mídias sociais viciantes que prendem os adolescentes à tela do celular e limitam suas interações sociais e afetivas são, para Haidt, apenas o apogeu da tendência anterior e mais profunda de superproteção e fragilização das crianças.
Ele propõe no final do livro um conjunto de ações ou reformas que poderiam minorar o problema. Por um lado, sugere proibir smartphones nas escolas e proibir o uso de qualquer mídia social até os 16 anos. Talvez sua proposta mais desafiadora seja o convite para que deixemos nossos filhos brincar sem supervisão adulta, exatamente como fazíamos até os anos 1980 e 1990.
O livro de Haidt começou como blog na plataforma Substack. Lá, ele propôs a tese —naquele momento controversa —de que o grande aumento nos indicadores de depressão, ansiedade, automutilação e suicídio entre os jovens nos anos 2010 estava ligado ao uso de mídias sociais.
No blog, Haidt nota que, na literatura anterior correlacionando a incidência de problemas mentais ao uso de telas pelos jovens, as evidências eram fracas e contraditórias. Propõe então que não olhássemos para telas em geral (incluindo televisão, computador e videogame), mas apenas para as mídias sociais. Com o novo recorte, a correlação que surge é muito mais forte, especialmente se os dados forem filtrados por gênero, evidenciando o tamanho do problema entre as meninas.
No livro, Haidt desenvolve o argumento, sugerindo relação causal entre uso de mídias sociais nos smartphones e a epidemia de doenças mentais entre os jovens. Essa causalidade é reforçada pela coincidência temporal entre a difusão do uso de smartphone e a explosão nos indicadores de problemas mentais, pela forte correlação entre uso de mídias sociais e a incidência de depressão e ansiedade e pela ausência de uma explicação alternativa. Para Haidt, o uso intensivo de mídias sociais limita as interações sociais presenciais que produzem laços afetivos fortes e estimula comparações com padrões estéticos inalcançáveis, gerando ansiedade e depressão.
A segunda parte do livro tem como ponto de partida a inquietação explorada noutra obra de Haidt, escrita em parceria com Greg Lukianoff, “The coddling of the American mind” (Penguin, 2018). Nela, Lukianoff observa a consolidação de certa cultura universitária “segurista”. Por um lado, diz ele, a proibição nos campi de literatura acadêmica considerada ofensiva (por ser racista ou machista) e a criação de espaços seguros superprotegem os jovens, que não são mais expostos à diversidade e à pluralidade de pensamento. Além disso, a valorização de pequenas ofensas e microagressões pelos movimentos sociais funciona como uma espécie de terapia reversa — enquanto a função da terapia é minorar o trauma, os movimentos sociais terminam supervalorizando ofensas menores e, com isso, involuntariamente, amplificam traumas. É essa última intuição que instiga Haidt a investigar as raízes mais antigas deste etos superprotetor.
Haidt aponta uma mudança cultural significativa: os pais da Geração X (como o autor desta coluna) criaram seus filhos de maneira diferente daquela como eles mesmos foram educados. Nos anos 1980 e 1990, fomos criados com muita liberdade, brincando livremente, sem supervisão, desde os 7 ou 8 anos. Nossos filhos, porém, são superprotegidos, permanecem sob cuidadosa supervisão adulta praticamente até a adolescência.
Isso faz com que as crianças de hoje não desenvolvam a autonomia e não aprendam a lidar com riscos e perigos — habilidade essencial para enfrentar desafios maiores que surgem na vida adulta. Dados mostram que crianças mais velhas e adolescentes pararam de quebrar braços e pernas — pararam de explorar seus limites, desenvolvendo autonomia e senso de perigo. Qualquer um de nós consegue lembrar como jogávamos bola, brincávamos de pega e saíamos à rua sem a presença de adultos a partir da segunda infância. Nossos filhos, porém, só podem brincar e se locomover sob a supervisão constante de um adulto, ou nos sentimos negligentes.
O tempo que os adultos dedicam ao cuidado das crianças disparou na segunda metade dos anos 1990. Outros dados mostram acentuado declínio desde os anos 1990 na experimentação de atividades adultas pelos adolescentes — coisas como sexo, trabalho, consumo de álcool e direção de veículos. As mídias sociais viciantes que prendem os adolescentes à tela do celular e limitam suas interações sociais e afetivas são, para Haidt, apenas o apogeu da tendência anterior e mais profunda de superproteção e fragilização das crianças.
Ele propõe no final do livro um conjunto de ações ou reformas que poderiam minorar o problema. Por um lado, sugere proibir smartphones nas escolas e proibir o uso de qualquer mídia social até os 16 anos. Talvez sua proposta mais desafiadora seja o convite para que deixemos nossos filhos brincar sem supervisão adulta, exatamente como fazíamos até os anos 1980 e 1990.
sexta-feira, 12 de abril de 2024
As carpideiras que choram por Bolsonaro querem provar que ele vive
As carpideiras que choram o fracasso do golpe de dezembro de 2022 planejado por Bolsonaro, e do seu refluxo em 8 de janeiro, valem-se de qualquer coisa para provar que seu líder continua vivinho da silva, bulindo e forte, e não à beira do precipício que parece cada vez mais próximo.
A mais recente pesquisa do instituto Quaest, divulgada ontem, mostra que os governadores de São Paulo (Tarcísio de Freitas), do Paraná (Ratinho Júnior), de Goiás (Ronaldo Caiado) e de Minas Gerais (Romeu Zema) estão mais bem avaliados nos seus Estados do que Lula.
Mas por que não deveriam estar? Dos quatro estados, Lula só venceu em um (Minas Gerais), e por um sopro. Salvo Tarcísio, os demais são governadores reeleitos. De onde se concluiu que devem ter feito uma boa ou razoável administração no seu primeiro mandato; elementar, meus caros.
Lula saiu direto da prisão por 580 dias para se eleger presidente. Embora desgastado, tinha a seu favor a memória dos governos Lula 1 e Lula 2, nem sempre lembrada pelos que votaram nele desta vez. No mais, oposição não ganha eleição, é o governo que perde, ensina a história.
De Fernando Henrique Cardoso para cá, todos os presidentes se reelegeram, menos Bolsonaro. É um feito inesquecível do capitão inativo, a levar-se em conta que seu governo gastou o que podia e o que não podia para vencer. Foi a eleição mais comprada desde o fim da ditadura militar de 64.
Zema, Ratinho e Caiado não devem sua reeleição a Bolsonaro como as carpideiras querem fazer crer. Zema nem apoiou Bolsonaro no primeiro turno, preferindo ser votado por bolsonaristas e petistas. Caiado fingiu que apoiou, mas manteve-se distante dele para não se contaminar.
Tarcísio, sim, deve sua eleição a Bolsonaro, de quem foi ministro. Não queria candidatar-se ao governo de São Paulo onde sequer tinha domicílio eleitoral, mas a senador. Foi Bolsonaro quem o convenceu a ser. A capital de São Paulo pode votar no PT como já fez, mas o estado não vota.
Presidente algum desde 1989 governou o país amparado por uma coligação tão ampla de partidos como Lula governou entre 2003 e 2010, quando cedeu o lugar a Dilma que, apesar dos pesares, se elegeu e se reelegeu. Lula, agora, enfrenta um Congresso majoritariamente hostil.
Nunca o Congresso foi tão conservador e de direita como este é. Jamais foi tão poderoso como este é. Pode dar-se ao luxo de governar junto com Lula sem o ônus de quem governa. É o tal do semipresidencialismo. Vinde a mim todos os bônus do exercício do poder; debite-se o ônus ao governo Lula.
Os brasileiros estão alarmados com a falta de segurança pública? Então o Congresso aprova uma lei que proíbe a saída temporária da cadeia de presos menos perigosos para visitar as famílias nos feriados ou em datas especiais. É um convite para que eles se rebelem, além de ferir a Constituição.
Lula vetou a proibição. O Congresso derrubará o veto, e quando o fizer, se dirá que Lula perdeu mais uma batalha, enfraquecendo-se. Diz-se desde já. Mas quem não sabe que Lula governa com o apoio da minoria do Congresso? Qual é a novidade? É chover no molhado. A culpa não é de Lula.
Assim como o Congresso nem sempre lhe diz sim, por que Lula haveria de dizer sim ao Congresso todas as vezes que os dois discordam? A direita terá seu candidato a presidente, ou os seus candidatos, para enfrentar Lula ou um preposto dele em 2026; acalmem-se, pois, as carpideiras.
O candidato, ou os candidatos, dizem, hoje, sonhar com o apoio de Bolsonaro. Mas não de um Bolsonaro preso e condenado por atentar contra a democracia, roubar joias dadas de presente ao Estado brasileiro por governos de outros países, falsificar certificados de vacina.
Sonham com o apoio de um Bolsonaro limpinho ou no máximo enodoado. Sabem que não terão. Isso faz com que Tarcísio pense em renovar seu mandato, Ratinho e Zema em se eleger senador. Caiado quer terminar a carreira disputando a presidência pela segunda vez. Perdeu feio a primeira.
A mais recente pesquisa do instituto Quaest, divulgada ontem, mostra que os governadores de São Paulo (Tarcísio de Freitas), do Paraná (Ratinho Júnior), de Goiás (Ronaldo Caiado) e de Minas Gerais (Romeu Zema) estão mais bem avaliados nos seus Estados do que Lula.
Mas por que não deveriam estar? Dos quatro estados, Lula só venceu em um (Minas Gerais), e por um sopro. Salvo Tarcísio, os demais são governadores reeleitos. De onde se concluiu que devem ter feito uma boa ou razoável administração no seu primeiro mandato; elementar, meus caros.
Lula saiu direto da prisão por 580 dias para se eleger presidente. Embora desgastado, tinha a seu favor a memória dos governos Lula 1 e Lula 2, nem sempre lembrada pelos que votaram nele desta vez. No mais, oposição não ganha eleição, é o governo que perde, ensina a história.
De Fernando Henrique Cardoso para cá, todos os presidentes se reelegeram, menos Bolsonaro. É um feito inesquecível do capitão inativo, a levar-se em conta que seu governo gastou o que podia e o que não podia para vencer. Foi a eleição mais comprada desde o fim da ditadura militar de 64.
Zema, Ratinho e Caiado não devem sua reeleição a Bolsonaro como as carpideiras querem fazer crer. Zema nem apoiou Bolsonaro no primeiro turno, preferindo ser votado por bolsonaristas e petistas. Caiado fingiu que apoiou, mas manteve-se distante dele para não se contaminar.
Tarcísio, sim, deve sua eleição a Bolsonaro, de quem foi ministro. Não queria candidatar-se ao governo de São Paulo onde sequer tinha domicílio eleitoral, mas a senador. Foi Bolsonaro quem o convenceu a ser. A capital de São Paulo pode votar no PT como já fez, mas o estado não vota.
Presidente algum desde 1989 governou o país amparado por uma coligação tão ampla de partidos como Lula governou entre 2003 e 2010, quando cedeu o lugar a Dilma que, apesar dos pesares, se elegeu e se reelegeu. Lula, agora, enfrenta um Congresso majoritariamente hostil.
Nunca o Congresso foi tão conservador e de direita como este é. Jamais foi tão poderoso como este é. Pode dar-se ao luxo de governar junto com Lula sem o ônus de quem governa. É o tal do semipresidencialismo. Vinde a mim todos os bônus do exercício do poder; debite-se o ônus ao governo Lula.
Os brasileiros estão alarmados com a falta de segurança pública? Então o Congresso aprova uma lei que proíbe a saída temporária da cadeia de presos menos perigosos para visitar as famílias nos feriados ou em datas especiais. É um convite para que eles se rebelem, além de ferir a Constituição.
Lula vetou a proibição. O Congresso derrubará o veto, e quando o fizer, se dirá que Lula perdeu mais uma batalha, enfraquecendo-se. Diz-se desde já. Mas quem não sabe que Lula governa com o apoio da minoria do Congresso? Qual é a novidade? É chover no molhado. A culpa não é de Lula.
Assim como o Congresso nem sempre lhe diz sim, por que Lula haveria de dizer sim ao Congresso todas as vezes que os dois discordam? A direita terá seu candidato a presidente, ou os seus candidatos, para enfrentar Lula ou um preposto dele em 2026; acalmem-se, pois, as carpideiras.
O candidato, ou os candidatos, dizem, hoje, sonhar com o apoio de Bolsonaro. Mas não de um Bolsonaro preso e condenado por atentar contra a democracia, roubar joias dadas de presente ao Estado brasileiro por governos de outros países, falsificar certificados de vacina.
Sonham com o apoio de um Bolsonaro limpinho ou no máximo enodoado. Sabem que não terão. Isso faz com que Tarcísio pense em renovar seu mandato, Ratinho e Zema em se eleger senador. Caiado quer terminar a carreira disputando a presidência pela segunda vez. Perdeu feio a primeira.
Pensar dá trabalho
De fato, estou aqui matutando para ver se consigo passar pra vocês o que estou pensando. Essas últimas pesquisas da Quaest sobre o governo Lula e os governos estaduais de São Paulo, Goiás, Paraná e Minas Gerais me fizeram refletir. Ao mesmo tempo em que a avaliação do Governo Lula cresceu nesses estados, a avaliação dos governos estaduais foi muito acima do que eu imaginava. Lá o resultado das eleições foi extremamente favorável à direita. Venceu a ideologia da não ideologia, a demonização da política, a evangelização do pensamento. O resultado se vê. Mas foi o governo Lula que fez o salário durar mais, os preços ficarem mais acessíveis, a inflação diminuir a o ar mais respirável. Nada ideológico à primeira vista. A ideologia ficou com os governadores e só. Pouco foi feito nesses estados, mas muito foi dito e isso fica.
O caso de Maricá, aqui no estado do Rio, é um exemplo. Maricá sempre foi administrada pela esquerda. Lá você anda de ônibus gratuitamente, tem acesso aos livros, a educação e a saúde são exemplos de boa gestão. Em Maricá o Bolsonaro venceu. É a diferença entre o dia a dia, a administração da prefeitura que passa por atitudes, decisões concretas e surgem quase que como obrigações naturais e a ideologia da não ideologia que a eleição presidencial pregava.
Somos um rebanho com direito a transporte de graça? Acho que não. As pessoas não sabem que esse transporte de graça faz parte de uma política de esquerda que prioriza a população. A ideologia da esquerda é a que cria essas soluções. Por isso não existe em todo o Brasil.
As pesquisas mostram que Lula cresceu nesses rincões bolsonaristas porque faz um governo voltado e trabalhando pelo povo. Já os governos estaduais, que nada fazem de concreto além de reagirem com violência contra a população, dar apoio ao genocídio do Netanyahu, ou ignorar o meio ambiente como em Minas, recebe a chamada aprovação espontânea, quase religiosa, dogmática e automática.
É a população que não precisa refletir nem pensar para reagir. Recebe a informação e não questiona. Como tudo o que é comunicado hoje em dia. Com pressa, sem tempo para pensar. Ouve e vai em frente. Tarcísio, Zema, Ratinho Jr. e Caiado são dessa turma. Do mesmo jeito que temos que aprender a conviver com esta realidade dos estados eles também têm que aprender a conviver com as realizações do Governo Lula. Não temos que adotar a doutrinação deles, a linguagem impositiva e não reflexiva. Temos que continuar fazendo o que sabemos. Talvez comunicar melhor o que fizemos, mas nunca substituir a realização pela comunicação. Se não temos nada a dizer, acabamos mentindo e é isso o que eles fazem.os que adotar a doutrinação deles, a linguagem impositiva e não reflexiva. Temos que continuar fazendo o que sabemos. Talvez comunicar melhor o que fizemos, mas nunca substituir a realização pela comunicação. Se não temos nada a dizer, acabamos mentindo e é isso o que eles fazem.
'General' da direita
Nós daremos golpe em quem quisermos. Lide com isso
Elon Musk, durante crise que resultou na renúncia de Evo Morales, na Bolívia, de olho no lítio usado na fabricação de baterias da sua empresa Tesla
A ameaça - ainda - sem nome
Nos anos 1930, o mundo tremia ao ouvir falar do Comintern, a Internacional Comunista. Hoje, sem nome, há uma Internacional da Extrema Direita, e o mundo ainda não se tocou. Ela já detém o governo na Itália, Polônia, Hungria e Holanda. Integra ou apoia o governo na Finlândia, Suécia e Grécia. Cresce a galope na França. Chegou perto nas eleições em Portugal e Espanha. Pândega ou trágica, venceu na Argentina. Promove o terror na Alemanha, no Canadá e na Nova Zelândia. E os EUA podem ter Trump de volta.
No Brasil, Bolsonaro tem processos e acusações suficientes para enjaulá-lo por 500 anos. Isso ainda não aconteceu porque a Justiça tem de seguir o seu curso "normal" —embora se trate de um anormal que, vitorioso na eleição ou no golpe, implantaria uma ditadura que nos faria sentir saudade dos militares. Daí, Bolsonaro continua à solta, arrotando ameaças e pautando a imprensa.
A extrema direita tem uma receita universal. Populismo, nacionalismo, discurso moral e religioso. Xenofobia, repúdio a imigrantes e racismo. Desprezo pelos partidos e pregação da antipolítica. Domesticação ou fechamento do Judiciário. População armada. Antiliberalismo. Negacionismo. Rejeição às teses identitárias e rancor contra artistas e intelectuais. E, com o apoio de seus zumbis nas redes sociais, disseminação de fake news, discurso de ódio com ameaças físicas e inversão de conceitos —falam de "liberdade", "democracia" e "eleições limpas" e, quando no poder, esses valores são os primeiros a serem cancelados.
Elon Musk, o Führer das plataformas digitais, encarna esse programa. Seu desacato ao Brasil poderia ter sido ditado por Bolsonaro. Mais cedo do que pensamos, o mundo pagará caro por essa tecnologia sem pátria e sem freios.
O Comintern fracassou em tudo e acabou em 1943. A Internacional da Extrema Direita apenas começou e, aos poucos, vai ganhando todas.
A amizade com o mandão é a chave que abre portas
É uma palavra afetuosa e uma importante categoria cultural, num sistema movido a oposições de classe, cor e poder político, graças a um complicado pacote hierárquico de prerrogativas e privilégios. Numa sociedade cuja vida doméstica reproduz quase literalmente uma velha e abominável servidão escravocrata, amigos e amizade são, como cargos públicos, diplomas e alianças matrimoniais, mecanismos capazes de eventualmente desbaratar os abismos de cor, instrução, residência, dinheiro e poder.
Amigo — esse sujeito e objeto da amizade —, um instrumento precioso num sistema em que se diz sem pensar que a gente faz tudo pelos amigos e despacha os inimigos e desconhecidos para a indigna desconsideração do anonimato e da impessoalidade dos infindáveis e barrocos processos legalísticos nem sempre legais...
Na sociedade que enlaça o universal e o pessoal e não enxerga a ambiguidade como sintoma de dúvida, mentira, má-fé ou dilema, a amizade é certeza, afeto e obrigação que muitas vezes perturba, porque implica fidelidades que ultrapassam o parentesco, a filiação partidária e ideológica e até o bom senso.
Ter a coragem para tudo, menos a coragem de resistir aos amigos é, como elabora magistralmente Oliveira Vianna em seu ignorado “Pequenos estudos de psychologia social” (publicado em 1923!), “talvez a síntese de toda nossa psicologia política: é a incapacidade moral de cada um de nós para resistir às sugestões da amizade e da gratidão, para sobrepor às contingências do personalismo os grandes interesses sociais, que caracterizam nossa índole cívica e definem as tendências mais íntimas da nossa conduta no poder”.
É justamente a amizade que, em seu personalismo, demanda a reciprocidade que obriga a inventar um castelo mal-assombrado de procedimentos e foros legais cuja ambiguidade tem a função de “acomodar” a ética relacional da “pessoa”, contrariando a impessoalidade e a universalidade igualitária da cidadania.
Caberia questionar tanto os limites da amizade quanto o rigor exagerado das leis, tendo como base não o pragmatismo elitista de nossa esfera jurídico-política, mas nosso real estilo de vida. Só assim seremos capazes de compreender o poder da amizade como instrumento de ascensão política e social e, muito especialmente, de corrupção estrutural como traço inevitável e funcional do sistema.
Dessa perspectiva, a popularidade do poema de Manuel Bandeira está no fato de, em Pasárgada, e sobretudo no Brasil, ser amigo do rei! Lá, como aqui, a amizade com o mandão é a chave que abre portas e promove todos os absurdos legais que nos revoltam neste maravilhoso, dilemático e, pelo visto, imutável Brasil.
Nada melhor, pois, do que ser amigo do supremo magistrado; do vingativo coroado — e do também generoso e misericordioso que perdoa e anistia os conhecidos.
Tal como nas ordenações Manuelinas e Filipinas em que a sentença de morte era abundante — ao lado das súplicas que perdoavam. Tal como ocorre até hoje na esfera da política mais densa (apelidada pelo vulgo de politicagem ou politicalha), vemos que os amigos de hoje foram os inimigos de ontem. Perderam o senso, como diz outro poeta? Nada disso, apenas complacentemente mudaram de lado, como faziam os homens quando as mulheres o tinham e ele era mais um véu de aprisionamento feminino.
Ter o rei como amigo é o máximo. Mas, e se o rei promete lhe foder? Fazer o quê? Sair de Pasárgada? Solicitar residência em Miami, esse santuário dos bem de vida?
Não sei o que pensar quando acompanho perplexo o destino da Operação Lava-Jato. Investigação comparada ao movimento tenentista, hoje ilegal e comandada por bandidos. Quem sabe se Pasárgada não é um xadrez que comanda o crime e, de lambuja, tornou-se uma eficiente pós-graduação do crime?
Amigo — esse sujeito e objeto da amizade —, um instrumento precioso num sistema em que se diz sem pensar que a gente faz tudo pelos amigos e despacha os inimigos e desconhecidos para a indigna desconsideração do anonimato e da impessoalidade dos infindáveis e barrocos processos legalísticos nem sempre legais...
Na sociedade que enlaça o universal e o pessoal e não enxerga a ambiguidade como sintoma de dúvida, mentira, má-fé ou dilema, a amizade é certeza, afeto e obrigação que muitas vezes perturba, porque implica fidelidades que ultrapassam o parentesco, a filiação partidária e ideológica e até o bom senso.
Ter a coragem para tudo, menos a coragem de resistir aos amigos é, como elabora magistralmente Oliveira Vianna em seu ignorado “Pequenos estudos de psychologia social” (publicado em 1923!), “talvez a síntese de toda nossa psicologia política: é a incapacidade moral de cada um de nós para resistir às sugestões da amizade e da gratidão, para sobrepor às contingências do personalismo os grandes interesses sociais, que caracterizam nossa índole cívica e definem as tendências mais íntimas da nossa conduta no poder”.
É justamente a amizade que, em seu personalismo, demanda a reciprocidade que obriga a inventar um castelo mal-assombrado de procedimentos e foros legais cuja ambiguidade tem a função de “acomodar” a ética relacional da “pessoa”, contrariando a impessoalidade e a universalidade igualitária da cidadania.
Caberia questionar tanto os limites da amizade quanto o rigor exagerado das leis, tendo como base não o pragmatismo elitista de nossa esfera jurídico-política, mas nosso real estilo de vida. Só assim seremos capazes de compreender o poder da amizade como instrumento de ascensão política e social e, muito especialmente, de corrupção estrutural como traço inevitável e funcional do sistema.
Dessa perspectiva, a popularidade do poema de Manuel Bandeira está no fato de, em Pasárgada, e sobretudo no Brasil, ser amigo do rei! Lá, como aqui, a amizade com o mandão é a chave que abre portas e promove todos os absurdos legais que nos revoltam neste maravilhoso, dilemático e, pelo visto, imutável Brasil.
Nada melhor, pois, do que ser amigo do supremo magistrado; do vingativo coroado — e do também generoso e misericordioso que perdoa e anistia os conhecidos.
Tal como nas ordenações Manuelinas e Filipinas em que a sentença de morte era abundante — ao lado das súplicas que perdoavam. Tal como ocorre até hoje na esfera da política mais densa (apelidada pelo vulgo de politicagem ou politicalha), vemos que os amigos de hoje foram os inimigos de ontem. Perderam o senso, como diz outro poeta? Nada disso, apenas complacentemente mudaram de lado, como faziam os homens quando as mulheres o tinham e ele era mais um véu de aprisionamento feminino.
Ter o rei como amigo é o máximo. Mas, e se o rei promete lhe foder? Fazer o quê? Sair de Pasárgada? Solicitar residência em Miami, esse santuário dos bem de vida?
Não sei o que pensar quando acompanho perplexo o destino da Operação Lava-Jato. Investigação comparada ao movimento tenentista, hoje ilegal e comandada por bandidos. Quem sabe se Pasárgada não é um xadrez que comanda o crime e, de lambuja, tornou-se uma eficiente pós-graduação do crime?
quarta-feira, 10 de abril de 2024
Promotores apuram envolvimento de agentes públicos no megaesquema de lavagem de dinheiro do PCC
Um espectro ronda o Brasil: o espectro do crime organizado. Trabalhadores, policiais, empresários, religiosos, ateus, brancos, negros ou índios têm vivido uma guerra ininterrupta ora franca ora disfarçada; uma guerra que sempre terminou pela derrota de uma das partes nesse conflito: o Estado ou a criminalidade organizada.
O acento deslocado aqui das lutas sociais para a paz e segurança pública não significa renúncia à civilização em defesa de soluções de força. Poder não se confunde com violência, como ensinava Hannah Arendt; ela só se estabelece onde o poder é fraco ou está em crise. É o que vivemos na Segurança Pública do País. O alerta agora vem da Operação Fim da Linha, executada ontem pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Receita Federal. Ela mostra o grau da captura do sistema público de transporte pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Foram cumpridos dezenas de mandados de busca e decretado bloqueio de bens até o limite de R$ 680 milhões, além de prisões.
Mas não deve parar por aí. Um esquema assim não se circunscreve à maior cidade do País. Ele se espraia como uma metástase pelo interior, por municípios sem estrutura para lidar com a sofisticação cada vez maior dos esquemas de fraudes e lavagem de dinheiro de organizações criminosas, que, evidentemente, não teriam se estabelecido sem a incompetência e a desídia de quem devia combatêlas ou simplesmente sem a corrupção de agentes públicos. Essa é a certeza compartilhada pelos promotores responsáveis pela operação: há ainda um longo caminho para desentocar do Legislativo e do Executivo os que foram corrompidos pelo dinheiro das organizações criminosas.
A lição que Gaeco e Receita deixam aos adeptos do estilo Rambo de policiamento é a do fracasso de quem acha que vai derrotar o crime organizado na base da bala. O coronel José Vicente da Silva Filho usa o exemplo da comunidade do Jacarezinho, no Rio, ao tratar do fiasco dessa tática. “De 2007 a 2020 foram feitas ali 289 operações com 186 mortes. Não era para ter resolvido o problema de segurança nas primeiras ações?” A pergunta é pertinente. Ações como a Operação Escudo não arranharam a unha do PCC.
Normalmente, truculência da polícia só encarece o acerto e a venda de segurança privada. Os suspeitos de sempre são baleados pelo populismo policial, que só interessa aos deputados policiais e aos que aplaudem a barbárie como se estivessem no coliseu romano. Não faltará bandido pé de chinelo para substituir os mortos. Enquanto isso, o crime se enriquece nas barbas de políticos que, atrás dos tiros, enxergam apenas votos.
O acento deslocado aqui das lutas sociais para a paz e segurança pública não significa renúncia à civilização em defesa de soluções de força. Poder não se confunde com violência, como ensinava Hannah Arendt; ela só se estabelece onde o poder é fraco ou está em crise. É o que vivemos na Segurança Pública do País. O alerta agora vem da Operação Fim da Linha, executada ontem pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Receita Federal. Ela mostra o grau da captura do sistema público de transporte pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Foram cumpridos dezenas de mandados de busca e decretado bloqueio de bens até o limite de R$ 680 milhões, além de prisões.
Mas não deve parar por aí. Um esquema assim não se circunscreve à maior cidade do País. Ele se espraia como uma metástase pelo interior, por municípios sem estrutura para lidar com a sofisticação cada vez maior dos esquemas de fraudes e lavagem de dinheiro de organizações criminosas, que, evidentemente, não teriam se estabelecido sem a incompetência e a desídia de quem devia combatêlas ou simplesmente sem a corrupção de agentes públicos. Essa é a certeza compartilhada pelos promotores responsáveis pela operação: há ainda um longo caminho para desentocar do Legislativo e do Executivo os que foram corrompidos pelo dinheiro das organizações criminosas.
A lição que Gaeco e Receita deixam aos adeptos do estilo Rambo de policiamento é a do fracasso de quem acha que vai derrotar o crime organizado na base da bala. O coronel José Vicente da Silva Filho usa o exemplo da comunidade do Jacarezinho, no Rio, ao tratar do fiasco dessa tática. “De 2007 a 2020 foram feitas ali 289 operações com 186 mortes. Não era para ter resolvido o problema de segurança nas primeiras ações?” A pergunta é pertinente. Ações como a Operação Escudo não arranharam a unha do PCC.
Normalmente, truculência da polícia só encarece o acerto e a venda de segurança privada. Os suspeitos de sempre são baleados pelo populismo policial, que só interessa aos deputados policiais e aos que aplaudem a barbárie como se estivessem no coliseu romano. Não faltará bandido pé de chinelo para substituir os mortos. Enquanto isso, o crime se enriquece nas barbas de políticos que, atrás dos tiros, enxergam apenas votos.
Para onde vai Israel?
O chef espanhol José Andrés, fundador da World Central Kitchen (WCK), especializada em distribuir ajuda alimentar a vítimas de conflitos armados, acusou o Exército israelense de ter assassinado deliberadamente sete funcionários da organização. Segundo Andrés, o atual governo de Israel trava uma guerra contra a Humanidade.
Andrés não é a única pessoa a pensar assim. Um pouco por todo o mundo cresce a percepção de que Israel está em vias de se transformar num estado terrorista.
Nos últimos dias, além do assassinato dos funcionários da WCK, Israel atacou a embaixada iraniana em Damasco, causando 11 mortes. Por outro lado, em mais uma manobra que confirma a deriva totalitária em curso, o Knesset, parlamento israelense, aprovou legislação que visa a silenciar a Al-Jazeera e outros canais noticiosos internacionais críticos do regime. Tudo isto enquanto prossegue a matança em Gaza.
Mais tarde ou mais cedo, a pressão interna e externa culminará no afastamento de Benjamin Netanyahu e do seu governo extremista. A grande questão não é saber se o primeiro-ministro cairá, mas quando. Muito mais importante: quem o substituirá?
Dezenas de milhares de judeus israelenses que vêm exigindo nas ruas a saída de Netanyahu não parecem muito incomodados com o dramático destino da população palestina. Os judeus israelenses estão zangados com o atual governo porque este não foi capaz de prever e de se antecipar ao ataque terrorista do Hamas, a 7 de outubro de 2023. Estão zangados porque Netanyahu é indiferente ao destino dos reféns. Estão zangados com a incompetência política, diplomática e militar dos seus governantes, que não conseguem nem eliminar o Hamas, nem contrariar o processo de isolamento do país.
A crueldade e a arrogância dos dirigentes israelenses — muitos dos quais defendem, sem o menor vestígio de vergonha, a expulsão dos palestinos de Gaza — horrorizam o mundo, e uma larga parte das comunidades judaicas fora de Israel. Contudo, dentro das fronteiras do país são raras as vozes judias que se erguem para se solidarizar com o sofrimento do povo palestino.
Aprendi a amar Israel através da sua literatura, lendo as obras de escritores lúcidos e corajosos, capazes de olhar o outro, como quem se olha ao espelho, e de erguer pontes de afeto e de empatia entre as diferentes comunidades. Não sei onde estão agora esses escritores. Não sei onde estão as pessoas, os movimentos, as instituições, que possam servir de referência moral, em meio à tempestade de ódio e de bruta irracionalidade que varre o país.
Sim, Netanyahu cairá. Já está caindo. Cairão com ele, muito provavelmente, algumas das personalidades mais repugnantes que constituem o atual governo israelense. Nessa altura, ficaremos a conhecer todo o horror em curso na Faixa de Gaza. O pouco que sabemos hoje já nos permite intuir a imensidão do desastre. Israel levará gerações para reconquistar a simpatia do mundo.
Este é o vaticínio otimista. Implicaria uma insurgência pacifista, um amplo movimento de reflexão da sociedade civil israelense, que se atrevesse a colocar em causa muitos dos fundamentos do próprio estado de Israel. Infelizmente, não vejo sinais de que essa insurgência venha algum dia a emergir.
Andrés não é a única pessoa a pensar assim. Um pouco por todo o mundo cresce a percepção de que Israel está em vias de se transformar num estado terrorista.
Nos últimos dias, além do assassinato dos funcionários da WCK, Israel atacou a embaixada iraniana em Damasco, causando 11 mortes. Por outro lado, em mais uma manobra que confirma a deriva totalitária em curso, o Knesset, parlamento israelense, aprovou legislação que visa a silenciar a Al-Jazeera e outros canais noticiosos internacionais críticos do regime. Tudo isto enquanto prossegue a matança em Gaza.
Mais tarde ou mais cedo, a pressão interna e externa culminará no afastamento de Benjamin Netanyahu e do seu governo extremista. A grande questão não é saber se o primeiro-ministro cairá, mas quando. Muito mais importante: quem o substituirá?
Dezenas de milhares de judeus israelenses que vêm exigindo nas ruas a saída de Netanyahu não parecem muito incomodados com o dramático destino da população palestina. Os judeus israelenses estão zangados com o atual governo porque este não foi capaz de prever e de se antecipar ao ataque terrorista do Hamas, a 7 de outubro de 2023. Estão zangados porque Netanyahu é indiferente ao destino dos reféns. Estão zangados com a incompetência política, diplomática e militar dos seus governantes, que não conseguem nem eliminar o Hamas, nem contrariar o processo de isolamento do país.
A crueldade e a arrogância dos dirigentes israelenses — muitos dos quais defendem, sem o menor vestígio de vergonha, a expulsão dos palestinos de Gaza — horrorizam o mundo, e uma larga parte das comunidades judaicas fora de Israel. Contudo, dentro das fronteiras do país são raras as vozes judias que se erguem para se solidarizar com o sofrimento do povo palestino.
Aprendi a amar Israel através da sua literatura, lendo as obras de escritores lúcidos e corajosos, capazes de olhar o outro, como quem se olha ao espelho, e de erguer pontes de afeto e de empatia entre as diferentes comunidades. Não sei onde estão agora esses escritores. Não sei onde estão as pessoas, os movimentos, as instituições, que possam servir de referência moral, em meio à tempestade de ódio e de bruta irracionalidade que varre o país.
Sim, Netanyahu cairá. Já está caindo. Cairão com ele, muito provavelmente, algumas das personalidades mais repugnantes que constituem o atual governo israelense. Nessa altura, ficaremos a conhecer todo o horror em curso na Faixa de Gaza. O pouco que sabemos hoje já nos permite intuir a imensidão do desastre. Israel levará gerações para reconquistar a simpatia do mundo.
Este é o vaticínio otimista. Implicaria uma insurgência pacifista, um amplo movimento de reflexão da sociedade civil israelense, que se atrevesse a colocar em causa muitos dos fundamentos do próprio estado de Israel. Infelizmente, não vejo sinais de que essa insurgência venha algum dia a emergir.
O declínio e a questão da razão
Em seu discurso de 1838 no Young Men’s Lyceum, o jovem Abraham Lincoln demonstrou preocupação com o fato de que, à medida que as lembranças da Revolução ficavam para trás, a liberdade da nação era ameaçada por um desprezo pelas instituições governamentais, que protegiam as liberdades civis e religiosas deixadas como legado pelos Fundadores. Para preservar o Estado de direito e evitar a ascensão de um pretenso tirano que poderia “surgir entre nós”, seria necessária uma razão sóbria — “uma razão fria, calculada, imparcial”. Para permanecer “livre até o último dos homens”, ele incitou o povo norte-americano a abraçar a razão, junto com uma “moralidade sólida e, em particular, uma reverência pela constituição e pelas leis”.
Como Lincoln sabia, os fundadores dos Estados Unidos haviam baseado sua jovem república nos princípios iluministas da razão, da liberdade, do progresso e da tolerância religiosa. E a estrutura constitucional que haviam arquitetado se fundamentava num sistema racional de separação dos poderes para evitar a possibilidade, nas palavras de Alexander Hamilton, do surgimento de “um homem sem princípios em sua vida privada”, “de temperamento insolente”, que talvez “viesse montado no cavalinho de pau da popularidade” e “exaltasse e se alinhasse com o disparate propagado pelos extremistas de sua era”, de modo a constranger o governo, “lançando ainda mais coisas nessa confusão para dominar a tempestade e direcionar o furacão”.
Esse sistema estava longe de ser perfeito, mas resistiu por mais de dois séculos graças à sua resiliência e à capacidade de acomodar mudanças essenciais. Líderes como Lincoln, Martin Luther King Jr. e Barack Obama viam os Estados Unidos como uma obra em progresso — um país em processo de autoaperfeiçoamento. E eles tentaram acelerar essa obra, cientes, nas palavras do Dr. King, de que “o progresso não é automático nem inevitável”, mas algo que necessita de esforços e dedicação contínuos. O que fora conquistado desde a Guerra Civil e o movimento dos direitos civis eram lembretes do trabalho que ainda havia por fazer, mas também um tributo à crença do presidente Obama de que os norte-americanos “podem se reinventar constantemente para se adaptar a sonhos cada vez maiores”, e à crença iluminista no que George Washington chamou de “o grande experimento confiado às mãos do povo norte-americano”.
Junto a essa visão otimista dos Estados Unidos como uma nação que poderia se tornar uma reluzente “cidade edificada sobre um monte” também existe uma contranarrativa irracional e sombria na história do país, que se reafirmou com uma vingança — a tal ponto que a razão não apenas está sendo minada, mas ao que parece foi simplesmente defenestrada junto com os fatos, com o debate bem informado e com a criação de políticas deliberativas. A ciência está sendo atacada, bem como a autoridade de especialistas de todos os campos — seja em política internacional, segurança nacional, economia ou educação.
Philip Roth chamou essa contranarrativa de “selvageria nativa americana”, e o historiador Richard Hofstadter notoriamente a descreveu como “estilo paranoide” — uma visão alimentada por “fervorosos exageros, desconfiança e fantasia conspiratória” e focada na percepção de ameaças a “uma nação, uma cultura, um modo de vida”. O ensaio de 1964 de Hofstadter foi inspirado pela campanha de Barry Goldwater e pelos movimentos de direita ao seu redor, assim como seu livro de 1963, Anti-Intellectualism in American Life, concebido em resposta à notória caça às bruxas promovida pelo senador Joseph McCarthy e também ao panorama político e social mais amplo dos anos 1950.
Goldwater perdeu a eleição presidencial, e o macarthismo se autodestruiu depois que um advogado do Exército norte-americano, Joseph Welch, teve a coragem de enfrentar McCarthy: “Afinal de contas, o senhor não tem nenhum senso de decência?”, perguntou Welch. “Não lhe sobrou nenhum senso de decência?”
O malicioso McCarthy, que havia acusado pessoas de deslealdade por todos os cantos de Washington (“o Departamento de Estado abriga um ninho de comunistas e simpatizantes dos comunistas”, avisou ao presidente Truman em 1950), foi admoestado pelo senado em 1954. E, com o lançamento do Sputnik pelos soviéticos, em 1957, o alarmante movimento antirracionalista começou a recuar, dando lugar a uma corrida espacial e a uma série de esforços orquestrados para aprimorar os programas científicos dos Estados Unidos.
Hofstadter notou que o estilo paranoico tende a se manifestar em “ondas episódicas”. O movimento anticatólico e anti-imigrante Know Nothing atingiu seu auge em 1855, quando 43 membros do Congresso admitiram abertamente defender suas próprias ideias. A força do movimento começou a se dissipar rapidamente no ano seguinte, depois que o partido se fragmentou em várias dissidências. No entanto, a intolerância que ele incorporava permaneceu, como um vírus, incubado no sistema político esperando para emergir outra vez.
Hofstadter argumenta que a direita moderna tende a ser mobilizada por um sentimento de ressentimento e desapropriação: “Os Estados Unidos, em grande parte, foram tomados dessas pessoas”, escreveu ele, e elas podem acabar achando que “não têm acesso à barganha política ou à tomada de decisões”.
No caso dos Estados Unidos dos millenials (e de grande parte da Europa Ocidental também), esse ressentimento é exacerbado pelas mudanças demográficas e pelos costumes sociais que fizeram alguns membros da classe operária branca se sentirem cada vez mais marginalizados; por conta de desigualdades de renda cada vez maiores, aceleradas pela crise financeira de 2008; e por forças como a globalização e a tecnologia, que estão acabando com os trabalhos de manufatura e injetando uma nova dose de incerteza e angústia na vida cotidiana.
Trump e outros líderes nacionalistas e anti-imigrantes da direita europeia, como Marine Le Pen na França, Geert Wilders na Holanda e Matteo Salvini na Itália, inflamavam esses sentimentos de medo, ódio e privação de direitos, oferecendo bodes expiatórios em vez de soluções; enquanto liberais e conservadores, preocupados com a ascensão do nativismo e de agendas políticas preconceituosas, alertaram para o fato de que as instituições democráticas estavam cada vez mais ameaçadas. “A segunda vinda”, poema que Yeats escreveu em 1919 em meio aos escombros da Primeira Guerra Mundial, passou por um tremendo revival em 2016 — citado mais vezes em matérias na imprensa durante o primeiro semestre do que ao longo das últimas três décadas, uma vez que articulistas políticos evocaram seus famosos versos: “Tudo se parte, o centro não sustenta./ Mera anarquia avança sobre o mundo.”
O ataque à razão e à verdade atingiu seu ápice nos Estados Unidos durante o primeiro ano de mandato do presidente Trump, mas vinha sendo incubado havia anos pela extrema direita. Durante a campanha de 2016, opositores de Clinton que fabricavam acusações delirantes sobre a morte de Vince Foster na década de 1990 se uniram a membros paranoicos do Tea Party que afirmaram que os ambientalistas queriam controlar a temperatura das casas e as cores dos carros. A eles se juntaram blogueiros do Breitbart e trolls da direita alternativa. Quando Trump ganhou a indicação dos republicanos para concorrer à presidência, as ideias extremistas dos seus apoiadores mais radicais — sua intolerância racial e religiosa, seu ódio pelo governo anterior e sua aceitação das teorias da conspiração e das notícias falsas — chegaram ao grande público.
De acordo com um levantamento feito em 2017 pelo The Washington Post, 47% dos republicanos erroneamente acreditam que Trump venceu no voto popular; 68% acreditam que milhões de imigrantes ilegais votaram em 2016; e mais da metade dos republicanos afirmaram não ver problemas em adiar as eleições presidenciais de 2020 até que se resolvam problemas como a votação dos imigrantes ilegais.19 Outro estudo, conduzido por cientistas políticos na Universidade de Chicago, demonstrou que 25% dos norte-americanos acreditam que a quebra da bolsa em 2008 foi secretamente orquestrada por um pequeno grupo de banqueiros; 19% acreditam que o governo tem algum envolvimento com os ataques terroristas do 11 de Setembro; e 11% acreditaram numa teoria que os próprios pesquisadores inventaram, que dizia que lâmpadas fluorescentes faziam parte de um plano do governo para tornar as pessoas mais passivas e fáceis de serem controladas.
Trump, que lançou sua carreira política promovendo descaradamente o nascimentismo (birtherism) e já falou positivamente sobre o radialista e teórico da conspiração Alex Jones, preside uma administração que se tornou, em seu primeiro ano, a própria personificação dos princípios anti-iluministas, repudiando os princípios do racionalismo, da tolerância e do empirismo tanto nas políticas quanto no modus operandi — um reflexo do estilo impulsivo e errático de seu comandante em chefe em tomar decisões, baseado não em conhecimento, mas no instinto, em caprichos e em ideias preconcebidas (e frequentemente delirantes) a respeito do funcionamento do mundo.
Trump não fez nenhum esforço para acabar com sua ignorância a respeito das políticas interna e externa quando se mudou para a Casa Branca. Seu ex-estrategista chefe, Stephen Bannon, disse que o presidente só “lê o que reafirma suas crenças” e sempre negou, minimizou ou desconsiderou qualquer informação a respeito da interferência russa nas eleições de 2016. Como menções a esse assunto costumavam provocar a ira do presidente e podiam atrapalhar o andamento dos relatórios diários de inteligência, funcionários do governo contaram em entrevista ao The Washington Post que, às vezes, incluíam esse tipo de material somente na versão impressa do PDB (President’s Daily Brief, o relatório diário do presidente), que todos sabiam que ele raramente lia.
Em vez disso, ao que parece o presidente prefere obter suas informações na Fox News, sobretudo no programa matinal bajulador Fox & Friends e em veículos como o Breitbart News e o National Enquirer. De acordo com relatos, ele costuma passar até oito horas por dia vendo TV — um hábito que deve fazer com que muitos leitores se recordem de Chauncey Gardiner, o jardineiro viciado em TV que virou celebridade e estrela política em ascensão no romance O Videota, de Jerzy Kosiński, publicado em 1970. A Vice News também relatou que Trump recebe, duas vezes por dia, uma pasta contendo um clipping elogioso, incluindo “tuítes de admiradores, trechos de entrevistas bajuladoras na TV, matérias jornalísticas repletas de elogios e, de vez em quando, apenas fotos de Trump na TV parecendo poderoso”.
Esse tipo de detalhe absurdo é mais preocupante do que apenas cômico, porque não estamos falando de um mero episódio de Além da imaginação sobre um lunático morando numa enorme casa branca em Washington. A propensão de Trump para o caos não só não foi contida pelos mais próximos a ele, como contaminou toda a sua administração. Ele garante ser “o único que importa” quando o assunto é a criação de políticas e, dado o seu desprezo pelo conhecimento institucional, ignora com frequência os conselhos de membros do gabinete e de agências, isso quando não os exclui por completo da discussão.
Michiko Kakutani, "A morte da verdade"
Como Lincoln sabia, os fundadores dos Estados Unidos haviam baseado sua jovem república nos princípios iluministas da razão, da liberdade, do progresso e da tolerância religiosa. E a estrutura constitucional que haviam arquitetado se fundamentava num sistema racional de separação dos poderes para evitar a possibilidade, nas palavras de Alexander Hamilton, do surgimento de “um homem sem princípios em sua vida privada”, “de temperamento insolente”, que talvez “viesse montado no cavalinho de pau da popularidade” e “exaltasse e se alinhasse com o disparate propagado pelos extremistas de sua era”, de modo a constranger o governo, “lançando ainda mais coisas nessa confusão para dominar a tempestade e direcionar o furacão”.
Esse sistema estava longe de ser perfeito, mas resistiu por mais de dois séculos graças à sua resiliência e à capacidade de acomodar mudanças essenciais. Líderes como Lincoln, Martin Luther King Jr. e Barack Obama viam os Estados Unidos como uma obra em progresso — um país em processo de autoaperfeiçoamento. E eles tentaram acelerar essa obra, cientes, nas palavras do Dr. King, de que “o progresso não é automático nem inevitável”, mas algo que necessita de esforços e dedicação contínuos. O que fora conquistado desde a Guerra Civil e o movimento dos direitos civis eram lembretes do trabalho que ainda havia por fazer, mas também um tributo à crença do presidente Obama de que os norte-americanos “podem se reinventar constantemente para se adaptar a sonhos cada vez maiores”, e à crença iluminista no que George Washington chamou de “o grande experimento confiado às mãos do povo norte-americano”.
Junto a essa visão otimista dos Estados Unidos como uma nação que poderia se tornar uma reluzente “cidade edificada sobre um monte” também existe uma contranarrativa irracional e sombria na história do país, que se reafirmou com uma vingança — a tal ponto que a razão não apenas está sendo minada, mas ao que parece foi simplesmente defenestrada junto com os fatos, com o debate bem informado e com a criação de políticas deliberativas. A ciência está sendo atacada, bem como a autoridade de especialistas de todos os campos — seja em política internacional, segurança nacional, economia ou educação.
Philip Roth chamou essa contranarrativa de “selvageria nativa americana”, e o historiador Richard Hofstadter notoriamente a descreveu como “estilo paranoide” — uma visão alimentada por “fervorosos exageros, desconfiança e fantasia conspiratória” e focada na percepção de ameaças a “uma nação, uma cultura, um modo de vida”. O ensaio de 1964 de Hofstadter foi inspirado pela campanha de Barry Goldwater e pelos movimentos de direita ao seu redor, assim como seu livro de 1963, Anti-Intellectualism in American Life, concebido em resposta à notória caça às bruxas promovida pelo senador Joseph McCarthy e também ao panorama político e social mais amplo dos anos 1950.
Goldwater perdeu a eleição presidencial, e o macarthismo se autodestruiu depois que um advogado do Exército norte-americano, Joseph Welch, teve a coragem de enfrentar McCarthy: “Afinal de contas, o senhor não tem nenhum senso de decência?”, perguntou Welch. “Não lhe sobrou nenhum senso de decência?”
O malicioso McCarthy, que havia acusado pessoas de deslealdade por todos os cantos de Washington (“o Departamento de Estado abriga um ninho de comunistas e simpatizantes dos comunistas”, avisou ao presidente Truman em 1950), foi admoestado pelo senado em 1954. E, com o lançamento do Sputnik pelos soviéticos, em 1957, o alarmante movimento antirracionalista começou a recuar, dando lugar a uma corrida espacial e a uma série de esforços orquestrados para aprimorar os programas científicos dos Estados Unidos.
Hofstadter notou que o estilo paranoico tende a se manifestar em “ondas episódicas”. O movimento anticatólico e anti-imigrante Know Nothing atingiu seu auge em 1855, quando 43 membros do Congresso admitiram abertamente defender suas próprias ideias. A força do movimento começou a se dissipar rapidamente no ano seguinte, depois que o partido se fragmentou em várias dissidências. No entanto, a intolerância que ele incorporava permaneceu, como um vírus, incubado no sistema político esperando para emergir outra vez.
Hofstadter argumenta que a direita moderna tende a ser mobilizada por um sentimento de ressentimento e desapropriação: “Os Estados Unidos, em grande parte, foram tomados dessas pessoas”, escreveu ele, e elas podem acabar achando que “não têm acesso à barganha política ou à tomada de decisões”.
No caso dos Estados Unidos dos millenials (e de grande parte da Europa Ocidental também), esse ressentimento é exacerbado pelas mudanças demográficas e pelos costumes sociais que fizeram alguns membros da classe operária branca se sentirem cada vez mais marginalizados; por conta de desigualdades de renda cada vez maiores, aceleradas pela crise financeira de 2008; e por forças como a globalização e a tecnologia, que estão acabando com os trabalhos de manufatura e injetando uma nova dose de incerteza e angústia na vida cotidiana.
Trump e outros líderes nacionalistas e anti-imigrantes da direita europeia, como Marine Le Pen na França, Geert Wilders na Holanda e Matteo Salvini na Itália, inflamavam esses sentimentos de medo, ódio e privação de direitos, oferecendo bodes expiatórios em vez de soluções; enquanto liberais e conservadores, preocupados com a ascensão do nativismo e de agendas políticas preconceituosas, alertaram para o fato de que as instituições democráticas estavam cada vez mais ameaçadas. “A segunda vinda”, poema que Yeats escreveu em 1919 em meio aos escombros da Primeira Guerra Mundial, passou por um tremendo revival em 2016 — citado mais vezes em matérias na imprensa durante o primeiro semestre do que ao longo das últimas três décadas, uma vez que articulistas políticos evocaram seus famosos versos: “Tudo se parte, o centro não sustenta./ Mera anarquia avança sobre o mundo.”
O ataque à razão e à verdade atingiu seu ápice nos Estados Unidos durante o primeiro ano de mandato do presidente Trump, mas vinha sendo incubado havia anos pela extrema direita. Durante a campanha de 2016, opositores de Clinton que fabricavam acusações delirantes sobre a morte de Vince Foster na década de 1990 se uniram a membros paranoicos do Tea Party que afirmaram que os ambientalistas queriam controlar a temperatura das casas e as cores dos carros. A eles se juntaram blogueiros do Breitbart e trolls da direita alternativa. Quando Trump ganhou a indicação dos republicanos para concorrer à presidência, as ideias extremistas dos seus apoiadores mais radicais — sua intolerância racial e religiosa, seu ódio pelo governo anterior e sua aceitação das teorias da conspiração e das notícias falsas — chegaram ao grande público.
De acordo com um levantamento feito em 2017 pelo The Washington Post, 47% dos republicanos erroneamente acreditam que Trump venceu no voto popular; 68% acreditam que milhões de imigrantes ilegais votaram em 2016; e mais da metade dos republicanos afirmaram não ver problemas em adiar as eleições presidenciais de 2020 até que se resolvam problemas como a votação dos imigrantes ilegais.19 Outro estudo, conduzido por cientistas políticos na Universidade de Chicago, demonstrou que 25% dos norte-americanos acreditam que a quebra da bolsa em 2008 foi secretamente orquestrada por um pequeno grupo de banqueiros; 19% acreditam que o governo tem algum envolvimento com os ataques terroristas do 11 de Setembro; e 11% acreditaram numa teoria que os próprios pesquisadores inventaram, que dizia que lâmpadas fluorescentes faziam parte de um plano do governo para tornar as pessoas mais passivas e fáceis de serem controladas.
Trump, que lançou sua carreira política promovendo descaradamente o nascimentismo (birtherism) e já falou positivamente sobre o radialista e teórico da conspiração Alex Jones, preside uma administração que se tornou, em seu primeiro ano, a própria personificação dos princípios anti-iluministas, repudiando os princípios do racionalismo, da tolerância e do empirismo tanto nas políticas quanto no modus operandi — um reflexo do estilo impulsivo e errático de seu comandante em chefe em tomar decisões, baseado não em conhecimento, mas no instinto, em caprichos e em ideias preconcebidas (e frequentemente delirantes) a respeito do funcionamento do mundo.
Trump não fez nenhum esforço para acabar com sua ignorância a respeito das políticas interna e externa quando se mudou para a Casa Branca. Seu ex-estrategista chefe, Stephen Bannon, disse que o presidente só “lê o que reafirma suas crenças” e sempre negou, minimizou ou desconsiderou qualquer informação a respeito da interferência russa nas eleições de 2016. Como menções a esse assunto costumavam provocar a ira do presidente e podiam atrapalhar o andamento dos relatórios diários de inteligência, funcionários do governo contaram em entrevista ao The Washington Post que, às vezes, incluíam esse tipo de material somente na versão impressa do PDB (President’s Daily Brief, o relatório diário do presidente), que todos sabiam que ele raramente lia.
Em vez disso, ao que parece o presidente prefere obter suas informações na Fox News, sobretudo no programa matinal bajulador Fox & Friends e em veículos como o Breitbart News e o National Enquirer. De acordo com relatos, ele costuma passar até oito horas por dia vendo TV — um hábito que deve fazer com que muitos leitores se recordem de Chauncey Gardiner, o jardineiro viciado em TV que virou celebridade e estrela política em ascensão no romance O Videota, de Jerzy Kosiński, publicado em 1970. A Vice News também relatou que Trump recebe, duas vezes por dia, uma pasta contendo um clipping elogioso, incluindo “tuítes de admiradores, trechos de entrevistas bajuladoras na TV, matérias jornalísticas repletas de elogios e, de vez em quando, apenas fotos de Trump na TV parecendo poderoso”.
Esse tipo de detalhe absurdo é mais preocupante do que apenas cômico, porque não estamos falando de um mero episódio de Além da imaginação sobre um lunático morando numa enorme casa branca em Washington. A propensão de Trump para o caos não só não foi contida pelos mais próximos a ele, como contaminou toda a sua administração. Ele garante ser “o único que importa” quando o assunto é a criação de políticas e, dado o seu desprezo pelo conhecimento institucional, ignora com frequência os conselhos de membros do gabinete e de agências, isso quando não os exclui por completo da discussão.
Michiko Kakutani, "A morte da verdade"
terça-feira, 9 de abril de 2024
Novos ditadores evitam violência para fingir que são democráticos
O livro "Democracia Fake", publicado recentemente no Brasil, alerta para nova estratégia de ditadores contemporâneos. Buscando forjar um verniz democrático que possibilite o estabelecimento de relações com países liberais, esses líderes abandonam a repressão violenta e se voltam para táticas de manipulação menos escancaradas.
Uma multidão se aglomerava na praça principal da capital do Congo. Era 2 de junho de 1966 e o ditador Mobutu havia declarado feriado naquele dia. Ele queria que todos acompanhassem o que aconteceria ali.
Sob um sol escaldante, desceram de um jipe militar quatro homens que usavam capuzes pretos, como descreve reportagem publicada no dia seguinte pelo jornal americano The New York Times. Eles caminharam até o centro da praça e, um a um, subiram os degraus de um andaime improvisado, onde havia uma grossa corda pendurada. Na frente de todos, foram enforcados.
Os quatro eram inimigos políticos de Mobutu, que ordenou a execução sob o argumento de que o grupo tentaria matá-lo para dar um golpe.
Sessenta anos depois, demonstrações ostensivas de violência como essa são mais raras, mesmo entre ditadores —no século 21, eles perceberam os benefícios de posar como democratas. É essa a tese proposta no livro "Democracia Fake" (Vestígio), de Sergei Guriev e Daniel Treisman.
A obra opõe dois tipos de ditadores. O primeiro, mais comum no século 20, governa pelo medo. Tem como marcas a repressão violenta (como torturas, prisões e assassinatos), a censura generalizada e escancarada, a imposição da ideologia oficial do regime e o culto à personalidade.
O outro tipo, mais contemporâneo, é chamado pelos autores de "ditadores do spin" —não existe uma tradução literal para o termo, mas o sentido é semelhante a ditadores da manipulação. Esses governantes escondem a violência estatal, disfarçam a censura, cooptam empresas de mídia privada e mantêm uma fachada democrática.
Os dois representam um tipo distinto de perigo, diz Guriev em entrevista por videochamada à Folha. "Os ditadores do spin são menos perigosos por serem menos violentos. Há menos pessoas morrendo e sendo torturadas nas prisões", afirma. "Por outro lado, são mais perigosos porque fingem ser democratas e às vezes são bem-sucedidos em enganar o Ocidente. Esse é o propósito do livro: alertar o mundo democrático que eles, ainda assim, são ditadores."
O modus operandi de líderes como Lee Kuan Yew, ex-primeiro-ministro de Singapura apontado no livro como precursor do modelo, envolve manipular a opinião pública para ganhar popularidade. "Os ditadores do spin sobrevivem não por destruir a rebelião, mas por remover o próprio desejo de rebelião", escrevem os autores.
O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán é citado por Guriev e Treisman como um exemplo desse tipo de ditador. Ele não adotou a censura declarada, mas, segundo organizações que defendem a liberdade de imprensa, tomou controle do mercado da mídia por meio de oligarcas aliados, que teriam comprado empresas do setor. A ONG Repórteres sem Fronteiras afirma que 80% dos veículos de comunicação húngaros estão, na prática, nas mãos do partido de Orbán.
O primeiro-ministro também disfarçou o autoritarismo no método que utilizou para expulsar do país a Universidade Centro-Europeia, fundada pelo magnata George Soros, alvo frequente de sua retórica populista. Para viabilizar a expulsão, o Parlamento governista aprovou uma lei que criava um motivo burocrático que impossibilitaria a continuidade do funcionamento da universidade na Hungria.
Orbán minou o sistema de freios e contrapesos, mas não derramou sangue para isso —em primeiro lugar, porque não precisou. Para líderes como ele, a violência é o último recurso. Não necessariamente por uma questão moral, mas estratégica.
"A globalização hoje oferece muitos incentivos para um país abrir as fronteiras e atrair investimentos estrangeiros, porque isso cria empregos e crescimento econômico. Para conseguir isso, eles têm que fingir ser democratas", diz Guriev. "Para viajar para Davos [onde acontece o Fórum Econômico Mundial], eles precisam usar um terno, não um uniforme militar. As pessoas não vão apertar a mão deles se eles tiverem torturado milhares."
A globalização é um dos componentes do que os autores chamam de "coquetel da modernização", uma junção de forças que empurraria algumas ditaduras rumo à democracia. A ditadura do spin seria uma forma de adaptação e sobrevivência em meio a esse novo cenário.
"Se você quer transformar uma economia de renda média em um lugar próspero, você vai precisar de crescimento econômico baseado em inovação e conhecimento. Para isso, você precisa de pessoas com ensino superior", afirma Guriev. "Essas pessoas não querem trabalhar em uma ditadura do medo. Então, você precisa ser mais aberto, fingir que é um democrata."
Guriev e Treisman criaram uma base de dados utilizando uma série de critérios para distinguir os ditadores do medo e os do spin. Os números corroboraram a tese deles: o segundo tipo é o mais frequente entre as novas ditaduras. Nos anos 1970, 60% dos ditadores que assumiram um governo se utilizaram do medo. Nos anos 2000, essa porcentagem caiu para menos de 10%. No mesmo período, o percentual que governa pelo spin subiu de 13% para 53%. Os demais são de um tipo híbrido.
Guriev fala em duas maneiras comuns para a ascensão de um ditador do spin. A primeira acontece após o declínio de uma ditadura do medo. Por exemplo, um líder dessa linha morre e o seu sucessor conclui que, no mundo contemporâneo, é mais estratégico ser um ditador do novo tipo.
A outra, explica ele, ocorre quando um governante, frequentemente populista, chega ao poder por eleições regulares e então subverte as instituições democráticas. Os autores afirmam que o ex-presidente Donald Trump tentou fazer isso nos Estados Unidos.
Treisman diz que, se Trump for eleito novamente neste ano, o cenário se repetirá. "Ele vai tentar minar o sistema de freios e contrapesos, vai tentar colocar ainda mais comparsas leais nas cortes, vai tentar reduzir o acesso à mídia. Ele vai politizar o serviço civil, a burocracia [do Estado]", afirma. "A equipe dele já anunciou que tem planos de, no primeiro dia, demitir um grande número de funcionários federais e introduzir novas pessoas leais a ele."
Isso não significa que, caso eleito, Trump será bem-sucedido em sua tentativa. Os autores escrevem que a maior resistência contra líderes como ele está no grupo que chamam de "bem-informados", subconjunto da população com "educação superior, habilidades de comunicação e conexões internacionais", que documentam e denunciam os abusos do governante.
"Não apostaria contra a sociedade americana, que é muito resiliente e está mobilizada. Existem advogados, jornalistas, juízes, funcionários do governo e ONGs que estão determinados a impedir a erosão da democracia", diz Treisman. "Mas vai ser perigoso e destrutivo se ele tentar. Uma vitória de Trump seria ruim para o mundo todo. Encorajaria os ditadores de todos os tipos a aumentar a pressão. A gente viu evidências de que o envolvimento americano ajudou a impedir a tentativa de golpe de Bolsonaro."
Em alguns casos, um ditador do spin pode recorrer ao medo —um caminho sem volta. Os autores afirmam que isso aconteceu na Venezuela. Hugo Chávez, um ditador do spin, foi substituído por Nicolás Maduro, que, pressionado por uma grave crise econômica, aumentou a repressão. O russo Vladimir Putin seguiu o mesmo caminho após iniciar a Guerra da Ucrânia, diz Guriev.
Putin teve grandes ganhos de popularidade com a anexação da Crimeia em 2014. Em um cenário de estagnação econômica, o russo pode ter calculado que uma nova guerra voltaria a unir a população em torno de uma causa em comum, fortalecendo seu governo.
"Ele viu que não estava funcionando, que as pessoas estavam protestando e que a mídia independente estava ganhando influência", afirma Guriev. "Na primeira semana, ele fechou a mídia e bloqueou o Facebook e o Instagram, e o Parlamento aprovou uma lei que determina que, quando alguém critica a guerra ou usa essa palavra, pode ir para a cadeia por até oito anos. Isso é censura declarada, algo que nunca tinha sido usado."
Putin foi, inclusive, o motivo pelo qual os autores começaram a escrever o livro. Guriev é um economista russo, hoje diretor de estudos de pós-graduação em economia na Sciences Po, em Paris. Crítico do governo, ele foi aconselhado a sair da Rússia em 2013. À época, um amigo afirmou ao New York Times que o economista tinha motivos para acreditar que seria preso. Já Treisman é professor de ciência política na Universidade da Califórnia e especialista em Rússia.
Os dois começaram a observar que as táticas de manipulação de Putin —antes da guerra, considerado por eles um ditador do spin, não do medo— eram semelhantes àquelas usadas por outros líderes, como Orbán e Chávez. Então decidiram juntar forças para montar um modelo que explicasse esse processo e testasse as comparações entre os governos.
Depois de publicar uma série de trabalhos acadêmicos, Guriev e Treisman decidiram que o livro seria uma forma de chegar a um público mais amplo.
Expor as táticas dos ditadores recentes é justamente uma das soluções para lidar com eles. Outra, segundo os autores, é limitar as sanções econômicas apenas contra indivíduos e empresas. Os autores lembram que o crescimento econômico é a melhor esperança para transformar as autocracias em regimes menos violentos e, finalmente, em democracias.
Os dois também advogam pela reparação das instituições nos países democráticos, restaurando a confiança da população nelas; que advogados, banqueiros, lobistas e outros integrantes da elite ocidental parem de capacitar ditadores; e que empresas ocidentais deixem de vender a eles tecnologias utilizadas para espionagem doméstica.
Apesar dos alertas, o livro tem uma nota otimista: a ditadura do spin é tratada quase como um modelo de passagem em direção à democracia. "A gente especula que [esse tipo de ditadura] não é sustentável, mas não temos dados, uma prova empírica", diz Guriev.
Os autores afirmam que não existe nenhum antídoto conhecido para o "coquetel de modernização" que empurra as nações em direção à democracia.
Isso porque, ao mesmo tempo que o desenvolvimento econômico ameaça os ditadores, já que os cidadãos têm mais acesso à educação e à informação, ele também é necessário para que esses líderes se mantenham no poder, já que crises econômicas ameaçam a popularidade do governo.
Ou seja, ditadores até poderiam atravancar o crescimento para frear a democratização do país, mas isso também os prejudicaria.
Em um momento de descontentamento, os ditadores precisam de mais repressão para se manter no cargo —só que foi justamente a inadequação da violência na sociedade globalizada o que os levou a abandonar o medo e a escolher a manipulação.
Resta saber se esse dilema não resolvido de fato levará o mundo a um cenário mais democrático.
Uma multidão se aglomerava na praça principal da capital do Congo. Era 2 de junho de 1966 e o ditador Mobutu havia declarado feriado naquele dia. Ele queria que todos acompanhassem o que aconteceria ali.
Sob um sol escaldante, desceram de um jipe militar quatro homens que usavam capuzes pretos, como descreve reportagem publicada no dia seguinte pelo jornal americano The New York Times. Eles caminharam até o centro da praça e, um a um, subiram os degraus de um andaime improvisado, onde havia uma grossa corda pendurada. Na frente de todos, foram enforcados.
Os quatro eram inimigos políticos de Mobutu, que ordenou a execução sob o argumento de que o grupo tentaria matá-lo para dar um golpe.
Sessenta anos depois, demonstrações ostensivas de violência como essa são mais raras, mesmo entre ditadores —no século 21, eles perceberam os benefícios de posar como democratas. É essa a tese proposta no livro "Democracia Fake" (Vestígio), de Sergei Guriev e Daniel Treisman.
A obra opõe dois tipos de ditadores. O primeiro, mais comum no século 20, governa pelo medo. Tem como marcas a repressão violenta (como torturas, prisões e assassinatos), a censura generalizada e escancarada, a imposição da ideologia oficial do regime e o culto à personalidade.
O outro tipo, mais contemporâneo, é chamado pelos autores de "ditadores do spin" —não existe uma tradução literal para o termo, mas o sentido é semelhante a ditadores da manipulação. Esses governantes escondem a violência estatal, disfarçam a censura, cooptam empresas de mídia privada e mantêm uma fachada democrática.
Os dois representam um tipo distinto de perigo, diz Guriev em entrevista por videochamada à Folha. "Os ditadores do spin são menos perigosos por serem menos violentos. Há menos pessoas morrendo e sendo torturadas nas prisões", afirma. "Por outro lado, são mais perigosos porque fingem ser democratas e às vezes são bem-sucedidos em enganar o Ocidente. Esse é o propósito do livro: alertar o mundo democrático que eles, ainda assim, são ditadores."
O modus operandi de líderes como Lee Kuan Yew, ex-primeiro-ministro de Singapura apontado no livro como precursor do modelo, envolve manipular a opinião pública para ganhar popularidade. "Os ditadores do spin sobrevivem não por destruir a rebelião, mas por remover o próprio desejo de rebelião", escrevem os autores.
O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán é citado por Guriev e Treisman como um exemplo desse tipo de ditador. Ele não adotou a censura declarada, mas, segundo organizações que defendem a liberdade de imprensa, tomou controle do mercado da mídia por meio de oligarcas aliados, que teriam comprado empresas do setor. A ONG Repórteres sem Fronteiras afirma que 80% dos veículos de comunicação húngaros estão, na prática, nas mãos do partido de Orbán.
O primeiro-ministro também disfarçou o autoritarismo no método que utilizou para expulsar do país a Universidade Centro-Europeia, fundada pelo magnata George Soros, alvo frequente de sua retórica populista. Para viabilizar a expulsão, o Parlamento governista aprovou uma lei que criava um motivo burocrático que impossibilitaria a continuidade do funcionamento da universidade na Hungria.
Orbán minou o sistema de freios e contrapesos, mas não derramou sangue para isso —em primeiro lugar, porque não precisou. Para líderes como ele, a violência é o último recurso. Não necessariamente por uma questão moral, mas estratégica.
"A globalização hoje oferece muitos incentivos para um país abrir as fronteiras e atrair investimentos estrangeiros, porque isso cria empregos e crescimento econômico. Para conseguir isso, eles têm que fingir ser democratas", diz Guriev. "Para viajar para Davos [onde acontece o Fórum Econômico Mundial], eles precisam usar um terno, não um uniforme militar. As pessoas não vão apertar a mão deles se eles tiverem torturado milhares."
A globalização é um dos componentes do que os autores chamam de "coquetel da modernização", uma junção de forças que empurraria algumas ditaduras rumo à democracia. A ditadura do spin seria uma forma de adaptação e sobrevivência em meio a esse novo cenário.
"Se você quer transformar uma economia de renda média em um lugar próspero, você vai precisar de crescimento econômico baseado em inovação e conhecimento. Para isso, você precisa de pessoas com ensino superior", afirma Guriev. "Essas pessoas não querem trabalhar em uma ditadura do medo. Então, você precisa ser mais aberto, fingir que é um democrata."
Guriev e Treisman criaram uma base de dados utilizando uma série de critérios para distinguir os ditadores do medo e os do spin. Os números corroboraram a tese deles: o segundo tipo é o mais frequente entre as novas ditaduras. Nos anos 1970, 60% dos ditadores que assumiram um governo se utilizaram do medo. Nos anos 2000, essa porcentagem caiu para menos de 10%. No mesmo período, o percentual que governa pelo spin subiu de 13% para 53%. Os demais são de um tipo híbrido.
Guriev fala em duas maneiras comuns para a ascensão de um ditador do spin. A primeira acontece após o declínio de uma ditadura do medo. Por exemplo, um líder dessa linha morre e o seu sucessor conclui que, no mundo contemporâneo, é mais estratégico ser um ditador do novo tipo.
A outra, explica ele, ocorre quando um governante, frequentemente populista, chega ao poder por eleições regulares e então subverte as instituições democráticas. Os autores afirmam que o ex-presidente Donald Trump tentou fazer isso nos Estados Unidos.
Treisman diz que, se Trump for eleito novamente neste ano, o cenário se repetirá. "Ele vai tentar minar o sistema de freios e contrapesos, vai tentar colocar ainda mais comparsas leais nas cortes, vai tentar reduzir o acesso à mídia. Ele vai politizar o serviço civil, a burocracia [do Estado]", afirma. "A equipe dele já anunciou que tem planos de, no primeiro dia, demitir um grande número de funcionários federais e introduzir novas pessoas leais a ele."
Isso não significa que, caso eleito, Trump será bem-sucedido em sua tentativa. Os autores escrevem que a maior resistência contra líderes como ele está no grupo que chamam de "bem-informados", subconjunto da população com "educação superior, habilidades de comunicação e conexões internacionais", que documentam e denunciam os abusos do governante.
"Não apostaria contra a sociedade americana, que é muito resiliente e está mobilizada. Existem advogados, jornalistas, juízes, funcionários do governo e ONGs que estão determinados a impedir a erosão da democracia", diz Treisman. "Mas vai ser perigoso e destrutivo se ele tentar. Uma vitória de Trump seria ruim para o mundo todo. Encorajaria os ditadores de todos os tipos a aumentar a pressão. A gente viu evidências de que o envolvimento americano ajudou a impedir a tentativa de golpe de Bolsonaro."
Em alguns casos, um ditador do spin pode recorrer ao medo —um caminho sem volta. Os autores afirmam que isso aconteceu na Venezuela. Hugo Chávez, um ditador do spin, foi substituído por Nicolás Maduro, que, pressionado por uma grave crise econômica, aumentou a repressão. O russo Vladimir Putin seguiu o mesmo caminho após iniciar a Guerra da Ucrânia, diz Guriev.
Putin teve grandes ganhos de popularidade com a anexação da Crimeia em 2014. Em um cenário de estagnação econômica, o russo pode ter calculado que uma nova guerra voltaria a unir a população em torno de uma causa em comum, fortalecendo seu governo.
"Ele viu que não estava funcionando, que as pessoas estavam protestando e que a mídia independente estava ganhando influência", afirma Guriev. "Na primeira semana, ele fechou a mídia e bloqueou o Facebook e o Instagram, e o Parlamento aprovou uma lei que determina que, quando alguém critica a guerra ou usa essa palavra, pode ir para a cadeia por até oito anos. Isso é censura declarada, algo que nunca tinha sido usado."
Putin foi, inclusive, o motivo pelo qual os autores começaram a escrever o livro. Guriev é um economista russo, hoje diretor de estudos de pós-graduação em economia na Sciences Po, em Paris. Crítico do governo, ele foi aconselhado a sair da Rússia em 2013. À época, um amigo afirmou ao New York Times que o economista tinha motivos para acreditar que seria preso. Já Treisman é professor de ciência política na Universidade da Califórnia e especialista em Rússia.
Os dois começaram a observar que as táticas de manipulação de Putin —antes da guerra, considerado por eles um ditador do spin, não do medo— eram semelhantes àquelas usadas por outros líderes, como Orbán e Chávez. Então decidiram juntar forças para montar um modelo que explicasse esse processo e testasse as comparações entre os governos.
Depois de publicar uma série de trabalhos acadêmicos, Guriev e Treisman decidiram que o livro seria uma forma de chegar a um público mais amplo.
Expor as táticas dos ditadores recentes é justamente uma das soluções para lidar com eles. Outra, segundo os autores, é limitar as sanções econômicas apenas contra indivíduos e empresas. Os autores lembram que o crescimento econômico é a melhor esperança para transformar as autocracias em regimes menos violentos e, finalmente, em democracias.
Os dois também advogam pela reparação das instituições nos países democráticos, restaurando a confiança da população nelas; que advogados, banqueiros, lobistas e outros integrantes da elite ocidental parem de capacitar ditadores; e que empresas ocidentais deixem de vender a eles tecnologias utilizadas para espionagem doméstica.
Apesar dos alertas, o livro tem uma nota otimista: a ditadura do spin é tratada quase como um modelo de passagem em direção à democracia. "A gente especula que [esse tipo de ditadura] não é sustentável, mas não temos dados, uma prova empírica", diz Guriev.
Os autores afirmam que não existe nenhum antídoto conhecido para o "coquetel de modernização" que empurra as nações em direção à democracia.
Isso porque, ao mesmo tempo que o desenvolvimento econômico ameaça os ditadores, já que os cidadãos têm mais acesso à educação e à informação, ele também é necessário para que esses líderes se mantenham no poder, já que crises econômicas ameaçam a popularidade do governo.
Ou seja, ditadores até poderiam atravancar o crescimento para frear a democratização do país, mas isso também os prejudicaria.
Em um momento de descontentamento, os ditadores precisam de mais repressão para se manter no cargo —só que foi justamente a inadequação da violência na sociedade globalizada o que os levou a abandonar o medo e a escolher a manipulação.
Resta saber se esse dilema não resolvido de fato levará o mundo a um cenário mais democrático.
Extrema-direita tenta reescrever a história das ditaduras na AL
Março é o mês para se rememorar os crimes da ditadura na Argentina (1976-1983) e no Brasil (1964-1985). Tempo de denúncias e valorização da democracia, para que a história não se repita. Nesses dois países entretanto, essas ações restringiram-se a parte da sociedade civil. No Brasil, Lula decidiu silenciar eventos críticos aos militares. Na Argentina, Javier Milei optou pelo negacionismo.
No dia 24 de março, quando se completaram 48 anos do golpe no país, o presidente argentino postou um vídeo tentando reescrever fatos históricos do regime, pedindo para que haja “verdade e justiça” e uma “memória completa”.
Batizado de “Dia da Memória pela Verdade e Justiça”, traz o depoimento da filha de um militar assassinado por guerrilheiros. Ela diz que as organizações de direitos humanos jamais acolheram sua família. E argumenta que pessoas “de ambos os lados” foram mortas. A peça afirma ainda que o número de 30 mil mortos no período é uma invenção.
Não surpreende, já que durante a campanha eleitoral Milei já havia ensaiado esse discurso, dizendo que houve uma guerra entre os militares e os grupos terroristas e que aconteceram excessos dos dois lados. A maior entusiasta dessa versão é sua vice, Victoria Villaruel, filha de militar que lutou na Guerra das Malvinas.
É difícil precisar o alcance dessa mensagem negacionista, sobretudo imaginado que boa parte do eleitorado de Milei é de jovens. Para muitos, pode ser uma história exausta, contada um milhão de vezes pelo movimento progressista argentino, que conseguiu julgar e condenar seus militares. Tantas demandas atuais e ficam remoendo essa história? Em nossos tempos, parece que a democracia perde seu valor quanto mais estabelecida – sinal de um sistema que não representa seus cidadãos.
No Brasil, o governo Lula decidiu pelo silenciamento. 60 anos do golpe e não houve uma palavra oficial contra a ditadura. As vozes destacaram-se na imprensa e em algumas manifestações pelo país. É uma ferida que jamais cicatriza.
A anistia de 1979 antecede o discurso de Milei. Houve excessos dos dois lados, os exilados podem voltar e os militares podem marchar impunemente. Nenhum fardado julgado, nenhum condenado. A Comissão da Verdade, durante o governo Dilma, foi ignorada.
Em parte, esse é o combustível que alimenta, há décadas, a visão popular de que “na ditadura era melhor”, “na ditadura as pessoas tinham mais respeito”. Anos sem eleições, parte da população vivendo com medo e uma crise econômica que abalou o país foram esquecidos. É uma nostalgia inventada que quase nos levou ao golpe em 8 de janeiro.
O jogo é esse. Neste março de 2024 os militares podem comemorar. Seus privilégios e impunidades foram protegidos. A História é um campo minado de versões em que vence a verdade mais difundida.
No dia 24 de março, quando se completaram 48 anos do golpe no país, o presidente argentino postou um vídeo tentando reescrever fatos históricos do regime, pedindo para que haja “verdade e justiça” e uma “memória completa”.
Batizado de “Dia da Memória pela Verdade e Justiça”, traz o depoimento da filha de um militar assassinado por guerrilheiros. Ela diz que as organizações de direitos humanos jamais acolheram sua família. E argumenta que pessoas “de ambos os lados” foram mortas. A peça afirma ainda que o número de 30 mil mortos no período é uma invenção.
Não surpreende, já que durante a campanha eleitoral Milei já havia ensaiado esse discurso, dizendo que houve uma guerra entre os militares e os grupos terroristas e que aconteceram excessos dos dois lados. A maior entusiasta dessa versão é sua vice, Victoria Villaruel, filha de militar que lutou na Guerra das Malvinas.
É difícil precisar o alcance dessa mensagem negacionista, sobretudo imaginado que boa parte do eleitorado de Milei é de jovens. Para muitos, pode ser uma história exausta, contada um milhão de vezes pelo movimento progressista argentino, que conseguiu julgar e condenar seus militares. Tantas demandas atuais e ficam remoendo essa história? Em nossos tempos, parece que a democracia perde seu valor quanto mais estabelecida – sinal de um sistema que não representa seus cidadãos.
No Brasil, o governo Lula decidiu pelo silenciamento. 60 anos do golpe e não houve uma palavra oficial contra a ditadura. As vozes destacaram-se na imprensa e em algumas manifestações pelo país. É uma ferida que jamais cicatriza.
A anistia de 1979 antecede o discurso de Milei. Houve excessos dos dois lados, os exilados podem voltar e os militares podem marchar impunemente. Nenhum fardado julgado, nenhum condenado. A Comissão da Verdade, durante o governo Dilma, foi ignorada.
Em parte, esse é o combustível que alimenta, há décadas, a visão popular de que “na ditadura era melhor”, “na ditadura as pessoas tinham mais respeito”. Anos sem eleições, parte da população vivendo com medo e uma crise econômica que abalou o país foram esquecidos. É uma nostalgia inventada que quase nos levou ao golpe em 8 de janeiro.
O jogo é esse. Neste março de 2024 os militares podem comemorar. Seus privilégios e impunidades foram protegidos. A História é um campo minado de versões em que vence a verdade mais difundida.
A ditadura militar e da 'burguesia nacional' criou uma sociedade desastrosa
A ditadura de 1964-1985 foi de mortos, desaparecidos, tortura, estupro, exílio, censura, propaganda parafascista, imposição militar de brucutus-presidentes, eleições fictícias, fraudadas ou muito limitadas. A grande massa de analfabetos não votava nem ao menos no elenco de candidatos autorizado pelos brucutus, a casta militar ignorante, bruta e ignara até hoje.
Menos se recorda que foi um período de repressão de sindicatos, de movimentos sociais, em particular os populares; de repressão salarial, de seguros sociais limitados e que excluíam os mais pobres.
Quase pouco se nota, na conversa mais comum, que a ditadura produziu uma sociedade desastrosa, mais do que um desastre social. Por um tempo disfarçada por taxas de crescimento econômico altíssimas, a ruína perdurou.
O que é uma sociedade desastrosa? Um exemplo muito claro são as grandes cidades, embora cidades médias mimetizem o arranjo perverso das metrópoles.
São monstros praticamente inadministráveis. É impossível reformá-las sem grande custo econômico e sem transformação social forte, em um esforço de décadas. São a essência da desigualdade de renda, de patrimônio (propriedade imobiliária), de acesso a serviços públicos, do racismo. O pobre é discriminado até no uso da rua, o que se evidencia no transporte público ruim e nas ruas tomadas por carros.
A grande cidade brasileira é resultado de uma urbanização desastrosa. Por um lado, até meados do século 20, havia uma grande população largada no campo, sem terra, sem escola, sem saúde ou mesmo sem voto. Não tivemos reforma agrária quando isso poderia provocar transformação socioeconômica profunda: multiplicação do número de proprietários, criação de meios de subsistência que poderiam dar pão ao povo enquanto se educavam crianças e jovens, com algum atendimento de saúde, e melhora na distribuição espacial da população.
Por outro lado, a industrialização foi limitada. A partir dos anos 1970, não absorvia o êxodo dos desesperados da miséria rural (e menos ainda depois dos anos 1980 e 1990, com o enxugamento tecnológico do emprego industrial).
A ditadura sobreveio como um modo extremo ou final de impedir esses mínimos progressos: reforma agrária, aceleração da oferta de escola, de direito a voto etc. Extremo, pois a oposição à reforma social é sempiterna no Brasil.
O debate político das reformas possíveis foi interditado nos 20 anos de domínio dos brucutus e de seus beneficiários civis, aquela "burguesia nacional" com a qual a esquerda tanto se preocupa.
A população rural excedente, como se dizia, lotou uma periferia sem casa decente, sem saneamento, sem luz, sem escola. A saúde pública não era universal (não havia SUS). Esse povo vivia de emprego mal pago em serviços ou de subemprego, se tanto. A partir dos anos 1970, mais e mais ficaram sujeitas à violência e à organização do crime. A partir dos anos 1970, parte desse povo cria as igrejas neopentecostais.
É fácil perceber que o Brasil de agora se formou também na grande aglomeração dos deserdados da sorte rural, na urbanização selvagem.
A ditadura fez muito mais pelo atraso. Criou um sistema em que a "burguesia nacional" vivia de rendas, de proteções contra a concorrência externa (por vezes, também doméstica), de estatais ineficientes, de bloqueios de importação de tecnologia. Criou um sistema de baixa produtividade e ajudou a enraizar o protecionismo. Alimentou a inflação, que se tornou hiper nos primeiros anos da democracia, sob políticas populistas e doidivanas. A estabilização econômica foi um processo que levou quase 15 anos, de 1985 a 1999.
O desastre social brasileiro se entrincheirou entre 1964 e 1985. Parte do povo continua morta e desaparecida sob essa ruína duradoura.
Menos se recorda que foi um período de repressão de sindicatos, de movimentos sociais, em particular os populares; de repressão salarial, de seguros sociais limitados e que excluíam os mais pobres.
Quase pouco se nota, na conversa mais comum, que a ditadura produziu uma sociedade desastrosa, mais do que um desastre social. Por um tempo disfarçada por taxas de crescimento econômico altíssimas, a ruína perdurou.
O que é uma sociedade desastrosa? Um exemplo muito claro são as grandes cidades, embora cidades médias mimetizem o arranjo perverso das metrópoles.
São monstros praticamente inadministráveis. É impossível reformá-las sem grande custo econômico e sem transformação social forte, em um esforço de décadas. São a essência da desigualdade de renda, de patrimônio (propriedade imobiliária), de acesso a serviços públicos, do racismo. O pobre é discriminado até no uso da rua, o que se evidencia no transporte público ruim e nas ruas tomadas por carros.
A grande cidade brasileira é resultado de uma urbanização desastrosa. Por um lado, até meados do século 20, havia uma grande população largada no campo, sem terra, sem escola, sem saúde ou mesmo sem voto. Não tivemos reforma agrária quando isso poderia provocar transformação socioeconômica profunda: multiplicação do número de proprietários, criação de meios de subsistência que poderiam dar pão ao povo enquanto se educavam crianças e jovens, com algum atendimento de saúde, e melhora na distribuição espacial da população.
Por outro lado, a industrialização foi limitada. A partir dos anos 1970, não absorvia o êxodo dos desesperados da miséria rural (e menos ainda depois dos anos 1980 e 1990, com o enxugamento tecnológico do emprego industrial).
A ditadura sobreveio como um modo extremo ou final de impedir esses mínimos progressos: reforma agrária, aceleração da oferta de escola, de direito a voto etc. Extremo, pois a oposição à reforma social é sempiterna no Brasil.
O debate político das reformas possíveis foi interditado nos 20 anos de domínio dos brucutus e de seus beneficiários civis, aquela "burguesia nacional" com a qual a esquerda tanto se preocupa.
A população rural excedente, como se dizia, lotou uma periferia sem casa decente, sem saneamento, sem luz, sem escola. A saúde pública não era universal (não havia SUS). Esse povo vivia de emprego mal pago em serviços ou de subemprego, se tanto. A partir dos anos 1970, mais e mais ficaram sujeitas à violência e à organização do crime. A partir dos anos 1970, parte desse povo cria as igrejas neopentecostais.
É fácil perceber que o Brasil de agora se formou também na grande aglomeração dos deserdados da sorte rural, na urbanização selvagem.
A ditadura fez muito mais pelo atraso. Criou um sistema em que a "burguesia nacional" vivia de rendas, de proteções contra a concorrência externa (por vezes, também doméstica), de estatais ineficientes, de bloqueios de importação de tecnologia. Criou um sistema de baixa produtividade e ajudou a enraizar o protecionismo. Alimentou a inflação, que se tornou hiper nos primeiros anos da democracia, sob políticas populistas e doidivanas. A estabilização econômica foi um processo que levou quase 15 anos, de 1985 a 1999.
O desastre social brasileiro se entrincheirou entre 1964 e 1985. Parte do povo continua morta e desaparecida sob essa ruína duradoura.
O fascismo vive?
No clima da radicalização atual, o fascismo se despe das origens históricas e dos significados atuais e se resume a uma colagem infamante no confronto das ofensas predominantes o que deveria ser um debate público. Por conta do seu rastro demolidor das democracias, das liberdades e de uma sociedade aberta e livre, terá sempre uma carga destrutiva do pensamento e do ambiente pacífico da civilização.
A resposta mais consistente à reflexão filosófica e política aos que estudam o fenômeno, desde seu nascedouro, consta da conferência pronunciada por Umberto Ecco, em 25 de abril de 1995, na Columbia University para celebrar a libertação da Europa ao afirmar “Aqui estamos para recordar o que aconteceu e declarar solenemente que ‘eles’ não podem repetir o que fizeram. Mas quem são ‘eles’”?
Responde Umberto Eco: “Toda a segunda guerra foi definida no mundo inteiro como uma luta contra o fascismo […] Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria: tinha apenas uma retórica [..] O fascismo sequer era uma só essência; não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de ideias políticas e filosóficas, uma alveário de contradições”.
De outra parte, assinala Eco, “Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa da ‘arte degenerada’, uma vontade de potência do Super Homem” […] O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos”.
Diz o autor que, apesar dessa confusão é possível indicar uma lista de características típicas daquilo que chama de “Ur-Fascismo” (ur, prefixo que significa origem) ou “fascismo eterno”, características que não podem se reunir num sistema, mas qualquer delas que se apresente pode formar uma “nebulosa fascista”.
Alguns autores enumeram onze, outros treze e Umberto Eco, quatorze, a saber:
– Culto à tradição. A verdade já foi revelada e anunciada. Comporta apenas interpretações da obscura mensagem.
–Recusa à modernidade. O novo é uma perversão à ordem natural. Prevalência do negacionismo. Irracionalismo.
– O culto da ação pela ação. Para o fascismo “pensar é uma forma de castração”.
– Recusa ao pensamento crítico. Para o fascismo, desacordo é traição.
– A repulsa à diversidade. Medo natural da diferença. Racista por definição.
– O apelo ao sentimento de frustração e ressentimento. Mobilização do ódio.
– Nacionalismo como identidade social. Estrangeiros são inimigos. Apelo à xenofobia para superar a obsessão da conspiração.
– A vida como uma guerra permanente. Não há luta pela vida, mas a “vida para luta”. O pacifismo é um conluio com o inimigo.
– O inimigo e sua força humilhante deve ser batido, porque na essência são fracos. Os fascistas têm uma incapacidade real de avaliar a força do inimigo.
– O heroísmo como norma. A educação cultua a mitologia do ser excepcional, estreitamente ligado ao culto da morte. Na guerra da Espanha, os falangistas tinham como mote “viva la muerte”.
– O machismo é uma virtude. Desdém pelas mulheres, condenação da homossexualidade. As armas refletem um simbolismo fálico.
– O elitismo reflete a visão reacionária. Pregam o elitismo popular identificado no homem de bem, forte e um consequente desprezo pelos fracos.
– O populismo qualitativo. O povo é uma ficção teatral. Deveria exprimir uma vontade comum. Mas é o líder quem interpreta a vontade comum.
– O Ur-Fascismo fala a “novilíngua” inventada por Orwell no clássico 1984.
Ao concluir, adverte: “O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo”.
E acrescenta sabiamente: “Liberdade e libertação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: Não esqueçam”.
A resposta mais consistente à reflexão filosófica e política aos que estudam o fenômeno, desde seu nascedouro, consta da conferência pronunciada por Umberto Ecco, em 25 de abril de 1995, na Columbia University para celebrar a libertação da Europa ao afirmar “Aqui estamos para recordar o que aconteceu e declarar solenemente que ‘eles’ não podem repetir o que fizeram. Mas quem são ‘eles’”?
Responde Umberto Eco: “Toda a segunda guerra foi definida no mundo inteiro como uma luta contra o fascismo […] Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria: tinha apenas uma retórica [..] O fascismo sequer era uma só essência; não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de ideias políticas e filosóficas, uma alveário de contradições”.
De outra parte, assinala Eco, “Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa da ‘arte degenerada’, uma vontade de potência do Super Homem” […] O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos”.
Diz o autor que, apesar dessa confusão é possível indicar uma lista de características típicas daquilo que chama de “Ur-Fascismo” (ur, prefixo que significa origem) ou “fascismo eterno”, características que não podem se reunir num sistema, mas qualquer delas que se apresente pode formar uma “nebulosa fascista”.
Alguns autores enumeram onze, outros treze e Umberto Eco, quatorze, a saber:
– Culto à tradição. A verdade já foi revelada e anunciada. Comporta apenas interpretações da obscura mensagem.
–Recusa à modernidade. O novo é uma perversão à ordem natural. Prevalência do negacionismo. Irracionalismo.
– O culto da ação pela ação. Para o fascismo “pensar é uma forma de castração”.
– Recusa ao pensamento crítico. Para o fascismo, desacordo é traição.
– A repulsa à diversidade. Medo natural da diferença. Racista por definição.
– O apelo ao sentimento de frustração e ressentimento. Mobilização do ódio.
– Nacionalismo como identidade social. Estrangeiros são inimigos. Apelo à xenofobia para superar a obsessão da conspiração.
– A vida como uma guerra permanente. Não há luta pela vida, mas a “vida para luta”. O pacifismo é um conluio com o inimigo.
– O inimigo e sua força humilhante deve ser batido, porque na essência são fracos. Os fascistas têm uma incapacidade real de avaliar a força do inimigo.
– O heroísmo como norma. A educação cultua a mitologia do ser excepcional, estreitamente ligado ao culto da morte. Na guerra da Espanha, os falangistas tinham como mote “viva la muerte”.
– O machismo é uma virtude. Desdém pelas mulheres, condenação da homossexualidade. As armas refletem um simbolismo fálico.
– O elitismo reflete a visão reacionária. Pregam o elitismo popular identificado no homem de bem, forte e um consequente desprezo pelos fracos.
– O populismo qualitativo. O povo é uma ficção teatral. Deveria exprimir uma vontade comum. Mas é o líder quem interpreta a vontade comum.
– O Ur-Fascismo fala a “novilíngua” inventada por Orwell no clássico 1984.
Ao concluir, adverte: “O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo”.
E acrescenta sabiamente: “Liberdade e libertação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: Não esqueçam”.
Antonio Maria cunhou a expressão ‘malamada’ para irritar Carlos Lacerda
Sexta-feira, 3 de abril de 1964. Entro na redação sobressaltada por ameaças que não deixam seus telefones em paz. A maioria das vozes, sempre anônimas e uma oitava acima, é feminina. São as “malamadas” xingando o jornal e seus profissionais em repúdio a um editorial, Terrorismo, não!, contra as arbitrariedades e violências cometidas pelo governo do então Estado da Guanabara (leia-se Carlos Lacerda) nas primeiras horas do regime militar.
“Isto mostra o fanatismo e a intolerância das lacerdistas”, reagiu o jornal, acrescentando-lhes mais um defeito: a puerilidade de crer que alguma ameaça pudesse atemorizar o Correio da Manhã, amainar-lhe a indignação e fazê-lo recuar de uma guerra que apenas iniciara seus estragos irreparáveis.
Foi o cronista Antonio Maria quem cunhou a expressão “malamada”, para irritar Lacerda e tipificar o mulherio sexualmente recalcado que o idolatrava.
Quando delas me lembro, penso em Wilhelm Reich e suas teorias sobre psicopatologia social & sexual. Pois malamadas também saciaram sua recalcada libido venerando Mussolini e Hitler. As nossas foram assaz atuantes naquelas passeatas com Deus pela democracia e contra o comunismo que preambularam e atiçaram o golpe, com o incentivo do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), núcleo de conspiração putschista basicamente sustentado pelo empresariado de direita dos EUA e daqui.
Entrevistada pelo Roda Viva da última segunda-feira, a historiadora Heloisa Starling referiu-se ao referido instituto como “Ípes”, sigla que 60 anos atrás a gente acentuava oxitonamente, com um circunflexo no e, como a árvore cujo tronco inspirou Alencar, o José, não o também cearense Humberto (Castelo Branco), que foi apenas o primeiro ditador fardado (e sem pescoço) que o poder moderador de araque nos legou.
Ípes ou Ipês, muito estrago ele fez. Além de palestras e publicações mal-intencionadas, produziu filmetes de propaganda alarmista, com garantida exibição nos cinemas como parte de uma lavagem cerebral coletiva cuja eficácia só seria superada em paranoias e capilaridade pelas fake news da era digital.
Dois anos antes do golpe, com a Garota de Ipanema no início de seu reinado, outra habitante do mítico bairro carioca, chamada Amélia, que nem era linda, nem cheia de graça, promovia em sua casa os primeiros conchavos que redundaram na Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), turbinada por passeatas de pias senhoras de rosário na mão. Elas não rezavam para pneus, mas em defesa da família, da religião e de vagos “princípios anticomunistas”.
Em nome de tais princípios, o regime militar mergulhou o País nas profundezas do obscurantismo e da repressão, concretizando o que alegava combater. O que levou a maior expressão do pensamento católico a confessar, publicamente: “Até hoje nunca tive medo do comunismo no Brasil. Agora começo a ter”.
“Isto mostra o fanatismo e a intolerância das lacerdistas”, reagiu o jornal, acrescentando-lhes mais um defeito: a puerilidade de crer que alguma ameaça pudesse atemorizar o Correio da Manhã, amainar-lhe a indignação e fazê-lo recuar de uma guerra que apenas iniciara seus estragos irreparáveis.
Foi o cronista Antonio Maria quem cunhou a expressão “malamada”, para irritar Lacerda e tipificar o mulherio sexualmente recalcado que o idolatrava.
Quando delas me lembro, penso em Wilhelm Reich e suas teorias sobre psicopatologia social & sexual. Pois malamadas também saciaram sua recalcada libido venerando Mussolini e Hitler. As nossas foram assaz atuantes naquelas passeatas com Deus pela democracia e contra o comunismo que preambularam e atiçaram o golpe, com o incentivo do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), núcleo de conspiração putschista basicamente sustentado pelo empresariado de direita dos EUA e daqui.
Entrevistada pelo Roda Viva da última segunda-feira, a historiadora Heloisa Starling referiu-se ao referido instituto como “Ípes”, sigla que 60 anos atrás a gente acentuava oxitonamente, com um circunflexo no e, como a árvore cujo tronco inspirou Alencar, o José, não o também cearense Humberto (Castelo Branco), que foi apenas o primeiro ditador fardado (e sem pescoço) que o poder moderador de araque nos legou.
Ípes ou Ipês, muito estrago ele fez. Além de palestras e publicações mal-intencionadas, produziu filmetes de propaganda alarmista, com garantida exibição nos cinemas como parte de uma lavagem cerebral coletiva cuja eficácia só seria superada em paranoias e capilaridade pelas fake news da era digital.
Dois anos antes do golpe, com a Garota de Ipanema no início de seu reinado, outra habitante do mítico bairro carioca, chamada Amélia, que nem era linda, nem cheia de graça, promovia em sua casa os primeiros conchavos que redundaram na Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), turbinada por passeatas de pias senhoras de rosário na mão. Elas não rezavam para pneus, mas em defesa da família, da religião e de vagos “princípios anticomunistas”.
Em nome de tais princípios, o regime militar mergulhou o País nas profundezas do obscurantismo e da repressão, concretizando o que alegava combater. O que levou a maior expressão do pensamento católico a confessar, publicamente: “Até hoje nunca tive medo do comunismo no Brasil. Agora começo a ter”.
Gaza: diagnóstico e um olhar sobre o futuro
Passaram seis meses desde que o Hamas perpetrou um horrendo atentado terrorista que matou aproximadamente 1200 pessoas e fez mais de 250 reféns, levando o Estado de Israel a declarar guerra contra aquele movimento. Esta guerra muito rapidamente passou a ser também uma guerra contra Gaza e a sua população civil, com mais de 2,3 milhões de habitantes — as estatísticas oficiais estimam que mais de metade é composta por crianças menores de 18 anos, que viram o cerco de mais de uma década imposto por Israel a tornar-se num bloqueio quase total de entrada de bens básicos à sobrevivência, como comida, água e medicamentos, assim como de saída de pessoas.
Os dados disponíveis são aterradores. Desde 7 de outubro de 2023, mais de 33 mil palestinos morreram, dos quais mais de 12.300 eram crianças — note-se que este número não inclui os quase sete mil desaparecidos nos escombros da destruição. A ONU estima que 85% da população de Gaza está deslocada, tendo mais de um milhão e meio de civis ido buscar refúgio no Sul, zona indicada por Israel como segura e que atualmente está a ser alvo de uma incursão terrestre que se pode antever como catastrófica. Quando o conflito terminar, muitos destes deslocados não terão casa para voltar.
Em Gaza, a ajuda humanitária é escassa, seja porque Israel não autoriza a sua entrada, seja porque não há meios de distribuição, tendo quase todo o aparato da ONU sido destruído e as operações internacionais suspensas no seguimento do assassinato pelas forças de defesa israelita nesta semana, seis dos quais eram estrangeiros.
De acordo com o secretário-geral da ONU, António Guterres, registra-se em Gaza o maior número de pessoas enfrentando níveis de fome catastrófica e má nutrição alguma vez visto em qualquer lugar, a qualquer altura, num contexto em que Israel utiliza a fome como arma de guerra. Hospitais, universidades, escolas e infraestrutura civil foram totalmente destruídos. O trabalho jornalístico e de informação livre tornou-se quase impossível, na medida em que os media internacionais têm sido impedidos de entrar na região — dezenas de trabalhadores do sector dos media foram mortos, naquele que já é o conflito mais mortífero do século XXI para os jornalistas de guerra.
A falta de avanço nas negociações entre as partes mediadas por intervenientes regionais e internacionais — que nem durante o mês do Ramadão foram capazes de encontrar um consenso que pelo menos levasse a uma pausa humanitária e à libertação de reféns — faz com que uma perspetiva de futuro diferente pareça muito longínqua. Ainda assim, face à destruição e terraplenagem bélica de Gaza, com ameaças constantes de escalada regional e estando à frente de Israel o Governo mais radical da sua história, nunca é cedo de mais para se pensar quais são as possibilidades de futuro para esta região e o que podemos esperar, virada a página destes seis meses de guerra.
Com a aproximação deste meio ano de conflito, o cenário internacional parece estar a mudar. Depois de várias tentativas falhadas iniciadas ainda em meados de outubro de 2023, o Conselho de Segurança da ONU aprovou finalmente, a 25 de março, uma resolução exigindo um cessar-fogo imediato, embora temporário, e que teria lugar durante o mês do Ramadão, que termina na próxima terça-feira. Esta aprovação foi possível com a abstenção dos Estados Unidos, um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, que detém, juntamente com o Reino Unido, a França, a China e a Rússia (os chamados P-5), o poder de veto.
Pese embora o desrespeito pré-anunciado pelo cumprimento desta resolução por parte de Israel, a sua aprovação representa o culminar do isolamento internacional do Governo de Benjamin Netanyahu, que vem tomando proporções nunca vistas antes. Isto inclui uma alteração profunda (ainda que, para já, apenas ao nível discursivo) da posição norte-americana, expressa nas declarações do líder da maioria democrata no Senado dos EUA, o judeu Chuck Schumer, que defendeu eleições e uma mudança de liderança em Israel; bem como no telefonema de Joe Biden desta semana, que desencadeou a decisão de abertura temporária da passagem de Erez para a entrega de ajuda humanitária no Norte da Faixa de Gaza; e na declaração pública de Anthony Blinken durante o Conselho da NATO, na qual o secretário de Estado dos EUA afirma que, se Israel não mudar a sua postura, os Estados Unidos vão modificar sua política relativamente ao país, acrescentando que Israel se arrisca a tornar-se indistinguível do Hamas se continuar a não proteger as vidas humanas.
Por um lado, esta aparente mudança de posição ainda não parece representar uma esperança para o futuro do povo palestiniano. Os EUA continuam a ser, para todos os efeitos, os maiores apoiantes morais e financeiros de Israel, não tendo ainda prescindido do último, o mais importante no contexto do esforço de guerra. Contudo, se a ambiguidade norte- americana pode deixar os mais céticos de olhos revirados, a verdade é que Netanyahu tem esticado a corda a níveis tão extremos que posiciona Joe Biden como um líder fraco e contraditório. A aproximação de eleições norte-americanas em novembro deste ano não traz bons augúrios para quem espera que a superpotência venha a transformar a sua coação em ação e possa alterar o equilíbrio de forças em Israel. No entanto, justamente por causa do cenário eleitoral que se aproxima, podemos passar a ver as ações de humilhação constantes do Governo de Netanyahu contra o Presidente dos Estados Unidos levarem a uma mudança concreta de posicionamento.
Uma coisa, pelo menos, é certa: os cidadãos do Estado de Israel já começam a verbalizar que este Governo, cuja contestação já era enorme antes de outubro de 2023, está a comprometer a relação especial com o principal aliado histórico do país. Além disso, cresce a percepção de que a guerra de Netanyahu tem contornos pessoais, visando a sua manutenção no poder no contexto das investigações de corrupção que enfrenta, e tendo pouco ou nenhum interesse no resgate dos reféns. O movimento “not in our names” tem ganhado força. E isto, sim, pode ser um divisor de águas em termos de mobilização social com eventual impacto eleitoral, levando a uma alteração de liderança que poderá modificar o rumo deste conflito.
domingo, 7 de abril de 2024
Fé no golpe continua
No processo dos surpreendidos nos atos delinquentes da intentona política de 8 de janeiro de 2023, a variedade de tipos vai se tornando clara. Da multidão, as evidências indicam que essa variedade ganha perfil na mentalidade dos envolvidos de uma cultura de baixa classe média que tem componentes bem nítidos. Um deles, o componente religioso, sobretudo fundamentalista e pentecostal, do medo ao inferno e satanás.
Não é de agora que a mobilização popular se dá na cultura de medo e do pavor à modernidade e, aqui, na problemática modernização dos costumes. Os democratas prestariam um grande serviço à democracia se em sua militância levassem em conta a importância do diálogo respeitoso com a cultura anacrônica e tradicionalista dos simples. Que é, na verdade, repositório de valores sociais populares e insurgentes, socialmente criativos, em vez de desprezá-los e abandoná-los à voracidade de poder da classe média reacionária.
Convém ler Gramsci e Henri Lefebvre para compreender esse Brasil misterioso, um país do avesso.
Uma cultura de pavor começou a ganhar corpo e sentido há mais de meio século em uma anômica consciência de fim de mundo, de que a modernização dos costumes seria um sinal. Sinal, também, de que essa modernização se explicaria pela recusa de Deus e consequentemente pela vitória de satanás.
Não só entre católicos do catolicismo popular mas também entre protestantes e evangélicos. Entre esses, na concepção de que é possível assegurar a salvação enquanto há tempo, coisa de um deus mercenário vulnerável à venda de um lugar de primeira classe da carruagem de fogo de Elias. Ou mesmo para nela acolher os destituídos de meios, no pagamento por meio do sofrimento voluntário, como a fome por opção penitencial.
Foi o que aconteceu em Minas Gerais, em meados dos anos 1950, em Malacacheta, quando na Semana Santa um grupo de adventistas da promessa entrou em vigília de oração, à espera do profeta que viria buscá-los. E acabou matando crianças e animais, que estavam com fome porque perturbavam a celebração do arrebatamento próximo e a ascensão dos crentes ao céu.
Esse episódio está documentado num estudo de cientistas sociais da USP que foram ao local quando a polícia prendeu os participantes. Nesse estudo inspirado, Jorge Andrade escreveu a peça de teatro “Vereda da Salvação”, que Anselmo Duarte adaptou para o cinema no filme do mesmo nome.
Livrar o país desse satanás apocalíptico é o mote de uma cultura persistente e disseminada, herética, que tem contaminado vários âmbitos da realidade brasileira e desde os anos 2018, o âmbito das seitas religiosas instrumentalizadas pelo nosso autoritarismo político saudoso da ditadura militar.
Nos depoimentos divulgados do processo de 8 de janeiro, vários são de evangélicos que alegam ter ido a Brasília e participado da invasão dos palácios do Executivo, do Legislativo e do Judiciário para orar pelo Brasil, de joelhos. O que é perda de tempo pois Deus está do lado da democracia e do direito. Os fiéis dessa religiosidade tosca não sabem é que o cristianismo pressupõe que Deus é onipresente e onisciente. Brasília foi, portanto, um pretexto inútil.
Se o Estado brasileiro não fosse o de um país possuído pelo satanás do oportunismo, do autoritarismo e da saudade pela ditadura da repressão, da tortura e dos assassinatos, do republicanismo forçado, do capitalismo rentista e anticapitalista, provavelmente não teria havido o 8 de janeiro.
Teria em tempo tomado providências enérgicas e sérias para impedir que os lugares do poder fossem transformados em templos heréticos de uma religiosidade tosca e materialista. Se nesse sentido a Constituição e nela a separação entre Estado e religião fosse observada com rigor.
Um eloquente exemplo dessa religiosidade partidária foi a manifestação da então primeira-dama, em 7 de agosto de 2022, na igreja batista pentecostal da Lagoinha, em Belo Horizonte: “Vamos continuar orando, intercedendo em todos os lugares, sabem por quê? Por muito tempo aquele lugar (o Palácio do Planalto) foi um lugar consagrado a demônios e hoje consagrado ao Senhor Jesus. (...) Essa cadeira é do presidente maior, o rei que governa esta nação”. Bolsonaro ajuntou: “A função que ocupo é função de Deus”.
A baderna de 8 de janeiro foi momento de uma conspiração para transformar o Brasil numa república teocrática, antidemocrática, para colocar o país de joelhos. Sua lógica não é política porque imune à lei e às instituições. O castigo da punição dos que foram presos apenas lhes confirma que não se trata de punição educativa, mas provação justa e redentora, prêmio divino, pela transgressão da Constituição e pela violência contra as instituições.
Não é de agora que a mobilização popular se dá na cultura de medo e do pavor à modernidade e, aqui, na problemática modernização dos costumes. Os democratas prestariam um grande serviço à democracia se em sua militância levassem em conta a importância do diálogo respeitoso com a cultura anacrônica e tradicionalista dos simples. Que é, na verdade, repositório de valores sociais populares e insurgentes, socialmente criativos, em vez de desprezá-los e abandoná-los à voracidade de poder da classe média reacionária.
Convém ler Gramsci e Henri Lefebvre para compreender esse Brasil misterioso, um país do avesso.
Uma cultura de pavor começou a ganhar corpo e sentido há mais de meio século em uma anômica consciência de fim de mundo, de que a modernização dos costumes seria um sinal. Sinal, também, de que essa modernização se explicaria pela recusa de Deus e consequentemente pela vitória de satanás.
Não só entre católicos do catolicismo popular mas também entre protestantes e evangélicos. Entre esses, na concepção de que é possível assegurar a salvação enquanto há tempo, coisa de um deus mercenário vulnerável à venda de um lugar de primeira classe da carruagem de fogo de Elias. Ou mesmo para nela acolher os destituídos de meios, no pagamento por meio do sofrimento voluntário, como a fome por opção penitencial.
Foi o que aconteceu em Minas Gerais, em meados dos anos 1950, em Malacacheta, quando na Semana Santa um grupo de adventistas da promessa entrou em vigília de oração, à espera do profeta que viria buscá-los. E acabou matando crianças e animais, que estavam com fome porque perturbavam a celebração do arrebatamento próximo e a ascensão dos crentes ao céu.
Esse episódio está documentado num estudo de cientistas sociais da USP que foram ao local quando a polícia prendeu os participantes. Nesse estudo inspirado, Jorge Andrade escreveu a peça de teatro “Vereda da Salvação”, que Anselmo Duarte adaptou para o cinema no filme do mesmo nome.
Livrar o país desse satanás apocalíptico é o mote de uma cultura persistente e disseminada, herética, que tem contaminado vários âmbitos da realidade brasileira e desde os anos 2018, o âmbito das seitas religiosas instrumentalizadas pelo nosso autoritarismo político saudoso da ditadura militar.
Nos depoimentos divulgados do processo de 8 de janeiro, vários são de evangélicos que alegam ter ido a Brasília e participado da invasão dos palácios do Executivo, do Legislativo e do Judiciário para orar pelo Brasil, de joelhos. O que é perda de tempo pois Deus está do lado da democracia e do direito. Os fiéis dessa religiosidade tosca não sabem é que o cristianismo pressupõe que Deus é onipresente e onisciente. Brasília foi, portanto, um pretexto inútil.
Se o Estado brasileiro não fosse o de um país possuído pelo satanás do oportunismo, do autoritarismo e da saudade pela ditadura da repressão, da tortura e dos assassinatos, do republicanismo forçado, do capitalismo rentista e anticapitalista, provavelmente não teria havido o 8 de janeiro.
Teria em tempo tomado providências enérgicas e sérias para impedir que os lugares do poder fossem transformados em templos heréticos de uma religiosidade tosca e materialista. Se nesse sentido a Constituição e nela a separação entre Estado e religião fosse observada com rigor.
Um eloquente exemplo dessa religiosidade partidária foi a manifestação da então primeira-dama, em 7 de agosto de 2022, na igreja batista pentecostal da Lagoinha, em Belo Horizonte: “Vamos continuar orando, intercedendo em todos os lugares, sabem por quê? Por muito tempo aquele lugar (o Palácio do Planalto) foi um lugar consagrado a demônios e hoje consagrado ao Senhor Jesus. (...) Essa cadeira é do presidente maior, o rei que governa esta nação”. Bolsonaro ajuntou: “A função que ocupo é função de Deus”.
A baderna de 8 de janeiro foi momento de uma conspiração para transformar o Brasil numa república teocrática, antidemocrática, para colocar o país de joelhos. Sua lógica não é política porque imune à lei e às instituições. O castigo da punição dos que foram presos apenas lhes confirma que não se trata de punição educativa, mas provação justa e redentora, prêmio divino, pela transgressão da Constituição e pela violência contra as instituições.
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