terça-feira, 11 de abril de 2023
A normalidade voltou e foi antes de tudo para isso que Lula se elegeu
Há governos bons e ruins numa democracia. Nas ditaduras, de direita ou de esquerda, onde a liberdade é sua primeira vítima, todos os governos são ruins, embora alguns mais do que os outros.
Nós, jornalistas, deveríamos ouvir menos o que nos sopram as chamadas fontes de informação, e mais o que nos ensinam as pessoas para as quais escrevemos ou falamos.
Uma dessas pessoas, leitora do jornal Folha de S. Paulo, resumiu assim os primeiros 100 dias de Lula 3:
“Boa notícia: temos governo. Má notícia: é um governo mais ou menos. Está até melhor do que eu esperava. E ter um governo depois de quatro anos de desgraça é uma melhora.”
Acertou em cheio. Faltou governo nos últimos quatro anos de um presidente que só pretendeu destruir o que existia para pôr no lugar um arremedo de regime autoritário ao seu gosto.
Mas a verdade é que hoje temos governo e o pior parece ter ficado para trás. Ainda restam 1.365 dias ao governo do mais ou menos. Quem sabe ele não melhora antes de chegar ao fim.
Só os torcedores fanáticos esperavam que o governo anterior fosse capaz de melhorar. O país foi salvo pelas Simone (s) e os Alckmin (s) da vida que disseram: “Agora, chega! Basta! Fora!”
Em 100 dias, apesar da tentativa de golpe de 8 de janeiro, Lula entregou o que mais se esperava dele. Temos governo. Os Poderes da República atuam de maneira harmônica.
Todos os ritos institucionais estão sendo cumpridos. Os militares retornaram à caserna de onde jamais deveriam ter saído. A imprensa não se sente mais acuada nem destratada.
Profissionais de relevo com experiência em suas áreas foram alocados em postos importantes. O presidente responde às perguntas que lhe fazem sem discriminar entre os que o provocam.
De resto, trabalha e gosta de pegar no pesado. Cobra desempenho dos seus auxiliares. E não se nega a estar presente onde as pessoas tão somente querem ouvir uma palavra sua de consolo.
O Brasil saiu do isolamento em que se encontrava, e o mundo aplaude. A democracia foi preservada e a normalidade restabelecida. Agora, é seguir o jogo, respeitando-se as regras.
Nós, jornalistas, deveríamos ouvir menos o que nos sopram as chamadas fontes de informação, e mais o que nos ensinam as pessoas para as quais escrevemos ou falamos.
Uma dessas pessoas, leitora do jornal Folha de S. Paulo, resumiu assim os primeiros 100 dias de Lula 3:
“Boa notícia: temos governo. Má notícia: é um governo mais ou menos. Está até melhor do que eu esperava. E ter um governo depois de quatro anos de desgraça é uma melhora.”
Acertou em cheio. Faltou governo nos últimos quatro anos de um presidente que só pretendeu destruir o que existia para pôr no lugar um arremedo de regime autoritário ao seu gosto.
Mas a verdade é que hoje temos governo e o pior parece ter ficado para trás. Ainda restam 1.365 dias ao governo do mais ou menos. Quem sabe ele não melhora antes de chegar ao fim.
Só os torcedores fanáticos esperavam que o governo anterior fosse capaz de melhorar. O país foi salvo pelas Simone (s) e os Alckmin (s) da vida que disseram: “Agora, chega! Basta! Fora!”
Em 100 dias, apesar da tentativa de golpe de 8 de janeiro, Lula entregou o que mais se esperava dele. Temos governo. Os Poderes da República atuam de maneira harmônica.
Todos os ritos institucionais estão sendo cumpridos. Os militares retornaram à caserna de onde jamais deveriam ter saído. A imprensa não se sente mais acuada nem destratada.
Profissionais de relevo com experiência em suas áreas foram alocados em postos importantes. O presidente responde às perguntas que lhe fazem sem discriminar entre os que o provocam.
De resto, trabalha e gosta de pegar no pesado. Cobra desempenho dos seus auxiliares. E não se nega a estar presente onde as pessoas tão somente querem ouvir uma palavra sua de consolo.
O Brasil saiu do isolamento em que se encontrava, e o mundo aplaude. A democracia foi preservada e a normalidade restabelecida. Agora, é seguir o jogo, respeitando-se as regras.
Fim dos tempos
No fim dos tempos, ainda haverá tempo para arrependimento? Ou o tempo do arrependimento é diferente do tempo do fim? O sujeito de olhar arregalado, como assustado e furioso na mesma medida, levanta, rígido, o cartaz imperativo: “É o fim. Arrependam-se!” e grita, em coro ao escrito, “arrependam-se!”.
E, se for o fim dos tempos, de que adiantaria arrependimento? Arrependimento só faz sentido antes do fim. Quando ainda há algo para ser diferente, num mundo que possa ser diferente por estar ainda longe do fim.
Mas o doido da rua tem razão? Ou é só doido? Ou é um daqueles doidos doídos? Que endoidou porque a vida lhe doeu demais. Com dor demais em pouco tempo. Doeu tanto, e tão sempre, que se a dor não acaba, ele tenta acabar com o tempo da dor. Com o tempo em que só há dor.
Se for doido assim, eu o entendo. Porque a vida dói mesmo. Tem aquelas dores que são só nossas. Dores privadas do nosso tempo, nossa vida particular. Que às vezes doem tanto que achamos que não vamos suportar. Que nosso tempo acabou, ainda que o tempo dos outros há de continuar. Mas, por mais dolorosas que sejam, passam. Sempre passam porque o tempo delas é tal que só dura o tanto que a gente não muda de vida para sofrer de outros jeitos. Naco de vida doída, que dura a extensão do naco de tristeza que a vida ou os outros que atropelam nossa vida nos arranjam.
Mas há outras dores. Diferentes porque não são só da gente. Doídas também, só que de um jeito diferente. São as dores da absurda tristeza, da estupidez grotesca, do egoísmo violento, do mal absoluto, absolutamente presente nas nossas fraquezas. Principalmente nas fraquezas de quem só enxerga fraqueza nos outros.
São dores do mal, que só vemos como tal quando se mostra cru. Na sua triste obra. Nas machadadas em cabeças de crianças que mal tiveram tempo de vida para entender o mal que há nesta vida. Mal que nos mostra que ninguém é tão novo, puro ou inocente que não possa sofrer do mal dos outros.
Crianças, quase bebês, mortas dentro de escolas. As mesmas que são alvos da fúria de idiotas que nelas veem lugar de doutrinação e não de educação. Gente que, certamente, não teve educação suficiente para saber que educar e manipular não são a mesma coisa. Por isso, não querem educar, só mandar, exigir ou tomar. Porque não sabem conversar.
Crianças são o futuro. Escolas são lugares de se construir o futuro. Quando uma sociedade toma as escolas como alvo dos seus ódios ideológicos, morais ou somente loucos, é porque tenta destruir o futuro que há nelas. Porque não quer o futuro que há nelas. Não quer a vida e o libertário que há nelas. Só a toleram se não houver libertação. Se houver alienação. Se não houver educação. Gente boçal não quer futuro. Quer o fim de tudo. Quer o fim dos tempos.
Talvez, o doido não seja doido. Talvez, estejamos mesmo no fim dos tempos. Não porque a corda do relógio do tempo tenha acabado, mas porque tem tanta gente ocupada demais com as próprias mesquinharias que não sobra quase ninguém para dar corda no relógio do tempo que a gente ainda tem.
100 dias de civilidade
A erosão democrática precisa da nossa preguiça. Precisa de nossos juízos apressados, nossas comparações do incomparável, nossos vícios de perspectiva, nossos erros de categoria e de análise. Precisa de memória atrofiada, de curto e de longo prazo.
O programa de autocratização do governo Bolsonaro pediu que confiássemos no "risco-zero" da democracia e na promessa de que esse regime "modera" sociopatas. Pediu que os poderes "dialogassem" dentro das "quatro linhas" sob "moderação" das Forças Armadas.
Jornais hesitaram em usar as palavras certas para reportar o que viam. Extremistas eram "manifestantes", mentir equivalia a "declarar", delinquência se parecia com "polêmica", violação passava por "excesso", crime por "controvérsia jurídica".
Tentaram assegurar voz ao "outro lado", mesmo que esse lado fosse imune à experiência sensorial da Terra redonda e do vírus, ou à experiência moral da violência e da indignidade radical. Tudo em nome de um pluralismo às cegas que vai corroendo as condições de possibilidade do próprio pluralismo. De uma tolerância sem critério que vai exaurindo a sustentabilidade da tolerância.
Cientistas políticos e juristas observavam a paisagem de instituições mal funcionando e davam baforadas antialarmistas de seus gabinetes. Depois que Bolsonaro perdeu a eleição, um prêmio que a fortuna nos reservou, celebraram o acerto do prognóstico. Contudo, não foram essas pílulas tranquilizadoras que nos salvaram, por enquanto, do pior.
Os três meses de governo Lula já nos deram amostras do que a análise política brasileira pode fazer. Lula faz críticas ao Banco Central. Aparece o economista e contrasta com as ameaças feitas por Bolsonaro ao STF. Lula especula, de modo pouco responsável, armação do juiz que o condenou ilegalmente à cadeia. Aparece o texto para gritar que "se iguala ao pior do bolsonarismo e suas teorias da conspiração". Governo Lula patina no trato com o Congresso. Está "sem rumo, sem agenda".
Nesses três meses, o governo federal voltou a cumprir decisões judiciais que vinham sendo ignoradas por Bolsonaro (terras indígenas, por exemplo). Cumpriu a lei e implantou programa de dignidade menstrual, ignorado pelo anterior. Revogou decreto de armas. Produz normas para combater o garimpo ilegal e o tráfico de ouro. A sociedade civil tem sido recebida em ministérios. A ciência, a docência e a cultura voltam a experimentar liberdade e recursos.
Melhor começar a perceber as diferenças comensuráveis e incomensuráveis com os últimos quatro anos. Melhor refinar a escala de indicadores, porque a ligeireza das comparações custa caro.
Nossa dificuldade de reconhecer e sancionar a enormidade de Bolsonaro tem história: o plano terrorista em 1987, a defesa de fuzilamento de Fernando Henrique nos anos 90, o elogio a torturador confesso em 2015, o "vai pra ponta da praia" em 2018, o "não sou coveiro" e "filmem as UTIs" em 2020, o "não vou obedecer" em 2021, as interferências no processo eleitoral em 2022, o 8 de janeiro de 2023. E a holística corrupção familial.
Em seu governo faltou oxigênio, não só para a respiração pulmonar. Não se respirava nem a expectativa de segurança existencial. Não se respirava futuro, apenas medo do futuro sob a liderança de quem ascendeu sob a promessa de exterminar desafetos e suprimir minorias.
Quando o bolsonarismo deixar a violência e o ataque às liberdades, como desejou editorial desse jornal, deixa de ser bolsonarismo. Vira outra ontologia. Bolsonaro não liderou um governo, uma racionalidade institucional, uma política pública sequer. Foi capaz de realizar nada exceto a política de liberação, negação e agressão. Como poderia liderar uma oposição?
Não há razão para aliviar a crítica justa ao governo Lula. Há razão para fazer crítica ainda mais dura, quando cabível. Desde que se tenha consciência de qual o valor em jogo. Porque crítica justa precisa ter um horizonte normativo e histórico. Um norte e um sul.
Em 2003, Lula tinha desafios para a continuidade de um governo do PT e de políticas públicas inclusivas. Em 2023, Lula tem desafios de continuidade democrática. Vinte anos atrás, erros custariam o governo. Erros, agora, podem custar o regime.
O resgate da civilidade e da normalidade possíveis, nesses cem dias, e o esforço de reocupar com competência burocrática um Estado vandalizado pela delinquência autocrática, não podem ficar de fora de qualquer balanço.
O programa de autocratização do governo Bolsonaro pediu que confiássemos no "risco-zero" da democracia e na promessa de que esse regime "modera" sociopatas. Pediu que os poderes "dialogassem" dentro das "quatro linhas" sob "moderação" das Forças Armadas.
Jornais hesitaram em usar as palavras certas para reportar o que viam. Extremistas eram "manifestantes", mentir equivalia a "declarar", delinquência se parecia com "polêmica", violação passava por "excesso", crime por "controvérsia jurídica".
Tentaram assegurar voz ao "outro lado", mesmo que esse lado fosse imune à experiência sensorial da Terra redonda e do vírus, ou à experiência moral da violência e da indignidade radical. Tudo em nome de um pluralismo às cegas que vai corroendo as condições de possibilidade do próprio pluralismo. De uma tolerância sem critério que vai exaurindo a sustentabilidade da tolerância.
Cientistas políticos e juristas observavam a paisagem de instituições mal funcionando e davam baforadas antialarmistas de seus gabinetes. Depois que Bolsonaro perdeu a eleição, um prêmio que a fortuna nos reservou, celebraram o acerto do prognóstico. Contudo, não foram essas pílulas tranquilizadoras que nos salvaram, por enquanto, do pior.
Os três meses de governo Lula já nos deram amostras do que a análise política brasileira pode fazer. Lula faz críticas ao Banco Central. Aparece o economista e contrasta com as ameaças feitas por Bolsonaro ao STF. Lula especula, de modo pouco responsável, armação do juiz que o condenou ilegalmente à cadeia. Aparece o texto para gritar que "se iguala ao pior do bolsonarismo e suas teorias da conspiração". Governo Lula patina no trato com o Congresso. Está "sem rumo, sem agenda".
Nesses três meses, o governo federal voltou a cumprir decisões judiciais que vinham sendo ignoradas por Bolsonaro (terras indígenas, por exemplo). Cumpriu a lei e implantou programa de dignidade menstrual, ignorado pelo anterior. Revogou decreto de armas. Produz normas para combater o garimpo ilegal e o tráfico de ouro. A sociedade civil tem sido recebida em ministérios. A ciência, a docência e a cultura voltam a experimentar liberdade e recursos.
Melhor começar a perceber as diferenças comensuráveis e incomensuráveis com os últimos quatro anos. Melhor refinar a escala de indicadores, porque a ligeireza das comparações custa caro.
Nossa dificuldade de reconhecer e sancionar a enormidade de Bolsonaro tem história: o plano terrorista em 1987, a defesa de fuzilamento de Fernando Henrique nos anos 90, o elogio a torturador confesso em 2015, o "vai pra ponta da praia" em 2018, o "não sou coveiro" e "filmem as UTIs" em 2020, o "não vou obedecer" em 2021, as interferências no processo eleitoral em 2022, o 8 de janeiro de 2023. E a holística corrupção familial.
Em seu governo faltou oxigênio, não só para a respiração pulmonar. Não se respirava nem a expectativa de segurança existencial. Não se respirava futuro, apenas medo do futuro sob a liderança de quem ascendeu sob a promessa de exterminar desafetos e suprimir minorias.
Quando o bolsonarismo deixar a violência e o ataque às liberdades, como desejou editorial desse jornal, deixa de ser bolsonarismo. Vira outra ontologia. Bolsonaro não liderou um governo, uma racionalidade institucional, uma política pública sequer. Foi capaz de realizar nada exceto a política de liberação, negação e agressão. Como poderia liderar uma oposição?
Não há razão para aliviar a crítica justa ao governo Lula. Há razão para fazer crítica ainda mais dura, quando cabível. Desde que se tenha consciência de qual o valor em jogo. Porque crítica justa precisa ter um horizonte normativo e histórico. Um norte e um sul.
Em 2003, Lula tinha desafios para a continuidade de um governo do PT e de políticas públicas inclusivas. Em 2023, Lula tem desafios de continuidade democrática. Vinte anos atrás, erros custariam o governo. Erros, agora, podem custar o regime.
O resgate da civilidade e da normalidade possíveis, nesses cem dias, e o esforço de reocupar com competência burocrática um Estado vandalizado pela delinquência autocrática, não podem ficar de fora de qualquer balanço.
O Testamento verde-amarelo do Judas
1.
Sou Judas Iscariotes / apóstolo do Rei dos reisDeixo aqui meu testamento / com o que lego pra vocês.
2.
O remorso me consome / mas quero me redimirPreciso limpar meu nome / Os meus bens vou repartir.
3.
Ao Lula presidente / tremendo cabra da pesteLego esse Abacaxizão / com as urnas do Nordeste.
4.
Pro Messias fake deixo / minhas heranças malditasTrinta moedas de prata / E todas as joias sauditas.
5.
As joias que eu escondi / vou separar com cuidadoDou o colar pra Micheque / e meu anel para o gado.
6.
Detesto mimimi, talkey? / prefiro gente raçudaAnderson Torres te deixo / uma cela lá na Papuda.
7.
Pro Exército eu deixo / a prótese penianaPro Imbrochável, viagra / e depilação pubiana.
8.
Muito leite condensado / picanha e cloroquinaÀs filhas da milicada / pensão de gorda propina.
9.
Ao Braga Netto general / puxa-saco de um capitãoPra pintar o meio-fio / deixo cal, brocha e demão.
10.
Chico Vigilante herde / o meu beijo de venenoNa CPI dos golpistas / beije o general Heleno.
11.
O código do Sinédrio / lego ao Supremo TribunalPara que possa desarmar / essa milícia digital.
12.
A tal minuta do golpe / ao ministro Xandão deixo,Pra enjaular bolsominions / com a bolada no queixo.
13.
Para os Tchutchucas do Centrão / com o caráter oxidadoLego o remorso e o laço / no galho dependurado.
14.
Pro neto do Bob Fields / o Bob Fildinho venal,Deixo minhas 30.000 moedas / com juros do Banco Central.
15.
Lego o verbo feito carne / verve e fluência sabidaPro Flávio Dino aniquilar / marrecos e “conjes” da vida.
16.
Quem açoitou Jesus Cristo / e mandou matar MarielleO chicote do Calvário / lego a quem os interpele.
18.
Ao Wilson Lima vixe-vixe / Alô Amazonas AlôDeixo uma adega de vinhos / repleta de ventilador.
19.
O Bosco Saraiva sabe /que quem não chora, não mamaPra quem já foi algemado / deixo o cofre da SUFRAMA.
20.
Não tens vergonha, sua besta / covarde batendo em mulherLego ao juiz de Guarulhos / o inferno com Lúcifer.
21.
O Gabinete do Ódio / armou a mão com machadoPara matar criancinhas / que hediondo pecado!
22.
Para a Mater Dolorosa / das crianças de BlumenauO meu pranto entristecido / nem eu faria tanto mal.
23.
Aos moradores de rua / que o prefeito removeuO Lancelotti de Sampa / deixo-lhes Simão Cirineu.
24
A queda do céu Yanomami / e a Mãe Terra feridaCom a expulsão do garimpo / deixo a vitória da vida.
25.
Para Sônia Guajajara / longe vá, temor servilA Ressurreição é um fato / renasce o novo Brasil.
26.
No domingo de Páscoa volto / Pra onde perdi as botasAssustado com o Brasil / de fascistas “patriotas”.
27.
Agora regresso ao inferno / Lá tá melhor do que aquiDe qualquer forma desejo / Feliz Páscoa Taquiprati.
segunda-feira, 10 de abril de 2023
Um nome para o inominável
Retornando ao país com o fardo escandaloso das muambas sauditas, o inominável vem ao encontro de um nome insólito, mas que lhe cai como uma luva: cambalacho. A história de fundo é musical. Pouco antes da Segunda Guerra, "Cambalache", um tango de Enrique Discépolo na voz de Carlos Gardel, proclamava (em lunfardo, claro, a pitoresca gíria portenha) "que o mundo foi e será uma porcaria, eu já sei".
Cambalacho é o mesmo que embuste, trapaça. Nesse tango, a modernidade liberal é cantada como história da credulidade dos incautos, um "mesmo lodo em que todos metem a mão". Daí "hoje em dia dá no mesmo ser direito que traidor / Ignorante, sábio, besta, pretensioso, afanador / Tudo é igual / Nada é melhor".
Esse faiscante deboche composto para divertir dá muito a pensar sobre fenômenos correntes como a crise da democracia liberal e seus reflexos nada divertidos em países como o Brasil. Para o sul-africano Achile Mbembe, em seu livro "Brutalisme", a grande ameaça está no fato de que "um número crescente de homens e de mulheres não querem mais pensar e julgar por si mesmos. Muitos preferem, como ontem, delegar essas faculdades a outras entidades, até mesmo a máquinas". Daí o paradoxo: quanto menor fica o mundo físico pela tecnologia, mais distante é o horizonte do mundo comum.
Nessa linha, o cerne da crise está na ausência do discurso vivo, isto é, compartilhado no diálogo, centrado no direito, na moralidade e nas ideias de autonomia. A falência da razão crítica abre caminho para o deboche. Junto com a fragmentação acelerada do corpo social, fenecem os poderes de autolimitação e diferenciação das palavras. Como no tango, "tudo é igual".
Paradoxalmente, a morte do vigor da fala é a força da vida digital ativa. O que se compartilha não é mais o substrato do diálogo, e sim a atenção dispensada por homens ou máquinas aos efeitos digitais. O falatório mistificador é tanto efeito de falsificação da língua quanto meio de se embair a boa-fé do interlocutor. É o cambalacho operativo.
Sem o lastro do sentido e das palavras, as ações decorrem de ímpetos sem razão, respeito ou limites. Mas entre fala delirante e atos destrutivos há um fio lógico: a delegação de pensar a Outro, um monstro de milhões de cabeças, que também não pensa: as redes sociais. Este, o espaço tecnológico para o embuste, capaz de eleger dirigentes, como no tango, "problemáticos e febris". É que "na vitrine desrespeitosa dos cambalachos / se misturou a vida", diz a profecia cantada. E assim o inominável, vazio de sentido e pleno de fraudes, se faz nome pelo beato útil do Evangelistão ou pelo freguês iludido. Em lunfardo ou em português, há uma mesma palavra para ambos: otário.
Cambalacho é o mesmo que embuste, trapaça. Nesse tango, a modernidade liberal é cantada como história da credulidade dos incautos, um "mesmo lodo em que todos metem a mão". Daí "hoje em dia dá no mesmo ser direito que traidor / Ignorante, sábio, besta, pretensioso, afanador / Tudo é igual / Nada é melhor".
Esse faiscante deboche composto para divertir dá muito a pensar sobre fenômenos correntes como a crise da democracia liberal e seus reflexos nada divertidos em países como o Brasil. Para o sul-africano Achile Mbembe, em seu livro "Brutalisme", a grande ameaça está no fato de que "um número crescente de homens e de mulheres não querem mais pensar e julgar por si mesmos. Muitos preferem, como ontem, delegar essas faculdades a outras entidades, até mesmo a máquinas". Daí o paradoxo: quanto menor fica o mundo físico pela tecnologia, mais distante é o horizonte do mundo comum.
Nessa linha, o cerne da crise está na ausência do discurso vivo, isto é, compartilhado no diálogo, centrado no direito, na moralidade e nas ideias de autonomia. A falência da razão crítica abre caminho para o deboche. Junto com a fragmentação acelerada do corpo social, fenecem os poderes de autolimitação e diferenciação das palavras. Como no tango, "tudo é igual".
Paradoxalmente, a morte do vigor da fala é a força da vida digital ativa. O que se compartilha não é mais o substrato do diálogo, e sim a atenção dispensada por homens ou máquinas aos efeitos digitais. O falatório mistificador é tanto efeito de falsificação da língua quanto meio de se embair a boa-fé do interlocutor. É o cambalacho operativo.
Sem o lastro do sentido e das palavras, as ações decorrem de ímpetos sem razão, respeito ou limites. Mas entre fala delirante e atos destrutivos há um fio lógico: a delegação de pensar a Outro, um monstro de milhões de cabeças, que também não pensa: as redes sociais. Este, o espaço tecnológico para o embuste, capaz de eleger dirigentes, como no tango, "problemáticos e febris". É que "na vitrine desrespeitosa dos cambalachos / se misturou a vida", diz a profecia cantada. E assim o inominável, vazio de sentido e pleno de fraudes, se faz nome pelo beato útil do Evangelistão ou pelo freguês iludido. Em lunfardo ou em português, há uma mesma palavra para ambos: otário.
O totalitarismo escópico
O mundo digital jogou a humanidade num novo tipo de totalitarismo. Não há outra palavra para definir a relação entre a massa de bilhões de seres humanos e os conglomerados monopolistas globais, como Amazon, Apple, Meta (dona do Facebook e do WhatsApp) e Alphabet (dona do Google e do YouTube), sem falar nas chinesas.
As pessoas não sabem nada, absolutamente nada, sobre o funcionamento dos algoritmos que controlam milimetricamente o fluxo das informações e das diversões pelas redes afora. Na outra ponta, os algoritmos sabem tudo sobre o psiquismo de qualquer um que acesse um computador, um celular, um tablet ou um simples reloginho de pulso, destes que monitoram exercícios físicos, batimentos cardíacos, pressão arterial, passos e braçadas. Estamos na sociedade do controle total – controle totalitário.
O mais espantoso é que esse controle só se viabiliza graças à docilidade contente das multidões. Em frêmitos de excitação exibicionista, elas escancaram suas próprias intimidades para as máquinas. Em seguida, não satisfeitas com o furor do exibicionismo, entregam-se ao voyeurismo cavernoso para bisbilhotar a vida alheia. Olhando e sendo olhadas, trabalham feericamente a serviço do imenso extrativismo de dados pessoais, que, depois de capturados, são comercializados a preços estratosféricos.
Você não acredita? Pois deveria acreditar. De onde você acha que vem o valor de mercado dos conglomerados? Resposta: vem da captura (gratuita) e da venda dos dados pessoais das multidões. O mundo digital conseguiu a proeza de instaurar uma ordem de vigilância total, em que todos vigiam todos e ainda por cima se deliciam com isso. E quem sai ganhando no fim das contas? Sim, eles mesmos, os conglomerados – ele mesmo, o capital.
Chega de ilusões otimistas. Um pacto de convivência em que os algoritmos enxergam tudo e mais um pouco das privacidades individuais, enquanto os indivíduos nada enxergam dos algoritmos, que são o centro do poder digital, só pode ser chamado de pacto totalitário.
Hannah Arendt ensina que a adesão de todos é uma das marcas distintivas do totalitarismo. Ela viu que, no nazismo e no stalinismo, cada cidadão se apressava em agir como um funcionário da polícia política e delatava até mesmo os familiares. Hitler e Stalin contavam com os préstimos voluntários das pessoas comuns para dizimar dissidentes. “A colaboração da população na denúncia de opositores políticos e no serviço voluntário como informantes”, escreve a filósofa em Origens do totalitarismo, “é tão bem organizada que o trabalho de especialistas é quase supérfluo”.
No totalitarismo descrito pela grande pensadora, o medo impele toda gente a obedecer. Hoje sabemos que o medo não age sozinho. Além dele, existe a paixão: as massas nutrem um desejo libidinal pela figura do líder. “Sede de submissão”, nas palavras de Freud. Há um prazer inconfessável na servidão.
No totalitarismo dos nossos dias, o medo dominante é o medo da invisibilidade. É por aí que o poder dos algoritmos aterroriza todo mundo. Quanto ao desejo, este se manifesta como um arrebatamento imperioso que leva um adolescente a matar e morrer em troca de um instante de holofote sobre o seu nome e sua fotografia. A tara extremada por algum contato, mesmo que remoto, com as estrelas que reluzem nos palcos virtuais leva à sujeição total.
Que o trabalho escravo aflore neste universo de gozo e pânico não surpreende. As pessoas, carinhosa e cinicamente chamadas de “usuárias”, trabalham de graça para as redes. Dedicam horas e mais horas de seus dias plúmbeos para abarrotar as plataformas com seus textos, suas imagens, suas musiquinhas prediletas, seus áudios e suas misérias afetivas. E é precisamente o produto desse trabalho – escravo – que atrai bilhões de outros “usuários”. Os conglomerados não precisam contratar fotógrafos, cantores, atrizes, redatores, jornalistas, nada disso, pois já contam com seus adeptos fanatizados e escravizados. Nunca, em toda a história do capitalismo, a exploração do trabalho – e dos sentimentos – chegou a níveis tão absurdos.
Não surpreende, também, que a propaganda da extrema direita antidemocrática se saia tão bem nesse ambiente. O totalitarismo das redes repele o discurso da democracia com a mesma força que impulsiona mensagens autocráticas. É óbvio. A política democrática precisa de homens e mulheres livres, que tenham autonomia crítica e valorizem os direitos. Esses estão em baixa. A autocracia é o contrário: só se alastra entre grupos violentos, inebriados pelo ódio e impelidos por crenças irracionais, que estão em alta.
Como o totalitarismo dos nossos dias se tece pela exploração e pelo direcionamento do olhar, deve ser chamado de “totalitarismo escópico”. O olhar é o cimento que cola o desejo de cada um e cada uma à ordem avassaladora. Se queremos uma regulação para enfrentá-la, devemos começar por exigir transparência incondicional dos algoritmos. É inaceitável que uma caixa preta opaca e impenetrável presida a comunicação social na esfera pública. Mais que inaceitável, é totalitário.
As pessoas não sabem nada, absolutamente nada, sobre o funcionamento dos algoritmos que controlam milimetricamente o fluxo das informações e das diversões pelas redes afora. Na outra ponta, os algoritmos sabem tudo sobre o psiquismo de qualquer um que acesse um computador, um celular, um tablet ou um simples reloginho de pulso, destes que monitoram exercícios físicos, batimentos cardíacos, pressão arterial, passos e braçadas. Estamos na sociedade do controle total – controle totalitário.
O mais espantoso é que esse controle só se viabiliza graças à docilidade contente das multidões. Em frêmitos de excitação exibicionista, elas escancaram suas próprias intimidades para as máquinas. Em seguida, não satisfeitas com o furor do exibicionismo, entregam-se ao voyeurismo cavernoso para bisbilhotar a vida alheia. Olhando e sendo olhadas, trabalham feericamente a serviço do imenso extrativismo de dados pessoais, que, depois de capturados, são comercializados a preços estratosféricos.
Você não acredita? Pois deveria acreditar. De onde você acha que vem o valor de mercado dos conglomerados? Resposta: vem da captura (gratuita) e da venda dos dados pessoais das multidões. O mundo digital conseguiu a proeza de instaurar uma ordem de vigilância total, em que todos vigiam todos e ainda por cima se deliciam com isso. E quem sai ganhando no fim das contas? Sim, eles mesmos, os conglomerados – ele mesmo, o capital.
Chega de ilusões otimistas. Um pacto de convivência em que os algoritmos enxergam tudo e mais um pouco das privacidades individuais, enquanto os indivíduos nada enxergam dos algoritmos, que são o centro do poder digital, só pode ser chamado de pacto totalitário.
Hannah Arendt ensina que a adesão de todos é uma das marcas distintivas do totalitarismo. Ela viu que, no nazismo e no stalinismo, cada cidadão se apressava em agir como um funcionário da polícia política e delatava até mesmo os familiares. Hitler e Stalin contavam com os préstimos voluntários das pessoas comuns para dizimar dissidentes. “A colaboração da população na denúncia de opositores políticos e no serviço voluntário como informantes”, escreve a filósofa em Origens do totalitarismo, “é tão bem organizada que o trabalho de especialistas é quase supérfluo”.
No totalitarismo descrito pela grande pensadora, o medo impele toda gente a obedecer. Hoje sabemos que o medo não age sozinho. Além dele, existe a paixão: as massas nutrem um desejo libidinal pela figura do líder. “Sede de submissão”, nas palavras de Freud. Há um prazer inconfessável na servidão.
No totalitarismo dos nossos dias, o medo dominante é o medo da invisibilidade. É por aí que o poder dos algoritmos aterroriza todo mundo. Quanto ao desejo, este se manifesta como um arrebatamento imperioso que leva um adolescente a matar e morrer em troca de um instante de holofote sobre o seu nome e sua fotografia. A tara extremada por algum contato, mesmo que remoto, com as estrelas que reluzem nos palcos virtuais leva à sujeição total.
Que o trabalho escravo aflore neste universo de gozo e pânico não surpreende. As pessoas, carinhosa e cinicamente chamadas de “usuárias”, trabalham de graça para as redes. Dedicam horas e mais horas de seus dias plúmbeos para abarrotar as plataformas com seus textos, suas imagens, suas musiquinhas prediletas, seus áudios e suas misérias afetivas. E é precisamente o produto desse trabalho – escravo – que atrai bilhões de outros “usuários”. Os conglomerados não precisam contratar fotógrafos, cantores, atrizes, redatores, jornalistas, nada disso, pois já contam com seus adeptos fanatizados e escravizados. Nunca, em toda a história do capitalismo, a exploração do trabalho – e dos sentimentos – chegou a níveis tão absurdos.
Não surpreende, também, que a propaganda da extrema direita antidemocrática se saia tão bem nesse ambiente. O totalitarismo das redes repele o discurso da democracia com a mesma força que impulsiona mensagens autocráticas. É óbvio. A política democrática precisa de homens e mulheres livres, que tenham autonomia crítica e valorizem os direitos. Esses estão em baixa. A autocracia é o contrário: só se alastra entre grupos violentos, inebriados pelo ódio e impelidos por crenças irracionais, que estão em alta.
Como o totalitarismo dos nossos dias se tece pela exploração e pelo direcionamento do olhar, deve ser chamado de “totalitarismo escópico”. O olhar é o cimento que cola o desejo de cada um e cada uma à ordem avassaladora. Se queremos uma regulação para enfrentá-la, devemos começar por exigir transparência incondicional dos algoritmos. É inaceitável que uma caixa preta opaca e impenetrável presida a comunicação social na esfera pública. Mais que inaceitável, é totalitário.
Sob o domínio do improviso
É sempre assim. Do vandalismo golpista de 8 de janeiro à mortandade de Ianomâmis, da seca aguda às enchentes que desabrigam e matam, da violência que pôs o Rio Grande do Norte de joelhos frente ao crime organizado aos brutais assassinatos dentro das escolas, todas as ações governamentais – ainda que necessárias – são improvisos. Não se trata de um problema restrito ao Lula 3, que amanhã chega aos 100 dias. Tampouco ao presidente anterior, cuja missão foi destruir. Sob qualquer batuta, o Brasil só funciona em estado de emergência.
Sem planejamento e políticas públicas estruturadas e contínuas para enfrentar desafios conhecidos, o país se move pelos ditames da urgência.
Todo mundo viu as portas dos quartéis se enchendo de radicais e ninguém nada fez para evitar o pior. Gastam-se fortunas para amenizar calamidades e pouquíssimo para preveni-las. Montam-se grupos de inteligência e ações emergenciais cujos resultados, mesmo quando espetaculares, dificilmente são postos em prática. Não raro, são mais dinheiro e energia perdidos.
Estudo técnico da Confederação Nacional dos Municípios, com dados computados até março deste ano, aponta que só com secas e chuvas o país amargou perdas de R$ 401,3 bilhões no período de 2013 a 2023. Na década, esses “desastres naturais” atingiram mais de 380 milhões de pessoas – quase o dobro da população brasileira, demonstrado a reincidência dos danos, boa parte deles preveníveis.
Na outra ponta, os investimentos do governo federal em prevenção caíram vertiginosamente de R$ 3,4 bilhões em 2013 para R$ 1,17 bilhão em 2022, sendo que apenas 38% dos recursos foram realmente pagos, ou seja, menos de R$ 600 milhões, segundo o site Contas Abertas. No início desse ano, só para socorrer o Litoral Norte de São Paulo, o governo despendeu R$ 120 milhões. Emergencialmente. No final do ano e no início do próximo, certamente, as calamidades vão se repetir.
A superlotação de presídios e as condições subumanas nas quais os detentos – por piores que sejam – são submetidos é de conhecimento geral há décadas. Assim como o poder de mando dos chefões do crime organizado sobre o sistema penitenciário. O vice-presidente da República Geraldo Alckmin sentiu isso na pele quando governava o estado de São Paulo e se viu enredado por rebeliões. Não há governador que desconheça a precariedade de suas cadeias e o caldeirão ao ponto de ebulição delas. No entanto, elas só chamam a atenção quando explodem. Vem a verba emergencial – R$ 100 milhões no caso do Rio Grande do Norte – e pronto. Até que outro estouro aconteça.
Nos Ianomâmis, o caso tem outras vertentes de gravidade. Suspeita-se de genocídio do governo anterior, estimulador do garimpo ilegal e nada afeito às comunidades indígenas. Ainda assim, o descaso com esses povos é histórico. As soluções pulam de emergência em emergência – e estamos enfrentando mais uma – sem que o país consiga desenhar políticas um pouco mais duradouras.
Até para tentar minimizar a miséria, o improviso impera. A proposta de auxílio emergencial do governo Bolsonaro durante a Covid-19 era de R$ 200. Acabou em R$ 600 por pressão do Congresso, valor estipulado também para o finado Auxílio Brasil. Lula recuperou o Bolsa Família, trazendo de volta as bem-vindas contrapartidas como a exigência de vacinação das crianças. Sabe-se lá a partir de qual conta ou parâmetro, os R$ 600 foram mantidos, com acréscimo de R$ 150 para filhos de zero a seis anos e de R$ 50 para filhos de 7 a 18 anos.
Que o Bolsa Família é necessário ninguém discute. A questão de fundo é outra: o benefício foi definido pela emergência eleitoral e não a partir de critérios técnicos que dêem embasamento à quantia paga. Está, portanto, sujeito aos humores do governo da vez.
De urgência em urgência o Brasil gasta muito e entrega pouquíssimo. Novas enchentes virão sem que as encostas que caem sobre casebres tenham sido contidas e esvaziadas, sem que habitações mais seguras e dignas tenham sido construídas. Novas rebeliões em presídios, novos horrores entre as comunidades indígenas, novos ataques mortais em escolas – emergencialmente socorridas com R$ 150 milhões e a criação de um grupo de trabalho interministerial.
Deve-se aplaudir a rápida ação do governo Lula diante de calamidades e urgências. Mas é inadmissível – e cruel – transformar emergência em política pública. O país não pode continuar a ser condenado às leis do improviso.
Sem planejamento e políticas públicas estruturadas e contínuas para enfrentar desafios conhecidos, o país se move pelos ditames da urgência.
Todo mundo viu as portas dos quartéis se enchendo de radicais e ninguém nada fez para evitar o pior. Gastam-se fortunas para amenizar calamidades e pouquíssimo para preveni-las. Montam-se grupos de inteligência e ações emergenciais cujos resultados, mesmo quando espetaculares, dificilmente são postos em prática. Não raro, são mais dinheiro e energia perdidos.
Estudo técnico da Confederação Nacional dos Municípios, com dados computados até março deste ano, aponta que só com secas e chuvas o país amargou perdas de R$ 401,3 bilhões no período de 2013 a 2023. Na década, esses “desastres naturais” atingiram mais de 380 milhões de pessoas – quase o dobro da população brasileira, demonstrado a reincidência dos danos, boa parte deles preveníveis.
Na outra ponta, os investimentos do governo federal em prevenção caíram vertiginosamente de R$ 3,4 bilhões em 2013 para R$ 1,17 bilhão em 2022, sendo que apenas 38% dos recursos foram realmente pagos, ou seja, menos de R$ 600 milhões, segundo o site Contas Abertas. No início desse ano, só para socorrer o Litoral Norte de São Paulo, o governo despendeu R$ 120 milhões. Emergencialmente. No final do ano e no início do próximo, certamente, as calamidades vão se repetir.
A superlotação de presídios e as condições subumanas nas quais os detentos – por piores que sejam – são submetidos é de conhecimento geral há décadas. Assim como o poder de mando dos chefões do crime organizado sobre o sistema penitenciário. O vice-presidente da República Geraldo Alckmin sentiu isso na pele quando governava o estado de São Paulo e se viu enredado por rebeliões. Não há governador que desconheça a precariedade de suas cadeias e o caldeirão ao ponto de ebulição delas. No entanto, elas só chamam a atenção quando explodem. Vem a verba emergencial – R$ 100 milhões no caso do Rio Grande do Norte – e pronto. Até que outro estouro aconteça.
Nos Ianomâmis, o caso tem outras vertentes de gravidade. Suspeita-se de genocídio do governo anterior, estimulador do garimpo ilegal e nada afeito às comunidades indígenas. Ainda assim, o descaso com esses povos é histórico. As soluções pulam de emergência em emergência – e estamos enfrentando mais uma – sem que o país consiga desenhar políticas um pouco mais duradouras.
Até para tentar minimizar a miséria, o improviso impera. A proposta de auxílio emergencial do governo Bolsonaro durante a Covid-19 era de R$ 200. Acabou em R$ 600 por pressão do Congresso, valor estipulado também para o finado Auxílio Brasil. Lula recuperou o Bolsa Família, trazendo de volta as bem-vindas contrapartidas como a exigência de vacinação das crianças. Sabe-se lá a partir de qual conta ou parâmetro, os R$ 600 foram mantidos, com acréscimo de R$ 150 para filhos de zero a seis anos e de R$ 50 para filhos de 7 a 18 anos.
Que o Bolsa Família é necessário ninguém discute. A questão de fundo é outra: o benefício foi definido pela emergência eleitoral e não a partir de critérios técnicos que dêem embasamento à quantia paga. Está, portanto, sujeito aos humores do governo da vez.
De urgência em urgência o Brasil gasta muito e entrega pouquíssimo. Novas enchentes virão sem que as encostas que caem sobre casebres tenham sido contidas e esvaziadas, sem que habitações mais seguras e dignas tenham sido construídas. Novas rebeliões em presídios, novos horrores entre as comunidades indígenas, novos ataques mortais em escolas – emergencialmente socorridas com R$ 150 milhões e a criação de um grupo de trabalho interministerial.
Deve-se aplaudir a rápida ação do governo Lula diante de calamidades e urgências. Mas é inadmissível – e cruel – transformar emergência em política pública. O país não pode continuar a ser condenado às leis do improviso.
Pó
Sendo uma bola de pó feita de restos humanos, não deixa de ser irónico que o que varremos é a nossa própria morte, a morte que nos vai acontecendo todos os dias, que se deposita nos livros, nos móveis, debaixo da cama, no soalho, pois é, como escreveu Yuri Al’Hanati, em A volta ao quarto em 180 dias, “um amontoado de pedaços de pele, caspa, pelos que caíram do corpo, poeira dos móveis e das paredes e chumaços de tecido”, que se agrupa seguindo as mesmas leis das galáxias ou das moléculas.
A questão é que essa bola se forma porque somos um processo e não um fim, ou melhor, a vida é um adiar do fim, e um dos processos de procrastinar é mudar de pele. Não somos um objeto estático, mas um caminho, por isso deixamos cair coisas, como a pele – como a serpente de Nietzsche, que morre se não a mudar, ou como as ideias e as almas, que definham até ao apagamento se recusarem qualquer alteração. A bola de pó é o corpo a mudar de opinião, a transformar-se, a caminhar. A morte mais terrível seria mantermo-nos iguais, na mesmice mineral, por isso uma possível definição de vida poderá ser esta: a vida é um deixar de ser para continuar a ser.
Ouvi num documentário que não damos nada à terra, que tiramos, tiramos, tiramos, e não damos. Enfim, somos muitos, e para contrariar isso, de que tiramos, e somente tiramos, somos todos terra e no final havemos de lhe entregar todo o barro que nos foi emprestado. Como cantou Adriano Correia de Oliveira: “Eu sou devedor à terra,/ a terra me está devendo,/ a terra paga-me em vida,/ eu pago à terra morrendo”. Um pedaço de barro ergue-se, sustido pela terra, para depois voltar a ser barro, sustendo a terra, mas ao erguer-se, ou quando se ergueu, produziu algo único: relações, afetos, leituras, foi às compras, foi à ópera.
A vida produz, da matéria-prima mais rude – o barro –, versos, cantigas, ódio, abraços, medos, certezas, enfim, algo que viaja de barro em barro, resistente à vulgaridade da ameaça física: não se pode esfaquear uma canção, não se pode atirar pedras a uma ideia (metaforicamente, sim, mas denotativamente não). A única maneira de matar a arte ou qualquer produção imaterial é disparando esquecimento, sendo essa também a única forma de uma alma morrer, tão diferente da outra, a do corpo que se transforma em pó. E é importante lembrar o epitáfio de Mário Quintana, que é um manual de filosofia escrito numa frase e que deveria estar presente em todas as tumbas: “Eu não estou aqui”.
Esta ideia, “eu não estou aqui”, mostra bem essa transição e a certeza de que o corpo é o resto de algo, um pó que se varre para que a alma, já transformada nas coisas amadas, subsista inefável, como uma canção que se vai trauteando, até ser esquecida – porque o esquecimento é o pó da alma. A origem das espécies é uma teoria incompleta, que se finda na biologia, que não contempla uma outra evolução, a da imaterialidade. E aqui não me refiro a uma abordagem mística, mas à evolução da informação e como ela resiste à morte do seu veículo, pois a informação é interoperável: um poema vive tanto na voz, como escrito num papel, ou em zeros e uns.
O barro, a matéria que sustém um poema (ou qualquer tipo de informação) é irrelevante. Pode ser silicone, plástico, voz, papel e tinta. Quando silenciamos uma pessoa, quando rasgamos uma letra de uma canção, podemos imediatamente aplicar a fórmula de Quintana ao olhar para a mudez ou para os pedaços de papel: a canção não está ali, continua algures, noutra voz. Num sentido absoluto, a morte não é morrer, é esquecer a canção. E a eternidade é continuar a cantar, ainda que o pó pareça ser o grande vencedor: “O homem é o lobo do homem, e pede desculpas pela poeira. Não sabe que um dia, quando não houver mais homens, a poeira reinará sobre o sistema solar e não se ouvirá ninguém pedir desculpas por nada. A poeira nos sobreviverá” (Yuri Al’Hanati).
Entretanto, e antes de o pó se impor derradeiramente, talvez faça sentido varrer, não o pó, mas aquilo que a morte não pode silenciar, tal como se lê nos versos de Minês Castanheira: “No poema ficou o mais secreto./ Como se eu varresse para dentro de mim/ silenciosamente/ todas as coisas da casa”.
sábado, 8 de abril de 2023
Massacres em escolas trazem muitas perguntas
Estou longe de ser um especialista na matéria, mas, por coordenar um grupo de pesquisa com integrantes que estudam este tema e por ter olhado mais de uma vez para as comunidades on-line que cultuam massacres, acho que tenho algo a compartilhar com os leitores. Abaixo, elenquei algumas perguntas que me faço sobre esse fenômeno sinistro. Agradeço a Michele Prado pela generosa interlocução.
A pergunta mais inquietante e mais fundamental é a seguinte: o que move adolescentes e crianças a cometer assassinatos em massa? A literatura acadêmica americana dá algumas pistas, se supusermos que aqui acontece algo parecido com lá: os agressores normalmente — mas nem sempre — têm problemas mentais, de tipos diversos, e enfrentaram um período recente de forte adversidade social (bullying, desemprego ou humilhação) ou agravamento de sua condição psicológica.
Isso dá o contexto, mas, obviamente, não explica o que ocorre. Não é de hoje que adolescentes sofrem bullying e enfrentam problemas psicológicos, mas só de uns anos para cá alguns respondem a essas situações planejando e executando massacres.
É bastante perturbador ler o que os agressores têm a dizer, mas nessas mensagens publicadas em fóruns e mídias sociais talvez se encontrem pistas para responder à pergunta. Ao lê-las, duas coisas me chamam a atenção.
A primeira é o sentimento de onipotência na idealização dos massacres. O adolescente que executou um tio e sete colegas numa escola em Suzano, em 2019, passou mais de ano escrevendo uma espécie de diário no Twitter. Nos tuítes, ele se imagina entrando armado na escola e exercendo um poder de vida e morte sobre os colegas, como um Deus. É profundamente desconcertante a desumanização das vítimas nessas postagens.
A segunda coisa que chama a atenção é a busca de reconhecimento, uma espécie de redenção, de salvação por meio do crime mais abjeto. Muitos agressores participam de comunidades virtuais com outros jovens que cultuam massacres passados. De certa forma, ao cometer um crime pavoroso, eles saem da condição anônima de jovens rebaixados, se inscrevem nessa história de assassinos célebres e conseguem o reconhecimento que tanto procuram. Por meio de um expediente criminoso, conseguem se fazer ouvir e externar sua dor — infligindo uma dor imensa às vítimas e a suas famílias.
Acredito que a busca de reconhecimento pelos pares deve ser o que faz com que os atentados aconteçam em escolas (e não em centros comerciais ou noutros locais públicos). Querem se comunicar com e impressionar outros adolescentes — e não nós, os adultos. Os ataques a creches parecem ser uma derivação puramente casual. Em Saudades (SC), em 2021, um rapaz de 18 anos pretendia cometer um massacre na escola em que estudava, mas achou que poderia não conseguir enfrentar os adultos que trabalhavam lá. Optou por atacar uma creche onde as vítimas eram mais indefesas. Assassinou duas professoras e três bebês. O agressor da creche em Blumenau provavelmente se inspirou no crime bárbaro que aconteceu dois anos antes em seu estado.
Algo que deveria nos preocupar bastante é a velocidade com que esse tipo de atentado está escalando no Brasil. Em duas décadas, entre outubro de 2002 e janeiro de 2022, aconteceram 11 atentados com vítimas em escolas. Nos últimos 14 meses, já são 12. Estamos ficando perigosamente próximos dos Estados Unidos, onde o problema é crônico. Temos quase tantos atentados com vítimas no Brasil hoje quanto os Estados Unidos tinham em 2016, quando eles explodiram por lá.
Mais da metade dos atentados no Brasil deixou traços digitais que nos permitem vinculá-los às comunidades on-line que cultuam massacres. Algumas dessas comunidades parecem ser organizadas por adultos — não conseguimos determinar isso com certeza, porque são anônimas. Um desses que parecem ser adultos escreveu certa vez que poderia ser preso, e seu canal fechado pela polícia, mas que tudo seria em vão, porque há uma realidade subjacente de sofrimento e opressão que é a verdadeira causa destes atentados.
Essa ponderação cínica de um instigador adulto me perturba — talvez porque ele pareça ter alguma razão. Não sei bem o que tem causado tudo isso, mas obviamente estamos falhando enquanto sociedade. Para mim, é bastante claro que não se trata apenas de distúrbio psicológico dos agressores, mas de uma moléstia social do nosso tempo.
A pergunta mais inquietante e mais fundamental é a seguinte: o que move adolescentes e crianças a cometer assassinatos em massa? A literatura acadêmica americana dá algumas pistas, se supusermos que aqui acontece algo parecido com lá: os agressores normalmente — mas nem sempre — têm problemas mentais, de tipos diversos, e enfrentaram um período recente de forte adversidade social (bullying, desemprego ou humilhação) ou agravamento de sua condição psicológica.
Isso dá o contexto, mas, obviamente, não explica o que ocorre. Não é de hoje que adolescentes sofrem bullying e enfrentam problemas psicológicos, mas só de uns anos para cá alguns respondem a essas situações planejando e executando massacres.
É bastante perturbador ler o que os agressores têm a dizer, mas nessas mensagens publicadas em fóruns e mídias sociais talvez se encontrem pistas para responder à pergunta. Ao lê-las, duas coisas me chamam a atenção.
A primeira é o sentimento de onipotência na idealização dos massacres. O adolescente que executou um tio e sete colegas numa escola em Suzano, em 2019, passou mais de ano escrevendo uma espécie de diário no Twitter. Nos tuítes, ele se imagina entrando armado na escola e exercendo um poder de vida e morte sobre os colegas, como um Deus. É profundamente desconcertante a desumanização das vítimas nessas postagens.
A segunda coisa que chama a atenção é a busca de reconhecimento, uma espécie de redenção, de salvação por meio do crime mais abjeto. Muitos agressores participam de comunidades virtuais com outros jovens que cultuam massacres passados. De certa forma, ao cometer um crime pavoroso, eles saem da condição anônima de jovens rebaixados, se inscrevem nessa história de assassinos célebres e conseguem o reconhecimento que tanto procuram. Por meio de um expediente criminoso, conseguem se fazer ouvir e externar sua dor — infligindo uma dor imensa às vítimas e a suas famílias.
Acredito que a busca de reconhecimento pelos pares deve ser o que faz com que os atentados aconteçam em escolas (e não em centros comerciais ou noutros locais públicos). Querem se comunicar com e impressionar outros adolescentes — e não nós, os adultos. Os ataques a creches parecem ser uma derivação puramente casual. Em Saudades (SC), em 2021, um rapaz de 18 anos pretendia cometer um massacre na escola em que estudava, mas achou que poderia não conseguir enfrentar os adultos que trabalhavam lá. Optou por atacar uma creche onde as vítimas eram mais indefesas. Assassinou duas professoras e três bebês. O agressor da creche em Blumenau provavelmente se inspirou no crime bárbaro que aconteceu dois anos antes em seu estado.
Algo que deveria nos preocupar bastante é a velocidade com que esse tipo de atentado está escalando no Brasil. Em duas décadas, entre outubro de 2002 e janeiro de 2022, aconteceram 11 atentados com vítimas em escolas. Nos últimos 14 meses, já são 12. Estamos ficando perigosamente próximos dos Estados Unidos, onde o problema é crônico. Temos quase tantos atentados com vítimas no Brasil hoje quanto os Estados Unidos tinham em 2016, quando eles explodiram por lá.
Mais da metade dos atentados no Brasil deixou traços digitais que nos permitem vinculá-los às comunidades on-line que cultuam massacres. Algumas dessas comunidades parecem ser organizadas por adultos — não conseguimos determinar isso com certeza, porque são anônimas. Um desses que parecem ser adultos escreveu certa vez que poderia ser preso, e seu canal fechado pela polícia, mas que tudo seria em vão, porque há uma realidade subjacente de sofrimento e opressão que é a verdadeira causa destes atentados.
Essa ponderação cínica de um instigador adulto me perturba — talvez porque ele pareça ter alguma razão. Não sei bem o que tem causado tudo isso, mas obviamente estamos falhando enquanto sociedade. Para mim, é bastante claro que não se trata apenas de distúrbio psicológico dos agressores, mas de uma moléstia social do nosso tempo.
Dançarinos do arame
Dentro das atuais coordenadas do espaço e do tempo, aqui nos vamos equilibrando sobre este fio de vida...
Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de esperança e medo, que rede de segurança nos aparará?Mário Quintana, "Caderno H"
O retorno dos engenheiros do caos
Atenção! É preciso que o Centro do espectro político se prepare. O retorno de Jair Bolsonaro ao Brasil já reativou as máquinas digitais dos “engenheiros do caos”, nas redes sociais e no ciberespaço. O reforço da calcificação da polarização política.
É boa hora para ler, ou reler, o livro “Engenheiros do Caos”, de Giuliano Da Empoli. Ele narra os fatos, eventos e fenômenos que convergiram para a ascensão dos físicos, cientistas e consultores especializados em Big Data, oriundos das premissas da física quântica. Criaram, na metáfora de Empoli, “partidos-algoritmos”, sobrepujando os partidos políticos tradicionais.
São os protagonistas da utilização das plataformas digitais, a partir do Facebook, para a construção do neo-populismo em escala transnacional: Gianroberto Casaleggio, com o Movimento 5 Estrelas na Itália; Steve Bannon, com Trump nos EUA; Dominic Cummings, com o Brexit no Reino Unido; Milo Yannopoulos, o blogueiro inglês que trabalhou com Trump; e Arthur Finkelstein, conselheiro de Viktor Orban. Dentre muitos outros.
Entenderam e canalizaram o espírito da época para a construção do neo-populismo. O nome do jogo é engajamento. Para canalizar o medo, a raiva, o ódio e a cólera. Escolhendo inimigos políticos para calcificar a polarização política, em causação circular. Cultivar a cólera e estimular o narcisismo das “selfies”, para criar sensação de pertencimento, tensionando a polarização política com os seus algoritmos.

Esvaziam a possibilidade da moderação política que converge para o Centro, objetivo da democracia liberal. Estimulam os extremos. Direcionam a política para movimentos centrífugos. Que se voltam para reverter os movimentos centrípetos da democracia representativa. Em vez da moderação, o radicalismo.
O “partido digital” se torna adversário dos partidos políticos tradicionais, enfatiza Giuliano Da Empoli. Substitui a democracia liberal pela “iliberal”. Trolls, fake news, verdades alternativas que colocam a democracia representativa no canto do ringue.
Trata-se da hegemonia cultural do ciberespaço, retratada no trabalho seminal de Empoli. Aqui no Brasil resultou, como sabemos, no bolsonarismo, inspirado por Bannon e por Trump. Bolsonaro também na trilha de Carl Schimitt, citado por Empoli : “a política consiste, antes de tudo, em identificar o inimigo”.
Pois bem. Jair Bolsonaro está de volta. O seu PL, liderado por Valdemar Costa Neto, programa iniciar desde já viagens pelo Brasil, seja com Jair Bolsonaro, seja com Michelle Bolsonaro. Pé na estrada para alimentar engajamentos e a polarização antipetista com o governo Lula. Colocando, desde já, as eleições de 2024 nas ruas. Mirando 2024 e, principalmente, 2026. É o “modo eleição permanente”, que construiu o bolsonarismo.
Assim, mesmo com as possibilidades de inelegibilidade que pairam sobre Bolsonaro, o fato concreto é que o partido-algoritmo está de volta. Agora, também, com avanços de “novidades” tecnológicas: (1) o “deep fake”, onde a Inteligência Artificial substitui rostos em vídeos de fotos;(2) os “malwares”, softwares que transmitem informações sem consentimento dos seus proprietários; (3) os ecossistemas de nichos (fóruns de discussões e outros) que, sem monitoramento social impulsionam narrativas ( por exemplo, fraudes nas eleições).
Sinais de tensões centrífugas permanentes sobre a conjuntura política brasileira. É hora do presidente Lula materializar para valer a ideia da Frente Ampla. Isto não aconteceu ainda. Ainda é hora. Mas a ampulheta está na mesa.
Antônio Carlos de Medeiros
É boa hora para ler, ou reler, o livro “Engenheiros do Caos”, de Giuliano Da Empoli. Ele narra os fatos, eventos e fenômenos que convergiram para a ascensão dos físicos, cientistas e consultores especializados em Big Data, oriundos das premissas da física quântica. Criaram, na metáfora de Empoli, “partidos-algoritmos”, sobrepujando os partidos políticos tradicionais.
São os protagonistas da utilização das plataformas digitais, a partir do Facebook, para a construção do neo-populismo em escala transnacional: Gianroberto Casaleggio, com o Movimento 5 Estrelas na Itália; Steve Bannon, com Trump nos EUA; Dominic Cummings, com o Brexit no Reino Unido; Milo Yannopoulos, o blogueiro inglês que trabalhou com Trump; e Arthur Finkelstein, conselheiro de Viktor Orban. Dentre muitos outros.
Entenderam e canalizaram o espírito da época para a construção do neo-populismo. O nome do jogo é engajamento. Para canalizar o medo, a raiva, o ódio e a cólera. Escolhendo inimigos políticos para calcificar a polarização política, em causação circular. Cultivar a cólera e estimular o narcisismo das “selfies”, para criar sensação de pertencimento, tensionando a polarização política com os seus algoritmos.
Esvaziam a possibilidade da moderação política que converge para o Centro, objetivo da democracia liberal. Estimulam os extremos. Direcionam a política para movimentos centrífugos. Que se voltam para reverter os movimentos centrípetos da democracia representativa. Em vez da moderação, o radicalismo.
O “partido digital” se torna adversário dos partidos políticos tradicionais, enfatiza Giuliano Da Empoli. Substitui a democracia liberal pela “iliberal”. Trolls, fake news, verdades alternativas que colocam a democracia representativa no canto do ringue.
Trata-se da hegemonia cultural do ciberespaço, retratada no trabalho seminal de Empoli. Aqui no Brasil resultou, como sabemos, no bolsonarismo, inspirado por Bannon e por Trump. Bolsonaro também na trilha de Carl Schimitt, citado por Empoli : “a política consiste, antes de tudo, em identificar o inimigo”.
Pois bem. Jair Bolsonaro está de volta. O seu PL, liderado por Valdemar Costa Neto, programa iniciar desde já viagens pelo Brasil, seja com Jair Bolsonaro, seja com Michelle Bolsonaro. Pé na estrada para alimentar engajamentos e a polarização antipetista com o governo Lula. Colocando, desde já, as eleições de 2024 nas ruas. Mirando 2024 e, principalmente, 2026. É o “modo eleição permanente”, que construiu o bolsonarismo.
Assim, mesmo com as possibilidades de inelegibilidade que pairam sobre Bolsonaro, o fato concreto é que o partido-algoritmo está de volta. Agora, também, com avanços de “novidades” tecnológicas: (1) o “deep fake”, onde a Inteligência Artificial substitui rostos em vídeos de fotos;(2) os “malwares”, softwares que transmitem informações sem consentimento dos seus proprietários; (3) os ecossistemas de nichos (fóruns de discussões e outros) que, sem monitoramento social impulsionam narrativas ( por exemplo, fraudes nas eleições).
Sinais de tensões centrífugas permanentes sobre a conjuntura política brasileira. É hora do presidente Lula materializar para valer a ideia da Frente Ampla. Isto não aconteceu ainda. Ainda é hora. Mas a ampulheta está na mesa.
Antônio Carlos de Medeiros
Enzo, Larissa, Bernardo...
Na manhã da última quarta-feira, Bernardo, de 4 anos, se espreguiçou na cama pela última vez. Enzo, também de 4 anos, vestiu pela última vez o uniforme. Outro Bernardo, de 5, tomou seu último café da manhã. Larissa, de 7, se penteou — e foi a última vez que se viu no espelho.
Todos eram filhos únicos. E que filho não é único?
Dali a pouco estariam mortos, diante de outras crianças feridas, em choque, e de professoras atônitas.
Essa deveria ser a notícia. Esses, os nomes a ser lembrados.
Mas há outro personagem — que também se espreguiçou pela manhã, se vestiu, deve ter tomado café e se olhado no espelho. E que continuará a fazer isso todos os dias. Por algum tempo, dentro de uma cela; logo, muito antes que Larissa, Enzo e os xarás Bernardos pudessem saber o que é estar apaixonado e ter sofrido a primeira dor de amor, esse personagem estará de volta às mesmas ruas que Enzo, Bernardos e Larissa nunca mais pisarão.
Sete anos antes da manhã em que se armou e ligou a motocicleta, o sem nome foi preso por uma briga. Dois anos antes de pular o muro da creche, esfaqueou o padrasto. Nove meses antes de caminhar por entre os balanços e escorregadores, havia sido detido por posse de cocaína. Quatro meses antes de se lançar sobre nove crianças, a vítima de seus golpes fora um cachorro.
Em pelo menos quatro oportunidades, poderia ter sido afastado temporariamente da sociedade. Tratado, se sofresse de algum transtorno. Reeducado, em caso de desajuste. Acolhido, se vítima de um histórico de abandono. Sabe-se lá quantas vezes terá dado sinais de comportamento agressivo. E quantas chances de evitar que sua violência atingisse Bernardos, Larissa e Enzo foram perdidas.
Os meios de comunicação que levam o jornalismo a sério tornaram mais cuidadosa a divulgação desse tipo de crime. Não há fotos do assassino. Seu nome nem sequer é mencionado. Ao contrário da notoriedade que certamente almeja, terá a ignomínia — a perda do nome, o anonimato.
A cada atentado — em Caraí, Ipaussu, Medianeira, Morro do Chapéu, Janaúba, Santa Rita, São Caetano do Sul, Rio de Janeiro — debate-se o (urgente, necessário) controle de armas de fogo. Mas não há como limitar o uso de armas brancas, paus, pedras, álcool, fósforos. O problema está na motivação por trás da mão que ataca, não naquilo que a mão carrega. Está na indiferença de parentes e amigos diante dos alertas, na inoperância da polícia, na leniência da Justiça, na inexistência de um sistema eficiente de saúde mental, na falência do Estado em prover educação, segurança, assistência social.
Cada tragédia como esta — em Blumenau, São Paulo, Aracruz, Barreiras, Saudades, Suzano, Goiânia — é pretexto para que se retome a rinha politiqueira, a troca oportunista de acusações (“Faz arminha!”, “Faz o L!”). Como se a defesa da vida, a condenação da impunidade, a proteção ao cidadão fossem monopólio deste ou daquele partido.
Quem perde pai ou mãe torna-se órfão. Não há palavra para designar quem perde o filho. Desde quarta-feira, o Brasil tem os órfãos reversos de Enzo, Bernardo, Larissa — como já tinha os de Selena, Juan Pablo, Ana Clara, Kaio, João Pedro, Sarah, Anna Bela, Samira...
E mais um assassino inominável. Que em breve será outra prova viva da cegueira da Justiça.
Todos eram filhos únicos. E que filho não é único?
Dali a pouco estariam mortos, diante de outras crianças feridas, em choque, e de professoras atônitas.
Essa deveria ser a notícia. Esses, os nomes a ser lembrados.
Mas há outro personagem — que também se espreguiçou pela manhã, se vestiu, deve ter tomado café e se olhado no espelho. E que continuará a fazer isso todos os dias. Por algum tempo, dentro de uma cela; logo, muito antes que Larissa, Enzo e os xarás Bernardos pudessem saber o que é estar apaixonado e ter sofrido a primeira dor de amor, esse personagem estará de volta às mesmas ruas que Enzo, Bernardos e Larissa nunca mais pisarão.
Sete anos antes da manhã em que se armou e ligou a motocicleta, o sem nome foi preso por uma briga. Dois anos antes de pular o muro da creche, esfaqueou o padrasto. Nove meses antes de caminhar por entre os balanços e escorregadores, havia sido detido por posse de cocaína. Quatro meses antes de se lançar sobre nove crianças, a vítima de seus golpes fora um cachorro.
Em pelo menos quatro oportunidades, poderia ter sido afastado temporariamente da sociedade. Tratado, se sofresse de algum transtorno. Reeducado, em caso de desajuste. Acolhido, se vítima de um histórico de abandono. Sabe-se lá quantas vezes terá dado sinais de comportamento agressivo. E quantas chances de evitar que sua violência atingisse Bernardos, Larissa e Enzo foram perdidas.
Os meios de comunicação que levam o jornalismo a sério tornaram mais cuidadosa a divulgação desse tipo de crime. Não há fotos do assassino. Seu nome nem sequer é mencionado. Ao contrário da notoriedade que certamente almeja, terá a ignomínia — a perda do nome, o anonimato.
A cada atentado — em Caraí, Ipaussu, Medianeira, Morro do Chapéu, Janaúba, Santa Rita, São Caetano do Sul, Rio de Janeiro — debate-se o (urgente, necessário) controle de armas de fogo. Mas não há como limitar o uso de armas brancas, paus, pedras, álcool, fósforos. O problema está na motivação por trás da mão que ataca, não naquilo que a mão carrega. Está na indiferença de parentes e amigos diante dos alertas, na inoperância da polícia, na leniência da Justiça, na inexistência de um sistema eficiente de saúde mental, na falência do Estado em prover educação, segurança, assistência social.
Cada tragédia como esta — em Blumenau, São Paulo, Aracruz, Barreiras, Saudades, Suzano, Goiânia — é pretexto para que se retome a rinha politiqueira, a troca oportunista de acusações (“Faz arminha!”, “Faz o L!”). Como se a defesa da vida, a condenação da impunidade, a proteção ao cidadão fossem monopólio deste ou daquele partido.
Quem perde pai ou mãe torna-se órfão. Não há palavra para designar quem perde o filho. Desde quarta-feira, o Brasil tem os órfãos reversos de Enzo, Bernardo, Larissa — como já tinha os de Selena, Juan Pablo, Ana Clara, Kaio, João Pedro, Sarah, Anna Bela, Samira...
E mais um assassino inominável. Que em breve será outra prova viva da cegueira da Justiça.
sexta-feira, 7 de abril de 2023
Ele nos ensinou a odiar
Em minha última coluna, escrevi que Bolsonaro corrompeu, estuprou e prostituiu instituições civis e militares. Faltou espaço para acrescentar o que já me passava pela cabeça e que, poucas horas depois, a tragédia de Blumenau —crianças assassinadas a machadadas numa creche— viria confirmar: o embrutecimento e a desumanidade que ele nos legou. Bolsonaro conseguiu acrescentar um fator novo à violência a que já estávamos habituados. Acrescentou o ódio.
Nossa violência até então tinha cenários, personagens e motivações previsíveis: latrocínio, tiroteios em comunidades, balas perdidas, chacinas em prisões, ajuste de contas, queima de arquivo, crimes passionais, disputa de terras, extermínio de indígenas, assassinato de missionários e ecologistas —quase sempre, coisa de profissionais. O povo fazia parte desse horror, mas, basicamente, como vítima. Não mais. Bolsonaro ensinou os amadores a odiar.
Em quatro anos, o Brasil se reduziu a um puxadinho da Taurus. As pessoas se armaram. Trabucos saltam dos cintos nos ambientes mais inesperados. Pistolas, fuzis e metralhadoras abarrotam o porão de políticos, ex-policiais e cafajestes comuns, alguns, bem a propósito, vizinhos de condomínio de Bolsonaro. A banalização desses arsenais passou uma mensagem para o brasileiro comum: a bala é um meio de expressão. À falta dela, o porrete, o punhal, a picareta, a machadinha, alguns, aliás, usados no 8 de janeiro.
Daí a escalada de crimes contra mulheres, pretos e trans, apenas porque são "diferentes". E, não por acaso, várias escolas têm sido cenário desses surtos de ódio. É o ódio à educação, à razão —que Bolsonaro, também não por acaso, levou quatro anos tentando destruir.
E é disso que nasce o ódio mais perigoso: aquele que não se sabe contra quem ou por quê, nem precisa saber —mas que, como Bolsonaro ensinou, agora temos o direito de expressar com uma arma.
Ruy Castro
Nossa violência até então tinha cenários, personagens e motivações previsíveis: latrocínio, tiroteios em comunidades, balas perdidas, chacinas em prisões, ajuste de contas, queima de arquivo, crimes passionais, disputa de terras, extermínio de indígenas, assassinato de missionários e ecologistas —quase sempre, coisa de profissionais. O povo fazia parte desse horror, mas, basicamente, como vítima. Não mais. Bolsonaro ensinou os amadores a odiar.
Em quatro anos, o Brasil se reduziu a um puxadinho da Taurus. As pessoas se armaram. Trabucos saltam dos cintos nos ambientes mais inesperados. Pistolas, fuzis e metralhadoras abarrotam o porão de políticos, ex-policiais e cafajestes comuns, alguns, bem a propósito, vizinhos de condomínio de Bolsonaro. A banalização desses arsenais passou uma mensagem para o brasileiro comum: a bala é um meio de expressão. À falta dela, o porrete, o punhal, a picareta, a machadinha, alguns, aliás, usados no 8 de janeiro.
Daí a escalada de crimes contra mulheres, pretos e trans, apenas porque são "diferentes". E, não por acaso, várias escolas têm sido cenário desses surtos de ódio. É o ódio à educação, à razão —que Bolsonaro, também não por acaso, levou quatro anos tentando destruir.
E é disso que nasce o ódio mais perigoso: aquele que não se sabe contra quem ou por quê, nem precisa saber —mas que, como Bolsonaro ensinou, agora temos o direito de expressar com uma arma.
Ruy Castro
A resistência à barbárie na Amazônia
Em janeiro de 2020, dois cidadãos americanos, Frank Giannuzzi e Steven Bellino, além de um brasileiro, Brubeyk Nascimento, apresentaram-se na alfândega do aeroporto de Manaus para registrar a documentação de carga a ser embarcada por eles, dias depois, com destino aos Estados Unidos.
Declararam que transportariam, em mãos, 35 quilos de ouro em barras avaliadas em R$ 10 milhões. A Receita liberou a carga, mas, ao voltarem para o embarque, as barras foram apreendidas e os três, detidos. Entre a declaração de transporte e o embarque, o funcionário da Receita acionou a Polícia Federal.
Nada batia. A história juntava dois agentes financeiros que atuavam em Wall Street e um brasileiro com endereço em Manaus, telefone com DDD de Goiânia e carga adquirida em São Paulo. Só o embarque por Manaus fazia sentido. Era por ali que se escoava o ouro adquirido no garimpo ilegal.
Naquela semana, a Superintendência da PF em Manaus havia recebido um equipamento importado da Alemanha capaz de fazer a análise instantânea da composição química de materiais. Se as barras se originassem da reciclagem de joias, o percentual de ouro não ultrapassaria 75%, mas o detector alemão cravou outro resultado: 98% de pureza.
Os policiais não tiveram dúvida de que tinham em mãos um produto do garimpo ilegal. Apesar da comoção internacional despertada pelo crime, aqueles contrabandistas eram a prova de que o ouro brasileiro continuava a fazer fortunas também no exterior.
A história está contada em “Selva - madeireiros, garimpeiros e corruptos na Amazônia sem lei” (Intrínseca, 2023), do delegado da PF Alexandre Saraiva. O autor ainda desafiou a justiça, que, além de mandar soltar os contrabandistas, liberou, por decisão do ministro do Superior Tribunal de Justiça Ney Bello, as barras de ouro.
Saraiva mandou uma equipe tirar as barras dos cofres da Caixa Econômica Federal, onde supôs que o gerente não resistiria a um oficial de justiça, e conseguiu que a Agência Nacional de Mineração ordenasse uma apreensão administrativa que não estaria ao alcance da decisão judicial. As barras estão no cofre da Superintendência da PF no Amazonas, mas a disputa por sua posse continua nos tribunais. “Literalmente iríamos entregar o ouro ao bandido”, lembra Saraiva.
A experiência deu ao delegado a certeza de que a investida anunciada pelo Banco Central sobre a comercialização do ouro não vai dar em nada. O BC foi intimado a prestar informações ao Supremo, em ação proposta pelo PV e relatada pelo ministro Gilmar Mendes, sobre a aquisição de ouro pelas distribuidoras de títulos e valores mobiliários.
Na resposta enviada ao STF, o BC diz que está em busca de tecnologia adequada para que as informações relativas à origem do ouro fornecidas às DTVMs não seja feita apenas com base na boa-fé dos declarantes. Saraiva demonstra que a tecnologia já existe.
Antes mesmo que a tecnologia da composição química estreasse em Manaus, há três anos, já era possível cruzar as autorizações da Agência Nacional de Mineração e as imagens de satélite do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Se houver autorização sem lavra é indício de “lavagem” de ouro ilegal. Sobram meios para conferir a documentação de origem por rastreamento científico.
Saraiva ainda ganhou proeminência, ao longo do governo Jair Bolsonaro, por ter liderado a maior apreensão de madeira ilegal do país, avaliada em R$ 130 milhões. Suficiente para carregar 7,5 mil caminhões, a apreensão resultaria na demissão de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente.
A operação é um dos capítulos mais ricos sobre o faroeste amazônico sob Bolsonaro. Nascido em São Gonçalo (RJ), em 1970, e tendo trabalhado os oito primeiros anos de sua carreira como policial federal no Rio, Saraiva viu o Estado chegar a um ponto hoje considerado de não retorno em relação ao crime organizado. Foi nesta rota que o governo Bolsonaro deixou a Amazônia, diz Saraiva.
O assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, num território disputado por facções que se valem do garimpo ilegal nas terras indígenas para a compra de cocaína no outro lado da fronteira, é apenas a última das evidências de que o Brasil está a um passo de perder a Amazônia para o crime organizado.
A investigação conduzida por Saraiva demonstrou como Salles integrava um grupo que fornecia documentos fraudulentos à PF, dificultava a fiscalização ambiental e obstruía a investigação policial. Os relatórios da PF apontavam o uso da própria mãe, de quem Salles, hoje deputado federal pelo PL de São Paulo, é sócio, num escritório de advocacia, como “laranja” de atividades ilegais.
O relato dá conta, ainda, da mudança na postura do Comando Militar do Norte. Depois de auxiliar a PF na guarda das toras apreendidas, comunicou, repentinamente, que não poderia fazer a remoção da madeira.
Saraiva conduziu a operação sob o temor de que poderia ser afastado da Superintendência da PF no Amazonas a qualquer momento. Ciente de que poderia ser barrado pelo diretor-geral da PF, Paulo Maiurino, comunicou-lhe a denúncia contra o ministro 20 minutos depois de dar entrada no sistema eletrônico do STF. No dia seguinte, foi exonerado.
A superintendência no Amazonas foi o terceiro último cargo na região ocupado por Saraiva ao longo de uma temporada de dez anos iniciada em Roraima e com uma passagem ainda pelo Maranhão. Ao longo do período na região, deu-se conta das limitações do trabalho da PF. Em Manaus apreendeu toras registradas em nomes de empresas que, anos antes, havia autuado em Roraima.
Foi lá que entendeu como a distribuição de títulos de terras faz com que na Amazônia as propriedades rurais tenham que ser “empilhadas” para caberem nos limites territoriais dos Estados. A burla no registro fundiário é o primeiro passo na cadeia de fraudes que resultava na emissão indiscriminada de Documentos de Origem Florestal (DOFs) pelo Ibama. Isso se ampliou num momento em que, das 27 superintendências estaduais do Ibama, 24 foram parar nas mãos de coronéis da PM e uma nas de um coronel do Exército.
De posse desse documento, os proprietários obtêm uma autorização de desmate alegadamente para agricultura, mas, de fato, apenas para a extração da madeira. A atuação na região e o doutorado na Universidade Federal do Amazonas deram a Saraiva a certeza de que a agropecuária é apenas uma fachada para a indústria ilegal de extração de madeira.
O delegado vê o Brasil a caminho de repetir o desastre do Sudeste Asiático, que derrubou suas florestas para abastecer primeiro o Japão, depois o resto do mundo de madeira barata. Foi o esgotamento das reservas naquela região que levou à elevação do preço da madeira brasileira. Por isso, defende a moratória da extração de madeiras nativas. E espera que, um dia, um piso de mogno seja tão reprovável quanto hoje o é usar um casaco de peles.
Essa indústria não vicejaria sem a vista grossa da comunidade internacional que cobra a proteção das florestas mas importa madeira sem se ocupar de sua origem. Vide a Biblioteca Nacional em Paris. Templo de uma cultura enraizada do ambientalismo, o prédio, obra de François Mitterrand, usou 60 mil m2 de ipê.
Não se trata de uma infração do passado. Saraiva esmiuçou a regulamentação europeia e concluiu que as regras de importação de madeira na União Europeia são muito mais lenientes do que aquelas de produtos agropecuários brasileiros que enfrentam concorrência local.
Do embate com Salles lhe sobrou uma sindicância interna pelas entrevistas concedidas. Saraiva é tão confiante em decisão do Supremo que lhe garante o direito de se manifestar que escreveu “Selva”. Além da sindicância, o embate lhe rendeu também um convite do PSB do Rio para que disputasse a Câmara dos Deputados. Rejeitou fundo eleitoral ou partidário. Gastou R$ 5 mil do próprio bolso - R$ 1,5 mil com advogado, R$ 1,5 mil com o contador e R$ 2 mil com adesivos. Teve 16 mil votos.
Concluiu não ter vocação para a política. Chegou a participar da transição, quando sugeriu uma operação urgente na reserva dos Yanomâmis, que só acabaria acontecendo por causa da denúncia do site Sumaúma, em 20 de janeiro, e operações em portos e aeroportos para barrar o embarque de madeira ilegal.
Na montagem do governo, porém, não foi convidado a voltar à Amazônia ou a cargo de confiança. Permanece em Volta Redonda. Não deixa de ser verdade que o delegado queira ficar perto de sua família, depois de 10 anos na Amazônia, como se alega na PF, mas o fato é que nenhum convite foi feito.
A ação destemida calou os críticos que exploravam sua proximidade com Alexandre Ramagem, delegado que foi chefiado por Saraiva em Roraima. Chefe da Abin sob Bolsonaro, foi ele quem levou o colega até o ex-presidente quando estava em pauta um nome para o Meio Ambiente.
Saraiva, superintendente da PF no Amazonas à época, foi até a casa de Bolsonaro na Barra da Tijuca. Não concordaram em nada. O delegado saiu de lá sem convite e o cargo acabaria sendo oferecido a Salles.
Muitos dos que Saraiva enfrentou na Amazônia hoje integram a base do governo - e o ministério. Quando foi exonerado, desmatavam-se 1,5 mil km2 por ano na Amazônia Legal. Em 2021, ano em que deixou a região, pulou para 2,3 mil. No ano seguinte chegou a 2,6 mil. Mais do que uma cidade de São Paulo abaixo por ano.
O compromisso eleitoral deste governo impõe uma reversão em 2023, mas há pressões em curso. O ipê, a exemplo do pau brasil e do mogno, integrava a lista de árvores ameaçadas até ser dela retirada por Bolsonaro. Ao fazê-lo, previu que as madeiras do gênero Handroantus, nas quais estão incluídos todos os ipês, voltassem ao index em julho. Portaria do atual governo prorrogou sua exclusão do index até novembro de 2024. Segundo o Ibama, para se ajustar à convenção internacional. Handroantus foi o nome da operação da PF que derrubou Ricardo Salles.
Declararam que transportariam, em mãos, 35 quilos de ouro em barras avaliadas em R$ 10 milhões. A Receita liberou a carga, mas, ao voltarem para o embarque, as barras foram apreendidas e os três, detidos. Entre a declaração de transporte e o embarque, o funcionário da Receita acionou a Polícia Federal.
Nada batia. A história juntava dois agentes financeiros que atuavam em Wall Street e um brasileiro com endereço em Manaus, telefone com DDD de Goiânia e carga adquirida em São Paulo. Só o embarque por Manaus fazia sentido. Era por ali que se escoava o ouro adquirido no garimpo ilegal.
Naquela semana, a Superintendência da PF em Manaus havia recebido um equipamento importado da Alemanha capaz de fazer a análise instantânea da composição química de materiais. Se as barras se originassem da reciclagem de joias, o percentual de ouro não ultrapassaria 75%, mas o detector alemão cravou outro resultado: 98% de pureza.
Os policiais não tiveram dúvida de que tinham em mãos um produto do garimpo ilegal. Apesar da comoção internacional despertada pelo crime, aqueles contrabandistas eram a prova de que o ouro brasileiro continuava a fazer fortunas também no exterior.
A história está contada em “Selva - madeireiros, garimpeiros e corruptos na Amazônia sem lei” (Intrínseca, 2023), do delegado da PF Alexandre Saraiva. O autor ainda desafiou a justiça, que, além de mandar soltar os contrabandistas, liberou, por decisão do ministro do Superior Tribunal de Justiça Ney Bello, as barras de ouro.
Saraiva mandou uma equipe tirar as barras dos cofres da Caixa Econômica Federal, onde supôs que o gerente não resistiria a um oficial de justiça, e conseguiu que a Agência Nacional de Mineração ordenasse uma apreensão administrativa que não estaria ao alcance da decisão judicial. As barras estão no cofre da Superintendência da PF no Amazonas, mas a disputa por sua posse continua nos tribunais. “Literalmente iríamos entregar o ouro ao bandido”, lembra Saraiva.
A experiência deu ao delegado a certeza de que a investida anunciada pelo Banco Central sobre a comercialização do ouro não vai dar em nada. O BC foi intimado a prestar informações ao Supremo, em ação proposta pelo PV e relatada pelo ministro Gilmar Mendes, sobre a aquisição de ouro pelas distribuidoras de títulos e valores mobiliários.
Na resposta enviada ao STF, o BC diz que está em busca de tecnologia adequada para que as informações relativas à origem do ouro fornecidas às DTVMs não seja feita apenas com base na boa-fé dos declarantes. Saraiva demonstra que a tecnologia já existe.
Antes mesmo que a tecnologia da composição química estreasse em Manaus, há três anos, já era possível cruzar as autorizações da Agência Nacional de Mineração e as imagens de satélite do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Se houver autorização sem lavra é indício de “lavagem” de ouro ilegal. Sobram meios para conferir a documentação de origem por rastreamento científico.
Saraiva ainda ganhou proeminência, ao longo do governo Jair Bolsonaro, por ter liderado a maior apreensão de madeira ilegal do país, avaliada em R$ 130 milhões. Suficiente para carregar 7,5 mil caminhões, a apreensão resultaria na demissão de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente.
A operação é um dos capítulos mais ricos sobre o faroeste amazônico sob Bolsonaro. Nascido em São Gonçalo (RJ), em 1970, e tendo trabalhado os oito primeiros anos de sua carreira como policial federal no Rio, Saraiva viu o Estado chegar a um ponto hoje considerado de não retorno em relação ao crime organizado. Foi nesta rota que o governo Bolsonaro deixou a Amazônia, diz Saraiva.
O assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, num território disputado por facções que se valem do garimpo ilegal nas terras indígenas para a compra de cocaína no outro lado da fronteira, é apenas a última das evidências de que o Brasil está a um passo de perder a Amazônia para o crime organizado.
A investigação conduzida por Saraiva demonstrou como Salles integrava um grupo que fornecia documentos fraudulentos à PF, dificultava a fiscalização ambiental e obstruía a investigação policial. Os relatórios da PF apontavam o uso da própria mãe, de quem Salles, hoje deputado federal pelo PL de São Paulo, é sócio, num escritório de advocacia, como “laranja” de atividades ilegais.
O relato dá conta, ainda, da mudança na postura do Comando Militar do Norte. Depois de auxiliar a PF na guarda das toras apreendidas, comunicou, repentinamente, que não poderia fazer a remoção da madeira.
Saraiva conduziu a operação sob o temor de que poderia ser afastado da Superintendência da PF no Amazonas a qualquer momento. Ciente de que poderia ser barrado pelo diretor-geral da PF, Paulo Maiurino, comunicou-lhe a denúncia contra o ministro 20 minutos depois de dar entrada no sistema eletrônico do STF. No dia seguinte, foi exonerado.
A superintendência no Amazonas foi o terceiro último cargo na região ocupado por Saraiva ao longo de uma temporada de dez anos iniciada em Roraima e com uma passagem ainda pelo Maranhão. Ao longo do período na região, deu-se conta das limitações do trabalho da PF. Em Manaus apreendeu toras registradas em nomes de empresas que, anos antes, havia autuado em Roraima.
Foi lá que entendeu como a distribuição de títulos de terras faz com que na Amazônia as propriedades rurais tenham que ser “empilhadas” para caberem nos limites territoriais dos Estados. A burla no registro fundiário é o primeiro passo na cadeia de fraudes que resultava na emissão indiscriminada de Documentos de Origem Florestal (DOFs) pelo Ibama. Isso se ampliou num momento em que, das 27 superintendências estaduais do Ibama, 24 foram parar nas mãos de coronéis da PM e uma nas de um coronel do Exército.
De posse desse documento, os proprietários obtêm uma autorização de desmate alegadamente para agricultura, mas, de fato, apenas para a extração da madeira. A atuação na região e o doutorado na Universidade Federal do Amazonas deram a Saraiva a certeza de que a agropecuária é apenas uma fachada para a indústria ilegal de extração de madeira.
O delegado vê o Brasil a caminho de repetir o desastre do Sudeste Asiático, que derrubou suas florestas para abastecer primeiro o Japão, depois o resto do mundo de madeira barata. Foi o esgotamento das reservas naquela região que levou à elevação do preço da madeira brasileira. Por isso, defende a moratória da extração de madeiras nativas. E espera que, um dia, um piso de mogno seja tão reprovável quanto hoje o é usar um casaco de peles.
Essa indústria não vicejaria sem a vista grossa da comunidade internacional que cobra a proteção das florestas mas importa madeira sem se ocupar de sua origem. Vide a Biblioteca Nacional em Paris. Templo de uma cultura enraizada do ambientalismo, o prédio, obra de François Mitterrand, usou 60 mil m2 de ipê.
Não se trata de uma infração do passado. Saraiva esmiuçou a regulamentação europeia e concluiu que as regras de importação de madeira na União Europeia são muito mais lenientes do que aquelas de produtos agropecuários brasileiros que enfrentam concorrência local.
Do embate com Salles lhe sobrou uma sindicância interna pelas entrevistas concedidas. Saraiva é tão confiante em decisão do Supremo que lhe garante o direito de se manifestar que escreveu “Selva”. Além da sindicância, o embate lhe rendeu também um convite do PSB do Rio para que disputasse a Câmara dos Deputados. Rejeitou fundo eleitoral ou partidário. Gastou R$ 5 mil do próprio bolso - R$ 1,5 mil com advogado, R$ 1,5 mil com o contador e R$ 2 mil com adesivos. Teve 16 mil votos.
Concluiu não ter vocação para a política. Chegou a participar da transição, quando sugeriu uma operação urgente na reserva dos Yanomâmis, que só acabaria acontecendo por causa da denúncia do site Sumaúma, em 20 de janeiro, e operações em portos e aeroportos para barrar o embarque de madeira ilegal.
Na montagem do governo, porém, não foi convidado a voltar à Amazônia ou a cargo de confiança. Permanece em Volta Redonda. Não deixa de ser verdade que o delegado queira ficar perto de sua família, depois de 10 anos na Amazônia, como se alega na PF, mas o fato é que nenhum convite foi feito.
A ação destemida calou os críticos que exploravam sua proximidade com Alexandre Ramagem, delegado que foi chefiado por Saraiva em Roraima. Chefe da Abin sob Bolsonaro, foi ele quem levou o colega até o ex-presidente quando estava em pauta um nome para o Meio Ambiente.
Saraiva, superintendente da PF no Amazonas à época, foi até a casa de Bolsonaro na Barra da Tijuca. Não concordaram em nada. O delegado saiu de lá sem convite e o cargo acabaria sendo oferecido a Salles.
Muitos dos que Saraiva enfrentou na Amazônia hoje integram a base do governo - e o ministério. Quando foi exonerado, desmatavam-se 1,5 mil km2 por ano na Amazônia Legal. Em 2021, ano em que deixou a região, pulou para 2,3 mil. No ano seguinte chegou a 2,6 mil. Mais do que uma cidade de São Paulo abaixo por ano.
O compromisso eleitoral deste governo impõe uma reversão em 2023, mas há pressões em curso. O ipê, a exemplo do pau brasil e do mogno, integrava a lista de árvores ameaçadas até ser dela retirada por Bolsonaro. Ao fazê-lo, previu que as madeiras do gênero Handroantus, nas quais estão incluídos todos os ipês, voltassem ao index em julho. Portaria do atual governo prorrogou sua exclusão do index até novembro de 2024. Segundo o Ibama, para se ajustar à convenção internacional. Handroantus foi o nome da operação da PF que derrubou Ricardo Salles.
Quando o criminoso vai além do crime
Os crimes aberrantes devem ser recordados para que jamais se repitam. Evitar a repetição, porém, leva a investigar as origens, ir às causas, em especial as difusas e, por isso, diretas ou permanentes, pois, ao serem profundas, não são visíveis.
Refiro-me a dois crimes aberrantes perpetrados em São Paulo dias atrás, que permanecem atuais pela estarrecedora brutalidade em si.
Primeiro, em plena sala de aula, um menino de 13 anos assassinou a facadas uma professora de 71 anos e feriu outras três. Logo, como na sequência de um filme de terror, um juiz acorrentava a própria esposa para, a socos e bofetadas, obrigá-la ao ato sexual, num sadismo aberrante substituindo a beleza do erotismo amoroso.
Ambas as situações disputam a primazia do horror. No primeiro caso, os escabrosos detalhes levam a uma pergunta: em que sociedade vivemos para que um menino imberbe, ainda pré-adolescente, se transforme em requintado criminoso?
Sim, pois a morte a facadas é requintada em si, exigindo presteza manual e longos segundos para insistir na morte. Não é como um tiro, em que se aperta o gatilho e a bala faz o resto. A facada exige repetição contínua até chegar à morte.
Mais ainda: como um menino de apenas 13 anos pode ter acumulado desgostos e incertezas em condições de gerar ódio e despertar a maldade de Caim que levamos dentro de nós?
Trata-se de um caso patológico, de um surto psicótico, dirão todos. A patologia assassina, porém, não nasce ao acaso. Tem raízes profundas no dia a dia, crescendo nas invencionices e mentiras das chamadas redes sociais e naquilo que mais ocupa nosso interesse, que é a televisão. Após o trabalho diário, é a TV que nos dá lazer e descanso, mas nela somos levados a um mundo de violência. As séries televisivas (ou até as novelas com excelente dramaturgia) exibem traições e tiros, e, mesmo com o triunfo do bem, o desenrolar violento passa a habitar nosso inconsciente.
São Paulo maldade dos vídeo jogos (que chamamos de video games, em inglês, numa violência verbal ao nosso idioma) em que ganha quem mata mais na tela do celular. A partir da tenra infância, isso se transforma num convite para matar de verdade na vida adulta, pois basta apertar o gatilho...
Trata-se da banalização da vida em forma contínua, por uma parte, e, por outra, de entronizar o assassinato como normalidade.
O caso do juiz sádico mostra, além de tudo, outra aberração que espalha seus requintes perversos sobre a sociedade. Pergunto: como pode um magistrado, que vai julgar os demais (definindo o certo e o errado), portar-se de forma aberrante na vida pessoal?
A exigência de vida “ilibada” não é privativa para a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, mas recai logicamente na totalidade dos magistrados. Só assim o Poder Judiciário atenderá à sua verdadeira função.
Seria insólito que a sociedade tivesse de julgar o comportamento dos magistrados, mas é impossível deixar de aplaudir a decisão do Tribunal de Justiça de suspender das funções o juiz sádico.
A aberração não pode guiar a intimidade daqueles cuja função seja decidir sobre o comportamento da sociedade. Não se deve exigir que um juiz chegue à perfeição absoluta ou, menos ainda, que se transforme em pequena divindade. Não se pode, porém, admitir o oposto. A aberração é o crime dos crimes, ou a própria perversão da perversidade.
Existe, no entanto, um componente histórico na formação da violência na vida social e que, de fato, principia na infância da vida familiar. Pergunto: o que são, em verdade e no mais profundo de si, aquelas histórias infantis repetidas ao longo dos anos (ou até dos séculos...) que contam dos perigos do lobo mau que acaba comendo a indefesa vovozinha para quem a netinha levava deliciosos docinhos?
Não seremos nós mesmos que cultivamos a violência, até sem a perceber?
As histórias infantis estão abarrotadas (ou infestadas) de medo ou até de horror. Mesmo assim, são transmitidas de geração em geração. A transmissão do horror não pode ser encarada tal qual uma vacina que, ao ser aplicada, nos torna resistentes ao mal e, assim, nos livra da enfermidade que provoca.
A verbalização do horror acaba nos familiarizando com o próprio horror e, assim, o incorpora ao nosso cotidiano, como se fizesse parte da vida. No caso concreto do juiz sádico, as cenas filmadas com câmeras ocultas mostraram (na televisão) a repetição contínua da brutalidade, com a mulher submetida ao suplício.
Direta ou indiretamente, tratava-se da antessala do feminicídio, em que a mulher recebia o tratamento de coisa, não de gente, pelo fato único de ser mulher...
Nada, porém, supera em vileza e terror a tragédia de Blumenau (SC), onde um homem adulto, com uma machadinha, assassinou quatro crianças numa creche, num ato abjeto e inominável em que o criminoso vai além do crime em si.
Refiro-me a dois crimes aberrantes perpetrados em São Paulo dias atrás, que permanecem atuais pela estarrecedora brutalidade em si.
Primeiro, em plena sala de aula, um menino de 13 anos assassinou a facadas uma professora de 71 anos e feriu outras três. Logo, como na sequência de um filme de terror, um juiz acorrentava a própria esposa para, a socos e bofetadas, obrigá-la ao ato sexual, num sadismo aberrante substituindo a beleza do erotismo amoroso.
Ambas as situações disputam a primazia do horror. No primeiro caso, os escabrosos detalhes levam a uma pergunta: em que sociedade vivemos para que um menino imberbe, ainda pré-adolescente, se transforme em requintado criminoso?
Sim, pois a morte a facadas é requintada em si, exigindo presteza manual e longos segundos para insistir na morte. Não é como um tiro, em que se aperta o gatilho e a bala faz o resto. A facada exige repetição contínua até chegar à morte.
Mais ainda: como um menino de apenas 13 anos pode ter acumulado desgostos e incertezas em condições de gerar ódio e despertar a maldade de Caim que levamos dentro de nós?
Trata-se de um caso patológico, de um surto psicótico, dirão todos. A patologia assassina, porém, não nasce ao acaso. Tem raízes profundas no dia a dia, crescendo nas invencionices e mentiras das chamadas redes sociais e naquilo que mais ocupa nosso interesse, que é a televisão. Após o trabalho diário, é a TV que nos dá lazer e descanso, mas nela somos levados a um mundo de violência. As séries televisivas (ou até as novelas com excelente dramaturgia) exibem traições e tiros, e, mesmo com o triunfo do bem, o desenrolar violento passa a habitar nosso inconsciente.
Nada, no entanto, supera a bala de prata para matar lobisomens e monstros do tipo. A carga tributária no Brasil está em 33,9%. Usando as palavras de Tebet, “para agradar a todos”, em níveis federal, estadual e municipal, será preciso aumentá-la para mais perto de 40%. Ela tem razão, será uma bala de prata no coração do cidadão brasileiro. E, como dizia Bilac: “Criança! não verás país nenhum como este”. Nenhum país do mundo tem uma carga tributária tão pesada, porque ninguém é capaz de suportála. A ministra do Planejamento pode planejar um belo discurso fúnebre para a nossa economia. Jorge Alberto Nurkin jorge.nurkin@gmail.com
São Paulo maldade dos vídeo jogos (que chamamos de video games, em inglês, numa violência verbal ao nosso idioma) em que ganha quem mata mais na tela do celular. A partir da tenra infância, isso se transforma num convite para matar de verdade na vida adulta, pois basta apertar o gatilho...
Trata-se da banalização da vida em forma contínua, por uma parte, e, por outra, de entronizar o assassinato como normalidade.
O caso do juiz sádico mostra, além de tudo, outra aberração que espalha seus requintes perversos sobre a sociedade. Pergunto: como pode um magistrado, que vai julgar os demais (definindo o certo e o errado), portar-se de forma aberrante na vida pessoal?
A exigência de vida “ilibada” não é privativa para a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, mas recai logicamente na totalidade dos magistrados. Só assim o Poder Judiciário atenderá à sua verdadeira função.
Seria insólito que a sociedade tivesse de julgar o comportamento dos magistrados, mas é impossível deixar de aplaudir a decisão do Tribunal de Justiça de suspender das funções o juiz sádico.
A aberração não pode guiar a intimidade daqueles cuja função seja decidir sobre o comportamento da sociedade. Não se deve exigir que um juiz chegue à perfeição absoluta ou, menos ainda, que se transforme em pequena divindade. Não se pode, porém, admitir o oposto. A aberração é o crime dos crimes, ou a própria perversão da perversidade.
Existe, no entanto, um componente histórico na formação da violência na vida social e que, de fato, principia na infância da vida familiar. Pergunto: o que são, em verdade e no mais profundo de si, aquelas histórias infantis repetidas ao longo dos anos (ou até dos séculos...) que contam dos perigos do lobo mau que acaba comendo a indefesa vovozinha para quem a netinha levava deliciosos docinhos?
Não seremos nós mesmos que cultivamos a violência, até sem a perceber?
As histórias infantis estão abarrotadas (ou infestadas) de medo ou até de horror. Mesmo assim, são transmitidas de geração em geração. A transmissão do horror não pode ser encarada tal qual uma vacina que, ao ser aplicada, nos torna resistentes ao mal e, assim, nos livra da enfermidade que provoca.
A verbalização do horror acaba nos familiarizando com o próprio horror e, assim, o incorpora ao nosso cotidiano, como se fizesse parte da vida. No caso concreto do juiz sádico, as cenas filmadas com câmeras ocultas mostraram (na televisão) a repetição contínua da brutalidade, com a mulher submetida ao suplício.
Direta ou indiretamente, tratava-se da antessala do feminicídio, em que a mulher recebia o tratamento de coisa, não de gente, pelo fato único de ser mulher...
Nada, porém, supera em vileza e terror a tragédia de Blumenau (SC), onde um homem adulto, com uma machadinha, assassinou quatro crianças numa creche, num ato abjeto e inominável em que o criminoso vai além do crime em si.
Como seria a vida de Cristo no Brasil atual?
Estamos na Semana Santa, tradição cristã que, atualmente, representa a ressurreição de Cristo no domingo de Páscoa (embora seja, originalmente, uma festividade de religiões consideradas “pagãs”).
A festividade também nos faz refletir sobre como seria se o protagonista da história vivesse nos dias de hoje. E se, em vez de Israel e Palestina, ele tivesse nascido no Brasil atual?
Provavelmente, Maria, sua mãe, anunciaria sua gravidez a José. Mesmo se aparecesse um anjo dizendo tratar-se do filho de Deus, o marido responderia: “Eu sou lá homem de criar filho dos outros?”. E sairia para comprar um cigarro e nunca mais voltar.
Sem casa, Maria pariria seu bebê em uma manjedoura, mas seria acusada de ser uma invasora de terra do MST e expulsa pelo proprietário.
Os três reis magos seriam enviados para dar presentes ao menino Jesus, mas questionariam: “Se a gente der presentes, esse bebê vai virar um vagabundo que não sabe ir atrás do seu sustento. Ele precisa trabalhar duro para ganhar a mirra, o incenso e o ouro”. E o menino ficaria sem presentes.
Já adulto, Jesus seria batizado em um rio pelo primo, João, mas contrairia uma diarreia violenta causada pela poluição do local.
Após se recuperar, começaria suas pregações em uma praça. “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança”, diria. De longe, ouviria um cidadão de bem gritar: “Vai para Cuba, comunista!”.
Jesus pregaria: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus”. Na praça, um expectador refutaria: “Ah, virou babá de bandido? Se tá com dó, leva pra casa”.
“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”, diria Jesus. Mas um transeunte gritaria: “Ah, agora virou crime ser rico no Brasil?”.
Quando o filho de Deus dissesse: “Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra”, alguém responderia: “Tem é que encher o inimigo de bala! Por isso que tem que armar a população”.
No fim, quando Jesus fosse preso, torturado e crucificado, um homem chamado Jair gritaria: “Eu sou favorável à cruz mesmo. Funciona! Eu sou favorável à tortura, com cruz, tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também!”. E completaria: “Tá com dó do bandido? Leva pra casa!”
A festividade também nos faz refletir sobre como seria se o protagonista da história vivesse nos dias de hoje. E se, em vez de Israel e Palestina, ele tivesse nascido no Brasil atual?
Provavelmente, Maria, sua mãe, anunciaria sua gravidez a José. Mesmo se aparecesse um anjo dizendo tratar-se do filho de Deus, o marido responderia: “Eu sou lá homem de criar filho dos outros?”. E sairia para comprar um cigarro e nunca mais voltar.
Sem casa, Maria pariria seu bebê em uma manjedoura, mas seria acusada de ser uma invasora de terra do MST e expulsa pelo proprietário.
Os três reis magos seriam enviados para dar presentes ao menino Jesus, mas questionariam: “Se a gente der presentes, esse bebê vai virar um vagabundo que não sabe ir atrás do seu sustento. Ele precisa trabalhar duro para ganhar a mirra, o incenso e o ouro”. E o menino ficaria sem presentes.
Já adulto, Jesus seria batizado em um rio pelo primo, João, mas contrairia uma diarreia violenta causada pela poluição do local.
Após se recuperar, começaria suas pregações em uma praça. “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança”, diria. De longe, ouviria um cidadão de bem gritar: “Vai para Cuba, comunista!”.
Jesus pregaria: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus”. Na praça, um expectador refutaria: “Ah, virou babá de bandido? Se tá com dó, leva pra casa”.
“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”, diria Jesus. Mas um transeunte gritaria: “Ah, agora virou crime ser rico no Brasil?”.
Quando o filho de Deus dissesse: “Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra”, alguém responderia: “Tem é que encher o inimigo de bala! Por isso que tem que armar a população”.
No fim, quando Jesus fosse preso, torturado e crucificado, um homem chamado Jair gritaria: “Eu sou favorável à cruz mesmo. Funciona! Eu sou favorável à tortura, com cruz, tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também!”. E completaria: “Tá com dó do bandido? Leva pra casa!”
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