sábado, 21 de outubro de 2023

Eles não se massacram

A guerra é um massacre entre gente que não se conhece para proveito de pessoas que se conhecem mas não se massacram
Paul Valéry

O radicalismo mata a paz

Nada justifica a barbárie e o massacre selvagem de cidadãos israelitas. Israel tem, por isso, direito à autodefesa. Mas nada legitima uma resposta desproporcional e à margem das leis da guerra. Porque, de um lado e de outro da fronteira, as vítimas são sempre as mesmas: civis inocentes e indefesos. Foi a isto que nos conduziu a vitória do radicalismo sobre a moderação na política interna de Israel e da Palestina e, como consequência, a vitória do conflito sobre a diplomacia nas relações israelo-palestinianas. Que o mesmo é dizer a vitória da guerra sobre a paz.

Vamos por partes. Houve um tempo em que havia estadistas à frente das duas partes. Estadistas que carregavam em si o peso e a legitimidade política e militar das guerras passadas ao serviço das suas causas, mas que, independentemente da razão histórica de cada um, tiveram a visão estratégica e a coragem política de perceber que o futuro dos seus povos passava pela paz. E em 1993, sob a mediação de Bill Clinton, Yasser Arafat, líder da Organização de Libertação da Palestina (OLP) e Yitzhak Rabin, primeiro-ministro israelita, assinaram os chamados Acordos de Oslo.

O processo de paz assentava numa solução política de dois Estados: a OLP reconhecia pela primeira vez o Estado de Israel; e, por sua vez, Israel reconhecia a OLP como representante legítima do povo palestiniano e comprometia-se com a criação de um Estado palestiniano. Foi um compromisso histórico. Mas deixou para negociações futuras questões-chave que vinham desde a fundação do Estado de Israel: o regresso dos refugiados; as fronteiras do Estado palestiniano; a questão dos colonatos; e o estatuto de Jerusalém.


Do lado israelita como do lado palestiniano, as elites moderadas e laicas e a maioria da opinião pública acreditaram que era possível a solução dos dois Estados, queriam de facto a paz e lutaram por ela. Mas, imediatamente, de ambos os lados, os radicais começaram a manifestar a sua oposição: opunham-se à solução dos dois Estados porque não queriam reconhecer o direito do outro a ter um Estado; e por isso não queriam a paz e fizeram tudo para a boicotar. Do lado israelita, o momento simbólico foi o assassinato de Yitzhak Rabin, às mãos de um judeu ultranacionalista, em 1995. Do lado palestiniano, depois da provocação de Ariel Sharon, líder da oposição em Israel, se ter passeado junto à mesquita de Al-Aqsa, lugar santo para os muçulmanos e interdito aos judeus, o início da segunda intifada, em 2000.

O processo de paz e a solução dos dois Estados foram-se apagando e a desilusão foi crescendo na opinião pública. Os governos de Netanyahu, em Israel, e a vitória do Hamas, na faixa de Gaza, fizeram o resto.

Netanyahu sacrificou sempre o interesse nacional à sua sobrevivência política. Para se manter no poder aliou-se à extrema-direita religiosa, ortodoxa e ultranacionalista. Recorreu ao populismo para atacar os fundamentos básicos do Estado de direito israelita. E ao ultranacionalismo para expandir, como nenhum outro, os colonatos nos territórios ocupados na Cisjordânia. Favoreceu o Hamas para enfraquecer a Autoridade Palestiniana. Isto é, fez o que podia e o que não podia para inviabilizar o Estado palestiniano e instaurar uma pax israelita. Isto é, para minar a solução dos dois Estados e a possibilidade da paz.

O Hamas, no poder em Gaza desde 2006, cultiva o islamismo integrista como ideologia e o terrorismo como método. Usa e abusa das suas populações. Não reconhece sequer o Estado de Israel e faz tudo para matar a paz e provocar a guerra. É a sua forma de vida.

A guerra, a destruição e a morte é o destino a que nos leva a radicalização, triunfante de ambos os lados. Mas é preciso que saibamos que há outro caminho. E no fim da tragédia é preciso tirar as lições: superar os radicalismos político e religioso e dar uma oportunidade às oposições laicas e moderadas, israelita e palestiniana. Em Israel, responsabilizar Netanyahu pela incompetência que permitiu a quebra de segurança e o massacre. E dar uma oportunidade a uma nova geração democrática e livre do messianismo religioso e do populismo político. Na Palestina, desmantelar a estrutura militar do Hamas e devolver Gaza a uma nova geração da Autoridade Palestiniana, democrática e livre da corrupção.

A ONU terá, certamente, um papel a desempenhar. Mas o essencial é dar uma nova oportunidade à moderação política e à solução dos dois Estados, o único caminho para a paz.

A caixa de Pandora

Na Mitologia Grega, o titã Prometeu roubou o fogo de Zeus e deu aos homens, para eles serem superiores aos outros aninais. Zeus, em retaliação, pediu a Hefesto, Deus do Fogo, e a Atena, Deusa da Sabedoria, para criar Pandora, dotada de beleza, graciosidade e curiosidade. Para se vingar dos homens, Zeus fez chegar à Pandora uma caixa onde estavam todos os males do mundo, como a guerra, a doença, a mentira, e o ódio, mas também a esperança, com a recomendação de que ela nunca deveria ser aberta. Pandora abre a caixa, espalhando todos os males do mundo, fechando-a com a esperança dentro. Pandora tenta destruir a caixa, mas ela tem um feitiço para não ser destruída. Triste, Pandora se suicida.


Os limites dos homens são complicados. Maquiavel, filósofo e historiador Italiano e um dos fundadores pensamento político Ocidental, diz que na guerra, “não se deve humilhar o vencido, pois a humilhação leva ao ódio, e o ódio à vingança”. Sun Tzu, general e estrategista da China antiga e de suma importância no pensamento militar do Oriente, diz que “ao cercar o inimigo deve-se deixar uma possibilidade de fuga, não para que ele fuja, mas para que não lute com a força de um leão enfurecido”. E Carl von Clausewitz, general Prussiano e o mais importante e influente teórico militar contemporâneo, diz que “as guerras modernas raramente são travadas sem ódio entre as nações; isso serve mais ou menos como um substituto para o ódio entre indivíduos”. Erros recíprocos podem levar ao ódio, que se retroalimenta.

O homem é um animal que compartilha a emoção, boas e más, com a razão. Quando a emoção se deteriora, surgindo a raiva, pode-se perder a razão por completo, no império do ódio.

Nos Sete Pecados Capitais, estão a inveja, a ira, e a soberba, em contraposição à empatia, à generosidade, e à humildade.

Em sua excelente análise sobre os limites a que o homem pode chegar, Edson de Oliveira Nunes, em seu artigo recente, diz-nos sobre a banalidade do mal, evocando Hannah Arendt, quando as causas se perdem, e surge o mal pelo mal, o mal puro, “aquela hora na qual desaparece a humanidade das pessoas”, como escrito em seu artigo.

No Oriente Médio, a guerra se acirra. No Brasil, o rio Solimões seca. Na Sibéria, “vírus zumbis” se renascem após 50 mil anos, pelo degelo. Perdem-se momentos históricos em decisões equivocadas. Que alguém reabra a caixa de Pandora onde ainda se encontra a esperança, nas atitudes altruístas da humildade e do bem-querer, para que o homem sobreviva, hoje à beira do precipício.

Matar não é resposta

Meu filho foi morto por esses monstros. E, ainda assim, não quero nenhuma vingança em meu nome. Matar não é a resposta, a guerra não é a resposta. O terror só trará mais horror.

As crianças vão crescer e aprender a odiar. E eles deveriam ser ensinados a amar, a curar as feridas e a acabar com o ódio.

Eu imploro ao mundo todo: não vá para a guerra.
Michal Halev perdeu o filho Laor, de 20 anos, assassinado por terroristas do Hamas

Punição coletiva

Punição coletiva é o corolário lógico da noção de responsabilidade coletiva, que imputa a uma sociedade inteira a culpa por atos de um Estado ou governo. Os atentados de 7/10 que deflagraram o atual conflito e a represália militar na Faixa de Gaza inscrevem-se nessa lógica bárbara.

A operação do Hamas não teve nenhum objetivo militar. O massacre deliberado de 1.300 civis israelenses, inclusive crianças, numa orgia macabra de violência, desnuda a alma da organização terrorista. Do ponto de vista dela, inexiste diferença entre civis e militares, pois todos seriam "soldados da ocupação".

Na guerra de independência da Argélia (1954-62), a Frente de Libertação Nacional promoveu ataques a civis, lembram vozes prontas a oferecer uma justificativa anticolonial para o terror do Hamas. O argumento, em si mesmo problemático, delineia um paralelo falso –e, por isso, revelador.


Os colonos de origem francesa na Argélia pertenciam a um empreendimento imperial. Os israelenses massacrados, por outro lado, não perfilam-se sob a bandeira de um poder estrangeiro: Israel nasceu da imigração de judeus perseguidos por pogroms e pela máquina genocida nazista. Só se pode legitimar a barbárie do 7/10 pela adoção do objetivo político do Hamas: a destruição do Estado judeu.

O antissemitismo vive –e, na hora da guerra, rasga a fantasia esperta de antissionismo. "Morte aos judeus", gritaram manifestantes em Nova York, Paris, Londres e até Berlim. O discurso "decolonial" de raiz identitária ajusta-se como luva ao conceito abominável de punição coletiva. Israel seria parte do sedimento "ocidental", "europeu", "branco", depositado no mundo ao longo dos últimos séculos. Inexistiria, portanto, distinção entre o colono da Argélia e o civil israelense. Em nome da caricatura "decolonial", o Estado judeu deveria desaparecer.

As leis internacionais conferem ao Estado de Israel o direito de autodefesa, o que inclui uma represália suficiente para desmantelar o aparato militar e governamental do Hamas. Contudo, o direito humanitário estabelece condicionalidades, expressas pelas leis de guerra. Israel não tem o direito de enveredar pela punição coletiva.

De fontes insuspeitas, emergem indícios de que a tragédia no hospital de Gaza decorreu de foguetes errantes da Jihad Islâmica, não de bombas israelenses (shorturl.at/aCDE0). Entretanto, a eventual prova de inocência não exime Israel da responsabilidade pela interrupção total de fornecimento de água, eletricidade e alimentos à Faixa de Gaza e por bombardeios indiscriminados que causam milhares de vítimas civis. Tais atos configuram crimes de guerra –como, aliás, apontam familiares de israelenses trucidados ou tomados como reféns no 7/10.

Uma linha invisível divide a sociedade israelense. "Não tenho necessidade de vingança, nada ressuscitará os mortos", escreveu Ziv Stahl, diretora do grupo de direitos humanos Yesh Din, que escondeu-se num porão de seu kibutz durante os atentados. Ela alerta para a necessidade pragmática de uma "solução política". Contudo, do outro lado da linha, a pulsão de vingança nutre-se da ideia exterminista de que a população civil palestina é parte do conflito.

Bem antes do 7/10, Bezalel Smotrich, um dos fanáticos que ocupam pasta ministerial no governo de Israel, dirigiu aos cidadãos árabes-israelenses as seguintes palavras: "Vocês estão aqui por engano, porque Ben-Gurion [primeiro chefe de governo israelense] não concluiu o serviço em 1948 e não os chutou para fora". Os extremistas abrigados sob o guarda-chuva de Netanyahu tentam aproveitar a oportunidade oferecida pelo Hamas para "concluir o serviço".

Tanto o Hamas quanto Israel trilham a estrada da punição coletiva. Paralelo perfeito? Não: Ziv Stahl assina textos no Haaretz, enquanto oponentes palestinos do Hamas são torturados e executados em Gaza.

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

No Brasil, velhice é uma categoria econômica, e não etária

Neste mês de outubro, completo 85 anos de idade. Sou de uma classe social de origem em que meus avós não sabiam a própria idade nem sabiam para que servia sabê-la. Preocupei-me pela primeira vez com idade no dia em que o médico olhou os exames que eu havia feito e comentou: “Pra sua idade, você está muito bem!”. O acento em “na sua idade” parecia indicar uma anomalia e, nesse sentido, não estava bem.

O conceito de velho ficou claro quando uma economista do Ministério da Economia, no governo anterior, comentou, e vazou, que os velhos causavam prejuízo às contas da Previdência Social. Ou seja, um trabalhador viver mais e melhor não é um prêmio por uma vida de trabalho, é um crime de lesa-economia. Velho é, portanto, quem se aposenta e prejudica o sistema previdenciário. Senhor de escravos tinha mais generosa concepção da velhice de seus cativos.


Não é de agora que, no Brasil, velhice não é uma categoria etária, mas uma categoria econômica. Por aí, os seres humanos não devem ser definidos por sua humanidade, mas por sua lucratividade, o ser humano como matéria-prima da linha de produção.

Nasci e cresci no subúrbio operário de São Paulo, no meio de fábricas, numa família de trabalhadores. Meia hora depois do meu nascimento, a parteira me colocou nos braços de meu pai, que sentenciou: aos 7 anos eu iria para a escola primária, terminaria o curso com 10 anos de idade e aos 11 anos ingressaria na carpintaria de seus primos, meus tios, para aprender o ofício de carpinteiro, o de quase todos os membros homens de minha família paterna. Com 30 minutos de vida eu já estava empregado.

Só fui conhecer uma pessoa desempregada na vizinhança quando já era adulto. O desemprego só se tornou um problema social em meados dos anos 1950, com a multinacionalização da economia que nos trouxe técnicas de criação de superpopulação relativa no mercado de trabalho, como a reestruturação produtiva e a substituição cíclica de operários mais velhos e mais caros por operários mais moços e mais baratos.

Chegar aos 40 anos de idade era chegar à velhice decretada, não a do tempo vivido. Mais gente procurando emprego do que emprego procurando gente. Uma técnica laboral para diminuir a competência reivindicativa da classe operária e diminuir os custos do salário na contabilidade das empresas.

Há uns 40 anos, na fila do banco para pagar uma conta, descobri que a velhice se transformara numa profissão, a dos velhos que, por terem preferência no atendimento, furavam fila. Eram contratados para ir ao banco pagar as contas de diferentes empresas. Velhice em tempo parcial.

Diante da variedade de significados da palavra idade e da palavra velhice tentei descobrir o verdadeiro critério da pós-modernidade brasileira para definir o que é nascimento, o que é aniversário, o que é idade e o que é velhice. Na verdade, tomei de empréstimo uma definição de Florestan Fernandes, meu professor e meu catedrático de sociologia na Universidade de São Paulo.

Filho de uma lavadeira pobre, morara num porão e começara a trabalhar com 7 anos de idade. Como, em princípio, no Brasil, as pessoas são de fato consideradas aptas ao trabalho com 18 anos, ele acrescentava os 11 anos da antecipação laboral de sua maioridade à idade biológica.

Fiz o mesmo para ver no que dava. Nascido em 1938, comecei a trabalhar com 11 anos de idade. Sou uma do 1.319.182 crianças trabalhadores do censo de 1950. Acrescentei, portanto, aos 85 anos que estou fazendo, 7 anos à minha idade biológica e cheguei aos 92 anos de minha idade social.

Olhei no espelho e nunca vira nenhuma mudança. Até o dia em que um idiota, quando eu ainda dirigia, buzinou várias vezes, me ultrapassou, me chamou de velho e xingou minha mãe que nada tinha a ver. Desde então, tento entender o que a definição de velho quer dizer.

Aposentei-me depois de 38 anos como docente da Universidade de São Paulo. Com registro em carteira, eu já havia trabalhado sete anos em diferentes empresas e contribuíra para a Previdência Social em todos esses anos. Portanto, 45 anos de contribuição previdenciária, dez anos mais do que o necessário.

O sistema econômico do país roubou-me parte da infância e a adolescência inteira. Servidor público aposentado, o governo roubou-me também a velhice porque, mesmo inativo, ainda tenho que fazer a contribuição previdenciária. O Estado lembra-se todas os meses de me mandar essa conta, mas nem uma única vez lembrou-se de me devolver os valores dos dez anos de minha contribuição previdenciária acima da que eu estava obrigado.

Pensamento do Dia

 



O enviesado valor terapêutico da ideologia


A paz é o único combate
que vale a pena travar.
Albert Camus

Há quem viva só de ideologia e esteja completamente anestesiado para a sensibilidade, não sendo capaz de reagir ao horror da destruição e preferindo refugiar-se na abstracção fria das estatísticas e dos clichés ideológicos.

A ideologia é um colete que os protege do sentir e simpatizar com a dor verdadeira: a dor que doe aos de um lado e aos do outro. A ideologia é, muito frequentemente, um escudo contra a dura realidade. É uma ideologia fria e calculista, sem ouvido nem simpatia para o adversário e que, diante de uma vala comum de cadáveres apodrecidos, pergunta, primeiro, quem matou, para saber se deve ou não condenar. Porque há, como já se tem ouvido, assassinos maus e assassinos bons. Os actos dos bons escondem-se debaixo do tapete e a sempre prestável História que os absolva.

Há guerras boas e guerras más, dizem os ideólogos amigos destas dicotomias confortáveis. Mas Hemingway, que chafurdou em três guerras tremendamente mortíferas e, numa delas, se feriu, sabendo portanto bem do que falava, avisou-nos de que mesmo as guerras boas eram obviamente más. Porque viu o sangue, a lama e a urina, o vómito, os corpos estropiados e os piolhos em escala apocalíptica e, em face de tal visão, não havia lugar para finas destrinças ideológicas: era tudo infame, de um lado e do outro. O “não matarás” não se aplica só ao outro lado, aplica-se também ao nosso. E, para este mandamento, não pode haver “mas”.

O ideólogo frio e manietado por clichés é um assexuado do sentir, um estropiado da sensibilidade. A filologia leva ao crime, mostrou Ionesco, numa peça célebre. O ideólogo agarra-se à filologia, como boia de salvação que lhe permite flutuar no mar do não sentir. Diante de um amontoado de mortos anónimos, só lhe interessa saber se são mortos do lado certo ou do lado errado. O espectáculo do massacre não o arranha minimamente, o importante é receber o recado certo, do mandante seguro: que lhe diga, sem pestanejar, se deve ou não condenar.

O ideólogo refugia-se em clichés mortos, porque estes não sangram nem doem. Três milhões de mortos não têm importância, se o morticínio estiver do “lado certo da História”, signifique isto o que significar. O horror justificado não cria pesadelos. Substituir a fotografia de uma cidade destruída por uma frase desinfectada e maravilhosamente abstacta dá garantias de sonos bem dormidos. Enquanto debitam parágrafos sobre os ventos da História e sobre a inescapável justiça que esta fará aos da “boa doutrina”, não se é obrigado a reparar no Holocausto vigente. Há enormes promessas de conforto na filologia que, não só leva ao crime, como serve para o esconder debaixo do tapete.

Entretanto, vamo-nos inclinando cada vez mais para a convicção de que não há nada tão reles como a boa consciência dos patifes. Para estes, a razão serve para justificar que tudo pode ser justificado com ela.”

Eugénio Lisboa

O som da guerra!

Aproxima-se, a passos largos, a ofensiva israelita em Gaza. Os sinais são inequívocos, sendo que o mais importante de todos, desde há 15 dias, é a inabalável vontade e empenho nacional de Israel em acabar com o Hamas, e vingar os seus milhares de mortos. Netanyahu voltou a visitar a frente, o ministro da Defesa foi mais explícito, e tudo está preparado para este momento.

As incursões noturnas a Gaza estão a ter resultados, os ataques às chefias terroristas estão a decapitar o grupo, e o mapeamento dos pontos sensíveis, e o tipo de unidades que vão entrar já têm objetivos designados e locais marcados.


O Governo e as forças armadas israelitas não querem uma incursão relâmpago, que deixe metade do Hamas, e dos outros grupos terroristas, ainda ativo e com capacidades letais. Desta vez vai ser mais demorado, passo a passo, para eliminar, pelos próximos anos, essa ameaça.

Sabe-se, também, que a entrada em Gaza vai implicar um ataque em força no Sul do Líbano, contra o Hezbollah. Mantém-se o conflito da baixa intensidade, mas a batalha à séria está programada. O Hezbollah tem de sofrer um golpe duro e mortal, e no final será aumentada a zona tampão na fronteira. E a fonte que cria e alimenta o terror na região não escapará à pesada e longa mão israelita e americana.

Biden, por fim, também reaparece. A viagem à região sofreu um rude golpe político, ficando a meio, com o desastre do hospital, mas um discurso à Nação americana só se faz em momentos muito especiais, e quando a Casa Branca percebe que tem de demonstrar força, autoridade e controlo. É o som da guerra.

Solidão dos inocentes


Não há lugar mais solitário no mundo do que a cama de uma criança ferida que já não tem família para cuidar dela
Ghassan Abu Sittah, cirurgião plástico britânico do Hospital al-Shifa, em Gaza

Biden, Netanyahu e Putin são senhores da guerra

O jornalista Henry Foy, correspondente do Financial Times em Bruxelas, instiga a reflexão sobre a nova conjuntura internacional a partir da guerra de Gaza, que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse, ontem, que será de longa duração. Ou seja, não deve se encerrar enquanto Israel não invadir a Faixa, eliminar o Hamas e restabelecer seu controle sobre toda a região, a exemplo do que já ocorre na Cisjordânia — apesar da existência de uma enfraquecida Autoridade Palestina.

Segundo Foy, o apoio incondicional do Ocidente a Israel, especialmente Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia, envenenou os esforços para isolar a Rússia e obter apoio dos países em desenvolvimento em favor da Ucrânia. A reação implacável dos israelenses ao ataque terrorista do Hamas, em 7 de setembro, desconstruiu a narrativa do Ocidente em relação às violações de direitos humanos cometidas pela Rússia em Donetsk e outras regiões ocupadas por suas tropas.

“Na enxurrada de visitas diplomáticas de emergência, videoconferências e chamadas, os funcionários ocidentais foram acusados de não defender os interesses de 2,3 milhões de palestinos na sua pressa de condenar o ataque do Hamas e apoiar Israel”, destacou o analista do Financial Times. Isso teria corroído esforços diplomáticos para que a Índia, o Brasil e a África do Sul endurecessem o discurso contra o líder russo Vladimir Putin, com base na necessidade de defender uma ordem global em que as regras do direito internacional fossem respeitadas.

Apesar da generalizada condenação ao ataque de surpresa do Hamas, principalmente à morte e sequestro de civis, a crise humanitária na Faixa de Gaza solidificou posições enraizadas no mundo em desenvolvimento quanto ao conflito israelense-palestino. A maioria desses países apoia a posição oficial da ONU, favorável à criação do Estado da Palestina independente de Israel. “Todo o trabalho que fizemos com o Sul Global [sobre a Ucrânia] foi perdido. Esqueça sobre regras, esqueça a ordem mundial. Eles nunca vão nos ouvir novamente”, lamentava um diplomata do G7 ao jornalista britânico. O Grupo dos Sete é formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, com a União Europeia de observadora.


A maioria dos países em desenvolvimento sempre apoiou a causa palestina pelo prisma da autodeterminação e vê com desconfiança o domínio global dos EUA, o aliado principal de Israel. Os países árabes, inclusive aqueles que têm boas relações com o Washington e Tel Aviv, acumulam ressentimentos. Não são apenas os decorrentes da antiga ordem colonial, nem fruto de intervenções mal-sucedidas no Iraque, na Síria e na Líbia. Nesse caso de Gaza, estão diretamente ligados ao tratamento dado pelas potências ocidentais ao povo palestino.

Ao contrário, Rússia e China cultivam laços históricos com os palestinos. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, na terça-feira, durante a reunião com o líder chinês XI Jinping, em Pequim, agarrou com as duas mãos a oportunidade de questionar o presidente dos EUA, Joe Biden, que adota dois pesos e duas medidas em relação à Ucrânia e à Faixa de Gaza. “O que dissemos sobre a Ucrânia deve se aplicar a Gaza. Caso contrário, perdemos toda a nossa credibilidade”, lamentou o diplomata do G7, segundo o jornalista do Financial Times.

Há pouco mais de um mês, na reunião do G20, em Nova Déli, Biden e outros líderes ocidentais conclamaram os países em desenvolvimento a condenar os ataques da Rússia a civis ucranianos, respeitar a Carta da ONU e o direito internacional. Desde o último domingo, porém, endossam incondicionalmente as ações de Israel na Faixa de Gaza, onde os civis estão sem água, eletricidade, gás de cozinha, comida e remédios.

A ordem global pós II Guerra Mundial não funciona para o mundo árabe, inclusive para a Jordânia e o Egito, que mantêm relações com Israel. Na União Europeia, o incomodo também começa a crescer, sobretudo depois de a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajar para Israel sem um mandato dos 27 estados-membros do bloco e não tratar da questão humanitária. Dublin, Madri e Luxemburgo queixaram-se de seu discurso em Tel Aviv.

Preocupada, a França começou a se movimentar em parceria com o Brasil, que protagoniza os esforços humanitários na presidência do Conselho de Segurança da ONU. Teme que a Rússia não esteja mais interessada em conter seus aliados na região, sobretudo o Irã. A crise de Gaza ofusca a guerra da Ucrânia e desloca recursos dos EUA para Israel, além de neutralizar a narrativa em relação às violações de direitos humanos pelo Exército russo.

Putin e Netanyahu já eram notórios senhores da guerra, mas Biden não tinha essa imagem, graças à retórica em defesa dos direitos humanos. Agora passou a ter.

'Parece que só fugimos de uma morte para outra'

Adnan Elbursh, repórter do serviço em árabe da BBC,
e a família dele tiveram que se mudar de casa mais de uma vez
Nós deixamos Jabalia, no norte de Gaza, na sexta-feira, 13 de Outubro, depois de Israel ter ordenado que os residentes evacuassem a área. Israel descreveu o sul como uma área segura do ponto de vista humanitário, então minha esposa, minhas quatro filhas, meu filho e eu fomos para a cidade de Khan Younis.

Agora estamos no sul. Vi colunas de fumaça e ouvi explosões. Fontes oficiais e testemunhas oculares me disseram que casas foram atingidas por ataques aéreos e famílias acabaram mortas.

Junto com meu irmão e a família dele, conseguimos encontrar um apartamento para ficar que achamos seguro. Éramos 12 pessoas hospedadas no local, que tinha dois quartos e um banheiro. Não havia água, eletricidade ou quaisquer outras instalações.

Mas logo fomos aconselhados a partir.

Disseram-nos que o exército israelense entrou em contato o proprietário do edifício para dizer que o local seria bombardeado. Eles afirmaram que o dono do prédio era procurado por uma associação com o Hamas.

Pouco depois do meio-dia, eu estava fazendo filmagens para uma reportagem da BBC. Minha família e a família do meu irmão foram retiradas às pressas. Eles não puderam levar nenhum dos pertences que havíamos trazido do norte de Gaza e fugiram rapidamente, sem saber qual direção seguir.

O prédio vizinho foi bombardeado enquanto eles fugiam. Felizmente, ninguém se feriu.

Agora minha família e eu estamos sem teto. Não sabemos para onde ir. Fui dominado pelo pânico e pelo medo. Alguém sugeriu que fôssemos ao prédio do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho em Khan Younis. Lá até poderia ser seguro, mas o local já está superlotado — os corredores e os quartos estão cheios de gente.

Não sei o que fazer. Pergunto-me constantemente se devemos voltar à nossa casa no norte de Gaza — que é uma escolha perigosa — ou permanecer no sul — que também não é seguro.

Parece que só fugimos de uma morte para outra. Não há um único centímetro seguro em Gaza.


Sem ter onde dormir dentro de casa, passamos a noite ao ar livre, em um parque perto do prédio do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Foi incrivelmente duro. Uma sensação de impotência me assombrou.

Minha esposa, meus filhos, os filhos do meu irmão e a esposa dele estavam deitados no chão. Foi uma visão terrível. Eles não tinham nada para se cobrir. Espalhamos pedaços de papelão e sentamos sobre eles.

O tempo ficou extremamente frio naquela noite e estávamos congelando, principalmente as crianças. Pegamos alguns cobertores emprestados das pessoas ao nosso redor para cobrir as crianças e ficamos acordados a noite toda, sem dormir.

Na manhã seguinte, decidi levar a minha família para ficar com um amigo que está no campo de Nuseirat, no meio da Faixa de Gaza.

Pouco antes de chegarmos, vários ataques aéreos atingiram uma padaria perto da região. Uma testemunha ocular me disse que os foguetes foram lançados pela força aérea israelense. Eles disseram que centenas de pessoas fizeram fila para comprar pão devido à escassez de alimentos. Com os bombardeios no local, pessoas foram mortas. Foi extremamente horrível e perigoso.

O Ministério da Saúde palestino afirma que os ataques iraelenses em Gaza causaram 3,5 mil mortes e 12,5 mil feridos até o momento. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou a um cessar-fogo humanitário imediato para aliviar o "sofrimento humano épico".

O bombardeio de Israel é uma resposta ao ataque dos militantes do Hamas, que matou pelo menos 1,3 mil pessoas no dia 7 de outubro. Outros 199 indivíduos foram feitos reféns.

Os militares israelenses disseram na manhã de terça-feira (17/10) que atacaram centros de comando operacional, infraestrutura militar e esconderijos do Hamas em Khan Younis e em Rafah, que ficam no sul de Gaza, bem como em duas áreas ao norte.

Mas, para mim e para a minha família, o som dos aviões militares é alto e assustador. Minha família está no campo de Nuseirat. Eu estou em Khan Younis. Não sei onde passarei esta noite. Realmente não sei para onde ir.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

A paz morreu?

Na noite de quatro de novembro de 1995, cem mil pessoas se aglomeravam na Praça dos Reis de Israel em Tel Aviv. Realizava-se um comício pela paz entre israelenses e palestinos. A multidão foi ao delírio quando o primeiro-ministro Ytzhak Rabin concluiu seu discurso histórico: “sempre acreditei que a maioria de nós quer a paz e está disposta a morrer por ela”.

Poucos minutos depois Rabin foi assassinado quando se dirigia ao seu carro. O assassino, Igal Amin, um jovem militante da extrema-direita israelense confessou:” O meu objetivo era eliminar o chamado processo de paz com os palestinos e para alcançá-lo achei que seria melhor eliminar Rabin”.

Os três tiros disparados nas costas de Ytzhak Rabin dizimaram o sonho de muita gente. Simbolicamente é visto como a morte do processo de paz entre dois povos que sempre foram inimigos históricos.

Pouco antes disso aconteceram os acordos de Oslo de 1993 onde, por meio de negociações secretas, o governo de Israel e a Organização para a Libertação da Palestina de Yasser Arafat se comprometeram a unir esforços pela paz. Passos importantes foram dados: Israel saiu de territórios ocupados e os palestinos passaram a contar com um embrião de Estado, a Autoridade Palestina.

Os ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro parecem confirmar a morte definitiva da paz entre palestinos e Israel. O sonho de dois estados também parece soterrado. Com boa dose de razão, uma onda de pessimismo varre o mundo, dado o temor de uma escalada do conflito, generalizando-se para toda a região.



O risco existe, mas considerá-lo como irreversível pode levar à paralisia e a ignorar que não há, para israelenses e palestinos, uma alternativa segura senão a paz definitiva. Ela só acontecerá se for assegurada a existência dos estados de Israel e da Palestina e se as forças interessadas na radicalização exponencial do conflito armado forem isoladas e derrotadas.

É preciso não confundir o Estado de Israel com o governo fundamentalista e de extrema-direita de Netanyahu. Desde 1996, quando chegou ao poder pela primeira vez, Netanyahu teve como estratégia avançar em territórios palestinos, particularmente na Cisjordânia, por meio de novos assentamentos de judeus. Antes, quando foram sacramentados os acordos de Oslo, existiam 200 mil assentados em territórios palestinos. Trinta anos depois são 700 mil.

Seu outro objetivo foi o enfraquecimento da Autoridade Palestina.

Seus planos naufragaram com o 7 de Outubro. Seu fracasso em garantir segurança para os israelenses o leva agora a tentar uma guerra final contra os palestinos. Seu objetivo é promover a diáspora palestina, com o êxodo de seus habitantes.

Netanyahu tenta se apropriar do apoio do mundo democrático ao direito de Israel de se defender e de enfrentar militarmente o Hamas. A opinião pública mundial, não está, contudo, avalizando a ocupação da Faixa de Gaza ou ações que violem o direito internacional. Esse é o sentido do alerta do presidente americano, Joe Biden, de que o “Hamas deve ser derrotado, mas Israel ocupar Gaza é um erro”.

Biden reconheceu ainda o direito dos palestinos de ter o seu próprio Estado e na visita que anunciou fazer à região pretende abrir diálogo com o polo moderado do mundo árabe, com vistas a fortalecê-lo.

Israel é um estado democrático, com uma opinião pública dinâmica e de valores ocidentais. Ela foi às ruas quando Netanyahu tentou usurpar poderes do Judiciário. Seu estado tem mecanismos democráticos para a alternância do poder. Isso aconteceu em 1973, quando o governo de Golda Meyer foi surpreendido pela invasão da Síria e do Egito. No médio prazo, forças moderadas israelenses podem se constituir em governo.

Também não se pode confundir o Hamas com os palestinos. Pesquisas indicam que mesmo na Faixa de Gaza, 64% da população preferem o caminho da negociação com Israel e apenas 12% confiam no Hamas. Os palestinos também são vítimas do terror e são usados como escudo humano. Se dependesse da vontade dos palestinos, viveriam em uma sociedade laica e democrática.

Diferentemente de Israel, não há no território dominado pelo Hamas mecanismos democráticos para a alternância do poder. O grupo terrorista chegou ao poder em 2006, quando ganhou as eleições, mas um ano depois expulsou a Autoridade Palestina da Faixa de Gaza e estabeleceu uma ditadura fundamentalista.

Só será deslocado pela combinação do enfrentamento militar com sua derrota política. Pelo seu isolamento e o fortalecimento da Autoridade Palestina, uma força moderada que firmou posição clara ao declarar sua opção pela política e pela resistência pacífica.

A alternativa à paz é a reprodução em escala infinitamente ampliada do enfrentamento dado ao Estado Islâmico na Síria. O ISIS foi exterminado, mas 20 mil pessoas foram mortas. Caso essa seja a opção, como defende o governo de Netanyahu, o derramamento de sangue será superior, dada a densidade demográfica na faixa de Gaza.

É preciso fugir da armadilha da mata escura. De um lado, Netanyahu ver como solução final a anexação total da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, com a expulsão dos palestinos. E, de outro, a solução final do Hamas que é eliminar o Estado de Israel.

É imperioso reconectar-se com o espírito de Oslo, quando políticos do porte de Itzhaki Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat deram uma chance à paz e por isso mereceram o Prêmio Nobel da Paz de 1994.

À época, Rabin percebeu que não havia mais condição de manter os palestinos como subcidadãos em seu próprio solo. São extremamente atuais suas palavras, quando recebeu o Nobel: “Cemitérios militares em todos os cantos do mundo são um testemunho silencioso do fracasso dos líderes nacionais em santificar a vida humana.”

O ataque a um hospital da Faixa de Gaza, no qual centenas de civis palestinos foram mortos, a maioria crianças e mulheres, impõe aos líderes da comunidade internacional encontrar caminhos para estancar a insanidade da guerra no Oriente Médio.

Desonestidade


O Hamas fez uma obscenidade moral. Mas nada que Israel não tivesse feito aos palestinos vezes sem conta. Dizer uma coisa e não dizer a outra é profundamente desonesto
Terry Eagleton, filósofo e crítico literário britânico 

Preservar o espaço da paz: o trabalho do mundo durante a guerra contra o Hamas

Aviv Kutz, de 54 anos, morador do kibutz Kfar Aza, é amigo de infância de um amigo meu muito próximo. Aviv e a mulher, Livnat, de 49 anos, e os filhos Roten, de 19, Yonatan, de 17 e Yiftach, de 15, moraram em Kfar Aza por anos. Ainda que a família Ktuz tenha passado por vários ataques com foguetes e morteiros do Hamas ao seu kibutz, pais e filhos continuaram esperando pela paz.

Todo ano, a família organizava um festival de pipas, com o objetivo de criar um pequeno espaço pacífico na zona de guerra. Pipas coloridas, algumas com mensagens de paz, eram empinadas perto da cerca da fronteira com Gaza. A irmã de Livnat, Adi Levy Salma, que participou do festival nos anos anteriores disse que “a ideia é empinar as pipas perto da cerca para mostrar a Gaza que só queremos viver em paz”.

O festival de pipas deste ano estava programado para o sábado, 7 de outubro. “Festival de pipas 2023”, dizia o convite, “vamos nos encontrar no campo de futebol às 16h para enfeitar o céu”. Algumas horas antes do festival começar, os terroristas do Hamas invadiram e ocuparam o kibutz. Os terroristas foram de casa em casa torturando, matando e sequestrando sistematicamente dezenas de moradores do kibutz. Todos os cinco membros da família Kutz foram mortos.


Atrocidades como estas confundem a mente. Por que os seres humanos fazem coisas como estas? O que o Hamas esperava alcançar? O objetivo do ataque do Hamas não era capturar e manter território. O Hamas não tem a capacidade militar de controlar o kibutz por muito tempo diante do Exército israelense.

Três coisas devem ser apontadas, para entender os objetivos do Hamas. Primeiro, o Hamas focou amplamente neste ataque em matar e sequestrar civis, ao invés de soldados. Em segundo lugar, os terroristas torturaram e executaram adultos, crianças e até bebês no modo mais tenebroso que poderiam imaginar. E, em terceiro lugar, ao invés de tentar esconder as atrocidades, o Hamas garantiu que elas fossem divulgadas, até filmando algumas eles mesmos e compartilhando os vídeos chocantes nas redes sociais.

Essa é a própria definição de terrorismo, e já vimos coisas similares antes com o Estado Islâmico (EI). Diferente da guerra convencional que usualmente busca conquistar território ou degradar capacidades militares, o terrorismo é uma forma de guerra psicológica, que visa a aterrorizar. Ao matar centenas de pessoas de formas brutais e tornando isso público, organizações como o Hamas e o EI buscam aterrorizar milhões — israelenses, palestinos e pessoas do mundo.

O Hamas é diferente de outras organizações palestinas como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), e não deve ser equiparada a todo o povo palestino. Desde sua fundação, o Hamas recusou-se veementemente a reconhecer o direito de existência de Israel e fez tudo o que estava ao seu alcance para arruinar todas as oportunidades de paz entre israelenses e palestinos, e entre Israel e o mundo árabe.

O pano de fundo imediato do atual ciclo de violência são os tratados de paz assinados entre Israel e países do Golfo Pérsico, e o esperado tratado de paz entre issraelenses e sauditas. Havia a expetativa de que esse acordo não apenas normalizasse as relações entre Israel e boa parte do mundo árabe, mas também que, de algum modo, aliviasse o sofrimento de milhões de palestinos vivendo sob ocupação israelense, e que reiniciasse o processo de paz entre os dois lados do conflito.

Nada alarma mais o Hamas do que a possibilidade de paz. É por isso que ele lançou este ataque — e é por isso que matou a família Kutz e mais de mil outros civis israelenses. O que o Hamas fez é um um crime contra a Humanidade no sentido mais profundo do termo. Um crime contra a Humanidade não é apenas sobre matar seres humanos. É sobre destruir nossa confiança na Humanidade. Quando você testemunha coisas como pais sendo torturados e executados na frente dos filhos, ou crianças pequenas brutalmente assassinadas, você pede toda a confiança nos seres humanos. E corre o risco de perder sua humanidade também.

Os crimes do Hamas não podem ser justificados pela conduta passada de Israel. Dois erros não fazem um acerto. Há muito por criticar Israel por manter milhões de palestinos por décadas sob ocupação, e por abandonar, nos últimos anos, qualquer tentativa séria de paz.

No entanto, o assassinato da família Kutz e muitas outras atrocidades cometidas pelo Hamas, não tinham o objetivo de reiniciar o processo de paz ou tem alguma probabilidade de liberarem um único palestino da ocupação israelense. Em vez disso, a guerra lançada pelo Hamas impõe imenso sofrimento a milhões de palestinos. Impulsionado pelo seu fanatismo religioso, o Hamas simplesmente não parece se importar com o sofrimento humano – israelense ou palestino.

Diferente da laica OLP, muitos dos líderes e ativistas do Hamas parecem só se importar com suas fantasias de vida paradisíaca após a morte. Eles estão dispostos a entregar este mundo às chamas e a destruir as nossas almas no processo, para que as suas próprias almas possam supostamente desfrutar da felicidade eterna num outro mundo. Nós temos que vencer essa guerra de almas.

Em sua guerra contra o Hamas, Israel tem o dever de defender seu território e seus cidadãos, mas deve também defender sua humanidade. Nossa guerra é com o Hamas, não com o povo palestino. Os civis palestinos merecem desfrutar de paz e prosperidade em sua terra, e até no meio do conflito, seus direitos humanos básicos devem ser reconhecidos pelos dois lados. Isso se refere não apenas a Israel, mas também ao Egito, que partilha a fronteira com a Faixa de Gaza, que fechou parcialmente.

Já o Hamas e seus apoiadores devem ser excomungados pela Humanidade. Não só Israel, mas toda a comunidade humana deveria colocar o Hamas completamente fora dos seus limites, assim como fez antes com o EI. Os cidadãos de Israel não podem viver em lugares como Kfar Aza, com o Hamas do outro lado da cerca, assim como iraquianos e sírios não podiam viver como o EI à sua porta.

Dezenas de milhares de israelenses já fugiram das áreas de fronteira, e não podem voltar para suas casas antes que a ameaça a suas vidas seja removida. Em um nível mais profundo, as vidas de todos os seres humanos são desvalorizadas e ameaçadas enquanto se permita que organizações como o Hamas e o Estado Islâmico existam.

Os objetivos da guerra em Gaza devem ser claros. Ao fim da guerra, o Hamas deve estar totalmente desarmado e a Faixa de Gaza deve ser desmilitarizada, para que os civis palestinos possam viver vidas dignas no território, e os civis israelenses possam viver sem medo ao lado da Faixa de Gaza.

Até que esses objetivos sejam atingidos, a luta para manter a nossa humanidade vai ser difícil. Muitos israelenses são psicologicamente incapazes nesse momento de ter empatia com os palestinos. A mente está cheia até a borda com nossa própria dor, e não resta espaço nem para reconhecer a dor dos outros.Muitas das pessoas que tentaram manter esse espaço — como a família Kutz — estão mortas ou profundamente traumatizadas. Muitos palestinos estão em uma situação semelhante — suas mentes também estão tão cheias de dor que não podem ver a nossa.

Mas os que estão de fora e não imersos na dor devem fazer um esforço para ter empatia com todos os seres humanos que sofrem, ao invés de preguiçosamente verem apenas uma parte da terrível realidade. É o trabalho dos que estão de fora ajudar a manter o espaço para a paz. Nós depositamos esse espaço pacífico com vocês, porque não podemos mantê-lo no momento. Cuidem bem dele para nós, para que um dia, quando a dor começar a sarar, tanto israelenses como palestinos possam habitar este espaço.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

O mundo em guerra

O mundo está em guerra, como sempre. O mundo tem hoje cerca de dez guerras em andamento. Todas são igualmente iguais, pela sua insensatez, crueldade e mortes. Mas algumas têm mais relevância pela sua amplitude e consequências políticas.

As três mais relevantes hoje são a Guerra entre o Hamas e Israel, sendo o Oriente Médio o berço e a origem dos conflitos de nossa civilização; a Guerra da Ucrânia, uma guerra geopolítica entre a Rússia e os Estados Unidos que domina toda a Europa, e joga por baixo a noção da relativa estabilidade da ordem mundial pós Segunda Guerra; e o possível conflito entre os Estados Unidos e a China, na luta pela hegemonia mundial deste século XXI, com a China tendendo a ultrapassar o PIB do Estados Unidos, gerando tensões que podem resultar em guerra. Este é o trio que nos amargura na visão quase apocalíptica do amanhã.

No berço de nossa civilização, Gregos e Persas se antepuseram, a Grécia mais ligada à noção de democracia, a Pérsia mais baseada no conceito do estado centralizado. Samuel Huntington, em “O choque de civilizações”, fala-nos sobre a relativa diminuição da economia ocidental e o relativo aumento da economia dos países árabes e islâmicos, em concepções antepostas. Israel com política expansionista territorial, entra em conflito contínuo com os Palestinos, ainda sem a constituição de um Estado, e com o mundo Árabe, com poucas chances de solução em não havendo negociação.


Na Europa, chega a impressionar que um país como a Ucrânia, com PIB de US$ 200 bilhões em 2021 e renda per capita de US$ 3.500, 00 dólares, hoje com o PIB diminuído para US 160 bilhões e recebendo auxílio militar de US$150 bilhões no primeiro ano do conflito, seja o palco de tamanha guerra que abala os alicerces mundiais. Em 2021, o PIB da Rússia aumentou 22%, o dos Estados Unidos 9%, o da União Europeia caiu 3,5%. Desde 1950, os Estados Unidos participaram em cerca de 30 guerras no mundo, a Rússia em seis.

No Mar da China, navios e aviões da China e dos Estados Unidos provocam-se reciprocamente, aumentando a possibilidade de conflito. De 2000 a 2021, o PIB dos Estados Unidos foi de US$ 10,3 trilhões para US$ 23,3 trilhões, a China de US$ 1,2 trilhões para US$ 17,7 trilhões. A China reivindica Taiwan, responsável por 90% da produção mundial dos supercondutores na vanguarda do conhecimento, os Estados Unidos defendem a sua autonomia. Os supercondutores são fundamentais na determinação do poder econômico e político das nações no século XXI. A luta que era antes por colônias, depois por petróleo, agora é por supercondutores.

Na música de Rita Lee, “Alô, alô Marciano, aqui quem fala é da Terra, pra variar, estamos em guerra, você não imagina a loucura, o ser humano tá na maior fissura porque, tá cada vez mais down in the high society”. O mundo é cego, e marcha para a sua possível autodestruição, na contraposição do mercado e da crise ecológica que se aproxima.

Pensamento do Dia

 


Uma breve história de Marte

Dos filmes e livros às sondas de exploração da NASA, Marte é sinônimo de fascínio e mistério. Haverá vida no planeta vermelho? O planeta Marte está sempre nas manchetes. Recentemente, foi a descoberta de água líquida fluindo na sua superfície, e mais um tanto acumulada em crateras. A lista de filmes sobre Marte ou marcianos é longa. O filme de Ridley Scott, Perdido em Marte, baseado no livro de Andy Weir, lotou cinemas pelo mundo afora. Parece que o planeta vermelho não quer ser ofuscado pela Lua, especialmente agora que o bilionário Elon Musk diz que quer colonizar o planeta com sua empresa SpaceX.
Na mitologia greco-romana, Marte é o deus da guerra, guardião dos soldados e dos fazendeiros. A conexão com a guerra pode ser traçada aos egípcios. Os gregos o chamavam de Ares, um dos deuses do Olimpo, filho de Zeus e Hera. A cor avermelhada de Marte, plenamente visível a olho nu, inspira certo temor, dando ao planeta um ar de mistério. Que tipo de criatura pode habitar um mundo que aparenta ser coberto de sangue? Com a astronomia restrita a observações a olho nu até 1609, pouco foi aprendido sobre Marte até então. Entre 1601 e 1609, o astrônomo alemão Johannes Kepler usou o planeta para deduzir que sua órbita tinha a forma de uma elipse, e não a de um círculo perfeito. Talvez a inspiração de Kepler tenha vindo do impulso guerreiro atribuído a Marte, refletido na sua órbita um tanto excêntrica (no sentido de não circular).

O astrônomo bem sabia que sua visão ruía milênios de conhecimento astronômico, e que forçaria uma nova atribuição de imperfeição aos desenhos celestes. {14} Já bem na era dos telescópios, e aproveitando a aproximação de Marte durante um período de ótima visibilidade em 1877, o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli observou certos detalhes do relevo marciano que descreveu usando a palavra italiana “canali”. Mesmo que Schiaparelli estivesse se referindo às longas depressões e sulcos na superfície de Marte, algumas pessoas acreditaram que houvesse descoberto canais escavados, que cruzavam a superfície do planeta em padrões extremamente regulares.

Na imaginação popular, os canais logo se transformaram em vias artificiais, construídos por uma antiga e sábia civilização, dirigindo água dos polos aos centros urbanos das áreas equatoriais, castigadas por terríveis secas. Centenas de canais foram “observados” e batizados, mesmo se revelados apenas através de observações munidas de telescópios. Estranhamente, as fissuras recusavam-se a aparecer em fotografias tiradas com os mesmos telescópios. Astrônomos ofereceram várias explicações para essa situação um tanto peculiar, argumentando que técnicas fotográficas precisam de um longo período de exposição, tornando-as, assim, mais sensíveis a flutuações térmicas na atmosfera. Segundo eles, essas flutuações comprometem a qualidade das imagens fotográficas, apagando qualquer traço de existência dos canais.

Algo semelhante ocorre quando viajamos em estradas com o asfalto aquecido pelo Sol e observamos imagens distorcidas à nossa frente. Astrônomos de excelente reputação acreditaram com entusiasmo na existência dos extensos canais marcianos. Entre eles, o milionário e astrônomo amador americano Percival Lowell ficou fascinado com a possibilidade de vida inteligente em Marte. Em 1895, Lowell publicou um livro expondo suas ideias com grande convicção e autoridade. Usando sua fortuna pessoal, fundou um observatório em Flagstaff, no estado do Arizona, inicialmente dedicado exclusivamente a observar Marte. Não é por coincidência que H. G. Wells publicou seu livro A Guerra dos Mundos em 1898, um dos grandes clássicos da ficção científica, que conta a história de uma invasão marciana.


No livro, Wells usa os marcianos como metáfora para o futuro da humanidade, dominada pelos grandes impérios do final do século XIX (Austro-Húngaro, Otomano, Britânico, a América do Norte emergente...). Da mesma forma que duas espécies inteligentes não podem coexistir no mesmo planeta, uma conflagração entre os grandes impérios seria inevitável no futuro próximo. (Que se materializou, profeticamente, com a Primeira Guerra Mundial.) Os marcianos, forçados a abandonar o seu mundo, haviam criado terríveis máquinas de destruição, um aparato bélico que fazia das nossas armas brinquedos de criança. Não foi nossa inteligência ou estratégia que derrotou os invasores, mas a Natureza.

Wells, imbuído dos ensinamentos de Darwin e sua teoria da evolução, sabia que qualquer espécie, inteligente ou não, só está bem adaptada ao ambiente onde vive. Os marcianos não tinham os anticorpos necessários para se defender contra os nossos micróbios. Inspirado pelo livro de H. G. Wells, ainda mais dramático foi o programa de rádio criado e produzido em 1938 pelo genial Orson Welles, alertando os habitantes do estado de Nova Jersey para uma invasão de marcianos. A Guerra dos Mundos tornou-se “real” logo antes da Segunda Guerra Mundial. A série de transmissões, na forma de noticiários urgentes, causou verdadeiro pânico na população local.

A maioria das pessoas acreditou passivamente nos noticiários, sem questionar a existência de uma civilização tecnologicamente avançada em Marte, aparentemente com péssimas intenções com relação à Terra e seus habitantes.

Essa credibilidade só foi possível porque o planeta vermelho ocupava já um local privilegiado na psique coletiva como um mundo habitado por seres mais avançados, cuja índole destruidora causaria o nosso fim. Poucos entenderam que o que viam nos marcianos era um reflexo de nós aqui na Terra, uma espécie que, movida pela ganância e pela sede de poder, cria meios terríveis de autodestruição.

As duas versões do livro de Wells para o cinema – a primeira, de 1953, dirigida por Byron Haskin, e a segunda, de 2005, dirigida por Steven Spielberg – adaptam a narrativa para a realidade social da época. A versão de 1953 ecoa a era atômica e a Guerra Fria. Os marcianos querem aniquilar os humanos, sem, aparentemente, um motivo óbvio. Na versão de 2005, o foco é a desintegração da família e o medo da ameaça terrorista. Os monstros que vêm de Marte são os monstros que carregamos em nós mesmos.

Durante as décadas de 1960 e 1970, as várias sondas espaciais da linha Mariner e Viking provaram definitivamente que os extensos “canais marcianos” não existem. Também não existe qualquer traço de uma civilização inteligente em Marte, no presente ou no passado. Por outro lado, sabemos agora que o planeta apresenta uma geologia extremamente rica, mesmo se desértica e com temperaturas muito baixas. Vales e leitos de rios, vastos sistemas de cânions com mais de 4 mil quilômetros de extensão, enormes vulcões extintos, tudo isso indica que, no passado, Marte era um planeta muito diferente do que é hoje, com muita água e até, quem sabe, clima tropical.

Com as sondas mais recentes, que pousaram em Marte e exploraram a região vizinha ao seu local de pouso com pequenos jipes robóticos, ficou claro que o planeta é mesmo um deserto gelado, semelhante a certas regiões do Oeste americano. Seu tom avermelhado vem do acúmulo de poeira na superfície, formada por vários compostos de ferro e oxigênio. Essa poeira é levantada com frequência em terríveis tempestades de areia, que podem ser vistas até por telescópio. Apesar de alguns alarmes falsos, a vida não foi detectada em Marte. Se existe vida lá, será simples, provavelmente bacteriana.

Difícil que seja na superfície, dado que a atmosfera de Marte é muito fina, em média com menos de 1% da densidade da atmosfera terrestre: sem a proteção da atmosfera, a superfície é eficientemente esterilizada pela radiação ultravioleta oriunda do Sol. Para piorar, o gás carbônico (o que a gente exala quando respira) compõe 96% da atmosfera, tornando-a inviável para seres como nós. Com massa menor do que a Terra, em Marte o peso dos humanos seria em torno de 40% menor. Bom lugar para dietas, mas não para passar as férias. Seria uma viagem de pelo menos seis meses, sem qualquer garantia de volta. Missões recentes confirmaram a presença de água líquida em certas encostas de Marte.

Estrias escuras em terreno seco indicam a presença de água, semelhante ao que ocorre com o concreto, que escurece quando molhado. A alta quantidade de vários tipos de sais na água faz com que permaneça líquida mesmo a baixas temperaturas, no caso em torno de -30 graus Celsius. Infelizmente, essa alta salinidade também dificulta a existência de vida, semelhante ao que ocorre no Mar Morto em Israel e, mais dramaticamente, na lagoa de Don Juan, na Antártica, com salinidade 9,6 vezes mais elevada que no Mar Morto.

Mesmo que a possibilidade de a vida existir nessas condições seja baixa, só saberemos se alguma criatura pode sobreviver nessas condições extremas se tivermos a oportunidade de investigar a área diretamente. Apesar de parecer uma decisão simples, enviar uma sonda para essas regiões é um processo não só caro como complexo. O maior problema é a possibilidade de contaminação, isto é, de a própria sonda levar consigo criaturas terrestres, bactérias ou vírus. Certamente, numa questão dessa grandeza não queremos ser enganados, especialmente se a vida descoberta em Marte for idêntica à encontrada aqui, o que seria muito suspeito. Não há dúvida de que a descoberta de vida extraterrestre seria uma das maiores notícias de todos os tempos. Contemplar a existência de outras formas de vida é contemplar a natureza de nossa própria existência como seres humanos.

Até que ponto somos únicos e especiais? Sabemos hoje que apenas em nossa galáxia existem em torno de 250 bilhões de estrelas, e que a maioria delas têm planetas girando à sua volta. Devemos, também, incluir as luas, que são potencialmente plataformas para a vida. Isso significa que existem trilhões de mundos apenas em nossa galáxia, cada qual com sua própria composição e história. Se as leis da física e da química são as mesmas nesses mundos – e sabemos que são –, fica difícil imaginar que somos o único planeta com vida.

A probabilidade de vida extraterrestre é alta, mesmo se limitarmos nossa busca à Via Láctea e a criaturas semelhantes a nós, com química baseada em carbono e dependendo de água líquida. Astrônomos que trabalham nessa área – chamada de astrobiologia – especulam que teremos indicação indireta de que a vida existe em outro planeta (fora do sistema solar) em duas ou três décadas. Essa “detecção” se dará através da análise da composição da atmosfera do planeta, que, otimisticamente, teria gases associados à presença de vida, como oxigênio e ozônio. Vale lembrar, no entanto, que detectar vida não é o mesmo que detectar vida inteligente. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas, a vida inteligente sendo certamente muito mais rara. (Veja ensaio anterior, “A questão alienígena”.)

A vida existe na Terra há pelo menos 3,5 bilhões de anos. Em números arredondados, durante os primeiros 3 bilhões de anos, a vida aqui consistia apenas em seres unicelulares. A complexidade dos dinossauros veio muito depois. Nós estamos aqui apenas há 200 mil anos, resultado de uma série de mutações genéticas e acidentes cósmicos. A vida não é como uma semente, que brota e vai dar numa grande árvore. A vida não tem um plano final. A existência de inteligência é a exceção e não a regra. Essa revelação da ciência moderna põe nosso medo dos marcianos num outro patamar, decididamente o da ficção científica. Voltando à obra de H. G. Wells, é melhor tomá-la como metáfora dos perigos que nossa espécie confronta no presente e no futuro próximo. Numa era em que a automação cega e a distância entre nós e o resto da vida em nosso planeta aumentam impunemente, a raridade da vida deveria ressoar com uma nova identidade para a humanidade, guardiões da Natureza num Universo profundamente hostil à vida. É hora de repensar nossa importância e raridade, tomando o destino da vida e do nosso planeta em nossas mãos.
Marcelo Gleiser, "O caldeirão azul"

Ensaio sobre a surdez

Um motorista parado no sinal descobre subitamente que perdeu a visão. Assim começa o "Ensaio sobre a Cegueira", do escritor português José Saramago. Um a um, os habitantes da cidade percebem que já não podem mais ver. Como muitos agora não podem mais ouvir.

No romance de 1995, a “treva branca” se espalha de forma incontrolável. Como se a lembrar a responsabilidade dos que ainda podem ver, quando muitos dos demais habitantes da cidade se acostumam à recente cegueira.

Se ainda estivesse por aqui, diante de duas guerras e da cacofonia das redes sociais, Saramago poderia escrever um novo ensaio, mas desta vez sobre a surdez. Ou sobre a responsabilidade dos que ainda ouvem quando se espalha a surdez – não como epidemia, mas como opção.

A inspiração poderia bater-lhe à porta por meio das imagens do sofrimento de jovens russos e ucranianos, israelenses e palestinos. Homem de esquerda por toda a vida, ele teria suas preferências políticas. Mas não deixaria de perceber como esse sofrimento comum nos revela tão humanos.

Hoje, além de opcional, a surdez é seletiva. A transmissão instantânea de imagens das guerras é rapidamente seguida pela divulgação igualmente instantânea de opiniões e julgamentos em apressadas redes sociais.

Quando a imagem de uma jovem pessoa atingida pela guerra coincide com a posição política de um candidato a influenciador, esse candidato rapidamente a divulga, acompanhada das mais ácidas legendas.

Se a imagem é a de uma igualmente jovem pessoa atingida pelas armas do lado pelo qual se nutre simpatia, opta-se por não a retransmitir. Ouve-se o choro da pessoa que está de seu lado. E não se ouve o lamento de alguém que sofre do outro.


A surdez seletiva já chegou a debates universitários e os interrompeu com sua intolerância. Qualquer palavra fora de lugar já será suficiente para motivar um julgamento sumário. E, quando se decreta que alguém se encontra do lado oposto, não se ouvem mais seus argumentos.

Há décadas a rivalidade entre israelenses e palestinos motiva paixões em todo o mundo. Desde que se decidiu permitir a criação de um Estado judaico naquela região, após o holocausto da Segunda Guerra Mundial, abriu-se um fosso político.

Sem o estabelecimento igualmente de um Estado palestino, têm alertado as mais sensatas vozes ao longo das últimas décadas, não haverá estabilidade na região.

Depois de muitas guerras, rebeliões e revoltas ao longo do século 20, a situação – ainda que tensa como sempre – parecia razoavelmente sob controle. Até que o mais cruel e violento ataque terrorista do grupo Hamas mostrou que nada mais seria como antes.

Os israelenses, até então divididos pelo governo radical de extrema direita de Benjamin Netanyahu, logo se uniram em emergência nacional para organizar uma resposta ao Hamas. E o mundo inteiro passou a temer as consequências de um iminente ataque israelense a Gaza.

Enquanto os generais de Israel planejam seu contra-ataque, o planeta é inundado com sons e imagens de palestinos em fuga. Da mesma forma como já havia sido invadido, dias antes, por sons e imagens do assassinato de jovens que dançavam em uma festa em Israel.

A guerra nos novos campos de batalha é logo seguida por uma guerra disso que nos habituamos a chamar de narrativas.

Nas redes sociais os sons e imagens de sofrimento são convertidos em propaganda política. Se o sofrimento é de alguém de um campo de simpatias, logo acusa-se o campo adversário.

Mas não se demonstra nas mesmas redes empatia com o sofrimento de pessoas comuns, ainda que crianças ou idosos, do lado que se considera inimigo.

Assim corremos todos em direção a uma desumanização. Uma tendência que já marcou diversas sociedades ao longo dos séculos antes de grandes conflitos. Vale tudo em nome de alguma causa.

Os sinais que nos chegam do Oriente Médio não são promissores. Ao contrário, indicam a possibilidade de uma guerra longa que, na pior das hipóteses, poderá atrair novos e perigosos atores ao longo dos próximos meses.

Até aqui só parece claro que dificilmente qualquer lado conseguirá total sucesso por meios militares. Sem uma ampla negociação não haverá paz duradoura.

Por isso as palavras neste momento importam tanto. E por isso os adeptos da surdez seletiva precisam estar atentos. A própria estabilidade global pode estar em risco.

Um esboço de possível declaração do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas a respeito do conflito já chegou às mãos do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Grandes discussões estão à frente.

O acaso deu ao Brasil a responsabilidade de dirigir o conselho em um momento de grave crise. E a oportunidade de estimular os representantes de cada país ali representado a ouvirem uns aos outros para que se mantenham abertas as portas da negociação.

Ver fotos e vídeos de guerra

Ainda que tente, não consigo parar de ver fotos e vídeos de guerra. Não sei por que tenho feito isso, mesmo sentindo tanto desconforto. Talvez esteja tentando entender o que nunca poderá ser entendido. Talvez esteja tentando humanizar as notícias, dar a elas rostos e histórias, ainda que, paradoxalmente, veja esses mesmos rostos na velocidade constrangedora de um scroll. Ou talvez só esteja tentando aliviar a angústia dos impotentes com a movimentação débil de um dedo indicador.

Fui para a minha estante buscar ajuda. Lá estava Susan Sontag, com seu “Diante da dor dos outros”. Nessa obra, a autora comenta que durante muito tempo as pessoas acreditaram que, se o horror dos conflitos fosse vívido e real o bastante aos olhos do grande público, as guerras cessariam.

Sontag cita como exemplo uma tentativa feita por Ernst Friedrich, em 1924, com a obra “Guerra contra a Guerra!”. Este livro de fotos (à venda por um punhado de dólares na Amazon), lançado logo depois da Primeira Guerra, foi concebido para ser uma verdadeira terapia de choque, mostrando ao público fotos impactantes do campo de batalha e do seu entorno.

Focado em construir com imagens uma narrativa linear e persuasiva, o livro começa com fotos de soldadinhos de brinquedo (alguma dúvida de que o belicismo tem gênero? Até ontem dávamos aos meninos armas de plástico).

Segue com fotos de igrejas e casas destruídas, vilarejos arruinados, carros destroçados, enforcamentos, prostitutas seminuas em bordéis militares, soldados e civis mortos, corpos de crianças e, por fim, sepulturas. Tudo isso com legendas, por vezes cáusticas, em quatro idiomas.


A parte mais forte da edição fica no meio dessa narrativa, em uma seção nomeada “Faces da Guerra”, com 24 closes de soldados com os rostos deformados por cicatrizes —hoje essas imagens estão a um Google de distância de qualquer pessoa e seguem sendo extremamente perturbadoras.

Após o lançamento, o libelo antibeliscista foi denunciado por veteranos de guerra e organizações patrióticas e recolhido de diversas livrarias. Ainda assim, foi celebrado em alguns países, com dez edições na Alemanha e traduções em diversas línguas, fazendo com que muitos pacifistas acreditassem que sua circulação teria uma influência decisiva na opinião pública no sentido de evitar futuros conflitos. Alguns anos depois, estourava a Segunda Guerra.

Estamos falando de uma publicação que foi distribuída apenas em uma parte do mundo. De qualquer forma, parece haver nessa tentativa frustrada de conscientização alguma universalidade.

Desde o ano em que “Guerra contra Guerra!” foi lançado, a produção de imagens deu um salto. Se antes as fotos eram poucas, reveladas em papel filme, impressas em edições de alcance limitado e atreladas a algum custo, agora vemos imagens produzidas em tempo real, a câmera muitas vezes na mão dos civis durante o ataque, o quadro tremido por fugas e explosões, o rosto dos narradores se comunicando de forma veemente ou desesperada a um palmo do nosso, com dezenas, centenas ou milhares de comentários e replicações. Que influência a produção dessas imagens dolorosas vem tendo na tomada de decisões dos últimos conflitos? Acredito que ainda não seja possível saber.

De qualquer forma, parece não haver horror e explicitude capazes de frear os infernos que desde sempre o homem inventa para si.